Abalos de terra.
V. Tremores de terra
Abastecimento de águas da cidade
Datam de 1890, os primeiros estudos para a distribuição de águas
potáveis para abastecimento da cidade, mas, apesar da Câmara Municipal ter resolvido em sessão de 9 de
Julho de 1891 abrir concurso para a execução das obras precisas para se conseguir esse abastecimento, só
muito mais tarde, e depois de novos e aturados estudos, é que apareceram arrematadores para tais obras, as
quais infelizmente não estão ainda concluídas.
Em 22 de Maio de 1900, comprometeu se Luiz da Rocha Machado, por uma proposta apresentada à Câmara
nos termos dum anúncio datado de 8 de Fevereiro, a realizar todas as obras precisas para abastecimento de
águas potáveis e canalização de esgotos da cidade do Funchal, pela importância de réis 359:000$000, e, em
16 de Junho seguinte, eram lhe adjudicadas as mesmas obras, sendo a escritura de adjudicação assinada no
dia 25.
O decreto de 14 de Agosto de 1900 aprovou todas as cláusulas do contrato celebrado com Luiz da Rocha
Machado, à excepção da que estabelecia que o fornecedor de águas às embarcações seria o adjudicatário, o
que deu motivo a que este, julgando se lesado nos seus interesses, pedisse a rescisão do mesmo contrato, a
qual lhe foi concedida pela Câmara antes da execução de quaisquer trabalhos.
A pesar deste contratempo, a Câmara não desistiu de dotar o Funchal com um melhoramento que era
exigido pela higiene e pelas conveniências públicas, e, em 19 de Julho de 1908, resolvia contrair com a Caixa
Geral dos Depósitos um empréstimo de 400 contos, ao juro de 5%, destinado às obras em projecto, devendo
a importância deste empréstimo ser entregue ao Município em prestações de 50 contos, à medida que os
trabalhos o exigissem. Metade da referida quantia de 400 contos e os respectivos juros ficariam à conta do
Estado, e a outra metade à conta da Junta Geral, tudo de conformidade com o despacho ministerial de 25 de
Janeiro de 1906 e a deliberação tomada pela mesma Junta em sessão de 4 de Julho de 1908.
O contrato celebrado entre a Câmara e a Caixa Geral dos Depósitos para a concessão do referido
empréstimo tem a data de 22 de Agosto de 1908, e, em 17 de Outubro seguinte, abria se concurso para a
execução das obras de captação das águas das nascentes dos Tornos, e sua canalização até um reservatório a
construir no sítio do Caminho dos Saltos, sendo a base da licitação a quantia de 32:030$000 réis.
Tendo se comprometido os dois concorrentes, Luiz da Rocha Machado e João Albino Rodrigues de Sousa,
em sessão camarária de 22 de Dezembro de 1308, a executar os referidos trabalhos pela quantia de
24:380$000, foi lhes adjudicada a empreitada por termo lavrado na secretaria da Câmara em 23 de Janeiro
do ano seguinte.
As obras ficaram concluídas em 22 de Outubro de I910, e, em 22 de Novembro de 1911, mandou a Câmara
abrir concurso para a execução completa de todas as obras de abastecimento de águas potáveis e
canalização de esgotos da cidade do Funchal, estabelecendo como base de licitação a quantia de
263:460$00 réis.
Tendo ficado deserto este concurso, dois outros foram abertos ainda, em que figurou como nova base de
licitação a quantia de 276:633$00 réis, sendo a empreitada entregue finalmente a João Pinto Correia em 21
de Outubro de 1912, o qual se comprometera a executar todas as obras por 316:000$000 réis.
A Comissão Distrital não aprovou esta adjudicação de sorte que, em 14 de Junho de 1913, anunciava a
Câmara que mais uma vez se achava aberto concurso público para a execução das mencionadas obras, vindo
a empreitada a ser arrematada pela firma comercial Luiz da Rocha Machado & C0 em 26 de Julho do
mesmo ano, a qual havia oferecido um lanço inferior em 24:650$000 réis à base da licitação. Era esta de
323:500$000 réis, sendo 161:400$000 réis para as obras de abastecimento de águas, e 162:100$000 réis
para as de canalização de esgotos.
A deliberação camarária que entregou a empreitada à referida firma foi confirmada pela Comissão Distrital
em 8 de Agosto de 1913, e, em 23 do mesmo mês e ano, celebrava se o contrato de adjudicação, o qual sofreu
mais tarde as modificações constantes do termo lavrado em 22 de Setembro de 1914.
Por várias vezes, procurou a Comissão Administrativa da Levada de Santa Luzia criar obstáculos ao
aproveitamento das águas dos Tornos para o abastecimento da cidade, mas, por fim, conseguiu a Câmara
Municipal chegar a um acordo com ela, celebrando se em 3 de Julho de 1912 uma escritura, pela qual era
reconhecido à Municipalidade o direito de captar nas mesmas nascentes, e para o mencionado fim, o fluxo
continuo de 18 litros de água por segundo. Esta escritura, pela qual a Câmara fez também algumas
concessões à referida levada, foi publicada nos nºs 11:291, 11:292 e 11.293 do jornal funchalense Diário de
Notícias. Habilitada a Câmara com os meios e recursos precisos para dotar a cidade com águas potáveis e
uma boa rede de esgotos, parecia impossível que podessem surgir quaisquer obstáculos à realização de tão
importante melhoramento, sobretudo depois da adjudicação dos trabalhos. Não contavam, porém, nem a
Câmara nem o público com a guerra europeia, que havia de fazer subir de uma forma extraordinária o preço
dos materiais de construção e tornar impossível a execução das obras nas condições da adjudicação.
Em 29 de Novembro de 1916, deferiu a Câmara um requerimento do empreiteiro datado de 20 do mesmo
mês, em que era pedida a rescisão do contrato celebrado para o abastecimento de águas e canalização de
esgotos do Funchal, e, em 25 de Julho do ano imediato, recebia o mesmo empreiteiro a quantia de
80:029$468 réis, por saldo do preço dos trabalhos que havia executado. Antes disso, tinha ele recebido
20:814$918 réis em 22 de Abril de 1915, e 8:041$805 réis em 8 de Abril de 1916, sendo portanto de
108:886$191 réis a importância total que lhe foi paga pela Câmara.
Há canos para água e esgotos assentes pelo empreiteiro na Avenida Manuel de Arriaga e R. da Imperatriz, e
canos só para esgotos na R. das Hortas, desde a Avenida de João de Deus até a Avenida de Pedro José de
Ornelas, etc.. Além destas canalizações, recebeu a Câmara por ocasião da rescisão do contrato, diversos
maquinismos, ferramentas, utensílios e materiais, realizando mais tarde, e já por sua conta, a mudança dos
tubos de condução de águas desde os Saltos até o Torreão, e desde este último local até à fonte do Colégio.
Como se vê do que fica exposto, muito há ainda a fazer para dotar o Funchal com boa água potável e um
moderno sistema de esgotos. Tendo desaparecido, porém, os principais obstáculos que se opunham ao
prosseguimento das obras, visto estar acabada a guerra europeia, licito é esperar que estas recomecem
dentro em pouco, como se torna indispensável para robustecer os créditos duma cidade visitada por
estrangeiros, e cujo clima tem merecido as mais elogiosas referências da parte de muitos médicos distintos.
A 18 de Março de 1929, resolveu a Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Funchal que o seu
presidente, capitão Francisco Silvestre Varela, fosse a Lisboa tratar junto do governo central de vários
assuntos que bastante interessavam ao município e muito particularmente aos trabalhos do saneamento da
cidade, sendo a 14 de Junho daquele ano publicado o decreto n1 16.956, que autorizou a Câmara a contrair
na Caixa Geral dos Depósitos o empréstimo de sete mil contos, destinados exclusivamente à realização
desses trabalhos.
A 3 de Novembro de 1931, foi o engenheiro Rodrigo Guimarães encarregado de actualizar o projecto de
abastecimento de água potável elaborado pelos engenheiros João Von Hafe e Adriano Trigo, e, a 19 de
Janeiro de 1932, deu se de arrematação o assentamento da canalização de águas na zona baixa da cidade,
limitada ao sul pelo mar e ao norte pela curva de nível à cota de 60 metros, pela importância de
209.250$00 escudos, sendo iniciadas estas obras no mês de Fevereiro de 1932 e concluídas no dia 3 de
Novembro de 1933.
Na sessão camarária de 13 de Novembro de 1932, foram criados os Serviços Municipalizados, competindo
lhes particularmente superintender nos trabalhos do saneamento e da distribuição domiciliária das águas
potáveis. Tendo duas vezes ficado deserto o concurso para a adjudicação das obras de canalização nas zonas
média e alta da cidade, tomaram os Serviços Municipalizados o encargo da realização desses trabalhos,
orçados na importância de 552:259$00 escudos, “achando se ainda por concluir um pequeno troço
alimentado por um sifão a construir na ribeira de Santa Luzia”, e havendo se lançado já uma tubagem na
extensão de 3.700 metros.
Impunha se a imediata construção dum grande reservatório de betão na Levada de Santa Luzia, com a
capacidade de 7.000 metros cúbicos, o qual foi adjudicado pela quantia de 753.640$00 escudos, fazendo se
a sua inauguração no dia 27 de Maio de 1934, com aparatosa solenidade.
Abelha (Apis mellifica)
Insecto da ordem dos Himenópteros. Na relação das viagens de Barrow,
se lê: “nos vales amenos da Madeira, onde abundam as mais variadas flores campestres, o mel das colmeias
é extraordinariamente delicioso, sendo enviado para Portugal, como um dos mais apreciados presentes”.
Uma antiga provisão dos capitães generais proibia se crestassem as colmeias antes da vindima das uvas.
Abóboras (Pico das)
Elevação montanhosa, na freguesia da Camacha, a qual atinge 1453 metros
de altitude.
Aboboreira
Existem, e são cultivadas em larga escala na Madeira, a aboboreira que produz as
abóboras a que os madeirenses chamam negras ou da Guiné ( Cucurbita moschata ), e a aboboreira que
produz a abóbora machado (C. Pepo). A primeira, que parece ser oriunda das Índias Ocidentais, é a mais
comum, distinguindo se facilmente pelas suas folhas maculadas de branco; a segunda, que é cultivada
principalmente acima de 200 ou 300 metros, é originaria da Ásia meridional e tem as folhas desprovidas de
maculas brancas. É a abóbora machado que produz as sementes empregadas contra a ténia e as lombrigas.
As aboboreiras que produzem a abóbora laranja, a abóbora de verrugas e abóbora de coroa, são simples
variedades da C. Pepo. A abóbora preta ou da Guiné, muito variável no tocante à forma, tem, quando
proveniente de plantas seleccionadas, muito melhor sabor do que a abóbora machado ou a abóbora menina
de Portugal (C. máxima).
Abra (enseada, porto, ponta e sítio da)
Este termo só é empregado toponimicamente na
Madeira. No extremo oriental da ilha e nas proximidades da Ponta de São Lourenço, entre as pontas da
Abra e do Furado, acha se a enseada da Abra, que, de todas as pequenas enseadas da Madeira, é a mais
ampla e de maior reentrância, formando uma baía relativamente espaçosa com um bom ancoradouro. No
período do governo pombalino, projectou se construir nessa enseada um porto militar e respectivo arsenal,
e, no primeiro quartel do século passado, também se agitou a ideia de estabelecer se ali um pequeno porto
de abrigo. Além duma praia ou Calhau, existe ali um cais de desembarque de propriedade particular.
Limitando essa enseada pelo lado de oeste, encontra se uma saliência de costa marítima, que tem o nome de
Ponta de Abra, conservando também o nome de Abra, o sítio que, com picos elevados, torneia a referida
enseada e seu porto adjacente.
O Helichrysum devium, composta peculiar da Madeira, só tem sido achada até o presente nas rochas altas
do sítio da Abra, ao passo que o H. abconicum aparece perto do mar em quasi toda a costa sul da ilha.
Abreu
A primeira pessoa que nesta ilha parece ter usado este apelido, foi Brites ou Beatriz de Abreu,
filha de Rui de Abreu, alcaide mor de Elvas, a qual casou com João Fernandes do Arco, assim chamado por
possuir muitas terras de sesmaria no Arco da Calheta e de quem falaremos em artigo especial. Os seus filhos
tomaram o apelido da mãe e alguns deles distinguiram se na Africa e na Índia. Entre as filhas, contam se a
celebrada Isabel de Abreu (V. este nome) e Águeda de Abreu, mulher de João Esmeraldo, o possuidor da
Lombada da Ponta do Sol. A esta família, pertence António de Abreu, o descobridor das Molucas. (V. este
nome).
Abreu (Aleixo de)
Era filho de João Fernandes de Andrade do Arco. (V. Andrade). Diz Henriques
de Noronha que “foi muito grande soldado em África e na Índia, e indo para o dito estado foi capitão duma
nau que se perdeu no mar onde morreu”.
Abreu (Aleixo de)
Aleixo de Abreu, ou Aleixo de Abreu de Melo, era neto do anterior e filho de
António de Abreu. Dele, apenas sabemos que era doutor em medicina e que foi chamado para exercer na
corte de Espanha o importante cargo de médico de Filipe III.
Abreu (António de)
Foi este madeirense um dos portugueses que por terras do oriente mais se
ilustraram na faina das conquistas e descobertas, tendo já antes, em Marrocos, dado assinaladas provas da
sua notável coragem e valentia.
Era filho de João Fernandes de Andrade, que ficou sendo conhecido por João Fernandes do Arco, por ter
tido muitas terras de sesmaria no Arco da Calheta e haver sido o primeiro povoador desta freguesia.
Depois de ter militado em Marrocos, passou à Índia em 1511 e acompanhou Afonso de Albuquerque numa
expedição ao Mar Roxo, onde muito se distinguiu. Tendo sido ali ferido, e querendo Albuquerque fazê lo
substituir no posto que ocupava, retorquiu ao grande capitão que se tinha as forças perdidas para pelejar e a
língua impedida para mandar, ainda lhe restava a vida para perder e enquanto isso não acontecesse não
largaria o lugar que ocupava.
Tendo assistido à tomada de Malaca, diz Pinheiro Chagas, foi pelo grande general português encarregado de
ir reconhecer e explorar as Molucas, ilhas de cujas grandes riquezas se diziam maravilhas. Partiu António de
Abreu com três navios, sendo capitão dum deles o próprio chefe da esquadrilha, do outro Francisco Serrão,
e do terceiro Diogo Afonso. Bem artilhados, e levando 120 homens a bordo, partiram os três navios de
António de Abreu, de Malaca em Novembro de 1515.
Foram António de Abreu e os seus companheiros seguindo a costa da ilha de Samatra, e passando depois
para a de Java, seguiram por Madeira, Bali, Sumbava, Solor e ainda Nova Guiné. Abordou, finalmente,
António de Abreu a Amboino, e Francisco Serrão perdeu o navio em Ternate, mas salvou se com a
guarnição, e foi muito bem acolhido pelos naturais. Visitou, pois, António de Abreu as principais Molucas, e
voltou trazendo riquissima carregação.
Mas Major, no notável trabalho, que com o título Vida do Infante D. Henrique, publicou a respeito das
navegações portuguesas, vai mais adiante, e supõe que António de Abreu chegou às costas de Austrália. Há,
efectivamente, um mapa de 1530, pouco mais ou menos, que marca um grande território com o nome de
Grande Java, que fica fronteiro a Samatra, e em que estão incorporadas muitas das ilhas que nós sabemos
que António de Abreu visitou, como é por exemplo Sumbava, e este território prolonga se até altitudes e
longitudes que já são da Austrália. Diz Major que antes de 1530 ninguém podia dar informações a respeito
das terras longínquas da Oceania, senão António de Abreu que as visitou, e supõe com bastante
verosimilhança, que muitas das ilhas dispersas no mar das Índias e no mar do Sul, e ainda o continente
australiano, que parece ter chegado a ver, formassem um território único, sem solução de continuidade.
Assim, pois, não só António de Abreu teria descoberto as Molucas, mas teria sido também o primeiro
português que houvesse visitado a Austrália, reconhecida positivamente um século depois por outro
navegador português, Heredia .
Voltando das Molucas, ficou António de Abreu como capitão de mar em Malaca, e auxiliou eficazmente a
defesa dos portugueses contra tentativas de reivindicação dos antigos possuidores desse território, expulsos
por Afonso de Albuquerque.
Regressou pouco depois ao reino, e tornou à Índia em 1526, nomeado capitão-mor de Malaca. Teve de
invernar em Moçambique, e chegou no ano seguinte a Goa, onde encontrou as discórdias que se travaram
entre Lopo Vaz de Sampaio e Pedro de Mascarenhas. Tomou o partido do primeiro, e até o auxiliou com
dinheiro do Estado que trazia na sua nau. Figurou, porém, entre os mais moderados desse partido, e instou
muito com Lopo Vaz de Sampaio para que não postergasse no debate com o seu competidor as fórmulas da
justiça. Quando se resolveu que doze fidalgos, nomeados seis por cada contendor, decidissem a questão, foi
António de Abreu um dos juízes escolhido por Lopo Vaz. Distinguiu se muito em Malaca, quando
governador da Índia D. Estevão da Gama.
Foi António de Abreu o único madeirense que verdadeiramente se tivesse distinguido como navegante e
descobridor, deixando nome aureolado na história dos nossos descobrimentos marítimos. E todavia esse
nome é quasi desconhecido neste arquipélago, sendo bastante para lamentar que cousa alguma recorde
entre nós a existência deste ilustre filho da Madeira. É de supor que ainda justiça seja feita, reparando se a
falta que vem de séculos.
Fica aí a súmula do que se acha exposto em vários escritores acerca do guerreiro e navegador António de
Abreu, corroborada pelos dizeres de alguns antigos nobiliários madeirenses, que o consideram como
nascido nesta ilha e pertencente às nobres famílias dos “Andrades” e “Abreus”. Nos volumes I e IV da
importante publicação Arquivo Histórico da Madeira, contesta se a certeza dessa naturalidade com valiosos
argumentos, que fazem suscitar dúvidas no espírito do leitor. Aqui o deixamos consignado, como uma
simples indicação para aqueles que pretenderem averiguar melhor a veracidade dessa afirmativa.
Abreu (Conselheiro Francisco António de Freitas e)
Oriundo de antigas e distintas
famílias madeirenses, nasceu o conselheiro Francisco António de Freitas e Abreu na freguesia da Ponta
Delgada a 3 de Maio de 1826, sendo filho de Francisco António de Freitas e Abreu e de D. Matilde de Freitas
e Abreu.
Depois de haver concluído o curso do liceu desta cidade, foi nomeado amanuense do governo civil do
distrito e mais tarde oficial da mesma repartição, tendo algumas vezes servido interinamente de secretário-
geral. Como funcionário público, inteligente e ilustrado, foi várias vezes encarregado pelos seus chefes do
desempenho de importantes comissões de serviço, em que sempre exuberantemente revelou as notáveis
faculdades de seu espírito. Merecem especial menção os seus trabalhos na regularização dos serviços de
expostos, escrevendo a tal respeito um importante relatório, os serviços que prestou por ocasião da morte
da Princesa D. Maria Amélia em 1854, da epidemia da cólera morbus em 1856, e ainda outros.
Entre as várias comissões de serviço público que exerceu, contam se as de presidente da Junta Geral e da
Comissão Administrativa do Asilo de Mendicidade, e a de vice presidente da Comissão Administrativa da
Santa Casa da Misericórdia.
O seu nome tornou se muito conhecido entre nós, principalmente por ter sido um perseverante investigador
da história madeirense, não só publicando numerosos documentos inéditos e comentando os muito
criteriosamente, mas ainda esclarecendo vários pontos da história do nosso arquipélago, sempre que as
circunstâncias ocorrentes a isso o aconselhavam. Durante largos anos, reuniu uma abundante soma de
documentos, notas e informações, além de uma colecção copiosa de livros e folhetos, nacionais e
estrangeiros, que tudo muito interessava à história da Madeira. Era notável e valiosa a colecção que
conseguiu fazer de jornais madeirenses e que constituem elementos indispensáveis para a história
contemporânea desta ilha. Todo esse aturado trabalho de coleccionador, toda essa, para nós madeirenses,
riqueza bibliográfica, impressa e manuscrita, se dispersou infelizmente num leilão feito pouco depois da
morte do conselheiro Abreu. E não houve uma única corporação administrativa que quisesse salvar esse
abundante repositório de tão preciosos elementos para a história madeirense!
O conselheiro Freitas e Abreu, apesar da sua ilustração e do vasto e valioso pecúlio de documentos que
possuía, não deixou obra apreciável acerca da história deste arquipélago.
Para o importantíssimo trabalho do barão de S. Clemente, Documentos para a história das cortes gerais,
forneceu o conselheiro Abreu muitos e interessantes documentos, que ocupam algumas dezenas de páginas
do volume 51 da obra referida. Também concorreu com alguns subsídios para a obra de Henrique Seco,
Memórias do Tempo Passado e Presente.
Faleceu o conselheiro Francisco António de Freitas e Abreu nesta cidade, a 17 de Novembro de 1913, tendo
revelado até o fim da vida um grande amor pelos estudos históricos, a que especialmente se dedicava. O
Heraldo da Madeira de 18 de Novembro de 1913 inseriu um desenvolvido artigo biográfico deste distinto
madeirense.
Abreu (D. Isabel de)
D. Isabel de Abreu era filha de João Fernandes do Arco e de D. Beatriz de
Abreu, que foram dos primeiros colonizadores do Arco da Calheta e ali tiveram muitas terras de sesmaria.
Eram naturais do continente e tinham foros de fidalgos, que transmitiram a seus descendentes.
As antigas crónicas madeirenses ocupam se de D. Isabel de Abreu, por haver sido a principal protagonista
dum drama que na época deveria ter causado a mais extraordinária sensação, para que os contemporâneos
e ainda os vindouros se tenham referido a ele com tanta largueza. Eis o caso:
D. Isabel de Abreu, que era viúva de João Rodrigues de Noronha, filho do terceiro capitão donatário do
Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, vivia na sua casa do Arco da Calheta, possuidora duma avultada
fortuna, quando António Gonçalves da Câmara, sobrinho do mesmo capitão donatário e que ali morava
próximo, se introduziu violentamente e a deshoras nas casas de D. Isabel com o fim de a levar a contrair
casamento com ele. D. Isabel conseguiu convencer António Gonçalves da Câmara da inconveniência duma
proposta de casamento em tais condições, e convidou o a comparecer no dia seguinte, para se tratar então
das formalidades do matrimónio, a que ela de boa mente acederia. Fez se António da Câmara acompanhar
duma comitiva de cerca de cinquenta cavaleiros da Ponta do Sol e Ribeira Brava e dirigiu se, a casa de D.
Isabel, que, no dizer dum cronista, se fez “forte em suas casas com sua gente que muita tinha e achando se
António Gonçalves zombado, injuriado e afrontado se tornou para sua fazenda, embarcando se dali a
poucos dias para Lisboa”.
Decorridos alguns anos, voltou António Gonçalves da Câmara à sua casa da Madeira sem perder de vista o
velho intento de casar com D. Isabel de Abreu. Dirigindo se esta à vila da Calheta, em companhia de alguns
parentes, e passando em frente da moradia de António Gonçalves, tomou este as rédeas do cavalo em que
ela montava, e, auxiliado por gente armada, obrigou a a entrar violentamente em sua casa. Dado
conhecimento do estranho caso ao ouvidor do Funchal, por estar ausente o capitão donatário, compareceu
este com uma numerosa força armada, tendo esta que defrontar se com a resistência que ia opor lhe
António Gonçalves, pois se preparava para desobedecer às ordens do ouvidor, conservando D. Isabel de
Abreu presa em sua casa. Estava iminente uma encarniçada luta, em que de ambas as partes havia
partidários, parentes e amigos, quando António Gonçalves da Câmara e Isabel de Abreu, assomando a uma
varanda da residência, declararam que tinham chegado a um amigável acordo e que podiam retirar se o
ouvidor e a força que o acompanhava.
Quando estes se dispunham a partir, fez D. Isabel de Abreu sentir ao seu prometido esposo que, “vindo com
o Ouvidor muitos parentes seus e amigos, não era razão que sem comer se tornassem por tão comprido
caminho e, já que tudo estava em paz, os convidasse”. Acatando os desejos de D. Isabel de Abreu, mandou
António Gonçalves, que “entrasse o ouvidor com a sua gente, alcaides, meirinhos e juízes de todas as vilas e
logares daquela capitania na sala, e arremeteu D. Isabel e apegou se a ele dizendo e queixando se que
António Gonçalves forçosamente a tinha naquela casa e que lhe valesse com justiça”. Na companhia do
ouvidor e dos cento e cinquenta homens que compunham a força armada, seguiu D. Isabel de Abreu para o
Funchal, indo, porém, pelo adiantado da hora, pernoitar nas casas de seu cunhado João Esmeraldo, que
eram na Lombada da Ponta do Sol, sede do morgadio do mesmo Esmeraldo.
António Gonçalves da Câmara não era homem para se resignar a sofrer um novo ludíbrio, que ele
considerava a maior das afrontas, por parte da mulher que queria conquistar, levado pela violência do amor,
pelo orgulho ofendido ou pela ambição de possuir a sua fortuna logo se preparou para a desforra, e desta
vez resolvido às mais extremas violências. Reuniu imediatamente vários parentes e amigos e muitos
homens armados das freguesias visinhas, sem exclusão de ladrões e assassinos, que por ali andavam
homiziados, preparado também com dois falcões, que eram peças de artilharia do tempo, afim de atacar as
casas onde se encontrava D. Isabel de Abreu com os oficiais de justiça. Pôs lhe apertado cerco, até que, no
fim de oito dias, considerando os parentes de D. Isabel os males que podiam resultar desta luta sangrenta,
resolveram que o casamento se realizasse, pondo se deste modo termo a uma contenda em que entravam,
além de muitos outros, quatro irmãos, dois de cada lado, prestes talvez a mutuamente se darem a morte.
“Chegados D. Isabel de Abreu e António Gonçalves da Câmara, diz Gaspar Frutuoso, à sua fazenda, e
recebendo se ambos, foram feitas grandes festas e bodas, em que comeram todas aquelas pessoas que os
acompanharam. Estavam na sala primeira dos seus passos quatro potes de prata fina em quatro cantos dela,
que levaria cada hum delles três almudes d'água, com quatro púcaros de prata, cada pote com o seu, presos
com cadeyas do mesmo: e toda aquela gente honrada que se achou naquelle banquete, que seriam mais de
duzentas pessoas, fora outras, e servidores que eram mais de outros tantos, comeram todos em baixella de
prata, sem se entremeter no serviço cousa de barro, nem estanho, onde se gastaram ricos e exquesitos
manjares de toda a sorte, como os sabem fazer as delicadas mulheres da Ilha da Madeira, que além de
serem muito bem assombradas, mui fermosas, e discretas, e virtuosas, são extremadas na perfeição delles, e
em todas as invenções de ricas cousas que fazem, não tão somente em pano com polidos lavores, mas
também em assúcar com delicadas fructas”.
Águeda de Abreu, irmã de Isabel de Abreu, não se conformando com o casamento nem com as violências
que o precederam, apresentou suas queixas ao monarca, que mandou à Madeira o desembargador Gaspar
Vaz sindicar do estranho caso, resultando disso serem alguns condenados à morte e outros a desterro.
António Gonçalves da Câmara homiziou se e fugiu depois para Canárias, enquanto sua mulher se recolhia
ao convento de Santa Clara. Das Canárias se dirigiu à África e aí prestou valiosos serviços, assinalando se
pela sua bravura e coragem. Isto, e mais ainda, por certo, a interferência de sua mãe, D. Joana de Eça, que
era camareira mor da rainha, junto do monarca, alcançaram lhe o perdão e pode voltar à pátria, onde ainda
viveu alguns anos com sua mulher D. Isabel de Abreu.
Quem quiser ter mais detalhado conhecimento deste caso, que muito sumariamente deixamos narrado, leia
a descrição que dele fazem as Saudades da Terra, a pags. 197 e seguintes.
O facto tem sido aproveitado para várias narrativas, destacando se uma do apreciado escritor Silva Leal,
publicada no volume 71 do Panorama, com o título de “Bem querer e mal querer”.
Sobre o assunto, leia se o opúsculo A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira pelo Pe. Fernando
Augusto da Silva, coautor deste Elucidário.
Abreu (Francisco Ferreira de)
Era, em 1828, juiz dos orfãos da capitania de Machico, tendo
desempenhado antes os cargos de feitor de embarque, escrivão das execuções ultramarinas e escrivão da
Índia e Mina. Preso por liberal, por ordem da alçada que veio a esta ilha durante o governo de D. Miguel, foi
enviado para Lisboa a bordo do bergantim *S. Boaventura+, sendo condenado, por sentença de 3 de Agosto
de 1830, a não voltar à Madeira durante 3 anos. Em 23 de Junho de 1838, foi nomeado tabelião do registo
de hipotecas da comarca ocidental, e, em 11 de Junho de 1841, escrivão da administração do concelho do
Funchal. Tendo renunciado este último cargo, por seguir para Cabo Verde, veio a falecer naquele
arquipélago em 1842, em idade pouco avançada. Desempenhou o cargo de secretário da Sociedade dos
Amigos das Sciencias e Artes, e traduziu o Compêndio Elementar de Economia Política, de Adolfo Blanqui,
e o Discurso sobre as revoluções da superfície do globo, pelo barão de Cuvier.
Abreu (Francisco Jorge de)
Nasceu no Funchal a 23 de Abril de 1878, e frequentou o liceu e os
três primeiros anos da Escola Médico Cirúrgica desta cidade. Colaborou no antigo jornal funchalense o
Diário Popular, e foi director do Século de Lisboa, e do Primeiro de Janeiro do Porto, tendo sido antes um
dos redactores de A Capital. Além de muitos artigos disseminados pelos referidos jornais, traduziu alguns
romances, publicados em Folhetim, e várias peças teatrais.
Publicou em volumes separados A Revolução Portuguesa, a 31 de Janeiro (Porto 1891), Lisboa, 1912, de 178
pags.; A Revolução Portuguesa, o 5 de Outubro (Lisboa 1910), Lisboa,1912, de 208 pags. e a Boémia
Jornalística. Faleceu no Porto a 7 de Junho de 1932.
Abreu (João de)
Gaspar Correia, nas Lendas da Índia, refere se ao madeirense João de Abreu, que
chegou à barra de Goa em Setembro de 1513 na armada do comando de João de Sousa Lima, e que, por
terras do Oriente, se distinguiu em diversos recontros com os indianos, deixando nome ilustre nos anais das
nossas lutas de além mar.
Abreu (João Gomes de)
Era conhecido pelo nome de João Gomes de Abreu da lha. Foi capitão
duma nau da armada que partiu para a Índia em 1506. Tomou parte nos combates contra os mouros das
cidades de Brava e ilha do Socotorá e seguiu depois para Cananor, onde deu provas de extremada valentia,
segundo o testemunho de Gaspar Correia nas Lendas da Índia.
Abreu (Lopo de)
Este madeirense passou à Índia em 1504, na armada comandada por Lopo Soares,
e ali praticou feitos de valor.
Abrotea de Poça (Motella tricirrata)
Peixe gadida, apanhado de vez em quando nas águas
litorais, e nas poças que ficam isoladas do mar na maré baixa. Tem pequeno valor comercial.
Abrotea do Alto (Phycis blennioides)
Peixe da família gadida, raramente encontrado nos
mares do arquipélago. É colhido em águas profundas com aparelho de anzol, sendo justamente apreciado
pelo seu delicado sabor. A mesma designação é aplicada ao raríssimo Phycis Yarrellii.
V. Buzia.
Abrotea do Baixo (Phycis mediterranea)
A abrotea do Baixo, ou simplesmente abrotea,
é um peixe dos mares da Madeira, da família gadida. É comum, aparecendo nos mercados durante todo o
ano. Tem hábitos solitários, vivendo nos fundos rochosos, onde o pescam geralmente com a briqueira.
Estimado pela carne branca, delicada e de fácil digestão.
Abrotona (Teucriun betonicum, Herit.)
Planta lenhosa da família das Labiadas, fácil de
reconhecer pelas suas flores purpúreas dispostas em verticilastros reunidos em racimo, e pelas suas folhas
crenadas ou serradas, quasi brancas na página inferior. É frequente na costa do norte e em muitos vales do
interior da Madeira. Nalguns pontos da ilha, atribuem-lhe propriedades medicinais, sendo possível que haja
vantagem em empregá lo como tónico e estomáquico. A abrotona é conhecida também pelo nome de herva
branca.
Abruzos (Duque dos)
Esteve pela última vez na Madeira em 1907, como comandante do
cruzador Etna. Foram lhe oferecidos, na Deserta Grande, uma caçada pelos proprietários desta ilha, e no
Funchal, um baile oficial pelo governador D. Bernardo da Costa.
O duque de Abruzos refere se várias vezes à Madeira em alguns dos escritos que publicou.
Abundância (Eupatorium adenophorum)
Espécie vivaz da família das Compostas, subfamilia
das Tubulifloras, muito frequente na Madeira, onde se acha perfeitamente naturalizada. É oriunda do
México, e foi introduzida na ilha, como planta de ornamento, um pouco antes de 1840. Tem folhas opostas,
ovado triangulares ou romboidais, e capítulos de flores brancas, mas com estiletes lilacineos.
Acácia
Este género da família das Leguminosas, subfamília das Mimosoideas, está representado na
Madeira por muitas espécies umas com folhas recompostas, outras com as folhas reduzidas a filodios
(pecíolos com a forma de folhas). Pertencem ao primeiro grupo - a Acacia dealbata, (acácia branca), muito
frequente no Monte, Choupana, etc.; a A. Farnesiana (aroma amarelo), cultivada nos jardins e
subespontânea em vários pontos vizinhos do litoral; a A Leucocephala, (aroma branco), arbusto
subespontâneo, no Gorgulho e Praia Formosa; e a A (Albizzia) tophantha, espécie quasi sempre arbustiva,
naturalizada principalmente no Monte. Pertencem ao segundo grupo - A. Melanoxylon, cultivada nas
quintas, praças e algumas ruas; e a A. retinoides, a A. Sophorae e a A. longifolia, frequentes nas quintas e
jardins da Madeira. As acácias são originárias da Austrália e das regiões quentes da América, Ásia e África,
podendo encontrar se na ilha muitas outras espécies, além das que deixamos mencionadas. A Robina
pseudo Acácia, erradamente conhecida na Madeira pelo nome de acácia, é uma árvore espinhosa
pertencente à subfamília das Papilionadas, e originária da América do Norte, fácil de reconhecer pelas suas
folhas imparipinuladas e pelas suas flores brancas e aromáticas, reunidas em cachos.
Academia
Com este título, publicou se nesta cidade um jornal redigido pelos Alunos do liceu, tendo
saído o 11 número a 4 de Dezembro de 1910 e o último, o n1 8, a 16 de Março de 1911.
Academia (A)
Publicaram se 29 números, sendo o 11 a 28 de Outubro de 1900 e o último a 2 de
Junho de 1901.
Academias
Também na Madeira se repercutiu o gosto pelas academias, que no continente tanta voga
tiveram no século XVIII, sendo algumas delas de importância muito secundária e até de manifesta
inutilidade. Nesta cidade, houve uma intitulada Assembleia dos únicos do Funchal, que existia em 1746,
como se vê do autografo que possuía o Dr. Álvaro de Azevedo, com o título de Oração Académica, que
recitou Francisco João de Vasconcelos Bettencourt em 15 de Maio de 1746, dia em que tomou posse do
lugar, em que o constituíram, de Académico na Assembleia dos Únicos do Funchal. A página 787 das
Saudades da Terra, vem publicado o final deste discurso. Houve outra academia, destinada ao cultivo da
poesia, que teve o nome de Arcadia Funchalense e à qual apenas temos encontrado duas referências, sendo
uma no epicédio que, a páginas 80 do tomo segundo da Colecção Poética de Francisco Manuel de Oliveira,
se encontra, consagrado à morte de Valisio Alceo, sócio da Arcadia Funchalense, e a outra no soneto
publicado a pág. 31 das Obras de D. Aires de Ornellas de Vasconcellos, dedicado a Francisco Xavier de
Ornelas, sócio fundador da mesma Arcadia. Não podemos precisar a época em que existiu a Arcadia
Funchalense. Apenas sabemos que a Collecção de Oliveira foi publicada em 1794, e que Francisco Xavier de
Ornelas nasceu em 1748. A sua fundação deve ser posterior a 1770, pela referência que no soneto se faz ao
“saber profundo” de Francisco de Ornelas, que “os Tullios ia excedendo”.
Era também uma espécie de academia a Sociedade Funchalense dos Amigos das Ciências e Artes, que, em
1821, se instalou nesta cidade, e que teve curta duração por causa dos acontecimentos políticos de 1823.
Realizou muitas reuniões, em que foram pronunciados alguns discursos e lidas várias memórias sobre
assuntos literários e históricos. Dela, dá uma interessante, embora resumida, notícia, o Patriota
Funchalense, de 7 de Setembro de 1822. V. também Saudades da Terra pág. 794.
Académica (Praça)
Assim se denominava um extenso recinto ocupado hoje pelo Campo do
Almirante Réis (anteriormente Campo de D. Carlos). A praça derivava o seu nome de ter sido construída
com o produto da venda de bilhetes duma récita dada pela academia funchalense no teatro do Bom Gosto
para festejar o casamento da Rainha D. Maria II, em 1837.
Este recinto foi recentemente aformoseado com um pequeno lago, jardim, assentos etc., e ali fez a Câmara
Municipal levantar um edifício destinado a um parque infantil para crianças pobres, que teve sua
inauguração no ano de 1939 com o nome de D. Maria Lívia Nosolini.
Académico (0)
Publicação quinzenal dos alunos do nosso liceu. Saiu de 1 de Dezembro de 1884 a 22
de Dezembro de 1887, tendo sido publicados 75 números.
Acciaioly
Encontramos este apelido escrito de diversas maneiras, seguindo aqui a forma adoptada
presentemente pelos representantes da família que o usa. O primeiro que com tal apelido veio a esta ilha foi
Simão Acciaioly, que, dos estrangeiros trazidos à Madeira pelos azares da fortuna, parece ter sido um dos de
mais autêntica nobreza. Era natural da cidade de Florença e filho de Zenobio Acciaioly, a quem o imperador
Carlos V havia concedido grandes privilégios e regalias. Pertencia a uma distintíssima família, e afirma se
que descendia por varonia dos antigos duques de Atenas. Muitos membros desta família se distinguiram
notavelmente nas armas, nas ciências e nas letras, e tiveram representantes ilustres em muitos países da
Europa. Henriques de Noronha cita trechos de vários autores nacionais e estrangeiros que se ocupam da
família Acciaioly.
Quando o ilustre anotador das Saudades da Terra se ocupa da origem do vinho da Madeira, insere o
seguinte trecho, que muito de perto se relaciona com o assunto deste artigo: “Entre o vinho malvasia e a
família Acciaiuoli, uma das mais distintas desta ilha, há notável coincidência histórica. Esta família é de
origem florentina, e deriva o apelido de aço (acciaio, em italiano), objecto do comércio que a tornara
opulenta. Dela descendia Reniero Acciaiuoli, ao qual a imperatriz titular de Constantinopla, Maria de
Bourbon, conferiu em 1364 os senhorios de Vestitza e Corinto, de que ele se apossou, assim como do ducado
de Athenas, com Tébas, Argos, Megara e Sparta, constituindo o principado de Acciaiuoli, que, de mais em
mais afrontado dos turcos, foi afinal destruído em 1456, por Mahomet II. A ilha Minoa, donde são os vinhos
de Malvasia, se não formava parte desse principado, era dele limítrofe ou próxima. Assim, pois, é não só
possível, mas natural que os Acciaiuolis, vindo, como vieram, estabelecer se na ilha da Madeira (o primeiro
de que houvemos notícia foi Simão Acciaiuoli, 1515) para cá trouxessem, por curiosidade própria, ou por
motivo ao presente ignorado, a vinha Malvasia”.
Armas: “Em campo de prata um leão azul com a língua e unhas de vermelho, elmo de prata aberto,
guarnecido de ouro, paquife de prata e azul, e timbre o mesmo das armas “.
Informam nos que, no Boletim da Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado, vol. III e pág. 27, vem
indicado um manuscrito pertencente à Casa Cadaval, que tem o título seguinte: Achaioli Genealogia por
Miguel Achaioli, I661, fol. É possível que este manuscrito forneça novas informações sobre a família
Acciaioli, na Ilha da Madeira.
Acciaioly (Filipe Joaquim)
Coronel e ajudante de ordens do Governador e Capitão General da
Madeira, José Lúcio Travassos Valdez, quando este se refugiou a bordo da corveta de guerra Alligator. Foi
pronunciado, estando ausente, pela alçada que veio à Madeira em 1828.
Acciaioly (Gaspar)
Militou valorosamente na guerra do Brasil, com grande dispêndio da sua casa.
Morreu no Funchal a 4 de Maio de 1668. Pertence à antiga e nobre família Acciaioly desta ilha.
Acciaioly (Padre Carlos)
O seu nome era Carlos Acciaioly Ferraz de Noronha, tendo nascido na
paróquia de Santana a 15 de Julho de 1845, e falecido no Funchal a 1 de Fevereiro de 1924. Exerceu funções
paroquiais em algumas freguesias desta ilha, e foi, durante bastantes anos, professor do Seminário
Diocesano, havendo se distinguido como um notável orador sagrado. Cultivou com brilho a prosa e a poesia,
especialmente no género jocoso e satírico, sendo os seus escritos lidos com o maior apreço.
Tornou se muito conhecido entre nós e bastante lembrado pelos seus contemporâneos, particularmente
pelos seus ditos de espírito, em que alcançou uma verdadeira celebridade, reproduzindo se ainda hoje com
frequência os casos e as anedotas em que sobressaíam as frases cheias da mais espontânea e cintilante
graça.
Acciaioly (Simão)
Como já fica dito no artigo Acciaily, foi Simão Acciaioly, o primeiro que veio para
a Madeira usando este apelido, e pertencia a uma das mais distintas famílias de Florença, sendo filho de
Zenóbio Acciaioly e de D. Catarina Delfina. Chegou a esta ilha no primeiro quartel do século XV, e, em 1529,
lhe foi passado brasão de armas e confirmação da sua nobreza. Diz Noronha que Simão Acciaioly casou com
D. Maria Pimentel e que morreu a 15 de Fevereiro de 1544. Instituiu o morgado chamado de Nossa Senhora
do Faial ou da Natividade e sucedeu lhe, na administração do vínculo, seu filho Zenóbio Acciaioly, Simão
Acciaioly teve engenhos de açúcar e grande casa no Funchal e aqui exerceu o lugar de almoxarife. Fez
construir a capela de Nossa Senhora da Piedade, no capítulo velho do convento de S. Francisco, e ali foi
sepultado.
Acciaioly (Zenobio)
Era filho de Simão Acciaioly, o primeiro que veio a esta ilha usando aquele
apelido. Gaspar Frutuoso referindo-se à Rua Direita, que então se estendia pela margem da ribeira de Santa
Luzia até talvez a altura da actual ponte do Torreão, diz “que o generoso e rico Zenobio Acciaioly tinha ali
um engenho de açúcar”. Era este Zenobio o mesmo Zenobio filho de Simão Acciaioly, ou outro? Não
sabemos.
A actual rua do Betencourt e uma pequena parte da rua dos Ferreiros, que lhe ficava contígua, tiveram em
outro tempo o nome de Acciaioly, sendo de presumir que próximo delas e nas margens da ribeira existissem
os engenhos da família Acciaioly.
Account
of the discovery of the Madeira Island, letter to a friend; folh. s. d..
Acelga
Subespécie da Beta Vulgaris, cultivada e subespontânea na Madeira. É originária da Europa e
tem folhas grandes e flores esverdinhadas, reunidas em longas espigas. As folhas desta Quenepodiacea
servem para esparregados e entram na composição do caldo de ervas.
Achada
Esta palavra arcaica (chada ou chaada), que significa uma pequena chã ou planície, geralmente
situada entre terrenos acidentados, deu, por semelhança, o nome a muitos lugares deste arquipélago, que
ainda actualmente o conservam, sendo apenas usados em acepção toponímica (Achada de. . . ).
Achada
Pequeno planalto da freguesia da Camacha, nas proximidades da igreja paroquial, em cujo
perímetro se encontram uma torre isolada com seu relógio e uma pequena capela dedicada a S. José e
construída no ano de 1924. É lugar pitoresco e bastante frequentado pelas pessoas que visitam aquela
freguesia. Em outro tempo, era muito conhecido, entre os estrangeiros residentes na Madeira, pelo nome de
Jogo da Bola e servia para diversos jogos desportivos. Dá acesso à antiga e aprazível quinta Grabham, em
que se acha instalado o hotel da localidade.
Achada de Gaula
Sítio povoado e bastante pitoresco da freguesia de Gaula, e que compreende os
lugares da Achada de Cima e da Achada de Baixo, que merecem ser visitados, encontrando se ali uma escola
oficial de instrução primária.
Achada de Santo António
Na freguesia de Santana há um sítio com esse nome, onde existe uma
capela dedicada a Santo António, fundada por meados do século XVI e reconstruída no ano de 1730.
Achadas da Cruz (Freguesia das)
Acha se esta pequena paróquia encravada entre as
freguesias da Ponta do Pargo e Porto Moniz, e o seu litoral fica a quasi igual distância das pontas do Pargo e
do Tristão. Foi esta, como se sabe, o termo da primeira exploração feita através da costa marítima pelos
descobridores João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, e também o limite das duas capitanias em que se dividiu
a Madeira, sendo o outro limite a Ponta da Oliveira. Àquela ponta foi dado o nome do segundo dos
descobridores. Os terrenos que haviam de constituir a futura paróquia das Achadas da Cruz ficaram
portanto pertencendo à capitania do Funchal.
Confina ao norte com a Ribeira do Tristão, que a separa da freguesia do Porto do Moniz, ao sul com a
Ribeira da Cruz, que a limita da paróquia da Ponta do Pargo, a leste com as serras da freguesia do Porto do
Moniz, e a oeste com o oceano.
Pertence ao Concelho do Porto do Moniz e à Comarca da Ponta do Sol, estando distanciada da sede do
primeiro aproximadamente 8 quilómetros, e da segunda cerca de 40 quilómetros pela estrada da Ponta do
Pargo, Fajã da Ovelha, etc.. Divide se nos seguintes sítios povoados: Pinheiro, Achada da Arruda, Igreja,
Cova, Lombo do Simão, Achada de Castro e Terça. Outros sítios de menor importância: Quebrada Nova,
Quebrada do Negro, Fajã das Malvas, Fajã Nova, Pomar Velho, Risco, Pico da Azeveda etc.
Tem Caixa Postal instalada no sítio da Igreja. Não há escolas oficiais, mantendo o respectivo pároco dois
cursos de instrução primária, um diurno e outro nocturno, para crianças e adultos do sexo masculino. É
irrigada com as levadas da Ribeira dos Moinhos, dos Lagos e do Pico da Arruda. Não tem porto de mar, mas
apenas um pequeno Calhau, de difícil acesso.
A sua população é de cerca de 600 habitantes, vivendo em 150 fogos. São sítios pitorescos e de boas vistas o
Pico das Mós, Cabeço do Facho e Pico do Fogo. Acha se quasi limitada à área desta freguesia o cultivo duma
trepadeira, da família das Dioscoriaceas, conhecida pelo nome de norça, que produz um tubérculo muito
usado na alimentação.
Como fica dito, esta freguesia pertence ao concelho do Porto do Moniz, mas quando este município foi duas
vezes extinto no ano do 1849 e de 1895, passou aquela freguesia a fazer parte do concelho da Calheta.
Tendo, porém, o município do Porto Moniz sido novamente restaurado nos anos de 1855 e 1898, a paróquia
das Achadas da Cruz de novo ficou incluída na área deste concelho.
Ignoramos se o nome vem dos tempos primitivos da colonização. Sabemos, no entretanto, que ali se
edificou, no terceiro ou último quartel do século XVI, uma pequena capela que teve a invocação de Vera
Cruz. É possível que a tendência simplificadora do povo em questões de linguagem abreviasse no
monossílabo Cruz a expressão mais complexa de Vera Cruz, e desta maneira a capela da Cruz desse o nome
ao lugar ou achada em cujas proximidades foi construída, a não ser que admitamos a existência da actual
denominação da paróquia como anterior à edificação da pequena ermida, o que hoje não será fácil verificar.
Foi certamente nesta capela da Vera Cruz que, no terceiro quartel do século XVI, se estabeleceu um curato
dependente da colegiada da Calheta, mas que teve curta duração, sendo extinto em 1577 pelo bispo D.
Jerónimo Barreto. A sua extinção deve se ao pequeno incremento da população, que por aquela época seria
muito reduzida e que ainda, através dos tempos, pouco desenvolvimento tem tido. A extinção deste curato e
doutros três ou quatro em idênticas circunstâncias, deu lugar à criação e custeio duma nova conezia na Sé
do Funchal.
Por 1587, segundo se vê dum provimento feito pelo bispo D. Luiz Figueiredo de Lemos numa visita pastoral
à igreja do Porto Moniz, estava aquela capela em lamentável estado de conservação e asseio, sendo a sua
cobertura de palha e não tendo no altar o painel do orago. Reconheceu nesta ocasião o prelado que o
chamado administrador da capela, Gaspar da Costa, não tinha obrigação de acudir aos reparos dela, porque
os seus antepassados a haviam vendido ao rei, competindo aos habitantes do lugar o dever de a conservar
convenientemente reparada e de maneira a poder celebrar se ali os actos do culto com a devida decência.
Parece que os habitantes das Achadas faziam primitivamente parte da freguesia da Ponta do Pargo, pois
que, em 1592, ordenou o bispo diocesano que passassem a ser paroquianos do Porto Moniz e ali fossem
cumprir as suas obrigações religiosas.
Em 1611, pediu o prelado a restauração do antigo curato, vista a dificuldade que os 84 moradores da Achada
tinham em ir ao Porto Moniz, e o mesmo requereu o povo em 1638, com o fundamento de já ali haver cerca
de 18 fogos. Surtiram sempre infrutíferas estas diligências. Somente um século depois da extinção do
primitivo curato é que o bispo D. António Teles da Silva teve autorização, por alvará de 28 de Dezembro de
1676, de “criar o curato de Nossa Senhora da Conceição do Porto Moniz, com a obrigação de residência nas
Achadas da Cruz e haver seu ordenado do ramo da mesma freguesia”. 0 alvará de 5 de Março de 1680 fixou
o vencimento anual do cura em doze mil réis em dinheiro, um moio de trigo e uma pipa de vinho. 0
primeiro cura nomeado foi o padre Manuel Ferreira da Silva, a 20 de Julho de 1677.
As Achadas da Cruz foram sempre um curato filial do Porto Moniz, com variantes de maior ou menor
dependência desta freguesia, até que, pela carta de Lei de 24 de Julho de 1848, ficou constituindo uma
paróquia independente, ou um curato autónomo com vida civil e religiosa próprias.
A antiga ermida da Vera Cruz, que ficava nas proximidades do sítio do Calvário, não deu o nome da sua
invocação ao orago da paróquia. Passou este a ser de Nossa Senhora do Livramento na nova capela que
mais tarde se erigiu em ano que não podemos determinar. Esta capela foi há poucos anos acrescentada, e
sofreu notáveis melhoramentos com o importante donativo que para isso lhe legou Manuel de Pontes
Câmara, natural desta freguesia.
Encontramos algures que João Gonçalves Zarco doara a seu filho Garcia Rodrigues da Câmara vastos
terrenos no extremo ocidental da sua capitania, parte dos quais veio mais tarde a formar a paróquia das
Achadas. Essa doação compreendia várias terras na Ponta do Pargo e estendia se até o limite da donataria,
que era na ribeira ou na Ponta do Tristão. Não tem fundamento a afirmativa de que Garcia da Câmara
tivesse feito assentamento pelas terras das Achadas e constituísse com a sua família e os seus serviçais o
primitivo núcleo da população que por ali houvesse. Dizem antigos nobiliários que Garcia da Câmara
morreu sem descendência, mas conjectura se que o morgadio que existiu nas Achadas da Cruz fosse
instituído por algum dos seus herdeiros, cujo último representante faleceu ali há poucos anos e se chamava
Luiz Isidoro Carvalho Drumond.
Um filho distinto desta freguesia foi o comendador Manuel de Pontes Câmara, que, adquirindo no Brasil
uma enorme fortuna, praticou ali actos da mais assinalada benemerência, ao mesmo tempo que criou em
torno do seu nome o elevado e nunca desmentido conceito de uma inexcedível probidade e da mais
comprovada austeridade de carácter. Tendo nascido em 1815, embarcou em tenra idade para o império
brasileiro e pode, dentro de poucos anos, alcançar uma pequena fortuna, que foi engrossando e se tornou
considerável, à medida que, com a sua inteligente iniciativa e trabalho perseverante, se entregou a grandes
transacções comerciais, alargando sempre a esfera da sua actividade e adquirindo deste modo os avultados
haveres que deixou por sua morte. A pesar de absorvido o tempo pela sua actividade comercial, não deixou
de cultivar o seu espírito, falando as línguas e possuindo uma não vulgar ilustração, tendo uma larga leitura
dos mais conhecidos autores, o que dava um particular relevo e encanto ao seu trato extremamente lhano,
acolhedor e afável. Apenas visitou uma vez a sua pátria no ano de 1881, mas, quando regressou à sua casa
do Rio de Janeiro no vapor Douro, foi vítima dum naufrágio no cabo Finisterra, a 2 de Abril de 1882.
Segundo se afirma, tencionava, ao chegar ao Brasil, modificar consideravelmente as suas disposições
testamentarias e contemplar os estabelecimentos pios da Madeira com importantes legados, o que não
conseguiu fazer pela morte desastrosa que inesperadamente o surpreendeu. No entretanto, deixou aqui
avultadas esmolas, e nos seus legados conta se um de cinco contos de reis à Misericórdia do Funchal. Legou
quasi inteiramente a terça dos seus bens a casas de caridade, especialmente à Misericórdia da cidade do Rio
de Janeiro, ficando os seus filhos com o remanescente da sua grande fortuna.
Um acontecimento verdadeiramente sensacional para esta e mais freguesias limítrofes foi o do naufrágio do
yacht americano Varuna. Este navio saíra das Bermudas a 7 de Novembro de 1909, com destino à Madeira,
trazendo a bordo o seu proprietário, o milionário americano Eugene Higgins, e naufragou nas costas da
freguesia das Achadas da Cruz pela madrugada do dia 16 do referido mês. O mar estava calmo, atribuindo se
o sinistro à cerração que fazia, e parece que em boa parte ao descuido do timoneiro e vigias de bordo. Salvou
se o proprietário do Varuna e três senhoras que o acompanhavam, o capitão e mais oficiais, tendo morrido
apenas um marinheiro. Era um barco luxuoso, que várias vezes visitara o nosso porto, tendo cerca de 50
tripulantes e a lotação aproximada de 1600 toneladas. Pouco depois do encalhe, começou uma grande
agitação do mar, impedindo o salvamento regular dos pertences do navio e dos valiosos objectos que trazia
a bordo. A violência das ondas foi se encarregando da destruição do yacht, arrojando às costas vizinhas e
impelindo para o alto mar os preciosos destroços do naufrágio. Afirma se que o milionário americano
perdera neste sinistro um riquíssimo colar de pérolas da mais pura agua, bordando se em torno do suposto
encontro da preciosa jóia varias invenções e fantasias que nos parecem destituídas de qualquer fundamento
sério.
Ackermann (Eugène)
A este autor, pertence o livro L'Ile de Madère considerée au point de vue
scientifique et économique, Rixheim (Alsace) 1910, de 145 pgs, que se ocupa da formação geológica da nossa
ilha, da constituição dos seus terrenos, das riquezas minerais e seu aproveitamento, dos costumes dos seus
habitantes etc..
Aclamações de monarcas
Do Livro de Exéquias e Aclamações, existente no arquivo da Câmara
Municipal do Funchal, consta que D. José I foi aclamado rei, na cidade do Funchal, a 4 de Janeiro de 1751;
D. Maria I, a 29 de Junho de 1777; D. João VI, a 7 de Abril de 1818; D. Pedro V, a 7 de Setembro de 1855; D.
Luiz I, a 20 de Janeiro de 1862; D. Carlos I, a 28 de Dezembro de 1889; e D. Manuel II, a 6 de Maio de 1908.
O referido livro não faz menção do dia em que D. Maria II foi proclamada rainha, na cidade do Funchal,
mas sabe se que essa cerimónia, bem como a do reconhecimento da Constituição, se realizaram nos Paços
do Concelho, no dia 6 de Junho de 1834. Como veremos no artigo Restauração de Portugal, a aclamação de
D. João IV deu se no dia 11 de Janeiro de 1641.
Publicou se nesta cidade, em 1855, um folheto intitulado Aclamação de S. M. F. o Sr. D. Pedro V, no
Funchal, que é a descrição das festas que então se realizaram.
Para a aclamação dos reis organizava se um cortejo em que se incorporavam todas as entidades oficiais, o
qual percorria várias ruas da cidade, parando em diversos pontos, a fim dos vereadores anunciarem aí, com
o cerimonial do estilo, o nome do novo monarca reinante. Este cortejo só deixou de organizar se, quando da
aclamação de D. Manuel II.
V. Exéquias.
Acre
Pelos anos de 1640, vivia no Porto Santo Guilherme Acre, donde procede este apelido de família,
que julgamos extinto.
Actas da Junta Geral do Distrito do Funchal
Com este título publicaram-se vários
folhetos in fol., relativos aos anos de 1837 a 1848, contendo as actas e deliberações da Junta Geral deste
distrito, alguns dos quais são hoje muito raros e que encerram informações interessantes acerca da
administração deste distrito nesse período de tempo.
Açougue. (Ribeiro do)
Pequeno curso de água da freguesia do Porto do Moniz, que desagua no
oceano.
Açúcar
A indústria sacarina prosperou bastante entre nós nos séculos XV e XVII não obstante os
vexames e pesadíssimos impostos a que estava sujeita. O açúcar madeirense era conhecido então nos
principais mercados europeus, e, ao Papa Leão X, enviou uma vez o Capitão Simão Gonçalves da Câmara,
bem conhecido pelas suas liberalidades, vários presentes valiosos, entre os quais avultavam o Sacro Colégio,
fabricado com aquele produto, e os cardeais em tamanho natural, todos feitos de alfenim.
Nos tempos primitivos, as canas eram espremidas em alçapremas (prensas manuais) ou em engenhos
muitos rudimentares, sendo os cilindros destes engenhos construídos algumas vezes de grossos troncos de
til, convenientemente preparados.
Em 1496, havia açúcar de uma cozedura e açúcar de duas cozeduras, este do preço de 600 reais e aquele do
preço de 350 reais cada arroba. Antes disso, era de 339 reais o preço de cada arroba de açúcar,
provavelmente da segunda qualidade.
O proprietário do engenho dava ao Infante, Senhor da Ilha, um terço do açúcar fabricado; o proprietário da
alçaprema dava somente arroba e meia daquele produto, mensalmente.
Pouco depois de 1452, havia apenas um engenho movido a água no Funchal, ao passo que o número de
alçapremas era considerável, em razão de ser menos pesado o imposto que as onerava.
O primitivo foral, dado talvez por Afonso V, além da exigência do terço para os engenhos, obrigava a dar
metade da cana que não fosse reduzida a açúcar.
Como a área destinada à cultura sacarina aumentasse com o andar dos tempos, mercê da construção de
levadas para irrigação das terras, e por outro lado descesse a um quarto e depois a um quinto dos açucares a
contribuição dos engenhos, resultou daí crescer o número destes estabelecimentos, os quais, conjuntamente
com as alçapremas, fabricavam pelos tempos de 1498, mais de 120:000 arrobas, e no meado do século XVI,
mais de 300:000 arrobas de açúcar.
Este açúcar era consumido na Madeira, em Portugal e em muitos países estrangeiros, tendo o alvará de 26
de Agosto de 1503 acabado com as restrições a que antes estava sujeita a exportação.
O alvará de 22 de Março de 1498 permitiu aos estrangeiros a residência permanente na ilha, a qual lhes fora
negada pelo regimento de 7 de Outubro de 1496, e a carta de 21 de Janeiro de 1511 concedeu aos mesmos
estrangeiros o fazerem carregamentos de açúcar destinado à exportação.
Este açúcar pagava despacho nas alfândegas, despacho que, de 1512 em diante, passou a ser feito
unicamente na alfândega do Funchal.
O preço do açúcar, em 1507, era de 315 reais por arroba e, em 1511, de 300 reais. A afluência dos açúcares do
Brasil e das colónias espanholas da América aos mercados europeus foi a causa principal da decadência da
indústria sacarina na Madeira. Em 1612, ainda a Madeira exportava algum açúcar, mas, em 1649, estavam
já em ruínas muitos dos seus engenhos, poucos existindo em 1730.
Em 1736, começou a Madeira a importar, este género do estrangeiro, não deixando mais de o fazer, em
maior ou menor escala, até o restabelecimento da cultura sacarina, após a destruição dos vinhedos pelo
Oidium Tuckery.
A Madeira produzia, entre 1823 e 1826, uma quantidade insignificante de açúcar, mas, em 1861, era a
produção de 275:802 quilogramas, passando, entre os anos de 1870 a 1873, a ser de 800:000 a 900:000
quilogramas anualmente.
Em épocas mais recentes, a produção do açúcar deu se nas seguintes quantidades:
Em 1898 ......... 648:500 quilog.
Em 1899 ......... 442:000 "
Em 1900 ......... 442:000 "
Em 1905 ......... 800:000 "
Em 1906 ......... 1:053:000 "
Em 1908 ......... 1:823:350 "
Em 1910 ......... 2:973:000 "
Em 19l1 ......... 3:204:000 "
Em 1912 ......... 4:161:550 "
Em 1913 ......... 4:260:928 "
Em 1914 ......... 4:796:725 "
Em 1915 ......... 4:917:113 "
Em 1916 ......... 4:943:675 "
O açúcar colonial que a ilha importou não está compreendido nestes algarismos.
Entraram no consumo local 1.102:545 quilogramas de açúcar em 1908; 837:500 em 1912; 1.656:310
quilogramas em 1916, sendo exportado para Portugal o excesso da produção; e 3.069:143 quilogramas em
1938, sendo exportado para o Continente 399.780 quilogramas.
Segundo o Dr. Azevedo, a exportação do açúcar madeirense nos tempos modernos começou em 1854;
cresceu rapidamente desde 1858, até chegar ao maior grau nos anos de 1871 e 1872, no primeiro dos quais
chegou a 561:837 quilogramas, e no segundo a 567:526 quilogramas, decaindo logo por metade em 1873, e
de mais em mais até 1881.
Diziam os antigos fabricantes que 100 quilogramas de cana Bourbon, que era uma cana riquíssima,
produziam cerca de 7 a 9 quilogramas de açúcar, a pesar dos sistemas de fabrico adoptados serem muito
rudimentares; hoje, sabe se que a percentagem média da cana Yuba, em rendimento de açúcar, varia entre 9
e 101, devendo atribuir se este facto, principalmente, ao aperfeiçoamento dos sistemas de fabrico
empregados.
Na estrutura do regime sacarino da Madeira, o preço do açúcar é estabelecido em função do preço da cana.
O açúcar de primeira qualidade que, em 1914, era vendido ao preço de 29 centavos, passou, no ano
imediato, para 31 centavos e, depois, sucessivamente, até atingir o preço de 36 centavos por quilograma. Em
1900, vendia se esse açúcar à razão de 26,5 a 27,5 centavos, tendo o seu preço, muitos anos antes, regulado
entre 20 e 24 centavos por quilograma. Em 1939, é de 4$20 na Fabrica e 4$40 no comércio retalhista.
O açúcar de segunda qualidade, que era vendido ao preço de 24 e 25 centavos por quilograma em 1910,
estava, em 1914, a 28 centavos, passando depois a 30 e finalmente a 33 centavos. Antes da guerra, era esse
açúcar vendido às refinarias de Lisboa a 18 e a 19 centavos por quilograma.
O fabrico de açúcar é feito pela Fabrica do Torreão, estabelecendo o decreto n1 23.847, de 14 de Maio de
1934, com referência ao decreto n1 16.003, de 29 de Outubro de 1928, que, até 1953, ou enquanto o
aumento de consumo o não justifique, não é permitido construir novas fabricas de açúcar e álcool, nem
elevar a capacidade produtora da existente, nem adaptar se ao fabrico de açúcar a que só é destiladora,
podendo, porém, todas fazer, nos termos da lei, os melhoramentos necessários de maquinismos.
Desde 1935, que a produção do açúcar ficou restrita, em princípio, ao consumo local, e, estando esta
limitação conjugada com o encargo da compra obrigatória de toda a cana de certa graduação, daqui resultou
ser garantido a indústria, pelo regime vigente, o mercado da Madeira. Se, em qualquer ano industrial,
houver açúcar em excesso, poderá ser introduzido no continente até ao limite máximo de 200 toneladas,
sem pagamento de direitos, tendo já sido porém permitidas excepcionalmente maiores exportações, por
razões especiais de interesse da agricultura e da indústria.
V. Aguardente, Álcool, Cana Sacarina e Proteccionismo Sacarino.
Açucena
Nome vulgar do Lilium candidum, L. e do L. longiflorum, Thunb., plantas da família das
liliaceas cultivadas na Madeira.
Adams (J.)
Médico inglês que obteve, em 1802, licença do Governador e Capitão General para
vacinar todas as semanas 4 a 6 expostos, que para esse fim deviam ir a sua casa. Foi, segundo parece, o
primeiro médico que aplicou a vacina na Madeira. E.: A Guide to Madeira with an account of the Climate
(Londres 1901).
Adelaide de Inglaterra (Rainha)
A princesa Adelaide, filha do duque de Saxe Meiningen,
casou, em 1818, com Guilherme IV, rei de Inglaterra, tendo enviuvado em 1837.
Os médicos aconselham lhe, em 1847, a que, em atenção ao seu precário estado de saúde, passe o inverno
num clima temperado, sendo a Madeira a estação preferida pela rainha viúva para pôr se ao abrigo dos
rigores da quadra invernosa na Inglaterra.
Era então governador civil deste distrito o conselheiro José Silvestre Ribeiro, que preparou à ilustre
visitante uma condigna recepção, que a penhorou em extremo e à colónia inglesa aqui residente.
A fragata da marinha de guerra britânica Howe ancorou no nosso porto na manhã do dia 2 de Novembro de
1847, conduzindo a rainha Adelaide, que veio a terra às duas horas da tarde, para visitar a casa que estava
preparada para o seu alojamento, voltando no mesmo dia para bordo, e só no dia imediato é que fez o seu
desembarque e se instalou na quinta Vigia, transformada temporariamente em paço real. A rainha
desembarcou na Pontinha, e ali recebeu a homenagem de todas as autoridades locais, que a acompanharam
à sua residência.
A comitiva da rainha compunha se de sua irmã e cunhado, os duques de Saxe Weimar, e quatro filhos
destes, da dama de honor Miss Seymour, dos camaristas coronel Cornawall e esposa, do capelão rev. G. F.
Hudson, do médico dr. David Davis, do secretário e esmoler T. T. Bedford, do secretário do duque M.
Hartey e de 32 criados.
A rainha Adelaide, depois de 5 meses de permanência nesta ilha, embarcou no dia 11 de Abril de 1848 no
mesmo navio que a conduzira à Madeira, tendo não só experimentado melhoras consideráveis, que a
benignidade do clima lhe proporcionou, mas conservando as mais gratas recordações dos dias tranquilos
que passou nesta ilha.
Em 1849, enviou a rainha ao conselheiro José Silvestre uma magnífica peça de prata em forma de
serpentina, primorosamente lavrada, tendo gravados os seguintes dizeres: “-Presented to his Excellency
Senhor José Silvestre Ribeiro H. M. Majesty's Counsellor and Civil Governor of the Province of Madeira-“.
“In grateful recollection of his civility and kind attention during her residence in Madeira by A. R.” Num dos
lados tem a coroa real inglesa e, no outro, o nome da rainha Adelaide.
Aderno (Ardisia excelsa)
Árvore indígena da família das Mirsineaceas, que se encontra nas
serras de S. Vicente, da Ribeira da Janela, do Porto da Cruz, etc.. Tem folhas coriaceas, inteiras,
transparentes e pontoadas de vermelho nas margens, e pequenas flores verdes ou esverdinhadas, reunidas
em fascículos quasi sempre extra axilares. Os seus frutos são pequenos, globosos e vermelhos, e a sua
madeira é branca ou um pouco rosada, ondeada e dura. Esta madeira servia outrora para quilhas de botes.
Administração Judicial
Na Madeira, ao menos nos tempos primitivos da colonização, toda a
jurisdição civil e criminal residia nos donatários. Eram muito latitudinárias as suas atribuições na
administração de todos os negócios públicos e ainda no julgamento das causas crimes, a não ser que se
tratasse de delitos graves de morte ou atalhamento de membro, que então pertencia ao rei ou aos tribunais
superiores da corte a aplicação da respectiva pena. Essas amplas faculdades foram se a pouco e pouco
cerceando com o decorrer dos tempos. Os reis avocando a si os privilégios que neste arquipélago tinha a
Ordem de Cristo, a criação dos municípios, a instituição das sesmarias e dos morgadios, as diversas leis
agrárias, sobretudo acerca de águas, madeiras, gados e açucares, e ainda outras medidas do poder central
contribuíram poderosamente para o gradual cerceamento das atribuições civis militares e judiciais de que
os capitães donatários largamente gozavam neste arquipélago.
Os abusos de jurisdição cometidos pelos donatários, que às vezes iam até a invasão do poder real, não eram
raros, o que, em muitas ocasiões, determinou a vinda a esta ilha de ouvidores e corregedores, investidos de
poderes quasi discricionários, que tinham por missão especial o sindicarem e julgarem desses excessos de
jurisdição. Eram estes magistrados, enviados primitivamente em casos extraordinários e depois em
circunstâncias mais normais, os que atenuavam e corrigiam aquelas invasões de poder, levantando se por
vezes conflitos entre eles e os capitães donatários, a que sempre vinha por termo o governo central nos
recursos interpostos perante a coroa.
Temos disso vários exemplos, especialmente o da vinda à Madeira no último quartel do século XV, do
corregedor Álvaro Fernandes com “alçada por el rei em toda a ilha” e mais tarde a do bacharel Rui Pires,
também com jurisdição judicial em todo o arquipélago.
No primeiro quartel do século XVI, mandou D. Manuel a esta ilha o corregedor Dr. Diogo Taveira, *por
certas razões que a isso o moveram, em respeito ao capitão Simão Gonçalves+, diz Gaspar Frutuoso, o que
em extremo irritou o capitão donatário, a ponto de que resolveu abandonar a capitania, chegando a
embarcar em duas caravelas com sua família e o melhor móvel da sua casa em direcção a Espanha, o que
não realizou por ter arribado ao Algarve e lhe ter sido dada por el rei satisfação da afronta, ”por que, como
afirma o citado cronista, pelos serviços que tinha feito a el rei lhe não merecia meter corregedor”.
Mais tarde, pelos anos de 1579, o cardeal rei cerceou consideravelmente o poder e jurisdição dos donatários,
determinando especialmente que os ofícios e empregos de Justiça fossem de apresentação régia, o que antes
pertencia aos capitães donatários. Com a dominação filipina, ainda mais se restringiu o poder dos
donatários. O governo espanhol criou os cargos de governadores gerais para a administração das nossas
possessões e enviou para este arquipélago o desembargador Dr. João Leitão, que vinha também
encarregado de proceder a uma devassa acerca dos acontecimentos políticos ocorridos nesta ilha por
ocasião da proclamação de Filipe II. Desde então, os capitães donatários deixaram de residir entre nós e
exerciam as suas faculdades jurisdicionais por intermédio dos seus ouvidores, que eram da sua nomeação e
aos quais outorgavam todas as atribuições de que gozavam. É fácil, porém, de presumir que a ausência dos
donatários das suas capitanias e a autoridade exercida com verdadeiro despotismo pelos representantes do
governo espanhol, teriam imensamente concorrido para reduzir a proporções mesquinhas o poder dos
mesmos donatários no governo destas ilhas. A pesar de serem quasi meramente honoríficas, a partir desta
época, as atribuições dos donatários na administração local e na aplicação da justiça, continuavam, no
entretanto, a receber importantes rendas dos diversos impostos cobrados no arquipélago, tendo, por
meados do século XVIII, sido largamente indemnizados da perda, que então começaram a sofrer, dessas
mesmas rendas e impostos.
Será hoje difícil e talvez mesmo impossível determinar com precisão a esfera das atribuições, na época em
que começou a ocupação castelhana, tanto dos capitães donatários, como dos diversos magistrados
enviados a este arquipélago pelos monarcas. O mesmo diremos acerca do período da dominação espanhola
e da época decorrida desde 1640 até o tempo do marquês de Pombal.
O decreto de 2 de Agosto de 1766 criou para os Açores os cargos de corregedor e de juiz de fora, e, no ano
seguinte, teve esse decreto aplicação à Madeira, sendo para eles respectivamente nomeados o Dr. Francisco
de Matos Correia e o Dr. Luiz António Tavares de Abreu, que tomaram posse dos seus lugares a 15 de
Outubro de 1767. Com a nomeação desses magistrados, entrou a administração judicial neste arquipélago
num período regular e normal, quando até então, o exercício das funções de corregedor e juiz de fora,
acumuladas num só indivíduo, era bastante irregular e principalmente destinado a atender às
circunstâncias de ocasião. Durante 68 anos, contados de dia a dia, se manteve deste modo a administração
da Justiça até o dia 15 de Outubro de 1835.
A reforma judiciária de 16 de Maio de 1832 só teve execução na Madeira em 1835, e, assim, a pesar da
proclamação do governo constitucional nesta ilha a 5 de Junho de 1834, continuou a justiça a ser
administrada pelo juiz de fora e corregedor ou seus substitutos legais, até que, em 15 de Outubro de 1835,
foram instalados os dois julgados judiciais, ambos com sede no Funchal.
O Dr. Manuel Cirilo Esperança Freire, que foi o último juiz de fora efectivo, serviu até o dia 14 de Junho de
1834, e o Dr. Francisco António Rodrigues Nogueira, que foi também o último corregedor efectivo, deixou o
cargo a 23 do mês e anos referidos foram interinamente substituídos pelos membros mais velhos do senado,
segundo as disposições legais vigentes, até que o governador e capitão general Luiz da Silva Mousinho de
Albuquerque nomeou a 13 de Outubro de 1834, em virtude de ordens superiores, juiz de fora e corregedor
os bacharéis Daniel de Ornelas e Vasconcelos e João Jose Vitorino Duarte e Silva.
A 15 de Outubro de 1835, como já fica dito, terminou o antigo regimen judicial e foram instalados os dois
julgados com sede no Funchal.
Em 1838, uma nova reforma judicial dividiu o arquipélago em duas comarcas, ocidental e oriental,ambas
com sede nesta cidade, e que foram estabelecidas a 7 de Maio daquele ano.
O primeiro magistrado que serviu no julgado e comarca oriental foi o Dr. Domingos Olavo Correia de
Azevedo e igualmente o primeiro juiz que serviu no julgado e comarca ocidental foi o Dr. José Pereira Leite
Pita Ortigueira Negrão.
O decreto de 12 de Novembro de 1875 alterou a divisão comarca neste arquipélago, ficando deste então
existindo as comarcas do Funchal, Ponta do Sol, Santa Cruz e S. Vicente.
A comarca de Santa Cruz instalou se a 17 de Junho de 1876, dia em que tomou posse o seu primeiro juiz, o
Dr. Manuel Inácio Rum do Canto, sendo seu primeiro delegado do procurador régio o Dr. Bernardo Vieira
Pinto de Andrade, que foi nomeado por decreto de 17 de Fevereiro de 1876.
A instalação da comarca de S. Vicente realizou se a 16 de Novembro de 1876. Neste mesmo dia, tomaram
posse o mesmo juiz e o primeiro delegado, o Dr. João Pereira dos Ramos e Silveira, e o Dr. Aníbal Correia
Taborda.
Instalou se a comarca da Ponta do Sol no dia 28 de Abril de 1876. Foi seu primeiro juiz seu primeiro
delegado, respectivamente, o Dr. Martinho da Rocha Guimarães Camões e o Dr. António Augusto Freire
Ribeiro de Campos, que tomaram posse dos seus cargos no dia e por ocasião da instalação da comarca.
Administradores do Concelho
Os primeiros administradores do concelho foram nomeados
em 1835, mas antes deles houve os provedores, que desempenhavam funções idênticas às dos
administradores. O primeiro provedor do concelho do Funchal foi Januário Cardoso de Melo, que tomou
posse do lugar em 16 de Agosto de 1834.
Administradores Gerais
António de Gamboa e Lis era, em 1837, governador civil do Funchal,
quando uma reforma administrativa deu aos governadores dos distritos a denominação de Administradores
Gerais. Depois de António de Gamboa e Lis foram administradores gerais deste distrito o barão de Lordelo e
o Dr. Domingos Olavo Correia de Azevedo.
V. Governadores Civis.
Affecting (The)
(The) Story of Lionel and Arabella who first discovered of Island of Madeira and perished
there; with the voyage of Juan Gonzalves Zarco, who completed the discovery of the Island. “From the
Portuguese”. Londres, 1756.
Afonseca. (Dr. Luiz Vicente de)
Apesar de se tratar de um contemporâneo, poucos dados
possuímos para a sua biografia. Nasceu na freguesia do Estreito de Câmara de Lobos a 21 de Julho de 1803
e faleceu em Lisboa no mês de Dezembro de 1878.
Era bacharel em medicina pela Universidade de Coimbra e exerceu a clínica com grande êxito e proficiência.
A parte mais importante da biografia deste ilustre madeirense está sem duvida, na maneira como advogou
em cortes os interesses deste arquipélago. Sem ofensa para ninguém, pode afirmar se que poucos homens
representaram a sua terra no seio do parlamento com maior desinteresse e abnegação do que ele. Foi por
isso que entre nós adquiriu em volta do seu nome um tão extraordinário prestígio, que chegava a uma
verdadeira veneração, e teve nesta ilha durante muitos anos uma incontestável supremacia política, que até
os seus mais encarniçados inimigos lhe reconheciam. Foi deputado pela Madeira no longo período de 34
anos, o que ainda ninguém conseguiu entre nós, sendo pela primeira vez eleito para a legislatura de 1840 a
1842.
A sua grande austeridade de carácter, a comprovada abnegação e desinteresse com que tratava as questões
no parlamento, as suas qualidades pessoais e ainda os créditos que gozava de homem inteligente e ilustrado,
grangearam lhe uma notável e bem merecida reputação entre os políticos e parlamentares do seu tempo,
que tinham pelo Dr. Afonseca uma consideração e uma estima, que se não podem alcançar sem se possuir
os predicados que todos nele reconheciam.
Apesar de tudo, teve de sustentar lutas encarniçadas contra inimigos políticos, que não hesitaram em
deturpar as mais nobres e puras intenções, sofrendo até vexames e ultrajes, que somente os desvarios dum
estreito e faccioso partidarismo podem cabalmente explicar.
Levou sempre uma vida simples e modesta morrendo pobre e numa quasi completa obscuridade. A sua
longa carreira política serviu lhe apenas para defender com verdadeira abnegação os interesses da Madeira
e dos seus conterrâneos.
O Dr. Afonseca, em tempo que não podemos precisar, fez uma viagem ao Brasil, onde se demorou algum
tempo. Teve ali um filho, Len de Afonseca, que se tornou muito distinto como poeta e jornalista.
Afonseca. (José de)
Distinto engenheiro que no princípio do século passado fez e executou o
plano da construção de uma rede de estradas em toda a ilha.
Afonso
Apelido de família muito antigo entre nós. João Afonso, de quem abaixo falamos, foi dos
primitivos povoadores desta ilha. No princípio do século XVI, Martim Afonso e sua mulher Isabel Afonso
fundaram a capela dos Anjos na paróquia dos Canhas.
Já anteriormente um Álvaro Afonso doara em 1483 o terreno para a edificação da Misericórdia.
Afonso da Ilha (Fr.)
Com este nome houve um religioso da ordem franciscana, natural desta ilha,
que foi um escritor apreciado do seu tempo. Em 1543, publicou um livro intitulado Tesouro da Virtude, que
foi traduzido em italiano.
Afonso (João)
Dos companheiros de Zarco na viagem da descoberta da Madeira, além de Tristão
Vaz, conservaram as crónicas os nomes de Gonçalo Aires Ferreira, João Lourenço, Rui Pais e João Afonso,
pertencentes a famílias nobres e que nesta ilha foram tronco de larga descendência. Chegados à baía de
Machico, e feito aí o primeiro desembarque, prosseguiram no dia imediato na exploração da costa, ficando
os navios ancorados naquele porto. Frutuoso faz menção dos batéis dirigidos por Gonçalves Zarco, Tristão
Vaz e João Afonso, que, deixando a baía de Machico foram costeando todo o sul da Madeira em viagem de
exploração. As frequentes referências feitas a João Afonso parecem dar a conhecer que se destaca dos seus
companheiros por qualquer ascendente ou prestígio que sobre eles tivesse.
João Afonso teve terras de sesmaria em Câmara de Lobos e nelas instituiu um morgadio, a que anexou a
capela do Espírito Santo na Igreja de Nossa Senhora do Calhau, onde foi sepultado no último quartel século
XV. É o tronco e o fundador da casa Torre Bela, uma das mais antigas e importantes da Madeira. Exerceu
nesta ilha o cargo de almoxarife do Infante D. Henrique, arrecadando as receitas e impostos que lhe eram
destinados.
Agostinho. (Ilhéu de)
São considerados como prolongamento da Ponta de S. Lourenço (V. este
nome) os três ilhéus conhecidos pelos nomes de Agostinho, dos Desembarcadouros e o de Fora. O primeiro
é o que fica mais próximo da Ponta propriamente dita e acha se dela separado por um pequeno canal ou
boqueirão. A seguir encontra se o Ilhéu dos Desembarcadouros (V. este nome) e depois o Ilhéu de Fora (V.
este nome). O de Agostinho é o de mais limitada área e de menor importância dos três ilhéus adjacentes à
Ponta de São Lourenço. Na baixa mar, é possível a passagem a vau do estreito boqueirão que separa o
pequeno ilhéu da referida Ponta.
Agrela
O primeiro indivíduo que consta tivesse vindo para esta ilha e que usasse este apelido foi Fernão
Álvaro de Agrela, que era natural de Alenquer e que se passou à Madeira pelos anos de 1480 e do qual
Manuel Ferraz faz menção no poema A Insulana.
Agrela (João Agostinho Pereira de)
Nasceu no Funchal em Maio de 1777, e pertencia a
uma antiga e nobre família, que tinha a propriedade do lugar de escrivão da Câmara do Funchal, concedida
por D. João IV em 1645 a um dos ascendentes de Pereira de Agrela. Diz o Dr. Álvaro de Azevedo que era um
dos madeirenses mais eruditos do seu tempo. Foi ele que, no princípio do século passado, mandou extrair a
cópia das Saudades da Terra, que serviu de texto à publicação que desta obra fez o Dr. Azevedo em 1873.
V. artigo Saudades da Terra.
"Era homem, diz o Diccionário Popular, muito lido e grande investigador de antiguidades; escreveu uma
colecção de memórias genealógicas, que existem inéditas em 5 grossos volumes em poder dos seus
herdeiros, e que trata de todas as famílias nobres que se passaram à ilha da Madeira e suas gerações, com
bastantes curiosidades relativas a algumas delas. Esta obra revela aturado estudo de um espírito curioso e
uma critica esclarecida, sendo certamente a mais expurgada de erros e a mais desenvolvida que se encontra
neste ramo da história daquela ilha.
Como professasse ideias liberais, foi preso em 1828 e enviado para Lisboa, onde esteve na fragata D. Pedro
um ano, e na cadeia do Limoeiro outro ano, sendo por fim condenado a não voltar à Madeira por mais um
ano. Regressando à pátria em 1834, aqui faleceu no ano imediato, no mês de Fevereiro.
Agrião (Nasturtium officinale)
Planta vivaz da família das Crucíferas, muito frequente nas
ribeiras, levadas, e lugares húmidos da Madeira. É planta alimentar e um excelente antiescorbútico.
Agricultor Madeirense (O)
Publicou-se desde 26 de Março a 29 de Dezembro de 1851, tendo
apenas saído 9 números.
Água de Mel (Ribeiro de)
Pequeno curso de água que atravessa o sítio do mesmo nome na
freguesia de São Roque, e vai lançar-se na margem esquerda da ribeira de Santo António no Sítio da
Penteada.
Água(Ponta da)
Fica esta ponta ou saliência de costa sita no litoral da freguesia de Câmara de
Lobos, nas proximidades do Cabo Girão, e equidistante da Fajã das Pedras e da Fajã dos Asnos.
Água-mar (Physalia Caravella)
Colónia flutuante de pólipos marinhos da classe dos
hidrozoários e ordem dos sifonófaros, arremessada de vez em quando às praias destas ilhas sobretudo se o
vento sopra do largo. É extremamente causticante, sendo conhecida entre os ingleses pela designação de
Portuguese man-of-war (navio de guerra português) e na Itália por Vascello portoguese. Os marinheiros
portugueses chamam-lhe Nau da Índia.
A outros hidrozoários desta parte do oceano, como as alforrecas ou cifomedusas, é aplicado também o nome
de água-mar. Esta expressão é uma variante de água-má, usada nas costas de Portugal.
A água-mar também é conhecida pela denominação de água-viva.
Água de Pena (Freguesia de)
No dia 2 de Julho de 1419, segundo a data mais provável,
desembarcou João Gonçalves Zarco nas praias de Machico, recolhendo-se ao cair da noite aos navios, para
continuar no dia seguinte a exploração da costa desconhecida.
“E, no dia imediato, diz Gaspar Frutuoso, correndo mais abaixo, sempre apegado com a terra, acharam em
um fresco valle e ameno prado hum ribeiro de água, que vinha sahir ao mar com muita frescura. Ali fez ir
alguns homens, onde os que foram acharam outra fonte, que sahia debaixo de um grande, antigo e liso
seixo, e era tão preciosa e fria, que mandou dela encher outra vasilha para levar ao infante; e poz a este
porto nome (por causa do que nelle achou) o Porto do Seixo, como hoje se chama” , pertencendo este
pequeno pôrto aos terrenos que constituíram a futura paróquia de Água de Pena. Foi esta a segunda
freguesia que pisaram os descobridores ao aportarem a esta então ignorada ilha. 0 Porto do Seixo ficou
assinalado na história do descobrimento como o primeiro local visitado pelos descobridores no segundo dia
da exploração que fizeram ao longo da costa.
Desconhecemos a origem do nome desta freguesia, e várias hipóteses se têm aventado para a explicar. Já
alguém quis afirmar que o nome primitivo era Água de Penha e não Pena, denominação que proviria da
água a brotar duma penha ou rocha viva, e que com o decorrer dos tempos se daria a corruptela de Penha
em Pena. Para justificar categoricamente esta explicação, tornava-se mister a existência, em qualquer ponto
a dentro da área da paróquia, dum manancial a sair da rocha, o que nos parece se não verifica ali. É, porém,
certo que, num antigo nobiliário, lemos que “deriva duma fonte cristalina de veio contínuo na sesmaria de
Henrique Teixeira, que teve grossas terras para oeste da villa de Machico”. Será a fonte do Seixo ou outra
que tivesse desaparecido? Não é hoje fácil sabê-lo.
É de presumir que por ali houvesse algum sítio ou lugar com o nome de Água de Pena desde os tempos
primitivos da colonização e deste modo desse origem à denominação da paróquia. Em alguns documentos
antigos, se encontra este nome com a grafia de Água de Pena.
Afirma o ilustre anotador das Saudades da Terra que Henrique Teixeira, filho segundo de Tristão Vaz, um
dos descobridores da Madeira e primeiro capitão donatário de Machico, teve terras de sesmaria em Água de
Pena, e diz dele Gaspar Frutuoso que *era muito dado à agricultura e por essa inclinação foi bem rico e
enobreceu a villa de Machico assi de muitos engenhos de assucar, como de canaviaes, gado e pão, e
montados que mandou roçar e aproveitar+. Vimos num antigo livro de linhagens, que Hirão Teixeira, neto
de Henrique Teixeira, fez moradia em Água de Pena, tendo falecido em 1551 e sido sepultado na capela da
Conceição de Machico.
É provável que fossem estes Teixeiras os primeiros povoadores ou ao menos dos mais antigos colonizadores
de Água de Pena muitos anos antes de ser constituída em paróquia. Foi esta criada pelos anos de 1560,
sendo uma das mais antigas das pequenas freguesias da Madeira. Talvez tivesse sua origem numa fazenda
povoada, como aconteceu com tantas outras, que foram o núcleo de futuras e importantes paróquias.
Algumas dessas fazendas tinham pequenas capelas, que passaram a ser as sedes das freguesias que se
criaram. Com relação a Água de Pena, nada podemos afirmar de positivo a tal respeito.
Ou numa capela já ali existente, ou num pequeno templo que então se tivesse erguido, começou, em 1561, a
funcionar a nova paróquia, tendo como seu primeiro pastor o padre Tomé Gomes, a que sucessivamente se
seguiram os párocos Manuel de Carvalho, João Ferreira Baptista, Pedro Ferreira, António do Canto, Pedro
Gonçalves Ciebra, Manuel da Silva Boim, Duarte Mendes, Dr. Estevão Lomelino de Vasconcelos, etc. A
primitiva côngrua anual foi, em 1572, elevada a 9$000 rs., e acrescentada com 3$000 por alvará de 14 de
Dezembro de 1588. 0 alvará régio de 5 de Fevereiro de 1592 elevou a côngrua ao vencimento anual de
19$000 rs. em dinheiro e 1 moio e uma pipa de vinho.
No índice geral dos livros da antiga Provedoria deste arquipélago, se vê que, por mandado do Conselho da
Fazenda de 13 de Março de 1694, se ordenou a despesa de 651$000 rs. para *arrematar a obra de pedreiro e
carpinteiro da nova egreja+, e no mesmo índice se encontra o registo de outro mandado do referido
Conselho, de 2 de Abril de 1745, "para se arrematar a obra da nova egreja pelo preço de 4:000$000, ou por
menor lanço que houver, visto que a mudança que se pretende fazer para sítio mais cómodo e menos
ventoso+. Entre um e outro mandado medeia apenas o espaço de 50 anos, não sendo muito provável que,
dentro de meio século, tivesse a igreja necessidade de ser novamente edificada. Presumimos que o mandado
de 1694 não teve execução. E nesta conjectura nos confirmam os Anais de Machico, escritos por meados do
século passado, quando dizem que há cerca de cem anos, isto é aproximadamente por 1745, foi novamente
construída uma igreja em Água de Pena por a primeira se ter abatido. Os 4:000$000 foram destinados a
esta construção, sendo a nova igreja levantada em sítio um pouco afastado da primeira, que então ficava no
extremo do passal.
A fabrica desta igreja teve 3$000 rs. anuais pelo alvará de 22 de Março de 1574, sendo-lhe acrescentados
1$000 rs. também anuais, pelo alvará de 15 de Junho de 1598.
Encontrando-se o vigário capitular e governador do bispado António Alfredo de Santa Catarina Braga no
Santo da Serra, expediu dali uma provisão, datada de 13 de Junho de 1836, extinguindo a freguesia de Água
de Pena e criando a do Santo, ou melhor anexando aquela ao curato do Santo da Serra e fazendo neste a
sede da nova paróquia, com o nome de freguesia do Santo da Serra e Água de Pena. Era o Santo da Serra um
curato filial da paróquia de Machico, criado em 1813, mas o respectivo cura não tinha nele residência
habitual. Com a anexação da freguesia de Água de Pena ao curato do Santo da Serra, ficou este sendo a sede
da paróquia, e ali passou a ter residência efectiva o pároco respectivo. Não teve longa duração a medida
arbitrariamente tomada pelo vigário capitular António Alfredo. Por carta de lei de 24 de Julho de 1848, foi
esta paróquia novamente restaurada, perdendo, da sua antiga área, o sítio da Achada do Barro, que ficou
pertencendo ao Santo da Serra, mas foram-lhe anexados os sítios da Torre e da Ventrecha, pertencentes à
freguesia de Santa Cruz.
O sítio da Bemposta (V. este nome) foi sede dum morgadio, que data do primeiro quartel do século XVI.
João Afonso Escudeiro, que era de nobre ascendência, passou do continente à Madeira pelos anos de 1450 e
teve terras de sesmaria em Água de Pena, onde instituiu o morgado da Bemposta, bem como o de S. Lázaro
em Santa Cruz, pelo seu testamento feito a 21 de Junho de 1512, ano em que morreu Sua filha e herdeira
Catarina Anes Escudeiro, que foi a primeira administradora deste vínculo, casou com Lopo Franco de
Monção, de cujo matrimónio nasceu João Lopes Franco, que sucedeu no morgadio e morreu sem
descendência, passando a administração vincular da Bemposta a um seu sobrinho por nome Diogo Lopes
Tavares.
Apertada entre as paróquias de Santa Cruz e Machico, é limitada ao norte por esta última e pela do Santo da
Serra, ao sul pela de Santa Cruz, a leste pelo oceano Atlântico e a oeste pelas freguesias de Santa Cruz e do
Santo da Serra. Faz parte dos Concelhos de Santa Cruz e Machico, pertencendo ao primeiro os sítios
povoados da Torre e Ventrecha e ao segundo os da Bemposta, Lombo, Logarinho, Igreja e Queimada. Tem
como orago a virgem e mártir romana Santa Beatriz, ficando a respectiva Igreja Paroquial no sítio chamado
da Igreja. Além deste templo, possue a capela do Sagrado Coração de Jesus no sítio dos Cardiais, fundada,
em 1907, pelo cónego Henrique Modesto de Betencourt, e a de Nossa Senhora de Perpetuo Socorro,
construída por Francisco de Freitas Correia, no ano de 1924, no sítio da Queimada. A caixa postal e a cabine
telefónica estão instaladas no sítio da Igreja, onde também se encontra o Cemitério Paroquial. É
aproximadamente de oito quilómetros a distância a que ficam as vilas de Santa Cruz e Machico, achando-se
a parte mais central da freguesia de Água de Pena sensivelmente equidistante daquelas duas vilas e afastada
cerca de 20 quilómetros da cidade do Funchal. Pertence à comarca de Santa Cruz e aos concelhos deste
nome e ao de Machico, como fica acima referido. Sendo banhada pelo mar numa relativa extensão, tem a
servi-la um pequeno porto com uma praia de seixos rolados a que chamam o Calhau do Seixo, situado na
foz da ribeira do mesmo nome. Os terrenos desta paróquia são fertilizados pelas levadas do Juncal e Levada
Nova do Furado, que têm sua origem no norte da ilha, e ainda pelas levadas do Moinho da Serra, nascida na
freguesia de Santa Cruz, Levada Nova, que encabeça na ribeira de Machico, e a do Logarinho, cujo caudal
parte do sítio do mesmo nome dentro dos limites desta freguesia. Têm alguns afirmado que o
ilustre
madeirense João Fernandes Vieira, que no Brasil tão notavelmente se distinguiu na guerra contra os
holandeses, nasceu nesta paróquia, mas, no respectivo arquivo paroquial, não se encontra o seu assento de
baptismo, segundo investigações que ali se fizeram há anos. Hoje parece averiguado que nasceu na
freguesia do Faial, como adiante mais largamente se dirá.
É natural da freguesia de Água de Pena o cónego Francisco Fulgencio de Andrade, doutorado pela
universidade pontificia de Roma e actual Professor do Seminário desta cidade.
Aguagem
A palavra antiquada aguage, de que o povo formoso a carrutela augage, significa nesta ilha
uma pequena catadupa ou queda de água, que especialmente se dá nos leitos pedregosos das ribeiras.
Aguardente
Existem presentemente na Madeira 40 fábricas destinadas a fabricar aguardente a 26
graus Cartier, mas algumas delas não funcionam com regularidade. Produziram estas fábricas no período
que vai de 1911 a 1917, as seguintes quantidades de aguardente:
1911 ............. 700:000 litros
1912 ............. 1.436:305 "
1913 ............. 1.008:257 "
1914 ............. 826:678 "
1915 ............. 718:617 "
1916 ............. 1.098:175 "
1917 ............. 1.162:398 "
Antes do decreto de 11 de Março de 1911, a produção de aguardente em todo o distrito regulava por
1.200:000 litros, não falando nas aguardentes de bagaço, que se obtêm por uma segunda passagem da cana
pelos cilindros do engenho, depois de lhe haver sido adicionada alguma água.
O decreto de 11 de Março de 1911 estabeleceu o imposto de 100 réis nos três primeiros anos, e de 150 réis
nos anos imediatos, até 1918, para todas as aguardentes obtidas nas fábricas não matriculadas, mas logo no
terceiro ano começou a ser arrecadado o máximo do imposto, diz-se que a pedido das fábricas matriculadas.
Toda a aguardente produzida pelas fábricas não matriculadas fica no arquipélago, tendo uma parte dela
aplicação ao tratamento de vinhos não destinados a embarque. Está calculado que 30 quilos de cana
produzem em média 2 litros de aguardente.
As fabricas matriculadas eram obrigadas a comprar outrora pelo preço de 930 réis o galão (3,16) as sobras
de aguardente em 26 graus Cartier, que as fábricas não matriculadas destilassem em cada ano para
consumo da Madeira, mas só cumpriram integralmente esta obrigação nos anos de 1904 e 1905.
O imposto da revenda de aguardente, autorizada pela lei de 2 de Maio de 1919 e regulamento de 25 de Maio
de 1920, produziu 82:434$87 em 1920, sendo rateada pelas Câmaras Municipais a importância de
79:137$48 e cabendo à Câmara do Funchal 39:518$64. Para remuneração do pessoal que interveio no
serviço da arrecadação foi reservada a quantia de 3:297$39.
O decreto de 11 de Março de 1911, que fica citado, continha uma das mais importantes medidas que os
governos da metrópole têm tomado acerca deste arquipélago no longo período de cinco séculos: a
expropriação das fábricas de aguardente. E a propósito dessa medida salvadora, queremos deixar aqui
transcritos alguns períodos do que escrevemos sôbre o assunto, quando surgiu a ideia do restabelecimento
dessas mesmas fabricas.
“Todos sabem que um dos maiores flagelos que tem afligido a Madeira e em grande parte a aflige ainda,
especialmente nas suas tristes e funestas consequências, é esse conhecido e terrível cancro social, que tem o
nome apavorante de alcoolismo. Combatido energicamente por toda a parte, como uma verdadeira medida
de salvação publica, assentou arraiais entre nós com manifesto consentimento das leis, que indirectamente
o protegiam, sendo até considerado como um dos factores da riqueza comum de todo o distrito!
O madeirense foi então colocado num plano muito inferior ao do negro africano! Não pareça haver exagero
no confronto. Em virtude de medidas de caracter internacional, proibiu-se o tráfego de bebidas alcoólicas
no continente africano, a fim de assegurar-se a integridade da raça indígena e poupá-la aos estragos desse
grande mal. Aquilo que elementarmente se considerou uma providencia salvadora para os selvagens
africanos, não foi considerada como uma medida necessária e de verdadeiro alcance social para os pobres
íncolas desde arredado arquipélago.
A Madeira já chegou a ser conhecida pela ilha da Aguardente nome que lhe foi dado por um diploma
legislativo, em virtude do grande consumo desse tóxico, que atingiu proporções quasi inverosimeis, sendo
verdadeiramente pavorosos os estragos produzidos, como no mesmo decreto se afirma. Um antigo ministro,
lente de medicina e distinto homem de ciência, a quem o município desta cidade conferiu o título de
cidadão benemérito do Funchal, teve a coragem, numa conferência pública que se tornou célebre, realizada
na cidade do Porto, de classificar os madeirenses de ébrios e alcoólicos, certamente com grande desprimor
para com os habitantes desta ilha, mas não muito distanciado da triste e reconhecida realidade dos factos.
É sabido, embora o grande público não se tenha ainda apercebido do facto, que nas últimas dezenas de anos
se verifica nesta ilha um notável definhamento de raça. Na estatura, na constituição orgânica, nas forças
musculares etc. etc., nota-se uma acentuada decadência fisiológica, que não tem escapado á observação de
vários médicos e especialmente de alguns médicos militares empregados durante largos anos na inspecção
dos mancebos sujeitos ao recrutamento do exército. Assinala-se o alcoolismo como uma das principais
causas desse facto alarmante.
Existem, porém, manifestações ainda mais graves e mais assustadoras, que ameaçam o completo
aniquilamento duma população, se não forem mantidas algumas das providências já tomadas e adoptadas
outras de resultados mais imediatos e eficazes. É a assombrosa percentagem que á loucura vai fornecendo a
população desta ilha. Além disso, os casos de idiotia, epilepsias, convulsões nervosas, e outras
degenerescências mais ou menos comprovadas são inúmeros e multiplicam-se prodigiosamente, sendo
motivo da maior admiração e espanto, se os compararmos com os casos similares de outros centros
populosos. Consultem-se alguns médicos, que se têm particularmente dedicado ao estudo dessas doenças, e
transpunham-se as entradas dos nossos manicómios e sem esforço nos convenceremos da triste realidade
destas afirmativas. Oitenta por cento dos pobres doentes ali internados são vítimas do alcoolismo! E se, a
este quadro apavorante, acrescentarmos os sacrificados por aquele terrível cancro á tuberculose e a muitas
outras enfermidades, formaremos uma ideia aproximada dos malefícios causados por cinquenta
laboratórios de substâncias tóxicas, que durante muitos anos foram envenenando, bestializando e
enlouquecendo a incauta população dum distrito inteiro!
E também notável o abaixamento do nível intelectual. Entre outros factos há um que o comprova. Quem
estas linhas escreve e muitas outras pessoas que têm tido uma permanência mais ou menos demorada nas
freguesias do norte da ilha verificaram a acentuada diferença que mentalmente se nota entre os habitantes
de certas localidades da parte setentrional e meridional da Madeira em desfavor das freguesias da costa-sul,
sabendo-se que a produção e o consumo da aguardente era quasi nulo nas freguesias do norte, onde
somente há poucos anos se iniciou e se vai agora alargando a plantação da cana de açúcar, ao passo que a
cultura dela vem já de séculos na região do sul da nossa ilha.
Definem duma maneira lapidar a triste situação que o alcoolismo criou na Madeira e que deixamos
ligeiramente esboçada, as seguintes palavras extraídas do relatório acima citado: "A prosperidade do
arquipélago está indissoluvelmente ligada ao valor físico intelectual e moral da sua população e esse valor
diminui na mesma proporção em que aumenta a consumo da aguardente de tal modo que não se provendo
de remédio pronto tão grande mal legitimo é o receio de que a degenerescência chegue a extremos
irremediaveis.
O decreto de 11 de Março de 1911, referendado por Brito Camacho, estabeleceu a medida salvadora da
expropriação das fábricas de aguardente, que várias disposições legais posteriormente decretadas vieram
alterar em pontos essenciais. Constituiu um erro gravíssimo e foi bastante para sentir que uma providência
tão salutar e tão necessária não tivesse sido mantida integralmente e não fosse observada em toda a sua
omnímoda extensão.
No entretanto é forçoso confessar que as restrições feitas á produção do terrível tóxico e a suspensão
imposta ao funcionamento das respectivas fábricas representam um grande e inapreciável serviço prestado
a toda a população do arquipélago, cujos benéficos resultados se fazem já notavelmente sentir por toda a
parte. Importa, porém, para complemento duma grande obra humanitária, decretar-se uma medida mais
radical e mais definitiva, que em absoluto exclua a possibilidade de voltar-se ao fabrico de qualquer
quantidade, por mais pequena que ela seja, desse veneno que deu á nossa terra a denominação pejorativa de
Ilha da Aguardente”.
V. Álcool, Garupa, Proteccionismo Sacarina e Junta Agrícola.
Águas
O aproveitamento das águas, como elemento primordial das explorações agrícolas, constituiu
logo uma das maiores preocupações e canseiras dos primitivos colonizadores do solo madeirense, que
ininterruptamente se têm transmitido de geração em geração, tomando os mais variados aspectos e
formando uma vasta rede de interesses económicos e sociais, que mereceriam um aturado e desenvolvido
estudo, ainda infelizmente por fazer.
O gigantesco trabalho da construção das levadas que durou séculos, as lutas sustentadas para a aquisição e
posse dos respectivos caudais, as sublevações populares que por tal motivo se deram varias vezes, a
organização de associações de heréus para a exploração e distribuição das águas, os frequentes pleitos
judiciais, as muitas leis que se promulgaram reguladoras desses assuntos, os costumes e usanças que se
introduziram etc., forneceriam basta matéria para esse largo e interessante estudo.
Sem esforço viram esses primitivos colonizadores que as condições especiais da Madeira, quanto á
constituição dos seus terrenos, ao acidentado das suas vertentes e encostas, ao abrigo que o litoral oferecia
pela protecção das elevadas montanhas etc., lhes indicavam as terras marginais do oceano como as mais
apropriadas para a exploração das culturas remuneradoras, que logo se traduziram em apreciáveis fontes de
riqueza e prosperidade.
Surgiu sem demora a condução de abundantes mananciais através de extensos aquedutos, que de ano para
ano cresciam em numero e melhoravam na sua construção, á medida que as indústrias do fabrico do açúcar
e do vinho iam também adquirindo um mais largo e aperfeiçoado desenvolvimento.
Iniciou-se deste modo o maior empreendimento realizado em favor da agricultura madeirense e um dos
factores mais importantes da riqueza pública do arquipelago -- a construção das Levadas.
Sem demora se adoptaram várias medidas de caracter legislativo emanadas do poder central, fixando-se
alguns princípios de direito e estabelecendo-se certas normas indispensáveis, que vieram regularizar o uso
das águas destiladas á irrigação dos terrenos. As mais antigas, de que há conhecimento, são as cartas régias
de D. João II, de 7 de Março e de 7 de Maio de 1493, que encerram disposições muito importantes acerca
desta questão e que vem transcritas a pag. 673 e seguintes das anotações das Saudades da Terra (1873).
“Antes destas salutares providencias, informa-nos o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, já havia levadas e
repartições de águas de irrigação; a fls. 270 do tomo 1 do Archivo da Câmara do Funchal está registada uma
carta do infante D. Fernando, expedida em 1461, determinando que houvesse dois homens ajuramentados
incumbidos de repartirem as águas e a fls. 222 do mesmo tomo se lê um cap. de outra de 1485, que
mandava soltar as águas aos domingos a todos os hereus...”
A'quelas acertadas medidas do governo da metrópole, outras não menos acertadas se seguiram, destacando-
se a carta régia de D. Manuel de 9 de Fevereiro de 1505 (Saud, 688), em que são confirmadas, ampliadas e
de novo reguladas as disposições dos diplomas anteriores e a que o ilustre anotador do Dr. Gaspar Frutuoso
acrescenta este judicioso comentário: esta legislação produziu optimos resultados, especialmente na
irrigação das terras. Nesse período foram feitas as principais levadas gerais ou comuns da ilha da Madeira,
artérias, por onde, desde então até agora, apesar de já deturpada a instituição, circula abundante o sangue
da sua vida agrícola, o precioso filtro da sua abastança e constante rejuvenescimento”.
No decorrer do tempo, vieram outras providencias legislativas fomentar e melhorar o serviço das águas de
regadio, devendo citar-se as cartas régias de 6 de Março de 1563 e 18 de Agosto do mesmo ano, 20 de Julho
de 1579, 26 de Abril de 1587, 13 de Setembro de 1644, 7 de Abril de 1655, 10 de Outubro de 1663 e 5 de
Março de 1770.
Durante os primeiros quatro séculos após o inicio da colonização madeirense, a laboriosa exploração das
águas, a sua condução através de extensos aquedutos e a sua distribuição nos terrenos cultivados estiveram
principalmente a cargo da iniciativa particular, embora fossem notavelmente favorecidas pela acção do
Estado com a promulgação das mais eficazes medidas legislativas de protecção a esses importantes serviços.
Foi ha pouco mais dum século que o governo central, atendendo ás instantes e enérgicas solicitações dos
lavradores e proprietários rurais desta ilha, tomou o encargo de iniciar a construção dalgumas levadas, que
sendo, porventura, deixadas á iniciativa privada dos agricultores, impossível se tornaria a sua realização.
Ia-se alargando consideravelmente a superfície dos terrenos aráveis, e para acudir ás necessidades
emergentes já não podia chegar a acção dos cultivadores, os quais, na sua quasi totalidade, não dispunham
dos recursos necessários para acudir ás enormes despesas da tiragem de novas levadas. Deste modo
realizou o Estado uma grande obra de protecção á agricultura madeirense, fomentando a riqueza pública,
valorizando os terrenos cultivados e aumentando notavelmente o seu rendimento colectável em favor do
mesmo Estado, como compensação dos capitais empregados. E essa obra notabilissima é uma das maiores,
se não a maior de todas, que o governo da metrópole tem realizado nesta ilha no longo período de cinco
séculos.
Águas Doces
Têm este nome uma pequena praia e litoral marítimo situados entre o Ilhéu da Pontinha
e a foz do Ribeiro Seco.
Águas férreas
Das várias nascentes de água férrea que existem na Madeira, a mais conhecida é a do
Jamboto; na freguesia de Santo Antonio. O Sr. Carlos Lepierre que analisou as águas desta nascente em 4 de
Junho de 1900, diz que elas pertencem ao grupo das águas hipossalinas, cloretadas e férreas, e que a sua
mineralização mais importante é o cloreto de sódio, seguindo-se-lhe o bicarbonato de ferro, que se encontra
em quantidade relativamente grande (36 miligramas, correspondentes a 12,6 miligramas de ferro). O Sr.
Lepierre encontrou ainda nas mesmas águas bicarbonatos de magnesia e de cal, com pequenas quantidades
de sulfatos e nitratos.
As águas do Jamboto são, segundo o mesmo analista, muito puras sob o ponto de vista bacteriologico.
O resultado das investigações a que procedeu o Sr. Lepierre consta de um folheto com o seguinte título,
mandado publicar pela Câmara Municipal do Funchal: Analyse Chimica e Bacteriologica da Água da Fonte
Férrea-Jamboto, Santo Antonio- Funchal, Madeira . . . (Funchal,1900).
Aguiar
É apelido muito antigo nesta ilha. O primeiro que aqui o usou foi Diogo Afonso de Aguiar, um
dos quatro fidalgos enviados por D. Afonso V para casarem com as filhas de João Gonçalves Zarco. Dizem
uns linhagistas ser filho de José Afonso de Aguiar, primeiro tesoureiro da moeda de Lisboa, e outros que era
filho de Pedro de Aguiar. Um seu irmão, por nome Pedro Afonso de Aguiar, foi armador-mor do reino e
comendador da ordem de Cristo. Diogo Afonso de Aguiar casou com D. Isabel Gonçalves da Câmara,
terceira filha de Zarco dizendo Henrique Henriques de Noronha no Nobiliário que "o dote que eu vi foi feito
no ano de 1439,. Era pai de Rui Dias de Aguiar e de D. Nuno de Aguiar, bispo de Ceuta e Tanger. (V. estes
nomes) Os Aguiares tinham por armas uma águia em campo vermelho ornado de preto, estendida, e
também outra águia.
Aguiar (Joaquim Nunes de)
Este distinto engenheiro nasceu no Funchal nos fins do primeiro
quartel do século passado e era filho natural de Diogo Teles de Meneses, director da nossa Alfândega.
Terminados os estudos preparatórios, iniciou o seu curso de engenharia civil em Lisboa, e que depois
concluiu em Paris com grande aproveitamento em 1848. Foi engenheiro da Câmara Municipal do Funchal
de 1849 a 1850, sendo chamado em 1852 para as obras do caminho de ferro do norte, em que notavelmente
assinalou o seu talento e amor ao trabalho. Seguidamente exerceu cargos importantes, como director das
obras públicas de Viana, Braga e Porto, vogal do Conselho das Obras Públicas, director do Caminho de
Ferro de leste e fiscal dos do norte, tendo ido ao estrangeiro varias vezes no desempenho de comissões de
que foi encarregado pelo nosso governo. Era homem de grandes aptidões e de uma notável actividade, vindo
a falecer no Funchal, por excesso de trabalho, a 14 de Novembro de 1877.
Aguiar (Padre Dr. José Gonçalves de)
Na vila de Câmara de Lobos e de humildes
progenitores nasceu José Gonçalves de Aguiar a 8 de Outubro de 1831, sendo filho legítimo de Vitorino
Gonçalves Rocha e de Vitorina Rosa de Jesus. Usou, bem como alguns dos seus irmãos, do Apelido Aguiar,
que era o do seu avô materno. Era aluno do Seminário do Funchal, quando devido à protecção que lhe
dispensou a família russa Waxel, que então se encontrava na Madeira, foi cursar a faculdade de teologia na
Universidade e nela concluiu a sua formatura em ano que não podemos precisar. Fixou pouco depois
residência em Lisboa e ali permaneceu até o seu falecimento. Na capital desempenhou, entre outros cargos,
o de desembargador da curia patriarcal e o de examinador pro-sinodal.
Era homem muito aplicado ao estudo e de uma larga ilustração, sendo por isso muito considerado na capital
e não menos ainda pelas suas qualidades de caracter e pela sua conduta como cidadão e como sacerdote.
Colaborou em vários jornais e que nos conste publicou em separado: 0 Dogma da Imaculada Conceição de
Maria Santíssima, Lisboa, 1880, de 40 pag., e o Tratado da Penitência, Lisboa, 1888, de XVI-849 pags.
Consta que por mais duma vez foi convidado a aceitar uma mitra, mas recusou-se sempre a entrar no
episcopado.
Ignoramos a data do seu falecimento, que ocorreu em Lisboa, e ainda quaisquer outros pormenores da sua
biografia.
Aguiar (Manuel Caetano Pimenta de)
É um nome pouco menos do que desconhecido
entre nós. Há alguns anos que a Câmara Municipal do Funchal, querendo salvar de inteiro esquecimento a
memória deste distinto madeirense, deu o seu nome à travessa que liga as ruas da Carreira e Cruzes, mas
nem por isso a grande maioria dos funchalenses ficou conhecendo melhor as qualidades ou méritos que
porventura o tornaram ilustre.
Todavia, Pimenta de Aguiar, sem ser um desses escritores que assinalam uma época ou ficam imorredouros
nos anais da literatura dum país, deixou no entretanto um nome bastante distinto nas páginas da nossa
história literária, sendo até considerado por alguns como o verdadeiro precursor de Almeida Garrett na
criação do teatro nacional. Sem possuir o prodigioso e maleável talento do autor do Frei Luiz de Sousa, a
beleza inimitável da sua linguagem e as suas raras e excepcionais qualidades de dramaturgo, teve contudo a
intuição de que entre nós não havia um verdadeiro teatro e tentou, seguindo principalmente a orientação
dos trágicos franceses, despertar o gosto por este género de literatura, escrevendo muitas tragédias, que no
seu tempo tiveram grande voga e que eram reveladoras das suas notáveis aptidões como escritor dramático.
Os seus trabalhos literários continham os defeitos próprios da época, mas revelavam incontestavelmente
uma grande originalidade, afastando-se dos moldes até então seguidos, e por isso, a pesar de todas as suas
imperfeições, o público corria a ouvir as tragédias de Pimenta de Aguiar e aclamava entusiasticamente o seu
autor.
O Visconde de Almeida Garrett com as suas admiráveis produções dramáticas, criando o verdadeiro teatro
nacional relegou para o esquecimento os incontestáveis méritos do nosso ilustre patrício, não deixando
todavia de reconhecer os críticos que Pimenta de Aguiar merece ocupar um lugar distinto nos nossos anais
literários.
Manuel Caetano Pimenta de Aguiar nasceu nesta cidade a 16 de Maio de 1765 sendo filho de Bartolomeu
Luiz Pimenta de Aguiar e de D. Maria Felicia de Carvalho. Seu pai, que era doutor em direito pela
Universidade de Coimbra, veio para esta ilha exercer o lugar de curador geral dos orfãos e teve aqui a
administração duma casa vinculada.
Em 1778, tendo 13 anos de idade, partiu Pimenta de Aguiar para Lisboa, a fim de se matricular no Colégio
dos Nobres, não se sabendo se concluiu ou não ali os seus estudos. Em 1785 dirigiu-se a Paris e durante
alguns anos seguiu nesta cidade o curso de artes e ciências, abandonando depois os estudos para se entregar
aos azares da guerra, tomando parte nas revoltas internas do país pelos anos de 1790 ou 1791. Mostrou
sempre grande denodo e coragem, tendo alcançado por isso o posto de capitão e a Cruz da Legião de Honra.
Terminada a guerra e obtida a demissão do serviço militar, regressou à pátria, entregando-se
principalmente ao estudo e ao cultivo das suas predilecções literárias. Em 1816 publicou a sua primeira
tragédia a que deu o título de Virgínia, dando à luz o seu último trabalho em 1820. Foi de uma notável
fecundidade, pois que em tão curto período de tempo imprimiu dez tragédias, todas elas de relativa
extensão. Intitulam-se elas, pela ordem da sua publicação, Virginia, Os Dois Irmãos Inimigos, D. João I,
Arria, Destruição de Jerusalém, D. Sebastião em Africa, Conquista do Peru, Eudoxia Liciana, Morte de
Socrates e Carácter dos Lusitanos. Depois de 1820, e após um período de tanta actividade literária, não
consta que tivesse publicado outros escritos, não sabendo nós a que atribuir esta imprevista e absoluta
interrupção nos seus trabalhos. Ignoramos se se teria dedicado a outros géneros de literatura, além da
tragédia, constando apenas, segundo o testemunho do Inocêncio, que deixou algumas obras inéditas. Como
é próprio da tragédia e imitando os trágicos gregos e franceses. Escreveu Pimenta de Aguiar todas as suas
composições em verso, revelando-se um inspirado poeta, que à alteza dos conceitos juntava a beleza da
forma.
Apesar de haver residido fora da Madeira a maior parte da sua vida, não eram desconhecidos para os
patrícios de Pimenta de Aguiar os seus raros dotes de talento e ilustração e por isso o escolheram para seu
representante nas cortes gerais que funcionaram de 1822 a 1823, sendo também eleito deputado por esta
ilha para a sessão legislativa de 1826 a 1828. Da sua acção como parlamentar e representante deste
arquipélago em cortes, apenas sabemos, pelo que dizem as Actas das sessões públicas na primeira sessão
anual extraordinária da primeira legislatura da câmara dos senhores deputados que, na sessão de 1826 a
1828, foi assíduo às reuniões, fez parte de algumas comissões parlamentares e apresentou um projecto
permitindo a livre exportação do vinho da Madeira.
O estabelecimento do governo absoluto obrigou-o a homiziar-se para escapar às perseguições dos
emissários miguelistas, que não poderiam poupar quem fora partidário entusiasta da Constituição de 1820
e da Carta Constitucional de 1826.
Pimenta de Aguiar casou com D. Micaela Antónia de Sá Betencourt de quem teve sete filhos, sendo um Luiz
Pimenta de Aguiar, que foi desterrado para Moçambique por liberal e lá morreu, e outra D. Isabel
Betencourt de Aguiar, que casou com o morgado António João da Silva Betencourt Favila.
Pimenta de Aguiar viveu na casa da antiga rua da Carreira, onde hoje reside a respeitável família Vieira, e
que fica um pouco abaixo da Travessa que tem o nome do distinto poeta e dramaturgo. Nessa casa, segundo
informações que temos por fidedignas, escreveu ele algumas das suas tragédias.
Vitimado por um ataque apoplético, sucumbiu em Lisboa, na rua Direita da freguesia de S. Paulo, a 19 de
Fevereiro de 1832, tendo sido sepultado na igreja paroquial da mesma freguesia. Morreu com 67 anos de
idade incompletos.
O Dr. Ernesto Gonçalves publicou dois artigos no Arquivo Histórico da Madeira acerca de Manuel Caetano
Pimenta de Aguiar, que trazem novas e interessantes informações para a biografia deste ilustre madeirense.
Aguiar (D. Nuno)
O Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo nomeia-o por D. Martinho de Aguiar, mas
em várias crónicas e nobiliários e na interessante memória de Paiva Manso acerca das Esquadras de
Marrocos, é geralmente citado o seu nome como sendo D. Nuno de Aguiar. Afirma-se que nasceu na
freguesia de S. Martinho e era filho de Diogo de Aguiar e neto de João Gonçalves Zargo, primeiro capitão-
donatário do Funchal. Foi monge cisterciense e exerceu importantes cargos eclesiásticos. Acompanhou o rei
D. Afonso V á Africa na conquista de Arzila e Tanger, e sendo então criada esta ultima diocese obteve a sua
nomeação para prelado dela. Pretendeu anexar o arquipélago da Madeira ao seu bispado, mas a isso se opos
energicamente a infanta D. Beatriz, como tutora de seu filho D. Diogo, grão-mestre da Ordem de Cristo,
apoiada pelo monarca e pelos donatários desta ilha. D. Nuno de Aguiar pouco tempo permaneceu na sua
diocese e depois de vinte anos de episcopado faleceu no continente português no ano de 1491.
Aguiar (Pedro Afonso)
Era filho de Diogo Afonso de Aguiar e irmão de Rui de Aguiar.
Distinguiu-se muito como militar e marinheiro. Foi á Índia como capitão duma nau e assistiu a tomada de
Grancanar. Acompanhou o duque de Bragança na expedição de Azamor, onde deu provas de grande
heroísmo.
Aguiar (Rui Dias de)
Era filho de Diogo Afonso de Aguiar e de D. Isabel Gonçalves da Câmara,
terceira filha de Zarco. Casou com Leonor Homem de Sousa, filha de Garcia Homem de Sousa e de Catarina
Gonçalves da Câmara, filha do descobridor da Madeira. Serviu muito tempo em Africa, onde se distinguiu
pela sua bravura. Morreu valorosamente na fortaleza de Gué, defendendo-a dum ataque dos indígenas. Dele
faz menção Manuel Tomás no seu poema a Insulana.
Agulha. (Belone vulgaris)
Peixe teleósteo da subordem dos malacopterigios, familia
Escombresocida, que frequenta de passagem os mares da Madeira. O seu corpo é anguiliforme, e quando
muito poderá atingir 1 metro de comprimento.
É visto muitas vezes na companhia da cavala e outros peixes viajantes, mas não espécie comum nos
mercados. A sua carne seca e dura não o torna recomendável como alimento delicado.
V.Peixe Agulha.
Agulha. (Ponta da)
É o ponto mais meridional do arquipelago da Madeira. Fica no extremo sul do
Bugio, a mais meridional das três ilhas, que formam o grupo das Desertas.
Agulha. (Scandix Pecten-Veneris)
Planta anual da família dos Umbeliferas, frequente na
Madeira e Porto Santo. Os seus frutos são terminados em ponta ou rosto muito longo, e dai o nome de
agulha por que a planta é conhecida principalmente no Porto Santo.
Agulheira
Aparelho de pesca muito simples destinado de ordinário aos peixes da superfície ou que
nadam em meia água. Consiste apenas numa linha a cujo extremo livre está fixa um anzol, havendo no
outro extremo uma pequena tábua quadrangular, onde a linha é enrolada. Algumas vezes é aplicado ao
peixe do fundo, e então adicionam-lhe um peso nas proximidades do anzol.
Agulheta
Nome vulgar madeirense do Erodium Botrys, Bert., planta anual da família das Geraniaceas,
fácil de reconhecer pelos seus frutos acompanhados de uma ponta ou rosto muito comprido e que pode
atingir algumas vezes 12 centímetros.
Aipo (Apium graveolens)
Planta anual ou bienal da família das Umbeliferas, frequente na
Madeira e Porto Santo. Tem as folhas basilares penatisectas ou 3-sectas, com os segmentos largos, e as
caulinares 3-sectas ou inteiras; as suas umbelas são sésseis ou com pedunculos curtos, e desprovidas de
invólucro e involucelo, e os seus frutos subglobosos. A raiz e frutos do aipo são diureticos e excitantes, e as
folhas e talos podem ser comidos em sopa ou em salada. O aipo hortense não se encontra no arquipélago.
Alabama
Este celebre navio de corso, ao serviço dos insurrectos do sul da Republica dos Estados
Unidos da América, por ocasião da guerra civil que rebentou naquele país, esteve no porto do Funchal e
depois ao abrigo das costas da ilha do Porto Santo, a reparar avarias, fugido da perseguição tenaz que lhe
faziam alguns navios partidários do governo do norte.
Alagoa (Porto da)
Local de desembarque ao oeste do Bugio, (Desertas) não longe do extremo sul. A
costa forma ali um cais natural abrigado das brisas do nordeste, dando fácil acesso ás esboradiças escarpas
que se levantam a prumo sôbre o mar.
Alagoas
Pequeno planalto situado na serra do Poiso, a pequena distancia da respectiva casa de abrigo.
Álamo
Três árvores da família das Salicaceas são designadas por este nome na Madeira: o Populus alba,
de folhas branco-tomentosas na pagina inferior, muitas vezes palmatilobadas, o P. nigra var. italica, de copa
piramidal e folhas triangular-ovadas, e o P. monilifera, de copa larga e folhas semelhantes ás da espécie
precedente. A primeira, originaria da Europa, frequente na Ribeira Brava, Machico, etc.; a segunda,
originaria do Oriente, é chamada também choupo e encontra-se na Camacha; a terceira, oriunda da
América setentrional, é cultivada nalgumas praças e quintas e é boa árvore de sombra.
Os álamos multiplicam-se facilmente de estaca e a sua madeira tem varias aplicações.
Alamos
Sítio povoado da freg. de Santo Antonio do Funchal. Fica nele situada a capela de Nossa
Senhora do Amparo, construída no ano de 1698 por Bartolomeu de Sá Machado, que com o seu solar e
terrenos anexos constituíam a sede do morgadio de Água de Mel, que era uma das mais antigas instituições
Vinculares da Madeira e de que foi ultimo representante o segundo conde do Carvalhal. Neste sítio, onde
chamam o Til, havia terras vinculadas, da administração directa duma família Velosa.
Alarcão (D. João de)
D. João de Alarcão Vellasques Sarmento Osorio foi, por decreto de 5 de
Abril de 1I885, nomeado governador civil da Madeira e tomou posse do lugar a 8 de Maio do mesmo ano.
Foi deputado pela Madeira na sessão legislativa de 1894 a 1895.
Exerceu elevados encargos e entre eles o de ministro da justiça. Morreu a 13 de Setembro de 1918.
Foi o fundador da Sopa Económica (V. este nome).
Alardo
Era uma antiga revista ou formatura de gente armada, que na Madeira costumava ser passada
pelos capitãis donatarios antes da criação das tropas milicianas.
Albafar (Notidanus griseus)
Esqualo da família Notidanida abissal, muito voraz e de que
apenas utilizam o fígado para a extracção do chamado azeite de peixe. Alguns indivíduos chegam a render
10 galões de óleo. A carne é rejeitada por ser das mais ruins que o grupo dos esqualos pode fornecer.
Albergaria (Manuel José Soares de Lobão e)
Foi corregedor na Madeira, e remeteu ao
Conde de Subserra em 5 de Dezembro de 1823 uma memória sobre o estado e melhoramentos da ilha.
Albergaria e Capela de S. Bartolomeu
Adjunta á igreja do mesmo nome e fundada por
Gonçalo Anes de Velosa em 1497, para clérigos pobres.
Ali estiveram os primeiros jesuítas antes da fundação do Colégio. Foi visitada pelo beato mártir Fr Inacio de
Azevedo. Ficava situada na rua Direita, que então se estendia pela margem esquerda da ribeira de Santa
Luzia até ás proximidades da actual Ponte do Torreão.
V. Anes (Gonçalo).
Albers (Joan. Christ.)
Naturalista alemão que esteve na Madeira de Outubro de 1850 a Junho de
1851. E.: Malacographia maderensis, Berolini, 1854.
Albertis (Capitão Eurico)
Coligiu algas na ilha da Madeira, no ano de 1882. As suas colecções
foram estudadas por Piccone dois anos mais tarde.
Albizzi (Marquis de gli)
E.: Six mois à Madère (Tour du monde, LVII, 1465 e 1566 livraisons); e
Madère, guide pratique pour malades et touristes (Zurique, 1891).
Álbum Literário
É um volume de 200 paginas, publicado no Funchal em 1885, contendo diversos
escritos em prosa e em verso.
Álbum Madeirense
Poesias de diversos autores madeirenses, colegidas por Francisco Vieira.
Funchal, 1884, I vol. de 225 paginas.
Albuquerque
É nobre e antigo apelido de família nesta ilha. Provém de D. Sebastiana de
Albuquerque, que casou com Jacinto de Freitas, da casa dos Freitas da Madalena, pelos anos de 1570. Esta
D. Sebastiana procede de D. Afonso Teles de Meneses, povoador da vila de Albuquerque em Espanha.
Albuquerque (Alexandre de Moura e)
Nomeado governador e capitão general da Madeira
a 21 de Abril de 1676, havendo tomado posse a 9 de Junho do mesmo ano.
Albuquerque (Diogo Vieira de Tóvar e)
E.: Descripção Política e Económica da Ilha da
Madeira (1807). Este trabalho nunca foi publicado.
Albuquerque (João Saldanha de)
Em Julho de 1672 foi nomeado governador e capitão
general deste arquipélago, tendo tomado posse a 20 de Outubro do mesmo ano. Por acusações feitas ao
governo da metrópole veio á Madeira sindicar dos seus actos o desembargador Manuel Soares Dourado.
Albuquerque (Luiz da Silva Mousinho de)
Este ilustre literato e homem de ciência, que
muito se distinguiu na política e nas nossas lutas civis, foi o primeiro governador deste arquipélago depois
da implantação do governo constitucional. Na nova divisão administrativa, a Madeira ficou considerada
como uma prefeitura e Mousinho de Albuquerque foi nomeado prefeito por decreto de 30 de Junho de
1834, tendo tomado posse a 6 de Agosto do mesmo ano. Foi curta a sua administração, pois deixou o
governo da Madeira a 30 de Setembro de 1835, tendo saído para Lisboa a 11 de Novembro do referido ano a
sobraçar uma pasta de ministro.
No entretanto deixou assinalada a sua passagem nesta ilha, pela imparcialidade e justiça com que exerceu o
seu elevado cargo, pelas reformas que introduziu em muitos serviços públicos e pela grande protecção que
dispensou á criação dum asilo para orfãos, que teve pequena duração depois da sua saída da Madeira.
Foi deputado por esta ilha nas legislaturas que decorreram de 1834 a 1840.
Em 1837 publicou uma interessante memória intitulada Observações para servirem para a história
geológica das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas.
Mousinho de Albuquerque veio á Madeira por mandado de D. Pedro IV em 1832, a fim de ocupar esta ilha
então em poder dos miguelistas, mas não o podendo conseguir, desembarcou no Porto Santo e ali
aproveitou os seus ócios escrevendo o poema Ruy o Escudeiro, que publicou anos depois. (V. Ocupação do
Porto Santo pelas tropas constitucionais).
Como é sabido, Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque morreu, em 1846, dum ferimento recebido no
recontro de Torres Vedras, por ocasião da guerra civil que então assolava o país.
Albuquerque (Major Joaquim Mousinho de)
Chegou ao Funchal, vindo de
Moçambique, onde desempenhara o cargo de comissário régio, a 7 de Dezembro de 1897, tendo aqui uma
brilhante recepção. Houve em sua honra um jantar no Palácio de S. Lourenço, musica e iluminação no
Jardim Municipal e uma marche Aux flambeaux, promovida pela classe académica. Partiu para Lisboa a 12
de Dezembro.
Albuquerque (Manuel Saldanha da Gama)
Foi nomeado governador e capitão general
da Madeira a 6 de Março de 1754 e tomou posse a 16 de Maio do mesmo ano. Chamado a Lisboa em
Fevereiro de 1757 para exercer um importante cargo, foi feito Conde da Ega e em seguida nomeado vice-rei
da Índia. Acusado de ter cometido abusos no exercício deste cargo, foi preso e só depois da sua morte é que
uma sentença dos tribunais reabilitou a sua memória. Morreu a 6 de Dezembro de 1771.
Quando se ausentou desta ilha para Lisboa foi substituído no governo da Madeira pelo bispo diocesano D.
Gaspar Afonso da Costa Brandão em conformidade com as leis então vigentes.
Alcachofra (Cynara Cardunculus subesp. Scolymus)
Planta da família das
Compostas cultivada nalgumas hortas da Madeira. 0 receptáculo dos seus capítulos muito grandes e a parte
carnuda das brácteas do invólucro, comem-se cozidos e tem sabor agradável.
Alçadas
Acontecimentos extraordinários, geralmente de caracter político, que se consideravam
atentatórios das leis ou das instituições vigentes, determinaram a criação de tribunais especiais, que,
munidos de poderes por vezes discricionários, procediam a devassas rigorosas e proferiam as suas
sentenças nos próprios lugares em que se tinham dado os abusos ou os factos incriminados. Á Madeira
vieram várias vezes esses improvisados mas terríveis tribunais e em algumas circunstancias apenas
magistrados com poderes mais latos do que os ordinários, para sindicar e julgar acerca de crimes ou
acontecimentos considerados pelo poder central como dignos de mais eficaz e exemplar castigo. Nas
Saudades da Terra fazem-se menção dalgumas dessas alçadas e de vários magistrados que aqui vieram
investidos de poderes extraordinários para o julgamento de certas causas e já a isso nos referimos no artigo
Administração Judicial.
Parece que até o domínio filipino, não era tão latitudinaria a esfera de acção desses magistrados nem os
seus poderes eram tão ilimitados, porque os tolhiam e embaraçavam as extraordinárias prerrogativas e
privilégios quasi majestáticos de que gozavam os donatarios, que muitas vezes impunham despoticamente a
sua interferência, cerceando com violências e vexames a jurisdição das alçadas. É certo que o poder real e
outras circunstancias, como já fizemos sentir, diminuíra gradual e consideravelmente o poder dos capitais
donatarios, mas os usos e costumes tradicionais, os antigos privilégios e talvez mais ainda a distancia a que
ficava o governo central, favoreciam o abuso de autoridade, que de quando em quando se manifestava.
Daremos rápida noticia de algumas alçadas ou magistrados que, com iguais poderes, vieram a este
arquipelago, a partir do jugo espanhol, detendo-nos particularmente nas ominosas alçadas que em 1823 e
1828 praticaram entre nós os maiores vexames e as mais inqualificaveis represálias.
0 desembargador João Leitão (V. este nome), o primeiro governador da Madeira no domínio filipino, veio
com poderes discricionários para julgar das pessoas que se tivessem mostrado desafectas a Filipe 21, mas
ignoramos como procedeu no desempenho dessa missão e que sentenças chegou por ventura a proferir.
Noutro lugar alguma cousa diremos acerca do governo filipino nesta ilha, que é um período muito
interessante da nossa historia, mas é certo que escasseiam os elementos para um estudo completo sobre o
assunto, a começar pelos actos da alçada de que foi encarregado o Dr. João Leitão.
Ainda por motivo de manifestações hostis ao governo dos Filipes, foi enviado ao Funchal em 1611 o
desembargador Francisco Cardoso, ignorando-se o resultado da alçada de que veio investido. Sabe-se
apenas que foi superiormente repreendido o governador-geral de então, por se intrometer nas atribuições
da alçada.
Em 1614 e já anteriormente foram feitas serias acusações contra a má administração das cousas públicas
nesta ilha, de alguns casos de morte e ainda de outros graves abusos e escândalos, o que determinou Filipe
III, por carta regia de 29 de Novembro daquele ano, a nomear o Dr. Gonçalo de Sousa, desembargador da
Casa da Suplicação, para vir á Madeira, com o poder de alçada, a fim de julgar e sentenciar acerca daquelas
acusações e castigar os criminosos. Baldado foi o trabalho da devassa, porque os atingidos por ela fugiram e
homiziaram-se, subtraindo-se á acção da justiça.
Parece que estes crimes eram da maior gravidade, porque tendo ficado impunes, veio uma nova alçada a
esta ilha, passados 13 anos, para dar cumprimento ás sentenças preferidas pelo desembargador Gonçalo de
Sousa. Desta alçada foi encarregado, por carta régia de 13 de Outubro de 1627, o Dr. Estevão Coelho de
Meireles, que também veio sindicar de outros crimes praticados posteriormente ao ano de 1614. Tinha este
magistrado poderes muito latos, devendo apenas as sentenças de morte ser homologadas pela Casa da
Suplicação. No processo da devassa teve como ajudante o juiz dos resíduos deste arquipélago.
Desconhecemos a natureza das sentenças proferidas e se chegaram a ser executadas.
Morreu assassinado nesta ilha, pouco depois da libertação de Portugal do jugo castelhano, o corregedor da
Comarca Gaspar Mousinho, sendo para nós desconhecidas quaisquer circunstancias pormenorizadas deste
triste acontecimento. Por tal motivo veio em devassa á Madeira no ano de 1644 o desembargador Jorge da
Costa Osorio, que proferiu sentença, mas que desconhecemos qual fosse.
A sedição popular que em 1668 depois o governador e capitão general D. Francisco de Mascarenhas, o
prendeu e o sujeitou aos maiores vexames, determinou a vinda a esta ilha duma alçada investida de poderes
extraordinários, presidida pelo Dr. João de Menezes Coutinho, que no ano de 1669 procedeu aos trabalhos
da devassa. Para evitar escusadas repetições, remetemos o leitor para o artigo Sedição de 1668, onde este
assunto vem mais largamente esplanado.
Com jurisdição especial, em forma de alçada, esteve na Madeira em 1683 o desembargador Domingos de
Matos Cerveira, que veio devassar acerca das graves acusações feitas ao provedor e outros oficiais de
fazenda.
Deram-se graves conflitos entre o prelado diocesano D. Fr. José de Sousa Castelo Branco e o governador e
capitão general João da Costa e Ataíde e o provedor da Fazenda Manuel Mexia Galvão, tendo o governo
central mandado sindicar do caso em 1702 pelo desembargador Diogo Sálter de Macedo, que proferiu
sentença, ordenando que o provedor fosse “asperamente repreendido» em câmara, na presença dos oficiais
dela, e mandado depois para fora da cidade, por tempo que não podemos precisar.
Alçada de 1823. A revolução que rebentou no Porto a 24 de Agosto de 1820 arvorou o sistema de governo
representativo, tendo as cortes constituintes, que funcionaram de 1821 a 1822, organizado e decretado a
chamada Constituição de 1822. No arquipélago da Madeira proclamou-se o novo governo a 28 de Janeiro de
1821.
Em Junho de 1823 foram dissolvidas as cortes, derrogada a Constituição e restabelecido o governo absoluto.
No dia 26 de Agosto de 1823, chegou á Madeira a fragata de guerra Amazonas, conduzindo o novo
governador deste arquipélago D. Manuel de Portugal e Castro, que era acompanhado pelo regimento de
infantaria n.° 7, por um destacamento de artilharia e por uma alçada composta de seis magistrados, a qual
vinha sindicar dos actos das pessoas que se tinham mostrado desafectas ao governo absoluto e aderido ao
governo constitucional.
O governador e as tropas desembarcaram no próprio dia da sua chegada, mas os juízes da alçada, receando
qualquer manifestação hostil por parte da população, aguardaram para o dia imediato o seu desembarque.
Sucede, porém, que, na noite daquele dia, se desencadeou uma repentina tempestade que obrigou a fragata
a levantar ferro, regressando ao porto três dias depois.
A alçada era composta pelo desembargador Dr. José de Melo Freire, que servia de presidente, e dos juízes
Drs. José Fernandes da Silva Geraldes Quelhas, Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio e Mendonça, José
Freire de Andrade, Francisco Antonio de Castro e José Peixoto Sarmento de Queiroz, que tinham como
auxiliares o juiz de fora e o corregedor da comarca. Instalaram o seu tribunal nos paços do concelho e aqui
permaneceram no exercício do seu rigoroso inquérito de 30 de Agosto até os primeiros dias do mês de
Novembro de 1823.
Na larga devassa a que procederam, foi envolvido um numero considerável de pessoas, tendo o medo
avassalado o espírito publico e receando muitos uma severa condenação. Depuseram muitas dezenas de
testemunhas, formando-se um longo e volumoso processo. A sentença foi proferida a 26 de Outubro, sendo
condenado 24 indivíduos, na sua quasi totalidade pertencentes ás classes mais categorizadas da sociedade
madeirense. Foram aplicadas várias penas, salientando-se os castigos de degredo e de desterro para as
nossas possessões ultramarinas.
Entre as pessoas sentenciadas por esta alçada, mencionaremos o ilustre autor da Zargueida, Francisco de
Paula Medina e Vasconcelos condenado a oito anos de degredo para Angola, o abalizado medico Nicolau
Caetano Betencourt Pita, redactor do Patriota Funchalense, o primeiro jornal que se publicou no Funchal,
condenado a quatro anos de desterro para a ilha Terceira, tendo ali falecido em 1857, o distinto advogado e
cónego da nossa Sé Dr. Gregorio Nazianzeno de Medina e Vasconcelos condenado a dez anos de degredo
para Angola, o corregedor da comarca Dr. Francisco de Assis Saldanha condenado a prisão no castelo de
São Jorge, em Lisboa, o vigário do Campanário Tomé Pestana Homem de el-rei, os capitais Joaquim M.
Gonçalves, João José de Sá Betencourt e Antonio João Favila condenados a diversas penas, além de outros
indivíduos.
A sentença da alçada, que é documento extenso, foi publicada num folheto e vem também inserta no
Archivo de Marinha e Ultramar, vol. II, pag. 98 e seguintes.
Alçada de 1828. O governador e capitão general da Madeira José Lúcio Travassos Valdez era partidário dos
princípios constitucionais e por todos os meios ao seu alcance promovia a sua implantação entre nós. No dia
22 de Junho de 1828, desprezando as ameaças do governo de D. Miguel, fez proclamar com grande
solenidade oficial e diversos festejos públicos os direitos de D. Pedro IV e da sua filha D. Maria, o que em
extremo irritou os partidários do governo absoluto. A atitude de Valdez determinou a vinda á Madeira duma
esquadra, com o novo governador José Maria Monteiro, que atacou esta ilha e a rendeu ás forças
miguelistas como em outro lugar narraremos. (V. Ocupação da Madeira pelas tropas miguelistas).
O governo central, por carta regia de 6 de Agosto de 1828, encarregou o desembargador da Casa da
Suplicação Francisco Antonio Maciel Monteiro de vir a esta ilha proceder a uma rigorosa devassa acerca dos
acontecimentos políticos que aqui se haviam dado e de castigar severamente os que se tinham mostrado
desafectos aos princípios do governo absoluto. Foi dado como escrivão dessa devassa, não um funcionário
judicial qualquer, mas o desembargador da relação do Porto Dr. Manuel Luciano Abreu de Figueiredo. Os
dois desembargadores vieram na esquadra e desembarcaram no Funchal no dia 25 de Agosto.
Os trabalhos da devassa começaram a 30 de Agosto e prosseguiram durante alguns meses. A 6 de Setembro,
isto é 8 dias depois da alçada iniciar a sua investigação judicial, já se encontravam presos 51 indivíduos na
cadeia da cidade, 15 na fortaleza de S. Tiago, 16 na fortaleza do Pico, 4 no forte do Ilhéu, 45 a bordo da
fragata Príncipe D. Pedro, 15 a bordo da corveta Princesa Real, e 21 eclesiásticos no Aljube. Foi considerável
o numero de homiziados em toda a ilha, procurando alguns esconderijo em lugares distantes e com a mais
absoluta falta de comodidades, até que a muitos foi possível procurar no exílio uma relativa tranquilidade
aos perigos que os ameaçavam. O governador e capitão general Travassos Valdez, os oficiais vindos de
Inglaterra e vários madeirenses refugiaram-se a bordo da corveta de guerra inglesa Alligator (V. este nome).
A alçada pronunciou cerca de 220 indivíduos, alguns dos quais obtiveram soltura por nada se ter provado
contra eles. Foram remetidos presos para Lisboa, para se lhes dar ulterior destino, 77 indivíduos dos que
haviam sido pronunciados e que foram condenados a diversas penas de prisão e degredo.
Alcoforado
É apelido antigo e nobre, mas extinto ha muito na Madeira. 0 primeiro que entre nós usou
dele foi Gonçalo Pinto Alcoforado, que veio para esta ilha pelos anos de 1500 e estabeleceu residência em
Machico, onde morreu, tendo ali instituído um morgadio.
Alcoforado (Francisco)
Escudeiro do Infante D. Henrique. Escreveu a Relação do
Descobrimento da Ilha da Madeira, que nunca foi impressa e de que D. Francisco Manuel de Melo dizia ter
em seu poder o original, como jóia preciosa. Ha uma tradução francesa desta obra, com o seguinte título:
Relation historique de la découverte de l'isle de Madère, Paris 1671. Também foi traduzida em inglês, sob o
título seguinte: The First discovery of the island of Madeira, Londres, 1675.
A tradução francesa de 1671 foi reproduzida numa edição feita em Paris há cerca de 50 anos, que por visível
engano traz a data de 1671, quando deve ser de mil oitocentos e sessenta e tantos.
Inocencio dá noticia doutra tradução inglesa, que existe no Museu Britanico diversa da que fica mencionada
e que se intitula An Historical Account of the discovery of the Island of Madeira abridged from the
Portuguese original, to which is added an Account of the present state of the Island, in a Letter to a Friend.
London, 17 50. Esta versão é com todo o fundamento atribuída ao Dr. Johns.
Alcaide-mor
O donatario do Funchal era o alcaide-mor na capitania, mas o governo filipino entregou
a guarda do castelo aos seus delegados no arquipélago, os quais por este facto passaram a usar daquele
título. As atribuições destes novos alcaides foram fixadas pelo regimento de 5 de Dezembro de 1603,
registado no Arquivo da Câmara, tendo sido o governador-geral João Fogaça o primeiro alcaide-mor
nomeado pelo referido governo.
Os alcaides tinham a carceragem dos presos e a metade das multas, além de outras receitas indicadas no
regimento.
0 donatario do Funchal passou a ser simples alcaide-mor na capitania, desde a extinção da donataria em
1766, mas os seus direitos e atribuições eram muito diferentes das dos alcaides-mores criados pelo governo
castelhano.
V. Municípios e Donatários.
Alcaide (Ribeiro do)
Pequeno ribeiro da freguesia da Ponta do Pargo, que desagua no Oceano.
Alcaides
O alcaide do Funchal era nomeado pela Câmara, mas enquanto existiram as capitanias, a
nomeação para tal cargo só podia recair num dos três indivíduos propostos pelo donatario. Este foi por
largos anos o alcaide-mor, e por isso se dava muitas vezes a denominação de alcaide-menor ao funcionário
nomeado pelo Senado, o qual acumulava funções distribuídas hoje pelo Administrador do Concelho e pelo
Comissário de Policia.
Havia alcaides em Câmara de Lobos, na Ribeira Brava e no Caniço, nos tempos em que estas localidades
pertenciam ao Município do Funchal, mas as atribuições destes funcionários, nomeados também pela
Câmara, deviam regular pelas dos actuais regedores de paróquia.
O último alcaide do Funchal foi José Luiz Brandão, nomeado em 1832.
Álcool
O álcool usado desde velha data no tratamento dos vinhos tradicionais da Madeira e que a estes
confere o sabor e o “bouquet” especiais que os caracterizaram, provinha principalmente da destilação
directa da cana ou dos melaços do fabrico do açúcar. A cana Bourbon dava em cada 34 quilogramas um
galão de aguardente em 30 graus Cartier, sendo esta aguardente vendida a l.000 réis o galão, para os
vinhos, muitos dos quais eram exportados para o estrangeiro. Também se extraia algum álcool de melaço
importado, o qual estava sujeito ao direito de 23 réis por quilograma.
Com o desaparecimento da cana sacarina da Madeira, passou esta ilha a importar álcool dos Açores,
continuando porém a mandar vir muito melaço do estrangeiro, para o fim indicado. Em 1900 importava a
Madeira ainda cerca de 2.000 ponches de melaço (o ponche comporta 100 a 120 galões), cada um dos quais
produzia 40 a 50 galões de álcool em 40 graus (restilo).
0 decreto de 24 de Setembro de 1903 reduziu a 6 réis o direito de 30 réis que era exigido pelo decreto de 30
de Setembro de 1895 por cada quilograma de melaço estrangeiro importado para álcool, e o decreto de 11 de
Março de 1911 manteve essa redução, nos casos de haver falta de álcool de cana, ou dos resíduos do fabrico
do açúcar não chegarem para a extracção do álcool destinado ao tempero dos vinhos. Estabeleceu mais este
ultimo decreto que o preso do álcool destinado ao tratamento dos vinhos não poderia ser superior a 2,60
réis por grau centesimal e por litro á temperatura de 15 graus.
Só ás empresas que se dedicam á indústria de açúcar e álcool na Madeira é, permitido, pelo regime em
vigor, produzir álcool para vinificação e para os usos farmacêuticos. É produto que se distingue pela sua
excepcional pureza.
“0 decreto n.° 23.847, de 14 de Maio de 1934, só permite a destilação do alcool directamente do sumo da
cana quando não haja ou se preveja que não haverá residuos do fabrico do açúcar para o álcool necessário. 0
decreto n.° 27.912, de 31 de Julho de 1937, no intuito de promover um justo equilíbrio entre os preços da
cana sacarina e os do álcool e aguardente, fixou o preso de 7$50 por cada litro de álcool vendido pela fabrica
ao armazém central da Alfândega, que o fornecerá, por seu turno, aos viticultores, aos exportadores de
vinho e ás farmácias, com o aumento de $50 por litro.
As quantidades de álcool produzidas pelas fabricas matriculadas nos anos de 1912 a 1917, constam do mapa
seguinte:
1912...............729.543 LITROS
1913...............769:064 “
1914...............737:725 “
1915...............552:901 “
1916...............813:235 “
1917...............497:505 “
O decreto de 11 de Março de 1911 e o Regulamento de Produção e do Comercio de Vinhos da Madeira,
aprovado Por decreto de 8 de Novembro de 1913, fixaram em 55 litros a quantidade de álcool a usar em
cada 500 litros de vinho, mas convém notar que o vinho não destinado á exportação sofre muitas vezes uma
alcoolização incompleta, havendo casos em que não se lhe adiciona álcool algum. 0 regulamento de 11 de
Março de 1909 tinha limitado a 50 litros por cada 500 de vinho, a venda de qualquer álcool para vinificação.
Aldeia da Rainha
Povoação criada na freguesia de Santo Antonio da Serra no tempo de D. Maria I,
com famílias vindas da ilha do Porto Santo, que não teve larga duração.
Vid. Santo da Serra.
Aldonça (Calhau e Porto da)
Pequeno porto servido por uma praia de curta extensão na costa
da freguesia de Gaula.
Aldromar
O biscainho João Martins de Aldromar, que em 1500 residia na freguesia de Câmara de
Lobos, foi a primeira pessoa de que ha noticia ter usado deste apelido na Madeira. Parece-nos que é apelido
extinto neste arquipélago.
Alealdador
Cargo criado por D. Manuel I. Era uma espécie de juiz em questões de açúcar. Tinha sob
as suas ordens os estimadores de canaviais e os estimadores dos acusares.
Alecrim da Serra (Thymus caespititius)
Labiada lenhosa e prostrada, muito frequente no
Paul da Serra. Tem folhas quasi lineares e corolas rosadas, raras vezes brancas.
Alecrim de Nossa Senhora (Eriocephalus sericeus)
Pequeno arbusto da família das
Compostas, cultivado na Madeira. É originário do Cabo da Boa Esperança, e os seus ramos guarnecidos de
folhas lineares, ás vezes 3-fendidas, servem para a preparação de banhos aromáticos.
Alecrim (Rosmarinus officinalis)
Arbusto da família das Labiadas, muito cultivado nos
jardins da Madeira. É muito aromático, e a infusão das suas folhas é bastante empregada em banhos e
fomentações, podendo servir ainda, quando usada internamente, para combater o fastio, as tosses e a
clorose. Entre a gente pobre é uso queimar ramos de alecrim para beneficiar o ar das habitações.
Alecrins
Sítio da freguesia de Santo Antonio do Funchal, onde existiu a capela de Nossa Senhora da
Quietação edificada em 1670, por Lourenço de Matos Coutinho, que nela fez sede do morgadio dos Alecrins
instituído no ano de 1577, sendo hoje o Dr. Rui Betencourt da Câmara o representante desta casa vinculada.
Alegra-campo (Semele androgyna)
Arbusto da família das Liliaceas, subfamilia das
Asparagoideas, muito cultivado nas quintas e jardins da Madeira, e que aparece no estado espontâneo
nalgumas ravinas do interior. Os seus ramos longos e abundantemente providos de ramusculos guarnecidos
de cladodios grandes e ovados, ovado-lanceolados ou lanceolados, são muito ornamentais, e servem para
guarnecer as paredes dos templos, quando há festividades religiosas, e ainda para alguns outros fins. 0
alegra campo de folha miúda é o Asparagus asparagoides, planta originaria do Cabo da Boa Esperança e
pertencente á mesma família e subfamilia.
Alegria
Neste sítio da freguesia de São Roque do Funchal encontra-se a capela de Nossa Senhora da
Alegria, fundada em 1609, por Francisco de Abreu, a qual se incorporou na casa Torre Bela, a que ainda
hoje pertence.
Alemanio Fini
Escreveu uma obra com o seguinte título: Descritione dell Isola d'illa Madera scrita
nella lingua latina del Conte Giulio Landi, Piacenza, 1574.
Alemão (Henrique)
O apelido de Alemão, hoje extinto, diz o anotador das Saudades da Terra
seguindo os nobiliarios *procede de Henrique Allemão, personagem legendário dos primitivos tempos da
colonização desta ilha da Madeira. Delle se dizia que era príncipe polaco, e que, perdida em 1444 a batalha
de Varna por Ladislao IV contra Amurato II, fizera voto de peregrinar a terra, e fora armado cavalleiro de
Santa Catarina do Monte Sinae. Vindo á ilha da Madeira, João Gonçalves Zargo lhe deu, no sítio depois
chamado a Magdalena do Mar, largo terreno de sesmaria, por carta que foi confirmada pelo Infante D.
Henrique em 29 de Abril de 1457, e por D. Afonso V em 18 de Maio do mesmo ano. Com effeito, Henrique
Allemão ahi fundou grande fazenda povoada, com capela de invocação de Santa Maria Magdalena, da qual
veio o nome ao logar. Casou com Senhorina Anes, e morreu desastradamente esmagado por uma quebrada
que do Cabo Gyrão cahiu sobre o barco em que elle hia da cidade do Funchal para a Magdalena. Sua mulher
casou depois com João Rodrigues de Freitas. Ainda agora ha, acima da villa da Ponta do Sol, a Fajã do
Allemão, que o povo corruptamente denomina do Limão”.
Alencastre (D. Mariana de Vasconcelos e Câmara)
Foi donataria do Funchal em
1666, e intitulava-se: Marquesa e Condessa de Castelo Melhor e de Vila Nova da Calheta, Senhora das Vilas
de Figueiró e Pedrogam Grande, e Governadora da Justiça e Fazenda da Ilha da Madeira e cidade do
Funchal. Casou com João Rodrigues de Vasconcelos, 2.° Conde de Castelo Melhor.
V. Castelo Melhor.
Alexandre (Príncipe)
O príncipe Alexandre dos Países Baixos chegou á Madeira na fragata
holandesa Príncipe de Orange, a 20 de Novembro de 1847, e aqui faleceu na quinta de Tomaz Burnett, em
Santa Luzia, a 20 de Fevereiro de 1848, tendo o seu cadáver sido levado para bordo do vapor holandês
Phoenix a 3 de Abril do mesmo ano, que o conduziu á Holanda.
Alface (Lactuca sativa)
Composta liguliflora muito cultivada nas hortas madeirenses. 0 suco
obtido por incisões transversais feitas nos caules da alface na época da floração, tem nas farmácias o nome
de lactucario, e pode ser empregado nalguns casos como sucedâneo do ópio. A água destilada da alface tem
emprego como veículo de certas poções calmantes.
Alfândegas
O rápido desenvolvimento comercial e agrícola que teve a Madeira logo após a descoberta
determinou sem demora o estabelecimento de alfândegas ou postos fiscais em diversas povoações do
arquipélago, que pela sua importância e movimento impunham a necessidade dessa criação.
Por meado do segundo quartel do século XV principiar a arrecadar-se no Funchal os primeiros impostos ou
tributos alfandegários, embora a criação da alfândega só se realizasse no começo do último quartel do
mesmo século. Essa arrecadação estava cometida a um almoxarife, que era o cobrador dos impostos da
fazenda real e que tinha como auxiliares quatro indivíduos, a que então se chamava homens del-rei;
percebendo cada um o vencimento anual de 20$000 réis.
É datado de 15 de Março de 1477 o diploma que estabeleceu a alfândega do Funchal, sendo portanto a mais
antiga repartição publica de todo o arquipélago. Foi D. Beatriz mãe de D. Manuel, duque de Beja e grão-
mestre da ordem de Cristo a que esta ilha pertencia, que, como tutora do seu filho e em atenção ao notável
desenvolvimento que estava tomando a então vila do Funchal, resolveu a criação da alfândega, ignorando
nós as condições em que essa criação se deu, no que diz respeito á latitude das suas atribuições fiscais, ao
seu pessoal e funcionamento e ainda ás suas receitas de importação e exportação. Sabemos que, para dar
execução á carta regia de 15 de Março de 1477, mandou a infanta D. Beatriz a esta ilha o seu contador Luiz
de Atouguia com os necessários poderes e instruções para arrendar casa apropriada, nomear o
indispensável pessoal e organizar os diversos serviços, para o regular funcionamento da mesma alfândega.
Também sabemos que o almoxarife e os quatro homens del-rei ficaram incorporados no seu pessoal.
Poucos dados possuímos para nos referirmos a esta casa fiscal nos tempos primitivos da sua criação.
Sabemos apenas que em 1481, quatro anos depois dela começar a funcionar, foram os moradores do
Funchal isentos do pagamento do imposto que se cobrava sôbre certas mercadorias.
0 cargo mais importante era o de juiz, e o primeiro que exerceu este lugar foi Francisco Alvares, nomeado
para ele em 1494. Passou este cargo, em ano que não podemos determinar precisamente, a ser o de
provedor da fazenda real em todo o arquipélago ou foi cumulativamente exercido com ele, sendo um dos
mais importantes lugares que então havia nesta ilha. 0 desembargador Dr. João Leitão (V. este nome), que
foi o primeiro governador geral mandado para este arquipélago pelo governo filipino, quando, em 1582,
deixou este lugar, assumiu o cargo de provedor da fazenda real, em virtude do alvará régio de 5 de Janeiro
de 1582. D. Filipe 21 reuniu em 1597 o lugar de provedor ao de corregedor, sendo então provido nele o
bacharel André Lobo. Em 1650 já estavam os dois cargos sendo desempenhados separadamente.
Por alvará régio de 6 de Abril de 1775, extinguiu D. José o cargo de provedor da fazenda, criando em sua
substituição a Junta da Real Fazenda, estabelecendo-se então o lugar de juiz da alfândega, sendo para ele
nomeado Domingo Afonso Barroso, que antes servira já de provedor.
Damos em seguida a relação completa dos juízes da nossa alfândega, desde Francisco Alvares, que acima
citámos, até Domingo Afonso Barroso, que acabámos de indicar, com as datas das suas respectivas
nomeações. São eles: Francisco Alvares (1494), João Rodrigues Parada (1498), João Leite (1508), Cristovão
Esmeraldo (1550), Pedro Fernandes (1555), Lourenço Correia (1559), Diogo Luiz (1560), Leoniz Simões
(1563), Luiz Preto (1567), Pedro de Castilho (1577), Antonio de Carvalho (1579), João Leitão (1582),
Domingos Vaz (1585), Antonio de Melo (1590), Bernardo Fernandes Tinoco (1596),André Lobo (1597),
Baltazar Fróis (1599), Manuel Araújo de Carvalho (1606), Antonio Gomes Rodovalho (1615), Antonio
Antunes Leite (1618), Luiz da Cunha (1621), Manuel Dias de Andrade (1628), Manuel Rodrigues Pereira
(1634), João Rodrigues de Teive (1638), Manuel Vieira Cardoso (1639), Marcos Correia de Mesquita (1643),
Francisco de Andrade (1647), Ambrosio Vieira de Andrade (1683), Manuel Mexias Galvão (1700), Francisco
Torres Pinheiro (1703), Luiz de França Pimentel (1707), João de Aguiar (1710), José de Sequeira (1715),
José Rebelo de Vadre (1727), Jorge Vieira de Andrade (1731), Manuel Teixeira de Castro (1745), Domingos
Afonso Barroso (1757 a 1768).
Temos conhecimento de outros cargos, mas ignoramos as datas das suas criações. Em 1752 já havia o lugar
de porteiro, que era então um cargo de importância e a que andava anexo o de guarda-livros. Este foi
separado daquele em 1741, ficando desde então constituindo um novo lugar. 0 emprego de escrivão da Mesa
Grande existia já em 1526 e o de primeiro feitor em 1592. Havia também os lugares de escrivão da marcas,
selador, patrão-mor da Ribeira e capitão da fragata, segundo escrivão da Mesa Grande, amarrador de navios
quintador do açúcar e ainda outros. Teve oito guardas desde os fins do século XV, que em 1763 foram
elevados a 12.
“Temos como fora de duvida, diz o ilustre anotador das Saudades da Terra, que o arrendamento foi o
primeiro systema de arrecadação fiscal adoptado nestas ilhas, e, por conseguinte, no ultramar: do que nos
persuadem não só a supracitada carta de 15 de Março de 1477, que por duas vezes alude a rendeiros fiscais,
uma em relação ao juízo dos seus feitos, outra para que não opprimam os moradores, mas também as
positivas referências que no primeiro livro das vereações da Câmara do Funchal (1471 e 1472) se lêem a
contractos desta natureza, já quanto aos direitos do assucar, de que então eram contractadores o genovez
Micer Leão, Martim Annes, Alvaro Esteves e Fernão Nunes; já quanto ao dizimo das madeiras, de que era
rendeiro João Garcia; já quanto ao trigo, que Martim Luiz tinha por avença; já quanto ao rendimento do
verde, e outros».
Este processo de arrendamento continuou, embora com algumas variantes, ainda depois da reforma feita
por D. Manoel no princípio do século XVI, tornando-se a alfândega do Funchal o principal centro da
cobrança dos direitos da fazenda real, isto é arrecadando-se ali outros impostos e outras contribuições que
até então eram cobrados por diversas entidades oficiais e que não constituíam tributos propriamente
alfandegários no sentido em que hoje os tomamos, como se pode ver no foral dado por D. Manuel á cidade
do Funchal e vilas da Ponta do Sol e Calheta em 6 de Agosto de 1515.
Não sabemos até quando perdurou este sistema de arrendamentos dos direitos cobrados na alfândega, mas
cremos que teve larga duração, havendo no entretanto dentro desse período, e por várias vezes, a
arrecadação sido feita directamente pelos empregados alfandegários ou cobradores das rendas reais. Assim
vimos algures que em 1772 Inacio Pedro Quintela “arrematou os rendimentos da alfândega por tempo de
seis annos, por quarenta contos de reis, e o mesmo se deu em outras ocasiões.
O alvará régio de 15 de Janeiro de 1512 fez aumentar bastante o movimento da alfândega do Funchal e
cercear notavelmente o das outras alfândegas, pois que estabelece a expressa proibição da saída do açúcar,
então a mais importante e rica produção de toda a ilha, a não ser pela alfândega desta cidade. O motivo
desta proibição di-lo claramente a citada carta régia: “...recebemos muyta perda & se furtam & sonegam
nossos direytos por se despacharem em muytos logares apartados e por muytos oficiaaes & nom he rezam
que por ello nos percam...”
Só procedendo a um demorado estudo, para o qual não nos sobra tempo e também escasseiam os elementos
indispensáveis, se poderia dar uma ideia detalhada das vicissitudes por que tem passado a nossa alfândega,
no que diz respeito ao seu funcionamento interno, á maneira de arrecadar as suas receitas, ao modo como
elas incidiam sôbre as mercadorias etc., sobretudo em época anterior á da implantação do governo
constitucional, em que a legislação não era uniforme para todo o país. No entretanto transcrevemos o
seguinte interessante trecho, que encontramos no manuscrito do Padre Antonio Gomes Neto, que de vez em
quando o Dr. Alvaro de Azevedo cita nas suas notas ás Saudades da Terra:
“O provedor da fazenda, Manuel Mexias Galvão, mandou, por seu edital de 18 de julho de 1700, em
consequência das Ordens Regias e mais providencias constantes do L.°9 a f. 392, para se fazer o embarque e
desembarque de quaisquer fazendas junto ao reduto da Alfândega, sob pena de perdimento de todas
aquellas que se desembarcassem em outro qualquer sítio. Que pessoa nenhuma, de qualquer qualidade,
estado ou condição que fosse, podesse ir a bordo dos navios com fazendas, sem licença do provedor, sob
pena de ser queimado o barco e pagar seis mil reis de condemnação na cadeia para a fazenda real, além da
pena de degredo imposta pela lei de 12 de agosto de 1722, e perdimento de metade dos seus bens, L.° 15 a f.
61 V1, e ordenação do reino, L.° 5 a f. 714, sendo uma terceira parte para o alcaide do mar ou denunciante.
Que as mesmas precauções se deveriam observar a respeito das lanchas dos navios estrangeiros, logo que
tiverem dado sua entrada na casa de saúde, em conformidade também com a carta da câmara do Funchal de
12 de fevereiro de 1742, L.° 8 a f. 103, ficando a cargo dos respectivos consules advertir os seus
representados, afim de não allegarem ignorância e para poderem os guardas cumprir com os seus deveres.
Prohibe também aos barqueiros levar ou trazer cargas ou fazendas que não seja nos barcos do cabrestante
ou nos que forem nomeados pelo patrão do calhau, e que, depois de anoitecer, não possam vir ou ir a bordo.
Pertence aos feitores da alfândega ter todo o cuidado e vigilância em metter os guardas na forma do foral,
sem que possam os ditos guardas sair de bordo dos navios senão depois de descarregados e visitados para
sahirem, sob pena de que não sendo achados a bordo serem presos e detidos até mercê de S. Magestade. Os
guardas de numero castigados com 15 dias de cadeia e lançados fora para sempre; os que não forem do
numero, e uns e outros que não forem achados a bordo pagarão por seus bens o damno resultante á real
fazenda de qualquer descaminho, L.° 9 a f. 392”.
Tendo em várias ocasiões o senado funchalense pretendido, ao abrigo de supostos privilégios, interferir em
assuntos que eram da exclusiva alçada do provedor e mais empregados da alfândega, foi por ordem régia
obrigado a reconhecer, em 1742, “a incompetência da sua autoridade de ir ou mandar a bordo sem licença
do provedor e a repor na alfândega os mantimentos que tenha mandado tirar de bordo”.
Também os governadores gerais e os capitais generais do arquipélago tentaram por vezes exercer a sua
intervenção oficial nos serviços das alfândegas, sendo expedidas diversas provisões régias, principalmente
de D. João IV, proibindo ás autoridades superiores desta ilha a sua intromissão em assuntos de tal natureza.
Logo após o estabelecimento do sistema constitucional entre nós, algumas medidas governativas se
tomaram com relação á nossa alfândega. 0 decreto de 23 de Junho de 1834 cria a alfândega do Funchal em
condições idênticas ás do continente, a lei de 20 de Fevereiro de 1835 introduz-lhe notáveis modificações no
seu funcionamento e pessoal e o decreto de 14 de Junho de 1836 determinou o numero e vencimento dos
seus empregados.
Até o fim da primeira metade do século passado, publicaram-se a respeito da nossa alfândega entre outras
medidas governativas e legislativas, a portaria de 13 de Janeiro de 1837, o decreto de 14 de Maio de 1837, a
portaria de 8 de Maio de 1837, os três decretos de 30 de Junho de 1837, a portaria de 30 de Junho de 1837,
a portaria de 25 de Agosto de 1837, a portaria de 12 de Janeiro de 1838 a portaria de 14 de Maio de 1838, a
portaria de 4 de Novembro de 1838, a Portaria de 2 de Julho de 1839, as leis de 2, 16 e 21 de Agosto de 1839,
os decretos de 4 e 24 de Maio de 1842, o decreto de 27 de Maio de 1843, as portarias de 25 e 26 de Setembro
de 1843 e a portaria de 29 de Novembro de 1849.
A carta régia de 15 de Março de 1477 que criou a alfândega do Funchal, determinava que para tal fim se
arrendasse uma casa apropriada. Não se sabe, porém, com precisão o lugar onde primitivamente se
estabeleceu essa casa fiscal. Tem-se afirmado, e disso se fez eco o ilustre anotador das Saudades da Terra,
que a alfândega do Funchal teve a sua primeira instalação na rua do Esmeraldo, na casa chamada granel do
poço ou nas suas mais próximas imediações. Também algures se lê, como informação colhida na tradição
local, que a alfândega se instalou lá para as bandas de Santa Maria Maior. Não é isso nada para estranhar e
é até muito provável que assim tivesse acontecido. O primitivo núcleo de população estabeleceu-se
principalmente a leste da ribeira, que depois se chamou de João Gomes, e ali é que foi tomando maior
incremento a nascente povoação do Funchal, a pesar do descobridor e primeiro donatario haver fixado
residência no alto de Santa Catarina, que então, por certo não teria ainda este nome.
Parece igualmente que a alfândega funcionou numa casa da rua Direita, que foi uma das mais importantes
do Funchal antigo. Num livro do cabido da nossa Sé se encontra registada uma escritura de venda, datada
de 18 de Maio de 1557, das casas do mestre Gabriel, que ora são de Duarte Rodrigues, foreiras á Fabrica da
Sé, sitas na rua Direita, que vao ter ao mar e foram a alfândega velha”.
É até possível que a repartição da alfândega se tivesse sucessivamente instalado nos locais que ficam
indicados, ignorando-se a ordem cronológica em que porventura se realizariam essas instalações.
*A casa da alfândega, diz o Dr. Rodrigues de Azevedo, que D. Manoel mandou levantar é a que ainda agora
existe no Funchal; boas razões o provam. 0 local que Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra, indica á
edificação manuelina, é o mesmo que o edifício actual; as arcadas e portadas interiores lá teem indelével o
cunho architectonico da epocha; e no topo de uma dessas portadas está a seguinte inscripção:
ANO DE
1620 À
SE MVDOV
ESTA PORTA
Estas palavras bem mostram que a construção originaria foi muito anterior ao anno de 1620. E, por ultimo,
como se vê do tomo VI, fl.s 60, do Archivo da Camara do Funchal, D. João IV mandou, no anno de 1644,
que ahi se fisesse um reducto que servisse de praya com respeito da distancia que havia de huma e outra
fortaleza & se abrisse uma porta para o embarque & desembarque das fazendas: e esse reducto e porta
foram feitos, e existem juncto á casa da actual alfandega, authenticados pela seguinte inscripção, que se 1ê
gravada sobre a porta exterior, que dá para a rua dos mercadores:
MANUEL DE SOVSA M.as SENDO
G.or E CAPP.tão GERAL, DESTA ILHA
DA M.dra MANDOV FAZER ESTE
REDVCTO E PORTAS DELLE POR
ORDEM DE SVA MG.de ANNO DE 1645
SENDO PRO.dor ME.t V.0 CarDoZo
É, portanto, fora de toda a duvida a identidade do edifício antigo e do existente.
O edifício, que para a época e lugar em que foi construído, se podia chamar grandioso, tem sofrido diversas
modificações e arranjos, adaptando-se ás exigências sempre crescentes daquele estabelecimento aduaneiro,
mas conserva o cunho característico da primitiva construção manuelina, sobretudo em algumas portas
interiores e na pureza das suas linhas ogivais. O seu andar nobre foi o que sofreu mais profundas alterações
na sua primeira construção. O Mandado do Conselho de Fazenda de 30 de Julho de 1733 ordenou que se
procedesse ali a grandes obras, e é desta época que data o alto do edifício que olha para a rua da Alfândega e
para o pátio interior, com a sua escadaria adjacente.
Em 1590, referindo-se a este edifício, dizia Gaspar Frutuoso:-“a casa da alfândega, mais prospera e de
melhores oficinas que a da cidade de Lisboa bem amurada de cantaria, e fechada pela terra e pelo mar, que
está junto della e nella bate muitas vezes quando ha marezia”.
O grande abalo de terra que houve nesta ilha (V. Tremores de Terra) em 1 de Abril de 1748 danificou
bastante as casas da alfândega que uma narrativa coeva do acontecimento descreve assim:-“ Sendo
fortissimas as suas paredes, descobrem-se nelas trinta e duas fendas, huma de alto a baixo e outras
atravessadas; alguns cantos desunidos, frexaes apartados de seus logares e tudo o mais carecendo de
prompto remedio...”
O andar nobre desta casa serviu em outros tempos de moradia aos provedores e ainda não ha muito que
nele estiveram instaladas algumas repartições publicas. O Governo Civil e suas dependências ali
permaneceram e funcionaram largo tempo, tendo sido em 1890 removidos para uma casa á rua de João
Gago.
Em frente do edifício da alfândega e muito próximo dele, se levantou em 1644 um pequeno forte, em
conformidade com o plano estabelecido para a defesa marítima da cidade. A muralha ainda hoje ali existe é
o único vestígio que resta do antigo forte ou Reducto da Alfândega, como era então chamado.
O reduto tinha porta para o pátio da alfândega, e o alvará régio de 11 de Agosto de 1644 determinava que
por ela *entrassem todas as mercadorias, tomando-se por perdidas as que desembarcassem em outra
qualquer parte”.
Junto ao edifício havia e existe ainda uma pequena capela, destinada hoje a usos diversos dos fins para que
foi edificada. Tinha a invocação de Santo Antonio e foi construída por 1714 pelo provedor e juiz daquela casa
o Dr. João de Aguiar. Sôbre o pórtico desta capela lê-se a inscrição latina Ad salem sol, que tem dado lugar a
diversas traduções e que tem sido variamente interpretada.
É impossível apresentarmos aqui uma informação completa acerca do rendimento da alfândega do Funchal
e das outras alfândegas do arquipélago em períodos sucessivos desde a criação delas até ao presente, tendo
que cingir-nos a pequenas notas dispersas e referentes a épocas muito distantes umas das outras. Assim,
por uma ponta que se tomou do rendimento das alfandegas das duas capitanias desta ilha e do Porto Santo
desde o anno de 1581 a 1587”, citada pelo Dr. Rodrigues de Azevedo se vê que nesse período de sete anos o
rendimento conjunto das alfândegas foi respectivamente de 28:925$275, 26 619S769, 26:013$590,
29:592$155, 28:277$791, 31:206$013 e 16:368$257 réis. Numa narrativa contemporânea do terramoto de
1748 se lê que a alfândega ... rende de sabida hum anno por outro 27 contos de reis de direitos e de entrada
11 contos por serem livres os mantimentos por virtude de um contracto celebrado por Sua Magestade e o
Povo deste Ilha.
O rendimento da nossa alfandega foi respectivamente de 228 e 230 contos nos anos de 1812 e 1813.
Nos anos económicos de - 1828-1829 a 1839-1840 rendeu réis:
1828 a 1829.......... 77:467$858
1829 * 1830.......... 66:865$766
1830 * 1831.......... 66:241$030
1831 * 1832.......... 56:639$460
1832 * 1833.......... 79:738$762
1833 * 1834.......... 90:582$559
1834 * 1835.......... 100:735$461
1835 * 1836.......... 99:230$221
1836 * 1837.......... 115:332$633
1837 * 1838.......... 108:713$738
1838 * 1839.......... 142:639$666
1839 * 1840.......... 129:492$469
A nota do rendimento da alfândega do Funchal nos últimos anos é a seguinte:
1896................. 420:359$099
1897................. 411:344$857
1898................. 400:149$011
1899................. 549:426$805
1900................. 534:308$446
1901................. 526:516$570
1902................. 610:862$178
1903................. 685:445$558
1904................. 582:228$286
1905................. 578:730$497
1906................. 626:783$370
1907................. 642:703$253
1908................. 593:877$672
1909................. 658:474$874
1910................. 604:385$995
1911................. 585:100$920
1912................. 756:521$640
1913................. 714:702$260
1914................. 573:690$020
1915................. 350:550$410
1916................. 412.793$41
1917................. 293.598$03
1918................. 200.426$94
1919................. 495.494$68
1920................. 1.027.379$30
1921................. 1.429.848$01
1922................. 1.601.734$02
1923................. 2.384.045$24
1924................. 4.339.361$25
1925................. 3.537.050$48
1926................. 3.599.009$48
1927.................14.799.466$73
1928.................18.135.548$54
1929.................22.686.218$19
1930.................25.010.804$67
1931.................20.845.121$68
1932.................21.252.161$84
Convirá dizer aqui que é difícil a comparação das receitas arrecadadas desde que a moeda principiou a
desvalorizar-se com as do tempo da moeda valorizada porque as alfândegas têm adoptado diferentes
coeficientes de desvalorização e até mais dum em cada ano. No entanto o rendimento de 21.252.161$84
respeitante ao ano civil de 1932 (coeficiente de desvalorização 24,45) corresponde a 869.209$97 escudos
ouro, receita nunca atingida antes da grande guerra.
Nas receitas alfandegárias que ficam descritas não vão incluídos os impostos municipais arrecadados
juntamente com os direitos aduaneiros do Estado. Damos a seguir uma nota dos impostos cobrados nos
últimos quinze anos na nossa alfândega e exclusivamente destinados a serem distribuídos pelas onze
câmaras Municipais do distrito.
1918................. 54.449$34
1919................. 124.477$31
1920................. 277.449$42
1921................. 321.661$18
1922................. 355.506$66
1923................. 612.350$09
1924................. 1.143.737$46
1925................. 802.411$47
1926................. 953.537$31
1927................. 1.452.772$43
1928................. 1.693.854$65
1929................. 1.430.633$32
1930................. 1.547.178$88
1931................. 1.183.014$84
1932................. 1.202.916$16
O rendimento da alfândega do Funchal é superior ao rendimento conjunto das três alfândegas açoreanas.
Nos últimos 30 anos foram directores da nossa alfândega os funcionários aduaneiros: José Pais de
Vasconcelos, chefe da delegação aduaneira do Funchal, que tomou posse a 22 de Novembro de 1889:
Guilherme Read Cabral, que sendo extinta a delegação aduaneira do Funchal e elevada á categoria de
alfândega por decreto de 21 de Abril de 1892, tomou posse de director a 7 de Maio de 1892; Carlos Maria de
Vasconcelos Sobral, que tomou posse a 9 de Novembro de 1895; Francisco Xavier Teixeira, tomando posse a
26 de Abril de 1907; Antonio Augusto Curson, posse a 3 de Agosto de 1908; Afonso Vieira de Andrade,
posse a 6 de Setembro de 1911; e Adolfo João Sarmento Figueiredo, posse a 23 de Outubro de 1916.
Temos conhecimento de que acerca da alfândega desta cidade ou de assuntos que com ela muito de perto se
relacionam se publicaram os seguintes opúsculos: - Moção feita na Sociedade Patriótica Madeirense por um
de seus membros, Lisboa, 1835, de 16 pag.; Regulamento dos guardas da Alfândega do Funchal, Funchal,
1856, de 10 pag.; Recurso interposto para O Illmo e Ex.mo Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da
Fazenda em Lisboa por Blandy & C1 negociantes estabelecidos no Funchal como agentes da companhia dos
paquetes a vapor denominada African Steam Ship Company na ilha da Madeira da decisão proferida pelo
Sr. director da alfândega da dita cidade em 17 de Abril de 1866, na qual multou o capitão do vapor
Lagos...Funchal, 1866, de 28 pag; Regulamento da cobrança fiscalização do imposto indirecto municipal
lançado sobre os artigos importados pela Alfândega do Funchal, Funchal, 1878, de 8 pag.; Relatório
apresentado pela direcção da Associação Comercial do Funchal da sua gerência no anno findo em 30 de
Junho de 1883, Funchal, 1884, de 24 pag.; Breves considerações sobre as Alfândegas, por um curioso, 1884,
de 53 pag., não designando o lugar da impressão; A Madeira e as Canárias, por João Augusto de Ornelas,
Funchal, 1884, de 28 pag.; Representação da Câmara Municipal da cidade do Funchal, sobre diversas
medidas tendentes a animar a navegação...dos paquetes transatlânticos, Funchal, 1884, de 4 pag.; Ao
Publico, por João Paulo da Silva. Funchal, 1885, de 8 pag.; Breves considerações sobre os direitos de
importação do assucar estrangeiro, pelo Visconde do Canavial, Funchal, 1885, de 16 pag.; A cultura da cana
de assucar e os direitos sobre o assucar, pelo mesmo, Funchal, 1885.; Relatório apresentado á assembleia
geral da Associação Comercial do Funchal pela comissão nomeada a 6 de Outubro de 1885 para estudar a
recente legislação aduaneira, Funchal, 1886, de 51 pag.; Refutação das accusações feitas á alfândega do
Funchal no relatório assignado por Manuel José Vieira e enviado á Associação Comercial daquela cidade,
por José Guedes de Almeida Carvalhais, Angra do Heroísmo, 1886, de 23 pag.; Tabella do lançamento de
contribuições Municipais indirectas cobradas na alfândega do Funchal, Funchal, 1896, de 38 pag., tendo
sido publicados diversos folhetos com o mesmo título referentes a vários anos; Representação da Câmara
Municipal do Funchal sobre a importação do vinho na Russia, Funchal, 1906, de 7 pag.
Com o título de Ordens da Direcção da Alfândega do Funchal tem-se publicado anualmente um volume,
contendo as diversas ordens de serviço expedidas pelo director daquele estabelecimento aduaneiro e outros
dados e informações que muito interessam ao regular funcionamento da mesma casa fiscal. Foram já
publicados muitos volumes, sendo o primeiro referente ao ano de 1907.
O escrivão da descarga da alfândega Antonio Marcelino Gomes escreveu em 1824 um Projecto de
Regulamento da alfândega da ilha da Madeira, que ofereceu a D. João VI mas que não foi publicado.
Alfândega de Santa Cruz. A importância e trafico comercial da povoação de Santa Cruz deram-lhe direito á
criação duma alfândega ainda muito antes de ser elevada á categoria de vila. E assim vemos que pela carta
régia de 15 de Março de 1477, isto é 38 anos antes da criação do município, se determinou que ali se
estabelecesse uma casa fiscal para a arrecadação dos impostos e direitos reais. Não sabemos se começaria
logo a funcionar, sendo de 1549 o diploma mais antigo que acerca dela conhecemos.
Pelas muitas referências que a ela temos encontrado, pelo numero e qualidade dos seus empregos e ainda
pelos registos de vários diplomas exarados nos livros da antiga provedoria do Funchal, vemos que a
alfândega de Santa Cruz era mais importante e de maior movimento do que a de Machico, a pesar desta
ficar na sede da capitania.
Esta casa fiscal teve os cargos de juiz, almoxarife, escrivão, feitor, porteiro, alcaide do mar e quatro guardas,
não sendo todos estes lugares criados na ocasião em que ela foi estabelecida, mas a largos intervalos,
quando porventura as exigências do serviço a isso aconselhavam. 0 cargo mais antigo deve ter sido o de
almoxarife, mas só conhecemos o mandado do Conselho da Fazenda de 12 de Março de 1614, que para
aquele lugar nomeou Antonio Pimentel, com o privilegio de “se lhe darem as casas da Alfândega para nelas
morar e recolher os quintos do açúcar de Sua Magestade”.
O cargo de juiz que era o de maior categoria, foi criado por alvará régio de 18 de Agosto de 1563 e nele
provido Tomé Alves. 0 alvará de 11 de Agosto de 1644 determinou que o “juiz da alfândega de Santa Cruz
servisse de provedor da alfândega do Funchal nos impedimentos do mesmo provedor, e não os escrivães da
Mesa Grande”.
Em 1551 já existia o lugar de escrivão e em 1550 o de porteiro, ignorando-se a data da sua criação.
Estabeleceu-se o cargo de feitor pela carta regia de 10 de Maio de 1549, sendo Domingos Fernandes o
primeiro nomeado. 0 lugar de alcaide do mar, que já existia em 1600, foi extinto em 1744.
Com o estabelecimento da alfândega, criaram-se os quatro lugares de guardas, que em 1682, por mandado
do Conselho de Fazenda, passaram a fazer serviço na alfândega do Funchal.
Não sabemos quando foi extinta a alfândega de Santa Cruz. Temos apenas conhecimento duma petição feita
em 1768 por Antonio João Nunes Pereira, pedindo a propriedade do oficio de feitor desta alfândega, já
então extinto, para exercer este cargo na alfândega do Funchal. A extinção não deveria ter sido muito
anterior a 1768, e Antonio João Nunes Pereira seria talvez descendente e herdeiro do ultimo proprietário
daquele oficio. Em 1502, tinha sido pedida, por vários moradores do Funchal, a extinção das alfândegas de
Santa Cruz e Machico, mas foi indeferida essa petição.
O edifício da alfândega de Santa Cruz deve ter sido demolido pelos fins do segundo quartel do século
passado, Ainda existem alguns contemporâneos que se lembram dele. Ficava situado no centro da vila e no
começo da rua que tem hoje o nome do Dr. Barros e Sousa e que conduz ao passeio publico. Tinha um certo
aspecto de grandeza e a sua construção era no estilo manuelino do tempo, com as suas janelas e portas
ogivais, em tudo semelhante ás do edifício da Câmara Municipal. Pena foi que o não conservassem com o
respeito devido ás venerandas relíquias do passado. Era um monumento a atestar as prosperidades da
antiga vila de Santa Cruz, que perdeu a sua passada importância com o progresso e engrandecimento do
Funchal.
Alfândega de Machico. Como as alfândegas do Funchal e Santa Cruz, foi também criada pelo alvará régio de
15 de Março de 1477. Já fizemos notar que a pesar desta alfândega estar instalada na sede da capitania,
tinha menor movimento e, menos importância do que a de Santa Cruz, devido talvez á circunstancia de ser
maior a produção do açúcar em Santa Cruz e povoações limítrofes do que em Machico.
Ignoramos quando começou a funcionar e poucas referências temos encontrado ao número de seus
empregados. Em 1486 foi novamente ordenado que funcionasse a alfândega de Machico, ou por não haver
sido ainda instalada ou porque se tivesse interrompido a arrecadação dos impostos que ali se cobravam.
Sabemos no entretanto que teve juiz, sendo Antonio Alves Uzadamar o primeiro que exerceu este cargo em
1557, e os lugares de almoxarife e de alcaide de mar, criados em 1550.
Ainda depois de extinta, e durante largos anos, se conservaram na vila de Machico os restos do edifício onde
ela esteve instalada. Muito recentemente se mostrava ainda na rua da Árvore um trecho de muralha
denegrido pelo tempo, onde se abria uma pequena porta ogival, já meio soterrada devido ao levantamento
do leito da via publica que lhe ficava adjacente. Era o único vestígio que restava da antiga alfândega e
também o único exemplar ali existente da arquitectura manuelina, que por toda a ilha tem desaparecido.
Essas ruínas deveriam ter sido conservadas religiosamente. 0 município de Machico não quis ou não soube
conserva-las e permitiu que o camartelo as lançasse vandalicamente á terra no ano de 1916. Constituíam um
padrão eloquente das antigas prosperidades da vila e capitania de Machico, e nenhum visitante ilustrado
que ali fosse deixaria de olhar com devotado interesse para aquela nesga de muro negro e para a pequena
porta que nela se abria em ogiva na pedra mole avermelhada das velhas construções madeirenses.
Alfândega do Porto Santo. Como judiciosamente observa o anotador das Saudades da Terra, houve na ilha
do Porto Santo uma estancia ou posto fiscal e não uma alfândega propriamente dita. Desconhecemos a data
da sua criação, mas já existia em 1556, porque o alvará régio de 8 de Abril deste ano nomeou Gaspar Calaça
para o lugar de almoxarife, que era o cargo mais importante da mesma alfândega, com o vencimento anual
de dois mil réis em dinheiro, dois moios de trigo e duas pipas de vinho. A ultima nomeação de almoxarife de
que temos noticia é a de Diogo Luiz Drumond feita pelo alvará de 22 de Julho de 1768. 0 cargo de escrivão é
anterior a 1556, pois neste ano foi para ele nomeado Diogo Delgado, por morte do seu antecessor Rodrigo
Anes. Havia ainda o lugar de alcaide do mar, cuja criação é muito anterior a 1642. Ignoramos quando
deixou de existir a alfândega do Porto Santo.
Postos fiscais. Nos portos de Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Madalena do Mar e Calheta
foram mandados estabelecer postos fiscais para a arrecadação de certos direitos, mas ignoramos se
chegaram a ser criados e o modo como funcionavam.
“Havia também nos portos deste archipelago, diz o Dr. Alvaro de Azevedo, as vigias, isto é, estações
militares e simultaneamente fiscais, que vigiavam o mar, as costas e praias, a fim de darem alarme de
corsarios ou de quaisquer outros navios inimigos, e evitar contrabandos. As vigias eram feitas pelos povos,
em pequenas casas fortes, de proposito construídas para resistir ao mar, e evitar surprezas. D. Sebastião
deu-lhes regimento em 1567, que está registado no tomo V, fl. 105, do Archivo da Camara do Funchal, e, por
alvará de 1569, determinou que ninguém “fosse isempto deste serviço”.
Alfarrobeira (Ceratonia siliqua, L.)
Arvore da família das Leguminosas, subfamilia das
Cesalpinioideas, cultivada nalguns pontos dos Arredores do Funchal. As suas flores são dióicas, e os seus
frutos têm uma polpa levemente laxativa, doce e dum sabor agradável. As alfarrobas madeirenses são de má
qualidade e pouco polposas. A alfarrobeira existe também no Porto Santo.
Alfavaca de Cobra (Parietaria officinalis)
Planta vivaz, de caules ás vezes lenhosos na
parte inferior e folhas ovadas ou lanceoladas, atenuadas ou arredondadas na base, pubescentes. É frequente
nos muros, rochas e lugares pedregosos, e encerra uma quantidade notavel de nitrato de potassa. A infusão
das folhas e caules tenros da alfavaca é muito usada na Madeira para combater os fluxos sanguíneos
provenientes de padecimentos hemorroidais.
Alfinetes de Senhora.
V. Artemija
Alfonsim (Beryx splendens)
Peixe teleosteo da família Bericida, que aparece com frequência
no mercado. É de excelente qualidade.
Alfôrra
Dá-se este nome a um Dactylopius e a um Tetrachynus que aparecem sobre as plantas verdes, e
a um ácaro que vive principalmente sobre a palha seca do trigo. Esta ultima espécie provoca comichões
quando se introduz sob a pele.
Algas
Na Madeira, Porto Santo e Desertas têm sido achadas até o presente 373 espécies de algas, das
quais 211 pertencem ao grupo das Diatomaceas. Das 162 espécies restantes, 127 são marinas e 35 vivem nas
ribeiras, tanques, lugares húmidos e levadas, não se conhecendo acerca de muitas delas senão os nomes dos
géneros a que pertencem.
A Enteromorpha compressa é extremamente comum nas pedras que as águas descobrem na baixa mar, e a
Ulva Lactuca, a Padina Pavonia, a Cystoseira ericoides, etc., também são raras em certos pontos da costa,
cobertos ou banhados pelo mar.
A Laminaria saccharina, de grandes dimensões, aparece nas proximidades da Ponta de S. Lourenço, onde
também têm sido achados o Sargassum bacciferam e duas espécies do género Liagora, uma das quais é a L.
pulverulenta.
A Corallina officinalis, a Jannia rubens, o Gelidium corneum e outras Rodophyceas, não são raros na Ponta
Delgada e nalguns pontos da costa do sul.
Nas ribeiras, levadas e charcos da Madeira abunda uma espécie de Oedogonium (talvez o 0. capilliforme), e
nas rochas húmidas e junto das quedas de água é frequente o Nostoc verrucosum, de forma globular,
associado ás vezes á Anabaena flos-asquae e a outras Myxophyceas.
Na Ribeira de João Gomes, sob a ponte do Curral dos Romeiros, vive a rarissima Lemanea fluviatilis, alga
filamentosa e coriacea, e nos charcos próximos têm sido achadas as Desmidiaceas seguintes: Staurastrum
muticum, Cosmarium Botrytis, C. margaritiferum e Closterium acerosum.
No museu do Seminário existe uma colecção de algas marinas, determinada pelo professor Schmitz, da
Universidade de Greifswalde, e o Rev. Schodduyn, de Pas de Calais, determinou em 1910 várias algas de
água doce que lhe foram remetidas pelo autor destas linhas.
V. Borge, Gain, Piccone e Zimmermann.
Algodoeiro
A cultura do Gossypium herbaceum foi tentada na Madeira nos princípios do século XIX e
em oficio de 20 de Março de 1802 fazia saber o então ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho ao Capitão-
General D. José Manuel da Câmara, que o Príncipe Regente conhecera com muita satisfação os progressos
da mesma cultura na ilha. Era 1863 vieram novas sementes de algodoeiro para a Madeira, mas poucos
foram os agricultores que se interessaram então pela cultura desta planta. O Gossypium arboreum também
se desenvolve bem na região inferior da Madeira, mas tanto esta espécie como o G. Herbaceum, se acham
agora, ao que parece perfeitamente extintos na ilha.
Alho
Os alhos pertencem á família das Liliaceas, e os mais conhecidos na Madeira são: o alho vulgar
(Allium sativum), o alho porro (A. Ampeloprasum) e o alho bravo ou americano (Nothoscordum inodorum).
No alho vulgar o bolbo é constituído por bolbilhos (dentes) encerrados numa túnica comum. Esta espécie é
muito cultivada na Madeira e Porto Santo para fins culinarios, e tem propriedades diüreticas, vermífugas e
antisepticas. O alho bravo, originário da América subtropical, é uma planta que se propaga com uma
facilidade extrema tanto por meio dos seus bolbos, como das sementes.
Aliança Madeirense
A Companhia de Seguros Aliança Madeirense foi fundada por escritura de 2
de Abril de 1891 com o capital de 200:000$000 reis, dividido em 2:000 acções de 100:000 reis cada uma,
tendo sido os snrs. João Joaquim Mendes e Julio César de Nobrega Pereira, o primeiro já falecido, os
principais promotores da organização dela nesta ilha.
Foi constituída exclusivamente com capitais madeirenses, pertencentes a negociantes, proprietários,
industriais, etc., e fizeram parte da sua primeira Direcção os Srs. João Joaquim Mendes, João Bernardino
Gomes e Julio César de Nobrega Pereira, e do seu primeiro Conselho Fiscal os Srs. Luiz Gomes da
Conceição, já falecido, Alfredo Guilherme Rodrigues e Visconde de Vale Paraíso. Foi seu primeiro guarda
livros o falecido João Onofre da Gama.
Por escritura de 15 de Maio de 1893 foi elevado o capital social de 200:000$000 réis a 300:000$000 réis,
divididos em em 3:000 acções de 100:000 réis cada uma, em conformidade com a resolução da Assembleia
Geral de 7 de Abril do mesmo ano.
A Companhia tem presentemente um fundo de reserva de Esc. 831:801$40, e goza do melhor conceito na
Madeira, onde tem a sua sede, como no Continente da Republica, onde lhe tem sido feitas elogiosas
referências por parte de elementos dos mais categorizados na indústria de seguros, nomeadamente pelo
falecido actuario e director da importante Companhia de Seguros "A Nacional", Sr. Fernando de Brederode,
antigo Ministro do Trabalho, reputado como uma das maiores autoridades na matéria. O actual presidente
da Assembleia Geral é o Sr. Manuel Maria Ribeiro, sendo a Direcção constituída pelos Srs. Dr. Juvenal
Henriques de Araújo e Tristão Pedro Betencourt da Câmara e o Conselho Fiscal pelos Srs. Francisco Dias
Tavares, Vicente Angelo Gomes da Silva e Augusto Servulo Ferreira. O seu actual guarda-livros é o Sr. Abel
Caires Soares.
No ano de 1935 e de harmonia com as deliberações tomadas nas assembleias gerais de 20 de Fevereiro de
1931 e 18 de Março de 1932, procedeu a Companhia a uma operação de grande vultoBa liberação das suas
acções.
Alincourt. (Francisco de)
Era sargento-mor engenheiro, cavaleiro professo da Ordem de Cristo
e lente da Real Academia. Levantou a carta geral da Madeira em 1769, e neste mesmo ano esteve no Porto
Santo a fim de estudar as necessidades daquela ilha, acerca da qual escreveu uma dissertação. Preso em
1770, como pedreiro livre, por ordem do governador João Antonio de Sá Pereira, foi pouco depois posto em
liberdade e restituído ao cargo que exercia em virtude de instruções transmitidas pelo Marquês de Pombal
ao seu delegado nesta ilha.
Alindres.
V. Figueira do Inferno
Aljube
Quando os eclesiásticos tinham seu foro privativo, tinham também suas prisões ou cárcere
especial, a que se dava o nome de Aljube. O antigo Aljube do Funchal ficava no espaço compreendido entre
a Travessa da Sacristia, rua de João Gago e rua do Aljube. O lugar de aljubeiro ou carcereiro do Aljube desta
cidade foi criado por D. Sebastião por alvará de 6 de Julho de 1562. Desta época, ou pouco anterior a ela se
deve contar a criação do Aljube, que existiu já em 1834. Durante as lutas políticas entre miguelistas e
constitucionais e por ocasião das alçadas que então vieram a esta ilha, estiveram muitos sacerdotes presos
no Aljube, por motivo das suas inclinações partidárias, seguindo alguns deles para o Limoeiro e presídios de
Africa.
Alligator (Corveta)
A corveta de guerra inglesa Alligator veio á Madeira em Agosto de 1828
proteger os súbditos britanicos aqui residentes, com o fundado receio de que os acontecimentos políticos de
então os obrigassem a recolher a bordo dum navio da sua nacionalidade. Essa protecção não foi necessária
para os súbditos inglêses, mas serviu para o governador e capitão general deste arquipélago Travassos
Baldes e para outras pessoas, o que parece ter sido o fim principal da vinda da corveta ao nosso porto.
Tendo Travassos Valdez capitulado perante as forças invasoras desembarcadas em Machico (V. Ocupação
da Madeira pelas tropas miguelistas), refugiou-se pela tarde de 23 de Agosto de 1828 a bordo da corveta
Alligator, acompanhado de sua esposa, seis filhos, dois criados e de outras pessoas, entre as quais algumas
das de maior categoria social na Madeira.
Entre M. G. Canning, comandante da Alligator e o vice-almirante Fonseca de Sousa Prego, comandante da
esquadra miguelista, e José Maria Monteiro, governador e capitão general trocou-se uma interessante
correspondência, em que os representantes de D. Miguel exigiam a imediata entrega dos refugiados a bordo
daquele navio, mas a que o comandante inglês se recusou terminantemente.
Depois de varias entrevistas entre o cônsul inglês no Funchal, Henrique Veitch e o governador José Maria
Monteiro, ficou resolvido o que consta do seguinte trecho do oficio que o mesmo cônsul dirigiu ao referido
governador e capitão general:
"Em consequência dos desejos que V. E. tem mostrado que os refugiados a bordo da fragata Alligator
deixassem quanto antes este porto, e da conferencia que com V. E. tive ha dias a este respeito, eu, de acordo
com o capitão Canning, temos fretado, por conta do governo de Sua Magestade Britannica, o bergantim
inglez Jane, o qual como transporte capitaneado por um oficial de fragata deve sahir amanhã 6 do corrente,
tomando a seu bordo, fora da vista da terra e do alcance das baterias os ditos refugiados e seguir viagem
com elles em direitura para Plymouth".
No dia 6 de Setembro de 1828, isto é 15 dias depois da Alliggator ter recebido a seu bordo Travassos Valdez
e os outros refugiados politicos, levantou ferro do nosso porto em direcção á Inglaterra. No alto mar fez a
baldeação dos refugiados para o bergantim Jane, que tomou o rumo de Saint-Ives, pequena cidade
marítima nas costas da Gran-Bretanha, onde chegou no dia 18 de Setembro, depois de 12 dias de viagem.
Damos em seguida a relação completa das pessoas que saíram da Madeira na Alligator e que
desembarcaram em Saint-Ives, relação que pela primeira vez foi publicada no 5.° vol. da obra do Barão de S.
Clemente, mas que é de poucos conhecida:
José Lúcio Travassos Valdez, ex-governador da Madeira e mais tarde conde de Bonfim, sua esposa, seis
filhos, o mais velho dos quais tinha 14 anos, e dois criados, Luiz Godinho Valdez, irmão e ajudante do
governador, João do Carvalhal, depois conde de Carvalhal, corregedor Dr. José Duarte Machado Ferraz,juiz
de fora Dr. Manuel Ferreira de Seabra da Mota e Silva; tenente coronel Filipe Joaquim Aciaioly, capitão
Joaquim Carlos Fernandes de Couto, deão da Sé do Funchal, Januario Vicente Camacho, cónego Sebastião
Casimiro de Vasconcelos, coronel Francisco Manuel Patrone, tenente-coronel Antonio Fernandes Camacho,
major Joaquim Guilherme da Costa, capitão Pedro Cipriano de Ornelas, major Luiz Antonio Figueiroa,
major Jeronimo Martins Salgado, coronel de milícias J. A. Freitas Albuquerque, sargento-mor Francisco
Moniz Escorcio, voluntários de D. Pedro Luiz Sauvaire e Luiz Monteiro, capitão João de Betencourt, tenente
Antonio José Gonçalves de Ornelas, Julio da Câmara Leme, juiz ordinário Antonio Joaquim Moderno, Fr.
Antonio das Dores, provincial dos franciscanos, Domingos Alexandre da Silva, Miguel Ferreira Jardim e
Vicente de Sousa, criado de João do Carvalhal.
Três dias antes da rendição da Madeira ás tropas miguelistas, tinham chegado ao Funchal, vindos de
Inglaterra e enviados pelo conde de Palmela, alguns oficiais para auxiliarem o governador Travassos Valdez
na resistência que preparou contra as forças absolutistas. Estes oficiais depois de permanecerem três dias
em terra e quinze dias a bordo da corveta Alligator, seguiram para Inglaterra e ali desembarcaram em Saint-
Ives com os outros emigrados. Foram eles o tenente-coronel João Schwalbach, o major Francisco Xavier da
Silva Pereira, depois conde das Antas, o capitão Tomaz Carcy de Araujo, o madeirense capitão e lente da
Academia de Marinha Antonio Aloísio Jervis de Atouguia, depois visconde de Atouguia, o tenente Francisco
José da Mota, o madeirense alferes D. Diogo da Câmara Leme, o tenente Francisco de Paula Lima e o furriel
Francisco Pacheco Guimarães.
A corveta Alligator não acompanhou o Jane e voltou ao Funchal. A 24 de Setembro o comandante da
Alligator M. G. Canning, estando a tomar banho no tanque duma quinta dum seu compatriota nos arredores
do Funchal, ali morreu afogado. Era filho do conhecido estadista inglês Canning.
Alma Académica. Publicou o 1.° numero a 11 de Fevereiro de 1906 e o 14.° que foi o ultimo, a 20 de Maio de
1906.
Alma negra (Bulweria Bulweri)
Palmipede. Faz criação durante o estio nas rochas
marítimas de todas as ilhas do arquipélago, e emigra no fim do outono, para voltar nas primeiras semanas
da primavera. A sua postura é de um ovo deposto no chão ou nos buracos das rochas.
Alma Nova. Saiu o 1.° numero a 1 de Dezembro de 1913 e o ultimo, o 6.° a 15 de Fevereiro de 1914.
Almada
O primeiro que deste apelido usou e que veio á Madeira foi Pedro Alvares de Almada, oriundo
de Guimarãis, filho de Alvaro de Almada e sobrinho do celebre conde de Avranches, D. Alvaro Vaz de
Almada. Pedro de Almada residiu na vila de Santa Cruz e foi ali um dos principais oficiais da Câmara. Diz o
ilustre anotador das Saudades da Terra que fundou em Santa Cruz a igreja de Nossa Senhora da Graça, da
qual não temos noticia alguma.
Dizem alguns nobiliarios que um dos primeiros que usou o apelido de Almada foi Antonio de Almada, que
por meados do século XVI, casou com Isabel Rodrigues Leal, da freguesia do Porto da Cruz.
Almada (Antonio José de Sousa)
Temos conhecimento da existência deste madeirense pelo
que dele nos dizem o Diccionario Popular, de Pinheiro Chagas, e o dicionário Portugal. Nasceu nesta ilha
em 1824 e morreu em Benfica em 1874. Cultivou as musas, mas parece não ter sido poeta de grande
inspiração.
Casando em Lisboa com uma senhora riquissima, desbaratou dentro de pouco tempo uma avultada fortuna.
Entregou-se depois a diversas empresas industriais, em que não foi muito favorecido pela fortuna. No
governo dos Cem Dias, do marechal Saldanha, foi Sousa Almada governador civil de Castelo Branco.
Era homem do mais fino trato, falava com facilidade varias línguas e possuía uma força e uma coragem não
vulgares, do que tudo soube aproveitar com vantagem em vários lances da sua agitada existência.
Almada (D. Lourenço de)
Este governador e capitão general da Madeira foi nomeado a 4 de
Agosto de 1687 e tomou posse a 13 de Abril de 1688.
Foi também governador geral de Angola e duma das províncias do Brasil.
Era descendente de D. Alvaro Vaz de Almada e morreu a 2 de Maio de 1729.
Almada (Dr. José Antonio de)
Nasceu na vila de Machico a 7 de Março de 1843, sendo filho
de José Antonio de Almada. Depois de cursar o liceu desta cidade e de ter concluído a sua formatura na
Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, estabeleceu banca de advogado no Funchal, grangeando
foros dum distinto jurisconsulto, sendo muito considerado no exercício da sua profissão. Desempenhou
nesta cidade os mais elevados cargos, como delegado do procurador régio, governador civil e ainda outros,
sendo também deputado pela Madeira na legislatura de 1900. O decreto da sua nomeação para governador
civil deste distrito é de 15 de Fevereiro de 1897, tendo tomado posse desse lugar a 18 do mesmo mês e ano.
Como chefe do distrito de 1897 a 1898 e como representante deste arquipélago em cortes, advogou com a
maior dedicação os interesses da sua pátria, conseguindo para ela alguns importantes melhoramentos,
como sejam a criação do corpo de policia florestal, a demolição da cortina da cidade, a supressão do imposto
sobre as carnes verdes, o começo dos trabalhos das pontes de S. Vicente e Santo Antonio, e ainda outros.
Poucos anos antes da sua morte fixara a sua residência na capital, exercendo o lugar de auditor dos
conselhos de guerra e de marinha, tendo ali falecido a 21 de Março de 1905.
Militou activamente na política e colaborou em alguns jornais, sendo redactor da Revista Jurídica, que se
publicou no Funchal de 1870 a 1871. Escreveu de colaboração com J. R. da Trindade e Vasconcelos, um
opúsculo com o seguinte título; Projecto de lei regulamentar do contracto de colonia; Funchal, 1867.
Almada (Dr. José de)
É filho do Dr. José Antonio de Almada, de quem acima nos ocupámos, e de
D. Margarida de Ornelas de Almada, tendo nascido no Funchal a 23 de Fevereiro de 1880. Fez estudos
secundários nesta cidade e na Suiça e completou a sua formatura em direito na universidade de Coimbra no
ano de 1903.
É subdirector geral da Administração Política e Civil do Ministério das Colónias e exerce o cargo de
Consultor Colonial no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Tem principalmente notabilizado a sua
fecunda actividade no desempenho de importantes comissões de serviço publico dentro e fora do país,
devendo particularizar-se as missões de que foi por diversas vezes encarregado pelos nossos governos em
Londres, no Estado da Africa do Sul, em Genebra junto da Sociedade das Nações etc. defendendo os
interesses de Portugal em demoradas negociações com os governos de vários países estrangeiros. No
desempenho dessas missões tem publicado muitos relatórios e estudos escritos nas línguas francesa e
inglesa e publicou também um livro intitulado Impressões da Africa do Sul.
Veio á Madeira no ano de 1927 estudar a chamada questão da Lombada da Ponta do Sol, como mais
largamente se poderá ver no opúsculo intitulado A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira publicado
em 1933 pelo padre Fernando Augusto da Silva.
Almada (José Antonio de)
Nasceu em Machico a 19 de Abril de 1813. Por ocasião do bloqueio
da Madeira, em Maio de 1832, fugiu para a divisão naval da Rainha. Em 1833 foi promovido a sargento,
tendo desembarcado nas praias do Mindelo, como soldado da expedição comandada por D. Pedro IV.
Assistiu ao cerco do Porto, esteve na Serra do Pilar e tornou parte em diferentes acções e combates das
campanhas da liberdade, sendo ferido na Asseiceira, em 16 de Maio de 1834. Por decreto de 8 de Setembro
de 1834, a rainha D. Maria II houve por bem condecorá-lo com o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e
Espada. Faleceu no Funchal a 2 de Maio de 1885.
Almanach Ecclesiasticum
Ha um calendário eclesiástico anual privativo desta diocese,
destinado á direcção dos sacerdotes na recitação do oficio divino, celebração da missa, indicação das festas,
etc.. Ha muitos anos que se imprime em Coimbra. Foi calendarista desta diocese o Dr. Antonio Rodrigues
Porfirio Ribeiro de Vasconcelos, distinto lente de teologia na Universidade de Coimbra. O almanaque
impresso mais antigo desta diocese, que conhecemos, é de 1858. Desde o ano de 1927 redige o Almanach
Ecclesiasticum o padre José Augusto Rodrigues Amado.
Almanaques
Temos conhecimento que na Madeira se publicaram os seguintes almanaques:
Almanak para a Ilha da Madeira. Primeiro anno, 1868. Funchal, 1867, de XXXII-96 pag., coordenado e
publicado pelo Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, embora se não faça menção desta circunstancia no
almanaque;
Almanak para a ilha da Madeira. Segundo anno, 1869. Funchal, 1868, de 80 pag., coordenado e publicado
pelo mesmo;
Almanack madeirense para o anno de 1883 . . .compilado por A. Cesar de Morais, Funchal, 1882, de 174
pag.;
Almanack da Madeira para 1884, 1.° anno, Funchal, 1883, de 80 pag.;
Almanack do Amigo do Povo para o anno de 1889. .. Funchal, 1888, de 30 pag.;
Almanack Madeirense para 1905, 1.° anno, Funchal, 1904, de 200 pag.;
Almanach de Lembranças Madeirense para o anno de 1908, I.° anno, Funchal, 1907, de 247 pag., sendo
directores o dr. Antonio Feliciano Rodrigues e Jaime Camara, e tendo vários colaboradores;
Almanach de Lembranças Madeirense para o anno de 1909, 2.° anno, Funchal, 1908, de 285 pag., com
varias ilustrações, sendo directores o dr. Antonio Feliciano Rodrigues e Jaime Camara;
Almanach de Lembranças Madeirense para o anno de 1910, 3.° anno, Funchal, 1910, de 256 pag., com várias
ilustrações, sendo directores o dr. Antonio Feliciano Rodrigues e Jaime Camara;
Almanach de Lembranças Madeirense para o anno de 1911, 4.° anno, Funchal, 1911, de 255 pag., com várias
ilustrações, sendo director a dr. Antonio Feliciano Rodrigues;
Almanach Illustrado do *Diario da Madeira” para 1913, 1.1 anno, Funchal, 1912, de 119 pag., sendo
redactores e coordenadores Cruz Baptista Santos e Francisco da Silva Reis;
Almanach Illustrado do "Diário da Madeira" para 1914, Funchal, 1913, de 163 pag., sendo director Francisco
Bento de Gouveia;
Almanach Illustrado do “Diário da Madeira” para 1915, Funchal, 1915, de 132 pag., e mais 48, não
numeradas, de anuncios, sendo dirigido pela redacção do Diário da Madeira;
No ano de 1873, publicou-se na cidade de Angra do Heroismo o Almanach para os Açores e Madeira, para o
anno de 1874, 1.° anno, dirigido por A. Gil, Augusto Ribeiro e F. J. Moniz Betencourt, de 254 pag., que
encerra alguns dados historicos sobre o arquipelago madeirense. Publicou-se o 2.° ano para o ano de 1875;
Almanaque da Madeira para 1924, 1.° ano, coordenado pelo padre Carlos Jorge de Faria e Castro, de 450
pag.;
Almanaque Madeirense Ilustrado, para os anos de 1936, 1937, 1938 e 1939, coordenado por Abel M.
Caldeira.
Almas (Capelas das)
Na freguesia da Ribeira Brava, em sítio que hoje se ignora, fundou o
tanoeiro Antonio Rodrigues Jardim, no ano de 1652, uma pequena ermida dedicada às Almas do
Purgatório.
No sítio da Vargem da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos encontra-se uma capela da mesma
invocação, cujos fundador e ano de construção se desconhecem.
Existe uma capela das Almas na freguesia da Calheta, ignorando-se quaisquer outras circunstâncias que lhe
digam respeito.
Por 1710, edificou o povo uma pequena capela das Almas no adro da igreja paroquial da freguesia do
Estreito de Câmara de Lobos, que foi demolida.
Também contígua á igreja paroquial da freguesia da Ponta do Sol se construiu uma capela de igual
invocação, que foi mandada demolir pela Câmara Municipal por 1925 para alargamento da rua do Dr. João
Augusto Teixeira.
Almas Pobres (Capelas das)
No ângulo formado a meio da rua que comunica o convento de
Santa Clara com o local onde se erguia o convento de Nossa Senhora das Mercês, abre-se na rocha viva uma
original e pequena ermida conhecida pelo nome de Capela ou Capelinha das Almas. É provável que aquela
massa de basalto oferecesse uma cavidade ou mesmo existisse ali uma pequena gruta ou furna, que viesse a
despertar a ideia daquela construção. Corre, porém, na tradição local uma lenda, que nos parece ter sido
também aproveitada para explicar a razão de idênticas edificações em outros sítios e lugares. E conta-se
que, num basto canavial ali existente, procurara um indivíduo esconderijo seguro para perpetrar um crime
de morte na pessoa dum seu figadal inimigo, que no local costumava passar a deshoras. Numa noite e
noutra noite e em dias sucessivos, não logrou realizar o seu perverso intento, porque a vitima preparada
para o atentado ali passava sempre acompanhada por outras pessoas, tomando então o criminoso a
resolução de abandonar a ideia que por tantos dias lhe obsediara o espírito. 0 indivíduo assim poupado á
sanha feroz do seu inimigo, tendo mais tarde conhecimento do projectado assassinato, viu no facto um
evidente prodígio miraculoso, porque sempre passara naquele local só e de todo desacompanhado,
atribuindo á intervenção das almas do purgatório, pelas quais tinha a mais viva devoção, o não haver sido
vitima inocente daquele atentado. E daí nasceu a ideia da construção da capela no próprio local em que ele
julgava que se havia operado o prodígio. O Sr. major A. A. Sarmento aproveitou o assunto desta lenda para
um dos capítulos do seu livro Migalhas, introduzindo-lhe variantes e episódios, que mais se acomodavam á
romantização do quadro.
O que de positivo sabemos é que Roque José de Araujo, natural de Viana de Caminha e que ha muitos anos
residia no Funchal, foi quem mandou edificar em 1781 a pequena ermida, que consagrou ás almas do
purgatório e a que deu o nome de Almas Pobres. Foi vistoriada, como era de estilo, pela competente
autoridade eclesiástica, e no respectivo auto se lêem as seguintes palavras:-“... tem de comprimento da
porta até o altar seis palmos de fundo e vão, e de largura nove palmos de vão e he o comprimento do altar
todo sem credencia, a altura he proporcionada, coberta de abobada. . e situada debaixo da rocha e ao
parecer firme”.
Para ocorrer á manutenção do culto e conservação da capela, concedeu-lhe Roque José de Araujo, por
escritura publica de 25 de Agosto de 1781, a pensão anual perpetua de cinco mil reis, imposta num prédio
que possuía no Beco do Gongorra, á Ponte Nova.
A capela foi benzida pelo vigário da freguesia de S. Pedro, Francisco Xavier da Cunha, a de Dezembro de
1783.
Com o nome de Almas Pobres houve uma capela na freguesia de Santa Maria Maior, fundada por Gonçalo
Diniz da Silva pelos anos de 1470. Já não existe e ignoramos o local onde fora edificada.
Almeida
“A mulher de João Gonçalves Zargo, Constança Rodrigues, diz o Dr. Alvaro de Azevedo, é por
uns designada de Sá, por outros, de Almeida; e, com effeito, a casa de Abrantes, proveniente da mesma
ascendência, usa as armas dos Almeidas. Depois de Constança Rodrigues, a primeira pessoa que achamos
com este appellido é Amador de Almeida, ao qual D. João III deu brazão de armas em 1538”.
Almeida (Antonio de Carvalho e)
Naturalista português que veio á Madeira em Junho de
1784, com o fim de organizar uma colecção de produtos naturais da ilha.
Almeida (Boaventura Mendes de)
Por decreto de 13 de Junho de 1907 foi nomeado
governador civil deste distrito e tomou posse do seu cargo a 3 de Agosto do mesmo ano.
Em Agosto de 1907 apareceu uma doença suspeita na freguesia de Santo Antonio e que em poucos dias
vitimou 14 indivíduos, que tantos foram os atacados pela mesma doença. Esta moléstia, que alarmou em
extremo a população do Funchal, não tomou maiores proporções em virtude das enérgicas providencias que
se adoptaram devendo-se principalmente ao governador Boaventura de Almeida a prontidão e eficácia
dessas medidas, vinculando assim o nome á extinção da terrível doença.
Faleceu em Lisboa a 11 de Agosto de 1934.
Almeida (D. Constança Rodrigues de)
Mulher de Zarco. Mandou edificar a capela e
abrigo de Santa Catarina.
Almeida (D. Fr. Gabriel de)
Ao prelado D. Jeronimo Fernando sucedeu, depois de se achar
vaga durante 20 anos a Se do Funchal, o bispo D. Frei Gabriel de Almeida no governo desta diocese. Teve
um curto episcopado, pois foi sagrado em 1671 e tomou posse do bispado a 4 de Março do mesmo ano,
vindo a falecer nesta cidade a 12 de Julho de 1674.
Pertencia á ordem de S. Bernardo e foi abade geral de Alcobaça, lente de teologia na Universidade de
Coimbra e exerceu outros cargos importantes.
A pesar de assumir a direcção desta diocese em anos bastante avançados, mostrou-se sempre zeloso no
cumprimento dos seus deveres prelaticios, tendo visitado pastoralmente muitas igrejas paroquiais e entre
elas a da ilha do Porto Santo. No entretanto foi a sua administração episcopal entrecortada por graves
dificuldades, provenientes das questões que surgiram entre ele e o governador e capitão-general, e o mesmo
se deu com os religiosos de S. Francisco e alguns membros do clero secular, o que se afirma ter contribuído
para lhe abreviar os dias da existência.
A dar crédito ao autor da curiosa obra Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, escrita ha dois séculos e
publicada ha poucos anos, era D. Frei Gabriel de Almeida de natural áspero e desabrido, não captando as
simpatias das pessoas que dele se aproximavam, o que, de par com a sua avançada idade e achaques de que
sofria, explica suficientemente os atritos que levantou no governo do bispado e os desgostos que lhe
atribularam os últimos anos da sua existência.
Depois de curta enfermidade, faleceu no Funchal a 12 de Julho de 1674 e jaz sepultado no coro da Sé
Catedral, sendo o segundo bispo que morreu na Madeira e ali foi sepultado.
Almeida (Januario Correia de)
Este governador civil da Madeira foi nomeado para este
cargo por decreto de 15 de Janeiro de 1862 e tomou posse a 19 do mesmo mês e ano.
Mais tarde exerceu um papel importante na política do país, tendo sido deputado, par do reino e ministro
de estado. Foi agraciado com o título de visconde e depois conde de São Januario, nome com que ficou
sendo conhecido na política portuguesa.
João de Sant'Ana e Vasconcelos, foi nomeado governador civil deste distrito e tomou posse do cargo em
meados de Janeiro de 1862. No próprio dia da posse, o primeiro visconde das Nogueiras, cunhado do novo
governador, ofereceu em sua honra um esplêndido baile, ao qual concorreram as pessoas mais distintas do
Funchal. Quando a festa decorria mais animada e alegre, foram comunicar ao visconde das Nogueiras que
acabava de ancorar no nosso porto um navio de guerra, conduzindo um novo governador para a Madeira, e
que portanto estava demissionário o governador Sant'Ana e Vasconcelos. Houve o prudente e reservado
cuidado de ocultar aos convidados a noticia da chegada do novo governador, que era Januário Correia de
Almeida, decorrendo a festa até o fim com o mesmo entusiasmo e alegria. Os adversários políticos do
governador Sant'Ana, que era então administrador do concelho do Porto Santo, comentaram
picarescamente o caso, tendo dito um jornal que de tal modo se preocupara com a administração do
distrito, que nem o tempo lhe chegara para dormir enquanto ela durou, pois apenas foi governador no curto
período de algumas horas.
Almeida (Luiz Beltrão de Gouveia e)
Foi nomeado governador e capitão-general deste
arquipélago a 13 de Fevereiro de 1813 e tomou posse do lugar a 10 de Agosto do mesmo ano.
Teve lutas com o general Gordon, comandante das tropas britanicas que ocupavam a Madeira, que entre
outras arbitrariedades cometeu a de mandar enforcar um soldado inglês que matara um sargento seu
compatriota, ofendendo-se deste modo gravemente os direitos majestáticos do rei de Portugal. Empregou as
maiores diligências para a retirada daquelas tropas e mostrou-se sempre zeloso na administração dos
serviços públicos. Escreveu um extenso e notável relatório sôbre o desenvolvimento da agricultura
madeirense, construção de estradas e outros indispensáveis melhoramentos públicos.
Morreu repentinamente no Funchal no dia 1 de Julho de 1814 e foi sepultado na Capela do Santissimo
Sacramento da Sé Catedral.
Por sua morte e segundo as disposições legais em vigor assumiram o governo superior do arquipélago o
bispo diocesano D. Fr. Joaquim de Menezes Ataíde, o corregedor da comarca Dr. Manuel C. de Almeida e
Albuquerque e o oficial mais graduado Antonio Alberto de Andrade Perdigão.
O comandante das forças britanicas teve a pretensão de fazer parte deste governo, ao que se opuseram os
outros membros, o que foi aprovado pelo governo central.
Almeida (D. Maria Helena Jervis de Atouguia e)
Nasceu no Funchal no ano de 1847
e pertenceu a uma antiga família madeirense.
Em 1907 reuniu e publicou num volume de 114 pag. algumas das suas poesias, sob o pseudónimo de Bertha
de Ataide e a que deu o título de Mosaicos. Este livro de que se fez 20 edição em 1909, é prefaciado pelo
ilustre escritor padre Sena Freitas. No livro Poetisas Portuguesas, publicado em 1917, onde se encontram
algumas composições poéticas da Sr.0 D. Maria Helena de Atouguia, diz que em breve deve aparecer a 30
edição dos Mosaicos.
Faleceu em Lisboa no mês de Maio de 1928.
Almeida (Paulo Dias de)
Engenheiro e sócio correspondente da Sociedade Funchalense dos
Amigos das Sciencias e Artes. Como militasse no partido constitucional, foi preso e mandado para bordo da
fragata Príncipe D. Pedro, mal chegou a esta ilha o governador José Maria Monteiro, sendo depois enviado
para Lisboa a bordo da charrua Orestes, na qualidade de preso político pronunciado pela alçada que veio a
esta ilha em 1828.
Levantou a planta geral da ilha da Madeira no princípio do século XIX, e deixou um manuscrito intitulado
Descripção da Ilha da Madeira em geral e de cada huma das suas freguesias, villas e logares em particular,
suas producções, numero de fogos e seus habitantes; e estado actual das suas fortificações; 1817.
Este manuscrito foi publicado no Archivo da Marinha e Ultramar, vol. II, com desenhos das fortificações,
figurinos das tropas milicianas e costumes populares.
Tendo sido condenado, por motivos políticos, a degredo em Africa, ali morreu pouco antes de 1834.
Almeida (Vasco de)
Nasceu no Funchal. E.: Arte de criar os bichos de seda... tradução do francês e
italiano, Funchal, 1870, de 61 pag.
Almeirão (Cichorium Endivia)
Composta liguliflora frequente na região inferior da Madeira.
Tem ramos quasi nus e capítulos de flores azuis.
Almotacés. Eram funcionários eleitos pela câmara municipal e que tinham inspecção sobre pesos, medidas,
preso dos géneros, limpeza da cidade e vários objectos de policia.
Almude
Esta antiga medida, a pesar de ilegal, ainda é usada na Madeira, principalmente na medição
dos mostos e da garapa. Varia de concelho para concelho, e segundo as tabelas publicadas oficialmente em
1868, equivale o almude do concelho do Funchal, a 17,520; no concelho de Câmara de Lobos, a 17,580; no
concelho da Ponta do Sol, a 17,400; no concelho da Calheta, a 17,352; no concelho de Santa Cruz, a 17,328;
no concelho de Machico, a 17,568; no concelho do Porto Santo, a 17,556; no concelho de Sant'Ana, a 17,604;
no concelho de S. Vicente, a 20,538, e no concelho do Porto Moniz, a 20,272. A média é 18 071, mas no
concelho do Funchal considera-se geralmente o almude equivalente a 17 litros.
Alpires
Sítio no alto da freguesia de São Gonçalo, onde se encontra uma pequena casa de abrigo,
próximo da esplanada da Levada da Serra.
Alpiste (Phalaris canariensis)
Esta Graminea não é cultivada na Madeira, mas aparece
subespontanea nas proximidades das habitações.
Alqueire
Tinha as seguintes capacidades, segundo uma estatística oficial:
LITROS
Calheta 13,712
Câmara de Lobos....... 14,078
Funchal ..................... 13,865
Machico...................... 13,912
Ponta do Sol.............. 13,756
Porto do Moniz.......... 13,861
Porto Santo................. 13,883
Sant'Ana..................... 13,973
Santa Cruz.................. 13,776
S. Vicente.................. 13,917
Hoje a média mais geral é de. 13,8
Altitudes
Apresentamos em seguida uma noticia sumária das alturas a que diversos pontos deste
arquipélago ficam situados acima do nível do mar, esperando no prosseguimento desta obra indicar outras
altitudes de que não se faz menção neste lugar e conforme o forem pedindo as necessidades do assunto. Das
altitudes compreendidas entre as proximidades do oceano e a maior das eminências existentes na Madeira,
que é a do Pico Ruivo, damos uma nota dos principais pontos mais elevados numa relação ascendente,
mostrando-se assim o grande acidentado dos terrenos que constituem o solo desta ilha numa superfície
inferior a 800 quilómetros quadrados e o caprichoso relevo que oferecem as condições ortografias em toda
a extensão e largura da mesma ilha.
C 134
Ilhéu das Cenouras — Porto Santo 109
Ilhéu de Cima — Porto Santo 111
Cruz do Carvalho — C. 1 1 1
Capela da Piedade — Canigal . . 114
Ilheu de Ferro — Porto Santo . . . 115
Ribeiro Seco, no Caminho do Pilar
S. Martinho 117
—
Garajau 128
Quinta Blandy — Rua de S. Luzia
—
Caminho da Achada — Azinhaga de
S. Pedro 148
Pico de S. João 158
Quinta do Pico de S. João —
Caminho de Santo António 162
Levada de Santa Luzia — Junto da
Avenida Pedro José de Ornelas . 165
Levada de Santa Luzia, Caminho de
Ferro 170
Ilheu de Baixo ou da Cal — Porto
Santo 173
Quinta do Faial — Caminho do
PaIheiro 174
Levada de Santa Luzia — Junto da
Rua do Arcebispo D. Aires 180
Pico do Calhau da Malhada — Porto
Santo 182
Caminho do Meio — Junto da Leva
da do Bom Sucesso 185
Terra do Baptista — Freguesia do
Porto da Cruz 230
Igreja Velha Paroquial de S. Mar
tinho 233
Pico do Funcho — S. Martinho 255
Pico da Cruz — S. Martinho 263
Avenida — Cidade 10
Rocha de Sao Lourenço—Porto Santo
11
Adro do Colégio — C 16
23
Avenida de Joao de Deus — C.
Campo de Miguel Bombarda — C.
25
Ponte Nova — C 26
Igreja de S. Pedro — C 35
Largo de S. Paulo — C 44
Comego da Rua do Pina — C.
47
Rua de Severiano Ferraz — C. 47
Igreja Paroquial de Sao Vicente
48
Furilhao — Pequeno ilhéu pr6ximo
do Ilheu Chao, nag Desertas
49
Fabrica do Torreao — C. 58
Calcada do Pico (Quinta das Cru-
zes) — C. 59
Comego do Caminho do Monte (An-
tiga Igreja da Incarnac&o) — C.
Igreja de Santa Luzia — C.
Entrada do Lazareto — C.
Quinta do Vale Paraiso (Torrinha)
—
C.
70
Igreja de Sao Joao — C 76
Ilhéu da Fonte da Arela — Porto
Santo 82
Ilhéu Chão — Desertas 93
Ilheu de Fora — Porto Santo
100
Quinta do Descanso — Santa Luzia
— C.
Ribeiro Seco — Caminho de Sao
Martinho 102
Caminho da Achada — Beco do Paiol
—
Ilheu de Fora — Ponta de S. Lou-
Renco 107
C. 105
59
70
70
100
Pico do Facho da Malhada — Porto
Santo 265
Pico de Ana Ferreira — Porto Santo 278
Igreja Paroquial de Santo António
do Funchal 287
Igreja Paroquial de Sao Jorge 310
Igreja Paroquial de Sant'Ana 312
Ponta do Tristao — Porto do Moniz 326
Pico do Facho — Machico 329
Igreja Paroquial de São Roque do
Funcha! 344
Capela das Neves — Sao Gonçalo 380
Bheu do Bugio — Desertas 411
Pico das Favas — Ponta do Pargo 420
Pico Branco — Porto Santo 423
Igreja Paroquial do Estreito de
Câmara de Lobos 434
Pico do Cardo — Santo Antdnio do
Funchal 438
Pico do Castelo — Porto Santo 441
Pico de Juliana — Porto Santo 455
Igreja Paroquial da Ponta do Pargo 460
Deserta Graudc — Unas Dasertas 490
Pico da Gandaia
-
Porto Santo 492
Pico da Relva — Porto do Moniz 493
Pico do Facho — Porto Santo 507
Capela de Santa MadaJena —
Portodo Moniz 620
Igreja Paroquial das Achadas da
Cruz 521
Pico do Cortado — Sant'Ana 527
Igreja Paroquial dos Prazeres 533
Igreja Paroquial da Faja da Ovelha 549
Mirante das Macelas —• Santo da
Serra 582
Penha de Aguia — Porto da Cruz 584
Cruz da Caldeira — Camara de Lobos 589
Cabo Girão 589
Igreja Paroquial do Monte
598
Portela — Santo da Serra 610
Raposedra do Lugarinho — Fajã da
Ovelha 619
Pico do Castanho — Norte do Canigal 627
Quinta do Palheiro Ferreiro 630
Nasoentes dos Tornos 700
Igreja Paroquial do Santo da Serra . 701
Igreja Paroquial da Camacha 715
Lamaceiros — Santo da Serra 716
Ribeiro Frio 750
Jardim da Serra 750
Cratera do Santo da Serra 755
Pico de Larano — Porto da Cruz 765
Pico da Maia — Serra do Porto da
Cruz 765
Quinta do Jardim da Serra 769
Ponte na descida para o Ribeiro Frio 830
Pico do Arco de S. Jorge 837
Terreiro da Luta — Monte 850
Pico da Cruz — Camara de Lobos 936
Pico da Cruz —• Campanário 1000
Tunel do Rabagal — Próximo da
Ponte do Lordelo 1004
Eira do Cerrado — Curral das
Freirãs 1026
Pico do Suna — Porto da Cruz 1040
Encumeada de Sao Vicente 1045
Ponte da Riibeira dag Cales — Monte 1098
Cratera do Fanal 1113
Pico Ruivo do Paul da Serra 1587
Pico Grande — Na Serra da Serra
de Agua 1643
Pico do Canario — Nao muito
afastado do Pico Ruivo 1661
Pico do Cidrão — Ao sul e nao distante
do Pico das Torrinhas 1676
Pico de Santo Antonio — Perto do
Curral das Freiras 1739
Cumeada Alta — Pr6ximo do Pico
Ruivo 1768
Pico do Areeiro — Nao longe e a
leste do Pico do Cidrao 1796
Pico das Torrinhas — Próximo do
Pico Ruivo 1840
Pico das Torres — Nao muito
distante do Pico Ruivo 1848
Pico Ruivo 1861
Rabagal — Casa das Obras Publicas 1132
Pico dos Bodes — Sobranceiro ao
Curral das Freiras 1135
Pico do Arrebentao — Monte 1171
Pico da Silva —
Acima da Choupana 1183
Pico Gordo — Nao muito distante do
Monte das Estrebaria 1199
Pico do
s
Bodes — Serra da Ribeira
da Janela 1302
Cova da Cevada — Próximo do
Jardim da Serra 1311
Boca dos Corregos — Entre o
Curral das Freiras e a Serra de Agua 1349
Poiso 1390
Pico do Podso 1393
Pico doa Terreiros de Fora
1405
Pico da Urze — Nao muito distante
das Fontes do Rabagal 1406
Pico das Aboboras — Serra da
Camacha 1453
Boca das Torrinhag — Entre o
Curral das Freiras e a Boaventura 1451
Pico da Lagoa — Perto do Poiso 1457
Pico do Pogo da Neve — Nao muito
longe do Pico do Areeiro 1478
Casa da Queimada. — Paul da Serra 1543
Pico da B'onte do Norte — Paul da
Serra 1546
Pico da Fonte da Bica — Paul da
Serra 1565
Paul da Serra (media) 1580
Pico dos Estanquinhos — No Paul
da Serra, nao longe da Casa de
Abrigo 1 588
Aluviões
Na relação que abaixo publicamos vão indicadas todas as aluviões que tem havido na Madeira
e sobre as quais conseguimos obter alguns esclarecimentos. É de advertir, porém, que a aluvião de 1724 não
foi a primeira que causou prejuízos, pois que Mouquet que esteve aqui em 1601, diz, embora não precise
datas, “que as águas que descem das montanhas algumas vezes destroem pontes e casas em toda a ilha”.
18 de Novembro de 1724.
Os estragos desta aluvião fizeram-se principalmente sentir na
freguesia de Machico, morrendo ali 26 pessoas e abatendo-se mais de 80 habitações. No Anno Histórico,
referindo-se o Padre Francisco de Santa Maria á aluvião de 1724, diz que “padeceu a ilha da Madeira uma
tormenta e dilúvio tão grande, que destruiu a vila de Machico, parte da de Santa Cruz e muitos outros
logares e sítios da mesma ilha, e também a cidade do Funchal experimentou grande dano e muitas ruínas,
assim nas suas muralhas como na povoação, com a enchente da Ribeira do Pinheiro (Santa Luzia) que a
divide”
18 de Novembro de 1765.
Em virtude das grandes chuvas, cresceram muito neste dia as ribeiras
que atravessam o Funchal, sendo destruída a Ponte da Praça e sofrendo bastante outras pontes da cidade.
As águas da Ribeira da Praça ou de João Gomes arrastaram para o mar o inglês Moita (?), o qual nunca
mais apareceu.
9 de Outubro de 1803.
Foi neste dia tristemente memorável que uma grande inundação assolou
os campos da Madeira e destruiu uma parte considerável da cidade, causando não somente enormes
prejuízos materiais mas também a perda da vida de alguns centenares de pessoas. Pode sem duvida
considerar-se a maior calamidade que tem ferido esta ilha no largo período de cinco séculos. Longe iríamos
se quiséssemos fazer uma descrição pormenorizada desta tremenda catástrofe e por isso nos limitamos a
traçar umas breves notas, rapidamente colhidas nas crónicas do tempo.
Tinham caído algumas chuvas, com várias intermitências, nos dez ou doze dias que precederam o 9 de
Outubro de 1803. Neste dia, pelas 8 horas da manhã, começou a cair no Funchal uma chuva não muito
copiosa, que se manteve inalteravelmente até ás 8 horas da noite, mas nada fazia recear que estivesse
iminente uma tão terrível inundação. Principiou então a ouvir-se o ribombar do trovão e a chuva,
acompanhada de algum vento, caía já em verdadeiras catadupas. Ás 8 horas e meia as águas das ribeiras
galgavam as suas margens e espalhavam-se com grande ruído pelas ruas laterais, começando a sua obra de
destruição e de morte. Estava-se em pleno dilúvio.
É indescritível o pavor que se apossou dos habitantes, que maior se tornou ainda pelo inopinado do
acontecimento, que a um grande numero apanhou de surpresa e sem possibilidade de pôr-se ao abrigo do
perigo que a todos ameaçava. A morte surpreendeu a muitos na fuga, arrastados pela violência das
correntes ou atingidos pelas derrocadas das casas e paredes que se desmoronavam.
Foi o bairro de Santa Maria Maior o mais sacrificado pela tempestade. A ribeira de João Gomes, com a
abundância e violência das águas, rebentou em três diversos pontos, formando outras tantas impetuosas
correntes que causaram os maiores estragos e vitimaram algumas dezenas de pessoas. Ruas inteiras e
inúmeras casas de habitação e outros prédios foram arrastados para o mar, incluindo a igreja paroquial,
conhecida pelo nome de Nossa Senhora do Calhau e que ficava na margem esquerda da ribeira, entre as
actuais rua de Santa Maria e rua Nova de Santa Maria. Numa casa desta rua ficaram soterrados 21
indivíduos e num prédio do Pelourinho morreram um súbdito inglês e 15 pessoas de família. Calcula-se que
só no bairro de Santa Maria Maior tivessem perecido cerca de 200 pessoas por ocasião da aluvião.
Os prédios marginais da ribeira de Santa Luzia também sofreram bastante. Acima da ponte do Bom Jesus
as águas tomaram novo curso por uma e outra margem daquela corrente e, sobretudo na rua dos Ferreiros,
causaram estragos consideráveis, tendo-se abatido diversas casas de habitação e lojas de comercio. O
mesmo aconteceu na rua dos Tanoeiros e a vários prédios que ficavam na margem esquerda daquela ribeira
e que formavam a rua Direita, prédios que foram arrastados pela violência da corrente.
Diz uma relação coeva do acontecimento:
"Ruas inteiras desapareceram com seus habitantes e outras inundadas de água e lama deixaram os
proprietários e inquilinos reduzidos á extrema indigência. Uma grande parte da freguesia de Santa Maria
Maior, assim como a sua igreja, a mais antiga da cidade, não existem com uma boa porção dos seus infelizes
moradores: o resto disperso cá e lá, inundado e abandonado, oferece aos olhos do homem sensível um
objecto de dor, de ruína e consternação. As ruas chamadas Direita, Tanoeiros, Valverde, Santa Maria,
Hospital Velho e outras foram ao mar com uma incrível multidão de habitantes”.
Fora do Funchal, as povoações que mais sofreram com a horrível inundação foram Machico, Santa Cruz,
Campanário, Ribeira Brava e Calheta, tendo sido relativamente pequenos os prejuízos causados nas
freguesias do norte da ilha.
Com respeito á vila de Machico, lê-se o seguinte no arquivo da respectiva igreja paroquial: “...demoliu a
muralha da ribeira, abateu a ponte e invadiu a vila de tal sorte que chegaram as águas á altura de três
côvados na igreja e em todas as ruas. Esta inundacão prometeu a todos a morte; mas um prodígio evidente
fez que se salvassem todos, excepto catorze pessoas que pereceram arrastadas pelas águas e aterrados nas
casas”. Também demoliu a antiga e histórica capela do Senhor dos Milagres, tendo a respectiva imagem
sido encontrada dias depois, no alto mar, por uma galera americana, que a fez depositar na Sé do Funchal.
Foram igualmente consideráveis os estragos que a aluvião produziu nas outras freguesias citadas, onde
também houve a perda de muitas vidas.
São bastantes discordes as informações contemporâneas dos acontecimentos, com relação ao numero de
pessoas que sucumbiram, vitimas daquelas inundações, chegando uma narrativa do terrível caso a
computar em cerca de mil os indivíduos mortos e desaparecidos. Parece não estar muito distanciado da
verdade quem fixar em seiscentos o numero aproximado dos que morreram, sendo a maior parte no
concelho do Funchal.
Era então governador e capitão general D. José Manuel da Câmara, que fez publicar sem demora um edital
adoptando as imediatas e prontas providencias que as circunstancias de momento aconselhavam. O
primeiro cuidado das autoridades foi procurar abrigo para os que tinham ficado sem casa de habitação e
que eram em numero muito avultado. Os edifícios públicos, varias repartições de serviço do estado, muitas
dependências das igrejas, dos quartéis e das fortalezas e ainda bastantes casas particulares foram
destinadas a dar alojamento provisório àqueles indivíduos. Entre as medidas tomadas pelo governador,
destaca-se a da absoluta proibição de serem elevados os preços dos géneros de consumo, sob pena de
severos castigos infligidos aos transgressores.
A principal causa dos males produzidos pela aluvião foi a falta do encanamento das ribeiras. Embora
tardiamente, resolveu o governo da metrópole realizar esse tão desejado melhoramento, enviando á
Madeira o brigadeiro Reinaldo Oudinot encarregado de dirigir os respectivos trabalhos e que aqui chegou a
19 de Fevereiro de 1804. Revelou a maior competência no desempenho do cargo em que fora investido e
nele desenvolveu uma pasmosa actividade, conseguindo num período relativamente curto de tempo fazer o
encanamento das três ribeiras que atravessam o Funchal. Em Dezembro de 1800, comunicava ele ao
governo central que, a pesar dos grandes temporais e fortes invernias que pouco antes houvera, as muralhas
tinham resistido ao embate violento das águas e oferecido uma prova evidente da solidez da sua construção.
Oudinot morreu nesta cidade a 11 de Fevereiro de 1807 e em memória dos seus serviços foi dado o seu nome
á rua que fica na margem esquerda da ribeira de João Gomes, entre o Campo da Barca e a praça dos
Lavradores.
Um pormenor interessante: tendo ficado de pé a capela-mor da igreja de Nossa Senhora do Calhau, mandou
a provisão régia de 12 de Março de 1805 que ela se conservasse no mesmo estado em que a deixara a
aluvião, como lembrança, para os vindouros, do acontecimento que mais funesto fora para os habitantes
desta ilha. Em Dezembro de 1835 foi demolida parte da igreja que a aluvião respeitara e ali se construiu o
mercado União, que há pouco se destruiu para o alargamento da rua que ali passa.
26 de Outubro de 1815.
Depois da grande aluvião de 9 de Outubro de 1803 foi talvez a maior que
tem assolado esta ilha. Numa representação que, sôbre os estragos causados por esta inundação de 26 de
Outubro de 1815, dirigiu a câmara municipal do Funchal ao Príncipe Regente D. João, se afirma que esta foi
*incomparavelmente maior do que a aluvião de 1803+, mas, nem pelo numero de vitimas nem pelos
prejuízos que causou, atingiu as proporções da outra, a pesar das enormes perdas que acarretou aos
habitantes do Funchal.
Como em outras ocasiões aconteceu, foram as correntes impetuosas das ribeiras que ocasionaram os
maiores prejuízos. Especialmente nalguns pontos das margens das ribeiras que não tinham muralhas a
ampararem e a dirigirem o curso das águas, saíram estas fora do seu leito, galgaram os terrenos marginais e
abriram novo caminho, através das ruas e casas, causando não só incalculaveis estragos, como produzindo o
maior pânico entre os habitantes, alguns dos quais foram vitimas do ímpeto indomável da corrente. Foi o
que aconteceu com as águas da ribeira de S. João que, procurando novo percurso, arrastaram na sua
violência cerca de vinte casas desde a ponte de S. Paulo, ao fim da rua da Carreira, até á foz da mesma
ribeira.
Nas ruas marginais da ribeira de Santa Luzia, também foram grandes os estragos, ficando danificadas
algumas casas e em alguns pontos as muralhas da mesma ribeira.
Por toda a ilha houve prejuízos consideráveis e morreram várias pessoas, arrastadas pela violência das
correntes.
Os horrores da grande aluvião de 1803, ainda bem presentes na memória de todos, fizeram aumentar o
pânico nos habitantes, que, na sua grande maioria, julgaram que não havia possibilidade de escapar á
morte, que para eles parecia inevitável.
28 de Outubro de 1842.
Havia quinze dias que quasi interruptamente caia um pequeno orvalho.
As 9 horas da manhã do dia 24 de Outubro as chuvas eram já abundantes, e ás 3 horas da tarde as águas
pluviais caiam a torrentes. As águas das ribeiras saíram dos seus leitos e espalharam-se impetuosamente
pelos terrenos marginais, causando grandes estragos.
Ficaram completamente inundadas as ruas do bairro de Santa Maria Maior, o Pelourinho, a rua dos
Medinas e ainda outras, chegando a água a invadir os segundos e terceiros andares das casas. Em muitas
ruas da cidade os barcos navegavam para a custo salvarem muitas famílias que imploravam misericórdia
dos últimos andares e telhados. Por toda a parte se ouviam gritos de terror. Um dos homens a quem mais se
deveu a salvação de muitos infelizes inundados foi o cidadão Joaquim Dias de Almeida, mas houve muitos
outros que se distinguiram, como nessa época fizeram menção o Imparcial e o Defensor, jornais do Funchal.
As calçadas de Santa Clara, do Pico, Bela Vista e Incarnação foram convertidas em caudalosas ribeiras. O
bairro do Cemitério dos Inglêses ficou despovoado, sendo todos os seus moradores acolhidos e agasalhados,
com todos os confortos, por uma proprietária abastada, que residia no fim da rua da Bela Vista.
Uma grande parte da cidade ficou destruída e as casas arruinadas até aos alicerces.
Muitas famílias remediadas ficaram pobres. Foi um prejuízo de centenares de contos de reis.
No dia 26, dois dias depois, o vento sul fez desencadear no porto do Funchal, uma medonha tempestade.
As ondas embravecidas saltavam as muralhas da Pontinha e por vezes lamberam a esplanada do Ilhéu,
vindo durante a tarde despedaçar-se nos rochedos da praia do Funchal, dez ou onze embarcações, sendo os
tripulantes e guardas, que se achavam a bordo, salvos milagrosamente pelo guarda da alfândega Carvalho e
por uns marítimos arrojadissimos, distinguindo-se sempre nestas catástrofes Joaquim Dias de Almeida.
17,18,19 e 20 de Novembro de 1848. Houve nestes dias grandes inundações, principalmente no concelho de
Sant'Ana, sendo arrastadas pelas águas muitas bemfeitorias produtivas e importantes. No Funchal as águas
das ribeiras correram com violência, mas, a pesar de copiosissimas, não produziram estragos sensíveis.
5 e 6 de Janeiro de 18596.
Em virtude de chuvas abundantissimas, trouxe a corrente da Ribeira
de João Gomes muito entulho que sobrepujou os mainéis entre a foz e o Campo da Barca. Não podendo as
águas correr livremente, foram inundar a R. de Santa Maria, as travessas que a cortam, a R. do Ribeirinho
de Baixo e o largo do Pelourinho, fazendo em todos estes pontos grandes destroços. A Ribeira de Santa
Luzia não causou prejuízos, embora ficasse também entulhada, mas a de S. João fez não pequenos estragos,
principalmente nas proximidades da capela. Na Ribeira Brava, na Tabua, na Serra de Água, na Ponta do Sol,
no Paul do Mar e noutras localidades houve também grandes devastações produzida pelas águas.
1 de Janeiro de 1876. As inundações deste dia só causaram prejuízos notáveis na freguesia da Madalena.
2 e 3 de Outubro de 1895. A aluvião que se deu nestes dois dias produziu grandes estragos nas freguesias de
S. Vicente, Faial, Ponta Delgada, Boa Ventura e Seixal. Nesta ultima freguesia morreu o proprietário Manoel
Inisio da Costa Lira. As ribeiras do Funchal trouxeram muita água.
8 e 9 de Novembro de 1901.
As chuvas abundantissimas que nestes dois dias caíram no
Funchal,
inundaram as ruas e caminhos, danificaram muitos destes e provocaram alguns
desmoronamentos, principalmente na Levada de Santa Luzia.
25 e 26 de Fevereiro de 1920.
Nestes dois dias fez sentir um violento temporal de vento e
chuva que causou inúmeros prejuízos em toda a ilha. As ribeiras que atravessam a cidade, embora
trouxessem muita água, não chegaram a trasbordar, mas houve inundações em vários sítios, devido á
abundância das chuvas e aos ribeiros da Nora, do Til e dos Louros terem ficado obstruidos. No bairro de
Santa Maria chegaram a andar barcos nas ruas para conduzir pessoas de uns para outros pontos, e diz-se
que e toda a ilha ficaram mais de 500 pessoas sem abrigo, sendo incalculaveis os destroços causados pelo
vento N. W. no arvoredo, nos canaviais e em muitas outras culturas. No caminho do Lazareto morreu um
indivíduo que se dirigia de noite para sua casa e no molhe da Pontinha morreu um outro que trabalhava no
Cabrestante, sendo tal a impetuosidade do vento no dia 25 e parte do dia 26, que era perigoso transitar
mesmo nas ruas da cidade. No dia 25, de tarde, foi suspenso, por causa do vento, o serviço de automóveis no
Funchal.
A vila da Ribeira Brava correu grande risco de ser destruída pelas águas, tendo saído a imagem de S. Bento
em procissão e havendo depois preces na igreja paroquial. Em Machico, Santa Cruz, S. Vicente e Camacha
registaram-se importantíssimos prejuízos, morrendo uma mulher e uma criança nesta ultima freguesia.
Desapareceram, com os respectivos tripulantes, alguns barcos de pesca de Câmara de Lobos, e o barco
Arriaga, do Porto Santo, que conduzia 16 passageiros, foi impelido para o sul pelo temporal, sendo
encontrado pelo vapor inglês Andorinha, que tomou os passageiros, arribando o barco ás Selvagens.
No dia 28 voltou a chover torrencialmente e no dia 2 de Março soprou de novo com grande violência o vento
N. W., havendo também fortes aguaceiros, que duraram até á madrugada do dia 3.
5 e 6 de Março de 1921.
Caíram nestes dias abundantes chuvas, acompanhadas de trovoada, em
toda a ilha, havendo inundações e estragos em Machico, Ribeira Brava, etc., etc.. Em Machico as águas
subiram nalguns pontos quasi ao primeiro andar das casas, e na Ribeira Brava morreram quatro crianças,
sendo três em virtude do desmoronamento dum prédio e uma arrastada pelas águas.
Além das doze aluviões que ficam mencionadas, colhemos noticia, num antigo manuscrito, que no ano de
1611 houve uma grande enchente no Funchal, que, entre os notáveis estragos que causou, se conta o de ter
destruíd em grande parte a igreja paroquial da freguesia de Santa Maria Maior que então ficava na rua que
hoje tem o nome de Hospital Velho. Procedeu-se depois á construção duma nova igreja nas imediações do
actual fontanário chamado do Calhau, e que foi arrastada para o mar pela aluvião de 1803.
Também temos noticia doutra aluvião que se deu no ano de 1707 e que causou consideráveis prejuízos em
toda a ilha.
Alvarenga
Foi André Gonçalves Alvarenga quem introduziu este apelido nesta ilha. Era natural da
Beira e veio com sua família fixar residência no Funchal pelos anos de 1500.
Alvares
Encontram-se vários indivíduos com este apelido, mas um dos primeiros povoadores foi Antão
Alvares de Carvalho, que teve sesmaria em Santa Cruz e nela instituiu depois o morgado de S. Gil.
Luiz Alvares da Costa fundou o primitivo convento de S. Francisco no Funchal em 1473.
Em 1523 era Pedro Alvares Juiz da Câmara do Funchal.
No ultimo quartel do século XV vivia na Ribeira Brava João Alvares, ascendente do celebre gramático Padre
Manuel Alvares.
Alvares (Joaquim de Oliveira)
Nasceu na Madeira a 16 de Novembro de 1776 e formou-se em
matemática e filosofia na Universidade de Coimbra. Em 1798 foi nomeado 2.° tenente da armada, e dois
anos depois distinguiu-se num combate que houve nas costas do Algarve, entre um pequeno caíque
português, de que era comandante, e um navio corsario francês. Proposto para a promoção pela bravura de
que dera provas durante a luta, da qual todavia saíra vencido, serviu depois na esquadra do Marquês de
Nisa, e em 1804 vamos encontra-lo no Brasil, tendo trocado a marinha pelo exército e ocupando o posto de
capitão de artilharia da legião de voluntários de S. Paulo.
Fez as campanhas de Montevideu, derrotou a 27 de Outubro de 1816 as forças do celebre Artigas, no
combate de Carumbé, e em 4 de Janeiro do ano seguinte distinguiu-se na batalha de Catalan. Em
recompensa destes serviços deram-lhe o posto de brigadeiro efectivo, a comenda de Aviz e, em 1816, o posto
de marechal de campo graduado.
Depois da independência do Brasil, ficou naquele império, tendo sido ali ministro da guerra, marechal de
campo efectivo, oficial da Ordem do Cruzeiro e tenente general.
Viveu em Londres de 1830 a 1835, e tendo recebido ali uma avultadissima herança, pôs a sua riqueza á
disposição do governo brasileiro, para este, numa ocasião de apuros, pagar os juros das inscrições.
Tendo ido a Paris em 1835, em procura de alívios para os seus padecimentos, ali faleceu, contando 59 anos
de idade, estando sepultado no cemitério do Père Lachaise.
Era homem de larga ilustração e deixou inédita uma obra de vulto intitulada Estatística do Brasil.
No tomo 2.° do Dicionário Popular encontram-se interessantes dados biográficos do marechal Joaquim de
Oliveira Alvares, que era irmão do Conselheiro João Francisco de Oliveira, outro filho ilustre da nossa terra.
Alvares (Padre Manuel)
Dizem antigos nobiliarios madeirenses que Afonso Alvares
Columbreiro, natural duma povoação dos subúrbios de Sevilha, foi um dos primeiros e nobres povoadores
do lugar da Ribeira Brava e que ali fundara as capelas de Santa Catarina e S. Bento no morgadio por ele
instituído e que tinha a sua sede naquela freguesia. Uma sua neta, por nome Brigida Gonçalves e o marido
desta João Mealheiro ou Malheiro, que tinham foro de fidalgos, foram os ascendentes do padre Manuel
Alvares, que procede portanto de nobre linhagem, o que aliás pouco acrescenta aos seus incontestaveis
méritos e virtudes. Seus pais eram Sebastião Gonçalves e Beatriz Alvares, que conservaram as regalias de
nobreza herdadas de seus maiores.
Todos os seus biógrafos, incluindo o autor da Synopsis Annalium Societatis Jesu in Lusitania, afirmam que
entrou para o instituto da Companhia de Jesus a 4 de Julho de 1546, tendo 20 anos, e que morreu em Évora
a 30 de Dezembro de 1583 com 57 anos de idade. Deve, pois, ter nascido em 1526, época em que nesta
diocese não era ainda regular o registo dos nascimentos, não se encontrando por isso o respectivo assento
no arquivo paroquial da Ribeira Brava, como mais duma vez tivemos ocasião de verificar.
Amanhecera nele a vocação eclesiástica, pois já em 1538 recebera as ordens sacras, chamadas menores, das
mãos de D. Ambrosio Brandão, bispo titular de Rocina, que viera a esta ilha exercer temporariamente as
funções episcopais. Conta o padre Antonio Franco que aportando ao Funchal uma nau, que navegava para a
Índia, lançara em terra por motivo de doença, um religioso da Companhia de Jesus, que se recolhera no
hospital a tratar da enfermidade que o acometera. Fora visita-lo Manuel Alvares a fim de obter noticias e
informações acerca dum seu antigo e condiscípulo, e do trato que teve com o religioso nasceu o desejo de
abraçar a ordem de Santo Inacio, que desde a sua fundação, em 1540, gozava de extraordinária fama e
atraía muitas vocações eclesiásticas. Em breve deixou a casa paterna e entrou na congregação dos Jesuítas
em 1546, como já fica referido.
Durante os seus trabalhos escolares, em que se revelou um estudante de extraordinário talento, mostrou
uma especial predilecção pelo cultivo das línguas mortas latina, grega e hebraica, e em breve se tornou, na
primeira delas, uma verdadeira autoridade, sendo tido como um dos mais notáveis latinistas do seu tempo.
Tinha também grande conhecimento das línguas siro-caldaica e árabe e conhecia ainda outras línguas
orientais.
Das obras que escreveu, foi a sua gramática da língua latina De Institutione Grammatica que lhe deu
renome universal. Para bem se aquilatar do seu valor, bastará dizer que, além das inúmeras edições que
dela se fizeram em língua latina, foi traduzida em francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, boémio,
croata, flamengo, hungaro, polaco, chinês e japonês.
Depois dos Lusiadas, nenhuma obra de autor português logrou ser traduzida e reeditada tantas vezes.
Edgard Prestage, no seu estudo sobre D. Francisco Manuel de Melo, publicado ha poucos anos, diz: “este
trabalho... tem passado por mais de 400 edições, estando traduzido em todas as línguas, e uma versão
chinesa foi publicada em Xangai em l869. Pouquíssimos livros scientificos têm tido assim três séculos de
vida”. José Silvestre Ribeiro, no seu Curso de Litteratura Portuguesa, afirma “que este ilustre madeirense é
uma das glórias pedagógicas de Portugal e que o seu livro é a obra mais extensa e intensamente
disseminada que tem tido a literatura portuguesa”. Acrescenta ainda, para terminar as citações, o célebre e
sábio bispo de Viseu, D. Francisco Alexandre Lobo: *ou no estado ecclesiastico ou na republica das letras
não vejo outro portuguez que possa ser preferido a Jeronimo Osorio. Na união de uma e outra cousa não
vejo portuguez que lhe possa ser igualado».
Durante duzentos anos foram os livros de Manuel Alvares os tratados clássicos do ensino da língua latina
em quasi toda a Europa. O aparecimento, porém, dos trabalhos de Antonio Pereira de Figueiredo e de Luiz
Antonio Verney, por meados do século XVIII, deram lugar entre nós a muitas criticas e discussões acerca do
valor da obra do célebre jesuíta, e os seus livros, com os progressos da ciência da linguagem no longo
período de dois séculos, começaram a perder a autoridade de que gozavam, para o que também bastante
concorreu a proibição feita pelo Marquês de Pombal de serem adoptados esses livros no ensino publico ou
particular. No entretanto, ainda no segundo quartel do século XIX se fizeram cerca de vinte edições da sua
gramática em diversos países da Europa.
Manuel Alvares, além do seu método de ensino da língua latina, escreveu outras obras, algumas das quais
ficaram inéditas. A fama que aureolou o seu nome como escritor e erudito e ainda o grande prestigio de que
gozava entre os seus confrades, tinham-no indicado para os cargos elevados da sua ordem, e assim foi reitor
dos afamados colégios de Lisboa, Évora e Coimbra, revelando sempre a superioridade do seu talento e as
eminentes qualidades do seu tacto governativo.
Terminaremos esta nota biográfica com as próprias palavras do autor da Bibliotheca Lusitana:- “De todas as
virtudes religiosas era exemplar modelo, merecendo por ellas elogios do seu santo patriarca. Provada a sua
tolerancia com uma larga enfermidade, faleceu com grande piedade no Colégio de Évora a 30 de Dezembro
de 1583, com 57 anos de idade e 37 de religioso. Passados alguns anos, sendo aberta a sua sepultura em que
jaz o seu cadáver se achou incorrupto”.
Em Agosto de 1917, veio ao Funchal o Sr. Dr. Urbano Canuto Soares proceder, por ordem do Ministério da
Instrução Publica, a alguns trabalhos acerca da vida e obras do padre Manuel Alvares.
Alvares de Nobrega (Francisco)
Francisco Alvares de Nobrega é hoje um nome quasi
inteiramente ignorado, mas que gozou no seu tempo de grande nomeada como poeta, e até era conhecido
pela antonomásia de Camões Pequeno. O infortúnio perseguiu-o sempre desapiedadamente desde os mais
verdes anos até o fim trágico da sua atribulada existência. Foi o que com inteira verdade se costuma chamar
um homem infeliz, parecendo que nunca para ele brilhou o mais pequeno clarão de ventura.
Francisco Alvares de Nobrega nasceu na freguesia de Machico “em pobre sim, mas paternal morada”
segundo ele mesmo nos diz num dos seus sonetos. Afirma o distinto madeirense Jaime Moniz ter
descoberto a data segura do nascimento do poeta, que foi a 3O de Novembro de 1772, e Januario de
Nobrega assinala-lhe o ano de 1773, sem indicação do mês e ano. Por um termo de matrícula no Seminário
do Funchal, que tivemos ocasião de examinar, vemos que nasceu a 30 de Novembro de 1772, o que
corrobora a data indicada por Jaime Moniz, dizendo-se ali que era filho de Domingos de Nobrega.
Deixando a freguesia natal, veio para esta cidade, onde se empregou no estabelecimento de fazendas de
Marcos João de Ornelas, em casa de quem recebeu a primeira educação, segundo ele próprio refere numa
das suas poesias, e foi aí que se lhe revelou o estro poético e começou a tornar-se conhecido como um
apreciado cultor das musas.
Por protecção que Marcos de Ornelas lhe dispensou, foi admitido como aluno no Seminário Diocesano, que
então se achava instalado no Colégio de S. João Evangelista. “Aí, segundo lemos algures, dando-se pouco
aos estudos práticos religiosos, continuou a escrever poesias e algumas delas satíricas, sobretudo contra o
bispo D. José da Costa Torres. Com esse género de vida, grangeou a inimizade do prelado e dos seus
superiores, e envolvido na perseguição que o bispo fez á maçonaria, foi excluído do seminário, conduzido a
uma masmorra e depois mandado para Lisboa, onde jazeu no cárcere ainda algum tempo”.
Sabe-se que o bispo Torres, levado por indicação do governo central e apoiado pelo governador da Madeira,
moveu uma tenaz perseguição ás sociedades secretas que se tinham organizado na Madeira no ultimo
quarto do século XVIII, do que resultou muitas prisões e o embarque clandestino de vários indivíduos e
suas famílias na noite de 19 de Julho de 1792. 0 prelado excedeu-se e praticou violências e arbitrariedades,
que o forçaram a sair desta ilha em circunstancias muito vexatorias para ele. Nas malhas dessa perseguição
foi envolvido Francisco Alvares de Nobrega, que, mesmo em Lisboa, continuou a ver pesar sobre si a mão
perseguidora do Bispo.
A transcrição que acima fazemos parece contradizer o que escreve Januario de Nobrega, quando afirma que
o poeta concluiu os seus estudos no Funchal e se dirigiu depois para Lisboa a prosseguir na sua carreira, e
que ali foi preso pela perseguição que D. José Torres continuava a mover-lhe.
Transferido este para Elvas, sucedeu-lhe nesta diocese o bispo D. Luiz Rodrigues de Vilares, que passou a
ser para Alvares de Nobrega um protector desvelado e que o foi arrancar das enxovias do Limoeiro em que
jazia. A este facto se refere o poeta com palavras eloquentes e sentidas a paginas onze das suas Rimas.
Transcrevemos o que diz seu sobrinho, no lugar já citado:
“Foi posto em liberdade, mas o resto da sua vida, salvo curtos intervalos em que ia como poeta, ganhando
celebridade, foi uma longa cadeia de infortúnios. Antagonista do fanatismo que então reinava, foi
perseguido pela inquisição, gemendo, como Bocage, nos seus cárceres, e pela segunda vez no Limoeiro,
donde lhe conseguiram soltura os quinze famosos sonetos com que soube tocar o ânimo do monarcha. Já a
este tempo o afligia a molestia fatal que veda a quem a soffre dar a mão de amigo, tratar os seus
semelhantes, e aborrecido da vida, cansado de lutar com a adversidade, curtindo, longe dos seus, acerbas
angústias, no meio de penosas privações, aos 34 annos de idade, achou que devia cortar o fio da existência,
consumando o que já tinha revelado ao seu amigo e bem feitor Manuel José Moreira Pinto Baptista.
Levantou a própria eça no silêncio da noite; rodeou-se dos livros a que consagrava as longas horas de
insónia, poz á cabeceira os seus escriptos, e libando, como Socrates, a bebida fatal, adormeceu no seio do
Creador”.
Falando de Francisco Alvares de Nobrega, diz Inocencio no seu Diccionario Bibliographico:- “Este poeta a
quem se não podem negar felizes disposições e talento natural para a poesia, não seguiu eschola
determinada, porque dos seus versos, uns recordam a maneira de Bocage, outros a de Francisco Manuel.
Nos sonetos houve poucos entre nós que o igualassem, não sendo o proprio Bocage, que neste genero de
composição jámais conheceu rival. A linguagem de Nobrega, posto que não abundante em demazia, é pura e
correcta; e os versos são em geral fluentes e harmoniosos. Era digno, sem duvida, de melhor sorte”.
Jaime Constantino de Freitas Moniz no volume IX da importante revista 0 Instituto fez uma extensa
apreciação das obras poéticas de Francisco Alvares de Nobrega, que igualmente contém algumas notas
biográficas.
O “Camões Pequeno” publicou as Rimas de Francisco Alvares da Nobrega, natural da ilha da Madeira,
Lisboa, 1804 e as Rimas offerecidas em sinal de reconhecimento ao Sr. Manuel José Moreira Pinto Baptista,
Lisboa, 1804, que em 1850 foram reimpressas no Funchal por seu sobrinho, o apreciado poeta e jornalista
Januario Justiniano de Nobrega.
Quando em 1806 os familiares da Inquisição entraram no quarto em que se encontrava o cadáver de Alvares
de Nobrega, ali descobriram muitos dos seus escritos, que foram totalmente inutilizados. Afirma-se que
tinha pronta para a impressão uma nova colecção de trabalhos poéticos, quando procurou na morte
descanso para as atribulações da vida terrena.
Alvares da Silva (Anibal)
Nasceu no Funchal a 29 de Maio de 1819, sendo filho de Vitorino
Alvares da Silva.
Cedo fixou a sua residência na então vila de Setúbal, onde seu pai exerceu o lugar de guarda-mor da
Alfândega.
Concluído com notável brilho o curso de direito, estabeleceu-se na sua pátria adoptiva como advogado,
conseguindo pelo seu raro talento, austeridade de caracter e outras apreciáveis qualidades, ser a maior
influência de Setúbal. Foi ali presidente da Câmara, tendo sido eleito por várias vezes deputado.
Foram importantíssimos os serviços que prestou àquela localidade, que o tem na conta de um grande
benemérito, e pensa-se em levantar ali um monumento á sua memória.
Morreu em Lisboa, onde advogara muitos anos com grande nomeada, a 8 de Dezembro de 1408.
Alvares da Silva (Tenente Luiz)
Este madeirense fazia parte da guarnição militar da nossa
colónia de Timor, quando no dia 24 de Dezembro de 1912 os indígenas se revoltaram contra as autoridades
portuguesas, e invadindo o posto fortificado de Manufai, assassinaram esse nosso patrício, chefe do mesmo
posto, que desamparado pela força do seu comando não pode oferecer séria resistência ao ataque dos
revoltosos. 0 brioso oficial foi vitima do cumprimento do seu dever e do desejo de prestigiar o nome
português em tão longínquas paragens.
Alvenaria
Dá-se este nome ao basalto compacto, rocha muito comum na região inferior da Madeira. V.
Basaltos.
Alverca (Barão de).
V. Pereira (João Antonio de Sá)
Alves Martins (Padre Luiz)
Nasceu em Cardigos, concelho de Mação, a 23 de Dezembro de
1873 e veio para a Madeira em 1905 como capelão do regimento de infantaria n1 27. Em 1908 foi nomeado
pregador régio.
São dele as seguintes publicações: A Bandeira Portuguesa, Funchal, 1907; Oração Fúnebre nas Exéquias de
Hintze Ribeiro, Funchal, 1907; e Brevi vivens tempore discurso fúnebre nas exéquias d'El-Rei D. Carlos e
Príncipe Real D. Luiz Filipe, Funchal, 1908.
Alves da Silva (Dr. Antonio)
Foi o Dr. Antonio Alves da Silva um distinto madeirense, a quem
uma pertinaz doença e uma morte prematura não deixaram revelar toda a pujança do seu extraordinário
talento.
Nasceu nesta cidade a 13 de Setembro de 1822 e aqui faleceu a 19 de Janeiro de 1854, tendo apenas 31 anos
de idade.
Matriculou-se no curso de medicina da Universidade de Coimbra, que interrompeu em 1846, ao terminar o
quarto ano, em virtude dos acontecimentos políticos que então se deram no país. Foi concluir o seu
doutoramento em Paris, e tanto em Coimbra, onde obteve prémios em todos os anos, como na capital da
França, deu provas duma brilhante inteligência e de notáveis faculdades de trabalho, que lhe grangearam a
admiração e a estima de todos os lentes e condiscípulos.
Diz Inocencio “que em Paris obteve gratuitamente o grau de doutor, a 29 de Dezembro de 1848, como
demonstração de apreço devida ao grande talento que ali manifestara”.
Por decreto de 11 de Março de 1850 foi nomeado lente da Escola Medico-Cirurgica do Funchal, logar que
exerceu com notavel distinção.
Fez no Funchal duas leituras publicas sobre medicina e higiene, que o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo
classifica de notabilissimas, tanto pelo modo como tratou o assunto como pela beleza da linguagem. Nessa
época os homens mais distintos da nossa terra, como Marceliano Ribeiro e outros, faziam conferencias
publicas para instrução dos funchalenses, e que eram em extremo apreciadas.
Alves da Silva era membro do Instituto de Coimbra, socio correspondente da Academia Real das Sciencias e
de outras corporações literárias e cientificas.
A terrível tuberculose, que há muito lhe vinha minando a existência, não lhe permitiu entregar-se a grandes
canseiras e labores intelectuais, mas, a pesar disso, foi no exercício da clinica um medico distintissimo e no
cultivo das letras mostrou invejáveis aptidões, que a morte não deixou revelar com mais brilho.
Alvino
Apareceu entre nós este apelido com a vinda para esta ilha do licenciado Manuel Camilo de Melo
e Alvino pelos anos de 1500.
Alvino é corruptela de Alvim, procedendo este apelido de Manuel Carrilho de Melo e Alvim (Saud. 846). O
apelido Alvim que é antigo e nobre, existe também em Portugal e nos Açores.
Amaral (José Cabral Correia do)
Era bacharel formado em direito e exerceu entre nós o
cargo de Delegado do Tesouro.
Foi eleito deputado por este arquipélago para a legislatura de 1905 a 1906.
Também foi eleito deputado pela Madeira em Agosto de 1910, mas as cortes não chegaram a reunir-se.
Amaral (José Julio do)
Este distinto oficial do exército (1801-1876) foi comandante militar deste
arquipélago no ano de 1861.
Amaro (Padre)
Padre Amaro foi o nome dum celebre periódico que se publicou em Londres, em
língua portuguesa, de 1820 a 1830, que teve como redactor principal o ilustre madeirense Joaquim José
Ferreira de Freitas, que também é conhecido pelo nome de Padre Amaro e de quem nos ocuparemos no
lugar competente.
Ambrosio (D.)
D. Martinho de Portugal, o primeiro e único arcebispo do Funchal, não veio nunca á
sua diocese, mas enviou a esta ilha o bispo titular de Rocina D. Ambrosio, a fim de exercer aqui as funções
próprias do ministério episcopal. Demorou-se D. Ambrosio na Madeira aproximadamente um ano, de 1538
a 1539, e findo o exercício do seu ministério se recolheu ao reino. A parte disciplinar e da observância dos
cânones, tinha sido cometida aos dois visitadores Jordão Jorge e Alvaro Dias, que ainda continuaram nesta
ilha depois da partida do bispo D. Ambrosio.
Ameixieira (Prunus domestica)
Árvore da família das Rosaceas, subfamilia das Prunoideas,
muito cultivada na Madeira. É originaria do Oriente e produz frutos oblongos ou globosos, de ordinário de
excelente qualidade. A ameixa verde ou Rainha Claudia, é uma das mais saborosas da ilha. As ameixas
passadas são um pouco laxativas.
Ameixieira de espinho (Berberis maderensis)
Arbusto da família das Berberidaceas,
de 1 m. a l,5m, com espinhos 3-partidos e folhas fasciculadas, subespatuladas ou subobovadas, inteiras ou
serrado-espinhosas; flores amarelas, reunidas em cachos. Só tem sido achado modernamente na Serra dos
Balcões. A madeira deste arbusto, a que chamam fustete, tem uma linda cor amarela, e é muito apreciada
nas marcenarias, especialmente para embutidos.
Ameixoeira
É o nome duma freguesia que fica a cerca de 6 quilómetros de Lisboa, no concelho dos
Olivais. Pinho Leal no seu dicionário Portugal Antigo e Moderno, vol. I.°, a pag. 195, diz que esta paróquia
pertenceu á freguesia do Lumiar e tinha o nome de Funchal, acrescentando que a antiga capela de Nossa
Senhora do Funchal serviu de igreja matriz até que em 1664 foi reedificada e ampliada. Afirma mais ainda
Pinho Leal textualmente o seguinte: “Diz-se que a capela primitiva foi fundada em memória duma grande
victoria que obtiveram aqui os christãos contra os mouros. Diz-se também que esta capelania já existia no
tempo dos godos e que um mouro chamado Mixo ou Mixio dera o nome - esta povoação (que até ao século
XVII se chamava Mixoeira, tendo-se antes chamado Funchal, como já disse)”. Dá também Pinho Leal a
informação que “a Ameixoeira, com o nome de Funchal, era uma aldeia da freguesia do Lumiar; mas em 6
de Junho de 1536 tornou-se independente...”
Haverá alguma correlação entre o antiquíssimo lugar do Funchal na Amendoeira e a primitiva povoação,
depois vila e depois cidade do Funchal? Não sabemos.
Amelia (Imperatriz D.)
A Imperatriz do Brasil D. Amelia, viúva de D. Pedro IV, e sua filha a
princesa D. Maria Amelia chegaram ao Funchal no dia 28 de Agosto de 1852 na fragata da marinha de
guerra D. Fernando, que vinha acompanhada pela corveta D. João I e pelo vapor de guerra D. Luiz. Era
comandante da esquadra o capitão de mar e guerra José Maria de Sousa Soares, e servia de almirante a
fragata D. Fernando.
A recepção foi imponentissima, impressionando profundamente a imperatriz e a princesa, que, a pesar de
gravemente doente, se mostrou, desde o desembarque na Pontinha até á Quinta das Angústias, onde
estabeleceu residência, sempre alegre e sorridente á vista de tantas demonstrações de apreço e de carinho,
que lhe prodigalizavam os habitantes desta cidade.
Todos sabem que a princesa D. Maria Amélia não encontrou nos ares balsâmicos da Madeira e na
benignidade do seu clima os alívios que se esperavam. Depois de cinco meses e alguns dias de permanência
entre nós sucumbiu aos estragos da terrível tuberculose pulmonar, na madrugada do dia 4 de Fevereiro de
1853.
A princesa, dizem insuspeitas testemunhas contemporâneas, era de uma bondade inigualável e despertava
em todos que a viam ou dela se aproximavam a mais viva e apaixonada simpatia e por isso a sua morte
produziu em toda a população funchalense um sentimento de profundissimo pesar, que durante muitos
anos perdurou entre nós. O embarque da imperatriz, no seu regresso a Lisboa, acompanhando o féretro que
continha os restos mortais da princesa sua filha, realizou-se no dia 6 de Maio de 1853. Foi um prestito
imponente, em que se não viam olhos enxutos. Desde o mais modesto popular até á desolada imperatriz,
choravam todos copioso pranto. Parecia que se dera uma grande calamidade.
Esta morte, como todos sabem, determinou a fundação do Hospício da Princesa D. Maria Amelia de que em
outra ocasião falaremos.
A imperatriz D. Amelia faleceu em Lisboa a 26 de Janeiro de 1873.
V. Hospício da Princesa D. Maria Amelia.
Amendoeira (Amygdalus communis)
Árvore originaria da Mesopotamia, cultivada na
Madeira e Porto Santo. As amêndoas doces são comestíveis, como é sabido, e servem para a preparação
dum óleo que tem várias aplicações. Óleo semelhante fornecem as amêndoas amargas por expressão a frio,
mas se este óleo for obtido pela destilação com água, torna-se então extremamente venenoso. A água
destilada de amêndoas amargas também é venenosa por causa da presença do acido cianidrico.
Amendoeira (Pico da)
Esta elevação montanhosa, de onde se desfruta um belo panorama, fica
situado na freguesia da Ponta do Sol, na Lombada dos Esmeraldos, não muito distante da capela e casa
solarenga dos condes de Carvalhal.
Amigo do Povo (O)
Publicou-se de 26 de Janeiro de 1850 a 27 de Abril de 1854, tendo saído 178
números.
Amor-de-burro (Bidens pilosa)
Composta tubuliflora anual, oriunda da América meridional
e perfeitamente naturalizada na Madeira. As suas folhas superiores são de ordinário 3-sectas e os seus
fructos tem 2-4 aristas rígidas e retorso-celheadas. E muito usada nos campos como emenagogo, e recebe
também os nomes de setas e malpica.
Amoreira
Existem na Madeira a Morus nigra (amoreira negra) cujas soroses são comestíveis e servem
para a preparação do arrobe de amoras usado em gargarejos, nas esquinencias, e a M. multicaulis (amoreira
branca) cujas folhas servem para alimento do bicho da seda. A Câmara Municipal do Funchal concedeu em
Maio de 1877, a Praça da Rainha (hoje Praça do Marquês de Pombal) para viveiro de de amoreiras brancas,
tendo o falecido Conde de Canavial chegado a estabelecer ali o referido viveiro, o qual teve pouca duração. A
cultura destas amoreiras está votada na actualidade ao mais completo abandono. A amoreira negra é muito
cultivada no Porto Santo.
Amoreiras
Sítio da freguesia do Arco da Calheta em que se encontra a capela de Nossa Senhora da
Conceição, fundada no ano de 1911, pelo padre José Marcelino de Freitas e onde já existiu uma capela da
mesma invocação mandada edificar por Isabel de Abreu nos princípios do século XVI.
Amoricos. (Agrimonia Eupatoria)
Planta vivaz da família das Rosáceas, subfamilia das
Rosoideas, muito frequente na Madeira. Tem as folhas penatisectas, com os segmentos distintos, e as flores
amarelas, dispostas em cachos compridos e estreitos. A infusão das folhas e flores desta planta pode ser
usada em gargarejos nas esquinencias.
Amor-perfeito
Recebem este nome diversos híbridos da Viola tricolor com diversas espécies
próximas. A infusão de amores-perfeitos é preconizada nas moléstias cutâneas.
Amparo
Neste sítio da freguesia de São Martinho acha-se a capela de Nossa Senhora do Amparo,
pertença do antigo morgadio da família Sauvaire e que foi fundada por D. Luísa de Mendonça no ano de
1712.
Amparo
A capela de Nossa Senhora do Amparo deu o nome a este sítio que fica na freguesia da Ponta
do Pargo, afluindo muito povo das freguesias circunvizinhas, no dia de festa do respectivo orago.
Ana Ferreira (Pico de)
No sul-sueste da ilha do Porto Santo levanta-se este pico, que atinge 278
metros de altitude.
Anais do Município
A portaria de 8 de Novembro de 1848 impôs ás câmaras Municipais a
obrigação de possuírem um livro subordinado ao título de Anais do Município e de ali fazerem lançar no
mês de Março de cada ano uma súmula de todos os acontecimentos, notas e informações que porventura
podessem interessar á historia do respectivo município. O ilustre governador civil deste arquipélago José
Silvestre Ribeiro, que não descurou nunca qualquer assunto que pudesse contribuir para o progredimento
material e intelectual dos povos seus administrados, suscitou a observância daquela portaria nas suas
circulares ás câmaras e administradores do concelho do distrito de 3 de Janeiro de 1848 e 22 de Janeiro de
1850, em que com as mais persuasivas razões mostrava as vantagens e a necessidade da execução daquela
medida governativa. Poucas municipalidades, a começar pela da capital do distrito, deram cumprimento
àquela tão útil e necessária determinação.
Apenas temos conhecimento de que as câmaras do Porto Santo, Machico e Calheta tivessem redigido os
seus anais, embora nos anos subsequentes omitissem a continuação deles, não cumprindo a lei em toda a
sua extensão e tornando assim quasi inteiramente inútil a sua observância.
No Porto Santo o respectivo administrador do concelho João de Sant'Ana e Vasconcelos foi quem em 1848
coligiu as notas indispensáveis e deu a redacção definitiva aos anais daquele município. É um trabalho
valioso e pode considerar-se como uma monografia interessante sobre a ilha do Porto Santo, quer debaixo
do ponto de vista histórico, quer ainda quanto á descrição da ilha, estatísticas de suas produções, população,
costumes etc.. A pesar das suas deficiências, é um trabalho que muito honra a memória do seu autor. Foi
integralmente publicado no Heraldo da Madeira nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março de 1906 e já
muito antes tinham sido publicados alguns trechos no Diário de Noticias desta cidade.
Menos completos, mas também interessantes e com dados valiosos para a historia do município, são os
anais de Machico, que nos parece terem sido redigidos por José Antonio de Almada, natural daquela vila e
que foi escrivão do juízo de direito na comarca do Funchal. Conservaram-se inéditos até o ano de 1906, em
que, no mês de Novembro, foram publicados na integra no Heraldo da Madeira.
Ha ainda a fazer menção dos anais do município da Calheta, que se conservam inéditos e que contêm alguns
elementos valiosos para a historia daquele concelho.
A Câmara do Funchal cometeu a redacção dos seus anais primeiramente a Marceliano Ribeiro de
Mendonça, depois a Francisco de Andrade e finalmente a Augusto César de Freitas, tendo-se negado o
segundo a escreve-los, e nada fazendo o primeiro e o terceiro, a pesar de não constar que se houvessem
recusado a desempenhar tal serviço.
Em sessão de 7 de Outubro de 1897 aprovou a Câmara uma proposta do seu presidente para que houvesse
no arquivo municipal um livro onde se descrevesse detalhadamente a historia de todas as grandes obras,
resoluções e melhoramentos executados pela Municipalidade, mas esta deliberação nunca teve execução,
por motivos que nós ignoramos. O livro destinado aos anais mandados organizar pelo conselheiro Silvestre
Ribeiro, ainda hoje existe no Arquivo Municipal, perfeitamente em branco.
Analise de águas. Os resultados das analises das diversas águas da Madeira, consta dos seguintes folhetos:
1.°Analyse chimica e bacteriologica da Fonte Férrea do Jamboto (Funchal, 1900).
2.° Analyse chimica de águas potáveis de várias fontes da cidade do Funchal (Funchal, 1900). Contém as
analises das fontes de João Diniz, Campo da Barca, Ribeira de Santa Luzia e Corujeira de Baixo.
3.° Analyse chimica e bacteriologica das águas das nascentes dos Tornos (Funchal, 1900)
As águas de S. Roque, em Machico, e da Fontinha, no Porto Santo, também foram analisadas, tendo o
resultado destas analises sido publicado no Heraldo da Madeira.
Ananás (Ananassa vulgaris)
Existem na Madeira duas variedades de ananases, uma de folhas
quasi sem espinhos, e a outra de folhas providas de espinhos fortes nas margens. Aquela só é cultivada
nalgumas estufas, e é idêntica ao ananás açoreano, conhecido na Inglaterra pela denominação de “Smooth-
leaved Cayenne”; esta floresce e frutifica bem ao ar livre em vários pontos da ilha, sendo, porém, os seus
frutos ou soroses mais pequenos e ácidos que os da outra variedade.
O ananás de folhas espinhosas, que dizem ter sido importada da Africa, mas que existe também no Brasil e
em outros países, aparece na Ribeira Brava, no Porto da Cruz, no Funchal, etc.. As suas folhas são longas e
muitas vezes manchadas de vermelho, e as suas espigas oblongo-cilindricas, dispostas sôbre um pedunculo
ou caule provido de folhas curtas e avermelhadas. O perianto tem 6 divisões, sendo as três exteriores
vermelhas e curtas, e as três interiores lilacineas, levantadas, estreitas, um pouco mais curtas que as
bracteas.
O ananás frutifica geralmente desde Novembro até Janeiro, e floresce em Marco e Abril.
Anatole France. Este eminente escritor francês, membro da Academia Francesa, esteve no Funchal, no seu
regresso da América do Sul, a 25 de Agosto de 1909, saindo nesse mesmo dia para o seu país.
Andaluz (Dr. Antonio J. de Santa Marta)
V. Mesquita e Melo, 3.° visconde de). Era
secretario geral do distrito, quando foi nomeado governador civil da Madeira por decreto de 4 de Setembro
de 1869, tomando posse deste cargo a 18 do mesmo mês e ano, mas exercendo-o poucos meses.
Casou nesta ilha com uma senhora madeirense, filha dos barões da Conceição, e nascera a 12 de Abril de
1833.
Andorinha
Nome impropriamente dado a duas aves indígenas da Madeira, o Micropus apus e o M.
unicolor. A primeira chamam andorinha do mar; á segunda andorinha da serra. As andorinhas
propriamente ditas, Hirundo rustica Chelidonaria urbica, que visitam regularmente estas ilhas, sem que
façam criação, conhecem-se no Porto Santo pelo nome de andorinhas de fora e nalgumas freguesias do
norte da Madeira pela designação de andorinhas do Porto Santo, talvez porque ao arribarem á costa
setentrional da Madeira, vêm do nordeste, ou seja do lado do Porto Santo.
Andrade
Os irmãos João Fernandes de Andrade e Diogo Fernandes de Andrade, fidalgos de Galiza,
foram os primeiros que para esta ilha vieram usando este apelido. Obtiveram muitas terras de sesmaria no
Arco da Calheta e aí estabeleceram residência. D. João II, por alvará de 20 de Fevereiro de 1485, concedeu
ao primeiro dos dois o uso das seguintes armas: “em campo de ouro um sagittario, metade do homem e
metade do cavallo, o homem nú da sua cor, o cavallo entre muzello e castanho escuro com um arco armado
nas mãos de vermelho e a corda de prata, a frécha empenada de verde, elmo de prata serrado, paquife de
ouro e de verde e por timbre o meio sagittario com seu arco”.
Diogo Fernandes de Andrade vendeu a seu irmão os terrenos que possuía no Arco e foi para a Galiza
reivindicar a posse duma herança que pertencera a sua mãe, o que não pôde conseguir por estar
incorporada nos bens da coroa.
João Fernandes de Andrade, conhecido depois por João Fernandes do Arco, por ter vivido nesta freguesia e
nela possuir muitas terras, instituiu uma casa vincular, que tinha como sede a capela de Nossa Senhora da
Consolação. Faleceu a 9 de Abril de 1527 e ali foi sepultado, em cujo túmulo se lia o seguinte epitáfio: “Aqui
jaz João Fernandes e Beatriz de Abreu, sua mulher, que foram os primeiros fundadores deste Arco”.
A seu sobrinho, Fernão Dias de Andrade, filho do seu irmão Diogo, foi por D. João III por alvará de l7 de
Abril de 1528, confirmado o brasão de armas passado a seu tio e que vem transcrito na íntegra no Nobiliario
de Henriques de Noronha, de que existe uma copia na biblioteca do Funchal.
Andrade (Cónego Dr. João Jacinto Gonçalves de)
Nasceu na freguesia do
Campanário a 10 de Fevereiro de 1825 e era filho do tenente Francisco Joaquim Gonçalves de Andrade e de
D. Caetana Maria de Macedo. Frequentou o seminário do Funchal e ordenou-se de presbítero, tendo pouco
depois embarcado para o Brasil, onde era bispo seu tio D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade e onde
era distinto lente da Universidade de S. Paulo seu irmão o conselheiro Francisco Justino Gonçalves de
Andrade. Fixou residência em Vassouras e aí exercia as funções do seu ministério, quando, levado por
conselhos do Dr. Francisco Justino, se matriculou na Faculdade de Direito da Universidade de S. Paulo e
nela se doutorou, tendo pouco depois feito concurso para uma das suas cadeiras e sido nomeado lente, lugar
que exerceu até o ano de 1891 em que se jubilou.
Era homem de larga instrução e exerceu com distinção o magistério universitário, embora não podesse
ombrear com as altas faculdades de espírito e o profundo saber, sobretudo nas ciências jurídicas, de seu
irmão o Dr. Francisco Justino Gonçalves de Andrade, de quem já nos ocupamos a pag. 68 deste Elucidario.
O Dr. João Jacinto de Andrade não deixou nunca o exercício das funções eclesiásticas, a que sempre se
dedicou com entranhado amor, tendo sido um sacerdote exemplar e gozando como tal de notável prestigio
na cidade de S. Paulo, onde viveu largos anos e onde veio a falecer no dia 16 de Janeiro de 1898.
Andrade Corvo (João de).
Este distinto escritor e homem de ciência esteve na Madeira em 1853,
encarregado pela Academia Real das Sciencias de Lisboa de estudar a moléstia chamada a mangra, que
então invadiu as vinhas desta ilha e em grande parte as destruiu. Como resultado dos seus trabalhos
publicou as Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto Santo.
Na primeira memória prometia a publicação de mais duas, que não chegaram a vir a lume.
Andrade Corvo chegou a esta ilha a 29 de Julho de 1853 e aqui se demorou até meado de Setembro seguinte.
Vid. Mangra da Vinha.
Andrade (Deão Antonio Joaquim Gonçalves de)
Este distinto madeirense nasceu no
Funchal a 7 de Dezembro de 1795 e ordenou-se de prebistero em 1821. Cremos que era doutorado em
cânones ou em teologia, mas não podemos afirma-lo. Foi cónego da nossa Sé e em 1834 era secretario de D.
Francisco José Rodrigues de Andrade, quando este prelado saiu da Madeira e emigrou para a Itália.
Acompanhou com outros eclesiásticos o seu chefe hierárquico, tendo todos estabelecido morada nos
arredores da cidade de Génova.
Por morte do bispo D. Francisco, fixou residência em Lisboa e dali foi chamado para a Madeira em 1844,
pelo prelado desta diocese D. José Xavier de Cerveira e Sousa. Estava então muito activo nesta ilha o
proselitismo protestante e o prelado sustentava uma luta acesa com o propagandista Roberto Kalley e seus
sequazes, precisando de ter a seu lado um homem de prestigio, prudente e sabedor, que o auxiliasse na
árdua empresa em que se empenhava. Gonçalves de Andrade deixou o cultivo das letras, a que então
activamente se dedicava, e o convívio íntimo que mantinha com os nossos principais literatos, e veio
estabelecer residência junto do prelado, ao qual prestou os mais relevantes e assinalados serviços. Em 1846
foi nomeado vigário geral deste bispado e em 1853 deão da Sé Catedral.
Quando em 1852 chegaram á Madeira a imperatriz D. Amelia e sua filha a princesa D. Maria Amelia, foi o
conego Andrade nomeado seu capelão e confessor, ás quais também serviu de secretario, tendo assistido aos
últimos momentos da malograda princesa, que tinha por ele a mais subida consideração e a mais profunda
e respeitosa estima. Juntamente com o Dr. Antonio da Luz Pita, foi um dos mais dedicados auxiliares da
imperatriz D. Amelia na fundação definitiva do Hospício e na instalação provisória do hospital para
tuberculosos, antes da construção da sumptuosa casa onde actualmente se encontra.
Em 1853 acompanhou o deão Andrade os despojos mortais da princesa D. Maria Amelia para Lisboa e ali
fixou residência, continuando ao serviço da imperatriz.
Antonio Joaquim Gonçalves de Andrade era homem de raro talento e de uma vasta cultura intelectual,
gozando de grande prestigio e consideração, não só pelos seus dotes de espírito como pelas suas eminentes
qualidades de caracter. Em Lisboa mantivera íntimas relações de amizade com os vultos mais em evidencia
nas letras e na política, que muito apreciavam as suas virtudes, o seu saber e a encantadora lhaneza do seu
trato.
Revelou-se um escritor de largos méritos nas eruditas notas que escreveu para a tradução dos Fastos, de
Ovídio, feita por Castilho, e nas anotações que adicionou á edição da Historia Insulana, de Antonio
Cordeiro, publicada em 1862.
Consta que deixou inéditos de valor e também se afirma que possuía documentos valiosissimos para a
historia deste arquipélago, que totalmente se perderam.
Regeu, no Seminário desta cidade, as cadeiras de latinidade, filosofia e teologia e era sócio correspondente
da Academia Real das Sciencias de Lisboa e doutras corporações literárias nacionais e estrangeiras.
Morreu em Lisboa a 16 de Janeiro de 1868 e jaz sepultado no cemitério das Angústias do Funchal, em jazigo
próprio.
Andrade (D. Francisco José Rodrigues de)
Foi o 22.° prelado desta diocese. Nasceu em
1761 e contava já 60 anos de idade quando foi chamado ao episcopado. Exercia então as funções de pároco
da freguesia de São Nicolau da cidade de Lisboa, sendo apresentado bispo do Funchal em 1821 e confirmado
pelo papa Pio VII a 21 de Setembro do mesmo ano. Tomou posse do bispado, por procuração a 1 de Março
de 1822 e assumiu a direcção da diocese a 1 de Maio do mesmo ano.
Teve um episcopado bastante agitado e muito eriçado de dificuldades, porque esteve á frente dos destinos
desta diocese no período revoltoso que vai desde a revolução de 1820 até a implantação do governo
constitucional em 1834. Não pôde ou não soube manter-se numa situação de absoluta imparcialidade no
meio das duas correntes políticas que fortemente se chocavam, e mais duma vez, inclinando-se ora para um
ora para outro lado, levantou contra si a má vontade dos adversários que lhe moviam uma guerra
encarniçada e não poupavam meios de o desprestigiar e desconsidera-lo perante o publico. No meio das
lutas políticas que se travaram, dos ódios profundos e dos propósitos de vinganças que dia a dia se
manifestavam, impossível se tornava percorrer a linha recta do dever sem tergiversações ou passos
oblíquos.
No embate das paixões partidárias, publicou uma pastoral datada de 28 de Junho de 1828 e outra de 13 de
Setembro do mesmo ano, em que se detendem e aplaudem os mais contraditórios princípios políticos. Na
primeira preconiza-se o sistema representativo e faz-se o elogio de D. Pedro, e na segunda defende-se o
sistema do governo absoluto e aplaude-se a obra de D. Miguel. D. Francisco José Rodrigues de Andrade a
pesar da publicação da sua primeira pastoral, receoso dos acontecimentos políticos que estavam a
desenrolar-se, saiu da Madeira a 10 de Julho de 1828, acompanhado de muitos eclesiásticos. Em Lisboa
publicou a sua segunda pastoral de 13 de Setembro do mesmo ano, impressa num folheto de 27 paginas e
que é hoje muito rara em todo o país.
Passados alguns meses, regressou á sua diocese, mas continuaram as lutas e dissenções, que só
verdadeiramente terminaram com a sua saída definitiva da Madeira em 1834. No dia 5 de Junho deste ano
proclamou se o governo constitucional na Madeira e, no dia 12 do mesmo mês, o bispo D. Francisco de
Andrade cometeu ao cabido a administração da diocese, tendo no dia seguinte deixado esta ilha em direcção
á Itália.
Para ali o acompanharam vários eclesiásticos e entre eles os padres Antonio Joaquim Gonçalves de
Andrade, Zeferino de Sant'Ana, Antonio Alexandrino de Vasconcelos e Antonio Gomes Neto. Escolheu a
cidade de Genova para fixar a sua residência e na freguesia de Promentario se acolheu ao convento de S.
Bartolomeu de Fossato a curtir os amargos dias do exílio. Passados quatro anos incompletos ali faleceu a 2
de Maio de 1838, sendo sepultado na igreja paroquial de Promentario.
Em 1891, decorrido pouco mais de meio século, procedendo o pároco de Promentario a importantes reparos
na sua igreja, lembrou-se de colocar sobre a campa rasa de D. Francisco de Andrade uma lápide tumular
com um epitáfio que indicasse o lugar onde jaziam os restos mortais do bispo português. Para este fim se
dirigiu ao ilustre prelado desta diocese D. Manuel Agostinho Barreto, que com o auxilio de alguns
sacerdotes madeirenses, enviou para Itália a indispensável quantia, que chegou a alguns centos de mil reis,
para a colocação daquela lápide no sepulcro de D. Francisco de Andrade. A lápide, em belo mármore, além
de ter esculpidas as armas do prelado, contém uma inscrição em caracteres de bronze, que consta do
seguinte:
Franciscus Josephus Rodrigues d'Andrade / Domo Olisipone / Funchalensis in Madeira insula Pontifex /
Lusitania civico turbata motu / extorris / a proximum S. Bartholo. monasterium - viribus. non animo
fractus/in pace Requievit/Kal. Mai. Anno 1838/An. natus 77/Ne tanti viri pro patria sibi optatissima tanta
heri perpessi / excederet memoria Emanuel Augustinus Barreto vir excellentis decessori suo / An. 1891.
Andrade (D. Manuel Joaquim Gonçalves de)
Este prelado da diocese de S. Paulo
(Brasil) nasceu na freguesia do Campanário a 14 de Março de 1767, sendo filho de Nicolau Gonçalves de
Andrade e de Maria de Andrade. Em Outubro de 1826 foi confirmado bispo daquela diocese, sendo sagrado
a 28 de Outubro do ano seguinte. Faleceu a 26 de Maio de 1847. Desconhecemos quaisquer outras
circunstancias da vida deste prelado. Era tio do Conselheiro Francisco Justino Gonçalves de Andrade, de
quem já aqui nos ocupámos.
Andrade (Francisco de)
Era filho de Francisco de Andrade e nasceu no Funchal a 6 de Junho de
1806, tendo cursado nesta cidade todos os estudos que aqui se faziam no seu tempo. Por decreto de 4 de
Setembro de 1838 foi nomeado professor proprietário da cadeira de gramática portuguesa e latina, e
clássicos portugueses e latinos, no liceu nacional do Funchal, tendo desempenhado antes interinamente
este mesmo cargo, em virtude de carta do Conselho Provincial de Instrução Publica, de 23 de Março do
mesmo ano. E.: Princípios de Gramática Portuguesa (Funchal, 1844); Grammatica Portuguesa das Escholas
Primarias, obra esta de que houve cinco edições, a primeira em 1849 e a ultima em 1879; e Relatório sobre
as escholas municipaes de instrução primaria do concelho do Funchal... (Funchal, 1849). Foi vereador da
câmara municipal, secretario e reitor do liceu, e um dos mais distintos professores que teve este
estabelecimento de instrução secundaria. Deixou alguns trabalhos manuscritos, Faleceu no Funchal a 23 de
Fevereiro de 1881.
Andrade (Francisco Justino Gonçalves de)
Entre os madeirenses que notavelmente se
distinguiram em países estrangeiros e sobremaneira honraram o seu torrão natal, destaca-se o Dr.
Francisco Justino Gonçalves de Andrade, que nasceu na freguesia do Campanário a 18 de Fevereiro de 1821
e morreu na cidade de S. Paulo a 25 de Julho de 1902, sendo filho do tenente Francisco Joaquim Gonçalves
de Andrade e de D. Caetana Maria de Macedo.
Com 18 anos de idade e depois de ter cursado o Liceu do Funchal, embarcou para o Brasil a tentar fortuna,
mas reconhecendo que a sua vocação não era a vida comercial a que se dedicara, matriculou-se na
Faculdade de Direito da Universidade de S. Paulo, conformando-se deste modo com os conselhos que
recebera de seu tio D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, bispo daquela diocese.
O seu curso universitário foi a revelação dum extraordinário talento e nele alcançou os mais brilhantes
triunfos académicos, tendo em 1850 concluído a sua formatura em ciências jurídicas e sociais. No ano
seguinte defendeu teses e recebeu o doutoramento, tendo pouco depois, num concurso publico que ficou
célebre e em que foi o primeiro classificado, sido nomeado lente substituto e mais tarde lente catedrático da
Universidade em que fora um dos mais estudiosos e distintos alunos.
Foi como lente da cadeira de Direito Civil que verdadeiramente se notabilizou, sendo considerado o
primeiro civilista brasileiro do seu tempo. Como sucedeu aos distintos madeirenses Dr. Patrício Moniz,
Ferreira de Freitas e ainda outros, não deixou uma obra que correspondesse aos seus grandes méritos e
assinalasse o seu profundo saber e vasta erudição na difícil e escabrosa especialidade a que consagrou a vida
inteira. No entretanto, as suas prelecções como professor, as consultas que de todas as partes do Brasil lhe
eram dirigidas, o alto conceito que dele formavam os mais abalizados jurisconsultos brasileiros e ainda o
facto de ter sido nomeado membro da comissão encarregada de dar parecer acerca do projecto do Código
Civil elaborado pelo ilustre jurisconsulto Dr. Felicio dos Santos, provam sobejamente que o Dr. Justino de
Andrade possuía os requisitos indispensáveis de talento e de saber para ter deixado uma obra perdurável e
em que de uma maneira mais eloquente afirmasse os dotes notáveis do seu espírito privilegiado e da sua
vastíssima erudição.
Poucas vezes tratou de questões forenses e quasi se limitou a responder ás consultas que frequentemente
lhe dirigiam, sendo as suas opiniões acatadas como as duma grande autoridade nas diversas questões do
direito civil brasileiro. Todo o tempo consagrava ao estudo, levando uma vida de retiro e de silêncio,
completamente arredado da política e de tudo o que pudesse perturbar essa ânsia de saber que nele parecia
revestir a forma duma preocupação doentia.
O Dr. Justino de Andrade não tinha predilecções políticas ou partidárias, mas era amigo pessoal e dedicado
do imperador D. Pedro II, e isso bastou para ser demitido de director da Faculdade de Direito, sendo-lhe
depois imposta a jubilação de professor, em virtude dum conflito que se levantou no seio da Academia.
Terminaremos este ligeiro escorço biográfico, dizendo que, se o Dr. Justino de Andrade se impunha pela
vastidão do seu saber, brilhante talento e raras faculdades de trabalho, não era menos considerado pela
inquebrantável austeridade de caracter e notável rigidez de princípios, que o tornavam uma grande figura
moral, profundamente estimada e admirada em todo o império brasileiro.
Andrade (Manuel Dias de)
Nasceu pelos anos de 1585, sendo filho de Francisco de Andrade e
de D. Constança de Atouguia. Era segundo e terceiro neto de Fernão Dias de Andrade e de Diogo Fernandes
de Andrade aos quais nos referimos no artigo Andrade. Distinguiu-se notavelmente como militar, tendo-se
encontrado na restauração da Baía, em que teve o comando dum galeão. Entrou em outros combates, em
que deu provas do seu valor. Era comendador da Ordem de Cristo e exerceu no Brasil o cargo de mestre de
campo. Morreu em 1638 nas Ilhas de Cabo Verde, quando ia por mestre de campo duma armada que se
destinava á restauração de Pernambuco.
Andrew (Robert Mc.)
E.: 0n the geographical distribution of Testaceous Mollusca in the North
Atlantic and neighbouring seas, Liverpool, 1854. Vêm mencionadas neste trabalho 156 espécies de moluscos
marinos encontrados pelo autor nos mares da Madeira.
Anémonas do mar
Conhecem-se 11 espécies destes zoófitos nos mares da Madeira, a mais
frequente das quais é o Anthus cereus.
Anes (Gonçalo)
Gonçalo Anes ou Gonçalo Anes de Velosa foi um dos primeiros povoadores desta
ilha. Nasceu em Celorico e tinha sido escudeiro do infante D. Fernando filho do rei D. Duarte. Foi o
fundador da igreja de S. Bartolomeu, junto da qual instituiu um hospício para clérigos pobres, que parece
não chegou nunca a funcionar. Servia para alojamento dos missionários que tocavam na Madeira e se
dirigiam para a Índia e para o Brasil. Foi nesta casa e igreja que os Jesuítas se instalaram quando em 1570
vieram para a Madeira e ali permaneceram até á edificação do Colégio de S. João Evangelista. Gonçalo Anes
instituiu um vinculo com obrigação de celebrar-se uma missa na referida igreja em todas as sextas-feiras,
sufragando a alma do Infante D. Fernando. Morreu Gonçalo Anes em 1497 e foi sepultado na igreja de que
fora o fundador.
A capela de S. Bartolomeu ficava na margem esquerda da Ribeira de Santa Luzia e na Rua Direita, que em
outros tempos se estendia até a altura da actual Ponte do Torreão.
Angústias (Cemitério das)
Diogo da Costa Quintal fundou em terras do seu morgadio em 1662,
a capela de Nossa Senhora das Angústias, que deu o nome á rua que lhe passava próximo e ainda ao sítio
das suas imediações. Não podemos hoje precisar se a capela de N. S. das Angústias que existe na quinta do
mesmo nome (Quinta Lambert) é a reconstrução da antiga ermida de igual denominação e se porventura
era ali que ficava a propriedade vinculada de Diogo da Costa Quintal. Estamos, no entretanto, pela
afirmativa.
Foi neste sítio das Angústias que o bispo desta diocese D. Joaquim de Meneses e Ataíde, quando provedor
da Santa Casa da Misericórdia á qual prestou os mais relevantes serviços, mandou construir em 1818 um
pequeno cemitério exclusivamente destinado á inumação dos cadaveres das pessoas falecidas no hospital de
Santa Isabel, em terreno pertencente a João de Carvalhal e que ele gratuitamente cedera para este fim.
Quando uma lei proibiu os enterramentos nos templos, a Câmara Municipal do Funchal obteve da Santa
Casa da Misericórdia a cedência do pequeno cemitério das Angústias e pediu a João de Carvalhal, já então
conde, a venda dos terrenos contíguos para o alargamento do mesmo cemitério, tendo este titular pronta e
generosamente oferecido ao município todos os terrenos que fossem necessários para este projectado
alargamento, o que comunicou á câmara em carta datada de 8 de Julho de 1836.
Começaram desde logo os trabalhos da construção do novo cemitério, que ficaram concluídos em Maio de
1838. A 8 de Julho deste ano, procedeu-se á bênção solene do cemitério, lançada pelo vigário capitular e
governador do bispado Antonio Alfredo de Santa Catarina Braga, que revestiu o maior brilho e imponência.
A capela foi construída alguns anos depois. Concluíram-se os trabalhos de construção e ornamentação em
Novembro de 1844 e foi benzida a 15 de Dezembro desse ano pelo bispo diocesano D. José X. Cerveira e
Sousa.
Os arruamentos do cemitério foram sendo construídos posterior e sucessivamente, tendo os mais recentes
sido feitos ainda ha poucos anos. O mais antigo que foi primitivamente delineado, é o que ladeia todo o
cemitério e fica contíguo ás paredes de vedação, excepção feita ao passeio central, que é da construção
primitiva. A porta de Madeira, que fecha a entrada interior do cemitério, pertencia ao convento de S.
Francisco.
A igreja deste convento era a verdadeira necrópole da antiga nobreza madeirense. Muitas famílias tinham
ali os seus jazigos, alguns deles de belos e ricos mármores. Quando em 1865 se demoliu o convento e a
igreja, para ali se levantar um edifício destinado aos paços do concelho, foi removida do interior do templo a
lápide sepulcral que cobria os restos mortais do fundador e colocada no cemitério das Angústias, e sob ela
se depositaram muitas ossadas que tinham sido exumadas por ocasião daquela demolição. No centro da
pedra tumular foi escrito este epitáfio: - Jazigo dos ossos exumados do extinto convento e igreja de S.
Francisco (a que a inscripção primitiva se refere) trasladados a 2 de Maio de 1865.- A primitiva inscrição
gravada em torno da lápide diz assim:-Aqi JÁS LOIS ALVARES DA COSTA Q~ FUNDOU ESTA CASA NA
ERA de 1473 E SEV Fº FRANCISCO ALVARES DA COSTA PR° OVIDOR E VEDOR DA FAZENDA NESTAS
ILHAS DA MADEIRA.
Ha neste cemitério muitos jazigos e mausoléus particulares, entre os quais sobressai o que pertence á
família Carvalhal.
Tendo-se suicidado um indivíduo nesta cidade no dia 4 de Março de 1877, foi-lhe negada sepultura
eclesiástica pela autoridade episcopal que era então o prelado D. Manuel Agostinho Barreto, que poucos
dias antes chegara ao Funchal e assumira o governo da diocese. A Câmara Municipal, a pesar da
determinação do prelado, ordenou o enterramento do suicida no recinto destinado aos católicos, tendo
então o bispo diocesano lançado o interdito no cemitério por provisão de 16 de Março de 1877. O prelado
ocupou-se do assunto com notável desassombro no púlpito da Se Catedral num veemente discurso que ficou
imemorável. O caso foi trazido para a imprensa, que dele se ocupou com largueza ao sabor das opiniões de
cada um. Sôbre este assunto publicou-se no Porto um interessante opúsculo intitulado A Sepultura
Eclesiástica e os Suicidas, escrita pelo Dr. Cassiano Neves, que se propôs rebater principalmente as
afirmações do jornal A Lei, que então se publicava no Funchal.
No cemitério das Angústias repousam os despojos mortais de muitos distintos madeirenses e ainda de
outros indivíduos nascidos fora da Madeira, entre os quais podemos mencionar Marceliano Ribeiro de
Mendonça, deão Antonio Joaquim Gonçalves de Andrade, Dr. Antonio da Luz Pita, José Antonio Monteiro
Teixeira, Conde do Canavial, Viscondessa das Nogueiras, Condes do Carvalhal, bispo D. Manuel Agostinho
Barreto, cónego Dr. Augusto Frederico Castilho etc., etc..
No recinto deste cemitério, erigiu-se há pouco um belo monumento, destinado a comemorar o bárbaro
atentado cometido pelos submarinos alemães, bombardeando a cidade do Funchal, e dum modo muito
especial consagrado a perpetuar a memória das dezenas de vitimas da ferocidade germânica, que ali
repousam e que uma feliz e piedosa iniciativa não quis tornar esquecidas para as gerações vindouras. No dia
3 de Dezembro de 1917, primeiro aniversário do luxuoso e trágico acontecimento, depois duma solenidade
religiosa celebrada na Sé Catedral, realizou-se a inauguração do monumento, que revestiu particular
brilhantismo, tendo vários oradores proferido eloquentes e patrióticos discursos alusivos á homenagem que
ali se ia tributar àquelas pobres vitimas da barbaridade alemã. O monumento, que se ergue á direita da
entrada no cemitério, é devido ao cinzel do laureado escultor Francisco Franco de Sousa e á louvável
iniciativa do banqueiro Henrique Vieira de Castro, que não só abriu a subscrição destinada ao seu
custeamento com um avultado donativo, como também promoveu todos os trabalhos iniciais da construção
até á sua inauguração definitiva. O tumulo-monumento, que foi entregue á guarda e conservação da Câmara
Municipal do Funchal, custou aproximadamente dois contos de reis (V. Bombardeamento do Funchal).
Anjinho (Balweria bulweri)
Ave marinha palmipede, da família Procelarida. Tem plumagem
escura e a sua postura consta de um só ovo, depositado nas anfractuosidades dos rochedos. Habita e faz
ninho nas Desertas e nas rochas da Ponta de S. Lourenço e dos ilhéus do Porto Santo.
Anjos
Deu o nome a este sítio da freguesia dos Canhas a capela de Nossa Senhora dos Anjos, que é de
construção bastante antiga e que foi mandada edificar, segundo uns, pela infanta D. Beatriz, como tutora de
seu filho o grão mestre da Ordem de Cristo a que a Madeira pertencia no espiritual, e segundo outros por
Martins Afonso, no ano de 1508. Era de grande devoção a imagem que se venerava nesta capela e dela se
ocupa Fr. Agostinho de Santa Maria no vol. X do seu Santuário Mariano. O sítio dos Anjos, que é duma
grande fertilidade e constitue a costa marítima da freguesia dos Canhas, já fez parte integrante da paróquia
da Ponta do Sol.
Anoneira (Anona Cherimolia)
Árvore originaria do Peru e Nova Granada, frequentemente
cultivada na Madeira até a altura de 300 metros. Conhecem-se na ilha duas variedades de anoneira: a de
frutos quasi lisos e a de frutos guarnecidos de protuberâncias mais ou menos longas. A primeira é a mais
apreciada. A Anona muricata e a A. reticulata são também cultivadas na Madeira, mas como mera
curiosidade.
Anson (Jorge)
Este celebre corsário e viajante inglês passou pela Madeira em Setembro de 1740,
comandando uma esquadra composta de 8 navios, que se destinava a tomar e saquear embarcações
espanholas no Oceano Pacifico.
Antas (Conde das)
O major Francisco Xavier Pereira da Silva, mais tarde conde das Antas e que
tanto se distinguiu nas campanhas da liberdade, esteve na Madeira em 1828 a fim de auxiliar o governador
e capitão general Travassos Valdez na defesa que este preparava contra o ataque da esquadra miguelista,
Pereira da Silva tinha chegado ao Funchal, vindo de Inglaterra, no dia 20 de Agosto de 1828 e fora logo
encarregado da defesa de alguns pontos estratégicos nas alturas do Caniço, mas as forças liberais viram-se
forçadas a ceder perante as tropas invasoras, e aquele oficial, juntamente com Valdez e outros indivíduos,
embarcaram a bordo da corveta inglesa Alligator e seguiram para Inglaterra.
V. Alligator (Corveta)
e Ocupação da Madeira pelas tropas miguelistas.
Antoneida (A)
Pela Sociedade da Primeira Gente do Mundo. Funchal, 1879. É obra dos Srs. João José
Vieira, Luiz de Betencourt Miranda, Francisco João Moniz, Afonso Dias de Vasconcelos, João Silvestre
Moniz e Pedro Candido da Silveira, dos quais só estão vivos os dois primeiros.
A Sociedade da Primeira Gente do Mundo reunia-se numa propriedade no sítio do Desterro freguesia do
Monte, pertencente ao falecido naturalista madeirense João Maria Moniz.
António Alfredo
Antonio Alfredo de Santa Catarina Braga, egresso franciscano, nasceu na cidade
do Porto no ultimo quartel do século XVIII. Por 1820 abandonou o convento, fazendo-se clérigo secular.
Nas casas da sua ordem regeu com brilho as cadeiras de filosofia e teologia, foi no seu tempo um notável e
afamado pregador. Perseguido pelas suas ideias liberais, foi deportado para Cabo Verde, seguindo depois
para o Brasil, donde regressou á pátria quando se estabeleceu o governo constitucional, sendo então
nomeado cónego da Sé de Évora e mais tarde governador dos bispados de Bragança e Funchal, e tendo
exercido outras importantes comissões de serviço publico.
Por decreto de 7 de Novembro de 1834 foi Antonio Alfredo nomeado governador temporal do bispado do
Funchal, lugar que exerceu até Abril de 1840, tendo por decreto de 25 de Fevereiro deste ultimo ano sido
exonerado e encarregado de desempenhar outra comissão de serviço. Era homem de raro talento e vasta
ilustração de que dão testemunho os seus contemporâneos e os discursos, pastorais e outros escritos
avulsos que nos legou, mas não deixou no entretanto assinalada a sua passagem no governo desta diocese
pela mais austera probidade e escrupuloso proceder. Tornou-se celebre, causando grave escândalo, o acto
aparatoso e solene de ir pessoalmente ao convento de S. Bernardino, em Câmara de Lobos, em princípios de
Junho de 1835, a fim de proibir o culto que ali se prestava a Fr. Pedro da Guarda, conhecido pelo nome de
Santo Servo de Deus, fazendo queimar na sua presença a estátua do humilde religioso, que se venerava
numa capela junto ao convento. Publicou então uma pastoral, em que se condenava e proibia todo o culto
que porventura se pretendesse prestar a Fr. Pedro da Guarda.
Saiu desta ilha para Lisboa a 14 de Abril de 1840 e no mesmo ano foi nomeado governador do bispado de
Bragança, vindo a morrer poucos anos depois na cidade do Porto.
Em 1849 publicou-se póstuma, por diligências dum parente, a sua Miscellanea ou colecção de vários
escritos, de que apenas saiu o primeiro volume.
Antozoarios
Ocuparam-se destes animais marinhos, chamados também coraliarios, os seguintes
autores:
James Yate Johnson que, entre outros trabalhos, escreveu: Notes of the Sea-Anemones of Madeira, With
Descriptions of New Species, (Proceedings of the Zoological Society of London, 1861); Description of a
Second Species of Acanthagorgia from Madeira, (Idem, 1861); Descriptions of some New Corals from
Madeira (Idem 1862); Description of Two Corals from Madeira, belonging to the genera Trimnoa and
Mopsea (Idem, 1862); Description of a New Species of Flexible Coral belonging to the Genus Juncella
obtained at Madeira (Idem, 1863); Notes on the Coralliidae of Madeira, With Descriptions of two new
Species (Idem, 1899).
J. E. Gray publicou: Notice of a Second Species of Paragorgia discovered in Madeira by James Yate Johnson
(Annals and Magasine of Natural History, 1862).
P. Martin Duncan escreveu: On some recent Corals from Madeira, (Proceedings of the Zoological Sociaty of
London, 1882).
Apresentação
No sítio do Lombo da Apresentação da freguesia da Ribeira Brava existiu uma capela
da invocação de Nossa Senhora da Apresentação, que foi fundada em 1524 por João Mendes de Brito,
havendo-se incorporado na casa vinculada dos Heredias, que teve como ultimo representante o visconde da
Ribeira Brava.
Araçá
São frequentemente cultivadas no Funchal duas espécies conhecidas pelo nome de araçás: o
Psidium littorale (araçá amarelo) e o P. Cattheyanum (araçá roxo). São ambas originarias do Brasil e
pertencem á família das Mirtaceas. Os seus frutos são saborosos e a infusão das suas folhas pode ser
empregada para combater as diarreias.
Aragão
É apelido nobre e antigo na Madeira, não sendo concordes os nobiliarios acerca dos indivíduos
que primeiramente o usaram entre nós. Diz-se que foi Antonio de Aragão e Teive, que pelos anos de 1500 se
estabeleceu nesta ilha e que era casado com D. Helena de Atouguia, a primeira pessoa que teve aqui esse
apelido. O distinto linhagista madeirense José Betencourt da Câmara afirma que “ha dois ramos de Aragão
na Madeira: um descende de Henrique Aragão, que por 1480 fez assento no Funchal; o outro vem de D.
Affonso de Aragão, cavalleiro napolitano, cujo verdadeiro nome se ignora, e que, ou fugitivo, ou peregrino, a
esta ilha chegou por 1470. Residiu na Calheta, no sítio que delle ficou chamado a Volta do Cavalleiro; passou
ao archipelago dos Açores e lá morreu, havendo disposto que na sepultura lhe pozessem por epitaphio:
“Aqui jaz o attribulado napolitano”. Veio casado, ou casou na Madeira com Thereza de Lyra: seu filho, Lopo
Dias de Lyra Varella, armado cavalleiro em Africa, foi moço fidalgo da casa real em 1515, e cavalleiro
professo na Ordem de Cristo”.
Aragão (Dr. João José de Freitas)
Nasceu no Funchal a 5 de Fevereiro de 1777 e cremos
que pertencia á antiga e distinta família Aragão desta ilha. Pouco sabemos da sua biografia. Em 1821 exercia
em Lisboa com proficiência a advocacia quando foi eleito deputado substituto pela Madeira, para as Cortes
Constituintes que funcionaram de 1821 a 1822. Tendo falecido o deputado efectivo Dr. Antonio João
Rodrigues Garcez, antes da verificação dos seus poderes, foi Freitas Aragão chamado a preencher a
vacatura. Discursou algumas vezes em cortes, tanto em assuntos de caracter geral como em alguns
respeitantes á Madeira. Na Galeria dos Deputados das Cortes Constituintes. . . de 1821 se diz que João José
de Freitas Aragão #fallou pouco, votou bem, ha mostrado constantemente as melhores intenções e tem
dado bastantes demonstrações de querer desempenhar os deveres que lhe foram incumbidos”.
Faleceu em Lisboa a 20 de Setembro de 1842.
Vem um necrologio de Freitas Aragão no n.° 197 da Gazeta dos Tribunaes.
Aragonite
Carbonato de calcio; sistema rombico. Encontra-se sobre os basaltos, na Madeira e Porto
Santo. Na Madeira encontra-se sob vários aspectos: em geodos, em cristais transparentes hemitropos,
semelhantes a prismas hexagonais, mas tendo os ângulos reintrantes entre as faces dos prismas, em grupos
de cristais com a forma de agulhas (forma acicular), etc..
Aranha
Tem entre nós sua origem este apelido em Brás Dias Aranha, que viveu no Funchal por 1600.
Há uma rua na cidade que teve o nome de Aranhas, por ali residir uma família com aquele apelido, que seria
talvez a do próprio Brás Dias ou a de seus descendentes.
Aranha
Nome dado a dois peixes da família Traquinida - o Trachinus vipera e o T. draco. Não vivem
nos grandes fundos, antes se encontram junto ás costas, preferindo os sítios arenosos. Tem o habito de se
enterrar na areia, ficando-lhes descoberta apenas a cabeça.
A picada das espinhas operculares e sobretudo dos raios da palmeira barbatana é muito venenosa, e pode
causar, além de terríveis dores, inflamações violentas acompanhadas ás vezes de febre. Graves acidentes
desta ordem tem sido experimentados por pescadores e banhistas na grande praia do Porto Santo, onde as
duas espécies não são raras.
Aranha do mar (Plagusia clavimanus)
Crustáceo decápode do litoral destas ilhas, que
vive sob as pedras descobertas na baixa mar. É uma isca muito procurada pelos pescadores para a pesca do
bodião.
Conhecem-se também pela designação de aranhas do mar alguns crustáceos triangulares do género
Stenorynchus que, vivendo em água mais profunda, são vomitados pela garopa, o requeime e outros no
momento em que o pescador desprende estes peixes do anzol dos aparelhos.
Aranhas
Conhecem-se no arquipélago da Madeira 99 espécies de aranhas, a maior das quais é a Lycosa
(Trochosa) ingens, que habita nas Desertas.
A grande aranha preta da Madeira, é a Lycosa (Trochosa) Blackwallii e a do Porto Santo a L. tarentuloides
maderiana.
A Epeira aurelia (tarântula dos madeirenses) vive nas tabaibeiras e outras plantas, prendendo aí os fios das
suas teias, onde o povo diz que ela escreve o nome por que é conhecida.
Não consta que a picada da Epeira chegue a produzir inchações ou inflamações notáveis; mais perigosa é
talvez a picada das Lycosas, aranhas que vivem de preferência nos lugares escuros e nos buracos e fendas
das rochas.
A Cyrtophora citricola introduzida recentemente na Madeira por uma senhora inglesa, encontra-se agora
nas árvores, nos fios telefónicos etc., etc..
As aranhas do arquipélago da Madeira foram assinaladas ou descritas num trabalho publicado pelo Sr.
Kulczynski, de Carcovia, em 1899. V. Kulczynski, Fauvel e Schmitz.
Araruta (Maranta arundinacea)
Espécie da família das Zingiberaceas, cultivada na
Madalena. O processo que empregam ali para extrair a fécula, é o de triturar as raízes em celhas, lavando
em seguida a massa resultante; esta massa é passada através de peneiros e posta por fim ao sol a enxugar. A
araruta, ou farinha de substancia, é muito empregada em caldos, como analeptico.
Araucaria
A árvore que os madeirenses designam por este nome, é a Araucaria excelsa da ilha de
Norfolk, caracterizada pela sua forma piramidal e pelos seus ramos verticilados e horizontais. Pertence á
família das Pinaceas e é cultivada em muitas quintas e jardins do Funchal.
Araújo
Ha um ramo da família deste apelido que procede de Gonçalo Alves de Araújo, que veio para
esta ilha nos fins do século XV e que teve terras de sesmaria no lugar do Jardim do Mar, sendo por isso
conhecido por Gonçalo Alves do Jardim.
Existe outro ramo que vem de Afonso Enes de Araújo.
Araújo (Dr. Juvenal Henriques de)
Nasceu no Funchal a 21 de Novembro de 1892, sendo
filho de João Isidoro de Araújo Figueira e de D. Virginia Henriques de Araújo. Concluiu o curso do nosso
liceu em 1909 e a sua formatura na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1914. Sendo
estudante da Universidade, teve uma larga colaboração em vários jornais do continente e foi um dos
fundadores do Imparcial, que se publicou em Coimbra. Esteve durante alguns anos na direcção do Diário da
Madeira e tem colaborado noutros jornais madeirenses.
Exerce a advocacia e publicou um opúsculo intitulado Acção de expropriação do Montado do Barreiro
requerida pela Câmara Municipal do Funchal contra os proprietários do mesmo Montado, Funchal, 1917, de
l9 paginas.
É professor efectivo da Escola Industrial e Comercial “Antonio Augusto de Aguiar” e tem exercido várias
comissões de serviço público, sendo actualmente (1939) presidente da direcção da Associação Comercial do
Funchal.
Foi eleito deputado pela Madeira no ano de 1922 e em sucessivas legislaturas, fazendo parte da actual
Câmara dos Deputados. Em 1928 publicou em volume alguns dos discursos que proferiu no Parlamento e a
que deu o título de Trabalhos Parlamentares.
Araújo e Sousa (Manuel de)
Este madeirense serviu no Brasil nas guerras contra os
holandeses, tendo-se distinguido pelo seu esforçado valor.
Arborização
Desde 1562, ano em que foi dado a esta ilha o segundo Regimento das Madeiras, até
nossos dias, muitas vezes têm os Governos e as Câmaras Municipais, procurado promover a arborização das
nossas serras e evitar a devastação dos arvoredos.
O Regimento de 27 de Agosto de 1562, que se sabe ter sido precedido de outro datado de 15 de Janeiro de
1515, mas de que não existe registo nos arquivos municipais, recomendava a plantação de castanheiros e
pinheiros nas terras adequadas a estas espécies, e proibia o corte de árvores sem licença das câmaras, não
podendo este corte ser permitido em caso algum nos lugares onde houvesse fontes ou águas correntes.
No arquivo da Câmara Municipal do Funchal estão registados muitos diplomas de onde se vê que nos
séculos XVII e XVIII se cuidava mais do que hoje na conservação das matas, e em 1799, foi estabelecido um
viveiro na freguesia do Monte, que segundo um relatório apresentado ás estações competentes pelo
inspector da agricultura, distribuiu para cima de 20:000 árvores desde então até 10 de Agosto de 1823.
A carta regia de 14 de Maio de 1804, suscitando a observância da de 17 de Junho de 1800, mandou semear e
plantar no alto dos montes, tanto da Madeira como do Porto Santo, as espécies de árvores de que o terreno
se mostrasse susceptível, mas, infelizmente, das sementes que o governo nos mandou por essa ocasião, bem
poucas pertenciam a essências faceis de adaptar ao nosso solo e clima. O Abies canadensis e a Robinia
Pseudacacia, aquele cultivado nalgumas quintas e esta naturalizada em muitos pontos dos arredores do
Funchal, foram introduzidos na Madeira a 29 de Outubro de 1800, tendo as sementes sido remetidas pelo
governo de D. João VI.
Na referida carta regia de 1804 ordenava-se ás câmaras que planeassem árvores nos terrenos concelhios e
procedessem severa e irremissivelmente, na forma da Ordenação do L.° 51, Tit. 75 e 76, contra os que
incendiassem as matas e cortassem as árvores, observando-se igualmente o Regimento das Madeiras de
1562.
Nas instruções de 18 de Outubro de 1792, que o Dr. Antonio Rodrigues Veloso de Oliveira deixou á câmara
da vila da Calheta quando ali esteve em correição, aparecem também alguns alvitres respeitantes ao plantio
de árvores, e em 15 de Outubro de 1804 recomendou o governador Ascenso de Oliveira Freire ás câmaras da
Ponta do Sol, Calheta e S. Vicente que cuidassem da arborização concelhia e da limpeza das ribeiras. Este
governador cuidou também da arborização do concelho do Funchal e da maneira de se criarem os gados
sem prejuízo das plantações.
Em 3 de Maio de 1812, leu-se em sessão da Câmara Municipal do Funchal uma comunicação do inspector
da agricultura na Ribeira Brava de haverem sido plantadas no seu distrito 9:233 árvores, incluindo 4:795
amoreiras.
Em 9 de Novembro de 1814 mandou o governo interino da Madeira realizar sementeiras de pinheiros e o
mesmo fez a Câmara Municipal do Funchal em 14 do mesmo mês e ano utilizando para esse fim uns
terrenos nas freguesias de Santo Antonio e S. Martinho.
Por 1821 criaram-se novos maciços de pinheiros, sendo o pinheiro manso a espécie que nessa época era
mais procurada para as plantações, e em 1840 mandou o governo satisfazer uma requisição de vinte moios
de penisco, feita no ano anterior pela Câmara Municipal do Funchal.
Foi durante o período em que o benemérito Conselheiro José Silvestre Ribeiro governou a Madeira (1846-
1852), que a cultura do pinheiro bravo tomou aqui grande incremento. A correspondência relativa á
rearborização das serras, trocada entre José Silvestre e as Câmaras Municipais e administradores do
concelho de toda a ilha, merece ser lida por todos aqueles que quiserem formar uma ideia exacta e clara do
zelo e superior competência com que esse funcionário soube tratar um assunto que tanto se prendia com a
prosperidade do país confiado á sua administração, como largamente se pode ver nos três volumes da obra
uma Época Administrativa.
De 1852 em diante só há a assinalar em matéria de arborização o plantio de grande numero de árvores
mandado executar não há muitos anos pela Direcção das Obras Publicas do Distrito nas margens das
levadas do Estado, a criação, depois de 1897, de algumas matas de pinheiros para dentro do antigo bardo do
Concelho do Funchal, e a remessa que fez a repartição dos serviços florestais para a Ilha do Porto Santo de
várias essências exóticas e indígenas, algumas das quais estão vegetando ali muito bem.
A tamargueira e o Myoporum accuminatum são duas espécies muito adequadas aos terrenos do Porto
Santo, tendo a primeira sido introduzida naquela ilha por João Antonio Pedroso em 1834, e a segunda pelo
distinto botânico João Maria Moniz, em 1893. Se se aproveitasse convenientemente esta ultima espécie,
conseguir-se-ia formar em poucos anos grandes maciços de verdura na desarborizada ilha do Porto Santo.
Pelo que respeita á Madeira, entendemos que é a flora indígena que deve fornecer as espécies precisas para
o repovoamento das serras. Preferir para o referido repovoamento as árvores exóticas ás indígenas, como
infelizmente tem sido aconselhado, é não só pôr de parte, sem motivo justificado, as riquezas florestais com
que a natureza dotou a ilha, como também dificultar a realização dum melhoramento cuja utilidade não
carece de demonstração.
Não pomos em duvida que haja espécies oriundas de outras paragens susceptíveis de aclimar-se na região
montanhosa da Madeira, e em especial nos vales do interior; o que não vemos é a necessidade de recorrer
tão somente a tais espécies para reconstituir as nossas florestas, quando temos nada menos de trinta e duas
árvores e arbustos adequados ao revestimento dos mais variados terrenos e altitudes da ilha. Quando
mesmo não fosse para nós um dever conservar religiosamente as essências espontâneas que nos restam,
bastaria a circunstancia de todas elas oferecerem um maior grau de adaptação ao solo e clima da ilha, para
se lhes dar a preferência nos revestimentos a executar.
Os nossos arvoredos têm dois inimigos implacaveis: o pastor e o carvoeiro, sendo indispensável acabar da
maneira mais absoluta com a pastoreação de gados e a fabricação do carvão. E não deve haver uma só
excepção, nem quanto a épocas nem quanto a lugares. Somente uma medida radical como essa e somente
uma proibição omnimodamente extensiva a todos os casos e circunstancias constituirá um remédio salutar
e eficaz para o grande mal que é preciso combater. Não se venha recordar a existência dos decretos de 23 de
Julho de 1913 e de 22 de Setembro de 1917. Nunca se cumpriram em toda a sua plenitude e já não
satisfazem inteiramente o seu fim.
É um erro grave supor-se que a criação do gado ovino, caprideo e porcino fomenta uma apreciável indústria
e de cuja supressão poderia de qualquer modo ressentir-se a economia do distrito. Bastará dizer que a ela se
entrega um numero limitado de indivíduos, para os quais não constitue um modo exclusivo de vida, pois
que cumulativamente o exercem com a profissão de agricultores ou de simples trabalhadores rurais.
Na generalidade, os gados pastam livremente sem guardas ou pastores e acham-se expostos a todas as
intempéries, não existindo currais ou abrigos adequados que os resguardem das rigorosas invernias, sendo
sempre muito considerável o numero de animais que, por esse motivo, sucumbe todos os anos. Esta
ponderosa circunstancia seria suficiente para justificar-se, em qualquer país, uma absoluta proibição da
livre pastagem do gado em serras desabrigadas.
É notório que os gados causam uma grande destruição nas plantas ainda novas e em pleno
desenvolvimento, mas a pujança luxuriante da nossa vegetação florestal vence em boa parte o ataque das
fortes mandíbulas desses ruminantes. A que, porém, não pode vencer a opulência nativa dos nossos
arvoredos é a acção daninha e criminosa do pastor.
Os rebanhos não encontram meio favorável para as suas pastagens em terrenos cobertos de densa
arborização, tendo necessidade dum solo em que predominem as forragens e plantas de pequeno porte,
indispensáveis á alimentação que lhes é mais apropriada. O pastor prepara logo esse desejado pascigo numa
clareira mais ou menos vasta, que a força destruidora das chamas lhe oferece sem dificuldade. Os grandes
incêndios nas nossas matas têm ordinariamente essa origem. Os zagais não trepidam um momento em
converter uma floresta de belas e corpulentas árvores, que levaram séculos a formar-se, numa superfície
deserta e calcinada pelo fogo devorador, a fim de que em breve se transforme num campo de pastagem
destinado a fornecer alimento a umas parcas dezenas de cabras e ovelhas.
São tão manifestos os prejuízos resultantes do fabrico do carvão, não somente pelas inúmeras e belas
árvores que se perdem para obter esse combustível, mas ainda pelo perigo sempre iminente de atear-se um
violento incêndio, como tantas vezes tem acontecido, que desnecessário se torna aduzir um longo cortejo de
argumentos para condenar em absoluto a permissão de semelhante pratica, sejam quais forem as condições
de segurança, que porventura possam ser invocadas para esse fim.
Sabemos que são permitidos, com clausulas que desconhecemos, alguns cortes de árvores das matas do
Estado, convindo que haja o mais escrupuloso cuidado na concessão de tais licenças e sobretudo a mais
severa fiscalização na execução delas.
Nas favoráveis condições climatéricas que oferece o nosso meio, sendo adoptadas aquelas providências e
havendo uma criteriosa selecção na preferência das essências florestais a replantar ninguém duvidará que
dentro de duas ou três dezenas de anos poderá esta ilha retomar ajustadamente o nome de Madeira, que de
muito arvoredo assim se chama, segundo a frase consagrada do imortal cantor dos “Lusiadas”.
V. Gados e Policia Florestal.
Arcebispado do Funchal
Todos sabem que a nossa Sé Catedral teve as honras de Sé Metropolita e que nela
foi a sede dum arcebispado. Teve, porém, uma efémera duração. Criado em 1533, já estava extinto em 1551.
A nossa sempre crescente expansão colonial e marítima desde os princípios do século XV e o povoamento e
exploração das terras descobertas, determinaram primeiramente o estabelecimento do bispado do Funchal
em 1514, e vinte anos depois a criação das dioceses de Angra, Cabo Verde, S. Tomé e Goa. Antes de se
criarem estes últimos bispados, surgiu a ideia do estabelecimento duma arquidiocese que fosse a sede duma
província eclesiástica, tendo como dioceses sufragâneas aquelas e outras que porventura se viessem a criar.
O Funchal, por ter sido o primeiro bispado estabelecido fora do continente português, foi o escolhido para a
sede da nova arquidiocese, compreendendo as já referidas dioceses de Angra, Cabo Verde, S. Tomé e Goa. O
arcebispo do Funchal estendia a sua jurisdição espiritual desde o arquipélago madeirense até os confins do
oriente.
Não conhecemos a data da bula da criação do arcebispado. No Corpo Diplomático Português encontramos
as Cédulas consistoriais de 31 de Janeiro e 11 de Fevereiro de 1533, sendo a primeira a da comunicação, a D.
João III, do estabelecimento da arquidiocese e a segunda a da nomeação do primeiro arcebispo, que foi D.
Martinho de Portugal. Não vem aí a bula da criação, mas como as cédulas consistoriais da participação do
facto tinham geralmente a data da própria criação, não andaremos muito distanciados da verdade
afirmando que a arquidiocese foi estabelecida por bula de 31 de Janeiro de 1533 e que D. Martinho de
Portugal foi nomeado arcebispo por bula de 11 de Fevereiro do mesmo ano.
Seis anos apenas depois do estabelecimento da arquidiocese, foi esta, por bula de 8 de Julho de 1539,
despojada dos seus quatro bispados sufragâneos, que passaram á jurisdição do arcebispo de Lisboa. O
primeiro e único arcebispo do Funchal, D. Martinho de Portugal, morreu em 1547, mas o arcebispado não
foi preenchido, sendo extinto em 155l, quatro anos depois da sua morte, pela bula Super universis.
As circunstancias dadas com a criação, desmembramento e depois extinção do arcebispado, levam-nos a
compartilhar da opinião do Dr. Alvaro de Azevedo, quando afirma que a elevação no bispado do Funchal a
arquidiocese foi um favor pessoal de D. João III a um seu próximo parente e amigo e talvez a paga dos
serviços que D. Martinho de Portugal prestou ao monarca como seu embaixador em Roma.
D. Martinho de Portugal, por divina comiseração, Arcebispo do Funchal, Primaz das Índias e de todas as
terras novas descobertas e por descobrir era como o novo arcebispo se intitulava nos documentos que
expedia no exercício do seu cargo.
As quatro “massas" que, ainda hoje, nas grandes solenidades, são conduzidas por clérigos na nossa Sé
Catedral, precedendo o prelado, constituem o único vestígio que entre nós deixou a existência da
arquidiocese. Essas “massas” simbolizavam os quatro bispados sufragâneos, que pertenciam ao arcebispado
do Funchal.
Extinta a arquidiocese, voltou o Funchal á simples condição de bispado, tendo-se-lhe, á jurisdição exercida
no arquipélago da Madeira, juntado o castelo de Arguim, na costa do Senegal, que anos depois deixou de
pertencer a esta diocese.
Do arcebispo D. Martinho de Portugal, nos ocuparemos em artigo especial.
A Bula de 8 de Julho de 1539 acima citada, que muito interessa á historia eclesiástica da Madeira, foi
integralmente traduzida em língua portuguesa e publicada em vários números do mês de Março de 1898 do
jornal O Correio do Funchal.
Archivista (O)
Saiu o primeiro numero a 7 de Dezembro de 1850 e o ultimo a 27 de Dezembro de
1851, tendo-se publicado 56 números.
Archivo Literario (0)
Publicou-se o primeiro numero a 15 de Abril de 1863 e o 241, que foi o
ultimo, a 2 de Novembro do mesmo ano. Foi João de Nobrega Soares o seu principal redactor.
Archivo da Marinha e Ultramar
Até o ano de 1834 era o arquipélago da Madeira uma
província e colónia ultramarina, cuja administração estava principalmente subordinada ao Ministério da
Marinha, tendo naquele ano, com a criação dos distritos insulares, passado a fazer parte das ilhas
adjacentes e com uma administração absolutamente
idêntica á dos distritos continentais. A
correspondência oficial expedida então da Madeira, era principalmente dirigida ao Ministro da Marinha e
ao Conselho Ultramarino, por onde corria uma grande parte dos negócios respeitantes á administração das
nossas províncias de além-mar. Os valiosos e numerosissimos documentos referentes á nossa
administração colonial, existentes no Ministério da Marinha e Ultramar, foram há poucos anos removidos
para a Biblioteca Nacional de Lisboa e ali devidamente coordenados e catalogados, reconhecendo-se então
mais de perto o valor desse inapreciável tesouro e os revelantissimos serviços que essa documentação
poderia prestar aos estudos que porventura se pretendessem fazer sobre toda a nossa vida colonial e
marítima.
Criada na Biblioteca Nacional a secção Archivo da Marinha e Ultramar, que compreende alguns milhares de
codices e um numero incalculável de documentos avulsos, foi o Dr. Eduardo de Castro e Almeida
encarregado do inventario e catalogação desses documentos, iniciando o seu árduo e utilissimo trabalho
pela coordenação dos manuscritos avulsos referentes á Madeira e Porto Santo, que abrangem o período
decorrido de 1613 a 1833. Com o título de Biblioteca Nacional de Lisboa. Archivo da Marinha e Ultramar.
inventario . . . Madeira e Porto Santo, I, 1613-1819, publicou em 1907 um tomo de 402 pag., em formato in-
folio, e em 1909 o tomo II, de 487 pag. no mesmo formato, que constituem um abundante e valiosissimo
repositorio de noticias e informações, absolutamente indispensáveis para quem pretender ocupar-se da
historia deste arquipélago no período a que aqueles documentos se referem.
0 Dr. Castro e Almeida não se limitou a um simples inventario, como modestamente intitula o seu
importante trabalho, pois que, além da catalogação por ordem cronológica dos diversos documentos, com a
indicação sumaria dos assuntos de que tratam, faz deles vários extractos dos períodos mais interessantes,
segundo a natureza e importância das matérias, a que sempre obedece a mais acertada e criteriosa escolha.
Como pessoalmente pudemos verificar, esses documentos respeitantes á Madeira, em numero superior a
dez mil, acham-se cuidadosamente encerrados em caixas de folha de ferro, devidamente numeradas e
colocadas em estantes. sendo de extrema facilidade, á vista do respectivo inventario, a procura do
manuscrito que se pretende consultar.
Nos dois volumes do Archivo da Marinha e Ultramar, que compreendem o inventario e a catalogação dos
documentos referentes ao nosso arquipélago, encontrámos muitas notas e informações que nos serviram de
valioso subsidio para alguns dos artigos insertos neste Elucidario.
Nas centenas de codices pertencentes ao Ministério da Marinha e agora depositados na Biblioteca Publica
de Lisboa, hão-de indubitavelmente encontrar-se muitos e valiosos documentos respeitantes á Madeira,
mas que só uma procura demorada e de caracter oficial poderá trazer a lume e dar-lhe a devida e
indispensável publicidade.
Arciprestados
A Diocese do Funchal foi há poucos anos dividida em quatro arciprestados ou grupos
de paróquias, para o efeito da sua administração eclesiástica. São eles: o do Funchal, que compreende as
freguesias dos concelhos do Funchal, Câmara de Lobos, Ribeira Brava e Porto Santo; o da Calheta,
abrangendo as paróquias dos concelhos da Calheta e da Ponta do Sol; o de Santa Cruz, que se compõe das
freguesias dos concelhos de Santa Cruz e Machico; e o de São Jorge compreendendo as paróquias dos
concelhos de Santana, São Vicente e Porto do Moniz. 0 cargo de arcipreste é de nomeação episcopal e
exercido por um dos párocos do arciprestado.
Arco da Calheta (Freguesia do)
A Calheta foi povoação importante desde os tempos
primitivos da colonização e emprestou o seu nome a outras localidades que se constituíram nas suas mais
proximas imediações. Tais foram o Estreito e o Arco da Calheta. A denominação de Arco provém da especial
conformação semi-circular dos seus montes. Estas condições orograficas, como também acontece em outros
pontos da ilha, explicam com inteira propriedade o nome que lhe foi dado pelos primitivos povoadores.
Data de 1572 a criação desta freguesia. Foi estabelecida a sua sede na capela de São Braz devendo notar-se
que já anteriormente àquele ano ali se fazia o serviço religioso com seu capelão primitivo, a exemplo
doutros lugares, pois ao tempo era o Arco uma povoação de relativa importância e com um numero
apreciável de moradores. Dá-se Braz Ferreira, um dos mais antigos povoadores desta paróquia, como o
fundador da capela de S. Braz segundo ele próprio diz no seu testamento feito em 1493, mas João
Fernandes de Andrade, considera-se também como aquele que a mandara construir, pois nos seus
testamentos feitos em 1520 e 1523 a isso se refere claramente. João Pedro de Freitas Drumond e o anotador
das Saudades da Terra, notam esta flagrante divergência, dizendo o segundo que Braz Ferreira deixara em
legado a construção da capela, mas que a edificação dela só foi levada a cabo por João Fernandes de
Andrade. Este morreu a 9 de Abril de 1527 e foi sepultado na referida capela, encontrando-se algures que na
sua sepultura se lia o seguinte epitáfio: Aqui jaz João Fernandes e Beatriz de Abreu sua mulher, que foram
os primeiros fundadores deste Arco.
Foi o alvará régio de 18 de Junho de 1572 que autorizou a criação dum beneficiado curato com as
atribuições de vigário, sendo-lhe fixado o vencimento anual de 13$000 reis, a que o alvará de 10 de Julho do
mesmo ano acrescentou 110:000 reis com a nomeação do primeiro pároco que foi Fr. Pedro Delgado, tendo
ainda o alvará de 20 de Abril de 1589 feito o novo acrescentamento de meio moio de trigo e de um quarto de
vinho. Parece que ainda outros diplomas régios aumentaram posteriormente a côngrua do respectivo
pároco.
O prelado diocesano D. Fr. Antonio Teles da Silva, pela autorização concedida pelo alvará de 28 de
Dezembro de 1676, criou um curato nesta freguesia com o ordenado anual de 12$000 reis em dinheiro, um
moio de trigo e uma pipa de vinho, custeado pelo “terceiro beneficiado supérfluo de Câmara de Lobos”. Diz
um antigo livro do arquivo paroquial que este curato era um dos melhores de todo o bispado.
Antes da criação desta paróquia, pertenciam os seus moradores á freguesia da Calheta, onde cumpriam as
suas obrigações religiosas, que em parte passaram a ser observadas na capela de São Braz quando esta
começou a ter o seu capelão privativo. Em época que não podemos determinar, acrescentou-se o corpo da
igreja á capela de São Braz, que ficou sendo a capela-mor do novo templo. Com o desenvolvimento da
população, tornou-se a igreja de acanhadas dimensões, determinando o prelado diocesano que se pedisse ao
rei a construção duma nova igreja. Por mandado do Conselho de Fazenda de 30 de Outubro de 1744 se deu
de arrematação a Cristovão Gomes, pela importância de 9.350$000, a edificação dum novo templo, que não
sabemos quando começou a construir-se, mas que foi dado por concluído em Dezembro de 1754. A bênção
solene da nova igreja realizou-se no dia 1 de Janeiro de 1755. Outras obras suplementares se fizeram com o
decorrer do tempo, tendo a respectiva torre sido construída em 1830.
Foi o Arco da Calheta dos primeiros lugares desta ilha sujeitos a uma larga exploração agrícola após o
descobrimento. Entre os primeiros povoadores contam-se João Fernandes de Andrade (V. Andrade), a que
acrescentou o nome de Arco, pelas vastas terras que aqui teve de sesmaria, seu irmão Diogo Fernandes de
Andrade, Pedro Gonçalves da Câmara, neto de João Gonçalves Zarco, Gonçalo Fernandes e ainda outros,
formando-se ali grandes fazendas povoadas, com suas casas nobres, capelas, engenhos e terrenos
cultivados.
Diz Gaspar Frutuoso: “Da Magdalena hum guarto de legoa está a Lombada que foi de Pedro Gonçalves da
Camara, marido de D. Joanna de Eça, camareira-mór da rainha: he muito grossa fazenda, tem engenho de
assucar e muitas térras de canas e grandes aposentos de casas e egreja com seu capelão. Um quarto de legoa
desta Lombada... está outra que se chama o Arco ou Lombada do Arco, que foi de João Fernandes, irmão de
Gonçalo Fernandes, fazenda tambem muito grossa, que tem engenho e muitas terras de cana e grandes
aposentos de casas, egreja e capellão”.
João Fernandes do Arco teve larga descendência, merecendo especial menção Antonio de Abreu, o
descobridor das Molucas, de quem já atrás nos ocupámos e que provavelmente nasceu nesta freguesia. É
também filha de João Fernandes; a celebre protagonista do rapto feito por Antonio Gonçalves da Câmara, a
que nos já referimos sob o nome de Isabel de Abreu.
Teve residência e sesmaria nesta freguesia Gonçalo Fernandes, personagem misterioso a que se referem as
antigas crónicas madeirenses e de quem falaremos em artigo especial.
Tem esta freguesia as capelas de Nossa Senhora do Loreto, Nossa Senhora da Nazaré, Sagrado Coração de
Jesus, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Vida. Das antigas capelas de Nossa Senhora do
Desterro e de Nossa Senhora da Boa Hora só restam hoje alguns montões de escombros. Outras ermidas
existiram, que totalmente desapareceram e que foram as de Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora da
Consolação, Nossa Senhora da Visitação, Nossa Senhora da Conceição, Santo Antonio e Santa Maria
Madalena.
Quasi todas estas capelas eram de instituição vincular e algumas delas a cabeça e sede de diversos
morgadios, que não poucos houve nesta paróquia. Entre eles mencionaremos o do Píncaro, instituído por
Braz Ferreira, o primitivo fundador da capela de São Braz que, diz um antigo manuscrito, “principiava na
fazenda que cerca a egreja parochial e se vae continuando nesta corda direito do mar á serra, até o Pinheiro.
. .”; o morgadio instituido por Iria Pires, que depois foi acrescentado pelo administrador Pedro Barreto e
*que está na corda da Ribeira do Ledo, que o confronta pelo norte, e assim se continda até á Cova do Arco+;
o vinculo da Consolação, que hoje pertence á casa Torre Bela e que parece se juntou ao do Pincaro; o
importante morgadio instituído por Gonçalo Fernandes, encabeçado na capela da Conceição da Serra de
Água; o do Loreto, criado por D. Joana de Eça; o morgado que tinha por sede a capela da Nazaré e que fora
instituído por Antonia de Cristo e sua irmã Leonarda do Horto; o das Florenças, fundado por João Homem
de El-Rei e ainda outros.
A sublevação popular que em 1834 se deu na freguesia da Calheta, e que teve tão funestas consequências (V.
Calheta), também se repercutiu na paróquia do Arco, amotinando-se o povo e juntando-se ao daquela
freguesia, não sabendo nós dizer se entre as vitimas se contaria algum paroquiano do Arco da Calheta. Em
1887, os tristes e celebres acontecimentos das juntas de paróquia (V. este nome), que em muitos pontos da
ilha levaram os povos ás mais extremas violências, tiveram também seu eco clamoroso na freguesia do Arco,
sublevando-se o povo, que ameaçou romper em excessos lamentaveis e que aproveitou o ensejo para exigir
o direito do pagamento do terço aos senhorios, e não da dimidia como então pagava e que a pesar de tudo
continuou a pagar. Foi necessário a intervenção da forca armada, que parece ter ali cometido excessos
condenáveis.
Esta freguesia tem três escolas oficiais, sendo uma do sexo masculino, no sítio do Ledo, uma do sexo
feminino, no sítio da Ladeira e Lamaceiros, e uma mixta, no sítio da Lombada.
O Arco da Calheta é principalmente irrigado por um ramal da importante levada do Rabaçal e pela levada
chamada da Madre Grande, que tem sua origem no Paul da Serra.
Tem como limites confinantes as freguesias da Madalena do Mar, Canhas e Calheta. Dista desta ultima, que
é a sede do concelho, cerca de 4 quilómetros, ficando distante da Ponta do Sol, sede da comarca,
aproximadamente 7 quilómetros, e 34 do Funchal.
Os seus principais sítios são Fajã, Ledo e Vinhatico, Fonte da Bugia e Luzirão, Ladeira e Lamaceiros, Fonte
do Til, Fajã do Mar, Pombal e Fazenda Grande, Chada, Palheiros, Amoreiras, Paredes, Cova do Arco,
Corujeira, Pomar Velho, Bagaceiro, Maçapez, Cales e Chada, Lombada do Loreto, Florenças e Pinheiro,
sendo os últimos três em extremo pitorescos e donde se disfrutam belos panoramas, devendo ainda
especializar-se o lugar do Rochão, que oferece ao visitante uma encantadora paisagem e uma das mais
vastas e surpreendentes vistas de todo o concelho.
O seu orago é São Braz que a igreja venera a 3 de Fevereiro. Ha uma romagem anual á capela do Loreto,
com grande e concorrido arraial, que se realiza nos dias 7 e 8 de Setembro.
A população desta freguesia é de 4639 habitantes.
Arco de São Jorge (Freguesia do). Acha-se esta pequena paróquia situada entre as freguesias de São Jorge e
da Boaventura, distando da igreja paroquial da primeira cerca de seis quilómetros e aproximadamente dois
da igreja paroquial da segunda.
A configuração dos montes que a circundam dá suficiente explicação do nome que ela conserva. Tendo
pertencido á freguesia de São Jorge desde que esta foi criada em 1517, até que dela se desmembrou em 1676,
tomou muito naturalmente a denominação do Arco de São Jorge, que é muito anterior á época da sua
criação.
Um dos primitivos colonizadores da Madeira foi Pedro Gomes Galdo, que teve largas terras de sesmaria em
S. Jorge e Boaventura, sendo de presumir que nelas estivessem incluídos os terrenos que depois
constituíram a freguesia do Arco de São Jorge. Não podemos saber quando o Arco começou a ser povoado e
quando teve princípio o arroteamento das suas terras, mas parece-nos que seria pelos fins do século XV ou
no primeiro quartel do século XVI, e muito antes da criação da freguesia de São Jorge.
No lugar que hoje corresponde ao sítio dos Casais, erguia-se uma pequena ermida que tinha a invocação de
Nossa Senhora da Piedade, ignorando-se o ano da sua fundação, mas presumimos que deve remontar ao
terceiro ou ultimo quartel do século XVI. Teve seu capelão privativo, que ali exercia as funções religiosas
sob a dependência do vigário de S. Jorge. Foi esta capela que serviu de sede á nova paróquia, criada pelo
prelado diocesano D. Antonio Teles da Silva, em virtude da autorização concedida pelo alvará régio de D.
Pedro II. de 28 de Dezembro de 1676.
Já muito anteriormente á criação da paróquia se encontrava a capela de N. S. da Piedade em lamentável
estado de conservação e ameaçando próxima ruína, e dez anos apenas depois de nela se ter instalado a sede
da freguesia, determinou o bispo D. Estevão Brioso de Figueiredo, que pessoalmente a visitou, que se
requeresse a imediata construção dum novo templo, em virtude das acanhadas dimensões da pequena
ermida, e considerando-a imprópria para servir a igreja paroquial. Meio século mais tarde, por mandado do
Conselho de Fazenda de 18 de Janeiro de 1740, é que se mandou proceder á construção da nova igreja, que
foi benzida a 19 de Março de 1744 pelo vigário de então, o padre Manuel da Costa.
Temos noticia de que os padres João Batista e José de Andrade foram capelais da ermida de N. S. da
Piedade antes da criação da freguesia, sendo o ultimo sacerdote o primeiro que ali exerceu as funções de
pároco. Sucederam-lhe, como curas de almas, os padres Francisco da Costa, Francisco Manuel Pereira,
Bartolomeu Marques Caldeira, Joaquim Baptista Catanho, Bernardo Ribeiro etc..
Esta pequena freguesia é talvez a mais fértil de todo o norte da ilha. Produz todos os géneros agrícolas, e os
seus terrenos são em especial muito apropriados para o cultivo da cana de açúcar. Seria, porém, maior a sua
produção se não lhe escasseassem as águas de regadio estando uma parte considerável das suas terras
apenas cultivada com cereais e hortaliças, e ainda assim abandonada á contingência das chuvas. Para obstar
a estes inconvenientes, torna-se indispensável a construção duma levada que, encadeando no sítio da Falca
da freguesia de Boaventura, sirva para a irrigação de muitos terrenos nesta paróquia e também no Arco de
São Jorge. Os estudos e respectivos projectos foram feitos há mais de trinta anos, sendo então as obras
orçadas em cerca de trinta contos de reis. Na sessão legislativa de 1890 advogou o deputado cónego
Feliciano João Teixeira, no seio da representação nacional, a ideia da realização daquele importante
melhoramento, mas os respectivos trabalhos não chegaram nunca a ser iniciados, ficando apenas em
projecto a construção da referida levada.
A fertilidade do solo desta paróquia corre a par da sua salubridade e da benignidade do seu clima. É
pequena a percentagem da mortalidade, e epidemias tem havido nesta ilha, como a da cólera em 1856, que
ali não têm entrado. O clima é dos mais suaves e temperados de toda a costa norte; montes elevados põem a
povoação ao abrigo dos ventos ásperos e cortantes do inverno, o que contudo não exclue a possibilidade de
aparecerem nesta freguesia as doenças vulgares e até as moléstias epidémicas, como acontece em toda a
parte. Assim sabemos que em 1768 grassou ali uma doença de caracter epidémico, que causou bastantes
vitimas, tendo o cirurgião da freguesia da Boaventura, Antonio Rodrigues Seabra, prestado por essa ocasião
relevantes serviços, e acudindo a fabrica da igreja paroquial com importantes donativos para debelar a
epidemia. Também em 1849 se manifestou nesta freguesia uma moléstia, então classificada de diarreia, que
vitimou muitas pessoas, sendo inúmeros os indivíduos atacados. Ali foi pessoalmente o então governador
civil do distritos o benemérito conselheiro José Silvestre Ribeiro, que se fez acompanhar de dois médicos e
dos indispensáveis recursos para acudir ao tratamento dos doentes, tendo-se extinto a doença dentro de
pouco tempo. ( V. Epocha Administrativa, vol. 2.°, a pag. 506 e seg.).
Os principais sítios desta freguesia são Igreja, Casais, Lagoa, Poços, Arco Pequeno e Quebrada. Este ultimo
deve o seu nome á grande quebrada que ha mais de dois séculos ali caiu, desagregando-se muitos terrenos,
principalmente do Arco Pequeno, que deram lugar á formação daquele sítio. O caso é vulgar na Madeira, e a
freguesia do Jardim do Mar, uma parte da do Paul e o sítio do Lugar de Baixo e ainda outros, formaram-se
de maneira idêntica a esta. Na Quebrada do Arco de S. Jorge deu-se, porém, uma circunstancia muito
singular, que merece menção especial e á qual temos encontrado várias referências, como nas Noticias
Mineralogicas da Ilha da Madeira do Dr. Pereira Drumond, publicadas em 1818 no Investigador Portuguez e
em outros autores nacionais e estrangeiros, referências que perfeitamente se casam com a tradição local,
que conserva ainda intacta a noticia do acontecimento. Acerca deste extraordinário sucesso, encontram-se
interessantes pormenores numa carta descoberta em 1848 na Biblioteca Publica de Lisboa pelo general
Antonio Pedro de Azevedo, e de que há anos foi publicado num jornal do Funchal o curioso extracto que em
seguida reproduzimos. (V. Verdade, n.° 944):
“ Dou a V. M.Ce esta nova por ser caso maravilhoso, que detraz da ilha, no Arco de S. Jorge, que a maior
parte delle he huma fazenda do meu morgado, ha muitos anos que estava a terra aberta com huma grande
greta; e sendo a terra muito apique, com a grande invernada deste anno, dia de paschoa pela meia noite
correo a terra em grande quantidade pelo mar dentro obra de meia legoa, levando diante de si os penedos e
baixas com tanta quietação, que as casas, arvores, latadas ficaram em ser, e em huma dois toneis de vinho
no canteiro sem virarem, e hum cortiço de abelhas sobre uma huma laje sem cair, e uma galinha que estava
no choco com ovos, amarrada ao pé duma figueira, tudo se achou lá sem mudança nem desmanchamento
da terra, e formou uma ilha no mar obra de vinte moios de semeadura, que está continuando-se com esta:
fez praia com dois bellos portos de que necessitava naquella parte, que por ser baixio se não embarcava
nada, e ficou donde correo uma fundura em cima com uma rocha talhada e para baixo fajã de terra nova
excellente até se juntar com a que está no mar sendo dantes rocha muito alta donde partia com o mar; e
correo sem estrondo e sem ser sentido, mais que um homem que vendo-a de noite ir correndo lhe deu um
accidente; isto como um barco que se botava ao mar correndo sobre paraes, e a maravilha he ter dias antes,
na largura da terra que correo, nada encheo nem vazou a maré tres dias, e estava o mar como morto e para
huma e outra banda vasava e enchia, com as ondas costumadas no mar do norte.”
Isto deu-se no ano de 1689, e se ocorreu no domingo de páscoa, como na carta se afirma, deve ter sido no
dia 20 de Abril do mesmo ano.
O filho mais distinto desta freguesia foi Antonio Gil Gomes, de quem mais largamente nos ocuparemos no
lograr respectivo. Também é dali natural Antonio Januario Moderno, que nasceu a 25 de Fevereiro de 1789
e era filho do capitão João Rodrigues Moderno e de D. Antonia da Incarnação Moderno. Foi provedor de
Machico, que então abrangia o concelho de Sant'Ana, e exerceu outros cargos públicos. Era homem de
celebrada fama em toda a ilha no seu tempo, não só pela maneira bizarra e hospitaleira como recebia na sua
casa do Arco, mas sobretudo pela hercúlea forca muscular de que era dotado, tornando-se temido e
respeitado pelas muitas e notáveis proezas e valentias que praticou. Em Londres, onde esteve como
emigrado político, também se tornou conhecido entre os seus compatriotas pela sua coragem e valentia do
seu braço. Morreu no Funchal a 1 l de Outubro de 1864. Era seu filho o Dr. Antonio Januario Moderno,
formado em medicina por uma universidade estrangeira e que exerceu a clinica com grande êxito e
proficiência nos Estados Unidos da América, onde adquiriu uma grande fortuna. Também era natural da
freguesia do Arco de S. Jorge. Passou quási toda a sua existência fora da Madeira, mas faleceu nesta cidade
há cerca de trinta anos, pouco depois de ter regressado á sua terra natal. Granjeara foros de homem de
excepcional talento e de medico abalizado. Faleceu no Funchal, tendo 67 anos de idade, a 11 de Fevereiro de
1885.
Nasceu na freguesia da Boaventura em 1791, mas residiu no Arco de S. Jorge, onde morreu em 1884, mais
de quarenta anos consecutivos, o distinto sacerdote Antonio Alexandrino de Vasconcelos, que foi vigário
geral do bispado e exerceu outros cargos importantes, tendo em 1834 acompanhado o prelado D. Francisco
José Rodrigues de Andrade, quando este se viu forçado a exilar-se, tomando o caminho da Itália. Era um
eclesiástico de notável inteligência e ilustração, sendo considerado uma grande autoridade nos diversos
ramos da liturgia católica.
O orago desta freguesia foi Nossa Senhora da Piedade até o ano de 1744, passando então a ser S. José,
quando se construiu a nova igreja. Pelos Breves Pontificios de 24 e 26 de Agosto de 1784 foi considerado
altar privilegiado o da capela-mor, e concedida uma indulgência plenaria para ser lucrada no dia da festa de
S. José. Encontramos algures a curiosa informação de que o morgado Francisco Aurelio da Câmara Leme
deixou imposta na tersa dos seus bens a pensão perpetua de se dar o azeite necessário para alumiar o
Santissimo Sacramento na igreja do Arco de São Jorge, e que seu filho e herdeiro, o morgado Francisco
Antonio da Câmara Leme, ratificara e assumira o encargo dessa pensão, por escritura publica feita a 18 de
Fevereiro de 1766, incidindo tal encargo “na quinta diante de Santo Amaro”.
Das paróquias rurais desta ilha, fora das sedes dos concelhos, era ainda ha poucos anos o Arco de S. Jorge a
que dava menor percentagem ao analfabetismo, que, como se sabe, está tão profunda e lamentavelmente
arreigado entre nós. Deve-se essa circunstancia ao zelo com que alguns párocos ministraram ali o ensino
primário, merecendo referência especial o padre Isilio Joaquim Vares, no segundo quartel do século
passado, e, posteriormente, os padres Emilio Marques da Silva, Francisco Manuel de Sousa, Francisco
Antonio de Abreu e Casimiro Augusto de Freitas. A 16 de Janeiro de 1886 criou a Câmara Municipal de
Sant'Ana uma escola oficial do sexo masculino no Arco de São Jorge, que ali tem prestado serviços
apreciáveis. Esta escola foi anos depois convertida em escola mixta.
Pertence esta freguesia ao concelho de Sant'Ana e comarca de São Vicente, de cujas sedes dista
aproximadamente doze quilómetros e meio, ficando distante do Funchal cerca de quarenta e um
quilómetros pela estrada do Poiso, e trinta e sete pelo Curral das Freiras e Boaventura. A sua população e de
167 habitantes.
Não queremos deixar de dizer que nesta freguesia nasceu o celebre trovador popular Manuel Gonçalves,
conhecido pelo nome de Manuel Feiticeiro e falecido há poucos anos, que percorreu toda a ilha a cantar as
suas ingénuas composições poéticas, tanto do agrado das multidões que enlevadas o escutavam avidamente
e lhe compravam as dezenas de folhetos com que reuniu e fez imprimir as suas inúmeras e incorrectas
canções.
Vid. Poesia Popular.
Arco de São Jorge (Pico do)
Sobranceiro á freguesia deste nome fica esta elevada eminência, a
837 metros de altitude.
Arco de São Jorge (Porto e Praia do)
No litoral desta freguesia encontra-se um pequeno e
mau porto, servido por uma praia de curta extensão e de dificultoso desembarque.
Areeiro
Não muito afastado do conhecido sítio do Poiso, mas já nas serras do interior da ilha, fica o
pico do Areeiro, que atinge uma altitude bastante aproximada de 1.800 metros acima do nível do mar.
Ainda os estudos meteorológicos e de climatologia não tinham atingido o grau de desenvolvimento do nosso
tempo, quando há meio século se despertou entre nós a ideia do estabelecimento dum ou mais postos
meteorológicos nos pontos mais elevados das nossas montanhas, cujas observações conjugadas com as do
Posto Meteorológico do Funchal constituiriam elementos preciosos para o estudo da climatologia
madeirense e de modo especial da climatologia comparada da nossa terra com a de outras afamadas
estações de saúde.
No ano de 1895 mandou o governo central construir nas encostas do Pico do Areeiro umas casas destinadas
á instalação dum posto meteorológico e á moradia do respectivo pessoal, em que se dispenderam cerca de
cinco contos de reis, ficando a conservação dos edifícios a cargo da Direcção das Obras Públicas do distrito.
Com a criação da Junta Agrícola, no ano de 1911, ficou pertencendo a esta corporação administrativa o
Posto Meteorológico do Areeiro, que no ano de 19l9 transitou para a posse da Junta Geral do Distrito,
quando foi extinta aquela Junta, que deixou uma triste memória nas paginas da historia madeirense.
Concluida a construção daquelas casas, deu-se, porém, o que já então tinha sido previsto por muitos: o
Posto não fora dotado com os indispensáveis instrumentos e nunca chegara a ser nomeado o pessoal
necessário para o seu regular funcionamento. O edifício, exposto a todas as intempéries e aos frequentes
vendavais que por ali se desencadeiam na quadra invernosa, começou desde logo a ser largamente
danificado, entrando em breve em estado adiantado de ruína. O vandalismo do lenheiro e do criador de
gado veio completar a obra de destruição que as tempestades iniciaram, sem que a acção benéfica das
respectivas estações tutelares tentasse pôr cobro a um tão criminoso abandono. E assim a antiga Direcção
das Obras Públicas, a Junta Agrícola e a Junta Geral não semente mostraram sempre o maior desinteresse
pelo funcionamento do Posto Meteorológico criado pelo governo da metrópole, como ainda deixaram cair e
desaparecer as construções que para aquele fim se tenham levantado numa das vertentes do Pico do
Areeiro.
Não puderam valer-lhes as reclamações da imprensa e nem ainda os bons ofícios de certas entidades
oficiais, sendo o assunto objecto de amargas ironias em diversas publicações estrangeiras e nomeadamente
numa revista cientifica de Midelburgo, em que se dizia que na Turquia se prestava mais atenção ao estudo
da meteorologia do que em Portugal, pois não constava que houvesse observatórios sem instrumentos nem
observadores, como acontecia na possessão portuguesa da Ilha da Madeira.
O distinto madeirense Guilherme Teles de Menezes, que durante alguns meses dos anos de 1894 e 1895
residiu, por motivo de saúde, nos sítios do Poiso e Areeiro, realizou ali várias observações meteorológicas,
que foram publicadas pela imprensa e mereceram as mais elogiosas referências por parte de pessoas
versadas nesta matéria.
Areias
Assim chamam á parte media da ilha do Porto Santo, que se acha coberta de uma espessa
camada de areia. Esta areia teve origem nuns montículos que existem a noroeste da ilha, e para evitar o seu
avanço, fizeram-se bardos de pinheiros, canas de roca e árvores do paraíso. No sítio das Areias existem
grandes plantações de vinha.
Areias (Calhau das)
Pequeno lugar de desembarque na Deserta Grande (Ilhas Desertas).
Arenque (Clupea maderensis)
Peixe comum nas águas costerias do arquipélago. É colhido ás
vezes em grande quantidade nas redes de arrasto ou de atravessar. Não passa por ser das melhores espécies
comestíveis, sendo na verdade inferior ao seu congénere dos mares do norte da Europa.
Areusco
Designação dada no Pôrto Santo ao terreno pouco fértil de areia calcarea e em parte de terra
mais ou menos argilosa.
Nele vegetam com dificuldade as plantas de cultivo mais exigente, e, por isso de ordinário é aproveitado
apenas na cultura do centeio.
Arfet (Ana de).
V. Machim (Roberto)
Arguim
Há nos confins das costas do Sahara e no Senegal,. aí pela latitude N. de 22° e longitude 0. de
7°, uma enseada, um arquipélago, um banco e uma faixa de litoral do continente africano, com a
denominação de Arguim. A maior e mais importante das ilhas do pequeno arquipélago, e que tem também o
nome de Arguim, é a que interessa á historia da Madeira, pois pertenceu á jurisdição eclesiástica da diocese
do Funchal. A ilha de Arguim, que apenas dista da costa africana cêrca de uma légua, foi descoberta por
Nuno Tristão, aproximadamente pelo ano de 1443. Começaram logo as transacções comerciais com os
indígenas do continente, reconhecendo-se sem demora que, para assegurar o bom êxito dessas transacções
e o domínio dos portugueses naquelas paragens, se impunha absolutamente a necessidade da construção
duma fortaleza, que começou a levantar-se pelos anos de 1450. Com as novas descobertas e grandes centros
do comercio que por toda a parte se estabeleceram, foi a pouco e pouca Arguim perdendo a importância,
sobretudo depois do aparecimento das colónias e feitorias comerciaes do Senegal. Passou Arguim por sorte
vária, estando sucessivamente sob o domínio dos ingleses, holandeses e franceses, achando-se hoje de todo
abandonada. Do Funchal iam, depois da construção da fortaleza e de estar assegurado o domínio de
Portugal, sacerdotes prestar ali os seus serviços religiosos, ignorando nós quando Arguim deixou de
pertencer aos portugueses e em que época os bispos desta diocese deixaram também de ter sua jurisdição
real sobre aquelas paragens, jurisdição que desde há muito passou a ser meramente honorífica. Há mais de
quarenta anos que os prelados do Funchal deixaram de intitular-se bispos de Arguim.
Armas
Têm armas próprias os seguintes municípios do arquipélago: Funchal, Machico, Porto Santo, Ponta
do Sol, Santa Cruz, Calheta, S. Vicente e Câmara de Lobos.
As primitivas armas do município do Funchal consistiam em cinco formas de açúcar em campo de prata e
dispostas em cruz, e em cada lado do escudo uma cana de açúcar. Mais tarde foi uma das canas substituída
por um ramo de vinha, mas as antigas armas aparecem num marco de bronze de quintal, datado de 1580,
que servia de padrão de peso no concelho do Funchal, assim como as moedas de cobre cunhadas em 1750, e
destinadas a circular unicamente nos arquipelagos da Madeira e dos Açores.
As armas do município de Machico são a esfera; as do Porto Santo, o dragoeiro; as da Ponta do Sol, o sol; as
de Santa Cruz, cinco castelos, e sôbre o escudo, sob o qual está a data de 1515, um escudete com as quinas de
Portugal; as da Calheta, o Espírito Santo, sob a forma de uma pomba; as de S. Vicente, o santo deste nome:
e as de Câmara de Lobos, dois lobos, entre os quais se vê o escudo com os castelos, e o escudete com as
quinas de Portugal.
Diz o Dr. Azevedo nas notas ás Saudades da Terra que tudo leva a crer que as primitivas armas do Funchal
fossem conferidas por D. Manuel, já porque este rei enobreceu esta cidade quanto pode, já porque estas
armas de si mostram serem do tempo em que a cultura da cana de açúcar e o fabrico deste eram a riqueza
da ilha da Madeira, e o título único da sua celebridade.
Em 1750 não estava ainda feita a substituição de uma das canas por um ramo de vinha, visto as primitivas
armas aparecerem, como já dissemos, nas moedas madeirenses cunhadas naquele ano.
Em 1798 figuravam ainda nas armas do município do Funchal as duas canas de açúcar como se pode
verificar num tinteiro de prata existente na antiga sala das vereações, mas em 1837 já uma das canas tinha
sido substituída por um ramo de videira, não estando registada, porém, nos livros das actas deliberação
alguma autorizando a mesma substituição. A presença das armas da Câmara, já modificadas, nas lombadas
de muitos livros antigos existentes no arquivo municipal, nada significa, pois tudo leva a crer que tais livros
só fossem encadernados no século XIX. Do auto de voto transcrito a pag. 726 das Saudades da Terra se vê
que em 1523 se resolveu que a imagem de S. Tiago Menor fosse pintada “na bamdeyra & sello da çidade”,
mas não temos provas algumas de que tal deliberação chegasse a ser acatada.
A coroa de duque que servia de remate ás armas da cidade do Funchal, foi substituída por uma estrela, nos
carimbos da mesma câmara, depois da implantação da Republica, tendo, porém, esta substituição, que
nenhuma razão séria podia justificar, durado muito pouco tempo.
A esfera das armas de Machico, era o emblema de D. Manuel I, tendo este monarca oferecido á Câmara
Municipal daquela vila um sinete de prata onde se vê a referida esfera, que ainda hoje é usado.
Pelo que respeita ás armas dos outros municípios, só podemos dizer que as de Câmara de Lobos foram
tomadas recentemente, e que os dois lobos que nelas figuram parecem ser emblema tirado do brazão dos
Câmaras.
Para maior esclarecimento deste assunto, vamos transcrever um artigo do Sr. Armando de Matos, que vem
inserto a pag. 54 e ss. do vol. IV do Arquivo Histórico da Madeira, sob o título de “Uma nótula sôbre as
Armas do Funchal”, embora possamos discordar de algumas das afirmativas do ilustre articulista.
“Desconheço qualquer texto impresso ou manuscrito que se refira á constituição ou simbolismo das
insígnias de autonomia municipal da cidade do Funchal. Nem documento escrito, nem exemplar
esfragístico, que, pela sua antiguidade nos autorize a basear, como seria para desejar, uma série de
comentários. No entanto, com o pouco que nos resta, impõe-se abordar o assunto da revisão do selo do
município do Funchal”.
“...É impróprio o formato do escudo, o coronel que o remata, e os ornatos que o circundam. Inútil relembrar
as razões porquê, tantas vezes já têm sido ditas. E isso tanto no selo branco, como no carimbo a tinta de
óleo.
“O mais antigo elemento icónico a que se pode recorrer encontra-se numa bandeja do século XVII, existente
na Câmara Municipal daquela cidade. É este o mais antigo e mesmo o único que temos para aproveitar. Os
outros são apenas variantes daquele, deturpando-o.”
“O primeiro foral do Funchal é de 1451, e dado por D. Afonso V. Quere dizer: só após esta data, inicio da
segunda metade do século XV, é que pode ter sido criado o selo da municipalidade do Funchal”.
“A mais antiga notícia, como já disse, pertence ao século XVII.
Nela encontramos, em disposição crucial, cinco cones com os vértices apontados para a ponta do escudo.
Postas em pala, entre os cones centrais e os laterais, vêem-se duas canas de açúcar”.
Quanto á identificação dos cones, é voz geral que representam ou formas de pãis de açúcar ou os próprios
pãis. Este primitivo arranjo, metido num escudo fantasista, é rematado por uma cruz pátea, certamente
uma má representação da cruz de Cristo.
Analisemos primeiro os cones. Vemos que são cinco e dispostos em cruz. Esta distribuição faz lembrar a dos
escudetes das quinas portuguesas. O facto deles estarem com a base voltada para o chefe do escudo, lembra,
possivelmente, a hipótese de não serem mais do que os próprios escudetes, numa incoerente estilização e
desleixada representação, na salva que nos serve de ponto de partida. Ao mesmo tempo não é vulgar, para
não dizer que é caso novo, umas armas de domínio, do meado do século XV, apresentarem como símbolos
principais os mesmos do poder central. Não sendo escudetes, temos de perfilhar a ideia das formas dos pãis
de açúcar. Para serem os próprios pãis, seria lógico que os cones aparecessem com a base para baixo, e não
invertidos. Ora isto só se nota nos outros testemunhos icónicos posteriores, o que parece dizer-nos que
houve influência de serem tomados por pãis. Esta ideia surgiu, naturalmente, depois de perdida a do seu
significado, O que não tem dúvidas neste caso é assentar em que o mais antigo é que é mais de ponderar”.
Há ainda um outro facto, embora mais leve, mas que não devo esquecer. É que os cones, representados na
salva, patenteiam bem a linha de contorno da base, o que já se não observa nos posteriores desenhos. Estas
peças dão claramente a idea de uns vasos ou recipientes”.
“... Os cones, que para mim são formas de pãis de açúcar, e que como tal designarei de aqui em diante,
juntamente com as canas de açúcar, representam a grande riqueza do Funchal, a sua razão de progresso,
devido ao benemérito interesse do Infante que na Ilha fez aclimar a cana sacarina. Esta, propagando-se
extraordinariamente no solo ubérrimo da Ilha, tal importância lhe trouxe, de tal modo impulsionou o seu
incremento, que em 1508 D. Manuel elevava o Funchal á categoria de cidade”.
“Liga-se bem, pois, o significado das formas e das canas num completo simbolismo, de que o facto principal
a memorar era a riqueza da Ilha, originada pelo comércio do açúcar".
“Com inteligência os homens bons do Funchal escolheram tais motivos; não tendo a registar na lembrança
colectiva os feitos de armas, as empresas militares ou navais, outro assunto se lhe seguia, que era a razão
maior do seu orgulho comum, a razão da crescente importância do seu concelho: o valor económico do
açúcar. Este é que tinha de representar o seu próspero município. Fazia parte do conjunto propriamente
dito a cruz de Cristo? Não sei responder. No entanto, é razoável e lógico o seu aparecimento, pois que
lembra o Infante, a cuja vontade se deve o fazer a Ilha parte do mundo português. E ele era o mestre da
Ordem de Cristo, cujas rendas impulsionaram as caravelas na senda gloriosa dos descobrimentos”.
“É isto o que sugere dizer o mais antigo documento icónico das armas do Funchal”.
Agora vejamos como dentro da tradição se pode formular uma solução para reorganizar o definitivo arrumo
das armas do Funchal.
“Sendo de opinião que se deve conservar a forma e disposição das armas gravadas na salva do século XVII,
eu lembrarei que as formas devem manter-se em cruz, porém flanqueadas pelas duas canas de açúcar.
Parece-nos que, desta maneira, é melhor o efeito estético, do que alternarem umas com as outras. E assim
fica mais em evidência a cruz dos escudetes das quinas, que nunca é demais bem marcar”.
“Num chefe apor-lhe-ia a cruz de Cristo, que eu achava dever figurar em todas as armas de dominio dos
arquipélagos adjacentes da Madeira e Açores. Teria esta característica o mesmo espírito de diferença que as
cabeças coroadas nas armas dos municípios algarvios, a estrela nas da região da Serra da Estrela, ou a
bordadura nas armas dos nossos dominios ultramarinos. Seria a maneira de bem individualizar-se as terras
das Ilhas. Mesmo sem legenda seriam reconhecidas”.
“Falta falar das cores que devem iluminar as peças componentes destas armas”.
As formas dos pãis de açúcar, de negro, representando a fartura proveniente do comércio do açúcar. As
canas devem ser de sua cor, isto é, de verde. O chefe, carregado da cruz de Cristo, de prata. Desta forma
apresentaria como projecto das armas do Funchal, o seguinte:
“Em campo de prata, cinco formas de pãis de açúcar de negro, postos em cruz, e flanqueadas por duas canas
de açucar de verde, decotadas. No chefe, de prata, uma cruz de Cristo, e coroa mural de prata, de cinco
tôrres, como cidade. Legenda a negro em filactera branca: CIDADE DO FUNCHAL. Bandeira branca
gironada de verde”.
“Como se viu, a ausência de documentos é quasi absoluta; reduz-se a um único vestígio, que é a salva da
Câmara do Funchal”.
“Qualquer solução apresentada, deve, pois, procurar explicar, tanto quanto possível, a tradição e respeitá-la.
Não se podem esquecer, tampouco as normas heráldicas gerais e as já estabelecidas para a moderna revisão
das armas de domínio”.
“A Câmara Municipal do Funchal, na sua sessão ordinária de 6 de Fevereiro de 1936, dando cumprimento a
determinações superiores, resolveu proceder á reforma das suas armas, bandeira e selo da cidade,
adoptando para esse fim o projecto elaborado pelo Sr. Afonso de Ornelas, que tinha merecido a plena
aprovação da Secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos na sua reunião de 20 de Dezembro de
1935.
Desse parecer, publicado pela imprensa, se transcreve o seguinte: “Armas-De verde, com cinco pãis de
açúcar de ouro realçados em espiral e com base de púrpura postos em cruz, ancantonados por quatro cachos
de uvas de ouro sustidos e folhados do mesmo metal, cada cacho carregado por uma quina de azul
carregada de cinco besantes de prata em aspa. Coroa mural de prata de cinco torres. Listel branco com os
dizeres Cidade do Funchal de Negro.
“Bandeira-Quarteada de quatro peças de amarelo e quatro de púrpura, com os dizeres Cidade do Funchal.
Cordões e borlas de ouro e de púrpura. Lança e haste douradas.
“Sêlo - Circular, tendo ao centro as peças das armas sem indicação dos esmaltes. Em volta, dentro de
círculos concêntricos, os dizeres Câmara Municipal do Funchal”.
O parecer do Sr. Afonso de Ornelas, que pela sua extensão não podemos transcrever neste lugar, contém
valiosos elementos para o estudo deste assunto e foi publicado no Diário de Noticias do Funchal de 7 de
Fevereiro de 1936.
Vid. Bandeira da Cidade.
Armitage (Eleonora)
Botânica inglêsa que herborizou na Madeira nos princípios do ano de 1909.
Fez uma colecção de musgos, que foi estudada por H. N. Dixon, e escreveu os trabalhos seguintes: Some
Madeira Hepaficae (Journ. of Botany, 1910); Intensive Cultivation in Madeira (Journ. of Royal Hortic. Soc.,
1910); e On the Habitats and frequencies of some Madeira Bryophytes (Journ. of Ecology, VI, 1918).
Arnao
O apelido Arnao ou Arnau parece proceder do inglês Guilherme Arnau, que em 1378
acompanhou a Portugal D. Filipa de Lencastre, mulher de D. João I. Não sabemos, porém, quando apareceu
este apelido na Madeira e julgamos que se acha completamente extinto entre nós.
Arquimbau (Ramon Masferrer y)
Medico pela escola de Barcelona, nascido em Vich a 15 de
Maio de 1850 e falecido nas Filipinas a 5 de Abril de 1884. E.: Catalogo razonado de la Flora de Tenerife y
notas sobre la Flora de todo el arquipélago Canario, Madeira e demais islas de aquela región botánica (sem
lugar nem data de impressão).
Arquipélago da Madeira
A importância deste arquipélago fica posta em conciso mas flagrante
relevo nas seguintes palavras saídas da pena autorizada do Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, o erudito
anotador das Saudades da Terra: * Tem este archipelago sido objecto de estudo de sábios naturalistas
estrangeiros e nacionais; é celebre, especialmente a ilha da Madeira, pela uberdade do solo, optimos vinhos,
arrebatadora belleza da paisagem e salubridade do clima; é historicamente notável, por ser o primeiro dos
descobrimentos portuguezes no século XV, e, depois, até o declinar do século XVI, metrópole secular e
eclesiástica dos nossos domínios ultramarinos, empório da nossa navegação e commercio coloniaes, pelo
que nos archivos madeirenses, especialmente no da Câmara Municipal do Funchal, no de Machico, no da
antiga e extinta Junta da Fazenda e no do Governo Civil do Funchal existem preciosos documentos e
noticias, que talvez em outra parte se não encontrem, para a historia das instituições e governação das
nossas possessões de além-mar”.
Fica situado entre a Europa Ocidental, que lhe defronta por nordeste, a costa marroquina da Africa
Ocidental, que lhe decorre de leste para sueste, o arquipelago dos Açôres, por noroeste, e o das Canárias,
pelo sul. O ponto mais próximo a que o arquipelago madeirense se acha da costa ocidental de Marrocos é o
Cabo Cantim, que tem sensivelmente a mesma latitude da Madeira e que fica eqüidistante, cerca de 60
milhas, das cidades de Mazagão, ao norte, e Mogadouro, ao sul. A distancia a que ele se encontra do
continente português é aproximadamente de 500 milhas e 350 do Cabo Cantim, na costa ocidental africana.
A situação relativa das ilhas da Madeira e Porto Santo e o grupo das Desertas apresenta a forma dum
triangulo escaleno, cujo lado mais curto é o canal que se estende entre o ilhéu de Fora, no extremo leste da
Madeira, (Ponta de São Lourenço) e o Prego do Mar ou Ilhéu do Navio, próximo do Ilhéu Chão (Desertas); o
lado imediatamente mais longo é formado pelo canal (Travessa), que vai do citado ilhéu de Fora (Ponta de
São Lourenço) até o Ilhéu de Baixo ou da Cal (Porto Santo); e o lado mais extenso é constituído pelo canal
que se prolonga desde o já referido ilhéu de Baixo ou da Cal (Porto Santo) até o Prego do Mar ou Ilhéu Chão
(Desertas), tendo respectivamente cada canal 11, 27 e 32 milhas, que são as distancias que a Madeira e Porto
Santo e o grupo das Desertas guardam entre si.
Os pontos extremos deste arquipelago são geralmente fixados da seguinte maneira: pelo norte a Rocha do
Nordeste ou Ilhéu de Fora (Porto Santo), pelo sul a Ponta da Agulha ou Ponta do Sul, na extremidade sul do
Bugio (Desertas), por leste o ilhéu de Cima ou dos Dragoeiros (Porto Santo) e por oeste a Ponta do Pargo
(Madeira).
O arquipelago da Madeira é banhado pelo Oceano Atlântico e está situado, segundo o capitão Vidal, entre os
paralelos 326 22' 20" e 33° 7' 50", latitude norte, e entre os meridianos 16° 16' 30" e 17° 16' 38", longitude
ocidental de Greenwich.
Segundo os cálculos mais recentes, a superfície de todo o arquipélago é de 560 quilómetros quadrados não
faltando quem tenha elevado esse numero a mais de mil quilómetros.
A sua população dispersa por cinquenta freguesias, é de 211.000 habitantes, conforme o censo de 1930.
O arquipelago da Madeira e o pequeno grupo das Selvagens constituem o distrito administrativo do
Funchal, que tem por capital a cidade do mesmo nome.
Leiam-se os diversos artigos subordinados aos títulos Madeira, Porto Santo, Desertas, Selvagens e Funchal.
Arquivos.
V. Elementos para a historia madeirense
Arrebentão (Pico e sítio do)
Encontra-se esta eminência na freguesia do Monte e atinge a
altura de 1171 metros. Nas suas imediações fica o sítio do mesmo nome, que é atravessado pela estrada que
conduz ás casas de abrigo do Poiso.
Arriaga (Dr. Manuel de)
O Dr. Manuel de Arriaga tem o seu nome ilustre ligado á história da
Madeira, por ter representado este arquipélago no seio do parlamento, na sessão legislativa de 1882 a 1884.
Tendo falecido o deputado pelo circulo do Funchal, o nosso distinto patrício Dr. Luiz de Freitas Branco,
procedeu-se á eleição para o preenchimento da vacatura a 5 de Novembro de 1882, saindo eleito o
conselheiro Anselmo José Braancamp, que não obteve a maioria absoluta de votos, sendo repetido o acto
eleitoral a 26 de Novembro do mesmo ano. Saiu então eleito o Dr. Manuel de Arriaga.
A 28 de Abril de 1911 foi novamente escolhido pelos madeirenses para seu representante em cortes, mas
tendo sido eleito Presidente da Republica a 24 de Agosto daquele ano, deixou vago o lugar de deputado.
O Dr. Manuel de Arriaga foi um dos deputados pela Madeira que advogaram os interesses dos seus
constituintes, no seio da representação nacional, com maior dedicação desinteresse e ainda com mais
notável brilho proferindo discursos que ficaram célebres nos anais da eloquência parlamentar.
O ilustre causidico, a convite dos seus correligionarios e amigos da Madeira, visitou pela primeira vez esta
ilha a 8 de Setembro de 1883, havendo tido uma das mais entusiásticas e brilhantes recepções que no
Funchal se têm preparado aos seus mais ilustres visitantes. Percorrer as paróquias limítrofes da cidade e as
freguesias dos concelhos de Sant'Ana e Machico, e por toda a parte foi alvo das mais delirantes
demonstrações de apreço e simpatia por parte dos seus amigos pessoais e políticos. Deixou a Madeira no dia
15 de Setembro de 1883, tendo a mais afectuosa e tocante despedida.
Em 1884, visitou novamente a Madeira, acompanhado do ilustre professor Dr. Consiglieri Pedroso, e esteve
pela ultima vez nesta ilha em 1885.
O Dr. Arriaga obteve uma grande votação nas eleições para deputado que se realizaram em 1884, mas não
conseguiu ser eleito devido á forma por que o acto eleitoral decorreu nalgumas assembleias, tendo a força
armada destacada na Ribeira Brava chegado a fazer fogo sôbre o povo no dia 29 de Junho, o que deu lugar a
algumas mortes e ferimentos.
Tendo sido processados vários republicanos por causa dos acontecimentos da Ribeira Brava, foram eles
defendidos pelos Drs. Arriaga e José de Castro, no julgamento que se realizou na comarca da Ponta do Sol,
em Abril de 1885. De vinte e oito réus que se apresentaram a responder, foram absolvidos vinte e dois e
condenados seis, mas estes simplesmente por haverem agredido o feitor do falecido Russel Gordon.
O Dr. Arriaga nasceu na cidade da Horta, na ilha do Faial, em 1841, e faleceu em Lisboa a 5 de Março de
19l7.
Arroz
Não nos consta que, em outra época, se tivesse feito nesta ilha qualquer tentativa para a cultura
do arroz, mas sabemos que no ano de 1918, achando-se na freguesia de São Vicente um cultivador daquele
cereal, natural do continente português, procedeu ali a um ensaio dessa cultura, que foi coroada do melhor
êxito com uma excelente e abundante produção. Por esse motivo foi dirigida á Junta Agrícola da Madeira
uma representação assinada por vários proprietários daquela freguesia, pedindo especial protecção para a
cultura desse cereal, parecendo-nos que não se realizaram novos ensaios para o aproveitamento dessa
indústria.
Arruda (Fr. Pedro de)
Guardião da comunidade franciscana de S. João da Ribeira, que levantou
a primitiva igreja do convento de S. Francisco desta cidade, sagrada em 1554 pelo bispo D. Sancho Truxillo,
de passagem na Madeira .
Arruda (Ruta chalepensis)
Planta lenhosa da família das Rutaceas, frequente na Madeira.
Tem cheiro característico e as suas folhas e flores são muito usadas, especialmente em infusão, no
tratamento dos padecimentos uterinos.
Arte de Furtar
O autor desta obra parece que esteve na Madeira, pois que aponta alguns factos que
se deram aqui no tempo em que era governador geral do arquipelago o bispo D. Jeronimo Fernando, isto é
entre 1624 1634.
A Arte de Furtar, que muitos quiseram atribuir ao padre Antonio Vieira, não é obra dele, mas de escritor de
mérito que soube imitar o estilo e a frase do celebre jesuíta português.
Artemija
Nome vulgar madeirense do Chrysanthemum Parthenium, planta vivaz da família das
Compostas, fácil de reconhecer pelas suas folhas penatisectas, com os segmentos mais ou menos recortados,
e pelos seus capítulos medíocres, com as flores todas tubulosas ou as marginais liguladas. A artemija
(corruptela de artemisia) é também conhecida pelo nome de alfinetes de senhora, e tem cheiro forte e
penetrante, e sabor amargo. As sumidades- floriferas são excitantes, tónicas, emenagogas e diüreticas.
Artilharia Auxiliar
O corpo de artilharia auxiliar da Madeira, instituído em 1805, tinha pelo
regulamento que lhe foi dado por Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque em 12 de Novembro de 1834, um
estado maior e quinze companhias, sendo aquele constituído por um tenente coronel ou major comandante,
um capitão ou subalterno ajudante e um sargento ajudante. Catorze das referidas companhias pertenciam á
Madeira e uma ao Porto Santo, tendo quatro daquelas o seu quartel no Funchal.
O principal serviço da artilharia auxiliar consistia na guarnição, guardas e vigilância das batarias, fortes,
vigias e pontos acessíveis do litoral do arquipélago.
Nos tempos do governo absoluto era uso os mancebos pertencentes ás primeiras famílias do Funchal
alistarem-se como cadetes no corpo de artilharia auxiliar, que tinha então como comandante um oficial da
tropa de linha, sendo os tenentes e alferes todos milicianos.
O corpo de artilharia auxiliar, ou dos papoilas, foi extinto pela Portaria de 3 de Fevereiro de 1868.
Arvelos
Os primeiros de que há noticia terem usado este apelido na Madeira são Diogo de Arvelos, que
pelos anos de 1490 se estabeleceu em Machico, e Pedro Gonçalves de Arvelos, que por 1569 desempenhava
em Santa Cruz o cargo de juiz, sendo ambos pessoas nobres.
Árvore da Seda (Gonphocarpus fruticosus)
Pequeno arbusto leitoso, da família das
Asclepiadaceas, bastante comum nas zonas inferiores da Madeira. Produz foliculos grandes, entumescidos,
espinulosos, com sementes providas de papilho de pêlos longos e acetinados.
Arvoredo
Elevação montanhosa e sítio pitoresco da freguesia do Caniço.
Árvore do Incenso (Pitiosporum undulatum)
Árvore da família das Pitosporaceas
cultivada e natauralizada na Madeira. É frequente no Funchal e nas quintas do Monte.
Árvore do Paraíso (Elaeagnus hortensis)
Árvore da família das Eleagnaceas cultivada
na Madeira e Porto Santo. Tem a folhagem prateada e as flores amarelas e odoriferas, e serve na ilha do
Porto Santo para proteger as vinhas da invasão das areias.
Árvores do Mar
Expressão comum aos Antozoarios de polipeiro arborescente.
Árvores e Arbustos. As árvores e os principais arbustos que crescem espontaneamente na Madeira são os
seguintes: a ameixieira de espinho ou fustete, os dois mocanos, o azevinho, o perado, o sanguinho, as duas
ginjeiras bravas, uma das quais é conhecida também pelo nome de tintureira, os piornos, a tramazeira(?), a
murta, o sabugueiro, o codesso, a uveira, a urze molar, a urze das vassouras, o folhado, o aderno, o
marmulano, a oliveira, o pau branco, o vinhatico, o barbuzano, o til, o loureiro, a figueira do inferno ou
alindres, a faia, o seixo, o dragoeiro, o cedro, o zimbreiro e o teixo.
Estas essências, das quais nos ocuparemos nos lugares competentes, são na sua maior parte bastante raras,
achando-se mesmo algumas delas extintas ou quasi extintas, mercê do pouco cuidado que tem havido em
reproduzi-las e das devastações que de longos anos vêm fazendo nas nossas serras os lenheiros, os
carvoeiros, os negociantes de madeiras e os gados.
Os proprietários dos vapores costeiros foram um inimigo cruel dos nossos arvoredos no período decorrido
de 1916 a 1918. Muitos milhares de árvores foram cortadas pelos agentes desses indivíduos durante o
referido período, para irem alimentar as cadeiras daqueles vapores, visto o carvão de pedra haver atingido
por causa da guerra preços fabulosos, não tendo as autoridades procurado obstar a um tal abuso, nem punir
aqueles que o praticaram .
V. Arvores e Arbustos
Madeirenses por Carlos Azevedo de Menezes. Funchal, 1904, de 17 pag..
Asilos
A primeira tentativa que entre nós se fêz para a criação dum asilo destinado aos orfãos e inválidos
é anterior ao estabelecimento do governo constitucional nesta ilha. Em ano que não podemos determinar,
resolveu a Câmara Municipal do Funchal criar uma casa de caridade em que fossem albergados os orfãos
desvalidos, tendo esta resolução merecido o apoio e o louvor do governo da metrópole. Alguns esforços e
diligências se empregaram, mas esta ideia tão generosa e altruísta não chegou nunca a ser uma realidade.
Asilo da Infância
Ao primeiro governador da Madeira no periodo do constitucionalismo, o ilustre
Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque, se deve o estabelecimento dum asilo, que parece ter sido o segundo
que neste genero se criou no nosso país. A pesar de ser muito curto o periodo do seu governo, pois apenas
durou de Agosto de 1834 a Setembro de 1835, não descurou nenhum ponto essencial da administração
publica, e ainda teve a iniciativa da criação dum asilo para a orfandade desvalida do Funchal, encontrando
em sua esposa D. Ana Mascarenhas de Ataíde a mais activa e eficaz colaboradora da benemérita obra que
empreendera. A ideia, que era nova e vinha satisfazer uma grande necessidade publica, teve a mais geral
aceitação e foi saudada por toda a população funchalense com o mais entusiástico alvoroço, que
infelizmente não durou muito.
Quatro meses depois da chegada de Luiz Mousinho a esta ilha, isto é por meados de Dezembro de 1834,
começou a funcionar o novo estabelecimento de caridade, que ficou provisoriamente instalado nalgumas
das dependências do palácio de São Lourenço, sob as vistas imediatas e sob a solicita e carinhosa direcção
dos seus próprios fundadores. Chegou a albergar 120 crianças e manteve-se em estado de relativa
prosperidade durante o tempo em que os seus iniciadores permaneceram nesta ilha. Foi ainda devido ao
impulso inicial que por portaria de 13 de Janeiro de 1836 se obteve uma casa situada no Campo da Barca e
pertencente á Fazenda Nacional, para a mudança do asilo, que ali funcionou alguns anos e que deixou de
existir em época que não podemos precisar com inteira exactidão. Depois da ausência de Luiz Mousinho de
Albuquerque e de sua dedicada e benemérita esposa, começou a definhar-se lentamente a obra que eles com
tanta dedicação a carinho tinham criado, até que completamente se extinguiu, deixando apenas da sua
existência a memória abençoada dos seus ilustres fundadores.
José Silvestre Ribeiro considerava-se, na fundação do Asilo da Mendicidade do Funchal apenas o
continuador da obra de Mousinho, e ainda hoje, no vestíbulo do edifício do mesmo asilo se encontram duas
telas, já bastante danificadas pelo tempo, representando Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque e sua
esposa D. Ana de Mascarenhas e Ataíde, que devem ser ali religiosamente conservadas e também retocadas
convenientemente.
Projecto de um Asilo nas Angústias. Em 1837, de novo a Câmara Municipal do Funchal tomou a deliberação
de fundar um asilo para recolher os velhos e inválidos que mendigam pelas ruas da cidade. Tendo
comunicado ao governo central esta resolução foi por ele louvada em portaria de 7 de Junho de 1838. Para a
realização desta alevantada e humanitária ideia, tratou a vereação sem demora da construção dum edifício
apropriado, tendo sido escolhido o terreno onde hoje se encontra o Asilo da Mendicidade e Orfãos, que o
primeiro Conde do Carvalhal cedera para esse fim pouco antes da sua morte. Os trabalhos de construção,
realizados segundo o plano e projecto elaborados pelo director das obras publicas, engenheiro Vicente de
Paula Teixeira, começaram no dia 8 de Agosto de 1837, tendo o município dispendido nessa construção
aproximadamente treze contos de reis. O edifício ficou quási concluído, mas não teve a aplicação para que
primitivamente fora destinado. Não chegou a abrir as suas portas aos asilados porque a vereação que
tomara aquela iniciativa ou a que lhe sucedeu nas cadeiras camarárias abandonou a ideia da criação do
asilo, por motivos que inteiramente desconhecemos.
Asilo dos Inválidos
Em 1842 estabeleceu-se nalgumas dependências do rés-do-chão do edifício da
Misericórdia desta cidade, um modesto estabelecimento de caridade, a que então se deu o nome de Asilo
dos Inválidos. Era uma criação adjunta á Santa Casa da Misericórdia e dirigida pelos seus corpos gerentes,
mas tinha o asilo sido fundado pela Câmara Municipal do Funchal, que era a entidade oficial que mantinha
a sustentação dos asilados, em virtude de contrato celebrado entre a mesma câmara e a administração da
Santa Casa. Ignoramos quando deixou de funcionar, mas a sua existência foi de curta duração.
Projecto de um Asilo para Mendigos. O Governador Civil do distrito Dr. Domingos Olavo Correia de
Azevedo, por alvará de 22 de Março de 1844, nomeou uma comissão, presidida pelo Dr. Antonio da Luz Pita
e que teve como secretario Mauricio Castelo Branco, para propor os meios mais adequados á criação de um
asilo destinado ao albergamento dos mendigos. Ignoramos que trabalhos chegou esta comissão porventura
a apresentar, mas sabemos que o projecto do asilo não passou duma feliz e generosa ideia, e nada mais.
Asilo de Mendicidade do Funchal
Ficaram conhecidos pelo nome de ano da fome alguns
meses dos anos de 1846 e 1847, em que esta ilha foi assolada por uma terrível crise comercial e agrícola,
fazendo-se sentir intensivamente a fome em muitas freguesias da Madeira. Ainda na tradição local se
conserva nítida a memória dessa época calamitosa. Um livro de 300 paginas, publicado em 1848, com o
título de Collecção de documentos relativos á crise da fome por que passaram as Ilhas da Madeira e Porto
Santo no anno de 1847, dá-nos noticia circunstanciada da calamidade que então flagelou o arquipelago. (V.
Fome na Madeira em 1847).
Os pobres e mendigos enxameavam pelas ruas mais centrais e frequentadas da cidade, oferecendo um triste
e desolador espectáculo aos olhos de nacionais e estrangeiros. O conselheiro José Silvestre Ribeiro, que
assumira o governo do distrito em Outubro de 1846, viera defrontar-se com esta temerosa crise, que a
pouco e pouco foi tomando as mais angustiosas e ameaçadoras proporções. O que então fez esse benemérito
governador, afirmam-no eloquentemente as paginas do livro que acima deixamos citado.
Um dos meios de que se serviu Silvestre Ribeiro para atenuar a gravidade dessa crise foi o da criação dum
asilo, que felizmente ainda existe e que, sendo uma das nossas mais prestimosas casas de caridade, é
também um padrão de imorredoura glória a testemunhar a benemerencia do seu fundador. A 10 de Março
de 1847, num armazém pertencente á Fazenda Nacional, que olha para a antiga rua do Mosteiro Novo e rua
dos Medinas, fez o ilustre governador recolher um numero considerável de mendigos de ambos os sexos e
de diversas idades, depois da Câmara Municipal ter mandado proceder ali aos indispensáveis reparos para
uma instalação de caracter provisório. Estava fundado um asilo, que desta vez não teve a sorte dos
estabelecimentos similares que entre nós anteriormente se fundaram e que conta já sessenta e dois anos de
uma fecunda e proveitosa existência.
O conselheiro José Silvestre Ribeiro entregou a direcção e administração provisórias do novo asilo á
Comissão da Santa Casa da Misericórdia, que ficou também encarregada de formular um projecto de
estatutos para o funcionamento interno da mesma casa de caridade, tendo o benemérito governador
assegurado previamente os meios de manter a sustentação dos asilados. Em breve se reconheceu que a casa
da rua do Mosteiro Novo não satisfazia ao fim para que fora adaptada, e logo Silvestre Ribeiro, obtendo da
Câmara Municipal a cedência do extinto convento de S. Francisco, transformou em poucos dias, com uma
pasmosa actividade, a antiga habitação conventual numa casa própria para o albergamento de alguns
centenares de indigentes e mendigos.
A 27 de Março, poucos dias depois da fundação do asilo, o governador civil, acompanhado por várias
autoridades e outras entidades oficiais, formando um luzido cortejo, fez pessoalmente transportar cerca de
400 asilados para as novas instalações que tinham sido preparadas no convento de S. Francisco. Na antiga
Praça da Constituição foi servido a todos os pobres um abundante jantar, em que José Silvestre pronunciou
um sentido e eloquente discurso, que comoveu profundamente a numerosa assistência que o escutava. Foi
então nomeada a comissão administrativa do novo asilo, que ficou composta do bispo diocesano D. José
Xavier de Cerveira e Sousa, Fidelio de Freitas Branco, Severiano Alberto Ferraz, Vicente de Brito Correia,
Antonio Machado Cota, D. Jorge da Câmara Leme e Carlos Blandy.
Poucos meses permaneceu o asilo no Convento de S. Francisco. Tudo aconselhava que a sua instalação
definitiva se fizesse na casa que em 1837 a Câmara Municipal mandara expressamente construir para aquele
fim. Realizou-se essa mudança, com grande vantagem material para os asilados e também para o regular
funcionamento de todos os serviços desta casa de caridade, em Dezembro de 1847.
É ocasião de darmos uma ligeira noticia da historia deste edifício. Como atrás dissemos, foi construído em
1837, não lhe tendo sido dado a aplicação para que fora primitivamente erigido. Em sessão camarária de 2
de Julho de 1841, foi deliberado que a casa das Angústias se destinasse a cadeia publica, casa de correcção e
tribunais judiciais, se o governo central assim o aprovasse, não tendo este tomado qualquer resolução sobre
o assunto. Havendo a aluvião de 24 de Outubro de 1842 causado importantes danificações no prédio do
Largo do Pelourinho, onde se encontravam instalados os Paços do Concelho, a biblioteca municipal e a
administração do concelho, resolveu a Câmara transferir estas repartições para a Casa das Angústias, depois
de feitas as obras de adaptação indispensáveis, mudança que se realizou por meados do ano de 1843. São
passados apenas dois anos e a Câmara Municipal toma uma nova deliberação: transferir as suas repartições
para a casa do Largo da Sé, onde então estava a cadeia, a mudar esta para a Casa das Angústias. Para a nova
acomodação a fazer, realizaram-se neste edifício obras muito importantes, em que se dispenderam somas
avultadas.
Em virtude dos acontecimentos políticos produzidos pela revolução de Maria da Fonte, foi a Câmara
Municipal do Funchal dissolvida a 25 de Junho de 1846 e substituída por uma comissão administrativa, que
não acatou as deliberações da Câmara transacta, e em Julho do mesmo ano resolveu que a Casa das
Angústias se aplicasse não a cadeia, mas á instalação dos Paços do Concelho, que pela segunda vez para ali
foram transferidos e ali permaneceram até o mês de Novembro de 1847.
A 3 de Dezembro deste ano, deliberou a Câmara ceder provisoriamente a Casa das Angústias á comissão
administrativa do Asilo da Mendicidade, tendo este sido ali definitivamente instalado a 8 do mesmo mês e
ano.
A cedência de 1848 foi declarada definitiva em sessão da Câmara Municipal de 29 de Maio de 1913, tendo
esta deliberação sido confirmada pela Junta Geral em oficio de 21 de Junho do mesmo ano.
A epidemia colérica, que em 1856 vitimou entre nós cerca de dez mil pessoas, deixou na orfandade e ao
desamparo muitas centenas de crianças, para as quais era indispensável procurar conveniente abrigo e
agasalho. O governador Gromicho Couceiro, que tão assinalados serviços prestou á Madeira naquela
calaminosa época, conseguiu, depois dos necessários reparos, adaptar algumas dependências do extinto
convento de S. Francisco á instalação dum Asilo exclusivamente destinado ao albergamento de crianças,
ficando a sua direcção a cargo da comissão administrativa do Asilo de Mendicidade. Juntaram-se mais tarde
os dois Asilos e daí proveio o nome dado ao estabelecimento das Angústias de Asilo da Mendicidade e
Orfãos do Funchal.
A reunião dos dois asilos realizou-se por meados do ano de 1862, devido principalmente á falta de recursos
para se manterem separadamente os dois estabelecimentos de caridade.
O asilo ficou devendo ao governador civil Jacinto Antonio Perdigão serviços muito assinalados, que o
tornam um dos seus mais
ilustres bemfeitores, depois do conselheiro Silvestre Ribeiro. Este
estabelecimento pio não tinha bens próprios e vivia exclusivamente da caridade publica, o que lhe
acarretava uma administração embaraçosa e cheia de perigos para a sua existência futura. O governador
Perdigão, reunindo varias receitas das confrarias extintas e forçando a Câmara do Funchal ao pagamento
duma divida de que o asilo era credor, criou-lhe um fundo permanente, sendo primeiramente indispensável
dar-lhe capacidade jurídica, com a elaboração e aprovação pelo governo central duns estatutos, que foram a
sua primeira lei orgânica e que têm a data de 24 de Março de l866. Esse primeiro núcleo dos fundos do
asilo, criado em 1864 por Perdigão, foi de cinco contos de reis em títulos da divida publica, a que pouco
depois fez acrescentar a propriedade de um avultado numero de horas de água de irrigação das levadas da
Cruzinha, da Serra e de S. Jorge. Devido aos diligentes esforços do mesmo governador, tinha o asilo em
1866 a importância de 7.250$000 reis em inscrições, que produziam o rendimento anual de 239$250 reis.
Este fundo, em títulos da divida publica, tinha-se elevado em 1870 a 9.450$000 reis.
As receitas do asilo relativas ao ano económico de 1869 a 1870 foram de 3.250$000 reis e no ano imediato
de 4.142$000 reis, não tendo aumentado, mas havendo por vezes diminuído, nos dez anos seguintes.
Entre os grandes bemfeitores do Asilo, não deve também ser esquecida a condessa do Ribeiro Real, que
legou a este estabelecimento de caridade a quinta Esmeraldo, situada á freguesia de S. Martinho, e uma
parte do mobiliário do palácio de S. Pedro, o que perfaz um total de cerca de 300 contos. A condessa do
Ribeiro Real, que era filha do segundo conde de Carvalhal (V. este nome), faleceu nesta cidade a 29 de Julho
de 1921.
Asilo dos Velhinhos
Foi fundado em Agosto de 1900, devido aos esforços dos falecidos prelado
diocesano D. Manuel Agostinho Barreto e padre Antonio José de Macedo. Esteve primeiro num prédio á
Calçada do Socorro, mas não podendo este edifício comportar mais de quarenta velhinhos, passou o asilo
para uma grande casa na Rua das Hortas, onde ainda se conserva.
O Asilo dos Velhinhos abrigou a princípio vinte e cinco pobres, mas em 1910 tinha setenta e cinco asilados,
sendo vinte e cinco do sexo masculino e cinquenta do feminino. Os serviços da casa eram desempenhados
por seis religiosas, duas portuguesas e quatro estrangeiras, as quais eram coadjuvadas por alguns dos
asilados de mais vigor.
Tendo sido ordenada a expulsão das Irmãzinhas dos Pobres em seguida á proclamação da Republica,
resolveu a Junta Geral tomar a seu cargo o custeio do Asilo, estando os seus serviços entregues agora a
empregados pagos pela mesma corporação.
O mobiliário encontrado em 1910 na casa do Asilo foi todo vendido em hasta publica, sendo parte dele
arrematado pela Junta Geral, que lhe deu a aplicação que anteriormente tinha.
Asilo de Artes e Ofícios
Quando em fins do ano de 1910 e princípios de 19ll grassou na Madeira
a epidemia da colera-morbus, surgiu a ideia da fundação dum Asilo de Artes e Ofícios, especialmente
destinado ao albergamento dos menores que a epidemia deixara orfãos e ao desamparo. Foi o Dr. José
Alfredo Mendes de Magalhãis, que então desempenhava entre nós o cargo de Alto Comissário da Republica,
que concebeu essa generosa iniciativa e chegou a lançar as primeiras bases para a sua fundação. Uma
subscrição publica e outros donativos foram os fundos então adquiridos para essa criação, fundos que
atingiram a importância de 16:995$120 reis e que em Junho de 1917, com os juros acumulados, prefizeram
a quantia de 22:000$000 reis. Por esta ocasião, a gravissima crise provocada pelo conflito europeu, levou a
comissão administrativa desses fundos a ceder os rendimentos deles ao Asilo da Mendicidade e Orfãos do
Funchal para atenuar a situação angustiosa por que passava esta tão simpática e útil instituição.
O Asilo de Artes e Ofícios não chegou a fundar-se, e a comissão administrativa dos respectivos fundos, que
era composta do governador civil, general Norberto Teles e major J. Reis Gomes, pensou em cedê-los ao
Asilo da Mendicidade e Orfãos para a construção dum pavilhão destinado a oficinas e o remanescente para
aumentar os fundos do mesmo Asilo, para o que teve o parecer favorável do Dr. Alfredo de Magalhães.
Assembleia dos Unicos do Funchal.
Assistência a Crianças Fracas.
V. Academias.
Esta associação foi fundada em 1908, devido á iniciativa de
algumas senhoras do Funchal, e tem estatutos aprovados por alvará do Governador Civil do Distrito de 24
de Outubro de 1908. Tem por fim o estabelecimento de dispensários para fornecimento de leite e
medicamentos a crianças pobres e doentes, que não tenham mais de doze anos, o internato das mesmas
crianças quando não tenham mães, ou que tendo-as as não possam criar, fazer propaganda da higiene
infantil, etc.
Esta benemérita instituição dispendeu no ano económico de 1916 a 1917 a importância de 1:090$220 reis. A
sua direcção lidava no empenho de criar um Jardim da Infância, destinado a recolher as crianças
abandonadas nas ruas ou encerradas em casa, em quanto as mais se entregam aos seus trabalhos diários
fora das suas habitações.
Assobiadouro. Eminência no Paul da Serra perto da qual têm origem as fontes do Rabaçal.
Associação Académica do Funchal
Esta extinta sociedade académica foi inaugurada no dia
1 de Dezembro de 1884, numa das salas do Palácio de S. Lourenço, discursando por essa ocasião o falecido
Marcelino Ribeiro de Mendonça, então aluno do liceu do Funchal. O jornal O Académico era orgão da
mesma sociedade.
Associação Católica do Funchal
Foi fundada em 1874. Os seus estatutos foram aprovados
pelo chefe superior do distrito por alvará de 10 de Agosto de 1874 e receberam a aprovação da autoridade
eclesiástica diocesana por provisão de 21 de Agosto do mesmo ano. Depois da Associação Comercial e da
Associação de Socorros Mutuos 4 de Setembro de 1862 é actualmente a mais antiga das agremiações
existentes nesta cidade.
Associação Comercial do Funchal
É a Associação Comercial do Funchal uma das mais
importantes e também a mais antiga de todas as colectividades existentes nesta cidade. A historia desta
prestante agremiação constitue também a historia da nossa vida económica no longo período de oitenta e
quatro anos, pois os assuntos que mais de perto interessam ao comercio e indústrias madeirenses têm
encontrado nela o seu mais estrénuo defensor, pondo incondicionalmente a favor deste arquipelago todo o
prestigio, influencia e crédito de que merecidamente goza no nosso meio. Terá havido alguma rara
excepção, que apenas servirá para confirmar a regra comum.
O governador da Madeira Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque nomeou a 7 de Julho de 1835 a comissão
que devia proceder á organização e definitiva instalação da Associação Comercial, e que era composta de
João Shortridge, João Coelho de Meireles, Roque Caetano de Araújo, José Phelps e o Dr. Alexandre de
Oliveira. Esta comissão reuniu-se a 10 de Julho, nomeando seu presidente João Shortridge, e procedeu sem
demora aos trabalhos de que fora encarregada, encontrando em todo o comercio o mais decidido apoio para
a realização duma ideia, que vinha já do tempo do absolutismo.
A instalação definitiva desta agremiação só se realizou a 20 de Janeiro de 1836 numa casa á rua da
Alfândega, que tinha então o n.° 18 de policia, e nesse mesmo dia se procedeu á eleição da sua direcção, que
ficou composta de João Shortridge, presidente, Roque Caetano de Araújo, vice-presidente, e dos vogais José
Maria Bernes, João Antonio de Gouveia Rego, Joaquim Monteiro de Afonseca, Guilherme Grant, João
Coelho de Meireles e João Crisostomo Ferreira Usel. Teve como seu primeiro secretario Alexandre Luiz da
Cunha, professor de línguas e conhecido jornalista no seu tempo.
Foi no próprio dia da sua definitiva instalação e eleição da mesa gerente, que se discutiram e aprovaram os
estatutos, que obtiveram aprovação do governo central por carta régia de 12 de Março de 1836. Sofreram
estes estatutos algumas modificações, e na assembleia geral de 15 de Dezembro de 1887 foram
profundamente alterados, recebendo a respectiva aprovação por alvará régio de 11 de Maio de 1o88. Estes
estatutos constituem presentemente a lei orgânica desta prestimosa associação.
Damos a seguir a lista dos cavalheiros que desde a sua fundação têm presidido aos destinos da Associação
Comercial do Funchal. - São eles: João Shortridge ( 1835-1839) João A. de Gouveia Rego (1839-1841),
Roque Caetano de Araújo (1841-1842), João Coelho de Meireles (1842-1843), Guilherme Grant (1843-lß45),
Dr. Alexandre de Oliveira (1845-1847), Edmond Ellicot (1847-1850), Roque Caetano de Araújo (1850-1852),
Guilherme Grant (1852-l853), João Antonio de Gouveia Rego (1853-1856), Antonio J. Marques Bastos
(1856-1857), Carlos Blandy (1857-1875), Silvano de Freitas Branco (1875-1883), Dr. George Sattler (1883-
1886). Dr. Manuel José Vieira (1886-1888), João B. Blandy (1888-1889), Carlos Bianchi (1889-l892),
Dr.Manuel José Vieira (1892-1893), Francisco José Nogueira Guimarãis (1893-1895), Manuel Antonio da
Silva Passos (1895 - 1897),Henrique A. Vieira de Castro (1897-1900), Jacob Abudarham (1900-1904), Luiz
Gomes da Conceição 1904-19ll), Luiz Fialho de Alvelos (19l1-1916), Francisco Meira, (1916-1919), TenEnte
Coronel Antonio Bettencourt da Camara (1919-1920), Dr. Rui Bettencourt da Câmara (1920-1922),
Henrique Augusto Vieira de Castro (1922-1926), José Quirino de Castro (1926-1934), Dr. Juvenal
Henriques de Araújo, actual Presidente.
Em 1936, a Associação Comercial do Funchal solenizou o 1.° centenário da sua fundação, com diversas e
brilhantes comemorações que se realizaram de 26 a 30 de Maio daquele ano. Entre os números
comemorativos, figuraram uma sessão solene na Associação Comercial, uma festa de confraternização em
beneficio da Escola de Artes e Ofícios, conferencias sobre as principais indústrias regionais, e exposições de
flores, bordados, vinhos, embutidos, manteiga, artigos de cimento, etc.. Fez-se também uma emissão de
quatro selos comemorativos.
Veio expressamente por essa ocasião, a esta ilha o presidente da Associação Industrial Portuguesa, José
Maria Alvares, que trouxe também a representação da Associação Comercial de Lisboa e da Associação
Comercial do Porto, com a entrega de especiais mensagens saudação. Veio igualmente á Madeira, por essa
ocasião, o Sr. Luiz Teixeira, redactor do “Diário de Noticias”, de Lisboa.
A imprensa, tanto do Funchal como de Lisboa, aludiu á passagem deste aniversário e á forma como ele foi
comemorado, com as mais elogiosas referências.
Associação das Damas de Caridade
Foi fundada em Janeiro de 1876, tendo sido os seus
iniciadores o capelão da igreja de S. Luiz de Lisboa, e a Superiora do Hospício da Princesa D. Maria Amelia,
do Funchal. Os fins principais desta associação são proteger e socorrer no domicilio as pessoas pobres e
doentes, e nomeadamente as mães que por falta de meios não possam amamentar seus filhos.
Associação de Protecção e Instrução do Sexo Feminino Funchalense
Com
o título de Instituição de Ouro, publicou em 1878 o ilustre escritor D. Antonio da Costa um opúsculo, que
depois incluiu na sua notável obra Auroras de Instruçâo em Portugal, em que faz a largos traços e com bem
merecido elogio a descrição da fundação e intuitos humanitários da Associação de Protecção e Instrução do
Sexo Feminino Funchalense, que se estabeleceu no Funchal a 10 de Março de 1875.
Era uma associação de socorros mútuos, devida á iniciativa do Dr. João da Câmara Leme Homem de
Vasconcelos, depois Conde do Canavial, que infelizmente não teve larga duração e que constituiu a primeira
tentativa do estabelecimento duma agremiação destinada a socorrer a mulher madeirense na sua doença ou
na sua velhice.
Um ano depois, esta associação abria uma escola-modêlo com aulas e oficinas, a que se refere com
verdadeira admiração e entusiasmo o citado escritor D. Antonio da Costa, um dos homens que mais
pugnaram e mais trabalharam pelo desenvolvimento da instrução em Portugal. No fim de um ano, contava
já oitocentas associadas, tinha arrecadado 2:500$000 de receita, distribuíra subsídios e medicamentos e
mantinha uma escola verdadeiramente modelar, em que além do ensino primário se ministrava também o
ensino industrial e profissional elementar.
Era muito para tão curta existência e foi em parte devido a essa circunstancia que a, por tantos títulos
benemérita associação, não teve uma longa duração.
Os estatutos foram redigidos pelo Dr. Câmara Leme e aprovados pela autoridade superior do distrito, por
alvará de 14 de Abril de 1875. O governo central, por portaria de 30 de Agosto de 1876, louvou o Dr. Câmara
pela sua feliz iniciativa, e raras vezes um documento oficial tem prestado um tão publico e merecido
testemunho á verdade e á justiça como nesta ocasião.
Associação de Socorros Mútuos 4 de Setembro de 1862
A absoluta falta de
espírito associativo e de uma iniciativa eficaz para a organização, no nosso meio social, de quaisquer
agremiações, e muito particularmente para a fundação de associações de beneficência ou de socorros
mútuos, constitua, em época ainda recente, uma verdade que tinha já passado em julgado e que ninguém
certamente poderia com fundamento sério contestar. Era um tema obrigado da antiga imprensa local, que,
de quando em quando, baldadamente se esforçava por abalar a opinião publica, combatendo a ignorância, a
rotina e a condenavel desconfiança que avassalavam o espírito dos nossos patrícios para todas as ideias
novas, embora as mais filantropicas e altruístas. Felizmente que o espírito publico se deixou influenciar por
essas ideias, sobretudo as que dizem respeito aos princípios do mutualismo, que já entre nós lançou
profundas raízes e tem até produzido os mais salutares e apreciados resultados. Queremos acreditar que o
resto do país não tenha neste ponto avançado muito mais do que nós, mas é certo que o nosso atraso era
manifesto se o tivessemos de pôr em confronto com o que se passava no estrangeiro.
As tentativas vêm de longe, mas durante longos anos resultaram sempre infrutíferas ou o que vale o mesmo,
de resultados pouco apreciáveis ou quasi nulos. É certo que várias agremiações de caracter cientifico,
literário ou artístico se organizaram entre nós, em épocas relativamente afastadas, tendo algumas delas
deixado de si honrosas tradições. Já no artigo Academias nos referimos á Assembleia dos Únicos do
Funchal e á Arcadia Funchalense, que funcionaram no terceiro e ultimo quartel do século XVIII, e teremos
ainda que fazer referência especial á Sociedade patriótica existente em 1834, á Sociedade Funchalense dos
Amigos das Sciencias e Artes fundada em 1821 e ainda a outras. Mas nenhuma destas sociedades se dirigia a
um fim meramente humanitário ou ao exercício da beneficência entre os seus membros e a que
recentemente e com mais propriedade se chama de socorros mútuos.
Cremos que por 1840, ou pouco depois, algumas diligências se empregaram para a fundação duma
associação destinada a socorrer os seus membros na sua doença e na sua invalidez, mas parece-nos que não
conseguiu ter uma regular organização e menos ainda chegou a funcionar.
A paginas 500 do tomo segundo da Epocha Administrativa vemos que em 1850 o ilustre governador civil
deste distrito, José Silvestre Ribeiro, lançou talvez pela primeira vez entre nos a ideia do verdadeiro
mutualismo, inspirando e mostrando a necessidade da criação duma agremiação especialmente destinada
aos artífices e operários funchalenses, e indicando desde logo as bases gerais em que a mesma associação
deveria ser fundada. Algumas tentativas se fizeram para transformar esta ideia numa realidade, chegando a
ter lugar uma grande reunião para esse fim, mas por motivos que desconhecemos saíram inteiramente
infrutuosas as diligências então empregadas.
A epidemia colérica que no terceiro e ultimo trimestre de 1856 vitimou nesta ilha, segundo os dados oficiais,
cerca de seis mil pessoas, mas que informações doutra procedência fizeram elevar a dez mil, despertou a
ideia, passado o pânico daquela grande calamidade publica, da fundação duma sociedade que visava não
somente a exercer o mutualismo entre os seus associados, mas ainda a socorrer as consortes viúvas e os
filhos orfãos dos sócios falecidos. Segundo vemos no numero 13 do jornal A Madeira, que nesta cidade se
publicou de Abril de 1857 a Janeiro de 1858, instalou-se essa agremiação a 17 de Dezembro de 1856 com o
nome de Sociedade de beneficência do Funchal. Ignoramos em que bases se moldou a sua lei orgânica,
sabendo nós apenas que não teve larga duração. Uma nova tentativa, mas ainda desta vez sem resultados
apreciáveis, se fez para a fundação duma agremiação de socorros mútuos, que chegou a instalar-se no dia 29
de Dezembro de 1858 com o nome de Associação dos Artistas Madeirenses e com a assistência de cerca de
quatrocentos operários e de muitas pessoas categorizadas da sociedade funchalense, tendo por essa ocasião
o distinto professor e ilustre madeirense Marceliano Ribeiro de Mendonça proferido um notabilissimo
discurso.
Vão finalmente produzir frutos abençoados as ideias dispersamente lançadas durante largos anos neste
ingrato e sáfaro terreno do arquipelago madeirense. Os princípios do mutualismo germinam, desenvolvem-
se e frutificam ao impulso criador de alguns homens cheios de fé e entusiasmo, que não se poupando a
sacrifícios e arrostando com dificuldades quasi insuperaveis, conseguiram a fundação duma sociedade que,
sendo um verdadeiro motivo de orgulho para a nossa terra, é também uma das mais florescentes e
importantes associações de socorros existentes no nosso país. Foi no ano de 1862 que, a 4 do mes de
Setembro, numa casa á rua da Bela Vista, moradia do comerciante e proprietário Henrique José Maria
Camacho, se lançaram as bases duma agremiação, que primitivamente teve a denominação de Associação
de beneficência do Funchal e a que depois foi dado o nome, que ainda conserva de Associação de Socorros
Mutuos 4 de Setembro de 1862. Foi Henrique Camacho quem concebeu a ideia desta fundação e quem lhe
imprimiu o movimento inicial da sua instalação, dedicada e eficazmente auxiliado por outros indivíduos,
entre os quais é de inteira justiça salientar os nomes de Fernando José Rodrigues, empregado na nossa
alfândega, e de Pedro Julio de Gouveia, um inteligente e activo operário, que prestou á nascente sociedade
os mais assinalados e relevantes serviços. Foram vinte e sete os seus sócios fundadores, que eram artífices
na sua quasi totalidade, conservando-se ainda hoje os seus retratos na sala das sessões, ali colocados em
1872 como preito de inteira justiça prestado aos iniciadores de tão prestimosa e benemérita associação.
Tem sido de sorte varia a direcção e administração dos negócios desta agremiação, especialmente em
épocas não muito recentes, mas o estabelecimento da Caixa Económica e o zelo dos corpos gerentes dos
últimos tempos puderam vencer e neutralizar os erros e deficiências anteriormente havidos.
Em 1872, dez anos depois da sua fundação, tinha esta sociedade mil setecentos e trinta sócios e cerca de 15
contos de reis de fundos Dez anos mais tarde, em 1882, o numero de sócios elevara-se a dois mil
quatrocentos e sessenta e um e os seus fundos atingiram a importância de 31 contos de reis. Este fundo
estava em 1890 reduzido a 21 contos de reis, porque a administração pouco cuidada e menos zelosa dos seis
anos anteriores tinha deixado que as despesas excedessem as receitas e assim se criasse á associação uma
situação embaraçosa e cheia de perigos, que pôde felizmente ser conjurada com as enérgicas medidas que
então se adoptaram.
São passados 40 anos após a fundação e esta sociedade conta, em 1902, mil quatrocentos e setenta sócios e
aproximadamente 104 contos de reis de fundos, que, dez anos mais tarde, isto é, em 1912, atingiram a
quantiosa soma de 182 contos de reis. Pelo ultimo relatório publicado respeitante á gerencia do ano de 1918,
computam-se em 248 contos de reis os fundos desta florescente agremiação.
Além do zelo e dedicação que muitos dos corpos gerentes têm desenvolvido a favor da associação, é
incontestável que as suas prosperidades e a situação desafogada em que se encontra se devem
principalmente á Caixa Económica, que adjunta a ela funciona desde o ano de 1878. E este o factor mais
poderoso do seu progresso nos últimos anos. É hoje uma acreditada instituição de credito, que goza do
maior prestigio e da maior confiança no nosso meio social. A iniciativa desta fundação deve-se ao distinto
madeirense o conselheiro Manuel José Vieira, que, neste como em outros assuntos da maior gravidade e
importância para a associação, lhe prestou os mais relevantes e desinteressados serviços, sendo dela um dos
mais beneméritos e prestimosos membros. A colocação do seu retrato na sala nobre da associação
representa talvez o mais perfeito acto de justiça que ali se tem tributado aos sócios que melhores e mais
assinalados serviços hajam prestado àquela agremiação. A Caixa Económica rendeu no ano de 1918 a
importância aproximada de 20 contos de reis, que é muito avultada para o nosso meio, onde existem vários
estabelecimentos de credito da maior respeitabilidade e em que o publico deposita a mais inteira confiança.
Bom é notar aqui que a criação desta Caixa Económica representa a primeira tentativa que neste género se
fez entre nós e que foi coroada do melhor exito, embora nos primeiros anos da sua existência fosse pequeno
o seu movimento e muitos se mostrassem pouco inclinados a realizar transacções nesta casa de credito. Era
uma instituição nova e dai o retraimento e as duvidas que uma parte do publico manifestava
infundadamente acerca da confiança que ela lhe inspirava.
O edifício em que se acham instalados os escritórios, consultórios médicos e outras dependências desta
prestante agremiação fica situado na rua de João Tavira e é propriedade da mesma associação. Foi
adquirido no mês de Dezembro de 1889 pela importância de 6:562$377 réis.
Na sala das sessões da assembleia geral encontram-se como acima dissemos, os retratos dos fundadores e
também os retratos dos sócios Manuel José Vieira, João da Silva, Guilherme Pedro de Melim e José
Augusto da Silva por relevantes serviços que prestaram á associação.
Conservou durante trinta e três anos o nome de Associação de Beneficencia do Funchal, passando em l895 a
ter a denominação de Associação 4 de Setembro de 1862 que é a data da sua fundação, em virtude das
disposições dos estatutos de 21 de Dezembro de 1894.
Os primeiros estatutos desta associação foram aprovados por alvará régio de 5 de Janeiro de 1863. Têm sido
sucessivamente reformados em conformidade com os progressos dos princípios mutualistas e com as
necessidades ocasionais da mesma agremiação. As datas dos diplomas que aprovaram as diversas reformas
de estatutos são respectivamente de 1 de Fevereiro de 1879, 2 de Maio de 1888, 21 de Dezembro de 1894 e 9
de Outubro de 1907.
Associação Filantropica dos Estudantes do Funchal
Tem estatutos aprovados pelo
chefe superior do distrito, por alvará de 13 de Maio de 1892.
Associação Madeirense promotora do Bem Publico e do Auxilio Mútuo
Foi fundada em 1877, devido á iniciativa do Dr.João da Câmara Leme, depois Conde do Canavial e teve
curta duração.
No projecto dos seus estatutos dava-se aos associados o direito ao empréstimo de dinheiro pelo cofre da
associação, ao juro de cinco por cento.
Associação Protectora de Estudantes Pobres
Constituiu-se em 1894, e tem estatutos
aprovados pelo Governador Civil em 26 de Abril de 1897. Tem por fim, fornecer subsidios, livros e
matrículas a estudantes pobres que frequentem o liceu ou as escolas especiais ou superiores.
Associação Protectora dos Estudantes Pobres
Numero único dum jornal publicado
em Julho de 1907, comemorando o aniversário da fundação desta benemérita associação.
Associação Protectora dos Pobres
Foi fundada em 1889, por iniciativa do então
Governador Civil D. João de Alarcão Velasques Osorio, e tem por fim principal distribuir alimentos aos
pobres e doentes. Os estatutos desta associação foram aprovados pelo mesmo governador, por alvará de 2
de Maio de 1880.
Associação Vinícola da Madeira (Real)
Esta associação, fundada em 1900, durou pouco
tempo, tendo-lhe concedido a Câmara Municipal o subsidio anual de 100$000 reis, em sessão de 11 de
Outubro desse ano.
Em 12 de Julho de 1909 houve uma reunião para se tratar da organização de uma companhia ou associação
vinícola na Madeira, mas a pesar da boa vontade manifestada por alguns proprietários a companhia não
chegou a ser estabelecida, continuando portanto a ilha a sofrer os funestos efeitos da fatal decadência do
prêço dos seus vinhos.
Já em 6 de Maio de 1774 se pensava na criação duma companhia vinícola na Madeira, pois que nessa data
foi lido em sessão da Câmara Municipal um oficio em que se aludia ás vantagens que resultariam para a
nossa ilha, da constituição duma empresa ou sociedade que pugnasse pelos interesses da vinicultura
madeirense.
Associações de Classe
Temos conhecimento das seguintes, todas com sede no Funchal:
Associação Comercial. Foi fundada em 1835 pelo comerciante João Shortridge, teve os seus primeiros
estatutos aprovados em 12 de Março de 1836, e rege-se presentemente por novos estatutos, aprovados em 11
de maio de 1888.
(V. Associação Comercial).
Ateneu Comercial do Funchal. Teve os seus estatutos aprovados por alvará de 22 de Dezembro de 1899 e
instalou-se a 8 de Dezembro de 1898.
Gremio dos Empregados do Comercio Funchalense. Fundou-se em 6 de Janeiro de 1908, e tem estatutos
aprovados por alvará de 17 de Fevereiro de 1912.
Associação de Vendedores de Viveres a Retalho. Constituiu-se em 28 de Janeiro de 1912, e teve os seus
estatutos aprovados em 13 de Janeiro do mesmo ano.
Associação dos Industriais Madeirenses. Foi fundada em 1909, e tem estatutos aprovados por alvará de 29
de Novembro do mesmo ano.
Associação de Classe dos Industriais Madeirenses. Fundada em 20 de Setembro de 1897. Tem estatutos
aprovados por alvará régio de 29 de Novembro de 1900.
Associação dos Trabalhadores Marítimos do Funchal. Tem estatutos aprovados por alvará de 24 de Agosto
de 1912.
Associação dos Fabricantes de Calçado do Funchal. Os seus estatutos foram aprovados por alvará de 4 de
Abril de 1905.
Associação dos Manipuladores de Pão do Funchal. Fundou-se em 1 de Julho de 1912, e tem estatutos
aprovados por alvará de 24 de Agosto do mesmo ano.
Associaçao dos carpinteiros e artes correlativas. Foi fundada em 4 de Junho de 1899, e rege-se por estatutos
aprovados por alvará de 26 de Outubro de 1900.
Associação dos “Chauffeurs” da Madeira. Tem estatutos aprovados por alvará de 20 de Setembro de 1913, e
ficou instalada em 26 de Outubro do mesmo ano.
Associação dos Pedreiros do Funchal. Abriu matrícula para os seus associados a 2 de Dezembro de 1912.
Associação dos serralheiros e Artes Correlativas do Funchal. Foi fundada em 5 de Abril de 1913.
Associção dos Tanoeiros do Funchal. Constituiu-se em 19 de Julho de 1913, e teve os seus estatutos
aprovados em 17 de Fevereiro de 1917.
Associação dos trabalhadores Braçais. Os seus estatutos foram aprovados em 24 de Fevereiro de 1917.
Associação dos Empregados do Comercio Madeirense. Tem estatutos aprovados por alvará de 10 de
Outubro de 1916.
Associação dos Trabalhadores Agrícolas. Rege-se por estatutos aprovados por alvará de 25 de Maio de 1918.
Associação dos Proprietários da Madeira. Votou os seus estatutos em 9 de Março de 1918.
Associação dos Industriais de Destilação da Madeira. Foi fundada em 1918.
Liga das Artes Graficas do Funchal. Foi fundada em 24 de Outubro de 1915.
Outras associações se criaram posteriormente a esta época, mas de que não conseguimos obter noticia.
Associações de Socorros Mútuos
Conhecemos no Funchal as seguintes, além da Associação
de Socorros Mútuos “4 de Setembro de 1862”, de que já falámos no logar competente:
1.° Associação de Socorros Mutuos dos Sapateiros Funchalenses. Foi fundada em 5 de Maio de 1895, tendo
os seus estatutos sido aprovados por alvará de 16 de Julho de 1896.
2.° Associação de Socorros Mútuos “Monte-Pio Maritimo Funchalense”. Foi fundada em 1900, sendo os
seus estatutos aprovados por alvará de 24 de Dezembro de 1901.
3.° Associação de Socorros Mútuos do Sexo Feminino do Funchal “15 de Setembro de 1901”. Foi fundada em
15 de Setembro de 1901 e o alvará que aprovou os seus estatutos tem a data de 15 de Janeiro de 1903. Estes
estatutos foram reformados e aprovados por alvará régio de 26 de Dezembro de 1905.
4.° Associação de Socorros Mutuos “Monte-Pio Madeirense”. Foi fundada em 28 de Março de 1904 por
vinte e oito membros de diversas classes sociais, e os seus estatutos foram aprovados por alvará de 23 de
Janeiro de 1905. Foram reformados os estatutos e obtiveram aprovação por alvará de 31 de Maio de 1913.
Tem anexa uma caixa económica, cuja criação foi aprovada por alvará de 7 de Setembro de 1907.
5.° Associção de Socorros Mutuos “Reforma dos Operários Madeirenses”. Foi organizada em 31 de Julho de
1904 e legalizada por alvará de 16 de Março de 1905. Admite indivíduos de ambos os sexos.
6.° Associação de Socorros Mutuos “Pedro Alvares Cabral”. Foi instituída em 1916 e legalizada por alvará de
13 de Janeiro de 19l7. Admite individuos de ambos os sexos.
V. Associação Philantropica dos Estudantes do Funchal Associação Madeirense promotora do Bem Publico
e Associação de Protecção e Instrução do Sexo Feminino.
Assomadouro
, Sítio da freguesia dos Prazeres, de onde se descortina uma bela paisagem da costa
marítima, que se alarga desde o Jardim do Mar até á freguesia da Fajã da Ovelha.
Assunção (Dr. Manuel da)
Este conhecido político e estadista foi eleito deputado pela Madeira
para a sessão parlamentar de 1892 a 1893. Tendo falecido a 23 de Março de 1893, no exercício deste cargo,
foi chamado a preencher esta vacatura o candidato mais votado, o Dr. Antonio Vicente Varela.
Manuel da Assunção nasceu em Vila Real a 10 de Maio de 1844.
Assunção (Fr. Remigio da)
Era natural da freguesia de Santa Cruz e cremos que pertencia á
nobre familia Freitas, que nesta ilha teve por tronco a Gonçalo de Freitas. Pouco sabemos da sua biografia,
mas pelos cargos importantes que desempenhou, devemos supor que seria um homem de incontestaveis
merecimentos. Foi religioso da ordem beneditina e exerceu o elevado cargo de geral do mosteiro de
Alcobaça, que então só era desempenhado por pessoa qualificada em letras e virtudes, estando inerentes a
este logar especiais privilégios e regalias, e ainda a jurisdição sobre todas as casas religiosas daquela ordem
em Portugal. Foi deputado da inquisição em Coimbra e compôs algumas obras em latim e português, que
vem mencionadas na Bibliotheca Lusitana. Morreu em 1654.
Astrónomos franceses
Em fins de 1753 ou princípios de 1754 esteve no Funchal uma comissão
de astrónomos franceses encarregada de proceder a observações para a regularização das cartas
hidrograficas. O governador obsequiou os astrónomos, mas o povo recebeu-os agressivamente, sendo
preciso empregar a força para o fazer entrar na ordem.
Atafona
Moinho caseiro usado até há poucos anos na ilha do Porto Santo. A instalação fazia-se na
cozinha da casa, e um burrico lhe fornecia a força propulsora.
Ataíde
Foi apelido antigo na Madeira, mas que hoje nos parece extinto ou quasi extinto. Procedia de
Mem Moniz, que era filho de Egas Moniz. O primitivo solar desta família era na freguesia de Ataíde, na
diocese do Porto.
Ataíde (Berta de).
V. Almeida (D. Maria Helena Jervis de Atouguia e)
Ataide (Dr. Joaquim de Menezes e)
Este prelado nasceu na cidade do Porto a 20 de
Setembro de 1765 e professou na ordem de Santo Agostinho em 1781, revelando-se nos seus estudos um
privilegiado talento, com notável aptidão para as letras. Foi nomeado sucessivamente cronista do Infantado,
reitor do colégio de Santo Agostinho de Lisboa, arcebispo titular de Meliapor e vigário capitular e
governador da diocese do Funchal.
A sua nomeação para vigário capitular e governador do bispado do Funchal em Julho de 1811, deu logar a
um conflito entre o cabido da nossa Sé e o Governo Central, e a maneira como dirigiu os negócios desta
diocese foi diversamente apreciada, para o que não pouco concorreu o facto de se ter envolvido activamente
em questões políticas, sustentando luta porfiosa com o então governador e capitão general da Madeira,
Sebastião Xavier Botelho.
Prestou assinalados serviços á Santa Casa da Misericórdia do Funchal, devendo-se-lhe a construção do
aqueduto da Fundoa, em S. Roque, até o Funchal, e a redacção do regulamento do hospital, que no seu
tempo passava por ser o mais completo e perfeito que existia no país. Foi por este e outros assinalados
serviços que na sala das sessões da Santa Casa foi colocado, e ainda hoje lá se encontra, um retrato seu a
óleo, de tamanho natural.
Em 182l teve de abandonar precepitadamente esta diocese, onde não mais voltou, sendo nomeado nesse
mesmo ano bispo de Elvas. Em 1826 foi nomeado Par do Reino.
Receoso das perseguições do governo de D. Miguel, saiu de Portugal em viagem para o estrangeiro em 1828,
vindo a morrer da peste em Gibraltar, a 5 de Novembro desse mesmo ano. Foi um distinto cultor da musica,
sendo as suas composições ainda hoje muito apreciadas, e também um distinto escritor, como pode ver-se
no Diccionario Bibliographico de Inocencio Francisco da Silva.
São-lhe atribuídas quasi todas as composições poéticas e dramáticas que foram publicadas por Luiz José
Baiardo, que durante alguns anos lhe serviu de secretario.
O Jornal, desta cidade, publicou uma interessante biografia do bispo D. Fr. Joaquim de Menezes e Ataíde.
Atalaia
Publicaram-se 88 números, de 5 de Maio de 1892 a 15 de Abril de 1893.
Atalaia da Liberdade (A)
Deu o primeiro numero a 24 de Abril de 1823 e o sexto a 29 de Maio
do mesmo ano. Era semanal e teve como principal redactor o morgado Diogo Dias de Ornelas e
Vasconcelos. Foi o terceiro periódico que se publicou nesta cidade.
Atalaia (Pico da)
Eminência de maior altitude na Selvagem Grande, a cento e cinquenta metros
sobre o mar e talhada a pique sôbre a costa ocidental da ilha. Constitue um cone vulcanico seccionado pelo
oeste; e, segundo observações recentes, na sua constituição geológica entram diversas rochas, entre as quais
avultam na base, por um lado fonolites decompostas onde vão assentar basaltos compactos, e por outro
fonolites perfeitas, servindo de suporte a estratos horizontais de tufos vulcanicos. Sobre este conjunto
depositaram-se massas de limburgite mais ou menos escoriacea, de tom avermelhado, as quais formam o
remate superior do Pico. O aspecto deste cone, em grande parte já derruído, parece levar á conclusão de ter
sido, em eras remotissimas, uma das crateras por onde se ejacularam os materiais que hoje formam a
Selvagem grande.
Atanasio (Baixa do)
Restinga ou baixio situado nas proximidades da enseada de Câmara de
Lobos.
Athenista (O)
Publicou-se quinzenalmente, de 29 de Maio de 1913 a 30 de Agosto de 1914, saindo
trinta numeros.
Athias (Dr. Marck)
Nasceu a 11 de Dezembro de 1876 e é doutor em medicina pela Faculdade de
Paris e medico cirurgião pela Escola-Medica de Lisboa, tendo feito os seus estudos secundários no liceu do
Funchal, onde se revelou sempre um estudante muito distinto. Desempenha as funções de primeiro
assistente no Instituto Bacteriologico Câmara Pestana, de professor e bibliotecário na Faculdade de
Medicina de Lisboa e de secretario na Sociedade Portuguesa de Sciencias Naturais. Escreveu um trabalho
intitulado Anatomia da celula nervosa (Lisboa, 1905) e tem colaborado no boletim da Sociedade Portuguesa
de Sciencias Naturais, Polytechnia etc., etc..
Athleta (O)
Saiu o primeiro numero a 14 de Dezembro de 1877.
Atkins (John)
Cirurgião de marinha que visitou a Madeira em 1720. E.: A Voyage to Guinea, Brasil
and the West Indies, Madeira, Cape Verde... (Londres 1837).
Atlantico (O)
Deu o numero um a 9 de Setembro de 1918 e o numero doze e ultimo, a 25 de Novembro
do mesmo ano.
Atlantida (Ilha)
Segundo Platão, o celebre filosofo grego da antiguidade, a Atlantida ficava situada
aquém das Colunas de Hercules, era maior que a Africa e a Asia reunidas e desapareceu no espaço de um
dia e de uma noite, em virtude de uma formidável convulsão do globo.
Por largo tempo se considerou como simplesmente fabulosa a narração de Platão, mas hoje que a ciência
procura estabelecer o seu dominio até sobre os pontos mais recônditos do globo, pode dizer-se que se a
existência da Atlantida não adquiriu ainda foros de verdadeira, também não pode ser considerada
impossível.
Refere o Sr. Termier no numero 256 do Boletim do Instituto Oceanografico de Mónaco, que tendo
rebentado no verão de 1898 o cabo telegrafico que vai de Brest ao cabo Cod, notaram os indivíduos
encarregados de o levantar do fundo do mar, que ele se prendia com frequência em rochas de pontas agudas
arestas vivas, de que as fateixas traziam alguns fragmentos. Recolhidos e estudados estes fragmentos,
reconheceu-se que pertenciam a uma lava vitrea denominada traquilite, com a composição química dos
basaltos, a qual no estado em que se apresentava, só podia ter consolidado sob a pressão atmosferica.
Como as rochas a que nos referimos fôssem encontradas a três mil metros de profundidade e a novecentos
quilómetros ao norte do arquipelago dos Açores, concluiu o Sr. Termier dos factos que ficam apontados, que
naquela região do globo deveria ter existido um continente que depois se submergiu, continente do qual
bem poderia fazer parte o referido arquipelago, o qual está situado, como se sabe, na zona vulcanica
atlântica. Entre a emissão das lavas e a submersão do mesmo continente deveria ter mediado um curto
espaço de tempo, pois que do contrario teria a erosão atmosférica nivelado e aplanado a superficie das
rochas.
Para o professor Eduardo Forbes, todas as ilhas do Atlântico deveriam ter estado unidas numa época
recente á Europa ou á Africa, e para Unger e o Dr. Heer, a hipótese da existencia da Atlantida nada oferecia
de extraordinaria, pois que só ela poderia explicar satisfatoriamente as afinidades notadas pelos
naturalistas entre as produções das mesmas ilhas e as dos continentes próximos.
Demonstrada, porém, como está pelos notáveis trabalhos de Darwin, que não só muitas sementes de
plantas, mas também certas espécies animais podem ser transportadas pelos ventos, pelas aves e até pelas
correntes marítimas a grandes distancias, desnecessário nos parece recorrer ás referidas hipóteses para
explicar a presença nos arquipelagos do Atlântico, de uma fauna e uma flora variadas.
A Atlantida de Platão parece-nos diferir um tanto da Atlantida concebida pelos naturalistas, mas quer
consideremos com uma ilha essa região verdadeira ou fabulosa, quer como um prolongamento dos actuais
continentes, o que parece certo é que a Madeira e as ilhas próximas nada têm que ver com ela. A estrutura
geológica destas ilhas, a grande profundidade do mar que as rodeia e a ausência em todas elas dos pequenos
quadrupedes que abundam nos continentes próximos, levam-nos a crer que o nosso arquipelago é uma
criação independente, e não uma relíquia de vastos territórios agora submergidos.
O que dizemos acerca da Madeira, talvez tenha aplicação aos arquipelagos vizinhos, não obstante a opinião
emitida pelo Sr. Termier a respeito da origem das ilhas dos Açores. Diz este geólogo que para haver o direito
de afirmar que as ilhas Canárias são fragmentos de um continente submergido, seriam necessárias certas
observações locais, não realizadas até o presente.
No nosso humilde entender a hipótese formulada por alguns geólogos de que os arquipelagos do Oceano
Atlântico estiveram ligados á Europa, á Africa e talvez á América, num período geológico recente, não vai de
acordo com o que se sabe acerca dos mesmos arquipelagos, muito embora seja licito acreditar que aquele
mar banhou já vastissimas terras, que se submergiram numa época de ruínas e de cataclismos de que não é
possível precisar o inicio nem a duração.
Atouguia
Luiz de Atougia foi dos primitivos povoadores desta ilha e talvez o primeiro que entre nós
usou este apelido. Era natural de Beja e filho de Luiz Afonso de Atouguia e de D. Isabel Telo. Exerceu na
Madeira o cargo de tesoureiro de D. Manuel, quando duque de Beja e grão-mestre de Ordem de Cristo. Este
Luiz de Atouguia ou um seu próximo descendente teve terras de sesmaria na freguesia da Calheta, no sítio
onde ainda hoje chamam o Lombo do Atouguia, a que deu o nome.
Armas: “Em campo vermelho esquartelado com uma cruz de ouro formada do campo, e em cada quarto
uma flor de lis de ouro; orla do mesmo, timbre um leão nascente de ouro”.
Atouguia (Lino Nicolau)
Poeta madeirense que floresceu no primeiro quartel do século XIX.
Encontram-se poesias suas na Collecção d'algumas obras poeticas offerecidas ao Ill.mo e Exmo Snr.
Sebastiao Xavier Botelho (Funchal, 1821).
Atouguia (Visconde de)
Antonio Aluísio Jervis de Atouguia, I.° visconde de Atouguia, pertencia
a uma nobre família madeirense e nasceu no sítio de S. Francisco das Furnas, estrada de Santo Antonio,
freguesia de S. Pedro desta cidade, na casa do morgadio que ali possuíam os seus progenitores, no dia 7 de
Julho de 1797, sendo filho de Manuel Atouguia Jervis e de D. Antonia Joana Carvalhal Esmeraldo. Foi
baptisado a 13 do mês e ano referidos na capela de Nossa Senhora da Piedade, sita na Cruz do Carvalho,
freguesia de S. Pedro, pelo distinto madeirense o deão João Francisco Lopes Rocha, de quem nos ocupamos
neste Elucidario.
Havia próximo de Londres um colégio, de reputação europeia, conhecido pelo nome de “Old Hall Green”
onde então e ainda bastantes anos depois foram educados muitos filhos das mais ilustres famílias desta ilha.
Iniciado nas primeiras letras, saiu Jervis de Atouguia para Inglaterra, aos 14 anos de idade, a fim de dar
entrada no afamado colégio, de que alguns dos seus parentes e conterrâneos tinham também sido alunos.
Feitos ali os seus estudos- secundários, como hoje se diria, regressou á pátria, partindo para Coimbra, onde
se matriculou na faculdade de matemática. Da sua aplicação como estudante, apenas sabemos que concluiu
a sua formatura na mesma faculdade a 29 de Julho de 1822, tendo alcançado um prémio no primeiro ano
daquele curso.
Logo em Outubro seguinte foi nomeado lente substituto da Academia de Marinha, mais tarde reformada
com o nome de Escola Naval, sendo promovido a lente proprietário por decreto de 1 de Fevereiro de 1834.
As ideias liberais que professava não o tinham seguro em Portugal, e receando as perseguições de que eram
vitimas muitos dos seus conterrâneos e amigos, resolveu abrigar-se á carinhosa hospitalidade do país que
tão bem conhecia e onde passara alguns anos da sua juventude. Emigrando para Inglaterra em Junho de
1828, embarcou em Agosto do mesmo ano para esta ilha, em companhia de outros portugueses, a fim de
reunir-se ao governador e capitão-general José Lucio Travassos Valdez, depois Conde de Bonfim, e ajudá-lo
na resistência que este preparava ao ataque das fôrças absolutas. É sabido que essa resistência se não deu e
que as tropas comandadas pelo general Lemos bombardearam a vila de Machico, tomando-a sem
dificuldade, e puseram-se a caminho do Funchal, sendo em seguida apostado no governo da ilha o capitão
de mar e guerra José Maria Monteiro, que viera a bordo da esquadra de D. Miguel.
O capitão-general Travassos Valdez, acompanhado de Jervis de Atouguia, dos portugueses que haviam
chegado de Inglaterra e de outros madeirenses, refugiou-se a bordo do navio de guerra inglês Alligator, que
então se achava surto no nosso porto, tendo poucos dias depois saído todos para Inglaterra.
Permaneceu aqui até fins de 1831, partindo então para a Terceira, a fim de associar-se ao movimento que
naquela ilha se iniciara da libertação de Portugal das garras do absolutismo. Pouco depois da sua chegada,
organizou-se em Março de 1832, uma expedição contra a Madeira, destinada a liberta-la do jugo miguelista,
mas essa expedição que era comandada por Luiz Mousinho de Albuquerque, e em que tomou parte Jervis
de Athouguia, foi infrutuosa nos seus resultados, não havendo sequer uma tentativa de ataque a este
arquipelago pelas forças liberais, em vista da superioridade das tropas inimigas que o defendiam. Apenas
Mousinho de Albuquerque e os oficiais da sua comitiva se demoraram algumas semanas no Porto Santo,
regressando em seguida á Ilha Terceira.
No mês de Junho de 1832 foi Jervis de Atouguia nomeado secretario geral da província dos Açores, logar
que não exerceu por muito tempo, porque o desejo ardente de unir-se aos que nas linhas do Porto
combatiam pela liberdade, fê-lo pedir a demissão daquele honroso cargo e apresentar-se a D. Pedro IV,
oferecendo-lhe os seus serviços. Obteve logo colocação no estado maior imperial, como capitão, sendo
depois transferido para o real corpo de engenheiros e em seguida nomeado secretario militar e civil do
Porto, cargo este que serviu com muita distinção.
Antonio Aluísio Jervis de Atouguia, como ajudante de ordens do general Valdez e depois do general
Saldanha, entrou em quasi todos os combates que se deram até ao fim da guerra civil, distinguindo-se pelo
seu denodo e valentia, nomeadamente na batalha de Almoster, pelo que foi condecorado com três graus da
ordem da Torre e Espada.
Estabelecido o governo constitucional, entrou activamente na política, e ao mesmo tempo que regia a sua
cadeira na Academia Real de Marinha, era eleito deputado pela Madeira em 1834 e em 25 de Julho de 1835
chamado aos conselhos da coroa, gerindo os negócios da pasta da marinha até 18 de Julho desse ano.
Em 1836 foi nomeado governador civil do Porto e no mesmo ano eleito deputado por esta cidade e pela
Madeira, tendo também sido representante da sua pátria em cortes em 1837, 1842 e 1851.
Jervis de Athouguia tomou parte na revolta chamada dos marechais, que se malogrou tendo por isso
emigrado para Inglaterra, mas voltando a Portugal em 1838 aderiu á nova constituição.
Em 1841 foi escolhido para presidente da câmara dos deputados e no ano imediato fez parte do gabinete
presidido pelo duque de Palmela, gerindo os negócios do ministério da marinha.
No período decorrido de 1851 a 1856 foi varias vezes ministro de estado, sobraçando as pastas da marinha e
dos estrangeiros.
Em 5 de Janeiro de 1853 foi elevado ao pariato e em 15 de Março do ano seguinte agraciado com o título de
Visconde de Atouguia.
Jervis de Atouguia desempenhou o cargo de director da Escola Politécnica, foi conselheiro do tribunal de
contas e atingiu o posto de brigadeiro graduado de engenheiros.
Morreu em Lisboa a 17 de Maio de 1861.
Atum
Conhecem-se na Madeira o atum rabil (Thynnus thynnus}, o atum albacora (T. albacora), o atum
patudo (T. obesus) e o atum voador (T. alalonga). Destas espécies, só a primeira e a ultima têm sido
assinaladas nos mares de Portugal, sendo o T. thynnus conhecido dos pescadores portugueses pelos nomes
de atum, atum de direito e atum de revés, e o T. alalonga pelos de atum galha comprida, alvacora e albacora.
Outrora chamava-se ao atum a carne dos pobres, por causa do baixo preço por que esse peixe bastante
substancial era vendido no mercado (25 a 80 reis o quilo, conforme a abundância), mas hoje dificilmente se
obtém o mesmo peixe por menos de 300 reis cada quilo.
O atum voador, ou simplesmente voador, é mais estimado do que as outras espécies, por ter a carne mais
saborosa e clara, adquirindo ás vezes pela cozedura uma cor quasi branca.
Os atuns, peixes teleosteos da família dos Escombridas, são apanhados á linha e não em redes, como
acontece no Mediterrâneo. O atum rabil, que é o maior, aparece principalmente de Março a Maio, o
albacora de Agosto a Outubro, o patudo de Março a Maio e o voador de Novembro a Janeiro.
V. Gaiado.
Atum de Cacho
Diz-se de qualquer espécie de atum que se apresente em grandes cardumes á
superfície do mar. Aplica-se esta expressão em particular aos atuns, patudo e voador, mas sobretudo aos
indivíduos novos do patudo, cuja passagem nas águas madeirenses se realiza em maior quantidade nos
meses da primavera.
Auditor Administrativo
Os logares de Auditores Administrativos foram criados pelos códigos de
1895 e de 1896, que restabeleceram os tribunais especiais do contencioso administrativo de primeira
instância.
A Comissão Distrital, que era um desses tribunais, deixou de existir com este caracter no Distrito do
Funchal em virtude do Decreto de 8 de Agosto de 1901,.que aplicou ao mesmo Distrito a organização
especial facultada aos distritos açoreanos, mas ficaram os Juízes de Direito e o Auditor, tendo este
magistrado agora não só as atribuições que lhe conferiu o código de 1895 e confere o de 1896, mas também
as atribuições contenciosas e consultivas que pelos dois referidos códigos competiam á dita Comissão, agora
extinta.
As leis de 7 de Agosto de 1913 e 23 de Junho de 1916 não alteraram a competência e atribuições dos
tribunais administrativos a que nos referimos.
O secretario geral exerce as funções do ministério publico junto do auditor administrativo.
V. Comissão Distrital e Tribunal Administrativo.
Augite
Espécie mineral pertencente ao género piroxena. Os seus cristais, duma linda cor negra, são
comuns sôbre o basalto, na ilha da Madeira.
Aula de Desenho e Pintura.
Aulas secundarias.
V. Escola Industrial
Antes da criação do liceu do Funchal funcionavam nesta cidade as aulas
seguintes: de matemática, de filosofia, de retórica, de francês e inglês, de gramática latina e de latinidade. O
professor de matemática tinha em 1821 de ordenado anual 500:000 reis; o de filosofia 460:000 reis; o de
retórica 440:000 reis; o de gramática latina 400:000 réis; e o de latinidade 400:000 reis. O substituto da
primeira destas cadeiras tinha 250:000 reis de ordenado; o da segunda, 230:000 reis; e os da terceira e
quinta, 200:000 reis cada um. O professor de gramática latina parece que não tinha substituto. Todas estas
aulas, á excepção da de francês e inglês, foram estabelecidas em virtude de lei de 6 de Novembro de 1772,
que criou também uma aula de grego, que nunca chegou a funcionar. A aula de francês e inglês foi criada no
tempo do governador D. Manuel de Portugal e Castro. Havia ainda uma cadeira especial de desenho, criada
em 1810, cujo professor recebia 600:000 reis anuais.
Aurora
Publicaram-se seis números, de 10 de junho a 26 de Julho de 1911.
Aurora (A)
Deu poucos números, publicando-se o primeiro a 24 de Janeiro de 1897.
Aurora do Domingo (A)
Publicaram-se doze numeros de 5 de Janeiro a 30 de Março de 1862.
Aurora Liberal (A)
Saiu o primeiro numero a 25 de Novembro de 1875 e o oitavo a 12 de Fevereiro
de 1876.
Aurora Literária (A)
Jornal literário, de que se publicaram seis números de 1 de Fevereiro a 1 de
Maio de 1808. Era redigido pelos alunos do liceu desta cidade.
Com o mesmo título publicou-se outro jornal, de que também só saíram seis números, sendo o primeiro a 2
de Abril de 1875.
Austria (Imperatriz da)
A imperatriz Isabel, mulher de Francisco José, imperador da Austria,
que a 10 de Setembro de 1898 caíu morta ao golpe traiçoeiro do punhal do libertário Lucheni, visitou pela
primeira vez a Madeira em 1860, demorando-se aproximadamente cinco meses nesta ilha. Tendo-lhe os
médicos aconselhado que procurasse um clima temperado, onde passasse o inverno e em que pudesse
também subtrair-se por algum tempo aos incómodos das exigentes etiquetas da corte, para assim poder
encontrar completo restabelecimento á sua abalada saúde, foi o Funchal a estação escolhida para esse fim e
a casa preferida para a sua residência a Quinta Vigia, que, pela sua invejável situação, belos jardins, posição
sobranceira ao mar e boa vista sôbre todo o anfiteatro da cidade, era considerada como uma das mais
esplêndidas vivendas da Madeira.
No dia 29 de Novembro de 1860, pelas seis horas da manhã, entrou no porto do Funchal o vapor Victorie &
Albert, propriedade da rainha Vitória de Inglaterra, que a seu bordo conduzia a imperatriz da Austria.
Tendo manifestado desejos de que o seu desembarque se realizasse despido de todo o aparato, não revestiu
ele o brilho e a imponência que as autoridades locais queriam imprimir-lhe, mas ainda assim foram
prestadas á ilustre visitante todas as honras militares e as outras demonstrações oficiais exigidas em casos
semelhantes. As autoridades superiores do distrito foram a bordo do Victoria & Albert apresentar os seus
cumprimentos de boas vindas á imperatriz e acompanharam-na até á sua residência, tendo-se efectuado o
desembarque no cais da Pontinha.
A imperatriz contava apenas 23 anos de idade e estava então no pleno esplendor da sua grande formosura e
da mais radiante mocidade, o que junto ás suas excelsas virtudes e coração bondoso e extremamente
compassivo pelos desherdados da fortuna, despertava por toda a parte os maiores entusiasmos e era sempre
alvo de grandes demonstrações de apreço e simpatia.
No dia 7 de Dezembro de 1860 ancorou no nosso porto a corveta portuguesa Sagres, conduzindo o conde de
Linhares, que, em nome de D. Pedro V, vinha á Madeira cumprimentar a ilustre visitante.
A 17 de Abril de 1861 chegava ao Funchal o infante D. Luiz, depois rei de Portugal, encarregado pelo
monarca de acompanhar a imperatriz por ocasião da sua saída do território português. D. Luiz viera na
corveta Bartolomeu Dias, de que era comandante, tendo no dia 21 oferecido a bordo um magnífico lanche a
sua majestade imperial.
Isabel de Austria, embarcou no dia 28 de Abril no mesmo vapor que a conduzira a esta ilha, indo de
conserva a Bartolomeu Dias, o vapor Osborne e um navio de guerra inglês, que acompanharam o Victoria &
Albert até o pôrto de Gibraltar.
O imperador Francisco José agradeceu ao prelado diocesano, governador civil, presidente da câmara,
capitão do porto e cônsul austríaco as honras e outras demonstrações de apreço dispensadas a sua esposa.
Poucos anos antes da sua morte, visitou a imperatriz Isabel novamente esta ilha, sofrendo já então das
perturbações mentais que a acompanharam até o fim da vida.
Automóveis
Foi a 22 de Novembro de 1907 que começou a circular o primeiro automóvel no Funchal.
Autonomia Administrativa
O dia 8 de Agosto de 1901 figura como uma data imemorável nos
anais deste arquipelago. Foi nesse dia que o conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, então presidente
do conselho e ministro do reino, referendou um decreto concedendo á Madeira a autonomia administrativa
nas mesmas bases em que já anteriormente fôra concedida aos distritos açoreanos. Não é sem dúvida uma
autonomia com amplos poderes de administração local, mas representa um dos mais apreciáveis benefícios
com que tem sido dotada a Madeira num longo período de séculos e certamente o maior de todos, no que
diz respeito á concessão dos meios indispensáveis para a fácil realização de importantes melhoramentos
materiais.
O decreto de 2 de Março de 1895, referendado por Hintze Ribeiro, João Franco e os outros ministros que
então constituíam o ministério, deu aos distritos dos Açores a faculdade de poderem adoptar a autonomia
administrativa concedida nos limites do mesmo decreto, quando assim o requeressem dois terços dos
cidadãos elegíveis para cargos administrativos. A Carta de Lei de 22 de Maio de 1901 modificou algumas
daquelas disposições e autorizou o governo a torná-las extensivas á Madeira. Foi, porém, o decreto de 8 de
Agosto de 1901 que verdadeiramente estabeleceu a autonomia administrativa no distrito do Funchal, com as
faculdades e atribuições consignadas no decreto de 2 de Março de 1895.
Essas faculdades e atribuições residem numa corporação administrativa, que tem o nome de Junta Geral,
cuja organização e funcionamento diferem das suas congéneres do resto do país. Por ocasião da sua criação,
tinha quinze procuradores de eleição popular, como representantes dos diversos concelhos, e reuniam-se
em sessões ordinárias nos meses de Abril e Novembro. A Junta Geral elegia uma comissão executiva
composta de três membros, que, nas sessões ordinárias de todos os procuradores; apresentava os relatórios
das deliberações tomadas nos intervalos daquelas sessões.
O primeiro presidente da Junta Geral do Funchal e que a ela prestou relevantissimos serviços foi o
conselheiro José Leite Monteiro e teve como primeiro chefe da sua secretaria o Dr. Manuel dos Passos
Freitas, que tem revelado muito zelo e competência no desempenho do seu cargo.
Foi a partir do ano de 1902, em que se iniciou a arrecadação das receitas facultadas á Junta Geral, que esta
corporação administrativa começou a realizar uma grande soma de melhoramentos públicos, especialmente
na construção da rede de estradas. Essa acção administrativa da Junta Geral estendia-se também a muitos
outros serviços públicos, uns já existentes e outros de criação nova, evidenciando-se continuamente os
inapreciaveis benefícios que a este distrito trouxera a concessão da *autonomia administrativa+. Outros
decretos posteriores vieram sancionar e dar situação legal a certos serviços da Junta Geral, mas não
modificaram essencialmente a sua vida económica e administrativa. Além das repartições privativas da sua
secretaria, tesouraria e obras publicas, ficaram especialmente a cargo da Junta Geral os serviços destinados
á manutenção e conservação do Manicomio, Expostos e Infância Desvalida, Posto de Desinfecção Terrestre,
Laboratório de Bacteriologia e Higiene, Policia repressiva de emigração clandestina, serviços agrónomos e
pecuários e ainda outros.
O decreto de 31 de Julho de 1928 ampliou notavelmente a esfera da autonomia administrativa, alargando
bastante as suas faculdades e atribuições, mas sobrecarregando-a com novos e pesados encargos, não lhe
sendo facultadas as receitas compensadoras para a plena satisfação desses encargos. Entre estes contam-se
os serviços dos ministérios do Comércio e Comunicações, Agricultura e Instrução e os do governo civil,
policia cívica, saúde publica, assistência e previdência dependentes do ministério do Interior e Finanças.
As receitas da Junta Geral deste distrito desde a concessão da autonomia administrativa foram as seguintes:
1902- 1903 ........................... 111.265$56
1903- 1904 ........................... 129.793$24
1904- 1905 ........................... 126.873$41
1905- 1906 ........................... 132.229$93
1906- 1907 ........................... 135.960$73
1907- 1908 ........................... 135.520$46
1908- 1909 ........................... 137.577$85
1909- 1910 ........................... 144.417$00
1910- 1911 ........................... 142.440$94
1911- 1912 ........................... 147.558$26
1912- 1913 ........................... 159.333$03
1913- 1914 ........................... 227.783$61
1914- l915 ........................... 172.327$59
1915- 1916 ........................... 220.129$35
1916- 19l7 ........................... 190.099$94
1917- 1918 ........................... 187.367$06
1918- 1919 ........................... 188.499$34
1919- 1920 ........................... 234.687$92
1920- 1921 ........................... 713.182$51
1921- 1922 ........................... 969.750$37
1923 ................................. 1.369.834$72
1924 ................................. 1.150.708$29
1925 ................................. 3.881.125$99
1926 ................................. 3.741.561$78
1927 ................................. 3.962.817$81
1 semestre de 1928............. 2.488.376$21
1928- 1929 ....................... 10.680.689$52
1929- 1930 ....................... 10.189.945$29
1930- 1931 ....................... 12.459.987$57
1931- 1932 ....................... 11.584.328$97
1933- 1934 ........................... 14.398.951$57
1934- 1935 (18 meses)......... 20.440.337$65
1936 ................................. 13.414.867$46
1937 ................................. 12.057.204$87
1938 ................................. 16.054.913$04
1939 ................................. 20.658.134$00
Foi então, como acima ficou dito, que se iniciou a realização de importantes melhoramentos públicos,
especialmente na construção de novas estradas.
As vias de comunicação na Madeira, eram sem contestação possível, as piores de todo o nosso país, devido a
variadas causas e especialmente ao inverosímil acidentado dos terrenos e ainda a outras incentiváveis
condições do meio. A maior parte delas não merecia o nome de estradas, pois que na sua generalidade eram
estreitas veredas praticadas no solo, de penoso e dificilimo piso, sobranceiras a insondaveis abismos e
costeando os flancos de elevadas montanhas, oferecendo quasi sempre aos viandantes os mais graves
incómodos e perigos. Até o ano de 1901, em que foi concedida a autonomia administrativa a este distrito,
somente havia nove quilómetros duma boa estrada, que ponha a cidade do Funchal em comunicação com a
vila de Câmara de Lobos. Começou então e prossegue ainda a construção duma larga rede de estradas, que
dentro de poucos anos tornará fácil o percorrer-se toda a ilha em viação acelerada e serem rápida e
comodamente visitadas as suas principais localidades.
As repartições da Junta Geral funcionaram em diversas casas, sendo pelo decreto de 12 de Agosto de 1919
cedido a esta corporação administrativa o edifício do extinto Seminário da Incarnação pela importância de
7.500$00 escudos e nele se instalou a maior parte das dependências da mesma Junta. Havendo o decreto
de 25 de Abril de 1927 restituído á Comissão do Culto da Diocese do Funchal a posse do referido edifício do
Seminário da Incarnação, passou a Junta Geral a instalar as suas repartições nas antigas casas do Hospital
de Santa Isabel, que ali se acham amplamente acomodadas desde o mês de Outubro de 1933.
V. Juntas Gerais e Viação Publica.
Autoridades Superiores do Arquipelago
O secretario do governo deste arquipelago
Joaquim Pedro Cardoso Casado Giraldes (V. este nome) publicou em Paris, no primeiro quartel do século
passado, nas línguas portuguesa e francesa, uma Estatística Historico-Geographica das Ilhas da Madeira e
Porto Santo, que contém a relação dos donatarios do Funchal e governadores da Madeira, com a designação
dos decretos das suas nomeações, posse e duração dos seus governos, relação que vai desde o descobridor
João Gonçalves Zarco até ao governador e capitão-general Florencio José de Melo, que começou a
administrar este arquipelago em Abril de 1815. As edições francesa e portuguesa dessa Estatística, que entre
si diferem na natureza das suas informações, são, a pesar das deficiências que nelas se encontram, um
valiosissimo documento e quasi único para a organização da lista dos governadores da Madeira, servindo de
principal base á que o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo publicou nas notas das Saudades da Terra em 1873.
O benemérito governador civil deste distrito José Silvestre Ribeiro continuou a relação de Casado Geraldes
até ao tempo do seu governo, a qual se estende de 1815 a 1847 e vem publicada no volume segundo da
Epocha Administrativa, a pagina 141 e seguintes.
O ilustre anotador das Saudades da Terra aproveitou os trabalhos de Casado Geraldes e de Silvestre Ribeiro,
completando-os até ao tempo da publicação das suas notas á obra de Gaspar Frutuoso, isto é no período
decorrido de 1847 a 1872, e ali vêm insertas a paginas 823 e seguintes.
Um dos redactores do antigo Heraldo da Madeira, em artigos publicados nos números 1594 e 1596 deste
jornal, completou essa relação no período compreendido entre 1872 e 1910.
A superintendência do arquipelago esteve a cargo dos governadores gerais desde 1582 até 1640 e dos
capitãis generais desde 1640 até 1834. A primeira autoridade administrativa constitucional foi Luiz da Silva
Mousinho de Albuquerque, que teve a designação de prefeito pelo decreto de 16 de Maio de 1832, mas este
cargo durou pouco tempo, sendo substituído pelo de governador civil pelo decreto de 18 de Julho de 1835 e
depois pelo de administrador geral em virtude dos acontecimentos políticos de 9 de Setembro de 1836. Pelo
restabelecimeoto da Carta em 1842, tomou novamente a denominação de governador civil o chefe superior
da província, a qual ainda hoje dura.
V. Donatarios, Governadores Gerais, Governadores e Capitãis Generais,
Governadores Civis e Comandantes Militares.
Auxilio Maternal.
Fundou-se esta instituição funchalense em 3 de Abril de 1902, por iniciativa do
medico-cirurgião José Joaquim de Freitas, tendo os seus estatutos sido aprovados por alvará do governo
civil de 4 de Julho do mesmo ano. Tem por fim principal fornecer alimentação própria ás crianças cujas
mães, por doenças ou privações, as não possam criar.
Aveia (Avena strigosa)
Graminea anual, cultivada na Madeira. Serve para alimento dos gados.
Avenca (Adiantum Capilus-Veneris)
Feto indígena muito frequente nas rochas e logares
úmidos. É emoliente e peitoral.
Aves
Na obra do rev.° padre Ernesto Schmitz intitulada Die Vögel Madeira's, vêm assinaladas trinta e
oito aves que nidificam no arquipelago e cento e cinquenta e sete que são de arribação.
As aves que nidificam no arquipelago são na maior parte espécies europeias, ao passo que as aves de
arribação são em geral da costa africana. Destas ultimas, as que aparecem com maior frequência são,
segundo J. Y. Johnson, as seguintes: Accipter nisus, Fringilla chloris, Upupa epops, Ardea cinerea, A.
nycticorax, Limosa melanura, Numenius arquata, Gallinago major, Gallinula chloropus, Fulica atra, Mareca
penelope, Larus tridactylus e Sula alba. O Cegialitis vociferus, especie americana, tem sido assinalado
varias vezes na Madeira, e o Phyloscosus superciliosus, da Asia, foi colhido ha anos no Pôrto Santo.
Das espécies indígenas, são comuns á Madeira e Canárias, não tendo sido encontradas noutras partes, o
canário, o corre-caminho, a andorinha da serra, o pombo trocaz e o anjinho. O tintilhão só aparece na
Madeira, Canárias e Açores, e o bisbis é espécie peculiar da nossa ilha. A toutinegra de capelo é uma curiosa
variedade que supomos não tem sido achada fora da Madeira.
Avezac
O distinto geografo e também historiador Pascoal Avezac Macaya (1799-1875) na sua obra Iles
d'Afrique, que goza de grande reputação, ocupou-se com alguma largueza do arquipelago madeirense,
dando-nos uma descrição sumaria da sua descoberta, constituição geológica, águas, clima, vegetação, fauna
habitantes, indústria, comercio, costumes etc.. A pesar das deficiências que contém e das apreciações por
vezes menos segura acerca de cousas e factos, é sem duvida um estudo muito interessante e que se não lê
sem bastante aproveitamento. P. de Avezac teve Gabriel de Gorat e Oscar Marc Carthy como colaboradores
do seu trabalho. Em dezanove números do antigo Diario do Comercio, dos meses de Janeiro a Abril de
1909, publicou-se uma tradução do estudo de Avezac.
Aviceiro
Sítio povoado da freguesia da Quinta Grande, onde existiu, no lugar que chamam Cadeirinha,
uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Cadeira.
Aviceiro ou Fonte do Aviceiro
Logar da freguesia de Santo Antonio, a pequena distancia do
Lombo de D. Isabel, na estrada que conduz ao Curral das Freiras.
Ávila (Carlos Lôbo de)
Este conhecido homem de estado representou a Madeira em cortes na
sessão legislativa de 1890.
Nasceu em 1863 e morreu a 9 de Setembro de 1895.
Avila e Bolama (Duque de)
Antonio José de Avila, depois duque de Avila e Bolama, conhecido
estadista português, foi por decreto de 5 de Setembro de 1846 nomeado comissário régio, com poderes
discricionários, a fim de vir á ilha da Madeira sindicar dos graves acontecimentos que aqui se tinham dado
por causa do proselitismo protestante do Dr. Roberto Kalley e de adoptar as previdências que a situação
anormal em que se encontrava o distrito lhe aconselhasse. Antonio José de Avila saiu de Lisboa a 9 de
Setembro, acompanhado de José Silvestre Ribeiro, que vinha nomeado governador civil. A 21 do mesmo
mês suspendeu o governador civil interino e o administrador do concelho do Funchal e tomou outras
medidas de administração. Saíu para Lisboa a 10 de Outubro, tendo José Silvestre tomado posse do seu
governo a 7 do mesmo mês.
Avoadeira
Nome vulgar do Erigeron canadensis, composta tubuliflora da América do Norte,
naturalizada na Madeira.
Avoador.
V. Atum e Voador
Azeda
A da Madeira é o Rumex madèrensis, da família das Poligonaceas; a do Pôrto Santo é a
Scorpiurus sulcata, da família das Leguminosas. A primeira destas espécies é usada internamente, em
infusão, para purificar o sangue, e pode servir para salada, esparregado, etc.; a segunda é forragem de boa
qualidade. A Scorpiurus sulcata e frequente na Madeira, onde é conhecida pelo nome de cabreira.
Azedinha
Nome vulgar do Rumex Acetosella, Poligonacea frequente na Madeira.
Azeredo
Manuel de Faria Azeredo, que, por meados dos séculos XVI, naufragou na Madeira, quando se
dirigia para a Índia, casou nesta ilha e aqui estabeleceu residência e teve descendência. O seu apelido,
porém, que aliás é de família nobre de Portugal, não se propagou entre nós, porque seu filho Manuel de
Faria adoptou o apelido de Almeida, talvez de sua mãe, em vez do de Azeredo que herdara do pai.
Azevedo
Família oriunda de Besteiros. Pedro Gonçalves de Azevedo provou a sua fidalguia em 1585,
como descendente de João Nunes Cardoso, senhor de Besteiros.
Azevedo (Americo Olavo Correia de)
Nasceu no Funchal a 16 de Dezembro de 1881 e fez
parte, como capitão de infantaria, das tropas portuguesas que se bateram em França ao lado dos aliados,
sendo condecorado com a Cruz de Guerra e com a 30 classe da ordem da Torre e Espada por actos de
bravura praticados durante a campanha. Tendo ficado prisioneiro dos alemãis na grande batalha do dia 9 de
Abril de 1918, só voltou a Portugal nos princípios de 1919, sendo eleito deputado pelo Funchal nas eleições
que se realizaram em 11 de Maio do mesmo ano.
Azevedo (Antonio Pedro de)
Nasceu em Caminha a 7 de Fevereiro de 1814 e visitou pela
primeira vez a Madeira nos tempos da usurpação, sendo a esse tempo alferes de infantaria. Tendo tirado o
curso de engenharia depois da restauração da Carta, voltou a esta ilha, onde desempenhou por largos anos o
cargo de director das Obras Publicas do Distrito. Levantou em 1842 e 1843, justamente com os oficiais do
vapor de guerra britanico Styx, as cartas do Porto Santo, Madeira e Desertas, publicadas respectivamente
em 1877, 1879 e 1886. Faleceu em Lisboa a 10 de Agosto de 1889, sendo então general de divisão reformado.
V. Cartas Geograficas.
Azevedo (Beato Inácio de)
No dia 13 de Junho de 1570 ancorou no porto do Funchal, vindo de
Lisboa e com destino ao Brasil, uma armada do comando de Luiz de Vasconcelos, que, além das tripulações
e vários passageiros, conduzia quarenta religiosos da Companhia de Jesus. Traziam estas como superior o
padre Inácio de Azevedo e destinavam-se ás missões brasileiras dirigidas pelos jesuítas. A armada saiu da
Madeira no dia 30 de Junho, e a 15 de Julho seguinte, na altura das Canárias e á vista da Ilha da Palma, foi
assaltada por corsários huguenotes, que saquearam os navios portugueses e trucidaram os quarenta
religiosos, lançando os seus corpos ao mar. Foram estes inscritos na martirologia da igreja católica, sendo-
lhes concedida a honra dos altares.
A sua passagem na Madeira, e em especial a sua estada na freguesia de Santo Antonio, ficou comemorada
por uma lápide, que ainda há poucos anos se encontrava na capela do sítio do Pico do Cardo da mesma
freguesia e em que se lia a seguinte inscrição:
EM. MEMORIA. DOS. GLORIOSOS. MARTIRES. DA COMP.0 DE JESU. O. P. IGNACIO. DE. AZEVEDO. E
SEUS. 39 COMPANHEIROS. QUE. NAVEGANDO. P.0, O. BRAZIL. NO. ANNO. DE 1570. A-OS. 15. DE.
JULHO. A. VISTA. DA. ILHA. DA. PALMA. MERECERÃO. A. DO MARTIRIO. PELLA. FÉ. DE. CHRISTO.
LANÇADOS. AO. MAR. PELLOS. HEREJES. E. TENDO. ESTADO. NESTA. QUINTA. DE. PICCO. DE
CARDO. VINHÃO. A. ESTE. LUGAR. COM. A SUA. CRUS. E. NELLE. FAZIÃO. AS. SUAS. DEVOÇÕES. SE.
ERIGIO. ESTA. P.0, MAIOR. GLORIA. DE DEOS. AN. DE. 1745.
V. Paroquia de Santo Antonio do Funchal
, de 8 de Outubro de 1915, onde este facto vem
mais largamente narrado.
Azevedo (Carlos Olavo Correia de)
Foi eleito deputado pela Madeira, para as Cortes
Constituintes, a 28 de Maio de 1911. Foi novamente escolhido para nosso representante em cortes, sendo
eleito a 13 de Junho de 1915.
É bacharel em direito e nasceu no Funchal a 7 de Julho de 1880. Exercia o cargo de secretario geral do
Governo Civil de Lisboa quando foi mobilizado para fazer parte do corpo expedicionário português, indo
para França e sendo feito prisioneiro pelos alemãis no combate de 9 de Abril de 1918.
É descendente de Domingos Olavo Correia de Azevedo, que foi Governador Civil deste distrito em 1841, e
irmão do capitão Americo Olavo de Azevedo, de quem já nos ocupámos neste Elucidario.
E.: Jornal de um prisioneiro de guerra na Alemanha, Lisboa, 1919, de 204 pag.
Azevedo Castelo Branco (José de).
V. Castelo Branco (José de Azevedo)
Azevedo (Dr. Alvaro Rodrigues de)
Nasceu em Vila Franca de Xira a 20 de Março de 1825
e era filho de Antonio Plácido de Azevedo, natural de Benavente, e de D. Maria Amelia Ribeiro de Azevedo.
Tendo-se chamado a princípio José Rodrigues de Azevedo, mudou de nome ao entrar na Universidade,
onde frequentou a faculdade de direito, cujo curso concluiu em 1849.
Vindo em seguida para Lisboa, esteve aí cerca de seis anos, passando depois a esta ilha a fim de tomar conta
da cadeira de oratória, poética e literatura do nosso liceu, que conquistara em concurso publico. Antes disso
pretendera, mas sem resultado, ser despachado para um logar na magistratura judicial.
O Dr. Azevedo regeu com a maior proficiência e brilho a referida cadeira, durante vinte e seis anos,
retirando em Janeiro de 1881 para Lisboa, onde fixou residência. Foi também durante alguns anos
professor de português e recitação do nosso liceu, e em 1856, por ocasião da epidemia da colera-morbus,
prestou relevantes serviços á cidade no desempenho do cargo de administrador do concelho.
Foi ainda procurador á Junta Geral e membro do Concelho de Distrito e da Comissão Administrativa da
Santa Casa da Misericordia do Funchal. Em 1870 recusou o cargo de secretario geral do distrito e a
comenda da Conceição.
O Dr. Azevedo tomou parte activa, como membro do partido reformista, nas lutas que houve na Madeira em
1868, revelando-se por essa ocasião político hábil, tolerante e de aspirações liberais.
Colaborou em muitos jornais e foi um dos redactores da Discussão e da Madeira, tendo publicado no
primeiro destes periódicos um artigo de critica literária sobre o Bosquejo Histórico de literatura classica,
grega, latina e portuguesa, de Antonio Cardoso Borges de Figueiredo. Publicou também nos números 181 a
183 do Diário de Noticias desta cidade um interessante estudo intitulado A Casa em que Christovâo
Colombo habitou na Ilha da Madeira.
São dele as seguintes obras: 0 Livro d'um Democrata ( Coimbra, 1848); Esboço critico-literario (Funchal,
1866); Curso Elementar de Recitaçao (Funchal, 1869); e Romanceiro do Archipelago da Madeira (Funchal,
1880). Publicou também o manuscrito de Gaspar Frutuoso intitulado Saudades da Terra, na parte
respeitante ao arquipelago da Madeira, enriquecendo-o com muitas notas destinadas a esclarecer certos
pontos da nossa historia. Estas notas, fruto de pacientissimos estudos e investigações, são, no nosso
entender, o mais valioso trabalho do Dr. Azevedo.
Os artigos Machico, Machim, Madeira e Maçonaria na Madeira, publicados no Diccionario Universal
Portuguêz, dirigido por Fernandes Costa, são do Dr. Azevedo, o qual escreveu também quando ainda
bastante novo, um drama intitulado Miguel de Vasconcellos. Por causa deste drama, que não chegou a ver a
luz da publicidade, teve de sustentar uma polémica um tanto azeda por meio da imprensa com o distinto
bibliografo e publicista, o falecido Inocencio Francisco da Silva.
O Dr. Azevedo foi um distinto jurisconsulto, e no tribunal muitas vezes se revelou orador eloquente e
argumentador astuto e hábil. Possuía uma voz mal timbrada, mas supria este defeito com a sua verbosidade
fácil e o seu muito saber das coisas jurídicas.
Como professor, foi dos mais distintos e zelosos que teve o nosso liceu, e como escritor, distinguiu-se
sempre pela sua prosa vernácula e pela facilidade com que manejava a língua.
0 Dr. Alvaro de Azevedo tem o seu nome indissoluvelmente ligado á historia da Madeira pelo assinalado e
nunca assaz encarecido serviço que prestou a este arquipelago com a publicação das Saudades da Terra e
especialmente pelas eruditas e valiosissimas anotações com que enriqueceu o texto de Gaspar Frutuoso (V.
Saudades da Terra) O Romanceiro do Archipelago da Madeira (V. este nome), os artigos já citados, que
ocupam cerca de 100 paginas do grande Diccionario Universal Português Ilustrado, a comedia de costumes
madeirenses A familia do Demerarista e o Almanach para a Ilha da Madeira, para os anos de 1867 e 1868,
são ainda outros poderosos motivos que inteiramente justificam o reconhecimento desta terra para com a
memória do distinto advogado e professor. Além dos seus importantes e valiosos trabalhos sôbre a Madeira,
nada há entre nós que recorde ás gerações futuras a sua grata memória, sendo de inteira justiça que o seu
nome benemérito ficasse perpetuado ao menos na esquina duma rua, já que não se torna fácil nem talvez
possível prestar lhe mais condigno e merecido preito e homenagem.
O Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo faleceu em Lisboa a 6 de Janeiro de 1898. V. Koebel.
Azevedo (Dr. Domingos Olavo Correia de)
Era magistrado duma das comarcas do
Funchal, quando, por decreto de 26 de Março de 1841, foi nomeado Administrador Geral da Madeira, que
era então o nome que tinham os governadores dos distritos, sendo o terceiro e o ultimo que entre nós
exerceu tal cargo com aquela denominação. Tomou posse a 2 de Abril de 1841. Foi eleito deputado
substituto pela Madeira e senador também substituto para a sessão legislativa de 1838 a 1840.
John A. Dix na sua obra intitulada Um inverno na Madeira faz as mais elogiosas referências ao Dr.
Domingos Olavo e afirma que é natural da Madeira, o que nos parece não ser exacto.
Deu-se um facto durante o seu governo, que constitue um episódio interessante da historia madeirense e
que não deve ficar em completo esquecimento.
Por ser encontrado a fazer contrabando nas águas da Madeira, a fiscalização marítima apreendeu o patacho
Bernarda, que foi forçado a demandar o porto do Funchal e aqui vendido em hasta publica, ao abrigo das
leis aduaneiras de então. Pouco tempo depois, a 8 de Agosto de 1841, entrou na nossa baía o brigue de
guerra inglês Savage, comandado pelo tenente Bowquer, que em nome do almirante Walpole, comandante
das forças britanicas de Gibraltar, exigia a imediata entrega do patacho Bernarda, com a ameaça de exercer
represálias, se não fosse prontamente atendido o seu pedido. A autoridade manteve-se na mais absoluta
recusa, sendo a sua enérgica atitude louvada pelo governo de Lisboa.
Domingos Olavo Correia de Azevedo morreu em Lisboa a 9 de Março de 1855.
Azevedo (João da Costa de Ataide e)
A sua nomeação para governador e capitão-general
deste arquipelago é de 1 de Março de 1701, tendo tomado posse do logar a 12 de Junho do dito ano. Morreu
no Funchal a 8 de Marco de 1704, quando já se achava nomeado o seu sucessor Duarte Sodré Pereira.
Azevedo Júnior (Dr. Correia de)
Diz o Diccionario Bibliographico que este madeirense se
doutorou na faculdade de medicina do Rio de Janeiro e que ali defendeu teses em 1852, publicando-as
naquela cidade num opúsculo de XII-68-II pag.. Nada mais sabemos a seu respeito.
Azevedo Lemos (José Antonio de)
Coronel-comandante da expedição militar que veio á
Madeira em 1828. Teve serias desinteligências com o governador e capitão-general, o tristemente celebre
José Maria Monteiro, chegando a querer agredi-lo dentro da fortaleza de S. Lourenco e a apontá-lo ao
governo miguelista como homem que só ouvia “uma infame roda de indivíduos abomináveis por seus vícios
e maus costumes".
Azevedo (Maximiliano Eugenio de)
Nasceu no Funchal a 16 de Fevereiro de 1850 e era
filho de Antonio Pedro de Azevedo e de D. Teresa Rosa Bernes de Azevedo. Frequentou o liceu do Funchal e
depois as Escolas Politeccnica e do Exército, terminando em 1875 o curso de artilharia. Serviu como
segundo tenente em Santarém e depois nos Açores, voltando a Lisboa em 1881, donde não tornou a sair
senão por ocasião das viagens que fez a diversos países estrangeiros em 1889, 1893 e 1900.
Foi redactor do Jornal da Noite de 1882 a 1884, tendo estado ali principalmente encarregado da secção de
critica teatral, e colaborou na Discussão, Occidente, Jornal do Domingo, Atlantico, Diário Manhã, Revista
de Sciencias Militares, Contemporâneo, Illustração de Portugal e Brazil, etc.. Coadjuvou Latino Coelho,
durante mais de 10 anos, na preparação dos materiais para a Historia politica e militar de Portugal nos fins
do seculo XVIII e princípios do seculo XIX e escreveu e traduziu muitas peças teatrais, cujos títulos foram
assinalados no Diccionario Bibliographico de I. F. da Silva, continuado por Brito Aranha. Escreveu também
Tiro das boccas de fogo (Lisboa, 1899) e Marchas e Estacionamentos (Lisboa, 1892), tendo colaborado
nestes dois trabalhos o capitão Artur Perdigão, e dois livros de contos intitulados Historias das Ilhas (Lisboa
1899) e Em Campanha e no Quartel (Lisboa, 1900).
Maximiliano de Azevedo geriu nos fins da vida, como comissário régio, o Teatro Normal. Poucos podiam
competir com ele em assuntos cenicos e em conhecimentos profundos sobre a nossa historia teatral-literaria
e artística.
Faleceu numa casa de saúde em Lisboa, a 4 de Dezembro de 1911, sendo então coronel comandante da
regimento de artilharia numero 1.
Maximiliano de Azevedo teve por padrinho o Príncipe Maximiliano, Duque de Leuchtenberg e Príncipe de
Eichstaedt, que se achava na Madeira na ocasião em que ele foi baptizado.
Azevedo Ramos (Nicasio de)
Nasceu em Tondela a 2 de Outubro de 1862 e chegou á Madeira
a 23 de Janeiro de 1885. Foi redactor principal do jornal republicano A Lucta e foi cirurgião dentista pela
escola-medica de Lisboa, tendo exercido muitos anos esta profissão no Funchal.
E.: Discurso proferido nas solemnes exequias de Elias Garcia, celebradas no templo da loja Liberdade, aos
18 de Julho de 1891 (Funchal, 1891, folh.).
Faleceu no Funchal a 8 de Janeiro de 1927.
Azevém (Lolium multiflorum, Lam.)
Graminea europeia introduzida na Madeira no
ultimo quartel do século XVIII e que rapidamente se naturalizou em quasi toda a ilha. É boa planta
forraginosa.
Azevinho (Ilex canariensis)
Arbusto ou pequena árvore indígena da família das Aquifoliaceas,
que se encontra nas Ribeiras de João Gomes e de Machico, no Ribeiro Frio, etc.. Tem folhas glabras,
inermes ou espinulosas, flores brancas reunidas em cimeiras axilares, e frutos globosos e vermelhos. A
madeira desta espécie é branca e usada nalgumas pequenas obras de mercenária. Durante as festas do Natal
é uso ornamentar os presépios ou lapinhas com ramos de azevinho providos de frutos.
Azinhal
Julgamos extinto este apelido entre nós. Um dos primeiros povoadores da Madeira foi Estevão
do Azinhal, que em 1471 fazia parte da governança da então vila do Funchal.
Azinheira (Quercus Ilex)
Esta árvore cultivada nalgumas quintas dos arredores do Funchal,
distinguindo-se facilmente do sobreiro, com o qual se parece, por ter o tronco desprovido de cortiça.
Azurara (Gomes Eanes de)
Este nosso distinto cronista do século XV ocupou-se na sua
Chronica do Descobrimento e Conquista da Guiné da descoberta do arquipelago da Madeira. Foi quasi
contemporâneo dos acontecimentos que narrou, e tratou com pessoas coevas desses sucessos e teve á sua
disposição os documentos que o podiam habilitar a escrever a historia com inteira verdade e ainda com
conhecimento directo dos factos. Tem, pois, um grande valor e uma indiscutível autoridade o seu
testemunho ao fazer a narração dos acontecimentos de que se ocupou na sua Chronica. As circunstancias do
descobrimento da Madeira que ele, embora resumidamente, descreve, são as que oferecem ao investigador
consciencioso elementos mais seguros para a reconstituïção da verdade histórica deste ponta tão
interessante e tão capital da descoberta do nosso arquipelago. A tal respeito, veja-se a nota III ás Saudades
da Terra. A Chronica da Guiné esteve inédita cerca de quatrocentos anos, sendo publicada em Paris, em
1841, pelo Visconde de Santarém.
Babosa
Nome vulgar do Aloe Vera, planta vivaz da familia das Liliaceas, originaria da Europa
meridional. A babosa é frequente nos bardos, perto do Funchal.
Babosas
Sitio da freguesia do Monte, onde se encontra um pequeno largo ou miradouro, que passou a
ter o nome de Conceição desde o ano de 1906, em que ali se construíu uma capela dedicada a Nossa
Senhora da Conceiçao. É logar bastante frequentado e de ali se desfruta uma bela paisagem sobre o sitio
pitoresco do Curral dos Romeiros.
Badajeira
Baixio, a sudeste do Ilhéu de Fora (a pequena distancia da Ponta de São Lourenço), onde
naufragaram o vapor Forerunner, em Outubro de 1854, e o vapor Newton, a 12 de Abril de 1881. Ambos
estes naufrágios se deram estando o mar tranquilo, tendo perecido no primeiro grande numero pessoas.
Badejo (Epinephelus ruber)
Peixe da familia Percida, poucas vezes pescado nos mares a
Madeira. Habita os fundos rochosos entre a costa e a profundidade de 150 braças pouco mais ou menos.
Não emigra, e a sua criação tem sido encontrada junto à costa, em agua pouco profunda. É colhido em
aparelhos de anzol, com a briqueira e a gorazeira, e o seu sabor embora não prime pela delicadeza, não é
tido pelos paladares menos exigentes na conta de desagradavel.
Baião
É antigo apelido de familia neste arquipelago e particularmente na ilha do Porto Santo, embora
esteja hoje quasi extinto. Belchior Baião, de linhagem nobre, foi o primeiro deste apelido que se estabeleceu
na Madeira. Esta familia teve um morgadio no Porto Santo e era padroeira duma capela na igreja paroquial,
que ainda actualmente é conhecida pela capela da morgada. Conservou até há poucos anos o cunho
caracteristico das edificações manuelinas, sendo por certo a unica parte da igreja paroquial que restava da
construção primitiva.
Baiardo (Luiz José)
Diz o dicionario Portugal que nasceu nesta cidade a 30 de Abril de 1775, mas
temos serios motivos para acreditar que era natural do continente, embora tivesse vivido alguns anos na
Madeira. No seu tempo granjeou nomeada como escritor dramatico, mas as suas composições teatrais
caíram depois no mais completo esquecimento. Foi secretario particular do bispo desta diocese D. Fr.
Joaquim de Menezes e Ataíde e a este prelado se atribue com bom fundamento a autoria de algumas das
produções que Baiardo apresentava como sendo da sua lavra. Exerceu no Funchal o cargo de escrivão do
juízo eclesiastico. Em 1821 saíu para Lisboa e ali se dedicava exclusivamente ao trabalho de escrever,
traduzir e adaptar varias composições para o teatro. As suas produções literarias vêm mencionadas no
Diccionario Bibliographico de Inocencio. Entre elas há uma que interessa à historia desta ilha e se intitula
Carta escripta a um sujeito da provincia da ilha da Madeira ou o landum dos bordões, que tocou Sebastião
Xavier Botelho, com variações compostas por Luis José Baiardo; ou desforra das invectivas que contra ele
escreveu o dito Botelho na sua (Historia verdadeira dos acontecimentos da ilha da Madeira”. É um opusculo
de 33 paginas, publicado em Lisboa em 1821.
Baías
Não parece facil estabelecer se uma exacta e rigorosa distinção no significado que entre si
guardam alguns dos termos golfo, baia, enseada, angra, abra, calheta, etc.. Os dicionarios e tratados de
geografia revelam essa dificuldade, não sendo concordes, quando pretendem fixar a significação dessas
palavras. Discordando parcialmente da classificação que com respeito à Madeira tem sido adoptada por
varios autores (Frutuoso, Azevedo, Nobrega Soares, Sarmento, Loureiro, Meneses etc.), diremos que, das
reentrancias existentes ao longo da costa maritima de todo o arquipélago, nos merecerão apenas o nome de
Baias as do Funchal e Porto Santo, dando às restantes o nome generico de Enseadas.
Vid. Madeira (Enseadas da), Funchal (Baía do) e Porto Santo (Baía e
Enseadas do).
Baixas
Ao longo da costa maritima deste arquipelago, afloram à superficie ou encontram se a pequenas
profundidades muitos recifes ou baixios, que entre eles conservam o nome de Baixas.
Vid. Madeira (Baixas).
Baixo (Ilhéu de)
Este ilhéu, tambem conhecido pelo nome de Ilhéu da Cal, está adjacente à Ilha do
Porto Santo, da qual se acha separado por um canal ou boqueirão, chamado Boqueirão de Baixo. Fica
situado no extremo sul da ilha e no limite oeste da vasta baía, fronteiro ao sitio da Calheta. É deste ilhéu que
desde há seculos se extrai e continua ainda a extrair se toda a pedra calcarea, que fornece a materia prima
para o fabrico da cal empregada nas construções madeirenses. Para a extração dela, segue se a orientação
do respectivo filão formando se extensas galerias, com altas colunas ou pilastras destinadas a evitar
desmoronamentos. A exploração faz se em diversos pontos, dando se o nome de rancho a cada grupo de
operarios empregados nos diversos logares em que se faz a extracção da pedra calcarea. Esta pedra é
tributada ao ser exportada para a Madeira, fazendo se a cobrança do respectivo imposto na alfandega do
Funchal, e constitue uma das mais apreciaveis receitas da Camara Municipal do Porto Santo. Este ilhéu é de
relativa extensão e ainda ali se encontram abundantes coelhos, a pesar da contínua caça furtiva que fazem a
esses roedores.
Os terrenos do ilhéu sofreram levantamentos, o que é comprovado pela presença do calcareo muito acima
do nivel do mar, e pelas conchas marinas, corais e pedras semelhantes ás das praias, que aparecem na
formação. Os fósseis são da época miocenica superior, tendo sido achadas tanto no calcareo, como nos tufos
adjacentes, cerca de cinquenta especies, entre os briozoarios, corais, ouriços, moluscos lamelibranquiados e
gasteropodes, que foram descritas por Carlos Mayer na obra de Hartung sobre a geologia do arquipelago. A
formação calcarea está coberta por lavas supramarinas.
Nas costas do ilhéu há algumas furnas onde se observam estalactites salinas, e no Portinho há umas grandes
escavações abertas pelo homem nos tufos, e uma cisterna cujas aguas são fortemente salgadas por causa da
permeabilidade da rocha.
Baixo (Pico)
Na região setentrional da ilha do Porto Santo, para o lado lés sueste, fica uma elevação
montanhosa conhecida pelo nome de Pico de Baixo.
Baker (Alice)
E.: A Summer in the Azores With a Glimpse of Madeira, Boston, 1882.
Balancal
Logar da freguesia de São Gonçalo, que limita a quinta do Palheiro Ferreiro pelo seu extremo
sul e donde se descortina um surpreendente panorama sobre o anfiteatro da cidade do Funchal e seus
suburbios.
Balcões
No sitio do Ribeiro Frio (V. este nome), junto da esplanada da Levada, existe um lugar com um
pequeno mirante, que tem o nome de Balcão ou Balcões, donde se disfruta um dos mais surpreendentes
panoramas do interior da ilha, descobrindo se deste ponto as eminencias mais elevadas das nossas
montanhas.
Balcões (Rua dos).
Vid. Rua dos Balcões
Baldios
Os baldios, ou terrenos incultos e desaproveitados da Madeira, estão situados na sua maior
parte a mais de 800 ou 900 metros acima do nivel do mar, sendo quasi todos eles propriedade de
particulares, mas sem que esta propriedade possa as mais das vezes ser comprovada com titulos legais.
Segundo se afirma, o Paul da Serra e uma pequena parte das serras de S. Jorge, Boaventura e Poiso são
propriedade do Estado, pertencendo a particulares todos os demais terrenos da região montanhosa da ilha,
à excepção do Montado do Barreiro, recentemente adquirido pela Camara Municipal da Funchal, e dos
montados comprados pela Junta Agricola da Madeira.
Há na ilha cerca de 30:000 hectares de terrenos incultos. Alguns antigos baldios da serra do Monte estão
agora revestidos de pinheiros, e bom seria que a plantação destas árvores se estendesse a outros pontos da
região montanhosa, a fim de acautelar o mal que nos ameaça de termos um dia falta de lenhas para as
necessidades da população. O Paul da Serra, que o povo teve licença para aproveitar nos tempos do governo
de D. João VI, poderia produzir o pinheiro de Canarias, essencia esta que no entender do sr. Dr. Jorge Perez
é muito propria para a arborização da zona superior da nossa ilha.
Os baldios eram, noutros tempos e em grande parte, separados dos terrenos cultivados por meio de sebes
ou tapumes, feitos de estacas e ramos de arvores, que têm o nome de bardos, principalmente destinados a
impedir que os gados assaltem as culturas agricolas.
Vid. Barreiro.
Baldy (Dr. José Maria)
Nomeado governador civil e comandante militar da Madeira a 9 de
Março de 1858, quando entre nós exercia o logar de director das Obras Publicas, havendo tomado posse a
26 de Abril seguinte. Deixou honrosas tradições na administração superior deste distrito, a pesar do curto
periodo do seu governo.
Era doutor e lente da Universidade de Coimbra, marechal de campo e par do reino.
Nasceu em Lisboa a 16 de Maio de 1800 e morreu em Coimbra a 4 de Setembro de 1870. Era filho do
distinto musico e compositor João José Baldy.
Baleias
Ao largo das ilhas deste arquipelago passam de vez em quando enormes cetaceos a que
comummente chamam baleias, mas que podem ser ou verdadeiras baleias, ou os seus proximos parentes os
cachalotes. Embora não seja muito rara a passagem destes mamiferos, especialmente no verão, não existe
nestas ilhas a industria da caça da baleia, nem tão pouco a de qualquer outro cetaceo.
Algumas carcaças já meio apodrecidas são de tempos a tempos arrojadas à costa, sendo a ultima de que há
noticia a que encalhou há alguns anos na Ponta Delgada, ao noroeste do Porto Santo. Estes despojos
continham ainda grande parte da coluna vertebral, algumas costelas e parte das regiões ventral e peitoral.
As profundas pregas observadas no abdomen pareciam indicar uma especie do grupo dos balenopteros.
Em Maio de 1905 um baleote, talvez ainda pouco experiente, viu se preso entre um banco de areia e a costa,
junto à grande praia do Porto Santo e em frente do Campo de Baixo. Foi facil aos moradores do sitio a
captura do animal, cujo toucinho produziu dezenas de galões de oleo.
As grandes vertebras destes animais fazem às vezes parte do mobiliario caseiro da gente pobre, sendo
usadas como bancos ou mochos, depois de debastadas as arestas.
Flutuando à superficie do mar, é encontrada de vez em quando, coagulada pelo resfriamento, a substancia
branca e oleosa que preenche a cavidade do cranio dos cachalotes. Esta substancia, conhecida
universalmente pelo nome de espermacete, é designada entre os pescadores madeirenses pela bizarra
expressão de gomito de baleia, por suporem ser um produto do vomito dos grandes mamiferos marinhos.
Baleira (Vila)
O concelho e ilha do Porto Santo têm como sede ou capital a vila do mesmo nome, a
que se dá também a denominação de vila Baleira. Este nome é, por certo, muito antigo, mas parece que
pouco usado, ainda mesmo nos tempos primitivos da colonização. Pelas raras referencias que a ele temos
encontrado em documentos antigos, julgamos que esta estranha denominação foi gradualmente caindo em
desuso, e, desta maneira, se foi também a pouco e pouco sepultando no mais completo esquecimento.
Somente de longe em longe, e apenas em documentos de caracter oficial escritos na ilha, se descobre ainda
a vila Baleira, talvez como vestigio da antiga prosapia dos seus moradores e das velhas tradições fidalgas dos
descendentes de Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatario do Porto Santo.
Qual é a origem deste nome? Não sabemos. O dr. Rodrigues de Azevedo, na nota XII às Saudades da Terra,
diz a tal respeito textualmente o seguinte:
*O nome Vila Baleira é de origem desconhecida: mas, reflectindo em que Baleira tem a mesma raiz, bal, da
primeira forma do apellido Perestrello. e combinando este elemento com o desinencia eira facilmente se
reconhece que Villa Baleira é denominação significativa de que a villa de Porto Sancto fora fundada por
Perestrello: é como se dissessemos Villa de Perestrello. O nome da villa conservou as lettras da primitiva
forma, em quanto que o appelido de familia as substituiu pelo modo que já vimos quando tractámos de
Bartholomeu Perestrello (nota X, pag. 446): e tão diversos ficaram, que parecem palavras extranhas uma a
outra, sendo, aliás, congeneres, como fica dicto. É isto grave presumpção de que a mesma villa foi fundada
por Bartholomeu Perestrello.
É bem estranha esta explicação e é sem duvida levar muito longe a transformação rapida duma palavra, que
dentro de pouco tempo passou como por encanto de Perestrello para Baleira. A pesar da grande erudição do
anotador de Gaspar Frutuoso e dos grandes conhecimentos filologicos que possuía, podemos aqui aplicar o
conhecido proloquio: aliquando dormitat Homerus. Já alguém aventou a ideia de que a palavra Baleira era
um vocabulo muito grato à familia Perestrelo, porque designava o logar onde ela possuía um solar, ou teria
sido o berço dos seus avoengos. Não podemos negá lo, mas também não temos razões para afirmá lo com
algum fundamento sério.
Encontram se na Madeira diversos nomes de sitios e logares, que o foram e são ainda de algumas povoações
de Portugal, principalmente no Algarve, donde veio o numero mais crescido dos primitivos colonizadores
deste arquipelago. Assim o sitio do Boliqueme, na paroquia de Santo Antonio, é o nome duma freguesia
daquela provincia. No Algarve existe uma aldeia com o nome de Baleeira, que facilmente se poderia
corromper em Baleira. É o proprio dr. Azevedo que o lembra, talvez penitenciando se da arrojada explicação
que anteriormente tinha dado. A Baleeira ou Baleira do Algarve é uma aldeia maritima, e de mais nas
proximidades de Sagres onde o infante D. Henrique residia e tinha a sua escola de nautica e a cuja casa
pertencia Bartolomeu Perestrelo, o primeiro donatario do Porto Santo e o fundador da primitiva povoação
que ali se estabeleceu.
Não se conhece o alvará regio que deu foros de vila à povoação do Porto Santo. Encontra-se a este respeito,
na nota XVI às Saudades, o seguinte: ...inferimos, na falta dos respectivos diplomas, que a povoação da ilha
do Porto Santo, depois chamada Villa Baleira, e a de Machico foram tambem elevadas a villas e municipios
pelos annos tambem de 1452, em que a doação desta teve a confirmação regia: e é certo que estas villas são
apontadas na tradição como primitivas.
A povoação e depois vila do Porto Santo ou de Baleira progrediu e desenvolveu se nos tempos primitivos da
colonização, mas pouco mais dum seculo depois da descoberta começou a entrar em decadencia e tem
permanecido desde então num estado quasi estacionário, a pesar da adopção de algumas medidas
governativas, nomeadamente as do Marquês de Pombal (V. Quintos e Oitavos), destinadas a fazê la
progredir e levantá la dessa decadencia em que desde há seculos se encontra.
Esta vila é a sede do municipio e da unica freguesia do Porto Santo.
V. Porto Santo (Municipio do), Porto Santo (Fregresia do) e Porto Santo
(Ilha do).
Balsamo (Mesembrianthemum edule)
Planta vivaz do Cabo da Boa Esperança,
introduzida em 1834 na ilha do Porto Santo, onde é agora muito comum. Tem folhas opostas, carnudas e
trigonais, e flores amareladas. Encontra se também nos jardins da Madeira.
Balsamo de canudo (Kleinia repens)
Planta vivaz da familia das Compostas, bastante
cultivada em varios pontos da Madeira. Tem folhas carnudas e glaucas, cujo suco resinoso é muito
empregado no tratamento de feridas e originaria do Cabo da Boa Esperança.
Balsamo de cheiro (Heliotropium peruvianum)
Borraginacea arbustiva de flores
azues e odoriferas cultivada em quasi todos os jardins da Madeira.
Balseira
Era a associação da vinha e de certas arvores, de ordinario, os castanheiros. 0 sistema de
apoiar ou enlaçar a vinha sobre as arvores está hoje abandonado, mas existiu em toda a costa do norte antes
do aparecimento do Oidium Tuckery nos vinhedos da ilha.
Bambus
São conhecidas por esta designação as especies seguintes, pertencentes à familia das
Gramineas:
Bambusa arundinacea, B. nana, B. mitis Phyllostachys nigra, Arundinaria falcata e A.
metake. A primeira reconhece se pelos seus colmos grossos e altos, usados às vezes para pau de rede; a
segunda, extremamente frequente nas quintas e jardins, pelas suas folhas lanceoladas, um tanto glaucas; a
terceira pelas suas folhas verdes e estriadas; a quarta pelos seus colmos negros; a quinta pelos seus colmos
providos de ramos alongados, com folhas lineares lanceoladas, muito agudas; e a sexta pelas suas folhas
lanceoladas, verde escuras, de pontas muito agudas.
Os bambus oriundos quasi todos da India, China ou Japão, são muito ornamentais e costumam ser
empregados em sebes dentro das quintas. A Bambusa nana (B. viridi glaucescens) fornece boas canas de
pescar.
Bananeira
A bananeira anã e a de prata são as mais cultivadas na Madeira, sendo a primeira a Musa
Cavendishii, e a segunda uma variedade da M. Sapientum.
A banana destinada à exportação é produzida unicamente pela bananeira anã, que se reconhece facilmente
pelos seus caules de l,m30 a l,m70 de alto e pelos seus regimes muito grandes, comportando às vezes mais
de duzentos frutos.
Esta bananeira, conhecida também pelo nome de bananeira de Demerara por ter sido importada daquele
país, é oriunda da China e cultivada na ilha desde 1842 ou 1843.
Bananeira de prata, muito menos frequente que a anã, começou a ser cultivada na Madeira pelos fins do
segundo quartel do seculo XIX, e reconhece se pelos seus caules de três a quatro metros e pelos seus
regimes mais pequenos e com cinquenta a cento e trinta frutos, de um lindo amarelo exteriormente.
Estes frutos são saborosissimos e um pouco acidos, mas têm o inconveniente de se desprenderem com
facilidade do eixo, o que os torna improprios para a exportação.
A cultura da bananeira já existia na ilha em 1552, pois que dela fala Nichols, viajante inglês que esteve aqui
naquele ano. Provavelmente era a bananeira chamada da terra a que então existia na ilha, a qual é também
uma variedade da Musa sapientum, distinguindo se da bananeira de prata pelos seus frutos um tanto rijos
na parte interna e menos saborosos e aromaticos.
A bananeira da terra é hoje rarissima na Madeira, e o mesmo se pode dizer acerca da bananeira *plantina+
(Musa paradisiaca), cujos frutos muito grandes se comem fritos ou cozidos.
A bananeira de frutos roxos, a bananeira maçã e a bananeira de senhora são variedades da Musa sapientum,
que se não têm vulgarizado.
A Madeira exportou 550:000 quilogramas de bananas em 1911, 493.990 em 1912 e 619:790 em 1913, no
valor respectivamente de 27:000, 24:703 e 30:000 escudos. Admite se que a exportação da banana regulou
nesses anos por dois terços da produção.
Os caules da bananeira depois de cortados e reduzidos a pequenos pedaços, constituem uma boa forragem,
à qual se adiciona o farelo. Os donos dos estabulos costumam adquiri los para alimentação dos bois.
A bananeira, como a cana de açucar, é uma planta que só deve ser cultivada na região inferior da Madeira.
Acima de 200 ou 300 metros os seus frutos são mais pequenos que os produzidos no litoral, e na altitude de
600 metros só dificilmente frutifica, como por mais duma vez temos tido ocasião de notar.
O cultivo da bananeira constitue uma das mais apreciaveis fontes de riqueza publica na Madeira, sendo os
seus frutos largamente exportados para o continente português e também para diversos países estrangeiros.
A superioridade das suas qualidades nativas, em confronto com os produtos seus similares de outras
regiões, vão lhe já adquirindo uma fama quasi universal, que no decorrer do tempo há de cada vez mais
espalhar se e consolidar se por toda a parte. Era para desejar o aparecimento duma monografia cientifica,
em que a historia da banana madeirense, a sua composição, a sua acção fisiologica, as suas virtudes
terapeuticas, o seu valor alimenticio, o modo mais racional do seu uso etc., fossem postos em saliente relevo
com a comprovada competencia e com a necessaria probidade, que a natureza do assunto estavam
imperiosamente a exigir. Acaba de preencher esse fim o trabalho, por muitos titulos valioso, que o dr.
Vicente Henriques de Gouveia publicou em segunda edição, no ano de 1939, subordinado à epigrafe A
Banana/Fruto de Todo o Ano/Alimento Medicamento. É livro para ler se e apreciar se devidamente e
também agradecer se ao seu autor o assinalado serviço que veio prestar à sua terra.
Bancos
Têm agencias na Madeira as seguintes instituições de credito continentais: Banco de Portugal,
Banco Nacional Ultramarino e Companhia Geral de Credito Predial Português. Não existe agora nenhum
banco com sede na Madeira, mas além das referidas agencias, há no Funchal diversas casas que fazem em
maior ou menor escala as operações proprias dos estabelecimentos bancarios.
A agencia do Banco de Portugal já existia em 1876, estando então a cargo do negociante João José
Rodrigues Leitão, que viera para a Madeira em 1853, mas como este negociante falisse em 1878, foi a
mesma agencia entregue a Tomás Antonio Gomes, que dela tomou posse a 15 de Julho desse ano.
Por causa da falencia de João José Rodrigues Leitão, esteve na Madeira o Director do Banco de Portugal
Henrique de Barros Gomes, que conseguiu que entre o negociante falido e os seus credores se celebrasse um
contrato bastante favoravel aquele estabelecimento de credito. Por esse contracto todos os bens do
negociante falido foram hipotecados ao Banco, garantindo este aos demais credores o embôlso de 50 por
cento dos seus creditos pagos em três prestações. Antes da falencia, o penhor a favor do Banco era
constituido especialmente por vinhos, aos quais fora dado o valor de 102:464$408 réis.
Desde os principios de 1888 que a agencia do Banco de Portugal nesta ilha é caixa do tesouro pelas
operações a fazer com o Estado, isto de harmonia com o estabelecido do contracto de 10 de Dezembro de
1887. Nos primeiros tempos, isto é, antes da constituição definitiva da agencia com as atribuições que lhe
foram dadas pelo mesmo contrato, serviu de agente provisorio do Banco nesta ilha o antigo tesoureiro
pagador Raimundo Sieuve de Meneses.
De 1904 até o presente têm sido agentes do Banco de Portugal nesta ilha os seguintes funcionarios:
Comendador Luiz de Freitas Branco, Henrique Augusto Vieira de Castro, Eduardo Martins da Silveira,
Fernando Ferro, Conselheiro Henrique de Sá Nogueira, Francisco Camilo Meira, Raul Rodrigues Cohen e
Antonio Noronha de Barros. O Banco há muitos anos que mantém dois agentes seus na direcção dos
negocios da sua agencia na Madeira.
A agencia do Banco de Portugal no Funchal, além de ser caixa do Governo, faz emprestimos sobre papéis de
credito, compra e vende cambiais, saca e desconta letras, passa cartas de credito, etc.. Também recebe
depositos, mas não paga por eles juro algum.
A filial do Banco Nacional Ultramarino foi instalada a 10 de Fevereiro de 1919, e faz as mesmas operações
bancarias da agencia do Banco de Portugal, com a diferença apenas de pagar um certo juro pelos depositos a
prazo e à ordem que recebe. Em ambas estas agencias a taxa do juro é 6 por cento.
O Banco Commercial de Lisboa esteve representado outrora nesta ilha pela firma comercial Freitas &
Macedo, que faliu em 1881, e o primeiro agente da Companhia Geral de Credito Predial Português foi o já
mencionado João José Rodrigues Leitão. O Banco Nacional Ultramarino possuía um representante na
Madeira antes da criação da filial a que já nos referimos, tendo sido o falecido negociante Luiz Gomes da
Conceição quem primeiro desempenhou aqui este cargo.
A 1 de Junho de 1875 instalou se no Funchal o Banco Commercial da Madeira, sociedade anonima de
responsabilidade limitada, tendo os seus estatutos a data de 25 de Abril de 1875. Segundo estes estatutos, os
fins do banco eram: emitir notas ao portador, pagaveis em ouro ou prata; receber depositos em conta
corrente e a prazo fixo, abonando juros aos depositantes; descontar letras de cambio e da terra, titulos
comerciais e á ordem e titulos do estado e de quaisquer estabelecimentos publicos; fazer emprestimos sobre
hipotecas, titulos da divida publica, acções de bancos e companhias e objectos de ouro e prata; tomar letras
de cambio e de risco maritimo; fazer liquidações de heranças e operações de credito agricola e industrial,
etc., etc..
Segundo os mesmos estatutos, o capital social era de 1:200 contos divididos em acções de 100$000 réis,
devendo a emissão do capital ser feita em duas series de 600 contos cada uma, constituindo a primeira
serie, já emitida em 24 de Abril de 1875, o fundo inicial destinado às operações do banco. A maior parte das
acções tinha sido tomada na cidade do Porto.
Fizeram parte da primeira direcção do banco os cidadãos João de Sales Caldeira, Carlos Bianchi e José
Paulo dos Santos, e do primeiro conselho fiscal os cidadãos William Hinton, Manuel Inisio da Costa Lira,
Roberto Wilkinson, Antonio Caetano Aragão e Manuel Figueira de Chaves. O primeiro presidente da
assembleia geral foi Severiano Alberto de Freitas Ferraz.
Dos relatorios que temos presentes relativos às gerencias do Banco Commercial da Madeira, vê se que o
activo e passivo deste estabelecimento foi o seguinte nos anos abaixo designados:
Em 1877 ................... 1.273:156$226 réis
Em 1879 ................... 1.195:087$258 *
Em 1884 ................... 1.170:142$412 *
Em 1885 ................... 1.167:733$507 *
Em 1856 ................... 1.194:311$844 *
O banco teve 39:942$732 réis de lucros em 1877 e 32:851$757 réis em 1879, distribuindo no primeiro destes
anos a quantia de réis 36:000$000 pelos accionistas, e no segundo a quantia de 28:125$000 réis. Em 1884,
1885 e 1886 já o banco não distribuíu dividendo, havendo no segundo destes anos 6:000 acções emitidas,
sendo 3:197 nominativas e 2803 ao portador.
O Banco Commercial da Madeira dissolveu se em 1887, com prejuízos para os accionistas, tendo concorrido
bastante para este resultado o estarem mal garantidos muitos dos seus capitais. A desvalorização que
sofreram as propriedades em virtude da molestia que devastou os canaviais, agravou bastante a situação do
banco, a qual, como se vê do relatorio apresentado em assembleia geral de 29 de Janeiro de 1880, não era já
muito prospera em 1879, devido ao retraimento de capitais, provocado pela lei da unificação da moeda. Já
no ano de 1878 tinha a extraordinaria alta dos cambios obstado à transferencia de fundos, operação esta
que dera anteriormente excelentes vantagens ao banco.
Em 1800 recomendou o governo da metropole numas instruções que dirigiu ao Governador e Capitão
General D. José Manuel da Camara, a criação duma caixa de credito na Madeira, e em 1 de Julho de 1824
enviou o Governador e Capitão General D. Manuel de Portugal e Castro uma representação ao governo
central, pedindo a criaçao dum banco no Funchal. Tais estabelecimentos não chegaram a ser criados, e o
mesmo aconteceu com outros da mesma natureza que se pretendeu fundar mais tarde nesta cidade. No
numero 169 do Imparcial, de 1843, vem publicado na integra um projecto de regulamento para a criação
dum banco na Madeira, e no numero 145 e seguintes do jornal A Ordem, de 1854, encontra se o projecto
apresentado ao governo para a criação dum banco comercial e agricola na ilha.
A Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericordia resolveu em 1873, de harmonia com o disposto
na lei de 22 de Junho de 1867, fundar nesta cidade um banco de credito agricola e industrial com a
importancia dos seus capitãis mutuados, admitindo accionistas para com o produto das acções elevar o
capital do banco, mas a pesar de ter havido para este fim uma reunião no Palacio de São Lourenço no dia 10
de Julho do mesmo ano, em que se estabeleceu que as acções fossem de 20:000 réis cada uma e que a
subscrição fosse aberta imediatamente, não chegou a referida instituição a ser uma realidade, por motivos
que inteiramente desconhecemos.
Em 1886 aconselhou o falecido Conde do Canavial a criação dum banco industrial na Madeira para
emprestar dinheiro a juro modico à industria e à agricultura, mas essa ideia, já apresentada em 1879 pelo
mesmo titular, não foi aproveitada, com o que bastante sofreu a nossa terra, onde era grande a falta de
recursos pecuniarios, devido à falencia de cinco das mais importantes casas comerciais, com um prejuízo de
cêrca de 1:600 contos, e à crise agricola provocada pelo desaparecimento da cana sacarina.
Houve tempos em que a Santa Casa da Misericordia e a Caixa dos Orfãos emprestavam dinheiro ao juro de
5 por cento; eram porém tão diminutas as quantias de que essas instituções podiam dispor, que bem poucos
eram aqueles que conseguiam obter capitais para as suas transações, em condições tão vantajosas. Os
particulares exigiam quasi sempre o juro de 12 e 15 por cento, e não faltava quem tomasse dinheiro a vintém
por pataca ao mês, juro este correspondente a 24 por cento ao ano.
Ha quarenta anos os bancos emprestavam dinheiro a 8 por cento, tendo o emprestado antes disso a 12 por
cento, e ainda hoje é frequente fazerem se emprestimos e descontos na primeira destas condições, a pesar
das agencias do Banco de Portugal e do Banco Nacional Ultramarino terem estabelecido desde há muito o
juro de 6 por cento para as transacções que realizam. Certas formalidades exigidas pelas agencias destes
bancos, e ainda outras circunstancias, dão motivo a que nem todos possam aproveitar se das vantagens que
elas oferecem, sendo a falta de capitais baratos uma das causas da nossa industria e agricultura lutarem por
vezes com graves embaraços, e de certas iniciativas uteis que de longe em longe aparecem, nem sempre
serem coroadas de prospero resultado.
As casas bancarias estabelecidas agora no Funchal são as de Blandy Brothers & C., Henrique Figueira da
Silva, Reid Castro & C.a, Rocha Machado & Ca e Sardinha & C.a. Estas casas que realizam as operações
bancarias exigidas pelo comercio do Funchal, e ainda outras, estão todas em estado bastante prospero,
devido à sua excelente administração e à confiança de que gozam no mercado (1922).
Sobre a maneira como em antigos tempos se faziam transferencias de fundos ou se obtinha dinheiro por
emprestimo para satisfazer compromissos comerciais, nada de positivo podemos dizer, mas é licito supor
que fossem. Os flamengos os primeiros que se entregaram aqui a operações bancarias, seguindo se lhes os
ingleses que, como é sabido, adquiriram grande proponderancia nos negocios da Ilha, do meado do seculo
XVII em diante.
As varias tentativas que se fizeram desde 1800 até 1873 para a fundação de estabelecimentos de credito na
Madeira, mostram que havia o desejo de criar para o comercio, para a industria e para a agricultura
madeirenses vantagens de que estas classes não gozavam,sendo na verdade para estranhar que nenhuma
dessas tentativas desse resultado, quando é sabido que os agiotas que então abundavam na ilha raras vezes
emprestavam dinheiro com interesse inferior a 10, 12 e 15 por cento, o que constituía uma exploração a que
convinha pôr termo.
Em 23 de Junho de 1920 abriu o Banco da Madeira, que ficou instalado provisoriamente no rés do chão
dum prédio à rua do Comercio. O capital, que a principio era de 1.000:000$00, foi elevado depois a
2.000:000$00 e finalmente à quantia de 4.000:000$00, tendo a data de 7 de Janeiro de 1921 o decreto que
autorizou a constituição definitiva do mesmo Banco.
Banda de Além
Sítio povoado da freguesia de Machico, que ocupa uma parte consideravel da vila do
mesmo nome e que fica situado na margem esquerda e proximo da foz da ribeira. Ali vive a maior parte dos
individuos que naquela localidade se entregam à industria da pesca, constituindo um dos mais importantes
centros piscatórios do arquipelago. Neste sitio fica a histórica capela do Senhor dos Milagres, cuja fundação
anda ligada ao facto do descobrimento e primitiva colonização desta ilha. É o centro da mais concorrida
romagem da Madeira, realizada a 9 de Outubro de cada ano, afluindo ali, por essa ocasião, alguns milhares
de pessoas. Deste sitio parte uma bela estrada, que em parte margina a pitoresca enseada e conduz
directamente ao cais de desembarque. Tem 243 fogos e 1090 habitantes.
Banda de Além
Neste sitio, da freguesia da Madalena do Mar, existiu e ainda ali se encontram as
ruínas duma antiga capela dedicada a Santa Quiteria, que foi fundada pelo padre Diogo de Freitas Faria, em
ano que se ignora.
Bandeira Coelho (José)
José Bandeira Coelho de Melo foi representante da Madeira como par
do reino electivo, na sessão parlamentar de 1894 a 1895. Morreu em Novembro de 1897.
Bandeira Coelho (Luiz)
Foi eleito deputado por este arquipelago para a legislatura de 1890.
Bandeira da Cidade
Carlos Azevedo de Meneses, co autor deste Elucidario, pouco tempo antes do seu
falecimento, escreveu um excelente artigo acerca da Bandeira da Cidade, que queremos deixar aqui
arquivado, por conter interessantes informações inéditas e pouco conhecidas sobre este assunto. Foram por
ele colhidas nos arquivos da Camara Municipal, em que durante muitos anos foi um zeloso e distinto
funcionário, conferindo lhe assim uma autoridade especial e digna do maior credito. Este escrito traz novos
elementos ao que já atrás ficou dito no artigo subordinado ao título Armas, para onde remetemos o leitor.
“Duns apontamentos e capitulos que tem a data de 1461 e se acham registados no tomo do Arquivo da
Camara Municipal, se vê que a primeira bandeira que teve o Funchal nos tempos em que existia a capitania,
foi enviada pelo infante D. Fernando que, como se sabe, ficou com o senhorio do arquipelago depois do
Ý
alecimento do infante D. Henrique.
Que côr e que emblemas tinha essa bandeira não o podemos dizer; o que sabemos é que mais tarde, em
1563, figurava na bandeira da cidade a imagem do apostolo S. Tiago, e que desde o seculo XVII até à
proclamação da Constituição em 1834, foi sempre branca a mesma bandeira, tendo dum lado as armas reais
e do outro as da cidade.
Conduzia o estandarte municipal o procurador do concelho, o qual eram ocasiões de exequias ou de
aclamação de monarcas ia a cavalo, levando a haste do estandarte sobre o ombro direito e atrás de si dois
criados.
Nas exequias dos antigos reis figurava uma bandeira preta em que se viam dum lado as armas reais e do
outro as armas municipais, mas em tempos mais modernos deixou essa bandeira de aparecer em ocasiões
de luto nacional, vendo se em seu logar a bandeira branca do Municipio mas com as armas cobertas de
crepe.
Em 1815 mandou a Camara do Funchal vir de Lisboa um estandarte que importou em 524$000 réis, por ter
sido confeccionado com os tecidos de sêda mais finos que havia na capital, resolvendo se que para não
afectar as finanças municipais, dessa importancia os vereadores pagassem 174$000, ficando a cargo da
Camara o pagamento da quantia restante. A final de contas veio o preço do estandarte a sair unicamente
dos bens do Concelho, segundo se vê numa nova deliberação tomada posteriormente pela Camara.
Com a implantação do governo constitucional e a adopção das cores azul e branca para a bandeira nacional,
deixou de ser branco o estandarte da cidade, não sofrendo porém alteração as armas que nele figuravam,
pois que foi depois de 1834, segundo todas as probabilidades, que nas mesmas armas se fêz a substituição
duma das canas de açucar por um ramo de videira.
Ouvimos algumas vezes a um antigo empregado municipal que a bandeira que durante largos anos figurou
nas cerimonias oficiais em que a Camara tinha de comparecer, pertencera, à guarda nacional, mas o que não
conseguimos averiguar é se o ramo de videira que nela se via pertencia à bandeira primitiva ou se era
alguma substituição feita em épocas mais modernas.
A bandeira a que nos referimos e que chegámos a conhecer, levou descaminho, quando é certo que deveria
ter sido religiosamente conservada para figurar um dia em qualquer museu municipal.
A bandeira azul e branca que veio substituir a antiga bandeira da guarda nacional, acha se muito bem
conservada e está guardada no arquivo da Camara. Tem num dos lados, como de costume, as armas reais, e
do outro as da cidade, sendo o escudo destas ultimas esverdinhado, e a orla, coroa, ramo de videira e pãis de
açucar prateados.
Depois de proclamada a Republica, mandou a Camara fazer uma bandeira com as cores nacionais, mas em
que só figuram as armas da cidade num dos lados dela, não tendo o outro lado ornato algum. O escudo é
dum verde muito escuro, a orladura, pãis de açucar e coroa são prateados, e a cana é verde, mas
distinguindo se bem do verde da bandeira, sobre o qual assenta. O ramo da videira é tambem verde.
Parece que a bandeira a que acabamos de referir nos e que foi mandada fazer pela Camara do Funchal
estava no caso de ser adoptada pela municipalidade devendo apenas adicionar se lhe as armas nacionais,
visto estas terem figurado sempre no estandarte da Camara; não o entendeu porém assim a vereação que
dirigiu os negocios do municipio até 31 de Dezembro de 1922, e daí o ter mandado fazer um novo
estandarte, sendo recolhido o que o precedera no mesmo armario em que se acha a ultima bandeira
municipal do tempo da monarquia.
O estandarte que figura agora nas cerimonias em que a Camara tem de comparecer é branco, como nos
tempos do absolutismo, e tem dum e doutro lado as armas do municipio, o que é contrario não só às antigas
praxes, mas talvez mesmo às ordens emanadas do poder central. O escudo é verde, com orla amarela, a
coroa é tambem amarela e os pãis de açucar são brancos, estando a cana e o ramo da videira, ambos de cor
verde, unidos na base por meio duma fita encarnada e verde onde se - à nobre e leal cidade do Funchal o
que é também uma innovação.
Além do estandarte de que acabámos de falar, tem a Camara uma grande bandeira que é hasteada nos Paços
do Concelho nos dias feriados ou de regozijo nacional. Esta bandeira, que é branca, foi também mandada
fazer pela referida vereação e é um trabalho artistico, de valor, mas em que se não acataram preceitos
respeitaveis estabelecidos em antigos tempos e que nenhumas razões havia para rejeitar. As duas bandeiras
actuais do municipio foram mandadas fazer em sessão camararia de 2 de Outubro de 1919.
Dissemos atrás que era o procurador do concelho quem levava outrora o estandarte municipal, mas depois
que esse cargo desapareceu, o portador da bandeira passou a ser o vereador mais novo, hábito este que
durou até nossos dias. Se algumas vezes o secretario da Camara, conhecido hoje pela designação de chefe da
secretaria, tem levado o estandarte municipal, não é porque tenha qualquer direito a isso, mas porque se
tornou necessario, ainda em tempos da monarquia, autorizar esse abuso para evitar disputas entre
vereadores de pouca idade, desejosos de sobressair como portadores do mesmo estandarte nas cerimonias
oficiais em que tomava parte a municipalidade funchalense».
Para melhor esclarecimento do que fica transcrito, convém acrescentar que este artigo foi publicado no
Diario da Madeira, de 27 de Março de 1927.
Vid. Armas.
Bando
Era o pregão publico pelo qual se dava conhecimento ao povo das ordens do Governo e das
Municipalidades. O pregoeiro, que em se tratando de ordens municipais era o porteiro da câmara, saía
acompanhado de um corneta do regimento, que ia tocando pelas ruas da cidade a fim de chamar o povo a
vir tomar conhecimento das mesmas ordens. O edital era lido em voz alta pelo porteiro, e afixado em
seguida nos logares do estilo. A ultima vez que houve bando no Funchal foi por ocasião das exéquias de D.
Luiz I.
Banger (John Light)
Comerciante inglês que fez construir na praia desta cidade uma alta coluna
que se ficou chamando pilar de Banger. Teve em 1801 privilegio pela Câmara para se servir de uma estufa
destinada a purificar o grão.
A construção do pilar de Banger ficou concluída em 1798, e custou 1350 libras esterlinas. Este pilar teve nos
primeiros tempos uns guindastes que serviam para transportar as mercadorias dos barcos para a terra;
presentemente serve de posto de sinais à casa Blandy.
O Pilar de Banger, tão apreciado pelos madeirenses e tão conhecido por todos os que desembarcavam no
cais da Entrada da Cidade, foi demolido no ano de 1939, a pesar dos protestos da imprensa local e sem
haver motivos ponderosos que inteiramente justificassem essa demolição.
Poucos dias antes de praticar se esse atentado, publicou um jornal desta cidade, as seguintes palavras, que
queremos deixar aqui arquivadas:
Vai consumar se o atentado. Está decretada a execução capital. O típico, o original, o característico obelisco
da rua da Praia terá que desaparecer da face da terra. Dentro de breves dias será inexoravelmente lançado
nas mais profundas geenas do esquecimento. Assim o decidiram os altos destinos das cousas humanas. Não
pode conseguir se uma moratória, um indulto, uma comutação de pena. Cumpra se sem demora e sem o
menor recurso, apelo ou agravo a fatalissima sentença.
Não se trata, evidentemente, duma obra de arte, que devera ser religiosamente respeitada, duma recordação
histórica, que seria preciso defender, dum objecto arqueológico digno de estudo, que convinha conservar.
Todos o sabem e todos o reconhecem.
Mas, como se tem dito e redito, a verdade é que o antigo e interessante pilar criou um ambiente próprio ao
local em que se ergue altaneiro, dando lhe uma fisionomia muito especial e muito característica, que
merecia ser veneradamente guardada com o maior carinho, respeito e apreço. Todos sabem que há mais
dum século (a velha coluna tem 49 anos de existência) a gravura, a litografia, a tela a óleo e nos nossos dias
a fotografia vão reproduzindo indefinidamente esse local e seus contornos, que faz parte integrante da nossa
riquissima paisagem contemplada do mar, e que não deixa de ser admirado e apreciado pela centena de
milhar de forasteiros que anualmente nos visitam.
Bang up
Nome dum iate que esteve na Madeira e Porto Santo em 1829. 0 proprietário deste navio
escreveu uma descrição da viagem que fez à segunda destas ilhas, que foi traduzida e publicada no Diário do
Comercio, antigo jornal funchalense.
Banks. (José)
Distinto botânico inglês falecido em Londres, com 80 anos de idade, a 19 de Maio de
1820. Esteve na Madeira desde 12 a 18 de Setembro de 1768, na qualidade de botânico da primeira
expedição comandada pelo capitão Cook, tendo levado desta ilha grande numero de plantas em flor, assim
como várias informações respeitantes a assuntos de historia natural. Dos manuscritos de Banks se vê que
ele e o seu companheiro o Dr. Solander colheram na Madeira 255 espécies, a pesar da estação não ser das
mais adequadas a explorações botânicas. O pequeno herbario dos dois naturalistas está depositado no
Museu.
Baraço
Assim chamam na Madeira à estaca de qualquer planta da família das Cucurbitaceas. Um
baraço de aboboreira, por exemplo é um ramo que se corta da planta mãi, destinado à multiplicação da
espécie.
Baratas
Destes insectos ortopteros são frequentes na Madeira as duas espécies seguintes: Blatta
Maderae e B. decipiens. A primeira espécie é a barata das casas.
Baratas de água
Insectos coleopteros dos géneros Colymbetes e Agabus, frequentes nos charcos e
nas águas correntes, especialmente no interior da Madeira.
Baratissimo (O)
Publicaram se 13 números desde 17 de Julho a 9 de Outubro de 1852, sendo
suspenso por abuso de liberdade de imprensa.
Barba de bode (Deschampsia argentia)
Graminea vivaz, muito frequente nas rochas e
lugares húmidos do interior da Madeira. Tem pouco valor como planta forraginosa.
Barbeiros (Baixa, Enseada e Porto dos)
Na ilha do Porto Santo, entre as pontas da Cruz
e do Ninho do Guincho, fica o baixio dos Barbeiros, que se estende na Enseada deste mesmo nome, também
conhecida por Enseada de Guilherme, e não se encontra ainda um pequeno desembarcadouro com o igual
nome de Porto dos Barbeiros.
Barbeito da Silva (João)
Este oficial do exército nasceu no Funchal a 3 de Agosto de 1855. Em
1889 publicou em Lisboa dois opúsculos intitulados Escola Pratica de Infantaria e Cavalaria; secção de
infantaria, acantonamento e Escola Pratica de Infantaria e Cavalaria; secção de infantaria, bivaques.
Faleceu em Lisboa no ano de 1932.
Barbosa
Diz o anotador das Saudades da Terra que o uso deste apelido de família entre nós provém de
Pedro Barbosa, natural de Viana do Castelo, que foi um dos antigos povoadores desta ilha.
Barbosa de Matos e Câmara (João)
Nasceu nesta ilha, e era formado em direito pela
Universidade de Coimbra.
Representou a Madeira no parlamento na sessão legislativa de 1858 a 1869 e faleceu no Funchal a 28 de
Maio de 1906.
Barbosa du Bocage (José Vicente)
É José Vicente Barbosa du Bocage um dos mais
distintos madeirenses e o mais ilustre homem de ciência que tivesse nascido neste arquipelago.
Era filho de João José Barbosa du Bocage, próximo parente do grande poeta Bocage, e de D. Josefa Ferreira
Pestana, irmã do ilustre madeirense o conselheiro José Ferreira Pestana, e nasceu nesta cidade a 2 do mês
de Maio do ano de 1823. Tendo apenas 5 anos de idade, acompanhou seus pais para o Brasil, fugindo à
perseguição política que o governo miguelista movia nesta ilha aos que se mostravam afectos às ideias
liberais. Regressando à Madeira em 1834, cursou o liceu do Funchal e em 1839 matriculou se na
Universidade de Coimbra, onde se formou na faculdade de medicina.
Pouco se dedicou ao exercício da clinica medica e antes se consagrou quasi exclusivamente ao estudo da
zoologia, em que foi mestre abalizado. Fez concurso para a cadeira da Escola Politécnica em que se
professava aquela matéria e nela foi provido, dando aos estudos zoológicos uma orientação inteiramente
nova entre nós, sendo considerado como o verdadeiro criador daquele ramo de ciência no nosso país,
debaixo dum ponto de vista rigorosamente cientifico e em harmonia com os progressos realizados por
notáveis sábios estrangeiros. Imprimiu a esses estudos uma feição essencialmente pratica, do que são prova
eloquentissima as magníficas colecções que organizou, merecendo especial menção a do gabinete de
historia natural da Escola Politécnica. É vasta e valiosa a sua obra cientifica, que lhe abriu as portas de
muitas academias estrangeiras e lhe conquistou lá fora os créditos dum notabilissimo homem de ciência.
Longe iríamos se quiséssemos dar uma nota detalhada dos seus trabalhos científicos, muitos dos quais se
encontram mencionados no Diccionario Bibliographico de Inocencio. No entretanto diremos que escreveu e
publicou cerca de 200 trabalhos sobre os mamíferos, as aves, os repteis, os anfíbios, os peixes, os
invertebrados, a filosofia zoológica, etc., entre os quais avultam os seguintes: Memória sobre a cabra montez
(Mem. da Ac. das Sc. de Lisboa, 1857); Noticias sobre os Arvicolas de Portugal (Id., 1864); Peixes
plagiostomos, Iª parte (Lisboa 1866); A Ornithologia dos Açores (Jorn. da Ac. Sc. Lisboa, 1866); Aves das
Possessões Portuguesas d'Africa Occidental (24 listas, Id., 1867 1882); A Vida Animal nas grandes
profundidades do Oceano (Id., 1870); Liste des Mammifères et Reptiles observés en Portugal (Rev. et Mag.
de Zool., 1863); Liste des Antilopes d'Angola (Proc. Zool. Soc., 1878); Subsidios para a fauna das Possessões
Portuguesas d'Africa Occidental, S. Thomé e Angola (Jorn. da Ac. Sc. Lisboa, 1879); Mammifères d'Angola
et du Congo (Id., 1889 1892); Mammiferos, Aves e Reptis da Hanha (Id., 1896): e Contribution à la faune
des quatre iles du Golfe de Guinée (Id., 1904). Com referência ao nosso arquipelago escreveu apenas:
Noticia sobre uma collecção de conchas das ilhas da Madeira e Porto Santo. (Ann. das Sc. e Let., 1857).
Em anos já amadurecidos, entrou na política e nela prestou ao seu país serviços assinalados, revelando
sempre a mais austera intransigência de caracter como estadista e como parlamentar. Foi deputado e par do
reino e notabilizou se sobretudo como ministro dos negócios estrangeiros. Na gerência desta pasta revelou
se um homem de estado consumado. Nos gravissimos assuntos que então se debateram, e em que merece
menção especial a questão do Congo, os negócios da Conferencia de Berlim, um tratado com a Inglaterra
sobre direitos da nossa soberania na Africa Ocidental e ainda outros, mostrou se sempre um notável
estadista, sendo por todos considerado como um dos homens que, com mais zelo e mais competência, tem
no nosso país sobraçado a pasta dos negócios estrangeiros.
Morreu em Lisboa a 3 de Novembro de 1907.
No vol. 2. do Boletim da Sociedade Portuguesa de Sciencias Naturais encontra se uma desenvolvida
biografia de Barbosa du Bocage e uma noticia completa de todos os seus trabalhos.
Barbosa (Pedro Correia)
Nasceu na Madeira e foi cónego da Sé do Funchal, vigário geral e
governador desta diocese. Nos fins do século XVI e princípios do século XVII gozou da fama dum dos mais
notáveis pregadores do seu tempo. Em 1699 publicou um opúsculo com o título Sermão panegyrico em a
solemsissima e anniversaria festa, que o reverendo cabido da Sé do Funchal da ilha da Madeira fez na tarde
do dia oitavo do Corpo de Deus ao glorioso S. Antonio, em 13 de Junho de 1697.
Na freguezia de S. Pedro e Caminho de Santo Antonio, existiu a capela de S. Francisco, mais conhecida pelo
nome de S. Francisco das Furnas. Foi fundada pelo Cónego Pedro Correia Barbosa, no ano de 1697.
Pertenceu ao morgado Jervis de Atouguia. Na casa que lhe ficava anexa nasceu o visconde de Atouguia (V.
este nome) a 7 de Julho de 1797.
Barbosa (Rui)
Este distinto político e jornalista brasileiro esteve na Madeira no dia 19 de Dezembro
de 1907, tendo lhe sido oferecido pelo Sr. Antonio Eusebio dos Santos, então agente comercial dos Estados
Unidos do Brasil, um almoço no Infante Palace Hotel, a que assistiram também a esposa e filhos do mesmo
político, o Governador Civil, o Secretario Geral e o Comandante Militar.
Rui Barbosa saiu nesse mesmo dia para o Brasil, a bordo do Araguaya.
Barbot
Visitou a Madeira em 1681, tendo sido publicadas na churchill's Collection as suas impressões
acerca desta ilha.
Barbuzano (Apollonias canariensis)
Árvore da família das Lauraceas, que se encontra
principalmente no norte da Madeira, onde desce até às proximidades do mar. Pode atingir mais de vinte
metros de alto e tem folhas coriáceas e glabras às vezes quasi opostas, e flores pequenas, dispostas em
paniculas mais curtas que as folhas. As protuberâncias que se observam a miúdo na parte superior das
folhas desta árvore, constituem uma cecidea do typo Erineum. A madeira do barbuzano é muito pouco
utilizada pelos marceneiros, em razão de ser extremamente rija. Na ilha do Porto Santo dão o nome de
barbuzano ao Sideroxylon Marmulano, especie conhecida na Madeira pelo nome de marmulano.
Barbuzano. Sítio da freguesia da Tabua
Barca (Campo da)
O primitivo Campo da Barca tinha o seu limite norte na rampa que conduz hoje
à Estrada do Conde do Carvalhal, e foi mandado construir pelo Governador e Capitão General Florencio
José Correia de Melo, sobre terrenos cedidos gratuitamente por João de Carvalhal Esmeraldo e Miguel
Carvalho, sendo, depois de cedido, entregue à Câmara em 21 de Janeiro de 1818, em virtude de portaria do
mesmo governador.
A parte do Campo da Barca ao norte da referida rampa, foi entregue ao Município em virtude da Carta de
Lei de 13 de Setembro de 1897, tendo o terreno ocupado agora pelo Posto de Desinfecção sido cedida
gratuitamente pela Câmara à Junta Geral, em sessão de 12 de Março de 1903.
O Campo da Barca é e será conhecido sempre por este nome, a pesar de se chamar desde 1911 Campo de
Miguel Bombarda. Antes disso, em 1897, resolvera a Câmara que ela se chamasse Campo do Conselheiro
José Luciano de Castro, mas esta deliberação também não foi acatada pelo publico, pouco respeitador em
geral das simpatias políticas dos seus vereadores.
Campo do Conde da Barca se chamou primitivamente o campo a que nos referimos, mas o povo com as suas
tendências simplificadoras converteu esse nome no de Campo da Barca. O Conde da Barca a quem
Florencio José Correia de Melo quis prestar homenagem, era, como se sabe, Antonio de Araújo de Azevedo,
que foi nosso ministro na Haia e depois plenipotenciário português em França, por ocasião da negociação
do tratado de 10 de Agosto de 1907.
O Campo da Barca fica na margem esquerda da Ribeira de João Gomes, e tinha como limite sul o Larguinho
de São João, onde desembocam as Ruas do Oudinot, Infância e Ornelas. A rua, que no prolongamento da
Avenida de João de Deus, atravessa este Campo, dividiu o em duas partes bem distintas, sendo a do sul
transformada numa Praça, que tem o nome de Tenerife, e na do norte encontram se o Posto de Desinfecção
Terrestre, aberto ao serviço publico em 1905, e o Dispensário Anti Tuberculoso Distrital, construído no ano
de 1933. Em frente deste Dispensário se levanta o monumento ao Conde do Canavial, que se encontrava na
Avenida do Doutor Manuel de Arriaga.
Barcelos. (Pico dos)
Sítio povoado da freguesia de Santo Antonio do Funchal. Conhecido com o
mesmo nome, nele se levanta um pequeno morro, que é hoje ponto obrigado de atracção para todos os
turistas que visitam a Madeira. Os terrenos que longamente se estendem desde a Ponta do Garajau até ao
Cabo Girão formam um vasto semicírculo, em cujo diâmetro e no centro deste se ergue a eminência do Pico
dos Barcelos, contemplando se deste ponto um dos mais atraentes e formosos panoramas, que seja
porventura possível oferecer se à vista de qualquer visitante. A estrada que ali conduz, construída em 1917,
facilita o acesso deste local, quasi frequentado a toda a hora por inúmeros visitantes nacionais e
estrangeiros. Parece que este sítio tirou o nome de Diogo Barcelos um dos primitivos povoadores, que por
ali possuía alguns tractos de terreno.
Barradas (Diogo)
Falando Gaspar Frutuoso das filhas de Tristão Teixeira, primeiro capitão
donatario de Machico, acrescenta, sem parecer haver íntima relação com os antecedentes, o seguinte: E este
capitão Tristam, por uma desgraça que aconteceo em sua casa a hum Tristam Barradas, homem havido por
fidalgo, o qual este capitam castigou e o teve aferrolhado com huma braga moendo em hum moinho farinha.
El Rey o mandou hir à corte, e que levasse comsigo sua filha Catharina Teixeira (como fica dito): esteve
preso em Lisboa pelo castigo que fez ao Barradas, e por sentença foi degradado para a Ilha do Principe, e
antes que fosse, casou El Rey sua filha mui honradamente: alguns anos esteve neste desterro, no fim dos
quaes El Rey o mandou vir, e o restituhio outra vez na Capitania, e governou ainda muitos annos depois
disso.
É um episodio curioso dos costumes da época e que dá a medida do despotico poder dos donatarios nos
tempos primitivos da colonização, cujas atribuições civis e criminais eram tão latitudinarias, que só
excluíam o julgamento das causas de morte ou talhamento de membro, como se pode ler no artigo
Administração Judicial.
Com respeito ao episódio que fica sumariamente narrado, deve ler se o documento que vem transcrito a
pag. 138 da edição das Saudades da Terra de 1925, que é sobremaneira interessante e nos dá uma ideia
aproximada da maneira como se administrava a justiça no tempo dos donatarios.
Barradas (Dr. Francisco da Silva)
Nasceu na freguesia de Câmara de Lobos e era formado
em direito pela Universidade de Coimbra. Teve grande nomeada em Lisboa como advogado e especialmente
como tabelião, e redigiu durante alguns anos uma revista jurídica, que se ocupava muito particularmente de
assuntos do notariado e que gozou de grandes créditos no seu tempo. Morreu em Lisboa no ultimo decenio
do seculo XIX.
Barral (Dr. Francisco Antonio)
Foi este distinto clinico e lente da Escola Medica de Lisboa
que em 1852 acompanhou à Madeira a imperatriz D. Amelia, na qualidade de medico assistente da
malograda princesa D. Maria Amelia, que faleceu nesta cidade a 4 de Fevereiro de 1853. (V. Amelia
(Imperatriz D.). e Hospícios da Princesa D. Maria Amélia).
0 Dr. Barral foi um dos mais dedicados auxiliares da imperatriz D. Amélia na fundação provisória do
Hospício, que começou a funcionar numa casa à rua do Castanheiro.
Em 1854 publicou o Dr. Barral em Lisboa num volume de 347 paginas a obra intitulada Noticia sobre o
clima do Funchal e sua influencia do tratamento da phthisica pulmonar, que sobre o assunto é considerada
um trabalho muito valioso. Esta obra foi traduzida em francês pelo Dr. P. Garnier e publicada em Paris em
1858 sob o título de Climat de Madère et son influence thérapeutique sur la pthisie pulmonaire.
Barredo (António Pereira)
Sucedeu a Tristão Vaz da Veiga. (V. este nome) no governo geral da
Madeira, tendo sido nomeado a 30 de Dezembro de 1590 e havendo tomado posse a 21 de Agosto de 1591.
Serviu até 20 de Abril de 1595.
Barreira
Ao que com toda a propriedade se deve chamar barreira, dá o povo nesta ilha o nome de
bardo, que quere significar o tapume ou trincheira feito de estacas e ramos de árvores e destinado a impedir
que os gados que pastavam livremente nas serras e baldios, descessem ao povoado e terras cultivadas. Estes
bardos eram e são ainda vulgares entre nós e em geral constituíam a linha divisória entre os terrenos de
cultivo e os logradouros comuns para a pastagem do gado e apanha de lenhas e matos. As antigas posturas
municipais de algumas câmaras deste arquipelago continham várias disposições referentes a bardos,
pastagem de gados etc.. A legislação vigente alterou profundamente aquelas leis concelhias e estabeleceu
outras disposições, principalmente as que dizem respeito à liberdade do gado lanigero, caprino e suíno
pastar nos chamados logradouros comuns.
Barreirinha
Pequena praia que fica situada a leste da fortaleza de Santiago e a jusante da igreja
paroquial de Santa Maria Maior. Prestava se a ser uma praia de banhos, que a Câmara do Funchal tornou de
fácil acesso no ano de 1939, melhorando o local e o caminho que lá conduz.
Barreiro (Fonte do)
Pequena fonte nas proximidades do sopé do Pico Ruivo, e a cerca de 1870
metros acima do nível do mar. No verão fornece muito pouca água.
Cremos não haver outra fonte na Madeira, tão altamente situada como a do Barreiro. A sua água, que
tivemos ocasião de beber nos meses de Julho e Agosto, é límpida e muito fresca.
Barreiro (Montado do). Estende se desde o Ribeiro do Pisão até o Terreiro das Águas, tem terrenos para
pinheiros e árvores agrestes e terrenos para pastagens. Ha nele algumas matas de loureiros e urzes.
O Montado do Barreiro é abundantissimo em águas tendo aí a sua origem a levada do Barreiro e alguns dos
mananciais que concorrem para alimentar as levadas de Santa Luzia das Hortas, de D. Isabel, etc.. As
nascentes dos Tornos, sobranceiras á Ribeira de Santa Luzia ficam no referido montado.
O fluxo total das águas do montado do Barreiro é, segundo os peritos que as mediram há poucos anos, de
4:140 litros por minuto pertencendo 512 litros à levada do Barreiro 2:728 litros à Ribeira de Santa Luzia e
levadas que tem nela sua origem, e 900 litros às nascentes dos Tornos, sendo estas ultimas águas
destinadas pela Câmara ao abastecimento da cidade. As obras de canalização das águas dos Tornos até um
reservatório no sítio dos Saltos, ficaram concluídas a 22 de Outubro de 1910, achando se apenas iniciados os
demais trabalhos, que consistem em conduzir as mesmas águas até a cidade.
Pretendiam os proprietários do Montado do Barreiro que a Câmara lhes pagasse pela expropriação dos
terrenos do mesmo montado e respectivas águas, exceptuando as da levada do Barreiro, a indemnização de
387:517$00, mas esta importância ficou reduzida, em virtude de sentença judicial, a 42:163$07, que ao que
nos consta, se não acham ainda integralmente pagos.
A este assunto interessam particularmente os opúsculos A Expropriação do Montado do Barreiro . . . por
Pedro de Góis Pita e a Acção de expropriação do Montado do Barreiro requerida pela Câmara do Funchal
por Juvenal Henriques de Araújo.
(V. abastecimento de Águas).
Barreiros (Estádio dos)
Na freguesia de São Martinho, no sítio do Ribeiro Seco de Cima, onde
chamam os Barreiros, fica um excelente campo de jogos desportivos, conhecido pelo nome de Estádio dos
Barreiros, que tem a superfície aproximada de 18.000 metros quadrados e que foi solenemente inaugurado
no ano de 1927.
Barreto (D. Jeronimo)
Foi D. Jeronimo Barreto o sexto bispo do Funchal, tendo estado na
direcção desta diocese no período decorrido de 1574 a 1585, e sendo neste ano transferido para o bispado do
Algarve.
Pertencia a nobres e distintas famílias, sendo filho de Gaspar Nunes Barreto e de D. Isabel Cardoso,
senhores de Farreriz e Penagate, e tendo nascido no arcebispado de Braga no ano de 1543.
Depois de haver terminado o seu curso de teologia na Universidade de Coimbra e não tendo ainda a idade
legal para exercer o episcopado, foi nomeado bispo da Madeira em 1572 e por isso só pode receber a
sagração episcopal em 1573, quando completou os anos exigidos pelas leis canónicas.
A 31 de Outubro de 1574 chegou ao Funchal a assumir o governo desta diocese, deixando de si as mais
honrosas tradições e vinculando o seu nome ao assinalado serviço da organização e publicação das
Constituições Diocesanas, que se tornavam indispensáveis para o bom regimen dos diversos negócios
religiosos do bispado.
Para isso, fez reunir, pela primeira vez nesta ilha, um sínodo diocesano com a assistência do cabido, clero
paroquial e outros sacerdotes e em sessões sucessivas se discutiram e organizaram as Constituições, que
foram solenemente promulgadas na Sé Catedral no dia 18 de Outubro de 1578, aniversário da sagração da
mesma Sé. Estas Constituições foram impressas em Lisboa em 1585 num volume de 188 paginas. O bispo D.
Luiz Figueiredo de Lemos promulgou em 1579 umas Constituições Extravagantes, que foram impressas em
1601. Umas e outras ainda hoje constituem as leis canónicas privativas, por que se rege esta diocese na
execução das leis gerais da Igreja. Foi D. Jerónimo Barreto extremamente zeloso no desempenho das suas
funções episcopais, e entre outras medidas que adoptou no governo da sua diocese, deve mencionar se a
criação de algumas paróquias e curatos, a reforma que introduziu no cabido e nas colegiadas, fazendo em
especial suscitar a observância de muitos pontos da disciplina eclesiástica que tinham caído em desuso.
D. Jerónimo Barreto foi transferido para a diocese de Silves em 1585 e ali morreu em 1589 tendo apenas 45
anos de idade.
Barreto (D. Manuel Agostinho)
Foi o penúltimo e 26.1 bispo desta diocese. Pelo que
conhecemos das crónicas eclesiásticas madeirenses, podemos afirmar que foi o mais ilustre prelado que
ocupou o sólio episcopal do Funchal. Nasceu a 7 de Dezembro de 1835 na freguesia do Coentral, bispado de
Coimbra, sendo filho de José Agostinho Barreto e de D. Maria Barreto. Concluiu em 1858 a sua formatura
em teologia na Universidade de Coimbra e em 1864 foi nomeado cónego da Sé de Lamego. Desempenhou
ali cargos importantes, como os de professor do Seminário, vigário geral e provisor e governador do
bispado. Gozou em todo o continente da fama de notável pregador, proferindo alguns discursos que ficaram
demoráveis. Na diocese de Lamego, criou em torno do seu nome uma verdadeira auréola de veneração e da
mais respeitosa estima pelas suas virtudes, austeridade de caracter, talento, ilustração e acendrado zelo no
desempenho das funções eclesiásticas que ali exerceu durante alguns anos.
A 8 de Junho de 1876 foi apresentado bispo do Funchal e confirmado pela Santa Sé a 29 de Setembro do
mesmo ano. Por provisão de 16 de Dezembro nomeou o cónego João Frederico Nunes governador do
bispado do Funchal, que então exercia o cargo de vigário capitular, tomando posse da diocese, por
procuração passada ao cónego Alfredo César de Oliveira, a 26 do referido mês.
A sua sagração episcopal realizou se na basílica da Estrela em Lisboa a 4 de Fevereiro de 1877, sendo
sagrante o arcebispo de Mitilene D. Antonio José de Freitas Honorato, que fora seu lente em Coimbra,
tendo como prelados assistentes D. José Maria Ferrão de Carvalho Martens, bispo de Bragança, e D. José
Lino de Oliveira, bispo resignatário de Angola. No dia 22 do mesmo mês chegou D. Manuel Barreto, a esta
cidade, e no dia 25 fez a sua entrada solene na Catedral, proferindo por essa ocasião um eloquente discurso
que impressionou vivamente o auditório.
Um mês depois da sua chegada a esta cidade, levantou se um conflito grave entre o prelado e a Câmara
Municipal do Funchal, motivado pelo enterramento dum suicida no cemitério das Angústias, como já atraz
ficou referido (V. Angústias). Revelou então a maior independência de caracter pela maneira como resolveu
a questão e o desassombro como a tratou no púlpito da Catedral num discurso que ficou imemorável,
embora não faltasse quem classificasse o acto de uma imprudente e irreflectida coragem e até como um
desafio lançado às classes liberais da Madeira. O prelado deu observância às leis canónicas e arrostou
inteiramente com as consequências do cumprimento do dever.
Passada essa tormentosa borrasca, dedicou se inteiramente à administração da sua diocese, que até os
últimos momentos da sua longa carreira episcopal lhe absorveu por completo a actividade do seu espírito,
sempre cheio da maior dedicação e do mais acendrado zelo e solicitude pelo bem estar do rebanho que lhe
fora confiado. Procurando um sossegado e remansoso refúgio, recolheu se à modesta residência da Penha
de França e ali passou 34 anos no retiro e no trabalho, abandonando o seu eremitério somente quando as
forçadas obrigações do seu ministério, os deveres oficiais ou a sua abalada saude a isso violentamente o
compeliam. Pouco tardou que as suas grandes qualidades de apóstolo, o seu raro tacto administrativo, a sua
inflexível energia na observância da disciplina eclesiástica, a reforma notabilissima do seminário, o zelo
inexcedível na propaganda e desenvolvimento do sentimento religioso, a austeridade da sua vida sempre
modesta e despida de todo o aparato, a sua ardente e proverbial caridade, a activa e nunca interrompida
evangelização por meio da palavra falada e escrita a criação de escolas e de várias obras sociais, as
frequentes visitas pastorais a toda a diocese etc., etc., lhe granjeassem em volta do seu nome o mais alto
prestigio, a mais elevada consideração e o mais profundo respeito que poucos prelados portugueses terão
conseguido alcançar nos últimos 50 anos. Se ainda acrescentarmos os brilhantes dotes oratórios que o
tornaram um orador de raça, a sua notável ilustração, as suas qualidades de escritor, a encantadora
conversação que tanto prendia e atraía, veremos convergir num só homem uma série de tão raros e
extraordinários predicados, que apenas os poderemos encontrar dispersos em muitos indivíduos. Foi por
tudo isso considerado o primeiro bispo português do seu tempo.
As suas primeiras e mais desveladas medidas dirigiram se ao seminário diocesano. Chegou ao Funchal em
fins de Fevereiro de 1877, e já em princípios do mês de Outubro seguinte funcionava ali um curso completo
de estudos preparatórios, que não havia, era alargado o seu internato, completamente remodelado o seu
funcionamento interno, passando todo o estabelecimento por uma radical transformação. Tendo
conseguido por na direcção desta casa de instrução e educação religiosa o padre Ernesto Schmitz, prestou
ali este eclesiástico os mais assinalados e relevantes serviços não só na formação e preparação do futuro
clero, mas ainda no estabelecimento de um museu de zoologia de caracter regional, que foi uma criação
verdadeiramente modelar no seu género, e a que se referem com muitos louvores alguns distintos
naturalistas estrangeiros que o visitaram, tendo adjunto um gabinete de física para o ensino pratico desta
ciência. O maior empenho de D. Manuel Agostinho Barreto foi dotar a diocese com um edifício apropriado
para a instalação do seminário, em que os diversos serviços dum estabelecimento desta natureza estivessem
amplamente acomodados e pudessem satisfazer por completo ao seu fim. Deparou se lhe esse ardente
desejo com a herança que lhe legou D. Maria Leopoldina de Oliveira, fazendo levantar na cerca do extinto
convento da Incarnação um belo e amplo edifício, em que dispendeu toda a sua fortuna herdada e
adquirida, e que a pesar de não ter ficado inteiramente concluído, possuía a capacidade e os requisitos
indispensáveis para a instalação do seminário diocesano, que ali funcionou alguns anos, até que foi extinto
pelo decreto de 20 de Abril de 1911, passando imediatamente a casa á posse do Estado. (V. Seminario).
Longe iríamos se tivéssemos que referir nos pormenorizadamente a todos os actos da administração
episcopal de D. Manuel Agostinho Barreto. Quem quiser possuir conhecimento mais detalhado da sua
biografia como bispo desta diocese, leia o n. 168 da Quinzena Religiosa, de I de Fevereiro de 1908, e o n.
2008 do Heraldo da Madeira, de 27 de Junho de 1911.
D. Manuel Agostinho Barreto faleceu na residência da capela da Penha de França a 26 de Junho de 1911 e
foi sepultado no cemitério das Angústias, encontrando se entre as ultimas disposições da sua vontade este
humilde e piedoso pormenor: “roga que passados cinco anos os seus ossos sejam trasladados em pequena
urna para o adro da capela da Penha em frente e junto da porta principal, cobrindo os uma singela lápide
onde se gravará o seu nome com as datas do nascimento e óbito, tendo no alto uma cruz e em baixo as letras
P. N. A. M., para implorar aos fieis que passem um piedoso Requiem aeternam”. Volvidos 12 anos, a 26 de
Junho de 1923, realizou se solenemente a trasladação dos restos mortais do eminente prelado, que ficaram
cobertos com uma pequena pedra sepulcral, em que se lê este modesto epitáfio: D. Manuel Agostinho
Barreto, Bispo do Funchal. Nasceu a 7 de Dezembro de 1835 e faleceu a 26 de Junho de 1911 com 76 anos de
idade e 34 de episcopado. P. A. H. M..
Da Parte IV do Tomo IV da notável obra Historia da Igreja em Portugal, do ilustre escritor Fortunato de
Almeida, transcrevemos um resumo dos principais dados biográficos do prelado D. Manuel Agostinho
Barreto:
“Nasceu na freguesia de Pedrogam Grande a 7 de Dezembro de 1835 e formou se em teologia na
universidade de Coimbra em 1858. Foi professor de sciências eclesiásticas no seminário de Lamego desde
1864, cónego da sé da mesma cidade desde 1866, provisor e vigário geral do bispado desde 1868, prelado
doméstico de Sua Santidade desde 1870. Apresentado na sé do Funchal por decreto de 8 de Junho de 1876,
foi confirmado em consistório de 29 de Setembro do mesmo ano. Tomou posse por seu procurador, o
cónego Alfredo César de Oliveira, em 26 de Dezembro. A 4 de Fevereiro de 1877 foi sagrado na basílica do
Coração de Jesus, à Estrela, em Lisboa, pelo Arcebispo de Mitilene D. António José de Freitas Honorato,
assistido por D. José Maria Ferrão de Carvalho Martens, Bispo de Bragança, e D. José Lino de Oliveira,
Bispo resignatário de Angola. Partiu de Lisboa em 20 de Fevereiro, e aportou ao Funchal na tarde de 22. No
domingo imediato, dia 25, fez a sua entrada solene; e a 2 de Março expediu a sua primeira pastoral.
“D. Manuel Agostinho Barreto foi um Bispo notabilíssimo por seus talentos e virtudes. Orador distinto,
revelou se igualmente escritor de grande mérito em suas pastorais; algumas destas são modelares, pela
substância doutrinal e pela contextura literária. A caridade, a humildade e o espírito de justiça foram
virtudes em que sempre se distinguiu; e o seu zelo pastoral, a dedicação aos negócios da sua diocese e o
desprendimento de todos os interesses pessoais fazem lembrar os mais virtuosos prelados portugueses de
outros tempos. Desde o princípio que este brilhante conjunto de predicados lhe mereceu a veneração dos
seus diocesanos. D. Manuel Agostinho Barreto diz um seu biógrafo foi um padre e um bispo modelares.
Tendo recebido legados importantes que lhe permitiam amplo conforto e até fausto, vivia a dentro da sua
residência modestissima com uma simplicidade de asceta. Um leito pobre e uma mesa pobre satisfaziam lhe
as necessidades materiais da sua existência toda devotada à vida espiritual. Essas rendas tinham em seu
entender, um mais útil emprego na instituição de escolas, no socorro a viúvos, na protecção aos órfãos, no
auxilio a todos os desvalidos da fortuna”.
“A obra predilecta de D. Manuel Agostinho Barreto foi o seminário diocesano, que notavelmente reformou e
melhorou. Além de criar algumas cadeiras novas, fundou um gabinete de sciências fisico naturais, sob a
direcção do Padre Ernesto Schmitz; e obra tão notável foi essa, que mereceu os elogios de especialistas
nacionais e estrangeiros. Posteriormente, reconhecendo que o velho edifício da rua do Mosteiro Novo se
encontrava em más condições, mandou construir à sua custa e com penosos sacrifícios o novo seminário da
Incarnação, que ficou sendo uma fulgente coroa de glória para o grande prelado”.
Barreto (Padre Jaime de Gouveia)
Nasceu no Porto do Moniz a 13 de Maio de 1887 e
frequentou o Seminário Episcopal do Funchal, tomando ordens de presbítero em 1910. Tendo coadjuvado o
Rev. Padre Ernesto Schmitz na preparação e determinação dos exemplares de historia natural existentes no
museu do Seminário, adquiriu uma certa predilecção por este género de trabalhos, sendo por isso
encarregado mais tarde da direcção do mesmo museu, quando o referido sacerdote se ausentou para
Jerusalém. Colheu grande numero de líquenes e de fungos madeirenses, tendo aqueles sido estudados pelo
Professor Navas e estes pelo Professor Torrend, e é sócio da Sociedade de Ciências Naturais de Saragoça.
Tendo sido chamado para frequentar a escola de oficiais milicianos em Lisboa enquanto durou o estado de
guerra entre Portugal e a Alemanha, conseguiu ser despachado alferes capelão do Corpo Expedicionário
Português em França, partindo para aquele país a 23 de Maio de 1918, tendo regressado à pátria em Junho
de 1919.
É professor do Seminário Diocesano e director dos gabinetes de ciências naturais do mesmo
estabelecimento de ensino. Foi agraciado com o título de monsenhor e é cónego da Sé do Funchal.
Barreto (Remigio António Gil Spínola)
Por decreto de I de Maio de 1913 foi nomeado
governador civil substituto deste distrito, e tomou posse a 10 do mesmo mês e ano.
Foi eleito senador pela Madeira a 13 de Julho de 1915.
É bacharel formado em direito, notário na cidade do Funchal e nasceu na vila de Santa Cruz a 24 de
Fevereiro de 1870.
Barrilha
São conhecidos por este nome em todo o arquipelago da Madeira, o Mesembrianthemum
nodiflorum, o M. crystallinum e a Suaeda fruticosa, pertencendo as duas primeiras plantas à família das
Aizoaceas, e a ultima, que é lenhosa, é das Quenopodeaceas. Outrora extraia-se a soda destas plantas, pondo
as a secar ao sol e queimando as depois dentro de covas feitas no terreno. Depois de queimados os corpos
que entram na composição da barrilha, ficava pelo arrefecimento uma substancia dura e alcalina
denominada soda bruta, e a que os madeirenses chamavam pedra de barrilha ou pedra de fazer sabão. A
soda bruta era descarbonatada pela cal.
Barros
Quem primeiramente usou entre eles este apelido foi Vasco Delgado que passou a esta ilha nos
tempos primitivos da colonização. Fez assentamento na freguesia do Campanário, onde teve muitas terras
de sesmaria, principalmente na ribeira dos Melões, e também luzida casa, segundo diz um antigo nobiliario.
Tinha esta família o seguinte brasão de armas: em campo vermelho três bandas de prata e sobre o campo
nove estrelas de ouro; sobre o primeiro em a cabeça uma, sobre o segundo tres, sobre o terceiro três e sobre
o quarto duas; e por diferença uma morlota preta sobre uma das bandas; o elmo de prata aberto guarnecido
de ouro, paquife de ouro vermelho e prata e por timbre uma aspa vermelha e sobre ela cinco estrelas das
armas.
Diogo de Barros Pedro Gonçalves de Barros, que pertenciam a esta família, distinguiram se em Africa,
particularmente na conquista de Azamor, dizendo do primeiro Gaspar Frutuoso que era este Diogo de
Barros tão conhecido dos mouros, e tinha entre eles tanto nome de bom cavalleiro, que o temiam como a
mesma morte: e, sendo huma vez com outros cavalleiros na tomada de huns aduares, onde os mouros
traziam seu gado seguro dos christãos, cercados de fossos, acequias, e matamorras cobertas de terra, os
christãos comtudo deram sobre elles, e este Diogo de Barros, pela experiencia que tinha das covas, entendeo
que ali estavam, saltouas no seu cavallo, e vendo que seu irmão mais velho Pedro Gonçalves de Barros
receava de fazer o mesmo, como era assomado de condição e bom cavalleiro, tornou atraz, e por força o fez
saltar, dizendo lhe a “que se o não fizesse enrestaria a lança nelle, porque nos perigos da guerra se haviam
de conhecer os cavalleiros; e por grandes que fossem nelles se haviam de divisar e signalar os Barros”. E
dizendo isto, ambos saltaram os fossos, dando «Sanctiago» nos mouros com muita fúria, e fazendo nelles
muito estrago, onde os desbarataram».
Barros (Diogo de)
Foi um esforçado cavaleiro madeirense, que bastante se distinguiu nas nossas
campanhas de Marrocos, principalmente na tomada de Azamor, aonde acompanhou o quarto capitão
donatario do Funchal João Gonçalves da Câmara. (V. Barros).
Barros Gomes (Henrique de)
Esteve no Funchal desde 8 de Julho a 2 de Setembro de 1878,
na qualidade de Director do Banco de Portugal, por causa da falência de João José Rodrigues Leitão, agente
do mesmo banco nesta ilha. (V. Bancos).
Barros (João de)
Este nosso notável historiador (1496 1570) ocupa se, na sua conhecida obra Asia,
década 10, do descobrimento do arquipelago da Madeira.
Barros (Vasco Delgado de)
Foi um dos primeiros povoadores, e instituiu o morgadio do
Campanário, nas fazendas da Ribeira dos Melões.
Barrow (John)
Este conhecido viajante e orientalista inglês esteve na Madeira em 1792, tendo
publicado uma descrição da sua visita a esta ilha, na obra que tem por título Voyage to Cochin China. Existe
uma tradução desta descrição, publicada nos números 290 a 292 e 297 a 298 do Heraldo da Madeira.
Barruncho (José Maria Smith)
Diz o dicionário Portugal que este distinto oficial do nosso
exército era de origem inglesa e que nascera no Funchal em 1839, tendo falecido em Lisboa, no posto de
general, a 26 de Julho de 1898.
Bartolomeu (João)
Foi por alvará de 10 de Novembro de 1618 nomeado engenheiro director das
fortificações que então se estavam construindo nesta ilha. Manuel Tomás no livro X da Insulana faz lhe uma
referência muito elogiosa. (V. Diccionario dos Arch. e Eng. Port. vol. 2.1, pag. 34).
Basaltos
Rochas vulcanicas anegradas, compactas e duras, formadas de labrador feldspato e augite.
São relativamente pobres em silica, mas contêm mais cal e magnesia que a traquite, que é rica em silica.
Segundo o geólogo James Smith, de Jordan Hill, conhecem se na Madeira o basalto compacto (pedra viva
ou alvenaria), o basalto vesicular (cantaria rija) e o basalto escoriaceo. Os tufos alternam muitas vezes com
os basaltos, e é frequente verem se os basaltos compactos assentarem sobre camadas de basalto escoriaceo.
O basalto compacto, quando em camadas espessas, fende se muitas vezes verticalmente em colunas de
secção poligonal, como se vê frequentemente nas pedreiras, e como se pode observar também nas
proximidades do Gorgulho, no Tem te não Caias, (Porto da Cruz) e no Faial.
O basalto compacto é usado em todo o género de construções, sendo porém insusceptível de ser lavrado,
pela rijeza do seu grão.
O basalto vesicular encontra se principalmente nas vizinhanças de Câmara de Lobos, e dele se faz uso em
toda a ilha para umbrais de portas, cunhais, degraus, etc..
O basalto escoriaceo aparece por toda a parte, tendo muitas vezes de permeio o basalto compacto, mas não
é utilizado nas construções.
Os basaltos, muito frequentes na região inferior da Madeira, e que também aparecem no Porto Santo e nas
Desertas, contem geralmente cristais de augite e de olivina, aqueles de cor negra, estes esverdinhados.
Apresentam se muitas vezes em diques, verticais ou oblíquos atravessando camadas de conglomerados ou
de rochas basalticas que se fenderam.
Batalha Reis (Antonio)
Esteve na Madeira em 1905 e fez uma conferencia sobre enologia, nas
salas da Associação Comercial, em 11 de Outubro de 1905. Existe publicado um resumo desta conferencia.
Bataria de artilharia
Desde 23 de Junho de 1877 que existe na Madeira uma força permanente de
artilharia, da qual foi primeiro comandante o capitão Henrique de Lima e Cunha, que exerceu este cargo até
20 de Janeiro de 1878. Antes disso era a ilha guarnecida por destacamentos de artilharia, vindos de
Portugal.
A primitiva companhia n1 3 de artilharia de guarnição passou a denominar se Bataria n1 3 de Artilharia de
Guarnição a I de Janeiro de 1902, e Bataria n1 3 de Artilharia de Montanha a 30 de Junho de 1911.
Batateira (Ipomaea Batatas)
Convolvulacea originaria da América do Sul, comum na
Madeira. A batateira de folhas recortadas foi introduzida na ilha no meado do século XVII, a de folhas
inteiras ou angulosas só começou a ser cultivada em 1845, tendo vindo de Demerara os primeiros
exemplares que aqui apareceram.
Os madeirenses chamam rama à parte aérea da batateira, sendo por meio dela que se faz a multiplicação da
planta.
As batatas constituem um dos principais alimentos da população madeirense, podendo confeccionar se com
elas um doce muito saboroso.
Acerca da batata doce, cultivada em grande escala na Madeira e de que os seus habitantes das freguesias
rurais fazem tão largo consumo, vamos transcrever um artigo publicado há anos no Portugal Agrícola, que
encerra interessantes informações, que podem ser proveitosas aos madeirenses cultivadores desse
tubérculo.
A batata doce (Batata edulis), planta da família das Convolvulaceas introduzida na Madeira no meado do
século XVII, vegeta bem nesta ilha desde as proximidades do mar até aos limites da região cultivada. A sua
multiplicação na Madeira faz se por meio de estacas, que na região baixa se plantam todo o ano, e nos
pontos elevados desde Maio até Julho.
Agricultores ha que tiram anualmente das suas terras duas e três colheitas de batata doce, mas este caso só
se dá nos sítios quentes e baixos, e onde as chuvas são menos copiosas. Nos terrenos altamente situados
obtém-se apenas uma producção d'essas raizes em cada anno, fazendo se a colheita geralmente antes da
época em que as chuvas são mais abundantes, afim de obstar a que a humidade torne os tubérculos aquosos
e difíceis de conservar. A batata doce é pouco exigente no que respeita à qualidade das terras, mas dá
producções mais abundantes nos terrenos seccos, profundos e de uma consistência média.
Existem na Madeira duas variedades bem distintas da Batata edulis: a variedade cordifolia, de folhas
inteiras ou quasi inteiras, e a variedade digitata, de folhas mais ou menos profundamente lobadas. Esta
ultima é a mais antiga na terra; a introducção da variedade cordifolia, data de 1845, tendo vindo de
Demerara os primeiros exemplares que aqui foram cultivados.
Os madeirenses não dão nomes particulares aos tuberculos da batateira, mas a rama (parte aérea da
planta), recebe varias designações, conforme a cor e o aspecto que apresenta. Na variedade cordifolia são
frequentes as duas subvariedades seguintes: rama inglesa e rama de S. Martinho, que produzem ambas
batatas brancas.
Na variedade digitata, muito mais rica em formas do que a precedente, podem assinalar se como communs
as seguintes subvariedades: rama Machiqueira ou de Sandwich, da Magdalena, frizada, de graveto, braço de
rei, brazileira, feiticeira e de Cayenna, sendo brancos os tubérculos das quatro primeiras, avermelhados nas
duas seguintes, um pouco violaceos na penúltima e amarelos na ultima. Filia se na mesma variedade a rama
da terra, introduzida no século XVIII e hoje muito rara na ilha.
“A rama da terra produz as mais das vezes batatas maiores e mais doces e farinhosas do que uma grande
parte das subvariedades modernas; tem, porém, o inconveniente de requerer mais tempo para formar raizes
e de só dar uma colheita em cada anno, o que a torna pouco rendosa e, portanto, menos apreciada, pelos
agricultores madeirenses. As suas raizes são brancas, raras vezes amarellas.
“As raizes da batata doce são feculentas, assucaradas, agradáveis ao paladar e duma digestão mais fácil do
que os tubérculos da solanacea conhecida na ilha pelo nome de semilha. Os madeirenses consomem nas em
larga escala, e dão nas também aos seus animais domésticos, que as comem com grande avidez. Com ellas
se confecciona um doce muito apreciado pelos estrangeiros.
Os ramos da batata doce constituem um excelente alimento para o gado. Na Madeira só é costume dal os
aos animais no estado verde, mas poderiam ser ainda utilizados como forragem secca, havendo a cautela de
os colher e preparar antes das chuvas.
A batata doce, que, como dissemos, só por meio de estacas se multiplica na ilha, é cultivada em regos,
associando se lhe de ordinário outras plantas, como couves, milho, feijões, ervilhas, etc.. As batateiras
ocupam de ordinário um dos lados dos regos, correndo muitas vezes sobre os camalhões.
Batista
Este apelido procede de Misser João Batista, que era de nobre família genovesa de Usodimare e
que no ultimo quartel do século XV se estabeleceu nesta ilha. Fez assentamento na freguesia do Porto da
Cruz, onde teve muitas terras de sesmaria. Com o nome de Terra Batista há um sítio naquela freguesia, que
pertencia ao morgadio instituído por Misser João Batista e que se perpetuou nos seus descendentes. Casou
com Tristoa Teixeira, filha do descobridor Tristão Vaz, primeiro capitão donatario de Machico.
Batista de Sousa (Dr. Antonio)
Foi deputado por este arquipelago na legislatura de 1892 a
1893 e também par do reino electivo pela Madeira na sessão parlamentar de 1894 a 1895.
Batista (Fr. Gregorio)
Natural do Funchal e conjectura se ter nascido no ultimo quartel do século
XVI. Foi religioso da ordem serafica e pertenceu á província da Catalunha. Anos depois entrou na ordem
beneditina, num convento da cidade da Baia, voltando mais tarde à ordem de S. Francisco, que
primitivamente abraçara. Nesta ultima exerceu cargos importantes, como lente de Escritura, examinador
das ordens militares e ainda outros. Publicou vários sermões, que foram vertidos em espanhol e italiano, o
que prova o seu valor. Alguns vêm enumerados no Diccionario Bibliographico de Inocencio. Nesta obra faz
se também menção do livro deste autor Completas da Vida de Cristo. . ., publicado em 1623. A Bibliotheca
Lusitana cita duas obras suas escritas em latim, publicadas em 1621 e 1638. Morreu depois do ano de 1640.
Nada mais sabemos acerca deste madeirense, que parece ter sido homem de incontestavel merecimento.
Batista Santos (José da Cruz)
Poeta e jornalista madeirense nascido no Funchal a 24 de
Novembro de 1887. Colaborou no jornal republicano 0 Povo e é ao presente um dos redactores do Diário da
Madeira E.: Horas de inspiração, Funchal, 1906, de 102 pag. e Rosas e Jasmins, Funchal, 1913, de 55 pags..
Battenberg (Príncipe de)
Em Janeiro de 1896 esteve no porto do Funchal o cruzador inglês
Blonde, que conduzia o cadáver do príncipe de Battenberg. Este príncipe que acompanhara a expedição
inglesa ao País dos Ashantis, morreu em viagem para esta ilha onde tencionava passar uns tempos para
restabelecer a sua deteriorada saúde. Era casado com a princesa Beatriz, neta da Rainha Vitoria, de
Inglaterra.
Beatriz (D.)
Foi casada com o infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, e governou depois de viúva
o arquipelago da Madeira, enquanto durou a menoridade de seu filho D. Diogo, grão mestre da Ordem de
Cristo.
Becker (Th.)
E.: Dipteren der Kanarischen Inseln und der Insel Madeira (Mitt. Zool. Museum Berlin,
IV vol., 10 parte, 1908). Indica este trabalho 212 espécies de dipteros, sendo 14 novas.
Bédmar (Conde de Vargas de)
Geologo dinamarquês que estudou a geologia do arquipelago
da Madeira. E.: Resumo das observações geológica feitas em uma viagem ás ilhas da Madeira, Porto Santo e
Açores nos annos de 1835 e 1836 (Lisboa, 1837). Publicou se uma segunda edição desta obra na ilha de S.
Miguel, em 1857.
Begonia
Género da família das Begoniaceas, que tem grande numero de representantes nos jardins do
Funchal. A Begónia fuchsioides, a B. semperflorens, a B. rex e a B. maculata parecem ser frequentes, assim
como diversos híbridos notáveis principalmente pela beleza da sua folhagem. Os madeirenses dão também
o nome de begónia ao Farfugium grande, composta de folhas maculadas e um tanto carnudas.
Beija Flõr (O)
O primeiro numero é de 7 de Abril de 1842 e o ultimo de 29 de Setembro do mesmo
ano, saindo 26 números. Foi seu redactor Servulo de Paula Medina e Vasconcelos.
Belas Donas (Amaryllis Belladona)
Amarilidacea frequente no Monte, Camacha, etc. e que
floresce no outono, achando se então desprovida de folhas. É originaria da Africa Austral. A beladona
medicinal (Atropa Belladona) não existe na Madeira, nem mesmo cultivada.
Belas Noites (Cestrum vespertinum)
Arbusto ou pequena árvore da família das
solanaceas cultivado no Funchal e em Machico.
Beldroega (Portulaca oleracea)
Planta da família das Portulacaceas, muito comum nas ruas
do Funchal. Não é utilizada na Madeira, mas poderia servir para salada, a pesar das suas folhas produzirem
efeitos purgativos quando comidas em grande abundância.
Bélgica (Rei da)
O rei Leopoldo da Bélgica visitou o Funchal em 1897, tendo desembarcado a 17 de
Setembro e saído para Canárias a 19 do mesmo mes. Esteve no Monte, na Eira do Serrado e nalguns outros
pontos perto da cidade.
O príncipe Alberto, depois rei da Bélgica na sua viagem ao Cabo da Boa Esperança e ao Estado Livre do
Congo, visitou a Madeira a 30 de Abril de 1909, sendo cumprimentado pelas autoridades superiores do
distrito.
Belisqueiro
Porção de fio de arame, singelo ou dobrado, que os pescadores ligam à extremidade das
linhas e ao qual está fixo o anzol. O belisqueiro é usado para impedir que as linhas de pesca sejam cortadas
pela dentadura afiada do peixe a capturar.
Belle Poule
A fragata de guerra francesa Belle Poule e a corveta Favorite ancoraram no porto do
Funchal no dia 24 de Julho de 1840, trazendo a seu bordo a missão que tinha por chefe o príncipe de
Joinville e que se destinava à ilha de Santa Helena, com o fim de proceder à exumação dos restos mortais do
imperador Napoleão e de os conduzir a França. Como se sabe, Napoleão passou na Madeira a bordo da nau
inglesa Northumberland no dia 24 de Agosto de 1815, quando ia preso e desterrado para Santa Helena (V.
Napoleão). A expedição comandada pelo príncipe de Joinville não tocou na Madeira no seu regresso à
Europa. O chefe e outros membros desta missão assistiram no Funchal a algumas festas dadas em sua
honra. A Belle Poule saiu da Madeira a 27 de Julho, em direcção às Canárias.
V. Joinville (Príncipe de).
Bemposta
Sítio da freguesia de Água de Pena. Nele ficava a sede do morgadio instituído por João
Afonso Escudeiro em 1512. Era natural do continente do reino e veio para esta ilha pelos anos de 1450.
Procedia de nobre ascendência e foram lhe aqui reconhecidos os seus foros de fidalgo. Morreu em 1512, em
avançada idade, e por testamento feito a 21 de Junho do mesmo ano, instituiu o vinculo da Bemposta, na
freguesia de Água de Pena, e o de S. Lazaro, na freguesia de Santa Cruz. A primeira administradora do
morgadio da Bemposta foi D. Catarina Anes Escudeiro, filha de José Afonso, que casou com Lopo Franco de
Monção, assim chamado por ser natural da vila deste nome. Passou este à Madeira por 1480, e em 1515 foi
primeiro juiz da Câmara de Santa Cruz. Na administração do morgadio da Bemposta sucedeu seu filho João
Lopes Franco, e na quinta e capela de S. Lazaro uma filha por nome Maria Franco. O terceiro administrador
do morgadio da Bemposta foi Diogo Lopes Tavares, que também herdou o vinculo de S. Lazaro por D. Maria
Franco ter morrido sem descendência. Tinha esta família jazigo no antigo convento de Santa Cruz, onde
ainda não há muitos anos se encontrava a respectiva lápide tumular com um escudo em que se viam as
armas dos Tavares e dos Borralhos.
Beneden (Barão Charles Van)
Há muito que este súbdito belga estabeleceu moradia neste
arquipelago, tendo durante largos anos residido na quinta dos Cedros em Santo Antonio, e ultimamente na
ilha do Porto Santo. Considerado como um distinto escritor no seu país, tendo já uma notável bagagem
literária. Entre as obras que podem interessar aos madeirenses, conta se o trabalho intitulado Au Nord
Ouest de l'Afrique/Madère, les iles Canaries, le Maroc, publicado em Bruxelas em 1882. Na revista belga La
Jeune Wallonie publicou a interessante narrativa Voyage aux iles Salvages, que ocupa 50 paginas da mesma
revista e que vem acompanhada de excelentes gravuras. Há quem afirme que nas comedias deste autor Les
Titularisés e Le Mariagicide se encontram incarnadas em várias personagens algumas pessoas conhecidas
na sociedade funchalense.
Nasceu na Bélgica a 4 de Julho de 1854 e faleceu no mesmo país no mês de Dezembro de 1929.
Berenguer
Acima da villa, diz Frutuoso, pela terra dentro hum quarto de legoa, está o engenho dos
Cabraes; e perto delle está outro do Dr. da Calheta Phisico, chamado Pedro Berenguer de Lemilhana, moço
fidalgo e cavalleiro da Ordem de Christo. É dele que provem o apelido de Berenguer, e ainda hoje na Calheta
conserva o nome de Lombo do Doutor uma parte considerável das terras de sesmaria que ali teve Pedro de
Berenguer: Era natural de Valença, em Espanha, doutor em medicina e fidalgo da casa real. Veio para a
Madeira no ultimo quartel do século XVI e estabeleceu se na freguesia da Calheta, onde instituiu um
morgadio, que transmitiu aos seus descendentes. A ele ou a algum dos seus sucessores foi passada carta de
brasão de armas, por alvará régio de 5 de Novembro de de 1524. São elas: campo vermelho e uma banda de
azul perfilada de ouro e nela três flores de liz de prata, elmo de prata aberto, paquife de prata a vermelho, e
por timbre um braço vestido de vermelho com uma das flores de liz na mão.
O Dr. Pedro de Berenguer Lemilhana morreu na Calheta e foi sepultado no cruzeiro da capela mor da igreja
paroquial desta freguesia.
Um dos administradores desta casa vincular foi Gaspar Berenguer de Andrade, que se distinguiu na guerra
do Brasil, pelo que teve o habito de Cristo e o foro de fidalgo. Com sua mulher D. Isabel de França fundou o
convento de Nossa Senhora das Mercês (V. este nome), de que foram padroeiros e onde foram sepultados.
Nasceu Gaspar Berenguer em 1603 e faleceu em 1691.
Foram membros desta família Francisco Berenguer de Lemilhana, que durante 22 anos tomou parte nas
guerras de Pernambuco, sendo agraciado com o habito de Cristo, Antonio de Andrade Berenguer, que se
distinguiu nas guerras da Restauração e Bartolomeu de Melo Berenguer, que serviu com valentia e coragem
nas campanhas do Maranhão.
Beresford (Guilherme Carr)
Este conhecido general do exército britanico, que tanto se
distinguiu nas guerras peninsulares, foi o comandante das tropas inglesas, que pela segunda vez ocuparam
esta ilha no dia 24 de Dezembro de 1807. Beresford saiu da Madeira, em direcção a Portugal, acompanhado
de metade das forças do seu comando a 17 de Agosto de 1808, sendo substituído nesta ilha pelo coronel
inglês Mead.
V. Ocupação da Madeira por tropas inglesas.
Berkeley Cotter (J.C.)
No extracto das Comunicações da Comissão de Trabalhos Geológicos, tomo
II, fascículo II, foi publicado um trabalho com o seguinte título: Noticia de alguns fosseis terciarios do
archipelago da Madeira por J. C. Berkeley Cotter, acompanhada de outra noticia de alguns molluscos
terrestres fosseis do mesmo archipelago, por Alberto A. Girard. No prólogo deste trabalho lê se o seguinte:
Os elementos de estudo submetidos ao nosso exame não são suficientes para precisar com rigor a
subdivisão do systema stratigraphico a que pertencem os depósitos que os continham; mas servem, crêmos
nós, para confirmar em geral as conclusões a que chegou o sábio professor de Zurich (Karl Mayer) de que os
extractos fossiliferos da ilha do Porto Santo e ilhas visinhas, que Bowdich já em 1823 assignalara como
terciarios, fazem parte do andar Helveciano, não devendo excluir se, porem, a possibilidade de que parte
d'esses depósitos pertençam ao Tortoniano ou andar mais superior do systema Miocenico.
Os elementos de estudo de que se faz menção na parte do referido prólogo que fica transcrita, foram
fornecidos pelo Rev. Padre Ernesto Schmitz, então professor do Seminário do Funchal.
Berkeley faleceu em Dezembro de 1919.
Bertrand (Arthur)
Publicou em Paris, em 1841, um livro intitulado Lettres sur l'expedition de
Sainte Hélène, que se ocupa da expedição comandada pelo príncipe de Joinville, que em 1840 foi à ilha de
Santa Helena a fim de conduzir à Europa os restos mortais de Napoleão I. Consagra oito paginas à
passagem dessa expedição pela Madeira, em Julho de 1840.
Bertrand (Henrique de Price)
Capitão de mar e guerra e comandante da fragata D. Pedro,
que se achava no porto do Funchal por ocasião da proclamação do governo liberal nesta ilha no dia 5 de
Junho de 1834. Fez parte do governo interino da Madeira, depois da saída de D. Alvaro da Costa de Macedo
para a cidade de Lisboa.
Besouro
O insecto conhecido na Madeira pelo nome de besouro, é a Macroglossa stellatarum, da
ordem dos Lepidopteros. Aparece durante a tarde para sugar o nectar das flores, tornando se por este facto
um agente inconsciente da fertilização de várias espécies. Pelo seu tamanho e modo de voar, e pelo ruído
que produz quando visita as flores, assemelha se por tal forma ao beija flor, que houve já um viajante inglês
que supôs ter visto esta pequena ave na Madeira.
A lagarta do besouro madeirense alimenta se de espécie do género Galium, e nenhumas devastações causa
portanto nas plantas das hortas e jardins. Quando bem saciada, entra na terra e transforma se aí em
crisalida de cor parda.
Depois de um artigo que o Sr. Dr. Nuno Silvestre Teixeira, distinto medico funchalense, publicou no Diário
de Noticias há cerca de 25 anos, e em que eram indicados certos hábitos extravagantes dos besouros
europeus, ficaram os madeirenses dando o nome de besouros aos indivíduos dotados de costumes idênticos
aos que o referido medico atribuiu aqueles insectos. O besouro madeirense, embora exista na Europa, não
tem semelhança nem afinidades algumas com o besouro europeu.
Á entrada da noite aparece com grande frequência nos jardins um outro Lepidoptero, muito maior e mais
robusto que a Macroglossa e a que madeirenses chamam borboletão ou besouro. Este insecto, pertencente
também aos esfingidios, é a Sphinx Convolvuli, cujas larvas se alimentam de folhas de batateira etc., etc.. Os
rapazes costumam apanhar os borboletões na ocasião em que pousam nas flores para sugar o nectar de que
se alimentam.
Besugos (Pagellus acarne)
Peixe da família dos Espáridas, comum nos mares da Madeira,
onde o pescam desde o litoral até cerca de 200 braças. Vive em grandes cardumes e cria se nas poças à beira
mar. O sabor é amariscado.
Beterraba (Beta vulgaris subesp. esculenta)
Planta da família das Quenopodeaceas,
cultivada nalgumas hortas da Madeira. O falecido Conde do Canavial pretendeu generalizar a cultura da
beterraba na ilha, a fim desta planta poder servir para a produção do açúcar.
Bettencourt. É esta a forma mais usual de escrever este conhecido apelido de família, tendo, no decorrer dos
anos, aparecido entre eles com grafias diversas, segundo o capricho ou a fantasia dos indivíduos que o
usavam.
Chegaram alguns a ter a ridícula pretensão de supor que escrito com um h depois do t se queria assim
designar um ramo genealogico de mais pura e autentica nobreza. Houve na Madeira um titular que se
recusou a assinar uma escritura publica em que figurava o seu nome, porque o tabelião, pouco versado
nestas subtilezas heráldicas, suprimira o h, consoante indispensável ás prosápias avoengas do ilustre e
ridículo fidalgo.
João de Bettencourt, que foi rei e senhor das ilhas Canárias, pertencia a uma antiga e nobre família da
França, onde lhe eram guardados e reconhecidos os foros e privilégios da mais alta nobreza. Um seu
sobrinho, por nome Meciot de Bettencourt e sucessor de seu tio, veio a esta ilha nos primeiros tempos da
colonização, por haver feito troca com o infante D. Henrique da ilha de Lançarote, por uns avultados
rendimentos nesta ilha da Madeira.
Uma filha de Meciot de Bettencourt, que acompanhou seu pai das Canárias, D. Maria de Bettencourt, foi a
instituidora do morgadio de Água de Mel, nas freguesias de Santo Antonio e de S. Roque, a favor de Gaspar
de Bettencourt, filho de seu irmão Henrique de Bettencourt. Foi este e seu irmão João de Bettencourt os
primeiros indivíduos que neste arquipelago usaram este apelido de família.
D. Maria de Bettencourt casou com Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho de João Gonçalves Zarco, e que
foi capitão donatario da ilha de S. Miguel. Gaspar Bettencourt acompanhou sua tia D. Maria Bettencourt aos
Açores e ali casou, sendo o tronco de uma larga descendência. Do morgadio de Água de Mel, de que foi o
primeiro administrador, e de todos os sucessores na administração desta importante casa vincular até o
ultimo conde do Carvalhal, vem uma desenvolvida noticia na revista Paróquia de Santo Antonio do Funchal,
nos números 9 e seguintes do ano de 1915.
Henrique Bettencourt fez assentamento na freguesia da Ribeira Brava, onde teve muitas terras de sesmaria,
e ali instituiu um morgadio.
Brasão de armas desta família: Em campo de prata um leão negro rompente, armado de vermelho, tendo
por timbre o mesmo leão das armas.
Muitos membros desta família se distinguiram notavelmente na Africa, na Índia e no Brasil, merecendo
menção especial Henrique de Bettencourt, que no oriente deu grandes provas de valor, sendo general do
mar de Malabar. Morreu num naufrágio, quando ia por capitão mor de umas naus e se dirigia ao reino a
encorporar se na expedição que D. Sebastião fez à Africa.
Bettencourt (Anastacio Moniz de)
Poeta madeirense falecido na ilha Terceira, onde residiu
por largos anos. Em 18 de Maio de 1801 foi nomeado professor substituto das cadeiras de retórica e
filosofia, que a este tempo havia no Funchal, e em 30 de Março de 1803 professor da cadeira de filosofia
racional. Era bacharel em cânones, pela Universidade de Coimbra e foi pai do Dr. Nicolau Anastacio de
Bettencourt, também falecido na ilha Terceira.
Bettencourt de Vasconcellos. (João)
Passou com seu pai à ilha Terceira, tendo sido aí
degolado em 1582, por ordem de Manuel da Silva, Conde de Torres Vedras, por ser partidário de Filipe II de
Castela.
Bettencourt (D. Maria do Monte de Sant'Ana e Vasconcelos Moniz de)
Foi
uma das mais distintas senhoras madeirenses pelas suas virtudes, inteligência e ilustração. Nasceu no
Funchal por 1809, sendo filha de Pedro de Sant'Ana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt, e faleceu nesta
cidade a 12 de Agosto de 1884. Teve colaboração em vários jornais madeirenses e publicou em volumes os
dois romances, o Cura de São Lourenço, Lisboa, 1855, de 183 pag., e Bernardo e a mesa de prata de D. Diniz,
Funchal, 1879, de 249 pag..
A pesar de se tratar duma contemporânea não conseguimos obter outros dados biográficos a seu respeito.
Bettencourt (Dr. Antonio João de França)
Este lente da Universidade de Coimbra
nasceu na Calheta a 19 de Outubro de 1927 e era filho de Antonio João de França Bettencourt e de D. Ana
Rita Telo de Meneses, sendo oriundo de antigas e nobres famílias daquela vila.
Depois de cursar o liceu do Funchal, matriculou se na faculdade de Teologia da nossa Universidade, em que
obteve as mais altas distinções, tendo se nela doutorado e recebido o capelo a 27 de Julho de 1862.
Só dez anos depois é que fez concurso para lente de Teologia, sendo classificado em primeiro lugar e tendo
como competidor o Dr. Luiz Maria da Silva Ramos, que mais tarde foi um dos mais distintos professores
daquela faculdade. O Dr. Bettencourt apresentou neste concurso um estudo sobre a Verdade philosophica
do mysterio da Incarnação, que foi publicado em volume e de que se fizeram duas edições sucessivas, sendo
considerado um trabalho muito valioso no seu género.
Foi professor de teologia no Seminário de Coimbra e de historia e de hebraico no liceu da mesma cidade.
Pertenceu a várias sociedades cientificas e ao Instituto de Coimbra em cujo orgão colaborou. Foi o fundador
e um dos mais brilhantes redactores da Revista de Theologia, que gozou de grande nomeada no seu tempo.
Foi um dos mais activos e zelosos provedores da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra e deixou o seu
nome vinculado a importantes serviços que ali prestou.
Segundo se vê no Esboço Historico Literario da faculdade de theologia da Universidade de Coimbra, pelo
Dr. M. Eduardo da Mota Veiga, foi o Dr. França Bettencourt o primeiro madeirense que, desde a reforma do
marquês de Pombal em 1772, exerceu ali o professorado na faculdade de Teologia e o segundo que se
doutorou na mesma faculdade, tendo sido o primeiro o antigo bispo desta diocese D. Aires de Ornelas e
Vasconcelos.
O Dr. Antonio João de França Bettencourt faleceu em Coimbra a 29 de Outubro de 1882, tendo 55 anos de
idade.
Bettencourt (E. A.)
Em 1875 publicou no Porto um folheto que tem por título Memória sobre a
descoberta das ilhas do Porto Santo e Madeira.
Bettencourt (Fr. Pedro de)
Pertence à família Bettencourt desta ilha, onde nasceu por meados
do século XVI. Entrou na Ordem Serafica de S. Francisco, tomando o nome de Fr. Pedro de S. Bartolomeu.
Passou à Índia e foi ali o fundador dum convento de freiras da sua ordem. Dele se ocupa a Historia
Seraphica de Fr. Manuel da Esperança.
Bettencourt (Nicolau Anastacio de)
Nasceu este distinto madeirense na freguesia de São
Pedro desta cidade a 7 de Fevereiro de 1810, sendo filho do Dr. Anastacio Moniz de Bettencourt e D. Ana
Rosa Bettencourt.
O pai do conselheiro Nicolau Anastacio foi um medico muito distinto e literato bastante conhecido e
apreciado no seu tempo. O autor da Zargueida dedica lhe um soneto na introdução do seu poema
Georgeida, que, a pesar do que possa haver de hiperbólico nesses versos, mostra no entretanto o apreço em
que era tido e o bom nome de que gozava entre os seus contemporâneos.
O nosso biografado herdou de seu pai um brilhante talento, que revelou em bem verdes anos e de que
depois deu evidentes provas como aluno da Universidade de Coimbra.
Tendo perdido seu pai em tenra idade, foi para Coimbra em 1825, acompanhado de sua mãe, a fim de
matricular se na faculdade de filosofia e seguir depois o curso medico.
Em 1827 abandonou os trabalhos escolares para alistar se no batalhão académico sob o comando do conde
de Vila Flor, e combatendo contra as forças realistas entrou heroicamente nas acções da Cruz de Alvoroços e
Ponte de Vouga. Seguindo a sorte dos seus companheiros de armas, teve de sair de Portugal, emigrando
para Inglaterra em 1828. Foi ali que recebeu a noticia da morte de sua mãe, que feriu rudemente o seu
coração de filho estremecido.
A 14 de Fevereiro de 1829 chegava à ilha Terceira, encorporado no batalhão de voluntários da rainha, e em
11 de Agosto do mesmo ano tomava parte na acção que se deu na vila da Praia entre uma esquadra
miguelista e os liberais, e em que estes ficaram vitoriosos.
A expedição preparada na Terceira para libertar as outras ilhas açoreanas ainda sujeitas ao jugo do
absolutismo não o deixou indiferente e nela se encorporou voluntariamente, portando se sempre com
valentia e assistindo à acção da Ladeira Velha, em S. Miguel, a 2 de Agosto de 1831.
Achava se Nicolau Anastacio de Bettencourt na ilha Terceira, quando ali aportou D. Pedro, imperador do
Brasil, a 3 de Março de 1832, a fim de organizar o exército liberal, que devia combater as forças absolutistas
e implantar depois entre nós o sistema constitucional.
O exército libertador desembarcou nas praias do Mindelo a 8 de Julho de 1832, fazendo parte dele o nosso
ilustre biografado, que no imemorável cerco do Porto deu provas do seu grande denodo e valentia,
Sobretudo na celebre acção da Serra do Pilar, a 13 de Agosto de 1832, mostrou Nicolau Anastacio a sua
coragem e valor, tendo um destacamento de voluntários a que pertencia merecido os maiores elogios do
general Torres, que recomendou ao governo, para serem recompensados, esses arrojados voluntários. Ali
combateu com verdadeiro heroísmo ao lado de José Estevão Coelho de Magalhães, Julio Maximo de
Oliveira Pimentel, José Silvestre Ribeiro e outros, que depois tanto se distinguiram entre nós em vários
ramos da actividade humana.
Estabelecido o governo constitucional, foi Nicolau Bettencourt nomeado secretario geral da prefeitura de
Angra e depois transferido para idêntico lugar no distrito de Ponta Delgada, onde também exerceu durante
sete anos o lugar de administrador geral e de governador civil, captando ali a mais profunda estima dos seus
administrados, pela maneira como desempenhou as funções do seu elevado cargo.
Depois de ter servido algum tempo como governador civil de Aveiro, para que havia sido nomeado por
decreto de 23 de Novembro de 1843, foi colocado à frente do distrito de Angra do Heroísmo a 1 de
Dezembro de 1844, tendo prestado á ilha Terceira, que considerava a sua segunda pátria, os mais
assinalados e relevantes serviços.
Foi ali que se revelou brilhantemente o seu tino administrativo e o seu génio empreendedor, de que são
exemplos elequentissimos a Caixa Económica e Asilo da Infância, que fundou na capital daquele distrito.
Acerca dessas duas instituições dizia um jornal açoreano, por ocasião da sua morte:
“0 seu nome é hoje abençoado pelos benefícios e utilissimos efeitos que em geral d'ali derivam, a tal ponto
que, ha poucos meses, a Caixa Económica d'Angra ofereceu ao hospital da Misericórdia cerca de dois contos
de reis para uma enfermaria modelo, que deverá ter o nome d'aquelle benemérito, ao passo que o município
dava o mesmo nome a uma das ruas da cidade, pelo imperioso dever de o recomendar à gratidão e respeito
públicos.
Bastaria a fundação d'aquella casa de caridade e d'aquelle estabelecimento de credito para tornal o
inolvidável, podendo avaliar se o trabalhoso empenho para esse fim empregado, sabendo se que na época da
sua instituição (1844 53) mal se compreendia ainda o alcance da assistência publica, das associações de
caridade e de socorros, e das moralizadoras e populares caixas económicas.
Durante o período de doze anos, que quasi ininterruptamente administrou o distrito de Angra, não deixou
de trabalhar dedicada e persistentemente pelo engrandecimento e prosperidades da sua pátria adoptiva.
Deu grande impulso à instrução, fundando escolas, concorrendo muito para a organização do liceu nacional
e animando com a sua palavra evangelizadora todos os que se dedicavam às lides literárias.
Foi durante o seu governo e devido à sua influencia que se estabeleceu devidamente a alfândega, liceu
nacional, paços da justiça, cadeias publicas, etc..
Um dos padrões imorredouros da sua glória é a fundação do Asilo da Infância Desvalida, a que deixou
indissoluvelmente ligado o seu nome, dotando a cidade de Angra com um importantíssimo estabelecimento
de caridade, que ali espalha apreciáveis e inúmeros benefícios.
Foi depois governador civil do distrito da Horta, e eleito por ali deputado em 1853, como reconhecimento
dos serviços que prestou aos seus habitantes.
Recusando o mandato, aceitou no entretanto o cargo de governador civil de Aveiro, deixando vinculado ao
seu governo a criação duma caixa económica, que é instituição florescente e tem prestado relevantes
serviços àquela cidade.
Ainda foi governador civil de Portalegre e ali terminou a sua carreira administrativa, obtendo a aposentação
em Julho de 1862 e indo fixar a sua residência em Angra do Heroísmo.
Anastacio Bettencourt sem ser um escritor de nomeada, teve, porém, apreciáveis qualidades de literato, que
revelou brilhantemente em diversos escritos que deixou dispersos pelos jornais e nos seus discursos, que
ficaram inéditos, e que primavam pela pureza e elegância de linguagem. Também se sabe que foi apreciado
poeta, escrevendo inspirados e formosos versos. Publicou em 1848 uma colecção de vários escritos
administrativos, e Inocencio atribue lhe o volume que se publicou em 1857 com o título de Esposição de
factos que se deram no districto de Angra do Heroísmo etc..
Tinha a carta de conselho, era fidalgo cavaleiro da casa real e comendador de diversas ordens.
Faleceu na cidade de Angra do Heroísmo a 7 de Março de 1874.
Bettencourt Pita (Nicolau Caetano)
Nicolau Caetano de Bettencourt Pita, doutor em
medicina pela universidade de Edimburgo, sócio da Real Sociedade Física e da Real Sociedade Medica e de
Historia Natural da mesma cidade e cavaleiro professo na ordem de Cristo, nasceu no Funchal em 6 de
Dezembro de 1788.
Destinando se à carreira medica, dirigiu se à capital da Escossia em cuja universidade se matriculou,
recebendo o grau de doutor em medicina em 24 de Junho de 1812.
“Tão brilhantes foram os actos académicos que precederam a recepção do grau, diz o Dr. Rodrigues de
Gusmão nas Memórias biográficas dos médicos e cirurgiões portugueses, que para galardoar seu mérito
distincto, foi eleito presidente, n'esse anno, da Real Sociedade Physica. É uma justa e respeitosa
homenagem, que por louvável e antigo uso se presta na universidade de Edimburgo ao talento do sócio
d'aquella Real Sociedade que sobreleva na ostentação aos demais doutorandos”.
Naquele mesmo ano de 1812 publicou o Dr. Nicolau Pita, na cidade de Londres, um escrito em inglês a que
deu o seguinte título: Account of the Island of Madeira. Eis como se expressa, referindo se a este trabalho, o
conceituado medico português Dr. F. A. Barral: “Esta producção dum talento novo, que depois devia figurar
na profissão por um modo distincto, era uma narração descriptiva do clima da ilha e da sua geographia
physica, era a obra mais importante que se tinha escripto até esse tempo sobre a ilha da Madeira, que
podesse servir como princípio da sua topografia medica. O Investigador Português do mês de Setembro de
1813 também falou com elogio desta obra.
Regressando o Dr. Pita ao país, o príncipe regente D. João, depois D. João VI, atendendo ao seu talento e
merecimentos, concedeu lhe por carta regia de 8 de Março de 1814 todos os privilégios, foros e honras que
nesse tempo só eram concedidos aos médicos formados na Universidade de Coimbra.
Proclamados no Funchal em 28 de Janeiro de 1821, os princípios liberais da revolução do Porto de 24 de
Agosto de 1820, o Dr. Pita foi um dos primeiros a abraça-los, e desde então mostrou se sempre adversário
acérrimo das antigas instituições. Entendendo que o jornal era o melhor meio de difundir as ideias
constitucionais entre os seus conterrâneos, fez vir de Lisboa uma tipografia, e no dia 2 de Julho de 1821
começou a publicação do Patriota Funchalense, que foi o primeiro periódico que na Madeira houve e onde
colaboraram os homens mais conhecidos na terra pelas suas opiniões avançadas.
Restaurado em 1823 o regímen do absolutismo, um dos primeiros actos do governo foi enviar à Madeira
uma alçada destinada a julgar e punir os indivíduos implicados numa conjuração, verdadeira ou suposta,
cujo fim era, segundo consta da sentença proferida contra os réus compreendidos na devassa da mesma
alçada, reduzir a effeito o audacioso projecto de restabelecer a proscripta constituição nesta ilha.
O Dr. Pita, bastante conhecido pelas suas opiniões rasgadamente liberais e redactor, além disso, dum
periódico constitucional, não podia deixar de inspirar desconfianças aos terríveis juízes da alçada. Culpado
ou não, foi, pois, encerrado nas prisões da fortaleza de S. Tiago, onde jazeu durante algum tempo sendo
finalmente condenado por sentença de 24 de Outubro de 1823 a quatro anos de degredo para a ilha Terceira
e em 50:000 réis aplicados para o fisco e câmara real.
Passando o nosso patrício àquela ilha, foi ali bem recebido, e logo depois era lhe confiado o cargo de medico
do hospital militar de Angra, o qual exerceu até 1834. Como remuneração dos seus serviços como medico
militar, concedeu lhe a infanta regente D. Isabel Maria, por carta regia de 19 de Julho de 1827, a patente e
graduação de major.
Foi o Dr. Pita um dos redactores do periódico O Liberal, que começou a ser publicado em Angra em 29 de
Março de 1835. Era este jornal orgão da política chamada então reformista, depois setembrista e finalmente
progressista, e sustentou constante polémica com a Sentinella, que representava o partido conservador,
chamado devorista, e com o Angrense.
Naquela cidade desempenhou o nosso patrício ainda os cargos de medico do hospital civil e do partido da
Câmara, e o de delegado do Conselho de Saúde Publica do Reino. O seu nome figura entre os dos cidadãos
que assinaram em Angra o auto de aclamação de D. Pedro IV e D. Maria no dia 22 de Junho de 1828.
Faleceu em 20 de Maio de 1857, contando 69 anos incompletos de idade.
Foi sócio efectivo da antiga Sociedade dos Amigos das Sciencias e Artes do Funchal e um dos cidadãos
eleitos em 1802 para a primeira câmara constitucional desta cidade. Dele partiu a ideia de se erigir no
Funchal um monumento para comemorar o dia da proclamação dos princípios liberais na Madeira. A
primeira pedra desse monumento chegou a ser lançada com grande solenidade e pompa, no largo em frente
da Sé, no dia 28 de Janeiro de 1822, mas a obra não passou dos alicerces, sendo estes mesmos destruídos no
primeiro de Setembro de 1823, depois de restabelecido o governo absoluto nesta ilha.
Bianchi
Este apelido procede de João Antonio Bianchi, comerciante de origem italiana que já em 1822
vivia no Funchal.
Bibliografia
É extensa e muito importante a relação dos escritos que se ocupam deste arquipelago,
mas está ainda por fazer uma resenha completa da bibliografia madeirense. Os açoreanos que, em tantos
ramos da actividade humana nos levam uma superior e indescritível vantagem, possuem sobre o assunto
um trabalho muito valioso, que é a sua Bibliotheca Açoreana, em dois volumes de cerca de 900 paginas,
devida ao aturado estudo e diligentes investigações do Dr. Ernesto do Canto. 0 Dr. Alvaro Rodrigues de
Azevedo no artigo Madeira, inserto no Diccionario Universal Portuguez Ilustrado, fez um apreciável ensaio
de uma bibliografia madeirense, mencionando cerca de 150 obras escritas em português e 80 em línguas
estrangeiras, mas que está muito longe de ser um estudo completo sobre o assunto. Para a bibliografia
jornalística, possuímos a Resenha do Jornalismo da Madeira, publicada pela empresa do Diário de Noticias
do Funchal, e que é um trabalho quanto possível completo sobre os jornais publicados nesta ilha.
No decurso deste Elucidario, quando a natureza do assunto exige, e particularmente quando tratamos dos
respectivos autores, fazemos sempre menção das obras que se ocupam deste arquipelago e que são em
numero bastante considerável. Desta maneira, a indicação dos trabalhos de mais valiosa e autorizada
consulta para o estudo dos factos, pessoas e cousas madeirenses, encontra se largamente dispersa nestas
paginas, com a possível enunciação das circunstancias bibliograficas do ano e logar da publicação, nomes
dos autores, numero de paginas, etc., que possam porventura aproveitar a qualquer investigador estudioso.
A pesar disto, no artigo Elementos para a historia madeirense apresentaremos uma breve resenha das obras
que oferecem mais abundante pecúlio de noticias e informações respeitantes à historia deste arquipelago.
Neste artigo só vão, pois, indicadas várias espécies bibliograficas, que não têm cabimento noutros lugares
deste Elucidario e que não são, por certo, as de maior valia e interesse, mas que ainda assim poderão
fornecer notas apreciáveis para o estudo de alguns pontos da nossa historia e em especial da nossa
actividade cientifica e literária. Damos a seguir uma relação de diversos livros e opúsculos, sem atenção à
importância dos assuntos ou à ordem cronológica da sua publicação, pois apenas fazemos um simples
registo e não um trabalho metódico de rigorosa bibliografia:
Instruccões para a inspecção ou revista de um batalhão ou regimento de Infantaria. . . traduzido do inglês,
Funchal 1823, de 60 pag.;
Álbum Litterario, Funchal, 1885, de 200 pag.;
Duas palavras e inscritos documentos em como se prova que o deputado Luis Vicente d'Afonseca calumniou
o director das Obras Públicas do Funchal, Domingos Alberto Cunha, Funchal, 1860, de 53 34 pag.;
Flores Agrestes, Poesias por Coelho Mendes, Funchal, 1884, de 115 pag.;
Eu e Elle. Resposta à redacção da Verdade, por Coelho Mendes, Funchal 1884, de 12 pag.; Breve Noticia
sobre as ilhas de Sandwich, Funchal, 1878, de 22 pag., publicação feita para esclarecimento dos emigrantes
que da Madeira saíram em grande escala para aquelas ilhas;
Por Bem Fazer Mal Haver, Relatório da Administração dos bens do fallecido Sr. Francisco Alexandrino da
Costa Lyra, por Manuel Inisio da Costa Lira, Lisboa, 1883,de 28 pag.; um folheto, sem título, de 19 paginas,
escrito pelo capitão do porto do Funchal Jaime Forjaz de Serpa Pimentel e publicado nesta cidade em 1912,
justificando se de algumas acusações que lhe foram feitas; Guia do Despachante compilado por Augusto B.
C. de Sampaio, despachante oficial na alfândega do Funchal, 1897, de 30 pag.;
O Tabaco, indicações para a sua cultura. . ., pelo mesmo, Funchal, 1908, de 24 pag.;
Collecção de Poesias, sem data, Funchal, de 8 pag., publicada aproximadamente por 1900;
Mucio Portuguez.. ., poemeto épico por Miguel Manuel de Ornellas e Vasconcellos, Funchal, 1888, de 8
pag.;
Methodo de plantar e Cultivar a Cana de Assucar, por Nicolau de Ornellas e Vasconcellos, Funchal, 1855, de
20 pag.;
Apontamentos para a dissolução da crise agrícola, por João Craca..., Lisboa, 1879, de 29 pag.; folheto
publicado no Funchal e atribuído ao Dr. José Leite Monteiro, que é uma resposta jocosa a um opúsculo do
Dr. João da Câmara Leme Homem de Vasconcelos, depois Conde do Canavial;
Medição das estradas reaes da Madeira e seus respectivos ramaes, Funchal, 1908, de 12 pag. não
numeradas;
Manualzinho para a Associação das Filhas de Maria estabelecida no Hospício - Funchal em 1879, Funchal,
1886, de 36 pag.;
Argumento a favor da arborização obrigatória das serras da ilha da Madeira, por Manuel Braz Sequeira,
Funchal, 1913, de 27 pag.;
Ao Publico, Resposta a “Ao Público” (suposta tradução de italiano) de Albino Verdini, por um grupo de
Funchalenses, Madeira, 1880, de 20 pag.;
Guia do Emigrante. . . por Guilherme Albuquerque França, Funchal, 1888, de 42 pag.; Sonho Solaçoso. . .
por José de Oliveira Jardim, Funchal, 1888, de 31 pag.;
Manual da Congregação das Filhas de Maria, Funchal, 1900, de 174 pag.;
Estrella, Romance Pastoril, traduzido por J. N. O., Funchal, 1842, de 179 pag.;
Beja no anno de 1845, por José Silvestre Ribeiro, Funchal, 1847, de 80 pag.;
O Martyrio do Jovem Hachirel..., traduzido do espanhol, Funchal, 1840, de 68 pag.;
O santo exercício do retiro mensal para isso das filhas de Maria.. ., compilado e editado pelo sacerdote
madeirense João Prudencio da Costa, Porto, 1904, de 380 pag.;
Henriette, Scena Comica, Funchal, 1887, de 18 pag., sem nome de autor, mas atribuído a D. Carolina Dias;
Exortação à Juventude ou protecção aos animais, Funchal, 1880, de 14 pag., por Elisa Smart;
um folheto anónimo, de 14 pag., sem título, nem data, nem ano e lugar da publicação, que é uma diatribe
contra o vigário da freguesia dos Canhas, Manuel de Abreu Macedo;
Biblioteca Madeirense Henrique Freire. Martyrio, Funchal, 1878, de 44 pag.;
A viagem de observação da corveta Bartolomeu Dias à Madeira, em 1868, opúsculo poético por um patriota
filosófico, humorístico e evangelizador, de 11 pag., publicado no Funchal, mas sem qualquer indicação
bibliográfica, sendo atribuído ao distinto poeta J. A. Monteiro Teixeira;
Plano de melhoramentos para a ilha da Madeira, por Henrique de Lima e Cunha, Lisboa, de 15 pag.;
Reivindicação do Vinculo da Saraiva, Memorial a propósito do acordão do Supremo Tribunal... em que era
recorrente a Fazenda Nacional e recorrido Henrique de Freitas Valle e mulher, Funchal, 1881, de 14 pag.;
O Bom Christão de manhã e à noite, 1915, de 33 pag.; publicado pelos alunos do Seminário;
Duas palavras de Julio Augusto Leiria em resposta ao folheto intitulado 0 Hospital de Santa Isabel do
Funchal por Acurcio Garcia Ramos Funchal, 1874;
0 meu protesto, Funchal, 1885, de 6 pag., por Alexandre José Alves;
Breves reflexões acerca da circular de 26 de Janeiro de 1870 do presidente da junta governativa do bispado
do Funchal aos párocos desta diocese, Lisboa, 1870;
Representação da Câmara Municipal do Funchal sobre a proposta de lei Nº I B, apresentada na sessão
legislativa de 1906, Funchal, 1906, de 13 pag.;
Algumas disposições legaes da fiscalização de vinhos, vinagres e azeites, Funchal, 1908, de 7 pag.;
Catecismo da Doutrina Christã, composto especialmente para a diocese da Madeira 100 edição, Funchal,
1905, de 196 pag.;
Catecismo da Doutrina Christã da Diocese do Funchal, Lisboa, 1917, de 288 pag.;
Absolvição do assassino do cabo Pereira, duas palavras sobre o caso, Lisboa, 1887, de 21 pag.; Africa
Occidental. . . por Francisco Travassos Valdez, Lisboa, 1864, de 406 pag., tendo 64 pag. dedicadas à
Madeira;
Historia completa da infame trama urdido por Antonio Luiz dos Reis e a sua cumplice a ex actriz Consuela
Lujan contra João Rudich, Lisboa, 1870, de 234 pag., em que figuram o madeirense Antonio Luiz dos Reis e
o dr. Cesar Mourão Pita, e em que se encontram várias referências a esta ilha;
Diccionario Popular, dirigido por Manuel Pinheiro Chagas, encontrando se em todos os volumes várias
referências à Madeira;
Estatística industrial do distrito do Funchal, por Francisco de Paula Campos Oliveira, Lisboa, 1863; Historia
Genealogica da Casa Real Portugueza, por D. Antonio Caetano de Sousa, 13 vol. publicados de 1735 a 1748 e
Provas da Historia Genealogica, pelo mesmo, 6 vol. publicados de 1743 a 1748, encontrando se em vários
volumes referências a cousas e pessoas madeirenses;
Historia de Portugal, por Manuel Pinheiro Chagas, 30 edição, I1 vol. publicado em 1899 e os restantes em
anos sucessivos;
Historia de Portugal nos séculos XVII e XVIII, por Luiz Augusto Rebelo da Silva; Corpo Diplomático
Português, pelo mesmo, 4 vol. publicados de 1862 a 1876;
Bibliotheca Lusitana, por Diogo Barbosa Machado, 4 vol. publicados de 1741 a 1759;
Da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, por Alexandre Herculano, 70 edição, 1907, que se
ocupa de D. Martinho de Portugal, primeiro arcebispo do Funchal;
Portugal Antigo e Moderno, por Pinho Leal, 12 vol. publicados em Lisboa de 1873 a 1890;
A Caldeira de Pero Botelho, por Arnaldo Gama;
Justificação do Visconde da Calçada à arguição que lhe foi feita, e apreciação do processo crime instaurado
na comarca ocidental do Funchal, promovido por Diogo Perestrello da Câmara, por um amigo do acusado,
Lisboa, 1873, de 73 pag.;
Programma do Concurso para o abastecimento de águas e canalização de esgotos da cidade do Funchal,
1900, de 18 pag., havendo uma tradução francesa publicada no mesmo ano, com 22 pag.;
Relação do que se praticou na cidade do Funchal da ilha da Madeira, no dia 17 de Dezembro de 1816 em que
a Câmara fez celebrar as fúnebres cerimónias da fracção dos Escudos, e reaes exéquias pela alma da
Serenessima Rainha a Senhora D. Maria I, Lisboa, de 4 pag.;
Relação do que se praticou na cidade do Funchal, na ilha da Madeira, no acto de acclamação do muito alto e
poderoso Rei o Serenissimo Senhor D. João VI e de tudo o mais que se fez em consequência da mesma
solemne aclamação, Lisboa, de 4 pag.;
Relação dos estragos causados pela tempestade que houve na noite do dia 9 de Outubro de 1803 na cidade
do Funchal, Lisboa, 1804, de 3 pag.;
Attestado genealogico da ascendência do Sr. José Francisco de Sant'Anna de Vasconcellos Moniz de
Betencourt, por João Carlos Feio Cardoso de Castelo Branco, Lisboa, 1857, de 34 pag.;
Catalogo dos Bispos da Egreja do Funchal, por D. Antonio Caetano de Sousa, (vem na Coll. dos Docum. e
Bem. da Acad. Real da Hist. ,Port., tomo I, Lisboa, 1721);
A mulher de Colombo, Notas extraidas dum estudo inédito, por Nicolau Florentino, Lisboa, 1892, de 59
pag.;
Relação do lamentável e horroroso terremoto que sentiu, na noite do ultimo de março para o primeiro de
Abril de 1748, a ilha do Madeira, extrahida de outra que veiu do Funchal, escripta a 17 de Abril do mesmo
anno, Lisboa, 1748, de 8 pag.;
Relação dos terríveis effeitos que causou o terramoto que sentiu a ilha da Madeira, na noite de 31 de Março
de 1748, Parte 2.0, Lisboa, 1748, de 7 pag.;
Considerações apresentadas à Commissão encarregada de estudar a situação económica da Madeira, por
alguns madeirenses, Funchal, 1888, de 46 pag.;
Propostas apresentadas por Manuel Inisio da Costa Lyra na Comissão de inquérito creada para estudar as
causas da crise económica da Madeira, por decreto de 31 de Dezembro de 1887, Funchal, de 18 pag.;
Comissão de Auxilio á Lavoura da Madeira, pelo presidente da commissão M. C. Rodrigues de Morais,
agrónomo, Funchal, 1888, de 21 pag.;
A Crise Agrícola da Madeira, suas causas e effeitos, considerações por H. V., Funchal, 1887, de 8 pag., sendo
seu autor Henrique Felix de Freitas Vale;
A revolta na Madeira e a comissão de inquérito, breves considerações e apontamentos por Henrique F. F.
Vale, Funchal, 1888, de 14 pag.;
Câmara Municipal do Funchal, iluminação a gaz, Funchal, 1859, de 18 pag.;
Representação a sua Magestade El Rei da Câmara Municipal do Funchal sobre a importação de vinhos na
Russia, Funchal, 1903, de 7 pag.;
Projecto de organização do serviço de limpeza e hygiene da cidade do Funchal apresentado na sessão da
Câmara de 8 de Outubro de 1891, pelo vereador José Joaquim de Freitas, Funchal, 1892, de 26 pag.;
No Laboratório, Psychologia e Pathologia cerebral, por J. Regniard, Funchal, 1889, de 47 VII pag., que é um
suposto estudo acerca de quatro indivíduos que na época residiam no Funchal e aqui exerciam cargos
importantes, ocultando se o autor sob o referido pseudónimo de Regniard;
Versos do Feiticeiro do Norte, Manuel Gonçalves, que são uma série de pequenos opúsculos, entre os quais
se contam O Santo Antonio, 1901, de 6 pag., A chegada de Suas Magestades, 1902, de 12 pag., As raparigas
dos bordados, 1902, de 4 pag., 0 Lavrador, 1902, de 8 pag., A cidade do Funchal, 1902, de 8 pag., As
inundacções, 1902, de 8 pag., 0 meu gallo preto, 1902, de 6 pag., A antiguidade de meu pae, 1908, de 7 pag.,
A vida do feiticeiro do Norte descripta por ele mesmo, 1908, de 8 pag., A Madeira, 1908, de 7 pag., e ainda
outros, impressos do Funchal, e Pedro Alvares Cabral, 1910, de 7 pag., e Oferta de Manuel Gonçalves, 1910,
de 4 pag., e outros mais, impressos no Brasil, onde o autor esteve algum tempo;
Instruções theoricas e practicas sobre a cultura do Holcus Saccharatus ou canna doce de Imphee, por
Ricardo Carlos Smith, empresario do Jardim de horticultura botanica na Madeira, Funchal, 1858, de 62
pag.,
Opúsculo Oenologico, por S. A. F. Ferraz, Funchal, 1844, de 15 pag.;
Breves instruções sobre a cultura da beterraba do assucar, Funchal, 1871, de 16 pag.;
Selecta de poesias infantis.. . compilada por Henrique Freire, 2.0 edição, Funchal, de XXXI 302 pag., sendo
a 10 edição também impressa no Funchal;
Breve exposição do bom direito de Manuel Jose de Oliveira na appellação commercial de árbitros vinda da
ilha da Madeira em que são appellados os snrs. Murdoch Shortridge & C1 e outros, Lisboa, 1837, de 40 pag.;
Memoria consagrada ao saudoso rei D. Luiz I, por Eduardo Maciel de Brito Nobrega, Guiana Inglesa, 1892,
de 31 pag.;
Aphorismos acerca da fundação do Jardim de aclamação na ilha da Madeira e em Angola na Africa austro-
ocidental, pelo doutor Frederico Welwitsch...; Refutação das observações da commissão permanente da
pauta geral das alfândegas em Lisboa, feitas acerca das reformas e alterações propostas à dita pauta pela
commissão especial da ilha da Madeira, por um agricultor madeirense, Funchal, 1840, de 41 pag.;
Opinião inteiramente conscienciosa da associação Mercantil do Funchal acerca da projectada redução e
instituição dos direitos de sahida do vinho da Madeira, por J. A. G. R., Funchal, 1849, de 11 pag.;
Lisboa d'outros tempos, por Pinto de Carvalho (Tinop) que se ocupa do conde do Carvalhal;
Anna de Arfet, por José do Canto Brun, Ponta Delgada, S. Miguel, 1882, de 36 pag.;
Breves Noticias sobre os archipelagos da Madeira, Açores, Cabo Verde e Canárias, conferencias feitas na
Associação dos Engenheiros civis portugueses, por Adolfo Loureiro, Lisboa, 1898;
0 Conflicto entre o governo civil e a delegação do conselho de saúde publica do reino, por César Augusto
Mourão Pita, Dr. em medicina, Madeira, 1865, de 82 pag.;
0 Conflicto entre o governador civil deste distrito e a delegação do conselho de saúde publica, Madeira,
1864, de 5; pag.;
A questão entre o Dr. João da Câmara Leme, servindo interinamente de delegado de saúde O districto do
Funchal e o pharmaceutico Francisco Xavier de Sousa, secretario da Escola Medico Cirurgica da mesma
cidade, por ***, 1868, de 55 pag.;
Pendência entre o ex.mo Sr. Francisco Correia de Heredia Ribeira Brava e o ex.mo Sr. Dr. Manuel Gregorio
Pestana, Lisboa, 1915, de 29 pag.;
Clamor dos madeirenses ou uma breve analyse dos males que resultam à ilha dos tributos impostos pela lei
de 23 de Junho de 1834, por Manuel de Sant'Anna e Vasconcelos, natural da Madeira, Lisboa, 1835, de 16
pag.;
Dornellas, investigações históricas deste apelido, por Afonso de Dornelas, Lisboa, 1912, de 23 pag.;
Parabéns poético políticos à grandiosa regeneração portugueza na congratulante adherencia da ilha da
Madeira em 28 de Janeiro de 1821 no theatro grande do Funchal, por Luiz Antonio Jardim, formado na
faculdade de leis..., Funchal, 1822, de 29 pag.;
O alcool do continente na Madeira, Lisboa, 1909, de 10 pag.,
O álcool vínico continental expulso da ilha da Madeira, Monopólio em perspectiva, Refutação do folheto “O
álcool do continente na Madeira”, Lisboa, 1909, de 16 pag.;
Um golpe de vista sobre as alfândegas em 1884, por um curioso, 1884, de 33 pag., impresso no continente,
(ocupa se da nossa alfândega de pag. 18 a 23);
Taboada de medidas de cereaes e sua correspondência entre a Praça do Funchal, de Lisboa e extrangeiro,
dedicada aos illustrissimos senhores negociantes da Madeira, por João Baptista Vensano, Funchal, 1844, de
15 pag.;
A Colera na Madeira, por Bettencourt Ferreira, Porto, 1911, de 26 pag.;
Allegações finaes de A. John Montague Benet Stanford na execução de que é R. o commendador Manuel
Gonçalves, Funchal, 1906, de 16 pag.;
Formulário de todos os autos, termos, certidões e despachos dum inventario processado no juízo dos orfãos
conforme o decreto de 21 de Maio de 1841..., por B. T. Lobato Machado, advogado nos auditórios da
Madeira, Funchal, 1845, de 53 pag.;
Questão endiabrada, Bruxedo ou engana vista? João Coelho e outros contra Domingas de Nobrega e
marido. Comarca de Santa Cruz, pelo advogado Antonio José de Figueiredo, Funchal, 1918, de III pag;
Regras particulares da união sacerdotal .. da diocese do Funchal, Funchal, 1907, de 12 pag.;
Sentença proferida contra os reos comprehendidos na devassa da alçada que Sua Magestade foi servido
mandar à ilha da Madeira, Lisboa, 1823, de 47 pag.;
As Victimas d'El Rei, por José de Castro, Lisboa 1885, de 83 pag.;
Sentença da Relação de Lisboa contra Jacintho Fernandes e mais seus réus, culpados de roubo e desacato
na igreja da Graça do Funchal... datada de 8 de Março de 1830, Lisboa, 1830;
Memórias sobre a descoberta das ilhas de Porto Santo e Madeira, 1418 1419 (Fragmento de um livro
inédito), por E. A. Bettencourt, Porto, 1875, de 22 pag.;
Tratado das ilhas novas, por Francisco de Sousa, Ponta Delgada, 1877, de 13 pag.;
Allegaçam de direito sobre as meias Conezias do Funchal. Outra sobre os ofícios que tachou o cabido.
Explicação do privilegio de hum altar no Funchal, publicado em Lisboa em 1660; Instituição de ouro, por D.
Antonio da Costa, Lisboa, 1878;
Julia ou recordação da ilha da Madeira, por Alfredo Carlos Franco de Castro, Lisboa, 1865, de 144 pag.;
O Conde de Bomfim, noticia dos seus principais feitos, Lisboa, 1860, (ocupa se da sua administração como
governador da Madeira);
D. Ayres de Ornellas de Vasconcellos, esboço biographico, Nova Goa, 1881, de 72 pag.;
Noticia histórica e genealogica (do descendente da ilha da Madeira, do Lord John Drumond) extrahida de
diversas obras inglezas, francesas e portuguezas publicada no Rio de Janeiro, que vem citada no tomo 131
do Diccionario Bibliographico de Inocencio;
Investigações philosophicas sobre a moléstia das uvas... das ricas vinhas da Madeira, por José Joaquim
Pereira Caldas, citadas no tomo 41 do Diccionario Bibliographico;
Manifesto do Batalhão de artilheria da ilha da Madeira ao exército português, Lisboa, 1822, de 28 pag.;
Bases para a solução a questão saccharina, por Henrique Vieira de Castro, Funchal, 1911, de 12 pag.;
Santuário Mariano, por Fr. Agostinho de Santa Maria, 10 vol. publicados de 1707 a 1723, ocupando se o
ultimo tomo de cousas da Madeira;
Documentos para a historia das cortes geraes da nação portuguesa, pelo Barão de S. Clemente, 8 vol.
publicados de 1882 a 1891, contendo o 51 volume um grande numero de documentos que interessam à
historia madeirense;
A Câmara de Mação e o seu pelourinho, Lisboa, 1887, de 87 pag., por Abilio de Sá, que foi delegado do
procurador régio na comarca do Funchal, contendo este opúsculo diversas referências a cousas e pessoas da
Madeira;
Tabella do lançamento das contribuições municipaes indirectas sobre alguns géneros da Câmara do
Funchal, Funchal, 1896, de 38 pag., tendo sido impressos outros folhetos sobre o mesmo assunto relativos a
diversos anos;
Serviços sanitários do Funchal, Medidas de combate contra a cholera na Madeira, Funchal, 1910, de 27 pag.;
Linha electrica para a qual anceia cooperar A. Izidro Gonçalves, Funchal, 1909, de 10 pag.;
Saneamento da cidade do Funchal Águas. Projecto de abastecimento, pelos engenheiros Adriano Augusto
Trigo, e Anibal Augusto Trigo Funchal, 1899, de 45 pag.;
Saneamento da cidade do Funchal. Projecto de esgotos... pelos mesmos, Funchal, 1900, de 59 pag.;
Saneamento da cidade do Funchal, Projecto de esgotos... pelos mesmos, Funchal, 1909, de 95 pag.;
O Saneamento da cidade. Relatório do presidente da comissão administrativa da câmara municipal do
Funchal acerca do contracto para o abastecimento de águas da cidade, Funchal, 1913, de 34 pag., por
Manuel Gregorio Pestana;
Gymnasium Madeira, Escola profissional domestica de belas artes do Funchal, Lisboa, 1913, de 15 pag.,
com primorosas gravuras;
Propostas apresentadas. . . à Associação Commercial do Funchal para estudar as causas do desvio da
navegação do nosso porto..., Funchal, 1895, de 20 pag.;
Levadas da Madeira. Relatório justificativo da proposta apresentada.. . no concurso para adjudicação da
empreza de irrigação, Lisboa, 1896, de 41 pag., pelos engenheiros Carlos Roma Machado de Faria e Maia e
Anibal Augusto Trigo;
A Empresa das levadas nas maos de um aventureiro, aggravo interposto no juízo de direito da comarca do
Funchal .., por Anibal Augusto Trigo, Funchal, 1896, de 41 pag.;
Representação dirigida ao governo acerca das águas de irrigação na Madeira, Funchal, 1897, de 34 pag.,
redigida pelo Dr. Quirino Avelino de Jesus;
As Aguas e as levadas da Madeira, artigo do dr. Quirino Avelino de Jesus, de 47 pag., publicado no n.1 51 da
revista Portugal em Africa, de Março de 1898;
Escriptura de transacção e acordo entre a Levada dos Peornaes e a Levada Nova de Câmara de Lobos,
Funchal, 1899, de 19 pag.;
A expropriação do Montado e o Barreiro e os embargos deduzidos por D. Josephina Pimbet Rocha Machado
e William Hinton & Sons.; alegações da câmara municipal do Funchal, por Pedro Góis Pita, Funchal, 1917,
de 32 pag.;
Acção de expropriação do Montado do Barreiro requerida pela Câmara Municipal do Funchal contra os
proprietários do mesmo Montado, pelo Dr. Juvenal Henriques de Araujo, Funchal, 1917, de 19 pag.;
Leis e regulamentos do serviço administrativo da Junta Geral do Districto.... Funchal, 1907, de 67 pag.;
Junta Geral do Districto do Funchal. Bases do concursos para a construcção e exploração da rede ferroviária
na ilha da Madeira, Funchal, 1914, de 6 pag.;
Manifesto do Centro Constituinte do Funchal dirigido ao exm1 sr. conselheiro governador civil do mesmo
districto, Funchal, 1884, de 7 pag.;
Junta Autónoma das obras do porto do Funchal. Memoria justificativa das obras projectadas, apresentada
pelo engenheiro contratado Furtado de Mendonça, Funchal, 1915;, de 22 pag.;
Comarca de Santa Cruz. Peças do processo cível em que são auctores Tristão Vaz Teixeira de Bethencourt e
Câmara e mulher e réus D. Amelia de Ornellas, marido e seus assistentes Viscondes da Calçada, Funchal,
1899, de 57 pag.;
Esboço biographico do fallecido general José Teixeira Rebelo, por Claudio Chabi 1898, de 39 pag.;
Resenha chronologica do Jornalismo Madeirense, Funchal, 1908, de 12 pag.;
Relatório da epidemia do Cholera Morbus em Portugal nos annos de 1855 e 1856, que se ocupa da cólera da
Madeira em 1856, de Pa. 65 a 69;
Conferencia na Associação Recreativa Portomonizense em 8 de Dezembro de 1915, por João Prim Garibaldi
e Costa, Lisboa, 1916, de 20 pag.;
Collegio Gratidão, Funchal, director A. B. Silva Reis, Programma Regulamento, Funchal, 1885, de 19 pag.;
Noticias officiaes recebidas da ilha da Madeira, Lisboa, 1821, de 20 pag.;
Relação circunstanciada do modo com que se desenvolveo, se promoveo e se proclamou a constituição na
ilha da Madeira no imemorável dia 28 de Janeiro de 1821, Lisboa, 1821, de 12 pag.;
Historia verdadeira dos acontecimentos da ilha da Madeira depois do imemorável dia 28 de Janeiro, escrita
por ordem chronologica por Sebastião José Xavier Botelho... para destruir em libello famoso impresso em
Londres, por um cidadão Funchalense, Lisboa, 1821, de 61 pag.;
Resposta ao cidadão Funchalense, autor de um folheto impresso em Lisboa com data de 19 de Outubro de
1826, por Três Vizinhos Imparciais, Funchal, 1827, de 24 pag.;
Carta escrita a um sujeito da província da ilha da Madeira ou o lundum dos bordões que tocou Sebastião
Xavier Botelho com variações compostas; ou desforra das invectivas que contra elle escreveu o dito Botelho
na sua Historia verdadeira dos acontecimentos da ilha da Madeira, Lisboa, 1821, de 33 pag.;
Resposta ao impresso publicado por João Teling, por Jaime de França Neto, Lisboa, 1871, de 24 pag.;
Memória descriptiva da transladação das ossadas dos doze martyres da Pátria do pátio da igreja da
Misericórdia para o seu cemitério no Prado do Repouso em 18 de Junho de 1878;
A companhia Fabril de assucar madeirense, Roberto Leal e e Dr. Tarquinio T. da C. Lomelino, Funchal,
1879, de 40 pag.;
Resposta ao recurso interposto perante o conselho de estado por S. M. a imperatriz D. Amélia e outros do
despacho pelo qual o respectivo governador civil concedeu licença para a fundação de uma fabrica de
assucar e de distillação de aguardente na cidade do Funchal, pelo advogado Ricardo Teixeira Duarte,
Funchal, 1868, de 13 pag.;
João Augusto de Ornellas e a nova fabrica de assucar, Funchal, 1869, de 28 pag.;
A Companhia Fabril de assucar madeirense, os seus credores e o doutor João da Câmara Leme, João de
Ornelas, Funchal, 1879, de 51 pag.;
Resposta aos fundamentos do recurso interposto por Sua Magestade a imperatriz D. Amélia do despacho
que concedeu licença para a fundação de uma fabrica de assucar. . . pelo recorrido o bacharel Joaquim
Ricardo da Trindade e Vasconcelos, Funchal, 1867, de 45 pag.;
Companhia Fabril de assucar madeirense... Relatório da direcção apresentado em 25 de Dezembro de 1872,
Funchal,1872, de 30 pag.;
Relatório da direcção da Companhia Fabril de assucar madeirense apresentado à assembleia geral em 22 de
Junho de 1871, Funchal, 1871, de 60 pag.;
Companhia Fabril de assucar madeirense. Parecer do conselho fiscal sobre o relatório. . . apresentados em
22 de Junho de 1871, Funchal, 1871, de 5 pag.;
A fabrica de S. João, por João Augusto de Ornelas, Funchal, 1879, de 90 pag.;
A Companhia Fabril de Assucar madeirense, os seus credores, o athleta e o Sr. Dr. João da Câmara Leme,
por J. M. S., Funchal, 1879, de 26 pag.;
A Laboração da Fabrica de S. João no Funchal no anno de 1878, Funchal. 1878, de 18 pag.;
Ao Publico, por Gerardo José de Nobrega, Funchal, 1870, de 16 pag.;
Carta aberta ao exm1 sr. governador civil do Funchal, por Adolfo Noronha, Lisboa, 1911, de 15 pag.;
Os Sanatórios da Madeira, Lisboa, 1909, de 48 pag.;
Breves considerações sobre a pneumonia febrinosa e duas palavras sobre a etiologia e tratamento do
carcinoma. Dissertação inaugural apresentada à Escola Medico Cirurgica do Funchal, por Antonio
Francisco da Silva Ramos, Funchal, 1898, de 63 pag.;
Nova instrução sobre a cultura dos nopales e creação da conchinila d'América para uso dos lavradores das
Canárias, por Santiago da Cruz e Gonçalves professor de cirurgia, traduzido para uso dos proprietários e
lavradores madeirenses, Lisboa 1837, de VIII-12 pag.;
Bibliotheca Açoreana, por Ernesto do Couto, 1890 e 1900; 2 vol.
A Lenda Infantista por João Rocha, Lisboa, 1915, de 174 pag.;
Acção Bactericida do Vinho Madeira (Verdelho) sobre o Bacilo de Ebertih pelo dr. Vicente Henriques de
Gouveia, 1936; a Banana, fruto de todo o ano, 20 ed., 1939, pelo mesmo;
Regras e Constituições das Franciscanas Madeirenses de Nossa Senhora das Vitorias, Funchal, 1935, de 172
pag.;
Como eu vi a Madeira sob o aspecto florestal, por Manuel Alberto Reis Figueira, 1939, de 16 pag.;
Cousas da Madeira. Lendas de outrora e de sempre por Fernando de Aguiar, 1939, de 12 pag.;
An Historical Account of the discovery of the Island Madeira..., obra de autor desconhecido e publicada em
1750;
Homenagem de Desagravo ao Redentor do Mundo promovida pela Juventude Catolica do Funchal, in fol.
de 24 pag., 1913;
Aspectos Historico Geograficos da Ilha da Madeira, por Horacio Bento de Gouveia, Lisboa, 1932, de 24 pag.;
Lâminas Sepulcrais de Bronze por Pedro Vitorino, 1935, de 11 pag.;
Cem anos de Vida Escolar Historia do Liceu do Funchal por José Raphael Basto Machado, Funchal, 1937, de
34 pag.;
The Bolton Letters. The Setters of an english merchant in Madeira 1695-1714, obra publicada em Londres
há poucos anos;
A Ilha dos Amores. Dados para a sua identificação por Henrique Manuel da Torre, Negra, Lisboa, 1938, de
14 pag.;
O Padre João Gaudencio de Noronha e os serviços por ele prestados na diocese do Funchal, Funchal, 1888;
Clamor dos madeirenses ou uma breve analise dos males que resultam à ilha dos tributos impostos pela lei
de 23 de Junho de 1834 por Manuel de Santana e Vasconcelos, Lisboa, 1835, de 16 pag.;
D. Francisco Manuel de Melo e o descobrimento da Madeira (A Lenda de Machim), por Antonio Gonçalves
Rodrigues, Lisboa, 1935, de 84 pag.;
A Relação de Francisco Alcoforado, por João Franco Machado, Lisboa, 1936;
0 Descobrimento do Arquipelago da Madeira, por M. Higino Vieira, Lisboa, 1939, de 25 pag.;
A Revolução da ilha da Madeira por José Lavrador, Rio de Janeiro, 1932, de 178 pag.;
O Príncipe de Nassau por Paulo Setúbal, São Paulo, 1926, de 318 pag., livro que largamente se ocupa de
João Fernandes Vieira;
Historia da Lepra em Portugal, por Augusto da Silva Carvalho, Porto, 1932, de 225 pag., dedicando um
capítulo ao antigo Hospital de São Lazaro do Funchal;
Terras de Maravilhas. Os Açores e a Madeira, por Aldemiro César, Lisboa, 1925, de 207 pag.;
Tocares e Cantares da Ilha, por Carlos Santos, Funchal, 1937, de 130 pag.;
Um Erro Judiciário. O 411 está inocente, por Campos Coelho, Lisboa, 1937, de 290 pag.;
O Marítimo nos Açores. Relatório da Excursão efectuada em Agosto de 1932, Funchal de 118 pag.,
Eternidade, por Ferreira de Castro, Lisboa, 1932, de 332 pag., romance, cujo entrecho se passa na Madeira;
Despedidas por Antonio Nobre, 20 ed., 1932, de 209 pag., com notas e largas referências à estada do poeta
na Madeira;
200 milhas a remos, narrativa sobre o feito heróico do caça minas Augusto de Castilho, por Luiz José
Simões, Lisboa, 1920, de 79 pag.;
A Mornaça. a Revolta nos Açores e Madeira em 1931, Lisboa, 1935, de 244 pag.;
As Ilhas Desconhecidas, por Raul Brandão, Lisboa, 1927, de 278 pag., 2.a ed.;
Maria Luisa, por Antonio Ferreira, Porto, 1921, de 243 pag., romance cuja acção se desenrola na Madeira e
com personagens madeirenses;
Ilhas das Três Formosuras, por Sousa Costa, Lisboa, 1929, de 247 pag.;
Junta Nacional dos Lacticínios da Madeira, Funchal, l937, de 117 pag.;
Genealogia da família Medina da Ilha da Madeira. .. por J. C. D. N., Lisboa 1930, do 92 pag;
Quinto Centenário do Descobrimento da Madeira. Publicações comemorativas, Funchal, 1922, in folio de 60
pag., coordenado pelo Pe. Fernando Augusto da Silva;
A ilha da Madeira, pelo marquês de Jácome Correia, Coimbra, 1927, de 246 pag.;
Arquivo Histórico da Madeira, de 1931 a 1936, 6 vol.;
O Trabalho Português. Madeira, por Peres Trancoso, Lisboa, 1933, in-fólio, de 54 pag.;
As Vinhas da Madeira, por Nuno Simões, Lisboa, 1935, de 23 pag.;
Museu de Arte no Funchal, por Manuel Carlos de Almeida Cayola Zagalo, Lisboa, 1936, de 6 pag.;
Usos e Costumes da ilha da Madeira, por Fernando de Aguiar, Lisboa, 1937, de 13 pag.;
Terras de Portugal, por Antonio Montês, Lisboa, 1939, de 261 pag., dedicando noventa e duas paginas ao
arquipelago da Madeira.
Vid. Discursos, Estatutos e Regulamentos.
Bibliotecas
A única biblioteca publica que existe no Funchal é a da Câmara Municipal, criada por
deliberação de 12 de Janeiro de 1838. Tendo começado com 193 volumes da Enciclopédia Metódica,
comprados aos herdeiros do Conde de Carvalhal, contava 2:000 volumes em 1850, 2:096 em 1851, 2:496
em 1863, 10:351 em 1889, 10:812 em 1902, 10:929 em 1904, 11:035 em 1908, 21:641 em 1915, 21:786 em
1916 e 21 874 em 1917. Em 1913 teve a Biblioteca a oferta de 9:863 volumes feita pelos súbditos inglêses Srs.
William e Alfredo Reid, volumes que constituíam a livraria do falecido bibliotecário municipal João
Joaquim de Freitas e foram adquiridos pelos mesmos senhores com o fim expresso de irem enriquecer
aquele estabelecimento municipal.
Em 1863 recebeu a biblioteca do Funchal 21 caixotes com 3:050 volumes provenientes do Deposito das
Livrarias dos Conventos extintos por Decreto de 28 de Maio de 1834, e antes disso tinha recebido grande
numero de volumes saídos da livraria do Convento de S. Francisco. Estes últimos estão na sua grande
maioria em péssimo estado de conservação.
Não existem incunábulos na Biblioteca do Funchal, e no tocante a manuscritos, só ali se encontram as
copias do Nobiliario de Henriques de Noronha e do livro 2.1 das Saudades da Terra, do Dr. Gaspar
Frutuoso, e os originais dos Documentos Históricos e Geográficas sobre a ilha da Madeira, do Dr. João
Pedro de Freitas Pereira Drumond e dos Apontamentos para a Genealogia de diversas Famílias
Madeirenses, de Felisberto Bettencourt Miranda.
A criação da Biblioteca Municipal deve se principalmente ao ilustre madeirense Servulo Drumond de
Meneses, que sendo presidente da Câmara do Funchal empregou para esse fim as mais louváveis
diligências. Abriu ao publico no dia 8 de Dezembro de 1838, tendo o seu respectivo Regulamento sido
publicado no jornal A Flor de 7 do mesmo mês e ano. Durante sete anos esteve o serviço da biblioteca a
Leitura no domicílio
2251
2381
165
495
491
218
744
612
1599
32 41
25 61
56 75
318 496
653 910
cargo do secretario da Câmara, sendo no ano de 1845 criado o lugar de bibliotecário, que terá sido
sucessivamente desempenhado por Antonio Joaquim Teles, Joaquim Antonio de Sá, José Joaquim de
Freitas, Carlos Azevedo de Meneses e Adolfo César de Noronha.
O movimento da biblioteca consta do mapa seguinte:
Leitura na biblioteca
Leitores Volumes Leitores Volumes
1900
1905
1910
1915 1534
1916
A biblioteca da antiga Escola Medico Cirúrgica está no edifício do Hospital da Misericórdia, e consta de
cerca de 600 volumes, dos quais 140 foram oferecidos pelo Dr. Nathaniel Lister de Londres, com a condição
de passarem à Santa Casa, no caso da mesma escola ser extinta. Esta condição foi aprovada pelo Governo,
em Portaria do Ministério do Reino de 17 de Dezembro de 1844.
O Governo autorizou em 1913 que a biblioteca da Escola Medica fosse encorporada na Biblioteca Municipal
do Funchal, mas a transferência dos livros não chegou a dar se, por falta de espaço para acomodá los.
0 Seminário Episcopal possue uma biblioteca, constituída principalmente por obras de teologia, e no clube
inglês há cerca de 4:000 volumes, muitos dos quais são obras sobre a Madeira.
No quartel do regimento de infantaria 27 e no Liceu Central do Funchal também há bibliotecas, e um
particular, o Sr. João Eleuterio Martins, proprietário do Diário de Noticias, possue as melhores colecções
que se conhecem de jornais publicados na Madeira e de livros estrangeiros relativos a esta ilha. A biblioteca
Utile Dulci, instalada num prédio à Rua do Dr. Vieira, tem cerca de 1700 volumes que qualquer pessoa pode
ler, pagando dois centavos semanais e fazendo um deposito de trinta centavos que é restituído no acto da
entrega do livro pedido.
E indispensável acrescentar algumas novas informações ao que fica dito neste pequeno artigo. A biblioteca
da extinta Escola Medico Cirurgica do Funchal foi encorporada na Biblioteca Municipal e nos últimos anos
tem se feito a aquisição de muitas espécies bibliograficas, sendo actualmente (1938) de 31:000 o numero de
volumes impressos que ali se encontram.
No ano de 1938 foi frequentada na leitura diurna, por 2.304 leitores, que consultaram 2.480 volumes, e na
leitura nocturna do mesmo ano teve 2.086 leitores, que consultaram 2.225 volumes, e ainda no ano referido
a leitura nos domicílios foi de 151 leitores que pediram 313 volumes.
A leitura nocturna, que vai despertando bastante interesse no publico, foi estabelecida no mês de Julho de
1934.
Bica (Pagellus erythrinus)
Peixe da família dos Espáridas de sabor agradável e vulgar nos
mercados da Madeira. É pescado em fundos de lagedo ou pedra solta, com aparelhos como a gorazeira, a
briqueira e a rede de arrasto.
V. Correcaminho
.
Bica da Cana
No planalto do Paul da Serra, acerca de 10 quilómetros do Rabaçal e 4 da Casa de
Abrigo do Lombo do Mouro, fica o sítio da Bica da Cana, onde a extinta Junta Agrícola da Madeira criou,
por 1914, um Campo Experimental de Agricultura e procedeu ao ensaio de várias culturas, em que se
dispenderam avultadas somas, sem resultados apreciáveis.
O posto que ali se estabeleceu, esteve durante alguns anos abandonado, mas a Junta Geral do distrito, por
intermédio da sua repartição agraria, tem dedicado as suas solicitas atenções a esse posto, procedendo se a
importantes trabalhos na conservação e reparação das casas, na vedação dos terrenos aráveis, nas diversas
experiências agrícolas, etc.. No entanto, é forçoso confessar que o êxito desses trabalhos não corresponde às
despesas e aos esforços empregados. As desfavoráveis condições climatéricas, a altitude em que se acha
situada essa região, os frequentes vendavais que ali se desencadeiam e o completo desabrigo a que ficam
expostas as culturas agrícolas explicam suficientemente o insucesso das experiências ali realizadas.
Somente com as indispensáveis sebes, formadas por maciços de espécies arboreas, o que levaria muitos
anos a conseguir se, poderia talvez alcançar se um resultado algo proveitoso, mas nunca largamente
compensador, como já chegou a afirmar se em um documento oficial.
Bicheiro
Aparelho de caça e pesca, rudimentar e grosseiro, que deriva da palavra bicho. É formado de
uma vara tendo um anzol ou um gancho na extremidade, e serve para apanhar nas tocas as aves marinhas,
como cagarras, anjinhos, etc., e neste caso uma delgada vara de marmeleiro constitue todo o aparelho.
Noutros casos, sendo formado de uma haste robusta, munida de forte gancho, funciona como verdadeiro
croque, servindo se dele os pescadores para meterem dentro do barco os grandes peixes trazidos à borda.
V. Embicheirar.
Bicho da cana
É a larva da Nonagria Sacchari, insecto da ordem dos lepidopteros. Já em 1502 esta
larva devastava as plantações sacarinas da Madeira, pois que nesse ano, a 15 de Novembro, foi expedida
uma carta regia aos juízes e vereadores da Câmara Municipal do Funchal, em que se recomendava o
emprego da cinza para destruir o bicho da cana. A 29 de Junho de 1509 veio uma nova carta regia
anunciando a vinda a esta ilha dum Fernão Rodrigues, encarregado de dar remédio para se abeer de matar
o bicho que anda nas canas... do que se segue tanta perda e damno e recomendando que o mesmo Fernão
Rodrigues fosse hospedado e remunerado como o mereciam os serviços que vinha prestar.
Apesar destas providencias, só por 1887 é que o bicho da cana começou a desaparecer, devido à guerra sem
tréguas que lhe move a Iridomyrmex humilis, espécie de formiga importada de Demerara. Antes da
introdução puramente casual desta formiga na Madeira, usavam os cultivadores acender archotes com que
percorriam de noite as terras plantadas de cana a fim de que o insecto viesse cair e morrer sobre a chama.
A larva da Nonagria Sacchari vive no interior dos colmos da cana, onde abre galerias que comunica com o
exterior. As paredes das galerias tornam se rijas e os tecidos adjacentes tomam uma cor avermelhada e
entram rapidamente em fermentação. Aparece principalmente durante o estio, mas depois da introdução da
formiga, é rara na ilha da Madeira.
Bicho Conta
Pequeno crustáceo da ordem dos isopodos e do género Armadillium que vive sob as
pedras e nos lugares sombrios. Nutre se de matérias vegetais e animais em decomposição, e quando se lhe
toca enrola se, tomando a forma de uma pequena bola ou conta. É muito comum na Madeira.
Bicho do Lameiro (Ophion obscurus)
Insecto himenóptero que aparece nas regiões
baixas da Madeira, constrói um ninho de barro, abrigando o no vão duma janela ou sob o beiral dum
telhado e tem por habito sustentar as larvas com aranhas que acarreta para o ninho.
Bicho vaca
São conhecidos por este nome dois Miriapodes do género Julus, caracterizados ambos
pelo seu corpo quasi cilindrico e que se enrola às vezes em espiral. Encontram se na terra, nos vasos com
plantas e nos muros em que há humidade.
Bicuda (Sphyraena spet)
Peixe de arribação nos mares da Madeira. É de forma alongada e quasi
cilindrica, podendo atingir pouco mais de 1 metro. Viaja em cardumes, é muito voraz e persegue de
preferência a sardinha, o chicharro e em geral o peixe a que os pescadores destas ilhas chamam ruama. É
pescado durante a noite pelo processo chamado de corrico. O seu sabor embora pouco fino, não é dos mais
desagradáveis.
Biddle (Anthony J. Drexel)
E.: The Madeira Island, London, 1900, 2 vol.; The island of the
Wine, Philadelphia and S. Francisco, 1901, 2 vol.
Não lemos a primeira destas obras, mas a segunda é particularmente curiosa pela série de erros e de dislates
que contém. Se o Sr Biddle, que se intitula sócio de três agremiações cientificas americanas, pertencesse
também a alguma das muitas sociedades de temperança do seu país, talvez tivesse produzido obra mais
honesta e exacta do que aquela que ousou publicar sobre a nossa ilha.
A primeira edição do livro The Madeira Island foi publicada na cidade de Filadélfia em 1896 e contém os
mesmos erros e dislates da segunda edição, que é do ano de 1900.
Bignonia
São conhecidos por este nome na Madeira várias espécies dos géneros Begónia e Tecoma,
entre as quais mencionaremos as seguintes: Tecoma australis e T. Jasminoides, da Australia; T. radicans, da
America do Norte; T. Capensis, do Cabo da Boa Esperança; Bignonia Venusta e B. Chamberlaynii, do Brasil;
B. Charere, da Guiana; e B. Lindley, de Buenos Aires. Todas estas espécies servem para cobrir muros,
mirantes, etc..
Bisbis (Regulus maderensis)
A mais pequena das aves da Madeira e a única que lhe é
peculiar. Frequenta as matas de urzes e loureiros do interior e constrói com muita arte um ninho de musgo,
de forma ovóide. A postura tem lugar geralmente de Maio a Julho e pode elevar se até 7 ovos dum pardo
arruivado, com pontos ou manchas avermelhadas.
Bispo (Rua do)
A antiga denominação da actual rua de Gomes Freire. Este nome provém dos
prelados do Funchal terem nela a sua residência oficial. No paço episcopal (V. este nome) está instalado o
nosso liceu desde o mês de Janeiro de 1914. Nesta rua fica o antigo solar da família Ornelas, de que é hoje
representante o conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos, que foi edificado no ultimo quartel do século
XVII pelo morgado Aires de Ornelas, e também tem a sua sede a importante e florescente associação de
socorros mútuos 4 de Setembro de 1863 (V. este nome).
Igualmente se encontra nesta rua a capela de São Luiz (V. este nome).
Bispos do Funchal
Consagramos neste Elucidario um artigo especial a cada um dos prelados que
dirigiram os destinos desta diocese, mas julgamos conveniente dar aqui a relação completa de todos eles,
por ordem cronológica e com a indicação dos anos em que estiveram à frente da administração episcopal do
arquipelago.
Foi o bispo D. Diogo Pinheiro (1514 1526);
2º, e primeiro e único arcebispo, D. Martinho de Portugal (1533 1547);
3º D. Fr. Gaspar do Casal (1551 1556);
4º D. Jorge de Lemos (1556 1569);
5º D. Fr. Fernando de Távora (1570 1573);
6º D. Jeronimo Barreto (1574 1585);
7º D. Luiz Figueiredo de Lemos (1586 1608):
8º D. Fr. Lourenço de Tavora (1610 1617);
9º D. Jeronimo Fernando (1618 1650);
10º D. Fr. Gabriel de Almeida (1672 1674);
11º D. Fr. Antonio Teles da Silva (1675 1682);
12º. D. Estevão Brioso de Figueiredo 1681 1689);
13º D. Fr. José de Santa Maria (1690 1696);
14º D. José de Sousa Castelo Branco (1698 1721);
15º. D. Fr. Manuel Coutinho (1725 1738);
16º. D. Fr. João do Nascimento (1711 1753);
17º. D. Gaspar Afonso da Costa Brandão (1757 1784);
18º D. José da Costa Torres (1786 1796);
19º D. Luiz Rodrigues Vilares (1797 1810);
20º D. João Joaquim Bernardino de Brito (1819 1820);
21º D. Francisco José Rodrigues de Andrade (1821 1834);
22º D. José Xavier Cerveira e Sousa (1844 1848);
23º D. Manuel Martins Manso (1850 1858);
24º D. Patrício Xavier de Moura (1859 1872);
25º D. Aires de Ornelas de Vasconcelos (1871 1874);
26º D. Manuel Agostinho Barreto (1877 1911); e
27º D. Antonio Manuel Pereira Ribeiro (1914).
Bispos Madeirenses. Sabemos que foram naturais da Madeira os seguintes prelados:
D. Nuno de Aguiar, bispo de Tanger,
D. Sebastião de Morais, bispo do Japão,
D. Fr. Miguel dos Santos, bispo de S. Tomé na Índia,
D. Mateus de Abreu Pereira, bispo de S. Paulo,
D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, bispo de S. Paulo,
D. João Henriques Moniz, bispo de Cabo Verde,
D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, bispo do Funchal e arcebispo de Goa,
D. Ernesto Sena de Oliveira, arcebispo de Mitilene,
D. Estevão Pedro de Alencastre, bispo de Hawai (Sandwich), e
D. Teodosio Clemente de Gouveia, prelado de Moçambique. (V. estes nomes).
Blandy
Esta família de súbditos e comerciantes ingleses estabeleceu se há mais dum século nesta ilha.
Na primeira ocupação da Madeira por tropas britanicas, em Julho de 1801, fazia parte dessa guarnição um
oficial subalterno por nome John Blandy, que nesta ilha foi o tronco da família do mesmo nome. Este
súbdito inglês já em 1808, quando então a Madeira se achava pela segunda vez ocupada por tropas
britanicas, tinha estabelecida a casa comercial, que transmitiu aos seus descendentes. Morreu a 14 de
Janeiro de 1855, sucedendo lhe na casa seu filho Charles Ridpath Blandy, que faleceu no ano de 1878. Filho
deste foi João Blandy, que elevou a casa comercial a um notável grau de prosperidade, deixando uma
fortuna muito avultada e tendo morrido a 7 de Dezembro de 1912. Foi herdeiro e sucessor João Ernesto
Blandy, que faleceu no ano de 1930.
Os escritórios desta importante casa estiveram durante muitos anos estabelecidos na rua de São Francisco,
nas dependências ocupadas hoje pela secção comercial de vinhos da mesma casa, sendo depois transferidos
para a rua da Alfândega, onde actualmente se encontram.
Bloxam (James Mackenzie)
E.: The Climate of the Island Madeira (Londres 1855) e The
Church of England in Madeira (Londres, 1857).
Boa Nova (A)
Saíu o 1.1 numero deste jornal a 2 de Fevereiro de 1912 e o 171, que foi o ultimo a 10 de
Julho do mesmo ano.
Boaventura (Freguesia da)
Apesar das diligências feitas, ficou para nós inteiramente
desconhecida a origem do nome desta paróquia. Procurando ao menos descobrir a probabilidade dessa
origem, tornava se necessário determinar com precisão a verdadeira grafia dessa estranha denominação, o
que nos parece oferecer não pequena dificuldade. Boaventura ou Boa Ventura ? Não o sabemos dizer,
porque de ambas as formas aparece escrito este nome. A primeira parece ser a mais antiga e é sem duvida a
mais comum e usual, mas no entretanto não conhecemos razões especiais de preferência para nenhuma
delas. Só nos podemos perder em simples conjecturas ou em hipóteses mais ou menos engenhosas, mas
talvez muito distanciadas da verdade.
Do arquivo paroquial desta freguesia, de quaisquer antigos documentos e ainda da tradição local, nada
consta a respeito da origem deste nome. Haveria porventura no continente algum lugar ou povoação de que
os primitivos colonizadores aproveitassem o nome, como frequentemente acontecia, para o darem aquele
sítio e mais tarde paróquia? A hipótese não passaria duma mera probabilidade, mas que não chega a ter o
menor fundamento, porque em Portugal não se encontra freguesia, sítio ou lugar que conserve aquele
nome, segundo as investigações a que procedemos.
Os terrenos que constituem a paróquia da Boaventura pertenceram durante quasi três séculos à freguesia da
Ponta Delgada, donde foram desmembrados no ano de 1836. Desde meado do século XVI, e ainda
anteriormente a esta época, já a Boaventura conserva este nome, e, portanto, muito antes da criação do
curato e de ser paróquia independente. Nos tempos primitivos da colonização, foi Pedro Gomes Galdo um
dos povoadores que primeiramente ali possuía muitas terras de sesmaria, sendo considerado como um dos
mais antigos colonizadores desta freguesia, que então pertencia, como dito fica, à paróquia da Ponta
Delgada. Atribue se a este Pedro Galdo ou a um dos seus descendentes a fundação da capela de S. Cristovão,
no sítio que ainda hoje conserva este nome.
Quando a população se foi alargando e estendendo pelo interior, os habitantes da Boaventura pretenderam
a criação dum curato que lhes facilitasse a observância dos seus deveres religiosos. Aproveitaram a estada
do bispo diocesano D. Manuel Coutinho na igreja paroquial da Ponta Delgada e ponderaram ao prelado a
distancia a que residiam da igreja matriz, a dificuldade dos caminhos, sobretudo na quadra invernosa, e os
graves perigos a que se expunham, ordenando o mesmo prelado que o pároco de então, Luiz Gonçalves
Caldeira, requeresse a criação dum curato na freguesia da Ponta Delgada, com sede na Boaventura, visto
serem de todo o ponto aceitáveis as razões apresentadas pelos peticionários.
Por alvará régio de 4 de Fevereiro de 1733, D. João V autorizou ao prelado diocesano a criação deste curato,
que não sabemos quando foi definitivamente provido, nem que jurisdição ou atribulações lhe foram
conferidas. Ficou no entretanto dependente da paróquia de Ponta Delgada, da qual se foi a pouco e pouco
libertando até constituir uma freguesia autónoma. Os baptizados começaram a ser ali realizados em 1790,
mas os casamentos só passaram a ser celebrados na Boaventura depois da sua elevação a paróquia. A sede
do curato foi a capela de Santa Quiteria, construída pelo povo no ano de 1731. Tinham ali os curas residência
efectiva e acudiam com os socorros espirituais aos moradores do lugar, sendo alguns dos actos do culto
celebrados na igreja matriz da Ponta Delgada. Pelo citado alvará de 4 de Fevereiro de 1733, teve
primitivamente o cura a côngrua de um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho, sendo esta
côngrua posteriormente acrescentada.
O governador do bispado e o vigário capitular Antonio Alfredo de Santa Catarina Braga, por alvará de 18 de
Novembro de 1836, elevou a paróquia o curato da Boaventura, desligando o inteiramente da jurisdição da
freguesia da Ponta Delgada. Os sacerdotes que ali exerciam as funções religiosas continuaram por algum
tempo a intitular se curas, mas este curato, como outros que houve na diocese, era autónomo, com vida civil
e religiosa próprias, e sem dependência de outra paróquia. 0 prior pároco foi Joaquim Gomes Lume e o
primeiro vigário colado José Francisco Rodrigues de Andrade, em 1843.
Como fica referido, o curato foi estabelecido na capela de Santa Quiteria, construída em 1731, sendo
acrescentada ou melhor, reconstruída, em 1835, e nela fixada a sede da nova paróquia, que se criou no ano
seguinte. Foi edificada no sítio do Serrão, que é o lugar mais central e mais aprazível da freguesia. A imagem
de Santa Quiteria foi em 1721 oferecida à igreja da Ponta Delgada por Manuel de Freitas Vasconcelos,
morador no Funchal, sendo conduzida para a nova capela pouco depois da sua construção. Teve a
Boaventura as ermidas de S. Cristovão e de Sant'Ana, que já não existem, e em 1918 começou a construir se
uma capela no sítio da Faja do Penedo, dedicada ao Coração Imaculado. Delas nos ocuparemos nos artigos
consagrados às capelas.
Tem esta freguesia as levadas da Achada Grande, cuja construção se deve principalmente a Policarpo José
de Abreu e Manuel João de Freitas Galdo, a Levada Grande, que estende a sua irrigação até a Ponta
Delgada, a Levada das Faias, que em boa parte deve a sua tiragem a João Pedro de Andrade, a Levada da
Achada dos Alves e Pastel, de cuja construção foi iniciador o referido Policarpo José de Abreu, e ainda a
levada da Achada ou do Serrão, que todas tem a sua origem na ribeira dos Moinhos. Como já dissemos no
artigo consagrado à paróquia do Arco de São Jorge, projectou se ha muitos anos a construção duma levada
que, encabeçando na ribeira do Porco, no sítio da Falca, servisse para a irrigação das duas freguesias,
chegando a fazerem se os respectivos estudos e orçamentos nos princípios do ultimo quartel do século
passado. Não passou de projecto, tendo o cónego Feliciano João Teixeira, deputado pela Madeira, advogado
no parlamento a ideia dessa construção na sessão legislativa de 1890.
Na estrada que liga esta freguesia com a do Arco de S. Jorge, há uma parte dela que fica na margem direita
da ribeira do Porco e sobranceira ao mar, que tem o nome de Engrosa pela sua construção em torcicolo na
escarpa aprumada duma elevada rocha. É das fendas dessa rocha que nasce em abundância a planta
conhecida pelo nome de ensaião (Sempervivum glandulosum, da família das Crassulaceas), de que William
Longman no Frazer's Magazine de Agosto de 1875 disse o seguinte: “...crescem com tanta profusão que
umas se sobrepoem às outras e com desenvolvimento tal, que excedem tudo o que neste género se vê em
Kew ou em outros jardins botânicos. As mais ordinárias excedem o tamanho de um chapéu. Na extremidade
apresentam uma cor encarnado castanho, com transição gradual para o centro de um verde claro”.
No sítio de S. Cristovão existiu uma pequena fabrica de telha, sendo esta feita de um barro denso e
avermelhado, que se encontrava naquelas proximidades e que dava um produto muito resistente e a que a
maresia não causava o menor estrago. Encontramos algures que “...outras espécies de argilas se notam
intercaladas pelos basaltos, algumas de cor esbranquiçada e que poderiam com vantagem ser utilizadas na
indústria cerâmica”.
Os morgados Licios de Lagos tiveram terras vinculadas nesta freguesia, e no sítio da Silveira edificaram uma
grande casa, que não chegou a ser inteiramente concluída. Foi com o feitor destes morgados e dessas terras,
residente na Boaventura, que se afirma ter sucedido o seguinte interessante e pitoresco caso. 0 general
Beresford chegara à Madeira em Dezembro de 1807, comandando as tropas britanicas que pela segunda vez
ocuparam a Madeira. Todas as autoridades e oficiais de patente foram apresentar os seus cumprimentos ao
general inglês. Não podia fazer excepção à regra o coronel e morgado Licio, que era comandante do
regimento de milícias de S. Vicente e que então se encontrava nas suas terras da Boaventura. 0 feitor, que
casualmente se achava no Funchal e que era o tenente ajudante daquele regimento, persuadiu a senhora
morgada, esposa do coronel Licio, da conveniência de poupar o Sr. morgado aos incomodos duma viagem,
formulando o acertado alvitre de envergar a farda de coronel e de apresentar se ao general inglês, como
sendo ele o comandante do regimento de milícias da vila de S. Vicente! A ideia, prontamente concebida, e
aceita sem relutância pela morgada, foi sem demora posta em execução pelo bom e ingénuo feitor.
Beresford, ao saber que tinha na sua frente um bisonho ajudante mascarado em coronel, proferiu
desabridamente as únicas palavras que talvez então conhecesse da língua portuguesa: Para o Pico. E lá
caminha, conduzido sob custódia para a fortaleza do Pico o nosso pobre tenente e feitor, que decerto iria
maldizendo a hora em que tivera a ideia infeliz de envergar a farda pertencente ao seu chefe e dono das
terras que feitorizava. Ao voltar costas ao general Beresford, teve, porém, uma frase que se tornou celebre e
que até certo ponto o imortalizou na tradição local. Quando reconheceu o erro que praticara, soltou, entre
pesaroso e irónico, esta expressão genial: Eu logo vi que isto ia dar asneira! Foi o epilogo da sua triste e
infeliz aventura.
Os principais sítios desta paróquia são: Igreja, Pastel, Pomar, Ribeira do Moinho, Roçada, Cabo da Ribeira,
Achada do Castanheiro, Levada, Lombadinha, São Cristovão, Serrão, Achada do Pereira, Travessa, Achada
Grande, Falca, Achada da Madeira, Lombo do Urzal, Serra de Água, Quebradas, Lamaceiros, Achada do
Moledo, Fajã do Penedo, Fajã Grande, Sabugueiros e Silveira.
Esta freguesia é atravessada pelas ribeiras do Porco e dos Moinhos, ficando na foz da primeira, a praia do
pequeno porto chamado da Boaventura, onde ancoram barcos e onde os vapores costeiros lançam cargas e
passageiros.
Pertence esta paróquia ao concelho e comarca de São Vicente, de cujas sedes dista aproximadamente 9
quilómetros e meio. Confina com as freguesias do Arco de S. Jorge, Ponta Delgada, S. Vicente e Curral das
Freiras.
Há ali duas escolas, uma para cada sexo, ficando ambas no sítio da Igreja.
Nesta paróquia nasceu o padre Antonio Alexandrino de Vasconcelos, a quem já nos referimos no artigo
consagrado à paróquia do Arco de S. Jorge.
Quando há anos esteve na Madeira o grande poeta Antero de Quental, passou uma temporada na freguesia
de Boaventura.
A sua população é de 3900 habitantes.
Fica na área desta paróquia a conhecida serra das Torrinhas. (V. este nome).
Boaventura (Ilhéus da)
Estes ilhéus, também conhecidos pelos nomes de ilhéu Porco e ilhéu
Vermelho, ficam na costa marítima da freguesia da Boaventura, não muito afastados do seu litoral.
Boaventura (Porto da)
Na foz da ribeira do Porco ou Boaventura, há uma praia pedregosa,
entestando com o pequeno porto que tem aquele nome.
Fica próximo da Ponta Delgada, donde dista menos duma milha.
Boca das Torrinhas
Separa a serra da Boaventura da do Curral das Freiras. O Sedum farinosum,
planta da família das Crassulaceas, e o Isoplexis Sceptrum, arbusto da família das Escrofulariaceas, são
frequentes na Boca das Torrinhas e proximidades.
V. Torrinhas (Boca das).
Bôca das Voltas
Sítio entre o Pico do Arco e o do Canário, de onde parte um caminho que conduz à
Ribeira da Boaventura. A Boca das Voltas está a cerca de 750 metros acima do nível do mar.
Boca de Panela
Grande animal marinho, extremamente detestado pelos pescadores madeirenses e
inimigo encarniçado dos atuns, os quais persegue ferozmente, ora fazendo lhes apertado cerco, ora pondo
os em debandada, no dizer dos pescadores que o têm observado de perto. A passagem de tais animais pelos
pesqueiros é naturalmente justo motivo para contrariar o pescador e até para lhe causar enorme prejuízo,
pois é da pesca do atum que ele espera tirar a melhor compensação dos trabalhos e perigos da sua arriscada
vida.
Até hoje ainda se não conseguiu identificar esta espécie com segurança. Supõe se no entanto que seja não
um peixe, mas um cetáceo Orca gladiator, que entre os pescadores do Algarve é chamado ruaz de bandeira,
e que ali não é menos temido pelos graves danos que causa às armações dos atuns.
Boca de Peixe
Nome vulgar do Antirrhinum Orontium e do A. majus. A primeira destas
Escrofulariaceas é indígena e muito frequente; a segunda é planta que aparece principalmente nos jardins.
Boca do Buraco
Sítio para leste do Pico do Areeiro, donde se disfruta em dias claros um majestoso
panorama.
Boca dos Corregos
Sítio nas proximidades do Pico Grande, de onde se avista o Curral das Freiras e
o vale da Serra d'Agua. Está a cerca de 1300 metros acima do nível do mar.
Boca dos Namorados. Na
serra da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos e sobranceiro ao
aprazível sítio do Jardim da Serra, fica o Pico dos Bodes, em cujas imediações se encontra a Boca dos
Namorados, que é um dos pontos da Madeira donde se descortinam os mais belos e vastos panoramas.
Tornou se muito conhecido este lugar, porque em outro tempo, era bastante visitado por nacionais e
estrangeiros.
Boca Negra (Sebastes dactylopterus)
Peixe de sabor agradável da família Triglida,
pescado em fundos rochosos desde 80 a 250 braças pouco mais ou menos. É sedentário, devendo o seu
nome à circunstancia de ter o interior da boca revestido de uma membrana muito escura. Os aparelhos que
o colhem são a briqueira e a gorazeira.
Bodes (Pico dos)
A cerca de 1135 metros acima do nível do mar, fica esta elevada eminência da
freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, nas proximidades da Boca dos Namorados.
V. Jardim da Serra.
Bodes (Pico dos)
Com este nome há uma elevação montanhosa na serra da Ribeira da Janela, na
altitude de 1300 metros.
Bodião (Scarus cretensis)
Peixe da família labrida, vulgar nas costas de todas as ilhas deste
arquipelago, incluindo as Selvagens, e justamente apreciado pelo seu fino sabor. É uma linda espécie, cuja
cor, muito variável, pode ir desde o ardósia escuro pintalgado de tons claros até o vermelho brilhante, ao
mesmo tempo que alguns indivíduos se apresentam simultaneamente vermelhos e cinzentos. Daqui a
distinção que fazem nalgumas localidades piscatórias em bodião pardo, vermelho e cardão. Não é peixe de
passagem, mas os seus hábitos um tanto nomadas levam no a deslocar se nos baixos fundos perto da costa.
Ainda que não seja tão frequente como o foi outrora, é contudo uma das raras espécies costeiras que tem
conseguido escapar menos mal aos efeitos destruidores da insensata e ruinosa pesca por meio de
explosivos.
A captura efectua se desde a orla do mar até 30 braças de profundidade, usando se além dos aparelhos de
anzol, as redes de arrastar e atravessar, o peneiro e o covo; é porém a cana o aparelho preferido tanto pelos
amadores da pesca, como pelos pescadores de profissão. Como isca, empregam de ordinário a jaca ou a
aranha, crustáceos que se encontram sob as pedras da costa, entre os dois limites das marés.
No litoral das Desertas, os pescadores do Caniçal fazem por vezes abundante colheita deste peixe que,
depois de escalado e salgado, é trazido ao mercado do Funchal, ainda que já um tanto depreciado pela salga.
Bodioa
Diz se da galinha de cor cinzenta pintalgada de claro e escuro, lembrando o bodião, cujas
escamas apresentam frequentemente aquelas cores.
Boga (Box boops). Peixe da família dos Esparidas, indígena e muito vulgar nas águas deste arquipelago. É
principalmente nos fins da primavera e princípio do verão que o pescam em grande quantidade, junto com
a cavala e o chicharro, que naquela época abundantemente nos chegam de fora. uma das espécies incluídas
no grupo a que os pescadores chamam ruama. Na pesca são empregados os aparelhos de anzol, mas aquele
que mais farta colheita fornece é a rede cónica, em forma de saco, chamada rede da ruama. O seu valor é
pequeno e o gosto medíocre.
Bogalho
Provém este apelido de Pedro Bogalho, natural da cidade da Guarda, que fixou residência
nesta ilha no princípio do século XVI.
Boganga
A planta conhecida entre nós pelos nomes de boganga, bogangueira e abóbora de Tenerife, é a
Curcubita ficifolia, originaria da China. Os seus frutos (bogangas) servem para sopa e para confeccionar o
doce conhecido pelo nome de chila, no qual só entram os filamentos ou funiculos das sementes
perfeitamente maduras.
A planta conhecida em Portugal pelo nome de moganga é, segundo Brotero, uma variedade da Cucurbita
Pepo, espécie esta que está representada na Madeira pela aboboreira que produz a abóbora machado, sendo
portanto um erro dar aquele nome à boganga madeirense. Esta, segundo diz o Sr. Pereira Coutinho, tem em
Portugal a denominação de chila caioto ou abóbora chila.
O vinho fraco e branco produzido na costa norte da ilha é conhecido pelo nome de bogangueira.
Bohm (Dr. Joannes)
E.: Einige Fossilien aus den Salvages Inseln. (Abdruck a. d. Zeitschr. d.
Deutsche Geol. Gesellschaft, Jahr 1898). Este trabalho assinala 7 espécies, entre as quais 2 novas: Nerita
salvagensis e Cabralia Schmitzii.
Boieiro (Puffinus anglorum)
Palmipede marinho não muito vulgar nestas ilhas. Frequenta o
alto mar durante o dia, recolhendo à terra pela noite adiante. Como ave diurna, é chamado boieiro pelos
homens do mar, como ave nocturna, é em toda a Madeira conhecido como estrapagado, papagarro ou
patagarro, designações onomatopaicas, que imitam menos mal a sua voz característica.
Cria nas Desertas e nas rochas pouco acessíveis da Madeira, como o Curral das Freiras, Areeiro e Penha de
Águia. A postura é dum só ovo, dum branco puro; deposto num buraco dos rochedos.
Para muita gente é ave de mau agouro. Segundo a crença popular, haverá morte próxima entre os
moradores duma habitação, sempre que nela vá pousar um patagarro ao fazer a excurção nocturna das
montanhas para o mar, ou vice versa. Emigra ausentando se do arquipelago durante o inverno, para voltar
nos fins de Fevereiro ou princípios de Marco.
Boletim Eclesiástico da Madeira
Era uma publicação mensal, tendo saído o primeiro
numero no mês de Março de 1912 e o ultimo em Fevereiro de 1919.
Boletim Judicial
Publicou se o primeiro numero a 22 de Novembro de 1877.
Boletim Mensal da Obra Diocesana de São Francisco de Salles
Publicação
mensal, cujo primeiro numero saiu em Janeiro de 1894 tendo suspendido em 1897.
Boletim Official (O)
Saiu sem numeração, de 3 de Maio a 27 de Junho de 1847.
Boletim Official do Distrito Administrativo do Funchal
Publicou se de 1 de
Março de 1862 a 19 de Dezembro de 1863, tendo saído 79 números.
Boliqueme
É um dos mais importantes sítios da freguesia de Santo Antonio. Havendo na província do
Algarve uma freguesia desta denominação e sendo algarvios a maior parte dos primitivos colonizadores
desta ilha, não é para estranhar que tivessem dado a este sítio o nome daquela freguesia. É também possível
que as condições orograficas da freguesia algarvia e as deste sítio, e ainda quaisquer outros pontos de
semelhança, dessem origem a essa denominação. Exemplos destes são frequentes na historia das nossas
descobertas, e mesmo na Madeira não, são raras.
Bolsa de Pastor (Oxalis corniculata)
Planta da família das Oxalidaceas, muito comum na
Madeira. Os seus caules e as suas folhas trifoliadas contêm acido oxálico, e por isso servem para tirar
nódoas de tinta. A infusão da bolsa de pastor é muito usada na Madeira para purificar o sangue.
Bom Jesus (Recolhimento do)
Este recolhimento era conhecido pelo nome de Bom Jesus da
Ribeira, porque se alargava até à margem esquerda da ribeira de Santa Luzia o terreno onde ele se edificara.
Foi seu fundador o Dr. Simão Gonçalves Cidrão, arcediago da Sé do Funchal, que lhe fez importantes
doações e que, com alguns donativos e em especial com a valiosa cooperação do padre Pascoal Ferreira de
Sousa, mestre de capela da Catedral, conseguiu erigir aquela modesta casa religiosa e igreja anexa, que mais
tarde foi notavelmente ampliada.
A primeira escritura de doação de alguns prédios para a fundação deste recolhimento, feita por Simão
Gonçalves Cidrão, data de 20 de Dezembro de 1655. Neste mesmo ano ou no imediato começaram as obras
de construção. Parece que somente em 1666 é que ali deram entrada as primeiras recolhidas, o que nos leva
a supor que foi moroso o levantamento do edifício ou que surgiram embaraços, para nós desconhecidos, que
obstaram à abertura do recolhimento. A 9 de Outubro de 1673 se fizeram novas doações a esta casa pelo
mesmo arcediago Dr. Cidrão ou pelos seus herdeiros.
O recolhimento destinava se a receber 25 a 30 conversas, entrando neste numero algumas donzelas pobres,
que provassem ter uma conduta ilibada. Desde logo as recolhidas deram provas do mais rigoroso
cumprimento da sua regra ou estatuto, tornando se uma comunidade absolutamente exemplar, o que levou
muitas pessoas de vida austera a pedirem a sua admissão naquele instituto religioso. A pesar de não ser
uma ordem monástica, fazia se ali o serviço quotidiano do coro e observavam se outras praticas próprias
dos conventos de religiosas.
Ignoramos se, através dos tempos, ali se manteve sempre a primitiva disciplina e o primitivo fervor, mas
sabemos que, desde há muitos anos, passou aquela casa a ser um recolhimento meramente secular, sem
obrigação da observância de quaisquer actos de caracter religioso para as recolhidas.
O recolhimento do Bom Jesus foi aprovado pelo bispo D. Gabriel de Almeida, que dirigiu os destinos desta
diocese de Março de 1671 a 13 de Julho de 1674, dia em que morreu. Foi portanto dentro deste período de
tempo que aquela casa começou a ter a sua existência canónica, legal, sendo de presumir que a sua fundação
tivesse sido precedida de licença da respectiva autoridade diocesana. Temos noticia que, em época que não
podemos determinar, pediram algumas recolhidas à Santa Sé autorização para professarem e, portanto,
transformarem o recolhimento em uma congregação religiosa regular, mas foi denegada essa autorização
por motivos que desconhecemos.
Segundo os intuitos do seu fundador, o recolhimento do Bom Jesus estava unicamente sujeito ao prelado da
diocese, não só no que dizia respeito á sua direcção interna, como ainda à administração dos seus bens. Era
a autoridade eclesiástica que nomeava o capelão da casa e um administrador dos seus bens, a que se dava o
nome de síndico e que era sempre uma pessoa proba e qualificada.
A pesar das doações do Dr. Cidrão, não eram grandes os recursos do recolhimento e por isso, a partir duma
certa época, se exigia para a entrada de cada recolhida o dote de 300$00, que no princípio do século
passado se elevou a 400$000 réis.
O rendimento da casa no ano de 1811 foi de 1.367$000 e a despesa 2:007$000 réis. Neste mesmo ano tinha
42 recolhidas.
Desde 1910 que o recolhimento é administrado e dirigido por uma comissão nomeada pelo governador civil.
A comissão que em Abril de 1919 deixou a administração desta casa entregou a sua sucessora 437$15,
rendendo as inscrições pertencentes ao recolhimento a importância de 931$11 anuais.
Bombardeamento do Funchal
A cidade do Funchal foi bombardeada duas vezes por
submarinos alemães, enquanto durou o estado de guerra entre Portugal e a Alemanha, tendo tido lugar o
primeiro bombardeamento no dia 3 de Dezembro de 1916 e o segundo no dia 12 de Dezembro do ano
imediato.
O primeiro bombardeamento foi precedido do torpedeamento da canhoneira La Surprise, da marinha de
guerra francesa, do Kanguroo, vapor da mesma nacionalidade, e do Dacia vapor mercante inglês, ao serviço
do governo francês. Estes barcos que se achavam ancorados no nosso porto, foram torpedeados a pequena
distancia da terra, tendo o pirata conseguido aproximar se deles, sem ser visto pelas respectivas tripulações.
O iate americano Eleanor A. Percy, que se achava também nas águas da nossa baía, foi poupado pelo
submarino, pela razão da Alemanha não estar ainda a esse tempo em guerra com os Estados Unidos da
América.
O primeiro navio a ser alvejado foi a canhoneira La Surprise, que, tendo tido uma explosão no paiol, se
submergiu em cerca de 2 minutos, arrastando comsigo uma barcaça tripulada por trabalhadores
madeirenses da casa Blandy, que lhe estava fornecendo carvão. Dos tripulantes da canhoneira, morreram
33, incluindo o comandante Ladonne, 2 oficiais e 7 oficiais inferiores; dos da barcaça morreram Manuel
Rodrigues Teixeira, Manuel Rodrigues Vieira, José Gomes Camacho, Augusto Garcês, Manuel Rodrigues,
Francisco Franco e Frederico Vieira. Manuel Rodrigues Teixeira, empregado da casa Blandy, tinha passado
para bordo da canhoneira, a fim de dirigir o fornecimento de carvão.
A tripulação dos outros navios conseguiu salvar se a nado e em barcos, tendo Mr. Bernard, comandante do
Kanguroo, auxiliado por dois franceses e um madeirense, conseguido disparar 25 tiros de peça sobre o
submarino, já quando o seu navio estava prestes a submergir se. Os bravos que ajudaram Mr. Bernard
foram: o madeirense José Alexandre Gomes, arrais duma lancha a vapor, e o canhoneiro Tonnerre e o
aprendiz Provenzalé, tripulantes do Kanguroo.
A explosão que se deu a bordo de La Surprise abalou as casas da cidade e foi tomada a princípio como
casual, mas quando outras duas se lhe seguiram e os pequenos vapores das casas carvoeiras começaram a
apitar persistentemente, todos perceberam do que se tratava. Então apoderou se da população um
verdadeiro pânico, pânico que subiu de ponto quando as granadas atiradas pelas duas peças do submarino
começaram a cair sobre a cidade.
O barco dos piratas depois de haver conseguido escapar aos tiros feitos pelo Kanguroo e pelas batarias de
terra, foi colocar se a cerca de 12 quilómetros de distancia, fora do alcance da nossa artilharia, sendo daí que
ele esteve bombardeando a cidade, sem correr risco algum.
O bombardeamento durou das 9 às 11 horas da manhã, tendo tido lugar o torpedeamento de La Surprise
pelas 8 horas e meia. A bataria da Vigia disparou 34 tiros e a fortaleza de S. Tiago 18, não atingindo nenhum
deles o submarino, e este lançou umas 50 granadas sobre a cidade, explodindo umas no ar e indo cair as
restantes nos seguintes pontos: 2 na R. Julio da Silva Carvalho, 1 na R. das Queimadas de Cima, 1 na R. do
Bispo, 2 na Calçada de Santa Clara, 1 na R. Direita, 1 na fabrica do Pelourinho, 1 na Quinta Vigia, 1 no
Jardim Municipal e 1 no cemitério das Angústias.
Na cidade não morreu ninguém, e os prejuízos materiais causados pelas granadas não foram grandes. Foi só
no mar que houve mortos e feridos, tendo estes últimos sido conduzidos ao hospital civil pelo pessoal da
delegação da Cruz Vermelha no Funchal, que prestou muito bons serviços.
Logo que se deu a primeira explosão, mandaram os Srs. Carlos Pio de França e Afonso Coelho lançar ao mar
dois barcos, que recolheram 15 sobreviventes, alguns dos quais se achavam feridos. O marítimo João de
Gouveia, o Gordo, tripulante de um destes barcos, prestou valiosos serviços, pois salvou 8 tripulantes da
canhoneira e 2 trabalhadores madeirenses.
No cemitério das Angústias ergue se um pequeno monumento mandado construir pelo Sr. Henrique
Augusto Vieira de Castro, destinado a perpetuar a memória dos marinheiros franceses e dos trabalhadores
portugueses que pereceram na baía do Funchal na trágica manhã do dia 3 de Dezembro de 1916. Este
monumento que é devido ao cinzel do laureado escultor Sr. Francisco Franco de Sousa, foi inaugurado no
dia 3 de Dezembro de 1917.
O tenente Max Valentiner, o comandante do submarino que praticou a covardia de torpedear três navios
dentro do nosso porto e de bombardear a cidade fora do alcance das batarias de terra, foi condecorado pelo
Kaiser, e Sondenburgo, sua terra natal, nomeou o “seu filho dilecto”!!!
O segundo bombardeamento do Funchal deu se a 12 de Dezembro de 1917, tendo o submarino disparado os
primeiros tiros às 6 horas e 20 minutos da manhã, quando mal começavam a distinguir se as primeiras
claridades do dia. O submarino tinha sido visto pelos tripulantes dum barco de pesca, que preveniram
imediatamente a tripulação do Dekade I da descoberta que acabavam de fazer, partindo este vapor, e mais
tarde o Mariano de Carvalho, ao encontro do inimigo a fim de lhe oferecer combate.
O Dekade I e o Mariano de Carvalho eram dois pequenos vapores armados cada um de uma pequena peça e
tripulados por marinheiros da marinha de guerra, que faziam o serviço de vedetas no porto do Funchal,
sendo aquele o primeiro a alvejar o submarino que, à medida que se afastava para se colocar fora do alcance
da artilharia dos nossos barcos, ia despejando granadas sobre estes e a cidade.
Os vapores nada sofreram, mas na cidade registaram se vários prejuízos e ficaram 5 pessoas mortas e 30 e
tantas feridas, umas ligeira, outras gravemente. Caíram granadas nos seguintes pontos: em frente da
fortaleza de S. Tiago, 1 na R. de S. Filipe, 1 no Lombo da Boa Vista, 1 na quinta *Mãi dos Homens+, 1 na
Levada do Bom Sucesso, 2 no Lombo do Terço, 1 na R. do Dr. Juvenal, 1 na Choupana, 1 no Jardim
Municipal, 1 na Travessa de Santa Catarina, 1 na R. dos Aranhas, 1 na Fortaleza de S. Lourenço, 1 na igreja
de Santa Clara, 3 na praia, sendo 1 em frente da Alfândega, e 2 junto da Capitania da Porto, 1 na R. da Bela
Vista, 1 perto da Fabrica do Torreão (esta não explodiu), 1 perto do Pico de S. João, 1 na R. 5 de Junho, 1
próximo do Cemitério Israelita, 1 próximo do Hotel Jones, 1 perto do Castelo do Pico, 1 no mar, em frente
do ponto onde amarra o cabo submarino, e 1 perto da Travessa do Pasto. Rebentaram outras granadas sobre
a cidade, mas sem causar dano.
Este segundo bombardeamento durou apenas 30 minutos tendo o submarino disparado uns 50 tiros e as
vedetas 40 e tantos. As batarias da Vigia e de S. Gonçalo não chegaram a fazer fogo sobre o submarino, em
razão deste, perseguido pelas vedetas, se ter posto rapimente fora do alcance das mesmas batarias.
As pessoas mortas no dia do bombardeamento foram: Augusto Teles de Vilhena, de 25 anos, Carolina
Adelaide Rodrigues, de 50 anos, Firmina Augusta Figueira, da mesma idade, Maria José de Mendonça, de
45 anos, e Emilia Augusta, de 40 anos.
Os feridos foram pensados no Hospital Civil e na Delegação da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha,
tendo prestado bons serviços tanto o medico desta delegação, o Dr. João Albino de Sousa, como os
maqueiros da mesma. No Hospital foram os feridos atendidos pelos Drs. Alvaro Tertuliano da Silva e José
Joaquim de Freitas.
A granada que rebentou na igreja de Santa Clara feriu o Padre Manuel da Silva Branco, que estava ali
celebrando a missa, o sacristão e duas mulheres, uma das quais faleceu pouco depois na Delegação da Cruz
Vermelha, à R. dos Netos.
Pela bravura com que se portaram durante o ataque do submarino, foram louvados pelo capitão do porto,
em ordem de serviço, as tripulações do Dekade I e Mariano de Carvalho.
Uma grande parte da população do Funchal saiu para o Monte, Santo Antonio, S. Martinho e outras
localidades, por causa do bombardeamento, e muitas foram as pessoas que alugaram casas nos arredores da
cidade, na suposição de que estariam aí mais protegidas contra os riscos de um novo assalto dos piratas. O
pânico durou por largo tempo, e várias vezes vimos indivíduos de todas as idades e condições sociais
fugirem espavoridos em todas as direcções, só por terem ouvido dizer que tinha sido visto um novo
submarino nas proximidades do nosso porto ou que os alemãis haviam desembarcado em qualquer ponto
do litoral. Noites houve em que os automóveis e os carros não tiveram um momento de descanso, tal era a
quantidade dos indivíduos que pretendiam fugir ao perigo que supunham correr se permanecessem na
cidade.
Algumas pessoas mandaram construir trincheiras dentro das suas casas e quintais, às quais se recolhiam
quando algum indivíduo de mau gosto se lembrava de anunciar para breve um novo bombardeamento.
A iluminação publica foi proibida, como medida de defesa, no dia em que se deu o segundo
bombardeamento, e só voltou a ser restabelecida a 11 de Novembro de 1918, quando chegaram à Madeira as
primeiras noticias relativas à suspensão das hostilidades entre os beligerantes. Quando se deu o primeiro
bombardeamento, a iluminação só foi proibida durante alguns dias, sendo acesos depois os candieiros das
ruas que não podiam ser vistas do mar.
Para proteger a Madeira contra qualquer tentativa de desembarque dos alemãis, mandou nos o governo,
depois dos acontecimentos de 12 de Dezembro, uma companhia de artilharia de posição, munida das
respectivas peças, que esteve aquartelada na R. do Carmo. Do que não dispusemos nunca foi da artilharia
exigida para responder eficazmente a qualquer bombardeamento realizado a distancia, sendo por falta dela,
tanto em terra como no mar, que os piratas puderam levar a efeito, sem correr risco algum, os dois actos de
brutal agressão que aqui deixamos registados. A única peça de grosso calibre de que dispunhamos, montada
em S. Gonçalo, não pode ser utilizada no dia 12 de Dezembro de 1917, por o submarino se ter colocado,
segundo se afirma, fora do alcance dela,ao realizar o bombardeamento.
Bombas Vulcanicas
Corpos de natureza basaltica, umas vezes arredondados, outras oblongos e
adelgaçados nas extremidades, e quasi sempre com sulcos longitudinais paralelos. São projecteis
arremessados outrora no espaço por uma actividade vulcânica que há muitos séculos desapareceu.
Encontram se comumente ora soltos, ora embebidos nas encostas dos mais recentes cones vulcanicos da
parte baixa da Madeira, e nas outras ilhas do arquipelago. Encravados nos tufos dessas encostas e a par
dessas bombas vulcanicas, existem outros corpos de basalto, alongados e contorcidos como cordas, os quais
tendo a mesma origem vulcanica, tiveram no entanto um modo de formação talvez distinto do das bombas
propriamente ditas. Exemplares característicos duns e doutros aparecem em muitas localidades, entre elas
Porto do Moniz, S. Martinho, Garajau, Caniçal, Porto Santo e Selvagem Grande.
Bombeiros (Companhia de)
Ficou organizada em sessão da Camara Municipal do Funchal de
24 de Setembro de 1888, tendo lugar a nomeação do pessoal no dia 11 de Abril de 1889. Tem regulamento
aprovado pela Câmara em 4 de Abril de 1889.
Para instruir os primeiros bombeiros funchalenses, veio à Madeira Luiz da Terra Viana, bombeiro do Porto,
que esteve hospedado por conta da Câmara no Hotel do Carmo.
A primitiva companhia dissolveu se em 1906, mas em 20 de Setembro desse ano estava já constituída uma
nova companhia, organizada pelo empregado telegrafo postal Alfredo Jorge Ferraz.
Bomboteiro
Assim chamam na Madeira ao indivíduo que vai a bordo dos vapores que visitam o porto
do Funchal, a fim de vender fotografias, bilhetes postais e vários objectos produzidos ou fabricados na ilha.
Deriva da palavra inglesa bumboat, segundo diz Cândido de Figueiredo.
Bonina. (Mirabilis divaricata)
Planta da família das Nictaginaceas, cultivada e naturalizada
na Madeira.
Tem flores de cor muito variável, mas de ordinário purpureo violaceas e folhas ovado lanceoladas ou
ovadas, subcordiformes na base. A raiz desta planta é purgativa, mas não tem emprego na Madeira.
Boqueirão (Smaris insidiator). Pequeno peixe da família Maenida, pescado nas águas da Madeira. Outrora
muito vulgar, é hoje uma raridade nos mercados, não sendo peixe de grande valia. Pescam no desde o litoral
até o alto mar, e desde a flor da água até cerca de 150 braças de profundidade. As vezes é visto a grande
distancia da terra, misturado com a sardinha, arenque, chicharro e cavala.
Boqueirão de Baixo
Pequeno canal ou passagem entre a ilha do Porto Santo e o Ilhéu a ela
adjacente, chamado Ilhéu de Baixo ou da Cal.
Boqueirão de Cima
Passagem apertada entre a ilha do Porto Santo e o Ilhéu de Cima ou do Farol.
Boqueirão de São Lourenço. O mesmo que Boqueirão Grande.
Boqueirão do Furado
Pequeno boqueirão ou canal que separa o extremo da Ponta de São
Lourenço do ilhéu de Agostinho. (V. este nome). Na baixa mar é passagem transitável a vau.
Boqueirão Grande
É o canal ou passagem de mar, que se encontra entre o ilhéu Vermelho ou dos
Desembarcadouros (V. este nome) e o ilhéu de Fora, na Ponta de São Lourenço. Com o mar chão, os barcos
chamados de carreira e os vapores costeiros atravessam frequentemente este boqueirão.
Borboletas
Conhecem se na Madeira umas 120 espécies de Lepidópteros, muitas das quais são
conhecidas pela designação de borboletas. Nos jardins e campos são frequentes algumas espécies diurnas,
notáveis pelo colorido das suas asas, tais como a Pieris Brassicae, a Colias edusa, a Lycaena baetica, a
Vanessa Atalanta, a V. Callirhoe, a V. Cardui, etc. É a Pieris Brassicae, de asas quasi brancas, que produz a
lagarta que destrói as couves.
Bordados
Os estrangeiros que escreveram acerca da Madeira nos princípios do segundo quartel do
século XIX não se referem à indústria dos bordados, o que parece significar que ou ela não existia a esse
tempo ou não tinha ainda importância alguma na ilha. Em 1850 apareceram alguns bordados madeirenses
numa exposição industrial que se realizou no Funchal, mas só entre 1854 e 1856 é que esses trabalhos
principiaram a ser feitos em larga escala na ilha, devido à procura que já então tinham nos mercados de
Inglaterra, onde Miss Phelps os fizera conhecer por intermédio de algumas pessoas das suas relações.
Depois de Miss Phelps apareceram os negociantes ingleses Roberto e Franck Wilkinson, que passaram a
fazer em mais larga escala a exportação dos bordados madeirenses para Inglaterra, e assim se foi
progressivamente desenvolvendo uma indústria para a qual as mulheres dos nossos campos revelavam uma
decidida vocação, e que há cerca de 60 anos constituía já uma importante fonte de riqueza para a nossa ilha.
Em 1862, segundo se lê na Estatística Industrial do Districto do Funchal, de Francisco de Paula de Campos
e Oliveira, havia 1029 bordadeiras na Madeira, sendo a importância da venda dos bordados em toda a ilha
de uns l00 contos de réis insulanos e empregando se diariamente nesses trabalhos perto de 15 quilogramas
de linhas. Os bordados, lê se ainda na mesma Estatistica, eram vendidos na sua maior parte aos
estrangeiros, que os levavam nas suas bagagens, tendo os que eram exportados directamente pela Alfândega
um valor não superior a 6 ou 7 contos de réis. O salário das bordadeiras regulava nessa época por 100 a 150
réis diários.
Até 1878 progrediu sempre, segundo cremos, a exportação dos bordados, que nesse ano foi calculada em
55:252$000 réis, mas em 1880 estava ela reduzida a 12:937$000 réis, em virtude dos bordados de luxo
terem passado um tanto de moda na Inglaterra. Eram, porém, avultadas as somas que ficavam na ilha,
provenientes da venda de bordados aos numerosos estrangeiros que nos visitavam, e era isso o que
mantinha e animava uma indústria que, se não dava grandes proventos às mulheres que a exerciam,
concorria de certo modo para melhorar a situação de muitas famílias. O estabelecimento de Madame
Counis, à Rua de João Tavira, era o que mais vendas fazia então em toda a cidade, encontrando se ali
trabalhos das mais variadas qualidades, desde os bordados brancos, de desenho simples, até os bordados de
seda e os de tapeçaria de ponto singelo ou dobrado. Foi há pouco mais de 50 anos que se estabeleceram no
Funchal, por 1890, as primeiras casas alemãs exportadoras de bordados, com manifesta vantagem para uma
indústria que se mantivera estacionária por largo tempo, devido à falta de mercados consumidores. Os
nossos bordados que até então só eram bem conhecidos na Inglaterra, começaram a espalhar se não só pela
Alemanha, mas também pelos Estados Unidos da América e outros países, resultando daqui um aumento
considerável na produção, sobremaneira benéfico não só à economia rural, como à economia de todo o
districto. A importância exigida para o pagamento da mão de obra em todo o arquipelago, que era de 200
contos em 1893, subiu a 461 contos em 1906, em virtude de maior exportação e das vendas dentro do
Funchal terem aumentado de um modo considerável, mercê da vinda ao nosso porto de maior numero de
vapores com passageiros em transito.
O mapa seguinte, em que só figura o valor das exportações feitas pela Alfândega, dá uma ideia da
importância que teve para a Madeira a indústria dos bordados no período que vai de 1900 a 1919:
1900 ........................... 229.928$090
1901 ........................... 213.957$270
1902 ........................... 190.719$700
1903 ........................... 98.863$340
1904 ........................... 58.735$200
1905 ........................... 99.690$760
19o6 ........................... 242.342$180
1907 ........................... 277.530$240
1908 ........................... 186.194$810
1909 ........................... 257.599$400
1910 ........................... 287.551$00
1911 ........................... 188.560$00
1912 ........................... 79.950$00
1913 ........................... 143.009$00
1914 ........................... 156.767$00
1915 ........................... 201.052$00
1916 ........................... 29.140$00
1917 ........................... 702.695$00
1918 ........................... 766.128$00
1919 ........................... 615.057$00
“Há na Madeira, diz Vitorino José dos Santos, no nº 5 do Boletim do Trabalho, duas classes de bordadeiras
perfeitamente distintas: a das bordadeiras rurais e a das bordadeiras profissionais.
As primeiras existem disseminadas por todo o distrito, embora muito mais intensamente na costa do sul da
Madeira e na ilha do Porto Santo, e as segundas residem principalmente no concelho do Funchal e
sobretudo nas freguesias de Santa Maria Maior e S. Gonçalo, onde se produzem os mais finos bordados de
todo o distrito.
As remunerações obtidas pelas duas classes de bordadeiras são também muito diversas.
Algumas bordadeiras profissionais há que chegam a ganhar duas e três vezes mais, diariamente, do que a
melhor das bordadeiras rurais. Este resultado é sempre obtido à custa da assiduidade em um excessivo
numero de horas de trabalho, e na consequente perfeição dos bordados produzidos.
A indústria dos bordados não oferece porém a estas bordadeiras as vantagens que apontámos para as
bordadeiras rurais. Estas, na variedade do trabalho que prestam, na maior despreocupação da vida do
campo e na menor intensidade do trabalho, desenvolvem com certa higiene uma actividade que as não
cansa, enquanto que as bordadeiras profissionais, enfermando a maioria delas de um desmedido amor pelo
luxo, e por viverem no concelho do Funchal onde esse luxo é muito grande entre as classes menos
favorecidas, trabalham mais do que devem e de dia e de noite com uma intensidade extenuante, cuidando
quasi sempre muito pouco de uma alimentação reparadora, causando por isso em breve tempo e adquirindo
graves enfermidades, como seja a tuberculose, que faz grandes estragos nesta classe de bordadeiras”.
Supõe o Sr. Santos que em 1906 havia em todo o distrito 30:000 bordadeiras rurais e 2:000 profissionais,
ganhando as primeiras o salário médio de 70 réis e as segundas o de 200 réis. As casas que davam ocupação
a estas operarias, não falando nalguns pequenos negociantes nacionais, eram em numero de 8, sendo 2
portuguesas e 6 alemãs, e a importância destinada por elas ao pagamento da mão de obra regulava em todo
o distrito por réis 461:000$000. Computando em 151:000$000 réis o que as mesmas casas dispendiam
com ordenados a empregados, distribuição de tecidos e recebimento de obras feitas, e com vários outros
encargos, chegou o mesmo Sr. Santos à conclusão de que eram entregues anualmente à economia do
distrito cerca de 596:000$000 réis, não falando claro está no que também ficava aqui proveniente dos
lucros da exportação.
“Aos bordados da Madeira, diz ainda o Sr. Vitorino José dos Santos, eram antigamente quasi todos feitos a
linha azul sobre morim ou cambraia, ajustados e alinhavados previamente sobre desenhos próprios (riscos)
e cuidadosamente urdidos. Estas operações eram fundamentais na confecção do bom bordado, forte e
duradouro”.
“Ainda hoje na Madeira se borda assim, quando tal se requere, mas raramente isso sucede, e desde o
estabelecimento das casas alemãs no Funchal, tem se generalizado o uso de bordar a linha branca
directamente sôbre os tecidos que contêm gravados os desenhos respectivos, e por exigências de redução de
preços prevaleceu a quantidade sobre a qualidade, desaparecendo também quasi o urdido, que era uma das
principais condições a atender para a solidez do bordado”.
A guerra europeia em que Portugal se viu envolvido, trouxe a princípio prejuízos sérios à indústria dos
bordados. Os mercados alemais, diz o Sr. Vitorino José dos Santos no numero 97 do Boletim do Trabalho
Industrial, fecharam e mesmo na América, as contingências dum futuro incerto em breve reduziram as
encomendas, impondo a diminuição de trabalhos e a supressão de empregados e de operarias nas casas e
oficinas sedes. A crise, a pesar de terrível, foi porém pouco duradoura, e em fins de 1918 havia no Funchal
34 casas exportadoras de bordados, que dispendiam com mão de obra e ordenados a empregados cerca de
1:500 contos. Em 31 de Dezembro de 1912, isto é, antes de começar a guerra, eram essas casas em numero
de 19, e dispendiam com mão de obra cerca de 600 contos.
Supõe o Sr. Vitorino José dos Santos que em 31 de Dezembro de 1912 havia em todo o distrito 32:000
bordadeiras rurais e 2:500 profissionais e que em 31 de Dezembro de 1914 estava o trabalho produzido por
essas bordadeiras reduzido a metade, dada a crise que resultou da conflagração europeia.
A indústria dos bordados está agora (1923) florescente na Madeira e nem parece ressentir-se já dos
prejuízos que sofreu quando a guerra europeia fechou os mercados alemãis aos produtos da ilha. Os Estados
Unidos são o país que importa maior quantidade de bordados madeirenses, e a Inglaterra a pesar das
restrições que estabeleceu para a importação dos artigos de luxo, continua a ser um importante mercado de
consumo para os mesmos bordados. Muitas mulheres funchalenses vivem exclusivamente da indústria dos
bordados, e, nos campos, os lucros que muitas operarias auferem da mesma indústria, concorrem bastante
para tornar mais desafogada a vida de muitas famílias.
Para que se mantenha, porém, uma indústria que tantos benefícios traz à grande maioria da população
madeirense e é hoje a mais importante da ilha, necessário é que os seus produtos sejam de natureza a
encontrar larga procura nos centros consumidores. Sacrificar a qualidade à quantidade como muitas vezes
se tem feito em se tratando de satisfazer encomendas vindas do estrangeiro, é promover o descredito dos
nossos bordados e provocar uma crise futura que trará incalculaveis prejuízos à vida económica da nossa
terra.
Em fins de 1923 havia no Funchal umas 100 casas de bordados, calculando se o valor da exportações para a
América, Inglaterra, Africa do Sul, Canadá, França, etc., em cerca de 70:000 contos. Pela mesma época
ocupava a indústria dos bordados cerca de 70:000 indivíduos de ambos os sexos, uns empregados nas casas
exportadoras, outros trabalhando no domicílio, havendo mulheres que no exercício dessa indústria
ganhavam 8, 9, 10 e 12 escudos diários, e homens cujos vencimentos iam desde 200 a 1:500 escudos
mensais.
A expansão que sofreu a indústria dos bordados trouxe alterações profundas à nossa vida social, sendo
bastante para desejar que a mesma indústria se mantenha sempre florescente, para que em muitos lares
não venham a sentir se faltas e necessidades aí desconhecidas na actualidade (1923). Os lucros avultados
que uma parte da população aufere directa ou indirectamente da indústria a que nos referimos, criaram
para muitos indivíduos necessidades que têm de ser satisfeitas, de sorte que se amanhã essa indústria que
tem levado a abastança e nalguns casos a riqueza a muitos lares perder a sua importância, originará isso
uma crise que poderá dar lugar a grandes males.
A desvalorização da nossa moeda é a principal causa da expansão da indústria dos bordados, mas deve se
advertir que se esta expansão atenuou os efeitos da crise económica que o país atravessa, concorreu também
bastante, pela elevação dos salários e dos lucros do negocio, para dar a uma parte do nosso povo tendências
para o gozo e hábitos perdulários que se não manifestavam outrora.
Não tendo a indústria dos bordados condições de vida prospera permanente, aconselha a prudência que
aqueles que vivem dela se não habituem a fazer gastos escusados ou inuteis, pois que se tais gastos são hoje
possíveis, poderão não o ser amanhã, se se modificarem as condições em que se exerce a mesma indústria
na nossa ilha (1923).
No fim deste volume do Elucidario, daremos outras informações e diversos dados estatísticos acerca desta
importante indústria madeirense, relativos aos últimos anos.
Bordalo (Francisco Maria). Este distinto oficial de marinha e escritor (1821 1861) comandou a fragata
Diana, que em 1844 conduziu à Madeira vários deportados políticos. Em 1861 esteve nesta ilha em procura
de melhoras à sua saúde, mas regressando à capital morreu ali pouco depois. Num dos seus livros
encontram se várias referências à Madeira.
Borge (O.)
Determinou as algas colhidas pelo Dr. Lindman em 1885, tendo escrito acerca delas um
pequeno trabalho intitulado Algologische Notizen Susswasseralgen aus Madeira (Botaniske Notizer, 1911).
Borges (Gaspar)
As Saudades da Terra consagram oito longas paginas a um tal Gaspar Borges, que
depois do saque dos piratas franceses desencravou as peças de artilharia, que foram julgadas
completamente inutilizadas e que ele com grande admiração de todos conseguiu restituir ao seu primitivo
uso. Pelos detalhes a que desce Frutuoso e pelos louvores com que enaltece o trabalho de Gaspar Borges,
deverá realmente ser ele um habilissimo mecânico e de uma competência fora do vulgar, a pesar do que
possa haver de hiperbólico na narrativa do cronista. A nós causa nos uma grande estranheza que Gaspar
Frutuoso levasse tão longe a pormenorização do caso e se tornasse um tão entusiástico panegirista do
desencravado daquelas peças! (quem quiser tomar conhecimento circunstanciado da estranha habilidade
do famigerado Borges, leia as Saudades a pagina 283 e seguintes.
Marceliano Ribeiro de Mendonça publicou um interessante romance histórico intitulado Gaspar Borges, em
que figura como principal protagonista o hábil artífice, a quem as Saudades tão largamente se referem.
Borges (Vasco).
Foi nomeado governador civil da Madeira por decreto de 4 de Abril de 1914 e tomou
posse deste cargo a 27 dos ditos mês e ano.
Bornmuller (P.).
Botânico alemão que herborizou na Madeira em 1900. E.: Ergebnisse zweier
botanischer Reisen nach Madeira und den Canarischen Inseln (Bot. Jahrb., 1903).
Borracha (Árvore da)
Das espécies que fornecem a borracha só existem na Madeira a Ficus
elastica, da família das Urticaceas, e a Manihot Glaziovii; da família das Euforbiaceas. A primeira encontra
se em várias quintas do Funchal; a segunda só existe, que nos conste, nos terrenos anexos ao Posto de
Desinfecção, no Campo da Barca, onde vegeta muito bem.
Em muitas localidades da ilha aparece uma Composta, a que chamam visco, cujo latex se solidifica numa
massa esbranquiçada e elástica, mas que não tem aplicações industriais.
Borracho
Odre de pele de cabra usada no transporte dos mostos. Os borracheiros são os indivíduos
que transportam os borrachos desde o lagar até o estabelecimento que compra os mostos destinados ao
fabrico dos vinhos, e usam nas suas marchas de um canto cadenciado e triste, que se ouve às vezes com
prazer.
Borragem (Borago officinalis)
Planta emoliente, sudorifica e diuretica, cultivada e
naturalizada em S. Martinho, S. Roque, Caniço etc.. Esta Borraginacea, originaria da Europa, reconhece-se
pelas suas flores grandes, azues ou brancas, por fim pendentes, e pelas suas folhas hirsutas, com pelos
rudes.
Bory (De)
Descreveu a sua viagem à Madeira na Histoire et Mémoires de l'Academie Royale des
Sciences pour l'an 1772 ( Paris, 1776)
Bosenberg (W.)
E.: Beitrag zur Kenntnis der Arachniden Fauna von Madeira und den Canarischen
Inseln. (Abhand Gebiete der Naturwiss., 1895, Hamburgo).
Botelho (Alberto de Sousa)
Foi representante deste arquipelago em cortes nas sessões
parlamentares de 1901 e de 1902 a 1904.
Era oficial de artilharia e lente da antiga Escola do Exército.
Morreu no Funchal a 28 de Dezembro de 1903.
Botelho (Sebastião Xavier)
Este governador e capitão general da Madeira foi nomeado a 15 de
Junho de 1818, chegou ao Funchal a 12 de Maio de 1819 e a 15 do mesmo mês tomou posse do seu cargo.
Percorreu toda a sua capitania e informou o governo central dos melhoramentos mais urgentes a realizar.
Foi durante o seu governo que rebentou a revolução do Porto, que derrubou o governo absoluto e arvorou o
sistema representativo, sendo na Madeira proclamada a Constituição a 28 de Janeiro de 1821.
Sustentou encarniçadas lutas políticas, e em sua defesa publicou um opúsculo intitulado Historia
verdadeira dos acontecimentos da ilha da Madeira depois do memorável dia 28 de Janeiro ... (Lisboa, 1821).
Sebastião Botelho era dotado de uma rara inteligência e vasta ilustração, sendo considerado como um dos
mais apreciados escritores do seu tempo e de quem Alexandre Herculano escreveu e proferiu o elogio
histórico.
Além de ter sido governador e capitão general da Madeira, Açores, Moçambique e Angola, exerceu outros
cargos importantes.
Nasceu a 8 de Março de 1768 e morreu a 21 de Maio de 1840.
Pertencia à família dos condes de S. Miguel e era avô do segundo conde de Carvalhal.
Botha (General Luiz)
Passou no Funchal em Maio de 1907, quando se dirigia a Londres a fim de
tomar parte no Congresso Sul Africano.
Boto (Phocaena communis)
Cetáceo dos mares da Madeira. Quando novo é chamado
toninha, designação que também é dada a outro cetáceo, o Dellphinus delphis.
Bowdich (T. E.)
Naturalista e viajante inglês que esteve na Madeira em 1823, onde se demorou
desde 14 a 26 de Outubro. Os resultados dos estudos de Bowdich sobre a fauna, a flora, a geologia e a
meteorologia da Madeira e Porto Santo, estão consignados num trabalho que só foi publicado depois da sua
morte e que tem o título de Excursions in Madeira and Porto Santo, during the autumn of 1823 (Londres,
1825). Esta obra curiosa por muitos motivos, mas que contém muitas inexactidões, foi traduzida em francês
e publicada em Paris em 1826. Bowdich faleceu a 10 de Janeiro de 1824.
Braça
Tem dez palmos de nove polegadas correspondendo cada polegada a 2 1/2 centímetros. A braça é
usada na Madeira para a medição de pedra destinada a construções.
Brado d'Oeste
O terceiro jornal que, na Madeira, se publicou fora do Funchal e o primeiro publicado
na vila da Ponta do Sol. Saiu o primeiro numero a 2 de Junho de 1909 e o ultimo, o 858, a 24 de Janeiro de
1918.
Braga
Pelo ano de 1460 se passou do continente do reino para esta ilha da Madeira João de Braga,
homem rico e nobre, a quem foram dadas terras de sesmaria na paróquia de S. Antonio, no sítio chamado
do Laranjal. Foi pai do celebre Marcos de Braga, de quem falam com muito louvor as antigas crónicas
madeirenses, pelos actos de bravura e coragem que praticou. Casou João de Braga com uma filha de Nuno
Gonçalves, nascendo deste consórcio Domingos de Braga, que instituiu o morgado do Laranjal, nas terras
que seu avô obtivera de sesmaria.
Este morgadio passou a um bisneto de sua irmã D. Maria Gonçalves de Braga, por nome Manuel Ferreira
Drumond de Vasconcelos, e deste a seu filho João Drumond de Vasconcelos, e sucessivamente, por herança
de pais a filhos, a Manuel Ferreira Drumond, Rafael Drumond de Vasconcelos, Francisco Moniz Drumond,
João Ferreira Drumond Henriques, D. Maria Hilaria Ferreira Drumond, Antonio Sebastião Spinola Ferreira
de Carvalho, D. Matilde Augusta Spinola e Antonio Sebastião Spinola Ferreira de Carvalho Barreto, que foi
o ultimo administrador deste morgadio, em virtude da lei que aboliu os vínculos, e de quem é representante
o seu filho varão, o Dr. Remigio Antonio Gil de Spinola Barreto.
De João de Braga provém a introdução deste apelido nesta ilha.
Braga (Gaspar de)
Distinguiu se muito no saque que os piratas franceses fizeram a esta ilha em
1566, oferecendo uma tenaz resistência aos assaltantes e tendo morrido heroicamente na luta.
Braga (Marcos de)
As antigas crónicas madeirenses falam de Marcos de Braga, enaltecendo as
proezas de coragem e valentia que praticou, por ser dotado de uma descomunal força muscular, de que em
muitas ocasiões deu grandes provas e de que Gaspar Frutuoso cita diversos e curiosos exemplos. Diz este
cronista que Marcos de Braga “era tão sedeúdo de cabello, que até as unhas pela banda de fora, e no rosto
até junto dos olhos era coberto de cabellos...”.
Um seu filho do mesmo nome, herdou a valentia do pai e igualmente praticou alguns actos de grande
bravura e coragem que Frutuoso se não esqueceu de referir.
Braga (Teofilo)
Este ilustre publicista, no seu livro Poetas Palacianos, dedica um capítulo a este
arquipelago, a que deu o título de Cyclo Poético da ilha da Madeira e em que faz menção dos poetas
madeirenses que figuram com suas composições no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Este capítulo
vem transcrito e eruditamente comentado a pag. 765 e seguintes das Saudades da Terra, pela pena
autorizada do Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo.
Na obra do mesmo autor Quarenta anos de vida literaria, de pag. 109 a 118, vêm insertas doze cartas do
ilustre anotador das Saudades, que se ocupam da publicação desta obra e do Romanceiro e Cancioneiro da
Madeira, e em que se encontram elementos muito interessantes para a historia literária desta ilha.
Braguinha
Instrumento musico de madeira, de forma de uma viola de pequenas dimensões e peculiar
a estas ilhas. Possue 17 tastos ou pontos e é provido de 4 cordas de tripa, que se afinam não em quintas,
como o violino ou o bandolim, e como pretendem alguns autores, mas do seguinte modo ré 3 , sol 3 , si 3 , ré
2 , ou seja com um intervalo de quarta e dois de terceira. As vezes, especialmente no campo, a prima de
tripa é substituída por uma corda de metal, que lhe dá um som estridente, mais do agrado do tocador
campesino. A sua extensão pouco excede duas oitavas, e pode dar acordes nos tons de sol, dó, fá, ré e lá,
sendo o seu tom mais fácil o de sol maior. O som agudo, saltitante e alegre, o que lhe permite sobressair de
modo característico no meio de instrumentos congéneres, é usado quasi exclusivamente pelo povo,
prestando se à execução de variadas melodias, que muitas vezes são acompanhadas de rajão e viola. Faz
parte dos grupos musicais populares, desempenhando umas vezes a parte principal ou cantante, em
uníssono com outros instrumentos, como guitarra e rabeca outras vezes fazendo, em acordes, um simples
acompanhamento. Na produção de uma melodia, o tocador do povo serve se somente do polegar; o
instrumento é, porém, susceptível de maior efeito quando tocado por artista hábil e conhecedor que,
executando a melodia com o polegar, entremeia a com acordes de três e quatro notas desferidas pelos
outros dedos, o que dá à musica deste instrumento uma feição inteiramente particular.
A expressão popular tocar a ponteado significa desempenhar uma melodia, por isso que nesse caso, ao
contrario do que sucede nos acompanhamentos, o tocador usa da maior parte dos pontos ou tastos.
Houve no Funchal alguns professores de braguinha, entre eles Manuel Cabral, Antonio José Barbosa e
Agostinho Martins, e algumas musicas existem manuscritas, além dos princípios do instrumento, cujo
estudo era feito com predilecção por muitos dos estrangeiros que outrora aportavam à Madeira.
Ha alguns anos organizou se no Funchal, sob a direcção de Agostinho Martins, uma orquestra composta de
braguinhas, rajões e violas, que, na execução de musicas de estilo popular e mesmo clássico, apropriadas
aos recursos destes instrumentos, produziu forte impressão pela originalidade e bem arquitectado do
arranjo musical.
Hoje encontra se o braguinha nas ilhas de Sandwich e outras partes do mundo, para onde se tem dirigido a
emigração do colono madeirense.
Sendo chamado cavaquinho em Lisboa, é também conhecido por machete de braga ou somente braga no
arquipelago da Madeira. Embora estes últimos apelativos o façam supor de origem minhota, é certo não
haver actualmente noticia de ter sido encontrado nas terras de Portugal. E, ou fôsse importado de outras
regiões, ou seja produto de criação madeirense, a expressão machete de braga talvez esteja a indicar que era
noutros tempos tocado ou por gente do povo, dessa que usava os calções antigos chamados bragas, ou por
condenados, desses que traziam uma argola na perna, conhecida por braga, ou ainda por pessoas que o
punham sobre a cinta, dado que braga significava outrora cinta, braguilha, cintura.
De todas estas hipóteses, é talvez a primeira a mais aceitável, e seja como for, é questão que necessita de
largo estudo para se chegar a conclusões seguras.
Convém acentuar que a simples designação de machete pertencia dantes a este instrumento, como se vê nas
respectivas musicas manuscritas; hoje, porem, o povo chama simplesmente machete aquele outro
instrumento indigena - o rajão.
Inteiramente modelada pelo braguinha, fabrica se ainda no Funchal a chamada requinta de braga.
V. Rajão e requinta de braga
.
Bramão (Dr. Alberto Allen Pereira de Sequeira)
Foi deputado pela Madeira na
legislatura de 1901.
Nasceu em 1866. É um poeta consagrado, tendo o seu volume de poesias Illusões Perdidas sido traduzido
em francês e italiano.
Branca (Ilhéu de)
Pequeno ilhéu próximo do litoral norte da Ponta de São Lourenço.
Branca (Ponta)
É também conhecida pelo nome de Ponta de Nordeste. Fica a nordeste da costa
maritima da ilha do Pôrto Santo.
Branco (Alfredo de Castro de Freitas)
Nasceu no Funchal no dia 1 de Janeiro de 1890 e é
filho de Luiz de Freitas Branco e de D. Ana Augusta de Castro de Freitas Leal Branco. Além de varia
colaboração em diversos jornais, tem publicado: O Destino, 1916, de 63 pag.; Antiga Clara, 1916, de 31 pag.;
No Exílio. Scenas da vida dos conspiradores monarchicos, 1917, de 77 pag.; Charcos, 1917, de 46 pag.; A
acção do estado nas suas relações com a egreja catholica. Conferencia, 1917, de 16 pag.; Res Lusitanae,
tradução, 1914; Auto da Primavera, 1919, de 22 pag.; Madrinha de Guerra, 1919, de 44 pag.; A Confidencia,
1919; A Flora Madeirense na Medicina Popular, 1935; A Estada de Cristovam Colombo na Madeira, 1936 e
Os Lusiadas e a Madeira.
Branco (Conselheiro Luiz de Freitas)
Nasceu no Funchal a 19 de Agosto de 1819 e cursou
com distinção o nosso liceu e a Universidade de Coimbra, em que obteve elevadas classificações, formando
se em direito em 1852. Estabeleceu-se como advogado no Funchal e aqui exerceu vários cargos de
importância. Foi deputado pela Madeira nas sessões legislativas de 1858 a 1859, de 1860 a 1861, de 1861 a
1864, de 1865, de 1865; a 1868 e de 1882 a 1884. Revelou se em cortes um parlamentar distinto, sendo
relator de várias propostas de lei. Em 1862 foi nomeado director geral dos negócios eclesiásticos no
Ministério da Justiça, lugar que exerceu até à morte. Desempenhou importantes comissões de serviço
publico e gozou de grande influencia e prestigio na política. Tinha várias condecorações nacionais e
estrangeiras. Este distinto madeirense faleceu em Lisboa, no princípio do mês de Novembro de 1884.
Branco (Dr. Fidelio de Freitas)
Nasceu no Funchal a 16 de Junho de 1861 e era filho do
conselheiro Silvano de Freitas Branco e de D. Maria Candida de Sant'Ana Branco. Concluiu a sua formatura
em direito na Universidade de Coimbra no ano de 1884 e em seguida advogou algum tempo em Lisboa,
tendo abandonado esta carreira para dedicar se à agricultura e à administração da sua casa. Representou a
Madeira no parlamento nas legislaturas de 1887 a 1889, 1890 a 1892, 1894 a 1895 e de 1895 a 1897.
Também foi deputado por um circulo do continente, e entre as comissões de serviço publico que
desempenhou, conta se a de governador civil num dos distritos continentais. Morreu em Sintra a 29 de
Outubro de 1918.
Branco (João de Freitas)
Nasceu nesta cidade a 5 de Agosto de 1854 e era filho do conselheiro
Silvano de Freitas Branco e de D. Maria Cândida de Sant'Ana Branco. Cursou o liceu do Funchal e
matriculou se na faculdade de matemática da Universidade de Coimbra, que abandonou para completar a
sua educação no estrangeiro e dar outra orientação aos seus estudos. Foi na Inglaterra, na França e
especialmente na Austria que adquiriu um profundo conhecimento de algumas línguas estrangeiras, sendo
considerado um dos nossos mais distintos poliglotas. Dedicou se particularmente ao estudo das literaturas
do norte da Europa e escreveu vários trabalhos de critica literária sobre Ibsen, Rudyord, Kipling,
Maeterlinck etc., que foram muito apreciados. Nos ultimos anos da sua vida consagrou se especialmente à
literatura teatral, não só escrevendo algumas peças originais, mas também traduzindo e adaptando à cena
portuguesa muitos dos mais aplaudidos dramas e comedias estrangeiras. Traduziu a Casa da Boneco e o
Esteio da Sociedade, de Ibsen, Uma Fallencia, de Bjornson, os Penedos do Inferno, de Blumenthal, O Fim
de Sodoma, de Sudermann, etc.. Também traduziu a Aranha d'Ouro, Festa da Inauguração, O Califa Harum
Al Rachid, Os Innocentes, O Gatuno, O Homem das Mangas etc.. Foi ele que vulgarizou em Portugal os
principais dramaturgos do norte da Europa, principalmente da Suécia, Dinamarca e Alemanha, que eram
quasi desconhecidos entre nós.
A sua predilecção pelas cousas teatrais não o fez abandonar o estudo de outros assuntos literários e
científicos, sendo tido como um homem de profunda ilustração em muitos ramos do saber humano.
Morreu em Lisboa a 27 de Maio de 1910, tendo 55 anos de idade.
Branco (João Soares)
É de Janeiro de 1906 o decreto da sua nomeação para governador civil da
Madeira, tendo tomado posse a 30 dos referidos mês e ano.
Foi deputado pela Madeira na sessão legislativa de 1908 a 1910.
Em 1915 publicou em Lisboa um opúsculo de 103 paginas, intitulado A Nova Questão Hinton, que contém
uma colecção de artigos publicados no jornal O Paiz.
Foi ministro e lente da Escola do Exército. Faleceu em Lisboa a 4 de Fevereiro de 1927.
Branco (Padre João Manuel de Freitas)
Este sacerdote, um dos maiores talentos da
provincia da Madeira, como lhe chamava em 1822, o Patriota Funchalense, nasceu no Funchal em 1773, ou
pouco depois, e faleceu no Rio de Janeiro em 1831.
Exerceu durante 24 anos consecutivos funções eclesiásticas em várias paróquias afastadas do Funchal, e era
em 1822 vigário colado de S. Jorge, quando foi eleito deputado às cortes pela ilha da Madeira.
Tendo partido nesse ano para Lisboa, tomou assento no parlamento, onde defendeu com bastante
inteligência e critério os interesses da sua terra.
Restabelecido o governo absoluto em Portugal e dissolvidas as cortes, voltou Freitas Branco à Madeira,
sendo nomeado em 1826 professor de gramatica latina e latinidade no Funchal, e em Setembro de 1827
membro da comissão de censura.
Era constitucional exaltado, e durante o governo de Valdez por várias vezes se serviu do púlpito para
aconselhar o povo a respeitar os direitos de D. Pedro.
Foi pronunciado pela alçada que o governo de D. Miguel enviou à Madeira em 1828, mas não chegou a ser
preso por ter emigrado para o Brasil.
Colaborou no Patriota Funchalense e foi sócio correspondente da Sociedade dos Amigos das Sciencias e
Artes. Dos muitos sermões do vigário Freitas Branco, só viu a luz da publicidade o que ele pregou na Sé
Catedral em 28 de Janeiro de 1822, no primeiro aniversário da proclamação do governo constitucional
nesta ilha, intitulado “Oração de acção de graças que na solemnidade do anniversario do faustissimo dia 28
de Janeiro de 1821 pregou na Sé Catedral do Funchal em o anno de 1822”.
Branco (Pico)
Na região setentrional da ilha do Porto Santo, a nordeste, encontra se a elevação
montanhosa do Pico Branco, cujo cume se encontra a 420m de altitude.
Brandão (D. Gaspar Afonso da Costa)
No longo período de 26 anos, decorridos de 1757 a
1784, esteve D. Gaspar Afonso da Costa Brandão à frente dos destinos desta diocese, sendo dela o seu 171.
bispo. Embora não conheçamos detalhadamente os actos do seu episcopado, sabemos no entretanto que foi
um prelado distinto e que deixou da sua administração episcopal as mais honrosas tradições. Certo que a
sua atitude por ocasião da expulsão da Companhia de Jesus desta ilha, foi acremente censurada pelos
católicos e parece que até pela curia romana, sendo particularmente notada a violência da linguagem da
pastoral que então publicou contra os membros daquela ordem religiosa. O prelado não se afastou do
caminho seguido pelo alto clero português, que não teve forças nem coragem para reagir contra as
despóticas imposições do marquês de Pombal.
D. Gaspar Brandão nasceu em Vila Cova de Sub Avo da comarca de Arganil e diocese de Coimbra, sendo
filho de Bento de Figueiredo, pertencente a antigas famílias daquela localidade.
Era clérigo secular, e em 1756 foi por D. José I apresentado bispo do Funchal, tendo sido confirmado por
Bento XIV no consistorio de 19 do mês de Julho daquele ano. Recebeu a sagração episcopal no ano
imediato, chegando a esta cidade no dia 5 de Agosto de 1717.
Veio acompanhado dos padres Alasia e Reis, membros da Congregação da Missão, que durante os dez anos
em que permaneceram nesta diocese, foram os seus mais valiosos auxiliares nas reformas que empreendeu,
sobretudo na observância da disciplina nos conventos tanto de religiosos como de religiosas, onde se
tinham introduzido abusos já inveterados e que dificilmente puderam ser de todo corrigidos. Nas missões
evangélicas realizadas nas paróquias nos exercícios espirituais do clero e ordinandos e noutras obras de
caracter religioso e eclesiástico, prestaram os referidos sacerdotes Alasia e Reis serviços relevantissimos,
que ficaram assinalados nos anais desta diocese.
Ainda nos adros de algumas igrejas paroquiais se encontram hoje levantadas cruzes sobre modestos plintos,
em memória da passagem daqueles religiosos por aquelas freguesias, no exercício da pregação evangélica.
Foi D. Gaspar Brandão muito zeloso na pastoreação do seu rebanho, revelando se principalmente nas visitas
que fez às paróquias, nas pastorais que escreveu, na pregação, na reforma do seminário, nas missões e na
estricta observância da disciplina eclesiástica.
Serviu de governador e capitão general de 1758 a 1759, deixando assinalada a sua passagem no governo
superior do arquipelago por uma administração em extremo zelosa e honesta.
Por motivos que não conseguimos averiguar, ordenou o prelado a prisão no Aljube do bacharel Antonio
Xavier Pimentel, do que resultou uma grave luta com o governador e capitão general João Gonçalves da
Câmara Coutinho, trocando se entre estas duas autoridades uma larga correspondência, a que veio por
termo a interferência do governo da metrópole, a que D. Gaspar Brandão então recorreu.
D. Gaspar Afonso da Costa Brandão morreu nesta cidade a 14 de Janeiro de 1784 e foi sepultado na capela
mor da nossa Sé Catedral.
Brandão (José Antonio Ferreira)
Traduziu a obra de Major The Life of Prince Henry of
Portugal, que interessa bastante a historia do arquipelago da Madeira nos primeiros tempos da colonização.
Brandão (Pedro de Lima)
Foi nomeado para exercer o cargo de Governador e Capitão General
da Madeira a 29 de Maio de 1683 e tomou posse a 18 de Abril de 1684.
Bravos do Mindelo
Numerosos foram os madeirenses que se bateram pela causa da liberdade na
longa e cruenta guerra civil que terminou com a convenção de Evora Monte, assinada a 26 de Maio de 1834,
mas desses beneméritos, muitos dos quais fizeram parte da expedição de 7:500 homens com que D. Pedro
desembarcou nas praias do Mindelo no dia 8 de Julho de 1832, apenas chegaram até nós os nomes dos
seguintes:
D. Jorge da Câmara Leme (V. este nome). Alcançou o posto de tenente e faleceu no Funchal a 8 de Julho de
1889.
Henrique João Fernandes. Era natural de Machico e morreu na acção de 25 de Julho de 1833, nas linhas do
Porto, em campanha.
Cristovão Lomelino de Carvalho. Era natural de Machico e morreu na acção de 5 de Setembro de 1833, nas
linhas de Lisboa.
José Antonio de Almada (V. este nome). Foi condecorado com o grau de cavaleiro da Torre e Espada por se
haver distinguido na batalha da Asseiceira, em que foi ferido. Era natural de Machico e faleceu no Funchal a
2 de Maio de 1885.
Cândido de Freitas Cabeça. Distinguiu se em muitos combates e morreu no Funchal, donde era natural, em
idade pouco avançada.
Francisco de Freitas Broegas. Notabilizou se pela sua bravura em muitos combates, mas morreu pobre na
cidade do Funchal, onde exerceu o mister de oficial de diligências.
Januario dos Ramos. Depois de voltar de Portugal, foi guarda da Alfândega e empregado do Matadouro
Municipal. Faleceu por 1888.
Tertuliano Toribio de Freitas. Foi condenado pela alçada que veio à Madeira em 1823 e prestou mais tarde
bons serviços nas campanhas da liberdade, vindo porém a morrer pobre, vitima de ingratissimo abandono.
Manuel (?) Camacho. Parece que era natural de Santo Antonio, e morreu naquela freguesia por 1880.
Luiz Vicente da Silva. Foi guarda da Alfândega e morreu por 1880.
Atanasio Herculano Nunes. Foi empregado da Alfândega do Funchal e morreu em Santa Cruz em Setembro
de 1887.
Antonio Xavier da Costa. Foi também empregado da Alfândega, e faleceu por 1879.
Nicolau Anastacio de Bettencourt (V. este nome). Foi governador civil em Angra, Ponta Delgada, Portalegre
e Aveiro, e faleceu em Angra, onde residiu a maior parte da sua vida, a 7 de Março de 1874.
Jacinto Augusto Camacho (V. este nome) Alcançou o posto de general de brigada e foi, enquanto coronel,
comandante interino da divisão militar da Madeira. Faleceu no Porto a 7 de Junho de 1885.
José Camacho. Morreu nas linhas de Lisboa.
Roberto Joaquim Cuibém. Fugiu para Inglaterra, passando dali aos Açores. Alcançou o mais elevado posto
do exército, e faleceu no Funchal por 1870.
Luiz Albino Gonçalves. Atingiu o posto de coronel medico do exército, sem ter nenhuns estudos regulares de
medicina e prestou bons serviços por ocasião da epidemia colérica em 1856. Faleceu no Funchal, em Março
de 1882.
Joaquim Antonio de Carvalho. Comandou o corpo de artilheiros auxiliares da Madeira.
Joaquim Pedro Castelo Branco. Foi mais tarde capitão do porto do Funchal, tendo atingido o posto de
contra almirante. Faleceu a 17 de Junho de 1884 e cremos que só prestou serviços à causa de liberdade,
como oficial de marinha.
João Correia. Foi mais tarde alferes de infantaria 5.
José Bettencourt de Abreu. Alcançou o posto de alferes no exército libertador.
Antonio José de Meneses. Alcançou o posto de major de cavalaria.
Antonio Teixeira Doria. Só prestou serviço como oficial de marinha.
Antonio Aluísio Jérvis de Atouguia (V. Atouguia), mais tarde Visconde de Atouguia. Atingiu o posto de
brigadeiro graduado de engenharia e faleceu em Lisboa a 17 de Maio de 1861.
Francisco Venancio de Mendonça. Desempenhou o cargo de escrivão da Câmara de Machico e faleceu no
Funchal em 1856.
Bertoldo Francisco Gomes. Foi mais tarde tenente de artilharia no Funchal e morreu em Maio de 1855.
Paulo Manuel Ferreira Ferro. Era natural da Fajã da Ovelha e morreu no Funchal em fins de 1894.
Francisco Correia Heredia (V. este nome). Faleceu em Lisboa em 1880.
Francisco Alexandrino da Costa Lira. Alcançou o posto de brigadas e foi mais tarde rico proprietário, vindo
a falecer no Funchal a 21 de Janeiro de 1877, com 72 anos de idade.
Julio Berenguer. Faleceu no Funchal depois de 1880.
José de Freitas Teixeira Espinola de Castelo Branco. Alcançou o posto de marechal de campo.
Francisco Antonio Rodrigues da Silva. Esteve na batalha da Asseiceira e em muitos outros combates, tendo
sido condecorado com o grau de cavaleiro da Torre e Espada. Desempenhou o logar de oficial de diligências
da Administração do Concelho e em 29 de Janeiro de 1839 foi nomeado guarda do cemitério das Angústias.
João de Azevedo. Era natural do Seixal e serviu a bordo do brigue de guerra Vinte e três de Julho, enquanto
durou o cerco do Porto, tendo entrado na acção do Cabo de S. Vicente. Foi condecorado com o habito da
Torre e Espada, e, depois de obter baixa do serviço militar, desempenhou o cargo de guarda do mercado
União e da praça Académica.
Sebastião de Abreu. Foi guarda da alfândega e faleceu a 15 de Setembro de 1855.
Morgado Antonio Francisco da Câmara Leme Homem de Vasconcelos, que partiu da Madeira para
Inglaterra e de ali para a ilha Terceira, onde se incorporou na expedição comandada por D. Pedro. Morreu
no Porto em idade pouco avançada e era pai do conde de Canavial.
Dos trinta e quatro liberais cujos nomes ficam mencionados, cremos que só os dezassete ou dezoito
primeiros fizeram parte da expedição de 7:500 bravos com que D. Pedro desembarcou nas praias do
Mindelo no dia 8 de Julho de 1832. Com relação aos restantes, nenhumas provas temos de que se
incorporassem na referida expedição, embora saibamos que foram também soldados devotados da
liberdade, pela qual combateram durante toda a campanha ou grande parte dela. Cerca de cem madeirenses
desembarcaram com D. Pedro em Portugal, tendo muitos deles, talvez a maior parte, perdido a vida nos
campos de batalha.
A 4 de Abril de 1832 foi a ilha do Porto Santo ocupada por uma força de 60 praças, sob o comando do
capitão Bento José de Oliveira, vinda dos Açores no brigue de guerra Conde de Vila Flôr e na escuna
Terceira, e no dia 7 aportou á mesma ilha a fragata D. Maria II, trazendo a seu bordo o almirante Sertorio, o
general Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque, o deão da Sé do Funchal, Januario Vicente Camacho, e
outros constitucionais.
A ocupação durou até 25 de Maio, embarcando a referida força nesse dia para os Açores, acompanhada de
104 voluntários que tinham fugido da Madeira para o Porto Santo a fim de se incorporarem nas tropas que
D. Pedro estava organizando para combater a rude tirania de D. Miguel.
Sabe-se pelo que dizem os anais do Município de Machico, que entre esses voluntários se achavam José de
Almada, Lomelino de Carvalho, Henrique Fernandes e Venancio de Mendonça, mas é de presumir que
também fizessem parte do referido grupo de liberais os madeirenses Cândido Cabeça, Broegas, Ramos,
Toribio de Freitas, J. e M. Camacho, Luiz V. da Silva, Atanasio Nunes e Xavier da Costa, embora os jornais e
os documentos oficiais que compulsámos nos não,transmitam noticia alguma a tal respeito.
Brasões de armas
Na obra do distinto linhagista Visconde de Sanches de Baena, publicada em
1872 e que tem por título Archivo Heraldico Genealogico, encontra se a noticia resumida de alguns milhares
de alvarás, pelos quais foi concedido a muitos indivíduos o uso de brasão de armas, com a data da
concessão, alguns dados genealogicos do agraciado e a descrição sumaria do próprio brasão. De vários
indivíduos naturais desta ilha ou nela residentes insere esta obra a noticia de muitos alvarás, concedendo
lhes o privilegio de brasão de armas. Vamos apenas indicar os seus nomes e datas das mercês concedidas,
suprimindo as restantes informações, para não dar a este artigo uma extensão demasiada. Os interessados
poderão consultar os extractos dos alvarás que se encontram na obra citada. Os indivíduos ali mencionados
são os seguintes:
Aires de Ornelas, alvará de 1613; Aires Fernandes de Lordelo, alvará de 1514; Antonio Alberto de Andrade
Perdigão, alvará de 15 de Junho de 1790; Antonio Doria Teixeira, 13 de Novembro de 1788; Antonio de
Espindola, Genovês, filho de Micer Cliam de Espindola, 1513; Antonio de Espindola, filho de Leonardo de
Espindola, 27 de Fevereiro de 1535; Antonio Fernandes Correia Jervis de Atouguia, 30 de Setembro de 1780
e 5 de Maio de 1781; Antonio João de Freitas de Carvalho Drumond, 20 de Outubro de 1756; Antonio Leme,
12 de Novembro de 1471; Antonio Manuel Teixeira Lomelino de Vasconcelos Caiado, 3 de Agosto de 1796;
Antonio Teixeira de Vasconcelos, 17 de Novembro de 1779; Baltasar Gonçalves Pereira de Drumond, 12 de
Março de 1538; Bernardino Henriques de Ornelas Vasconcelos, 29 de Outubro de 1790; Braz Luiz de Freitas
Drumond de Aragão, 10 de Fevereiro de 1751; Braz de Espindola, 27 de Janeiro de 1572; Diogo Pires de
Drumond, 19 de Março de 1538; Estevão de Bettencourt Perestrelo, 18 de Julho de 1734; Fernando Dias, 17
de Abril de 1528; Francisco Alvares Camelo, 8 de Outubro de 1756; Francisco Homem, 23 de Abril de 1535;
Francisco João Escorcio Drumond Moniz e Meneses da Câmara, 12 de Novembro de 1778; Francisco João
Moniz Barreto Cabral de Ornelas, 5 de Junho de 1780; Gaspar Berenguer César Bettencourt, 23 de Abril e 8
de Julho de 1768; Gaspar Homem, 29 de Abril de 1535; João Antonio Vasques de Araujo Neto, 5 de Julho de
1780; João Esmeraldo, 16 de Maio de 1520; João Fernandes do Arco, 28 de Fevereiro de 1485; Dr. João
Francisco de Oliveira Alvares, 26 de Julho de 1790; João Gonçalves de Camara de Lôbos, 4 de Julho de
1460; João Gualberto Pinto, 11 de Julho de 1825; João Lombardo, 1503; Joaquim Pedro de Castelo Branco,
15 de Junho de 1857; José de Freitas Teixeira Espinola Castel-Branco, 3 de Abril de 1807; José João
Cardoso de Vasconcelos, 29 de Julho de 1772; José Leão Drmunod de Vasconcelos, 18 de Julho de 1770;
Leandro Dias de Ornelas e Vasconcelos, 27 de Julho de 1801; Lopo Machado, 1537; Lucano de Espinola,
1513; Luiz Doria Veloso, 22 de Novembro de 1547; Manuel Afonso Ferreira de Drumond, 2 de Agosto de
1536; Manuel de Couto Cardoso, 12 de Junho de 1561; Manuel Mendes Pereira, 18 de Março de 1538;
Manuel Vogado, 21 de Fevereiro de 1538; Miguel de Carvalho, 18 de Janeiro de 1544; Nicolau de Barros, 3
de Julho de 1563; Pedro Pacheco, 22 de Maio de 1535; Pedro Vaz Borges, 30 de Março de 1556; Sebastião
Coelho, 22 de Maio de 1540; Simão Acioli, 27 de Outubro de 1529; Valentim de Freitas Leal, 15 de
Novembro de 1852.
Bredos
São conhecidas por este nome algumas espécies do género Amarantus, umas espontâneas,
outras subespontaneas na ilha da Madeira.
Brioso (D. Estevão)
D. Estevão Brioso ou D. Estevão Brioso de Figueiredo, como também
encontramos escrito o seu nome, foi o 121 bispo do Funchal no período decorrido de 1685 a 1689. Nasceu na
cidade de Évora, sendo filho de Manuel Martins e de Catarina de Figueiredo. Era clérigo secular e formado
em cânones pela Universidade de Coimbra. Exercia o cargo de vigário geral do arcebispado de Lisboa,
quando em 1676 foi criada a diocese de Pernambuco e nela apresentado bispo, tomando posse no ano de
1678. As dificuldades com que lutou no seu bispado para a observância da disciplina eclesiástica, obrigaram
no a abandonar o cargo, regressando poucos anos depois ao continente do reino. Em 1684 foi nomeado
bispo do Funchal, assumindo o governo da diocese em Abril de 1685. Quatro anos depois, por motivo de
saude teve de sair para a capital, onde morreu a 20 de Maio de 1689, sendo sepultado na igreja do Colégio
de São Patrício. Desconhecemos quaisquer factos ou circunstancias que assinalassem a sua passagem pela
diocese do Funchal.
Briozoarios
Os briozoarios da Madeira até hoje estudados são todos de origem marinha e deles se
hão ocupado os seguintes naturalistas: professor G. Busk, rev. Thomas Hincks, Artur W. Waters, James Y.
Johnson e, recentemente, o Dr. A. M. Norman. Este ultimo menciona no seu trabalho 130 espécies da
Madeira, Porto Santo e Selvagens, das quais 7 são novas para a ciência e 39 não haviam sido encontradas
nos mares deste arquipelago.
Briqueira
Aparelho de pesca consistindo em duas varas delgadas de marmeleiro, unidas pelos
extremos mais grossos e sustentando nas extremidades mais delgadas uma ou duas linhas de uma braça de
comprimento, a que estão fixos os anzóis. No ponto de junção das duas varas existe uma alça ou presilha
onde vai prender se a linha que sustenta o aparelho, o qual mergulha pela acção dum pêso ligado às varas
logo abaixo da alça. Este peso pode ser um pedaço de chumbo, e nesse caso chama se chumbada; ou
consiste num simples calhau rolado, e então tem o nome de pandulho. No Porto Santo as varas de
marmelheiro são alguma vez substituídas por hastes de tamargueira. Este aparelho é destinado em geral ao
peixe fino que habita os fundos rochosos, como garoupas, pargos, requemes, alfonsins, etc..
Brisa
Os madeirenses dão o nome de brisa ao vento geral de nordeste que sopra principalmente durante
o verão. Pela direcção que segue, este vento não se faz sentir geralmente aquém da Ponta da Oliveira.
V. Embate.
Brito
O apelido Brito ou Brito de Oliveira foi introduzido nesta ilha por Pedro de Brito de Oliveira
Pestana, que por fins do terceiro quartel do século XV se estabeleceu na Madeira com seu irmão João
Mendo ou Mendes de Brito. Ambos são fundadores de instituições vinculares. Segundo Henriques de
Noronha, as armas desta família são: em campo vermelho nove lisonjas em três palas e um leão de púrpura
em cada uma, tendo como timbre, um leão das armas com lisonjas de prata.
Brito (D. João Joaquim Bernardino de)
Foi o 201 bispo do Funchal, tendo morrido
antes de pessoalmente assumir o governo da sua diocese. Foi confirmado pela Santa Sé a 28 de Agosto de
1819 e tomou posse do cargo, por procuração, a 14 de Maio de 1820. Encarregou então do governo do
bispado o Dr. João Manuel da Costa e Andrade, cónego da nossa Sé, tendo pouco depois falecido em Lisboa
a 26 de Julho de 1820.
Brito e Nobrega (Ciriaco)
Nasceu no Funchal a 16 de Março de 1856 e é um dos mais antigos
jornalistas madeirenses, sendo presentemente (1923) redactor do Diário de Noticias. Traduziu e publicou
em 1875 o romance Jorge, de F. Arnault, e é autor de A visita de S. S. Magestades os Reis de Portugal ao
arquipelago madeirense (Funchal, 1901) e de o Perdão do Marido (Funchal, 1901) Escreveu, de colaboração
com Oscar Leal, um Marinheiro do Século XV (Funchal, 1898).
Ciriaco de Brito e Nobrega era cavaleiro da ordem de S. Tiago e 11 oficial da Repartição da Fazenda do
Distrito do Funchal.
Brito (João de)
A sua nomeação para governador e capitão general da Madeira é de 2 de Fevereiro
de 1680, tendo tomado posse do lugar a 10 de Abril do referido ano.
Brito Rebelo (General Jacinto Inacio de)
É natural de S. Miguel e escreveu além doutros
trabalhos, os seguintes: Casa dos Esmeraldos na ilha da Madeira (Ocidente, tomo II, n.1 75); D. Ayres de
Ornelas e Vasconcelos (Ibid. tomo III, p. 3); e The Discovery of Madeira, que serve de introdução à obra do
Dr. Alberto Figueira Jardim, intitulada Madeira (Lisboa, 1914).
Neste ultimo trabalho encontram se algumas informações curiosas sobre certos pontos da nossa historia.
Falando da origem do nome de Machico, dado a uma localidade da costa de leste da Madeira, diz o sr. Brito
Rebêlo: Em 1894, por ocasião do 51 centenário do nascimento do infante D. Henrique, descobri o nome de
um marinheiro chamado Machico, capitão do navio do rei D. Fernando, a quem este rei deu algumas casas...
O marinheiro Machico, ou algum dos seus descendentes, deu casualmente o seu nome àquela parte da
Madeira (Machico), e este nome originou mil conjecturas, todas igualmente sem fundamento. Com a
revelação do facto que deixo apontado, ficou estabelecido que Machico era o nome de um marinheiro, e
assim todas as disputas sobre tal nome cessaram, depois de haverem dado lugar a numerosas dissertações e
conferencias em sociedades geográficas estrangeiras e na Sociedade de Geografia de Lisboa.
Não sabemos se Machico foi o primeiro a descobrir ou a desembarcar naquele porto. . . mas o que podemos
estabelecer é que Machico foi o dono dum navio que esteve ancorado em Lisboa e amarrou aos muros da
cidade, quando o rei de Castela D. Henrique cercou a mesma cidade. Ele devia ter feito várias viagens a
diversas partes do mundo, pois que os navios são feitos para navegar, e Machico, o dono do navio, era um
marinheiro categorizado.
Supõe o Sr. Brito Rebelo que Tristão Vaz era um cavaleiro de origem estrangeira, talvez mais nobre do que
Zarco, e quando se refere a Cristovão Colombo, diz que é muito problemática a estada dele na Madeira,
sobretudo se a considerarmos como tendo durado por largo tempo.
Declara ainda o Sr. Rebelo ser falso o que narra Frutuoso a pag. 166 das Saudades da Terra acerca do
castigo aplicado a Tristão Barradas, homem havido por fidalgo, e que este homem se chamava Diogo e não
Tristão, e que não foi aferrolhado com huma braga moendo em hum moinho de farinha, mas preso pelas
mãos e mutilado por ordem de Tristão Vaz, por haver abusado da hospitalidade que este lhe dera. Tristão
Vaz não foi deportado para a ilha do Príncipe, mas obrigado simplesmente a pagar 40:000 reis, importância
avultadissima para a época, pelo castigo bárbaro aplicado ao Barradas.
Britten (James)
E.: R. Brown's List of Madeira Plants (Journ. of Bot. British and Foreign, XLII,
1904.
Brotas (Capelas das). No sítio da Quinta das Freiras da freguesia de Santo Antonio, na margem direita da
ribeira do mesmo nome, levanta se a capela conhecida pelo nome de Nossa Senhora das Brotas. Procurando
investigar a origem desta, para nós, tão estranha denominação, apenas pudemos, a pesar das nossas boas
diligências, chegar a meras presunções e conjecturas, que talvez estejam muito longe da verdade.
Supusemos primeiramente que aquele nome provinha, não da invocação ou orago da capela, mas do lugar
em que fora edificada. Havendo uma erva medicinal com tal nome, seria possível que, existindo ali essa
planta desse o nome ao local e depois à ermida. Conjecturámos depois que tendo a província do Alentejo
uma freguesia chamada Brotas, onde existe um notável santuário com a invocação de Nossa Senhora das
Brotas, poderia porventura, por motivos hoje desconhecidos, dar se à capela aquela denominação. Ambas as
hipóteses se verificam em vários pontos desta ilha, sendo vulgar darem os primitivos colonizadores, vindos
de Portugal, os nomes das suas terras ou sítios da sua predilecção a muitos lugares onde aqui se
estabeleceram ou tiveram terras de sesmaria.
Em corroboração da primeira hipótese, temos que referir a circunstancia de noutros tempos e ainda
presentemente, se prestar culto à Senhora das Brotas, sob a invocação de Nossa Senhora da Luz, o que nos
leva a presumir que aquela denominação diz respeito ao lugar e não ao orago da capela.
Esta ermida foi fundada em 1678 por Manuel Martins Brandão, sendo de Julho deste ano o alvará de licença
para ser aberta ao culto. Foi edificada na quinta que ali possuía o seu fundador, estando dela apenas o
pórtico e quasi todo o frontispício, e parte das paredes laterais. Consta da tradição que as águas da ribeira,
desviando se do seu curso natural, em virtude da violência da corrente, destruíram uma parte considerável
do adro, deixando o edifício ameaçado de iminente ruína.
Era sede dum morgado, que nos parece ter sido instituído pelo referido Manuel Martins Brandão. Em 1736
era administrador deste vinculo o morgado Pedro José de Faria Bettencourt.
Brown (A. Samler)
E.: Madeira, Canary Islands and Açores, a pratical and complete guide for the
use of tourists and invalids, Londres).
Este guia, um dos mais perfeitos que têm sido publicados, contém muitas informações úteis não só sobre a
historia, geologia, clima, etc. das ilhas principais dos arquipélagos da Madeira, Canárias e Açores, mas
também sobre os pontos das mesmas ilhas mais dignos de serem visitados pelos estrangeiros. A 100 edição,
publicada em 1910, contém 20 mapas e planos, e maior copia de esclarecimentos úteis do que as edições
anteriores.
Só de 1901 em diante é que o Sr. Samler Brown começou a ocupar se das ilhas dos Açores, tendo a obra
aparecido em 1889 com o seguinte título: Madeira and Canary Islands, etc.. (Londres).
Brown (Roberto)
Distinto botânico inglês nascido em Montrose em 1773 e falecido em Londres em
1858. Esteve na Madeira desde 4 a 7 de Agosto de 1802, tendo organizado mais tarde uma lista de plantas
madeirenses, que foi incluída na obra de Von Buch, intitulada: Physicalische Beschreibung der Canarischen
Inseln (Berlim,1825). Esta lista é baseada principalmente nos herbarios e manuscritos de Masson, Banks e
Dr. Solander, pois que Roberto Brown poucas plantas colheu durante a sua curta residência nesta ilha.
Brown (T. Kenworthy)
E.: The Madeira Chaplaincy (Londres, 1848).
Bruce (James)
Celebre viajante inglês nascido em 1730 e falecido em 1794. Ocupa se do
descobrimento das ilhas da Madeira e Porto Santo na obra que foi traduzida em francês por J. H. Castera,
com o seguinte título: Voyage aux sources du Nil en Nubie et en Abyssinie pendant les annés de 1768, 1769,
1770, 1771 et 1772 (Londres, 1791).
Brucker (M.Raynold)
Escreveu no Musée des Familles do ano de 1834, um artigo com o titulo
seguinte: La Chapelle des Crânes dans l'Ile de Madère.
Brum do Canto (Dr. Salvador Manuel)
Deputado pela Madeira na sessão legislativa de
1906 a 1907. Como advogado de causas forenses respeitantes a esta ilha publicou: Acção de processo cível
ordinário. Autores Anthero da Costa Lyra e mulher e réus A Companhia de Credito Predial e outros, 1905, e
Acção de processo cível ordinário. Autores Anthero da Costa Lyra e mulher e reus a Companhia de Credito
Predial Português e outros, 1907. Morreu em Lisboa a 3 de Novembro de 1918, tendo 33 anos de idade era
filha desembargador Dr. Manuel Inacio Brum do Canto e bisneto do Dr. Luiz Henriques, primeiro director
da nossa Escola Medica. Tinha nascido nos Açores.
Buarcos
O apelido de família Buarcos, que por corruptela se dizia também Barcos, tem sua origem
entre nós em Antonio Buarcos, que foi um dos primitivos colonizadores da ilha do Porto Santo.
Buch (Leopoldo von)
Sábio geólogo e botânico alemão nascido em Stolp, no Uekermark, a 25 de
Abril de 1774 e falecido em Berlim a 4 de Março de 1853. Visitou a Madeira, em companhia do botânico
norueguês Chetien Smith, em 1811, tendo os dois naturalistas desembarcado no Funchal a 26 de Abril e
saído para Canárias a 2 do mês seguinte.
As observações de Buch e Smith na nossa ilha foram consignadas na Narrative of an Expedition to explore
the River Zaire... in 1816, under the direction of Captain J. K Tuckey (London, 1818).
É de Roberto Brown, e não de Leopoldo von Buch, o trabalho intitulado Verzeichniss der auf Madeira
wildwachsenden Pflanzen, que quasi todos os botânicos atribuem a este ultimo autor pela razão de ter sido
incluído na obra que publicou em 1825, sob o título de Physicalische Beschreibung der Canarischen Inseln.
Bucho encostado
O padecimento conhecido por esta designação na Madeira, parece ser devido a
uma torsão ou a uma contracção espasmodica do intestino, e costuma ser tratado pelas curandeiras por
meio de repetidas fricções com a mão untada com azeite, fricções que elas fazem acompanhar das palavras
seguintes, que se devem dizer nove vezes: assim como a murta se abriu e se tornou a cerrar, assim isto é
verdade. Nosso Senhor queira pôr este bucho, este ventre, esta coelheira no seu lugar. Depois de breve
descanso, diz ainda a curandeira 9 vezes: coelheirinha, vai ao teu lugar, bucho, vai ao teu lugar. O doente
conserva se deitado de costas enquanto é friccionado.
Finaliza o tratamento por a curandeira lançar azeite ou banha em duas folhas de couve aquecidas ao fogo, e
colocar uma no ventre do doente, e outra na região oposta, em geral um pouco acima do cóccix. Se as fôlhas
no dia imediato ao do tratamento se apresentarem secas, é porque o bucho estava encostado; se se
apresentarem verdes ou murchas, o bucho estava direito, cumprindo então ao doente recorrer a outros
meios para procurar alivio para os seus padecimentos.
O que há de ridículo no modo de tratamento que deixamos indicado, são as palavras que a curandeira
profere com o fim, segundo parece, de forçar o bucho a voltar ao seu lugar; quanto às fricções ou maçagens,
não ousamos contestar a sua eficácia, já porque se citam numerosos casos de cura obtidos por meio delas, já
porque a medicina também as considera úteis nos padecimentos que procedem das causas que atrás
indicámos.
Bufareira (Datura Stramonium)
Planta da família das Solanaceas, com corolas afuniladas,
azues ou brancas, e cápsulas revestidas de aculeos numerosos. Encontra se subespontanea em muitos
pontos do Funchal, e é muito venenosa se for ingerida em alta dose. Internamente, deve ser usada com
muita prudência; externamente pode ser empregada em banhos, para combater as dores reumáticas. A
bufareira contém um alcaloide chamado daturina.
Buganvília (Bougainvillea spectabilis)
Planta lenhosa originaria da América do Sul,
muito usada na Madeira para cobrir muros, mirantes, galerias, etc. Os ramos são espinhosos e as flores
estão rodeadas de bracteas grandes, de ordinário rosadas ou rosado violetas. Pertence à família das
Nictaginaceas.
Bugio
É uma das três Desertas e uma das cinco ilhas que compõem o arquipelago da Madeira. O seu
nome deriva, diz o Dic. Univ. Port. II., da circunstancia de se parecer com o macaco a que se dá esse nome;
tem de comprimento cinco milhas ou pouco mais de nove quilómetros por meia milha ou 926 metros na sua
maior largura; termina ao sul pela Ponta da Agulha, que é um dos pontos extremos do arquipélago; é de
rochas altas e quasi inacessível mas de bons pastos. O pico mais alto do Bugio está a 411 metros acima do
nível do mar.
O Bugio é inculto, não tem águas nem casa alguma, e produz papoilas, trevina, marroios e outras hervas,
algumas das quais são forraginosas. No alto da ilha e perto da extremidade sul, acham se algumas conchas
fosseis, e nas rochas marítimas encontra se o rarissimo Chrysanthemum haematomma, composta peculiar,
notável pelos seus lindos capítulos com as flores do disco purpureo negras e as marginais brancas ou
rosadas.
Segundo se vê dos registos da Conservatória da Comarca do Funchal, o Bugio pertencia em 3 de Outubro de
1867 a João de Vasconcelos de Sousa Câmara Caminha Faro e Veiga, marquês de Castelo Melhor, tendo sido
arrematado por morte deste, por Alexandre Fernandes Camacho Júnior. Hoje pertence a Carlos Cossart e
Henrique Hinton, que o arremataram, juntamente com as outras duas Desertas, em 24 de Novembro de
1894, quando foram em praça os bens do dito Alexandre Camacho.
O Bugio pertence à freguesia da Sé e tem um pequeno porto natural a oeste, denominado a Alagoa.
Bulhão Pato
O conhecido escritor e poeta Bulhão Pato foi amigo íntimo do segundo Conde do
Carvalhal e em sua companhia passou várias temporadas nesta ilha. A isso se refere ele em alguns dos seus
livros com a mais viva e saudosa recordação. No livro Sob os Ciprestes e nos três volumes das suas
Memórias ocupa se de algumas pessoas e cousas madeirenses. Encontra se ali largas referências ao Conde
do Carvalhal, a Jacinto de Sant'Ana e Vasconcelos, Viscondessa das Nogueiras, Jaime Moniz, Luiz da Costa
Pereira e ainda outros. Nos cantos VI e VII do seu poema Paquita, faz Bulhão Pato uma bela descrição
poética da Madeira.
Bulhão Pato passou nesta ilha de 7 de Agosto de 1850 a 6 de Março de 1851.
Bulwer (Rev. James)
Publicou em 1827 vinte e seis soberbas gravuras de vários pontos da ilha da
Madeira.
Bunbury (Carlos J. F.)
Botânico e paleontologista inglês que estudou a flora madeirense e as
plantas fosseis da freguesia de S. Jorge, em 1853. E. Remarks on the Botany of Madeira and Teneriffe
(Journ. of the Proceed. of the Linn. Soc., 1856); e On Some Vegetable Remains from Madeira (Geological
Journ., 1859).
Buraco (Ponta do)
Pequena saliência no litoral da freguesia do Seixal.
Burgess (Dr.)
Escreveu um artigo no Association Medical Journal, em que pretendeu negar, sem
nunca ter vindo à Madeira, a eficácia do clima desta ilha no tratamento das moléstias pulmonares. A este
artigo respondeu J. Mackenzie Bloxam em duas brochuras, sob a forma de cartas, dirigidas ao Dr. Lund.
Busk (George)
Professor e naturalista que se ocupou dos Polizoarios da Madeira, fundando os seus
estudos sobre materiais que daqui lhe foram fornecidos por James Y. Johnson. Estes trabalhos, os mais
antigos que se conhecem sobre este ramo da historia natural da Madeira, citam ao todo 45 espécies e foram
publicados com os seguintes títulos: Zoophytology (Quart. Journ. Micros Sc. VI 1858); On Some Madeiran
Polyzoa (Ibid., VI e VII, 1858 e 1859); e Catalogue of the Polyzoa collected by J. Y. Johnson, Esq. at
Madeira, in the years 1859 and 1860 (Ibid., VIII e IX, 1860 e 1861).
V. Briozoarios.
Buxo (Buxus sempervirens)
Arbusto europeu da família das Buxaceas, muito cultivado na
Madeira. O cozimento das raízes, da casca das mesmas e das folhas, é aconselhado nos reumatismos. A
madeira do buxo é estimada pelos torneiros por causa da sua grande dureza.
Buxo da Rocha
Os madeirenses dão este nome à Catha Dryandri, arbusto da família das
Celastraceas, e à Chamaemeles coriácea, arbusto da família das Rosáceas. O primeiro destes arbustos
encontra se em S. Gonçalo, no Seixal, etc; o segundo nas proximidades do Manicómio Câmara Pestana, na
Praia Formosa, etc..
Búzia (Mora mediterranea)
Peixe gadida frequentes vezes colhido no mar da Madeira, em
aparelho de anzol. Exceptuado o peixe espada preto é, dentre as espécies finas, a que se pesca a maior
profundidade. Também chamado, ainda que impropriamente, abrotea do alto, e algumas vezes robalo
branco.
Búzio
Concha de molusco gasteropodo do género Triton frequentemente pescada em fundos baixos,
com redes de arrastar. É a maior das conchas univalves dos nossos mares. Os marítimos da navegação
costeira servem se dela como sereia acústica, para aviso da partida ou chegada dos barcos, recepção de
carga, etc.. Dela se serve também o camponês quando em certas ocasiões chama os companheiros à revolta.
Dum modo geral, o termo é usado para designar qualquer concha, pequena que seja, do género Triton, e
ainda qualquer univalve que pela forma se aproxime daquele género.
No Porto Santo encontram se pequenos búzios pertencentes aos géneros Columbella, Murex e Ranella,
sendo a Columbella rústica abundantissima na praia, e na Madeira não são raros a Purpura hoemmastoma,
de 4 a 5 centimetros de comprido, a Mitra cornicula, o Murex corallinus, o Bittium reticulatum, a Rissoa
violacea, a Mitra zebrina e a Cypraea spurca.
Byron (Comodoro John)
Esteve na Madeira desde 13 a 19 de Julho de 1764, e comandava o
Delfim, navio de guerra britanico, o qual vinha acompanhado do Tamar, que tinha como comandante o
capitão Mouat. Byron foi bem acolhido pelo governador, e limitou se a tomar aqui alguns refrescos. O fim
da expedição era fazer descobertas de novas regiões e explorar principalmente o mar Atlântico, na parte
compreendida entre o Cabo da Boa Esperança e o Estreito de Magalhãis.
Cabaceira (Lagenaria vulgaris)
Cucurbitacea originaria da zona tropical, muito cultivada na
Madeira. Os seus frutos servem para fazer sopa, e depois de bem maduros e secos podem ser utilizados para
guardar líquidos, visto nesse estado ser fácil esvaziá-los do seu mesocarpo e sementes. A cabaça pequena
(var. pusilla), repleta de vinho ou aguardente, era objecto que sempre acompanhava outrora os nossos
campónios nos seus passeios ou romarias.
Caballero di Gracia (El)
Numero único dum jornal, que se publicou a 5 de Março de 1889.
Cabedo (João Octavio da Costa)
Era natural do Funchal e colaborou no Direito, antigo
jornal funchalense, no Povo de Aveiro e no Intransigente, tendo chegado a fazer parte do corpo de redacção
deste ultimo periódico, do qual se desligou ao ser nomeado administrador do concelho da Moita. Agredido
barbaramente à machadada no dia 12 de Janeiro de 1912, por ocasião de uma greve que se declarou
naquela localidade, veio a falecer no hospital de São José, em Lisboa, no dia 4 do mês imediato, contando
apenas 26 anos de idade.
Cabeleira (Lotus macranthus)
Leguminosa que se encontra no Cabo Garajau e na ilha do
Porto Santo.
Nesta última ilha dão o nome de cabeleira de coquinho ao Lotus Loweanus, planta que se não encontra na
Madeira.
Cabido
Pela bula Pro excellenti praeeminentia, de 12 de Junho de 1514, criou Leão X a diocese do
Funchal e conjuntamente o respectivo cabido da Sé Catedral, que pela letra expressa desse diploma
pontificio foi constituído pelas dignidades de Deão, Arcediago, Chantre, Tesoureiro-mor e mais doze
cónegos prebendados. Só posteriormente é que foi criada a dignidade de Mestre-Escola, e também se
criaram depois quatro canonicatos de meia prebenda, chegando o cabido do Funchal a ser composto de
vinte e um capitulares. Foi ainda mais tarde criado o cargo de cónego doutoral ou teologal, provido numa
das doze conezias já existentes. Assim se manteve constituído o cabido do Funchal até que por uma
concordata celebrada entre a Santa Sé e o governo português, há algumas dezenas de anos, ficou reduzido
a doze membros, compreendendo três dignidades, numero este sem duvida suficiente para o cabal
desempenho de todas as funções cometidas a este corpo capitular.
A bula citada, expressamente se refere a Nuno Cão (V. este nome), indicando-o como o sacerdote que devia
ser investido no cargo de deão, e também ordena que entre os quinze beneficiados da colegiada existente na
freguesia que depois tomou o nome de Sé, fossem os três mais antigos nomeados para as outras três
dignidades, e os restantes doze ocupassem os lugares das doze conezias então criadas.
O cargo de deão, era, e ainda hoje o é, a mais alta dignidade do cabido, e segundo uma lei do nosso país, que
esteve em vigor até á proclamação da Republica, só podia ser nela provido um eclesiástico que tivesse a
formatura em direito ou teologia. Nuno Cão foi o primeiro que entre nós exerceu este lugar, sucedendo-lhe
Filipe Rebelo e depois o Dr. Antonio da Costa. Os últimos sacerdotes que ocuparam o deado na Sé do
Funchal foram, respectivamente, Antonio Joaquim Gonçalves de Andrade, Aires de Ornelas de Vasconcelos
e João Joaquim Pinto (V. estes nomes). Este cargo teve primitivamente o vencimento de 7.000 réis anuais e
depois de 15.000 réis, passando a ser de 25.000 réis em 1527 e de 45 000 réis em 1563. Ultimamente tinha
a côngrua anual de 772.680 réis. Os dois primeiros sacerdotes que exerceram as funções de deão tinham a
seu cargo o serviço paroquial, sendo, por morte do segundo, criados os dois lugares de curas da Sé e ficando
deste modo dispensado o deão do múnus pastoral.
Como fica dito, as dignidades do cabido do Funchal, eram, além do deão, as de arcediago, chantre e mestre
escola, ficando ultimamente reduzidas ás três primeiras. Há muitos anos que não tem sido providas as
dignidades de arcediago e de chantre, sendo o ultimo arcediago o cónego José Joaquim de Sá, que faleceu
por 1869.
As doze conezias da primitiva constituição do cabido foram em 1536 acrescentados dois canonicatos de
meia prebenda e outros dois em 1577.
Entre os eclesiásticos que foram membros do cabido do Funchal, contam-se Jeronimo Dias Leite, Antonio
Veloso de Lira, Pedro Correia Barbosa, João Francisco Lopes Rocha, Gregorio Nanzianzeno de Medina e
Vasconcelos, Antonio Joaquim Gonçalves de Andrade, Aires de Ornelas de Vasconcelos, Alfredo César de
Oliveira e Antonio Aires Pacheco (V. estes nomes).
Cabeço da Roseira
Lugar e elevação montanhosa nas serras da freguesia do Porto do Moniz.
Cabo
Sítio povoado e muito pitoresco da freguesia da Ponta do Pargo, onde se encontra uma capela
dedicada a Nossa Senhora da Boa Morte, construída por Custódio Nunes da Costa no ano de 1666.
Cabo do Calhau
Antigo sítio junto da Capela do Corpo Santo, até onde se estendia a cidade do
Funchal aos fins do século XVI.
Cabo submarino
Foi a 26 de Setembro de 1874 que este arquipelago ficou definitivamente dotado
com um importantíssimo e há muito desejado melhoramento a sua ligação à metrópole por meio da
telegrafia electrica. Foi uma companhia inglesa que, em virtude de contrato realizado com o nosso governo,
procedeu ao lançamento do cabo e á instalação das respectivas instalações telegraficas, tendo o direito de
exploração pelo período de 99 anos, sem encargos alguns para o estado português. No dia 12 de Novembro
de 1872 foi assinado o respectivo contrato entre o governo português e Mr. Jules Despecher, representante
das companhias Mainteneuse e Falmouth and Malte.
O cabo deveria ser amarrado perto da foz do Tejo, na cidade do Funchal e numa das ilhas de Cabo Verde,
devendo começar a funcionar antes de 30 de Setembro de 1873.
No dia 22 de Agosto de 1874 saiu de Lisboa o vapor inglês Seine, encarregado de lançar através do oceano o
cabo submarino, que devia ligar esta ilha ao continente europeu. Depois de 11 dias de viagem, empregados
nos trabalhos do lançamento do cabo, rebentou este a cerca de 100 milhas da Madeira, tomando então o
vapor a direcção do Funchal, a fim de desembarcar alguns passageiros e prover-se de carvão e mantimento,
chegando ao nosso porto no dia 3 de Setembro. Após a indispensável demora, saiu o Seine a retomar os
trabalhos interrompidos, voltando poucos dias depois ao Funchal e fazendo logo a amarração do cabo com a
terra.
No dia 24 de Setembro trocaram-se particularmente alguns telegramas com a capital, mas o serviço do
publico começou a 26, tendo nesse dia sido dirigido o primeiro despacho telegrafico ao rei D. Luiz I. 0
primeiro telegrama recebido nesta cidade foi o do monarca português ao governador civil do distrito,
congratulando-se com a realização de tão importante melhoramento.
Nesse dia realizaram-se diversas demonstrações de regozijo, havendo brilhante iluminação na entrada da
cidade e antiga praça da constituição, musicas, fogos de artifício etc..
Cabos. Existem dois cabos na Madeira: o Cabo Garajau e o Cabo Girão. O primeiro avança cerca de 120
metros sobre o mar; o segundo é pouco saliente, e tem na base uma sapata ou plateau de erosão, onde se
pode andar na baixamar.
O Cabo Girão, assim chamado por ter sido o ponto em que terminou o giro dos batéis na primeira viagem de
reconhecimento da ilha, uma das mais elevadas eminências maritimas do globo; o Cabo Garajau, que
deriva o seu nome da grande quantidade de garajaus (Sterna hirundo) que os primeiros exploradores
encontraram ali, é muito menos elevado, estando a sua crista a 126 metros acima do nível do mar.
No Cabo Girão existem numerosos diques que cortam os tufos, as escórias e as lavas, e no Cabo Garajau há
um dique basaltico bastante notável, notando-se também no tufo amarelo dos terrenos numerosas
incrustações basalticas.
Os terrenos próximos da praia a oeste do Garajau e os barrancos e eminências situadas a leste do Cabo
Girão, são ricos em espécies botânicas, algumas das quais se não encontram noutras localidades da ilha.
Caboz
designação comum a vários peixes madeirenses das famílias Blenniida e Gobiida.
Cabra (Peixe)
Nome vulgar de duas espécies de peixes madeirenses da família Tríglida: Trigla
lineata e T. pini. Nenhuma delas é vulgar. Os raros indivíduos trazidos ao mercado são quasi sempre
apanhados nas redes de arrasto. A carne é branca, mas não das mais delicadas.
V. Caranguejo Judeu.
Cabral
Um dos quatro fidalgos que D. Afonso mandou para a Madeira a fim de casarem com as filhas do
descobridor foi Diogo Cabral, que era filho de Fernão Alvares Cabral, guarda-mor do infante D. Henrique.
Foi um dos primeiros povoadores desta Ilha e aqui casou com Brites Gonçalves da Câmara, segunda filha de
João Gonçalves Zarco. Diogo Cabral fez edificar a capela de Nossa Senhora da Estrela na Calheta, que fora
traçada por Zarco, e cuja construção ele muito recomendara a seus filhos. Cabral teve ali muitas terras de
sesmaria, que lhe foram doadas por seu sogro. Morreu a 15 de Dezembro de 1486, e jaz sepultado na capela
por ele construída. Era avô de Tristão Vaz da Veiga. Foi o primeiro que nesta ilha usou o apelido de Cabral.
Armas dos Cabrais: duas cabras passantes ornadas de púrpura e preto: timbre uma das cabras do escudo.
Cabral (Henrique Read)
Nasceu nos Açores e foi durante alguns anos director da alfândega do
Funchal, de que tomou posse em Maio de 1892. É autor de diversas obras, e nesta cidade publicou em 1895
um folheto intitulado Um Novo Mundo, de 56 pag., e no mesmo ano um romance que chamou histórico e a
que deu o título de Angela Santa Clara de 201 pag.. uma obra de pura ficção e que contém muitos
anacronismos e várias inexactidões históricas. A sua acção passa-se na Madeira.
Cabralia. Género de conchas bivalves, peculiar da Selvagem Grande. Foi encontrado numa camada
fossilifera do terciario miocenico.
A espécie Cabralia Schmitzii relembra os nomes do falecido João Cabral de Noronha, antigo proprietário
das Selvagens, e do Rev. Padre Ernesto Schmitz, distinto ornitologo que foi por largos anos professor do
seminário do Funchal.
Cabrestante
Nos livros da Câmara Municipal do Funchal encontram-se três escrituras de aforamento
de terrenos junto ao mar, para a construção de cabrestantes, sendo a primeira de 1600, a segunda de 1635 e
a ultima de 1642. 0 primeiro cabrestante que houve no Funchal pertenceu a Manuel Cabral, o segundo ao
castelhano Lopo Pardo de Luna e o terceiro a Bartolomeu Dias.
O Correio da Madeira publicou no mês de Fevereiro de 1848 a seguinte noticia acerca do cabrestante da
praia da cidade. “O estabelecimento incumbido do desembarque dos artigos de exportação e importação
nesta ilha, conhecido debaixo da denominação de administração do Cabrestante do Funchal, foi fundado há
mais de dois séculos, e seguiu suas funções concedidas em Patronado, por ordem regia, até 1807. Naquela
época, o general Beresford, então Governador e capitão General desta ilha, atendendo ás representações
que lhe fizeram os comerciantes nacionais e estrangeiros desta praça, extinguiu o dito Patronado ordenando
que a propriedade e direcção daquele estabelecimento passasse para a posse e administração de
comerciantes, que compraram todos os barcos e utensílios do Proprietário. Por aviso régio, datado do Rio
de Janeiro de 25 de Julho de 1808, ordenou S. A. R. o Príncipe Regente que aquele estabelecimento para o
expediente do Calhau, tal como o modelara o General Beresford, provisoriamente se conservasse até que S.
A. R. resolvesse o que julgasse mais conveniente ao seu real serviço e ao publico. Assim tem continuado o
estabelecimento do cabrestante do Calhau desde 1808 até agora, sem outra alguma disposição do governo
em contrario, de que os representantes tenham conhecimento”.
O cabrestante a que se refere o Correio da Madeira, ainda hoje existe, mas, segundo se afirma, na sua
administração só intervém o representante de um dos antigos proprietários, tendo todas as demais pessoas
com direitos á posse do estabelecimento, deixado de fazer valer os seus direitos, por motivos que são
desconhecidos. Diz-se que em tempos antigos, talvez em 1807 ou 1808, foram emitidas acções para a
aquisição do cabrestante, dos quais ainda existem algumas na posse de muito poucas pessoas.
Havia ainda não há muitos anos três cabrestantes no Funchal, mas hoje só existem dois, ambos
administrados pelos dirigentes do antigo cabrestante, que foi muito melhorado nos últimos tempos.
Estas informações não vão além do ano de 1922.
Cabrinha (Davallia canariensis)
Feto da família das Polipodiaceas, muito comum na
Madeira. O chá de cabrinhas é usado nas moléstias de pele.
Caçadores nº. 12. V. guarnição militar.
Cação (Galeus canis)
Peixe cartilaginoso da família, Carchariida, um tanto raro nos mares da
Madeira. É pescado ordinariamente na região litoral, sendo, como a grande maioria dos esqualos,
considerado de qualidade medíocre. No Porto Santo chamam-lhe bico doce do baixo.
O cação dos pescadores de Portugal é o esqualo a que na Madeira dão o nome de caneja.
Cacho Roxo
Nome vulgar da Wistaria sinensis, leguminosa originaria da China e que é frequente no
Funchal, onde serve para cobrir muros, galerias, etc.. Recomenda-se pelas suas flores grandes, dispostas em
cachos pendentes.
Cacongo (Visconde de)
Este titular não nasceu na Madeira, mas considera-a como a sua pátria
adoptiva. Acha-se ligado a esta ilha por laços de parentesco, aqui fixou residência há muitos anos e é entre
nós um dos mais abastados proprietários. Segue de perto todos os assuntos que interessam ás
prosperidades deste arquipelago e tem cooperado com o seu avisado conselho e com a sua opinião
autorizada para a resolução de muitos problemas que tocam de perto á economia do distrito. O Visconde de
Cacongo um desvelado protector das classes desprotegidas da fortuna, ás quais largamente socorre, não
recusando nunca o seu farto óbulo para todas as obras de filantropia e beneficência que se organizem entre
nós. Entre os serviços que prestou a esta terra destaca-se a sua valiosa colaboração na fundação do
Manicómio Camara Pestana e na construção dum cais na freguesia do Faial, que tem o seu nome.
Tornou-se o Visconde de Cacongo um benemérito do seu país pelos assinalados serviços que prestou em
Africa, onde residiu largos anos. Acerca da sua acção na nossa província de Angola vamos transcrever do
volume IX da Encyclopedia Portuguesa Illustrada, de Maximiliano de Lemos, os seguintes trechos:
“Do prestigio e grande preponderância que conseguiu entre os indígenas, pela maneira bondosa e justa com
que sempre os tratou, fala bem alto o facto sucedido em 1883, quando se fez a ocupação do Cacongo e
Massabi.
“Foi neste ano que Rodrigues Leitão, vendo que a França pretendia assenhorear-se de toda a costa, desde a
sua colónia do Gabão até a margem norte do Zaire, tendo ocupado já o Luango e Ponta Negra, a pesar dos
protestos dos comandantes dos navios de guerra portugueses, pensou em se opor a este plano.
“Para o conseguir, solicitou do então governador geral de Angola, conselheiro Ferreira do Amaral, que
mandasse fazer a ocupação do Cacongo e Massabi, e foi devido ás suas reiteradas instâncias que aquele
governador mandou a Luanda a corveta Rainha de Portugal comandada pelo distinto oficial Guilherme de
Brito Capelo, que era então capitão-tenente, a fim de a efectuar.
“Para se poder fazer a ocupação era necessário que os pretos pedissem o nosso protectorado, e foi isso o que
o enorme prestigio de Rodrigues Leitão conseguiu que eles fizessem da maneira mais solene.
“A ele se deve, pois, a ocupação do Cacongo e Massabi, e, como consequência deste facto, a posse por parte
de Portugal do enclave de Cabinda, ao norte do Zaire, que o congresso de Berlim nos concedeu devido ao
Cacongo já ser português.
“Por este grande serviço prestado ao seu país foi agraciado com o título de visconde de Cacongo, por carta
regia de I de Agosto de 1884.
O Visconde de Cacongo nasceu em 1843 em Ponte da Barca e é filho de Manuel Antonio Rodrigues Leitão e
de D. Maria Joaquina de Oliveira. Veio muito novo para a Madeira, com seu tio João José Rodrigues Leitão,
que teve casa bancária nesta cidade, e daqui é que se dirigiu para a Africa Ocidental, onde alcançou grande
fortuna.
Faleceu no Funchal a 15 de Junho de 1925.
Cadamosto (Luiz)
Foi Luiz Cadamosto um celebre navegador veneziano que esteve ao serviço de
Portugal, tendo realizado duas viagens ás costas ocidentais de Africa, cuja narrativa escreveu e que é
considerada como um valioso elemento para a historia das nossas descobertas marítimas. As Navegações de
Cadamosto foram primeiramente publicadas em italiano em 1507, e depois em latim. A tradução
portuguesa foi pela primeira vez publicada em 1812 na colecção de noticias para a historia e geographia. ..
da Academia Real das Ciências. Pinheiro Chagas ocupa-se largamente do valor e importância destas
Navegações. Interessam elas á historia da Madeira, porque Cadamosto dedica algumas paginas a este
arquipelago, sendo a mais antiga narrativa de tantos navegadores que se têm ocupado da Madeira no
Heraldo da Madeira de 5, 9 e 11 de Janeiro de 1906, foram transcritos os trechos das Navegações, em que
Cadamosto se refere à sua estada na Madeira e Porto Santo, tendo ancorado no porto desta ultima ilha a 25
de Março de 1445 e no dia 28 do mesmo mês na baia de Machico. Pinheiro Chagas assinala o ano de 1455
como sendo o da viagem do navegador veneziano, e o dr. Azevedo numa nota ao seu artigo Madeira do Dicc.
Port. Univ. III., adopta a data de 1445, baseado em argumentos que aduz. 0 dr. Pestana Júnior, no seu
valioso estudo sobre o Reconhecimento do Arquipelago da Madeira, coloca as viagens de Cadamosto nos
anos de 1449 e 1450.
Cadeia
A antiga cadeia da comarca do Funchal ficava na extremidade sul da rua que agora se chama da
Cadeia Velha, numa pequena casa que foi vendida em 1824 a José Antonio Monteiro, pela quantia de
3:600$000 réis. Esta casa já em 1768 se achava bastante arruinada, segundo se vê de um oficio que em 31
de Maio desse ano dirigiu o corregedor Francisco Maria da Mota a Francisco Xavier Furtado; todavia ainda
lá continuavam os presos em 1811, pois que neste ano, a 15 de Novembro, dizia o corregedor Manuel
Caetano de Albuquerque que era urgente transferir a cadeia para casa mais espaçosa e que oferecesse mais
segurança.
Em sessão de 30 de Junho de 1803 tomou posse o Senado da Câmara da casa ao Largo da Sé, onde desde
algum tempo fazia as suas reuniões, a qual pertencera ao casal de D. Guiomar Madalena Acciaioly e fora
posta em praça em virtude de dividas á Fazenda Nacional, mas só alguns anos mais tarde, certamente
depois de 1813, é que a parte inferior da mesma casa foi transformada em cadeia, continuando a parte
superior a servir de Paços do Concelho.
Em sessão de 20 de Dezembro de 1813 resolveu a Câmara que o edifício da cadeia se fizesse com o produto
da venda da casa que estava servindo para tal fim, e quando isto não bastasse, que o alcaide-mor
concorresse com o resto das despesas, mas esta deliberação, não pode ser executada, em consequência do
alcaide se haver negado a contribuir para as referidas despesas, ás quais dizia não estar obrigado depois da
extinção da donataria.
Dizia o Defensor da Liberdade em 28 de Julho de 1827 que os presos estavam pessimamente acomodados
na cadeia do Largo da Sé, tendo sido talvez para melhorar as condições dos mesmos presos que depois da
extinção das ordens religiosas em Portugal eles foram transferidos para o edifício do convento de S.
Francisco, onde todavia só estiveram até 1836, voltando neste ano á casa que haviam deixado poucos
tempos antes, a qual, segundo cremos, deixou desde então de servir de Paços do Concelho.
A pesar do edifício do Largo da Sé ter passado a servir exclusivamente de cadeia, isto em nada melhorou as
condições dos presos que não podiam pagar a carceragem, os quais continuaram a ser encerrados em lojas
umidas e sem ar nem luz.
Em 2 de Julho de 1841 resolveu a Câmara passar a cadeia para o edifício onde agora está o Asilo, mas o
Governo não aprovou esta transferência, e idêntica resolução foi tomada em sessão de 6 de Fevereiro de
1845, não chegou a fazer-se porém a mudança dos presos, pelo motivo da Câmara ter sido dissolvida em
1846 e dos novos vereadores não haverem concordado com a aplicação que se pretendia dar à casa das
Angústias.
Num oficio dirigido pelo Conselheiro José Silvestre Ribeiro à Câmara Municipal do Funchal em 31 de
Março de 1847, propunha aquele benemérito Governador Civil que a cadeia se fizesse no extinto convento
de S. Francisco, que os Paços do Concelho passassem para a casa que servia de cadeia e que o recolhimento
dos mendigos fosse transferido para a casa das Angústias, mas estas indicações não foram aproveitadas, e
muito mais tarde obtinha a Câmara, em virtude de uma representação feita em 17 de Maio de 1888, que lhe
fosse cedida a Fortaleza do Pico pelo tempo de 10 anos para a instalação provisória das prisões, não
chegando a aproveitar-se todavia deste favor do Governo por lhe haverem faltado os meios precisos para
construir um edifício em condições de servir de cadeia da Comarca.
Pretendeu-se depois transferir a cadeia para o Lazareto de Gonçalo Aires (1897), para o Convento da
Incarnação (1897), para a Fortaleza do Pico (1909) e para o Seminário do Bom Despacho (1910), mas tendo
surgido obstáculos à realização de tais projectos, foram os presos continuando na casa do Largo da Sé, “esse
terrível foco de infecção, esse cemitério de criaturas vivas como lhe chamava em 1847 o Conselheiro José
Silvestre Ribeiro.
Foi somente depois da extinção do Hospital de S. Lazaro, em 5 de Junho de 1912, que pôde finalmente ser
levado a efeito o velho projecto de dotar o Funchal com uma cadeia em boas condições. Tendo a Câmara
Municipal resolvido que este estabelecimento fosse construído no terreno ocupado por aquele hospital, foi
tal o empenho com que se tratou desde logo de dar execução a esta deliberação, chegando nos últimos
tempos a trabalhar-se de noite para apressar a conclusão da obra, que em 29 de Novembro de 1913 eram os
presos transferidos para a nova casa que lhes era destinada, iniciando-se nesse mesmo dia os trabalhos de
demolição do velho prédio do Largo da Sé, onde durante perto de um século estivera acomodada a cadeia da
Comarca.
Foi o Dr. Fernando Tolentino da Costa, vogal e depois presidente da Câmara Municipal do Funchal, quem
maior interesse tomou pela construção da cadeia de S. Lazaro e pela demolição do edifício do Largo da Sé,
sendo devido aos seus esforços e reconhecido zelo que esses dois melhoramentos puderam tão rapidamente
ser levados a efeito. O publico festejou com algumas girandolas de foguetes a queda das primeiras pedras da
velha casa da cadeia, tendo sido motivo de jubilo para toda a gente o desaparecimento de um edifício que,
além de não preencher os fins a que o haviam destinado, desfeava bastante um dos pontos mais centrais da
cidade.
Cadeia Velha (Rua da)
É a via publica que directamente comunica a rua Direita com o pequeno
largo da igreja do Carmo, e a ela dão acesso as ruas dos Medinas e do Monteiro. Proveio o seu nome de ali
ter existido a antiga cadeia da cidade, que ficava no ângulo de intersecção formado por esta rua e pela rua
Direita, à direita de quem se dirige da igreja do Carmo para esta ultima rua. Na rua da Cadeia Velha fica a
casa que pertenceu à família Oliveira, de que foram membros João Francisco de Oliveira, Joaquim de
Oliveira Alvares e Benjamim de Oliveira (V. estes nomes), além de outros, e que Paulo Perestrelo da Câmara
afirma ser dos maiores prédios urbanos que havia no Funchal, e cuja construção deve datar dos princípios
do século XVIII.
Cafeeiro (Coffea arabica)
Arbusto da família das Rubiaceas, extinto agora na Madeira, mas que
há cerca de 25 anos era ainda frequente na região baixa do sul da ilha. O café madeirense era de excelente
qualidade e rivalizava com o de Moca.
Cagarra (Puffinus kuhli)
Palmipede indígena, da família Procelárida. É ave marinha que
emigra de Outubro a Novembro, para voltar em fins de Fevereiro ou princípio de Março e procriar em
Junho. Depõe então nas rochas escarpadas do litoral um só ovo inteiramente branco, que ao fim de um mês
está pronto para a eclosão. Fazem-lhe caça em todas as ilhas, mas é principalmente nas Desertas e
Selvagens que a captura se torna rendosa. Em média orça actualmente por 18000 o numero de indivíduos
novos caçados anualmente nas Selvagens por homens de S. Gonçalo e Caniço, que ali vão nesse especial
propósito. A cagarra, depois de salgada, é trazida para a Madeira, onde a vendem de preferência às classes
pobres, que muito a apreciam, a pesar do acentuado ressaibo a peixe e do caracter oleoso da sua carne. Os
caçadores das Selvagens também lhe chamam pardela, à semelhança dos eupanhóis das Canárias.
Cagarras (Porto das)
A lés-nordeste da ilha do Porto Santo, encontra-se um pequeno porto com
esta denominação.
Cahus
É apelido de família de origem francesa, que, diz o dr. Pereira Drumond, procede de João Cahus,
natural da cidade de Ruão, em França, e que por 1580 se estabeleceu no Funchal, como negociante. É hoje
apelido extinto.
Caires
No poema A Insulana exalta Manuel Tomás os feitos de Constantino de Caires, natural desta
ilha, praticados valorosamente na Índia. E apelido nobre e antigo, e que muito se generalizou nas freguesias
do Caniço, Camacha e ainda outras.
Cais
Existem na Madeira vinte e seis cais distribuídos pelas costas do norte e a do sul, quasi todos eles
mandados construir ou melhorar pela Junta Geral desde 1905 até 1916. Graças à construção destes cais,
embarca-se e desembarca-se hoje em muitos pontos da ilha com uma certa facilidade, sendo bastante para
desejar que outros se construam não só na Madeira, mas também no Porto Santo, a fim de que desapareçam
os incómodos a que se sujeitam as pessoas que visitam certos pontos do litoral das duas ilhas. Essas obras,
embora ás vezes dispendiosas, pagam bem os sacrifícios que motivam, porque proporcionam grandes
benefícios aos povos, facilitando as comunicações entre as diversas freguesias do arquipelago.
As informações que em seguida apresentamos são uma noticia resumida de tudo quanto sabemos acerca
dos cais da Madeira.
Cais da Pontinha
Foi construído de 1876 a 1878, e melhorado por ocasião das obras do molhe.
Junto do forte da Pontinha, viam-se outrora uns degraus talhados na rocha e uma extensa sapata de
alvenaria, onde com tempo bonançoso se podia desembarcar, sendo possível que esses degraus
pertencessem á escada que ali existia em 1817 e a que se refere Paulo Dias de Almeida num trabalho que
escreveu sobre a Madeira.
Houve também na Pontinha uma escada de madeira para embarque e desembarque de passageiros que foi
substituída em 1850 ou 1851 por uma escada talhada na rocha, e junto do Ilhéu há uma escada para serviço
dos soldados e do pessoal do farol.
Um pouco aquém do cais para desembarque de passageiros no sítio da Pontinha, está um outro construído
há cerca de 20 anos para serviço da Casa Blandy, tendo esta casa começado por ter perto do antigo forte de
S. José, agora destruído, um cais de madeira, destinado aos mesmos fins do actual.
Cais em frente da entrada da Cidade. Em 23 de Abril de 1843, resolveu a Câmara Municipal do Funchal
construir um cais de pedra em frente da Entrada da Cidade, votando para esse fim a verba de 1:200$000
réis. Tendo esta despesa sido autorizada pelo Conselho de Districto em 6 de Maio seguinte, foi encarregado
de dirigir a construção o major de engenharia Manuel José Julio Guerra, que declarava a 24 do mesmo
mês, que, para pôr as obras a coberto do inverno, necessitava de mais 1:000$000 réis, importância esta que
a Câmara votou igualmente.
Em Fevereiro de 1844 tinha-se gasto já na obra do cais a quantia de 4:120$000 réis, além de grande
quantidade de pedra e cantaria lavrada que o Governo havia cedido, e pelo ultimo orçamento do major
Guerra pediam-se á Câmara mais 18 contos de réis, que ela não podia gastar.
Em sessão camarária de 6 de Março de 1844 foi discutida uma proposta para ser nomeada uma comissão
para dirigir as obras do cais, comissão que deveria ser constituída pelo major Manuel José Julio Guerra, que
serviria de presidente, Dr. Manuel Joaquim Moniz, capitão Antonio Pedro de Azevedo, capitão Vicente de
Paula Teixeira e tenente Tiberio Augusto Blanc, mas tendo essa proposta sido rejeitada, continuaram as
obras sob a direcção do referido major Guerra, cuja incompetência a Câmara só veio a reconhecer quando
era já impossível remediar todos os erros que ele havia cometido.
A importância total dispendida com o cais da Entrada da Cidade subiu a 20:390$000 réis, resolvendo a
Câmara finalmente abandonar as obras, por haver reconhecido que, muito antes de concluídas, já
ameaçavam ruína.
Em 1889, ao serem iniciados os trabalhos do cais actual, ainda existiam alguns restos do cais principiado
em 1843, mas já muito reduzidos. Chegamos a conhecer uma das escadas deste cais, que o mar não havia
ainda demolido inteiramente em 1870.
As ruínas do antigo cais eram, ha trinta ou quarenta anos, o ponto de reunião de muitas familias do Funchal
nas tardes e noites do estio, a pesar de não haver aí outros assentos além de algumas pedras revestidas
ainda de cimento, e do terreno ser bastante desigual, devido aos estragos causados pelo mar.
Por portaria de 17 de Setembro de 1879 mandou o Governo estudar um novo cais no Funchal, sendo
encarregado deste serviço o oficial de artilharia Henrique de Lima e Cunha, que organizou um projecto que
foi aprovado com modificações pelo Conselho superior de Obras Publicas e Minas, em 17 de Junho de 1881.
Segundo esse projecto, o cais deveria ser construído na Entrada da Cidade, na mesma direcção do antigo.
Não teve andamento o processo do cais do Funchal, e só em 1886, estando já aprovada a construção do
molhe da Pontinha, é que se tratou da execução daquela obra, recorrendo-se para isso ao projecto
organizado pelo capitão Lima e Canha, no qual o engenheiro José Bernardo Lopes de Andrade introduziu
algumas modificações. Sendo este projecto apresentado em data de 27 de Abril de 1887, foi aprovado por
portaria de 5 de Dezembro, depois de convenientemente modificado pelo Conselho Superior das Obras
Publicas e Minas, em 27 de Julho do mesmo ano.
Posta em praça a execução da obra, foi esta adjudicada aos engenheiros franceses Combemale, Michelon e
Maurie em 18 de Janeiro de 1889 pela quantia de 87:000$000 réis, vindo a ser reconhecido porém a estes
empreiteiros, na ocasião do ajuste de contas, o direito a receberem a quantia de 92:005$485 réis, em
virtude de trabalhos executados a mais.
A obra ficou concluída em 27 de Abril de 1892, sendo recebida provisoriamente nessa data, mas a recepção
definitiva só teve logar em 27 de Abril de 1895. Por parecer da Junta Consultiva de Obras Publicas, de 30 de
Maio do mesmo ano, foram os empreiteiros julgados quites para com o Estado de todas as obrigações que
haviam contraído, o que consta da portaria de 1O de Julho de 1895.
Impunha-se urgentemente o acrescentamento do cais da Entrada da Cidade, tendo a Junta Autónoma das
Obras do Porto aberto concurso para a realização desse importante melhoramento, que terminou a 30 de
Outubro de 1930, sendo a construção adjudicada á casa Nederlandsche Maatschappij Voor Havenwerken
pela importância de 4.763.000 escudos. O acrescentamento do cais teria 80 metros de comprimento e
16,m4 de largura e seria formado por cinco grandes blocos com o volume total de 3.337 metros cúbicos. O
primeiro bloco foi colocado no respectivo local a 25 de Junho de 1932 e o quinto e ultimo no mês de Janeiro
de 1933. No dia 28 de Maio de 1933, com a assistência das autoridades, fez-se a inauguração oficial deste
melhoramento.
O cais tem 82m de comprimento e 16,m 80 de largura e termina por uma rotunda de 20,m66 de diâmetro.
Vid. Porto do Funchal e Molhe da Pontinha.
Cais do Ilhéu de Fora
Foi construído em 1870 e destinado ao serviço dos empregados do farol.
Cais da Abra. Foi mandado construir pelo sr. Manuel Bettencourt Sardinha em 1905.
Cais do Caniçal. O pequeno desembarcadouro desta freguesia foi mandado construir pela Junta Geral em
1909.
Cais de Machico
O primeiro cais de Machico foi mandado construir pela Direcção das Obras
Publicas em virtude de projecto de 9 de Julho de 1869, tendo ficado concluído por 1874; o cais actual foi
mandado construir pela Junta Geral de 1904 a 1905.
Cais de Santa Cruz
Houve em Santa Cruz um pequeno desembarcadouro, construído em 1845, e
depois um cais mandado edificar pela Direcção das Obras Publicas em 1870, ou pouco depois. O cais actual
é obra da Junta Geral do Distrito, e foi edificado de 1908 a 1909.
Cais do Porto Novo. O pequeno desembarcadouro que existe nesta localidade foi construído pela Junta
Geral em 1904, 1905 e 1908.
Cais da Ponta da Oliveira
O pequeno desembarcadouro que existe neste sítio foi construído
pela mesma corporação em 1909.
Cais do Lazareto. Foi construído provavelmente entre 1866 e 1874, isto é, enquanto duraram as obras do
Lazareto.
Cais do Salto do Cavalo
Foi mandado construir pelo industrial sr. Pedro da Cunha Pires.
Cais do “Palace Hotel”
Foi mandado construir pelo falecido Dr. Antas, e melhorado e
acrescentado pelos srs. W. e A. Reid, proprietários do “Palace Hotel”, á Estrada Monumental.
Cais da “Companhia Wilson”. Fica perto da quinta do Calaça, e foi construído em 1903 ou pouco depois. No
sítio do Gorgulho há um plano inclinado e uma escada de ferro mandados construir pela mesma
companhia.
Cais da Ponta da Cruz
Tem uma parte antiga que é, segundo cremos, trabalho da Direcção das
Obras Publicas, e uma moderna mandada construir por 1910 pelos proprietários da fabrica de conservas da
Ponta da Cruz.
Cais de Câmara de Lobos
As obras deste cais, a cargo do governo, começaram em 1876; foram
porém melhoradas e acrescentadas pela Junta Geral em 1903.
Cais da Campanário
O pequeno desembarcadouro que existe nesta freguesia foi mandado
construir pela Junta Geral em 1908.
Cais da Ribeira Brava
Foi mandado construir pela mesma corporação de 1904 a 1908.
Cais da Ponta do Sol
Começou a sua construção a 8 de Maio de 1848 e parece que ficou concluído
em 1850, tendo corrido com as despesas a Câmara Municipal da Ponta do Sol.
Cais do Pesqueiro
O desembarcadouro que existe nesta localidade foi mandado construir pela
Junta Geral em 1916.
Cais do Porto do Moniz
Foi construído pela Junta Geral em 1916. Antes disso havia no Porto do
Moniz um desembarcadouro natural, e depois uma escada mandada fazer pela mesma corporação para
embarque e desembarque de passageiros, na maré cheia.
Cais do Seixal
As obras deste cais, mandadas executar pela Junta Geral, começaram em 1903 e
acabaram de 1916.
Cais de S. Jorge
As obras deste cais começaram em 1904 e terminaram em 1910. Foi a Junta Geral
quem as mandou executar.
Cais da Pedra da Pescaria, no Faial. Foi mandado construir pela mesma corporação, de 1903 a 1905. (V.
Cacongo).
Cais do Porto da Cruz. Foi construído pela Junta Geral em 1903.
Cais do Ilhéu de Cima, no Porto Santo. Foi construído por 1902, e é destinado ao serviço dos empregados do
farol.
Cais na Ilha do Porto Santo. A vizinha ilha do Porto Santo está hoje servida por uma ponte-cais, que presta
excelente serviço ao movimento daquele porto e da qual ao diante nos ocuparemos. (V. Ilha do Porto
Santo).
Em tempos antigos pensou-se em construir um cais em frente da Alfândega do Funchal e em 1824 vieram á
Madeira o brigadeiro Raposo e o major Sant’Ana a fim de escolherem local para a construção de um molhe e
de um cais. O local escolhido foram as baixas de S. Tiago, mas a pesar de se ter dispendido a importante
quantia de 37 contos na aquisição e preparação dos materiais destinados ás obras, não chegaram estas a ser
começadas.
Calaça
É apelido dos primeiros povoadores deste arquipélago, especialmente no Porto Santo. A oeste
do Ribeiro Seco e junto ao mar, há um prédio rústico e urbano que tem o nome de Quinta do Calaça.
Calaça de Viveiros (Cónego Henrique)
Fundou o mosteiro da Incarnação por voto que
fez se Portugal fosse libertado do jugo castelhano.
Faleceu com 73 anos, a 25 de Maio de 1662. Na biblioteca do seminário existia um retrato em tamanho
natural, do Cónego Calaça.
Calçada (Conde da)
Diogo de Ornelas de França Carvalhal Frazão Figueiroa, primeiro visconde e
primeiro conde da Calçada, era oriundo de antigas e nobres familias desta ilha e nasceu a 29 de Agosto de
1812. Foi administrador e possuidor de diversos vínculos, entre eles o de Gaula e o da Conceição no Estreito
da Calheta. Foi nomeado governador civil substituto do Funchal por decreto de 4 de Outubro de 1882 e
tomou posse do cargo a 10 dos referidos mês e ano, tendo depois servido várias vezes no impedimento ou
ausência dos efectivos.
Faleceu a 18 de Setembro de 1906.
Calcamar (Pelagodroma marina)
Palmipede da família Procelarida, que vem criar ás
Selvagens durante a primavera. Aparece ali esta elegante avezinha ao findar o inverno, demorando-se até
Julho ou Agosto, época em que está de volta para o sul. A postura é feita no fundo de uma tortuosa galeria
subterrânea, e consta de um só ovo de cor branca, com pequenas manchas purpurinas, que umas vezes
cobrem toda a superfície, outras se acumulam em volta do extremo mais grosso. Na Selvagem Grande tem
por inimigo um murganho que ali abunda, e que não só a ataca, mas também lhe devora o ovo. A criação
desta ave apenas se tem encontrado em dois pontos quasi diametralmente opostos da terra: as Selvagens e a
costa ocidental da Australia.
Calcedonia
É formada de quartzo cristalizado e de sílica amorfa. Tem sido achada nas cavidades de
basalto, em certos sítios da Madeira.
Caldeira (Gaspar)
Tornou-se este nome tristemente celebre por ser o do homem que guiou os
corsários franceses no terrível saque que deram á cidade do Funchal, em Outubro de 1566. Veja-se o que a
seu respeito dizemos no artigo Saque dos franceses.
Caldeira (João da Silveira)
Escassos dados possuímos para a biografia deste madeirense.
Conjecturamos que tivesse nascido no terceiro quartel do século XVIII. Era medico, mas não sabemos em
que escola ou faculdade obteve a sua formatura. Dedicou-se especialmente ao estudo da química, em que se
notabilizou, tendo-se consagrado durante alguns anos no estrangeiro a trabalhos e investigações acerca
desta ciência. Anos depois aparece-nos no Rio de Janeiro, como lente de química da Escola Militar desta
cidade, e ali desempenhou também o cargo de provedor da Casa da Moeda. Em 1826 publicou a tradução
anotada do Manual do ensaiador, de Vauquelin, e por 1843 foi impressa no Rio de Janeiro uma obra sua,
que tinha o título de Nova nomenclatura portuguesa, latina e francesa, etc..
Na Memória Histórica da Faculdade de Philosophia da Universidade de Coimbra, por Joaquim Augusto
Simões de Carvalho, encontramos a seu respeito o seguinte: “... chimico muito apreciado, que estudou em
Inglaterra e França. É autor da memória sobre o ondeado metálico, publicada nos Annaes das Sciências e
Artes, e de outros trabalhos realizados no laboratório chimico de Paris. Com a amizade deste chimico
portuguez honravam-se muito Vauquelin e Laugier”.
Parece que se suicidou por 1828.
Caldeirão Verde. Sítio nas serras da freguesia de Sant’Ana, notável pelos majestosos panoramas que dele se
disfrutam e pelo encantador pitoresco do local. Nos últimos anos foi melhorada a estrada que ali conduz,
sendo frequentemente visitada na estação calmosa.
Calhau
Dá o povo na Madeira o nome de calhau a uma praia pedregosa, tomando deste modo a parte
pelo todo. Diz o dr. Alvaro de Azevedo no Diccionario Universal Portuguez Illustrado: “... praias ás quaes dá
o nome de Calhao, por serem, não de arêa, mas de pedras soltas ou calháos, que, negros, roliços, muitos
delles grossos, de apparencia inhospita e soturna, produzem, quando a resaca os revolve, fragor medonho,
nunca abafado pelos horrisonos bramidos dos vendavaes...”
Calhau (Nossa Senhor do).
V. Nossa Senhora do Calhau
Calheta
Logar pitoresco e pequena praia, situados no extremo oeste da costa meridional da ilha do
Porto Santo, que ligam directamente com a grande praia da mesma ilha e que ficam separados do Ilhéu de
Baixo ou da Cal por um estreito boqueirão.
Calheta (Condes da)
No artigo consagrado ao município da Calheta, referimo-nos á criação do
condado que teve sua sede nesta vila e aos motivos que levaram D. Sebastião á instituição dele, na pessoa
de Simão Gonçalves da Câmara (V. este nome), 51. capitão donatario do Funchal, pelo alvará régio de 20 de
Agosto de 1576. Intitulava-se este donatario: O conde Simão Gonçalves da Câmara, do conselho d’el-rey
Nosso Senhor, capitão e governador da justiça na ilha da Madeira, na jurisdição do Funchal, védor da sua
fazenda em toda a ilha e a do Porto Santo, senhor das ilhas Desertas &, acrescentando o dr. Gaspar
Frutuoso que “el-rey em suas Provisões lhe poz D. Simão Gonçalves, elle não queria aceitar o Dom, nem o
consentia aos filhos, que o tem por direito.
Foi segundo conde da Calheta João Gonçalves da Câmara, 61. capitão e donatario do Funchal, e filho do
primeiro conde Simão Gonçalves da Câmara. A João Gonçalves da Câmara sucedeu no condado seu filho
Simão Gonçalves, que nasceu em Lisboa e nunca veio à Madeira. Foi este o terceiro conde, que tendo casado
com D. Maria de Vasconcelos, filha herdeira do primeiro conde de Castelo Melhor, ficou deste modo o
condado da Calheta encorporado no condado de Castelo Melhor.
Deste consórcio nasceu João Gonçalves da Câmara, que foi o quarto conde da Calheta e que não usou o
título de Conde de Castelo melhor, por motivo que ignoramos. Sua irmã D. Mariana de Vasconcelos e
Alencastre foi a quinta condessa da Calheta e casou com o segundo conde de Castelo Melhor, seu parente,
sendo estes considerados os 9.os capitais-donatarios do Funchal.
A estes sucedeu seu filho Luiz de Vasconcelos (1636-1720), sexto conde da Calheta e terceiro conde de
Castelo Melhor, que foi o estadista e diplomata que tão relevantes e assinalados serviços prestou ao nosso
país. A este sucedeu Afonso de Vasconcelos, que teve como sucessor José de Vasconcelos (1706-1769),
oitavo conde da Calheta, quarto conde e primeiro marquês de Castelo Melhor.
Foram sucessores imediatos no condado da Calheta e marquesado de Castelo Melhor, Antonio José de
Vasconcelos e Câmara (1738-1801), Afonso de Vasconcelos (1783-1827), Antonio de Vasconcelos (1816-
1858) João de Vasconcelos de Sousa e Câmara (1841-1878) e D. Helena de Vasconcelos (1836-1900), que foi
a 13.0 condessa da Calheta e 6.0 marquesa de Castelo Melhor, podendo considerar-se embora apenas
honorificamente, a 17.0 donataria do Funchal.
Calheta (Freguesia de)
É muito de presumir que a origem do nome desta freguesia provenha da
pequena baia ou enseada, que lhe serve de porto, pois é esse o verdadeiro significado da palavra calheta. A
Encyclopedia Portuguesa, de Maximiliano de Lemos, referindo-se a esta freguesia, diz que tem uma praia
ou calheta desabrigada, que lhe dá o nome. Gaspar Frutuoso, ao descrever a primeira exploração feita por
Zarco através da costa, afirma que “correndo a costa a bem duas léguas sem achar onde desembarcar, foram
dar em uma grande abra, onde, desejosos de saber a terra, desembarcaram entre huns penedos, fazendo ali
á mão hum desembarcadouro, a que o capitão poz nome Calheta”. Num antigo manuscrito encontrámos a
seguinte informação, que achamos interessante: “correndo a costa sem achar onde desembarcar, foram dar
em huma abra grande e ahi desembarcarão, fazendo á mão hum desembarcadouro entre huns penedos, e a
esta calhe que fizeram poz o o capitão o nome de Calheta”. 0 vocábulo caíu em desuso, mas era
frequentemente empregado no tempo das nossas descobertas marítimas. Nos arquipelagos dos Açores e
Cabo Verde há diversos portos e enseadas com o nome de calheta, estendendo-se também esta
denominação ás povoações que lhes ficavam contíguas. Deve, pois, ser esta a verdadeira origem do nome
desta freguesia.
É das mais antigas desta ilha e uma das primeiras que começaram a ser exploradas pelos primitivos
colonizadores. 0 descobridor tomou nela uma grande lombada para seu filho João Gonçalves da Câmara, e
vastos terrenos na margem direita da ribeira para sua filha D. Beatriz Gonçalves, que casou com Diogo
Cabral. A este foram por seu sogro doados outros terrenos em sesmaria, e neles fez construir a capela de
Nossa Senhora da Estrela, onde instituiu um morgadio e onde foi sepultado (V. Cabral e Nossa Senhora da
Estrela).
Entre os mais antigos povoadores desta paróquia contam-se o Dr. Pedro Berenguer de Lemilhana (V.
Berenguer), que deu o nome ao sítio que ainda hoje conserva a denominação de Lombo do Doutor, Luiz de
Atouguia, que teve terras de sesmaria no lombo que se ficou chamando do Atouguia, João Rodrigues
Mondragão (V. Mondragão), natural da Biscaia, e Francisco Homem de Gouveia, instituidor do morgadio
dos Reis Magos (V. este nome), no Estreito da Calheta, além de outros que ali fundaram capelas com
instituições vinculares anexas. Também foram antigos povoadores desta freguesia o cavaleiro napolitano
Afonso de Aragão, a quem já nos referimos no artigo Aragão, e João Assuna Teixeira e João Salviato, que ali
tiveram muitas terras de sesmaria. Ainda Gaspar Frutuoso se refere a João Rodrigues Castelhano, a
propósito do qual diz: “... que se chamou assim por falar castelhano, sendo elle genovez de nação; que he
fazenda grossa de canas, com seu capellão. Este João Rodrigues casou no Funchal duas filhas muito ricas, e
são dellas agora as melhores fazendas da ilha: teve muitos escravos, cinco dos quais lhe mataram hum
feitor; elle os entregou à Justiça, e foram enforcados na Villa da Calheta.
Data de 1430 a criação desta freguesia, que teve primitivamente sua sede na Capela da Estrela, onde parece
não ter permanecido largos anos. 0 seu orago passou depois a ser do Espírito Santo, na igreja deste nome,
não tendo encontrado qualquer referência ao ano da sua primitiva construção, sabendo apenas que foi
reconstruída em 1639.
0 pároco teve desde a criação da freguesia a côngrua anual de 8.000 réis, que, por sucessivos alvarás régios,
foi gradualmente aumentando, sendo o último de que temos conhecimentos o de 20 de Abril de 1626, que
fixou este vencimento em 18.000 réis em dinheiro, quatro moios de trigo e uma pipa de vinho. O curato foi
criado por alvará régio de 27 de Agosto de 1589, com a côngrua de 20.000 réis anuais.
Teve uma antiga colegiada com 4 beneficiados, tesoureiro e pregador, além do pároco e do cura. A dar
credito ao que não há muito lemos num jornal, esta colegiada andou durante alguns anos numa constante
peregrinação, mudando a curto intervalo de igreja para igreja e de capela para capela, tendo sua sede de
1811 a 1815 na igreja do convento dos franciscanos, de 1815 a 1821 na capela de Santo Antonio e alguns
meses do ultimo ano na capela da Misericórdia, e de 1821 a 1834 na igreja matriz.
Merecem uma referência especial o tecto da capela-mor da igreja paroquial, construído como o da nossa Sé
Catedral, e muito particularmente o sacrario, que é uma obra de raro valor artístico, feito em ébano, com
primorosas incrustações em prata, e que é uma oferta do rei D. Manuel I. Pena é que esta preciosa peça de
arte religiosa do século XVI, tenha sido algum tanto descurada no seu estado de conservação, pois a sua
antiguidade, valor histórico e notáveis primores artísticos que encerra, impunham o mais esmerado e atento
cuidado em prevenir e evitar, quanto coubesse no possível, a acção corrosiva e destruídora do tempo.
Foi uma das freguesias da Madeira que teve maior numero de capelas, das quais podemos enumerar as
seguintes: S. José, Santa Quiteria, Jesus-Maria-José, S. Pedro de Alcantara, Nossa Senhora da Piedade, S.
João Baptista, Nossa Senhora da Boa Morte, S. Francisco Xavier, Nossa Senhora da Penha de França, Nossa
Senhora da Estrela, Nossa Senhora da Vida, Nossa Senhora de Monserrate, Almas, Nossa Senhora do Bom
Sucesso, Nossa Senhora da Nazaré e Santa Catarina. Já poucas existem e eram quasi todas de instituição
vincular. Nos artigos consagrados ás capelas, delas nos ocuparemos.
Teve esta freguesia o convento de S. Francisco, da ordem seráfica, do qual nos ocuparemos em artigo
especial.
Houve aqui uma misericórdia, com sua casa e capela, da qual falaremos no artigo consagrado ás
misericórdias deste arquipelago.
Foram filhos muito distintos desta freguesia os sacerdotes drs. Antonio Veloso de Lira e Antonio João de
França Bettencourt, dos quais nos respectivos logares nos ocupamos com mais largueza.
No dia 10 de Julho de 1834, pouco mais dum mês depois da implantação do governo constitucional na
Madeira, deram-se graves tumultos nesta freguesia, que tiveram como causa oculta o protestar contra a
nova ordem de cousas publicas embora ostensivamente o não parecesse. A pretexto de que os povos iam ser
vexados com pesados impostos, um numero avultado de indivíduos amotinou-se, praticando distúrbios e
cometendo violências, de que resultou serem mortos três homens e ficarem outros com ferimentos mais ou
menos graves. A sublevação prometia alastrar-se e a autoridade tratou de a sufocar com energia, enviando
para esta paróquia um destacamento de infantaria e uma força de marinha da fragata D. Pedro, que então
se achava surta no nosso porto. Os populares não se intimidaram com a presença da força armada, e até lhe
ofereceram alguma resistência, vendo-se esta violentada a usar de extremo rigor, caindo varados pelas balas
alguns homens do povo, em numero que não podemos precisar. Procedeu-se em seguida a uma larga
devassa e efectuaram-se inúmeras prisões, realizando-se o julgamento em Janeiro de 1836 e sendo
condenados sete réus a degredo perpetuo para Angola, alguns a degredo temporário e o padre João
Rodrigues Pestana a degredo perpetuo para Moçambique, onde morreu.
O engenheiro de minas Eugène Arckermann, no seu livro L’Ile de Madère considerée au point de vue
scientifique, a pag. 60 e seguintes, refere-se com alguma largueza aos vestigios de petroleo encontrados no
sítio da vila desta freguesia, a 300 metros aproximadamente da agência dos vapores costeiros. Fizeram-se
algumas explorações no local, que não deram resultado apreciável.
Os principais sítios desta freguesia são: Lombo da Estrela, Lombo do Salão, Lombo do Brasil, Lombo do
Doutor, Lombo do Atouguia e Vila.
Tem duas escolas oficiais, sendo uma para cada sexo.
Esta freguesia dista da cidade, pela Estrada do litoral, aproximadamente 38 quilómetros, e pela mesma
estrada fica distante da Ponta do Sol, sede da comarca, cerca de 11 quilómetros.
Tem 4665 habitantes.
Calheta (Ponta da)
Saliência na costa marítima da Ilha do Porto Santo adjunta ao sítio e pequena
praia do mesmo nome.
Calheta (Porto da)
O porto que serve esta paróquia e outras freguesias vizinhas tem um
movimento relativamente grande, sendo bastante para lamentar que ainda ali não se tenha construído um
pequeno cais, vistas as dificuldades que oferece o acesso á apertada angra que limita o sítio da Vila, único
ponto em que é permitido o embarque e desembarque de passageiros e mercadoria. A entestar com a vila
existe uma praia de grossos calhaus rolados, que limita o mesmo porto. Há dois pontos em que
particularmente se realiza todo esse movimento, sendo o principal a chamada Rampa e outro no sítio da
Serra de Água, próximo da foz da ribeira deste nome. Tocam ali regularmente os vapores que fazem o
serviço costeiro marítimo. O porto dista respectivamente 2,3 milhas da Fajã do Mar e 2,1 do Jardim do Mar,
que são os portos que lhe ficam mais próximos.
Calheta (Ribeira da)
Este curso de água, que é também conhecido pelo nome de Ribeira da Vila
da Calheta, tem como afluentes os pequenos ribeiros do Cutileiro, do Convento, do Lombo do Brasil e da
Fonte de Nossa Senhora e desemboca na vila da Calheta.
Calheta (Vila e Município da)
Data do meado do século XV a criação das vilas e municípios
do Funchal, Machico e Porto Santo, sendo estas localidades as capitais das três capitanias em que foi
dividido o arquipelago madeirense. A capitania do Funchal, e particularmente a sua sede, que era a vila do
mesmo nome, tomou desde os tempos primitivos da colonização um notável incremento e cresceu
rapidamente em prosperidades, formando-se dentro dela povoações importantes, que em breve atingiram
grande desenvolvimento, impondo-se deste modo a necessidade da criação de municípios autónomos, para
comodidade dos povos e boa administração dos negócios públicos. Foi o que aconteceu com a instituição
das vilas e municípios da Ponta do Sol e da Calheta.
A primeira foi criada em 1501, e com bons fundamentos se conjectura que a segunda fosse criada
aproximadamente pela mesma época. E para lamentar que não haja noticia do diploma que elevou a vila da
freguesia da Calheta. O alvará régio que criou a vila da Ponta do Sol está tombado no arquivo municipal do
Funchal, e também dele existe copia no arquivo da câmara daquela vila.
Acerca do diploma respeitante á Calheta, diz o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo:
“Da carta que elevou o lugar da Calheta a Villa Nova da Calheta não existe registo na respectiva Câmara,
porque os antigos paços do Concelho e archivo originário forão destruídos pelo mar, segundo o Presidente
da mesma Câmara informa em oficio de 30 de outubro deste anno de 1871; também não está registada no
archivo da Câmara do Funchal; e em nenhum dos manuscriptos que possuímos vem copiada. Só na Breve
Noticia de Paulo Perestrello, pag. 54, achamos nota de que a Calheta fora feita villa em 1511, O que é
manifesto erro, talvez typographico; porque do diploma infra se mostra que a Villa Nova da Calheta já o era
em agosto de 1502”.
O Diploma infra a que aqui se faz referência, é uma resposta, datada de 16 de Agosto de 1502, contendo
algumas instruções dirigidas pelo monarca á câmara municipal do Funchal.
Em vários escritos se alude á frase, que se tornou bastante conhecida - á sua muito amada villa da Calheta -
e que se atribue ao rei D. Manuel I, numa carta dirigida á câmara deste município. Não conhecemos o
documento em que essa frase vem exarada e nem podemos assegurar que ela seja de uma legitima
autenticidade. A ser verdadeira, quereria certamente o monarca venturoso referir-se á distinta fidalguia
desta vila ou município, pois é sabido que houve ali uma numerosa pléiade de nobres cavaleiros, muitos dos
quais se distinguiram valorosamente em Africa, na Índia e no Brasil. Da predilecção de D. Manuel I pela vila
da Calheta, existe uma prova eloquente no rico sacrario oferecido á sua igreja matriz e a que já nos
referimos no artigo consagrado a esta freguesia.
Desejando o monarca galardoar os serviços prestados pelo 51. capitão-donatario do Funchal Simão
Gonçalves da Câmara, e ainda honrar nele os feitos e acções heróicas dos seus maiores, e querendo também
dar maior lustre á rica e importante casa de que ele era o representante, agraciou-o com o título de conde,
pelo alvará régio de 20 de Agosto de 1576, sendo a vila da Calheta, pela sua importância e nobres tradições,
escolhida para sede do novo condado. Este título, como noutro lugar se dirá, foi encorporado no
marquesado de Castelo Melhor, sendo os respectivos titulares também condes da Calheta, até que o decreto
de 15 de Outubro de 1910 aboliu todos os títulos nobiliarquicos.
E interessante o trecho de Gaspar Frutuoso, que em seguida transcrevemos, relativamente aos pontos que
deixamos referidos:
“Neste logar da Calheta, mais abaixo chegado a huma fermosa ribeira, se fundou a Villa, que tomou o nome
da Calheta, a mais fértil de todas as da ilha, por ter mayor comarca. He esta villa tão nobre em seus
moradores, como abastada pelos muitos e baratos mantimentos que nella se achão. Desta sahiram em
companhia dos capitães do Funchal muitos e nobres cavalleiros a servir El-Rey á sua custa nos logares de
Africa, e nos socorros que os capitães levaram: onde todos, além de darem mostras de suas pessoas,
gastaram muito do seu, porque eram ricos, pelas grossas fazendas que neste termo ha, como a do Arco tão
afamada, e outras, que andão agora divididas por diversos herdeiros. Esta Villa da Calheta e seu termo foi o
condado do Illustrissimo Capitam Simão Gonçalves da Câmara, Conde desta Villa Nova da Calheta, como se
dirá em seu logar”.
Como já vimos no artigo Alfândegas, foi esta vila sede duma pequena delegação aduaneira ou posto fiscal,
como então se chamava, e ali se arrecadou primitivamente o imposto sobre o açúcar, que depois passou a
ser cobrado na alfândega do Funchal. Houve na Calheta os cargos de quintador e escrivão dos quintos, cujas
atribuições consistiam na aplicação dos tributos que recaíam sobre o açucar que ali se fabricava. Estes
logares foram extintos por alvará régio de 30 de Julho de 1686.
Na câmara desta vila deixou o juiz de fora dr. Antonio Rodrigues Veloso de Oliveira exaradas umas
instruções sobre cousas agrícolas, verdadeiramente notáveis para a época, e de que têm sido publicados
vários trechos em alguns jornais madeirenses. “Versam, diz-se algures, sobre a cultura da vinha e outras
plantas - o castanheiro nos baldios, as árvores de frutos nos logares abrigados, os algodoeiros junto ao mar,
as amoreiras nas estradas e logares públicos, os pinhais nas terras incapazes de outra produção, os vegetais
usados nas pharmacias, as searas de milho, a criação de gados, de prados artificiais, bardos de resguardo e
outros alvitres”. Estas instruções ainda hoje se lêem com algum aproveitamento.
Na área deste concelho fica o conhecido e muito visitado sítio do Rabaçal, a que consagraremos um
desenvolvido artigo.
O actual concelho da Calheta, criado em 1835, e o antigo município ou vila, não se diferenciam muito
sensivelmente no que diz respeito á extensão das suas áreas. Desde 1835 até o presente, tem no entretanto
tido algumas variantes, dalgumas das quais podemos dar noticia. Em 1849 foi suprimido o concelho do
Porto do Moniz que também tinha sido criado em 1835, e as freguesias das Achadas da Cruz e Ponta do
Pargo passaram a fazer parte do Concelho da Calheta, mas de novo estas paróquias se encorporaram no
concelho do Porto do Moniz, quando este foi restaurado em 1855. 0 decreto de 26 de Junho de 1871
desagregou a freguesia da Ponta do Pargo do concelho do Porto do Moniz e anexou-a ao da Calheta. Em
1895 passou o concelho do Porto do Moniz, por uma nova supressão, sendo anexado aos concelhos da
Calheta e S. Vicente, para novamente ser restaurado no ano de 1898.
Tem este concelho as freguesias da Calheta, Estreito da Calheta, Arco da Calheta, Prazeres, Jardim do Mar,
Paul do Mar, Fajã da Ovelha e Ponta do Pargo.
Como acima fica dito, a criação da vila da Ponta do Sol data de 1501, conjecturando o ilustre comentador
das Saudades da Terra que a da Calheta teria sido em época aproximada á desse ano. Hoje pode precisar-se
a data exacta dessa criação, depois que no ano de 1900 o dr. Damião Peres publicou uma segunda edição da
obra de Gaspar Frutuoso, enriquecendo-a com algumas valiosas anotações. Numa delas, a pag. 118 e ss.,
vem integralmente transcrita a carta regia de I de Julho de 1502, que criou a vila da Calheta e que é
documento sobremaneira interessante.
Callejon (D. Ventura de)
Cônsul espanhol na ilha da Madeira. Escreveu uma noticia sobre a
estada de Colombo nesta ilha, na Ilustracion Espanola y Americana, (n1. 38 de 15 de Outubro de 1878.
Camacha (Freguesia da)
Pertenceu á paróquia do Caniço até o ano da sua criação. Era a parte
alta e montanhosa desta freguesia e ficou constituindo o limite norte dela. Parece ser bastante antiga a
denominação de Camacha, e, sem duvida alguma, muito anterior á época do seu desmembramento do
Caniço. Conjectura o dr. Alvaro de Azevedo que este nome provenha de algum sesmeiro ou povoador de
apelido Camacho, que porventura ali possuísse terrenos ou tivesse ali moradia. Não julgamos plausível a
ideia de atribuir a origem desta denominação a um primitivo colonizador que, como recordação da pátria
distante, desse aqui nome igual ao dalgum logar ou povoação do continente, pois pelo que pudemos
averiguar, não se encontra esse nome em território português, a não ser num pequeno sítio na ilha do Porto
Santo.
Ignoramos quando começou o arroteamento e povoação das terras da Camacha, mas devemos supor que
não o teria sido após os primeiros anos da descoberta da ilha, porque os terrenos do interior não foram
sujeitos a uma imediata exploração agrícola. No entretanto, nos princípios do ultimo quartel do século XVI
já aqui, por certo, existiria um núcleo muito importante de população para justificar a sua separação do
Caniço e a sua erecção em paróquia independente. Há noticia de que por esta época eram moradores na
Camacha o capitão Antonio Figueira, casado com D. Maria Henriques Figueira, Bartolomeu de Freitas, Braz
de Freitas, Domingos da Mota, Francisco de Sousa, Inacio de Caires Caldeira, José de Lamego, João de
Freitas Belchior, além de outros.
Foi o alvará régio de D. Pedro II, de 28 de Dezembro de 1676, que autorizou o bispo diocesano D. Antonio
Teles da Silva a criar esta paróquia, que somente parece ter ficado definitivamente constituída no ano de
1680. Foi Gaspar Pinto Correia o seu primeiro pároco no período decorrido de 1680 a 1699, tendo-lhe
imediatamente sucedido os padres Manuel Simão de Gouveia, Antonio Gomes Germano e Manuel João
Barreto, até meado do século XVIII. Desde a sua criação até o presente, têm trinta e um sacerdotes
exercido funções paroquiais nesta freguesia, como párocos efectivos dela. O primitivo vencimento do vigário
foi de 10.000 réis anuais, um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho, que, com o decorrer dos
tempos e aumento do numero de fogos, sofreu alguns acrescentamentos.
O crescimento da população, que parece ter sido rápido, levou o prelado da diocese, D. Luiz Rodrigues de
Vilares, a pedir a criação dum curato, o que se deu no ano de 1801, sendo primeiro cura o padre Inacio
Cristovão da Silva. Vários curas tiveram moradia permanente na freguesia, mas há já algumas dezenas de
anos que ali não residem.
A sede da paróquia estabeleceu-se na capela da invocação de S. Lourenço, que foi o orago da nova freguesia,
e que nos informam ter sido construída por Francisco Gonçalves Salgado. Nada sabemos acerca do ano e
local em que se ergueu o pequeno templo, mas conjecturamos que não era no mesmo logar onde depois se
veio a erigir a actual igreja paroquial. Em 1746 já esta capela se encontrava em adiantado estado de ruína.
Há a vaga tradição de que no sítio dos Salgados existiu uma pequena ermida, ignorando nós se seria
porventura nesta que se instalou a paróquia por ocasião da sua criação. A primeira pedra para a construção
da actual igreja foi lançada a 30 de Setembro de 1783. Por 1886 se reconstruíram as paredes laterais, que
ameaçavam iminente derrocada. Nos últimos anos têm esta igreja e respectivo adro sofrido grandes
reparações e sido consideradamente melhorados no seu embelezamento e adorno, devido ao zelo de alguns
párocos.
Quando a 23 de Agosto de 1828 as forças absolutistas desembarcaram em Machico e tomaram esta ilha (V.
Ocupação da Madeira por tropas miguelistas), o governador e capitão general Travassos Valdez, encarregou
o major Francisco Xavier Pereira da Silva, mais tarde conde das Antas, de ocupar as alturas da Camacha, o
que consta da seguinte participação, feita por este oficial ao governador da Madeira:
“Tenho a honra de participar a V. Exa. que, em cumprimento da ordem que de V. Exa. recebi em Porto
Novo, a meia noite passada marchei a tomar o comando deste ponto, ao qual cheguei às quatro horas da
manhã: a posição é fortissima, e com trezentos homens e duas peças de artilharia que a guarnecem, tenho
toda a certeza de defende-la, se os soldados não recusarem bater-se, como hontem fizeram ao tenente
coronel Schwalback”.-Pereira da Silva destacou parte destas forças para o Palheiro Ferreiro, e depois teve de
retirar para o Funchal, quando os seus soldados, ao terem conhecimento do desastre do Porto Novo,
começaram vergonhosamente a debandar. As forças miguelistas que vieram até ás alturas da Camacha, já
não encontraram as tropas constitucionais, que fugiram desordenadamente para a cidade, como fica dito.
É esta uma das freguesias mais pitorescas da Madeira. Um distinto poeta que nela residiu e ali compôs
alguns dos seus mais inspirados versos, escreveu a seu respeito:
“No seu aspecto geral, nas opulentas espécies arboreas que a povoam, nas bellas quintas que a adornam e
pela frescura e pureza atmospherica que se mantem naquela altitude, a Camacha é a localidade, talvez
única, que maior semelhança offerece e mais pontos de contacto tem com a freguesia do Monte,
denominada a Cintra madeirense.
É o Monte, visto por uma lente augmentativa, ampliado nas dimensões dos seus panoramas, com estradas
mais vastas e planas e horisontes mais bellos e dilatados, abrangendo as freguesias do litoral - Caniço e
Gaula, que se desenrolam a seus pés numa depressão gradual e sucessiva do solo, delimitada pelo oceano.
O contraste entre estas ultimas localidades e a primeira, é frizantissimo, tanto pelo que respeita á flora,
como pelas condições climatéricas.
Em baixo, no litoral, a auzencia de árvores florestaes, as culturas da canna doce, da vinha e dos variados
géneros hortícolas; lá em cima a topear com a serra, a Camacha, os immensos pinheiraes, os bosques de
frondentes robles, onde vegetam promiscuamente o carvalho, o castanheiro, o cedro, o til, o folhado, o
loureiro, a faia, a tilia, o sovereiro, o pau de mil homens, a árvore de prata, e diversas outras espécies
indígenas e exóticas, provavelmente ali implantadas pelos primeiros fundadores de quintas, na sua maior
parte estrangeiros ricos, que outr’ora tinham por aquella pittoresca localidade a maior predilecção”.
Fora do Funchal, é a freguesia que tem mais belas e numerosas quintas, entre as quais se destaca a do Vale
Paraíso, pertencente aos viscondes do mesmo título, que é uma encantadora vivenda, digna de ser visitada.
E também uma bela e aprazível casa de campo a antiga residência de verão da família Ornelas, de que é hoje
proprietário o conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos que ali nasceu em Março de 1866. Merecem
ainda especial menção as antigas quintas Grabham, Taylor, Bean, Hinton e Francisco Nunes, além doutras
de menor importância. Afora a quinta Ornelas, todas as outras foram construídas por súbditos ingleses, que
tinham pela Camacha uma grande e justificada predilecção.
Um dos atractivos dos visitantes desta freguesia é a conhecida Achada, um campo de relativa extensão e
absolutamente plano, que aos madeirenses causa uma certa admiração e surpresa, por viverem numa região
muito montanhosa e em que o relevo e o acidentado do terreno se mostram por toda a parte, com excepção
do planalto do Paul da Serra. Fere logo a atenção do visitante, ao entrar neste campo a torre que num dos
extremos dele se levanta, situada dentro dos limites da quinta que pertenceu ao dr. Miguel Grabham. Foi
este medico inglês que há cerca de 40 anos fez construir esta torre e nela colocou um excelente relógio, de
aprimorado fabrico, que é, por certo, um dos melhores que existem nesta ilha. No interior da torre vê-se
uma lápide de mármore, que tem a seguinte inscrição: The Clock And Bell Here Placed, Were Brought From
the Parish Church of Wolton Near Liverpool By Michel C. Grabham, M. D. F. L. S. E. R. C. P.-Who built this
Tower For their Reception, And the Clock Was Set Going By Mary Anne Grabham (Wife of the above) On
Easter Monday 6.th April 1896. A construção desta torre e relógio foi um excelente serviço que o dr. Miguel
C. Grabham prestou aos habitantes desta paróquia.
A Camacha é atravessada na sua maior extensão pelo rico e abundante caudal que se chama a Levada da
Serra e á qual nos referiremos no logar competente. Quando se projectou e realizou a tiragem desta levada,
muitos proprietários cederam gratuitamente os terrenos para a sua construção e respectiva vereda
marginal, persuadidos de que ela iria beneficiar esta freguesia pela irrigação, mas concluídos os trabalhos e
feita a distribuição das águas, viram com funda mágoa que a Camacha fora inteiramente esquecida e não
compartilhara dos benefícios concedidos a outras freguesias. É verdadeiramente encantador um passeio
através da esplanada desta levada, pelos variados e surpreendentes panoramas que dali se disfrutam. A
vereda que margina este aqueduto, plana e de piso suave, estende-se, em condições de ser atravessada,
desde a Choupana até o Santo da Serra, num percurso superior a 40 quilómetros.
São dois importantes mananciais as levadas da Azenha e do Pico do Arvoredo, principalmente destinadas á
irrigação da freguesia do Caniço, e que também irrigam a freguesia da Camacha, embora numa proporção
pequena do seu giro. Nasce a primeira no Pico da Silva e a segunda nas serras do Poiso. No sítio dos
Salgados é alimentada pela ribeira do Porto Novo, nasce a levada chamada de Baixo, que fertiliza os
terrenos desta freguesia e também do Caniço.
Fica dentro dos limites desta paróquia a casa do sítio do Poiso. Reconhecendo o benemérito governador
civil José Silvestre Ribeiro a necessidade duma casa no alto da serra, destinada a prestar abrigo e socorro
aos viandantes que transitavam entre os concelhos do Funchal e Sant’Ana, mandou edificar uma casa no
sítio do Poiso, cuja construção custou cerca de um conto e quinhentos mil réis e se deu por concluída em
princípios de 1852. Segundo as próprias palavras do ilustre governador, ali deviam estar permanentemente
um homem ou uma família “a toda a hora promptos a receber os passageiros - a mandar-lhes aquecer água,
se preciso for - a ter sempre um bom deposito de lenha, a fim de que durante o inverno se encontre ali o
conforto de um bom lume - a prestar a todos os necessitados o socorro possível”. A manutenção deste
excelente serviço, que se tem prolongado até a actualidade, ficou a cargo das câmaras do Funchal e de
Sant’Ana, existindo umas instruções superiormente aprovadas, que regulam a maneira de manter-se o
funcionamento desta casa.
A conhecida obra de vimes da Camacha, que é verdadeiramente importante e digna dum particular estudo,
constitue uma indústria quasi privativa desta freguesia. Embora fora dela se produzam também artefactos
de verga, é, porém, certo que de aqui se irradiou esta indústria para outros pontos, e é aqui que fica o mais
considerável centro produtor da mesma indústria. É uma importantíssima fonte de receita, e a ela se deve
principalmente o aumento rápido da população, não tendo a paróquia, além dela, outros apreciáveis
elementos de riqueza, pois que os seus terrenos só se prestam á exploração das chamadas culturas pobres.
No entretanto, os operários não tiram dos produtos da sua indústria proventos suficientemente
remuneradores do trabalho empregado, ao passo que as casas exportadoras, segundo se afirma, fazem
lucros muito consideráveis, e algumas fortunas se têm realizado em poucos anos á sombra deste negocio.
Tudo aconselha a formação entre os operários da Camacha dum sindicato, cooperativa ou agremiação de
caracter especial, não só destinado a desenvolver e aperfeiçoar esta indústria, mas também a promover a
colocação dos seus produtos nas nossas colónias e no estrangeiro.
O engenheiro sr. Vitorino José dos Santos, chefe da secção do trabalho industrial na Madeira, publicou no
numero 4 do Boletim do Trabalho Industrial, de 1907, uma excelente e desenvolvida monografia acerca da
indústria dos artefactos de verga na Madeira, donde vamos transcrever alguns períodos relativamente á sua
provável origem e primitivo desenvolvimento na freguesia da Camacha.
”A indústria dos moveis de vimes teve o seu aparecimento ha aproximadamente 60 annos, e começou pelo
trabalho em cadeiras, copiados os processos de factura, do fabrico de outras cadeiras construídas então na
Madeira com palha de centeio, por presos da cadeia do Funchal. Supõe-se ter sido algum preso da freguesia
da Camacha quem levou, ao sahir para esta freguesia, os conhecimentos que havia adquirido na
aprendizagem feita na cadeia, e assim se foi lenta e progressivamente desenvolvendo a indústria naquele
meio, que foi durante muitos anos o único ponto em que ela se exerceu. Um súbdito inglês, de nome
William Hinton, importante industrial ha poucos anos falecido na Madeira, em avançada idade, parece ter
também influído nas tentativas iniciais desta indústria, auxiliando os primeiros obreiros com os
conhecimentos que tinha da indústria destes moveis, já fabricados na Inglaterra e Alemanha com hastes de
cipó, por cuja flexibilidade e outras propriedades se assemelham muito aos vimes madeirenses”.
Informação recebida directamente desta freguesia, de pessoa que ali se dedicou a algumas investigações
sobre o assunto, não contradiz na essência as noticias fornecidas pelo autor da monografia citada,
acrescentando apenas que “Foi Antonio Caldeira o introdutor do trabalho de vimes, o qual desmanchando
uma esteira que tinha vindo do estrangeiro por intermédio dum membro da família Hinton, estudou a
forma e fabrico dela, tomando como ponto de partida para atingir o seu ideal, a flexibilidade do vime”.
Afirma-se que esta indústria, embora em estado muito rudimentar, começou nesta freguesia pelos anos de
1812. Foi depois de 1870 que ela começou a ter um notável incremento, tendo nos últimos 40 anos atingido
um desenvolvimento extraordinário. A monografia que deixamos citada, contém informações muito
interessantes sobre a cultura do vime, processos no fabrico da obra de verga, seu desenvolvimento,
exportação, etc..
Tem esta paróquia uma escola oficial para cada sexo, sendo a do sexo musculino criada em 1862, e a do sexo
feminino, por decreto de 12 de Agosto de 1914. A primeira, desde a sua criação, tem tido como professores
Miguel Luiz Valerio, Luiz Teixeira de Vasconcelos, Constancio Figueira da Silva e Manuel de Jesus de Antas
e Almeida. A primeira professora da escola da sexo feminino foi D. Maria das Mercês Lopes de Faria.
O cemitério paroquial foi construído em 1856, por ocasião da epidemia colérica, em terreno para esse fim
oferecido pelo Conde do Carvalhal, que era um dos maiores proprietários desta freguesia.
Os sítios principais desta paróquia são: Igreja, Rochão, Achadinha, Casais de Além, Vale Paraíso, Ribeiro
Fernando, Nogueira, Ribeirinha, Salgados e Ribeiro Serrão.
Ha alguns sítios ou logares que, pelo pitoresco da paisagem ou pelos belos e vastos panoramas que deles se
disfrutam, merecem menção especial, tais como o Poiso, Pico do Infante, Pico da Silva, Mirante do
Marcado, no caminho dos Salgados, Eira de Fora, etc..
A Camacha tem como freguesias confinantes ao norte, S. Roque do Faial e Porto da Cruz, ao sul, o Caniço, a
leste, Santo Antonio da Serra, Santa Cruz e Gaula e a oeste Santa Maria Maior e Monte.
Dista 9 quilómetros e meio da sede do distrito, e aproximadamente 12 da sede do concelho e da comarca, 6
da freguesia do Caniço, e 9 de Santo Antonio da Serra.
Não queremos encerrar este ligeiro artigo sem nos referirmos ao bemquisto e prestimoso cidadão Manuel
Filipe Gomes, natural da freguesia de S. Roque, que em idade muito avançada faleceu na Camacha, há
aproximadamente 40 anos, e nela teve residência num período de tempo superior a meio século. Era de
uma grande austeridade de caracter e da mais proba e inconcussa honradez, deixando o seu nome vinculado
á historia desta freguesia, pelos desinteressados serviços que a ela prestou, nomeadamente na construção e
melhoramento de várias estradas e caminhos, na construção do fontanário que fica no sítio da Igreja, na
aquisição de terreno na Achada para logradouro comum, etc., o que tudo lhe fez conquistar uma subida
consideração e um justificado prestigio entre os habitantes desta freguesia. As suas qualidades pessoais e
relações que mantinha com os estrangeiros que frequentavam a Camacha, contribuíram consideravelmente
para os melhoramentos que ali realizou, alguns dos quais empreendidos e levados a cabo com grande e
manifesto prejuízo dos seus haveres.
E natural desta freguesia o conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos, de quem nos ocuparemos em
artigo especial.
Camacho
É apelido de família muito generalizado nesta ilha e que por certo tem várias procedências.
Diz, porém, o anotador das Saudades, que “é de origem espanhola e parece vir de D. Fernando Camacho,
que serviu nesta ilha no presídio espanhol, segundo informação oral que obtivemos. Na freguesia do Caniço,
onde habitavam povoadores primitivos na Madeira, ainda abunda este apelido. A denominação Camacha,
da freguesia assim chamada, e que se desmembrou do Caniço em 1679, faz presumir que aí tivesse existido
algum antigo sesmeiro de apelido Camacho.
Camacho (Jacinto Augusto)
Era filho do coronel Antonio Fernandes Camacho e nasceu no
Funchal a 3 de Janeiro de 1815. Tendo emigrado com sua família para os Açores, a fim de fugir ás
perseguições dos miguelistas, alistou-se aí como cadete no batalhão de caçadores n1. 3 e acompanhou a
expedição que desembarcou nas praias de Mindelo. Distinguiu-se em vários combates e fez parte das forças
enviadas ao Algarve, sob o comando do Duque da Terceira. Possuía a medalha das campanhas da liberdade,
a comenda de Aviz e o habito da conceição. Tendo sido promovido a alferes em 1832, alcançou o posto de
general de brigada em 8 de Maio de 1877, vindo a falecer na cidade do Porto, a 7 de Junho de 1885.
Camacho (Januario Vicente)
Este distinto madeirense nasceu no Funchal em 1792 e era filho
do coronel de artilharia Antonio Fernandes Camacho e de D. Barbara Junqueiro Camacho.
Ordenado de presbítero em 1815, paroquiou em seguida nas freguesias da Serra de Água, Ribeira Brava e
Santo Antonio, do Funchal. Conta-se, não sabemos com que fundamento, que sendo preterido no concurso
em que entrara para a vigairaria de Santo Antonio, se queixara a D. João VI da injustiça que lhe fora feita, e
que o rei, reconhecendo o direito que assistia ao queixoso, lhe perguntara se na Madeira não haveria outro
logar vago que lhe conviesse. Respondeu prontamente Januário Camacho: no Funchal só há vago o deado.
Diz mais a anedota, pois como tal a tomamos, que D. João VI ignorando o que fosse o deado, dera logo o
importante cargo de deão da Sé do Funchal a Januario Vicente Camacho.
O governo central apresentou o bispo na diocese de Castelo Branco, mas não foi confirmado pela Santa Sé,
nem chegou a receber a sagração episcopal. Por decreto de 26 de Fevereiro de 1840 foi nomeado governador
da diocese do Funchal e eleito vigário capitular a 27 de Março do mesmo ano, e mais tarde desempenhou
igual cargo no bispado de Angra, intitulando-se nos documentos oficiais bispo eleito de Castelo Branco, e
precedendo sempre o seu nome de Dom, que era de uso e direito adoptarem os prelados portugueses.
Parece que não foi das mais exemplares a sua administração episcopal na diocese dos Açores.
Representou a Madeira em cortes na legislatura de 1848 a 1851, e anteriormente tinha sido várias vezes
eleito deputado e senador substituto por este arguipelago. Em 1851 foi elevado ao pariato, cargo a que então
não era fácil chegar, sem que no agraciado se reconhecessem méritos incontestáveis. Faleceu em Lisboa a
22 de Dezembro de 1872.
Camacho (João Inocencio)
Era natural da freguesia da Ribeira Brava e faleceu no Funchal no
ultimo quartel do século passado. Distinguiu-se como jornalista e foi o fundador e redactor principal do
jornal religião e Progresso que se publicou nesta cidade no ano de 1879 e 1880.
Camacho (Jorge Perestrelo Velosa)
Nasceu no Funchal a 23 de Maio de 1870 e era filho
do coronel Augusto Maria Camacho e de D. Maria Iria Perestrelo Velosa Camacho. Seu avô e bisavô
paternos foram oficiais distintos do nosso exército. Seu tio-avô D. Januario Vicente Camacho (V. este nome)
foi bispo eleito de Castelo Branco, deputado pela Madeira e par do reino.
O seu nome adquiriu grande prestigio pela sua acção como militar na Africa. Tomou parte activa na
campanha do Niassa contra o régulo Mataca e destacou-se notavelmente nas operações de Metauculo. Por
estes serviços foi agraciado com o oficialato da Torre e Espada. Era também cavaleiro da legião de Honra e
possuía a Cruz do Mérito Militar Espanhol.
Em 1902 entrou nas operações do Barué e comandou a coluna militar de Macequece, o que lhe mereceu ser
condecorado com a medalha de ouro de serviços relevantes no Ultramar.
Tinha o posto de capitão de infantaria, quando foi demitido por se ter encorporado nas forças realistas que
tentaram invadir Portugal, sendo então chefe do estado maior de Paiva Couceiro.
No Funchal exerceu os cargos de comissário de policia e administrador do concelho, tendo-se envolvido
activamente nas lutas partidárias de então.
Como seu pai, dedicou-se a estudos genealogicos, sobre que escreveu vários artigos, e publicou um folheto
acerca da organização militar do Ultramar.
Por ocasião do movimento monárquico do princípio do ano de 1919, foi Jorge Camacho preso em Beja e
conduzido a Lisboa. Ao desembarcar na capital, e quando no meio duma força militar atravessava o Terreiro
do Paço foi assassinado por um popular, no dia 7 de Fevereiro de 1919.
Câmara
É apelido de família muito antigo entre nós. 0 primeiro que o usou na Madeira foi João
Gonçalves da Câmara, filho primogénito do descobridor e 21. capitão donatario do Funchal. No entretanto,
pode afirmar-se que procede de João Gonçalves Zarco, embora talvez ele o não tivesse usado nunca. Baseia-
se esta afirmativa na carta regia de 4 de Julho de 1460, que em mais dum logar chama ao descobridor da
Madeira João Gonçalves de Câmara de Lobos, ao conferir-lhe o título de nobreza e ao conceder-lhe o
respectivo brasão de armas. Este diploma de D. Afonso V, que é um documento interessante, foi pela
primeira vez publicado a pag. 836 e seguintes das Saudades da Terra.
A origem deste apelido é geralmente atribuída pelos linhagistas madeirenses a um facto muito conhecido da
descoberta da Madeira, e que Gaspar Frutuoso descreve nos seguintes termos: “...aqui se meteram com os
bateis, e acharam tantos lobos marinhos, que era espanto; e não foi pequeno refresco e passa-tempo para a
gente; porque mataram muitos delles, e tiveram na matança muito prazer e festa. Pelo que o capitão João
Gonçalves deo nome a este remanso Câmara de Lobos, donde tomou o apellido, por ser a derradeira parte,
que descobriu deste gyro e caminho que fez: e deste logar tomou suas armas que El-Rey lhe deo...” Já
anteriormente tinha João de Barros, nas Decadas, dito com mais pormenores que “hua grande lapa ao
modo de câmara abobodada, que se fazia debaixo de hua terra soberba sobre o mar, o chão da qual lapa
estava muy soriado dos pés dos lobos marinhos que ali vinham retouçar: ao qual logar elle (Zarco) chamou
Câmara de Lobos, e tomou este appellido em memória, que naquele logar foy a primeira entrada de sua
povoação, o qual appellido ficou a todos os seus herdeiros”.
O dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo transcreve nas Saudades da Terra um trabalho genealogico de José
Freire Monterroio Mascarenhas, que se conserva inédito na Biblioteca Publica de Lisboa, e onde se
encontram as palavras que em seguida trasladamos: Não ha fundamento para que se diga que o appellido
de Câmara o tomaram seus descendentes, por causa da câmara de lobos marinhos, que João Gonçalves
Zarco achou naquela ilha; pois isto não era acção digna de se perpetuar em memória e ficar em appellido...”.
Esta afirmação de Mascarenhas contraria em absoluto a origem que os nobiliarios e antigas crónicas deste
arquipelago assinalam aquele apelido. Esta afirmação de Mascarenhas contraria em absoluto a origem que
os nobiliários e antigas cronicas deste arquipelago assinalam àquele apelido. Está também em manifesta
contradição com as indicações heráldicas do próprio brasão de armas, e ainda com as palavras da carta
regia acima citada. A maneira como aí se chama João Gonçalves de Cãmara de Lobos ao descobridor da
Madeira, dá-nos a conhecer que há nestas palavras uma evidente referência ao caso dos lobos marinhos
encontrados no logar que depois teve o nome de Camara de Lobos. É certo que os feitos de João Gonçalves
Zarco, como guerreiro em Ceuta e distinto navegador, e, mais que tudo ainda, o facto da descoberta da
Madeira, forneceriam aos reis de armas e á heráldica do tempo elementos preciosos para um brasão de
armas de mais elevada significação e de mais ostentosas prosápias avoengas para os descendentes de Zarco,
mas também é indubitável que em assuntos desta natureza o capricho e a fantasia tomavam por vezes a
melhor parte, deixando em plano muito secundário factos demoráveis e acções heróicas, que deveriam ser
postas em brilhante e acentuado relevo.
Na mencionada carta regia de 4 de Julho de 1460, fixa-se a composição do brasão de armas de João
Gonçalves Zarco pelas seguintes textuais palavras: “huu escudo preto & ao pee huua montanha berde sobre
a quall estaa firmada & situada huua torre de prata amtre dous lobos d’ouro+. Gaspar Frutusso diz, porém,
que D. João I deu a Zarco “por seu brasão de armas, em hum escudo de campo verde huma torre de
omenagem, com uma cruz de ouro, mais rica que a da sepultura de Machim, no cimo, e com dois lobos
marinhos encostados a ella, que parece que, querem trepar ao cume da torre, com seu paquife e folhagens
vermelhas e verdes; e por timbre das armas hum lobo também marinho assentado em cima do paquife. O
anotador das Saudades qualifica de inexacta esta informação de Frutuoso.
Parece que aquele primitivo brasão de armas sofreu posteriormente, algumas ligeiras modificações, e
Henrique Henriques de Noronha, o mais distinto e acreditado genealogista, descreve-o da seguinte
maneira: “Em campo verde uma torre de prata com ameias e coruchéu que se remata em uma cruz de ouro,
e dois lobos de sua própria cor em pé rompendo contra a torre: timbre um dos lobos”.
Pelo que fica exposto, e em especial pela carta de Afonso V, se vê que o ramo genealogico dos Câmaras da
Madeira teve por origem e tronco a João Gonçalves Zarco, e não se filia nas familias do mesmo apelido
existentes no continente do reino. Da Madeira se passou aos Açores Rui Gonçalves da Câmara, segundo
filho varão de João Gonçalves Zarco e 31. capitão donatario da ilha de S. Miguel que ali teve larga e ilustre
descendência, e dele procedem os condes de Vila Franca e os marqueses da Ribeira Grande, e ainda outras
distintas familias. Também no continente do reino há muitas casas nobres que procedem dos Camaras da
Madeira.
João Gonçalves da Câmara, 2º. capitão-donatario do Funchal e sucessor de Zarco, ainda usou o apelido de
Lobos, porque se afirma que fora ameaçado pelo monarca de ser privado da donataria se assim o não
fizesse. É porém, certo que os seus sucessores usaram apenas o apelido de Câmara, caindo inteiramente em
desuso o apelido de Lobos, que se encontra na carta de D. Afonso V.
É ocasião de notar o manifesto engano do rei de armas no desenho e composição do brasão dos Câmaras,
pondo de cada lado da torre um lobo (lupus), quando devera ser uma foca ou lobo marinho, para deste
modo perpetuar o facto a que o mesmo brasão se quere referir. Este engano nunca foi corrigido, e assim se
transmitiu a toda a descendência de Zarco, que tem feito uso do mencionado brasão de armas.
Câmara (Alfredo Bettencourt da)
Nasceu no Funchal a 21 de Abril de 1857, e foi por largos
anos professor particular de instrução primaria. E.: Gramatica Portuguesa, em harmonia com a reforma
ortografica ultimamente publicada. Funchal, 1912, de 240 pag. e Exercícios sobre a conjugação dos verbos
regulares e irregulares..., 10. parte, Funchal, 1915, de 64 pag., 20. parte, Funchal, 1915, de 64 pag..
Faleceu no Funchal a 26 de Janeiro de 1921.
Câmara (Antonio Gonçalves da)
Era bisneto do descobridor João Gonçalves Zarco e neto do
21. capitão-donatario João Gonçalves da Câmara. Distinguiu-se muito em Africa pela sua bravura e ali
prestou bons serviços á pátria. O que, porém, verdadeiramente o tornou conhecido, falando dele todas as
antigas crónicas madeirenses, foi a maneira violenta e aparatosa como raptou Isabel de Abreu e os episódios
e circunstancias sensacionais que então se deram, tornando esse rapto assunto fértil para os cronistas do
tempo e ainda para outros escritores que dele se têm ocupado. Já a isso nos referimos com alguma largueza
no artigo consagrado a Isabel de Abreu, para onde remetemos o leitor.
Antonio Gonçalves da Câmara, que era filho de Pedro Gonçalves da Câmara e de D. Joana de Eça,
camareira-mor da rainha D. Catarina, exerceu vários cargos palatinos, e entre eles o de monteiro-mor do rei
D. João I.
Câmara (Antonio Rodrigues da)
Nasceu na Madeira e era filho natural de Rui Gonçalves da
Câmara. Acompanhou seu pai para S. Miguel, quando este comprou a capitania daquela ilha. Distinguiu-se
em Africa, e diz Antonio Cordeiro, na Historia Insulana, que era grande cavaleiro, citando a tal propósito
um caso que teve grande voga na época em que se deu.
Câmara (D. José Manuel da)
A 8 de Maio de 1800 foi nomeado governador e capitão general
deste arquipelago e tomou posse deste cargo a 4 de Dezembro do mesmo ano.
Dois importantes acontecimentos ocorreram durante o seu governo: a ocupação desta ilha por tropas
britanicas (V. Ocupação ds Madeira por tropas inglesas) e a terrível inundação de 9 de Outubro de 1803 (V.
A1uviões).
Teve lutas com o prelado D. Luiz Rodrigues de Vilares, desterrando-o para a freguesia do Santo da Serra (V.
o artigo referente a este prelado). Entre as acusações feitas ao bispo, salienta-se a de que ele era pedreiro
livre e tinha frequentes conciliábulos com vários membros das sociedades secretas. O prelado e o
governador foram chamados a Lisboa sendo demitido D. José Manuel da Câmara e continuando D. Luiz
Rodrigues de Vilares no exercício do seu ministério. Veio á Madeira sindicar dos actos do governador, o
desembargador dr. Joaquim Antonio de Araujo.
Saíu da Madeira a 10 de Dezembro de 1803, tendo já chegado a esta ilha o seu sucessor Ascenso de Sequeira
Freire.
Câmara (D. Marta Celina Sauvayre da)
Pertence a uma nobre e distinta família
madeirense, e é filha de João Sauvayre da Camara e de D. Matilde Lucia de Sant’Ana e Vasconcelos Moniz
de Bettencourt, sendo neta da ilustre escritora madeirense, Viscondessa das Nogueiras, e sobrinha do nosso
distinto patrício Jacinto de Sant’Ana e Vasconcelos, 21. visconde do mesmo título, dos quais nos
ocuparemos neste Elucidario. D. Marta Celina da Camara nasceu no Funchal a 1 de Setembro de 1857,
recebendo uma esmerada educação, em boa parte ministrada por sua ilustre avó, que era uma senhora de
vasta erudição e que para uso de suas netas escreveu uma interessante e valiosa obra intitulada Diálogos
entre uma avó e suas netas, que foi publicado em 1862. D. Maria Celina, depois de uma larga viagem que fez
pela Europa e parte da Asia e da Africa, escreveu um livro que intitulou De Napoles a Jerusalem e que em
1889 foi publicado no Funchal, num volume de 196 paginas.
D. Maria Celina Sauvayre da Câmara faleceu em Portugal a 21 de Fevereiro de 1929.
Câmara (D. Mariana de Alencastre e)
Também se chamou D. Mariana de Vasconcelos e
Camara Alencastre, e era filha de Simão Gonçalves da Camara, 3º. conde da Calheta e 7º. capitão-donatario
do Funchal. Tendo seu irmão João Gonçalves da Câmara, 8º. donatario, falecido sem descendência, sucedeu
D. Mariana de Alencastre na casa do condado da Calheta, sendo considerada 9º. donataria do Funchal. Foi
camareira da rainha D. Maria Francisca de Sabóia, e diz um antigo manuscrito que era acérrima em
defender e amparar os naturais da ilha, tratando a todos com especial amor. Faleceu a 15 de Abril de 1689
(V. Alencastre e Calheta (Condes da)).
Câmara (Francisco Gonçalves da)
Era filho natural do terceiro capitão-donatario do
Funchal, Simão Gonçalves da Câmara. Na ausência de seu sobrinho e quinto donatario desta ilha, Simão
Gonçalves da Câmara, que a maior parte do tempo residiu na corte, governou Francisco Gonçalves da
Camara a capitania, deixando o seu nome vinculado á fraca defesa e resistência que opôs ao ataque dos
franceses a esta ilha no ano de 1566.
O autor das Saudades da Terra refere-se a ele nos seguintes encomiásticos termos:B*he homem mui
ardiloso em todos os seus exercícios de guerra, mui temperado, de muita virtude, e pouco mimoso: foi
criado em aspereza, fora das delicias de seus irmãos, pela qual rasão he sofredor de trabalhos, e mui
esforçado cavalleiro, como mostrou na entrada dos francezes na cidade do Funchal, onde, servindo de
Capitam Geral (como servia e agora serve), em ausência, e depois por falecimento de seu sobrinho ferio mui
honrosamente o capitam francez Visconde de Pompador, na entrada da Fortaleza, onde mostrou ânimo de
valeroso capitam; e por tal lhe deo el-rei o habito com certa tença, e que não pagasse por outo annos quinta
e dizima de sua fazenda, que boa parte possuhe no termo do Funchal, de assucares e vinhos. Não
compartilha da opinião de Gaspar Frutuoso o erudito anotador das Saudades, afirmando que Francisco
Gonçalves da Câmara “a cujo cargo estava o governo da ilha da Madeira, ao revez de aggredir, nem sequer
soube defendel-a dos aggressores: apenas houve, á entrada da cidade do Funchal e á porta da fortaleza de
São Lourenço, conflito de desesperada defesa e alguns preclaros rasgos de valor individual, que resgataram
o bom nome madeirense... “ Acrescenta ainda o mesmo anotador, que houve “prémios para o pusilânime
capitão Francisco Gonçalves da Câmara, o qual, no momento do perigo, foi refugiar-se entre as mulheres...”
Francisco Gonçalves da Câmara foi proprietário da quinta, hoje chamada das Cruzes, e ali viveu “em huns
paços grandes e sumptuosos“, no dizer de Frutuoso.
Câmara (Jaime Sanches). Nasceu no Funchal a 13 de Março de 1881, sendo filho de José Antonio da Câmara
e de D. Helena Celisa Gomes Câmara. É ajudante do conservador do registo predial da comarca do Funchal
e tem larga colaboração em verso em vários periódicos. Foi durante alguns anos um dos directores do
Almanach de Lembranças Madeirense, e publicou os seguintes livros: Poema Antigo, Lisboa, 1907, de 235
pag., Satyra, o funeral do Cyriaco, Funchal, 1910, de 15 pag., O Rufo, Lisboa, 1914, de 16 pag., Junia, Lisboa,
1918, de 22 pag., Fructos, 1920, Carta em prosa, 1921, Auto de Villões, 1927.
Câmara (João Gonçalves da)
Quando João Gonçalves Zarco, logo após a descoberta da
Madeira, veio fixar residência nesta ilha, trouxe como membros de sua família a D. Constança Rodrigues de
Almeida, sua mulher, a João Gonçalves da Camara, seu filho primogénito e a sua filha D. Helena Gonçalves
da Camara, ambos ainda de tenra idade.
Tendo o descobridor e 11. capitão-donatario morrido por 1467, sucedeu-lhe na capitania do Funchal seu
filho João Gonçalves da Camara, que deve ter nascido em 1414, pois afirma Frutuoso que morreu em 1501
com 87 anos de idade. Ainda em vida de seu pai combateu valorosamente em Africa, encontrando-se no
cerco de Arzila, quando esta praça de Marrocos foi tomada por D. Afonso V. Outras vezes ali foi em auxilio
das nossas fortalezas ameaçadas por ataques dos mouros, prestando relevantes serviços e dando sempre
provas de esforçado valor. Notavelmente se distinguiu com seu irmão Rui Gonçalves da Câmara na defesa
de Ceuta, estando esta cercada e em perigo de cair em poder dos sitiantes. Organizando-se uma expedição
para socorrer a praça de Larache, á frente da qual iria D. João II, armou João Gonçalves da Câmara, á sua
custa uma frota nesta ilha, que foi ao Algarve juntar-se ao grosso do exército, sendo o segundo capitão
donatario do Funchal ali recebido pelo monarca com testemunhos de tão particular estima e apreço, que até
quis, diz um antigo cronista, “que á meza lhe deitasse água ás mãos, o que na época constituía uma das
provas de mais elevada consideração dispensada a um vassalo“.
Pouco depois de assumir o governo da sua capitania, estando o nosso país em guerra com a Espanha, foi a
Madeira atacada por uma frota espanhola composta de bastantes navios e que trazia a seu bordo muita
gente armada, mas a pesar dos escassos meios de defesa de que dispunha, desenvolveu João Gonçalves
tamanha actividade e deu exemplos de tão extraordinário valor, que conseguiu pôr em fuga os castelhanos,
indo estes atacar a ilha do Porto Santo, de que se assenhorearam sem a menor resistência por parte dos seus
habitantes. O capitão donatario foi ao Porto Santo desalojar os espanhóis, que sofreram perdas
consideráveis, recolhendo-se rapidamente aos navios e procurando numa fuga precipitada escapar á
perseguição das forças idas da Madeira.
Ocupou-se desveladamente João Gonçalves da Câmara dos progressos e prosperidade da sua donataria, e
em especial da sua capital, que elevada a vila nos últimos tempos do governo de seu pai ou já no período da
sua administração, foi adquirindo rápida importância e desenvolvimento e se tornou em breve um centro
notável de comercio, atraindo um numero considerável de estrangeiros, que a fama da sua riqueza
comercial e agrícola chamava á nascente vila do Funchal.
O apelido Câmara, de que usou o segundo donatario, provem do conhecido facto de ter o descobridor da
Madeira encontrado, no litoral da que depois foi povoação e freguesia de Câmara de Lobos, uma gruta de
lobos marinhos, que deram o nome ao logar e que notavelmente assinalaram a primeira viagem de
exploração feita por Zarco ao longo da costa sul da ilha. Em 1460 concedeu D. Afonso V o seguinte brasão
de armas a João Gonçalves da Camara: em campo verde uma torre de prata com duas ameias e coruchéu,
que se remata em uma cruz de ouro, e dois lobos de sua própria cor em pé rompendo contra a torre, tendo
como timbre um dos lobos. O segundo capitão donatario ficou-se então chamando João Gonçalves de
Câmara de Lobos, apelido de que também deveriam usar os seus sucessores, mas “este aditamento dos
Lobos no appellido, segundo lemos num antigo manuscrito, se foi deixando com o tempo e veiu a ficar só no
de Câmara“.
Constituiu uma grande casa, e a tal respeito lemos algures “que foi cousa admirável entre as grandesas deste
faustoso homem, que havendo gasto grandes quantias em serviço de El-Rei nos presídios de Africa, consigo,
com seus filhos e com os grandes socorros que lá enviara, com os casamentos de seus filhos e filhas com
continuas jornadas á corte, com a fundação do mosteiro e outras obras, se achasse por sua morte em bens
livres vinte e dois mil e setecentos cruzados, sete contos e quatrocentos mil reis em bens de raiz e dois
contos em bens moveis... “ , o que tudo representava, há quatro séculos, uma fortuna considerável.
Este segundo donatario do Funchal foi o fundador do convento de Santa Clara, começado a construir em
1492 e que ficou adjunto á igreja da Conceição de Cima, depois chamada de Santa Clara, mandada edificar
pelo descobridor João Gonçalves Zarco, para seu jazigo e de seus descendentes. Referindo-se á construção
do convento, encontramos em um antigo manuscrito, publicado há poucos anos no Heraldo da Madeira,
“que a obra se ordenou de sorte que a sepultura de Zargo ficou no meio da Capela-Mór, com um túmulo de
pedra em cima tão alto, que singularmente a faz venerável e respeitosa”.
Foi também no centro da capela e junto dos degraus do altar-mor, que em Março de 1919 se descobriu a
sepultura do segundo capitão-donatario João Gonçalves da Câmara, em cuja pedra sepulcral de mármore
escuro se lê no centro este breve epitáfio: Sepultura de João Gonçalves da Camara, segundo capitão desta
Ilha.
Morreu na então vila do Funchal, a 26 de Março de 1501.
Câmara (João Gonçalves da)
É o 4º. capitão donatario do Funchal. Nasceu nesta cidade no
ano de 1489 e era filho do terceiro donatario Simão Gonçalves da Câmara e de sua primeira mulher D.
Joana Valente Castelo Branco. Como seus pais e avós, distinguiu-se notavelmente João Gonçalves da
Câmara nas nossas campanhas de Marrocos, em que tão grande numero de madeirenses assinalaram o seu
valor e coragem, e contribuíram, como talvez nenhuns outros portugueses, para o alargamento do nosso
domínio colonial do norte da Africa. Ainda em vida de seu pai, foi várias vezes á Africa, onde sempre deu
provas da sua valentia, merecendo uma referência especial os socorros que prestou á expedição comandada
por D. Jaime, duque de Bragança, e que por ordem do rei D. Manuel, se destinava á tomada de Azamor. “E
quando no Tejo, diz um antigo manuscrito, se aparelhavam quatrocentas velas para esta expedição, entrou
pela barra dentro João Gonçalves da Câmara, enviado de seu pai para se achar nela com 800 homens, 200
de cavalo e 600 de pé, em vinte um navios, e porque em Lisboa se lhe juntaram muitos criados e parentes
para o acompanhar El-Rei, que o tinha recebido com grande alvoroço e estimação, lhe mandou dar mais
duas naus e quatro caravelas, com que fez vinte e sete embarcações de gente á sua custa. Tomada a praça,
em que João Gonçalves da Câmara e os fidalgos madeirenses Gaspar e Francisco Bettencourt, Pedro
Gonçalves de Barros, Diogo de Barros e outros, praticaram prodígios de valor, permaneceu ainda o 4º.
capitão donatario do Funchal em Africa durante algum tempo, combatendo os mouros e prestando a D.
João de Meneses, comandante de Azamor, os mais relevantes e assinalados serviços. No ano seguinte de
1514, voltou João Gonçalves novamente á Africa com algumas centenas de homens, em que novamente deu
provas do seu valor e auxiliou com importantes socorros as investidas e correrias que os nossos intentaram
contra os mouros de Marrocos. Além dos grandes serviços que pessoalmente prestou nos nossos combates
de Africa, mandou ali outros socorros, como o que enviou á praça de Mazagão, em dois navios comandados
por Luiz de Noronha, com gente de guerra, viveres e munições, tudo preparado e mantido á sua custa.
Tendo o 3º. capitão-donatario do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, renunciado em 1528 o governo da
sua capitania, retirando-se para o logar de Matosinhos, onde morreu, assumiu seu filho João Gonçalves da
Câmara a administração dela, que governou por intermédio do seu ouvidor e representante Francisco Jorge,
havendo em 1530, por morte de seu pai, tomado então pessoalmente o governo da donataria, que apenas
administrou no curto período de seis anos.
João Gonçalves da Câmara casou com D. Leonor de Vilhena, filha do conde de Tarouca D. João de Meneses,
e deste consórcio nasceram Simão Gonçalves da Câmara, que sucedeu na donataria do Funchal, o padre
Luiz Gonçalves da Câmara, o celebre aio do rei D. Sebastião, e Martim Gonçalves da Câmara, ministro do
mesmo rei e que teve uma tão grande preponderância nos negócios do estado. De cada um deles nos
ocupamos neste Elucidario.
“Foi o capitão João Gonçalves da Câmara, diz o já citado manuscrito, homem de sincera condição, benigno,
afável, caritativo e muito virtuoso, e por isso muito amado de todo o povo: que logrou pouco a suavidade do
seu governo, porque Deus o levou em idade de 47 anos, correndo o ano de 1536, e morreu, segundo se
entendeu, do mal da peste, que então andava mais acesa na ilha.
Como dizemos noutro logar, encontraram-se há pouco na capela-mor da igreja de Santa Clara duas lápides
sepulcrais, tendo a que se acha no meio da capela o epitáfio do 2º. capitão-donatário do Funchal, e a do
lado da epistola duas inscrições tumulares, respeitantes ao 31. e 5º. donatarios, vendo-se entre elas umas
linhas aspadas e com as letras completamente inelegíveis. É para causar bastante estranheza que tendo o
4º. capitão donatario morrido no Funchal e sido sepultado na igreia de Santa Clara, que era o jazigo dos
capitãis donatarios, não se encontre ali a pedra que devia cobrir a sua sepultura ou não se leia o seu epitáfio
nas lages tumulares de seu pai e avô.
Câmara (João Gonçalves da)
0 6º. capitão-donatario do Funchal, João Gonçalves da
Câmara, nasceu em Lisboa no ano de 1541, e era filho do 5º. donatario Simão Gonçalves da Câmara e de D.
Isabel de Mendonça. Veio para a Madeira em companhia de seus pais, tendo apenas um ano de idade e
regressou ao reino aos catorze anos, para voltar de novo a esta ilha em 1566 e logo partir para o continente,
donde não mais voltou e onde morreu no ano de 1580.
Quando em 1566 os corsários franceses assaltaram esta ilha e causaram aqui a terrível pilhagem e
carnificina de que falam com tanto horror as crónicas madeirenses (V. Saque dos franceses), enviou o
governo da metrópole uma esquadra á Madeira para castigar os piratas, que chegou ao Funchal poucos dias
depois daqueles terem partido com os seus navios abarrotando das melhores preciosidades que
encontraram na cidade. Na esquadra vinha João Gonçalves da Câmara, no comando dum navio, sem ter
podido castigar os danos causados na sua capitania pelo saque dos corsários. Na primeira jornada que D.
Sebastião fez a Africa, foi João Gonçalves um dos fidalgos que mais de perto o acompanharam *com muitas
tendas, cavalos e criados, e gastou nisso muito de seu, desejando que se offerecesse ocasião em que
mostrasse o esforço da sua pessoa+, segundo afirma um cronista seu contemporâneo.
João Gonçalves da Câmara não chegou a assumir pessoal e directamente o governo da sua capitania, porque
se encontrava em Lisboa, quando seu pai morreu na Madeira a 4 de Março de 1580, e faleceu três meses
depois em Almeirim, sem ter regressado a esta ilha. Tinha nomeado seu logar tenente e representante neste
arquipelago a seu tio Rui Dias da Camara, filho do 5º. capitão-donatario Simão Gonçalves da Camara.
João Gonçalves da Camara foi o ultimo capitão-donatario do Funchal. Embora os seus sucessores
conservassem as honrarias do cargo e continuassem a receber os avultados rendimentos dos privilégios e
regalias que usufruíam nesta ilha, deixaram de ter interferência directa, na maior parte dos negócios de
administracão publica, pois que o domínio castelhano, com a nomeação dos governadores gerais, reduziu a
proporções muito limitada a jurisdição e atribuições dos donatarios. É certo que estes, ainda por algum
tempo, continuaram a nomear os seus ouvidores, cuja acção não ia muito além da arrecadação das rendas,
que eram consideráveis. Além doutras, compreendiam elas os direitos sobre agua e vento, tendo-as o rei D.
Sebastião confirmado em 1576, dizendo um antigo manuscrito que só o privilegio do exclusivo dos moinhos,
tornava a casa dos donatarios do Funchal uma das melhores do reino.
Não sabemos se Rui Dias da Câmara, ou outro representante do 6º. donatario João Gonçalves, teria
continuado no governo da capitania depois da morte deste, ocorrida a 4 de Junho de 1580, até que em 1582
o governador geral João Leitão, nomeado por Filipe II assumiu o govêrno e a administração de todo o
arquipelago. É verdadeiramente a partir desta época que o poder dos donatarios se limita a proporções
quasi honoríficas, que o despotismo filipino foi cerceando cada vez mais, até o ponto de o anular por
completo.
Câmara (João Gonçalves da)
Nasceu em Portugal e era filho de Simão Gonçalves da Camara
(V. este nome), 3º. conde da Calheta, e de D. Maria de Vasconcelos. Foi João Gonçalves da Câmara o 4º.
conde da Calheta e é considerado o 8º. capitão-donatario do Funchal, tendo-lhe sido confirmada a posse da
capitania em 29 de Julho de 1623.
Câmara (João Rodrigues da)
No vol. 11. da Historia Insulana, edição de 1866, pag. 227 e
seguintes, faz Antonio Cordeiro larga referência a João Rodrigues da Camara, filho primogénito de Rui
Gonçalves da Camara, 31. capitao-donatario da ilha de S. Miguel. Nasceu João Rodrigues na Madeira e
acompanhou seu pai para S. Miguel, sendo o 4º. capitão desta ilha, em cuja donataria sucedeu a Rui
Gonçalves da Câmara.
Câmara (Jorge da)
Era conhecido pelo nome do Poeta, mas ignorámos se cultivava a poesia. Foi
nomeado governador geral deste arquipelago a 18 de Janeiro de 1614 e tomou posse deste logar a 17 de
Dezembro do mesmo ano.
Câmara (José Bettencourt da)
Nasceu a 19 de Abril de 1844 na Quinta do Descanso, á
freguesia de Santa Luzia, pertencente a seu avo paterno, o morgado Tristão Joaquim Bettencourt da
Camara, e faleceu na freguesia de Camara de Lobos, a 19 de Outubro de 1875, quando vinha em viagem do
Estreito da Calheta para esta cidade, tendo apenas 31 anos de idade. Teve uma valiosa colaboração em
vários jornais, revelando notável aptidão para as letras. Dedicou-se em especial a estudos genealogicos e
heráldicas, conhecendo largamente as linhagens das antigas familias madeirenses. Pertencem-lhe algumas
das notas das Saudades da Terra, que se ocupam de assuntos genealogicos. Sôbre esta matéria preparava
um trabalho valioso, que não chegou a concluir.
Câmara (Luiz de Vasconcelos e)
Luiz de Vasconcelos Câmara e Sousa foi 31. conde de
Castelo Melhor e 61. conde da Calheta. Era filho de D. Mariana de Alencastre e Câmara, considerada a 9º.
donatária do Funchal, e que casara com João Rodrigues de Vasconcelos, 2º. conde de Castelo Melhor. Luiz
de Vasconcelos deve ser considerado o 10. capitão-donatario do Funchal.
Câmara (Martim Gonçalves da)
Era filho de João Gonçalves da Câmara, 4º. capitão-
donatario do Funchal, e de D. Leonor de Vilhena e irmão do padre Luiz Gonçalves da Câmara, de quem nos
ocupamos neste Elucidario. Deve ter nascido no princípio do segundo quartel do século XVI. Nada sabemos
dos primeiros tempos da sua existencia, pois é já na idade aproximada dos quarenta anos que temos
conhecimento dum dos primeiros actos da sua vida publica, com a sua nomeação para reitor da
Universidade de Coimbra.
Foi o madeirense que maior influencia e prestigio chegou a ter nas esferas da governação publica e foi
tambem um dos homens que no nosso país gozou de mais amplos poderes e conseguiu alcançar um mais
absoluto ascendente sobre o espírito do monarca. Já alguém afirmou que, afora o Marquês de Pombal,
talvez nenhum outro homem publico tivesse ainda desfrutado entre nós tão absoluta e despoticamente da
sua influencia junto do rei, na sua qualidade de ministro, como Martim Gonçalves da Camara.
Os historiadores são quasi unânimes em afirmar que ele abusou do poder e do prestigio que tinha sôbre o
espírito irrequieto e versátil de D. Sebastião. Pinheiro Chagas, que dele se ocupa com largueza no vol. 41. da
sua Historia de Portugal, descreve-o como um homem em extremo orgulhoso e despótico e põe em relevo a
sua acção nefasto em muitas questões de administração publica.
Era no entretanto um espírito de alta envergadura intelectual, que soube impor-se á admiração dos seus
contemporâneos. Exerceu os mais elevados cargos, e entre eles os de reitor da Universidade, presidente da
Mesa da Consciência e do Desembarco, vedor da justiça e ainda outros.
O logar que lhe alcançou grande prestigio e influencia foi o de escrivão da puridade, que era então o cargo
de mais alta responsabilidade na governação do estado. Caindo no desagrado de D. Sebastião, recolheu-se á
casa da Companhia de Jesus de S. Roque, em Lisboa, e ali terminou a sua existencia.
Era clérigo secular e doutor em teologia pela Universidade de Coimbra.
Camara (Padre Luiz Gonçalves da)
É este madeirense o conhecido e célebre aio do rei D.
Sebastião, cujas qualidades de caracter, e, de modo particular, o ascendente que exerceu sôbre o espírito do
jovem monarca, tão diversamente têm sido apreciados pelos nossos críticos e historiadores. Os inimigos da
Companhia de Jesus, de que ele foi um dos mais ilustres membros, apresentam-no como um ambicioso sem
escrúpulos, que só pensava no engrandecimento da sua ordem, e acusam-no de ter procurado desenvolver
as tendências exageradamente aventureiras do seu discípulo, que tiveram como triste epilogo a perda da
nacionalidade portuguesa. Outros há, e entre eles o insuspeito Manuel Bento de Sousa, que têm opinião
inteiramente contraria a essa, não atribuindo ás influencias do padre Luiz Gonçalves da Câmara a
responsabilidade das arriscadas empresas a que D. Sebastião se aventurou. Diz o autor citado: “o padre Luis
Gonçalves da Camara, foi um bom. Os seus olhares eram para o céu, os seus pensamentos para Deus, as
suas inclinações para a virtude. Era um crente, um santo, um místico. Nos cargos superiores da Companhia,
governava os padres pela paz e tudo dirigia pela brandura, comovendo pelo sincero desapego deste mundo.
Reitor do collegio de Coimbra, só tinha para os seus subordinados a mansidão, e baixado, por disciplina ou
por experiência, de reitor a cosinheiro da casa, sofreu a mudança com a mais angelical paciência. Nas terras
da mourama sacrificou á consolação dos captivos o tempo, o descanso e a saúde. Viveu nas masmorras, e foi
adorado pelos prisioneiros, que se prostravam na sua passagem, beijando-lhe o hábito, e pedindo com
encarecimento o refrigerio da sua presença. No paço não provocou uma queixa, não requereu um beneficio,
não empregou um parente, e embora se diga que foi elle o introdutor de seu irmão Martim, e talvez o fosse,
é certo que não deixou uma só prova de ser solidário com este nas ambições e desmandos do governo. A sua
isenção foi até ao ponto de não querer comer nem dormir no palácio, sendo necessário que a rainha a isso o
obrigasse... “
Luiz Gonçalves da Câmara nasceu nesta ilha no ano de 1518 e era filho de João Gonçalves da Câmara, 4º.
capitão donatario do Funchal, e de D. Leonor de Vilhena, filha do conde de Tarouca. Em ano que não
podemos agora determinar, foi matricular-se na universidade de Paris, que era então um centro muito
importante do movimento intelectual da Europa e que de todos os países atraia um numero considerável de
estudantes aos seus afamados cursos, que tinham nessa época uma reputação universal. Luiz da Camara
revelou-se ali um estudante de extraordinário talento, não só no estudo das línguas latina, grega e hebraica,
mas também nos cursos de filosofia e teologia, em que notavelmente se distinguiu. (quando D. João III fez a
retorma da universidade de Coimbra e mandou vir de França vários professores para o nosso ensino
universitário, foi o padre Luiz Gonçalves da Camara, um dos escolhidos para fazer parte do corpo docente
do nosso primeiro estabelecimento cientifico e ali regeu varias cadeiras.
Resolveu abraçar o instituto da Companhia de Jesus, e nesta ordem exerceu elevados cargos. Tendo
pessoalmente conhecido em Paris o fundador da Companhia, com quem depois estreitou relações da mais
íntima amizade, foi em Coimbra, quando ali professava o magistério universitário, que entrou na
congregação dos jesuítas e nela professou a 2 de Abril de 1546. No ano seguinte era nomeado reitor do
Colégio de Coimbra, e três anos depois seguiu para Roma a tratar de negocio da sua ordem. Foi ali que, no
convívio com Inacio de Loiola e outros personagens importantes, adquiriu grande prestigio e pôs em relêvo
os seus raros dotes de inteligência. Na capital do orbe católico, escolheram-no para superior da casa
professo dos jesuitas e visitador da ordem em Portugal e Espanha.
Regressando á patria foi nomeado confessor do príncipe D. João, pai de D. Sebastião, e depois preceptor
deste monarca, em cujo cargo se conservou alguns anos. A propósito, diz o autor já citado: “As suas
qualidades de sacerdote virtuoso foram em tempo de D. Sebastião as mesmas que todos lhe haviam
reconhecido, quando antes o tinham já procurado para confessor de D. João III, violentando-lhe os desejos,
que só eram os de viver no retiro de sua cela. 0 seu discípulo afeiçoou-se-lhe tanto, que o perdel-o foi a
maior dor da sua vida. Esse rei sem affectos, que a ninguém estimou neste mundo com sinceridade de
coração, só por duas pessoas chorouBpelo padre Câmara e por D. Alvaro de Castro... Grandes devem ter
sido os dotes do mestre para esta sedução toda moral, que nem sequer tinha para a favorecer os dotes
physicos, que tanto ajudam. 0 padre Camara era feissimo, tartamudo e cego dum olho“. Foi de certo por isso
que Pinheiro Chagas afirma que ele só se impôs pelo poder da inteligência. A afeição, porém, que inspirou
ao seu régio pupilo, aos seus subordinados em Coimbra e aos cativos de Marrocos, não podem caso algum
impor-se apenas pela força da inteligência.
É corrente o afirmar-se em obras históricas, incluindo os trabalhos de Pinheiro Chagas, que Luiz Gonçalves
da Camara exerceu uma acção nefasta sôbre o espírito de D. Sebastião, o que Manuel Bento de Sousa
contradiz nos seguintes termos: “foi o grande Marquês de Pombal... que no seu libello contra os jesuitas,
acumulou quantas culpas a imaginação podia inventar..., foi elle quem deu mais curso a tal inexactidão,
fazendo do Padre Câmara um corruptor do moço rei, por interesses da ordem“.
O padre Luiz Gonçalves da Câmara morreu em Lisboa a l5 de Março de 1575, tendo 57 anos de idade.
Câmara (Paulo Perestrelo da)
Nasceu no Funchal no ano de 1810 e morreu na cidade do Rio
de Janeiro a 4 de Fevereiro de 1854. Poucos dados possuímos para a sua biografia, e apenas sabemos pelo
testemunho de Inocencio, que durante anos tratou pessoalmente com Perestrelo da Camara, que viveu
muito tempo em Lisboa e que em 1841 embarcou para o Brasil, donde regressou em 1853, e depois de curta
demora na Europa voltou de novo ao Rio de Janeiro e ali faleceu decorridos poucos meses.
Dedicou-se á carreira das letras, e, como nota o dr. Alvaro de Azevedo, “escreveu não pouco, mas com
precipitação e talvez de memoria; por isso nas suas obras a forma é descurada e frequentes as inexactidões.
0 autor do Diccionario Bibliographico Portuguez, em muitos logares da sua obra, aponta muitos erros e
deficiencias que se encontram nos escritos de Perestrelo da Camara, especialmente no Diccionario
geographico, historico, politico, etc. que seria um trabalho muito util, se na sua redacção tivesse havido
mais diligencia e mais cuidado no estudo dos assuntos que ali são tratados.
No entretanto, não se pode negar a Paulo Perestrelo da Camara talento, ilustração, faculdades de trabalho e
uma manifesta aptidão para as lides literarias. Entre as obras que publicou, contam-se as seguintes:
Descripção Geral de Lisboa... Lisboa 1839, de IV-190 pag.; Breve Noticia sobre a Ilha da Madeira, Lisboa,
1841, de 136 pag.; Novo tratado de arithmetica comercial..., Rio de Janeiro, 1846, de VI-324 pag.; Collecção
de proverbios, adagios, anexins, sentenças moraes e idiotismos da lingua portugueza, Rio de Janeiro, 1848,
de VI-288 pag.; Grammatica das grammaticas da lingua Portuguêza, Rio de Janeiro; Diccionario
geographico, historico, politico..., Rio de Janeiro, 1850, tomos I e II, de 495 e 612 pag.; e ainda outros.
Camara (Rui Gonçalves da)
Parece ter sido o primeiro dos filhos de João Gonçalves Zarco
nascido na Madeira, e foi o segundo filho varão do ilustre descobridor deste arquipelago. Deve ter nascido
nos fins do primeiro ou nos principios do segundo quartel do seculo XV. É portanto o mais antigo de todos
os madeirenses que deixaram o seu nome aureolado nas cronicas desta ilha. Rui Gonçalves da Camara
acompanhou seu irmão João Gonçalves, o 2º. donatario do Funchal, á Africa e ali se distinguiu
notavelmente como esforçado cavaleiro nas diversas refregas e recontros em que entrou. Acompanhando os
infantes D. Henrique e D. Fernando nos cercos de Arzila e Tanger, deu igualmente provas da sua valentia,
tornando-se muito conhecido pelos muitos actos de bravura e coragem que praticou.
Rui Gonçalves da Camara teve uma das maiores, senão a maior propriedade desta ilha, a Lombada da Ponta
do Sol (V. este nome), que ia do mar á serra e se estendia da Ribeira da Caixa até á da Ponta do Sol. Em 1473
aforou esta propriedade a João Esmeraldo por seiscentos mil réis em dinheiro e o fôro perpetuo de cento e
cinquenta mil réis anuais.
João Soares de Albergaria, 2º capitão-donatario da ilha de S. Miguel, acompanhou á Madeira sua mulher,
que aqui morreu, e, diz o padre Antonio Cordeiro, querendo agradecer a João Gonçalves Zarco e a seu filho
Rui Gonçalves da Camara a agrande hospedagem que lhe fizeram, resolveu vender a sua donataria a Rui
Gonçalves, e por prêço tão barato, acrescenta Frutuoso, que a cedeu por “oitocentos mil reis em dinheiro e
quatro mil arrobas de assucar“.
Parece que a venda da Lombada se destinava á compra da capitania de S. Miguel, onde Rui Gonçalves da
Camara fixou residencia no ano de 1474.
Rui Gonçalves, diz o autor da Historia Insulana, “era homem alto e grosso do corpo, discreto porem, e mui
solicito em fazer povoar e cuidar a terra, ao que pessoalmente sahia visitando-a... e repartiu a maior parte
das terras com o pacto ou titulo de sesmaria“, Depois de vinte e dois anos de governo da sua donataria, fêz
testamento em 1497, nomeando seu sucessor a seu filho natural João Gonçalves da Camara. Morreu pouco
tempo depois e foi sepultado na igreja matriz de Vila Franca.
Rui Gonçalves da Camara casou na Madeira com D. Maria de Bettencourt, instituidora do morgadio de
Agua de Mel (V. Nossa Senhora do Amparo), de quem não teve descendencia. Levou para São Miguel três
filhos naturais que tivera na Madeira, sendo o mais velho e sucessor da donataria o tronco das familias dos
condes de Vila Franca e dos condes e marqueses da Ribeira Grande.
Camara (Rui Gonçalves da)
Foi um dos nossos mais distintos soldados que militaram na
India. As cronicas que se ocupam das nossas lutas no oriente, referem-se a ele com o mais alevantado
elogio. Foi capitão da praça de Ormuz e distinguiu-se notavelmente na tomada de Cahul. Gaspar Frutuoso
narra nas Saudades da Terra, alguns dos seus mais notaveis feitos de armas.
Este Rui Gonçalves da Camara, que não deve confundir-se com o filho de João Gonçalves Zarco e capitão-
donatario da ilha de S. Miguel, era filho de João Gonçalves da Camara, 41. donatario do Funchal, e irmão
do padre Luiz Gonçalves da Camara e de Martim Gonçalves da Camara.
Camara (Simão Gonçalves da)
Simão Gonçalves da Camara, 3º. capitão-donatario do
Funchal, nasceu na antiga vila do mesmo nome e era filho do segundo donatario João Gonçalves da Camara
e de Maria de Noronha, e neto do ilustre descobridor da Madeira. Sendo filho segundo e tomando o apelido
materno, era conhecido pelo nome de Simão de Noronha, que mudou para Simão Gonçalves da Camara
quando assumiu o govêrno da capitania, sob pena de a perder, segundo a expressa determinação do
monarca. Nos nobiliarios e antigas crónicas madeirenses, é comummente chamado Simão Gonçalves da
Camara, o Magnifico, pela sua liberalidade, vida faustosa que levava e generosidade com que galardoava os
serviços que lhe prestavam.
A exemplo de seu pai e avô, deu provas do mais estremado valor e coragem nas nossas aturadas campanhas
de Marrocos, e foi por certo o madeirense que mais notavelmente se distinguiu nos frequentes e
encarniçados recontros com os mouros. A sua acção não se limitava a encorporar-se nas expedições e a
tomar parte activa nos combates e refregas, mas armando muitos navios, reunindo numerosa gente armada
de pé e de cavalo, enviando abundantes petrechos de guerra, viveres e outros socorros, tudo á sua custa,
contribuíu, como talvez nenhum outro vassalo de então, para manter o prestigio do nome português em
Africa.
Merecem especial referencia algumas das acções em que se notabilizou pela sua bravura e genio guerreiro e
os socorros que prontamente prestou a varias praças africanas, que se encontravam em perigo de cair em
poder dos mouros. Foi no desempenho destes assinalados serviços que nove vezes esteve no norte de Africa,
sempre com o maior desinteresse e abnegação, sem querer nem exigir qualquer mercê ou recompensa,
como era tão usual naquelas épocas. D. João II e D. Manuel, diz Pinho Leal, lhe deveram em grande parte a
conservação das praças portuguesas em Africa.
Ainda em vida de seu pai, encontrando-se no reino, pediu-lhe D. João II que socorresse a praça de Arzila,
acudindo prontamente com um troço de trezentos homens armados, equipados e sustentados á sua custa
durante os seis meses que permaneceram em Africa. Outro importante socorro foi o que prestou a Diogo de
Azambuja, governador de Safim, quando, depois de ter tomado esta praça, se viu em iminente risco de a
perder. Recorrendo a Simão Gonçalves, logo este dentro de três dias lhe enviou trezentos homens armados
e pouco depois foi pessoalmente, á frente de outros novecentos, aos quais manteve e sustentou nos três
meses que ali se demoraram. Foi também consideravel o auxilio que prestou na tomada de Azamor. Para
esta grande expedição que teve como comandante D. Jaime, duque de Bragança, enviou Simão Gonçalves o
seu filho João Gonçalves da Camara com 600 homens de pé e 200 de cavalo, contando-se entre estes um
numero crescido de fidalgos madeirenses, que foram dos que mais se distinguiram na celebrada accão da
tomada de Azamor.
Longe iriamos, se nos quisessemos referir detalhadamente aos diversos combates em que Simão Gonçalves
da Camara entrou nos campos de Marrocos, com grandes feitos de bravura e heroismo que ali praticou.
Frutuoso e varios outros cronistas, contam minuciosamente algumas dessas acções gloriosas. Apenas
diremos que em Safim, Azamor, Arzila, Castelo Real, Cabo de Gué, Mazagão, Ceuta e Tanger, mostrou
sempre denodadamente o valor do seu braço e a coragem inquebrantavel de seu animo.
Entre as manifestações de fausto e grandeza que esmaltaram a vida ostentosa de Simão Gonçalves, destaca-
se, não tanto pelo seu valor intrínseco, como principalmente pela sua particular originalidade, o presente
que fêz ao Papa Leão X. Este ilustre pontifice, que deu o nome ao seu seculo, teve como secretario particular
o bispo D. Manuel de Noronha, filho de Simão Gonçalves da Camara, que em Roma gozou de grande
prestigio e influencia. A oferta podia considerar-se como uma embaixada, e foi apresentada ao pontifice por
D. Manuel de Noronha. O embaixador ou portador do presente foi um fidalgo madeirense por nome João de
Leiria, que ia acompanhado pelo conego da Sé do Funchal Vicente Martins, o qual sendo profundo
conhecedor da lingua latina, proferiu uma brilhante oração nessa lingua, na presença do grande pontifice.
Outros individuos, e muitos criados vestindo trajes á portuguesa de veludo preto, faziam parte desta
singular comitiva.
A oferta, além de um cavalo pérsico de grande prêço, de “muitos mimos e brincos da ilha“ e de outros
objectos, era principalmente constituída pelo Sacro Colegio, todo feito de alfenim e em tamanho natural, o
que causou na capital do orbe catolico a mais extraordinaria admiração. Não podemos averiguar agora com
inteira exactidão o numero de cardiais de que então se compunha o Sacro Colegio, que presentemente e
desde os fins do seculo XVI é de 72. No tempo da embaixada de Simão Gonçalves, que se realizou no
primeiro quartel do mesmo seculo, não devia ser muito interior àquele numero. A industria do açucar tinha
então atingido entre nós um grandissimo desenvolvimento e parece também que uma notavel e rara
perfeição, o que permitiu a Simão Gonçalves o fabrico de tão numerosas e esbeltas figuras, que, dizem as
crónicas, não sofreram o menor dano e chegaram “sem quebrar até dentro de Roma“.
Foi no govêrno deste terceiro capitão-donatario que a Madeira atingiu um elevado grau de prosperidade,
tornando-se um notavel emporio comercial e agricola, atraindo aqui muitos forasteiros, que em avultado
numero fixaram residencia nesta ilha e nela constituíram familia e se enriqueceram. A importancia e
desenvolvimento da então vila do Funchal, fizeram-na elevar á categoria de cidade, privilegio que lhe foi
concedido pelo alvará régio de 17 de Agôsto de 1508, sendo também criada a diocese em 1514, pela bula de
12 de Junho do mesmo ano.
Foi nesta época que o rei D. Manuel mandou construir o magnifico templo da Sé, hoje monumento
nacional, e ao qual ofereceu a preciosa cruz que nele ainda se conserva, e também, por mandado do mesmo
monarca, se levantou o edifício da nossa alfandega, que no seu pavimento inferior ostenta as linhas
características da arquitectura manuelina.
Tendo o rei mandado á Madeira o corregedor Diogo Taveira sindicar de algumas irregularidades cometidas
no governo da capitania, julgou-se Simão Gonçalves da Camara gravemente ferido nos privilegios e isenções
de que gozava como donatario do Funchal, e resolveu sair do país e estabelecer residencia em terras de
Espanha. Arribando ao Algarve, obrigado pelos azares da viagem, soube ali do arriscado apêrto em que se
encontrava a nossa praça africana de Arzila, e logo acudiu em socorro dela, forçando os sitiantes a levantar
o cêrco. Quando se preparava a tomar a direcção do seu destino, recebeu do monarca as satisfações que a
sua dignidade ofendida exigiam e voltou sem demora ao govêrno da sua donataria. Este facto, explanado em
grandes detalhes, serviu de assunto a um dos capitulos do interessante livro de Vilhena Barbosa, intitulado
Virtudes Civicas e Domesticas.
Simão Gonçalves, achando-se velho e cansado, abandonou o govêrno da sua capitania, que declinou no seu
filho e sucessor João Gonçalves da Camara, e retirou-se para o logar de Matozinhos, nas proximidades do
Pôrto, onde morreu no principio do ano de 1530, determinando nas suas disposições testamentarias que os
seus restos mortais fôssem trasladados para esta ilha e depositados em Santa Clara, no jazigo de seus pais e
avós. “Não passaram muitos anos, diz um antigo livro de cousas historicas madeirenses, que se não
cumprisse esta verba do seu testamento, e quando o caixão dos ossos desembarcou no Funchal, se lhe fez
um solenissimo enterro da praia até o dito Mosteiro, acompanhando-o o cabido dos conegos, clerezia e
religiosos que havia na terra, e se lhe fizeram exequias com a maior solenidade, acompanhando-o e
assistindo-o todo o povo com muitas lagrimas, porque de todos foi muito amado.
Foram os despojos mortais de Simão Gonçalves depositados na capela-mor da igreja de Santa Clara, onde
em Março de 1919, no lado da epistola, se descobriu a pedra tumular que os cobre e onde no centro do
marmore escuro se lê este epitáfio: Sepultura de Simão Gonçalves da Camara.......3º. capitão desta ilha.
Aqui jaz Simão Gonçalves da Camara conde da Calheta e quinto capitão desta ilha.
Pela inscrição se vê que sob esta laje sepulcral se encontram os restos do 3º. capitão-donatario Simão
Gonçalves da Camara e também os do 5º. capitão do mesmo nome e 1º. conde da Calheta, de quem nos
ocupamos neste Elucidário. Devemos notar que no epitáfio transcrito se encontram aspadas duas linhas, de
cuja circunstancia não sabemos dar uma cabal explicação.
O 2º. e 3º. capitãis-donatarios do Funchal figuram como personagens importantes no romance historico A
Filha de Tristão das Damas e no drama Guiomar Teixeira, do escritor madeirense major J. Reis Gomes.
Camara (Simão Gonçalves da)
Foi Simão Gonçalves da Camara o 5º. capitão-donatario do
Funchal e nasceu nesta vila a 2 de Setembro de 1512, sendo filho do 4º. donatario João Gonçalves e de D.
Leonor de Vilhena, filha de D. João de Meneses, conde de Tarouca.
Antes de assumir o govêrno da sua capitania, praticou varios feitos de armas, de que falam com louvor as
cronicas do tempo, merecendo menção especial o socorro que em 1533 prestou á nossa fortaleza de Santa
Cruz, no Cabo de Gué em Africa.
Achando-se esta cercada pelos mouros e em perigo de ser tomada, pediram os seus defensores que da
Madeira lhes fôssem enviados alguns prontos socorros, ao que logo Simão Gonçalves, com autorização de
seu pai, convidou os principais fidalgos da ilha e organizou um corpo expedicionario de 600 homens,
embarcando-se sem demora em seis navios com todos os apetrechos de guerra e mantimentos que pôde
rapidamente reunir, o que tudo fêz á sua propria custa e sem exigir remuneração alguma. Estava a praça no
ultimo extremo quando Simão Gonçalves da Camara ali chegou, conseguindo desbaratar os mouros e
infligir-lhes uma completa derrota. Não se limitou a isso a sua estada na fortaleza, pois mandou também
proceder aos reparos das muralhas e outras importantes obras de defesa, prevenindo futuros assaltos dos
mouros. 0 rei D. João III escreveu uma carta muito honrosa a Simão Gonçalves, agradecendo-lhe os
relevantes serviços que ele prestou e elogiando-o pelo feito de armas que tinha praticado na defesa do
castelo de Santa Cruz.
Pouco depois da morte de seu pai e de ter herdado a donataria, partiu Simão Gonçalves da Camara para
Lisboa, onde se demorou alguns anos, regressando á Madeira já casado e com o filho primogenito, ainda de
tenra idade e que foi o sucessor na capitania. Acêrca do casamento, conta Gaspar Frutuoso que só quis
contrair matrimonio a contento do monarca, o que realizou com D. Izabel de Mendonça, da casa da Rainha
D. Catarina. E acrescenta “que no dia derradeiro de Setembro se fizeram os contratos, e com ela foi hum
grande dote estimado em oitenta mil cruzados, que el-rei lhe deu em juro e em dinheiro de contado e em
officios, e alem disso a casa do dito capitão fóra da lei mental duas vezes, cousa que raramente se concede, e
aos quatro dias do mez de outubro foi o capitão recebido com ella, e trouxe-a para sua casa, acompanhada
de toda a côrte, vindo-lhe o infante D. Luiz á parte direita e o arcebispo de Lisboa á esquerda, com todos os
fidalgos do reino que estavam presentes“. Em 1555 voltou ao reino, acompanhado de tôda a sua familiia
“por certos motivos que a isso moveram, no dizer do citado cronista, deixando seu tio Francisco Gonçalves
da Camara como capitão-donatario do Funchal.
Foi durante o govêrno interino deste capitão-donatario que os corsarios franceses assaltaram e saquearam a
cidade do Funchal em 1566, causando a terrivel carnificina de que falam com tanto horror as antigas
cronicas madeirenses. Simão Gonçalves da Camara mandou imediatamente seu filho e sucessor á Madeira
com prontos socorros, acompanhando a esquadra que o govêrno da metropole enviou em perseguição dos
franceses, mas quando chegaram ao Funchal já os corsários haviam partido, levando dezasseis navios
carregados com as mais ricas preciosidades que aqui encontraram.
Simão Gonçalves viveu o mais do tempo na côrte, onde era muito benquisto, e em 1574 acompanhou D.
Sebastião na sua primeira jornada á Africa. Por alvará regio de 20 de Agôsto de 1576, foi agraciado com o
titulo de conde da Calheta, não somente em atenção aos seus serviços, mas principalmente aos serviços
prestados pelos seus maiores, e por ser também o representante duma tão grande e importante casa.
Intitulava-se ele: O Conde Simão Gonçalves da Camara, do Conselho de El-Rei Nosso Senhor, Capitão e
Governador da Justiça na ilha da Madeira e na jurisdição do Funchal, Vedor da sua fazenda em toda a ilha e
na do Porto Santo, Senhor das ilhas Desertas, etc.. Dizem as Saudades da Terra, que, além de varios direitos
e isenções, tinha quatro contos de renda, o que, passados quatro seculos, corresponderia hoje a uma
avultadissima quantia.
Voltou á Madeira, não se sabe em que ano, e achava-se no Funchal em 1578, quando foi acometido dum
insulto apopletico, vindo a falecer a 4 de Março de 1580. Foi sepultado na capela-mor da igreja de Santa
Clara, como se vê na pedra sepulcral há pouco descoberta: Sepultura de Simão Gonçalves da Camara.......3º.
capitão desta ilha. Aqui jaz Simão Gonçalves da Camara, conde da Calheta e quinto capitão desta ilha.
João Gonçalves da Camara, que seu pai mandou á Madeira por ocasião do saque dos corsarios franceses, foi
o 2º. conde da Calheta, mas pouco tempo gozou desta honraria, porque veio a falecer três meses depois de
seu pai herdando o condado e as honras de donatario do Funchal o seu filho Simão Gonçalves da Camara,
setimo capitão-donatario e 31. conde da Calheta. Casou este com D. Maria de Vasconcelos e Meneses, dama
da rainha e filha herdeira de Rui Mendes de Vasconcelos, I. conde de Castelo Melhor. Desta maneira se
encorporou o condado da Calheta na casa Castelo Melhor.
Camara (Simão Gonçalves da)
Era filho de João Gonçalves da Camara, 6º. capitão-donatario
do Funchal e de D. Maria de Alencastre. Nasceu em Lisboa e nunca veio a esta ilha. Seu pai morreu em
Almeirim, no principio de Junho de 1580, tendo ele apenas seis meses de idade. Pode considerar-se o 7º.
capitão-donatario do Funchal, embora nunca tivesse assumido o govêrno da donataria, que em 1582 passou
a ser administrada por governadores gerais, sob o dominio filipino. No entretanto conservou, e ainda
muitos dos seus sucessores, o titulo de capitão-donatario do Funchal, como se vê da provisão de 10 de
Outubro de 1585, usufruindo uma parte consideravel das avultadas rendas que tinham os donatarios neste
arquipelago. Simão Gonçalves da Camara, que foi o 3º. conde da Calheta, casou com D. Maria de
Vasconcelos, filha e herdeira do Iº. conde de Castelo Melhor e por este motivo ficou o condado da Calheta
encorporado na casa Castelo Melhor, que depois passou a marquesado.
Câmara de Lôbos (Freguesia de)
Quando os descobridores da Madeira, deixando ancorados
os navios na baía de Machico, começaram a exploração da costa, atingiram no primeiro dia o ponto do
litoral a que depois puseram o nome de Camara de Lôbos. Eis o que a tal respeito diz textualmente Gaspar
Frutuoso:
“Proseguindo João Gonçalves seu descobrimento, pelo modo acima declarado, hindo em seus bateis com
sua companhia, entre duas pontas viram entrar no mar huma poderosa e grande ribeira, na qual pediram
huns mancebos de Lagos licença para sahirem em terra, e ver a ribeira, que espaçosa e alegre parecia. E,
ficando o capitam com os outros no batel, os mandou lançar pelo barco de Alvaro Affonso; os quaes em
terra, cometeram passar a ribeira a nado; e, como ella era soberba em suas agoas, hia com tanto impeto e
furia ao mar, que na vêa d’agoa cahiram e a ribeira os levava, onde correram bastante perigo, se do mar, o
capitam não bradára ao batel de Alvaro Affonso, ondes elles foram, que em terra estava com a gente, para
que corressem depressa áquelles mancebos, e ás vozes do qual foram os mancebos socorridos e livres do
perigo da agoa, com que o capitam ficou contente, porque os trazia nos olhos. E daqui ficou o nome, que
hoje em dia se chama Ribeira dos Soccorridos, que peior pareceo áquelles mancebos de perto, de que lhes
pareceo primeiro de longe.
Daqui passaram mais adiante até dar em huma rocha delgada á maneira de ponta baixa, que entra muito no
mar; e entre esta rocha e outra fica hum braço de mar em remanso, onde a natureza fez uma grande lapa, ao
modo de camara de pedra e rocha viva. Aqui se meteram com os bateis e acharam tantos lobos marinhos,
que era espanto; e não foi pequeno refresco, e passa-tempo para a gente; porque mataram muitos delles, e
tiveram na matança muito prazer e festa. Pelo que o capitam João Gonçalves deu nome a este remanso
Camara de Lobos, donde tomou o apellido, por ser a derradeira parte, que descobria deste gyro e caminho,
que fez: e deste logar tomou suas armas, que El-Rey lhe deo, tornando ao Reyno, como adiante contarei“.
Á afirmativa das Saudades de que cometeram passar a ribeira a nado, observa mui judiciosamente o dr.
Alvaro de Azevedo:
“A Ribeira dos Soccorridos não póde ser passada a nado; porque de verão não tem agua bastante, e, quando
cheia, nas invernias, é tão impetuosa e traz tantas e tamanhas pedras, que ninguem ousaria affrontar-lhe a
corrente, e, se o emprehendêra, lá ficaria morto. Na estação a que o texto se refere, poderia ser vadeada essa
ribeira. Estará, pois, no autographo a palavra nado (vado, á latina), por vau?
Não se pode deixar de aceitar a explicação do erudito anotador, que parece ser a unica verdadeira.
A origem do nome desta paroquia, em que são conformes tôdas as antigas cronicas, está no facto do
encontro das focas ou lôbos marinhos, como refere Frutuoso nas palavras que ficam transcritas.
Quando João Gonçalves Zarco, depois de ter fixado residencia no Funchal, procedeu a uma nova exploração
dos terrenos da sua capitania, chegando a uma pequena eminencia sobranceira á baía de Camara de Lobos,
aí traçou a fundação duma igreja dedicada ao Espirito Santo, que mandou construir á sua custa.
A freguesia de Camara de Lôbos é das mais antigas desta ilha e a sua criação remonta aos principios do
segundo quartel do seculo XV, aproximadamente pelos anos de 1430. A sede da nova paroquia foi a capela
do Espirito Santo, que mais tarde se transferiu para a igreja de São Sebastião. Por 1720 procedeu-se á
reedificação da ermida fundada por Zargo, que estava então em adiantado estado de ruína, e em 1908 se
realizaram ali importantes reparações e bem assim na pequena casa que lhe fica contigua. A pesar de talvez
nada restar já da primitiva edificação, é no entretanto esta ermida um pequeno monumento historico para o
concelho e freguesia de Camara de Lôbos, que recorda o nome do descobridor da Madeira, que a mandou
construir, e ainda por ter sido a sede da instalação da paroquia por ocasião da sua criação.
Não sabemos quando foi construída a igreja de S. Sebastião, nem quando para ela se fêz a transferencia da
sede da freguesia. Cremos no entretanto não estar muito distanciados da verdade afirmando que uma e
outra cousa se realizaram nos principios do seculo XVI, tendo-se no ultimo quartel do seculo seguinte
procedido ao acrescentamento do templo e á construção do campanario. Por meados do seculo XVIII se
fizeram na mesma igreja obras muito importantes, por mandado do Conselho da Fazenda, que por esta
ocasião contribuíu “com 29l$000 para um sino de 24 arrobas e 620$000 réis para ornamentos.
O paroco teve primitivamente a côngrua anual de 3$300 réis em dinheiro e 4 moios de trigo e 2 pipas de
vinho, que pelo alvará regio de 8 de Maio de 1591 passou a ser de 11$000 réis em dinheiro e 4 moios de trigo
e 2 pipas de vinho, vencimento este que com o decorrer dos tempos sofreu novos e maiores
acrescentamentos. Dos primeiros sacerdotes que ali exerceram funções paroquiais não pudemos obter
noticias, mas sabemos que no periodo decorrido de 1570 a 1680 foram parocos de Camara de Lôbos os
padres Manuel Rodrigues, Belchior Drumond, Diogo Nunes, Gaspar Luiz, Francisco de Aguiar, Pero
Ferreira, Luiz da Cunha, Antonio de Novais Ferreira, Bernardino Teles de Meneses, Pedro do Rêgo
Machado, José Pinheiro Taveira e Inacio Alves de Carvalho.
Por carta régia de D. Sebastião, de 5 de Novembro de 1576, foi autorizado o bispo desta diocese D. Jeronimo
Barreto a criar um curato na igreja paroquial de Camara de Lôbos, que ao principio foi confirmado, mas que
por alvará de 26 de Fevereiro de 1577 se tornou amovivel “por ser conveniente ao serviço de Deus“. Tinha a
congrua anual de 18$000 réis, com a obrigação de exercer o logar de beneficiado da colegiada.
A freguesia de Camara de Lôbos era sede de uma das nove-colegiadas (V. este nome) que havia nesta
diocese, e que tôdas foram extintas pouco antes de 1834. A desta paroquia foi criada no terceiro quartel do
seculo XVI, tendo além do vigário e coadjutor, três beneficiados, um tesoureiro e um pregador. Em 1676
foram extintos os três logares de beneficiados, cujos proventos se destinaram ao custeamento da vigairaria
da Serra de Agua e dos curatos do Estreito de Camara de Lôbos e Arco da Calheta, que se criaram no mesmo
ano.
Camara de Lôbos foi um dos primeiros logares da Madeira sujeitos a uma imediata exploração agricola após
a descoberta. Ali se estabeleceram muitos individuos vindos do continente do reino, que constituíram
familia e foram o tronco de larga descendencia. Varias pessoas de origem nobre tiveram muitas terras de
sesmaria e ali instituíram seus vinculos e morgadios. Entre elas podemos citar João Afonso (V. este nome),
companheiro de Zarco, e João Caldeira o Velho, que deu o nome ao sitio que ainda hoje se chama do
Caldeira. Mais tarde também foram ali sesmeiros João Salviati (V. este nome), que foi tronco dos Florenças,
João Saraiva, que deu o nome ao sitio que ainda actualmente conserva o seu apelido, Braz Gil de Faria, que
teve terras na margem direita da ribeira da Caixa, Diogo Lopes da Estacada, que no sitio da Torre possuíu
muitos terrenos que passaram aos Correias, e ainda Alvaro Figueira, além de outros. Quando
particularmente nos ocuparmos das capelas desta diocese, mencionaremos os fundadores das muitas que
houve nesta freguesia, e que eram quasi tôdas de instituição vincular e sede de diversos morgadios.
Foi talvez a paroquia da Madeira que teve maior numero de capelas. Ainda actualmente existem as de S.
Bernardino, Espirito Santo, Nossa Senhora da Boa Hora, Jesus-Maria-José, Nossa Senhora da Nazaré,
Nossa Senhora das Preces, Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora da Conceição, S. Francisco, Nossa
Senhora da Piedade, N. S. da Fátima, e a de N. S. das Dores no Cemiterio, tendo desaparecido as de Nossa
Senhora de Belém, S. João e S. Candido e ainda outras.
Existiu nesta freguesia o convento de religiosas franciscanas de São Bernardino, de que restam a antiga
igreja, inteiramente restaurada há poucos anos, e umas dependencias, em que funcionou um Pequeno
Seminario Diocesano nos anos lectivos de 1831 a 1833, sendo extinto e encorporado no Seminario da
Incarnação.
No dia 4 de Março de 1929, junto da foz da Ribeira do Vigario, deu-se um grande desmoronamento de
terrenos sôbre o mar, tendo este no refluxo das ondas arrastado violentamente vinte pessoas, que se
achavam no leito da mesma ribeira e que ali perderam a vida.
Foram naturais desta freguesia Henrique Henriques de Noronha, genealogista (1667-1730), João Pedro de
Freitas Pereira Drumond, advogado e jornalista (1760-1825), Francisco da Silva Barradas, advogado e
escritor (1835-....), padre dr. José Gonçalves de Aguiar, teólogo, (1831-1895) e Joaquim Pestana, poeta
(1840-1909).
Existia nesta paroquia o convento de S. Bernardino, ao qual consagraremos artigo especial e nele viveu em
grau eminente de santidade, o religioso franciscano Fr. Pedro da Guarda, conhecido pelo nome de Santo
Servo de Deus, de quem mais largamente nos ocuparemos no logar competente.
É esta freguesia um dos mais importantes centros piscatorios do arquipélago, contando-se por alguns
centenares os individuos que ali se entregam aos árduos misteres da pesca. Uma parte consideravel deles
vive num pequeno bairro a que vulgarmente se dá o nome de Ilhéu e em condições higienicas que bastante
deixam a desejar. No entretanto, uma circunstancia se afirma ter-se dado com a invasão colerica de 1856,
que não chegou a penetrar no Ilhéu, levando o paroco de então a dizer que a epidemia não pôde entrar em
luta com a falta de limpeza e de asseio daquele bairro. 0 culto na capela de Nossa Senhora da Conceição
mantido pela classe dos pescadores, tendo um antigo compromisso da respectiva confraria algumas
clausulas acêrca dos socorros a prestar na doença e invalidez dos seus membros, constituindo uma especie
de auxilio mutuo, o que era bastante para louvar.
Se a Madeira produz o mais precioso e afamado vinho do universo, é em Camara de Lôbos que se
encontram os vinhedos que dão a materia prima para o fabrico desse vinho. É uma das regiões desta ilha em
que os terrenos estão mais bem aproveitados para as culturas agricolas, sobressaindo entre estas a cultura
da vinha. Certamente que as qualidades particulares do terreno, condições climatericas, boa exposição e
abrigo dos ventos, concorrem notavelmente para que o vinho desta freguesia seja em geral considerado um
produto superior ao das outras freguesias desta ilha e obtenha um prêço mais remunerador no mercado.
O engenheiro de minas Eugenio Ackermann, no seu livro intitulado L’ile de Madère considerée au point de
vue scientifique et economique, publicado em 1910, afirma ter encontrado no sitio da Ribeira da Alforra
desta freguesia um minerio de ferro de relativa importancia, de que fêz uma analise sumaria e ao qual
consagra algumas paginas. A pesar de E. Ackermann, não gozar de grandes creditos cientificos, não deixa
ser interessante o que sôbre este assunto diz na citada obra.
O basalto poroso, que se presta a ser lavrado pelo canteiro e que entre nós tem o nome de *cantaria rija+,
abunda em alguns pontos desta freguesia e é muito explorado para o fabrico de ombreiras, limiares e
soleiras de portas e janelas, degraus de escadas, cunhais etc., que são largamente empregados nos edificios e
casas de habitação madeirenses.
Os sitios mais notaveis desta freguesia são: Vila, Ilhéu, Espirito Santo e Calçada, Palmeira e Voltas, Pé do
Pico, Serrado da Adega, Tôrre, Aldeia, Quinta do Leme, Saraiva, Jesus-Maria-José, Ribeiro Leal,
Lourencinha, Panasqueira, Fajã, Caminho Grande e Preces, Ribeira da Caixa, Heras, Garachico, Nogueira,
Caminho Grande e Ribeiro da Alfôrra, Pedregal, Ribeiro da Alfôrra e Fonte do Garcia, Rancho, Caldeira,
Cruz da Caldeira e Facho e Fontainhas do Mar.
A freguesia de Camara de Lôbos confina ao norte com a freguesia do Estreito de Camara de Lôbos, ao sul
com o oceano, a leste com as freguesias de São Martinho e Santo Antonio e a oeste com a freguesia da
Quinta Grande.
Quatro levadas principais fazem a irrigação desta freguesia: a das Preces, a do Castanheiro e a da Serra, que
nascem no Estreito de Camara de Lôbos, e a levada Nova, que tem sua origem no Curral das Freiras.
Tem esta freguesia mais de 9.000 habitantes, embora o ultimo censo da população (o de 1911) lhe assinale
apenas 7.810.
A pesar desta população, tem somente duas escolas oficiais, uma para cada sexo.
Está esta freguesia ligada á cidade do Funchal pela melhor estrada da ilha, numa extensão pouco superior a
9 quilometros.
É natural desta freguesia o poeta Joaquim Pestana, de quem noutro lugar nos ocuparemos.
Camara de Lôbos (Municipio de)
A pesar de comummente se chamar vila de Camara de
Lobos ao agrupamento de casas que constitue a parte mais central e importante da freguesia, a verdade é
que a capital deste concelho nunca foi vila, mas simplesmente logar, que era noutro tempo a designação
dada á povoação intermediaria entre a vila e a paroquia, havendo na Madeira os logares de Camara de
Lôbos, Ribeira Brava, Faial, S. Jorge, S. Vicente, Pôrto do Moniz e Caniço.
Era ao logar de Camara de Lôbos que Gaspar Frutuoso se referia quando dizia: “Hindo da ribeira dos
Soccorridos para o Occidente hum quarto de legoa, está uma aldeya que chamão Camara de Lobos, perto do
mar, que tem huma calheta pequena e huma furna onde dormiam e dormem ainda lobos, de que tomou
nome o Logar; e os capitães da ilha o de Camaras, pelos achar nella o primeiro capitam João Gonçalves
Zargo, quando ali desembarcou a primeira vez, como já tenho dito.
Tem esta aldeya como duzentos fogos, e huma só rua principal, e muito comprida, e no cabo della a igreja
muito boa e bem concertada: tem mais dous engenhos de assucar, hum que foi de Antonio Correa, e outro
de Duarte Mendes, e muitas canas e vinhas de boas malvazias, e muitas fructas de toda a sorte, e muita
agoa“.
Com sede no Logar de Câmara de Lôbos, foi em 1832 criado o concelho do mesmo nome, mas não chegou a
proceder-se à sua instalação. Somente depois do estabelecimento do governo constitucional é que, no ano
de 1835, se criou êste municipio e ficou definitivamente iustalado no dia 16 de Outubro do mesmo ano. A êle
pertenceram desde a sua criação as freguesias de Câmara de Lôbos, Estreito de Lôbos, Curral das Freiras e
Campanário. Constituindo-se em 1848 a nova paroquia da Quinta Grande, formada com alguns sítios
desmembrados das freguesias de Câmara de Lôbos e do Campanário, ficou o concelho de Câmara de Lôbos
acrescentado com mais aquela paróquia, mas a sua área total não sofreu modificação alguma. Com a criação
do recente concelho da Ribeira Brava, no ano de 1914, passou a freguesia do Campanário a fazer parte do
novo concelho, sendo desagregada do de Câmara de Lobos. O brasão de armas da Câmara Municipal deste
Concelho é representado por duas focas ou lobos marinhos, entre os quais se vê o escudo das armas de
Portugal.
As respectivas repartições concelhias estão instaladas no sitio chamado da Vila, nas casas da Camara
Municipal.
Camara de Lôbos (Porto, Cais e Enseada de)
Com a chamada Vila de Câmara de
Lôbos, sede da freguesia e Concelho do mesmo nome, entesta uma pouco ampla mas pitoresca enseada,
limitada por uma pequena praia de calhaus roliços e servida por um cais de desembarque, o qual foi
construído em 1876 e notavelmente melhorado no ano de 1903. Tem este porto um movimento
relativamente grande, por ser Câmara de Lôbos um importante centro piscatório, em cuja respectiva
industria se ocupam alguns centenares de individuos. Fazem escala por este pôrto os vapores do Serviço
costeiro maritimo. Fica a 4 milhas de distancia do pôrto do Funchal e a 3 do do Campanário.
Camara Eclesiastica
É a reparticão por onde correm todos os negocios religiosos e eclesiasticos
desta diocese. Deve ter sido criada no ano mesmo da criação do bispado, isto, é, em 1514, sendo, depois da
alfandega, a mais antiga repartição publica existente neste arquipelago.
O ordenado primitivo do seu escrivão era de três mil réis anuais, que por alvará regio de 28 de Outubro de
1564 foi elevado a oito mil reis, devendo certamente acrescentar-se a esse vencimento os respectivos
emolumentos de repartição. Cremos que a sua organização era noutros tempos muito diferente da actual.
O arquivo da camara eclesiastica continha documentos muito valiosos, não só para a historia da diocese,
mas também do arquipelago madeirense, tendo um incendio que nele se deu por fins do seculo XVII,
inutilizado a quasi totalidade desses documentos.
Esta repartição eclesiastica tem estado sempre adjunta á residencia episcopal. Quando em virtude das
disposições da lei da separação, foi o liceu instalado no paço episcopal em Janeiro de 1914, a camara
eclesiastica mudou alguns meses antes para uma casa fronteira ao antigo seminario, á rua Julio da Silva
Carvalho, que era pertença do mesmo seminario. Em Maio de 1918 foi instalada numa das dependencias do
novo Paço Episcopal, ao largo do Ribeiro Real, e junto ao cemiterio britanico.
Câmara Leme (D. Joâo Frederico da)
Nasceu nesta cidade e pertencia a uma das mais
antigas e nobres familias da Madeira, sendo filho de D. João Frederico da Camara Leme e D. Maria Carolina
Correia Pinto.
Seguiu a carreira das armas, e tinha o pôsto de capitão do extinto batalhão de caçadores n1. 12, aquartelado
nesta cidade, quando foi nomeado governador civil deste arquipelago a 25 de Janeiro de 1868, tendo
tomado posse do seu cargo a 10 de Fevereiro do mesmo ano.
Foi a 8 de Março seguinte que na praia e nas imediações da alfandega desta cidade se deram os lamentaveis
tumultos populares destinados a impedir violentamente o desembarque do candidato a deputado Jacinto de
Sant’Ana e Vasconcelos, e a que fazemos mais larga referencia em artigo especial deste Elucidário.
Poucos meses se conservou na administração superior do distrito, porque subindo ao poder o ministerio
presidido pelo marquês de Loulé, foi Camara Leme transferido para o govêrno civil de Santarém, logar que
não aceitou.
Por decreto de 21 de Maio de 1870, foi D. João Frederico da Camara Leme pela segunda vez nomeado
governador civil da Madeira, tendo assumido o govêrno a 27 do mesmo mês e ano. Deixou a administração
deste distrito em fins de Março de 1876.
Morreu na cidade de Tomar a 6 de Fevereiro de 1878.
Era irmão do general D. Luiz da Camara Leme e de D. Jorge da Camara Leme.
Câmara Leme (D. Jorge da)
Nasceu no Funchal a 13 de Março de 1807 e em 2 de Dezembro de
1826 alistou-se como voluntario na 1ª. companhia de granadeiros do regimento de infantaria n1. 4, sendo
lhe dada, porém, baixa do serviço pouco tempo depois da restauração do govêrno absoluto em Portugal.
Tendo emigrado para Inglaterra por causa das suas ideias liberais, passou daí à ilha Terceira, onde se
alistou no batalhão de caçadores nº. 5, que desembarcou nas praias do Mindelo no dia 8 de Julho de 1832.
Fêz tôda a campanha da liberdade, até a convenção de Evora-Monte, tendo a este tempo o pôsto de alferes.
Faleceu a 8 de Julho de 1889, sendo então tenente reformado do exercito.
Camara Leme (D. Luiz da)
D. Luiz da Camara Leme, que foi um dos mais ilustres madeirenses
do seculo passado, nasceu nesta cidade a 26 de Março de 1817, sendo filho de D. João Frederico da Camara
Leme e de D. Maria Carolina Correia Pinto. Pertencia a uma antiga e nobre familia deste arquipelago e
descendia em linha recta de Garcia Homem de Sousa, um dos quatro fidalgos que D. Afonso 5º. mandou á
Madeira para casarem com as filhas do descobridor João Gonçalves Zarco.
Assentou praça em 1836, sendo promovido a alferes no ano seguinte, e em 1883 atingiu o elevado posto de
general de divisão, em que se reformou no mês de Junho de 1884. Foi um dos mais distintos oficiais do
exercito do seu tempo, tendo como chefe de repartição do ministerio da guerra, como escritor militar e
como encarregado de importantes comissões de serviço no estrangeiro, prestado ao exercito português os
mais assinalados serviços. Colaborou na reforma e remodelação de muitos serviços militares, e a sua
opinião em assuntos desta natureza era sempre ouvida como a duma consumada autoridade na materia.
Escreveu os Elementos da Arte Militar, em dois volumes, e de que se fizeram duas edições, Consideraçôes
gerais ácerca da reorganização militar de Portugal, Relatorio apresentado ao ministro da guerra ácerca da
aquisição de novas armas portateis e Relatorio ácerca dos objectos militares mais notaveis apresentados na
exposicão universal de Paris de 1867, além de outros trabalhos e relatorios que redigiu e que não chegaram
a ser publicados. A obra Elementos da Arte Militar, foi considerada como um trabalho de extraordinario
valor, que logo lhe grangeou os foros dum distinto escritor militar, não só no nosso país, mas ainda no
estrangeiro.
Embora tivesse sido notavelmente distinta a sua carreira como oficial do exercito, parece que a
caracteristica mais acentuada da sua
individualidade foi a de parlamentar e de politico. Foi
ininterruptamente eleito deputado por diversos circulos desde 1857 até 1878, em que, por carta regia de 2
de Dezembro desse ano, tomou assento na camara alta como par vitalicio. Representou a Madeira em côrtes
nas legislaturas decorridas de 1857 a 1864 e na sessão legislativa de 1875 a 1878, defendendo sempre com
acrisolada dedicação os mais vitais interêsses da sua patria.
Em 1870 foi ministro da marinha e das obras publicas, tendo depois recusado varias vezes fazer parte de
alguns ministerios.
Sem possuir os dotes dum grande tribuno, era no entretanto um orador de dicção facil e correcta, de
linguagem sobria, mas profundo conhecedor dos assuntos que versava, sendo sempre a sua palavra
escutada no seio da representação nacional com o respeito que se costuma tributar aos grandes politicos e
parlamentares. Tornou-se conhecida e notavel a campanha que levantou no parlamento e que sustentou
durante anos consecutivos acêrca da responsabilidade ministerial, em que evidenciou os elevados
predicados da sua privilegiada inteligencia e, talvez mais ainda, a intemerata independencia do seu caracter.
Durante anos seguidos, vergado ao pêso de uma idade já provecta e de torturantes achaques, lá ia o velho
general e par do reino para a camara alta defender o seu projecto da responsabilidade ministerial,
proferindo discursos, que ficaram celebres, e alguns dos quais foram publicados num volume com o titulo
de Incompatibilidades Politicas.
D. Luiz da Camara Leme foi agraciado com muitas mercês nacionais e estrangeiras e era socio
correspondente da Academia Real das Sciencias e membro de varias sociedades literarias e cientificas. Além
dos escritos que ficam enumerados e da sua colaboração em diversas revistas, escreveu uma interessante
monografia sôbre o distrito de Lourenço Marques, que intitulou Lourenço Marques.BEstudo syntetico sobre
o aspecto historico, politico e moral.
Como homenagem aos seus méritos e reconhecimento aos serviços prestados ao país e em especial ao
exercito, foi aberta uma subscrição entre a oficialidade militar com o fim de adquirir uma comenda ou
venera, para ser oferecida ao general D. Luiz da Camara Leme, em nome do exercito português. A
subscrição rendeu oito contos de réis, pedindo Camara Leme que somente metade dessa importancia se
aplicasse á compra da venera e que a outra metade fôsse destinada a socorrer as viuvas pobres de oficiais do
exercito.
Como se sabe, o general Camara Leme casou em primeiras nupcias com a celebre actriz Emilia das Neves,
de quem herdou a fortuna, e casou segunda vez com D. Ana de Albuquerque, escritora e também actriz.
Morreu em Lisboa a 27 de Janeiro de 1904, na avançada idade de 86 anos.
Câmara Pestana (Dr. Luiz da)
.
Nasceu no Funchal, na rua que tem hoje o seu nome e na parte dela
que pertence á freguesia da Sé, a 28 de Outubro de 1863, sendo filho de Jacinto Augusto Pestana, antigo
oficial-chefe da repartição da secretaria do govêrno civil deste distrito, e de D. Helena Ana da Camara
Pestana, pertencente a uma antiga e distinta familia madeirense.
Frequentou o liceu desta cidade, e depois de ter concluído os preparatorios na Escola Politecnica,
matriculou-se em 1884 na Escola Medico-Cirurgica de Lisboa, que mais tarde tanto havia de honrar como
um dos seus mais abalizados professores.
Estudante talentoso e muito aplicado, gozando da mais subida consideração de lentes e condiscipulos, pela
sua extrema bondade e notaveis qualidades de caracter, soube congregar em torno do seu nome uma
verdadeira aureola de estima e simpatia, que o tempo só fêz aumentar cada vez mais, chegando a atingir as
proporções de uma verdadeira adoração.
A tese que escolheu para defender na conclusão do seu curso medico intitulava-se O microbio do carcimona,
revelando-se já neste estudo as tendencias do seu espirito para os trabalhos de laboratorio, em que mais
tarde se afirmou tão distintamente.
Terminados os seus trabalhos escolares a 24 de Julho de 1889, iniciou desde logo diversos estudos acerca da
especialidade a que depois inteiramente se dedicou e que para ele constituíu até ao fim da vida a mais
absorvente aspiração do seu espirito.
Passado pouco tempo, sendo ministro do reino o grande parlamentar Antonio Candido, resolveu o govêrno
enviar um medico ao estrangeiro, a fim de estudar os tão apregoados resultados da tuberculina de Koch, que
chegou a chamar-se a mais grandiosa descoberta dos ultimos seculos.
Vejamos o que a tal respeito dizia um jornal do tempo:
“Entre nós, a emocão propagara-se com intensidade proporcional ao crescido numero de tuberculosos que
avultam na nossa patologia; e tanto e tão intenso foi o abalo, que chegou até ás altas regiões do estado, em
regra impassiveis a estas mesquinharias da vida ou da morte. Verdade seja que a comoção de tantos
condenados á morte, não podia encontrar para as altas regiões melhor condutor que o espirito de artista do
ministro do reino de então. Era Antonio Candido negação do politico, o melhor elogio que se pode fazer a
quem alguma vez figurou na nossa politica. Resolvera-se enviar alguém a Paris ou a Berlim apurar o que
havia de positivo na anunciada maravilha. Consultou Antonio Candido, sôbre a nomeação, dois homens
eminentes pela sua posição no nosso mundo medico e pelos seus caracteres dignos e respeitados, os
professores Sousa Martins e Ferraz de Macedo. Um só nome foi indigitadoBo de Pestana. E apesar dos
atritos que se levantaram, em Janeiro de 1891, Pestana partia para Paris, encarregado de estudar
bacteriologia onde e como quisesse, e de apurar o que se soubesse da pretendida descoberta de Koch.
Em Paris, Pestana quasi não saíu dos laboratorios e hospitais. Acompanhando de manhã a clinica de Potain,
passava depois para o laboratorio de Cornil, onde seguia o curso de bacteriologia de Chantemesse.
Terminado este curso, passou ao Instituto Pasteur, onde aprendeu com o grande mestre os processos de
inoculação antirrabica, acabando o seu tirocinio no laboratorio de Strauss, onde principiou os seus
trabalhos sobre as toxinas do tetano“.
E tal era a importancia destes trabalhos, que em 27 de Junho de 1891 o professor Strauss, da faculdade de
medicina de Paris, apresentava Pestana em sessão da Sociedade de Biologia onde ele fazia a sua
comunicação, que foi aplaudida e elogiada unanimemente. Resta dizer que, subsidiado por 4 meses pelo
govêrno português, Pestana se demorou em Paris, acabando á sua custa, e com sacrificio proprio, os estudos
que julgava indispensaveis para a sua educação profissional.
Regressando da sua missão ao estrangeiro, Camara Pestana só pensou em consagrar-se inteiramente aos
trabalhos para que tinha decidida vocação, concebendo desde logo a ideia de fazer entrar o seu país, embora
em proporções modestas, nos largos estudos que por tôda a parte se faziam no cultivo da nova ciencia, a
bacteriologia. Em Portugal esses estudos eram apenas conhecidos pelos tratados e revistas estrangeiros, e
ainda se não tinham feito entre nós trabalhos apreciaveis de laboratorio.
Sobravam-lhe talentos, aptidões e um entusiasmo que ia até ao fanatismo, para se entregar a estudos serios
de bacteriologia e tirar deles os mais proficuos resultados, mas só e desajudado de todo o auxilio oficial,
nem podia sequer iniciar trabalhos de pequenas experiencias, que ainda assim demandavam varios
aparelhos, microscopios, estufas, etc., sem os quais impossivel seria realizar quaisquer tentativas coroadas
de bom exito.
Foi a Escola Medico-Cirurgica de Lisboa que, conhecedora dos raros meritos e conhecimentos especiais do
dr. Camara Pestana, conseguiu que o governo o nomeasse preparador de bacteriologia da mesma Escola,
depois de se terem levantado as maiores dificuldades por parte de diversas entidades oficiais, que afinal
foram vencidas pela tenacidade do corpo docente daquele estabelecimento de instrução superior.
Os meios que forneceram a Camara Pestana e os instrumentos de que dispunha eram insuficientes para os
importantes estudos a que queria consagrar-se, mas a sua vontade de ferro e o seu intenso e perseverante
trabalho conseguiram que num ano se preparassem seis teses inaugurais inspiradas por ele, além de outros
apreciaveis trabalhos originais a que se entregara.
Para encerrar o ano dos seus estudos e analises na Escola Medica, fêz Camara Pestana uma conferencia na
Sociedade das Sciencias Medicas, em que dava conta dos seus trabalhos, especialmente acêrca do tetano,
iniciados em Paris e continuados em Lisboa.
Dessa conferencia, que é um belo estudo de patologia geral, ressalta no primeiro plano a criação de um novo
metodo terapeutico, permitindo a cura das doenças que, como o tétano, sejam devidas a uma intoxicação do
organismo pelos produtos de microbios. Essa fantasia sonhada, transformou-a Pestana numa realidade,
apresentando na sua conferencia um coelho que resistia ás mais violentas inoculações que do bacilo do
tétano lhe eram feitas.
Vai criar-se o Instituto de Bacteriologia em Lisboa, onde o nosso ilustre patricio alcançou os maiores
triunfos e conseguiu inscrever o seu nome com letras de ouro nos anais das ciencias medicas.
Vamos socorrer-nos do que a tal respeito publicou uma revista da epoca e que relata com inteira fidelidade
os termos da fundação do instituto.
“Estava proximo para Pestana o dia mais feliz da sua vida; o destino ia dar-lhe um laboratorio completo,
onde poderia viver para os seus microbios e para os seus trabalhos. É ás aguas de Lisboa que o deve, e á
iniciativa, neste ponto irrepreensivel, do sr. José Dias Ferreira. O sobressalto causado em Lisboa pelas
noticias de que as aguas se achavam inquinadas por principios virulentos, o acrescimo subito do numero de
febres tifóides em Lisboa e seus arredores e as instigações da junta de saude publica e da imprensa, levaram
o ministro do reino a entender que era indispensavel proceder a um exame cientifico e rigoroso das aguas
de Lisboa.
Estava indicado o analista; o ministro já o conhecia da representação que lera, e o publico medico
indigitava-o sem discordancia.
Em portaria de 21 de Outubro de 1892, Pestana era encarregado de proceder á analise das aguas em Lisboa.
Nada havia que pudesse servir para esses estudos, nem ajudantes, nem casa, nem aparelhos, nem material.
Em 15 dias tudo estava pronto. O laboratorio improvisava-se numa casa do hospital de S. José, anexa á
antiga enfermaria de Santo Onofre e adaptada rapidamente ao novo destino. Os aparelhos requisitados do
estrangeiro em grande velocidade chegaram em remessas sucessivas, sendo, é claro, os ultimos os que
tinham vindo por intervenção oficial, e os primeiros os pedidos por particulares. 0 ajudante era escolhido
por Pestana, que o conhecia dos seus trabalhos na Escola Medica, o sr. Anibal Bettencourt, uma especie de
Pestana, microbiomaniaco de valor, modesto e desinteressado como o seu director.
Dizer que em tôdas estas instalações, Pestana, que tinha carta branca para despesas, se limitou apenas ás
indispensaveis, seria supor que a felicidade de possuir um laboratorio lhe poderia toldar as generosas
faculdades, ditando-lhe procedimento diverso“.
Criado o Instituto de Bacteriologia de Lisboa, por decreto de 29 de Dezembro de 1892, e nomeado seu
director o nosso ilustre patricio Dr. Luiz da Camara Pestana, consagrou ele inteiramente a sua laboriosa
existencia aos progressos e bom nome daquele estabelecimento cientifico, conseguindo desde logo que os
trabalhos ali realizados fôssem muito elogiados no estrangeiro e o abalizado medico alcançasse os foros
dum dos mais distintos cultores de bacteriologia. Os seus estudos e trabalhos de laboratorio constituíam
sempre a principal preocupaçãao do seu espirito, e de tal modo que nele degeneravam em verdadeiro
fanatismo, dando disso eloquentissimas provas até poucos momentos antes de perder a vida.
Acerca desses estudos e trabalhos muitos deles de grande valor cientifico, publicou varios artigos e
memorias na Medicina Contemporanea, na Revista de Medicina e Cirurgia, no Archivo de Medicina e
noutras revistas, que lhe mereceram os maiores elogios e de que especializaremos a Etiologia da febre
typhoide, Considerações sobre o diagnostico da diphtheria e Sorotherapia da diphtheria.
Em colaboração com o dr. Anibal Bettencourt escreveu: Contribuição para o estudo bacteriologico da
epidemia de Lisboa e o Tratamento da raiva em Portugal pelo systema Pasteur, na Revista de Medicina e
Cirurgia, Duas pequenas epidemias de febre typhoide, na mesma Revista, e varios trabalhos escritos em
alemão sôbre a epidemia de Lisboa em 1894, o bacilo da lepra, etc., e ainda em português o relatorio sôbre a
analise bacteriologica das aguas potaveis de Lisboa. Também publicou em opusculos avulsos as dissertações
inaugural e de concursos na Escola Medica de Lisboa e um estudo sobre o tétano.
Os seus trabalhos alcançaram-lhe lá fora uma grande reputação, sendo nomeado membro de importantes
sociedades cientificas e honrando-se com a particular estima e consideração de alguns sabios estrangeiros,
que em varios escritos lhe fizeram as mais elogiosas referencias.
0 nome que á custa dos seus estudos e perseverante trabalho conquistara nos anais da ciencia, indicava-o
naturalmente para o magisterio superior, tendo-se apresentado ao concurso para o logar que vagara na
Escola Medica de Lisboa pela morte do eminente professor Sousa Martins. Este concurso, que foi
brilhantissimo, corroborou vantajosamente a fama de que vinha precedido, apresentando como tese um
notavel estudo intitulado Sorotherapia, sendo então nomeado lente substituto da Escola, por decreto de 12
de Maio de 1898. Ali regeu com grande proficiencia as cadeiras de anatomia patologica e medecina legal,
vindo a sua morte privar este estabelecimento de instrução superior dum dos seus mais distintos
professores.
O dr. Luiz da Camara Pestana foi medico do hospital de S. José, onde prestou excelentes serviços. Em 17 de
Dezembro de 1899 começou a desempenhar ali interinamente o cargo de cirurgião do banco, sendo
nomeado para a efectividade do logar, por meio de concurso, a 4 de Dezembro de 1890, tendo em Maio de
1895 passado para o quadro dos cirurgiões extraordinarios do mesmo estabelecimento.
Além da sua missão cientifica ao estrangeiro, a que já fizemos referencia, desempenhou diversas comissões
de serviço publico, tendo sido a ultima a de ir ao Pôrto para estudar com o director do pôsto municipal e
alguns medicos estrangeiros, o valor dos soros contra a peste, sendo naquela cidade, e entregando-se a esses
estudos, que contraíu o germen da fatal doença.
Foi já em Lisboa, de regresso da sua viagem ao Pôrto, que se manifestaram os sintomas da terrivel molestia,
sendo impotentes para a debelar os esforços da ciencia e dos seus companheiros e amigos dedicados, vindo
a falecer no hospital de Arroios, onde tinha sido isolado, no dia 15 de Novembro de 1899, pelas 12 horas do
dia. Matara-o o seu amor pela ciencia e a sua dedicação pela humanidade.
As circunstancias tragicas que determinaram a sua prematura morte, que ecoou lugubremente em todo o
país, causando a mais profunda emoção, ainda se conservam na memoria de todos, para que tentemos
descrevê-las agora, ao traçarmos as principais notas biograficas do nosso malogrado conterraneo e antigo
condiscipulo e amigo.
Fê-lo duma maneira eloquente e comovedora, em palavras que todos os jornais de então reproduziram, o
seu dedicado amigo e companheiro de trabalho, o dr. Belo de Morais, que tornando-se *panegyrista da
morte+, soube arrancar lagrimas sentidas aos que leram aquelas paginas arrebatadoras da mais viva e
flagrante realidade.
As manifestações de pesar foram extraordinarias por tôda a parte, a que se associaram muitas entidades
oficiais e inumeros particulares, a começar no mais humilde cidadão e a terminar no chefe superior do
Estado.
D. Carlos, poucos momentos depois da morte de Camara Pestana, escreveu ao então presidente do conselho
de ministros, a seguinte carta: *Meu caro José Luciano. Acabo de saber neste momento a tristissima noticia
da morte do Pestana. É meu desejo que tão depressa as camaras reunam, o meu governo apresente ás
Cortes um projecto de lei concedendo uma pensão á mãe e á filha do sabio professor Pestana, victima
gloriosa do seu arduo dever.
E quero que assim seja, porque é á Nação a quem cumpre prestar homenagem á memoria de quem, em
vida, tanto a honrou. Teu am.° verdadeiro, EL-REI“.
Entre as homenagens prestadas á memoria do ilustre medico, conta-se a de ser dado ao Instituto de
Bacteriologia de Lisboa, por decreto de 10 de Agosto de 1902, o nome de “Real Instituto Bacteriologico
Camara Pestana“.
Entre nós, acha-se felizmente perpetuada a memoria do distinto homem de ciencia, no “Manicomio Camara
Pestana“, cuja-fundação é devida á iniciativa e diligentes esforços de varios cavalheiros desta cidade, que
quiseram que o nome do ilustre madeirense ficasse indissoluvelmente ligado á existencia daquele
estabelecimento hospitalar (V. Manicomio Camara Pestana). No jardim e em frente do edificio, encontra-se
sôbre uma coluna de marmore o buste em bronze de Camara Pestana, que deu o nome àquele hospital de
alienados. A Camara Municipal do Funchal mudou o nome de Pretas para Camara Pestana da rua onde se
encontra a casa em que ele nasceu.
Nesta casa foi colocada uma lapide de marmore, que contém, alusiva ao facto, a seguinte inscrição: Casa
onde nasceu em XXVIII de outubro de MDCCCLXIII o insigne bacteriologista portuguêz, Dr. Luiz da
Camara Pestana, fallecido em Lisboa aos XV dias de Novembro de MDCCCXCIX, victima da peste bubonica
que enfestou a cidade do Porto, e a cujos estudos se dedicou com a maior abnegação e altruismo
humanitario. Homenagem da classe medica da Madeira. 1913.
A inauguração desta lapide, que revestiu particular brilhantismo, realizou-se a 15 de Novembro de 1913,
decimo quarto aniversario da morte de Camara Pestana. Foram os medicos madeirenses que tomaram a
iniciativa desta homenagem, prestada ao seu abalizado colega e ilustre e malogrado patricio.
É a unica inscrição lapidar que existe nas ruas desta cidade.
Camara Pestana (João da)
É irmão do falecido bacteriologista Dr. Luiz da Camara Pestana e
nasceu no Funchal a 17 de Outubro de 1871. É agronomo, tem desempenhado o cargo de Director Geral da
Agricultura e foi eleito deputado pela Madeira a 13 de Novembro de 1913, renunciando o mandato em Maio
do ano seguinte, por haver sido eleito senador por outro circulo. Tem colaborado em diversas revistas
agricolas e é socio da Sociedade Portuguesa de Sciencias Naturais, em cujo boletim escreveu os artigos
seguintes: La Gangrène humide de la racine du Chataignier (vol. I1.,1907) e Destruction du Lecanium
hesperidum L. par le Sporotrichum globuliferum Spegazzini (vol. 2.°, 1908).
Camara Regional de Agricultura
Foi criada pelo artigo 145 da lei de 9 de Julho de 1913, e
extinta por ocasião de serem reorganizados os serviços agricolas, em Maio de 1918. Teve a sua primeira
sessão (a de instalação) a 16 de Fevereiro de 1914 e a ultima a 16 de Junho de 1917.
Camarão
Designação de varios crustaceos macruros, entre os quais se podem mencionar o Grangon
vulgaris e o Palaemon squilla, como sendo dos mais vulgares.
Camaras Municipais
O primitivo foral do Municipio do Funchal não existe no arquivo de
Camara, mas vê-se pelo primeiro livro das vereações, que é de 1470, que o senado era constituído então por
individuos tirados da classe dos homens bons. Além dos vereadores, havia os mesteres, ou representantes
dos oficios mecanicos, mas estes individuos eram mal vistos pelos restantes membros do senado, os quais
não raras vezes os maltratavam e injuriavam. Presidia ao senado o Juiz ordinario, e havia um procurador do
Concelho tirado dentre os vereadores, o qual recebia os rendimentos e pagava as despesas do municipio,
tendo além disso a seu cargo requerer qualquer cousa de interesse geral.
Tanto os juízes como os vereadores eram electivos e prestavam juramento perante o capitão-donatario. O
senado do Funchal nomeava os almotacés, os meirinhos, o alcaide da cidade, os alcaides da Ribeira Brava,
Camara de Lôbos e do Caniço, os juízes pedaneos destas três ultimas localidades e da Calheta, etc..
O regimento de 11 de Fevereiro de 1505 deu á Camara do Funchal além do juiz, três vereadores, um
procurador do concelho, um escrivão e um tesoureiro, este estranho á vereação, e o alvará de 17 de Agôsto
de 1508 estabeleceu que daí em diante só os fidalgos pudessem ser vereadores, devendo a mesma camara
ser regida e governada á maneira da de Lisboa. Segundo este ultimo diploma, as eleições deviam realizar-se
de 3 em 3 anos, dependendo do rei a aprovação delas.
No primeiro quartel do seculo XVII ainda os vereadores prestavam juramento perante o donatario,
representado pelo seu ouvidor, sendo feita por eleição indirecta a escolha dos cidadãos que deviam ocupar
os cargos concelhios. Feita a escolha, eram os nomes dos eleitos metidos em pelouros de cera, e estes
guardados num cofre de três chaves, cada uma das quais ficava em poder de um vereador. Uma criança de 6
a 7 anos tirava os pelouros do cofre, na ocasião do sorteio dos cidadãos que deviam exercer durante o ano os
cargos de juízes, vereadores e tesoureiro do Senado.
O tesoureiro da Camara era, em regra, um mercador, mas o escrivão devia ser fidalgo, podendo usar mula e
sela, de harmonia com a provisão de 1538.
A Camara Municipal do Funchal, mais conhecida outrora pela designação de Senado da Camara teve
sempre quatro vereadores. um dos quais servia de procurador do concelho até o estabelecimento do
govêrno constitucional nesta ilha em 1834, mas no seculo XVIII e principios do XIX quem fazia a nomeação
desses vereadores era o Desembargo do Paço em presença das pautas dos individuos da governança
organizadas pelo corregedor da comarca ou pelo juiz de fora. A presidencia do senado que no Funchal
pertencera a principio ao juiz ordinario, passou para o juiz de fora funcionario de nomeação regia, do
meado do seculo XVII em diante.
Faziam também parte do senado quatro mesteres eleitos anualmente pela Casa dos Vinte e Quatro.
Nas antigas sessões camararias o juiz de fora ocupava uma das extremidades da mesa das vereacões, o
escrivão a outra extremidade ficando á esquerda do primeiro os três vereadores, por ordem de idades, e no
ultimo logar o procurador do concelho. Estes membros do senado tinham direito a cadeiras de espaldar ao
passo que os quatro mesteres se sentava em cadeiras rasas junto do assento do escrivão, mas arredados da
mesa das vereações. Quando sucedia assistirem ás sessões alguns membros da classe da nobreza, sentavam-
se em cadeiras de espaldar, á direita do juiz de fora.
Em 1803 houve no Funchal uma sessão camararia bastante agitada pela razão do juiz de fora haver
autorizado os mesteres a sentarem-se á mesa das vereações. Este incidente deu logar a que esses
representantes do povo deixassem de comparecer por largo tempo ás sessões camararias.
O alvará de 2 de Abril de 1763 concedeu á camara do Funchal o direito de seguir atrás do palio na procissão
de Corpus Christi, e tanto nas procissões como nas igrejas, era praxe os mesteres formarem em fila depois
do resto do senado.
As primeiras eleições municipais que se realizaram no arquipelago depois da restauração do govêrno liberal,
tiveram logar no dia 2 Outubro de 1835, pela forma estabelecida: decreto de 18 de Julho de mesmo ano,
sendo eleitos por essa ocasião 7 vereadores para a camara do Funchal, 3 para a do Pôrto Santo 5 para cada
uma das restantes camaras da provincia. As eleições decorreram em sossêgo por tôda a parte, visto não
estarem ainda organizados nessa epoca os partidos politicos que tanto haviam de hostilizar-se mais tarde. 0
concelho do Funchal foi regido por camaras compostas de 7 vereadores emquanto vigoraram os codigos
administrativos de 1842 e 1878, mas o codigo de 1886 elevou a 9 o numero desses vereadores, o qual foi
mantido nos codigos de 1895 e 1896. Pela lei de 7 de Agosto de 1913 ficaram as camaras sendo constituídas
por 32 vereadores nos concelhos de 1ª. ordem, por 25 nos de 20. e por 16 nos de 30., numeros estes que
foram redusidos respectivamente a 24, l6 e 12 pela lei de 23 de Junho de 1916, agora em vigor. As comissões
executivas dos municipios compõem-se de 9 vereadores nos concelhos de 1ª. ordem, de 7 nos de 2ª. e de 5
nos de 30. (artigo 98 da Lei de 7 de Agôsto de 1913).
Os antigos escrivãis das camaras, que passaram a ser secretarios destas corporações pelo codigo de 1886,
denominam-se agora chefes de secretaria. Estes funcionarios assistem ás sessões das comissões executivas,
redigem as actas e dirigem os trabalhos das suas repartições, em conformidade com as leis e as deliberações
camararias.
O actual regime municipal, organizado sob os principios da mais larga descentralização, restituíu ás
Camaras as liberdades e prerrogativas de que os governos constitucionais as tinham esbulhado nos ultimos
anos. Os clamores que de tôda a parte se erguiam contra a tutela que pesava sôbre as administrações
municipais, foram ouvidos pelo govêrno da Republica, tendo sido um dos seus primeiros actos pôr em
execução o Codigo Administrativo de 1878, aquele que pelas suas disposições descentralizadoras, melhor
permitia ás populações concelhias uma existencia livre e em justa proporção com os seus recursos.
V. Organizaçao administrativa.
Camelia (Camellia japonica)
Arbusto ou pequena arvore da familia das Ternstroemiaceas,
muito frequente na Madeira. É originario do Japão e um dos mais belos ornamentos das quintas do Monte e
da Camacha. Também é conhecido pelo nome de japonesa.
Caminho de Ferro Americano. Houve um entre a antiga Praça da Constituição e o Pombal, estabelecido em
virtude da licença concedida pela Camara Municipal a José Ribeiro de Almeida e João Aluísio Virissimo
para explorarem esse meio de condução na cidade. Os *rails+, cuja colocação havia sido iniciada em 1896,
foram arrancados em 1915, tendo a circulação dos carros sido suspensa tempos antes, em consequencia dos
prejuizos sofridos pela companhia do Caminho de Ferro do Monte, a quem a Camara concedera licença para
explorar a linha, em sessão de 7 de Abril de 1902.
O material da primitiva emprêsa do Caminho de Ferro Americano, foi arrematado por Manuel Betencourt
Sardinha em 20 de Agosto de 1900 e cedido mais tarde á Companhia do Caminho de Ferro do Monte, a
quem a Camara concedeu o subsidio anual de 300:00 réis, que foi pago até 31 de Março de 1909.
O decreto de 2 de Agôsto de 1902 aprovou a deliberação da Camara Municipal do Funchal acêrca das
condições do concurso que se pretendia abrir para a concessão do estabelecimento e exploração dos
caminhos de ferro americanos. Segundo o art. 6º. das bases da adjudicação que acompanham o mesmo
decreto, ficava livre ao adjudicatario a escolha do sistema de tracção a empregar, podendo indiferentemente
decidir-se pela tracção a gado, pela locomoção electrica ou ainda pelo emprêgo do ar comprimido.
Caminho de Ferro do Monte
Foi Antonio Joaquim Marques, de Lisboa, quem primeiro se
lembrou de estabelecer um elevador ou caminho de ferro de cremalheira entre o Funchal e o Monte, tendo a
proposta que neste sentido apresentou á camara, sido aceita em sessão de 17 de Fevereiro de 1887. Alguns
estudos fêz o engenheiro Raul Mesnier desde 1886 com o fim de estabelecer o plano que melhor conviria
seguir na execução da obra, mas como surgissem dificuldades que se não haviam previsto, resolveu-se o
referido Marques a transferir para o capitão Manuel Alexandre de Sousa, natural da Madeira, a concessão
que obtivera, o que foi permitido pela Camara em sessão de 24 de Julho de 1890.
Em 22 de Janeiro de 1891 foi aprovado pela Camara o projecto para a construção do elevador, achando-se
constituída já nessa epoca a Companhia do Caminho de Ferro, em virtude de contrato celebrado com o
referido concessionario, e poucos tempos depois começavam as obras no sitio da Confeiteira, onde havia
grandes muralhas a levantar. Segundo o contrato celebrado entre a Camara e a emprêsa do Caminho de
Ferro, a expropriação dos terrenos necessarios para o estabelecimento da linha ferrea deveria ser feita pela
Municipalidade, correndo porém as despesas por conta da mesma Emprêsa, a quem a estrada ficaria
pertencendo durante 99 anos, passando depois a ser publica.
O primeiro trôço do Caminho de Ferro, entre o Pombal e a Levada de Santa Luzia, foi inaugurado a 16 de
Julho de 1893, e a 5 de Agôsto de 1894 iniciavam-se as viagens entre o Pombal e o Atalhinho, havendo por
essa ocasião ruidosos festejos na freguesia do Monte. As obras foram dirigidas a principio pelo capitão
Manuel Alexandre de Sousa, fiscal tecnico da Companhia, mas tendo os serviços deste oficial sido
dispensados em 29 de Agôsto de 1893, ficou daí em diante a superintendencia das mesmas obras a cargo
dos engenheiros civis srs. Anibal e Adriano Trigo, que tiveram de corrigir alguns erros cometidos pelo seu
antecessor.
Do relatorio e contas da Direcção do Caminho de Ferro, referentes ao ano de 1894, vê-se que nas obras até
ao sitio do Atalhinho, se dispendeu a importante quantia de 44:899$679 réis, sendo 2:229$210 réis no
rebaixamento de uma parte da estrada, que tinha uma inclinação superior á que podia ser vencida pelas
locomotivas.
Em reunião da assembleia geral da Companhia do Caminho de Ferro do Monte, de 12 de Julho de 1910, foi
resolvido prolongar a linha ferrea até o Terreiro da Luta, e em 4 de Agôsto do mesmo ano sancionou a
Camara esta deliberação, vindo essa parte da linha e o grande restaurante construído naquele sitio a serem
inaugurados no dia 24 de Junho de 1912.
Entre o Pombal e o Monte há 2500 metros de linha ferrea, e entre o Pombal e o Terreiro da Luta 3850.
Dificuldades pecuniarias com que lutou a Companhia do Caminho de Ferro por ocasião da abertura da
estrada e do assentamento da linha ferrea até o Monte, obrigaram-na a recorrer ao credito por duas vezes e
a não distribuir dividendo pelos accionistas durante largo tempo. Há muito, porém, que a Companhia tem a
sua situação regularizada, a pesar dos prezuízos consideraveis que sofreu durante a guerra, com o
afastamento da navegação do nosso porto e o prêço exorbitante que atingiu o carvão de pedra (1923).
Estende-se esta linha desde o Pombal, onde se encontra a principal estação e os escritorios da Companhia
até o Terreiro da Luta, que é o seu “terminus“, ficando este ponto a cêrca de mil e quinhentos metros de
distancia da Igreja Paroquial do Monte e numa altitude de 850 metros acima do nivel do mar. A extensão de
tôda a linha é aproximadamente de quatro quilometros, tendo alguns apeadeiros no seu percurso e uma
estação no sitio da Fonte. Mantém um serviço de carros para as diversas estações e apeadeiros, que em
certos dias se torna mais frequente, quando se dá uma maior afluencia de turistas. No sitio do Terreiro da
Luta, no têrmo da linha, donde se disfruta um dos mais maravilhosos panoramas, sustenta a Companhia do
Caminho de Ferro um excelente restaurante, magnificamente instalado e que rivaliza com os melhores do
seu genero no estrangeiro.
No dia 10 de Setembro de 1919, pouco depois das 6 horas da tarde, deu-se uma grande explosão na caldeira
duma das locomotivas do Caminho de Ferro do Monte, na ocasião em que o comboio passava entre a
Levada e o Livramento, em viagem ascendente. De cêrca de 56 pessoas que conduziam o carro e a
locomotiva, 4 morreram na ocasião da explosão, ficando muito feridas, algumas delas gravemente. Por
causa deste desastre estiveram suspensas as viagens para o Monte até 1 de Fevereiro de 1920, o que
bastante prejudicou os interêsses da Companhia.
Camões
Como se sabe, o nosso grande épico refere-se á Madeira no seu imortal poema os Lusíadas. São
os versos seguintes, que formam a 5 a estancia do canto V, que contêm essa bela e laudatoria referencia:
Passamos a grande ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assi se chama;
Das que nós povoámos a primeira,
Mais celebre por nome, que por fama;
Mas nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe avantajam quantas Venus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera,
De Cypro, Guido, Paphos e Cythera.
A esta estancia se encontra, em diversas obras didacticas, a seguinte paráfrase:
- Hipotética localização ou situação geográfica da chamada Ilha dos Amores;
- Supostas ou verdadeiras censuras dirigidas pelo poeta aos ilustres madeirenses Luiz e Martim
- Interpretação da conhecida estancia 50. do Canto V e particularmente dos versos 41. e 51.;
- Polémica suscitada entre o dr. José Maria Rodrigues e o almirante Gago Coutinho acêrca da unica
“Passamos pela grande ilha chamada da Madeira pelo muito arvoredo que elas tem, sendo a primeira que
nós colonizámos e que é mais conhecida pelo nome do que por grandes feitos lá praticados; mas a pesar de
ser a ultima do mundo, não é inferior a todas as ilhas que Vénus amou; pelo contrario se Vénus a possuísse,
deixaria por ela as ilhas de Chipre, Guido, Pafos e Citera“.
Tendo os Lusiadas sido publicados em 1572, a referencia feita por Luiz de Camões á Madeira é de cêrca de
150 anos após o inicio da colonização da Madeira.
Um dos autores deste Elucidario Madeirense ocupou-se largamente do assunto no opusculo Camões e a
Madeira publicado no ano de 1934, em que ficaram tratados os seguintes pontos:
1.
2.
ou dupla rota, descrita por Camões, desde Lisboa ás ilhas de Cabo Verde;
3.
4.
Gonçalves da Camara.
Campanario (Freguesia do)
Tôrre de sinos ou sineira é o significado da palavra campanario,
que parece nome estranho para designar uma paroquia. Procurando investigar a origem desta denominação
aplicada á freguesia de que agora nos ocupamos, apenas conseguimos descobrir nuns apontamentos do dr.
João Pedro de Freitas Drumond, que se encontram na biblioteca municipal desta cidade, uma explicação
que nada tem de inverosimil, mas que também não podemos afirmar que seja inteiramente baseada na
verdade. Vamos no entretanto aceitá-la como genuína e oriunda de boa fonte, porquanto o autor dos
apontamentos citados não nos oferece suspeita de falta de probidade nas suas noticias e afirmações
historicas.
Quando na primeira exploração através do litoral, os descobridores passaram o Cabo Girão, defrontaram-se
com um pequeno ilhéu proximo da costa, que a distancia lhes pareceu ter a forma duma sineira ou
campanario, nome com que designaram aquela passagem e que depois se estendeu aos terrenos
circunvizinhos. “Figurava uma sineira, diz Freitas Drumond, por ter duas altas pernadas, uma das quaes o
mar derrubou no primeiro de novembro de 1798“. Destruído o campanario pelo embate e violencia das
ondas, não é para estranhar que a pouco e pouco fôsse caindo no esquecimento a origem desta
denominação.
Referindo-se Frutuoso á exploração que fizeram João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz para o efeito da
delimitação das duas capitanias em que se dividiu a Madeira, diz o seguinte:-“Chegando a Camara de Lobos.
. passando mais abaixo a humas terras muito altas ali traçou outra igreja da Vera Cruz e todos estes altos
tomou para seus herdeiros... “. Esta capela e os terrenos tomados por Zarco ficavam dentro dos limites da
freguesia do Campanario, e hoje pertencem á paroquia da Quinta Grande, que se desmembrou daquela no
ano de 1848. Noutro logar diz ainda o citado Frutuoso: “para o ocidente meya legua está hum logar de cem
fogos (reporta-se ao fim do seculo XVI) espalhados, a que chamão o Campanario... são terras de criações e
de lavoura de trigo e centeyo, por ser a gente monteana, dada mais a criar gado que a cultivar vinhas nem
outras fructeiras; mas com tudo isto se ha de entender que nestes e em todos os logares da ilha houve
sempre, e ha hoje em dia, gente honrada e fidalga, e de altos pensamentos“.
Não podemos determinar com precisão a criação desta paroquia, mas é anterior a 1556, porque um alvará
regio de 28 de Agôsto do mesmo ano, acrescenta aos 10:000 réis da Congrua do respectivo vigario, mais um
moio de trigo e uma pipa de vinho. Este vencimento foi aumentado pelos alvarás regios de 9 de Junho de
1581, 18 de Janeiro de 1589 e 19 de Janeiro de 1674, ficando tendo então 19:000 reis em dinheiro, um moio
e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho.
Consta que em 1698 foi ali criado um curato, mas parece que houve demora em ser provido este logar.
Somente pelo alvará regio de 9 de Maio de 1727 é que se assinalou a côngrua do cura, que foi de 20:000 réis
anuais, fazendo-se então o provimento deste cargo.
Ignoramos quando foi edificada a actual igreja paroquial. No frontispicio tem a data de 1683, que deve ser a
da reconstrução, a não admitir-se a existencia doutra igreja em logar e anterior ao templo actual. Temos
noticia de que o Conselho da Fazenda mandou em 1677 arrematar os trabalhos da construção da capela-
mor.
Tem esta freguesia as capelas de Nossa Senhora do Bom Despacho e de Nossa Senhora da Gloria. Já não
existem a ermida de Nossa Senhora do Carmo, a de Nossa Senhora do Rosario, a de S. João Baptista e a de
Nossa Senhora dos Remedios. De umas e outras nos ocuparemos no logar respectivo.
Entre os seus antigos sesmeiros e povoadores contam-se Manuel de Noronha, filho do segundo capitão-
donatario do Funchal, que teve vastos terrenos pertencentes hoje á Quinta Grande, Vasco Delgado, que se
estabeleceu nas margens da Ribeira dos Melões, onde constituíu um morgado, Pedro Enes e outros.
As maiores propriedades que os jesuítas possuíam nesta ilha ficavam dentro dos limites do Campanario e
constituiam principalmente a chamada Quinta Grande, que depois deu o nome a esta freguesia. Este predio
rustico rendia há 160 anos mais de dois contos de réis o que hoje corresponderia a um avultadissimo
rendimento.
É nesta paroquia que fica o sitio da Fajã dos Padres, assim chamado por ter pertencido aos padres da
Companhia de Jesus. É uma fajã, junto ao mar e no sopé de rochas alterorosas, esmeradamente cultivada e
onde se produz a mais preciosa e afamada malvasia da Madeira. Este sitio foi por mais duma vez saqueado
por piratas, que em Janeiro de 1625 destruíram a capela que ali tinham os jesuitas.
Em 1825 deram-se no Campanario graves perturbações da ordem, por motivos politicos, tendo que intervir
a fôrça armada. Estes acontecimentos causaram no tempo grande sensação pelas circunstancias especiais
que os revestiram.
Com a criação do concelho da Ribeira Brava em 1914, deixou a freguesia do Campanario de pertencer ao
concelho de Camara de Lôbos, ficando incluída na area do novo concelho.
Nasceram aqui o bispo de São Paulo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade (1767-1847), o ilustre
jurisconsulto Francisco Justino Gonçalves de Andrade (1821-1902) e o conego João Jacinto Gonçalves de
Andrade (1825-1894), ambos distintos professores da faculdade de direito daquela cidade brasileira (V.
estes nomes).
Em outras epocas houve muitos soutos nesta freguesia, tornando-se muito conhecido de nacionais e
estrangeiros um castanheiro de agigantadas proporcões, cuja gravura se acha reproduzida em muitas obras
que se ocupam da Madeira. Ficava no sitio da Achada e media 10 metros de circunferencia. Carcomido em
parte pela acção do tempo, tinha na base uma abertura em forma de porta, que dava acesso a uma cavidade,
que podia conter algumas pessoas.
Os sitios mais notaveis desta paroquia são a Fajã dos Padres, Tranqual, Quebrada, São João, Pinheiro,
Logar da Ribeira, Voltas, Pedregal, Achada, Terreiros, Logar da Serra, Cova da Velha, Adega, Corujeira,
Longueira, Rodes, Carmo, Serrado, Chapim, Calçada, Lombo do Romão, Igreja, Lapa e Maçapez, Furnas e
Amoreiras, Fajã Velha, Vigia, Porta Nova, Chamorra, Jardim, Palmeira, Roda e Maçapez, Pôrto da Ribeira,
Pedra de Nossa Senhora e Nossa Senhora da Gloria.
No sitio do Carmo fica a escola oficial do sexo masculino, e nas Furnas e Amoreira a escola oficial do sexo
feminino.
Tem um pequeno pôrto e uma praia pedregosa e de dificil desembarque. Há poucos anos que ali se
construíu um pequeno desembarcadouro, que presta bom serviço quando o mar está bonançoso.
Sobranceiras ao pôrto e a diferentes alturas, escavaram no tufo de uma aprumada escarpa varias cavidades
com suas portas de madeira, que servem de armazéns para a guarda de diversas mercadorias, generos
agricolas, lenhas, aparelhos de pesca, etc..
Dista aproximadamente 18 quilometros do Funchal, 8 de Camara de Lôbos (Igreja) e 4 e meio da Ribeira
Brava.
Campanario (Ilhéu do)
Na costa maritima desta paroquia, proximo do litoral, fica um pequeno
ilhéu, que tem aquele nome e que também é chamado Ilhéu da Lapa.
Campanario (Porto e Cais do)
No litoral da freguesia deste nome encontra-se um pequeno e
mau pôrto, onde se construíu um insignificante desembarcadouro no ano de 1909.
Também é conhecido pelo nome do Pôrto da Lapa. Está distanciado 3 milhas do porto de Camara de Lôbos
e 1,7 do da Ribeira Brava.
Campanario (Ribeira do)
Conhecida também por Ribeira da Lapa, nasce no Pico dos Terreiros,
atravessa a paroquia do Campanario e desagua no pôrto deste nome.
Campo da Barca.
V. Barca (Campo da)
Campo de Baixo
Sitio povoado da Ilha do Pôrto Santo, onde se encontra uma capela da invocação
do Divino Espirito Santo, de construção bastante antiga, mas reedificada no primeiro quartel do seculo XIX
pelo capitão Sebastião Antonio Drumond. Tem 35 fogos e habitantes.
Campo do Duque. A Ordem de Cristo (V. este nome)
depois do infante D.
Henrique e de seu imediato sucessor o infante D. Fernando, teve como seus grão-mestres o duque de Vizeu
D. João, o duque de Vizeu D. Diogo e o duque de Beja D. Manuel, que sucedeu na coroa. Pertencendo a
Madeira ao mestrado daquela Ordem, tiveram estes duques uma larga jurisdição nos negocios espirituais, e
ainda temporais deste arquipelago. No centro da sua povoação mais importante havia um vasto largo ou
campo, que pertencia ao grão-mestre da Ordem, e que em homenagem a ele se chamava Campo do Duque.
Referindo-se a este campo, diz o dr. Alvaro de Azevedo:
“0 Campo do Duque era o terreno onde na cidade do Funchal são a cadeia publica e seu largo; a Sé, seu adro
e terreiro; e o largo de S. Sebastião, no qual foi levantada a ermida deste sancto... Varios diplomas se
referem a este campo, signanter, as cartas do infante D. Fernando, pelas quaes, em 1470, mandou fazer
curral do concelho, e deu o terreno “junto da egreja grande“, isto é da Sé, para se fazer a casa da camara... “
Houve quem afirmasse que a área do Campo do Duque se alargava entre as duas margens das ribeiras que
hoje têm os nomes de Santa Luzia e de São João. Parece que ao menos se estendia até ás proximidades da
cêrca do futuro convento de S. Francisco.
No manuscrito Noticias das cousas da ilha da Madeira desde o segundo descobrimento pelo Zarco
encontramos o seguinte:
“Para provarem se davam bem as ditas canas, as plantaram primeiro no campo que se chamava do Duque,
onde agora está a Igreja de Santo Sebastião, que é no meio da cidade, o qual se fechava com uma cancella
onde agora é a rua do Sabão: e todo este campo foi de Francisco de Carvalhal, companheiro de Zargo no
descobrimento desta ilha; e depois foi de seu irmão João Manuel, e ainda agora é de seus herdeiros. Daqui
se multiplicou a cultura das canas por toda a ilha, e as levaram a Machico, onde se fez o primeiro assucar
que se temperou na ilha. Neste campo do Duque se fez a primeira casa sobradada, que houve nesta villa do
Funchal, e em toda a ilha, e a mandou fazer o dito João Manuel, de madeira de cedro lavrada. Teve-se esta
casa de sobrado naquele tempo por cousa tão nova e admiravel, sendo todas as outras casas, que havia,
terreas e de tabuado, que deram capitulos a El-Rei contra o dito João Manuel, acumulando-lhe que fazia
torre, onde parecia se queria fazer forte, e levantar-se contra o Funchal o contra a coroa. A dita casa ainda
hoje (meado do seculo XVIII) está em pé e a possue Antonio de Carvalhal, e é a casa de sobrado mais baixa
que ha no Funchal“.
Na carta de 5 de Novembro de 1485 que D. Manuel, então duque de Beja e grão-mestre da Ordem de Cristo,
dirigiu ao senado do Funchal, faz cedencia do terreno preciso no Campo do Duque para a construção da Sé
Catedral e das casas da camara.
O antigo Campo do Duque foi a parte mais central da antiga povoação, vila e depois cidade do Funchal,
como pode dizer-se que ainda o é, nas ruas e largos que aproximadamente lhe correspondem.
Campo Neutro (O)
Publicaram-se 18 numeros, de 31 de Agôsto de 1861 a 13 de Janeiro de 1862.
Campos Experimentais
A Junta Agricola estabeleceu um campo experimental em cada uma das
seguintes localidades: Louros (Funchal), Ribeira Brava, Paul da Serra e Pôrto da Cruz. O campo
experimental desta ultima localidade durou pouco tempo; pelo que toca aos restantes, o que melhores
resultados deu foi o da Ribeira Brava, que chegou a distribuir pelos agricultores um grandissimo numero de
exemplares seleccionados de arvores frutiferas.
No Paul da Serra obtiveram-se boas colheitas de semilhas, couves, nabos, cenouras, pepinos, alfaces, feijão,
ervilhas, beterrabas, etc..
Cana
Medida de superficie adoptada outrora na Madeira e correspondente a 30 metros quadrados. Um
alqueire de terra tem em muitas partes da ilha 30 canas ou 900 metros quadrados, mas no Funchal tem
apenas 756,225 metros quadrados.
Cana Sacarina
Data de 1425, segundo parece, a introdução da cana de açucar na Madeira, tendo as
primeiras estacas desta planta, que se diz terem vindo da Sicilia por ordem do infante D. Henrique, sido
plantadas no Campo do Duque, que era o terreno onde na cidade do Funchal estão hoje a Sé Catedral, seu
adro e terreiro, o Largo da Sé, a Rua do Aljube e o Largo do Comercio, outrora de S. Sebastião. Do Campo
do Duque passou a cana a Machico, e aí prosperou a sua cultura de tal modo, que produziu treze arrobas de
açucar, o qual foi do primeiro vendido na ilha.
Da Madeira passou a cana de açucar ás Canarias, a Cabo Verde, a S. Tomé e Principe e a Angola e Benguela,
sendo de supor que da nossa ilha se propagasse também esta util planta ás colonias portuguesas e
espanholas da America onde ainda hoje existe uma casta de cana denominada crioula, perfeitamente
identica á antiga cana da terra, cultivada entre nós.
A cultura da cana prosperou e desenvolveu-se na Madeira até o meado do seculo XVI, em que esta ilha
chegou a produzir 300:000 arrobas de açucar, mas em 1590, quando Gaspar Frutuoso escreveu as
Saudades da Terra, já a outrora florescente industria sacarina tendia a decair, mercê da afluencia aos
mercados europeus do açucar do Brasil e das colonias espanholas, se bem que houvesse ainda aqui valiosas
plantações daquela gramínea.
Para conjurar a crise que principiava a manifestar-se, solicitou e obteve a Camara do Funchal em 1598, um
alvará para que nenhum navio pudesse carregar aqui açucar de outras paragens, mas esta medida nenhuns
beneficios trouxe á ilha, como também os não trouxe um contrato celebrado em 1608 entre os moradores da
cidade e a mesma Camara para que se não vendesse a estrangeiros açucar importado do Brasil, senão depois
destes terem feito o terço dos seus carregamentos com açucar da terra.
“Por um alvará de 1649, diz o Dr. Azevedo, foram prometidos premios e emprestimos aos que refizessem os
antigos engenhos, já então em ruinas, ou que levantassem outros novos, porem, a industria sacharina na
ilha da Madeira ficara ferida de morte, desde que, pelos fins do seculo XVI em diante, o assucar americano
veiu sortir os mercados europeus por preços com que ella não podia rivalizar. De feito a concorrencia
tornara-se-lhe impossivel, já porque a America se fecundava pelo quasi gratuito trabalho do escravo,
emquanto a Madeira, na maxima parte, pelo do colono livre; já porque na America, a terra, a cultura, o
fabrico, e talvez o capital tambem, constituiam um interesse, uma força, uma empreza identica, e aqui não:
a heterogenea dualidade senhorio e colono, ou morgado e villão, por tempos adormecida em suas reciprocas
invejas, á sombra da opulencia a que não dera impulso, acordou, destruidora de si propria, logo que, á
segúre da adversidade, a arvore protectora lascou e cahiu“.
O ilustre anotador das Saudades da Terra aponta o ano de 1748 como demarcando o têrmo do periodo
sacarino nesta ilha; deve-se notar, porém, que foi somente a industria da manipulação dos açucares que
desapareceu por então quasi inteiramente, pois que a cultura da cana, essa continuou a manter-se, embora
em muito menor escala que anteriormente.
“A Madeira, diz o Dr. Azevedo, ficou do meado do seculo XVIII, em diante, reduzida a mera consumidora do
açucar americano, com o qual mantinha a confeitaria, que, bem se podia dizer, aqui foi elevada, desde o
seculo XVI, a verdadeira arte e valiosa industria de exportação, como se mostra de alguns diplomas... e de
diversos trechos das Saudades da Serra, especialmente o que diz que o capitão Simão Gonçalves da Camara
mandou a Roma visitar o papa com um grande serviço... muitos brincos e mimos da ilha de conservas, e o
Sacro Palacio todo feito de açucar, e os cardeais todos feitos de alfenim... da estatura de um homem “.
Poucos engenhos existiam na ilha em 1730, e em 1736, 1739, 1741, 1748, 1758 e 1765, foram solicitados
alvarás para a importação do açucar do Brasil.
Bowdich, que esteve na Madeira em 1823, diz que se fabricava aqui uma quantidade insignificante de
açucar, e o autor dos Rambles in Madeira, que nos visitou em 1826, refere quasi a mesma cousa acêrca deste
produto, acrescentando que havia então em tôda a ilha um unico engenho de espremer cana doce. Em 1827,
refere um jornal da epoca, havia na Madeira mais outro engenho destinado ao mesmo fim, mas em 1851 já o
numero desses estabelecimentos subia a quatro, todos movidos pela fôrça de bois, segundo atesta Eduardo
Harcourt na sua Sketch of Madeira.
“O fabrico do assucar e da aguardente, refere o Dr. Azevedo, resuscitaram quasi immediatameate á
destruição dos vinhedos de 1846 para 1852. Começou primeiro o da aguardente, em 1847, por uma fabrica
montada em Camara de Lobos; seguiu-se em 1853, outra na Ribeira Brava; outra em 1854, em Camara de
Lobos; outra, nos Canhas, em 1855; em 1857, duas, uma no Arco da Calheta, outra em Camara de Lobos;
nove, no ano de 1858, a saber: duas em Machico, duas no Porto da Cruz, uma em S. Jorge, uma em Ponta
Delgada, uma no Paul do Mar, uma na Magdalena e uma em Camara de Lobos; em 1859, duas, uma em S.
Jorge, outra no Faial; em S. Vicente, uma no anno de 1860; por ultimo, em Ponta Delgada, no de 1861.
Vieram depois as fabricas de assucar; a de Ferraz Irmãos, começada annos antes, a de William Hinton &
Son, ambas no Funchal, e a de Ferreira Nogueira, em S. Martinho, tôdas em 1856; em 1858, a de Ornellas
Frazão, em Santa Cruz; em 1859 a de Joaquim da Silva, no Funchal; desde então até 1866, a de Diogo
Frazão, no Arco da Calheta, e a de Wilbraham, na Ponta do Sol; por ultimo a grande fabrica de São João,
fazendo algumas das sete ultimas tambem aguardente+.
A quantidade de garapa obtida em 1855 foi de 311:500 galões, segundo refere White no livro intitulado
Madeira its climate and scenery, e do relatorio apresentado pelo agronomo Eduardo Dias Grande á
Sociedade Agricola do Funchal em 1865, vê-se que a ilha produziu nesse ano 14:688:043 quilogramas de
cana, devendo regular então a área de cultura desta planta por uns 357 hectares. Segundo o mesmo
agronomo, esses 14.688:043 quilogramas deveriam produzir 84:218,98 hectolitros de garapa,
representando um capital de 175:039$550 réis.
A cultura sacarina manteve-se florescente na Madeira até 1881, mas em 1882 uma molestia até então
completamente desconhecida na ilha, começou a atacar os canaviais, acabando por destruí-los quasi
completamente em 1884, 1885 e 1866.
Essa molestia provocada por um fungo, o Conyothyrium melasporum, segundo pensa o distinto engenheiro-
agronomo o sr. Alfredo de Fraga Gomes, causou importantissimos prejuízos á ilha, tendo sido infrutiferos
todos os meios de tratamento empregados para a debelar.
Foi a cana Bourbon, importada de Caïena nos principios do seculo XIX e de Cabo Verde no meado do
mesmo seculo, a casta destruída pelo Conyothyrium, mas a introdução desde 1833, de castas novas e
seleccionadas vindas da Mauricia e de outros países, permitiu a rapida reconstituição dos canaviais, os quais
já em 1890 se achavam espalhados por quasi tôda a região baixa da ilha, havendo mesmo uma casta, a
bambu, que se tinha reconhecido poder ser cultivada em altitudes onde antes nunca chegara a cana
sacarina.
A cana da terra ou crioula, baixa e de côr verde, foi, como dissemos já, a primeira que existiu na Madeira,
seguindo-se-lhe a cana Bourbon, de colmos mais altos e ás vezes um pouco avermelhados, introduzida no
seculo XIX. Em 1861, ou um pouco antes, foi introduzida na ilha a cana das Antilhas, de fôlhas e colmos
violaceos, mas esta casta, que se desenvolvia mal sob o nosso clima, nunca chegou a formar grandes
plantações.
As castas de cana que em 1890 existiam na ilha, eram principalmente a Otaheite, a cristalina do Haiti, a
elefante e a bambu, tôdas de colmos verdes, amarelados ou esverdinhado-amarelados; a violeta, a violeta
clara e a violeta escura, de colmos violaceos e fôlhas verdes; a vermelha, de colmos da mesma cor; a Port
Mackay, de colmos arruivados e fôlhas listadas, já um pouco atacada pela molestia; e a rajada e a cristalina
rajada, de colmos grossos e listados. Estas duas ultimas castas, a violeta e a Otaheite ou cana branca eram as
que dominavam nas plantações, sendo também as mais resistentes e as mais rendosas em garapas.
A cana Yuba uma das mais largamente cultivada, tem uma vitalidade superior á de qualquer das outras
castas, levando-lhes também vantagem na produção, o que é devido á abundancia dos seus colmos. O
rendimento medio por hectare que noutros tempos era de 20, 25 e 30:000 quilogramas, atinge agora 30, 35
e 50:000 quilogramas, correspondendo sempre as maiores producões ás terras eminentemente proprias
para a cultura da cana e convenientemente fertilizadas por meio de estrumes e adubos quimicos.
Embora a cana sacarina seja cultivada com resultado em Málaga e em Motril, na Espanha, mostra a
experiencia que na Madeira ela não deve ultrapassar a altitude de 250 a 300 metros na costa do sul, e de
150 a 200 metros na do norte. Na altitude de 450 metros as garapas têm apenas 4 a 6 graus Beaumé, o que
faz com que as canas aí produzidas não alcancem nunca os preços por que são vendidas as da região
inferior. Segundo as analises a que procedeu em 1911 o Dr. Otto Klein, as garapas da cana Yuba cultivada na
região inferior da ilha, chegam a apresentar 10, 46 Beaumé, ao passo que as da antiga cana Bourbon
marcavam algumas vezes 11,05.
Refere o sr. Luiz de Castilho num trabalho intitulado A Fabricação do Assucar de Canna (Rio de Janeiro,
1892), que em Guadalupe as analises de cana acusaram uma media de 12,29 por cento de sacarose, em Cuba
12,5 a 14 por cento, conforme a epoca, e no Brasil, nos terrenos de Bracuhy, 14.86 por cento. Em setenta e
uma analises a que procedeu o Dr. Otto Klein em colmos da cana Yuba, a media obtida foi apenas 11,7,
sendo de notar, porém, que muitas das canas enviadas a este quimico, provinham de terrenos situados a
cêrca de 350 metros acima do nivel do mar.
Na Madeira, anteriormente á cana Yuba, com as castas então existentes, que eram diversas, as percentagens
de sacarose acusadas pela cana eram de 11% e o seu rendimento oscilava entre 6 e 7 quilogramas por cento,
em açucar cristalizado, enquanto que agora, devido á melhoria das castas e ao aperfeiçoamento dos
processos de fabrico que a pouco e pouco se tem vindo operando, o rendimento da cana em açucar
cristalizado é de 9 a 10 por cento. Conforme esclarecimentos de ordem tecnica vindos a lume, “cada 100
quilogramas de cana Yuba contêm 78 litros de garapa ou jus com uma pureza de 86+, o que é motivo para
que consideremos essa casta tão preciosa ou quasi tão preciosa como as castas cultivadas nas Indias
Ocidentais, cujos *sucos teem 84 a 88 de pureza“ segundo afirma o autor de um opusculo publicado em
1910, com o titulo de A Questão Sacarina da Madeira.
O prêço da cana tem variado bastante na Madeira. Em 1872 a Companhia Fabril de Assucar Madeirense
pagava 55 centavos por cada 30 quilogramas de cana com 9 a 10 graus Beaumé, 60 pela que tinha 10 a 11
graus e 65 pela que tinha mais de 11 graus, mas estes preços foram pouco duradouros, e logo que os
inimigos da fabrica de S. João conseguiram aniquilá-la, viu-se baixar de uma maneira bastante sensivel o
prêço daquele produto. Em 1881, a fabrica do Torreão pagava a cana a 45 centavos, mas este prêço, que
ainda era remunerador, também não se manteve, desaparecendo pouco depois os canaviais em virtude da
molestia a que já nos referimos. Por 1862 as fabricas pagavam a cana a 30 centavos, depois pagaram-se
algumas vezes a 32 e 35 centavos, aparecendo finalmente o decreto de 30 de Dezembro de 1895 que
estabeleceu para aquele produto os preço de 40 a 45 centavos por 30 quilogramas, e o decreto de 24 de
Setembro de 1903, pelo qua1 a Madeira obteve mais 5 centavos nos preços minimos de cana, acrescimo este
que o decreto de 18 de Março de 1911 não alterou.
Actualmente e por fôrça do disposto no decreto n. 27.912, de 31 de Julho de 1937, o prêço estabelecido para
a cana em condições legais é de 7$60 por 30 quilogramas.
Algumas fabricas de aguardente pagaram a cana em 1918 por preços superiores aos estabelecidos no decreto
de 1911, mas o govêrno, a titulo de proteger o distrito contra o perigo do alcoolismo, determinou que essas
fabricas cessassem a sua laboração, podendo daí em diante as fabricas matriculadas comprar o resto da
produção pelos preços legais.
É de advertir que por efeito de varias causas que são do dominio da tecnica, a quantidade de açucar
comercial obtida não corresponde exactamente á riqueza sacarina da cana, mas a diferença é muito menor
hoje do que outrora, mercê dos processos de fabrico e de extracção maxima adoptados modernamente na
ilha.
Antes do decreto de 1895 podiam os lavradores mandar fabricar açucar por sua conta, pagando com uma
parte deste produto ou com uma certa importancia em dinheiro o prêço ajustado para o fabrico, mas esse
direito não foi reconhecido pela fabrica do Torreão, depois que lhe foi permitido monopolizar os serviços da
produção do açucar para consumo da ilha.
A cultura da cana, que ocupava a superficie de 1:000 hectares em 1906, de 1:100 hectares em 1911, de 1:800
hectares em 1915 e de 1:500 hectares em 1918, é, diz o engenheiro-agronomo sr. João da Mota Prego, mais
rendosa do que a da vinha, dadas as condições do comercio dos nossos vinhos, mas menos do que a da
bananeira. No entender do mesmo agronomo, essa cultura “não pode abranger área muito superior á que
tem ocupado nos ultimos anos; o que poderá aumentar é a intensidade de produção por unidade de
superficie, sendo em todo o caso muito lento este aumento de produção, dependendo de uma cultura mais
intensiva, isto é consumindo mais capitãis e portanto contrariada pelo actual regimen de exploração
agricola, a parceria.
Na multiplicação da cana sacarina empregam-se de ordinario as extremidades dos colmos, que são muito
mais baratos do que as outras partes da planta, sendo uso plantá-los obliquamente a fim de facilitar a
formação das soqueiras.
A irrigação dos canaviais durante a estação quente realiza-se de 15 em 15 ou de 17 em 17 dias, o que não
quer dizer que eles não possam resistir a periodos mais longos de secura. Em certas localidades pouco
abundantes em aguas, deixam as canas de ser regadas ás vezes durante um mês. A cana Yuba é das castas
que têm sido cultivadas na Madeira, a que melhor resiste á sêca, devido ao seu caracter rústico.
A construção de levadas principiou na Madeira durante o seculo XV, sendo graças a ela que a cultura da
cana, iniciada no Campo do Duque, pode difundir-se por novas localidades primeiramente no sul e depois
no norte da ilha. As 300:000 arrobas de açucar que se fabricavam na ilha no meado do seculo XVI, levam-
nos a supor que haveria então cêrca de dois mil hectares cultivados de cana, sendo possivel que para a
irrigação das terras fossem aproveitadas também as aguas de muitas fontes que agora não existem, em
virtude da insensatez com que o povo destruíu as antigas matas madeirenses. As levadas de Santa Luzia, do
Castelejo e da Ribeira dos Socorridos já estavam construídas no seculo XVI, tendo pelo alvará de 19 de
Outubro de 1562 determinado a rainha regente D. Catarina, em nome de D. Sebastião, que esse e outros
canais se limpassem “bisto se perderem muytas canas daçucar & deixarem de se prantar outras por se nom
tirarem e limparem as levadas em tempo“.
“O mais antigo diploma relativo á industria saccharina, que ha no Archivo da Camara do Funchal, é de 1562,
segundo se vê das notas ás Saudades da Terra, e delle se evidenceia datarem de então os primordiaes
progressos desta industria na Madeira: concede a construção do primeiro engenho de agoa que aqui houve
para fazer assucar, vendo-se do theor que, antes desse, não existia aqui outro, com qualquer motor. Até esta
epocha o fabrico do assucar, pois, não podia deixar de ser escasso, e de mera laboração domestica“.
Em 1900 existiam na Madeira 49 fabricas de moer cana, das quais 16 trabalhavam pela força de vapor e 33
pela da agua; hoje é de 51 o numero desses estabelecimentos, dos quais um apenas, o de H. Hinton, fabrica
todo o açucar consumido no arquipelago ou exportado para Portugal. O poder de laboração desta ultima
fabrica, uma das mais vastas e perfeitas que se conhecem, atinge hoje 500 toneladas de cana em vinte e
quatro horas, ao passo que de 1895 a 1900 não ia esse poder além de 150 toneladas, no mesmo espaco de
tempo.
Não é só como planta industrial que a cana sacarina presta bons serviços; presta-os também como planta
forraginosa, pois que as suas fôlhas, enquanto verdes, são comidas com prazer pelos gados. A cana passa
geralmente por duas desfolhas, uma de Julho a Outubro, e outra antes da colheita.
É varia e abundante a legislação publicada sôbre o regime sacarino da Madeira. O diploma fundamental a
que se subordinam hoje a cultura e a industria sacarina é o decreto n1. 3.847, de 14 de Maio de 1934. Por
este diploma, a cultura da cana é limitada á que, tendo o minimo de 9 Baumé, fôr indispensavel para o
açucar consumido na Madeira e suplementarmente para o alcool e aguardente que tenham consumo no
arquipelago. Esta produção de cana tem a garantia de compra obrigatoria, ao prêço legal, pela fabrica de
açucar, e se em qualquer ano industrial o açucar resultante da sua laboração exceder o consumo local, a
fabrica poderá introduzir o excesso no continente até o limite maximo de 200 toneladas, com isenção de
direitos e impostos.
Para se chegar a este equilibrio, preceitua o referido decreto que a direcção da Alfandega do Funchal
determinará, pelas investigações e analises previas adequadas, os sitios e terrenos distantes das fabricas de
açucar e de alcool ou do mar, onde a cana tem menos de 9 Baumé, e se ainda assim a produção normal da
cana exceder as necessidades previstas o Govêrno poderá ordenar as providencias precisas para extinguir a
cultura onde esta seja menos conveniente.
As castas que vieram substituir a cana Bourbon estão extintas ou quasi extintas na ilha, sendo os canaviais
madeirenses constituídos agora, predominantemente, pela cana Yuba, importada do Natal por 1897, e por
algumas variedades da P. 0. J., importadas principalmente da provincia de Angola de 1933 em diante. A
cana Yuba, considerada de inferior qualidade no Brasil, na Mauricia, na Luisiana e noutros países onde é ou
tem sido cultivada, adaptou-se por tal forma aos terrenos e clima da nossa ilha, que é tida com justa razão,
como uma das mais resistentes e rendosas que aqui têm existido.
São proibidas desde 1934 plantações de cana de açucar em terrenos que a essa data não as tenham e ainda
naqueles em que forem substituidas por outra cultura, vindo mais tarde o decreto nº. 25.437, de 31 de Maio
de 1935, estabelecer que, quando se torne necessario substituir ou renovar as plantações de cana, para
manter os canaviais em condições economicas de exploração, podem os respectivos proprietarios, mediante
autorização previa da direcção da Alfandega do Funchal, proceder a essa substituição ou renovação até ao
limite de 80 por cento dos pés substituídos e 80 por cento da área ocupada.
Canais de Lava
Em diversas partes da Madeira encontram-se grutas escavadas na lava basaltica, em
geral da mais recente data, que se formaram por um mecanismo identico àquele que em certas regiões
vulcanicas do globo, como os Açôres e Sandwich, deu origem a formações analogas.
Uma estreita corrente de lava ainda fluida, encaixada em lama ou escorias, escorregava ao longo duma
encosta ou duma ravina, ao passo que o seu exterior, perdendo por irradiação grande parte do calor,
solidificava-se, deixando o nucleo a uma temperatura ainda bastante elevada para que a fluidez lhe
permitisse continuar a deslocar-se.
Resultava assim um canal em que o continente e o conteudo eram da mesma natureza apenas com a
diferença essencial da desigualdade de temperatura.
Esgotado o nucleo pastoso, restava essa especie de canalização vulcanica, cujo exemplo mais perfeito na
Madeira é a caverna situada perto da foz da Ribeira de S. Vicente, a qual poderá medir uns 80 metros de
comprimento e uns 4 a 5 de largura.
No Montado dos Pessegueiros, sitio da mesma freguesia de S. Vicente, e no Pôrto do Moniz, há também
destes canais, em correntes de lava moderna, e na costa meridional, tanto a leste como ao oeste do Funchal,
observam-se vestigios de tuneis desta natureza, na maior parte situados ao nivel do mar.
O Fojo, algar profundo escavado no tufo friavel por detrás da linha da costa e um pouco a leste da Ponta da
Cruz, parece ser o resultado duma erosão e do desmoronamento de um canal vulcanico que em epocas
remotas ali passava, desembocando no mar, e cujas ruínas, hoje confusamente acumuladas em blocos de
lava ennegrecida, apresentam superficies alisadas, com as estrias longas e paralelas que caracterizam as
paredes dos tuneis de lava. As aguas do mar, tendo passado através de uma furna de erosão marinha que
proxima existe, e havendo carcomido as rochas subjacentes ao canal, teriam provocado o aludido
desmoronamento, ajudadas pela agua da chuva que aflue á fossa, desbastando o tufo e alargando-lhe o
âmbito.
Entre o Fojo e a Ponta Gorda, não longe da Muralha dos Franceses, observam-se vestigios semelhantes de
outros canais derruídos, rodeados como o do Fojo, de tufo amarelo de lama vulcanica.
Suspensos do tecto de alguns destes tuneis, observam-se, como se fôssem estalactites ou semelhassem
lagrimas batavicas, curiosas excrescencias de lava vitrificada a atestar a fluidez da rocha sob a acção de uma
temperatura muito elevada. Exemplares dessas excrescencias, notaveis pelo tamanho e forma bizarras
foram encontrados numa gruta da Ribeira da Janela.
Canárias
São variaveis as opiniões acêrca do descobrimento do arquipelago das Canarias afirmando
alguns autores que estas ilhas foram descobertas três vezes, sendo a ultima nos fins do seculo XIV ou
principios do seculo XV. Diz o padre Antonio Cordeiro na Historia Insulana, que foram descobertas pela
“terceira vez no ano de 1417 pelos seus reis Betencores; e a ilha da Madeira tendo sido descoberta, e
povoada em 1420, e correndo logo grande fama della, esta moveo finalmente ao sobredito segundo rei das
Canarias a vender as quatro; em que reinava, ao nosso Lusitano e Serenissimo Infante D. Henrique..., e de
facto lhas vendeo por certas fazendas que o infante lhe deo na dita ilha da Madeira, para onde (e para perto)
o dito rei das Canarias se mudou, e já emfim sem reinado, e na Madeira ficou, e dura ainda hoje a
descendencia dos Betencores... “.
É já vasta a bibliografia que se ocupa do descobrimento deste arquipelago, da sua primitiva colonização, dos
direitos que os portugueses pretenderam ter á sua posse e das questões que por esse motivo se levantaram
entre Portugal e Castela.
A pesar das dificuldades de comunicação, foram relativamente frequentes as relações entre os vizinhos
arquipelagos das Canarias e Madeira no seculo XVII e XVIII.
Canario da Terra. (Serinus canaria)
Passaro da familia Fringilida, vulgar em todas estas
ilhas. Não emigra em longas viagens de alto mar, mas desloca-se segundo as estações e outras
circunstancias, dentro duma mesma ilha ou entre duas ilhas proximas. É ave peculiar aos arquipelagos do
Mar Macarronesio, isto é, Açores, Madeira e Canarias, sendo dela que deriva o canario de fora, de tão alta
estimação; não consta, porém, que tenha sido observada nas Selvagens. A ninhada compõe-se de 3 a 5 ovos,
pintalgados de violeta mais ou menos escuro sôbre fundo azul esverdinhado. É de facil domesticação, sendo
nalguns ilhéus ou ilhas deshabitadas do arquipelago que se encontram as formas mais notaveis pelo
amarelo brilhante da plumagem.
Canário de Fora
É a variedade domestica do canario de terra, originariamente importada da
Europa. É objecto de comercio dos passarinheiros do Funchal.
Vid. Bettencourt.
Canavial (Conde de)
João da Camara Leme Homem de Vasconcelos, 1º. visconde e 1º. conde de
Canavial, foi um dos mais ilustres madeirenses do seculo XIX. Nasceu nesta cidade a 22 de Junho de 1829 e
era filho do morgado Antonio Francisco da Camara Leme Homem de Vasconcelos e de D. Carolina Moniz de
Ornelas Barreto Cabral, ambos pertencentes a antigas e nobres familias desta ilha.
Concluídos no Funchal os estudos secundarios, foi para Montpellier e ali recebeu o grau de bacharel em
ciencias no ano de 1852 e o de doutor em medicina em 1857, revelando-se sempre um estudante
aplicadissimo e de uma privilegiada inteligencia. A sua pasmosa actividade, que foi até á morte uma das
caracteristicas do seu espirito, permitiu-lhe que ainda como estudante, tanto na Madeira como em França,
se dedicasse a diversos trabalhos literarios e cientificos, de que são prova elequente a sua assidua
colaboração em varias revistas e jornais, a tradução do drama de Alexandre Dumas O Conde de Herman,
publicado num volume de 250 paginas, e os Etudes sur les ombellifères venéneuses, I volume de 218
paginas, que mereceu alcançar parecer favoravel da Academia das Ciencias e Letras de Montpellier e o logar
de membro da mesma Academia.
Terminado o doutoramento, continuou os seus estudos scientificos, e em 1858, num concurso universal e a
pesar de estrangeiro, obteve o quarto premio na extensa memoria que escreveu subordinada ao tema Des
rapports de l’alimentation avec la respiration. Existe-t-il des aliments qui méritent le nom de respiratoires?
Escreveu também um largo estudo intitulado De la température de l’homme et des animaux, que teve uma
menção honrosa da academia imperial de medicina de Paris, uma desenvolvida memoria subordinada ao
titulo de Quelques considérations ayant pour but de démontrer que la théorie des combustions jette un
grand jour sur plusieurs points du domaine de la pathologie, que ficou manuscrita, mas que serviu de titulo
para admissão numa sociedade cientifica, e ainda um valioso trabalho, que foi premiado, sob a epígrafe de
De la chaleur animale, além de outros estudos que ficaram dispersos pelas revistas da especialidade, o que
tudo lhe abriu as portas de muitas academias e sociedades cientificas do nosso país e do estrangeiro.
Em 1859 fêz repetição de actos na Escola Medica de Lisboa, sendo no ano seguinte nomeado demonstrador
de anatomia da nossa Escola Medica e em 1867 professor proprietario. Como lente e director da mesma
Escola, teve que sustentar algumas lutas com os seus colegas no magisterio, publicando a tal respeito dois
grandes volumes, que, a pesar da parcialidade com que possam porventura estar escritos, são trabalhos de
incontestavel valor. Gozou como clinico de uma grande nomeada e era por todos considerado um medico
abalizado. Ele e o dr. Luz Pita foram, sem ofensa para ninguém, as duas grandes notabilidades medicas da
Madeira no seculo passado. A vastidão do seu saber e o seu grande *tacto clinico granjearam-lhe os foros de
homem de superior envergadura no campo da medicina. 0 conde de Canavial sustentou varias vezes na
imprensa polemicas com alguns dos seus colegas, escrevendo diversos opusculos, todos reveladores de um
raro talento e de uma vasta erudição.
Também trilhou, como outros homens superiores, os meandros tortuosos da politica, tornando infecundos
tantos dotes apreciaveis de talento e de saber, que, em outro campo, teriam sido um grande proveito e
alcance para todos. Uma parte consideravel da sua existencia foi absorvida pela politica esteril de
campanario, que o levou a rudes combates na imprensa, tendo redigido muitos jornais e publicado varios
folhetos, em que se revelou um polemista de rija têmpera e de uma espantosa fecundidade como escritor.
Neste particular é vastissima a sua obra, revestindo sempre a sua linguagem uma forma correcta e elegante,
embora despida de grandes primores de estilo.
Como chefe do distrito, foi dos mais activos e zelosos que têm estado á frente da administração deste
arquipelago. Trabalhou e trabalhou afanosamente pelo engrandecimento e pelas prosperidades da sua terra,
embora o não tivesse conseguido tanto quanto seria para esperar das diligencias e esforços empregados.
Sendo governador da Madeira, escreveu um livro intitulado Apontamentos para o estudo da crise agricola
no distrito do Funchal, que ainda hoje pode ser lido e consultado com proveito.
A grande actividade do seu espirito manifestou-se ainda como inteligente industrial, promovendo e
dirigindo a fundação da “Companhia Fabril de Assucar Madeirense“ e introduzindo um notavel
aperfeiçoamento nos processos destinados ao fabrico da aguardente, no sentido de ser melhor aproveitada a
materia prima nele empregada. Este aperfeiçoamento, de que obteve patente de invenção, deu logar a
contestações e polemicas, tendo sôbre o assunto publicado alguns opusculos. Também fêz estudos
proveitosos sobre o tratamento e afinamento de vinhos, e ainda acêrca desta materia igualmente escreveu
um interessante livro e publicou extensos artigos nos jornais.
A “Companhia Fabril de Assucar Madeirense“ teria sido um grande elemento de prosperidade para a nossa
terra, se não fôsse a guerra desleal e acintosa que lhe moveram.
Este homem notavel, que foi simultaneamente clinico, professor, funcionario publico, homem de ciencia,
jornalista e escritor, politico e industrial, e que em tôdas essas manifestações da actividade humana revelou
as qualidades dum privilegiadissimo espirito, poderia ter sido grande entre os grandes se, por vezes,
mesquinhas e estereis questões politicas e pessoais não tivessem em demasia absorvido as preocupaçoes da
sua vasta e robusta inteligencia.
Morreu o Conde de Canavial nesta cidade a 13 de Fevereiro de 1902, tendo 73 anos de idade incompletos.
Bibliografia
-A mais abundante copia dos seus escritos, que daria muitos volumes, ficou dispersa
pelos jornais do tempo e ocupa-se em grande parte da politica esteril de campanario, em que dispendeu as
mais vitais energias do seu grande talento e da sua pasmosa actividade. Nestes escritos jornalisticos
encontram-se também os inumeros artigos que escreveu acêrca dos seus inventos e aperfeiçoamentos
industriais, e sôbre assuntos medicos, alguns dos quais foram depois publicados em opusculos. Para isso foi
o redactor e proprietario de varios periodicos, como A Liberdade, O Distrito do Funchal, A Luz, e ainda
outros.
Dos seus trabalhos literarios, publicados em volumes e folhetos, podemos fazer menção dos seguintes:
-O Conde Herman, drama, por Alexandre Dumas. . ., traduzido por J. C. L., Funchal, 1850, de 250 pag;
Etudes sur les ombellifères venéneuses . . Montpellier, 1857, de 218 pag;
Relatorio e projecto de regulamento para a Escola-Medico- Cirurgica do Funchal. . . Funchal, 1868, de 123
pag. in folio;
Breves consideracões sobre uma laqueação da arteria illiaca 1868, de 23 pag.;
Uma lição de clinica cirurgica de 27 pag., 1878;
0 dr. Antonio da Luz Pitta o Pharmaceutico Francisco Xavier de Sousa e o Dr. João da Camara Leme, de 88
pag.in-folio, 1869;
Uma ophtalmia traumatica, lição de clinica. . ., 1868, de 29 pag.;
Discurso pronunciado... na reunião do partido progressista, 1870, de 18 pag.;
João Augusto d’Ornellas e a Nova Fabrica de Assucar, 1871, de 28 pag.;
Breves instruções sobre a cultura da beterraba de assucar, 1871, de 16 pag.,
Relatorio da Direcção da Companhia Fabril de Assucar Madeirense, de 70 pag. in-folio, 1871;
Companhia Fabril de Assucar Madeirense, relatorio da direcção, 1872, de 24 pag.;
Carta sobre a nova molestia da vinha na Madeira, 1872, de 21 pag.;
Guia do sericultor Madeirense, 1874, de 32 pag.;
Uma crise agricola, um caminho aereo e uma sociedade anonyma, 1876,de 146 pag.;
Discurso pronunciado em 20 de março de 1876 na sessao da abertura da Eschola Central da Associação de
Protecção e Instrução do Sexo Feminino Funchalense, Funchal, 1876, de 56 pag.;
Apontamentos para o estudo da crise agricola no Funchal, Funchal, 1879, de 110 pag.;
A Companhia Fabril de Assucar Madeirense, Roberto Leal e o Dr. Tarquinio T. da Camara Lomelino, 1879,
de 40 pag.;
Breve noticia sobre o tratamento do vinho pelo calor, 882, de 12 pag.;
Um privilegio industrial, 1883, de 93 pag.; Um governador civil, um delegado de saude e um ex-governador
civil substituto, 1883, de 24 pag.;
Uma acção civel contra o snr. W. Hinton.., 1884, de 79 pag.; A resposta do snr. Dr. Vicente Candido
Machado, 1884, de 112 pag.;
Um alvitre para a solução da crise por que está passando o país, 1884, de 71 pag.;
Breves considerações sobre os direitos do assucar estrangeiro, 1885, de 16 pag.;
A cultura da canna de assucar e os direitos sobre o assucar; 1885;
Felicitação aos illustres exploradores portuguezes, Hermenegildo Capello e Roberto Ivens, 1885, de 7 pag.;
Esboço de uma ideia sobre credito industrial, 1886, de 9 pag.;
Os vinhos da Madeira e o seu descredito pelas estufas, 1889, de 91 pag.;
Noticia sobre o vinho Cannavial, 1882, de 23 pag.;
Resposta á critica que fez o Ex.m Snr. Dr. João Augusto Teixeira... á “Noticia sobre o vinho Cannavial“,
1892, de 90 pag.;
Os tres systemas de tratamento dos Vinhos da Madeira, 1900, de 22 pag..
Surgiu há pouco (1921) a ideia de levantar-se nesta cidade um monumento ao conde de Canavial, tendo-se
para esse fim realizado uma reunião nos primeiros dias do mês de Outubro de 1920, com o fim de se
acordar na maneira de prestar uma publica e condigna homenagem àquele nosso ilustre conterraneo e
perpetuar entre nós a memoria do seu nome. Partiu esta iniciativa do nosso patricio o dr. Abel Capitolino
Baptista.
No extremo da avenida do “Dr. Manuel de Arriaga“ em frente do adro da Sé Catedral, está (1923) sôbre um
bem trabalhado pedestal de marmore, o busto em bronze do Conde de Canavial, o qual foi inaugurado a 2
de Março de 1922, tendo-se realizado a cerimonia do lançamento da primeira pedra do monumento a 1 de
Dezembro do ano anterior.
Este monumento foi transferido há poucos anos para o Campo da Barca e colocado nas imediações do Pôsto
de Desinfecção.
Para maior complemento do que acima fica dito, leiam-se os artigos Associação de Protecção e Instrução do
Sexo Feminino Funchalense, Companhia Fabril de Assucar Madeirense e Estufas, publicados neste
Elucidario.
Cana Vieira (Arundo Donax)
Graminea de colmos altos, ocos nos entrenós e lenhosos, muito
cultivada na Madeira e Pôrto Santo. Estes colmos servem para rocas, para canas de pescar, para apoio de
plantas trepadeiras e para outros fins. As fôlhas constituem uma forragem mediocre. Também lhe chamam
cana de roca.
Cancioneiro de Resende (A Madeira no)
Teofilo Braga, no seu livro Poetas Palacianos,
em que largamente se ocupa do “Cancioneiro de Resende“, insere um capítulo a que deu o título de “El-Rei
D. Duarte e o cyclo poético da Madeira“, onde pela primeira vez se expõe a ideia da existencia dum grupo de
cultores da poesia, naturais da Madeira ou nela residentes, que tiveram larga representação no mesmo
Cancioneiro e que pelo seu incontestável mérito literário poderiam constituir um ciclo ou escola à parte, no
meio da numerosa falange de poetas que figuram naquela célebre colecção. Parece-nos que o ilustre escritor
levou muito longe o conceito abonatorio, que benevolamente formou dêsse Ciclo ou dessa Escola
madeirense.
O dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, abalizado comentador das Saudades da Terra e também distinto critico
literário, discorda da opinião de Teofilo Braga, fazendo as seguintes sensatas considerações: “Estamos em
que o grupo dos poetas madeirenses deste periodo não constitue cyclo distinto e apenas ramo do cyclo
continental, porque não tem tipo proprio; a indole e a forma das produções desses poetas são comuns com
as dos demais poetas palacianos da mesma escola, colligidas no Cancioneiro Geral. Mas, nem por isso
aquele muito notavel grupo deixa de ser titulo bastante a que a ilha da Madeira tenha quinhão honroso na
historia ante-classica da literatura nacional, quinhão que T. Braga lhe revindicou“.
Vamos nós agora procurar fazer um breve inventário ou resenha dessas composições poeticas insertas no
“Cancioneiro Geral de Garcia de Resende“ percorrendo as páginas dos seus cinco volumes (ed. de 1910-
1918) e apresentando ao mesmo tempo umas rápidas notas de caracter pessoal, que melhor possam
identificar os nomes dos autores a que elas dizem respeito.
Abre o primeiro volume do Cancioneiro com a célebre contenda poetica acêrca de “O Cuydar e o Sospirar“, a
que em muitas obras se fazem frequentes referencias e em que tomaram parte diversos poetas palacianos,
ocupando todo êste elegante debate mais de cem páginas da edição que estamos compulsando. O Ciclo da
Madeira tem nele condigna representação com as composições do trovador João Gomes, de quem, em outro
lugar, já deixamos dito: “Não está averiguado se veio para este arquipelago como um dos seus antigos
povoadores ou se teria nascido na Madeira. Em diversos escritos é citado com o nome de João Gomes da
Ilha e também com o de João Gomes o Trovador, pois que cultivou com distinção a poesia, encontrando-se
treze composições suas no “Cancioneiro de Garcia de Resende“.
Casou no Funchal com D. Guiomar Ferreira, filha de Gonçalo Aires Ferreira, o conhecido companheiro de
João Gonçalves Zargo. Teve terras de sesmaria nas margens da ribeira, que tomou e ainda conserva o nome
de João Gomes. Foi pagem do infante D. Henrique e faleceu pelo ano de 1495. Além dos versos acima
citados e incluídos na disputa de “O Cuydar e o Sospirar“, encontram-se no Cancioneiro mais vinte
composições poeticas, todas subordinadas ao titulo *De Joham Gomez da Ylha+, embora com algumas
variantes na maneira de ortografar essas epigrafes. Como já notou o dr. Rodrigues de Azevedo foi João
Gomes o mais fecundo dos poetas do Ciclo da Madeira; a que podemos acrescentar que também foi de todos
o mais distinto.
A este se segue imediatamente no Cancioneiro o nome de Tristão Vaz Teixeira, que ali se encontra sob a
rubrica De Tristam teyxeyra capitãao de Machyco. Foi o segundo capitão donatario de Machico e filho do
primeiro donatario Tristão Vaz, tendo nascido no continente português e morrido na capital da sua
donataria, onde foi sepultado na capela de S. João, por ele fundada e erecta na igreja paroquial da vila de
Machico. Tornou-se mais conhecido pelo nome de Tristão das Damas porque, diz o doutor Gaspar
Frutuoso, foi muito cortesão, grande dizedor e fazia muitos motes ás damas, e era muito eloquente no falar.
Figura como uma das mais importantes personagens da interessante novela madeirense A Filha de Tristão
das Damas, da autoria do ilustre escritor e académico sr. J. Reis Gomes, achando-se ali reproduzida uma
das suas poesias que vem inserta no segundo volume do Cancioneiro.
João Gonçalves da Camara, filho de João Gonçalves Zargo e segundo capitão-donatario do Funchal, figura
na colecção de Garcia de Resende com três composições poeticas sob a rubrica de Joham Gonçalves capytão
da ilha. Segundo se depreende da informação dada por Frutuoso deve ter nascido por 1414 e faleceu no
Funchal a 25 de Março de 1501, sendo sepultado na igreja do convento de Santa Clara, junta dos degraus do
altar-mor, onde há poucos anos se descobriu a lápide que cobre a sua sepultura. Deu grande
desenvolvimento aos trabalnos da colonização iniciada por seu pai, tendo consideravelmente contribuído
para o progresso e engrandecimento da antiga vila do Funchal. Nas nossas porfiadas lutas em Marrocos
contra os mouros, distinguiu-se notavelmente pela sua destemida coragem e ainda pelos socorros materiais
com que algumas vezes concorreu para acudir ao iminente perigo em que se encontravam os dominios
portugueses daquela região. Foi o fundador do convento de Santa Clara, ao qual doou a grande propriedade
do Curral das Freiras no ano de 1492. Também figura como personagem notavel na novela A Filha de
Tristão das Damas acima citada.
É Manuel de Noronha outro poeta palaciano do “Ciclo da Madeira“, que tem algumas composições no
Cancioneiro. Nasceu no Funchal e era filho do segundo capitão-donatario João Gonçalves da Camara. As
antigas cronicas madeirenses falam com grande encarecimento dos serviços que prestou no norte de Africa
e da sua grande bravura como militar, referindo-se especialmente a um encontro “em que á testa de cento e
cincoenta cavaleiros quasi todos da ilha praticou prodigios de valor.
Com uma pequena produção de oito versos, deparamos com o nome de Pero Correia ou antes Pedro
Correia, conforme se lê em vários escritos que se ocupam das cousas da Madeira. Foi segundo capitão-
donatário do Pôrto Santo, embora Gaspar Frutuoso não o considere como tal. Por morte de seu sogro
Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatário daquela ilha, comprou Pedro Correia a capitania do Pôrto Santo,
que administrou durante alguns anos. Atingindo o filho e herdeiro de Bartolomeu Perestrelo a maioridade
impugnou a posse da donataria de que fora injustamente esbulhado, conseguindo rehavê-la, por mandado
do monarca e entrar na posse dela. Pedro Correia foi capitão-donatário da ilha Graciosa, que teve de
abandonar quando fixou residencia no Pôrto Santo.
Teofilo Braga e Rodrigues de Azevedo incluem também no Ciclo da Madeira os poetas do Cancioneiro
Duarte de Brito, Rui de Sousa e Rui Gomes da Gran, que o historiador das ilhas (Saud., 156) nos informa
serem casados com netas de João Gonçalves Zargo, e ainda João de Abreu, casado com uma neta de Tristão
Vaz, primeiro donatário de Machico, encontrando-se algumas composições desses poetas no primeiro e
quarto volume do Cancioneiro.
Parece dirigirem-se ainda a um poeta da Madeira as seguintes palavras de Teofilo Braga: “Em uns versos de
Francisco da Silveira, escritos em 1498, apodando um fidalgo da ilha da Madeira, que andava em Castela,
refere-se ao Conde de Tendilha, como poeta, pai do chefe da escola de Sevilha Diogo Hurtado de Mendonça:
“Diga o Conde de Tendilha
e a senhora Bobadilha
se da ilha do Funchal
foi homem tam por seu mal
a Castilha“
Esta composição é extensa e tem por título (Canc., IV-230): “Do coudel moor Francisco da Sylveira estando
em Portugal a estas ceroylas de Manuel de Noronha, as quaes mandou a Castela“. Dela não se pode deduzir
com clareza o comentário feito por T. Braga, que certamente teria tido outro elemento de informação, além
do que lhe foi fornecido pelo contexto da referida composição poetica.
Cane (Ella and Florence du)
E.: The Flowers and Gardens of Madeira, London, 1909, I vol..
Caneja (Mustelus laevis)
Peixe cartilaginoso da familia Carchariida, de relativa frequencia
nestes mares. Pescam-no perto da costa, em rêde ou aparelho de anzol, como o espinhel e outros.
Dentre os chamados peixes de coiro, é um dos que possuem sabor mais agradavel.
Caneleira (Cinnamomum zeylanicun)
Arvore da familia das Lauraceas, muito cultivada
nas quintas e jardins da Madeira. É muito ornamental e boa arvore de sombra, de fôlhas persistentes, mas a
sua casca é pouco aromatica e sem nenhum valor comercial. Só temos visto na ilha a variedade Cassia.
Canforeiro (Cinnamomum Camphora)
Arvore da familia das Lauraceas, originaria do
Japão e muito cultivada nas quintas e jardins do Funchal. Produz a cânfora do comercio, a qual se obtém
metendo pequenos pedaços do tronco e ramos da arvore num vaso de ferro, cuja tampa deve ser
atravessada por palhas de arroz. Pelo aquecimento a cânfora volatiliza-se e adere á palha, produzindo-se
assim a cânfora bruta, a qual tem uma côr acinzentada. Este produto dá pela sublimação a banho de areia a
cânfora das farmacias. O canforeiro é uma boa arvore de sombra, de fôlhas persistentes.
Canhas (Freguesia dos)
“... e passando huma ribeira que está além desta Ponta do Sol, traçou
em huma ladeira huma igreja do apostolo Santiago, e além achou ainda o fogo que mandou pôr pela costa;
pelo que não poderam passar, por estar o arvoredo muito cerrado, e haver grande fogo em parte delle. Por
isso desceram a uma ribeira, e, sempre ao som da agoa, foram dar ao mar, onde acharam os bateis“. Este
trecho de Frutuoso, que se refere á primitiva exploração feita por Zarco e alguns dos seus companheiros da
descoberta, dá-nos noticia da sua passagem pelos terrenos que depois constituíram a freguesia dos Canhas
e, portanto, das pessoas que primeiramente atravessaram as florestas virgens que cobriam os mesmos
terrenos.
É bem conhecida a origem do nome desta paroquia. Uma familia de apelido Canha, que ali se estabeleceu
pelos primitivos tempos da colonização, deu ás suas terras o nome de Canhas, que depois se transmitiu á
futura freguesia, e do que essas mesmas terras foram o antigo e originario nucleo. Afirmam alguns, e entre
eles o autorizado comentador da Historia Insulana, que foi João de Canha, escudeiro do duque de Vizeu D.
Diogo, um dos primeiros povoadores dos Canhas, que ali teve terras de sesmaria, aforando-as a D.
Constança Rodrigues de Almeida, viuva de João Gonçalves Zarco, e que seu filho Rui Pires de Canha foi o
fundador da capela de São Tiago, onde depois se estabeleceu a sede da paroquia. 0 ilustre anotador das
Saudades ds Terra é, porém, de opinião que Rui Pires de Canha é colonizador mais antigo do que João de
Canha, não indicando o grau de parentesco que porventura existiria entre estes dois individuos. 0 sentir
mais comum e de varios nobiliarios que consultámos, é que João de Canha se estabeleceu ali
primeiramente, sendo Rui Pires de Canha um dos seus descendentes e que também adquiriu varias terras
dentro dos limites desta futura paroquia.
O alvará regio de 30 de Janeiro de 1577 cometeu ao bispo diocesano D. Jeronimo Barreto a faculdade de
criar esta freguesia, que somente alguns anos depois ficou definitivamente constituída, tendo sido
desagregada da paroquia da Ponta do Sol. 0 primeiro vigario nela provido foi o padre Diogo da Silva, com a
côngrua anual de 20$000 réis, que pelo alvará de 10 de Julho de 1653 passou a 19$000 réis em dinheiro,
um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho. A Diogo da Silva sucederam, como parocos desta
freguesia, Belchior Alvares de Araujo, Antonio Fernandes, Amaro de Freitas, Francisco Rodrigues e Antonio
Novais Ferreira, no periodo decorrido da sua fundação até o ano de 1647.
A nova paroquia instalou-se na capela de São Tiago, fundada, como dissemos por Rui Pires de Canha, sendo
certo que outros a dão como edificada por Braz da Camara ou ainda por Rafael Castanho. Não sabemos
quando a sede da freguesia foi transferida desta capela para a nova igreja, nem em que ano se procedeu á
construção desta. Conjecturamos que se erigiu o novo templo no primeiro quartel do seculo XVI, sabendo
no entretanto que em 1676 mandou o Conselho de Fazenda executar nele importantes reparações na capela-
mor, e que D. José I, por alvará de 1752, ordenou que se fizesse a reconstruçãp da igreja paroquial. A
primeira pedra foi lançada solenemente a 22 de Julho de 1753, sendo a 4 de Março de 1756 passado o alvará
episcopal que autorizou a sua benção e sua abertura ao culto, o que teve logar pouco tempo depois.
Numa visita pastoral ordenou o prelado diocesano ao paroco Antonio de Caires, que requeresse a criação
dum curato, em atenção ao desenvolvimento que já tinha atingido a população, sendo o logar de coadjutor
criado pelo alvará regio de 7 de Dezembro de 1731, com a côngrua anual de um moio e meio de trigo e uma
pipa e meia de vinho.
Existem nesta freguesia as capelas de Santo André Avelino, de Nossa Senhora dos Anjos e do Sagrado
Coração de Jesus. Teve, mas já desapareceram, as capelas de São Tiago, de Nossa Senhora do Monte e
Sant’Ana, de Nossa Senhora da Anunciação e de Nossa Senhora do Socorro. A todas elas faremos referencia
especial no logar competente.
Conserva ainda esta freguesia alguns dos antigos usos e tipicos costumes dos camponeses madeirenses, que
por tôda a parte vão inteiramente desaparecendo. As saias de vestido, de fabrico caseiro, tecidas ás riscas de
côres vivas e variadas, de aspecto tão pitoresco, e bem assim as capas curtas, de pano escuro, com bandas
aos bicos e orladas de fita de sêda azul, são ainda geralmente usadas nesta freguesia, dando nos arraiais e
ajuntamentos do povo uma feição caracteristicamente regional e sobremaneira interessante, que pena é vê-
las substituídas por umas modas ridiculas, que tão mal se ageitam ás simples e modestas mulheres dos
nossos campos. Uma velha usança ainda aqui predominante no modo do tratamento, em que sempre se faz
o emprêgo da segunda pessoa do plural, não deixa de merecer o devido registo neste logar. Podeis ajudar-
me?, ide lá, vinde cá, e tantissimas outras são as frases de uso comum e quotidiano no tratamento familiar
dos habitantes desta paroquia.
Os seus principais sitios são Lombo da Piedade, Achada e Levada do Poiso, Anjos, Barreiro e Feiteiras,
Carvalhal e Carreira, Serrado e Cova, Cruz, Fajã e Eiras, Lombo dos Canhas, Outeiro, Poiso, Salões e Levada
da Madalena, Socorro e Vale e Cova do Pico.
Há ali um pequeno porto, chamado dos Anjos, por ficar no sitio deste nome, e neste sitio se levanta uma
capela conhecida pela invocação de Nossa Senhora dos Anjos. 0 movimento comercial e de passageiros da
freguesia faz-se principalmente pela vila e pôrto da Ponta do Sol. A pesar de poder considerar-se uma
povoação do interior, pois que o mar apenas banha uma parte muito insignificante da sua costa, é no
entretanto um centro fabril de certa importancia e muito superior a um grande numero de outras freguesias
do litoral. Existem ali quatro fabricas de manteiga, uma de queijos, duas de aguardente, uma de serragem
de madeira e uma de massas alimentícias.
Tem uma escola do sexo masculino, criada há cêrca de 50 anos, e uma do sexo feminino, de criação recente.
Destinadas á irrigação desta freguesia e tendo nela origem, existem as levadas do Pico e das Cruzes.
Os Canhas confinam ao norte com as serras que entestam com o Paul da Serra, ao sul com o oceano e
Madalena do Mar, leste com a Ponta do Sol e oeste com o Arco da Calheta. Tem 3882 habitantes.
Caniçal (Freguesia do)
No extremo leste da Madeira se encontra esta pequena e solitaria
freguesia. É uma aldeia de pobres pescadores, que demora entre as alcantiladas rochas que a separam de
Machico e os terrenos de caprichoso recorte e de acidentado relêvo que formam a ponta de São Lourenço.
Pode afirmar-se que fica isolada do resto da ilha, embora não esteja dela separada pelo oceano, em virtude
da dificuldade das comunicações, que, apenas em circunstancias de extrema necessidade e somente quando
o estado do mar o não permite, se estabelecem com a vizinha freguesia de Machico, através dum estreito
carreiro praticado na rocha, por vezes abrupta e sempre semeada dos mais arriscados e iminentes perigos. A
existencia dos seus habitantes decorre entre os labores da pesca, a que principalmente se entregam, e o
amanho e cultivo de algumas terras. Vivem muito abaixo duma estricta mediania, e quando estala a procela
e ondas alterosas vêm fustigar a costa, impedindo as labutas do mar, a miseria e a fome entram em muitos
casais e ali estadeiam todo o seu cortejo de horrores. É uma gente pacifica e ordeira, acostumada ao
remanso feliz daquele isolamento e daquela tranquilidade, desconhecendo os confortos e comodidades dos
centros populosos e não invejando, portanto, os gozos e atractivos que esses meios, onde impera o bulicio e
o prazer, proporcionam aos eleitos da fortuna.
A origem do seu nome deve ser a mesma que apontamos para a freguesia do Caniço, e, adoptando-a como
tal, não nos parece andar muito distanciados da verdade.
0 nucleo primitivo da colonização desta freguesia “provem, diz o dr. Azevedo, da fazenda povoada no sitio
assim chamado (do Caniçal), a qual pertencia a Vasco Martins Moniz, fallecido em 1510; este fez ahi
morgado, por testamento de 5 de setembro de 1489, a favor de seu primogenito Garcia Moniz, o qual foi
senhor do Caniçal e fundador da igreja do logar, no primeiro quartel do seculo XVI“.
Mais velho, mas talvez ainda contemporaneo de Vasco Martins Moniz, foi João Teixeira, terceiro filho do
descobridor Tristão Vaz, o primeiro donatario de Machico, e dele diz Gaspar Frutuoso: “... foi grande
caçador e inclinado a montear, e por essa causa havia na Villa de Machico huma coutada sua no Caniçal, de
tanta caça de coelhos, perdizes, pavões, e muitos porcos javaliz, que se affirma que era a melhor coutada de
todo o Portugal: o que dá a entender huma carta que hoje em dia está na Camara de Machico, escripta por
El-Rey D. Manoel aos officiaes della, em que lhes encomenda muito que tenham estreita conta com a
coutada dos filhos do primeiro capitam, e que ninguem entre nella, porque lhe inculcavam e affirmavam
que, se elle acertasse vir á ilha, em nenhumas outras terras podia montear e caçar, senão nesta do Caniçal, e
campos de Sancta Catharina“.
Embora nos pareça haver algum exagero nas palavras do cronista, devemos no entretanto acredirar que a
coutada tinha importancia, e os terrenos que a constituíam ainda hoje conservam o nome de Terras de João
Teixeira.
O Caniçal é a mais antiga das pequenas paroquias desta ilha. 0 seu isolamento e dificuldades de
comunicações com as povoações vizinhas mais ainda do que o numero dos seus moradores, aconselharam a
criação da freguesia, o que se deu pelos anos de 1561, pois nesta epoca nem chegariam a 15 os casais que a
povoavam. 0 alvará regio de 12 de Setembro de 1564 fixou em 14.300 réis o vencimento anual do pároco,
que foi respectivamente aumentado pelos alvarás de 24 de Novembro de 1572, 10 de Setembro de 1589, 22
de Outubro de 1592 e 31 de Agôsto de 1609, ficando então a perceber anualmente a côngrua de 24.000 réis
em dinheiro, um moio de trigo e uma pipa de vinho, o que em atenção á população, constituía um ordenado
superior ao de outros vigarios, o que se justificava pela pobreza e isolamento do logar. Sabemos que no
periodo decorrido de 1590 a 1660 foram párocos nesta freguesia os padres Amador Caldeira, Antonio
Ferreira de Quental, Matias Catanho e Vicente Luiz.
Foi na capela de S. Sebastião, fundada por Garcia Moniz no primeiro quartel no seculo XVI, que se instalou
a sede da nova freguesia. Por 1594 se acrescentou ou reedificou a mesma capela, deixando-a em tal estado
de ruína o terramoto de 1748, que uma testemunha contemporanea diz que *não tem outro remedio senão
nova edificação+. A 9 de Junho de 1749 se lançou a primeira pedra para a construção do novo templo, que é
o actual, procedendo-se á sua benção solene no dia 13 de Dezembro de 1750. Foi erigido em sitio um pouco
afastado do da primeira igreja, conservando este ainda o nome de Sitio da Igreja Velha.
Tem esta paroquia a capela de Nossa Senhora da Piedade, pitorescamente situada no alto dum monte e a
debruçar-se sôbre as aguas do oceano. Foi construída no monte Gordo ou da Piedade, a distancia de 4
quilometros da igreja paroquial. É ocasião de fazer referencia á original procissão que todos os anos se
realiza em direcção a esta capela, saindo o prestito religioso da igreja paroquial a caminho da praia, onde
toma alguns barcos vistosamente engalanados, sendo de perto seguida por um numero consideravel de
pequenas embarcações á vela até a raiz do monte, fazendo-se aí o desembarque e em seguida a penosa
ascensão da aprumada escarpa, dando por fim entrada na pequena e solitaria ermida.
Os terrenos desta freguesia então em grande parte por cultivar, devido á escassez de aguas de irrigação. Tem
falta de fontes de agua potavel e não é atravessada por ribeiras. 0 autor das Saudades, referindo-se
certamente a uma epoca muito anterior àquela em que este livro foi escrito (1590), diz o seguinte:
“Para se regarem canas de assucar nesta villa (Machico) e para o Caniçal, se tirou huma levada d’agoa de tão
longe, que do logar onde nace até a villa serão quatro legoas e meya ou perto de cinco, na qual se gastaram
mais de cem mil cruzados, por vir de grandes serras e funduras; e dizem que na obra della se furaram dous
picos de pedra rija, por não haver outro remedio. Raphael Catanho, genoes, com o grande spirito que tem,
como quase todos os estrangeiros e principalmente os desta nação, foi o primeiro que começou a tirar esta
agoa, e depois El-Rey a mandou levar ao cabo: e, pelo muito custo que fazia, ja se não usa. A esta passagem
de Frutuoso acrescenta o padre Fernando Augusto de Pontes, no seu interessante livro Excursões na
Madeira,: “é esta mesma levada a que abastece de agua a quinta do Palheiro Ferreiro“. Parece que noutros
tempos teve esta freguesia uma notavel arborização, e ainda hoje, ao norte dela, se encontram algumas
matas, restos talvez das antigas florestas.
Nos limites desta paroquia ficam os conhecidos Fosseis, que são um dos pontos de maior interêsse que esta
ilha oferece ás observações dos naturalistas. A eles nos referimos em outro logar. (Vid. Corpos Calcareos da
Piedade).
A ponta de S. Lourenço com seu ilhéu adjacente, onde estão instalados um farol e uma estação telegráfica e
semafórica, merecem mais demorada referencia, o que faremos em artigo especial.
Entre a povoação e a ponta de S. Lourenço fica a interessante e pitoresca baía da Abra, não menos vasta do
que a de Machico, e muito abundante em peixe. Houve o pensamento de ali se construir um porto de abrigo
e arsenal de marinha, chegando para este fim a realizarem-se alguns estudos no primeiro quartel do seculo
passado.
Aquém desta baía, isto é, entre ela e o povoado, fica uma pequena praia que tem o nome de Prainha, e que é
bastante visitada pelos veraneantes que passam a estação calmosa na vila de Machico. É a unica praia de
areia que tem esta ilha, ficando situada ao fundo duma pequena e pitoresca enseada. Nas imediações dela se
levantava a antiga igreja, e hoje prepara-se ali a construção dumas salinas.
Com excepção da parte povoada, é esta freguesia em geral muito montanhosa e de um grande acidentado
nos seus terrenos, podendo fazer-se menção dos montes ou picos do Penedo do Saco, do Junqueiro, Lagedo,
Cancela, Judeu, Dragoal, Tojal, Facho e Castanho, ficando o alto deste a mais de 600 metros acima do nivel
do mar. O pico da Cancela é uma cratera extinta, e das suas imediações se avista a ponta de S. Jorge e a ilha
do Pôrto Santo, sendo nesta eminencia que verdadeiramente começa o cabo ou ponta de São Lonrenço.
Os principais sitios são Banda do Silva, Serrado do Marmeleiro, Entre as Aguas e Banda de Além.
Caniço
Rêde de canas ou de varas delgadas sobre a qual se colocam as castanhas que se querem secar.
No compartimento oude se procede á secagem, abre-se no solo uma pequena escavação, colocando-se aí
lenha a que se lança fogo, o qual se não deve deixar apagar emquanto dura a operação. Só o fumo deve
chegar ás castanhas, e quando estas estão secas, são pisadas com os pés dentro de cestos, a fim de largarem
a casca.
Caniço (Freguesia do)
Phragmites communis é o nome que a ciencia dá ao carriço ou também
caniço, planta que por ali fartamente abundava nos tempos da descoberta. Frutuoso diz: “...Ponta de
Oiveira... está ao mar de huns logares que chamão Caniço, por nelle estarem as terras cobertas de hum
carriço, como canas delgadas, donde tomou o nome, ainda que corruptamente, porque esta erva, que
chamam carriço, tem huns grellos como compridas canas. O qual logar do Caniço he fim da jurisdição de
Machico, e principio da jurisdição do Funchal“. Lá diz Manuel Tomás, na Insulana:
Hum logar depois neste carriço
Por corrupção se chamará Canisso.
Após o descobrimento e para iniciar os trabalhos da colonização, dividiram João Gonçalves Zarco e Tristão
Vaz as terras da Madeira em duas capitanias (V. Capitanias), assinalando-lhes os limites e demarcando-lhes
as areas da sua jurisdição. Uma linha divisoria partindo da Ponta de Oliveira e terminando na Ponta do
Tristão, separava os dominios dos dois capitãis-donatarios. Tem, pois, o Caniço ligado o seu nome a esta
delimitação de fronteiras, dando-se mais tarde a singularidade de pertencer esta freguesia á jurisdição das
duas capitanias.
Fora do Funchal e Machico, foi o Caniço um dos primeiros logares povoados desta ilha e onde sem demora
se procedeu ao arroteamento e cultura das terras. Ali houve varias fazendas povoadas, e uma delas com
capela e capelão privativo, ainda antes da criação da paróquia. Alguns dos primitivos colonizadores aqui
fizeram assentamento e tiveram muitas terras de sesmaria, e outros vieram mais tarde estabelecer-se,
alargando a área da população e a cultura e amanho dos terrenos incultos. Entre os antigos povoadores e
sesmeiros podem citar-se Alvaro de Ornelas, o genovês Lucas Salvago, João Gavião, Gaspar do Rêgo e Vasco
Fernandes Rêgo, Vasco Martins Moniz, Afonso de Viena e outros, a alguns dos quais nos referiremos em
especial.
Dentre estes povoadores alguns havia de origem fidalga, que conservaram os seus privilegios de nobreza e
aqui fundaram varias casas vinculares, devendo destacar-se a da Consolação, instituída por Alvaro de
Ornelas, que é das mais antigas da Madeira e data dos fins do seculo XV, e o morgadio fundado por Vasco
Martins Moniz, o de Matos Coutinho e o de João Afonso.
O aumento de novos povoadores com a sua mais proxima descendencia, formaram dentro de poucos anos
um nucleo muito importante de população, que logo aconselhou a criação duma paroquia. A maior
densidade dos casais estendia-se pelas duas margens da ribeira, que era a divisoria das duas capitanias.
Dum e doutro lado desta linha de agua se levantaram duas igrejas paroquiais, tendo a da margem direita o
orago do Espirito Santo e a da margem esquerda o de Santo Antão. Os terrenos que ficavam em tôrno da
primeira tinham a denominação de Caniço para a cidade e os que ficavam em torno da segunda chamavam-
se Caniço para Machico. Estas designações indicavam claramente as capitanias a que pertenciam.
Devemos com bons fundamentos supor que rivalidades de jurisdição ou desinteligencias havidas entre os
habitantes das duas margens da ribeira, determinassem a construção das duas igrejas, situadas a tão
pequena distancia uma da outra, não se conhecendo motivo algum plausivel que justificasse essa
construção. Elas implicavam a criação de duas paroquias, que apenas existiram nominalmente, pois sempre
tiveram apenas um pároco a servi-las, embora durante alguns anos os oficios do culto se realizassem
alternadamente nas duas igrejas. As varias referencias que temos encontrado a criação da freguesia,
côngruas dos parocos, construção e repairos do templo, etc., não aludem de modo especial a nenhuma das
duas igrejas, mas apenas a uma, sem precisamente a determinar, o que mais nos confirma na ideia de que
só existiu uma paróquia, embora os seus terrenos pertencessem ás duas capitanias. Em 1538 o respectivo
pároco dizia em documentos oficiais: *Fr. António Pires Cabral, vigario que sou das igrejas do caniço+.
Assim foi antes, e do mesmo modo continuou a ser no futuro, até que definitivamente se passou a fazer
sómente o serviço religioso num dos templos. Parece que a igreja de Santo Antão, situada na margem
esquerda da ribeira, foi com o decorrer dos tempos ganhando uma certa supremacia sobre a do Espirito
Santo, sendo esta a primeira que começou a entrar em ruínas e a ser inteiramente abandonada.
O dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo assinala o ano de 1440, como o da criação desta paróquia, sendo certo
que é uma das mais antigas desta ilha.
O erudito anotador das Saudades da Terra coloca a igreja do Espirito Santo na capitania de Machico e a de
Santo Antão na capitania do Funchal, o que não é exacto, segundo pudemos verificar em documentos
existentes no arquivo desta freguesia. O serviço paroquial começou simultaneamente nas duas igrejas? E,
no caso contrario, qual das duas teria tido a primazia no exercicio dos actos do culto? Não o sabemos dizer.
Como acima fica indicado, já em 1538, se exerciam as funções culturais nas duas igrejas, tendo o alvará
regio de 21 de Fevereiro de 1558 acrescentado a côngrua do respectivo pároco, que ficou sendo de 8$300
réis anuais. No Indice Geral do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda da Ilha da Madeira se lê:
“alvará de 25 de novembro de 1572 a favor do vigario Belchior Mourato, de acrescentamento de 2.200 reis,
dois moios de trigo e uma pipa de vinho sobre os 8.300 que já tinha, para ter o total ordenado de 25.000
réis, arbitrado pela Mesa da Consciencia aos vigarios que tivessem mais de 100 fogos, reputado o moio de
trigo em 6.000 reis e a pipa de vinho em 2.500 reis”.
No periodo decorrido de 1538 até o fim ds seculo XVIII, foram párocos desta freguesia Antonio Pires
Cabral, Belchior Mourato, Francisco de Sousa, Jeronimo Teixeira de Góis, Vicente Luiz, Jeronimo Gomes de
Agrela, Andre Moniz de Meneses, Manuel Gomes Jardim João Baptista Spinola, Pedro Pereira da Silva José
Lomelino Barreto e Antonio Francisco Spinola. O padre José Lomelino Barreto, que tanto diligenciou a
construção da nova igreja e para ela ofereceu o terreno necessario, paroquiou na freguesia do Caniço num
periodo superior a 40 anos.
Teve a igreja paroquial do Caniço o cargo de tesoureiro, sacerdote encarregado de auxiliar o vigario nos
serviços do culto e em especial na parte administrativa dele, sendo este logar criado anteriormente a 1550,
pois que um alvará regio de 6 de Fevereiro desse ano lhe acrescentou o vencimento e o fixou em 6$000 réis
em dinheiro e trinta alqueires de trigo anuais, tendo por outros diplomas datados de 18 de Setembro de
1608, 4 de Julho 1653 e 28 de Setembro de 1668 sido novamente aumentada essa côngrua, passando
definitivamente a ser de 10$000 réis por ano em dinheiro e um moio e meio de trigo e uma pipa e meio de
vinho. Este logar foi extinto por alvará regio de 27 de Dezembro de 1676.
igreja, que resultaram sempre
O curato desta freguesia teve sua criação por alvará de 20 de Outubro de 1605, coexistindo com o logar de
tesoureiro durante anos, sendo de 20$000 réis a sua côngrua anual. Foram Lopo Gomes Vieira, Vicente
Luiz e Joronimo Gomes de Agrela os primeiros sacerdotes que aqui exerceram esse logar.
Também houve nesta igreja o cargo organista, que percebia o vencimento de alqueires de trigo por ano.
Da capela que aqui existiu, com o seu capelão privativo, antes da criação da paroquia nada podemos dizer
relativamente ao ano de sua construção, nem do local em que foi erguida. Igualmente ignoramos se teria ela
sido transformada em igreja paroquial quando se deu a criação da freguesia. Estamos na mesma ignorancia
com respeito á edificação das igrejas do Espirito Santo e Santo Antão, situadas em cada uma das margens
da ribeira que dividia as duas capitanias.
Em 1778 achava-se inteiramente destruído o primeiro daqueles dois templos e o segundo em adiantado
estado de ruína. Anteriormente a esta epoca tinham-se empregado aturados esforços para a construcão
duma nova
levantado serias
desinteligencias acêrca do local preferido para a sua construção querendo uns que fôsse na margem
esquerda da ribeira e outros na margem direita. Eram as antigas rivalidades que ressurgiam. Os bons oficios
do vigario de então, o padre José Lomelino Barreto, que no caso interpôs o valimento e influencia de certas
entidades oficiais, conseguiram remover tôdas as dificuldades, tendo a soberana, por sua ordem de 3 de
Março, mandado proceder á construção do novo templo, que é a actual igreja paroquial. Os terrenos para
esta edificação foram generosamente cedidos pelo padre José Lomelino Barreto, tendo-se lançado a benção
da pedra angular a 2 de Agôsto de 1779 e havendo-se benzido solenemente a nova igreja no dia 28 de
Outubro de 1783. No seu frontispicio lê-se numa lapide a seguinte inscrição: Sancto Spiritui Paraclito atque
divo Antonio abbati sacrum Maria 1º. Lusitan. regina fideliss. equestris D. N. J. C. ordinis gubernat
aedificavit: insulano tribunali regio curante. Anno )I). IDCCLXXX regni autem IIII.
Esta freguesia tem actualmente as capelas de Nossa Senhora da Consolação e da Madre de Deus, e já não
existem a de Nossa Senhora do Livramento, a de Nossa Senhora da Salvação e a de Nossa Senhora do
Socorro, ás quais tôdas nos referimos no logar competente.
Gaspar Frutuoso referindo-se ao Caniço, relativamente ao ano de 1590, em que escreveu as Saudades da
Terra, diz o seguinte:
infrutiferos, havendo-se
também
“Daqui adiante quase meya legoa está huma aldeya de duzentos fogos, com huma igreja da invocação do
Spirito Sancto, que se chama o Caniço, em huma ribeira que corre do Norte para o Sul, acompanhada de
muitas vinhas de muitos vidonhos e de boas malvazias. Ao mar deste logar está a Ponta de Oliveira, onde se
plantou huma por baliza da repartição das duas Capitanias, que por esta ribeira se partem, ficando a de
Machico ao Nacente, e a do Funchal ao Ponente, e por ella dizem que vai a demarcação da borda do mar do
Sul até a outra banda do Norte; porque deste Caniço até o longo do mar haverá hum quarto de legoa, onde
está o porto em que se carrega tudo o que ha nesta parte. E chama-se Caniço de baixo, a respeito do outro
que Caniço de cima he chamado.
Por meados do seculo XV, quando se criaram as vilas do Funchal e Machico, foram também criados nesta
ilha uns dez logares, que eram povoações intermediarias entre a paroquia e a vila, contando-se neste
numero a freguesia do Caniço, o que prova a sua já relativa importancia naquela epoca.
Do Caniço se desmembrou a Camacha em 1676.
Em outro tempo eram muito frequentes as comunicações entre as Desertas e o Caniço, devido talvez á
circunstancia dos pescadores desta freguesia frequentarem as aguas daquelas ilhas. Sem fazerem parte
desta paroquia, era no entretanto no Caniço que os barcos das Desertas aportavam mais vezes, e ate para ali
conduziam os cadaveres dos que morriam naquelas solitarias ilhas. Ainda não há muitos anos que os
trabalhadores ali empregados nos trabalhos de caça e pesca eram recrutados na freguesia do Caniço.
Foi natural desta freguesia Manuel do Nascimento Nobrega, a quem consagraremos um artigo especial.
Também aqui nasceu o Padre Jeronimo de Nobrega, que embarcou para a America do Norte e ali granjeou
fortuna avultada. Por varias vezes enviou para esta ilha, destinadas a estabelecimentos de caridade, somas
bastante consideraveis, que chegaram a muitos contos de réis. Também ofereceu á igreja da sua paroquia
natal algumas ricas alfaias.
Entre os acontecimentos que mais possam interessar á historia do Caniço, destacam-se os sucessos que se
deram com as tropas liberais e miguelistas, quando em 1828 atravessaram esta freguesia, e os lamentaveis
episodios dados por ocasião das supostas reuniões da Junta de Paroquia. Como estes assuntos farão objecto
de artigos especiais, por isso nos não ocuparemos deles neste logar.
Entre os privilegios e regalias concedidos a João Gonçalves Zarco, figurava o de que “ninguem nom faça y
moynhos, soomente elle ou quem lhe prouuer“. Afirma-se que o primeiro moinho que houve na Madeira foi
construído nesta freguesia, e ainda ali existe um sitio com o nome de Azenha, que não podemos no
entretanto assegurar que se refira aquela primitiva e de certo muito rudimentar fabrica de moer cereais.
O plantio da cebola quasi que na Madeira se restringia a esta freguesia, sendo nela muito consideravel a sua
cultura. Ainda é o logar que mais abundantemente produz este genero agricola, mas o seu cultivo está
actualmente bastante reduzido. Chegou a produzir 30:000 pesos, num valor aproximado de trinta contos de
réis, destinados na sua quasi totalidade á exportação.
Existe uma pequena industria local, que se pode considerar privativa desta freguesia e que consiste no
fabrico de chapéus feitos de fôlha de palmeira, usados pelos homens do povo. Têm em consistencia e grande
duração o que lhes falta em elegancia e maleabilidade.
Ha duas escolas, sendo uma do sexo masculino, criada por 1821, e uma de sexo feminino, de mais recente
criação.
Além da levada da Serra, é o Caniço irrigado pelas levadas do Pico do Arvoredo, de Baixo e da Azenha,
sendo cada uma constituída por uma sociedade de heréus e tendo a primeira os seus estatutos publicados
no Diario do Governo de 31 de Outubro de 1877. Estes mananciais têm todos a sua origem na Camacha.
É esta freguesia atravessada por uma ribeira, que tem diversos nomes segundo os logares ou sitios por onde
passa, e que nasce na freguesia da Camacha.
Tem um sofrivel pôrtoBo dos Reis Magos, onde há cêrca de 20 barcos de pesca. Existe um pequeno
desembarcadouro na ponta da Oliveira.
Principais sitios desta paroquia: Tendeira, Moinhos, Assomada, Atalaia e Portinho, Madre de Deus,
Zimbreiros, Caniço para Machico, Barreiros, Pedra Mole, Castelo, Serralhal e Amoreiras, Caniço para a
Cidade, Vargem, Azenha, Ribeira dos Pertetes, Livramento, Vale, Quinta, Abegoaria e Palheiro do Ferreiro.
No sitio dos Barreiros fica o chamado Pico do Telegrafo, donde se disfrutam belos panoramas e em dias
claros se avistam a travessa e a ilha do Pôrto Santo.
Confina o Caniço pelo norte, leste, oeste e sul, respectivamente com S. Gonçalo e o oceano.
A parte mais central desta freguesia dista 9 quilometros do centro da cidade e 8 da vila de Santa Cruz.
Pertence ao concelho e comarca de Santa Cruz, tendo já os povos em varias ocasiões pretendido que a sua
freguesia fôsse encorporada no concelho e comarca do Funchal.
A sua população é de 4697 habitantes.
Canning (W. P.)
Comandante da fragata inglesa Alligator, onde se acolheram o governador Valdez e
outros constitucionais, por ocasião da tomada da Madeira pelas tropas miguelistas, em 1828. Morreu
afogado no tanque de uma quinta pertencente a um negociante inglês, na tarde de 24 de Setembro de 1828.
Cantaria Mole
Aglomerado de cinzas negras, tornadas compactas pela pressão. É empregado em
fornos, fogareiros, pias, filtros etc..
Também se dá o nome de cantaria mole ás escorias vermelhas compactas, usadas para umbrais de portas,
nas casas dos campos.
Foi muito empregada em tôdas as construções dos edificios nos seculos XVI, XVII e XVIII, antes de se
generalizar o uso da “cantaria rija“ ou basalto poroso.
Cantaria Rija
Dá-se este nome ao basalto poroso de que se faz uso para umbrais de portas, degraus,
cunhais, etc.. A cantaria rija abunda nas proximidades de Camara de Lobos.
V. Basaltos.
Cantim
O cabo Cantim está situado na costa de Marrocos, entre os dois conhecidos pontos do litoral,
que são Mazagão, ao norte, e Mogadouro, ao sul. Fica equidistante destas duas cidades maritimas cêrca de
60 milhas. É este o ponto do continente africano cuja latitude corresponde sensivelmente á latitude da ilha
da Madeira O cabo Cantim está em 32 33’ N e demora umas 47 milhas para SO.
¼
S. do Cabo Branco do
Norte. Eleva-se precipitadamente até 60 metros sôbre o mar, e sustém na coroa uma pequena ermida. É
também o ponto da costa africana que fica mais proximo do nosso arquipelago, donde dista cêrca de 350
milhas.
Cão (Fr. Nuno)
Era freire da Ordem de Cristo, a que no espiritual pertencia o arquipelago da
Madeira (V. Ordem de Cristo). Foi um dos primeiros sacerdotes que a pedido do infante D. Henrique,
enviou a Ordem de Cristo a esta ilha, tendo mais amplas faculdades de jurisdição canonica do que os outros
eclesiasticos que então havia na Madeira. Exercia funções paroquiais em Nossa Senhora do Calhau e foi
depois pároco da freguesia da Sé, tendo sido investido no cargo de deão da Catedral, quando em 1514 se
criou esta diocese. Era o representante da Ordem de Cristo e desempenhava por isso funções de fiscalização
e superintendencia sobre diversos ramos da administração publica, deixando de si honrada memoria.
Capela de Cristo
V. Senhor dos Milagres de Machico (Capela do)
Capela Monumento
V. Nossa Senhora da Conceiçâo (Capela de)
Capelas
Diferiam dos morgadios em estarem os bens sujeitos a encargos pios. As capelas não podiam
ser alienadas, e os seus possuidores recebiam apenas uma parte dos rendimentos dos bens, sendo a parte
restante destinada á satisfação dos referidos encargos. Existia um tribunal chamado “Juizo dos Residuos e
Capelas“ (V. este nome) que exercia a fiscalização sôbre o cumprimento de todos os encargos pios e aplicava
as penalidades aos delinquentes.
Capelo (Felix de Brito)
Naturalista português nascido em Peniche a 4 de Março de 1838 e
falecido a 16 de Abril de 1879. E.: Peixes da ilha da Madeira, Açores e das Possessões Portuguezas d’Africa,
que existem no Museu de Lisboa (Jorn. de Sc. Mat., Phys. e Nat, t. III, p. 194 e 280, e t. IV, p. 83).
Capelo e Ivens (Os exploradores)
Entre as brilhantes recepções que na Madeira se têm
preparado a alguns dos seus mais ilustres visitantes, destaca-se a que a 12 de Setembro de 1885 se fêz aos
exploradores africanos e nossos compatriotas, os oficiais de marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens.
Numa reunião que alguns dias antes se realizara no Palacio de S. Lourenço, sob a presidencia do governador
civil Vasco Guedes, assentou-se no programa definitivo dos festejos e nomearam-se as comissões que
deviam dar plena execução aos numeros desse programa.
Na entrada da cidade construíu-se um improvisado cais de madeira, vistosamente engalanado, e aí se
efectuou o desembarque dos exploradores, que eram aguardados pelas autoridades, funcionarios publicos,
membros das comissões e por todas as pessoas de maior distinção desta cidade, além de muito povo. A
entrada da cidade e antiga Praça da Constituição achavam-se magnificamente ornamentadas, e á noite
foram iluminadas com grande brilho e profusão.
Após o desembarque, realizou-se uma recepção solene no Palacio de S. Lourenço, onde varios oradores
saudaram com entusiasticas alocuções os exploradores e estes receberam as homenagens da numerosa e
escolhida assistencia que ali se encontrava.
Á tarde foi oferecido nas salas do antigo “Club Funchalense“ um esplendido banquete de 60 talheres, a que
presidiu o conde de Carvalhal, e ali se pronunciaram varios discursos, que Roberto Ivens comovidamente
agradeceu em seu nome e no do seu companheiro de trabalhos.
Os exploradores percorreram em seguida as ruas e praças iluminadas, e Roberto Ivens entrando no edificio
da Associação Comercial, traçou, num mapa de Africa, um rapido esbôço da viagem de exploração que
acabavam de realizar através do continente negro, esbôço que por muitos anos se conservou na secretaria
daquela colectividade e que ainda por certo ali se encontra, religiosamente guardado.
As vastas e elegantes salas do “Club Funchalense“ novamente se abriram na noite do dia seguinte para o
esplendido baile que ali se realizou e que foi uma magnifíca festa, que muito impressionou os ilustres
exploradores e em extremo os penhorou.
Embarcaram no dia 14 de Setembro em direcção a Lisboa, onde os aguardava uma brilhante e entusiastica
recepção.
As ruas que pelo sul e norte ladeiam o Jardim Municipal, foram respectivamente postos os nomes de
Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens.
Capim (Panicum barbinode)
Graminea originaria do Brasil, muito cultivada nos arredores do
Funchal.
É planta vivaz, de colmos robustos e muito peludos nos nós, bastante apreciada pelos gados.
Capitãis-donatarios.
Capitãis-generais.
V. Donatarios.
Capitãis-mores
Foram extintos nesta ilha pelo decreto de 20 de Julho de 1832, que acabou com as
ordenanças ou terceira linha “com todos os seus postos de qualquer denominação“. Os capitãis-mores que
tinham como subordinados os sargentos-mores, deixaram de si triste recordação pelas arbitrariedades que
cometiam e pelas opressões e vexames a que sujeitavam os povos.
V. Ordenanças.
Capitanias
No primitivo sistema de colonização, fazia-se a divisão territorial dos nossos dominios
ultramarinos, para o efeito da sua administração publica, em provincias de maior ou menor extensão, a que
então se dava o nome de capitanias, tendo estas por chefe ou autoridade suprema local o capitão-donatario,
que em geral gozava de amplos poderes na direcção dos diversos negocios publicos. As primeiras capitanias
das nossas descobertas e conquistas foram as do arquipelago madeirense, tendo uma a sua sede na ilha do
Porto Santo e as outras duas em Machico e no Funchal.
A primeira compreendia apenas a pequena ilha do Pôrto Santo, tendo sido seu primeiro donatario
Bartolomeu Perestrelo, que foi dela um dos mais antigos povoadores e, pode afirmar-se, o fundador da vila
Baleira, capital da mesma capitania. Alguns autores têm caído no erro de considerar Perestrelo como
navegador e até como descobridor do Pôrto Santo, levados a isso pela circunstancia de haver sido o seu
primeiro donatario, o que nem sempre andava anexo ao facto da descoberta. A carta do infante D.
Henrique, fazendo a doação da ilha do Pôrto Santo a Bartolomeu Perestrelo é de I de Novembro de 1446,
isto é mais de vinte anos depois de começar a colonizaqão do arquipelago. Devemos supor que Perestrelo se
tivesse estabelecido no Pôrto Santo com todos os privilegios e regalias concedidos aos donatarios, e que a
carta do infante D. Henrique fôsse apenas a confirmação legal e autentica desses privilegios. 0 mesmo
devemos acreditar relativamente ás outras duas capitanias da Madeira. Na carta de doação diz o infante D.
Henrique: “Eu dou carreguo a Bertholomeu Perestrello, fidalgo de minha casa da minha ylha de porto santo
para que elle dito Bertholomeu perestrello ha mantenha por mim em Justiça & direyto & morrendo elle a
mim praz que seu filho primeyro ou algum se tal for tenha este carreguo pella guisa suso dita y asy de
decemdente em decemdente per linha dereyta... tenha... jurisdiçom... do ciuell & crime resalbando morte ou
talhamento de membro... “ Nesta carta se faz menção de diversos direitos, regalias e isenções concedidas
ao primeiro donatario, incluindo a arrecadação de varias contribuições e impostos. A capitania do Porto
Santo esteve na posse e superintendencia dos descendentes de Bartolomeu Perestrelo até ao tempo em que
o dominio filipino, com a nomeação dos governadores gerais, reduziu os donatarios do arquipelago a uma
situação muito subalterna e quasi meramente honorifica, continuando, porém, a cobrar importantes rendas
pelos primitivos privilegios que lhes tinham sido concedidos. Quando Portugal caíu sob o jugo castelhano,
era Diogo Perestrelo Bisforte o 6º. capitão-donatario da ilha do Porto Santo.
A ilha da Madeira foi dividida em duas capitanias, com as suas sedes no Funchal e Machico. Após a
descoberta e para darem comêço á colonização e povoamento das suas terras, procederam sem demora os
dois descobridores á divisão e delimitação delas, fixando-se uma linha divisoria que partindo da Ponta da
Oliveira ia terminar na Ponta do Tristão. Diz Frutuoso: *... Ponta de Oliveira, onde se plantou uma balisa da
repartição das duas capitanias, que por esta ribeira se partem, ficando a de Machico ao Nascente, e a do
Funchal ao Poente, e por ela dizem que vai a demarcação da borda do mar ao Sul até a outra banda do
Norte.., acrescentando em outro logar “...vem sahir a outra ponta da banda do sul, em que se fincou um
ramo ou pao de oliveira, que viera do Reino, por balisa desta jurisdição, donde ficou á ponta o nome Ponta
da Oliveira ... “
É datada de 8 de Maio de 1440 a carta de doação da capitania de Machico a Tristão Vaz pelo infante D.
Henrique, dizendo nela o doador que “dou carreguo a Tristão caballeyro de minha casa na minha ylha da
madeyra de a terra dees de além da ribeyra do Caniço dez passos como se bay pella ribeyra acima & de hi
atrabeçar a serra ate a ponta de Tristam... “. Este diploma é concebido em termos identicos á carta da
concessão passada a favor de Bartolomeu Perestrelo, sendo seis anos mais antigo do que o outro. Cabe aqui
a observação que já fizemos acêrca da doação do Pôrto Santo, devendo supor-se que em 1440 se deu apenas
a confirmação de direito, mas que já muito anteriormente existia ela de facto. 0 filho, neto e bisneto de
Tristão Vaz sucederam na capitania, sendo o ultimo, por nome Diogo Teixeira, destituído dala, por falta de
capacidade para a governar, tendo muito tempo depois morrido no Funchal, no ano de 1540. Em 1541 deu o
monarca a capitania a Antonio da Silveira, que muito se distinguiu na India, tendo-a anos depois vendido ao
conde de Vimioso, passando depois a seu filho Francisco de Portugal, que morreu num combate naval nos
mares dos Açôres, revertendo em seguida esta donataria á posse da coroa. No dominio castelhano foi
Tristão Vaz da Veiga (V. este nome) investido no logar de capitão-donatário de Machico.
É na carta regia de 16 de Agôsto de 1461, em que D. Afonso V confirma a doação do arquipelago de Madeira
a seu tio o infante D. Henrique, publicada a pag. 451 e seguintes das Saudades da Terra, que vem inserto o
diploma que faz a concessão da capitania do Funchal a João Gonçalves Zarco e que tem a data de I de
Novembro de 1450. As doações das capitanias do Porto Santo, Machico e Funchal são respectivamente de
1446, 1440 e 1450, causando bastante estranheza que a de mais recente data seja a do Funchal e ainda
posterior á do Pôrto Santo, quando muitas razões aconselham a supor que a concessão feita a Gonçalves
Zarco tivesse sido de tôdas a mais antiga. Não sabemos explicar o facto, acêrca do qual guarda o erudito
anotador das Saudades o mais completo silencio.
Os privilegios e regalias concedidos a João Gonçalves Zarco pela doação da capitania do Funchal, não
diferem essencialmente dos das outras capitanias. Quanto a impostos e contribuïções que os donatarios
podiam arrecadar em proprio proveito, fazem as cartas de doação menção dos seguintes: só eles podiam ter
moinhos ou azenhas para a moenda dos cereais; todas as serras de agua lhes pagariam um marco de prata
anual; aos donatarios pertencia o exclusivo de venda do sal; ninguém podia ter fornos ou fabricas de pão,
senão para uso domestico; pertencia-lhes o dizimo das rendas reais, e podiam conceder terras de sesmaria
em condições que os diplomas de doação não determinam. Além disso, tinham a superintendencia sôbre
todos os negocios de administração publica e julgavam e sentenciavam em todos os crimes, com excepcão
das causas de morte e talhamento de membros. (V. Donatarios).
A capitania do Pôrto Santo nunca chegou a atingir um grau elevado de prosperidade. A exiguïdade do meio,
o abandono a que foi votada pela metropole desde os tempos primitivos da colonização, os freqüentes
assaltos dos piratas, a má administração de alguns donatarios e governadores, a enfatuada prosápia de
muitos dos seus habitantes, que desdenhavam o trabalho por serem descendentes de antigos fidalgos, a
indolencia dos seus moradores, determinada por condições climatericas e ainda por outras causas, tudo isso
concorreu notavelmente para o pequeno desenvolvimento desta donataria (V. Quintos e Oitavos).
A capitania de Machico, em condições bem diferentes das do Porto Santo, desenvolveu-se com rapidez e
cresceu notavelmente em prosperidades, mas que não foram de larga duração. Quando o Funchal se foi a
pouco e pouco tornando o notavel emporio comercial do arquipelago, o centro da grande actividade dos
seus habitantes, o ponto de atracção de tantos forasteiros nacionais e estrangeiros, a côrte da fidalguia
madeirense, que abandonou as suas terras e solares para levar a vida apetecida e enervante das povoações
populosas, eta., começou então a donataria de Machico a decair das prosperidades a que chegara, e dentro
de pouco perdeu tôda a importancia que tivera como centro comercial, industrial e agricola. É bem
expressivo e eloquente o que a tal respeito diz Gaspar Frutuoso:
“...e tambem por sua morte (o donatario D. Francisco de Portugal, que morreu pouco depois de 1580) vagou
esta capitania e ficou á coroa, e em tal estado esteve, que não se achava nesta populosa jurisdição de
Machico pessoa que boamente pudesse sustentar hum cavallo, excepto duas ou tres pessoas. Toda esta
grandeza se converteo em pobreza; e foi hum sonho passado para os trabalhos que depois padeceo toda a
gente desta tão nobre geração, e tão prospera Capitania: e, se tudo sobejou aos progenitores, bem o
pagaram depois os descendentes, que estão postos no extremo gráo da pobreza, porque nunca foi cousa
subeja, que por tempo não faltasse. Estas voltas dá o mundo, em que tanto confiamos, sem jamais nos
acabarmos de desenganar de seus enganos. “
Somente a capitania do Funchal é que rapida e progressivamente se desenvolveu com notavel incremento, e
dentro de pouco tempo atingiu um grau de prosperidade verdadeiramente extraordinario, sendo a sua
capital feita vila em 1451, cidade em 1508 e sede de bispado em 1514.
Capitão (Rua do)
A parte da rua dos Murças compreendida entre a avenida de João Gonçalves
Zarco e o largo da Sé tinha o nome de rua do Capitão, que conservou até não há ainda muitos anos. Em
tempo mais antigo se chamava rua do Capitão a tôda a rua dos Murças. Frutuoso diz: “ Desta rua do Sabão
sobe huma que se chama do Capitam, por ser a mais direita serventia para sua casa.... “ Este capitão a que
se referem as Saudades, era o capitão-donatario do Funchal, que tinha sua residencia na fortaleza de São
Lourenço.
Caracóis
De um modo geral, são assim designados os moluscos terrestres da familia Helicida, ou
mesmo outros, incluindo os de agua doce, que pela concha se assemelham aos daquela familia.
A historia natural dos pulmonados madeirenses tem sido cuidadosamente investigada por varios
malacologistas, como R. T. Lowe, Barão de Castelo de Paiva e outros, mas não se encontram dois autores
em que haja acôrdo relativamente ao numero de especies assinaladas. Se um pretende que certas formas
tenham a categoria de especie, outro assevera que não passam de meras variedades, estabelecendo-se ás
vezes a concepção inversa a respeito de outras formas.
Aceitando a opinião de T. V. Wollaston, o ultimo dos autores que se têm ocupado desenvolvidamente do
assunto, existem 176 especies, das quais 131, considerando somente as terrestres, são peculiares a estas
ilhas.
É portanto, o nosso arquipelago um foco criador de muitas especies de pulmonados, e o que torna ainda
mais notavel esta parte da fauna é que dessas 131 especies, 61 são peculiares á Madeira, 44 ao Porto Santo e
10 ás Desertas, havendo sómente 16 comuns a tôdas as ilhas. E neste cômputo são tomadas as Desertas
como um todo, pois se as considerarmos, como realmente são, isto é, três ilhas, resulta que apenas 5
especies podem ser consideradas como pertencendo a tôdas as ilhas do arquipelago. Vê-se, pois, que cada
ilha deu por sua vez origem a formas particularmente suas, e a distribuição fêz-se em áreas tão limitadas
que até pequenos ilhéus, cabeços isolados no mar, viram criar-se entre as suas rochas formas que, fora de
habitat tão restrito, nunca puderam ser encontradas.
Assim é que os ilhéus da Cal, de Fora e da Fonte, no Pôrto Santo, têm formas de Helix e Pupa que lhes são
privativas. Outras vezes circunscreve-se o habitat ás cristas de montes vizinhos ou á encosta de uma ravina,
o que sucede tanto no Pôrto Santo como na Madeira.
É o genero Helix o que maior numero de representantes conta, seguindo-se-lhe Pupa, Lovea, Patula e
Clausilia com um numero de especies sucessivamente decrescente, além de outros de menor importancia.
As lesmas estão repartidas por 10 especies, e no genero operculado Craspedopoma registam-se 4 especies,
uma das quais, o C. trochoideum, só foi encontrada em certos vales do norte da Madeira. Entre as de agua
doce figuram os generos Limnaea, Physa, Planorbis e Ancylus, cujos membros, todos europeus, são vulgares
nas levadas, ribeiras e tanques, onde também aparece um operculado da ordem dos prosobranquiosBa
Hydrobia similis, e nas rochas do litoral, levadas pela maré, têm-se colhido especies endemicas dos generos
Melampus e Auricula, além de outras, africanas ou europeias, dos generos Pedipes, Truncatella e Assiminea.
Muitos dos pulmonados madeirenses têm sido observados no estado sub-fossil, em quantidades
prodigiosas, tomando por vezes o aspecto de conglomerados, pela sua densa agregação. Os jazigos desses
fosseis ou são de areia calcarea, ás vezes compacta, como se fôsse um arenito, ou de argila misturada com
calhaus angulosos, neste caso rochas clasticas ou terreno de transporte, formado quasi sempre na aba de
certos montes. Existem esses jazigos na Madeira, a leste do Caniçal; no cume do Bugio, uma das Desertas; e
no Pôrto Santo, em diversos sitios, como Ilhéu de Baixo, Ilhote, Vigia da Ponta, Campo de Baixo, Ribeiro da
Vigia, Penedo, Mornos e Zimbral da Areia.
Das 176 especies de pulmonados- numero estabelecido segundo o criterio de Wollaston, como já se disse-
82 foram encontradas no estado fossil, e destas ultimas sómente 12 não foram observadas recentes,
podendo portanto considerar-se extintas. A Helix Lowei, propria do Pôrto Santo, e que é o maior de todos
os caracois do arquipelago, medindo 5 centimetros de diametro e mais, foi considerada extinta por muito
tempo, porém, o botanico J. M. Moniz conseguiu descobrir um individuo vivo nos rochedos do Ilhéu de
Cima, e o naturalista inglês, Dr. A. M. Norman, alcançou de um negociante de conchas em Francfort, um
exemplar recente e bem conservado, que por vias ignoradas saíu evidentemente destas ilhas, indo parar á
loja do negociante alemão.
Caracol da Vinha (Helix pisana)
Molusco gasterópodo que se encontra na região extremo
oriental da Madeira, na região baixa do Pôrto Santo e também nas Selvagens. No Porto Santo, onde foi
outrora muito abundante, é empregado na alimentação do pato domestico.
Caramanchão
Sitio povoado da freguesia de Machico. Encontra-se ali a capela de São Cristovão,
mandada edificar pelos filhos do morgado Cristovão Moniz de Meneses, em 1690, em virtude da paterna
disposição testamentaria que a isso os obrigava.
Caramelo
São assim chamados certos fragmentos de corais fosseis do genero Danaia e outros, que
existem nos jazigos calcareos do Pôrto Santo. O caramelo, constituído pelo carbonato de cal, foi usado para
combater a acidez dos vinhos, e também na preparação de bebidas gasosas, como limonadas, agua mineral
do Pôrto Santo etc..
Caramujo
Sitio no concelho e freguesia de S. Vicente, a 1325 metros acima do nivel do mar. Tem uma
casa de abrigo mandada construir pela Direcção das Obras Publicas do Distrito, e ficam-lhe proximas as
nascentes da levada da Ribeira do Inferno, que rega na freguesia de S. Vicente. Seguindo esta levada até á
sua origem, desfrutam-se panoramas de uma beleza surpreendente.
O Caramujo, ou Chão do Caramujo, está a curta distancia da beira norte do Paul da Serra, e parece ter sido
outrora a cratera de um vulcão. É ponto muito visitado por nacionais e estrangeiros.
Caramujo (Trochus colubrinus)
Molusco gasterópodo da familia dos Traquideos. É
comestivel, encontrando-se na zona intercotidal de tôdas as ilhas. Salgado ou de escabeche, importam-no
das Selvagens em quantidade relativamente avultada.
Caramujo Caiado
Diz-se dos individuos muito desenvolvidos e já velhos, do caramujo comestivel,
cuja concha apresenta manchas esbranquiçadas.
Caramujo de Dona (Littorina striata)
Molusco gasterópodo da familia Traquidea, muito
comum ao nivel dos mais altos preamares e ainda acima dessa linha. É o molusco marinho que aqui vive
mais afastado da orla do mar. Não é comestivel e encontra-se em tôdas as ilhas do arquipelago, incluindo as
Selvagens.
A expressão caramujo de dona é peculiar á ilha do Pôrto Santo.
Caranguejo Judeu (Grapsus Webbi)
Crustaceo decápodo da familia Grapsida, vulgar em certas rochas do
litoral. Não é uso comerem-no, embora tenha sabor agradavel, mas empregam-no, depois de pisado ou
mastigado, como engôdo na apanha de certos peixes.
Também lhe chamam cabra.
Caranguejo Moiro (Plagusia squamosa)
Crustaceo decápodo da familia Grapsida.
Frequenta no verão as rochas costeiras, sendo marisco apreciado por muitas pessoas. Também lhe chamam
caranguejo de comer.
Caranguejola
Designação aplicada a crustaceos decápodos de varias familias, nas quais se podem
citar os generos Maia, Eriphia, Calappa e Pagurus. A unica caranguejola comestivel é o Maia squinado,
raramente colhido em rêdes de arrasto.
Caranguejola de Natura (Homola Cuvieri)
Especie de crustaceo decápodo, pescado de
vez em quando nos mares da Madeira.
Carcinologia
Estão longe de um estudo completo os crustaceos dêste arquipelago, tendo um ou outro
grupo merecido apenas um pouco de atenção da parte de alguns naturalistas.
Os Decápodos acham-se representados por algumas dezenas de especies nas colecções particulares que
existem no Funchal. Essas especies podem ser, grosso modo, assim repartidas: 40 nos Braquiúros, 15 nos
Anomuros e 30 nos Macruros.
Entre os Braquiúros, ou Decápodos de cauda curta, citaremos como mais conhecidos ou notaveis pela forma
ou valor alimentar, os seguintes: a caranguejola comestivel (Maia squinado), colhida ás vezes nas rêdes,
junto á costa; os crustaceos triangulares dos generos Leptopodia, Stenorynchus, Amathia, Pisa e outros,
sendo digna de menção a interessante Leptopodia sagittaria, que frequenta a baía do Funchal, na
profundidade de 20 a 40 braças e mais; a caranguejola da rocha (Eriphia spinifrons), que não é vulgar e
habita pequenas tocas, escavadas no rochedo, de abertura tão estreita que parece viver aí aprisionada,
apanhando os alimentos que lhe passam perto da entrada do esconderijo; um grande caranguejo (Cancer
Bellianus), pescado de vez em quando nas aguas litorais; as jacas mansas (Xantho floridus e X rivulosus) e
jaca brava (Grapsus marmoratus), procuradas como isca e frequentes nos logares da costa, cobertos de areia
ou cascalho miudo; a elegante Lupea hastata, com as patas traseiras organizadas para a natação, também
chamada jaca, e vulgar nos fundos de areia, desde a baía de Machico á Ponta de S. Lourenço e na costa
meridional do Pôrto Santo; a jaca de pau (Grapsus minutus), comum sôbre as madeiras flutuantes e sobre o
casco das tartarugas ou outros objectos que a corrente traz a estes mares, sendo este o caranguejo que
alguns pretendem ter sido tomado por Cristovão Colombo como seguro indicio da proximidade da terra,
quando o navegador o lobrigou em pleno oceano, agarrado a massas de sargaço ou qualquer pedaço de
madeira arrastado pelas aguas; o caranguejo judeu, também conhecido por cabra (Grapsus Webbi), proprio
para isca e engodo do peixe, e o caranguejo moiro ou de comer (Plagusia squamosa), que é cozido antes de
exposto á venda e, como o precedente, não é raro acima da linha da beira-mar, em certos pontos onde a
costa é rochosa; a aranha (Plagusia clavimana), frequente nalguns sitios, entre as pedras que a maré deixa a
descoberto e estimada como isca para certos peixes; finalmente a caranguejola vergonhosa (Calappa
granulata), interessante pela forma abaulada da carapaça e pela grande dilatação das pinças, que lhe
permitem esconder grande parte da face, e que não é muito rara na baía do Pôrto Santo, em cuja praia vai
encalhar por ocasião das grandes levadias.
Dos Anomuros ou Decápodos de cauda anómala, merecem referencia a Dromia vulgaris e a Homala
spinifrons, que vivem na baía do Funchal e em muitos outros logares para além da profundidade de 15
braças; a caranguejola de natura (Homola Cuvieri), o maior dos crustaceos conhecidos na Madeira, pescado
raras vezes em fundos altos; e por fim o genero Pagurus, representado por varias especies, algumas proprias
da beira-mar, outras de agua mais profunda, devendo mencionar-se entre as ultimas o P. callidus e o P.
striatus, pela sua grande dimensão.
Os crustaceos do genero Pagurus são conhecidos por caranguejolas, como de resto e em geral chama o
pescador aos crustaceos que não têm prestimo algum. Estes Pagurus são em certas localidades
abundantissimos nas poças á beira-mar, e, como têm o abdomen mole, introduzem-se numa concha de
molusco, das muitas que se encontram vazias. Essa concha é comummente dos generos Trochus,
Columbella, Mitra, Nassa e Murex, e com menos frequencia de Bittium, Triton, Cassis, Ranella, Natica,
Pleurotona, Cypriaea ou Scalaria, convindo-lhe até mesmo os caracóis terrestres (Helix, Bulimus), ou os
tubos soltos de molusco do genero Vermetus e de vermes do genero Serpula.
Nos Macruros, ou Decápodos de cauda grande, figuram, entre outros, o genero Galathea nos baixos e altos
fundos; a lagosta de antenas foliaceas, largas e curtas (Scyllarus latus), muito estimada pelo fino sabor e
duma relativa frequencia em logares baixos, como a região em frente do Jardim do Mar, onde o pescador a
colhe mergulhando até o fundo e apanhando-a directamente á mão: o Arctus ursus, aliado da especie
precedente, mas não comestivel, e rocegado por vezes em cêrca de 20 braças no Funchal, e em 90 no Pôrto
Santo; a lagosta de antenas longas e grossas (Palinurus vulgaris), também chamada lagostim ou lagostão,
menos comum que a de antenas espalmadas, já citada, e apanhada como esta, ou de mergulho, ou
acidentalmente em aparelho de anzol ou rêde; o lindo e raro Nephrops norvegicus; em-fim os camarões,
entre outros a interessante e rara Funchalia Woodwardi, o Penaeus Edwardsiannu, o Palaemon squilla e o
Crangon vulgaris, alguns deles pescados em covos de junco para isca de peixe fino, ou muito raramente para
a venda no mercado.
Acerca de três Decápodos escreveu James Yate Johnson: Description of a New Species of Cancer obtained at
Madeira, (Proceedings of the Zoological Society of London, 1861) e Description of a New Genus and a New
Species of Macrurous Decapod Crustacean belonging to the Penaeidae discovered at Madeira (Ibid., 1767).
O mar da Madeira oferece-nos na ordem dos Estomápodos, além de outras, as elegantes especies do genero
Squilla, como S. mantis, S. Desmarestii, etc..
A ordem dos Cumáceos, que também se faz representar, mereceria ser investigada por competentes
especialistas.
Os Isópodos marinhos compreendem varios generos que vivem sôbre os peixes, sobre as rochas do litoral ou
em outras situações, mas nenhum deles foi ainda objecto de estudo desenvolvido. Somente dos Isópodos
terrestres se ocupou o Dr. Alfred M. Norman, publicando The Land Isopoda of Madeira, 1899.
Dos Anfípodos muitas formas existem no mar, praias e regatos de agua doce, mas o grupo carece de aturada
investigação.
É o que se nos oferece dizer quanto á grande secção dos Malacostraceos. Sôbre os Entomostraceos ocorre-
nos o seguinte:
Os Copépodos marinhos foram em parte estudados por Isaac C. Thompson que, entre o plankton por ele
colhido na baia do Funchal e nas Canarias, pode assinalar 64 especies, das quais 6 novas para a ciencia.
Escreveu a este respeito: Copepoda of Madeira and the Canary Islands, with description of New Genera and
Species (Linnean Society Journal, Zoology, 1887). Há, porém, muitos outros, sobretudo parasitas dos
peixes, que estão por registar. Em certas aguas doces, particularmente nas represadas em tanques,
encontram-se também representantes deste grupo, como os curiosos Cyclops e outros.
Há varios Ostrácodos de agua doce, podendo citar-se os Cypris, por vezes abundantes na Madeira e Pôrto
Santo, e entre os marinhos aparece a notavel Laura Gerardiae, parasita do coral luminoso Gerardia
Lamarckii e que tão superiormente foi estudada por Lacaze-Duthiers em magistral monografia.
Nas aguas terrestes também se faz notar a ordem dos Cladóceros e provavelmente a dos Filópodos.
Finalmente dos Cirripides, 13 especies foram mencionadas por Darwin no seu trabalho acerca desta ordem,
mas o respectivo numero coligido é já actualmente superior.
Além da escassa bibliografia citada, 8 especies da grande divisão dos Entomostraceos foram descritas em
1855, pelo dr. S. Fischer nas Actas da Academia Real da Baviera.
Cardais
Sítio da freguesia de Água de Pena. Neste lugar e em terras de que era proprietario, edificou o
conego Henrique Modesto de Betencourt, no ano de 1907, uma capela dedicada ao Sagrado Coração de
Jesus.
Cardo
As plantas madeirenses conhecidas por este nome pertencem á familia das Compostas e aos
generos Cynara, Silybumt, Galactites, Carthamus, Centaurea e Scolymus. Os cardos emquanto novos ou
depois de convenientemente preparados, servem para alimento dos gados.
V. Pencas.
Cardo (Pico do)
Elevação montanhosa da freguesia de Santo Antonio, a 438m de altitude.
Cardoso. (Simão Nunes)
Diz dele o anotador das Saudades da Terra, o seguinte: *Simão Nunes
Cardoso, que seguramente era da familia dos Cardosos de Gaula, Capitania de Machico, visto não haver
outros desse apellido: vivia em 1566, pois que escreveu a Relação do saco que os franceses fizeram na ilha
da Madeira, succedido nesse ano. Esta relação nunca foi impressa; mas, provavelmente, della copiou
Jeronymo Dias Leite a narrativa do caso para a sua Historia da Madeira, e desta passaria para os cap. XLIV-
XLVI das Saudades da Terra, ao que nos persuade o não haver noticia de outra relação desse caso, e o serem
as que veem nas Saudades, manifestamente inspiradas pela rivalidade entre a capitania de Machico e a do
Funchal, e em desabono desta+.
Cardot (J.) E.
On same Masses collected in Madeira by William Trelease (Eight Annual Report of
Missouri Bot. Gard. 1897).
Carlos (Campo de D.)
O antigo Campo de D. Carlos, hoje do Almirante Reis, começado em 1898
e concluido em 1901, custou ao Municipio mais de 24 contos e obedeceu á ideia de sanear o bairro de Santa
Maria Maior. Para a sua construção contribuíram o Govêrno com os terrenos do antigo forte de S. Pedro, de
parte da cortina da cidade e talvez do Campo das Loucas ou de Challons, e o Municipio com os da Praça
Academica e ruas que a marginavam pelo sul e leste, e com os da Rua dos Balcões e dos casebres agora
demolidos desta antiga rua.
O Campo de D. Carlos serve para exercicios militares, e os direitos que sobre ele tem o Municipio, estão
consignados na escritura publica celebrada em 4 de Setembro de 1897, entre o Ministerio da Guerra e a
Camara Municipal.
O pedido de autorização para ser dado o nome do falecido Rei D. Carlos ao campo ou praça que a Camara
pretendia construir, tem a data de 6 de Setembro de 1897, e a nova denominação de Campo do Almirante
Reis, por que o mesmo terreno é conhecido, foi-lhe dada em 1911 pela primeira comissão que se sentou nas
cadeiras da vereação funchalense, depois de proclamado o govêrno republicano no país.
Carmo
Sitio povoado da freguesia do Campanario. Existiu ali uma capela consagrada a Nossa Senhora
do Carmo, que deu o nome ao sitio, fundada em 1658 por Domingos Rodrigues, sendo de instituição
vincular e sede dum morgadio. Tem 15 fogos e 73 habitantes.
Carneiro
Designação comum a três especies de insectos coleopteros da familia Bruchida: Bruchus pisi,
B. rufimanus e B. subellipticus. Encontram-se nos logares cultivados de ervilha, fava e outros legumes,
como também nas casas de habitação e celeiros, onde causam grandes estragos.
Carneiro (Baixa do)
Baixio, já em parte destruído, próximo do Ilhéu do Gorgulho e a oeste da
cidade do Funchal.
Carocha
São conhecidos por este nome os dois arbustos seguintes, cultivados nas quintas e jardins da
Madeira: Magnolia fuscata, da familia das Magnoliaceas, e Calycanthus floridus, da familia das
Calicantaceas.
Carocha (Blaps gages)
Insecto coleoptero da familia Tentiriada, frequente na Madeira, Pôrto
Santo e Selvagens. Vive nos compartimentos sombrios das casas e debaixo das pedras e nas furnas,
especialmente na região inferior das duas primeiras ilhas.
Muitas vezes por carocha se designam em geral certos coleopteros de determinada forma.
Carpo (Arsenio Pompilio Pompeu do)
O que sabemos acêrca da biografia deste
madeirense quasi se limita ao que diz o dr. Alvaro de Azevedo, a pag. 806 das Saudades da Terra, que vamos
transcrever:
“Nascido na cidade do Funchal em 1792: aqui exerceu o officio de pedreiro e foi actor, até que a alçada,
vinda á ilha da Madeira em 1823, o condenou por liberal em cinco anos de degredo para Angola, onde foi
cumprir sentença. Das partes que representou no theatro tomou os ostentosos appelidos que usava. Era
homem sagaz e aventuroso; porisso, chegou a ser não só opulento negociante na cidade de S. Paulo de
Loanda, mas vulto preponderante nessa possessão ultramarina, commendador da Ordem de Christo, e
coronel. Vindo em 1846, por graves accusações, preso para o castello de S. Jorge de Lisboa, conseguiu
livrar-se. Falleceu alguns annos depois, havendo escripto e publicado, sob o titulo Dedo de Pigmeu (Lisboa,
1843), uma collecção de poesias intimas, além de alguns pamphletos de suas questões pessoaes“.
O Diccionario Bibliographico de Inocencio, que forneceu quasi tôdas estas notas ao dr. Azevedo, traz a
relação dos folhetos publicados por Arsenio Pompilio, e diz que ele nasceu a 20 de Fevereiro de 1792. Nas
Notas para um diccionario dos portugueses notaveis do meu tempo, escritas por Julio Cesar Machado,
encontra-se um longo e interessantissimo artigo acêrca de Pompeu do Carpo.
Carqueja (Ulex europaeus)
Planta europeia introduzida pelo primeiro Conde do Carvalhal na
sua quinta do Palheiro, no primeiro quartel do seculo XIX. Está hoje muito espalhada na região media da
ilha, onde forma, associada muitas vezes á giesta, extensos maciços. Os ramos novos desta planta, depois de
convenientemente esmagados por causa dos espinhos, constituem um excelente alimento para os gados. A
carqueja é conhecida em Portugal pelo nome de tojo.
Carrapateira
Nome vulgar do Ricinus communis, planta oriunda da Africa Tropical. Tem fôlhas
palmatifendidas, capsulas grandes, revestidas de longos espinbos moles e é frequente na região inferior da
Madeira, onde apresenta a forma arbustiva ou quasi arborescente. Das sementes desta Euforbiacea extrai-se
o oleo de ricino, muito empregado como purgante. As carrapateiras afugentam as môscas.
Carrapatos
Aracnideos parasitas da familia dos Ixodideos, genero Ixodes, que vivem sôbre o gado
lanigero, caprino e vacum, e ás vezes sôbre o cão. Os carrapatos abundam especialmente nas pastagens das
montanhas da Madeira e são parasitas somente durante uma parte da existencia: na outra, costumam fixar-
se aos arbustos, á feiteira e outras plantas, passando depois para os animais e algumas vezes até para o
homem. Por carraça ou carrasea são também conhecidos alguns aracnideos parasitas.
Carreira (Rua da)
Tem a denominação moderna de rua do dr. Vieira, mas o povo apenas a conhece
pelo seu antigo nome. “Chama-se, dizem as Saudades, a Carreira dos cavallos pelos costumarem correr
nella“. É das mais antigas ruas da cidade e nela tinham suas moradas em outros tempos muitas das mais
nobres e qualificadas familias do Funchal. Vai actualmente ao largo do Colegio até á ponte de S. João. Antes
da demolição do portão de S. Paulo, nas proximidades da capela do mesmo nome, era ali um dos limites
desta rua, sendo o outro a rua de S. Francisco. Além da denominação geral de Carreira, teve os nomes de
rua da Igrejinha, dos Pintos, de S. Paulo e de Manuel da Grã, correspondendo cada um destes nomes a uma
parte da rua actual. 0 pequeno largo, ainda hoje chamado Igrejinha, que é o ponto de intersecção entre a
rua das Pretas (hoje Camara Pestana) e a da Carreira, conserva este nome por ter ali existido uma capela
dedicada a Nossa Senhora da Piedade, a que comummente se chamava a Igrejinha. Ficam situadas na rua
da Carreira a antiga capela de S. Paulo, a capela de Nossa Senhora da Conceição e o cemiterio privativo da
colonia britanica.
Carreira de Tiro
De há muito se reconhecia a necessidade de uma carreira de tiro, que
simultaneamente servisse para ministrar a instrução preparatoria de tiro ao alvo aos recrutas da guarnição
deste distrito, ao aperfeiçoamento da instrução daqueles que já anteriormente tivessem sido encorporados e
ainda para o aprendizado dos membros das associações de tiro civil, que porventura tivessem a organizar-se
entre nós. Algumas tentativas se fizeram, que resultaram inteiramente infrutuosas. 0 acidentado do terreno,
a intensidade das culturas agricolas e as dificuldades criadas por certos elementos preponderantes, não
foram razões de somenos importancia que obstaram á realização daquele importante melhoramento, não
contando ainda com os embaraços que no ministerio da guerra se levantaram para a concessão das verbas
indispensaveis para o mesmo melhoramento.
O capitão de engenharia Carlos Roma e Maia e mais tarde o capitão Eduardo Pereira, juntamente com o
tenente Jorge Camacho, organizaram dois projectos de carreira de tiro, tendo realizado varios trabalhos de
campo, mas foram duas tentativas sem resultados apreciaveis.
Por 1904, conseguiu o comandante militar coronel Joaquim Maria Alves um subsidio da Junta Geral, da
importancia de três contos de réis, tendo mais tarde a secretaria da guerra, a instancias daquele oficial,
ordenado o estudo duma carreira de tiro, nomeando-se para esse fim uma comissão especial, que ficou
composta do coronel de engenharia Abreu Nunes, coronel Bernardino Pereira, tenente-coronel Eduardo
Pereira, capitãis Candido Gomes e Ricardo de Andrade, tenente Alberto Sarmento e tenente de artilharia
Antonio Joaquim dos Santos Pimenta. Esta comissão, depois de varios estudos e trabalhos, resolveu
definitivamente que a carreira de tiro se construísse no sitio da Varzea da freguesia de São Martinho, mas
não chegou a realizar trabalhos importantes e menos ainda a elaborar os respectivos projectos e orçamentos
pelos entraves que diversas influências locais levantaram então á realização desse desejado melhoramento.
Isto sucedia em 1909.
Foi em Junho de 1911 que o ministro da guerra ordenou que se procedesse com urgencia ao estudo da
construção da carreira de tiro, sendo então nomeada uma comissão composta dos capitãis Candido Gomes e
Ricardo de Andrade, e tenente José Betencourt da Camara, que imediatamente e com o maior zêlo e
actividade se dedicou a diversos trabalhos, tendo feito escolha do local da Varzea da freguesia de São
Martinho, como apropriado para aquele fim e organizado sem grande demora o respectivo projecto, que
mereceu a aprovação das estações superiores.
No mês de Outubro de 1912 autorizou o ministerio da guerra o inicio das obras, e ia finalmente a Madeira
ser dotada com uma carreira de tiro, para a instrução militar da sua guarnição.
Reconhecendo-se que o projecto elaborado precisava de sofrer algumas modificações, foi nomeada uma
nova comissão composta do major Ricardo de Andrade, capitão Antonio Agostinho Camara e tenente Carlos
Ribeiro Pestana, que organizaram os ultimos e definitivos projecto e orçamento, que serviram de base á
construção, sendo as despesas computadas então em 18:739$000 réis.
É a ocasião de pôr em relêvo a circunstancia de se dever principalmente ao distinto oficial e nosso patricio
Candido Gomes a consecução deste melhoramento. Fazendo serviço na secretaria da guerra e conhecendo
de perto a necessidade da carreira de tiro, a cujos estudos se tinha afanosamente entregado, conseguiu as
dotações necessarias para a compra e expropriação do terreno indispensavel ao comêço dos trabalhos de
construção, não deixando nunca de dispensar a sua valiosa cooperação e os seus bons oficios a favor da
criação e funcionamento deste estabelecimento militar.
Os trabalhos de construção começaram de Março de 1917 sob a proficiente direcção do capitão de infantaria
Antonio Agostinho Camara e têm prosseguido com a possivel actividade, devendo estar brevemente
concluídos.
A carreira de tiro tem 450 metros de extensão, e com alvos á distancia de cem, duzentos, trezentos e
quatrocentos metros, havendo linhas de tiro e sendo o fogo feito do sul para o norte. Levanta-se no local
escolhido na Varzea da freguesia de S. Martinho, e, como sitio é bastante povoado, tornou-se indispensavel
a construção de muitas obras de arte, para colocar a população circunvizinha inteiramente ao abrigo de todo
o perigo que porventura pudesse haver por ocasião dos exercicios ao alvo. Informam-nos de que fica sendo
uma das melhores carreiras de tiro do país.
Carriço (Phragmites communis)
Graminea comum nos terrenos do litoral, tanto na Madeira
como no Pôrto Santo. Os seus colmos podem atingir ás vezes 2 metros de alto. Diz Frutuoso que a freguesia
do Caniço deriva o seu nome de “n’ela estarem as terras cobertas de um carriço, como cannas delgadas“.
Carros do Monte
Os carros do Monte com a forma que hoje têm, apareceram 1849 ou 1850. Os
viajantes que visitaram a Madeira no primeiro quartel do seculo XIX, não se referem a estes carros nos
escritos que nos legaram. Antes do aparecimento dos carros, havia umas pequenas corsas em que desciam
ás vezes os viajantes que visitavam a freguesia do Monte.
Cartas geograficas
Temos conhecimento das seguintes, relativas ás ilhas do arquipelago da
Madeira:
I.Mappa geographico particular da ilha da Madeira, levantado por ordem do exm1. actual governador e
capitão general João Antonio de Sá Pereira (depois barão d’Alverca), parte pelo sargento mór Francisco
d’Alincourt, e outra parte por Faustino Salustiano da Costa,, ajudante d’infanteria com exercicio de
engenheiro Anno de 1771. (Existia uma copia ou talvez o original deste mapa no Ministerio das Obras
Publicas, em Lisboa).
2.
Geo-Hydrographic survey of the Isle of Madeira with the Dezertas and Porto Santo Islands
geometrically taken in the year 1788. By William Johnston. . . With the plan of the town of Funchal, by capt.
Skinner, 1775.
3.
Mappa geral da ilha da Madeira, levantado por ordem d’El-Rei nosso senhor D. João VI 1817. Por
Paulo Dias d’Almeida, sargento-mór engenheiro. (Existia no Ministerio das Obras Publicas, em Lisboa, e há
uma copia na Direcção das Obras Publicas, no Funchal).
4.
Published by Captain Hurd... July 10, 1820.
A Survey of the Island of Porto Santo, by Lieut. William Mudge, by order of Cap. D. E. Bartholomew.
Carta geo-hydrographica da
ilha da Madeira e dos
ilheus baixos adjacentes,
Funchal Bay surveyed by capt. A. T. E. Vidal, 1843Badditional soundings by H. M. S. Challanger,
Geo-Hydrographic Survey of the Island of Madeira and its Dependencies, by James Wild. (1835).
The Islands of Madeira, Porto Santo and Desertas surveyed by capt. A. T. E. Vidal in H. M. S. Styx,
5.
6.
1843, London. Pablished... 4 October 1847.
7.
1873.
Mappa da ilha da Madeira mandado publicar por J. A. L. (Julio Augusto Leiria), 1871.
8.
Physical Map of the Island of Madeira constructed by J. M. Ziegler.
9.
10.
Carta geo-hydrographica da ilha do Porto Santo e dos ilheus baixos adjacentes, levantada
collectivamente em 1842-43 pelos officiais do vapor de guerra britannico Styx e o capitão do corpo
d’engenheiros (hoje general de brigada) Antonio Pedro d’Azevedo, correcta e publicada com varias
ampliações em 1877.
11.
levantada
collectivamente em 1842-43 pelos officiais do vapor de guerra britannico Styx e o capitão do corpo de
engenheiros Antonio Pedro d’Azevedo, hoje general de divisão reformado. Correcta e publicada com varias
ampliações em 1879.
12.
Carta geo-hydrographica das ilhas Desertas levantada collectivamente em 1842-43 pelos officiais do
vapor de guerra britannico Styx e o capitão do corpo d’engenheiros Antonio Pedro d’Azevedo, hoje general
de divisão reformado (1886).
13.
engenheiros srs. Adriano e Anibal Trigo).
Há também duas cartas em relêvo da ilha da Madeira, uma levantada pelo geologo alemão A. Stubel, e de
que existe um exemplar no Museu do Seminario, e outra pelo capitão Vitoria Pereira. Esta ultima carta foi
mandada fazer pela Junta Agricola para propaganda e reclamo da Madeira.
A carta da Madeira levantada pela Comissão Geodésica, presidida pelo coronel sr. Alfredo Durão,
não foi publicada ainda, mas os respectivos trabalhos ficaram concluídos em 1915. Esta carta, segundo se
afirma, é muito mais completa e perfeita que tôdas as que até agora têm sido publicadas.
A carta corografica levantada pela comissão presidida pelo coronel Alfredo Durão, que se afirma ser
um trabalho muito valioso e o mais perfeito até hoje publicado acêrca desta ilha, foi dada á publicidade no
ano de 1937 com a epigrafe de Carta Corografica da Ilha da Madeira levantada pela Direcção Geral dos
Trabalhos Geodesicos e Topograficos em 1915 e revista e actuatizada pelo Instituto Geografico e Cadastral
em 1934.
Carta geographica da ilha da Madeira, brinde do Diario Popular no anno de 1898. (E trabalho dos
Vid. Plantas da Cidade.
Carteret (Filipe)
Comandante da Swallow, navio inglês que fêz importantes explorações nos mares
do sul e no Oceano Pacifico. Esteve na Madeira desde 7 até 12 de Setembro de
1766.
V. Wallis.
Caruncho
Entre os insectos que roem a madeira e cujo excremento é designado por caruncho, avulta
nestas ilhas, pelo dano que causa, um coleoptero,Bo Stromatium unicolor, Bproprio dos sitios habitados, e
cuja larva vive na madeira dos edificios e do mobiliário.
Carvalhal (Antonio do)
As antigas cronicas madeirenses ocupam-se com largueza dos actos de
bravura e de fôrça muscular de Antonio do Carvalhal, contando Gaspar Frutuoso pormenorizadamente
muitas das suas acções de valentia, que por largo tempo perduraram na tradição local. “Antonio de
Carvalhal, dizem as Saudades, homem tão cavalleiro, como esforçado por sua pessoa, nobre, e magnifico
por sua condição e grande virtude, com a qual por sua magnificencia tem adquirido tanta fama, e ganhado
tanto nome com as vontades dos homens, que por isso lhe obedecem: e se fôr necessario dar um brado,
ajuntará quinhentos homens da banda do Norte a seu serviço, para qualquer feito de guerra, como ja lhe
aconteceo, ou para qualquer outro; e não sem rasão, porque sua casa he hospital e acolheita de todo o
pobre, hospedagem dos caminhantes, e refugio finalmente dos necessitados. Assi despende sua fazenda
toda (que muita possuhe desta banda) nestas obras, que em sua casa se gastão cada anno trinta moyos de
trigo, fóra outros muitos que empresta, e com elle soccorre a quem tem necessidade, que todos recolhe de
sua lavoura.
Teve residencia na freguesia da Ponta Delgada e era filho de Pedro Ribeiro e de D. Ana Esmeraldo, ambos
de nobre ascendencia.
Carvalhal (1º. Conde de)
João José Xavier de Carvalhal Esmeraldo Vasconcelos de Atouguia
Bettencourt Sá Machado, 1º. conde de Carvalhal, nasceu nesta cidade a 7 de Março de 1778, sendo filho de
João do Carvalhal Esmeraldo Albuquerque e Camara e de D. Isabel Maria de Sá Acciaioly. Era fidalgo
cavaleiro da Casa Real, coronel do regimento de milicias da Calheta e administrador de varios morgadios,
entre os quais se destacavam os do Santo Espirito na Lombada dos Esmeraldos, Ponta Delgada, Agua de
Mel e Paul do Mar.
Sucedeu na importante casa de seu irmão Luiz Vicente do Carvalhal Esmeraldo de Sá Machado, o qual
segundo afirma um distinto linhagista *era senhor de mais de doze morgadios grandes, que o constituiam o
vassalo mais rico em bens patrimoniais de Portugal. O conde de Carvalhal foi, não só o mais abastado
proprietario da Madeira, mas a sua casa era uma das primeiras do país, em que se tinham reunido muitos
vinculos e morgadios, possuindo vastas propriedades em quasi tôdas as freguesias desta ilha e ainda no
continente do reino e nos Açôres, deixando além disso, por sua morte, mil e tantos contos de réis em varios
estabelecimentos de credito inglêses. Num curioso documento oficial, dirigido pelo corregedor desta
comarca ao govêrno da metropole em 1823, se diz que o conde de Carvalhal tem grandissimos cabedais no
banco de Londres e em caixa, e um avultadissimo rendimento annual, que, na presente penuria da ilha,
sobe ainda de duzentos a trezentos mil cruzados, o que para a epoca representava uma renda
verdadeiramente colossal para este arquipelago.
Vivendo sem fausto nem ostentação, era no entretanto um homem de animo generoso e liberal, de que deu
sobejas provas sobretudo por ocasião de algumas crises por que passou a Madeira, tendo sido uma
verdadeira providencia para esta terra, contribuindo poderosamente para debelar essas crises com a fôrça
do seu prestigio, da sua influencia e da sua grande fortuna. Arcou por vezes com a ganancia desmedida dos
negociantes de vinhos, principalmente estrangeiros, que, mancomunando-se, faziam baixar os preços dos
mostos com grande prejuízo dos pobres lavradores.
Afecto ás ideias liberais, teve que emigrar para Inglaterra na corveta de guerra inglêsa Alligator a 22 de
Agôsto de 1828, quando a Madeira foi ocupada pelas tropas miguelistas. Em Londres foi não só o desvelado
protector dos madeirenses ali emigrados, mas socorreu generosamente todos os compatriotas que a ele se
dirigiram, afirmando-se que nisso dispendera muitas dezenas de contos de réis.
Estabelecido o govêrno constitucional, regressou a esta ilha em fins de 1834, e por carta regia de 13 de
Setembro de 1835 foi nomeado governador civil deste arquipelago, tendo sido pouco antes, a 5 do mesmo
mês e ano, agraciado com o titulo de conde de Carvalhal da Lombada. Os cuidados da administração da sua
grande casa e mais ainda as doenças de que há muito sofria, afastaram-no dentro de poucos meses do
govêrno do distrito, que muito violentado aceitara e unicamente para aceder aos desejos dos principais
proprietarios e influentes desta ilha.
Morreu a 11 de Novembro de 1837 na sua Quinta do Palheiro do Ferreiro e foi sepultado na capela que ainda
hoje ali existe. Quarenta e tantos anos depois, o seu sobrinho e herdeiro, o 21. conde de Carvalhal, fêz
trasladar os seus despojos mortais para o mausoléu que mandou erigir no cemiterio das Angustias e onde
jazem sepultados.
Carvalhal (2º. Conde de)
Antonio Leandro da Camara Carvalhal Esmeraldo Atouguia
Bettencourt de Sá Machado, 2º. Conde do Carvalhal da Lombada, era o representante das mais antigas e
nobres familias da Madeira e nasceu no Funchal a 6 de Outubro de 1831, sendo filho de João Francisco da
Camara Carvalhal Esmeraldo de Atouguia Bettencourt de Sá Machado, sobrinho e herdeiro do primeiro
Conde do Carvalhal, e de D. Tereza Xavier Botelho, filha do governador e capitão general da Madeira,
Sebastião Xavier Botelho.
Sem se notabilizar em nenhum ramo do saber humano, nem se ter evidenciado em acontecimentos que
ficam registados na historia, foi contudo, no dizer dum seu admirador e amigo, “um homem que em vida
fora a personalidade mais simpatica e mais finamente caracteristica da aristocracia madeirense; cujo nome
fora conhecido lá fóra no alto mundo das grandes capitais entre os personagens mais ilustres, e cuja
existencia, ora remansosa e prudente ora batida das tempestades e agitada dos desvarios da epoca, teve
sempre a linha correcta da gentileza fidalga, as grandes expansões brilhantes de um belo espirito, servido
por um temperamento de artista impressionavel, ardente, nervoso, generoso e bom. Em Paris, em Madrid,
em Lisboa, nas festas esplendidas, nos bailes principescos, nas corridas, nos jogos de sport, na Opera, nos
gabinetes da Maison Dorée e do Café Inglês, no Bois, no Prado, nos touros, nas premières, foi ele o correcto
e brilhante fidalgo, o infatigavel valsista, o atrevido sportsman, o prodigo, o aventureiro viveur, levando a
vida a grand train, distinto entre os mais distintos, amavel, elegante e prestigioso. Um dia o pano caíu sobre
esse scenario deslumbrante. A realidade inexoravel e fatal apagou essa constelação de prazeres falazes e
perigosos. A razão fria e grave veiu sentar-se sobre as ruinas dessa existencia estonteadora e capitosa do
grande mundo, cheia de ilusões e de insanias, em que a vida e a fortuna se esvaem como o tenue fio de agua
no deserto arido e nu. E aquele que fora o heroe dessa epopea ephemera, feita de brilhantismos fugazes, de
ilusões esplendidas, de loucas prodigalidades veiu sentar-se á sombra do lar, até ali mudo e triste,
abandonado e esquecido. Trazia a mesma distinção nativa, a mesma elegancia propria, a gentil e cortês
fidalguia do nome e da condição, mas muita ilusão de menos, muita decepção a mais e para sempre
desbaratada a fortuna que irreflectidamente arrojara para aquele vertice enorme e insaciavel. A realidade
pesava sobre ele fatal, terrivel e desapiedada“.
Para tanto fausto e ostentação, chegando a ocupar um logar de destaque naquelas capitais, mal podia acudir
uma renda anual de cem contos de réis, que lhe dava a sua grande casa. Em Madrid, para assistir ao
casamento duma princesa, mandou construir um carro que custou uma duzia de contos de réis, em Lisboa
edificou um teatro junto da sua casa, onde representaram notabilidades e onde concorria a primeira
sociedade da capital. Em Paris gastou fortunas com o deslumbramento da sua vida faustosa e perdularia...
Ficaram celebres as brilhantes festas do Palheiro do Ferreiro, em que á mais alta e requintada distinção se
reuniam as prodigalidades dum poderoso nababo. O conde do Carvalhal veio expressamente á Madeira para
receber o infante, depois rei, D. Luiz, e tanto no palacio de S. Pedro como na quinta do Palheiro, admirou o
futuro rei de Portugal os dotes de estremada fidalguia e da mais inexcedivel distinção dum genuíno
representante da velha aristocracia madeirense.
Na casa Carvalhal tinham-se reunido diversos vinculos ou morgadios, sendo o mais importante o do Santo
Espirito na Lombada da Ponta do Sol, instituido em 1511 pelo fidalgo flamengo João Esmeraldo, na vasta
propriedade que comprara a Rui Gonçalves da Camara, 21. filho do descobridor da Madeira João Gonçalves
Zarco. Deste morgado foi o 131. e ultimo administrador o 2º. conde de Carvalhal, que também herdara a
casa vincular instituida na freguesia da Ponta Delgada por Manuel Afonso Sanha e sua mulher D. Mecia de
Carvalhal nos principios do seculo XV, e ainda os vinculos de Agua de Mel, do Paul do Mar, dos Lemes, etc.,
não contando com outros situados em diversos pontos da ilha e também nos Açôres e no continente do
reino. Possuía vastas propriedades em tôdas as freguesias da Madeira, chegando a ser a casa Carvalhal, a
segunda ou terceira do país em bens territoriais.
O conde de Carvalhal, entre outras comissões de serviço publico, exerceu o logar de presidente da Camara
Municipal do Funchal e tinha a gran-cruz da ordem de Isabel a Católica e outras condecorações
estrangeiras.
Casara em 1854 com D. Matilde Montufar Infante, filha dos marqueses de Selva Alegre, em Espanha, e
deste consorcio nasceram D. Maria da Camara, que casou com o conde de Resende, e a sr0. D. Teresa da
Camara, condessa do Ribeiro Real.
Depois duma vida tão agitada, vieram a ruina, o infortunio, a saudade e a doença defrontar-se com o herói
de tantas aventuras. Lutou e lutou nobremente, mas... a morte derrubou-o ainda na idade pujante dos 56
anos.
Faleceu nesta cidade a 4 de Fevereiro de 1888 e foi sepultado no jazigo que mandou erigir no cemiterio das
Angustias.
Carvalhal e Carreira
Sitio povoado na freguesia dos Canhas, onde se acha a capela de Santo
André Avelino, edificada em 1776 por Carlos Nunes de Freitas da Silva, tendo pertencido á casa dos
morgados Lomelinos. Numa das paredes interiores da capela, foi há poucos anos colocada a seguinte
inscrição: “Oferecida por Jacinto Fernandes e concluida por José dos Reis e povo“. Tem 89 fogos e 378
habitantes.
Carvalhal Esmeraldo (João da Camara)
Foi eleito senador pela Madeira para a sessão
legislativa de 1838 a 1840, sendo eleito deputado para a legislatura de 1842 a 1845.
Era sobrinho do I1. conde de Carvalhal e sucessor e herdeiro da sua grande casa. Casou a 24 de Junho de
1822 com D. Teresa Xavier Botelho, filha do governador e capitão-general da Madeira, Sebastião Xavier
Botelho. Foram estes os pais do 21. conde do Carvalhal.
João Francisco da Camara Carvalhal Esmeraldo de Atouguia Betencourt Sá Machado era oficial do exercito,
moço fidalgo da Casa Real e comendador da Ordem de S. Tiago. Morreu em Abril de 1844.
Carvalho (Duarte de Melo Ponces de)
Foi eleito deputado pela Madeira a 28 de Abril de
1918.
Carvalho (João da Silva)
Nasceu no Funchal a 16 de Outubro de 1821 e exerceu com muita
proficiencia o magisterio primario nesta cidade durante perto de 60 anos, tendo fundado o seu primeiro
colegio em 2 de Outubro de 1845, associado a Augusto Correia de Sampaio, também já falecido. A Camara
Municipal em atenção aos seus serviços concedeu-lhe nos ultimos anos da sua vida a pensão anual de
240:000 réis. Colaborou no Estudo, na Ordem e noutros periodicos, foi membro da Camara Municipal e da
Comissão Distrital, e publicou em 1867, com um prefacio seu, a obra de Januario Justiniano de Nobrega
sôbre a visita da Imperatriz do Brasil á Madeira. Faleceu no Funchal a 9 de Julho de 1903.
Carvalho (Mariano de)
Chegou ao Funchal a 6 de Dezembro de 1890 e saiu para Lisboa a 8 do
mesmo mês e ano. Foi aqui muito obsequiado, tendo assistido a um baile no Club Funchalense e a um jantar
que lhe foi oferecido no salão nobre do antigo Teatro “D. Maria Pia““.
Carvalho (Quercus Robur)
Arvore europeia muito espalhada em tôda a ilha onde foi
introduzida em 1803, pelo primeiro Conde Carvalhal. Produz boa madeira e os seus frutos empregam-se
vantajosamente na alimentação do gado. Os rebentos e fôlhas novas do carvalho, convenientemente
pisados, têm largo emprêgo na ilha no tratamento dos panaricios. A bolota torrada e reduzida a pó, serve
para a preparação duma bebida util ás pessoas a quem é vedado o uso do café.
Carvalho de Araújo (Rua)
Em sessão da comissão administrativa da Camara Municipal do
Funchal de 8 de Maio de 1919, foi deliberado dar o nome do capitao-tenente Carvalho de Araújo, á antiga
rua do Aljube. Este ilustre oficial da nossa marinha de guerra era o comandante do caça-minas Augusto de
Castilho que em Outubro de 1918 comboiou o vapor San Miguel na sua viagem para os Açores tendo
morrido heroicamente no seu pôsto no dia 15 do mesmo mês, no combate que o navio teve de sustentar com
um submarino alemão, nas proximidades daquele arquipelago. O caça-minas foi metido a pique, por não ter
artilharia que pudesse competir com a do submarino, mas o San Mignel salvou-se, e com ele todos os
passageiros que seguiam da Madeira para os Açôres.
Carvão
O carvão para os usos ordinarios obtém-se pela combustão incompleta da madeira. Para isso
abrem-se covas no terra deitam-se nelas alguns toros ou pedaços de madeira, aos quais se pega fogo;
colocando novos toros sobre os primeiros, de modo a encher a cova, em pouco tempo se alastra a
combustão, saindo então por todos os pontos da meda grande quantidade de fumo. Quando o carvoeiro
entende que a operação está concluída, cobre tudo com ramos, mato e terra sendo o carvão retirado mais
tarde da cova para ser conduzido em sacos aos povoados. Alguns carvoeiros lançam alguma agua no carvão,
antes de cobrir a cova com terra. Em certos pontos da ilha não é costume abrir covas na terra, mas nas
demais operações para o fabrico do carvão, segue-se o processo já indicado. O processo das chaminés ao
centro da meda, usado em Portugal, é desconhecido na Madeira.
As urzes são os vegetais que produzem melhor carvão, mas este também é fabricado com a madeira das
uveiras, dos loureiros e de outras especies.
Carvão de pedra
Foram os negociantes ingleses Jacob Ruffy e Diogo Taylor que em 1838
estabeleceram no Funchal o primeiro deposito de carvão de pedra, pouco depois de ter começado a
navegação a vapor de Inglaterra para as West-Indias, feita pela Mala Real Inglêsa.
Casa de Saúde
Assim chamavam outrora á pequena casa á Entrada da Cidade, onde durante largos
anos estiveram acomodados a Capitania do Pôrto e a Associação Comercial. Desconhece-se a epoca em que
esta casa foi construída, mas sabe-se que a 15 de Junho de 1771 a Camara concorreu com 100:000 réis para
a edificação duma nova casa junto da da Saúde, destinada a residencia do porta-bandeira, e que a 13 de
Julho do mesmo ano deu mais 100:000 réis para a mesma obra.
Era uso noutras epocas os guardas-mores esperarem na Casa da Saúde que lhes fôssem apresentadas as
cartas dos navios que chegavam ao nosso pôrto. Os guardas-mores eram nomeados pela Camara, e não se
lhes exigia um curso medico, como sucede actualmente. Além dos guardas-mores, havia na Casa da Saúde
um interprete, nomeado também pela Camara, o qual tinha o vencimento de 17 réis anuais.
A Casa da Saúde serviu de Paços do Concelho desde 1784 até os fins do seculo XVIII ou principios do XIX, e
a pesar de ser edificio municipal, foi cedida pelo governo á Camara, que a vendeu em 1914, sendo
arrematada pelas firmas Luiz da Rocha Machado & Cº. e W. Winton pela quantia de 22:800$000 réis.
Casa dos Consules
Foi durante muito tempo conhecida pelo nome de Casa dos Consules um
predio urbano situado na rua da Conceição, fazendo esquina com a Rua da Figueira Preta. Parece ter sido
uma antiga casa solarenga. É construção do seculo XVIII e tem um certo aparato arquitectonico. Em epocas
passadas ali estiveram instalados diversos consulados e daí a denominação de Casa dos Consules. Ainda no
principio do seculo passado tinham alguns consulados a sua sede nesta casa.
Lê-se no valioso livro Casas Madeirenses: “É um exemplar interessantissimo e que vale considerar pela
originalidade de alguns elementos bem dignos de aproveitarem-se para maior variedade, na composição de
outros predios. Conjunto dissemetrico mas equilibrado e nobre dum grande ar senhoril. Apresenta um largo
beiral triplo sendo originalissimas as janelas superiores pela forma dos frontões que sobrepujam as
respectivas lumieiras“.
Casa dos Pobres Desamparados
Era um asilo com caracter particular, administrado pelo
seu fundador José Fernandes Velosa. Destinava-se a recolher e sustentar um certo numero de pobres de
ambos os sexos, e existiu desde 1897, sendo as esmolas, os legados e o produto de algumas festas, as suas
principais fontes de receita.
O estabelecimento, que a principio só recebia homens, começou em 1895 sob a designação de “Albergue
Nocturno“, tendo o primeiro pobre a quem o sr. Velosa concedeu proteccão, sido recolhido por ele em sua
casa numa noite do mês de Dezembro de 1894.
O seu fundador faleceu a 30 de Janeiro de 1934.
Casa dos Vinte e Quatro
Assim se denominava uma agremiação composta de delegados dos
oficios mecanicos, e presidida pelo juiz do povo.
Em 21 de Janeiro de 1812 foi dirigida ao juiz, vereadores e mais oficiais da Camara da Cidade do Funchal
uma carta regia, ordenando “que emquanto se não procede á construção de um novo edificio que tenha as
necessarias acomodações, a Camara facilite á corporação da mesa dos Vinte e Quatro o uso da sala das
vereações“.
A Casa dos Vinte e Quatro elegia o juiz do povo, e também os quatro mesteres que faziam parte do senado.
Foi extinta pelo decreto de 7 de Maio de 1834.
Casal (D. Fr. Gaspar do)
Foi o 3.1 bispo do Funchal e um dos mais ilustres prelados do seu
tempo. As crónicas contemporaneas madeirenses não nos dizem coisa alguma digna de menção deste chefe
da igreja funchalense, porque nunca veio ao seu bispado, em virtude dos altos cargos que desempenhou no
continente do reino, como os de lente da Universidade de Coimbra, presidente da Mesa da Consciencia e
Ordens, teologo de D. João III no célebre concilio de Trento, etc. Era um dos portugueses mais sábios da
sua época e deixou impressas muitas obras, quasi; todas escritas na lingua latina.
Foi nomeado bispo desta diocese pelo papa Julio II em 1551, e tomou posse no ano imediato pelo vigario
geral e provisor o dr. Antonio da Costa, que foi também o governador do bispado. Poucos anos depois
obteve transferencia para a diocese de Leiria e em seguida para a de Coimbra, e em ambos estes bispados foi
um eminente prelado.
Nasceu em Santarém, em 1512, e morreu em Coimbra, a 9 de Agosto de 1584.
Muitas obras se ocupam com largueza de Fr. Gaspar do Casal que foi incontestavelmente um dos homens
mais ilustres da sua época.
Casas de Abrigo
As serras da Madeira, em virtude da sua grande altitude e ainda pelas distancias a
que se encontram dos centros povoados, oferecem sempre um grave perigo aos viandantes que têm
necessidade de as atravessar, quando nelas se desencadeiam tempestades, especialmente as chuvas
torrenciais acompanhadas de fortes ventanias e de saraivada de granizo, sendo raros os invernos em que
não se regista a morte de varios individuos, que sucubem á violencia dos temporais. Para acudir a esses
caminhantes, por vezes imprudentes e desconhecendo o perigo a que facilmente se expõem, construiram-se
nos pontos mais desabrigados das nossas serras umas pequenas casas, algumas delas já bastante antigas,
que têm prestado assinalados serviços, livrando de morte certa a muitos individuos que nelas têm
procurado abrigo, embora estejam desprovidas dos mais rudimentares meios de agasalho e de conforto a
proporcionar aos que ali chegam acossados pelas tempestades. Damos uma nota das Casas de Abrigo
existentes nas nossas serras, algumas das quais também se aplicam aos serviços da conservação das levadas
e da inspeccão florestaL sendo bastante para lamentar que nem todas tenham o indispensavel pessoal para
acudir eficazmente ao fim a que se destinam e que o seu estado de conservação deixe tanto a desejar. São
elas: Casa do Caramujo, (V. este nome), ns serras de São Vicente; Casa do Lombo do Mouro (V. este nome),
nas serras da freguesia da Ribeira Brava; Casa do Monte Medonho (V. este nome nas serras da freguesia de
São Vicente; Casas do Rabaçal, no conhecido sitio do mesmo nome; Casa da Bica da Cana no planalto do
Paul da Serra; Casa da Fajã das Nogueiras (V. este nome), nas serras do Faial, Casa das Queimadas (V. este
nome), nas serras da freguesia de Santana, Casa do Ribeiro Frio (V. este nome) na freguesia de São Roque
do Faial; Casa dos Alpires (V. este nome) no não muito distante do sitio da Choupana, no Funchal, e a do
Poiso, no sitio deste nome, nas serras da freguesia da Camacha. Talvez seja esta a unica que
verdadeiramente mereça o nome de Casa de Abrigo, pela sua capacidade, bom estado de conservação e
relativo conforto que oferece aos que a procuram. Em outros pontos da serra existiram algumas pequenas
casas de abrigo, que há muito foram destruidas pelo tempo e pela incuria do homem.
O subdito inglês Roberto Page mandou construir nos principios do seculo XIX duas casas de abrigo nas
montanhas, sendo uma no Paul da Serra e a outra na Ribeira das Cales mas a primeira destas casas há
muito que não existe, e a segunda está servindo, depois de convenientemente reparada, para abrigo de
guardas florestais.
No Lombo da Raiz e nos Lamaceiros existem pequenos abrigos mandados construir pela Direcção das
Obras Publicas do Funchal.
Casinhas e Pico
Sitio povoado da Ilha do Porto Santo. Neste sitio onde chamam a Graça existiu uma
antiga capela consagrada a Nossa Senhora da Graça, que deu o nome ao lugar. Achando-se muito arruinada,
foi empreendida a sua reedificação em mais amplas proporções, no principio do seculo passado não
chegando a concluir-se a construção de que hoje só restam algumas ruinas. Tinha um certo aparato
arquitectonico e interiormente a forma octogonal, dizendo-se algures que e a reprodução, em miniatura,
dum célebre santuario de Italia. Tem 16 fogos e 70 habitantes.
Castanheira (Pôrto da). Pequeno pôrto situado a oeste da Deserta
Grande.
Castanheiro (Castanea sativa)
Cupulifera cultivada na Madeira desde a epoca em que esta
ilha começou a ser povoada. Na Achada do Campanario via-se há anos um castanheiro cujo tronco media
10m,50 de circunferencia, e no sitio das Fontes, na Ribeira Brava, cremos existir ainda um outro, cujo
tronco mede 11m,30, também de circunferencia. O castanheiro, muito menos frequente hoje do que outrora,
produz além do fruto, que é consumido no país, uma boa madeira que tem muitas aplicações. Embora
caracterize a 20. zona botanica da Madeira, que vai de 150 até 200 metros, pode viver também nas
proximidades do litoral, tendo existido durante largos anos na fortaleza de S. Lourenço, um individuo que
nunca deixava de frutificar na epoca propria. A produção anual da castanha na Madeira regula por 4:000
hectolitros.
Castanheiro (Rua do)
Comunica o largo do Colegio com as ruas de S. Pedro e das Mercês.
Provém-lhe o nome de em tempos mais remotos ter existido um gigantesco castanheiro no extremo norte da
rua, que ainda há 70 anos era uma estreita e tortuosa travessa. Parece que em tempos teve o nome de João
Castanheiro.
Foi por iniciativa e a instancias do governador civil José Silvestre Ribeiro que a Camara Municipal a
mandou alargar e dar-lhe o alinhamento que actualmente conserva, tendo o govêrno central, por decreto de
10 de Janeiro de 1847, autorizado que da cêrca do extinto colegio dos jesuítas, que então, como hoje, servia
de quartel, fôsse cedido o terreno indispensavel para o mesmo alargamento. Depois deste melhoramento é
que se construíu a actual entrada e porta das armas do quartel, que antes era na rua dos Ferreiros,
aproximadamente no local onde em tempo esteve instalado o antigo liceu. Nesta rua fica a caracteristica
casa chamada de D. Guiomar, hoje notavelmente modificada, que em tempo serviu de quartel militar. Foi
também num predio desta rua que em 1853 se instalou provisoriamente o Hospicio da Princesa D. Maria
Amelia.
Castanheta Baia (Heliastes limbatus)
Peixe osseo da familia Pomacentrida, pescado no
verão e abundantemente, na costa sul da Madeira. Colhem-no a pequena profundidade, que pode variar
entre 7 e 12 braças, usando de preferencia uma rêde circular apropriada. Embora especie pequena, não
deixa de ser estimada pelo sabor agradavel. Também lhe chamam castanheta branca.
Castanheta do Alto
Os madeirenses aplicam este nome aos dois peixes seguintes, ambos da
familia Percida: Anthias sacer e Callanthias peloritanus. São pescados em fundos rochosos entre 60 e 150
braças, com a gorazeira ou a briqueira, sendo esta especie muito mais rara do que aquela.
O Anthias sacer é conhecido também pelo nome de imperador, e o Calanthias peloritanus pelo de
imperador de natura. Há uns 60 anos atrás era esta ultima especie chamada também castanheta ou
imperador da moda, talvez por alusão á moda da cintura delgada das senhoras, visto a ser a mesma especie
notavelmente mais esguia que o imperador comum. Hoje, porem, tal denominação parece estar
completamente esquecida.
Castanheta Ferreira (Glyphidodon luridus)
Pequeno peixe da familia Pomacentrida,
proprio dos tropicos e cuja área de distribuição se estende para o norte até estes mares. No verão frequenta
a orla do mar, junto ás costas rochosas, onde os amadores o vão pescar á cana ou o colhem de peneiro.
Também lhe chamam castanheta preta.
Castanho (Pico)
Na costa setentrional da freguesia do Caniçal se encontra o pico deste nome, a uma
altitude de 628 m.
Castanho (Pico)
Eminencia da freguesia de Machico do alto da qual se disfrutam belos horizontes
desde a freguesia do Caniço até o extremo leste da ilha. Foi nas encostas deste monte que se deu o encontro
e um tiroteio entre a tropa revoltosa e as fôrças governamentais, no dia 2 de Maio de 1931, como mais
largamente se dirá no artigo respeitante aos motins populares.
Castelo (Pico do)
É a elevação mais conhecida da Ilha do Pôrto Santo, não muito distanciada da
Vila e em cuja crista se encontram as ruínas dum antigo forte, que deu o nome ao pico. O seu ponto mais
alto fica a 440 metros acima do nível do mar e são muito escarpadas as suas encostas, servindo assim de
abrigo seguro aos habitantes da ilha, quando assaltada por corsários franceses e marroquinos, que
frequentemente a devastavam. Antes da construção do forte, fazia se a defesa por meio de calhaus, que
rolavam pelas vertentes do pico, tornando-se o seu cume quasi inacessivel. Haverá aproximadamente 30
anos que a Junta Geral do distrito tentara a arborização das encostas deste pico, dirigindo os respectivos
trabalhos o regente silvicola Antonio Schiappa de Azevedo, encontrando-se ali actualmente uma opulenta
vegetação de especies arboreas, que, ainda no mar e a grande distancia, causa a admiração do observador,
em flagrante contraste com a aridez dos outros montes.
Castelo Branco (Camilo)
O nosso grande romancista, no seu livro Eusebio Macario (referimo-
nos á 30. edição), acrescentou algumas paginas sôbre diversos pontos de historia poetica, encontrando-se
de paginas 245 a 275 um interessante capitulo intitulado A Lenda de Machim. Reflexões á vida do infante D.
Henrique, por Mr. Richard Henry Major. Este artigo insere a polemica travada entre Camilo e Pinheiro
Chagas acêrca da lenda de Machim e em especial da origem do nome de Machico, que é sobremaneira
interessante.
A acção do romance O Santo da Montanha passa-se em grande parte no Funchal, e refere-se a cousas e
pessoas madeirenses.
No romance O Regicida lê-se uma curiosa nota acêrca da ascendencia do bispo do Funchal, D. Jeronimo
Fernando, que era terceiro neto do infante D. Fernando, pai do rei D. Manuel.
Castelo Branco (D. Joana de)
É a mais distinta poetisa madeirense. Nasceu na freguesia do
Faial a 23 de Junho de 1856 e é filha de Caetano Velosa de Ornelas Castelo Branco e de D. Maria Rosa de
Freitas. Há já muitos anos que reside em Lisboa. Tem colaboração em prosa e verso em varios jornais. Em
volume publicou As Minhas Flores, Lisboa, 1905, de 94 paginas, e Fluctuaçôes, Lisboa, 1910, de 88 paginas.
Faleceu em Lisboa no ano de 1920.
Castelo Branco (D. José de Sousa)
Este digno e zeloso prelado funchalense nasceu na
cidade de Leiria e era filho de Heitor Vaz de Castelo Branco e de D. Luzia Maria da Silva e Ataíde,
pertencentes a antigas e nobres familias daquela cidade.
Depois de exercer alguns cargos importantes foi por D. Pedro II nomeado prelado do Funchal em 1697,
recebendo a respectiva sagração episcopal em Lisboa, a 29 de Junho de 1698, das mãos do bispo inquisidor-
geral D. Frei José de Lencastre.
Pouco se demorou em seguir para o seu bispado, tendo-se, primeiramente, a pedido do monarca, dirigido a
Mazagão, onde chegou a 10 de Agôsto de 1698, a fim de exercer ali as funções do ministerio episcopal.
Naquela praça onde então se reuniram muitos portugueses dispersos em varios pontos do continente
marroquino, foi alvo das maiores demonstrações de aprêço e regozijo, e depois de alguns dias de demora
tomou o rumo da sua diocese, chegando a esta cidade a 29 de Agosto daquele ano.
Durante os 19 anos que residiu neste bispado, deu sempre provas de uma irrepreensivel conduta e mostrou
se extremamente zeloso no cumprimento dos seus deveres episcopais. Visitou pastoralmente algumas vezes
tôda a sua diocese e adoptou severas providencias para manter a disciplina eclesiastica e corrigir alguns
graves abusos que então se cometiam.
Estrenuo defensor dos privilegios e regalias de que gozava a igreja, teve que sustentar lutas com o
governador e capitão-general João da Costa e Ataide e com o provedor da fazenda Manuel Mexia Galvão,
havendo o govêrno da metropole mandado á Madeira o desembargador Diogo Salter de Macedo a sindicar
do conflito que se dera entre aquelas autoridades, do que resultou uma sentença a favor do prelado e uma
aspera censura aos actos do governador e provedor da fazenda.
Dedicou-se a estudos genealogicos e deixou inéditas algumas obras, que vêm enumeradas na Biblioteca
Lusitana.
Por motivos de doença embarcou para o reino a 16 de Julho de 1717 e não mais voltou á diocese, tendo
quatro anos depois renunciado a mitra.
Morreu em 1746, tendo sido o 141. bispo desta diocese.
Castelo Branco (Eduardo Ernesto de)
Nasceu no Funchal a 17 de Março de 1840 e
morreu em Lisboa a 4 de Fevereiro de 1905, sendo filho do contra-almirante Joaquim Pedro de Castelo
Branco. Assentou praça em 1857, atingindo o pôsto de general, e pertencia á arma de artilharia. A sua
grande obra foi a fundação do Museu de Artilharia a que dedicou tôda a actividade do seu espirito,
conseguindo elevá-lo a par dos estabelecimentos similares da Europa. Para isso trabalhou afanosamente e
ainda dispendeu do seu bôlso particular somas avultadas, quando o erario publico se tornava avaro para a
realização dos melhoramentos que ele julgava indispensaveis. Escreveu o Catalogo do Museu de Artilharia
de Lisboa.
Castelo Branco (João de Abreu)
Foi governador e capitão-general da Madeira, datando a
sua nomeação de 7 de Agôsto de 1733 e tendo tomado posse do logar a 21 de Abril de 1734.
Castelo Branco (José de Azevedo)
É de 24 de Janeiro de 1890 o decreto da sua nomeação
para governador civil deste distrito, tendo tomado posse a 30 do mês e anos referidos.
Nasceu em Vila Real a 5 de Outubro de 1852, e formou-se em medicina em 1878.
Castelo Branco (José de Freitas Teixeira Spinola de)
Nasceu no Funchal a 7 de
Janeiro de 1801 e era filho do dr. Mauricio José de Castelo Branco Manuel (V. este nome) e de D. Maria
Dionisia de Freitas Abreu Castelo Branco. Seguiu a carreira das armas e atingiu o posto de marechal de
campo. Foi lente e director da Escola Politecnica e socio da Academia Real das Sciencias. Publicou:
Elementos de algebra superior, 1843, Applicação da algebra à geometria, 1847 e Noções de calculo
differencial, 1838. Tomou parte nas campanhas da liberdade.
Castelo Branco (Mauricio José de)
Nasceu no Funchal por 1842 e frequentou o liceu desta
cidade e o de Coimbra. Desempenhou por alguns anos o cargo de escriturario de fazenda no Funchal e
colaborou no Direito, Recreio, Crepusculo, Diario Popular e outros jornais da terra. Faleceu nesta cidade a 6
de Setembro de 1910.
Castelo Branco (Pedro de)
Pedro de Castelo Branco, barão de S. Pedro, nasceu no Funchal a 19
de Abril de 1837, sendo filho do contra-almirante Joaquim Pedro de Castelo Branco. Era doutor em
medicina pela Universidade de Paris e foi por alguns anos empregado superior dos correios, passando
depois para o Ministerio dos Negocios Estrangeiros e entrando na carreira diplomatica. Serviu como
secretario de legação em varias capitais da Europa e como encarregado de negocios em Berlim e na Haia,
sendo nomeado em 1891 ministro plenipotenciario em Constantinopla. Desempenhou mais tarde o cargo de
chefe do gabinete do Ministro dos Negocios Estrangeiros, vindo a falecer em Lisboa a 14 de Dezembro de
1911.
Castelo Branco Manuel (Mauricio José de)
Era natural de Valezim e pertencia a uma
antiga e nobre familia daquela vila. Formou-se em leis e seguiu a carreira da magistratura, tendo
desempenhado nesta ilha o logar de juiz de fora no primeiro quartel do seculo passado. Quando se
proclamou o sistema representativo no país, foi o dr. Mauricio Castelo Branco eleito deputado pela Madeira
para as Côrtes Constituintes que funcionaram de 1821 a 1822. Os outros dois representantes deste
arquipelago em côrtes foram Francisco João Moniz e o dr. João José de Freitas Aragão.
Pela obra Galeria dos deputados das cortes gerais e constituintes... de 1821 se vê que Mauricio José Castelo
Branco advogou com dedicação os negocios da Madeira e se ocupou com bastante desassombro de varios
assuntos de interêsse geral, revelando-se um espirito muito liberal e de grande independencia de caracter.
Casou no Funchal com uma senhora madeirense e foi nesta ilha o tronco da distinta familia Castelo Branco.
Castelo de Paiva (Antonio da Costa Paiva, Barão de)
Este distinto medico e
naturalista nasceu no Pôrto a 12 de Outubro de 1806 e faleceu no Funchal a 4 de Junho de 1879. Era
bacharel em filosofia pela Universidade de Coimbra, doutor em medicina pela faculdade de Paris, lente da
Academia Politecnica do Pôrto e socio da Academia das Sciencias de Lisboa.
Tendo sido encarregado pelo Govêrno Português, em 1855, de estudar a ilha da Madeira sob o ponto de
vista agricola e economico, aproveitou o ensejo para fazer numerosas investigações botanicas e zoologicas
em todo o arquipelago, conseguindo organizar um herbario de 515 especies, que ofereceu em 1863 á
Academia das Sciencias de Lisboa, e uma excelente colecção de conchas terrestres. A sua Monographia
Molluscorum terrestrium, fluvialium, lacustrium insularum Maderensium (Lisboa, 1867) é, na opinião de
distintos especialistas, o trabalho mais exacto e consciencioso que tem sido publicado sobre a malacologia
do nosso arquipelago.
O Barão de Castelo de Paiva visitou também o arquipelago das Canarias, onde fêz varias observações
botanicas, malacologicas e entomologicas. O herbario que ele organizou naquelas ilhas está presentemente,
assim como o da Madeira, na Faculdade de Ciencias da Universidade de Lisboa.
Além da referida Monographia, escreveu um relatorio, de 11 paginas, em que se ocupa da Madeira sob o
ponto de vista agricola e economico (Lisboa, 1855) e os seguintes trabalhos cientificos: Noticia da
descoberta de dois molluscos novos e tambem dos typos vivos de duas especies fosseis do archipelago
madeirense (Annals and Mag. of Nat. Hist, 1862), Description of a new Sempervivum from the Salvage
Island (Seeman’s Journ. Bot., 1866), Description de deux espèces nouvelles de mollusques terrestres de
l’archipel de Madère (Journ. de Conchyl, VI , 1866), etc . .
Castelo-Melhor (Conde de)
Este titulo foi dado por Filipe II a Rui Mendes de Vasconcelos, a
21 de Março de 1611. Simão Gonçalves da Camara, 71. capitão-donatario do Funchal, casou com uma filha
do referido conde, de nome D. Maria de Vasconcelos, de quem houve João Gonçalves da Camara, 81.
capitão-donatario, e D. Mariana de Alencastre, vindo esta a herdar a capitania de seu irmão, que morreu
sem descendencia, mas que foi casado com D. Inês de Meneses. D. Mariana de Alencastre, 9º. donataria,
casou com o 2º. conde de Castelo-Melhor João Rodrigues de Vasconcelos, filho de Luiz de Sousa e
Vasconcelos e de D. Maria de Sousa, passando deste modo a capitania para a posse dos condes e depois
marqueses de Castelo-Melhor, que a conservaram até ela ser extinta.
Castilho (Alexandre Magno de)
Este oficial de marinha e escritor visitou varias vezes a
Madeira e aqui casou com uma senhora madeirense, D. Carlota de Almeida Afonseca. Morreu no Funchal a
19 de Janeiro de 1871. No seu livro Roteiro da Costa Africa Occidental encontram-se alguns elementos que
aproveitam á historia do nosso arquipelago.
Castilho (José de)
O ilustre escritor D. Antonio da Costa escreveu um livro intitulado José de
Castilho, o Heroe do Brigue Mondego, que foi publicado em Lisboa em 1874. Ocupa-se do jovem e distinto
oficial de marinha José de Castilho, filho de José Feliciano de Castilho e sobrinho do grande poeta visconde
de Castilho. José de Castilho, por motivo de saude, veio á Madeira acompanhado por sua mãi e aqui
morreu, vitimado pela tuberculose pulmonar, a 10 de Dezembro de 1864. D. Antonio da Costa consagra á
ilha da Madeira algumas brilhantes paginas do seu livro.
Castilho (Visconde de)
Pela tarde do dia 27 de Novembro de 1640 ancorou no pôrto do Funchal
o brigue-escuna Funchal, que era então o navio que fazia viagens regulares entre Lisboa e a Madeira.
Conduzia alguns passageiros e entre eles o grande poeta e eminente literato Antonio Feliciano de Castilho,
acompanhando seu irmão o dr. Augusto Frederico de Castilho, afectado de uma grave doença pulmonar e
que a esta ilha vinha pedir alivios á benignidade do nosso clima.
O dr. Frederico de Castilho era conego da Sé de Lisboa, desembargador da curia patriarcal e um poeta e
prosador de raro merito, que durante muitos anos serviu de secretario do eximio escritor e que muito
concorreu para que viessem a lume algumas das suas geniais produções poeticas.
Castilho nutria pelo irmão o mais acendrado amor fraterno, como se pode ver em muitas paginas das suas
obras, em que lhe chama “o melhor dos irmãos e lhe faz as mais ternas e afectuosas referencias. Foi essa
grande amizade que o levou, a pesar da sua cegueira, a empreender uma tão penosa viagem, não
abandonando um só momento o irmão estremecido.
O distinto madeirense Januario Vicente Camacho, governador desta diocese e bispo eleito de Castelo
Branco, pôs a residencia da Penha de França, onde durante muitos anos habitou o extinto prelado D.
Manuel Agostinho Barreto, á disposição de Antonio Feliciano de Castilho, residencia que, pela sua posição
sobranceira ao mar e nos suburbios da cidade, foi considerada nas condições exigidas para a doença de que
sofria o ilustre enfermo.
O grande mestre da nossa lingua foi ali alvo das mais significativas demonstrações de aprêço por parte de
todas as pessoas de elevada posição social da nossa terra, que intimamente se associaram á enorme dor que
tão rudemente alanceou o seu coração de irmão e a sua alma apaixonada de poeta.
Augusto Frederico de Castilho chegou ao Funchal com as fôrças tão depauperadas e com a doença em tal
grau de adiantamento que nem os ares beneficos desta terra privilegiada, nem os esforços da ciencia
conjugados com os extremos de dedicação do irmão, puderam salvá-lo da morte, que a todos nesta cidade se
afigurou desde logo inevitavel. Passado pouco mais de um mês, a 31 de Dezembro, pela uma hora da tarde,
sucumbiu Augusto Castilho aos estragos da terrivel tuberculose pulmonar, nos braços do irmão estremecido
e rodeado de algumas pessoas que procuraram tornar quanto possivel menos dolorosos os ultimos
momentos do malogrado enfêrmo.
O seu cadaver foi depositado na igreja do Colegio e dali saíu o prestito funebre em direcção á Sé Catedral,
onde foram cantados os oficios de defuntos, seguindo depois para o cemiterio das Angustias e ali foram os
despojos mortais do ilustre sacerdote sepultados em jazigo proprio. No funeral encorporou-se tudo o que de
mais distinto contava a nossa terra, a começar pelas autoridades superiores do distrito, constituindo uma
grande homenagem de respeito prestada ao morto e de estima e admiração ao grande homem de letras e
nosso ilustre hospede.
Tendo perdido o irmão, Castilho só pensou em recolher-se ao seio da familia, levando consigo o precioso
tesouro do coração do irmão, que, por disposição da sua ultima vontade, quisera que lhe fôsse extraido do
peito, para ser dado á sepultura juntamente com os restos mortais do seu querido e inseparavel
companheiro de tantos anos.
Antonio Feliciano de Castilho saíu da Madeira a 9 de Janeiro de 1841, e neste mesmo ano proferiu no
Conservatorio Real de Lisboa o elogio historico de seu irmão Augusto Frederico de Castilho, que é um dos
seus mais primorosos trabalhos literarios. Nesse elogio se encontram algumas paginas sentidas, em que
Castilho descreve a doença e a morte do irmão ocorrida na Madeira.
A familia Castilho mandou erigir no cemiterio das Angustias um pequeno monumento de marmore sobre a
campa do dr. Augusto Castilho, encimado pelo seu brasão de armas e onde se lê este epitáfio: A memoria do
dr. Augusto Frederico de Castilho, cavalleiro de diversas ordens, antigo prior do Castanheiro, opositor na
universidade de Coimbra, governador do bispado de Beja e deputado da nação portugueza, arciprestre da Se
Metropolitana de Lisboa e membro de muitas sociedades litterarias nasceu em Lisboa em 4 de Setembro de
1802 e falleceu no Funchal a 31 de Dezembro de 1840.
Castrioto Lusitano.
V. Fernandes Vieira (João)
Castro (Afonso de)
Nomeado governador civil deste distrito por decreto de 14 de Maio de 1870,
tomou posse do logar a 19 dos referidos mês e ano. Foi o governador efectivo da Madeira que por menos
tempo exerceu este cargo: oito dias apenas. A sua demissão foi determinada pela revolução de Maio de
1870, em que Saldanha se apossou violentamente do govêrno, sobraçando tôdas as pastas. A Afonso de
Castro sucedeu D. João Frederico da Camara Leme.
Afonso de Castro foi segunda vez nomeado governador civil do Funchal por decreto de 24 de Novembro de
1877, e tomou posse a 24 de Dezembro do mesmo ano. Deixou a administração deste distrito em Junho de
1879.
Foi governador nalgumas das nossas colonias, governador civil em varios distritos do continente e ilhas e
deputado da nação em diversas legislaturas.
Nasceu em Lamego em 1824 e morreu em Leiria em 1885, ao tempo em que era ali governador civil.
Escreveu e imprimiu algumas obras.
Castro (Padre Francisco de)
Foi afamado prègador do seu tempo e exerceu diversos cargos
importantes. Diz dele Barbosa Machado na Biblioteca Lusitana: “Francisco de Castro, natural da cidade do
Funchal, capital da ilha da Madeira, presbytero de vida inculpavel, mestre em artes, doutor em Theologia
pela Universidade de Evora, onde foi collegial do collegio da Purificação. Foi vigario da collegiada de S.
Pedro da cidade do Funchal, donde passando a Cabo Verde a buscar remedio para o mal da lepra, passou a
melhor vida em o anno de 1665. De muitos sermões que pregou, somente se fizeram publicar Sermão da
Conceição de Nossa Senhora, Rochella, 1656 e Sermão da Visitação da Mãe de Deus, Rochella, 1655-.
Inocencio diz no seu Diccionario Bibliographico que estes sermões são rarissimos, pois que não deparou
com exemplar algum deles.
Também foi pároco da freguesia de Santo Antonio do Funchal.
Castro (Dr. José de)
Este conhecido politico, que ainda há poucos anos foi presidente do conselho
de ministros, esteve na Madeira desde 8 de Outubro de 1884 até 2 de Junho de 1885. Foi um dos defensores
dos republicanos processados na comarca da Ponta do Sol, por causa dos acontecimentos que se deram na
Ribeira Brava no dia 29 de Julho de 1884 e de que resultou a morte de alguns populares. Escreveu um
folheto narrando esses acontecimentos, intitulado As Victimas d’ElRey, Historia dos processos movidos
contra os perseguidos politicos da ilha da Madeira, desde 29 de junho de 1884 ate o ano de 1885.
V. Arriaga (Dr. Manuel de).
Castro (D. Manuel de Portugal e)
Foi o governador e capitão-general escolhido para a
Madeira depois de D. João VI se proclamar rei absoluto. A sua nomeação é de Julho de 1823 e tomou posse
a 28 de Agôsto seguinte. No dia 26 do mesmo mês chegou ao Funchal, acompanhado do regimento de
infantaria nº. 7, dum destacamento de artilharia e de uma alçada composta de seis magistrados, que vinha
sindicar dos actos das pessoas desafectas ao govêrno absoluto. Fêz demolir com grande solenidade os
alicerces do monumento que a 28 de Janeiro de 1822 se lançaram em frente da igreja da Sé. Mas em Agôsto
de 1826 festejou também solenemente e com grande aparato a Carta Constitucional e o govêrno
representativo. Foi boa a sua administração e esforçou-se, quanto em si cabia, por moderar as violencias
dos ministros da alçada, que não poucas arbitrariedades e vexames praticaram no exercicio do seu cargo.
A ponte e rampa de D. Manuel foram dados o seu nome, por terem sido construídas durante o seu govêrno.
Saiu da Madeira a 6 de Maio de 1828.
Em 1827 foi nomeado vice-rei da India, onde fêz um excelente govêrno, tendo saído desta ilha pouco depois
do dia 27 de Abril daquele ano, em que chegou ao Funchal o seu sucessor José Lucio Travassos Valdez.
Em 1853 o vapor de guerra Infante D. Luiz conduziu á Madeira D. Manuel de Portugal e Castro, como
representante de D. Maria II, e o barão da Foz, como representante do rei D. Fernando, que vieram, em
nome de suas majestades, apresentar á imperatriz D. Amelia as suas condolencias pela morte da princesa D.
Maria Amelia e acompanhar a Lisboa os despojos mortais da mesma malograda princesa.
D. Manuel de Portugal e Castro, que era filho do marquês de Valença, nasceu a 5 de Novembro de 1787, e
morreu a 13 de Julho de 1854. Foi ministro de estado e par do reino e exerceu outros cargos importantes.
Catanho
Procede entre nós este apelido dos irmãos Kirio e Rafael Catanho, naturais de Genova.
Justificaram a sua ascendencia nobre e gozaram de grande prestigio nesta ilha. Kirio casou com D. Maria
Cabral, filha do terceiro donatario de Machico. Rafael Catanho foi cavaleiro da ordem de Cristo e teve fôro
de fidalgo da casa real.
Catanho de Meneses (Dr. João)
Nasceu na freguesia do Faial a 17 de Abril de 1854 e
matriculou-se em 1874 na faculdade de direito da Universidade de Coimbra, cujo curso concluíu em 1879.
Veio em seguida para Lisboa, onde assentou banca de advogado. Representou a Madeira em cortes nas
legislaturas de 1890, 1897 a 1899, 1900 e 1905 a 1906. Militava então no partido progressista, mas depois
da implantação das instituições republicanas no país, filiou-se no partido democratico, vindo a ser ministro
da justiça em 1915, no ministerio presidido pelo Dr. José de Castro. Saíu do ministerio por ocasião da
declaração de guerra da Alemanha a Portugal.
Cavala (Scomber scomber)
Peixe da familia Escombrida, por vezes abundante nos mares da
Madeira. Outra especie de cavala (Scomber colias) também aparece nesta parte do Atlantico.
V. Chicharro.
Cavalinha.
V. Pinheirinho
Cavalo Marinho
São assim conhecidos dois pequenos peixes da familia dos Singnatideos
(Hippocampus brevirostris e H. ramulosus), que vivem nas aguas pouco profundas do arquipelago.
Cavalum (Furna do)
Hartung dá a seguinte descrição desta furna:
“Tem 2 metros de largo, 1m,2 de alto e uns 30 metros de extensão, sendo estreita no fundo. Daí em diante o
solo desce, e só no principio é mister passar abaixado. O ar é humido e sufocante, e o escuro tão intenso que
só o aclara a luz de muitos fachos. Segue um corredor, depois vasta camara alta e larga, em seguida outro
corredor, e no fim uma abertura e profundidade. Percorrem-se neste trajecto uns 92 metros por entre
paredes asperas e desiguais e por debaixo de saliencias que irrompem da abobada, coberta de uma crusta
preta e luzidia.
A furna do Cavalum está situada proximo da Quinta Sant’Ana, em Machico.
Gazella
Este distinto musico, que foi professor do rei D. Luiz I, esteve na Madeira em 1850 e aqui deu
alguns concertos.
Cebola (Allium cepa)
Liliacea originaria do Turquestão, muito cultivada na Madeira.
As plantas novas e ás sementes chamam os madeirenses cebolinho. A cebola além dos seus usos culinarios,
é empregada na medicina, podendo servir crua e misturada com leite frio no tratamento da hidropisia, e
cozida ou assada, como cataplasma no tratamento das nevralgias e de certos tumores. A Madeira exportou
1:171:678 kgs. de cebolas em 1911, 899:895 kgs. em 1912, 874:385 kgs. em 1913 e 861:697 em 1914. A
exportação faz-se quasi exclusivamente para Demerara e Antilhas inglêsas.
Cedro
Varias resinosas pertencentes á familia das Pinaceas recebem este nome na Madeira, sendo
dentre elas a mais frequente o Juniperus glauca, conhecido vulgarmente pela designação de cedro de Goa
ou das barracas.
O cedro da ilha é o Juniperus Oxycedrus subespecie madeirensis, arbusto ou pequena arvore de 4-7 metros,
com as flores dióicas, os ramusculos pendentes, as fôlhas lineares ou linear-lanceoladas, ternadas, com 2
riscas brancas na pagina superior, e as gálbulas subglobosas e de ordinario amarelas. Este cedro, cultivado
nas quintas do Monte, Camacha e Santo da Serra, mas quasi extinto nas serras da Madeira, produz uma
madeira aromatica e leve muito apreciada pelos marceneiros. O tecto da Sé Catedral foi construído com esta
madeira, e a ser certo o que diz Manuel Tomás na Insulana, serviu ela também para edificar a primeira casa
sobradada que houve no Funchal. O oleo de cade é produzido pelo J. Oxycedrus.
Cedro (Pico do)
É um dos mais elevados picos que circundam os sitios povoados da freguesia da
Serra de Agua.
Cefalópodos
Há varias especies desta classe de moluscos, tanto costeiros como pelagicos ou abissais.
As mais comuns são: o polvo (Octopus vulgaris), a lula (Loligo vulgaris) e o choco (Sepia officinalis), todos
estes comestiveis; a Spirula Peronii, que encalha em avultado numero nas praias, como Caniçal, Porto da
Cruz e Pôrto Santo; e a pota (Ommastrephes sagittatus) pelagica e comestivel, comum a algumas milhas
longe da costa. Entre os mais raros conta-se o Argonauta argo, que tem sido visto no Pôrto Santo.
Alexandre A. Girard citou 11 especies destes moluscos, algumas delas duvidosas, enquanto Roberto B.
Watson menciona somente as quatro primeiras acima referidas, assim como a ultima.
Celestino Emidio (Manuel)
Foi durante alguns anos juiz da comarca do Funchal e representou
a Madeira em côrtes, na sessão legislativa de 1880 a 1881. Nasceu em 1812 e morreu em 1898.
Foi Celestino Emidio que, como juiz, presidiu ao celebre julgamento do famigerado facinora João Brandão.
Celidonia (Chelidonium majus)
Planta da familia das Papaveraceas, que produz um suco
amarelo e caustico, usado externamente no tratamento das verrugas, datros, etc. É comum no Funchal e
arredores.
Celindra (Alepocephalus rostratus)
Peixe das grandes profundidades, da familia
Alepocefalida, de côr negra e grande escama pouco aderente, pescado de vez em quando nas aguas da
Madeira. Prende-se ao anzol do aparelho do peixe espada preto, e sendo de carne muito branca e aspecto
agradavel, não é contudo aproveitado como alimento.
Cemiterio (Beco do)
Ficava no local onde está agora a Rua 5 de Junho, e tinha anexas as travessas
das Violetas, das Malvas, do Alecrim, das Papoilas e da Aldeia. Os casebres do beco e das quatro ultimas
destas travessas começaram a ser demolidos em 1887, mas as obras da Rua 5 de Junho só ficaram
concluídas em 1892. Tanto o beco como as mencionadas travessas eram simples vielas, ladeadas de
pequenas habitações insalubres e de mau aspecto.
Cemitério Britânico
O primitivo cemiterio britanico ficava no local onde está agora o Largo do
Conde do Ribeiro Real, ao fim da Rua 5 de Junho. A portaria concedendo aos subditos inglêses a necessaria
licença para construírem um cemiterio para sepultura dos seus mortos, tem a data de 3 de Janeiro de 1761,
mas só a 10 de Setembro de 1767 é que foi adquirido o terreno destinado a esse fim. Antes da construção do
referido cemiterio, eram lançados ao mar os cadaveres dos estrangeiros não catolicos, falecidos no Funchal.
O actual cemiterio britanico foi construído em 1808 e acrescentado em 1852 e 1889. A parte mais antiga
deste cemiterio, foi adquirida para enterramento dos soldados inglêses falecidos no Funchal, enquanto a
Madeira esteve ocupada por tropas britanicas, ao passo que a parte mais moderna só principiou a ser
utilizada quando a Camara Municipal do Funchal teve necessidade de demolir o primitivo cemiterio, para
fazer comunicar a Rua 5 de Junho com a da Carreira. A cedencia deste ultimo cemiterio por parte dos
administradores da Capela e Cemiterio Britanicos, fez-se em Agôsto de 1888, tendo-se obrigado a Camara a
empregar as necessarias diligencias para facilitar a remoção dos restos mortais existentes naquele recinto
para um terreno contiguo ao cemiterio actual, terreno que os mesmos administradores não tinham até
então podido aplicar ao alargamento do mesmo cemiterio por falta das necessarias licenças. O ultimo
enterramento no cemiterio onde está hoje o Largo do Conde do Ribeiro Real, fêz-se em Julho de 1885.
Cemiterio Israelita
Fica na parte leste da cidade, no caminho do Lazareto. Tem na entrada uma
inscrição em hebraico, que quere dizer “habitação da vida”, e a data 5.611, correspondente ao ano 1851 da
era cristã.
Cemiterios
O mais antigo cemiterio do Funchal, destinado ao enterramento dos cadaveres dos
individuos catolicos, é o de S. Roque, construído em 1836, tendo começado neste mesmo ano as obras do
cemiterio das Angustias, as quais só ficaram concluídas em 1838. 0 cemiterio de Santa Lazia é de 1840 e o
de S. Gonçalo de 1841. Antes do estabelecimento dos cemiterios, eram os cadaveres dos catolicos sepultados
nas igrejas ou nos adros destas, havendo todavia no sitio das Angustias um pequeno terreno a que
chamavam o cemiterio da Santa Casa, destinado a receber os cadaveres dos individuos que faleciam no
hospital.
O estabelecimento de cemiterios nalguns concelhos rurais foi demorado, lendo-se num jornal da epoca, que
em 1862 não havia ainda nas freguesias de S. Jorge e do Arco de S. Jorge recintos destinados á inumação
dos cadaveres. Em 19 de Agôsto e 26 de Outubro de 1850 recomendou o Conselheiro José Silvestre Ribeiro
ás Camaras Municipais a construção de cemiterios, visto existir em muitos pontos do distrito “a pratica
supersticiosa de enterrar os mortos dentro dos templos”.
O cemiterio do Pôrto Santo foi acabado em 1838, sendo, por conseguinte, um dos mais antigos do
arquipelago.
V. Angustias (Cemitério das).
Cenoura (Daucus carota)
Umbelifera cultivada nas hortas madeirenses por causa das suas
raízes alimentares. A polpa destas raizes é usada em cataplamas no tratamento dos tumores, queimaduras e
molestias de pele, seu suco serve para corar a manteiga.
Cenoura da Rocha (Monizia edulis)
Planta provida de um caule subterraneo espesso e de
caules floriferos de 3 a 8 decimetros, com as folhas triangulares, as inferiores 3-4 penatisectas; umbelas com
20-25 raios; pétalas brancas ou violaceas. Esta Umbelifera, que é muito ornamental, tem sido achada no
Curral das Freiras, na Deserta Grande e nas Selvagens; os seus caules subterraneos podem ser comidos, e
têm um sabor que faz lembrar um pouco o das castanhas. A cenoura da rocha também é conhecida pela
denominação de nozelha.
Cenouras (Ilhéu das)
Pequeno ilhéu adjacente á ilha do Pôrto Santo, não muito distante da
Ponta Branca ou do Nordeste.
Centeio (Secale cereale)
Graminea anual, cultivada na Madeira e Porto Santo. A farinha de
centeio só, ou associada á do trigo, serve para manipular um pão escuro, mas saboroso, e a palha da planta é
utilizada no fabrico de chapéus. O arquipelago produz anualmente cerca de 2:500 hectolitros de centeio.
Centopeia (Cermatia coleoptrata)
Miriapode inofensivo que aparece ás vezes, durante a
noite, nas paredes dos quartos. Também se encontra nas fendas e orificios das rochas.
Cêrco Americano
Rêde de cêrco experimentada há poucos anos nos mares da Madeira sem
resultados lucrativos.
Cerejeira. (Prunus Avium var. Juliana)
Árvore europeia da familia das Rosaceas, sub-
familia das Prunoideas, cultivada na Serra de Agua, Curral, Ponta do Pargo, etc.. As cerejas madeirenses são
subglobosas, encarnadas ou pretas e de sabor agradavel; amadurecem em Junho e Julho. Os pedunculos
das cerejas são muito usadas em infusão, como diuretico.
A cultura da cerejeira preta foi proibida em 1788 pelo governador D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho, com o
fundamento de que os frutos desta arvore serviam para dar côr aos vinhos.
Ceroulas (Ilhéus da)
Na costa maritima da freguesia do Seixal encontram-se dois pequenos
ilhéus chamados do Guincho e das Ceroulas, também conhecidos pelo nome de ilhéus do Seixal.
Cerveira e Sousa (D. José Xavier de)
Os acontecimentos políticos que se desenrolaram no
país por ocasião da implantação do govêrno constitucional, determinaram a ruptura de relações entre o
govêrno português e a curia romana, resultando, entre outros inconvenientes, a demora no preenchimento
das vacaturas episcopais.
O prelado D. Francisco José Rodrigues de Andrade saíra da Madeira em Maio de 1834 e, renunciando o
bispado, estabeleceu residencia na cidade de Génova, onde faleceu e onde jaz sepultado. Só passados dez
anos, depois de reatadas as relações diplomaticas entre Portugal e a Santa Sé, é que foi provida a vaga de
prelado existente na diocese funchalense.
O apresentado pelo govêrno português e confirmado pela curia romana foi D. José Xavier Cerveira e Sousa,
que nascera na freguesia de Mogofores, concelho de Anadia, a 27 de Novembro de 1797 e era filho do dr.
José Xavier Cerveira, antigo magistrado, e de D. Rosa Joaquina Cerveira de Sousa. Cursou a faculdade de
teologia da Universidade de Coimbra e nela se doutorou, exercendo ali o magisterio superior, quando foi
chamado a dirigir os destinos da igreja funchalense, sendo confirmado bispo a 14 de Junho de 1843 e
recebendo a sagração episcopal a 2 de Junho do ano seguinte.
Chegou á Madeira a 8 de Julho de 1844 e governou este bispado até os principios do ano de 1848, sendo
então transferido para a diocese de Beja, por decreto de 18 de Abril do mesmo ano. Deixou entre nós as
mais honrosas tradições da sua administração diocesana, a pesar das lutas que teve de sustentar e das
grandes dificuldades que assoberbaram o seu episcopado. Foi no seu tempo que se levantou mais tenaz e
ameaçador o proselitismo protestante, que tinha como caudilho audaz e propagandista de talento e de saber
o dr. Roberto Kalley, um medico distintissimo e um orador de raça, que arrastava após si as multidões.
Muito se escreveu no jornalismo, em folhetos e em livros acêrca da propaganda calvinista na Madeira, que
teve como principal fautor o dr. Kalley, mas ainda está por fazer a historia desse periodo agitado e
tumultuario da historia madeirense. O celebre medico escossês, para subtrair-se ás iras populares, teve que
embarcar clandestinamente, sendo conduzido á praia numa rêde e em trajos de mulher, e ao ser pressentida
a sua fuga, incendiaram-lhe a mobilia e a selecta livraria na casa da sua residencia ao Vale Formoso, pelo
que o nosso govêrno teve de pagar a indemnização de alguns contos de réis.
D. José Xavier de Cerveira e Sousa, depois de ser bispo de Beja e de Vizeu, recolheu-se a Mogofores e ali
veio a morrer, na propria casa onde nascera, a 15 de Março de 1862, estando sepultado na igreja paroquial
daquela freguesia.
Cevada
A cevada cultivada em larga escala na Madeira e Porto Santo é o Hordeum vulgare, subespecie
hexastichum; a subespecie distichum, conhecida pela denominação de cevada trigo, só aparece nalgumas
localidades da primeira destas ilhas.
A cevada é cultivada principalmente na região baixa da Madeira, mas nalguns sitios vai até ás proximidades
da serra, sendo colhida aí geralmente no mês de Agôsto e semeada em Fevereiro. Na região inferior
semeiam-na em Dezembro e Janeiro e colhem-na em Junho e Julho.
A sopa de cevada é um dos alimentos das populações campesinas da Madeira, e a farinha serve para
confeccionar rosquilhas e biscoitos, principalmente na ilha do Pôrto Santo. A palha é utilizada na cobertura
de cabanas e na alimentação do gado estabulado.
O arquipelago produz anualmente cêrca de 6:000 hectolitros de cevada.
Cevadilha (Nerium odorum)
Arvore da familia das Apocinaceas, cultivada nas quintas do
Funchal. É originaria da India e tem flores grandes, purpureas, rosadas ou brancas, odoriferas. As fôlhas
são venenosas.
Cezimbra (Marquês de)
Foi nomeado governador civil por decreto de 9 de Setembro de 1868 e
tomou posse a 18 de Outubro seguinte. Deixou o govêrno em Setembro de 1869.
Era filho do 1º. duque de Palmela e sogro do madeirense o conselheiro Aires de Ornelas.
Chá (Thea sinensis)
Esta planta, da familia das Ternstroemiaceas, foi introduzida na Madeira no
primeiro quartel do seculo XIX, pelo consul inglês Henrique Veitch que, enquanto foi vivo, a cultivou na sua
quinta do Jardim da Serra. Há trinta anos ainda havia nesta quinta algumas plantas de chá.
O consul Veitch só fabricava o chá preto. A diferença entre chás pretos e chás verdes procede que na
preparação daqueles as fôlhas são finalmente sêcas em joeiras sôbre um fogo alimentado a carvão, ao passo
que na destes a secagem se faz numa vasilha de ferro.
Segundo o sr. Gabriel de Almeida, os terrenos mais apropriados para a vegetação do arbusto que produz o
chá, são os das encostas das montanhas, inclinados, umidos, frescos e abundantes em humus, havendo
conveniencia em se acharem afastados do litoral, pois que o mesmo arbusto é muito sensivel ao sal marinho
trazido pelos ventos.
Chá Bravo
São conhecidos por este nome na Madeira os dois subarbustos seguintes, pertencentes
ambos á familia das Malvaceas e originarios da America: Sida carpínifolia e S. rhomnbifolia. Tem ambos
fôlhas serradas e pequenas flores amarelas, mas os pedunculos que na primeira especie são muito curtos e
1-4 floros, são na segunda relativamente longos e I-floros.
A infusão do chá bravo pode ser usada como emoliente.
Chacota. (A)
Publicou-se de 9 de Dezembro de 1906 a 3 de Setembro de 1907, tendo saído 25
numeros.
Chagas (Fr. Damião das)
Nasceu no Funchal e morreu em 1600 no continente do reino. Era
frade arrabido, cuja ordem tinha sua sede na serra da Arrabida. Exerceu cargos importantes na sua
congregação, e diz Barbosa Machado que escreveu uma obra ascetica em dois volumes, que não chegou a ser
publicada.
Chagas (Tropaeolum majus)
Planta da familia das Tropeolaceas, perfeitamente naturalizada
no Funchal e suburbios. É originaria da America, e os seus frutos colhidos novos e deitados em vinagre
podem substituir as alcaparras; das suas flores e fôlhas tenras fazem os inglêses uma salada, podendo estas
partes da planta ser empregadas também como medicamento antiscorbutico.
As verdadeiras alcaparras são as flores em botão da Capparis spinosa, especie desconhecida na Madeira.
Chão (Ilhéu)
O grupo de pequenas ilhas chamadas Desertas (Ilhéu Chão, Deserta Grande e Bugio)
fica na direcção de nor-noroeste a su sudeste com a Ponta de São Lourenço, sendo o Ilhéu Chão o que se
encontra mais próximo da referida Ponta. “0 Ilheu Chão, diz o dr. A. Rodrigues de Azevedo, assim chamado
por ser raso, é a menor das três ilhas; tem uma milha ou 1852 metros de comprido por um terço de milha ou
617 metros na maior largura; tem as costas de rochas escarpadas; porém é plano e de bom torrão; separa-o
da Ponta de São Lourenço um canal de 11 milhas ou pouco mais de 20 quilometros, pelo qual transitam
navios de todo o lote. A sua maior altura é de 98 metros. Ao sul do Ilhéu Chão encontra-se a Deserta
Grande, da qual está separado por uma passagem ou boqueirão, apenas navegavel para barcos de pequena
lotação. Ao norte do Ilhéu Chão fica o pequeno Ilhéu do Navio, também chamado Prego do Mar.
Chapéu (Rua do)
Era a parte da actual rua Correia Heredia, outrora da Conceição, compreendida
entre a rua da Figueira Preta e a do Bom Jesus.
Chapouto
Os pescadores madeirenses dão este nome a um peixe extremamente raro. Trata-se de uma
especie da familia Escombrida, que no Pôrto Santo e no Algarve chamam merma.
Em Portugal dá-se o nome de chaputa à Brama raii e ao Centrophorus lusitanicus.
Charamba
Canto popular frequentemente usado na Madeira, sobretudo entre a gente do campo. É
uma simples melodia de pouco relêvo, e compõe-se de oito compassos em tempo ternario e movimento
lento, alternando com um ritornelo de andamento vivo, em compasso binario. É executada geralmente em
tom de sol, pelo braguinha com acompanhamento de viola de arame e rajão.
0 charamba é, as mais das vezes, cantado ao desafio entre dois ou mais individuos, que trovam em quadras
improvisadas e tomam para tema a vida dos circunstantes, fazendo-se alusões que tanto podem ser
amaveis, como picantes e até mesmo ofensivas. Se no divertimento os animos estão já alterados por
frequentes libações e as trovas são demasiado irritantes, pode acontecer que o canto termine em desordem,
quebrando-se os proprios instrumentos na cabeça dos cantadores.
No interessante livro da autoria de Carlos Santos, intitulado “Tocares e Cantares da Ilha” e publicado no
Funchal no ano de 1937, encontra-se um capitulo epigrafado 0 Charamba, que trata desenvolvidamente
deste canto popular madeirense.
Charcot (Jean)
Chegou ao Funchal a 12 de Setembro de 1908. Comandava a expedição que explorou
as regiões antarticas a bordo do Pourquoi pas?.
Chaves (Rua do Dr.)
É a antiga rua dos Aranhas (V. este nome). 0 Dr. Chaves, que tinha o curso
da antiga escola medico-cirurgica do Funchal, fêz parte da Camara Municipal do Funchal, mas não se
distinguiu em nenhum ramo do saber humano.
Cherne (Polyprion cernium)
Peixe da fauna marinha da Madeira, pertencente á familia
Serranida, tido pelos naturais como um dos de melhor sabor que aparecem no mercado. Comum outrora,
hoje tende a rarear, pela pesca intensiva que dele se tem feito. Além de ter sido abundante, não raro se
encontravam exemplares com o pêso de 25 quilogramas, e havia-os embora raros, que pesavam 50 e até
mais. São os pescadores de Machico que em especial se dedicam a esta pesca, servindo-se da cherriola que
vão lançar a grande profundidade-desde umas 150 a 450 braças. É exclusivamente na região abissal que
vivem os adultos: os novos, porém, percorrem em cardumes a superficie do mar, seguindo muitas vezes
uma viga de madeira flutuante ou os restos de algum naufragio. É por isso que a estes individuos novos
costumam chamar cherna de pau, designando-os por charnota se pesam menos de uns 5 quilogramas.
Na Madeira é este peixe geralmente chamado cherna, nome que se dá a outra especie nas costas de
Portugal, onde também existe o cherne madeirense, conhecido ali por esta ultima designação.
Cherriola
Aparelho de pesca muito usado pelos pescadores de Machico e composto de uma linha
central ou madre que cai a prumo e á qual estão fixadas horizontalmente 4 ou 5 pequenas varas de
marmeleiro ou vime, que guardam entre si um intervalo de 3 palmos e de cujos extremos pendem pequenas
linhas ou loros, com os respectivos anzóis. A linha central tem no extremo inferior uma pedra ou pandulho
que faz o aparelho descer, e liga-se pelo extremo superior a uma linha de pesca comum. É na captura dos
chernes adultos que principalmente o empregam, trabalhando em fundos de 206 e 300 braças, onde
também pode colher-se a pescada, a gata, o ramudo, a xara e outros peixes de azeite. Este aparelho
assemelha-se ao que em Portugal chamam barqueira de arame, sendo como este largado a prumo até que o
pandulho toque o solo submarino. A cherriola dos pescadores de Camara de Lôbos difere um tanto da que
atrás fica descrita.
Quanto á origem do têrmo, não repugna admitir que o aparelho, pelo facto de apresentar na disposição das
varas certa semelhança com os paus de surriola, que se armam perpendicularmente ao costado de certos
navios e donde pendem cabos para amarração dos botes, recebesse o nome de surriola, transformado por
corrupção em cherriola.
Chicharos
Dá-se este nome na Madeira ao Lathyrus stativus e ao L. Cicera, plantas da familia das
Leguminosas, cultivadas nalgumas hortas. Ambas estas plantas têm fôlhas com 2 folíolos estreitos, mas o
bordo superior das vagens, que é alado na primeira, é simplesmente canaliculado na segunda. Alguns
autores atribuem ás sementes dos chicharos propriedades venenosas, mas na Madeira, onde o L. stativus é
frequentemente cultivado para fins alimentares, não nos consta que tais propriedades tenham sido notadas.
As sementes dos chicharos servem para sopa, e os caules e fôlhas constituem uma boa forragem, podendo
ser utilizados também como estrumação verde.
Chicharos. Sitio da freguesia do Faial
Chicharro
Há nos mares da Madeira, com este nome e segundo alguns autores, duas especies de
peixes da família Carangida, que são o Trachurus trachurus e o T. Cuvieri. Parecem arribar sem
regularidade, e se há temporadas de grande escassez, outras há em que os cardumes são em avultado
numero. Procuram-nos ora no fundo da zona litoral com a gorazeira, ou a meia agua com a agulheira, ora á
superficie com a cana ou a rêde circular, sendo este ultimo processo muito rendoso quando a arribada é
abundante. Outras vezes ainda são apanhados nas artes de arrasto, que são também susceptiveis de farta
colheita.
A pesca no fundo é feita de dia, enquanto que a da superficie pode ser de dia ou de noite, sendo neste ultimo
caso empregado um candeio conhecido por griseta cão ou maçarico, conforme as localidades, e que pela sua
intensa luz é um poderoso auxiliar do pescador, atraindo o peixe á superficie do mar.
A perseguição que os atuns, a bicuda e outras especies viajantes movem ao chicharro, contribue muitas
vezes para que ele venha procurar abrigo nas aguas da costa, e o mesmo acontece relativamente á cavala,
que é pescada pelos mesmos processos e também irregular na sua passagem. Como isca, um e outra são
preferidos pelos pescadores a muitas outras especies.
Chicote (O)
Publicou-se apenas um numero, a 27 de Agôsto de 1916.
Chocalheira (Briza maxima)
Graminea indigena, frequente na Madeira e Pôrto Santo. É
planta forraginosa facil de reconhecer pela suas espiguetas grandes, ovóides, brancas ou avermelhadas. A
chocalheirinha (Briza minor) distingue-se da chocalheira pelas suas espiguetas muito pequenas e
triangulares. E também comum na Madeira e nos montes do Pôrto Santo.
Chôco (Sepia officinalis)
Molusco cefalopodo não raro, sobretudo no verão, nas aguas costeiras
madeirenses. É comestivel e de bom sabor, sendo pescado em aparelho de anzol, mais comummente nas
artes de arrasto. A sua concha interior, a que chamam silba (corruptela de siba), aparece frequentes vezes
sôbre as praias, picada pelas aves marinhas. A gaivota é um dos inimigos deste animal, espreitando no vôo e
caindo sobre ele com velocidade, quando se aproxima da superficie do mar. O 1iquido negro que o chaco
ejacula, turvando a agua e ocultando-se assim dos seus inimigos, é chamado ferral pelos pescadores,
naturalmente pela sua cor de ferrugem carregada. É aquele mesmo liquido que noutras partes é usado no
fabrico de uma tinta parda empregada em pintura com o nome de sepia.
Ás vezes acontece ao pescador, ao alar a poita do barco, encontrá-la envolvida num objecto estranho,
semelhante a um cacho de uvas, cujos bagos negros, macios e um tanto piriformes têm a flacidez da
borracha: são os ovos do chôco, chamados uvas do mar e tingidos pelo proprio ferral. Foram ali depostos
em volta da corda da poito enquanto o barco estava ancorado, ou apoitado, no dizer caracteristico dos
homens do mar.
Choupa (Cantharus griseus)
Peixe da familia Esparida, não muito frequente nas aguas
costeiras deste arquipelago.
É de sabor amariscado, e quasi sempre é colhido em aparelho de anzol, deixando-se ás vezes apanhar no
peneiro ou em rêdes de arrasto, mas sempre em reduzido numero, o que é talvez devido aos seus habitos
solitarios e á sua negação para a vida em cardume.
Christmann (Dr. Fr.)
Medico alemão que passou na Madeira três invernos e fêz aqui alguns
estudos meteorologicos. E.: Funchal auf Madeira und seine Klima: Zabern. 1889.
Chronica (A)
O 11 numero saíu a 3 de Março de 1838 e o ultimo, que foi o 96, a 28 de Dezembro de
1839.
Chronica
Publicou-se o 11. numero a 31 de Outubro de 1840, tendo saído 44 numeros.
Chronica Official (A)
Publicou-se de 7 de Novembro a 12 de Dezembro de 1840, dando 6
numeros.
Chumbada
Pêso de chumbo ligado á parte inferior dos aparelhos de pesca conhecidos por briqueira e
gorazeira, e que serve para os fazer mergulhar. Também designa o conjunto dos pesos do mesmo metal que
guarnecem a tralha inferior das artes de arrasto ou de atravessar e a da rêde chamada tarrafa.
Chupa Sangue (Lepadogaster Gouani)
Pequeno peixe madeirense da
familia
Gobiesocida, frequente na zona das marés, sob as pedras soltas e lisas que o mar deixa a descoberto. É
interessante pela sua conformação, que entre outras particularidades, apresenta um disco ventral em forma
de ventosa, que lhe permite fixar-se aos calhaus roliços da costa. Não tem utilidade alguma.
Ciclo Poetico
No livro Poetas Palacianos, consagrou Teofilo Braga algumas paginas a diversos poetas
madeirenses do seculo XV, que o ilustre escritor julgou poderem constituir um ciclo poetico distinto do dos
poetas continentais, de cuja afirmativa discorda o distinto anotador das Saudades da Terra, nas eruditas e
ponderosas razões que apresenta a pag. 770 e seguintes da mesma obra. É uma interessante questão, que
merece ser lida e apreciada pelos que se dedicam a assuntos de historia e critica literaria.
Cidrão (Pico do)
Sobranceiro á freguesia do Curral das Freiras e não muito distanciado do Pico
Ruivo fica o Pico do Cidrão, a uma altitude de 1676 metros.
Cidrão (Ribeiro do)
Ribeiro da freguesia do Curral das Freiras, afluente da caudalosa Ribeira dos
Socorridos.
Cidreira (Citrus medica)
Arbusto raras vezes arvore, de l,m 50 a 3 metros, com ramos
espinhosos, folhas obtusas (no limoeiro e na laranjeira são agudas) e frutos grandes, mais ou menos
oblongos. Estes frutos não apresentam nunca o mamilo ou protuberancia que se nota nos de Portugal. A
cidreira, originaria da Asia, é cultivada principalmente no Curral das Freiras, de onde todos os anos vem
para o Funchal grande numero de cidras destinadas ás confeitarias.
Ciganos
A 9 e 22 de Maio de 1912 desembarcaram no Funchal varias familias de ciganos, que se foram
estabelecer em barracas no Campo da Barca. Os homens eram caldeireiros e as mulheres entregavam-se ao
oficio de ler a buena dicha, havendo entre elas algumas de feições bastante regulares. Demoraram-se na
Madeira cêrca de dois meses, tendo os seus trajos e maneira de viver, despertado bastante interêsse da parte
dos madeirenses.
Cigarros
Os gafanhotos ou locustas são insectos ortopteros conhecidos na Madeira pelo nome de
cigarros. O cigarro verde comum é a Phaneroptera-4-punctata; o cigarro cinzento, frequente nos campos, é
o Pachytilus danicus. Foi o Dectycus albifrons que fêz grandes devastações nas culturas da Madeira e Porto
Santo, em 1844. Aparece de vez em quando na primeira destas ilhas, trazido pelos ventos da costa de Africa
mas depois daquele ano, nunca mais causou prejuízos importantes ás culturas.
Cigerão
Nome vulgar da Vicia hirsuta e da V. gracilis, plantas da familia das Leguminosas, muito
comuns na Madeira.
Cima (Ilhéu de)
Ilhéu a lés-sueste do Pôrto Santo, onde existe um farol instalado em 1900. Está
separado da ilha pelo chamado Boqueirão de Cima.
Encontram-se nele algumas conchas fosseis, e é conhecido também pelo nome de Ilhéu dos Dragoeiros,
embora estas arvores desaparecessem completamente não só do ilhéu, mas também de tôda a ilha do Pôrto
Santo.
Cinco de Junho.
V. Proclamacão do Governo Constitucional
.
Cinco de Junho (Rua)
Esta via publica, que comunica directamente a rua dos Aranhas (hoje do
Dr. Chaves) com o largo do Ribeiro Real foi aberta há poucos anos, por ocasião da demolição e reparos que
sofreram os antigos becos chamados do cemiterio, que ficavam nas imediações dos dois cemiterios
britanicos.
A data de Cinco de Junho de 1834 é a da proclamação do govêrno constitucional na Madeira, sendo dado
este nome á nova rua, para comemorar aquele fausto acontecimento.
Cintra (Diogo Gomes de)
Este navegador português do seculo XV escreveu na lingua latina
uma narrativa das suas viagens e nelas se refere á descoberta do arquipelago madeirense. É interessante ler-
se o que a tal respeito se encontra a paginas 905 das Saudades da Terra.
A narrativa de Diogo Gomes foi traduzida por Gabriel Pereira e publicada no “Boletim da Sociedade de
Geografia de Lisboa”, no nº. 5 da serie l70. relativa aos anos de 1898 e 1899.
Cinzeiro
Era conhecida outrora por esta denominação uma molestia que atacava com frequencia as
videiras madeirenses. Ha quem tenha querido identificar esta molestia, cujos caracteres não são hoje bem
conhecidos, com a mangra, mas esta opinião não nos parece justificada, porquanto se o Oidium Tuckeri
existisse na ilha desde epocas remotas, não é crivel que as nossas vinhas pudessem ter-lhe resistido, visto a
eficacia do enxôfre contra esse parasita, só depois de 1850 haver sido conhecida. É mais natural admitir que
o cinzeiro fôsse provocado pela Botrytis cinerea, pelo Fumago vagans, pela Pestalozzia Menezesiana ou por
qualquer dos outros fungos que aparecem ainda hoje na videira, mas sem lhe causarem grandes prejuízos.
Cipreste (Cupressus sempervirens, L.)
Arvore da familia das Pinaceas, originaria da Asia
Menor e cultivada nos cemiterios da Madeira. É especie de copa estreita e aguda, de flores monóicas e de
gálbulas relativamente grandes. Produz boa madeira.
Cirrípedes
Na monografia dos cirrípedes publicada por Darwin, vêm mencionadas especies
madeirenses, sendo 6 balanideos, 1 verrucideo e 6 lepadideos.
V. Carcinologia.
Ciúmes
Nome vulgar de varias especies do genero Delphinium (familia das Ranunculaceas). O
Delphinium Ajacis, L. é frequente no Monte e o D. orientale, Gay é cultivado nalguns jardins. Estas especies
têm as fôlhas muito recortadas e as flores azues, violaceas ou brancas, esporoadas.
Clairouin (Hector)
Nasceu em França, veio para o Funchal em 1857, onde foi largos anos
professor de francês, e aqui faleceu a 20 de Novembro de 1882. E.: Methodo Michaelense para o ensino da
lingua francesa, Funchal, 1861. Há uma segunda edição desta obra com o titulo O Nec Plus Ultra das
Grammaticas Methodicas para o ensino da Lingua Francesa, Lisboa, 1874.
Clamor Popular (O)
Saiu de 19 de Março a 19 de Julho de 1892, dando 32 numeros.
Clamor Publico (O)
Deu o primeiro numero a 22 de Maio de 1854 e o ultimo, que foi o 170, a 20
de Janeiro de 1858. Foram seus redactores os madeirenses Antonio Correia Heredia, dr. Antonio Gonçalves
de Freitas e dr. Luiz de Freitas Branco.
Clarke (James)
Ocupou-se do clima da Madeira na sua obra intitulada The Influence of Climate in
the prevention and cure of chronic Diseases, more particulary of the Chest and Digestive Organs, Londres,
20. edição, 1830.
Clarke não esteve na Madeira, mas os medicos inglêses Heineken e Renton forneceram-lhe as informações e
dados necessarios para escrever o capitulo da referida obra, consagrado ao clima desta ilha.
Clementina (Maria)
Freira do Convento de Santa Clara, muito admirada por nacionais e
estrangeiros por causa da sua extraordinaria formosura. Henrique Nelson Coleridge no seu livro Six months
in the West Indies in 1826, refere-se com entusiasmo aos encantos de Maria Clementina, e outros
estrangeiros falam também deles nos livros que publicaram acêrca da Madeira.
O autor dos Rambles in Madeira, que viu Maria Clementina em 1826, diz-nos que ela tinha cabelos louros e
uma expressão no rosto que cativava, sendo um tipo de beleza não frequente na ilha, o que justificava a
admiração que por ele tinham os madeirenses.
Em 1854, segundo refere Lady Wortley, ainda a freira madeirense revelava pelos seus olhos e bem
delineadas feições “quão perfeita havia de ter sido a sua beleza nos tempos da juventude”.
Maria Clementina era filha de Pedro Agostinho de Vasconcelos, e professou no convento de Santa Clara nos
fins do primeiro quartel do seculo XIX, para satisfazer aos desejos paternos. Faleceu no mesmo convento,
contando mais de 60 anos de idade, a 16 de Maio de 1867.
Vide o interessante artigo inserto a paginas 104 do volume IV do Arquivo Historico da Madeira.
Clima
O clima do Funchal tem sido considerado por muitos medicos como susceptivel de exercer acção
benefica no tratamento das molestias pulmonares. Dizia Sir James Clark que de todos os climas de que
tinha conhecimento, o da Madeira era o melhor para as pessoas atacadas de tisica pulmonar, e o Dr. Barral
numa obra que escreveu acêrca desta ilha, não hesitou em aconselhar a residencia no Funchal *aos
individuos que tendo predisposições hereditarias para a tuberculose, começam a sofrer tosse, ou
hemoptises, ou cansaço, ou emmagrecimento, ou qualquer sintoma que possa fazer recear a invasão dessa
molestia. Segundo o mesmo medico, o clima do Funchal deve também ser aconselhado a todos aqueles que
sofram de tisica incipiente ou no primeiro periodo, podendo mesmo ser util quando a molestia tenha
chegado ao chamado segundo periodo, uma vez que o doente se sinta com fôrças e bem disposto.
Foi o Dr. Heberden quem primeiro deu uma noticia favoravel do clima da Madeira, em 175l, seguindo-se-
lhe o Dr. Fothergill em 1755, o Dr. Adams em 1801, o Dr. Gourlay em 1811, o Dr. Nicolau Pita em 1812, o Dr.
Heineken em 1824, o Dr. Sousa Vaz em 1832, Sir James Clark em 1835 e 1842, o Dr. Kampfer em 1847,
Roberto White em 1851, Eduardo Harcourt no mesmo ano, o Dr. Lund em 1853, o Dr. Barral em 1854, o Dr.
Mittermayer em 1855, o Dr. Garnier em 1858, o Dr. Acursio G. Ramos em 1880, o Dr. Jacoud em 1881, o Dr.
Embleton em 1882, o Dr. C. Taylor em 1889 e o Dr. Mourão Pita em 1859 e 1889.
É certo que o dr. Mason não aprovou a residencia no Funchal para os tuberculosos, e que até pretendeu
provar que o ar era mais umido aqui do que em Londres, mas se atendermos a que as observações desse
medico foram feitas num ano excepcionalmente chuvoso e num dos pontos da cidade em que a atmosfera se
apresenta sempre mais carregada de vapores aquosos, somos levados naturalmente á conclusão de que tais
observações não podem ser aproveitadas em desabôno do nosso clima.
A frequencia da tuberculose entre os naturais é um argumento de que amiudadas vezes se servem os
detractores do nosso clima para afugentar daqui não só os doentes, mas também as pessoas que costumam
visitar-nos por outros motivos, mas, embora essa frequencia seja um facto comprovado pelas estatisticas,
não nos parece que ela possa ter a significação que se lhe tem querido atribuir. O alcoolismo e outros
excessos, a falta de higiene e as privações, predispõem aqui como em tôda a parte para a tuberculose, sendo
essas as principais causas de ser tão vulgar na ilha uma das piores molestias que afligem a humanidade.
O Dr. Gourlay numa obra que publicou em 1811, aconselhava os tisicos a procurarem no Funchal um abrigo
para o inverno dos seus países, a pesar de conhecer muito bem quanto a tuberculose atacava os naturais, e o
Dr. Barral cuja seriedade e conhecimento da materia ninguém pode pôr em duvida, exprimiu-se do modo
seguinte ao falar do clima da capital da Madeira: “a impressão que elle faz no viajante é de uma suavidade e
de uma brandura tão agradavel, que parece que as constituições mais delicadas e deterioradas podem ahi
viver ao ar livre. Em geral uma temperatura quasi uniforme e sempre moderada durante o dia, pouco vento
que não encomoda, as horas de calor modificadas por algumas nuvens que abrandam os raios do sol, e pela
viração do mar; nunca frio notavel; chuvas ás vezes abundantes, mas passageiras, e deixando logo o terreno
em estado de se poder passear; uma atmosphera em que se não sente humidade, nem poeira ou efluvios
encomodos. Tudo isto dá logo a medida de um clima excepcional e proprio para o tratamento de
padecimentos chronicos em constituições delicadas; e no homem do norte que, fugindo ao rigor de um
clima inhospito, ali aborda no inverno, e encontra uma extensa vegetação em pleno vigor, em que figuram
muitas das mais bellas e uteis plantas de todos os climas, produz o efeito maravilhoso de um desses paraizos
imaginados e descritos pelos poetas. . . “.
Os dados que em seguida apresentamos, resumem o que se sabe sôbre o clima da Madeira e confirmam o
que ficou dito sôbre o clima do Funchal. São esses dados elementos indispensaveis ao medico e ao
fisiologista, e podem ser uteis também ao agricultor e ás pessoas que pretendam visitar o nosso país, quer
para beneficio da sua saúde, quer por outra qualquer causa.
Temperatura. No Funchal não há, em regra, nem frios nem calores excessivos; a temperatura á sombra
raras vezes desce abaixo de 81 centigrados, ou sobe acima de 261 sendo somente em dias de leste que o
termometro regista aqui temperaturas um tanto elevadas. A pequena variação no grau de calor de mês para
mês e de estação para estação, é um dos caracteristicos do clima do Funchal, sendo de notar também que
durante o dia não sofre a temperatura grandes alterações. As temperaturas mais altas observam-se entre a 1
e as 3 horas da tarde e as mais baixas entre as 4 e as 6 horas da manhã, o que equivale a dizer que as
maiores oscilações termicas que ocorrem durante o dia se tornam pouco sensiveis para os doentes, os quais
raras vezes se expoem ao ar livre antes das 8 ou 9 horas da manhã e depois das 7 ou 8 horas da tarde.
As observações feitas no Pôsto Meteorologico do Funchal no periodo de 9 anos (1909 a 1909) apresentam os
seguintes resultados com relação á temperatura media do Funchal, em graus centigrados:
Janeiro ......................... 15,00
Fevereiro........................ 14,92
Março............................ 15,35
Abril............................ 16,24
Maio............................. 17,32
Junho............................ 19,16
Julho............................ 20,78
Agosto........................... 22,19
Setembro......................... 21,47
Outubro ......................... 19,97
Novembro......................... 17,50
Dezembro......................... 15,80
A temperatura media no referido periodo foi 17,97, e se procurarmos a diferença entre a maxima e a minima
das medias mensais (22,19 e 14,92), acharemos 7,27. A maxima absoluta foi 37,3 em 13 de Agôsto de 1907, e
a minima absoluta 4,5 em 25 de Fevereiro de 1904, sendo a diferença, portanto, 32,8.
A media das medias anuais foi 18,61 desde 1865 a 1893, e 18,67 desde 1865 a 1874.
Pelo que respeita ás estações do ano, a media das respectivas temperaturas desde 1901 a 1909, foi a
seguinte:
Inverno.......................... 15,24
Primavera........................ 16,30
Verão............................ 20,71
Outono........................... 19,64
O inglês White que fêz observações meteorologicas em Machico e em Santo Antonio da Serra desde Junho a
Setembro de 1850, achou para aquelas localidades as seguintes medias termicas:
MACHICO S. ANTONIO DA SERRA
Junho..........19,35 Junho...........17,03
Julho .........21,10 Julho...........18,03
Agosto.........21,16 Agosto..........18,40
Setembro.......21,12 Setembro........ -
A temperatura media no Poiso (1400 m.) foi 131,4 nos meses de Julho a Novembro de 1904, e no Areeiro
(1700 m.) 121,2 nos meses de Junho a Outubro de 1895. 0 sr. Guilherme Teles de Meneses, a quem se
devem estas (Observações meteorologicas, viu o termometro no Areeiro marcar 2 graus abaixo de zero em
Novembro de 1895, e lemos nas Excursões na Madeira, do falecido Padre Pontes, que quando a temperatura
no Funchal é 14 graus centigrados, o termometro está ás vezes no Paul da Serra a zero e abaixo de zero.
A tabela seguinte, extraída das observações feitas pelo sr. Adolfo Cesar de Noronha, mostra a temperatura
media, á sombra, da vila do Pôrto Santo (15 m. acima do nivel do mar), desde Dezembro de 1900 a
Novembro de 1901 e desde Junho a Dezembro de 1902:
Dezembro....... 18,6 Junho........... 21,3
Janeiro........ 17,3 Julho........... 22,5
Fevereiro...... 17,4 Agosto.......... 24,0
Março.......... 17,9 Setembro........ 23,8
Abril.......... 19,0 Outubro......... 21,7
Maio........... 20,1 Novembro........ 20,0
A mais alta temperatura observada durante o referido periodo foi 291 ,2, a 24 de Agôsto de 1902; a mais
baixa foi 12,0, a 10 de Janeiro de 1901. Estas temperaturas, e em especial a ultima, não devem ser
consideradas como extremas absolutas, visto o observador se não ter servido do termometro de maxima e
minima nas suas observações.
A maior fôrça solar no Funchal, diz o Dr. Mason, apresenta-se ordinariamente das 0 até ás 11 horas da
manhã, e mais de uma vez tivemos ocasião de notar durante o ano de 1907, que em dias claros, os
termometros expostos ao sol marcam ao meio dia temperaturas mais altas do que ás 3 horas da tarde.
Segundo o Dr. Mason, a maior fôrça absoluta do sol é 761, 11 centigrados e a media maxima 466,96, sendo
as medias das estações as seguintes: inverno 34,90; primavera 49,50; verão 56,11; e outono 47,35. Em
Agosto de 1907, em ocasião de leste e com o céu claro, vimos o termometro do pôsto de S. Lourenço marcar
ao sol 62,5, á hora do meio dia, e 59,2 ás 3 horas da tarde:
Pressão atmosferica. Das observações meteorologicas feitas no pôsto de S. Lourenço desde 1901 a 1909,
colhem-se as seguintes medias com respeito á pressão atmosferica:
Janeiro........765,71 Julho.......763,98
Fevereiro......765,51 Agosto......763,43
Com os dados atras assinalados acha-se ter sido a pressão media nas diferentes estações, a seguinte:
Março..........763,60 Setembro....763,46
Abril..........762,81 Outubro.....761,86
Maio...........762,75 Novembro....761,90
Junho..........762,95 Dezembro....763,61
A maxima absoluta foi 774,6 em 14 de Dezembro de 1902 e 23 de Novembro de 1905, e a minima
743,6 em 17 de Dezembro de 1901, o que dá a diferença de 31,0. A pressão media no referido periodo foi
763,46, e a diferença entre a maxima e a minima das medias mensais (765,71 e 761,86) de 3,85.
Inverno ....... 764,94
Verão ......... 763,45
Primavera...... 763,05
Outono......... 762,40
A mais baixa pressão atmosferica observada até hoje no FunchalB737,61, deu-se em 23 de Janeiro de 1868,
com tempo calmo, tendo havido porém nesse dia um violento vendaval em Tenerife, que derrubou o celebre
dragoeiro do vale de Orotava. Segundo o sr. Teles de Meneses, no Poiso a pressão media foi 636mm nos
meses de Julho a Novembro de 1894, e no Areeiro 617,5, nos meses de Julho a Outubro de 1895.
As observações feitas pelo sr. A. C. de Noronha na vila do Pôrto Santo desde 1 de Junho a 9 de Dezembro de
1902, deram as seguintes medias:
Junho ......................763,46
Julho.......................763,20
Agôsto......................761,61
Setembro....................762,31
Outubro ....................762,32
Novembro ...................763,12
Dezembro....................761,15
A diferença entre a maxima absoluta 768,40 (24 de Novembro) e a minima absoluta 752,83 (3 de
Novembro) foi 15,67.
Umidade. A umidade no Funchal está de tal modo combinada com a temperatura que nunca se manifesta
sob a forma de nevoa, nem é incomoda aqueles que a ela andam sujeitos.
Invisivel como é, essa umidade desempenha no entanto um papel importante nas condições climatologicas
da ilha, visto ser ela que tempera a aspereza do ar e evita os excessos de temperatura a que estão sujeitas as
regiões do interior dos continentes.
Entre 800 e 1000 metros, no lado sul da Madeira, e entre 700 e 800 do lado norte, vêem-se com frequencia
densos nevoeiros cingirem os montes, principalmente durante o dia, em razão das condições termicas se
tornarem desfavoraveis á conservação da agua no estado vaporoso e diáfano, mas para cima e para baixo
dessas altitudes a umidade cresce gradualmente, sendo já pouco apreciavel na altitude de 1700 metros.
O maior grau de secura observa-se nas ocasiões de leste, podendo a umidade relativa descer então até 18
por cento, como foi notado por Mac Euen em 17 de Fevereiro de 1849 na Quinta Holloway, a cêrca de 85
metros acima do nivel do mar.
Refere o dr. Mason que no Funchal é frequente os objectos de ferro se oxidarem, os sapatos e os livros se
cobrirem de bolores e os sais absorverem a umidade, e que se em noites bem claras deixarmos um prato
exposto ao ar livre, se recolhem em poucas horas algumas oitavas de orvalho. Pelo que respeita a este ultimo
ponto, cremos haver exagêro no que diz aquele medico, pois que a quantidade de orvalho que se deposita
sôbre os corpos durante a noite só é verdadeiramente sensivel na região alta da ilha, e em especial nos vales
do interior; e quanto aos demais fenomenos, sem pretendermos negá-los, atribuímo-los todavia á falta de
ventilação ou de sol nos quartos ou habitações onde foram notados. O Dr. Mason residiu em Santa Luzia,
isto é no bairro mais umido do Funchal, o que faz com que as suas observações higrometricas só tenham
valor para caracterizar o clima da localidade onde foram realizadas.
As medias que em seguida apresentamos, referem-se á umidade relativa e á tensão do vapor de agua desde
1901 a 1905, segundo os dados colhidos no Posto Meteorologico do Funchal:
umidade relativa
Janeiro ..... 62,2
Fevereiro.... 62,7
Março ....... 57,5
Abril ....... 61,3
Maio ........ 61,5
Junho........ 65,1
Julho ....... 66,3
Agôsto ...... 63,0
Setembro..... 62,3
Outubro...... 63,4
Novembro..... 65,3
Dezembro..... 64,6
Maxima media mensal nos 5 anos 68,9 (Outubro, 1904). Minima media mensal nos 5 anos 55,6 (Março,
1902). Media dos 5 anos 62,9. Media das estações: inverno 63,1; primavera 60,1; verão 64,8: outono 61.6.
TENSÃO DO VAPOR
Janeiro.............. 8,97
Fevereiro............ 9,08
Março................ 8,51
Abril................ 9,56
Maio................. 9,99
Junho................11,85
Julho................13,59
Agosto...............13,92
Setembro.............13,20
Outubro..............11,95
Novembro.............10,86
Dezembro............. 9,70
Maxima media mensal durante os 5 anos 14,14 (Agosto, 1904). Minima media mensal durante o mesmo
periodo 7,77 (Março, 1904). Media dos 5 anos 10,93.
Segundo White, a umidade relativa media em Santo Antonio da Serra foi 76 % em Junho e Julho de 1850, e
72 % em Agôsto do mesma ano; e segundo o sr. Teles de Meneses, foi essa humidade de 58,8 % no Poiso e
de 65,6 %0 no Areeiro, nos períodos atrás mencionados.
“A humidade relativa no Funchal, diz o sr. Teles de Meneses, é em geral maior á tarde e menor de manhã;
no Areeiro é exactamente o contrario; ao elevar-se o sol no horizonte, as nuvens condensadas muito abaixo
desta zona levantam-se pela dilatação do ar aquecido, e por este facto a umidade aumenta pelas 7 horas da
manhã, decrescendo das 9 em diante até o dia seguinte á mesma hora. No Areeiro, á tarde, o ar é tão seco
que permite estar fora de casa até ás 11 horas da noite e mais, em tempo calmo, sem se experimentar o mais
leve encommodo”.
Os dados seguintes mostram a umidade relativa media na vila do Pôrto Santo nos meses de Junho a
Dezembro de 1902:
Junho.................. 70,2
Julho.................. 72,2
Agosto................. 67,3
Setembro............... 71,1
Outubro................ 70,0
Novembro............... 76,0
Dezembro............... 76,1
Chuvas. As chuvas caiem em todos os meses do ano na região alta da Madeira, mas no Funchal faltam
algumas vezes, principalmente durante o verão. As primeiras chuvas fortes aparecem geralmente em
Outubro; e desde então até Abril chove mais ou menos copiosamente no Funchal, mas sem que as
precipitações atmosfericas tenham um caracter periodico bem acentuado. Em Maio e Junho há ás vezes
falta de chuva, e em Julho e Agôsto não cai em certos anos uma unica gota de agua no Funchal. As chuvas
do outono são em regra mais copiosas e violentas que as do inverno.
É raro, informa o Dr. Barral, chover na cidade durante todo o dia ou tôda a noite; geralmente há intervalos
em que não cai chuva alguma, podendo mesmo o tempo apresentar-se claro durante esses intervalos. As
chuvas torrenciais são trazidas pelos ventos de sudoeste, nordeste e oeste, e duram ás vezes alguns dias,
embora com intensidade variavel.
As medias que em seguida apresentamos referem-se á quantidade de chuva, em milimetros, recolhida pelo
udometro do Pôsto Meteorologico do Funchal, no periodo decorrido de 1901 a 1909:
Janeiro............. 78,3
Fevereiro........... 79,8
Março .............. 58,8
Abril............... 33,4
Maio................ 21,4
Junho............... 16,0
Julho............... 2,9
Agosto.............. 6,7
Setembro............ 20,4
Outubro............. 97,4
Novembro............137,3
Dezembro............ 85,4
Em 1901, ano muito chuvoso, caíram no Funchal 1138mm de chuva; em 1906, ano muito sêco, apenas
488mm. Em Junho de 1904, em Julho de 1903, 1905 e 1909, e em Agosto de 1901, 1903, 1905, 1906, 1908 e
1909, não caíu chuva alguma no Funchal. A maxima chuva diaria foi 155,mm I em 10 de Novembro de 1901.
No Funchal chove em media durante 79 dias por ano, tendo sido de 101 o maior numero de dias chuvosos
registados até hoje em 1 ano, e de 52 o menor. De Dezembro de 1900 a Novembro de 1901 houve no Pôrto
Santo 40 dias de chuva forte e 84 de chuva fraca, ou chuviscos.
Neve, geada e granizo. Estes meteoros aquosos aparecem na região alta da Madeira, como diremos noutro
logar.
(V. Dente de cão, Granizo e Neve)
Nuvens e nevoeiros. “Ha na Madeira, diz o Dr. Barral, um bom numero de dias claros em que o ceu se
apresenta puro e quasi sem nuvens, porem ha um maior numero de dias claros, e de tempo excellente, mas
em que durante o dia apparecem nuvens em maior ou menor numero - cumulus e cirrus, mostrando-se
agora, desvanecendo-se logo, refrescando a temperatura e interceptando por pequenos espaços de tempo a
luz solar... Não são muitos os dias em que o ceu se conserva nublado, sem que durante todo o dia se possa
ver o sol, mas ha muitos em que o sol se não vê por horas, estando antes e depois o dia claro e bom tempo...
Uma atmosphera clara e serena, com um ceu resplandecente, luminoso e puro, como se vê frequentemente
nos climas de Italia, principalmente da Italia meridional, muito poucas vezes se observa na Madeira...”
“Pela manhã, diz ainda o mesmo autor, o alto dos montes apparece claro e o horizonte sobre o mar
carregado de grossas, espessas e escuras nuvens, nimbus, ou se elevam sobre o Oceano nuvens brancas
acastelladas, e mais ou menos separadas umas das outras, cirrus, cumulus; a viração do mar impelle-as
sobre a terra durante parte do dia, refrescando a atmosphera e moderando o ardor dos raios do sol; para a
tarde o tempo está nublado. Então passa o vento ao quadrante norte, ordinariamente desde o norte até o
nordeste, e leva as nuvens para o lado do mar; muitas espalham-se e dispersam-se com o vento; as noites
são frequentissimamente claras, sobretudo até á meia noite, e as estrellas brilham com um fulgor tropical: e
isto se repete por muitos dias, fazendo-se as referidas variações quasi á mesma hora em todos os dias.
Tambem se vê em algumas noites pequena nevoa sobre o mar, ou sobre os montes, e o arco iris noturno não
é alli um phenomeno muito raro. Durante o dia é um phenomeno frequente e ás vezes de uma grande
belleza.
Os nevoeiros que cingem as montanhas na zona de condensação e de que já falámos atrás, provêm dos
vapores transportados pelas correntes ascendentes que se estabelecem durante o dia ao longo das encostas.
Estes nevoeiros desaparecem muitas vezes ao cair da tarde, tornando-se as noites limpidas e estreladas. No
verão os nevoeiros formam-se mais abaixo do que no inverno, sendo portanto a zona de maxima umidade
mais elevada nesta do que naquela estação.
Ventos.
Das observações sôbre a direcção dos ventos feitas na Ponta de S. Lourenço desde 1901 a 1909,
vê-se que o vento que mais domina ali em todo o ano é o NE., seguindo-se-lhe o NNE., o N., o NW , o SW. e
o E.. O primeiro destes ventos dura do meado de Abril até o fim de Outubro, podendo aparecer porém
noutras epocas, e em geral não é sentido directamente na cidade, embora se reconheça pela agitação que
produz na superficie do mar, fora da baía.
O vento N. sopra ás vezes no inverno com grande fôrça, e é ele que produz a neve e o granizo que aparecem
na montanha durante essa estação. Os ventos de W., NW. e SW. dão uma grande porporção de chuvas,
sendo os dois ultimos muito violentos ás vezes nos primeiros meses do ano. Os ventos dos quadrantes desde
o SW. até o SE. pelo S. trazem por vezes uma grande agitação nas aguas da baía, sendo maior então o grau
de umidade da atmosfera no Funchal.
Diz o Dr. Barral que se examinarmos o que acontece nas diferentes estações, achamos os ventos de N. até E.
predominando no verão e no outono, e menos no inverno; os ventos do SW. ao NW., mais na primavera e
outono, e também no inverno, sem que sôbre isto se possa estabelecer regra bem fixa.
Sente-se algumas vezes na Madeira particularmente durante o verão, um vento quente e sêco a que os
habitantes chamam leste, e que dura em geral 1 a 3 dias. Deste vento que parece ter origem na costa de
África, falaremos no logar competente, assim como dos ventos da terra e do mar (terral e embate), que se
sucedem todos os dias um ao outro a horas quasi regulares.
No Poiso, diz o sr. Teles de Meneses, dominaram os ventos NE., N. e NW. desde Julho a Novembro de 1894,
e no Areeiro, os ventos N. NNE e NW., desde Junho a Outubro de 1895.
O NE. domina também no Pôrto Santo, seguindo-se-lhe o N., ENE., o NNE. e o E.. O NE. foi em 1901 o
vento mais frequente desde Maio até Outubro, e o ENE. soprou desde Março até Novembro, chegando a
dominar neste mês e em Abril, Julho e Agôsto. O N. foi muito frequente desde Fevereiro até Julho, e em
Novembro, ao passo que o E. dominou em Dezembro e Janeiro. O NW. soprou principalmente de Dezembro
até Março, em Novembro, e de Janeiro até Maio.
V. Adams, Barral, Bloxam Mackenzie, Burguess, Christmann, Clarke, Grabham, Gourlay Goldschmit,
Harcourt, Heineken, Kampfer, Lund, Mason, Mittermayer, Pita, Sousa Vaz, Smyth e White.
Consultando os artigos que ficam citados, pode formar-se uma longa relação dos autores, que em diversas
epocas se ocuparam do clima da Madeira. Essa já vasta bibliografia foi recentemente enriquecida com um
estudo notavel da autoria do ilustre oficial da armada e academico Hugo de Lacerda escrito na lingua
francesa, mandado publicar no ano de 1936 pela Junta Geral Autónoma do Funchal e subordinado ao titulo
Le Climat de Madère, ébauche d’une étude comparative, que é o mais valioso trabalho que sôbre o assunto
tem visto a luz da publicidade. A delegação da repartição de turismo nesta ilha mandou muito
acertadamente proceder á tradução desse estudo em lingua inglêsa, de que foi encarregado o ilustrado
professor dr. Alberto Figueira Jardim e que saiu a lume no ano de 1838 com o titulo de The Climate of
Madeira With a comparative study.
Não desejamos encerrar estas linhas dedicadas ao clima da Madeira, sem deixar aqui arquivado um notavel
artigo do dr. Armindo Narciso, em que este ilustre cultor das ciencias medicas foca alguns aspectos novos
deste assunto sempre momentoso para o nosso arquipélago, esclarecendo duvidas e estabelecendo
principios, que devem ser da maior utilidade para todos os que pretendam orientar-se com inteira
segurança na discussão dessa materia ou na propaganda que haja de fazer-se acêrca da benignidade e
qualidades terapeuticas do incomparavel clima desta ilha.
“Os tratadistas, mesmo os mais sabedores e conceituados, não estão de acôrdo sôbre a acção terapeutica dos
climas oceanicos, isto é, dos climas do mar alto, também chamados pelágicos. E êste desacôrdo é mais
acentuado entre os autores continentais do que entre os inglêses. Estes, por serem insulares e viajados,
conhecem melhor o mar.
A principal causa dêste desacôrdo provém dum grande numero de climatologistas considerar estes climas
como todos iguais, quando a verdade é que sôbre estes climas influem factores locais, tal como acontece
com os climas costeiros e do interior, que fazem variar a formula meteorológica do clima.
Do que ficou registado se conclue que o clima da Madeira é um clima oceânico especial, pois tem
características mediterrânicas, a pesar daquela Ilha estar situada em pleno Atlântico. Mas este clima de
caracteristicas mediterrânicas tem “nuance“ local própria. O inverno ali é ainda mais tépido que no litoral
europeu do Mediterrâneo, com atmosfera igualmente temperada e luminosa, mas de umidade ligeiramente
superior.
Ali, os ventos frios, umidos e tempestuosos do norte quebram-se e deshidratam-se nas montanhas que
abrigam a cidade do Funchal. Os ventos quentes e secos do norte da Africa chegam refrescados e
umedecidos pela sua passagem numa extensão, embora curta, do mar e são um dos factores de amenidade
do inverno insular.
Somente durante o verão estes ventos de Africa chegam ali secos e quentes, mas isto dum modo
intermitente e basta subir ás montanhas, ou passar para o outro litoral da Ilha, para deixar de lhes sentir a
agressão.
Assim, faltam neste clima os factores de maior excitação do clima mediterranico: correntes aéreas secas, por
vezes violentas, de temperatura extrema, ora extremamente fria, ora extremamente quente, como são o
Mistral e o Siroco, e todos os ventos da mesma origem e parentesco.
Na Madeira só existem os factores de estimulação branda: atmosfera pura, muito transparente, grande
luminosidade. E, além disso, a estimulação branda destes factores é ainda atenuada pelos factores de efeito
sedante, como sejam a grande calma, a termalidade uniforme e a umidade que, ainda que pequena, é no
entanto um pouco superior á da maior parte das estancias climáticas do Mediterraneo.
Não é portanto este clima da Madeira um clima de estimulação acentuada, mas sim de pequena
estimulação, mesmo mais tónico do que estimulante. A sua acção estimulante faz-se sentir sôbre as funções
vegetativas, a sua acção tónica sôbre as funções nervosas. Assim, ali, a digestão e a nutrição são
estimuladas, o sistema nervoso é tonificado.
O bem estar, o alívio que o doente sente ao chegar à Madeira, é como que uma euforia, mas euforia branda,
sem excitação, sem insónia, sem febre. Por isso, em vez de excitado, o doente sente-se calmo, adquirindo a
alegria de viver que tinha perdido. E engorda, adquire fôrças, entra em vida nova.
Foram os inglêses os primeiros a aproveitar este clima, verificando que ele tem apreciáveis propriedades
terapêuticas na cura dos surmenados, dos esgotados, dos débeis e debilitados, de nutrição insuficiente, a
entrar em consumpção, dos convalescentes e dos tuberculosos, não excluindo os pulmonares. E deste modo,
uma grande multidão de doentes, vindos de tôda a Europa, mas principalmente das Ilhas Britânicas, acorre,
todos os invernos, à Madeira, desde há mais dum seculo.
A percentagem de tuberculosos do pulmão era muito grande, entre estes doentes e os resultados por eles
obtidos eram tão benéficos que a Madeira foi, durante todo o seculo passado, a grande estância dos
pulmonares.
A ofensiva que os tisiologistas continentais desencadearam contra o mar, no princípio do século actual,
afastou os tuberculosos daquela Ilha. Hoje a Madeira deixou de ser uma estância sanatorial para se tornar
uma estância de repouso, onde os inglêses doentes e sãos passam o inverno.
Mas haverá razão para assim acontecer? Será na verdade o clima da Madeira prejudicial aos pulmonares?
Evidentemente que não. Esta prescrição resultou dum mal entendido, nascido no Continente Europeu e
depois generalizado mesmo às Ilhas Britânicas, ainda que alguns tisiologistas ingleses continuem a
aconselhar a ida para a Madeira aos seus doentes pulmonares, como se fazia correntemente no século
passado.
Este mal entendido proveio da confusão que se tem feito entre o clima marítimo costeiro e o clima oceânico,
dum modo geral, e de se julgarem, como já disse, todos os climas marítimos iguais. Ora no clima marítimo
costeiro como no clima marítimo oceânico, os elementos prejudiciais aos tuberculosos pulmonares são a
grande umidade e a violência do vento. É deles que deriva o clima marítimo vivo, violento. Quando a estes
elementos se junta a alternancia dos ventos marítimos com os ventos terrestres, secos e de termalidade
muito variável, o clima marítimo ainda se torna mais violento.
Ao clima da Madeira faltam, em absoluto, estes factores de agressão e por isso nada impede que êle seja
aproveitado na terapêutica dos pulmonares. É certo, e não é de admirar, que nem todos os tuberculosos do
pulmão estão em condições de beneficiar com uma estada naquela Ilha. Mas o mesmo acontece com a ida
para a montanha. 0 clima da Madeira, assim como o clima alpino, está contra-indicado nos pulmonares em
avançada consumpção, de aparelho circulatório e digestivo insuficientes: doentes muito febris, diarreicos,
taquicárdicos.
Mas êle está indicado nos doentes ainda vigorosos, de bom coração e canal digestivo, podendo suportar a
sua acção tónica, ligeiramente estimulante. E se sôbre os doentes em fusão e os cavitários o clima da
montanha, de atmosfera fria, sêca e rarefeita, está de preferência indicado, por deshidratar as lesões e
diminuir a expectoração; sôbre os doentes com muita tosse, congestivos, de capacidade respiratória
diminuida, por extensas lesões fibrosas, muito sensiveis ao resfriamento e às variações térmicas, o clima
madeirense, de atmosfera tépida. Ligeiramente humida, é superior ao da montanha, acalmando a tosse e a
dispneia, diminuindo a congestão e a frequência da hemoptise.
É evidente que os doentes a mandar para a Madeira devem ainda ter a reserva de energia necessária para
aproveitar da acção daquele clima insular. Mas é preciso notar que esta reserva de energia não tem de ser
maior que nos doentes que vão para as estancias de altitude, acontecendo mesmo que as crianças, e os
adultos com mais de 40 anos, que possam aproveitar duma cura climática, suportam melhor o clima da
Madeira que o clima de altitude.
Não há portanto razão para excluir todos os tuberculosos, e duma maneira absoluta, do clima da Madeira. 0
que é preciso é saber escolher os que aí podem tirar proveito e excluir os restantes. É êste, de resto, o
segrêdo do sucesso de tôda a terapêutica, quer ela seja cirurgica, medicamentosa, hidrológica ou climática.
Clubes
Os primeiros clubes que houve no Funchal, destinados exclusivamente a recreio e distracção dos
seus socios, foram o Clube União, que principiou em 10 de Março de 1836, tendo os seus estatutos sido
aprovados pela assembleia geral em 20 de Agôsto de 1874 e pelo Governador Civil em 7 de Fevereiro de
1879, e o Clube Funchalense, instalado em 3 de Dezembro de 1839 e cujos estatutos foram aprovados pela
assembleia geral em 18 de Dezembro de 1876 e pelo Governador Civil em 16 de Fevereiro de 1877, mas afora
estes, outros foram criados nesta cidade em epocas mais recentes, entre os quais mencionaremos os
seguintes:
Clube Economico
Os seus estatutos são de 1856, mas ignoramos onde esteve instalado.
Clube Aliança
Foi fundado por 1867 e acabou em 1879 ou 1880, tendo estado primeiro numa casa ao
principio da rua de João Tavira, e por fim num predio á rua da Alfandega. Não temos conhecimento dos
seus estatutos.
Clube Restauração
Foi fundado em Maio de 1879 na casa do extinto Clube União, á avenida
“Manuel de Arriaga”, antiga praça da Constituição. Os seus estatutos foram aprovados por alvará do
Governador Civil de 12 de Agôsto de 1889 e reformados pela assembleia geral em 21 de Fevereiro de 1897.
Novo Clube Restauração
Substituíu o precedente, e está acomodado na mesma casa, tendo os
seus estatutos a data de 22 de Fevereiro de 1908.
Clube Washington
Foi fundado por 1882, num predio á rua de Santa Maria. Durou pouco tempo e
esteve também numa casa á rua do Castanheiro.
Clube dos Estrangeiros
Durou pouco tempo e ocupou a casa do extinto Clube Funchalense, á
rua dos Ferreiros. Os seus estatutos tem a data de 11 de Maio de 1897.
Clube União
Foi fundado por 1888 e esteve na rua do Conselheiro, na rua de João Tavira, na rua do
Aljube e no largo de S. Sebastião. Dissolveu-se há mais de 20 anos.
Clube Recreativo Musical
Esteve estabelecido num predio á rua de João Tavira, tendo sido a
sua fundação pouco posterior á do precedente. Dissolveu-se em 1900 ou pouco depois.
Clube Recreio e Instrução
Este extinto clube esteve instalado num predio á rua do Bispo e os
seus estatutos foram aprovados pela assembleia geral em 24, 29, e 30 de Agosto de 1897.
Turf Club
Este extinto clube teve os seus estatutos aprovados pela assembleia geral em 24 de Fevereiro
de 1900.
Clube Internacional do Funchal
Ocupou a casa do falecido Conde de Carvalhal, á rua da
Mouraria, tendo os seus estatutos a data de 22 de Agôsto de 1896. Durou pouco tempo.
Stranger’s Club (Casino Pavão)
Os seus estatutos têm a data de 10 de Outubro de 1906.
The Sports Club
Os seus estatutos têm data de 12 de Dezembro de 1901.
Clube Sports da Madeira
Dois clubes se fundaram no Funchal com esta denominação, tendo os
estatutos do mais antigo a data de 28 de Novembro de 1910 e os do mais moderno a data de 6 de Outubro
de 1911.
Clube Sport Maritimo
Os seus estatutos foram aprovados pela assembleia geral em 10 de Maio
de 1911.
Clube Republicano da Madeira
Este extinto clube esteve na casa da avenida “Gonçalves
Zarco”, onde funcionara a Associação Comercial, tendo os seus estatutos a data de 10 de Abril de 1911.
Clube Naval Madeirense
Os seus estatutos têm a data de 20 de Julho de 1917 e a comunicação
de que se achava constituído foi feita a autoridade competente em 17 de Maio de 1918.
O Clube Funchalense, a que atrás nos referimos, durou perto de 60 anos e foi estabelecido numa casa ao
Carmo, donde passou para o palacete á rua dos Ferreiros, que ocupou até ser extinto. Só faziam parte dele
pessoas duma certa categoria social, ao passo que o Clube Unido, fundado quasi pela mesma epoca e extinto
em principios de 1879, era menos exigente nos requisitos que exigia dos seus socios, os quais em todo o caso
deviam ter boa conduta e ocupar uma posição decente na sociedade. O alto comercio era admitido no Clube
Funchalense, mas os lojistas e outros comerciantes com estabelecimentos de venda, não tinham ali ingresso
na qualidade de socios. Tendo certo negociante britanico muito estimado e considerado no Funchal, mas
que tinha um estabelecimento de fazendas, pretendido fazer parte do mesmo clube, foi avisado por alguns
socios seus amigos de que a votação da assembleia geral lhe seria desfavoravel, se não vendesse ou
trespassasse antes o mesmo estabelecimento!
O Clube Funchalense tornou-se muito conhecido pelos seus bailes e soirées, em que havia quasi sempre
grande concorrencia de senhoras nacionais e estrangeiras. Quasi todos os personagens ilustres que
visitavam esta terra, eram obsequiados com festas naquela casa, tendo muitas destas deixado de si
recordação perduravel, pelo luxo e explendor que revestiram e pela maneira bizarra e fidalga com que os
mesmos personagens foram ali recebidos.
V. Maçonaria.
Cochonilha (Cocus cacti).
Insecto homoptero da familia dos Coccideos, importado das Canarias
no segundo quartel do seculo passado e cuja femea produzia o escarlate da tinturaria. Criavam-na sôbre o
cacto chamado tabaibeira (Opunti tuna), porém esta industria nunca chegou a florescer, a pesar das
tentativas persistentes de alguns comerciantes do Funchal. Deveu-se o insucesso, em parte, á oposição do
camponês, que preferia o tabaibo ao insecto que lhe estregava esse tão apreciado fruto, embora se tratasse
de materia corante de alta valia naquela epoca.
O termo cochonilha tem na Madeira, como aliás noutras partes, significação muito restrita, servindo
sómente para designar o insecto tintorial da tabaibeira, ao passo que as cochonilhas, cochenilhas ou
cochinilhas dos naturalistas são todos os Coccideos, familia que compreende, além do insecto referido,
muitos outros chamados lapas e alforras.
A cochonilha aparece ainda nas folhas das tabaibeiras em S. Gonçalo e na Praia Formosa, reconhecendo-se
facilmente pelas manchas que forma na planta. Passando nestas manchas a ponta duma bengala, ela
aparece-nos mais ou menos tinta de escarlate.
Foi Miguel de Carvalho e Almeida o introdutor da cochonilha na Madeira, tendo o farmaceutico Gerardo
José de Nobrega publicado um pequeno trabalho sobre este insecto, intitulado The Cultivation of Cochineal
(Pharmaceutic Journal, 1849).
Codigo Civil
Começou a vigorar na Madeira, em 22 de Março de 1868.
Codorniz (Coturnix coturnix)
Ave galinacea da familia Perdicidea, que cria na Madeira e
Pôrto Santo. A sua carne é muito saborosa.
Coelho
Este apelido de familia procede de Rodrigo Anes Coelho, um dos primeiros povoadores da
Madeira, que teve terras de sesmaria na Ponta do Sol, parece que no Lombo de S. João.
Coelbo (Thyrsites prometheus)
Peixe triquiurideo, de passagem nos mares da Madeira.
Actualmente não é muito vulgar.
Coelho do Pôrto Santo
O coelho do Pôrto Santo tem, segundo o zoologo Carlos França, os
caracteres e o aspecto do coelho selvagem vulgar do sul da Europa, diferindo dele tão somente na forma e
dimensões do crânio. Para o referido zoologo, esse coelho, de que Haeckel fêz uma descrição tão fantastica
quanto inexacta na sua Historia da Criação Natural, é uma subespecie do Oryctolagus cuniculusbo 0.
cuniculus Huxleyi, peculiar no Porto Santo e impossivel de distinguir pelos seus caracteres exteriores da
forma meridionalis do coelho europeu.
Darwin, que teve ocasião de examinar e estudar sete coelhos do Pôrto Santo, dois dos quais vivos, notou que
eles diferiam do coelho vulgar inglês tanto na côr como nas dimensões, sendo talvez esta circunstancia que
levou Haeckel e criar o seu Lepus Huxleyi, ao qual atribuiu “uma côr particular, uma forma que se aproxima
da do rato, habitos noctambulos e uma selvajaria extraordinaria”.
Não é sómente na côr do pêlo que os coelhos do Pôrto Santo são identicos aos da região mediterranea; são-
no também noutros caracteres externos de facil apreciação. Para Miller, os coelhos dessa região, os do
arquipelago da Madeira e os dos Açôres, constituem uma subespecie-a subespecie Haxleyi- opinião esta que
não teriamos duvidas em aceitar, se não fôssem as diferenças osteologicas assinaladas por Carlos França.
O coelho do Pôrto Santo é em regra, um pouco mais pequeno que o coelho de outros países, o que talvez
deva ser atribuído á falta de espaço, como diz o professor Delage, isto é á dificuldade que tem as especies
encerradas dentro de certos limites de fortificar a sua raça por meio de cruzamentos entre individuos
variados e numerosos.
Diz o Professor Camilo Torrend que os coelhos, como a raça bovina e certos moluscos, apresentam no Pôrto
Santo exemplos tipicos de nanismo, podendo nós acrescentar que certas especies vegetais, como o visco, o
zambujeiro, o buxo da rocha, etc., também têm naquela ilha dimensões mais reduzidas do que na Madeira,
em virtude de influencias mesologicas.
Os cruzamentos entre os coelhos do Pôrto Santo e os europeus não só são possiveis, como estão em uso
como meio de fortificar e reconstituir a raça, e quanto a habitos selvagens, parece-nos não haver razão para
atribuí-los tão somente aos individuos daquela ilha. Os coelhos da Madeira são tão esquivos e bravios como
os do Pôrto Santo, quando aprisionados depois duma certa idade.
Conta Azurara que um amigo de Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatario do Pôrto Santo, lhe dera uma
coelha que teve filhos durante a viagem. Ao chegar á ilha, Perestrelo soltou a mai e a prole, mas dentro de
pouco tempo multiplicaram-se estes animais por forma tal, que se não podia semear ou plantar coisa
alguma que não fosse logo devorada ou estragada por eles. Debalde pretenderam os primeiros povoadores
extinguir os coelhos; estes a tudo sobreviveram, de sorte que a nova colonia teve de ser abandonada por só
trazer prejuizos àqueles que a colonizavam.
João de Barros, Gaspar Frutuoso, Antonio Cordeiro e Cadamosto referem quasi de modo identico o caso da
coelha trazida por Bartolomeu Perestrelo, coelha da qual descendem como é incontestavel, os actuais
coelhos do Pôrto Santo.
No nosso entender a criação da subespecie Huxleyi; feita pelo zoologo português Carlos França, está
perfeitamente justificada pelo caracteres cranianos dos animais que nela se incluem. Os caracteres
exteriores pouca importancia têm no caso de que se trata, tanto mais que é sabido que os dois coelhos
examinados por Darwin adquiriram em muito poucos anos, e sob a influencia de novas condições
climatericas, a côr do coelho vulgar de Inglaterra, mas os caracteres interiores já assinalados, não podem ser
tidos em pouca conta pois que representam já modificações profundas sofridas pela especie.
A configuração especial do coelho do Pôrto Santo parece, diz Carlos França, estar de acôrdo com as
condições de vida do animal. Habitando uma ilha muito pequena e de vegetação bastante escassa, o coelho
não podia triunfar sem ter bem desenvolvidos os orgãos dos sentidos, e o cranio sofreu por consquencia
modificações acentuadas, de maneira a caracterizar a subespecie Huxleyi.
Apresentamos a seguir os caracteres que o Dr. Carlos França encontrou nos quatro exemplares que
serviram de base ao seu estudo sôbre o coelho do Pôrto Santo:
“Dorso castanho, nuca ruiva, ventre cinzento-claro em tres exemplares e cinzento-baço no quarto. A parte
superior da cauda é de um cinzento plumbeo, com alguns raros pêlos de extremidades amareladas; os pêlos
da parte inferior da cauda são brancos. As orelhas não teem a extremidade mais carregada, e a região
peitoral é castanho clara...
O comprimento dos quatro coelhos do Pôrto Santo que estiveram presos, tomado dos incisivos ao anus, era
respectivamente de 32, 35,5, 36 e 37 centimetros, ou seja 35,5 centimetros em media. O mais pequeno de
todos estes coelhos era um macho, cuja nutrição era bastante imperfeita.
O peso destes diferentes exemplares, tres dos quais estavam gordos, era de 815, 755, 745 e 650 gramas, isto
é 741 gramas peso medio”.
Haeckel, a pesar de ter visitado a Madeira em 1866, não viu nem estudou o coelho do Pôrto Santo, sendo
pura fantasia quasi tudo quanto ele diz acêrca desse roedor. Seria na verdade curioso que um animal
transportado para uma pequena ilha se modificasse aí no espaço de 4 ou 5 seculos a ponto de produzir uma
especie nova, mas estes factos e outros semelhantes só os registam os naturalistas pouco serios, ou aqueles
que estudam superficialmente certos problemas biologicos complicados e dignos da maior ponderação.
Bibliografia.
Darwin, De la Variation des Animaux et des Plantes, trad. por E. Barbier, Paris, 1879;
Haeckel, Histoire de la Création, trad. par le Dr. Letourneau, Paris, 1877; Carlos França, Contribution à
l’étude du Lapin de Porto Santo (Bull. de la Soc. Port. de Sc. Natur., VI, 1913); e C. Torrend, Le
Transformisme dans les dernieres échellons du règne végétal.
Coelho Machado (Rafael)
Nasceu nesta ilha em 1814, e em 1838 ausentou-se para o Brasil,
onde morreu. Distinguiu-se como compositor e escritor musical. Das suas obras só temos conhecimento
pela enumeração que delas faz Joaquim de Vasconcelos no seu apreciado livro Musicos Portugueses. Coelho
Machado escreveu um Diccionario Musical, que foi o primeiro que neste genero apareceu em lingua
portuguesa. Escreveu: Methodo de musica ou Principios de musica pratica para uso dos principiantes, 1842;
Breve tratado de Harmonia, 1851; Melodias originaes, algumas das quais foram traduzidas em italiano;
Diccionario musical. . . Rio de Janeiro, 1842, de 275 pag.. Deixou muitas composições de musica sacra e
traduziu e publicou varios metodos para o estudo do piano flauta, rabeca etc..
Coentro (Coriandrum sativum)
Umbelifera anual, muito cultivada nas hortas madeirenses.
É originaria do Oriente, tem fôlhas penatisectas, as inferiores menos recortadas que as superiores, e
umbelas com pedunculos curtos, desprovidas ou quasi desprovidas de involucro. Os seus frutos semi-
globosos são estimulantes e carminativos e têm emprêgo na arte culinaria.
Cogumelos
Estão determinadas 340 especies de cogumelos ou fungos madeirenses, das quais 31 não
foram achadas ainda noutras regiões do globo. Algumas destas especies são comestiveis, tais como a
Ammanita vaginata, o Lactarius deliciosus, o Cantharellus cibarius, a Psaliotta campestris (champignon de
couche), o Boletus edulis o B. bovinus etc.. Os madeirenses não costumam utilizar os cogumelos como
alimento, e nos campos o povo destrói-os muitas vezes por considerá-los obra das feiticeiras.
V. Torrend .
Colegiadas
Havia em algumas freguesias, além do clero destinado ao serviço paroquial, um cabido
composto dum pequeno numero de eclesiasticos, que recitavam em comum o oficio divino e
desempenhavam outras funções do culto. Era nas igrejas paroquiais das freguesias mais importantes e de
mais densa população, que se criavam as colegiadas, que, á semelhança dos cabidos das Sés Catedrais,
imprimiam ao culto maior brilhantismo e constituíam os seus membros valiosos auxiliares de todos os
serviços religiosos das paroquias.
Houve colegiadas nesta diocese nas freguesias de Santa Maria Maior, S. Pedro, Camara de Lôbos, Ribeira
Brava, Ponta do Sol, Calheta, Porto Santo, Santa Cruz e Machico.
Nas igrejas das duas ultimas, ainda actualmente se conservam junto do altar-mor os assentos corais para a
recitação dos oficios divinos. Foram criadas na segunda metade do seculo XVI, com excepção das da Ribeira
Brava, Machico e Santa Cruz, que são mais antigas, tendo tido as duas ultimas seis beneficiados. Eram
geralmente compostas do pároco, do coadjutor, de três ou quatro beneficiados, dum prègador e de um
tesoureiro, tendo alguma delas um pessoal mais reduzido. Para cada uma havia um regimento privativo,
que regulava a maneira de se desempenharem as funções que lhe estavam cometidas.
Tôdas as colegiadas da Madeira foram extintas antes de 1834.
Colegio.
V. São João Evangelista (Colegio e igreja de)
Colera-Morbus em 1856 e 1910. (A)
Está ainda presente na memoria de muitos e bem viva
na tradição local, o que foi essa horrorosa calamidade que assolou este arquipelago nos meses de Julho a
Outubro de 1856 e que roubou a vida a cêrca de dez mil dos seus habitantes.
A colera-morbus grassava intensamente em Lisboa e, no bairro de Belém, a epidemia tinha-se manifestado
com extraordinaria virulencia. Nesse bairro estava aquartelado o regimento de infantaria nº. 1, que o
govêrno central numa criminosa imprevidencia, fizera seguir para a Madeira, onde chegou na tarde do dia
28 de Junho, desembarcando imediatamente e indo ocupar o extinto convento de S. Francisco. No dia 2 de
Julho fora o regimento aquartelar-se no Colegio de S. João Evangelista e ali se procedeu á abertura dos
fardos e bagagens, tendo-se então manifestado os primeiros casos de colera em algumas praças de pré do
mesmo regimento. O primeiro madeirense atacado foi um maritimo por nome Manuel Rodrigues, que
morava na imediação do convento de S. Francisco e que estivera em contacto com alguns soldados de
infantaria n°.1.
Começou a epidemia a propagar-se com grande intensidade, principalmente no bairro de Santa Maria,
estendendo-se depois a tôda a cidade, e rapidamente se difundiu pelas freguesias suburbanas e rurais. Era
já um incendio que lavrava por tôda a parte. Tocou o maximo da sua violencia no dia 31 de Julho ceifando a
vida, dentro da área da cidade a 162 patricios nossos no periodo de 24 horas.
Fora do Funchal manifestou-se primeiramente a epidemia na freguesia da Ponta Pargo, no dia 11 de Julho, e
em Machico no dia 14, e sucessivamente nas restantes paroquias, sendo em algumas delas muito pequena a
percentagem da mortalidade.
O maior movimento de doentes foi no hospital da Misericordia, sendo em alguns dias impossivel a
admissão de colericos, tal era o numero avultado de atacados que enchia enfermarias e todas as
dependencias em que havia espaço para lançar-se uma enxerga. O hospital militar e o edificio do Asilo de
Mendicidade foram adaptados para a hospitalização de colericos, e nas freguesias de S. Antonio, Ribeira
Brava, Machico, Ponta do Sol e outras montaram-se hospitais provisorios.
Se a epidemia, diz um relatorio oficial se mostrara aterradora no concelho do Funchal pelos estragos que
causava, nos concelhos rurais redobraram os seus horrores, pois além do crescido numero de vitimas, a
população lutava também com a fome e não tinha facultativos nem remedios para acudir aos enfermos. O
estado de desanimo, de atribulação e de miseria a que chegaram estes concelhos era na verdade
indescritivel. Muitos doentes morriam por falta absoluta de soccorros medicos, outros finavam-se á mingua
de alimentos. A maior parte dos hospitais provisorios estavam em pessimas condições, e todos careciam dos
mais triviais socorros. Os doentes jaziam deitados no chão, sôbre más enxergas, notando-se frequentemente
ali tanto a promiscuidade de sexos como a de vivos mortos. Em vista disto, resolveram as autoridades que
os subdelegados tecnicos Branco e Brand percorressem a ilha, levando medicamentos e outros socorros
para acudir aos colericos. Não era possivel fazer mais do que se fêz. Segundo os dados oficiais, a colera
vitimou 7041 individuos, mas tem-se sempre afirmado que o numero dos que sucumbiram á epidemia foi
aproximadamente de dez mil. No concelho do Funchal morreram 2014 pessoas, sendo 311 na freguesia da
Sé, 519 em S. Pedro, 376 em Santa Maria Maior, 69 em S. Roque, 129 em S. Martinho, 315 em Santa Luzia,
214 em S. Antonio, 83 no Monte e 88 em S. Gonçalo.
As freguesias rurais emn que se registou maior mortalidade foram as da Ponta do Pargo com 328 obitos,
Machico 319, Camara de Lôbos 393, Campanario 206, Ponta do Sol 281, Tabua 161, Serra d’Agua 143, Ponta
Delgada 409, S. Vicente 307, Estreito de Camara de Lôbos 139 etc.. No hospital da Misericordia faleceram
619 individuos, no de S. Antonio 119 e no do Asilo 63.
No artigo consagrado ao governador civil Antonio Rogerio Gromicho Couceiro poremos em relêvo a acção
verdadeiramente providencial que entre nós exerceu esta autoridade e o grande reconhecimento que a
Madeira lhe deve pelos assinalados serviços que prestou a todo o arquipelago. Também nos queremos
referir aqui ao dr. Antonio da Luz Pita, que era o delegado do conselho de saúde do reino e que achando-se
em Lisboa, na qualidade de deputado por esta ilha, imediatamente partiu para o Funchal, no vapor de
guerra Mindelo, sendo o portador dos socorros que o govêrno central enviara sem demora, e
acompanhando alguns medicos que do continente vieram prestar serviços clinicos nesta ilha. Estes
primeiros socorros consistiram numa grande copia de medicamentos, muitas roupas, leitos e enxergas etc.,
e um credito de seis contos de réis, socorros de que depois se fizeram novas e abundantes remessas.
A classe medica assinalou-se pela sua extraordinaria dedicação, sendo vitimas três medicos madeirenses e
um inglês, o dr. Ross.
Longe iriamos, se quisessemos descer a outros detalhes e notas mais pormenorizadas relativamente á
terrivel epidemia que em 1856 assolou este arquipelago.
Quem quiser ter conhecimento mais desenvolvido do assunto, pode consultar a segunda parte do relatorio
oficial publicado em 1866 e os artigos insertos no Heraldo da Madeira no mes de Outubro de 1908.
A colera em 1910. A epidemia colerica que em Outubro de 1910 se manifestou no Funchal nem remotamente
atingiu as proporções da colera-morbus de 1856. Embora a sua duração fosse sensivelmente a mesma, foi
no entretanto muito desigual o numero de atacados e dos que a ela sucumbiram. Segundo os dados oficiais,
a epidemia de 1856 vitimou 7041 individuos e a de 1910 a 1911 apenas 556. Seria porventura menos
virulenta a natureza da doença, mas deve principalmente atribuir-se a desproporção da mortalidade aos
meios de combate empregados para debelar a epidemia. Os tempos são muito outros, os recursos de que
dispõe a ciencia nas duas epocas são inteiramente diferentes, não admitindo o mais ligeiro confronto entre
si, existe na actualidade uma mais exacta compreensão dos deveres a cumprir tanto por parte dos elementos
oficiais como das populações rurais, a higiene já não é uma palavra vã, sobretudo nos centros populosos, e
vai-se observando com algum rigor, principalmente por ocasião das doenças epidemicas, tudo isso
contribuiu poderosamente para que a colera de 1856, ainda lembrada com tanto horror, e a de 1910, fôssem
tão desproporcionadas no seu contagio, no seu alastramento e nos estragos causados. E tivemos a boa
fortuna de encontrar-se á testa dos diversos serviços de ataque á epidemia um medico notabilissimo que,
como homem de ciencia e bacteriologista muito distinto, espirito essencialmente organizador, de rara e
prudente energia, de uma abnegação e zêlo sem limites e também da mais comprovada autoridade de
caracter, prestou a esta terra, em tão calamitosa epoca e em tão dificeis e desoladoras circunstancias,
serviços que não podem esquecer nunca, ficando o seu nome prestigioso indissoluvelmente ligado á historia
do nosso arquipelago e colocado a par dos que mais têm bem-merecido do reconhecimento e gratidão dos
seus habitantes.
Os primeiros casos que despertaram a atenção dos medicos foram os de duas irmãs moradoras na
proximidade do Paiol, sendo uma atacada a 20 de Outubro de 1910 e a outra a 23 do mesmo mês, e
falecendo esta a 4 de Novembro seguinte. Tomaram-se logo as devidas precauções, fazendo-se o isolamento
do domicilio, desinfecções, a revisão medica dos contractos, etc.. Apareceram em seguida mais dois casos na
rua da Imperatriz D. Amelia, e seguidamente se foram registando outros em diversos pontos da cidade. A
breve trecho a doença surgiu em Camara de Lôbos, Machico e outras localidades. A população começava a
alarmar-se e a autoridade superior do distrito, profundamente impressionada com a difusão da doença,
reuniu a Junta Consultiva de Higiene, no dia 17 de Novembro, tomando-se então mais energicas e proficuas
providencias, e ao mesmo tempo insistia junto do govêrno central pela adopção de medidas extraordinarias
e a remessa de recursos indispensaveis com que na Madeira se não podia contar.
Com poderes extraordinarios, mandou o govêrno central á Madeira o dr. José Alfredo Mendes de
Magalhãis, na qualidade de alto comissario da republica, que prestou excelentes serviços e que durante a
sua permanencia entre nós mostrou sempre os melhores desejos de cooperar eficazmente na extinção da
epidemia. Como merecida homenagem a esses serviços, realizou-se uma sessão solene na Camara
Municipal deste concelho, em sua honra, sendo-lhe por essa ocasião conferida a distinção de municipe e
cidadão honorario do Funchal, e feita a inauguração do seu retrato no salão nobre dos paços do concelho.
Além de creditos extraordinarios para fazer face ás grandes despesas com o combate da epidemia, enviou
também o govêrno um contingente de tropas, pelo fundado receio de haver alteração da ordem publica.
A mais acertada medida porém tomada pelo govêrno da metropole, foi a da vinda do dr. Carlos França, que
chegou ao Funchal no dia 22 de Novembro, e que depois de alguns dias de trabalho de laboratorio e de
outros estudos indispensaveis, assumiu tôda a direcção dos serviços sanitarios e de ataque ao flagelo que
ameaçava assolar tôda a ilha, revelando desde logo não só a mais segura orientação e a mais comprovada
competencia, como também um acendrado zêlo e a mais fervorosa dedicação no exercicio das multiplas
funções que teve de desempenhar no meio de tão trabalhosa e arriscada missão. Do continente vieram sete
medicos, varios enfermeiros e um analista do Instituto Bacteriologico Camara Pestana, que, juntamente
com os medicos da Madeira, prestaram bons serviços e deram provas de verdadeira abnegação no
desempenho dos serviços que lhes foram distribuidos.
Funcionaram hospitais de colericos no Lazareto de Gonçalo Aires e nas freguesias de Santo Antonio,
Camara de Lôbos, Ribeira Brava, Santa Cruz e Machico.
A epidemia grassou nos concelhos do Funchal, Santa Cruz, Machico, Camara de Lôbos, Ponta do Sol e Pôrto
Santo, não atacando as freguesias da Madalena, Serra de Agua, Curral das Freiras, Santo da Serra e todo o
concelho da Calheta, com excepção da Fajã da Ovelha, onde apenas se deram dois casos. Também foram
poupadas as treze freguesias de tôda a costa norte da Madeira. O numero de óbitos, por concelhos, foi de
210 no Funchal, 161 em Camara de Lôbos, 71 na Ponta do Sol, Machico 75, Santa Cruz 26 e Pôrto Santo,
sendo o total de 556.
Longe iriamos se pretendessemos descer a detalhes acêrca do modo como foram montados e
desempenhados os diversos serviços sanitarios, e mais longe iriamos ainda se quisessemos particularizar
muitos episodios e circunstancias dignos de registo especial, mas que não cabem nos limites deste artigo.
Quem pretender fazê-lo, terá apenas que consultar o brilhante e desenvolvido trabalho escrito pelo dr.
Carlos França, e que se intitula A Epidemia Cholerica da Madeira 1910-1911. Relatorio apresentado ao
ministro do interior e ali encontrará tudo quanto posso interessar a este calamitoso periodo da historia
madeirense.
Coleridge (Henry Nelson)
Ocupou-se da Madeira e de Maria Clementina, freira do Convento
de Santa Clara, no seu livro Six Months in West Indias 1825.
Collet (Robert)
Ictiologista e antigo director do Museu Zoologico de Cristiania. E.: On a new
Pediculate Fish from the Sea of Madeira (Proc Zool. Soc., X 1886); e Sur quelques poissons rapportés de
Madère par le Prince de Monaco (Bullet. Soc. Zool. France XV 1890).
Colombo (Cristovão)
Afirma uma constante tradição que o ilustre navegador residiu por algum
tempo neste arquipelago e que aqui concebeu o grandioso plano da descoberta do Novo Mundo. A sua
estada na Madeira é asseverada de uma maneira positiva por Las Casa na Historia de las Indias que diz ter
colhido esta informação da propria bôca de Diogo Colombo, filho do grande navegador e sucessor de seu pai
no cargo de almirante do mar das Indias. A esta ilha estavam então chegando constantemente noticias de
novas descobertas e “este foi o principio da descoberta do novo mundo”. Agostinho de Ornelas na sua
Memoria sobre a residencia de Christovão Colombo na Ilha da Madeira, publicada em 1892, aduz
argumentos valiosos para comprovar aquela afirmativa que aliás é seguida por varios historiadores muitos
biografos de Colombo. O descobridor da America casou com D. Felipa Moniz, filha de Bartolomeu
Perestrelo, primeiro donatario da ilha do Pôrto Santo, não sendo conformes as opiniões dos autores acêrca
do logar onde se realizou o matrimonio. O autor do interessante opusculo A Mulher de Colombo, afirma que
o casamento se celebrou na vila de Machico, militando a favor desta opinião serias presunções e
probabilidades de algum pêso, embora se possa discordar da veracidade desta afirmativa. O citado Las
Casas, e ainda outros, dão Diogo Colombo como nascido no Pôrto Santo, sendo também constante nesta
pequena ilha a tradição que ali residiu o grande navegador, e até se indica o local onde existiu a casa que ele
habitou, que é o da residencia paroquial, nas imediações da igreja matriz.
Já não pouco se tem escrito acêrca do edificio que a tradição sempre apontou como sendo o da residencia de
Cristovão Colombo, no Funchal, e que ficava no logar hoje ocupado pela travessa que tem o nome do
navegador, e que comunica as ruas do Sabão e Esmeraldo. A citada memoria de Agostinho de Ornelas, um
valioso trabalho do dr. Alvaro de Azevedo, uma desenvolvida noticia publicada em 1878 na Illustracion
Espanola y Americana e ainda outros escritos, se tem ocupado com alguma largueza do assunto. Dele se
ocupou também com grande proficiencia o escritor madeirense J. Reis Gomes, nas notas do seu livro A
Filha Tristâo das Damas, e dele vamos transcrever alguns trechos, que muito de perto interessam ao
assunto deste artigo:
“O edificio que a tradição sempre indicou como habitação de Colombo, na Madeira, e de que fôra
proprietario o flamengo João Esmeraldo, era um vasto edificio de dois andares, tendo no alto um amplo
eirado, predio mais tarde reduzido a celleiro e por isso conhecido pelo nome de granel do Poço, n’este bairro
quasi exclusivamente destinado a mercadores.
Alongariamos demasiado esta nota se quizessemos referir aqui com esta habilitação aristocratica passou dos
representantes do seu proprietario para a posse da Camara que a arrazou. No numero 55 da Revista
Illustrada (1892), vem inserto um artigo do dr. Alvaro Rodrigues d’Azevedo sob o titulo- “Era inscripcional
da casa memorada como da habitação de Colombo na Ilha da Madeira - que, na sua primeira parte, nos dá
sobre esse ponto informações fidedignas e precisas.
A architectura do edificio foi primitivamente do estylo gothico, como o prova a parte ogival que dava para a
rua do Sabão e que “O Ocidente” em seu numero 34, de maio de 1879, reproduziu em gravura, calcada sobre
uma das varias photographias que da mesma casa foram tiradas pelo distincto photographo madeirense
João Camacho. Passou, depois, por uma restauração onde apparecem, mais ou menos caracteristicamente,
as formas da architectura Renascença.
A era inscripta no capitel da columneta da linda janella bipartida que se vê na estampa junta, foi lida de tres
maneiras differentes, conduzindo essa leitura vária a hypotheses diversas quanto ao edificador do predio, ás
probabilidãdes de este ter sido habitado por Colombo, e até a algumas divagações sobre o estylo
architectonico ostentado na frente da Rua do Esmeraldo!. Leu-se, ahi primeiramente, nunca
comprehendemos bem como, 1457, ainda a casa estava de pé. Tal era, em notavel desaccordo com o estylo,
correu mundo, e o proprio Henry Hanisse a admitiu, a ella se referindo em uma nota do seu livro
Christophe Colomb.
Essa leitura fôra manifestamente erronea, Viu-se, depois d’apeada a janella, que o ultimo algarismo era um
4, nitido e perfeito, subsistindo duvidas unicamente sobre o terceiro, que uns leram como 7 e outros como
9. Seria 1474 ou 1494 a era inscripta? Para Agostinho d’Ornellas, possuidor das pedras que constituiram a
preciosa janella, o terceiro algarismo era 7, porquanto “a barra transversal, embora um pouco curva, não
fecha com a vertical” como elle informa na sua Memoria já citada por nós em outra nota. Para o dr. Alvaro
d’Azevedo, que, depois de vêr a era com os seus proprios olhos e tomar-lhe o decalco, procedeu a
investigações entre eruditos, o discutido algarismo ficou sendo um 9, exactamente como elle se escrevia e
gravava no fim do seculo XV.
Tambem nós fomos ver, ultimamente, essas pedras que continuam a ser propriedade da familia Ornelas. Lá
estavam claros todos os algarismos, só nos offerecendo duvida o tal terceiro com a cabeça por fechar,
lembrando sete, mas, pela forma arredondada e haste curva, a indicar um 9. Decalcámol-o e fizemos por
nossa parte, as precisas averiguações. Por intermedio d’um amigo, já por si proprio competente,
consultámos os que na capital melhor nos poderiam esclarecer sobre o assumpto. Ficou para nós assente
que era 9 o equivoco algarismo e a era da inscrição: 1494. Entre varios documentos comprovativos, deu-nos
a certeza absoluta, uma data impressa nas Ephemerides de Monterregio, edição de Veneza, de 1492.
Lá estava em toda a evidencia um nove com o mesmo desenho: a cabeça por fechar e a haste recurvada.
A era, 1494, n’uma janella que, segundo todas as probabilidades, fôra ogival, mas apresentando, de facto,
aquella fórma caracteristica da nossa architectura renascença, que só no seculo XVI appareceu em Portugal,
fazia scismar, na verdade, quem prendesse a sua attenção ao extranho caso.
A restauração era bem do tempo de D. João II, d’um anno antes da sua morte, mas com o caracter
architectonico que só muito mais tarde apparece entre nós, marcando-se, embora, mais especificamente
pelos attributos maritimos tirados das descobertas e conquistas, e que ficou sob a designação d’estylo
manuelino!...
O facto, comtudo, não offerecerá maior reparo desde que se pense que o edificio pertencia a um estrangeiro,
nobre e rico, vivendo numa terra, a Madeira, pelas correntes immigratorias, em relações muito mais
estreitas com a Europa onde já, especialmente na Italia e França, florescia a architectura da Renascença, do
que com o continente do reino onde áquella data esse estylo ainda não tinha entrado.
O edificio era d’um particular, pela sua procedencia e convivio, em circunstancias de deixar-se seduzir pela
fórma d’arte que se impunha triumphalmente em quasi toda a Europa; não admira, pois, que a casa de João
Esmeraldo, precedesse, muito, n’esta terra portugueza, as primeiras fórmas manuelinas dos edificios do
continente.
Dada a escassez, n’esta epocha da vida insular, de bons artistas e operarios nacionaes, natural é admittir-se
que o encargo da restauração da casa forçosamente commettido a operarios italianos ou flamengos, das
colonias estrangeiras mais numerosas a esse tempo na Madeira, trouxesse como consequencia, talvez, a
propria suggestão d’aquelle estylo architectonico que esses operarios traziam, como o mais bello e mais
moderno, dos paizes d’onde provinham.
O facto de ser 1494 o numero gravado no alto da formosa janella bipartida, não repelle a longa e justificada
affirmação de que Colombo habitou a casa d’Esmeraldo, como seu hospede, porquanto o descobridor da
America sahiu do Funchal annos antes d’aquela epocha. Significa, simplesmente, que elle só conheceu o
edificio no seu estylo gothico primitivo, e que se não encostou, decerto, nas suas meditações, áquelles
basaltos trabalhados, depois, pelo escopro da Renascença.
O quasi fanatismo de João Esmeraldo pelo grande italiano, seu hospede, a admitir-se a respectiva tradição a
nosso vêr, plenamente justificada pelo auctor da “Memoria sobre a residencia de Colombo na ilha da
Madeira”, ainda melhor explica a predilecção do rico fidalgo flamengo pela elegante fórma artistica que teve
na patria de Colombo o seu verdadeiro berço.
Foi o edificio em questão mandado construir de seu principio pelo proprio João Esmeraldo, ou compral-o-
hia elle ao proprietario primitivo? Este ponto que, para nós, é de somenos importancia, não nos parece ter
ficado completamente esclarecido, apesar do que sobre elle escreveram Agostinho d’Ornellas e o dr. Alvaro
Rodrigues d’Azevedo. lnclinâmo-nos, comtudo, em vista do texto dos nobiliarios madeirenses e das palavras
de Fructuoso, a que foi aquelle flamengo quem mandou edificar o predio, passado, como solar, á sua
descendencia: os nobiliarios, sem se referirem, especialmente, a esta habitação, rezam que Esmeraldo
fabricou grandes casas na rua que d’elle tomou o seu nome , e o auctor das Saudades da Terra diz que a Rua
do Esmeraldo se chamou assim, por o flamengo “ter ali o seu aposento antigo com casa de dois sobrados e
pilares de marmore nas janellas e em cima seus eirados“.
Este edificio sobre o qual já bastante se tem escrito tanto dentro como fora do paiz, especialmente, por ter
sido, segundo a mais insistente tradição, a residencia de Colombo na Madeira, devia ser por esta e outras
razões, ainda digno de maior respeito e dum maior amor pela sua conservação: como exemplar tão bello
quanto raro, no ponto de vista artistico, dos grandes palacios aristocraticos do seculo XV; como
monumento, em terra portugueza, de bem marcada transição entre o estylo gothico e o nosso manuelino,
aparentando a fórma geral d’este estylo antes mesmo d’elle se fixar em Portugal; e, ainda, como prova
irrefragavel, pela sua sumptuosidade e requinte architectonico, do rapido desenvolvimento e progressos da
Madeira a dentro dos primeiros oitenta annos da sua descoberta, corroborando o que relatam os chronistas
sobre este periodo verdadeiramente notavel da historia madeirense.”
O protesto contra a demolição deste edificio, que devera ser religiosamente conservado, fá-lo o autor dos
trechos transcritos, nas palavras cheias de ironia, mas de inteira justiça, que em seguida reproduzimos, e
que representam o nosso verdadeiro modo de sentir sôbre o assunto:
“O monumento foi derrubado; mas a Camara em homenagem aquelle que, segundo a tradição, fôra seu
illustre habitador, baptisou a insignificante arteria, que apenas terá 30 metros de comprido, com o nome
pomposo de Rua de Christovão Colombo e tudo ficou completamente sanado. Mais do que isso: a Camara
rejubilou com a sua resolução: podia ufanar-se da gloria de haver dotado a cidade com mais uma via
publica, por um preço relativamente baixo; satisfizera uma necessidade dos mercadores do sitio, poupando-
lhes mais uns passos para irem d’uma rua á outra; e acabará com aquelle espantalho denegrido e irritante,
que só servia para mover ao pasmo alguns yankees de passagem na Madeira, ladeando o espaço vasio por
umas paredes frescas, bem caiadas, symetricamente abertas pelos ventiladores de dois armazens de cereaes.
O espirito burguez da edilidade funchalense estava justamente radiante. E para que se não dissesse que não
sabia prestar culto aos grandes homens, lá estava, na cal do muro dos celleiros, o nome do descobridor da
America: não se sabe bem se por este ter vivido na casa demolida, se por haver
O distinto escritor e jornalista Visconde de Meireles, que em 1913 visitou esta ilha, publicou no Heraldo da
Madeisra de Março e Abril do mesmo ano, alguns artigos advogando com eloquüencia a ideia da
reconstrução da casa onde residiu Cristovão Colombo no proprio local em que ela se erguia outrora.
Desapareceria a travessa que hoje tem o nome do grande navegador, e a rua do Sabão passaria a
denominar-se de Cristovão Colombo. A casa reconstruída seria destinada a um museu de caracter regional e
tornar-se-ia um centro de atracção para os visitantes estrangeiros, especialmente os norte-americanos, que
não deixariam de visitar e examinar com religioso carinho o logar em que porventura se elaborou e
desenvolveu o grandioso projecto da descoberta da sua America. O caso não seria novo, pois varios edificios
historicos se têm reconstruído no estrangeiro, destinados a perpetuar a memoria de acontecimentos ou
pessoas notaveis, que convinha tornar mais memoraveis e duradouros. Da antiga casa de Colombo,
poderiamos assim chamar-lhe, restam felizmente algumas fotografias, e mais ainda a celebre janela gotica,
profusamente reproduzida pela gravura em numerosos livros, publicações e revistas. A arquitectura e a arte
fariam o resto. Aqui deixamos registado o pensamento do visconde de Meireles, que talvez num futuro
proximo se torne ainda uma eloquente realidade.
Essa interessante janela existe hoje (1940) artistica e devotadamente colocada nos jardins da magnifica
Quinta da Palmeira, no Caminho da Levada de Santa Luzia, propriedade do inteligente e benemerito
industrial Henrique Hinton, que ali conserva com a maior veneração e aprêço aquela preciosa reliquia do
passado.
Fica acima sucintamente exposta a correlação existente entre a vida de Cristovão Colombo e a historia da
Madeira, no que particularmente diz respeito ao casamento e á estada do grande navegador neste
arquipelago. Nos ultimos anos, porém, vieram novos trabalhos de investigação histórica tornar mais intima
essa correlação e oferecer assunto para interessantes e demorados estudos que a estreiteza do espaço de que
dispomos e uma comprovada falta de competencia nos inibe absolutamente de o fazer.
No entretanto diremos que depois de terem aparecido nos anos de 1928 e 1929 os dois curiosos livros de
Patrocinio Ribeiro e de Pestana Junior, intitulados A Nacionalidade Portuguesa de Christovam Colombo e
Cristóbal Colom ou Simão Palha, em que os seus distintos autores pretendem provar que o ilustre
descobridor da America era de nacionalidade portuguesa, foram publicados os dois não menos curiosos
volumes subordinados ás epigrafes de Salvador Gonçalves Zarco (Cristóbal Colon) e Cristobal Colon
Salvador Gonçalves Zarco Infante de Portugal, devidos respectivamente á pena de G. L. dos Santos Ferreira
e Antonio Ferreira de Serpa e de Artur Lobo de Avila e Saul dos Santos Ferreira, tentando-se neles
demonstrar, com habil dialectica mas com argumentos pouco convincentes, que o grande navegador era
filho ilegitimo do infante D. Fernando e duma neta de João Gonçalves Zargo. É sabido que D. Fernando,
herdeiro e sucessor do infante D. Henrique no grão-mestrado da Ordem de Cristo, teve interferencia muito
directa no govêrno do nosso arquipelago, que “no espiritual” pertencia a essa ordem, e desnecessario será
dizer que Gonçalves Zarco a que aqueles autores se referem é o primeiro capitão-donatario do Funchal e o
mais ilustre iniciador da primitiva colonização madeirense.
Embora se possa discordar das conclusões a que chegaram os referidos autores, é de justiça confessar que
os seus livros se lêem com grande aprazimento de espirito, encontrando-se neles alguns elementos, que
podem aproveitar bastante á historia deste arquipelago.
Colonia (Contrato de)
Quando o proprietario ou o “senhorio” duma terra não pode ou não quere
cultivá-la por sua conta, entrega-a a outra pessoa com a condição desta lhe dar a demidia das produções da
mesma terra. Neste contrato, muito em uso na ilha da Madeira, o colono, isto é o parceiro agricola que
cultiva a terra recebe também metade das aludidas produções ou rendimentos, mas ficam a seu cargo tôdas
as despesas exigidas pelas culturas. Quando há harmonia entre o colono e o senhorio, este concorre, em
geral, com metade das aguas de irrigação, dos adubos e do enxôfre, mas isto representa uma
condescendencia, e não uma obrigação imposta ao mesmo senhorio pelo contrato de colonia.
Denominam-se bem-feitorias as casas, cabanas, calçadas, paredes, latadas, plantas uteis e arvores que
existem na propriedade. Estas bem-feitorias podem pertencer ao senhorio ou ao colono, e, porisso se
menciona sempre nas escrituras de parceria agricola o que é que o colono recebe no acto de tomar conta da
propriedade.
Se na terra de senhorio existe uma casa, o colono recebe o nome de caseiro; se ela não existe, recebe o nome
de meeiro.
O proprietario pode excluir o colono, pagando-lhe antecipadamente as bem-feitorias devidamente
autorizadas, e ainda aquelas que foram feitas com o fim exclusivo de acrescentar ou melhorar os
rendimentos da propriedade; o colono pode vender ou hipotecar as mesmas bem-feitorias, sem que precise
para o fazer de autorização do dono da terra.
Nenhum colono pode levantar predios ou fazer quaisquer outras bem-feitorias de vulto sem autorização por
escrito do senhorio, sendo-lhe vedado igualmente realizar as colheitas sem comunicação previa ao mesmo
senhorio, ou a quem legitimamente o representar. Alguns proprietarios limitam-se a exigir a partilha da
produção sacarina, do vinho, etc. arrendando ao colono a parte que lhes viria a pertencer nas pequenas
culturas.
O contracto de colonia não se extingue pela morte dos estipulantes, nem também pela venda da
propriedade ou das bem-feitorias a outras pessoas.
No Pôrto Santo há terras que pagam quintos e oitavos aos senhorios, em virtude do alvará de 13 de Outubro
de 1770, mas este beneficio não é geral, pois que outras há naquela ilha, que estão sujeitas á demidia,
semelhantemente ao que se dá na Madeira.
O contrato de colonia, peculiar ao arquipelago da Madeira, é no entender do dr. Azevedo, uma viciação de
contrato de sesmaria (V. este nome), e surgiu no seculo XVI, subordinado ao morgadio. “O sesmeiro rico,
diz o mesmo autor, enfastiou-se da vida campezina, ufanou-se de sua originaria fidalguia, e apeteceu
vivenda de mais aparato e bulicio; despresou, porisso, a terra, vinculou-a, na mira de assegurar-se dos
reditos della; contractou-lhe a cultura com os colonos livres, mediante a demidia, ou, por partes, o terço dos
fructos, para manter-se em ocioso gaudio; abandonou as suas fazendas; e veiu assentar residencia, luxuosa
e desperdiçada nas povoações, principalmente no Funchal, Machico, Santa Cruz, Calheta, Ponta do Sol e
Ribeira Brava.-Eis a origem historica desse fatal contracto, a que se deu o nome de colonia; contracto
leonino, que, por effeito da lesão enorme em que labora, extenuou a força produtiva do agricultor, e,
combinado com a vinculação da terra, veiu depois empobrecer tambem o ex-sesmeiro, morgado nella”.
Bibliografia.
Muitos artigos tem publicado a imprensa funchalense acêrca do contrato de colonia,
alguns dos quais mereceriam neste logar menção especial, se neste momento nos fôsse possivel fazer uma
selecção desses numerosos escritos. Apenas apontaremos alguns folhetos, que podem ser consultados com
vantagem sôbre este assunto. São eles
Observações sobre o contrato de colonia da Madeira, por José Pereira Sanches e Castro, juiz de direito da
comarca ocidental do Funchal, Funchal, 1850, de 12 pag., a que o anotador das Saudades da Terra chama o
mais autorizado escrito sôbre o assunto;
O contrato de colonia, por João de Sant’Ana e Vasconcelos, 1855, de 17 pag.;
O contrato de colonia na Ilha da Madeira, por João Agostinho Perri da Camara Lomelino, Funchal, 1889, de
40 pag.;
Projecto de lei regulamentar do contrato de colonia ou parceria agricola na ilha da Madeira, por J. R.
Trindade e Vasconcelos e José Antonio de Almada, Funchal, 1867, de 40 pag.;
Observações sobre a situação economica da ilha da Madeira, por Antonio Correia Heredia, Lisboa, 1888, de
96 pag.;
A questão da propriedade na Madeira Discursos pronunciados na camara dos deputados... por Manuel José
Vieira, Funchal, 1888, de 20 pag.;
A imprensa e os tres projectos sobre colonia, venda de aguas do estado e autonomia da Junta Agricola...
Funchal, 1916, de 197 pag.;
O contrato de Colonias na Madeira por Pedro Pita, Lisboa, 1929, de 84 pag.. Também se ocuparam desta
importante materia as Saudades da Terra e a Epocha Administrativa.
Colvocoress (Lieut. Gio. M.)
E.: Four years in the government exploring expedition
commanded by captain Charles Wilkes to the Island of Madeira, Cape Verdes, Brazil...; New-York, 1858 (20.
edição).
Comandantes Militares
Os capitãis-donatarios (1420-1580), os governadores gerais (1580-
1640) e os capitãis-generais (1640-1834), que eram autoridades superiores do arquipelago, exerciam
cumulativamente as funções civis e militares, passando desde 1834 a serem dois cargos independentes e
com atribuições inteiramente distintas, embora por vezes desempenhados pelo mesmo individuo, sendo
então um dos cargos exercido com caracter de breve interinidade. Damos em seguida a lista dos
comandantes militares, com a indicação do ano em que começaram o seu govêrno, suprimindo, por
brevidade, os nomes dos muitos oficiais do exercito que exerceram passageira e interinamente este logar:
Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque (1834), Antonio de Padua da Costa (1836), Barão de Lordelo
(1838), Manuel José Julio Guerra (1847), Antonio de Padua da Costa (1847), José Teixeira Rebêlo (1853),
José Antonio de Sequeira (1853), José Gerardo Ferreira Passos (1854), Antonio Rogerio Gromicho Couceiro
(1856), José Maria Baldy (1858), José Herculano Ferreira da Horta (1859), D. Luiz de Mascarenhas (1861),
José Julio do Amaral (1861), Jacinto Augusto Camacho (1868), José Ribeiro de Mesquita (1869), Antonio
Augusto Macedo e Couto (1870), Alexandre Cesar Mimoso (1878), Antonio Ferreira Quaresma (1881),
Vasco Guedes de Carvalho e Meneses (1881), José Maria Lage (1884), Domingos Alberto Cunha (1888),
Antonio Maria Celestino de Sousa (1894), Fernando Rodrigues do Rêgo (1896), João Francisco Regis do Rio
Carvalho (1899), José Pedro Kukenbuk de Vilar (1900), Joaquim Maria Alves (1903), José Joaquim
Bettencourt da Camara (1905), Joaquim Maria Alves (1906), Valeriano José da Silva (1910), José Justino
Botelho Moniz Teixeira (1911), João Alfredo de Alencastre (1915), José de Sousa da Rosa Junior (1917), Luiz
Correia Acciaioly de Meneses (1918), José Marceliano da Silva Pereira (1918), Alvaro Nobre da Veiga (1919),
João Maria Ferraz (1920), Aires Luiz de (Castro (1924), Ricardo José de Andrade (1925),José Maria de
Freitas (1927), Vasco Crispiniano da Silva (1930), José Maria de Freitas (1931), general Adalberto Gastão de
Sousa Dias, no Movimento Revolucionario, (1931), Jaime Sepulveda Rodrigues (1931), Antonio Tomás de
Aquino Tavares (1933), Carlos Alberto Gonçalves Marques (1935), Frederico de Magalhãis de Meneses Vilas
Boas Vilar (1937), Francisco Silvestre Varela (1938), João Pedro da Silva (1940), e Francisco Silvestre Varela
(1940).
Devemos advertir que não fazemos aqui distinção entre as denominações de governador militar,
comandante da divisão, comandante militar e comandante da sub-divisão, que tôdas representam o mesmo
cargo e que incluímos sob o nome generico de comandantes militares.
Pela organização actual (Decreto de 8 de Abril de 1940), o cargo de comandante militar da Madeira será
exercido por um brigadeiro ou coronel, que dispõe como auxiliar directo um oficial ás ordens e exerce a sua
acção por intermedio duma secretaria, chefiada por um capitão de qualquer arma, de um adjunto e um
arquivista e dois sargentos amanuenses.
Comarcas
V. Administração Judicial e Organização Judicial
Combate (O)
Publicaram-se 73 numeros deste jornal, tendo saído o primeiro numero a 14 de Janeiro
de 1890 e o ultimo a 16 de Outubro do mesmo ano.
Comet (The)
Jornal publicado na lingua inglêsa, de que saíram 4 numeros, sendo o primeiro a 5 de
Dezembro de 1882 e o ultimo a 30 do mesmo mês e ano.
Comissão de Viticultura
Teve a sua sessão de instalação a 6 de Setembro de 1909 e fiscaliza a
produção do vinho generoso da Madeira, organiza estatisticas, etc.. Foi criada pelo artigo 31. da Lei de 18 de
Setembro de 1908 e reformada pelo Decreto de I de Outubro do mesmo ano. O primeiro regulamento
vinicola da Madeira é de 11 de Março de 1909.
Comissão Distrital
As Comissões Distritais vieram substituir as Juntas Gerais quando estas foram
extintas pelo Decreto de 6 de Agôsto de 1892. Tinham pelos codigos de 1895 e de 1896 atribuições do
contencioso administrativo, e eram compostas do Governador Civil, presidente, do Auditor Administrativo
e de três vogais eleitos por delegados das Camaras Municipais.
A Comissão Distrital do Funchal deixou de existir com a organização e atribuições de que fala o codigo de
1896, depois que pelo decreto de 8 de Agosto de 1901 foi aplicada a este Distrito a organização especial
facultada aos distritos açoreanos pela lei de 12 de Junho de 1901.
“As Comissões Distritais de que falam os codigos administrativos de 1878 e 1886 eram compostas de três
procuradores nomeados pelas Juntas Gerais na sua primeira reunião depois de eleitas, não passando
portanto de simples delegadas destas corporações.”
A lei de 7 de Agôsto de 1913 conferiu ás Comissões Executivas (antigas Comissões Distritais) delegadas das
Juntas Gerais, competencia para julgar as contas das gerencias das irmandades, confrarias, etc., e aprovar
os orçamentos destas corporacões.
Comissão Municipal Constitucional
Em 5 de Julho de 1834 reuniram-se nos Paços do
Concelho os membros da governança a fim de elegerem uma comissão destinada a substituir os vereadores
nomeados no tempo da usurpação. Os cidadãos eleitos foram os seguintes: Luiz Teixeira Doria, presidente,
Valentim Leal, vice-presidente, João Francisco de Florença, Luiz de Ornelas e Vasconcelos e Tristão
Joaquim Bettencourt da Camara. As funções desta comissão duraram até 20 de Outubro de 1834.
Comissariado de Policia Civil do Funchal
Instalou-se no dia 1 de Setembro de 1878. O
primeiro comissario de policia foi Pedro de Alcantara Góis, nomeado em 1877, mas que exercia desde 3 de
Agôsto de 1864 o cargo de director da policia do Funchal.
V. Policia.
Comissarios dos Provedores dos Concelhos
Havia-os em 1834, em virtude dum alvará
do Prefeito da Provincia, mas duraram pouco tempo. Desempenhavam funções policiais nas freguesias, e
tinham sob as suas ordens os cabos de policia.
Commercio da Madeira (0)
Começou a publicar-se a 17 de Dezembro de 1896 e suspendeu a
20 de Julho de 1897, saindo 79 numeros.
Commercio do Funchal (O)
Começou a publicar-se a 15 de Novembro de 1866 e suspendeu a 9
de Fevereiro de 1867, dando 13 numeros, sendo seu principal redactor o conego Abel Martins Ferreira.
Commercio do Funchal
Publicação mensal, do que saiu o primeiro numero a 15 de Maio de 1910
e o numero 4, que foi o ultimo, a 15 de Agôsto do mesmo ano.
Companheiros de Zargo
Interessante seria dar-se uma noticia, embora sumária, dos que
compartilhando dos riscos e perigos dum povoamento em terras distantes e em circunstancias
desconhecidas, deixaram a patria, atravessaram o oceano e vieram iniciar a ardua colonização do
arquipelago madeirense. Por informações colhidas em antigos nobiliarios e ainda em outras fontes
manuscritas, organizou o dr. João Pedro de Freitas Drumond no primeiro quartel do seculo passado uma
relação de alguns individuos que acompanharam João Gonçalves Zargo ou ao menos foram seus
contemporaneos nos trabalhos desse primitivo povoamento. Podem citar-se os nomes de Gonçalo Aires
Ferreira, Francisco Carvalhal, João Lourenço, Rui Pais, João Afonso, Antonio Gago, Lourenço Gomes,
Francisco Alcoforado, Vasco Delgado, Alvaro Afonso, Aires Lordelo, Vasco Esteves, Manuel Afonso de
Sanha e João do Prado. Muitos destes individuos obtiveram terras de sesmaria, posteriormente vinculadas,
constituindo os patrimonios duma grande parte dos morgadios que em grande numero se instituíram nesta
ilha. Foram troncos de antigas familias, que no decorrer do tempo enriqueceram e adquiriram foros de
nobreza.
Companhia de Pescarias
Existia uma no Funchal em 1792, criada por iniciativa de Eduardo
Watts, mas supomos que teve curta duração, e em 21 de Novembro de 1822 fundou-se nesta cidade uma
sociedade piscatoria, que desapareceu dois anos depois, por haver dado prejuízo aos seus membros.
Companhia Fabril de Açucar Madeirense
Só nos ultimos trinta anos é que o espirito
associativo lançou algumas fracas raízes neste solo ingrato da Madeira, onde também as grandes iniciativas
industriais, comerciais ou agricolas têm fracassado ou arrastado uma vida quasi sempre assediada por
dificuldades de tôda a ordem. São muitos os exemplos e entre eles destaca-se notavelmente o da fundação
da Companhia Fabril de Açucar Madeirense.
Em 1852 o Oidium Tuckeri havia causado os maiores estragos nos vinhedos madeirenses e reduzido a
produção vinicola a proporções limitadissimas. Seguiu-se uma terrivel crise economica, que é considerada
como uma das maiores calamidades que têm assolado este arquipelago. Logo se pensou no ensaio de novas
culturas agricolas. A cana de açucar, que só temporariamente deixara de cultivar-se na Madeira, e que em
epocas passadas fôra uma das suas melhores fontes de receita, passou a ser mais intensamente cultivada e
dentro de pouco tempo constituíu um novo e poderoso elemento de riqueza.
Ao desenvolvimento dessa importante e remuneradora cultura, deveria corresponder a industria do fabrico
do açucar e destilação de aguardentes que entre nós sempre fôra muito deficiente e na epoca a que nos
referimos completamente impropria para satisfazer ás necessidades da ocasião. Foi então que apareceu o
dr. João da Camara Leme Homem de Vasconcelos, talvez o mais ilustre filho da Madeira, com a arrojada
iniciativa da fundação dum grande estabelecimento industrial, destinado a converter a materia prima da
cana sacarina em açucares e aguardentes, empregando para isso os melhores processos que ao tempo se
usavam, especialmente em França.
Foi a 27 de Junho de 1866 que se lançaram as bases da criação da companhia, que deveria levar a cabo a
realização daquela benemerita emprêsa. Um decreto de 10 de Abril de 1867 aprovou os estatutos da
Companhia Fabril de Açucar Madeirense e autorizou a fundação do seu estabelecimento fabril e industrial.
Surgiram varias e por vezes insuperaveis dificuldades, e sómente a 20 de Julho de 1870 é que o dr. Camara
Leme saíu da Madeira, a fim de contratar a construção dos aparelhos e maquinismos da nova fabrica. A 23
de Março de 1873 fêz-se a solene e definitiva instalação do grande estabelecimento industrial, que revestiu a
maior imponencia e a que presidiu o prelado diocesano e nosso ilustre patricio D. Aires de Ornelas de
Vasconcelos.
A nova emprêsa não correspondeu á espectativa geral. Erros graves de administração, e mais ainda uma
guerra desleal e encarniçada movida á direcção da companhia, a que não foi estranha a politica local,
fizeram sossobrar, dentro de poucos anos, a grandiosa iniciativa do dr. João da Camara Leme, depois conde
de Canavial. Bom é frisar neste lugar que, a pesar de tudo quanto se disse na imprensa e fora dela, o dr.
Camara Leme saiu incolume desse tremedal de acusações e calunias em que pretenderam lançar a
austeridade do seu nome prestigioso.
Publicaram-se varios opusculos e na imprensa jornalistica se debateram muitas questões relacionadas com
a função e administração da Companhia Fabril de Açucar Madeirense.
Companhias de Seguros
Varias tentativas se fizeram para a fundação duma companhia de
seguros nesta cidade, mas tôdas elas se malograram, sendo apenas em 1891 que essa ideia se realizou com a
fundação da Companhia Aliança Madeirense, de que já nos ocupámos neste Elucidario em artigo especial,
por ser a primeira que se conseguiu organizar entre nós.
Um folheto impresso em 1877 com o titulo de Companhia de Seguros Madeirense, dá-nos noticias duma
dessas infrutuosas tentativas. Chegou a ser constituída uma comissão instaladora, que realizou varios
trabalhos para execução do mandato que lhe fôra confiado, mas a companhia não pôde organizar-se, por
motivos que de todo ignoramos. Mais tarde, e anteriormente a 1891, outras tentativas se fizeram, que
também se malograram.
Em 1906 fundou-se no Funchal uma nova companhia de seguros, denominada Garantia Funchalense, que
tem progredido sensivelmente e se encontra em estado prospero.
Companhias Vinicolas.
Comunicações com a Metropole.
V. Associação Vinicola da Madeira.
Nos primeiros anos decorridos após a descoberta do
arquipelago e nos tempos primitivos da colonização, eram pouco frequentes as comunicacões com a
metrópole. Num artigo manuscrito se lê “que el-rei e o infante (D. Henrique) tinham noticias da ilha de
anno a anno pelo verão, porque naquelles principios se não navegava no inverno.. “ O aperfeiçoamento da
arte de navegar e o rapido desenvolvimento comercial e agricola da Madeira, tornaram menos raras essas
comunicações, não só com o continente do reino, mas, de modo muito especial, com alguns portos da
Europa. O numero consideravel de forasteiros nacionais e estrangeiros aqui atraídos pela fama da grande
fertilidade do solo, estabelecendo-se no Funchal e adquirindo avultados meios de fortuna, contribuíu para o
alargamento e frequencia dessas comunicações, que já não eram muito raras no meado do seculo XV, e que
se podiam chamar frequentes nos principios do seculo seguinte. O comercio do açucar, e depois a
exportação dos nossos vinhos, que em breve adquiriram uma reputação mundial, tornaram a Madeira um
importante emporio comercial, e, consequentemente, o Funchal um pôrto procurado com frequencia por
muitas embarcações para o transporte daqueles produtos. O mesmo se não dava com as relações maritimas
entre este arquipelago e a metrópole. Embora menos raras do que nos tempos primitivos da colonização,
não chegaram nunca a ser muito frequentes. Os prelados desta diocese e os governadores e capitãis-
generais transportavam-se quasi sempre á Madeira, em navios do estado, não tanto devido á categoria do
cargo, como á escassez de embarcações que os conduzissem.
No meado do seculo XIX só um navio português o Galgo, fazia viagens regulares entre a Madeira e Lisboa,
mas já a esse tempo tocavam tanto aqui como na capital, os vapores da Royal Mail Steam Company, da
Compagnie Franco-Americaine e da Peninsular Steam Navegation Company. 0 Galgo era um barco de vela
de 250 toneladas e com excelentes acomodações para passageiros, que todos os meses visitava a Madeira,
gastando na viagem 4 a 5 dias.
O Comet, de 260 toneladas, e o Eclipse, de 246, eram dois navios veleiros ingleses que visitavam com
regularidade a Madeira e que tinham sido construídos expressamente para navegar entre a Inglaterra e esta
ilha, e além deles tocavam também aqui os navios de vela da African Steam Ship Company, que faziam
viagens entre Plymouth ou Liverpool e a costa ocidental de Africa. Os vapores da Royal Mail já em 1838
tocavam na Madeira (V. Carvão de pedra).
Em 1858 havia um vapor inglês, a Barão de Catters, que fazia viagens regulares unicamente entre Lisboa e
Madeira, e no ano imediato principiaram estas viagens a ser feitas pelo vapor português Visconde de
Atoguia, ao qual se seguiram o Lusitania, o Lisboa em 1862 e o Maria Pia em 1863. Os vapores da carreira
de Africa já em 1862 tocavam com regularidade no Funchal.
Conceição
Sitio da freguesia do Estreito da Calheta, onde existe uma capela dedicada a Nossa Senhora
da Conceição, construida em 1673 por André de França e Andrade e que foi sede dum dos maiores
morgadios da Madeira, tendo sido ultimo representante desta casa vinculada Diogo de Ornelas de França
Carvalhal Frasão Figueiroa, 11. visconde e conde da Calçada. (Vide este nome).
Conceição
Sitio da freguesia da Ribeira Brava, que tomou o nome da capela desta invocacão ali
existente e cujo fundador e ano de construção são desconhecidos.
Conceição
Sitio povoado da freguesia de São Roque do Funchal. Encontra-se neste sitio uma capela
consagrada a Nossa Senhora da Conceição, construída no ano de 1700 pelo conego Antonio Lopes de
Andrade.
Conceição. (Baixa da)
Próximo do Ilhéu da Lapa, na costa maritima da freguesia do Campanario,
fica um baixio conhecido por aquele nome.
Conceição (Largo da)
É vulgarmente chamado Largo das Babosas. A nova denomição provém-
lhe da capela de Nossa Senhora da Conceição ali erigida no ano de 1906, especialmente destinada a
comemorar o semi-centenario da definição do dogma da Imaculada Conceição e que ficou sendo conhecida
pelo nome de Capela-Monumento. Ao comendador Luiz Betencourt Miranda, secretario da Camara
Municipal do Funchal, se deve principalmente a erecção desta Capela. Deste largo desfruta-se uma
surpreendente vista sôbre a Ribeira de João Gomes e Curral dos Romeiros.
Conceição de Cima (Igreja da).
Conceição e Sousa (José Elias da).
V. Santa Clara (Igreja de).
Oficial de infantaria, natural da India e que esteve alguns
tempos na Madeira. Faleceu em Portugal em 1918. E.: Descripção geral do Archipelago da Madeira e noticia
sobre as instituições de beneficencia do Funchal... para commemorar a visita de Suas Magestades os Reis de
Portugal a esta ilha, Funchal, 1901, de, 56 pag.. Só apareceu a primeira parte desta obra.
Concelho (Pico do)
Fica na região setentrional da Ilha do Pôrto Santo, para o lado de leste, não
atingindo 300 metros a sua maior altitude.
Concelhos
As três capitanias em que foi dividido o arquipelago da Madeira tinham como autoridade
superior na administração das cousas publicas os capitãis-donatarios, que exerciam um poder quasi
absoluto e julgavam todas as causas crimes, “saluo em semtemcia de morte ou talhamento de membro”. O
cerceamento da jurisdição e amplas regalias que eles desfrutavam (V. Donatarios), começou com a criação
dos municipios. Os primeiros criados foram os das sedes das três capitanias: Funchal, Machico e Pôrto
Santo, pelo ano de 1451. Dentro da capitania e municipio do Funchal se criaram em 1501 a vila e municipio
da Ponta do Sol, e quasi pela mesma epoca o municipio e vila da Calheta. Na área da capitania e municipio
de Machico se criou em 1515 a vila e municipio de Santa Cruz. Nos principios do seculo XVI, havia pois,
neste arquipelago, os municipios ou concelhos do Funchal, Machico, Pôrto Santo, Ponta do Sol, Calheta e
Santa Cruz, que eram ao mesmo tempo vilas, com excepção do primeiro, que em 1508 fôra elevado á
categoria de cidade. Passado mais dum seculo, no ano de 1743, um novo municipio se criou: o de São
Vicente. Em 1832 criaram-se os concelhos de Sant’Ana, Camara de Lôbos e Pôrto do Moniz, mas que
somente depois do estabelecimento do govêrno constitucional é que foram instalados definitivamente.
Finalmente em 1914 foi criado o concelho da Ribeira Brava. São, pois, onze os concelhos deste distrito:
Funchal, Machico, Pôrto Santo, Ponta do Sol, Calheta, Santa Cruz, São Vicente, Camara de Lôbos, Sant’Ana,
Pôrto do Moniz e Ribeira Brava.
As antigas denominações de vila, municipio ou concelho, eram sinonimos da nossa antiga legislação, ao
menos na sua aplicação á Madeira, mas o mesmo se não dá no direito moderno do periodo constituciona1,
em que vila e concelho ou municipio representam cousas muito distintas. E, assim temos que Camara de
Lôbos, Sant’Ana e Pôrto do Moniz são apenas concelhos ou municipios, e não vilas, pois não existe
nenhuma lei ou decreto especial que os tivesse elevado a esta categoria, havendo no entretanto no
continente varias vilas que não são cabeças ou sedes de concelho.
V. Organização Administrativa.
Concharéu (Patella vulgata, var Candei)
É a lapa que hoje abunda nas ilhas Selvagens e que se acha quasi
extinta na Madeira. Assim a chamam os pescadores e o caçador de cagarras que lhe utiliza a concha, pelo
seu grande tamanho e bordos cortantes, na raspagem da pele de porcos. Preenche o mesmo fim que a
chamada pedra de porco, calhau de basalto muito vesicular, que pela aspereza também se presta á raspagem
daqueles animais. Esta lapa tem a forma de capacete de viajante e interior muitas vezes forrado de um lindo
amarelo gema-de-ovo.
Conchas
Esta palavra tem na Madeira, como aliás noutras partes, significação restrita, designando
somente os involucros calcareos dos moluscos marinhos de duas valvas, conhecidos entre os autores por
lamelibranquios ou pelecípodos. Aos de uma só valva, ou gasterópodos, se são marinhos e não muito
pequenos, chamam em geral buzios; e se são terrestres ou de agua doce, na maior parte das vezes caracois.
(V. Busio e Caracois).
Dentre os moluscos do mar, vivem uns na zona das marés; outros, e esses são a grande maioria, nas aguas
mais ou menos profundas, sôbre areia ou iodo, ou nos fundos onde abundam as coralinas, essas formas
estranhas de algas calcareas, que mais parecem pedras do que plantas.
Na primeira destas zonas são raras as bivalvas; encontram-se, no entanto, a Cardita caliculata, a Lasaea
rubra e algumas outras de pequeno porte, habitando os recessos da rocha, ou cobertas pelas algas. Nesta
mesma região vivem, entre as univalvas, duas ou três especies de Littorina, quatro especies de Patella, estas
ultimas tôdas comestiveis (V. Lapas); a Haliotis tuberculata, lindamente forrada de madre-perola; varias
especies de Trochus, uma das quais, o caramujo (Trochus colubrinus), é comestivel e procurada como isca
para peixe; a Mitra cornicula, a M. zebrina, a Columbella cribaria, a C. rustica; nas pôças, o pequeno
Fossarus ambiguus e a diminuta Rissoa picta abundam por vezes em determinados pontos, como Baixa
Larga e Pôça do Governador, a leste da Ponta da Cruz.
Merece referencia especial, entre os gasterópodos deste nivel, um buzio de aparencia humilde, a Purpura
haemastoma ou Buzio de marcar roupa, aproveitado como marisco pela gente do povo, e notavel por ser
provido de uma glandula que segrega certa substancia tintoria, susceptivel de dar uma bela côr de purpura.
A essa glandula, que é mal cheirosa, caustica e muito amarga, chamam por este motivo fel de buzio. Sabe-se
que este molusco foi utilizado pelos antigos romanos e outro povos na tinturaria daquele rico e famoso
tecidoBa purpuraB, mas há muito já que deixou de ter aplicação industrial; no entanto, ainda nestas ilhas
um ou outro individuo lhe utiliza a propriedade tintureira na marcação da roupa branca, talvez por um
velho costume tradicional que, de resto, dia a dia tende a desaparecer. O processo consiste simplesmente
em embeber a extremidade de uma varinha na substancia viscosa da glandula e desenha sobre o tecido os
sinais ou letras desejadas expondo-as seguidamente á acção directa do raios solares. A côr, de amarelo
citrino que era, passa ao verde com varios cambiantes, por fim ao violeta avermelhado ou anegrado
conforme a espessura da camada empregada ficando o traço indelevelmente impresso. O fel de buzio é
também usado na cura de impigens.
Na região costeira imediata á das marés pode encontrar-se a elegante Pinna rudis vulgarmente chamada
leque, e que é a maior bivalva conhecida destas ilhas; ou o grande e espesso Spondylus Powellii,
solidamente aderente ás rochas por uma das valvas, além de muitos buzios em que figuram, com outros, os
generos Triton, Cypraea, Pleurotoma, Nassa Columbella, Murex, não falando nas minuscula formas do
genero Rissoa, o que mais largamente está representado nestes mares e do qual há registadas cêrca de 30
especies.
Avançando mais em profundidade, pode-se colher nos fundos de nuliporas, abundantes na baía do Pôrto
Santo, imediações do Caniçal e Garajau, e outros pontos do sul e norte Madeira, diversas e graciosas
especies Pecten, como P. pusio, P. Jcobaeus, P. corallinoides, P. pes felis; as lindas conchas do genero
Venus, entre elas V. casina, V. verrucosa, V. chione; o aveludado Pectunculus glycimeris; a Lima squamosa,
de nivea aparencia; o Cardium tuberculatum, C. norvegicum, C. aculeatum e muitos outros mais que não
são dificeis de alcançar onde o fundo é plano e apto para o funcionamento de uma draga. Entre as
numerosas univalvas vêm-se, além dos já citados, os generos Trochus (Zizyphinus) Turbo, Btttium
Cerithiopsis, Scalaria assinalada com 15 especios, Aclis com 6, Odostomia com 22, Eulima com 12, Ranella,
Natica, Ringicula, Bulla, Philine, Limacina e muitos outros, alguns dos quais não são raros no fundo lodoso
do porto do Funchal.
Mais além, na zona dos corais, é abundante uma especie de ostra não comestivel, a Ostra cochlear de concha
diversamente corada. Aí vive, com a Chama gryphoides a Avicula hirundo de contôrno gentil e interior
nacarado, proxima parenta da concha das perolas e que, como fruto estranho, pende dos ramos das
chamadas arvores do mar (Gorgonia verrucosa). Em fundos de cêrca de 90 braças localiza-se a curiosa
Venus effossa, em sitios diversos como as Pontas de S. Lourenço e Garajau, e cercanias do Ilhéu de Cima, no
Pôrto Santo, e entre as univalvas desta zona mais profunda, merecem citar-se a rara Mitra exilima, dragada
ao oeste do Garajau, o Trophon Lowei, o Murex babelis, as especies pelagicas dos generos Atlanta,
Limacina, Cavolina e Clio, cujos esqueletos se depositam por miriades no fundo do oceano, além de muitas
outras que seria longo enumerar.
Sôbre a grande praia do Pôrto Santo arroja o mar inumeras conchas, sobretudo por ocasião das grandes
marés da sizígia equinoxial. Apanham-nas mulheres e crianças ás pequenas quantidades, que reunidas se
vendem por alqueire aos quinquilheiros do Funchal. Estes revendem-nas a pêso para ornamentação de
pregadores, pequenos açafates, vasos de flores, cascatas de jardim, etc..
Em todo o ano se encontram naquela praia, em avultada quantidade, os pelecípodos: Tellina, incarnata,
Cardium tuberculatum, Diplodonta trigonula, Donax venustus, Anphidesma, castanea; e menos numerosos:
Arca tetagrona, Pecten pusio, Thracia papyracea, Diplodonta rotundata, Lucina divaricata, L. reticulata. O
mixilhão (Mytilus edulis), especie exotica, também aporta àquela ilha, ainda que raras vezes, trazido de
longe pela corrente maritima, sôbre pedaços de madeira ou de cortiça. Os gasterópodos rolados sôbre a
areia, não são em maior numero e, mais ou menos interessantes, registam-se entre outros: Emarginula
fissura, Trochus Bertheloti, Rissoa cancellata, Bittium depauperatum e B. incile; as especies pelagicas
Janthina commnunis e J. pallida, muitas vezes aderentes á hidromedusa Velella limbosa, particularmente
quando o vento forte sopra do largo; varias especies de Solarium;
Triton reticulatus, Ranella marginata, R. scrobiculator, R. Thomae; finalmente o lindo e raro Cassis
crumena e o vulgar C. sulcosa, este ultimo chamado o buzio de chave, no Pôrto Santo, porque os naturais
daquela ilha o atam ás chaves que trazem no bôlso, evidentemente para evitar que estas se extraviem.
Além das duas classes citadas, os anfineuros e cefalópodos têm representantes nestes mares. Entre os
ultimos, aparece a Spirula Peronii, cuja concha o mar em certos momentos depõe aos milhares sôbre a praia
do Pôrto Santo, sem que uma só vez se tenha encontrado o respectivo animal, tão raro que nos museus de
todo o mundo só se conta um pequenissimo numero de exemplares, embora a especie esteja espalhada por
todos os oceanos; e, raramente, naquela mesma ilha, a bela concha da femea do Argonauta argo. (V.
Cefalópodos).
Na Madeira não se aproveita como alimento nenhum molusco indigena de duas valvas, embora muitos
deles sejam saborosos. Em compensação, certos univalvos e cefalópodos são comestiveis.
Para o estudo do folclore do Pôrto Santo, é talvez digna de interêsse a nomenclatura usada naquela ilha,
mormente pelas crianças, para designar as conchas mais vulgares ou que mais simpatia lhes merecem. São
brinquedos na verdade atraentes e baratos, que apenas custam o trabalho, já de si uma diversão, de os
procurar no extenso areal da praia.
Eis a nomenclatura:
Pinna rudisbleque.
Pecten flexuosus, P. corrallinoides. P. Jacobaeus, P. pes-felis e P. solidulus=Leque.
Pecten pusio= Cabra, Cabrinha, Leque.
Lima squamosa=Joeira.
Cardium tuberculatum e C. papillosum = Concha.
Venus verrucosa = Raposa.
Venus chione = Lapa.
Haliotis tuberculata= Peneira.
Trochus (Zizyphinus) zizyphinus e T. (Z.) conulus = Vilão, Vilãozinho.
Triton olearium, T. corrugatus, T. chlorostoma e T. cutaceus = Buzio, Burro ou Burrinho.
Triton nodiferus e T. tritonis=Buzio grande, Buzio de tocar.
Cassis sulcosa=Boi ou Boizinho de chave.
Natica porcelana=Ovelhinha.
Natica variabilis e N. Dillwynii = Caracol.
Cyparea spurca, C. lurida e C. pyrum = Cachorro ou Cachorrinho.
Mitra cornicula = Egua, Eguinha.
Nassa limata = Porquinho.
Columbella rustica= Boizinho.
Murex erinaceus= Buzio, Burro ou Burrinho.
Purpura haemastona = Burra.
Bulla punctata = Boizinho de freira.
Spirula Peronii=Rosquilhinha.
Esses nomes pitorescos e infantis, fundam-se na semelhança de forma ou de côr com animais domesticos ou
objectos de uso comum. O Zizyphinus, por exemplo, está a lembrar pela sua forma conica e elevada a antiga
carapuça do vilão ou camponês madeirense; os diferentes tons da Columbella rustica, em que predomina o
alaranjado, recordam o boi daquela terra; a Natica porcellana, de um branco imaculado, e a Haliotis
tuberculata, com os seus furos, foram aproximadas respectivamente de uma ovelha e uma peneira; e assim
por diante. É também de notar que as expressões concha e buzio têm aqui uma significação limitada a
determinadas especies.
Tudo isto, porém, como muitas outras manifestações de caracter regional, tende a obliterar-se de dia para
dia, mercê da fatal evolução que traz aquela ilha mais ao contacto da civilização externa, e que acabará por
destruir o que o seu isolamento havia produzido de original.
Confeitaria
A industria do açucar na Madeira, que nos seculos XV e XVI atingiu um grande
desenvolvimento e também um notavel grau de perfeição, determinou a criação da industria da confeitaria,
que parece ter sido muito importante entre nós pela quantidade e sobretudo qualidade do seu fabrico,
dizendo o dr. Rodrigues de Azevedo que ela foi desde o seculo XVI elevada a verdadeira arte e valiosa
industria de exportação, como se mostra em muitos diplomas transcritos nas Saudades da Terra e varios
trechos ali mencionados. Em corroboração desta afirmativa, citamos a oferta do sacro colegio, todo
fabricado de alfenim, feita pelo 31. capitão-donatario do Funchal ao pontifice Leão X, como fica descrito a
pag. 208 deste Elucidario. O erudito anotador da obra de Frutuoso, volta a ocupar-se do assunto no artigo
Madeira do Diccionario Universal Portuguez Illustrado, cujas palavras transcrevemos:
“... a industria da confeitaria, ali criada, principalmente no convento das freiras de Santa Clara, muita
desenvolvida no decurso do seculo XVI, e, enfim, tornada verdadeira arte, cujos produtos chegaram a ser
valioso ramo de exportação, como alguns diplomas e as Saudades da Terra o attestam”.
Conferencias de S. Vicente de Paulo
As conferencias de S. Vicente de Paulo são sociedades
ou agremiações de um reduzido numero de individuos, que as destinam exclusivamente ao socorro dos
pobres envergonhados, no seus proprios domicilios. Tem esta cidade três conferencias: a da freguesia de S.
Pedro, que se estabeleceu a 10 de Janeiro de 1875, a de Santa Maria Maior instalada a 19 de Julho de 1908 e
a de Santa Luzia, a 8 de Dezembro de 1911. No ano de 1913 foram criadas Conferencias nas freguesias
suburbanas de S. Martinho, Santo Antonio, S. Roque, Nossa Senhora dc Monte e S. Gonçalo, e nas rurais de
Machico e Santa Cruz. Em 1914 estabeleceram-se Conferencias nas paroquias de Camara de Lôbos Arco da
Calheta, Pôrto do Moniz e Serra de Agua; em 1915 nas freguesias do Pôrto da Cruz, Sant’Ana, Ponta do Sol,
Gaula, Camacha e Caniço; e em 1916 nas do Campanario Estreito de Camara de Lôbos.
Há relatorios impressos do movimento destas Conferencias, referentes a diversos anos, sendo o relativo ao
ano de 1916 o ultimo que pudemos examinar. O total de receitas e despesas destas Conferencias respeitante
ao referido ano de 1916, foi respectivamente de 5 974$50 e 4:760$37 escudos.
Dando actualidade ás informações que acima ficam exaradas, diremos que esta cidade tem 6 conferencias: a
da freguesia de S. Pedro que se estabeleceu a 17 de Janeiro de 1875,; de Santa Maria Maior, instalada a 19 de
Julho de 1908, a de S. Luzia fundada a 8 de Dezembro de 1911, a da Sé estabelecida a 8 de Dezembro de
1927, a de S. Luiz de Gonzaga e de S. João Evangelista, respectivamente organizadas pela Juventude
Católica e pelos Estudantes do Liceu.
Existem conferencias, além das acima indicadas, nas freguesias de S. Antonio (4 conferências: duas
paroquiais e duas no sitio do Trapiche e Alecrins); S. Martinho, S. Roque, S. Gonçalo, Monte, Santa Cruz,
Gaula, Camacha, Caniço, Machico, Pôrto da Cruz, Camara de Lôbos, Calheta, Pôrto do Moniz, Ribeira
Brava, Campanario, Serra de Agua, Prazeres, Paul do Mar, Santana, Faial, S. Roque do Faial, S. Jorge, S.
Vicente, Ponta do Sol e Pôrto Santo.
O Concelho Central da Sociedade de S. Vicente de Paulo tem sua sede no Funchal, e é constituido por sete
membros, que anualmente publica um relatorio do movimento de tôdas as conferencias existentes na
Madeira. Do relatorio referente ao ano de 1939, extraímos os seguintes dados estatisticos:BNumero de
Conferências no Arquipelago da MadeiraB36. Existem 842 membros activos, 19 aspirantes e 730
subscritores. São visitadas anualmente 671 familias pobres. Durante o ano de 1939 as Conferencias
distribuíram esc. 80.507$50.
A 8 de Dezembro de 1939 foi igualmente constituído o Conselho Central das Conferencias Femininas.
Existem 10 Conferências Femininas respectivamente no Colegio de S. Luiz (Funchal), Santa Luzia, Santa
Maria Maior, Santo Antonio, Camacha, S. Martinho, Sant’Ana Machico, Arco da Calheta e Faial.
Possuem 150 membros activos, 20 aspirantes, 267 subscritores, tendo sido visitadas 164 familias pobres
durante o ano de 1939, ultimo do relatorio que consultámos. As mesmas Conferencias distribuíram durante
o referido ano, a quantia de esc. 10:483$65.
Congro (Conger vulgaris)
Peixe anguilida que frequenta o mar adjacente a estas ilhas. Pescam-
no geralmente durante a noite com aparelhos de anzol, fixos ou volantes, como o espinhel e outros.
Também é conhecido por safio, e geralmente entre o povo pelas corruptelas congro e seifio.
Congro de Natura. (Conger macrops)
Peixe da familia anguilida, muito raro nas aguas
madeirenses, onde tem sido colhido á linha, em zona profunda. Distingue-se do congro comum, entre
outros caracteres, pela grande dimensão dos olhos e pela carne menos consistente e como que aguada. Em
Machico é chamado congra, ou antes cronga, por corruptela.
Connaught (Duque de)
Irmão de Eduardo VII rei de Inglaterra. Esteve na Madeira,
acompanhado da esposa e filha, em Dezembro de 1905.
Conselheiro (Rua do)
O nome completo desta via publica é Rua do Conselheiro Jose Silvestre
Ribeiro. Foi aberta na epoca em que este benemerito governador esteve á frente da administração deste
distrito, e foi-lhe dado o seu nome como preito de homenagem aos relevantissimos serviços que prestou a
este arquipelago. É a rua que pelo ocidente ladeia o Jardim Municipal. Foi há poucos anos prolongada até a
rua das Fontes, passando ao lado do “Teatro Manuel de Arriaga”.
Conselho de Distrito
Era um tribunal composto do Governador Civil, presidente, e de quatro
vogais nomeados pelo Govêrno sôbre lista triplice proposta pela Junta Geral. Tinha atribuções consultivas e
contenciosas, e foi extinto pelo Codigo Administrativo de 17 de Julho de 1886.
Os vogais do Conselho do Distrito venciam de gratificação anual 240$000 réis, pagos pelo Cofre do Distrito.
Conselho de Prefeitura
Foi criado pelo decreto de 6 de Maio de 1832 e funcionava junto do
prefeito da Provincia. O codigo administrativo de 1836, que criou o conselho de distrito, fêz desaparecer o
antigo conselho de prefeitura.
Conselho Distrital de Agricultura
Foi criado por decreto de 24 de Dezembro de 1901, e teve
a sua primeira sessão (a de instalação) a 16 de Julho de 1904 e a ultima a 1 de Agosto de 1910. Este
Conselho, que se ocupava especialmente do fomento agricola da região da Madeira, foi extinto pelo artigo
289 da Lei de 9 de Julho de 1913.
Conselho Municipal
Havia um junto de cada camara municipal, composto de tantos vogais
quantos os vereadores. Os vogais do conselho municipal eram os eleitores que pagavam maior cota de
decima no concelho.
Os conselhos municipais foram extintos pelo codigo administrativo de 1878.
Conservador dos Inglêses
Os subditos britanicos residentes na Madeira gozavam, por um
antigo tratado, do direito de escolher um juiz para julgá-los no caso de terem de responder por quaisquer
questões ou desavenças havidas entre eles e os portugueses. Este juiz, a que chamavam conservador dos
inglêses, tinha de ser formado em direito, e a escolha dependia de confirmação do govêrno português.
Segundo uma antiga obra inglêsa, o corregedor era sempre o juiz escolhido, costumando a sua
imparcialidade ser paga com a gratificação de 400 dólares anuais. Aquele direito dos inglêses, desapareceu
pelo tratado de 20 de Julho de 1842, ficando estabelecido, porém, que no caso de algum deles ter de ser
julgado nos tribunais portugueses, o juri seria constituído por subditos britanicos e portugueses. Esta
disposição há muito que deixou de vigorar.
Conservatorias do Registo Predial
Há no arquipelago da Madeira quatro conservatorias do
registo predial: a do Funchal, instalada em 30 de Setembro de 1880, a da Ponta do Sol, criada no mesmo
ano, a de Santa Cruz, instalada em 7 de Setembro de 1910 e a de S. Vicente, instalada em 24 de Novembro
de 1909.
A conservatoria do Funchal tinha os concelhos do Funchal, Câmara de Lôbos, Pôrto Santo, Santa Cruz,
Machico e Sant’Ana, mas pela instalação das conservatorias de S. Vicente e Santa Cruz, ficou reduzida aos
três primeiros concelhos; a da Ponta do Sol tinha os concelhos da Ponta do Sol, Calheta, Pôrto do Moniz e S.
Vicente, ficando constituída pelos dois primeiros concelhos, pela instalação da conservatoria de S. Vicente;
a de Santa Cruz tem os concelhos de Santa Cruz e de Machico, e finalmente a de S. Vicente, tem os
concelhos de S. Vicente, Porto do Moniz e Sant’Ana.
O concelho da Ribeira Brava, criado em 16 de Agôsto de 1914, pertence á conservatoria da Ponta do Sol.
Antes de 1880, havia na Madeira duas conservatorias: a oriental e a ocidental, aquela constituída pela área
da comarca de igual denominação e abrangendo todo o conselho do Funchal, e esta formada pelos restantes
concelhos da comarca ocidental.
As Conservatorias Oriental e Ocidental foram estabelecidas em virtude do Regulamento do Registo Predial
de 28 de Abril de 1870, aprovado por decreto de igual data. Precederam-nas as conservatorias que tinham
sido instaladasBuma em cada concelhoBno 11. de Abril de 1867, de harmonia com o decreto de 13 de
Fevereiro do mesmo ano, as quais estavam a cargo dos administradores do concelho, tendo sido
consideradas extintas pelo decreto de 17 de Dezembro de 1869, que criou conservatorias privativas em tôdas
as comarcas.
As conservatorias foram criadas pela carta de lei de 1 de Julho de 1863, mas somente se procedeu á sua
instalação no dia 1 de Abril de 1867. Antes de 1863 havia nas administrações dos concelhos os registos de
hipotecas e outros, estabelecidos pelos decretos de 26 de Outubro de 1836 e 3 de Janeiro de 1837, e mais
providencias correlativas.
Constantino (Padre Manuel)
Nasceu na Madeira e morreu na cidade de Roma a 28 de
Novembro de 1614. Formou-se em filosofia na Universidade de Coimbra e recebeu o grau de doutor em
teologia na de Salamanca. Em Roma foi professor da celebre Universidade da Sapiencia, tendo naquela
cidade granjeado o aplauso e a admiração das principais personagens da cúria, pelo seu extraordinario
talento e vasta erudição.
Escreveu e publicou varias obras de que faz menção a Bibliotheca Lusitana e das quais citaremos:
Oratio in funere Philippi II, Romae 1599,
De profectione Pontificis in Ferraricus. Civitatem... Romae, 1598,
Historia de origine et principio atque vita omnium regum Lusitaniae... Romae, 1601,
In funere Seraphinae a Portugalia Joannis Brigantiae Ducis filiae... Romae, 1604,
Gratulatio de S. Pontif. Paulo V... Romae, 1607,
Votum primum ad S. S. Virginem pro salute Scipionis Cardinalis... Romae, 1610.
Entre as obras que publicou, uma há que interessa a este arquipelago e que se intitula Insulae Materiae...
publicada em Roma no ano de 1599. É a historia, escrita na lingua latina, da descoberta deste arquipelago e
a que o dr. Alvaro de Azevedo faz referencias nas notas ás Saudades da Terra.
A Insulae Materiae, que apareceu em Roma no ano de 1599, tornou-se uma grande raridade bibliografica,
tendo sido adquirido um exemplar pelo benemerito industrial Henrique Hinton, que promoveu a sua versão
em lingua portuguesa e a fêz publicar numa elegante edição no ano de 1930. Foi traduzida pelo Pe. João
Baptista de Afonseca e prefaciada e largamente anotada pelo Pe. Fernando Augusto da Silva, co-autor deste
Elucidario.
Constituição (Praça da)
Esta praça denominou-se assim desde 28 de Janeiro de 1821, em razão
de nela ter sido proclamada nesse dia a constituição, isto é os principios liberais de 1820. Antes disso era ela
conhecida pelo nome de Passeio Publico, o qual ainda em nossos dias lhe era dado muitas vezes.
A Praça da Constituição passou a chamar-se Praça da Republica, em 1911, e desapareceu em 1914, quando
se começou a construir a Avenida Oeste, hoje do Dr. Manuel de Arriaga, que abrange também o terreno do
antigo Jardim Pequeno.
A Praça da Constituiçio era um recinto assombreado e onde outrora costumava tocar a banda regimental.
Havia ali lindos exemplares de figueiras da India, de magnolias, de sementeiras e de grevileas.
Constituição de 182l (A)
Ninguém ignora que no dia 24 de Agôsto de 1820 rebentou na cidade
do Porto uma revolução, que se propunha implantar no nosso país um sistema de govêrno representativo, e
que essa revolução teve seu eco em Lisboa no dia 15 de Setembro seguinte, manifestando-se depois em
outros pontos do continente do reino.
Só por meados de Setembro é que na Madeira se teve conhecimento dos sucessos politicos ocorridos em
Portugal, pela passagem, no nosso pôrto, dum navio inglês que se dirigia de Londres para o Rio de Janeiro.
A 25 do mesmo mês o bergantim português Providencia trouxe cartas e jornais, dando noticia
circunstanciada dos acontecimentos. Numa comunicação oficial dirigida ao conde dos Arcos, dizia o
governador e capitão-general deste arquipelago Sebastião Xavier Botelho que tais acontecimentos não
“fizeram nenhuma sensação nem commoção popular e que tinha adoptado as necessarias providencias para
evitar qualquer alteração da ordem publica“.
Por fins de Setembro, recebeu Xavier Botelho comunicação oficial do Govêrno Provisorio acêrca da nova
ordem de cousas politicas que se tinham dado no país, e, conquanto se não mostrasse desafecto a elas,
conservou-se numa prudente reserva, receando talvez um movimento contra-revolucionario no continente
do reino. Tendo o conde, depois duque de Palmela, passado na Madeira, por meados de Novembro, em
viagem de Londres para Lisboa, encarregou-o o governador deste arquipelago de informar o govêrno da
metropole relativamente ás cousas desta ilha, fazendo sentir que a ordem era completa e que não se receava
qualquer perturbação da paz que entre nós então se desfrutava.
No entretanto, a atitude do governador ia desagradando aos partidarios da revolução do Pôrto, que
clandestinamente fizeram afixar pasquins nas paredes das ruas mais centrais da cidade, incitando o povo á
revolta e á pratica das consequentes violencias. Tôda a hesitação de Xavier Botelho terminou com a chegada
no dia 23 de Janeiro de 1821, dum correio, vindo directamente da côrte do Rio de Janeiro, em que se
certificou do reconhecimento que D. João VI fizera do novo estado de cousas e em especial da aceitação do
sistema representativo que a revolução implantara. Deram-se largas ás manifestações de regozijo, e desde
logo se preparou a proclamação solene que devia realizar-se no dia 28 daquele mês.
Nesse dia, reuniu-se no Largo da Fortaleza uma enorme multidão, a que se juntou a tropa da guarnição
desta cidade, pedindo ao governador a solene adesão aos principios proclamados pela revolução do Pôrto.
No entretanto, era a residencia do capitão-general invadida por muitos membros da nobreza e pessoas mais
qualificadas no Funchal, secundando o pedido do povo, a que Xavier Botelho acedeu, não sem lavrar o seu
platonico protesto, aparecendo no Baluarte sobranceiro ao largo e dando vivas ao Rei, ás Côrtes, á
Constituição e ao Govêrno Supremo do Reino. Comunicou-se então um vivo entusiasmo á multidão, que
irrompeu em delirantes vivas.
O governador e capitão-general seguido de muito povo, autoridades, funcionarios civis e militares e de um
grande numero de pessoas de distinção, dirigiu-se em seguida á Sé Catedral, onde se cantou um solene Te-
Deum, com a assistencia do prelado diocesano e de muitos membros do clero. Seguidamente tomaram
todos a direcção dos Paços do Concelho, que era então no edificio que até há pouco servia de cadeia, e ali se
proclamou solenemente o novo sistema de govêrno, lavrando-se um auto, que foi assinado por um numero
consideravel das pessoas presentes.
As manifestações de regozijo por aquele fausto acontecimento, prolongaram-se pelos dias seguintes com
notavel entusiasmo, não havendo a menor perturbação da ordem publica.
Para as Côrtes Constituintes, que funcionaram de 1821 a 1822, foram eleitos deputados pela Madeira
Francisco João Moniz, dr. Mauricio José de Castelo Branco e o dr. Antonio João Rodrigues Garcez, que
faleceu e foi substituído pelo dr. João José de Freitas Aragão. Feita e promulgada a Constituição,
realizaram-se, em harmonia com ela, as eleições gerais em 1822, tendo sido eleitos deputados por este
arquipelago o dr. João Francisco de Oliveira, padre João Manuel de Freitas Branco e Manuel Caetano
Pimenta de Aguiar.
É decorrido um ano depois dos acontecimentos que ficam sumariamente narrados, e todo o Funchal se
encontra em festa. Estamos no dia 28 de Janeiro de 1822 e soleniza-se o aniversario da proclamação da
Constituição nesta ilha. Não se pretende apenas comemorar o facto, deseja-se também perpetuá-lo através
do tempo. Lançada a ideia de erigir-se um monumento, foi escolhido o Terreiro da Sé como o local mais
apropriado para esse fim, e o dia 28 de Janeiro para o lançamento da primeira pedra, por ser o primeiro
aniversario da solene adesão da Madeira aos principios proclamados pela revolução do Pôrto.
A cerimonia revestiu a maior solenidade e imponencia, e a ela se associaram inumeras pessoas de tôdas as
categorias sociais, incluindo o elemento oficial e militar, que largamente se fêz representar. Ao acto presidiu
o governador e capitão-general D. Rodrigo Antonio de Melo que, numa comunicação ao govêrno da
metropole, diz o seguinte:
“A camara da cidade, desejando imortalizar o mesmo dia com a erecção de um monumento e pedestal, que
levasse ás mais remotas eras a recordação de tão fausta epoca, me havia oficialmente convidado para que eu
na mesma acção houvesse de lançar a primeira pedra fundamental daquela memoria, ao que mui
cordialmente anuí, e julgando devia interpor a minha autoridade militar para a tranquilidade e
brilhantismo do mesmo acto, por isso dei as ordens para a mencionada disposição de tropas e convidei a me
acompanhar tôda a oficialidade da Provincia, incluindo a segunda linha e o extinto corpo de ordenanças...”
Formou-se um luzido cortejo que, saindo dos Paços do Concelho, se dirigiu ao Largo da Sé, estando ali
prèviamente preparado o cabouco que devia receber a pedra angular e os primeiros fundamentos do
monumento que ali se pretendia erigir. É bastante interessante este trecho do auto que então se lavrou e
que foi lançado nos alicerces: “levava... o dr. corregedor um cesto de cunhas e raxas, o dr. juiz de fóra o
nivel, o vereador mais velho a colher e a trolha, o vereador segundo a vassoura e o balde, o vereador terceiro
o coxo da cal, o procurador do concelho as medalhas e eu escrivão da camara a maceta, conduzindo o juiz do
Povo um cofre de prata com o auto, e os procuradores dos mestres uma padiola com a pedra”.
Concluída a cerimonia do assentamento da primeira pedra, celebrou-se na Sé Catedral um solene Te-Deum,
proferindo por essa ocasião, o distinto orador sagrado padre João Manuel de Freitas Branco, um eloquente
discurso, que foi publicado num folheto, hoje rarissimo, com o titulo de Oração de acção de graças que na
solemnidade do anniversario do faustissimo dia 28 de janeiro de 1821 pregou na igreja da Sé do Funchal. . .
Seguidamente as autoridades civis e militares, funcionarios publicos e grande numero das pessoas mais
categorizadas do Funchal se dirigiram ao palacio do governador, tendo aí pronunciado uma entusiastica
alocução o dr. João Pedro de Freitas Drumond, que foi muito aplaudido.
Salvaram tôdas as fortalezas, houve profusas e brilhantes
demonstrações de regozijo, a que jubilosamente se associaram os habitantes da cidade.
O monumento, cuja pedra angular foi lançada em frente da porta da Sé Catedral e a poucos metros de
distancia da escadaria que dá acesso ao adro, não chegou nunca a passar dos alicerces.
O Terreiro da Sé ou Passeio, que fazia parte do antigo Campo do Duque, passou em 1821 a chamar-se Praça
da Constituição, nome que conservou até há poucos anos.
Relativamente á Constitução na Madeira e a algumas questões que a sua proclamação suscitou entre nós,
publicaram-se os seguintes folhetos:
•
Historia verdadeira dos acontecimentos da ilha da Madeira depois do memoravel dia 28 de janeiro,
escrita por ordem chronologica por Sebastião Xavier Botelho e comprovada com testemunhas da melhor fé,
por seus empregos, gerarchia e independencia, para destruir um libello famoso impresso em Londres por
um Cidadão Funchalense, Lisboa, 1821, de 61 pag ;
iluminações e realizaram-se outras
Sentença proferida contra os reos comprehendidos na devassa da alçada que Sua Magestade foi
Noticias officiais recebidas da ilha da Madeira, Lisboa, 1821, de 20 pag.;
Relação circunstanciada do modo com que se desenvolveu, se promoveu e se proclamou a
•
•
Constituição da ilha da Madeira no memoravel dia 28 de janeiro de 1821, Lisboa, 1821, de 12 pag.;
•
Carta escrita a um sujeito da provincia da ilha da Madeira, ou o lundum dos bordões que tocou
Sebastião Xavier Botelho, por Luiz José Baiardo, em desforra das investidas que contra elle escreveu o dito
Botelho na sua historia verdadeira da ilha da Madeira... Lisboa, 1821;
•
Parabens poetico-politicos á grandiosa regeneração portuguesa na congratulante adherencia da ilha
da Madeira em 28 de Janeiro de 1821 no theatro grande do Funchal, por Luiz Antonio Jardim, formado na
faculdade de leis, Funchal, 1822, de 29 pag.;
•
servido mandar á ilha da Madeira, Lisboa, 1823, de 47 pag..
No dia 17 de Junho de 1823, proclamou-se o restabelecimento do govêrno absoluto na Madeira, havendo
diversas manifestações de regozijo.
V. Proclamação do governo absoluto.
Constituição de 1838
A revolução que rebentou no país em 1836 com o fim de derrogar a Carta
Constitucional promulgada em 1826, fêz restaurar a Constituição de 1820, que foi jurada pela soberana a 10
de Setembro de 1836. Na Madeira realizou-se o juramento solene dessa Constituição a 25 de Setembro do
mesmo ano. Eleitas as côrtes constituintes, organizaram uma nova constituição em 1838, que foi
solenemente jurada nesta ilha a 6 de Maio do referido ano. Esta Constituição só vigorou até o ano de 1842,
sendo de novo restaurada a Carta Constitucional de 1826.
Constituições do Bispado
As Constituições Diocesanas são as leis e instruções privativas de
cada diocese, destinadas á execução e regulamentação das leis gerais da Igreja. Também o bispado do
Funchal tem as suas Constituções, muito antigas e de todo obsoletas, que actualmente só gozam dum mero
valor historico. São hoje raros os exemplares que aparecem, mas bastante apreciados para o estudo dos
costumes religiosos do tempo em que foram elaboradas as mesmas Constituições. A primeira edição
intitula-se Constituiçôes Synodaes do Bispado do Funchal. Feitas e ordenadas por D. Jeronimo Barreto,
Bispo do dito Bispado, Lisboa, por Antonio Ribeiro, 1585, folio de XVI-188 pag.. Foram elaboradas no
concilio diocesano realizado na nossa Sé Catedral a 13 de Outubro de 1578, sob a presidencia do bispo D.
Jeronimo Barreto, e aprovadas e mandadas executar por alvará do mesmo prelado, de 4 de Maio de 1579.
O bispo D. Luiz Figueiredo de Lemos convocou e presidiu a um sínodo diocesano, que se realizou na Sé
Catedral no dia 29 de Junho de 1597, e nele se fizeram umas Constituições Extravagantes, que ficaram
apensas ás Constituições já existentes e que tiveram a aprovação episcopal, por provisão de 15 de Agôsto de
1597. D. Luiz de Figueiredo imprimiu as novas Constituições e fêz reimprimir as antigas com o titulo de
Constituições synodaes do Bispado do Funchal, com as extravagantes novamente impressas, por mandado
de D. Luiz de Figueiredo de Lemos, Bispo do dito Bispado. Lisboa, por Pedro Craesbeeck, 1601, folio de XX-
188 pag.. No fim vem as extravagantes com novo rosto e nova numeração, tendo o titulo: Constituições
Extravagantes do Bispado do Funchal, feitas e ordenadas por D. Luiz Figueiredo de Lemos. Lisboa,
impresso por Pedro Craeesbeck. Ano X , folio de 54 pag..
Contador de Fazenda
Este oficio veio substituir o de recebedor de distrito, em virtude do Decreto
de 12 de Setembro de 1846, que teve execução na Madeira em 28 de Novembro do mesmo ano.
Conteira (Canna indica)
Planta da familia das Zingiberaceas, cultivada nos jardins. As suas
capsulas contêm sementes globosas e negras, semelhantes a contas.
Contents (The) of a Madeira Mail-Bag, or Island Etchings, by Ultra Marine, London, s. d., I vol..
Contribuições
Desde remotos tempos que os madeirenses estão sujeitos ao pagamento de
contribuições, como se vê do foral da cidade do Funchal e das vilas da Ponta do Sol e da Calheta, e de varios
documentos registados nos arquivos municipais. O rei D. Duarte ao fazer mercê a seu irmão o infante D.
Henrique do senhorio das ilhas do arquipelago, concedeu-lhe “todolos dereytos e rendas dellas”, e pelas
cartas de doação das três capitanias do Funchal, de Machico e do Pôrto Santo, sabe-se que os respectivos
donatarios foram autorizados pelo mesmo infante a receber “de dez hum em tudo o que ele houvesse de
renda, segundo o foral, nas ditas capitanias. No foral de 1515, transcrito a pag. 494 e seguintes das Saudades
da Terra, há uma referencia ao foral do infante D. Henrique, da qual se vê que eram bem pesados os
encargos tributarios impostos pelo mesmo infante aos povos deste arquipelago.
Nos artigos Açucar e Alfandegas, publicados neste Elucidario, referimo-nos já a algumas contribuições que
em tempos antigos pagavam os madeirenses; vamos agora esboçar uma noticia abreviada de outros
encargos tributarios que pesavam também sôbre a população do arquipelago, alguns dos quais, como os
dizimos, a decima predial, o quinto, o subsidio literario e o finto, chegaram até nossos dias, tendo sido
extintos pela lei de II de Setembro de 1861. Foi esta lei que fêz entrar o arquipelago da Madeira na
comunhão do sistema tributario adoptado em Portugal, visto ter determinado que a partir de 1 de Janeiro
de 1863 fôsse aplicavel ao mesmo arquipelago a legislação que regia as contribuições predial, industrial e
pessoal no continente do reino.
Os dizimos, que supomos serem a mais antiga contribuição que conheceram os madeirenses, datam dos
primeiros tempos da povoação. Determinava o foral do infante D. Henrique que eles fôssem descontados
nas soldadas, serviços, jornais ganhos de mercadores e dos oficiais, vendas das novidades, aforamentos,
arrendamentos e em tôdas as coisas nascidas e criadas na ilha.
O foral de 6 de Agôsto de 1515 extinguiu alguns destes dizimos, como por exemplo os que eram tirados das
soldadas de qualquer especie, ganhos de mercadorias e oficiais, etc., mas manteve esse imposto para os
cereais, gados, lã, vinho, frutas, hortaliças, queijos, ovos, manteiga, leite, mel de abelhas e inumeras outras
coisas mais, produzidas na ilha.
Determinava ainda o mesmo foral, que na alfandega se pagasse dizimo do açucar e de tôdas as demais
mercadorias exportadas para fora do reino, e quanto ás mercadorias exportadas para o reino, que só
pagassem esse imposto aquelas que fôssem destinadas a estrangeiros ou transportadas em navios
estrangeiros.
Muitas mercadorias importadas de fora do reino pagavam dizimo, mas as que vinham do reino só o
pagavam quando trazidas por estrangeiros ou transportadas em navios estrangeiros. Os cereais, azeite,
castanhas, ervilhas, queijos e todos os demais generos importados com destino á alimentação publica, em
caso algum pagavam dizimo, ao passo que a prata, armas, cavalos, livros e vestidos só estavam isentos desse
imposto quando não eram para vender. Era livre a importação das lenhas.
Os dizimos pertenciam na sua maior parte á Ordem de Cristo, mas depois que o mestrado da Ordem foi
encorporado na coroa, passaram a ser recebidos pela Fazenda Real. Saíam deles as despesas do culto, e não
chegavam em 1626 para as côngruas das dignidades, conegos e mais pessoal da Sé Catedral, segundo se vê
do alvará de 10 de Junho do mesmo ano.
Os dizimos foram secularizados na parte excedente á sustentação do clero, pelo alvará de 1 de Agôsto de
1752. Estavam isentos, por mercê regia, do pagamento dessa contribuição, ao menos nos primeiros tempos,
as ordens religiosas dos Jesuítas e dos Franciscanos, e o clero secular.
O arrendamento foi por largo tempo o sistema de arrecadação dos dizimos, tendo havido mesmo uma epoca
em que esse arrendamento se fazia em globo.
A decima predial, como o seu nome indica, incidia nos predios, e está substituída presentemente pela
contribuição predial. Antes da decima predial, pagavam os madeirenses a decima urbana, criada pela lei de
10 de Junho de 1808.
O quinto, extinto como os dizimos e a decima predial pela lei de 11 de Setembro de 1861, consistia no
pagamento da quinta parte de todos os bens denominados da coroa, ao passo que o subsidio literario, criado
pela lei de 10 de Novembro de 1772, era um imposto que incidia na aguardente, no vinho, no vinagre, etc., e
destinado exclusivamente á sustentação das escolas e ao pagamento dos professores.
Pagavam quinto as capelas e a redizima dos donatarios, tendo determinado o Administrador Geral em 1836,
que o Marquês de Castelo Melhor fôsse colectado pela dita redizima desde 1831 até á extinção da alcaidaria-
mor do Funchal. O lançamento do quinto aos donatarios que possuíam bens e capelas da coroa, fazia-se em
antigos tempos perante os corregedores, mas a lei de 24 de Abril de 1835 determinou que as Camaras
Municipais nomeassem para cada freguesia uma junta de seis cidadãos, encarregada de proceder á
distribuição da referida contribuição. A fs. 31 v. do tomo XVIII do Registo Geral da Camara Municipal do
Funchal, está uma relação dos bens de capelas sujeitos ao quinto e existentes no concelho do Funchal.
O finto ou decima, decretado por três anos nas côrtes de 1641, era um tributo de guerra. Lançado a principio
em quota variavel, foi pelo regimento de 10 de Abril de 1646 e o alvará de 26 de Setembro de 1762 fixado em
10 por cento de todos os rendimentos de predios, capitais, industrias e oficios. Desde o regimento de 9 de
Maio de 1654 ninguém era isento do pagamento dessa contribuição, que tendo sido de 8:600:000 réis na
primeira derrama, foi depois reduzida a 4
½
%, ou réis 3:600:000.
O finto pertencia ao Estado, mas o que ele rendia era antes de 1834 arrecadado pela Camara Municipal e
entregue depois á Junta da Fazenda. A Camara nomeava os individuos que faziam a distribuição do imposto
pelos contribuintes.
O finto de 3:600:000 réis ou 9:000 cruzados anuais, nem sempre era pago com pontualidade. Por alvará de
1 de Abril de 1749 perdoou D. João V a importancia dessa contribuição relativa aos anos de 1739 a 1749, em
razão dos prejuízos causados á ilha pelo terremoto de 1748, e em 1799 devia o povo á Junta da Fazenda a
importancia de 162:000 cruzados, proveniente de 18 anos da mesma contribuição, a qual o govêrno
mandou arrecadar.
Além dos tributos de que acabamos de falar, outros pagaram os madeirenses, já para despesas da guerra e
fortificações, já para outros fins.
Em 1478 apareceu a primeira contribuição de guerra imposta á Madeira, seguindo-se-lhe a de 1493, que não
chegou a ser paga, e as dos gibonetes e corpos de couraças, aquela estabelecida em 1497 e esta no ano
imediato. Houve depois outras contribuições de guerra ou fintos, a mais pesada das quais foi a de 10:000
cruzados cada ano, desde 1637, para a armada da restauração de Pernambuco, sendo então, segundo pensa
o Dr. Azevedo, que pela primeira vez o clero madeirense foi obrigado a partilhar dos encargos tributarios da
população. Os fidalgos, que se haviam insurgido contra as contribuições de 1478 e 1493, pagaram depois
sem resistencia todos os demais tributos lançados pelo poder central.
A contribuição denominada donativo incidia nos frutos, e era destinada também a despesas da guerra. O
primeiro diploma registado no arquivo da camara que a ele se refere é de 1635, e o ultimo de 1691.
As imposições sôbre as carnes verdes e os vinhos vendidos a retalho, que datam dos tempos imediatos á
povoação do arquipelago, algumas vezes foram aplicadas a despesas de fortificação, a pesar de serem rendas
exclusivamente municipais.
Entre os impostos não destinados especialmente a despesas militares, mencionaremos ainda as seguintes: a
meia anata (Lei de 31 de Maio de 1631); o imposto do papel selado e do tabaco, que parece datar dos
primeiros anos do reinado de D. João IV; A decima funeraria (Lei de 27 de Junho de l809); a contribuição
do trabalho (Carta Regia de I de Outubro de 1801); e a sisa (Lei de 3 de Junho de 1809).
A decima funeraria ou sêlo das heranças, e a sisa, estão incluídas hoje na chamada contribuição de registo,
ao passo que o antigo imposto da meia anata, estabelecido pelo govêrno castelhano, há muito que não
existe, tendo chegado mesmo a ser extinto temporariamente pelo govêrno de D. João IV.
Esse imposto, que era uma especie de direitos de mercê, exigia-se em tôdas as graças honorificas, tanto civis
como militares, ordenados, ajudas de custo, etc., não perdoando senão aos soldos das praças e marinheiros
do exercito e armada e aos vencimentos que não excedessem 50 cruzados por ano.
Desde os primeiros tempos da povoação pagaram os madeirenses impostos alfandegarios, e tanto antes
como depois de 1834, vemos figurar nos calculos dos recursos do Estado nesta ilha, os rendimentos das
duas contribuições indirectas do real de agua do vinho e da carne e os das contribuições directas seguintes:
direitos de mercê, oitavo do açucar e imposto nas estufas. Em 1646 foi estabelecido o imposto de um
cruzado por cada pipa de vinho exportada, o qual foi o ponto de partida dos direitos sôbre a exportação do
vinho, cobrados na Alfandega do Funchal.
A Madeira rendia 25:000:000 réis para o Estado em 1628, mas não diz a obra donde extraímos esta
informação, qual a proveniencia dessa importancia. Em 1806, segundo informa Tovar de Albuquerque, os
dizimos rendiam 65:000$000 réis, o subsidio literario 7:000$000 réis, a imposição do vinho réis
l5:000$000, pertencendo porém ao Estado só metade desta importancia, os fintos 3:600$000 réis, as
estufas do vinho 2:000$000 réis, o pescado e a carne 3:500$000 réis, a alfandega 180:000$000 réis e
outros impostos 20:000$000 réis, ao passo que no ano economico de 1848 a 1849, segundo se lê no vol. II
da Epocha Administrativa, os dizimos produziam réis 18:030$126, o subsidio literario 6:202$386 réis o real
de agua do vinho 5:093$764, o finto 1:386$756 réis, o imposto do pescado 907$060 réis, o real de agua da
carne 1:805$751 réis, o imposto de 3 réis em cada libra de carne 3:477$351 réis, a alfandega 109:276$641
réis, as sisas 5:553$802 réis, os direitos de mercê 863$709 réis e outros impostos e direitos 11:490$219
réis. Lê-se algures que em 1820 a Madeira rendia 529:462$2l5 réis, sendo de 4:840$680 réis a receita do
subsidio literario.
Escasseia-nos dados para poder ampliar mais esta noticia acêrca das contribuições que se pagavam outrora
na Madeira. Do que atrás ficou dito, porém, vê-se bem claramente que, por mais sobrecarregados que
estejamos agora de tributos, a nossa situação é incomparavelmente melhor que a dos primitivos habitantes
da Madeira. As contribuições industrial, predial, sumptuaria e de registo, e os impostos indirectos actuais,
quasi que representam um mimo dos governos, quando comparados com os dizimos e as mil outras
alcavalas com que o infante D. Henrique e os antigos monarcas houveram por bem onerar o povo desta ilha.
V. Açucar, Alfandegas, Autonomia Administrstiva, Capitanias, Cortina
da Cidade, Donatarios e Junta Geral.
Consulados
O primeiro consulado que houve na Madeira foi o belga, ou o dos flamengos, criado em
1608, seguindo-se-lhe o francês, o inglês e o espanhol, criados respectivamente em 1626, em 1658 e em
1667. Em 1791 foi estabelecido o consulado dos Estados Unidos da America do Norte, em 1796 o da Suecia,
em 1804 o da Dinamarca, em 1812 o da Russia, e em 1826 ou 1827 o da Sardenha, tendo todos os outros
consulados que existem agora na Madeira sido criados, segundo cremos, depois de 1834, sem que possamos
indicar todavia a data das respectivas instalações.
Em 1783 já a Republica de Veneza tinha um consulado no Funchal.
No meado do seculo XIX tinham representação consular na Madeira os Estados Unidos da America, a
Austria, a Belgica, o Brasil, as Cidades Hanseaticas, a Dinamarca, a Inglaterra, a França, a Grecia, os
Estados Pontificios, a Holanda, Napoles, a Turquia, a Prussia, a Russia, a Sardenha, a Espanha, a Suecia e a
Toscana, sendo criados mais tarde os consulados da Italia e da Alemanha para substituir os dos estados
encorporados nestes dois países. Em 1885 havia o consulado das Ilhas de Hawai, agora extinto.
Os consulados das republicas da America Central e Meridional, á excepção do do Brasil, foram criados todos
depois de 1882, tendo já em 1888 representação consular no Funchal, o Uruguai e a Republica Argentina.
No ano de 1827 foi criado na Madeira um vice-consulado do Brasil e no ano seguinte um vice-consulado das
Duas Sicilias.
V. Casa dos Consules.
Convento da Incarnaçao
A fundação do convento de Nossa Senhora da Incarnação foi inspirada
por um sentimento do mais puro e ardente patriotismo. 0 conego Henrique Calaça de Viveiros fizera votos
de levantar um mosteiro em honra e louvor da Virgem da Incarnação, a quem era muito devotado, quando o
seu país se libertasse inteiramente do ferreo jugo castelhano e retomasse a sua antiga independencia.
Cumpriu religiosamente o seu voto, fazendo erguer o modesto convento no ano de 1650. 0 conego Calaça
nasceu por 1589 e morreu a 25 de Maio de 1662. 0 seu retrato em tamanho natural, que ainda há poucos
anos se encontrava no côro do mosteiro, conservava num dos angulos da tela os seguintes dizeres: Retrato
natural do conego Henrique Calaça de Viveiros, fundador deste convento. Falleceu em 25 de Maio de 1662,
em edade de 73 annos.
Diz o dr. Alvaro de Azevedo: “...principiou por uma capella, que se presume fora instituida por Antonio
Mialheiro, finado em 1565; D. Isabel Maria Acciaioli mandou fazer capella-mór; e depois, em 1650, o conego
Henrique Calaça de Viveiros fundou o mosteiro...”. Destas palavras se conclue que a fundação do convento
pertence ao conego Calaça, tendo porém aproveitado a capela já ali existente. A vasta cêrca fazia parte duma
excelente quinta que o fundador possuía naquele sitio.
Parece que começou por ser um recolhimento com o nome de Santa Teresa de Jesus, seguindo as recolhidas
a ordem terceira do Carmo e tendo ali dado entrada no ano de 1652. Só em 1660 é que foi transformado em
mosteiro, sob a regra franciscana de Santa Clara, sendo sua primeira abadessa uma religiosa do convento de
Santa Clara, escolhida pela autoridade eclesiastica. Foi no ano referido de 1660, isto é dois anos antes de
morrer, que o conego Calaça de Viveiros doou todos os seus bens ao convento de que tinha sido o fundador.
O mosteiro e igreja sofreram importantes reparos por meados do seculo XVIII, sendo então construído um
novo e vasto côro, em substituição do antigo, que era de acanhadas dimensões. Para estas obras contribuíu
a fazenda real com um conto de réis, o que foi concedido pelo alvará regio de 10 de Fevereiro de 1750. No
ano seguinte concorreu também a fazenda real com 750:000 réis para a construção do grande muro que
ladeia a estrada que conduz á igreja de Santa Luzia.
As freiras da Incarnação tiveram que abandonar o seu convento quando os inglêses ocuparam pela segunda
vez esta ilha no periodo decorrido de Dezembro de 1807 a Outubro de 1814. As tropas britanicas instalaram-
se principalmente no colegio dos jesuitas, que então servia de seminario, e no convento da Incarnação,
saindo as religiosas para o mosteiro de Santa Clara no dia 7 de Janeiro de 1808. Para a conveniente
acomodacão e aquartelamento das fôrças inglêsas, fizeram-se ali varias obras, que bastante danificaram o
edificio, tendo sido a igreja transformada em templo anglicano. A fundação patriotica e genuinamente
catolica de Henrique Calaça, estava ocupada por tropas estrangeiras e dedicada a um culto heretico!
Para o efeito da execução das leis de desamortização, foi este convento avaliado, por mandado do govêrno,
em Agôsto de 1862, tendo a avaliação computado em 10.320$000 réis o valor do edificio, igreja, cêrca, casa
do capelão, etc..
Por uma portaria de Junho de 1895, foi provisoriamente concedido o edificio da Incarnação para nele se
instalar uma oficina de São José, que ali teve uma precaria e arrastada existencia, e cuja duração foi muito
curta.
Ao bispo desta diocese D. Manuel Agostinho Barreto foi concedido o edificio, igreja e cêrca do convento da
Incarnação, por decreto de 11 de Julho de 1905, para ali se edificar uma casa destinada á instalação do
Seminario Diocesano que começou a funcionar em Outubro de 1909 no vasto e belo edificio que o ilustre
prelado fêz construir á sua custa no local do antigo mosteiro (V. Seminario).
A lei de 20 de Abril de 1911 extinguiu o seminario do Funchal, e neste edificio se instalou alguns anos depois
uma Escola de Utilidades e Belas Artes, que teve poucos anos de existencia. (V. Escola de Utilidades e Belas
Artes).
No edificio onde funcionaram o Seminario e a Escola de Belas Artes, foram em Setembro de 1919 instaladas
as diversas repartições da Junta Geral do distrito, que para esse fim obteve esta casa por compra feita ao
Estado.
O decreto de 25 de Abril de 1927 mandou entregar á Comissão Diocesana do Culto o edificio do Seminario
da Incarnação, mas a Junta Geral fêz uma tenaz oposição a essa entrega, que somente veio a verificar-se no
mês de Outubro de 1933, depois duma porfiosa luta de seis anos. Nesse referido ano passou novamente o
seminario diocesano com os seus multiplos serviços de aulas e de internato dos alunos a funcionar na
edificio mandado construir pelo eminente prelado D. Manuel Agostinho Barreto.
Acêrca da fundação deste mosteiro, deve ler-se o opusculo que o “Arquivo Historico da Madeira” publicou
sob o titulo de A Restauração de Portugal e o Convento da Incarnaçâo, Lisboa, MCMXL, de 50 pags..
A última freira do convento da Incarnação, a madre Vicencia Violante do Céu, faleceu a 20 de Abril de 1890.
Convento das Mercês. Começou este convento por uma casa para recolhidas, sem caracter religioso nem
observancia de regras canonicas para as internadas. Foi fundada por Gaspar Berenguer de Andrade e sua
mulher D. Isabel de França Andrade, no ano de 1654. Os fundadores transformaram em 1658 esta casa em
recolhimento religioso, sujeitando-se as recolhidas a uma regra ou estatuto moldados por algumas casas
monasticas. E, finalmente por alvará regio do ano de 1663, confirmado em 1665 pelo Papa Alexandre VII, se
elevou este recolhimento a um mosteiro da primeira ordem de Santa Clara, de severa e estricta observancia,
que deste modo se manteve sempre através dos tempos e até o momento da sua extinção. Lemos algures
que ao fundador foi concedido o direito de padroeiro deste convento, ohrigando-se a dotá-lo com cento e
sessenta mil réis em cada ano, ficando esta obrigação anexa ao morgadio do Lombo do Doutor, na freguesia
da Calheta. Para a epoca em que foi feita, parece-nos muito exagerada esta dotação, que hoje
corresponderia a uma quantia bem avultada.
Se o mosteiro de Santa Clara não foi um modêlo na rigida observancia das suas regras, pode no entretanto
afirmar-se que o convento das Mercês deu o mais vivo e eloquente exemplo da pratica de tôdas as virtudes
cristãs, levada até a mais heróica austeridade e severa e continua penitencia. Era o verdadeiro cenaculo da
oração, do recolhimento e do sacrificio, a que voluntariamente se entregavam as pessoas que iam ali
procurar, como um aspero e afastado deserto, o seu completo afastamento do mundo e de todos os seus
apetecidos e encantadores atractivos. Houve neste mosteiro algumas religiosas que alcançaram a fama de
grande virtude, nomeadamente a madre Brites da Paixão, a quem consagraremos um artigo especial no
logar. respectivo.
O edificio primitivo, que era uma construção modesta e assim se manteve até á sua demolição, sofreu no
entretanto alguns importantes reparos no decorrer dos tempos, especialmente nos anos de 1746 e 1752 em
que se gastou a quantia de l.200$000 réis, já importante para aquela epoca. Foi demolido em 1911.
Acêrca da origem da fundação deste mosteiro, inserem as Saudades da Terra, a pag. 591 e seguintes, uma
interessante lenda, que merece ser lida como documento do estado dos espiritos naquela epoca.
Convento de Nossa Senhora ds Piedade
Por 1476 chegaram a esta ilha os irmãos João
Baptista e Urbano Lomelino, que pertenciam ás mais antigas e distintas familias de Genova (V. Lomelino).
Foi o segundo destes irmãos que fundou este convento e iniciou as obras de construção, que a morte não o
deixou concluir. Falecendo em 1518, vinculou por testamento os seus bens a favor de seu sobrinho Jorge
Lomelino e seus descendentes, com o encargo de concluir a edificação do convento, de o conservar e ainda
de sustentar seis religiosos quando lhes faltasse as esmolas. Joana Lopes e Isabel Correia, mulher e sogra de
Urbano Lomelino, edificaram a capela de Sant’Ana na igreja deste mosteiro, que servia de capitulo á
comunidade, e nela foram sepultados. Jorge Lomelino morreu a 9 de Dezembro de 1548 e foi sepultado na
igreja do mesmo convento.
“Extinctas as ordens religiosas, disse o annotador das Saudades em 1873, e por meio de renhido pleito que
durou alguns annos, foi o convento restituido aos successores do instituidor, porque este, com previsão, de
que talvez seja exemplo unico, isso determinava na respectiva verba testamentaria, dado o caso de vir de
futuro a ser extinto o convento”.
Do convento e igreja, que com efeito passaram á posse dos descendentes do fundador, não restam hoje
vestigios.
Convento de Nossa Senhora da Porciuncula
Ficava este convento de religiosos
franciscanos da freguesia da Ribeira Brava, a pequena distancia da igreja paroquial. Foi edificado pelos
frades franciscanos em ano que não podemos determinar. Ainda há uma dezena de anos se viam algumas
ruínas da casa conventual, e estavam de pé o frontispicio e parte do corpo da igreja, que não era de
dimensões muito acanhadas. Sôbre o portico lia-se a data de 1730, que não sabemos se representa o ano da
fundação do convento, ou da construção da igreja, o que nos parece mais provavel.
Convento de Santa Clara
Este convento foi edificado junto da igreja da Conceição de Cima,
mandada construir por João Gonçalves Zarco, que tinha então sua residencia nas imediações da mesma
igreja. Foi João Gonçalves da Camara, filho do descobridor, e segundo capitão-donatario do Funchal, que
tomou a iniciativa da fundação deste mosteiro, não só para recolhimento de suas filhas, como de outras
pessoas que desejavam seguir a vida monastica, o que então não podiam fazer no Funchal, por falta de casa
religiosa destinada a esse fim.
A construção do convento começou em 1492, mas as primeiras religiosas somente deram ali entrada no ano
de 1497. Foi por escritura de 11 de Setembro de 1480 que o fundador João Gonçalves da Camara comprou a
Rui Teixeira e Branca Ferreira, moradores no Campanario, a propriedade do Curral, que depois passou a
chamar-se Curral das Freiras, pela importancia “de 23$500 reis de cinco ceitis ao real e 50 cruzados de
ouro... a sua area era desde o Passo da Cruz e Ribeira dos Socorridos até onde ela nasce de arrife a arrife, de
uma a outra banda”. Foi este predio rustico, o mais vasto e importante que este convento chegou a possuir,
que o fundador doou ao mosteiro por ocasião de nele serem admitidas as suas filhas como religiosas.
Já anteriormente tinha o infante D. Manuel, duque de Beja e depois rei, inculcado e feito sentir a
necessidade da fundação dum convento de religiosas nesta ilha, na carta que, na qualidade de grão-mestre
da Ordem de Cristo, a que este arquipelago pertencia, dirigira aos seus habitantes a 17 de Julho de 1488. Diz
nesse curioso documento, que pela primeira vez encontrámos no jornal O Reclame de 26 de Novembro de
1890, que o Sumo Pontifice lhe escrevera pedindo a fundação dum mosteiro na igreja da Conceição de
Cima, acrescentando que “tanto que esta birdes bos ajumtees logo Em camara Com ho capitam E pratiquees
todo muy bem E bos praza De Se asi fazer... me prazera de fazer para yso aquella esmola que bem me
parecer e ao diamte para mamtemça Das freyras folgarey Sempre De fazer toda a esmola que bem
podeer...”. Ignoramos se foi o pedido do grão-mestre que determinou João Gonçalves da Camara a fundar o
convento quatro anos depois, e menos ainda sabemos se D. Manuel, que ascendeu ao trono em 1495,
contribuiria para a edificação do mesmo mosteiro.
Como já se disse, os trabalhos de construção começaram em 1492, mas só foram dados por concluídos no
ano de 1497, devendo em parte atribuir-se esta lentidão no prosseguimento desses trabalhos á ausencia do
fundador e capitão-donatario, que, ordenando e dispondo tôdas as cousas para a edificação, e talvez ainda
iniciando-a, se ausentou depois para o continente do reino, onde a permanencia era sempre demorada,
devido principalmente á dificuldade das comunicações. O edificio foi posteriormente e varias vezes
acrescentado, á medida que ia crescendo o numero de religiosas. Ao longo do claustro, para satisfação da
devoção das freiras e ainda de outras pessoas, se construíram muitas capelas e oratorios, perfeitamente
dispensaveis para o serviço religioso da cumunidade. A igreja primitiva, que tinha a invocação de Nossa
Senhora da Conceição e que era conhecida pelo nome de Conceição de Cima, passou a ser dedicada a Santa
Clara (V. este nome), que foi a padroeira do mosteiro. Esta igreja também sofreu notaveis modificações com
o decorrer dos tempos, tendo sido quasi totalmente reconstruída na primeira metade do seculo XVII.
Os descendentes do fundador, que foram os capitãis-donatarios do Funchal, e depois os condes e marqueses
de Castelo Melhor, sempre se consideraram não só como padroeiros desta igreja e convento, como também
os seus legitimos senhores e proprietarios, e ainda em Outubro de 1867 revindicaram a sua posse e
propriedade, registando-os na conservatoria desta comarca, depois dum pleito judicial intentado em 1862,
em que demonstraram o direito que lhes assistia á propriedade do mesmo convento. Por ocasião da morte
da ultima freira, podiam os marqueses de Castelo Melhor ter-se legitimamente apossado do edificio, o que
não fizeram, por motivos que desconhecemos.
A primeira abadessa do convento de Santa Clara foi D. Isabel de Noronha, filha do referido João Gonçalves
da Camara, a qual sendo freira do mosteiro da Conceição, em Beja, foi transferida para o Funchal com
outras quatro religiosas professas, depois de obtidas as necessarias licenças do pontifice. Com estas madres
entraram no novo mosteiro D. Elvira e D. Constança, igualmente filhas do donatario, e que mais tarde
foram professas, e depois da morte deste, ocorrida em 1501, também ali foi admitida outra sua filha de
nome D. Constança, a qual segundo diz Frutuoso, “sempre viveu santamente, não querendo ser freira
professa porque sempre era enferma”.
Das filhas do terceiro capitão-donatario Simão Gonçalves da Camara, foram ali religiosas D. Beatriz, D.
Isabel e D. Maria de Noronha, “onde as meteo seu pay com boas rendas que para isso lhes aplicou e viveram
sempre mui virtuosamente e santamente”. Os outros donatarios e os mais ricos e nobres fidalgos da
Madeira tiveram muitas de suas filhas como religiosas deste convento.
Constituíu-se primitivamente a comunidade com um numero reduzido de freiras, que foi aumentando
sensivelmente, tendo cêrca de setenta nos fins do seculo XVI. Por meados do seculo XVIII o numero de
religiosas subia a 130, sendo 70 supranumerarias, muitas das quais não eram professas nem tinham feito
votos. No primeiro quartel do seculo XIX, estava este numero reduzido a cêrca de 70. O dote com que cada
religiosa entrava por ocasião da sua admissão era de 800$000 réis, além de outras despesas, o que tudo se
computava aproximadamente num conto de réis, não sendo facil ás pessoas pouco abonadas em meios de
fortuna fazer parte desta comunidade religiosa.
O primitivo fervor na observancia das regras monasticas e a antiga austeridade de vida das freiras deste
mosteiro foram a pouco e pouco esfriando, e graves e repreensiveis abusos se introduziram, tendo-se até
praticado actos verdadeiramente escandalosos, em que a autoridade eclesiastica se viu forçada a intervir
com a aplicação das mais severas penas canonicas. Por meado do seculo XVIII havia no convento trinta
criadas, e varias religiosas havia que tinham uma criada só para seu serviço privativo, o que numa casa de
vida apertada e austera, como deve ser um mosteiro, constituía um imperdoavel abuso. Tempo houve em
que o viver das freiras não se diferençava do do resto da sociedade a que pertenciam, senão apenas na
clausura que guardavam, vivendo encerradas dentro das paredes dum mosteiro. E até uma vez tôda a
comunidade em pêso rompeu momentaneamente a propria clausura, que é o ponto mais apertado e mais
grave da disciplina das casas monasticas, tendo o prelado diocesano e o Sumo Pontifice fulminado contra as
monjas as mais rigorosas penas da Igreja. Deram-se graves abusos, que depois severamente se coibiram,
mas são no entretanto destituídos de fundamento os factos narrados no romance Angela Santa Clara, de
Henrique Read Cabral.
Um dos acontecimentos mais importantes na historia deste convento, foi o que ali ocorreu por ocasião do
saque que os corsarios franceses deram a esta cidade em 1566. As freiras viram-se forçadas a abandonar o
seu convento para não serem vitimas daquela horda de selvagens e, como diz G. Frutuoso, “sahiram por
entre os cannaviais, e se acolheram e não pararam até ao seu Curral, que dista bom pedaço da cidade, e
assim se foram, sem salvar nenhum ornamento, deixando tudo no mosteiro, salvo a custodia do Santissimo
Sacramento. . . . Os franceses permaneceram no Funchal, na sua faina de destruição e de matança, de 3 a 17
de Outubro e logo depois da sua saída desta ilha deixaram as religiosas o Curral, recolhendo-se ao seu
convento na cidade. Os corsarios fizeram ali a maior pilhagem e causaram grandes estragos na igreja e
convento, praticando tôda a sorte de vandalismos.
As autoridades civis e eclesiasticas deste arquipelago tentaram por vezes reunir numa só as duas
comunidades de Santa Clara e da Incarnação, com o fundamento de ter a primeira abundantes recursos
para se manter e de ser a segunda um convento pobre e de escassos rendimentos, mas nunca conseguiram
realizar a projectada reunião dos dois mosteiros, a pesar de terem obtido um breve pontificio que a
autorizava, devido certamente a poderosas influencias que se interpuseram e que a isso obstaram
inteiramente.
O convento de Santa Clara tinha, por meado do seculo XVIII, mas de sete contos de rendimento anual, e no
ano de 1821 ascenderam a 14 contos as suas rendas tendo neste ano um saldo negativo de dois contos de
réis, devido á falta duma administração cuidada e zelosa. Em virtude das leis de desamortização, foram
vendidos pela fazenda publica todos os bens deste convento, que eram avultados, ignorando-se o
quantitativo do resultado dessa venda.
Por ocasião da extinção das ordens religiosas, tinha este convento pouco mais de sessenta religiosas, sendo
a ultima sobrevivente Maria Amalia do Patrocinio, que faleceu no mês de Novembro de 1890.
Por decretos de 26 de Outubro de 1912 e 17 de Dezembro de 1914 foram o convento, igreja e cêrca de Santa
Clara concedidos á Camara Municipal do Funchal, á Santa Casa da Misericordia e ao Auxilio Maternal, a fim
destas entidades construírem uma avenida, um hospital e uma “crèche“, ficando a camara de posse da igreja
e coros destinados a um museu regional.
Pelo decreto de 12 de Março de 1896 foi o velho convento cedido á Congregação das Franciscanas
Missionarias de Maria a fim de ser ali estabelecido um instituto de preparação do pessoal feminino
destinado ás missões religiosas das nossas colonias e também para a instalação dum colegio de ensino
elementar e secundario para raparigas, de que havia grande falta no nosso meio, Os acontecimentos
politicos ocorridos no nosso país em 1910, provocaram a expulsão daquelas religiosas, que imediatamente
sairam da Madeira, ficando interrompidos os excelentes serviços que aqui estavam prestando.
Os decretos de 31 de Outubro de 1912 e 22 de Setembro de 1913 concederam os edificios do convento á
Camara Municipal do Funchal, á Santa Casa da Misericordia e á associação de beneficencia, ”Auxilio
Maternal”, para os fins indicados nos mesmos decretos, chegando-se a demolir uma parte consideravel do
antigo mosteiro e praticando-se então actos de verdadeira destruição e vandalismo em todos os edificios.
Voltaram estes á posse do Estado, por não se haverem realizado as obras projectadas e não se ter
preenchido o fim especial da concessão.
O decreto de 25 de Janeiro de 1927 e a portaria de 12 de Junho do mesmo ano autorizaram o Ministerio das
Finanças a ceder ao Ministerio das Colonias as diversas dependencias do extinto convento a favor da
Associação Auxiliar das Missões Ultramarinas, com o destino especial de estabelecer-se nele um colegio de
formação missionaria para as religiosas que houvessem de prestar serviço nas missões das nossas colonias
ultramarinas. A direcção desse colegio foi entregue ás referidas Irmãs Franciscanas, que além disso criaram
no mesmo convento uma *crèche+, em que cêrca de 400 crianças são recolhidas, alimentadas e educadas
durante o dia, prestando-se deste modo um dos mais assinalados serviços que entre nós se está dispensando
á pobreza da Madeira.
Convento de São Bernardino. Foi o primeiro convento que nesta ilha se fundou fora do Funchal. Pertencia á
ordem franciscana e tinha por titular a S. Bernardino de Sena, um dos grandes santos da mesma ordem.
Ficava situado na freguesia de Camara de Lôbos em logar ermo e solitario, e a certa distancia da igreja
matriz. Teve uma humilde e obscura origem, mas tornou-se depois celebre e afamada em tôda a ilha e
parece que até no continente do reino por ter ali vivido e morrido um varão de assinaladas virtudes, por
nome Fr. Pedro da Guarda, a que o povo chamou e chama ainda o Santo Servo de Deus. Tornou-se por isso,
um centro de atracção para muitos devotos e romeiros, que vinham dos mais distantes logares da ilha
invocar a intercessão do santo e humilde franciscano. Com a extinção das ordens religiosas e a atitude do
vigario capitular e governador do bispado Antonio Alfredo de Santa Catarina Braga, esfriaram e diminuíram
estes preitos de devoção e piedade, mas não se extinguiram de todo porque ainda todos os anos um numero
consideravel de individuos procura a sepultura onde foram depostos os restos mortais de Fr. Pedro da
Guarda. Nada mais dizemos aqui a respeito da sua vida, virtudes e culto que se lhe prestava, porque lhe
consagraremos um artigo especial.
Fr. Gil de Carvalho, humilde frade franciscano, veio do continente do reino para a Madeira, quando os
religiosos que ocupavam o hospicio de S. João acabavam de sair desta ilha e foram estabelecer uma
comunidade nas proximidades de Lisboa. Desejando, diz o anotador da Historia Insulana, Fr. Gil viver em
logar deserto como ermita, levantou um pequeno cenobio com dos cubiculos, em que habitavam João
Afonso e Martinho Afonso, os quais esmolavam pelo povoado para a sustentação dos três.
Crescendo o numero de religiosos, trataram de levantar um pequeno convento em terreno que lhes foi
doado por João Afonso Correia, escudeiro do infante D. Henrique, e sua mulher Inês Lopes, que nesta ilha
foram o tronco da casa Tôrre Bela. A nova casa erguia-se num sitio afastado da povoação, cercado dum lado
pela ribeira e do outro por uma rocha, sendo bem propria para o genero de vida a que se dedicavam.
Passados alguns anos se reuniram a eles outros religiosos, que formaram uma comunidade sob a direcção
de Fr. Gil de Carvalho.
Volvidos muitos anos, entregou aquele religioso o govêrno do seu mosteiro a Fr. Jorge de Sousa, que muito
concorreu para o seu engrandecimento. Uma enchente da ribeira havia alguns anos antes destruído a
pequena igreja e uma parte do convento, tendo Fr. Jorge construído um novo e mais vasto templo, ao abrigo
das correntes caudalosas da ribeira, e dando á comunidade a organização canonica duma verdadeira casa
monastica, depois de ter melhorado consideravelmente as condições materiais do mosteiro.
A capela-mor da nova igreja foi fundada por Rui Mendes de Vasconcelos, filho de Martim Mendes de
Vasconcelos e de Helena Gonçalves, filha de Zarco, e sua mulher Isabel Correia, que era filha dos doadores
do terreno em que se tinha levantado o primitivo convento. João Bettencourt de Vasconcelos, neto do
fundador da mesma capela e padroeiro dela, vinculou a têrça dos seus bens para acudir ás necessidades do
convento, por testamento aprovado a 12 de Dezembro de 1607. A seu respeito lemos num antigo nobiliario:
“...chamavam-lhe o Cavalleiro, de alcunha, nasceo no anno de 1535 e passou á India no de 1580, por capitão
da nau São Gregorio; sucedeu nas terças de seus avós, por morte de seu irmão Ruy Mendes, e fez
testamento aprovado em 12 de dezembro de 1607, no qual deixou vinculada sua terça nas fazendas por cima
de Camara de Lobos e abaixo da quinta da Torre, e a deixou aos frades de São Bernardino, de cuja capella-
mór foi padroeiro, como herdeiro do morgado dos ditos seus avós maternos, seus instituidores; falleceu em
12 de Julho de 1615”.
A capela-mor da igreja deste convento era o jazigo privativo dos descendentes dos fundadores e padroeiros
dela, e muitos deles foram ali sepultados, sobretudo os sucessores na casa vinculada.
A igreja do convento, que ainda está de pé, embora muito arruinada, tem gravada no alto do frontispicio a
era de 1763, que é certamente a data da reconstrucão da mesma igreja.
Como fica dito a igreja foi ampliada e reconstruída no ano de 1763, mas exposta ao maior abandono com a
expulsão das ordens religiosas entrou em rapida ruína, tendo sido inteiramente restaurada há poucos anos,
devido aos diligentes esforços do respectivo paroco de Camara de Lôbos João Joaquim de Carvalho. As
dependencias da antiga casa conventual também foram restauradas na mesma ocasião e, nelas
funcionaram, no periodo decorrido de 1931 a 1933, as aulas dos primeiros anos do curso de preparatorios do
pequeno seminario diocesano, que foi extinto e encorporado no Seminario da Incarnação.
Convento de São Francisco da Calheta
“0 convento de frades de S. Francisco, da Calheta,
diz-se numa nota das Saudades da Terra, foi por meio de esmolas levantado cerca do anno de 1670, em
terreno comprado pelo devoto Pedro Bettencourt de Athouguia, o qual, depois tomou o habito de leigo no
convento de S. Bernardino. É propriedade particular porque foi vendido pela Fazenda Publica”.
Era o mais modesto dos conventos da Madeira e teve sempre um numero muito reduzido de religiosos. Era
pequeno o edificio e também a igreja era de acanhadas dimensões.
Convento de São Francisco do Funchal
Os religiosos franciscanos instalaram-se
primitivamente num modesto alojamento e numa pequena ermida adjunta, que levantaram no local onde
hoje fica a capela de São João, na margem direita da ribeira do mesmo nome. Aí permaneceram alguns
anos, até que por 1459 abandonaram o sitio e partiram para o continente do reino, onde estabeleceram uma
comunidade em Xabregas, nos arredores de Lisboa. (V. Ordem Serafica).
Por 1476 chegaram ao Funchal o franciscano Fr. Rodrigo de Arruda e alguns companheiros, que ocuparam
o hospicio de São João e ali organizaram uma pequena comunidade religiosa, em virtude dum breve do
papa Sixto IV, concedido em 1476. Fr. Rodrigo, aproveitando as boas disposições dos habitantes da vila,
tratou de levantar um convento no centro da povoação, sôbre terreno pertencente a Clara Esteves, que em
testamento o havia vinculado a favor de João do Porto, seu parente, cedendo os religiosos, em troca, o seu
hospicio de São João e obrigando-se ainda a celebrar uma missa cantada anual em dia de Todos os Santos, o
que tudo foi autorizado pela infanta D. Beatriz, como tutora de seu filho o duque D. Diogo, grão-mestre da
Ordem de Cristo, a que esta ilha pertencia. Dizem as Saudades da Terra que a causa da mudança foi “porque
o logar era ermo e nelle um frade, por induzimento do Demonio, que sempre urde semelhantes teyas se
enforcou, estes religiosos ordenaram huma casa em baixo, na villa do Funchal, em chãos e terras defronte
de Santa Catharina, alem da ribeira, onde hora (1590) está fundada uma das melhores casas desta ordem
que a Provincia tem em Portugal; o qual convento he de observância, tão sumptuoso como fresco, em que
sempre estão perto de cincoenta frades, muito letrados, religiosos de virtude e exemplo, quanto se pode
achar no mundo”.
Não foi Clara Esteves a fundadora deste convento, como alguns têm erradamente suposto, pois que já era
falecida á data da fundação, e foi o primeiro administrador do vinculo por ela instituído que fêz a transacção
da troca com os franciscanos, o qual também em cousa alguma contribuíu para a dita fundação. Os
verdadeiros fundadores desta casa monastica, modesta na sua origem e que só mais tarde se tornou um
importante mosteiro, foram Luiz Alvares da Costa e seu filho Alvaro da Costa no ano de 1473, como se vê da
inscrição em letras goticas, que se encontra na respectiva lapide tumular, removida em 1865 para o
cemiterio das Angustias (V. este nome), onde ainda hoje se acha. Nesta pedra sepulcral 1ê-se: Aqi JAS LOIS
ALVARES DA COSTA Q- FVNDOU ESTA CASA NA ERA de 1473 E SEV F1 FRANCISCO ALVARES DA
COSTA PR1 OVIDOR E VEDOR DA FAZENDA NESTAS ILHAS DA MADEIRA.
O terreno que pertencia a Clara Esteves foi acrescentado com uma grande horta que Maria de Atouguia,
neta do fundador, doara em testamento aos religiosos franciscanos.
Teve primitivamente o convento uma pequena igreja, que foi depois acrescentada e reconstruída, sendo esta
sagrada a 4 de Março de 1554 pelo bispo espanhol D. Sancho Truxillo, que viera temporariamente exercer
funções episcopais nesta
igreja sofreram ainda grandes reparos e novos
acrescentamentos pelos anos de 1578, sendo guardião o franciscano Fr. Diogo Nabo. A esta epoca se
referem as seguintes palavras de Frutuoso: “... tem uma egreja muito lustrosa... em a qual ha outo capellas
mui ricas e... grande cerca... “.
A pesar deste templo não ser pequeno, foi considerado de acanhadas dimensões para o movimento religioso
da comunidade, que havia aumentado consideravelmente, para a grande frequencia dos fiéis e ainda para a
construção de novos mausoléus e jazigos particulares, tendo sido demolido em 1780, levantando-se no
mesmo local uma nova e vasta igreja.
O templo era um grande edificio de bela e sólida construção, cujo interior não havia sido ainda inteiramente
acabado. Tinha apenas três quartos de seculo de existencia, quando o camartelo demolidor o lançou á terra,
e estava ainda em excelente estado de conservação, á parte as danificações que as intemperies e o abandono
ilha. O convento e
em que ficara desde 1834, inevitavelmente lhe causariam.
A sua conservação impunha-se. Se não havia necessidade de aplicá-lo ao exercicio do culto, devera ter sido
destinado ao nosso museu de arte. Pequenas terras de provincia, muito inferiores á nossa em população e
em importancia de tôda a ordem, o têm. Modesto sim, mas seria o pequeno museu duma ilha perdida no
meio do oceano. Inumeros objectos se têm extraviado e perdido, que ali poderiam e deveriam figurar.
A igreja de S. Francisco era, como se sabe, o verdadeiro panteon de grande parte das mais distintas e antigas
familias deste arquipélago. Quasi tôdas tinham ali os seus carneiros e mausoléus, alguns deles de ricos e
belos mármores. Causa-nos hoje verdadeiro espanto é também uma legitima indignação que os
representantes dessas familias e, portanto, proprietarios desses sarcofagos, deixassem arrasar essa, que,
para eles, deveria ser uma necropole sagrada.
O convento, que era antigo e estava muito arruinado, e o templo anexo, serviram de hospital, de prisão, de
quartel, de tribunal e de asilo, sendo, por decreto de 7 de Novembro de 1844, cedidos á Camara Municipal
do Funchal para a construção dum edificio destinado á instalação dos tribunais. Nem tentativas se fizeram
então para levar a cabo a realização dessa ideia.
Em 1864, a Camara do Funchal deliberou abrir concurso para a apresentação dum projecto e orçamento de
um edificio destinado a acomodar os tribunais judiciais, os paços do municipio, a administração e a
recebedoria do concelho, tendo escolhido a cêrca do convento de S. Francisco, como o local mais apropriado
para a sua construção.
Revestiu a maior solenidade o lançamento da primeira pedra dos novos paços do concelho. No dia 11 de
Março de 1866, saíu da Sé Catedral um luzido cortejo, presidido por D. Patricio Xavier de Moura, prelado
diocesano, e em que se encorporaram a camara municipal, as autoridades superiores do distrito,
funcionarios publicos e outras entidades oficiais, dirigindo-se todos á cêrca do convento de S. Francisco e ali
se procedeu, no meio dum enorme concurso de povo, ao assentamento da pedra angular do edificio, cuja
construção não passaria nunca dos alicerces. Na pedra angular, além das moedas do tempo, foi lançada uma
placa de metal, que tinha gravada a seguinte inscrição: Senatus Funchalensis Hanc Sibi Curam Suis
Sumptibus Aedificavit Qua in Eademn et Jus Dicatur Hunc Lapidem in Hujus Optatissimi Operis
Auspicium D. Patritius Xavier de Moura regnante Ludovic. I Die Quinto Idus Martius Anno MDCCCLXVI
Adstante Eodem Senatu et omnibus Provinciae Magistra Magnae Civium Corona Deum Rite Precatus
Posuit.
A igreja e o convento foram demolidos. A população da Madeira não viu com bons olhos o arrasamento da
igreja, e por vezes os partidos se serviram desta circunstancia, agitando-a como bandeira politica contra os
seus adversarios.
Como já dissemos e todos sabem, os projectados paços do Concelho não passaram dos alicerces, tendo-se ali
inutilmente enterrado alguns contos de réis.
Podia ter-se levantado a casa da camara, que ficaria nas imediações da igreja, e esta poderia também ter-se
conservado para servir de templo catolico ou de museu, pois havia espaço de sobra para estas e ainda outras
construções.
Como se sabe, o antigo convento e igreja de S. Francisco ocupavam os terrenos que actualmente formam o
Jardim Municipal, as ruas de Hermenigildo Capelo, Serpa Pinto, Conselheiro José Silvestre Ribeiro e o
espaço onde se levanta o Teatro Manuel de Arriaga. As ruas que ladeiam o Jardim Municipal, com excepção
da de S. Francisco, são de construção posterior á extinção das ordens religiosas, isto é ao ano de 1834.
Conventos
Como ficam atrás descritos, havia na Madeira quatro conventos de frades da ordem
serafica ou franciscana: S. Francisco, do Funchal, S. Francisco, da Calheta, Nossa Senhora da Piedade, de
Santa Cruz, e Nossa Senhora da Porciuncula, da Ribeira Brava. Também da mesma ordem havia três
conventos de freiras, todos no Funchal: Santa Clara, Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora da
Incarnação. Destas casas monasticas apenas existem a igreja e parte do convento de Santa Clara e a igreja
da Incarnação.
Os jesuítas também tiveram no Funchal uma casa religiosa ou colégio, hoje servindo de quartel, que existe
ainda com a sua igreja adjunta. (Vid. Colegio).
Cook (James)
Depois da primeira viagem de circunnavegação realizada pelo nosso ilustre
compatriota Fernão de Magalhãis, foi a segunda rota maritima em volta do mundo, a do grande navegador
inglês James Cook, que mais assinalados serviços prestou á ciencia e que mais contribuíu para o
alargamento dos conhecimentos geograficos.
Cook, na sua primeira viagem de circunnavegação, saíu das costas da Inglaterra a 26 de Agôsto de 1768,
comandando o navio da marinha real inglêsa Endeavour, que no dia 13 de Setembro seguinte ancorou no
pôrto do Funchal, fazendo-se de vela no dia 19, em direcção ao Rio de Janeiro.
O capitão Cook foi muito obsequiado nesta cidade pelo consul ingles Cheap e pelo governador e capitão-
general João Antonio de Sá Pereira.
A bordo do Endeavour iam os naturalistas José Banks e o dr. Solander, encarregados de realizarem diversos
estudos cientificos, e durante os poucos dias que se demoraram na Madeira procederam a varias pesquisas
sôbre alguns ramos da historia natural, em que foram auxiliados pelo dr. Heberden, distinto medico inglês
que então residia no Funchal.
A descrição desta viagem de Cook refere-se a varios pontos interessantes dos nossos costumes, conventos e
igrejas, meios de condução, comercio de vinhos, etc.. Causou grande impressão a Cook e aos dois sabios da
expediçao uma capela que visitaram no convento de São Francisco, cujas paredes estavam literalmente
cobertas de tibias, fémures e cranios humanos. A esta capela macabra se referem outros visitantes com
grande estranheza, mas nao se trata dum caso singular, pois em outros conventos da Europa se
encontravam também algumas capelas com as paredes guarnecidas de despojos humanos.
Os numeros 462, 463 e 466 do antigo Heraldo da Madeira inserem a tradução da descrição da viagem de
Cook, que merece ser lida.
Cook voltou á Madeira em 1772, na segunda viagem que realizou aos mares do sul, comandando desta vez a
Resolução, tendo chegado ao pôrto do Funchal a 29 de Julho. Os naturalistas da expedição eram João
Reinhold Forster e seu filho João Jorge, que durante os três dias que se demoraram na ilha observaram 96
plantas, algumas delas cultivadas. Da narrativa desta expedição consta que havia então na Madeira um
numero prodigioso de negros e de mulatos, uns livres, outros escravos.
Conta Forster que os navios da primeira expedição do capitão Cook bombardearam a fortaleza do Ilhéu em
1768, por causa de um insulto feito ao pavilhão britanico, mas nem a narrativa de Hawkesworth, nem os
documentos oficiais da epoca se referem a esse facto que, a ter-se dado, não afectou as boas relaçoes que
havia então entre Portugal e a Inglaterra.
O capitão Cook realizou uma terceira viagem em 1776, mas sem tocar na Madeira, morrendo numa das ilhas
do arquipelago de Sandwich, num combate com os indigenas.
Cooper (William White)
E.: the Invalid’s Guide to Madeira... Londres, 1840, I Vol..
Cooperativas
De três sociedades cooperativas que se estabeleceram há muitos anos no Funchal, para
o fim de fornecerem em condições vantajosas generos de mercearia aos seus associados, só existe
presentemente a do regimento de infantaria nº. 27, instalada em Janeiro de 1892 e cujos estatutos tem a
data de 30 de Setembro de 1891. As outras duas há muito que desapareceram, tendo a mais antiga delas,
que se denominava Sociedade Cooperativa de Consumo e Credito do Funchal e cujos estatutos foram
aprovados em 29 de Abril de 1875, comprado um excelente prédio á rua do Esmeraldo, em frente da rua de
Cristovão Colombo, onde estabeleceu uma bem fornecida mercearia.
Esta mercearia, que fechou em 1880 por só deixar prejuizos aos accionistas, reabriu pouco depois sob a
direcção de dois comerciantes que a administraram durante 5 anos, recebendo metade dos lucros do
negocio, passando finalmente a ser dirigida por um outro comerciante, que a conservou até 1888 ou 1889,
epoca em que a mesma mercearia foi extinta, em virtude da liquidação da Sociedade. Tendo as acções da
Cooperativa de Consumo e Credito do Funchal sido adquiridas por baixo prêço por um dos accionistas,
ficou este, sem dispender capitais avultados, proprietario do excelente prédio da Sociedade, o qual
conseguiu vender passados muitos anos, por cêrca de 40 contos.
A outra cooperativa a que atrás nos referimos foi estabelecida por 1893, e durou apenas uns dois a três anos.
Estabeleceu uma mercearia na antiga rua do Capitão, mas não chegou a ter predio seu.
Há ainda a mencionar uma quarta cooperativa, a Cooperativa Popular, cujos estatutos foram aprovados em
6 de Março de 1919, e abriu ainda os seus estabelecimentos a 8 de Abril de 1920.
Copépodos.
V. Carcinologia
.
Coquinho
Nome vulgar do cyperus rotundus e do C. esculentus, planta da familia das Ciperaceas,
muito comuns na Madeira. Estas plantas emitem uns pequenos tuberculos subterraneos, que podem ser
comidos sem inconveniente.
Corais
Coral ou arvore de coral é a designação por que são conhecidos varios zoofitos dos mares da
Madeira, entre os quais mencionaremos a Dendrophyllea ramea ou coral vermelho, a Acanthagorgia Grayi
ou coral negro e o Hemicorallium Johnsoni ou coral branco.
Os corais madeirenses estão bem representados no Museu Britanico, no Museu de Liverpool e no Museu do
Seminario do Funchal.
Coraliarios.
V. Antozoarios
Cordeiro (Padre Antonio)
Nasceu na cidade de Angra no ano de 1641 e morreu em Lisboa a 2
de Fevereiro de 1722. Entrou na Companhia de Jesus e exerceu cargos muito importantes na sua ordem.
Escreveu e publicou varios livros nas linguas latina e portuguesa, que vêm enumerados na Bibliotheca
lusitana. É o autor da conhecida obra Historia Insulana, que muito interessa á historia do nosso arquipelago
e da qual nos ocuparemos em artigo especial.
Coroa de Henrique (Agapanthus umbellatus)
Liliacea muito cultivada nos jardins e
quintas do Funchal, Monte etc.. É originaria do Cabo da Boa Esperança e produz numerosas flores azues,
inodoras, reunidas em umbela.
Corografia
Para o estudo da corografia deste arquipelago e de cada uma das ilhas que o compõem,
além dos elementos que se encontram dispersos em varias obras, nomeadamente no Diccionario Universal
Portugues illutrado, existem publicados os seguintes opusculos: Chorographia da Madeira, por João de
Nobrega Soares, de que se fêz a primeira edição em 1862 e a quarta e ultima em 1882, Chorographia do
Archipelago da Madeira, pelo dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, 1873, e Corografia Elementar do
Arquipelago da Madeira, pelo major Alberto Artur Sarmento, 1912, sendo o ultimo o mais completo estudo
que possuímos sôbre o assunto.
A exemplo do que se fêz em anos já passados, deveria novamente ministrar-se no ensino das escolas deste
distrito algumas noções elementares da corografia da região. Esse ensino chegou a ser obrigatorio entre nós,
fazendo-se quatro edições duma corografia de caracter regional, no periodo de 20 anos, para uma
população pouco superior a cem mil habitantes e onde era muito consideravel a percentagem do
analfabetismo.
Para servir de texto no ensino da corografia da Madeira nas escolas deste arquipélago, fêz a Junta Geral
Autonoma publicar no ano de 1937 uma nova édição, muito melhorada e adaptada àquele fim, do opusculo
do sr. tenente-coronel Alberto Artur Sarmento, que é um trabalho bastante valioso e que bem merecia ser
reeditado.
Sôbre a mesma materia tinha o co-autor deste Elucidario Pe. Fernando A. Silva publicado em 1934 um
desenvolvido estudo subordinado ao titulo Dicionario Corografico do Arquipelago da Madeira num volume
de 310 paginas.
Corpo Santo (Capela do)
É uma das mais antigas capelas desta diocese e uma das poucas
construções do século XV que ainda restam entre nós, embora com o decorrer dos tempos tenha sofrido
profundas modificações. Foi construída por devoção dos maritimos e dedicada ao seu padroeiro São Pedro
Gonçalves Telmo, mais vulgarmente conhecido pelo nome de Corpo Santo. O culto desta capela é mantido
pela classe piscatoria do Funchal, havendo sido ali a sede duma espécie de sociedade de socorros destinada
a amparar os maritimos na sua doença ou invalidez, ignorando se ainda actualmente se mantém a confraria
com esse caracter de beneficencia entre os seus membros. Vamos transcrever o que a tal proposito
encontramos no Diccionario Universal Portuguez Illustrado, que é deveras interessante: “confrarias...
existem duas notaveis por datarem dos tempos da primitiva povoação do archipelago e por formarem
verdadeiras associações de socorros mutuos; são a confraria do Corpo Santo, com a sua capella manuelina
no extremo oriental do Funchal, e a de S. Pedro Telmo, no logar de Camara de Lobos; ambas são de
maritimos e manifestamente derivam do celebre compromisso dos maritimos algarvios, é como este vão
ligar-se, sob a forma religiosa, com as instituições nauticas do tempo de D. Diniz. Os compromissos das
duas aludidas confrarias madeirenses, dos quaes possuimos copia, são como o algarvio, preciosos
documentos para a historia, obscura mas gloriosa, não de principes nem de navegadores seus creados, mas
dos pilotos e dos marinheiros, dos homens do mar propriamente ditos, que tiveram quinhão não pequeno
nos descobrimentos“.
Corpos Calcareos da Piedade
No sitio da Piedade, na Ponta de S. Lourenço, encontram-se
numerosos corpos calcareos com a aparencia de troncos e de ramos de arvores petrificados, muitos dos
quais apresentam camadas concentricas semelhantes ás que se notam em certos vegetais lenhosos. Alguns
destes corpos prolongam-se na parte inferior numa espécie de raiz, com a forma e a direcção das raizes das
plantas dicotilédoneas.
Os naturalistas que têm visitado a Piedade não estão de acôrdo sôbre a maneira de explicar a origem dos
referidos corpos. O botanico Lowe considerou-os como concreções arenoso-calcareas; Macaulay, como uma
formação de corais de familia dos Alcionideos; o geologo Smith, como simples moldes obtidos em espaços
ocupados anteriormente por plantas; e Mousinho de Albuquerque e Bowdich, como restos petrificados de
uma antiga floresta.
Esta ultima explicação é a unica que nos parece aceitavel, se atendermos á forma e ao aspecto dos corpos a
que nos referimos. Quanto ao trabalho da mineralização, deveria ter consistido numa simples troca da
matéria organica pela inorganica, indo as particulas de carbonato de cal ocupar o logar das particulas
vegetais, á medida que estas se corrompiam. As aguas, dissolvendo uma parte do calcareo, promoveriam a
referida troca, infiltrando-se nas cavidades deixadas pela decomposição da madeira.
Se se admitir que a costa do norte, no sitio da Piedade, se prolongava pelo mar dentro em epocas remotas,
formando um declive suave, limitado por uma praia revestida de areias calcareas, bem se poderá admitir
também que os ventos, arrastando pouco a pouco essas areias, as levassem a cobrir os terrenos do interior e
da costa do sul, fornecendo assim o material preciso para a referida mineralização.
Os terrenos da Piedade são de origem vulcanica e nas escarpas adjacentes encontram-se os tufos e o basalto.
A noroeste do Pôrto Santo existem corpos calcareos da mesma natureza dos da Piedade.
Corre-Caminho (Anthus Bertheloti)
Pequeno passaro da familia Antida, que frequenta os
logares descobertos em tôdas as ilhas do arquipélago. Não é ave migratoria, tendo uma área de distribuição
limitada ás ilhas do Mar Macarroneseo (Açôres, Madeira, Selvagens e Canarias). Faz o ninho no solo, desde
Fevereiro a Agôsto, pondo ordinariamente quatro ovos de cor cinzenta, com manchas escuras irregulares. É
também chamado, em certos pontos da Madeira, carreiró, carreirote, melrinho de Nosso Senhor, melrinho
de Nossa Senhora, e no Pôrto Santo é conhecido por bica.
Corregedor
Desde o tempo dos donatarios existiram corregedores na Madeira, mas só de 1767 em
diante é que houve aqui um corregedor permanente. Era o primeiro funcionario judicial e a sua jurisdição
estendia-se a todo o arquipelago. Tinha aposentadoria fornecida pela camara e era substituído nos seus
impedimentos pelo juiz de fora, e na falta deste pelo vereador mais velho.
Pela execução neste distrito, em 15 de Outubro de 1835, da reforma judicial de 16 de Maio dé 1832,
desapareceram os corregedores, sendo substituídos pelos juizes de direito.
Correia
Já consagrámos um pequeno artigo a João Afonso, companheiro de Zarco, que nesta ilha foi
tronco duma nobre e distinta familia. Também teve o apelido de Correia, que transmitiu aos seus
descendentes, e foram estes os primeiros que o usaram nesta ilha. Teve João Afonso um filho por nome
Antonio Correia, que nasceu na Madeira em 1457 e que varios linhagistas afirmam ter morrido en 1572,
contando aproximadamente 115 anos. Foi este Antonio Correia um esforçado cavaleiro que militou
valorosamente em Africa, principalmente em Arzila e Safim, tendo ali mantido á sua custa um numero
avultado de homens e cavalos. A ele se referem com alevantado elogio as antigas cronicas madeirenses.
Correia Henriques (José Anselmo)
José Alselmo Correia Henriques nasceu na freguesia da
Ribeira Brava pelos anos de 1777. Pertencia, embora por bastardia, a uma antiga e nobre familia desta ilha,
sendo filho natural de Antonio João Correia Bettencourt Henriques e irmão de Fernando José Correia
Brandão Bettencourt Henriques, Visconde de Torre Bela e ministro de Portugal na Prussia e na Suecia.
Não sabemos que habilitações literarias possuia José Anselmo Correia Henriques, mas para o exercicio dos
cargos que desempenhou e escrever os livros que deu á publicidade, devera certamente ser um homem de
não vulgar talento e de rara cultura intelectual. Tendo seguido a carreira diplomatica e sendo um desvelado
cultor das letras, faria por certo o seu aprendizado nalgum curso superior ou ao menos no Colegio dos
Nobres, onde então se ensinavam as linguas mortas grega e latina, as linguas vivas francesa, inglêsa e
italiana, e historia, matematica, fisica, desenho, arquitectura, equitação, esgrima, etc..
Seguiu a carreira da diplomacia e apenas temos conhecimento de que nela houvesse exercido o logar de
representante de Portugal junto das cidades hanseaticas, que, como geralmente se sabe, eram Hamburgo,
Bremen e outras, que constituíam uma especie de confederação com representação diplomatica em quasi
tôda a Europa. Muitas das suas produções literarias foram impressas em varias cidades europeias, e desta
circunstancia se pode talvez inferir que nalgumas delas tivesse tido residencia como membro do corpo
diplomatico e fizesse parte das legações de Portugal em diversas côrtes estrangeiras. É muito para acreditar
que as obras editadas em Paris, Londres, Hamburgo, Veneza e Cristiania indiquem a permanencia mais ou
menos demorada do seu autor nessas cidades, no exercicio de funções consulares ou diplomaticas.
Esteve no Rio de Janeiro, quando a côrte e o govêrno português se achavam ali estabelecidos,
desempenhando alguns cargos de confiança junto do principe regente D. João.
Entre as obras de Correia Henriques mencionadas por Inocencio, destacaremos as suas Obras Poeticas, de
que parece ter publicado apenas o primeiro tomo, os poemas herói-comicos A Padeira de Aljubarrota e
Perodana, a tragedia Revolução de Portugal, a comedia Escola de Escandalo, e muitas outras, que, se não
são obras primas no seu genero, revelam no entretanto apreciaveis aptidões literarias e uma grande cultura
de espirito. Traduziu o poema Arte da guerra, de Frederico, rei da Prussia, e ainda outras obras, e também
publicou em Londres, em 1821, um jornal politico a que deu o titulo de O Zorragar das côrtes novas.
Faleceu em Lisboa em 1831 e era pai do primeiro conde do Seixal.
Correio da Madeira (O)
Deu o 11. numero a 3 de Fevereiro de 1849 e o ultimo a 9 de Agôsto de
1851. Sairam 132 numeros.
Correio da Manhã (O)
Começou a publicar-se a 31 de Agôsto de 1884 e terminou a 14 de Março
de 1886, tendo saído 502 numeros.
Correio da Tarde
Publicou-se de 9 de Janeiro de 1901 a 17 de Janeiro de 1911, tendo saído 1294
numeros.
Correio do Funchal
Publicaram-se 25 numeros, de 5 de Junho de 1867 a 10 de Janeiro de 1868.
Correio do Funchal
Iniciou a sua publicação a 2 de Janeiro de 1897 e suspendeu a 2 de Janeiro de
1899, tendo saído 587 numeros.
Correios
O serviço regular no correio do Funchal parece datar de 1662, ano em que foi nomeado para a
Madeira um tenente correio-mor, encarregado do “regimento e execução do porte das cartas“. É de crer que
este funcionario fôsse subordinado ao correio-mor do reino e que só dele recebesse ordens, visto a
administração dos serviços postais não estar nessa epoca a cargo do governo.
O oficio do correio-mor desapareceu em 1797, e em 13 de Maio de 1798 foi criado o correio da Madeira, que
ficou a cargo de um administrador, tendo rendido 251$630 réis neste ano, 312$500 em 1800, 381$550 em
1810, 691$120 em 1820 e 1:160$830 em 1823. De 1798 a 1824 rendeu o correio a importancia de
14:606$066 réis.
Em 8 de Abril de 1805 foi ordenado, por decreto, que os correios da Madeira e Açores fossem anexados á
Administração Geral dos Correios, mas esta anexação, segundo parece, não se fêz, visto em 18 de Abril de
1838 ter aparecido um novo decreto em que se suscitava a completa observancia do que fôra determinado
no diploma anterior.
Os serviços postais no Funchal estiveram durante largos anos a cargo de um correio assistente, subordinado
á Administração Geral dos Correios, mas não podemos precisar o ano em que esse logar foi criado.
O lugar de correio assistente era dado a quem o desempenhasse em condições mais vantajosas para o
Estado, e as funções do individuo nomeado duravam três anos, findos os quais se abria novo concurso.
O correio assistente prestava fiança perante a Camara Municipal, cobrava os portes legais de toda a
correspondencia e os premios dos objectos que segurava contra os riscos do extravio, e ficava obrigado a
estabelecer correios subalternos, segundo as necessidades do serviço, regulando-se em tudo o mais pelas
disposições do regimento de 5 de Abril de 1805 e instruções anexas.
O maior lanço oferecido em 1839 pelo lugar de correio assistente do Funchal foi de réis 1:030$000 anuais,
moeda forte, devendo esta importancia ser paga aos trimestres vencidos, na Administrasão Geral dos
Correios em Lisboa.
O Decreto de 27 de Outubro de 1852 extinguiu os logares de correios assistentes e passou todos os
estabelecimentos postais para a administração directa do Estado, sendo criado então o logar de director do
correio do Funchal.
O referido decreto introduziu o uso das estampilhas, mas declarou facultativo este processo de franquia
para a correspondencia interna trocada entre o continente do reino e as ilhas adjacentes, ou entre estas e
aquele. As cartas estampilhadas pagavam 25 réis, até 3 oitavas de peso; os impressos 10 ou 20 réis até 1
onça de peso, conforme eram franquiados com selos ou não.
As malas, para Inglaterra eram expedidas outrora pelo consulado inglês nesta ilha, o qual tinha também a
seu cargo receber as malas que vinham daquele país e remetê-las para o correio do Funchal, depois das
cartas terem sido separadas dos jornais e outros impressos. O consulado inglês encarregava-se da
distribuição dos impressos; o correio português da distribuição das cartas, convindo notar que estas nada
pagavam no Funchal, visto os expedidores terem satisfeito os respectivos portes nos correios inglêses. O
porte das cartas para a Inglaterra era pago nos correios inglêses, e não no consulado britanico, no Funchal.
A convenção postal celebrada com a Inglaterra em 5 de Junho de 1859, regularizou o serviço da
correspondencia trocada com aquele país e reduziu os portes que se pagavam pela transmissão das cartas.
A distribuição domiciliaria de correspondencia na cidade do Funchal começou em 1877. Em Lisboa já em
1805 existia esse serviço, sendo o porte das cartas pago então por quem as recebia.
O correio no Funchal desde 1866 que emite vales pagaveis no continente, e desde 1852 que tem delegações
nas cabeças de concelho. A Camara Municipal do Funchal subsidiou durante algum tempo o serviço de
transporte da correspondencia entre a cidade e certos pontos da ilha.
Em 7 de Julho de 1880 foram reorganizados os serviços telegrafo-postais, ficando então juntos os correios,
os telegrafos e os faróis. Em cada distrito administrativo ficou o serviço sendo dirigido por uma repartição
denominada Direcção Telegrafo-Postal, e nas localidades que não eram cabeças de distrito, foram criadas
estações.
Em 1886, 1892 e 1899 sofreram novas alterações os serviços telegrafo-postais, mas a reforma de 7 de Julho
de 1880 é sem duvida a mais valiosa e importante que se tem realizado até o presente.
A receita dos correios da Madeira no ano económico de 1921 a 1922 foi de 832.043$00 e a despesa de
268.083$37.
Correntes de Lava
No Pôrto do Moniz, na costa setentrional da Madeira, e no Gorgulho, perto do
Funchal, há correntes de lava de aspecto muito curioso. As correntes do Pôrto do Moniz, de que existe um
desenho nos Elementos de Geologia de Carlos Lyell, têm uma aparencia particularmente recente, formando
uma delas uma massa eriçada de asperezas, que se prolonga além da linha da costa. As lavas do Gorgulho
estão no litoral, junto do sitio onde se erguia outrora um pequeno forte, e apresentam varias escavações,
onde se depositam as aguas do mar.
Correntes Maritimas. V. Gulf Stream.
Corricar
Entre os pescadores da Madeira equivale a fazer pesca de corrico. Significa também, em
linguagem familiar, fazer rapidamente pequenos percursos em variadas direcções.
V. Corrico.
Corrico.
Processo de pesca usado na Madeira, que consiste em fazer correr uma embarcação, levando
após si uma ou duas linhas com anzol no extremo, onde se fixa a isca, a qual pelo movimento é obrigada a
deslizar não muito longe da superficie da agua. São a bicuda, a enchova e o serralhão as especies que melhor
se adaptam a este sistema de pesca, exercido durante a noite, mas excepcionalmente colhe-se a caneja e
outros peixes, que têm o habito de percorrer a flor do mar. A isca é quasi sempre um pequeno peixe
inteiroBum chicharroBe nisto difere do corripo, processo adoptado em Portugal, onde se usa prender ao
anzol um pedaço de trapo branco, chamado amostra e que o peixe enganado toma por isca apetitosa.
Corsa
Veículo de arrasto, de forma rudimentar, usado na Madeira e destinado somente ao transporte de
carga. É puxado por bois, ao inverso do que pretendem dicionaristas portugueses, que o dizem movido por
gente e usado no transporte de pessoas. Compõe-se simplesmente de uma prancha de madeira, com dez
palmos de comprimento e dois de largura, e em cuja extremidade anterior há uma abertura para a passagem
de uma correia que a liga á lança, a qual é conhecida pela extravagante designação de solas. A prancha é
quasi sempre de madeira de til e algumas vezes de nespereira ou amoreira, a lança ou solas é feita de
pinheiro e a canga e os canzis de nespereira ou til. Os bordos da superficie superior da prancha recebem
umas tiras de madeira, enquanto a face inferior, que arrasta, é ás vezes forrada de duas chapas de ferro.
É usada nas Canarias sob a mesma denominação, facto interessante que atesta a troca de costumes entre a
gente dos dois arquipelagos, em epocas que já lá vão.
O têrmo é o unico - pode talvez dizer-seB genuinamente português, que designa um veículo de arrastar.
Julgamo-lo digno de ser aceite como vernaculo, tanto mais que parece derivar-se do latim cursus, e não há
portanto razão para o desprezar, substituindo-o, como se faz muitas vezes na propria Madeira, pela palavra
zorra, que, na generalidade, deve ser aplicada a certo veículo de rodas e só muito restrictamente a um carro
de arrasto.
Tão pouco não o pode substituir o vocabulo trenó, de origem francesa, que significa um veículo sem rodas
para andar no gêlo, objecto que de resto não existe no clima das terras portuguesas.
A palavra regional corsa, que parece não encontrar equivalente na lingua, deveria talvez ter foros de
nacional e passar á categoria de vernacula, salvo a opinião das boas autoridades.
O Dr. Sloane, que visitou a Madeira em 1687, refere-se á corsa, sendo de crer que este veículo existisse já na
ilha nos primeiros tempos da colonização.
Corsão
Corsa de grandes dimensões, em que a prancha é substituída por quatro barrotes dispostos em
rectangulo muito alongado. Algumas vezes sôbre este rectangulo descansa um largo estrado em forma de
grade, que permite o transporte de cargas muito volumosas, como a rama de pinheiro para fornos de
padeiro, pipas, mobiliario, etc..
Corsarios Franceses.
V. Saque dos Franceses
Cortado
Sitio entre Sant’Ana e o Faial, donde se desfrutam soberbos panoramas sobre esta ultima
freguesia e a Penha de Aguia. Quem sobe a ingreme ladeira que conduz ao Cortado, e transpõe o corte ou
abertura que se encontra no alto dela, sente a impressão de que entra numa quinta, tão verdes e arborizadas
são as margens do caminho que conduz daí a Sant’Ana.
Cortado (Pico do)
Elevação montanhosa, no sítio do mesmo nome, freguesia de Sant’Ana, a 527
metros de altitude.
Cortado (Ponta do)
No litoral da freguesia de Sant’Ana e não muito afastada do logar chamado
Rocha do Navio e do ilhéu deste nome, fica a Ponta do Cortado, nas proximidades do Pico, que tem igual
denominação.
Cortez
Este apelido de familia procede de Manuel Afonso Cortez, cidadão do Pôrto, que casou com
Ourana Lopes, de Camara de Lobos, onde morreu em 1615.
Cortina da Cidade
Assim se denominavam as muralhas que protegiam o Funchal contra qualquer
assalto de inimigos, tanto pelo lado de terra como pelo do mar. Estas muralhas estendiam-se pelo lado de
leste desde o Pelourinho até a Pena, seguindo a margem direita da Ribeira de João Gomes; pelo de oeste
desde a foz da Ribeira de S. João (antiga Ribeira Grande) até a rocha do Pico dos Frias, seguindo a margem
esquerda da mesma ribeira; e pelo do sul desde a foz da Ribeira de S. João e á fortaleza de S. Tiago.
A cortina da cidade começou, segundo parece, a ser construída no reinado de D. Sebastião, mas no
regimento para as fortificações que este monarca deu á Madeira, não se fala nas muralhas para leste da
Ribeira de João Gomes. Estas muralhas foram construídas durante o dominio castelhano, tendo Filipe III,
por alvará expedido em 1618, aplicado a essa obra, que só ficou concluida em 1637, valiosos meios
pecuniarios.
Segundo uma inscrição que existe na praça e armas do Castelo de S. João, do Pico, e que o Dr. Azevedo
transcreveu a pag. 625 das notas ás Saudades da Terra, quasi tôda a cortina que pega com o dito castelo foi
construida pelo governador Luiz de Miranda Henriques, que esteve nesta ilha desde 1636 a 1640. Esta parte
da cortina estava indicada, porém, no regimento de D. Sebastião, como necessaria para a defesa terrestre da
cidade.
João da Costa e Brito, governador geral do arquipelago desde 1680 até 1684, parece que melhorou as
muralhas da cidade, mas vê-se de uma inscrição que existia no portão, agora demolido dos Varadouros, e
que o Dr. Azevedo também transcreveu a pag. 628 da referida obra, que as ditas muralhas só ficaram
concluidas em 1689, nos tempos do governador D. Lourenço de Almeida.
Há uma carta do duque D. Manuel, datada de 21 de Junho de 1493, em que mandava fazer cêrca e muros na
vila do Funchal, mas 9 de Janeiro de 1494 apareceu uma carta regia revogando aquela ordem e mandando
se fizessem apenas alguns baluartes e tapassem alguns portais para a boa defesa e guarda da ilha. Depois
disto, veio á Madeira Vicente Sodré, por ordem do mesmo duque, tratar da referida cêrca e muros, mas
como diz o Dr. Azevedo, foram nulos os resultados desta comissão, pois que a ilha só teve fortificações
depois que o poder monarquico nela se consolidou, pelas reformas manuelinas.
O forte de S. Filipe, o reduto de Santo Antonio da Alfandega, a fortaleza de S. Lourenço e a bataria das
Fontes ficavam dentro do antigo recinto murado, tendo, porém, tôdas estas fortificações, á excepção da de
S. Lourenço, sido levantadas depois da construção dos muros. “0 reducto da Alfandega, diz o Dr. Azevedo,
foi a primeira excrecencia na cinta de muralhas do Funchal; foi o primeiro golpe no sistema de
circunvalação, e o primeiro passo intencional no de defeza maritima, firmado no alcance e cruzamento dos
canhões”.
Em 1557 lançou o govêrno a contribuição de 7:000 cruzados sôbre as fazendas da capitania do Funchal,
para as obras de fortificação; em 1576 a de 100 000 cruzados, também para as mesmas obras; e em 1617
exigiu o govêrno o pagamento da quantia que preciso fôsse, para os muros e mais obras militares de que
necessitava a Madeira. Antes disso, em 1493, fôra imposta á ilha uma contribuição de guerra para a
construção da cerca e muros da vila do Funchal, contribuição que ficou sem efeito por essa obra não ter sido
executada, em virtude da carta regia de 9 de Janeiro de 1494, a que atrás nos referimos.
Da antiga cortina da cidade só estão de pé alguns restos mais ou menos ocultos pela casaria, tendo
desaparecido também as portas ou portões que existiam na mesma cortina. 0 redente da entrada da cidade
e as muralhas junto do actual Mercado de S. Pedro e entre a Fortaleza e o forte das Fontes, desapareceram
em 1839; em 1888 desapareceu a bombardeira perto do antigo cemiterio britanico, ao largo do Ribeiro Real;
em 20 de Setembro de 1897 começou a ser demolido o lanço da cortina da cidade contiguo ao forte de S.
Pedro, ao norte da antiga Praça Academica; e finalmente em Maio de 1911 foi suprimida a parte da muralha
que existia junto da capela dos Varadouros. Em virtude de representações dirigidas ao Govêrno em Agôsto
de 1895 e Fevereiro de 1896, possue a Camara agora o lanço das antigas muralhas, que se vê junto do sitio
onde desemboca a Avenida de João de Deus, e em 29 de Maio de 1914 resolveu a mesma corporação
adquirir a parte da cortina da cidade necessaria ao prolongamento do Largo da Sé até á praia, visto estar
para isso autorizada por uma nota do Ministerio da Guerra. A demolição desta parte da cortina da cidade
começou em Março de 1920 para a abertura da Avenida Antonio José de Almeida. Em 15 de Outubro de
1896 mandou a Camara suspender a demolição da parte da cortina da cidade que margina a Rua Pimenta
de Aguiar, por causa de uma reclamação do chefe da secção de engenharia nesta ilha, estando ainda hoje de
pé essa muralha perfeitamente inutil, mas á qual o referido funcionario atribuíu segundo cremos,
importancia militar.
Das antigas portas ou portões da cortina da cidade, só existem hoje dois, que são o da Alfandega e o que fica
proximo á fortaleza de S. Tiago, mas, afora estes, houve ainda os seguintes, que foram demolidos para
melhoramento da cidade: o de Nossa Senhora do Calhau, entre o forte de S. Pedro e o Pelourinho, quasi em
frente da rua da Boa Viagem, que foi demolido em 1836, quando se começou a Praça Academica; o da rua
do Sabão, demolido no mesmo ano; o da Saúde, perto da antiga Casa da Saúde ou da Associação Comercial,
demolido em 1839; o de S. Lazaro, no ponto em que a antiga Rua dos Aranhas comunica com a Rua da
Ponte de S. Lazaro, demolido em 1904; o de S. Paulo, junto á capela do mesmo nome, demolido em 1839; o
da Carreira, junto da Rua Pimenta de Aguiar, e o do Pico, na Rua das Cruzes ou de João Joaquim de Freitas,
ambos demolidos em 1865; e o dos Varadouros, demolido em 1911.
Este ultimo portão, que era antes de 1839 a entrada principal da cidade, recomendava-se pela elegancia da
sua arquitectura, tendo as pedras de que era formado sido numeradas na ocasião da demolição, por ordem
do engenheiro municipal sr. Anibal Augusto Trigo, a fim da obra poder ser facilmente reconstituída quando
se trate um dia de criar um museu de antiguidades madeirenses.
No portão sôbre o qual se viam as armas da Camara, lia-se a inscriçao latina seguinte, a que atrás nos
referimos: Perfecta haec varii praefecti moenia frustra “ praeterito cupiunt tempore quisque suo “ sed
Domino Laurento ea est servata voluptas Dalmada qui istud fine coronat opus “ anno “ 1689 .
A pesar da cortina da cidade não ter de há muito importancia alguma militar, não foi sem dificuldade que a
Camara obteve do Ministerio da Guerra a necessaria licença para demolir alguns lanços dela. Sem a
intervenção de altas influencias politicas, talvez alguns melhoramentos que dependiam da supressão dessa
cortina estivessem ainda por executar, tal era a importancia que ainda não há muitos anos se ligava naquele
Ministerio á conservação de um sistema de fortificações, que só servia para atestar que a defesa e guarda da
ilha não eram outrora, como são hoje, assunto descurado pelos governantes.
V. Fortificações.
Coruja (Strix flammea).
Ave rapace nocturna da familia Bubonidea, indigena da Madeira.
Deposita os ovos nas fendas das rochas, onde vive durante o dia.
Corujeira
Neste conhecido sitio da freguesia da Tabúa, encontra-se uma antiga capela que tem a
invocação da Mãi de Deus, ignorando-se o ano da sua fundação e o nome dos seus instituidores. Arrasada
pela violencia das aguas caudalosas da ribeira, foi reedificada na margem oposta á da sua primeira
construção, no ano de 1767.
Corvo
Três especies do genero corvo têm sido assinaladas como aves de passagem nestas ilhas: Corvus
corone, C. Corax e C. leptonix.
Cossart
Este apelido de familia procede de William Cossart, que já em 1809 tinha quaisquer interesses
ligados ao negocio da exportação de vinhos desta ilha, feito pela casa comercial inglesa de Newton, Gordon,
Murdoch & Scott.
A casa comercial pertencente agora (1920) a Cossart, Gordon & C0., foi fundada em 1745 e tem girado desde
então sob as seguintes razões sociais: Francisco Newton (1745-1748), Newton & Spence (1748-1758),
Newton & Gordon (1758-1775), Newton, Gordon & Johnston (1775-1791), Newton, Gordon & Murdoch
(1791-1802), Newton, Gordon, Murdoch & C0. (1802-1805), Newton, Gordon, Murdoch & Scott (1805-
1834), Newton, Gordon Murdoch & C0. (1834-1839), Newton, Gordon, Cossart & C0. (1839-1861) e Cossart,
Gordon & C0. (1861).
Cosson (E)
E: Catalogue des plantes recueillies por G. Mandon en 1865 et 1866 dans les iles de
Madère et de Porto Santo. (Bull. de la Soc. Bot. de France, vol. XV, 1868).
Costa
Há dois ramos desta familia, um procedente de Luiz Alvares da Costa e outro de Nuno da Costa.
Luiz Alvares da Costa veio para a Madeira no tempo de D. Afonso V e aqui foi vedor e provedor da fazenda
real, e fundou o convento de S. Francisco, do Funchal; Nuno da Costa foi um dos primeiros povoadores de
Machico e um dos procuradores desta vila e da de Santa Cruz perante o rei, para a celebração do foral de
Machico, em 1515.
Costa (Daniel da)
Falando do bispo do Funchal D. Luiz Figueiredo de Lemos, diz Gaspar Frutuoso:
“Da sua illustre progenie apontarei um capitulo, que delle depois com alto estylo compoz o doctississimo
Doutor Daniel da Costa, Medico de Sua Magestade, pessoa nobre, de grandes letras e virtudes, residente na
cidade do Funchal, para mayor claresa da fidalguia, vida, virtudes e costumes do mesmo Senhor”. Barbosa
Machado diz que o escrito citado se intitulava Contra ponto, ou Vida do VII Bispo do Funchal, e andava
inserto na Historia das Ilhas.
Costa (D. Rodrigo da). A sua nomeação para governador e capitão-general deste arquipelago data de 2 de
Dezembro de 1689, tendo tomado posse a 20 de Outubro dc 1690.
Em 1702 foi nomeado governador da Baía e em 1707 vice-rei da India. Era filho do conde de Soure e morreu
em 1722.
Costa (João Sabino da)
Nasceu no Funchal a 14 de Outubro de 1886 e foi morto pela policia da
capital em 1 de Fevereiro de 1908, por suspeitas de ter contribuido para o assassinato do rei D. Carlos e do
principe real D. Luiz Filipe, crime este em que se provou mais tarde não haver tomado parte alguma.
Foi soldado do regimento de infantaria n1. 5, e era empregado do comercio na epoca em que foi morto.
As antigas rampa e calçada do Cidrão têm agora (1920) o nome de João Sabino da Costa.
Costa (José Miguel Lamartine Prazeres da)
Foi eleito deputado pela Madeira a 11 de
Maio de 1919.
Costa (José Simão da)
Nasceu no Funchal e há muitos anos que reside no Brasil. Tem o curso
dum instituto superior dos Estados Unidos da America do Norte e é socio da Academia Latina das Ciencias,
Artes e Belas Letras de Paris e de varias sociedades literarias do Brasil. Além da sua colaboração em
diversos jornais, publicou Cultura intensiva do coqueiro BSeu valor economico, Rio de Janeiro, 1913, e A
região Amazonica. Seu presente, passado e futuro. Rio de Janeiro, 1913.
Faleceu no Brasil no mês de Junho de 1923.
Costa (Monsenhor Hipolito da Purificação das Angustias e)
Este sacerdote
brasileiro, que era possuidor duma avultada fortuna, faleceu no Funchal a 9 de Janeiro de 1912. Pouco antes
de morrer dispôs verbalmente dos bens que possuía no Brasil e em Goa. Foram impugnadas as ultimas
disposições da sua vontade, correndo um processo judicial sobre o assunto nos tribunais brasileiros. Diz
respeito a este processo o folheto Uma questão de direito internacional, publicado em Lisboa em 1913 pelo
seu autor o dr. Vicente Ferrer, em que se fazem referencias á estada e morte de Monsenhor Hipolito Costa
no Funchal.
Costa de Baixo
A costa maritima da Madeira, que fica a oeste do Funchal, é comummente chamada
Costa de Baixo, compreendendo esta designação tôdas as freguesias que se encontram na mesma costa, e
que são as que constituem os concelhos de Camara de Lôbos, Ribeira Brava Ponta do Sol e Calheta.
Costa de Cima
É conhecido por este nome o litoral do sul da Madeira, que se acha a leste do
Funchal, denominação que abrange tôdas as freguesias que formam os concelhos de Santa Cruz e Machico,
com excepção da freguesia do Pôrto da Cruz, que fica na costa do norte da ilha.
Costa Dias (Manuel da)
Nasceu na freguesia da Ponta do Pargo a 18 de Outubro de 1883 e
frequentou o seminario diocesano, o liceu do Funchal, o instituto industrial e a escola do exercito. Esteve
algum tempo no Brasil antes de se matricular no liceu, e enquanto aluno deste estabelecimento de instrução
redigiu o jornal republicano O Democrata. Prestou serviços em Africa logo depois de concluir os seus
estudos militares, foi lente da Escola de Guerra e representou a Madeira no Parlamento na sessão legislativa
de 1915 a 1917. E.: As subsistencias no exercito aliado anglo-luso, Lisboa, 1909; Colonizaçao dos Planaltos
de Angola, Lisboa, 1913: Guerra Peninsular, 1808-1811; 0 Serviço de Subsistencias no Exercito Anglo-Luso,
I vol., 1913, Administração Militar, I vol., 30. ed., 1918; Flandres, I vol. 1920.
Morreu em Lisboa no ano de 1930, sendo major da Administração Militar.
O “Diario da Madeira” de 12 de Outubro de 1930 publicou um desenvolvido artigo biografico acêrca deste
distinto madeirense.
Costa do Norte
A costa setentrional da Madeira, geralmente conhecida pelo nome de Costa do
Norte, estende-se desde a Ponta do Tristão, a entestar com a região oeste da ilha, até o extremo da vertente
norte da Ponta de São Lourenço que se prolonga pelo lado de leste. Algures se diz, e com tôda a
propriedade, que é uma costa alpestre e penhascosa, figurando uma linha de altos penedos, semelhantes a
uma enorme muralha de rocha com a base açoutada pelas ondas e o cimo coroado com a luxuriante verdura
duma floresta nativa, pela raridade das praias e enseadas, e pela violencia dos ventos dos quadrantes do
norte que ali sopram a maior parte do ano, é de todo inóspita para os navios e pouco segura para os barcos,
tendo apenas dois portos de refugio contra o tempo, o do Pôrto da Cruz e o do Pôrto do Moniz, situados
aproximadamente nos extremos leste e oeste da mesma costa. Abrange esta as freguesias dos concelhos do
Pôrto do Moniz, São Vicente e Santana, e ainda a paroquia do Pôrto da Cruz e o litoral norte da paroquia do
Caniçal, que pertencem ao concelho de Machico.
O perimetro do litoral da Costa do Norte é descrito por Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque nos
seguintes termos: “A partir da Ponta do Pargo para o N. começa a Costa por correr primeiro na direcção de
N. E. até a Ponta do Tristão, onde principia a Costa Setentrional da Ilha, dirigindo-se proximamente a E. S.
E. até São Vicente, e de ali tomando a direcção E. N. E. até a Ponta de São Jorge, donde volta á direcção
geral de S. E. até o Pôrto da Cruz, quasi na origem setentrional da Ponta de São Lourenço, a qual termina a
ilha na sua extremidade oriental, estendendo-se para o mar com mui pequena largura por espaço de três
milhas proximamente, e na direcção de 0. e E.. Em quasi tôda a extensão deste litoral, o mar é profundo e
limpo de escolhos, exceptuando-se somente: 1º. Ba parte reintrante desta costa, onde há algumas baixas e
rochedos ilhados, entre os quais sobressaiem o Ilhéu da Ribeira da Janela e o Ilhéu e baixa do Pôrto do
Moniz; 2º.-a Ponta do Pargo, onde se estende ao mar um baixio, sôbre o qual a vaga rebenta com ventos
mediocres, obrigando os barcos a afastar-se consideravelmente da terra para dobrá-la”.
Costa do Sul
A costa meridional da Madeira, vulgarmente chamada Costa do Sul, alonga-se desde a
acentuada saliencia do litoral que tem o nome da Ponta do Pargo até o extremo da Ponta de São Lourenço.
A região do sul é muito amena e pitoresca, tem mais enseadas e lugares de desembarque, o que junto ao
abrigo que contra os ventos dominantes produz a massa geral da ilha, faz com que os navios e os barcos
encontrem nesta costa a segurança que a do norte lhes nega, como acontece na baía do Funchal. Ficam
nesta costa do sul as freguesias dos concelhos da Calheta, Ponta do Sol, Ribeira Brava, Camara de Lôbos,
Funchal, Santa Cruz e Machico, com excepção da freguesia do Porto da Cruz e o litoral-norte do Caniçal,
pertencentes ao ultimo daqueles concelhos.
O citado Mousinho de Albuquerque, referindo-se ao litoral maritimo da Costa Sul, diz “Partindo da Ponta
do Pargo, corre a costa meridional da Ilha ao S. E. até a Ponta do Jardim, apresentando nesta extensão
algumas pequenas baixas e penedos mui proximo á mesma Costa, particularmente diante do Paúl do Mar e
do mesmo Jardim. Segue depois a costa a direcção do E. S. E. até a Ponta do Sol, e de ali até a Ponta da
Cruz, a mais meridional da Ilha, corre na generalidade, e prescindindo das sinuosidades e pontos menores,
na direcção E. S. E
¼
E.. Da Ponta da Cruz até o Cabo Garajau, onde se acha a baía do Funchal, é a direcção
da costa proximamente E
¼
N., e passado este Cabo e até a Ponta dos Picos da Atalaia torna-se esta
sensivelmente E. N. E., e de ali até o Caniçal na origem da Ponta de São Lourenço é a mesma direcção geral
da Costa N. N. E
¼
E. Em quasi tôda a extensão do litoral desta Costa o mar é fundo e livre de baixios com
excepção do Ilhéu do Gorgulho, Baixa do Carneiro, o Ilhéu fortificado e a extremidade da Ponta de São
Lourenço circundada de alguns rochedos ilhados e pequenos cabeços de rocha que as aguas cobrem”.
Costa Ferreira (Dr. Antonio Aurelio da)
Nasceu no Funchal a 18 de Janeiro de 1879,
sendo filho de Francisco Joaquim da Costa Ferreira e de D. Teodolinda Augusta de Freitas da Costa
Ferreira, e é licenciado em filosofia e bacharel em medicina pela Universidade de Coimbra, assistente de
anatomia na Escola Medica de Lisboa, professor extraordinario de um dos liceus da mesma cidade, director
da Casa Pia, professor de pedagogia geral e historia da educacão na Escola Normal, socio da Sociedade de
Antropologia de Paris, da Sociedade Portuguesa de Sciencias Naturais, da Sociedade de Geografia de
Lisboa, da Academia das Sciencias de Portugal, do Instituto de Coimbra, etc.. Milita no partido
evolucionista, foi ministro da fazenda no ministerio presidido por Duarte Leite e desde muito novo que se
dedica a estudos antropologicos, sendo o português que melhor conhece hoje o ramo das ciencias naturais
que trata do homem e das raças humanas. Tem publicado sôbre esta especialidade varios trabalhos, entre os
quais mencionaremos os Cranios Portugueses (1898 a 1899), La Capacité du Crâne et la Composition
Ethnique probable du Peuple Portugais (memoria apresentada á Sociedade de Antropologia de Paris, em
1895) e O Povo Português sob o ponto de vista antropologico (conferencia feita na Sociedade de Geografia
de Lisboa, a 6 de Março de 1909).
O Dr. Costa Ferreira tem colaborado no Jornal dos Medicos e Farmaceuticos, na Clinique Infantile, na
Medicina Moderna, no Movimento Medico, nos Anais da Academia Politecnica do Porto, no Boletim da
Sociedade Portuguesa de Sciencias Naturais, etc., sendo um dos madeirenses que melhores serviços têm
prestado ás ciencias e que mais abrilhantam a galeria dos naturalistas portugueses.
O dr. Costa Ferreira esteve no Funchal em Junho de 1922, seguindo daqui para o Cabo da Boa Esperança e
depois para Lourenço Marques onde se propunha organizar o Museu Antropologico e proceder a varios
estudos na provincia. Não chegou porém a iniciar estes trabalhos e estudos, pois que se suicidou naquela
cidade portuguesa de Africa, á 15 de Julho de 1922, isto é muito poucos dias depois de aí chegar. O
parlamento concedeu á viúva de Costa Ferreira a pensão de 3:600$00 anuais e a Camara Municipal do
Funchal, em sua sessão de 21 de Setembro de 1922, deu o nome do nosso malogrado patricio á antiga rua do
Carmo.
Costa Pereira (Luiz da)
Foi Luiz da Costa Pereira um ilustre madeirense que se notabilizou em
varios ramos da actividade humana, mas cujo nome é quasi inteiramente desconhecido entre nós a pesar de
terem apenas decorrido 26 anos depois da sua morte. Ferido duramente pela adversidade, passou os
ultimos anos numa obscura e ignorada existencia, em guerra atroz com a doença, com a miseria e com a
velhice.
Luiz da Costa nasceu no Funchal a 17 de Agôsto de 1818 e nesta cidade cursou os indispensaveis
preparatorios para a matricula na Universidade de Coimbra. Depois dum curso brilhante e em que obteve
varios premios, concluíu a sua formatura na faculdade de matematica em 1844. O seu nome era citado a par
do de Teixeira de Vasconcelos, João de Lemos, Barbosa du Bocage, Casal Ribeiro, Couto Monteiro,
Gonçalves Lima, Xavier Monteiro, etc., seus contemporaneos na Universidade e com os quais ombreava no
cultivo das ciencias e das letras.
Em 1851 foi nomeado professor do Liceu do Funchal, logar que exerceu poucos anos, e depois desempenhou
o cargo de comissario de estudos no distrito de Braga, onde também não teve demorada permanencia.
Espirito voluvel e irrequieto, não soube aproveitar os dotes com que a natureza enriqueceu a sua
privilegiada inteligencia. Foi por isso que Bulhão Pato disse dele com inteira justiça: “Nunca conheci quem
reunisse tantas faculdades, nem tão pouco quem mais tenazmente procurasse dar cabo delas. Não era
aptidão que possuia, eram altas faculdades. Bemfadada organização, poderosa em tudo, até na força com
que vingou esconder, na penumbra, uma luz que devia rutilar entre as mais brilhantes”.
Luiz da Costa Pereira fixou residencia em Lisboa e durante muitos anos se dedicou quasi exclusivamente a
cousas teatrais, para que tinha uma decidida vocação e onde revelou as brilhantes faculdades do seu
extraordinario talento, como actor e autor, ensaiador, director tecnico e comissario régio do Teatro D.
Maria, e professor de declamação e da arte de representar no Real Conservatorio de Lisboa. Disse Camilo
Castelo Branco: - Este é aquelle Luiz da Costa que foi na minha mocidade o symbolo, o mestre da scena;
neste cerebro pulsaram todos os talentos creadores das implacaveis paixões da tragedia; do peito d’este
homem explodiram os brados que levantaram as plateas em delirio de triumpho“.
Luiz da Costa traduziu e adaptou á cena portuguesa algumas peças de teatro estrangeiro e escreveu o livro
Rudimentos da arte dramatica, de que só publicou a primeira parte num volume de 240 paginas.
Na sua mocidade cultivou a poesia com extraordinario sucesso e foi um dos colaboradores da conhecida e
brilhante revista O Trovador, onde teve por colegas João de Lemos e outros poetas de igual vulto. A ele se
refere o grande Castilho com os mais alevantados elogios. Nas tradições literarias de Coimbra, ficou celebre
a festa conhecida pelo nome de S. João Poetico, que depois se imortalizou pela inimitavel descrição que dela
fêz João de Lemos e em que seis poetas se reuniram num convivio intimo e aí recitaram as composições
poeticas que para a mesma festa haviam previamente escrito. Foi ali que, improvisadamente, e em
homenagem a Castilho, compuseram uma sextilha, que depois se tornou muito conhecida e em que cada
poeta escreveu um verso:
Sôbre as asas da poesia
Aqui nos trouxe a amizade.
Cantámos nas liras de oiro
Esp’ranças da mocidade,
E aos brados da “Primavera“
Mandámos uma saudade.
Entre esses poetas consagrados estava Luiz da Costa Pereira, que, imediatamente a João de Lemos, recitou
a poesia Branca Alvarinho.
Além do que fica citado, escreveu Costa Pereira o romance Misterios de Almas, o livro Reflexos, em prosa e
verso, a obra cientifica Leituras sobre astronomia e teve uma larga colaboração nas principais revistas de
literatura e de ciencia da sua epoca. Consta que entre os seus inéditos se encontravam duas obras de valor-
A Natureza e a Religião Democratica.
Morreu em Lisboa, pobre e na mais completa obscuridade, a 18 de Janeiro de 1893.
Costas
A cordilheira, que, com altas eminencias e sem solução de continuidade atravessa
longitudinalmente a Madeira de leste a oeste, estabelece bem distintamente a costa setentrional mais
conhecida pelo nome de Costa do Norte, e a costa meridional, que vulgarmente se chama a Costa do Sul.
Entre estas duas costas fica a região do interior, extremamente montanhosa e de terrenos muito
acidentados com excepçao do planalto do Paúl da Serra.
Costa Torres (D. José da)
A D. Gaspar Afonso da Costa Brandão sucedeu na cadeira episcopal
do Funchal o prelado D. José da Costa Tôrres.
Nasceu na cidade de Setubal a 11 de Agôsto de 1741 e era doutor em canones pela Universidade de Coimbra.
Foi confirmado bispo da Madeira por Pio VI, em Novembro de 1786, e tomou posse desta diocese a 18 de
Setembro de 1787.
Como prelado do Funchal deixou assinalada a sua passagem nesta ilha pela perseguição que moveu á
maçonaria, de acôrdo com o governador e o capitão general e em virtude de ordens emanadas do govêrno
central. No entretanto afirma-se que exorbitou das ordens recebidas, tendo o proprio govêrno da metropole
que intervir nos excessos praticados pelo prelado. Entre os perseguidos contava-se o deão da Sé do Funchal
dr. João Francisco Lopes Rocha, que a tal proposito escreveu uma longa carta ao ministro José Seabra da
Silva, queixando-se das prepotencias cometidas por D. José Tôrres, carta que é documento por muitos
titulos interessante e que foi publicada em 1822, em Londres, no Campeâo Portugues.
A 22 de Junho de 1796 foi transferido para a Sé de Elvas. Quando já se preparava para deixar a Madeira,
teve que antecipar apressadamente a sua saída e abandonar esta ilha, diz um documento da época, “na noite
de 6 de Outubro de 1796, sem se despedir de pessoa alguma, nem do Santissimo Sacramento: e até agora
ignora-se o motivo deste afectado embarque de noite e por portas travessas“.
Foi em 1806 nomeado arcebispo de Braga e ali morreu alguns anos depois, tendo 72 anos de idade.
V. Alvares de Nobrega (Francisco).
Costumes antigos
Os antigos costumes e velhas usanças madeirenses exigem um demorado e cuidadoso
estudo que deve merecer a nossa particular atenção em diversos artigos deste Elucidario. Neste logar vamos
apenas fazer a rapida enumeração de alguns factos, que caracterizam muitos desses costumes e que de
modo especial nos mostram os claros vestigios do velho feudalismo, que durante largo tempo, em algumas
das suas nuances, perdurou entre a antiga fidalguia deste arquipelago. As nossas conquistas em Marrocos e
a conservaçao das cidades e praças conquistadas exerceram uma grande influencia nos costumes do nosso
país e na vida intima dos seus habitantes, produzindo uma tendencia exagerada para as emprêsas
arriscadas, para as aventuras desconhecidas e imprevistas, que se manifestam na expansão territorial e
alargamento dos dominios de além-mar, demandando ignotas regiões e mares nunca dantes navegados, na
frase consagrada do nosso epico. Na proporção do meio, nenhuma terra portuguesa contribuíu para as
nossas lutas do norte de Africa como o arquipelago madeirense, organizando os donatarios grandes
expedições em frotas de dezenas de navios e muitos centenares de homens e de cavalos, em que tomava
parte muito activa um numero consideravel de fidalgos e cavaleiros, tudo á custa dos proprios
expedicionarios e sem o menor encargo para a metropole, e isto muitas vezes durante meses consecutivos
em que praticavam os mais esforçados actos de valor, que iam até ao heroismo e á temeridade. A nobreza
madeirense criava foros de valente e audaciosa, ao mesmo tempo que se enfatuava das suas origens fidalgas
e da independencia que gozava nas suas terras solarengas, praticando desmandos e excessos, a que o poder
quasi ilimitado dos donatarios não conseguira por côbro e que até a propria autoridade do monarca não
alcançava corrigir e moderar, pela distancia que se interpunha entre esta ilha e o continente do reino. Tudo
isso teve uma influencia decisiva nos costumes locais, de que são um testemunho eloquente alguns dos
factos que vamos citar e de que fazem menção as antigas cronicas deste arquipelago: o solar acastelado que
o turbulento Garcia Homem de Sousa, genro de Zarco, levantou nas suas terras de Santo Antonio, de que
ainda restam vestigios, para as lutas sangrentas que sustentou com os seus cunbados: a barbara e cruel
vingança que o primeiro donatario de Machico, Tristão Vaz, exerceu contra Diogo Barradas para
desagravar-se de uma afronta feita á sua casa; a tragica morte de D. Aldonça Delgado, assassinada por seu
marido Bartolomeu Perestrelo, quarto capitão-donatario do Pôrto Santo, para casar com sua prima D.
Solanda, com quem mantinha relações amorosas; o assassinato cometido por Garcia Perestrelo, sendo por
isso degolado; o rapto violento e aparatoso de D. Isabel de Abreu por Antonio Gonçalves da Camara e as
lutas e contendas que se lhe seguiram; e os casos de assassinio e escandaloso estupro que o dr. Alvaro de
Azevedo narra na nota XXIV ás Saudades da Terra, acrescentando *que cá houve também curiosos typos de
pimpões fidalgos, cujas aventuras lubricas, brutais brinquedos e crimes impudentes a tradição ainda não
esqueceu”.
Constituem também uma caracteristica desses velhos costumes as cavalgatas, jogos de canas e escaramuças
aparatosas de Lançarote Teixeira, a coutada de João Teixeira e as suas faustosas caçadas, as aventuras e
provas de fôrça muscular de Marcos Braga e Antonio de Carvalhal, os despiques e desafios entre Pedro
Ribeiro e Domingos de Braga, etc.. Os donatários do Funchal, parecendo querer ombrear com o luxo e
magnificencia da côrte, viviam com requintado fausto e aparatosa grandeza, organizando dispendiosas
expedições guerreiras, enviando riquissimos presentes a monarcas e pontifices, como fêz Simão Gonçalves
da Camara o Magnifico, na embaixada a Leão X, apresentando-se nas festas do paço real e casamentos de
principes com tal luxo e aparato que a todos deslumbravam etc.. Na fidalguia madeirense reflectiu-se este
amor excessivo de luxo e de grandeza, levando-a a uma vida inutil e ociosa passada no Funchal ou na côrte,
abandonando assim as suas terras e solares ao cuidado e administração de pouco escrupulosos feitores. São
disso um frisante exemplo os jogos caçadas e cavalgadas, as escaramuças, despiques e lutas, as festas
aparatosas caracterizadas pelo banquete no casamento de Antonio Gonçalves da Camara e Isabel de Abreu,
etc., etc.. A breve tempo uma grande parte das casas estavam arruinadas e os seus rendimentos
empenhados, conduzindo muitos a uma existencia vergonhosa e miseravel. Como em nenhuma outra região
do país teve a Madeira um numero consideravel de vinculos e morgadios, multiplicando-se deste modo o
numero de familias que levavam uma vida quasi inutil e sempre improdutiva, chegando a afirmar-se que
dois terços das terras deste arquipelago estavam sujeitos a uma tão larga e nociva vinculação. A primitiva
sesmaria evolucionou e transformou-se no conhecido contrato de colonia, que deu aos costumes
madeirenses uma feição muita caracteristica, sobretudo na vida intima dos colonos e caseiros. O antigo
sesmeiro tornou-se senhor da terra e fêz-se morgado, adquirindo, numa forçada ociosidade, habitos e
tendencias que não abonavam as suas prosapias avoengas. Por fins do seculo XVI começa a operar-se uma
transformação na vida e costumes madeirenses. As comunicações mais frequentes com a metropole e com o
estrangeiro, o desenvolvimento do comercio com a permanencia de muitos forasteiros nesta ilha, a ida de
inumeros fidalgos e homens do povo para as guerras e vida aventureira da India e do Brasil, regressando
com profundas modificações no modo do seu viver intimo, a influencia do dominio espanhol e ainda outras
causas, contribuíram notavelmente para essa transformação, que mais se acentuou no decorrer dos seculos
XVII e XVIII.
Couceiro (Antonio Rogerio Gromicho)
A 1 de Junho de 1856 tomou posse do cargo de
governador civil deste distrito o Brigadeiro Antonio Rogerio Gromicho Couceiro. Um mês depois, aparecem
os primeiros casos da terrivel epidemia colerica, que em quatro meses vitimou cêrca de dez mil
madeirenses. Gromicho Couceiro foi uma verdadeira Providencia para a Madeira nos transes mais
angustiosos por que esta ilha tem passado. Homem de rara energia, de uma inteligente e proficua iniciativa,
de uma pronta e imediata decisão nas ocasiões mais criticas e embaraçosas. soube quanto possivel conjurar
os males que assoberbaram os desgraçados habitantes deste arquipelago, impondo-se á admiração dos
contemporaneos e conquistando um nome aureolado por tantas benemerencias, que ainda hoje se conserva
na tradição a fama dos relevantissimos serviços que desinteressadamente prestou á Madeira. É de justiça
recordar que Couceiro teve um auxiliar valioso, entre outros, no ilustre madeirense o dr. Antonio da Luz
Pita, então deputado por esta ilha e que encontrando-se em Lisboa, quando surgiu a epidemia, conseguiu do
govêrno central importantes socorros, que ele proprio acompanhou á Madeira, e aqui como médico
abalizado e homem de grande prestigio e influencia, prestou aos seus patricios os serviços mais assinalados,
nomeadamente na montagem dos trabalhos clinicos e hospitalares. Ainda está por escrever a historia dessa
calamitosa quadra, que deixou na tradição popular a recordação dos mais dantescos horrores e também
ainda se não tributou á memoria de Couceiro o preito devido aos grandes serviços por ele prestados a esta
ilha. (V. Colera em 1856 e 1910).
Couceiro nasceu em Elvas a 13 de Março de 1807, e morreu em Lisboa, no pôsto de marechal de campo, a 22
de Junho de 1862. Era formado em matematica pela Universidade de Coimbra e foi lente da Academia
Politecnica do Pôrto e ministro da guerra em 1859.
Também exerceu o caroo de comandante militar da Madeira, que acumulou com o logar de governador civil,
tendo deixado esta ilha a 3 de Setembro de 1857, e representou este arquipélago no parlamento, na
legislatura de 1858 a 1859.
Coutinho
Este apelido de familia procede de Luiz Fernandes de Matos Coutinho, que passou á
Madeira cêrca de 1580 e teve aqui grande casa de comercio. Este Luiz Coutinho era filho do cavaleiro
Antonio Vaz de Matos, que acompanhou Afonso de Albuquerque á India.
A Capela de Nossa Senhora da Quietação, em Santo Antonio, foi fundada por Loureuço de Matos Coutinho,
em 1670, o qual descendia provavelmente do referido Luiz Coutinho.
Coutinho (D. Manuel)
Tendo o prelado diocesano D. José de Sousa de Castelo Branco saido da
Madeira em Junho de 1715 e renunciado o bispado em 1721, nomeou D. João V bispo do Funchal D. Manuel
Coutinho, a 25 de Novembro de 1722, mas só foi confirmado pela Santa Sé a 19 de Fevereiro de 1725, em
virtude das desinteligencias que então se deram entre o govêrno português e a curia romana.
Nasceu D. Manuel Coutinho na Vila Nova de Anços em 1671 e era filho de Nuno Alvares Pereira e de D. Inez
Micaela Pereira, pessoas nobres e abastadas, que ali tinham a sede do seu morgadio. Doutorou-se em
teologia na Universidade de Coimbra em 1699, e recebeu a sagração episcopal das mãos do patriarca D.
Tomaz de Almeida, a 13 de Maio de 1725.
Saíu de Lisboa no principio de Junho de 1725, mas tendo o navio de guerra que o conduzia feito escala por
Mazagão, exerceu ali as funções episcopais durante alguns dias, e só chegou ao Funchal a 22 de Julho
daquele ano, em que assumiu a direcção dos negocios desta diocese.
Nas cronicas madeirenses que nos foi possivel consultar, poucas referencias encontrámos á sua accão
episcopal entre nós. Depois de 15 anos de episcopado, foi nomeado bispo de Lamego, mas continuou na
Madeira até o dia 25 de Fevereiro de 1741, em que saiu para o continente do reino. Não chegou a tomar
posse da sua nova diocese, porque, quando se dirigia á cidade de Lamego, a morte surpreendeu-o na vila de
Soure, a 7 de Agôsto de 1742.
Coutinho (D. Manuel Pereira)
Foi nomeado governador geral deste arquipelago a 22 de
Novembro de 1609. Ao terminar o seu govêrno, exerceu interinamente as funções de governador geral o
bispo diocesano D. Fr. Lourenço de Tavora.
Porém Coutinho foi depois governador geral de Angola.
Coutinho (Francisco de Vasconcelos)
Temos conhecimento deste poeta madeirense pelas
referencias que lhe fazem o Diccionario Bibliographico de Inocencio e o dr. Rodrigues de Azevedo numa das
anotações ás Saudades. Ali se lê que era bacharel formado em canones e que nasceu no declinar do seculo
XVII, pois que fez sonetos á morte de D. Pedro II, sucedida em 1706, e um elogio dramatico em honra do
governador e capitão-general da ilha da Madeira João de Saldanha da Gama, quando o governo deste
findou em 1718: falleceu depois de 1729, porquanto neste ano publicou as duas seguintes obras, Feudo do
Parnaso, dedicada a D. João V, e Hecatombe metrico, consagrado á Virgem, poemeto religioso em cem
sonetos, produções estas impressas em Lisboa, 1729; compôs mais oito sonetos á morte de D. Pedro II, um a
D. João V, e quatro a diversos personagens; Effeitos de hum arrependimento, em tercetos; e o já alludido
elogio, intitulado Residencia do Governador e Capitão General da Ilha da Madeira João de Saldanha da
Gama, representada pelas freiras de Santa Clara, na sua despedida; obras estas que foram publicadas com a
segunda edição do Feudo do Parnaso e Hecatombe metrico, em um só volume (Lisboa, 1773); e,
anteriormente a tôdas as referidas, outras poesias suas foram colligidas na Fenix renascida, tomo 1, pag.
IB32, e tomo II, pag. 220B251 (Lisboa 1716 e 1717)” .
Podemos acrescentar que era filho de Lourenço de Matos Coutinho, licenciado em direito e chamado o
Cavaleiro, e de D. Mariana de Ornelas e Vasconcelos.
A pags. 52 e seguintes do vol. I1. do “Arquivo Historico da Madeira” vem publicado um interessante artigo,
que contém novos e valiosos dados biograficos acêrca de Francisco de Vasconcelos Coutinho.
Coutinho (João Gonçalves da Camara)
Data a sua nomeação para governador e capitão-
general da Madeira de 19 de Agôsto de 1777, tendo tomado posse do logar a 15 de Setembro do mesmo ano.
Fêz varias e interessantes comunicações ao govêrno central acêrca da indisciplina das tropas da guarnição,
estado das fortificações, administração da justiça e de outros serviços publicos. Teve um grave conflito com
o bispo D. Gaspar Brandão, motivado pela prisão do bacharel Antonio Xavier Pimentel, a que pôs têrmo a
interferencia do governo da metropole. Por tal motivo se trocou larga correspondencia entre o ministro
Martinho de Melo, o governador e o prelado.
Como já o tinham feito alguns dos seus antecessores, pediu insistentemente ao govêrno da metropole que
fôssem determinadas com inteira precisão as atribuições e jurisdição de que gozavam os capitãis-generais, a
fim de evitar os conflitos que por vezes se davam entre algumas autoridades deste arquipelago.
Couto
Este apelido de familia procede provavelmente de Joane Anes de Couto Cardoso, que teve terras
de sesmaria no Paul e Jardim do Mar, e fundou nesta ultima localidade a capela de Santo Amaro.
Couve. (Brassica oleracea)
Esta Crucifera que se supõe ser originaria das rochas maritimas de
Inglaterra e costa francesa da Mancha, é muito cultivada por toda a parte para fins alimentares, achando-se
representada na Madeira pelas variedades acephala, capitata e Botrytis. Entram na primeira variedade a
couve rinchão ou vaqueira e a couve tronchuda, ambas desprovidas de repôlho; na segunda, a couve
murciana, a de repôlho, a imperial, a alcanhão, a pão de açucar, etc.; e na terceira, a couve-for e a couve-
bróculo. As couves da primeira variedade e a couve de repôlho, provêm de sementes produzidas na ilha, ao
passo que as outras formas provêm sempre de sementes vindas de Portugal e do estrangeiro. Na couve-flor
não são as fôlhas que se aproveitam, mas as inflorescencias mais ou menos carnudas e com as flores quasi
sempre abortivas.
As couves da primeira e segunda variedades servem não só para fazer sopa, mas também para cozer,
cortadas em pequenos pedaços, com farinha de milho, á qual dão um sabor agradavel.
Couve da Rocha
Nome vulgar do Sinapidendron rupestre, Crucifera peculiar na Madeira e que vive
nas rochas entre a Entroza e o Seixal.
Covões (Pico dos)
Pequena elevação montanhosa e lugar pitoresco da freguesia dos Canhas.
Covos
Armadilhas destinadas à captura de peixes ou crustaceos na zona menos profunda do mar
madeirense.
Podem reduzir-se a quatro tipos principais as diferentes formas usadas actualmente: o covo de salmonetes,
o de moreias, o de camarão e a mujona para peixe e lagostas.
O primeiro é feito de cana de roca e tem forma poliédrica, sendo de uso introduzir-lhe fragmentos de louça
branca e luzidia, que enganam e atraem o salmonete sem dificuldade.
O segundo é cilindrico e construído com ripas de madeira, tendo aberturas nas duas bases, e apanha
indistintamente as quatro especies de moreias do litoral madeirense.
O de camarão, que se lança mais longe da costa que qualquer dos outros, é feito de junco e sensivelmente
truncónico, tendo na base maior a abertura para a entrada dos crustaceos.
Finalmente há a mujona, introdução feita no Pôrto Santo, sob aquele nome, por pescadores algarvios que
em 1910 vieram estabelecer naquela ilha uma armação de atum. Serve este para peixes costeiros e lagostas,
sendo construído de verga de ferro ou cana e afectando a forma de um meio esferóide.
Craca (Balanus tintinnabulum)
Crustaceo cirripede da
familia dos Balanideos,
relativamente vulgar nas rochas costeiras das ilhas da Madeira e Selvagens. Localiza-se em certos pontos e
vive na linha da beixa-mar, preferindo os sitios expostos ao embate forte das ondas. Ainda que rarissimas
vezes apareça no mercado, é comestivel, sendo justamente apreciado como saboroso marisco. Para o
colherem servem-se de um instrumento de percussão chamado craqueira, visto a concha que o reveste estar
intimamente ligada á rocha onde vive.
É um dos 13 cirripedes mencionados por C. Darwin como madeirenses, na sua monografia acêrca desta
ordem de crustaceos.
Craqueira
Instrumento de ferro, com cabo de madeira, destinado á colheita do marisco chamado
craca.
Cratera
As poucas crateras faceis de reconhecer que existem na Madeira, não se encontram nas partes
mais elevadas da ilha, onde certamente existiram outrora, mas sim nas regiões média e inferior.
A mais conhecida das crateras madeirenses é a do Santo da Serra, a cêrca de 600 metros acima do nivel do
mar, e cujo ponto mais elevado está a 60 ou 70 metros acima dos terrenos adjacentes. É pouco profunda,
contém agua no inverno e no interior dela vivem algumas plantas proprias dos logares encharcados.
Encontra-se também uma cratera no Pôrto do Moniz, perto da Terra Chã, e outra no Fanal, sendo dupla a
desta ultima localidade. A cratera do Pôrto do Moniz, como a de Santo Antonio da Serra, tem um cone,
particularidade esta que se não observa na do Fanal.
Nas vizinhanças do Caniço há três cones com crateras imperfeitas, e no Caniçal há um cone tendo num dos
lados uma cratera. No Pico da Irandaia, para oeste do Funchal e nas proximidades da igreja de S. Roque,
também se encontram vestigios de crateras.
As crateras de Santo Antonio da Serra, Pôrto do Moniz e Fanal são conhecidas pela denominação de lagoas.
O Curral das Freiras é considerado por alguns geologos como uma cratera, e por outros como um vale de
erosão. Carlos Lyell, que perfilha esta ultima opinião, diz nos seus Elementos de Geologia que não
encontrou no Curral indicios de acções vulcanicas, e que essa localidade, assim como a Ribeira da Janela e a
Serra de Agua, são vales profundos que irradiam da região mais montanhosa da ilha.
Craveiro. (Dianthus Caryophyllus)
Planta da familia das Cariofilaceas, muito cultivada nos
jardins da Madeira, e de que existem muitas variedades. Nos logares secos em Camara de Lôbos e no
Funchal não é raro o Dianthus prolifer, planta espontanea cujas flores se parecem bastante com pequenos
cravos.
Cravo. (Peixe).
V. Peixe cravo
Cravo de Burro
Nome vulgar do Tagetes patulus e do T. erectus, Compostas tubulifloras oriundas
do Mexico e cultivadas nos jardins do Funchal.
Crenças Populares
Embora a civilização tenha destruído muitas crenças populares outrora
vulgares na Madeira, ainda hoje existem algumas entre nós, que nos parecem dignas de menção por
estarem bastante arreigadas no animo do nosso povo. A crença nas feiticeiras, nas bruxas, no mau olhado,
no ar mau e no poder que têm certos individuos de curar com palavras ou de adivinhar o futuro por meio de
cartas, encontra-se não só nos campos, mas também na cidade, sendo de notar que há pessoas consideradas
cultas, que não abandonaram ainda inteiramente certas abusões que nos transmitiu o passado.
As feiticeiras no entender do povo, têm por mister fazer tôda a casta de maleficios, e aparecerem algumas
vezes sob a forma de uma botija a rolar nos caminhos, a qual se se lhe toca se transforma numa mulher, que
obriga a pessoa que provocou a transformação a conduzi-la ás costas até casa; as bruxas têm por principal
encargo chupar de noite o sangue das crianças, maleficio este que pode no entre tanto ser evitado,
colocando-se uma tesoura aberta sob o travesseiro da cama da pessoa que se quere proteger.
O Campo Grande, no Paul da Serra, é um dos pontos escolhidos para as reuniões das feiticeiras ás quais
preside o demonio, que toma muitas vezes a forma de um bode. O sinal da cruz, feito com devoção, é
suficiente, dizem, para afugentar o rei dos infernos quando tenhamos a desventura de encontrá-lo no nosso
caminho, qualquer que seja a forma porque ele se apresente, e as palavras, tosca, marrosca, olhos na cara e
freio na bôca, proferidas em voz alta, afirma-se que são de uma eficacia extraordinaria para afastar a
feiticeira ou feiticeiras que pretendam causar-nos dano ou divertir-se á nossa custa.
Os fogos fatuos que aparecem nos terrenos que encerram materias em putrefacção, são, diz o povo, obra das
feiticeiras, as quais nenhum receio têm de revelar a sua presença em qualquer parte, sobretudo de noite. As
feiticeiras são por via de regra mulheres velhas e feias, acreditando-se na Madeira, como em Portugal, que o
seu poder reside principalmente num novelo que o demonio entrega a cada uma delas no acto da iniciação.
O caso dos profetas do Pôrto Santo, narrado com a maior seriedade a pag. 55 das Saudades da Terra de
Gaspar Frutuoso, é atribuído por este escritor a *enganos ou ardis de Satanaz+, e a pag. 180 da mesma obra
se lê a descrição de uma luta que um clerigo teve com o demonio nas proximidades da capela das Neves,
luta de que este sairia vitorioso, se o referido clerigo se não tivesse benzido ou invocado o nome de Jesus, ao
reconhecer que a sua vida corria risco.
A crença no poder ou na ciencia que têm certas pessoas de adivinhar o futuro ou de desvendar certas coisas
secretas servindo-se apenas das cartas de jogar, é talvez a mais vulgarizada na ilha, não sendo poucas as
mulheres que se entregam ao mister de lançar sortes, com o fim de satisfazer a curiosidade dos papalvos
que dão credito a seus embustes.
Noutros logares deste Elucidario daremos algumas informações sobre a arte de curar com palavras (V.
Bucho encostado, Mau olhado, e Medicina campestre); pelo que respeita ao ar mau, só nos é possivel dizer
que se faz sentir principalmente de noite e tem a propriedade de causar dano ás pessoas e aos animais que a
ele estiverem expostos. Se nos campos ouvirdes os cãis uivar de noite sem motivo aparente, é porque está
passando o ar mau que provoca o quebranto e varias molestias.
Sôbre as superstições do nosso povo diremos ainda que o espelho que se parte anuncia desgraça e que
emprestar uma peneira ou vender sal ou fermento depois do sol pôsto, dar um beijo noutra pessoa que
tenha na mão uma vela acesa, conservar-se á mesa quando passa um entêrro e começar um serviço á têrça
ou sexta-feira, são coisas que muitas pessoas não só dos campos, mas também do Funchal, se abstêm de
fazer, na suposição de que daí lhes possa advir prejuízos. O numero treze é considerado fatidico para muita
gente, e se a uma mesa se sentar esse numero de pessoas, diz-se que uma delas deverá falecer durante o
ano. A coruja e o patagarro são aves agourentas e o mesmo acontece á galinha quando tem o mau habito de
cantar como galo.
É nas vesperas de S. João e de S. Pedro que qualquer pessoa pode conhecer uma parte do destino que lhe
está reservado. O rapaz ou rapariga solteiros, que á hora das ave-marias encher a bôca de agua e se puser á
escuta, conhecerá pelo primeiro nome de homem ou de mulher que ouvir qual o nome da pessoa a quem há-
de ligar um dia os seus destinos, sendo possivel chegar ao mesmo resultado por meio de sortes lançadas em
agua, se alguma delas se abrir durante a noite. Um ovo lançado num copo também pode dizer muito, se o
deixarmos exposto ao ar na noite de S. João, e se nessa noite a agua reflectir a imagem de uma pessoa ao
baterem as 12 horas, é porque essa pessoa tem a vida garantida até á festa do mesmo santo no ano imediato!
As beatas são ramos de arvores e arbustos colhidos na manhã de S. João, quando, diz o povo, todas as
plantas têm virtude, á excepção da malfurada. Colocadas á porta ou dentro das habitações, anulam os
efeitos do mau olhado e evitam muitos sortilegios a que está sujeita a humanidade. O alecrim é dentre as
plantas existentes na Madeira, a que mais usada é para combater os artificios diabolicos.
Além das superstições a que acabamos de aludir, outras há que povoam ainda a imaginação do nosso povo,
mas que por brevidade não apontamos aqui. Em todo o caso não se pode dizer que o povo madeirense seja
dos mais supersticiosos e que a sua credulidade esteja na razão directa da sua ignorancia.
Na Europa, mesmo nos países mais adiantados, há maior numero de superstições e de crendices do que na
Madeira, como se vê de alguns trabalhos sôbre as ciencias ocultas e as crenças populares, publicados no
seculo XIX por alguns autores nacionais e estrangeiros.
Crepusculo (O)
Jornal literario que se publicou de 15 de Fevereiro a 31 de Julho de 1865, saindo 12
numeros. Era redigido por alunos do liceu desta cidade.
Crista de galo (Amarantus caudalus)
Planta da familia das Amarantaceas, cultivada nos
jardins do Funchal e subespontanea em Camara de Lobos e outras localidades. É originaria da Africa
tropical e America, e tem espigas escarlates e pendentes, a terminal muito longa. Também chamam ás vezes
crista de galo ao Amarantus paniculatus e Celosia cristata.
Cristo (Capela de)
Na vila de Machico e na margem esquerda da ribeira que a atravessa, se
encontra a pequena distancia da igreja paroquial a antiga capela de Cristo, que actualmente é conhecida
pelo nome de capela do Senhor dos Milagres e a que também se chamou da Misericordia, por haver
pertencido a esta instituição de beneficencia, que tinha sua sede naquela vila. É das mais antigas capelas da
Madeira e afirmam alguns que foi o primeiro templo que se erigiu nesta ilha. A lenda de Machim, de que
noutro logar nos ocuparemos, diz que os descobridores ao desembarcarem nas praias de Machico,
encontraram as sepulturas de Roberto Machim e Ana Arfet, deparando com um singelo epitafio em que se
narrava a aventura dos infelizes amantes e se pedia que naquele local fôsse construída uma capela da
invocação de Cristo. A darmos credito á amorosa lenda, estaria nessa desgraçada aventura a origem da
fundação desta capela. O dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo nas suas eruditas e interessantissimas notas ás
Saudades da Terra, reduziu o caso de Machim ás suas legitimas proporções, e depois deste exaustivo
trabalho, não é licito admitir a possibilidade dessa lenda como varios autores, segundo D. Francisco Manuel
de Melo, a pretendem poeticamente descrever.
O que parece averiguado é que os descobridores, no proprio dia em que pela vez primeira pisaram a terra
virgem desta ilha, fizeram erguer um improvisado altar, e ali celebrou o sacrificio da missa um dos
religiosos franciscanos que vinham na frota de Zarco, em acção de graças pela importante descoberta que
acabavam de realizar. Fizeram os descobridores o voto de levantar uma igreja neste local, e é esta a
verdadeira origem da fundação da capela de Cristo. “E como, diz Frutuoso, neste logar a primeira missa que
se dice foi a da Visitação, que é a 2 de Julho, ficou esta igreja sendo casa de Misericordia“.
Embora simples e modesto, é este pequeno templo um verdadeiro monumento historico, que comemora o
facto da descoberta. Assim tem de ser considerado e venerado pelos habitantes desta ilha, impondo-se a sua
conservação através dos tempos, como um sagrado e patriotico dever de todo o madeirense que preza o bom
nome da sua terra.
Da construção primitiva restam talvez apenas a porta ogival e as cruzes do frontispicio, que constituem a
parte caracteristica do pequeno templo. A grande aluvião de 1803 deixou-o em completa ruína, sendo quasi
inteiramente reconstruído no ano seguinte, pelos irmãos da Misericordia. Houve o cuidado de conservar-lhe
a primitiva feição arquitectonica, o que igualmente se deu quando há cêrca de meio seculo se procedeu a
uma nova reedificação.
“Não só se conservou, diz o anotador das Saudades, o que da primitiva restava, mas tambem no de novo
feito se tem seguido o antigo risco. O portico é o da origem, com algumas pedras novas lavradas como as
antigas; o lavor unico que neles ha consiste em uma fileira de cruzes da Ordem de Cristo, que engrinaldam a
portada, e são inconcussa prova de que o templo foi edificação dessa Ordem”. Mas, esta segunda
reedificação, somente se ultimou no periodo decorrido de 1880 a 1883, e neste ano se procedeu á benção
solene da capela, que foi então completamente restaurada tanto interior, como exteriormente.
Ali se venera a imagem do Senhor dos Milagres, que é o objecto duma grande romagem, que se realiza a 9
de Outubro e aonde acorrem milhares de individuos vindos de todos os pontos da ilha. Esta veneranda
imagem foi arrastada pela torrente na aluvião de 1803 e levada para o alto-mar, onde a encontrou uma
galera americana que demandava o nosso porto e que a recolheu a seu bordo, sendo depois feita entrega
dela na Sé Catedral do Funchal. Ali se conservou até o dia 15 de Abril de 1813, em que foi conduzida para o
seu pequeno santuario de Machico, que acabara então de ser restaurado.
Crustaceos.
V. Carcinologia
Cruz (A)
Sairam 25 numeros, tendo-se publicado o 11 a 21 de Julho de 1901 e o ultimo a 23 de Janeiro
de 1902.
Cruz (Pico da)
Pico da altitude de 936m situado entre as freguesias de Camara de Lôbos e do
Estreito. Do seu cume, abrange a vista um amplo e belo panorama sôbre varias freguesias.
Cruz (Pico da)
Eminencia da freguesia do Campanário com cêrca de cem metros de altitude.
Cruz (Pico da)
Elevação montanhosa próxima do litoral, na freguesia de São Martinho, a cêrca de
263 metros de altitude, donde se goza uma surpreendente vista sôbre a costa maritima e anfiteatro do
Funchal. Uma pequena estrada recentemente construída dá facil acesso ao cume deste pico. A entestar com
a sua vertente norte, encontra-se a Carreira de Tiro do Funchal. Já foi conhecido pelo nome de Pico do
Telegrafo.
Cruz (Pico da)
É uma das mais altas eminencias que tornejam a freguesia da Serra de Agua.
Cruz (Ponta da)
Um pouco a leste da Praia Formosa e a oeste do Ilhéu do Gorgulho no litoral da
freguesia de São Martinho, encontra-se a chamada Ponta da Cruz, que por muitos é considerada o extremo
oeste da baia do Funchal. Existiu ali um pequeno reduto, hoje desmantelado. Encontra-se nas suas
imediações uma importante fabrica de conserva de peixe.
Cruz (Ponta da)
Na costa setentrional do Pôrto Santo, se encontra uma pequena ponta com este
nome.
Cruz (Ribeira da )
Nasce esta ribeira no Pico da Pedreira e corre entre as freguesias da Ponta do
Pargo e das Achadas da Cruz, desembocando no mar, proximo duma pequena fajã, que tem o nome de Fajã
da Rocha.
Cruz do Carvalho (Capela da)
Encontramos algures referencia a uma capela “sita na paragem
da Cruz do Carvalho assim chamadas numa propriedade que tinha o nome de Quintinha e mandada
construir em 1767 pelo capitão João Francisco de Freitas Esmeraldo, cavaleiro professo da Ordem de Cristo.
Não sabemos qual seja a invocação desta capela, nem se alude á capela que fica a algumas dezenas de
metros da Cruz do Carvalho, e que hoje pertence a Luiz Vogado de Bettencourt.
Cruz Vermelha
Deve-se á iniciativa do falecido medico madeirense Eliseu de Sousa Drumond, a
criação duma delegação da Cruz Vermelha nesta cidade. E não só o Funchal lhe é devedor dessa iniciativa,
como também dos diligentes e perseverantes esforços que desinteressadamente empregou para a instalação
da delegação, e ainda da excelente orientação que imprimiu a todos os seus primeiros serviços.
A primeira reunião da comissão instaladora realizou-se no dia 14 de Novembro de 1914. Pouco depois era
eleito presidente da direcção o visconde de Geraz de Lima, que revelou sempre o maior zêlo e dedicação
pelos progressos da sociedade.
Os primeiros medicos nomeados para a direcção dos serviços clinicos e cirurgicos da delegação da Cruz
Vermelha foram os drs. Eliseu de Sousa Drumond e Nuno de Vasconcelos Pôrto. Abriram eles desde logo
cursos de pequena enfermagem para o aprendizado e formação de enfermeiros de ambos os sexos,
conseguindo, dentro de pouco tempo, preparar pessoal suficientemente habilitado para o desempenho dos
mais urgentes e elementares serviços a realizar. Obtiveram-se então algumas macas e alistaram-se os
primeiros maqueiros, que receberam conveniente instrução.
Tornava-se indispensavel a instalação da delegação numa casa apropriada, onde se centralizassem e
acomodassem todos os seus serviços e onde fosse estabelecido um posto permanente de socorros medicos.
Realizou-se essa legitima aspiração da Sociedade com o arrendamento de um predio á rua dos Netos, e ali se
encontra hoje instalada a delegação. O seu posto de socorros, onde todos os dias se praticam operações
cirurgicas, curativos, diversos tratamentos medicos, etc., tem prestado relevantes serviços, e o publico
acorre ali a aproveitar os beneficios dispensados pela benemerita Sociedade. É de inteira justiça pôr em
relêvo a maneira como todo o pessoal do pôsto de socorros, os enfermeiros e o medico director têm
desempenhado os serviços que tão desinteressadamente lhe estão cometidos. Ao sr. dr. João Albino
Rodrigues de Sousa, chefe desses serviços, se deve o bom nome que entre nós granjeou o pôsto de socorros
desde a sua instalação em principios do ano de 1917.
Cuco (Cuculus canorus)
Ave trepadora que algumas vezes arriba a estas ilhas, quasi sempre na
primavera.
Cucurbitaceas uteis
A pesar da sua extensão, julgamos conveniente reproduzir na íntegra o
excelente artigo, que o co-autor deste “Elucidario” C. A. de Meneses publicou numa revista agricola acêrca
das cucurbitaceas cultivadas nesta ilha, por conter curiosas e interessantes informações, que podem
aproveitar bastante aos agricultores madeirenses, visto que este grupo de plantas tem uma larga cultura em
tôdas as freguesias do arquipelago.
“As Cucurbitaceas uteis cultivadas em larga escala na Madeira são em numero de seis, a saber: a cabaceira,
o pepineiro, a aboboreira preta, a aboboreira de Machado, a bogangueira e a chaiota. Todas estas plantas
pela rapidez com que se desenvolvem, pelos poucos cuidados que requerem e pela facilidade com que se
adaptam á grande maioria dos terrenos, são justamente apreciadas pelos habitantes da ilha, que encontram
nos seus fructos uma fonte de receita e uma alimentação substancial e abundante, durante uma boa parte
do ano. Apesar das mesmas plantas serem conhecidas fóra do paiz, daremos ácerca de cada uma alguns
esclarecimentos, afim de ir tornando conhecidas pouco a pouco as principaes producções da Madeira e os
processos que aqui se adoptam na cultura dos diferentes vegetais uteis.
A cabaceira (Lagenaria vulgaris), oriunda da Asia e Africa tropical, é planta annual, pubescente, de folhas
macias, flaciadas e de cheiro almiscarado, e de flores monoicas, brancas, abertas em forma de estrella. Os
botanicos distinguem n’esta especie differentes variedades, baseadas todas na fórma ou tamanho dos
fructos, das quaes as tres seguintes apparecem na Madeira: var. Gourda, de fructos grandes (30 a 60
centimetros) mais largos na parte superior que na inferior, approximando-se um tanto da fórma de uma
ampulheta; var. pusilla de fructos do mesmo feitio, mas mais pequenos (8 a 18 centimetros); e varclavata,
de fructos muitos grandes, podendo atingir mais de 1 metro de comprido, e geralmente claviformes.
As cabaças são usadas para sopa e algumas vezes para doce, e depois de maduras, bem sêccas e
convenientemente limpas na parte interna podem servir para guardar liquidos. As cabaças estão no caso de
terem esta ultima applicacão quando ao sacudi-las se reconheça que as sementes se acham perfeitamente
livres no interior do fructo. Os fructos da variedade pusilla, são muito utilizados pela gente dos campos no
transporte de vinhos e aguardentes em ocasiões de romarias.
A reprodução da cabaceira faz-se unicamente por sementeiras, as quaes se realizam desde janeiro até
março. Agricultores ha que abrem vallas, a que chamam caseiras, onde lançam as sementes e onde ficam
somente os individuos que convem conservar, ao passo que outros se limitam a abrir pequenas excavações
destinadas ao mesmo fim, isto, porém, no caso da terra haver sido mobilizada tempos antes para receber
qualquer outra cultura. As plantas ficam no proprio logar onde nascem, salvo quando haja vantagem em
transplantal-as para ponto melhor por falta do conveniente preparo da terra, ou por qualquer outro motivo.
A operação da mergulhia não se pratica na cucurbitacea a que nos referimos, a qual requer arvores, latadas
ou quaesquer outros esteios para se desenvolver bem. Os fructos apparecem de setembro a outubro em
qualquer das variedades que deixamos indicadas.
O pepineiro (cucumis sativus), do noroeste da India, é planta conhecida no sul da Europa, desde remota
data. Na Madeira onde ella é bastante cultivada, semeiam-na em março e abril e n’algumas partes desde
janeiro até maio. As sementeiras fazem-se em mantas ou caseiras onde só ficam os individuos que se
querem conservar; quando estes adquirem um certo tamanho constroem-se caniçadas ou quaisquer outros
esteios afim de que os caules não rastejem no solo. No caso das sementeiras se realizarem fóra das mantas é
de vantagem que os individuos novos ao transplantarem-se venham acompanhados do torrão, cuidado este
que tambem deve haver com as demais cucurbitaceas existentes na ilha, quando passem por operação
identica.
A especie de que estamos falando é annual como a precedente, poucas vezes costuma ser mergulhada e
fructifica desde maio até setembro. Os pepinos madeirenses são oblongos, grandes e por vezes um pouco
curvados, teem a polpa esverdinhada, e são amarellos exteriormente depois de maduros, entrando a planta
por conseguinte, na variedade flavus.
A aboboreira preta (Cucurbita moschata) que parece originaria do Oriente, reconhece-se facilmente pelas
suas folhas bastante asperas, manchadas de branco e com 5 lobulos agudos; os seus fructos grandes, d’um
verde escuro, por fim amarellos, variam bastante de forma, e teem saliencias longitudinaes obtusas e mais
ou menos pronunciadas.
A multiplicação d’esta cucurbitacea faz-se ordinariamente por estacas ou baraços como dizem os
madeirenses, as quaes se plantam o geral das vezes em março e abril dentro de vallas ou caseiras mais ou
menos fundas. A mergulhia dos baraços executa-se curvando-os na base e fazendo-os seguir uma direcção
opposta áquella em que se achavam. A propagação por semente tambem está em uso, podendo ficar as
plantas quer no proprio sitio onde nasceram, quer em logar mais adequado. Se a terra está
convenientemente mobilizada dispensa-se algumas vezes a abertura de vallas.
As aboboras pretas, conhecidas tambem pelo nome de aboboras da Guiné, são normalmente esphericas,
mas tambem as ha ellipticas, obovadas, pyriformes (abobora cabeça) ou em forma declava (abobora da
rocha). As saliencias que caracterisam a fórma typica são muito pouco pronunciadas n’alguns d’estes
fructos.
A ser exacto, como dizem os agricultores madeirenses, que as aboboreiras de fructos pyriformes e
claviformes reproduzem por semente os seus caracteres deverão ellas passar a constituir uma variedade, em
vez de serem consideradas, como cremos que o teem sido até aqui, como simples variações da fórma de
fructos esphericos. A Courge berbère ou bédouine de Naudin, corresponde á fórma de fructos claviformes,
emquanto que a Melonée ou Courge muscade des Marseillais parece corresponder á fórma de fructos
obovados.
A aboboreira preta requer latadas para se desenvolver bem, mas n’um ou n’outro ponto vemol-a crescer e
fructificar sem nenhum apoio. Quando convenientemente seleccionada, produz fructos saborosissimos que
se comem cosidos em agua e sal, quando tenros, ou em sopa depois de desenvolvidos. A abobora amarella
cozida com arroz é um prato muito apreciado pelos madeirenses. Embora a fructificação da aboboreira
tenha logar especialmente nos mezes de setembro e outubro pode-se dizer que não faltam aboboras para
consumo da populaçao desde agosto até janeiro.
Como a aboboreira é uma planta monoica, usam alguns agricultores fecundar artificialmente as flores
femininas para aumentar a producção. As aboboras destinadas a ser consumidas depois de amarellas
apanham-se quando o amarellecimento é já bem visivel e collocam-se em logares soalheiros. Havendo a
cautela de voltal-as de dias a dias fica a sua conservação garantida durante largo tempo.
A cucurbitacea a que nos referimos é planta annual, como as precedentes, mas pode excepcionalmente, e
sem se recorrer a novas mergulhias, durar dois annos como já tivemos ocasião de observar.
A aboboreira de Machado (Cucurbita Pepo) que se supõe oriunda da região do mar Caspio, distingue-se da
especie anterior em ter as folhas sem manchas brancas e os fructos com dez saliencias bem acentuadas. Os
exemplares madeirenses entram no grupo artificial creado por Naudin das Citrouilles proprement dites, o
qual é caracterisado pelos fructos grandes ou medianos, ovados, obovados ou ellipticos.
A reprodução d’esta especie faz-se unicamente por meio de sementes, as quaes se lançam á terra desde
janeiro até março. Os exemplares só excepcionalmente costumam ser mergulhados. Os fructos são mais
frequentes de agosto a outubro, e o seu sabor é muito menos agradavel que o das aboboras pretas.
A aboboreira de Machado a que alguns chamam de Catôa, é rara nos pontos baixos da ilha e só começa a ser
abundante acima de 150 ou 200 metros. Cultiva-se em Caseiras ou fóra d’ellas, e cresce por entre os
cannaviaes, sobre os muros ou apoiada em latadas. Segundo Brotero a abobora porqueira, a abobora
menina, a abobora moganga e a abobora chita ou chilacaiota, cultivadas em Portugal, são variedades da
Cucurbita Pepo.
A bogangueira (cucurbita melanosperma), originaria da Asia e introduzida de Teneriffe em 1836 ou 1837, é
uma especie extremamente frequente tanto no norte como no sul da ilha. As suas folhas são 5Blobadas ás
vezes um tanto asperas, com os lobulos pouco profundos e arredondados, as flores amarellas e os fructos
grandes e ellipticos, sem nenhumas saliencias. Lowe admittio n’esta especie a existencia de duas variedades:
a variedade picta com os fructos salpicados de verde e branco, e a variedade lactea de fructos inteiramente
brancos. Aos fructos da primeira variedade chamam os madeirenses bogangas rajadas, e aos da segunda
bogangas brancas.
O termo boganga, d’onde deriva bogangueira, é exclusivamente madeirense, e parece ser corrupção de
moganga, nome que se applica em Portugal a uma especie de abobora. Sendo as mogangas, porem, como
atraz vimos, produzidas pela Cucurbita Pepo, ao passo que as bogangas proveem da Cucurbita
melanosperma, como tambem já dissemos, parece-nos que se deve aceitar o termo madeirense, pois se evita
assim a confusão de especies que são perfeitamente distinctas entre si. N’algumas partes da Madeira dão ás
bogangas os nomes de aboboras moiras e de abobora de Teneriffe.
A bogangueira é muito rustica, propaga-se por semente ou por estaca e pode ser cultivada em caseiras ou
n’outro logar adequado. Dispensa esteios, pois dá-se perfeitamente sobre a terra, mas requer mergulhias, do
mesmo modo que a aboboreira preta. Pode plantar-se ou semear-se todo o anno, mas a melhor época de
realisar taes operações é desde março até outubro. Os fructos são mais abundantes desde junho a
novembro, mas apparecem tambem n’outros mezes do anno.
A sopa de boganga é considerada um alimento insipido ou talvez mesmo de sabor desagradavel pela grande
maioria dos estrangeiros e das pessoas de Portugal que visitam a ilha; todavia os habitantes, e em especial
as classes baixas, comem-n’a com prazer, sobretudo quando n’ella entram as favas, os feijões ou quaesquer
outras hortaliças. 0 doce a que os madeirenses chamam chila ou chilacaiota é confeccionado com os
filamentos (funiculos) das sementes quando os fructos se acham perfeitamente maduros.
A caiota (Sechium edule) é oriunda da America central e a unica cucurbitacea vivaz cultivada na Madeira. É
monoica, tem caules glabros, as folhas asperas na pagina superior, com 5-7 lobulos, as flôres brancas ou
d’um branco esverdinhado ou amarello, e os fructos obovados ou obovado-claviformes, com uma unica
semente, o geral das vezes um pouco comprimidos. Estes fructos, que são conhecidos pelo mesmo nome da
planta, e tambem pelo de pepinellas, são umas vezes verdes, outras brancos, mais ou menos
cedrosopicantes na parte externa, e apparecem durante o outono e parte do inverno. O seu sabor é
agradavel, especialmente na variedade de cor verde, e podem comer-se em sopa ou cozidos em agua e sal;
tambem se confecciona com elles um doce muito semelhante ao da boganga.
A propagação da caiota faz-se pelos fructos inteiros, que se plantam em covachos, nos mezes de janeiro e
fevereiro. Alguns cultivadores usam collocal-os na posição natural, mas o mais frequente é serem mettidos
na terra deitados, ou então com o grêlo para baixo, porque se diz que a raiz que é tuberosa e muito rica em
fécula, toma assim maiores proporções. Esta raiz, embora alimentar, é pouco utilizada na Madeira.
A planta de que estamos falando é mais conhecida na ilha pelo nome de pepinella que pelo de caiota. Na
America central e nas Indias Occidentaes dão-lhe este ultimo nome, e tambem o de chocho. Como a palavra
pepinella, que é genuinamente madeirense, não appareça nos diccionarios da lingua, usam algumas pessoas
dar o nome de pimpinellas aos fructos da caiota o que é evidentemente um erro, visto a pepinella pertencer
á familia das cucurbitaceas e a pimpinella á das umbeliferas, e não haverá entre as duas plantas affinidades
nem semelhanças de especie alguma.
A caiota raras vezes fructifica no primeiro anno, mas do segundo em deante dá fructos abundantes. Póde
viver em certos casos mais de 10 annos, e requer latadas ou outros apoios para se desenvolver bem. Os
fructos antes de se plantarem põem-se a grelar e só é costume mettel-os na terra quando os caules tenham
attingido o comprimento de 20 a 30 centimetros, e ás vezes mais. Quando os fructos sejam plantados
invertidos, devem vergar-se estes caules, para que uma parte d’elles fique fóra da terra.
Das cucurbitaceas que deixamos mencionadas, só a aboboreira preta é largamente cultivada no Porto Santo;
existem, porém, alli, os mellões, que são raros na Madeira, e as melancias, que são quasi desconhecidas
n’esta ilha.
N’alguns pontos dos arredores do Funchal apparecem a Cucurbita Pepo aurantia, de fructos esphericos,
imitando laranjas, e uma variedade da Cucurbita maxima, a que impropriamente chamam abobora menina,
e que é caracterisada pelos peponios pequenos, deprimidos e d’uma forma muito curiosa.
A cultura da cabaceira, do pepineiro, das duas aboboreiras e da bogangueira faz-se sempre em terras que
tenham sido convenientemente adubadas. Nas vallas ou caseiras deitam-se adubos de curral ou mattos, e só
depois é que se fazem as sementeiras ou as plantações das estacas. A mergulhia da aboboreira e da
bogangueira, que se faz geralmente dois meses depois da plantação, tambem é acompanhada de
estrumacões.
Alguns agricultores usam fazer a desponta dos caules centraes quando elles attingem um certo crescimento,
afim de obter ramos lateraes mais fortes e mais productivos. Os ramos de terceira ordem, conhecidos pelo
nome de netos, são tirados em larga escala, especialmente nas aboboreiras, a fim de vigorizar as plantas e
fazel-as dar mais fructos. No pepineiro nem sempre se faz esta limpeza por haver quem a considere
prejudicial á planta.
A aboboreira preta, a bogangueira e o pepineiro semeiam-se ás vezes em terras não estrumadas, fazendo-se
as adubações sómente no acto da mergulhia. Nas especies que se multiplicam por estacas devem estas
emquanto não pegam ser protegidas por coberturas. As irrigações frequentes são muito uteis durante a
estação quente, mas podem prejudicar a qualidade dos fructos quando estes se aproximam da maturação.
Quando n’um ramo de aboboreira apparecem dois fructos proximos um do outro, é uso supprimir um
d’elles para que o que fica tome maior vigor, mas a captação da parte superior dos ramos fructiferos não se
pratica em nenhuma das cucurbitaceas madeirenses, limitando-se os cuidados que com ellas teem os
cultivadores a ir tirando os rebentos inuteis á medida que vão apparecendo.
A caiota dispensa adubações nos quintaes do Funchal, mas nas terras esgotadas dos campos não se dá
sempre o mesmo caso. Fertilizados que sejam, porém os covachos, pode-se dizer que nenhuns cuidados
mais exige a planta, uma vez que existam as latadas ou os apoios de que ella carece para expandir os seus
ramos.
Cuibém
Este apelido de familia provém de Antonia Jaime Cuibém, que veio para a Madeira em 1590,
com seu marido o inglês Roberto Vizovi, cavaleiro da Ordem de Cristo. Este Vizovi estabeleceu-se com casa
de negocio no Funchal.
Cuidados (Calendula officinalis)
Composta tubuliflora originaria da Italia e Grecia, facil de
reconhecer pelos seus capitulos grandes, com ligulas alaranjadas, e pelos seus aquenios bastante curvos,
subespinhosos no dorso. E cultivada nos jardins e está naturalizada nalguns pontos da Madeira. Era usada
outrora como medicamento excitante, tonico e emenagogo.
Cumiada Alta
Fica nas proximidades do Pico Ruivo e a curta distancia da celebre coluna de blocos
basalticos, conhecida pela denominação de o Homem em Pé. Está a mais de 1700 metros acima do nivel do
mar, e é um dos poucos logares onde têm sido achados os raros Pyrus Aucuparia e Bunium brevifolium,
duas especies raras da flora madeirense.
Cumiada de S. Vicente
Está a 1000 metros acima do nivel do mar, e é ponto de onde em dias
claros se avista tanto o norte como o sul da Madeira. A estrada que conduz de Camara de Lôbos á Cumiada,
passando pela Ribeira Brava, foi inaugurada em 1916.
Perto da Cumiada de S. Vicente encontra-se o Lycopodium complanatum, licopodiacea rarissima na
Madeira.
Cunha
Este apelido de familia procede de Martim Afonso da Cunha, que foi um dos primeiros
povoadores da ilha e teve terras de sesmaria nos Anjos e nos Canhas.
Cunha (Alexandre Luiz da)
Foi professor da Escola Lancasteriana e proprietario e redactor
dos periodicos o Defensor da Liberdade, o Defensor e o Correio da Madeira. Por sentença de 26 de
Fevereiro de 1828 cumpriu trinta dias de prisão, por abuso de liberdade de imprensa. Tendo saido nesse
ano para os Estados Unidos da America, passou dai ao Brasil, só voltando á Madeira depois de restabelecido
o govêrno constitucional. Em 28 de Setembro de 1835 foi nomeado professor das linguas francesa e inglêsa
no Funchal, passando a desempenhar cargo identico no liceu, por decreto de 4 de Setembro de 1838.
Faleceu no Hospital Civil, na idade de 49 anos, a 14 de Outubro de 1852. E.: Os Estados Unidos da America
Septentrional em 1830 e 1831, Rio de Janeiro, 1832.
Cunha (Augusto José da)
Este politico e estadista representou a Madeira no parlamento como
deputado na legislatura de 1897 a 1899.
Morreu em Junho de 19l9.
Cunha (Bartolomeu de Vasconcelos da)
Nomeado governador e capitão general da
Madeira a 21 de Agôsto de 1651, havendo tomado posse a 16 de Outubro do mesmo ano.
Diz Barbosa Machado que escreveu varios sonetos ao nascimento do Infante D. Pedro, á morte de D. Maria
de Ataíde e a Manuel de Galhegos.
É pai do distinto poeta e escritor Troilo de Vasconcelos da Cunha, que nasceu no Funchal em 1654. (V. este
nome).
Cunha (D. Pedro Alvares da)
Foi governador e capitão-general da Madeira, e a sua nomeação
data de 30 de Março de 1711, havendo tomado posse a 1 de Outubro de 1712.
Cunha (João Severo)
Nasceu no Funchal a 6 de Novembro de 1856. É coronel de engenharia e foi
presidente da Camara Municipal de Lisboa na situação politica de Pimenta de Castro. Além da colaboração
que teve em algumas revistas, publicou: Espessura das abobadas, 1895, Estudos sobre abobadas, 1897, e
Esclarecimentos uteis aos mutuarios e pretendentes de mutuos da Companhia Geral do Credito Predial
Portugues, 1912.
Cunha (José Ribeiro da)
É de 9 de Abril de 1896 o decreto da sua nomeação para governador
civil deste distrito, tendo tomado posse a 23 de Maio do dito ano.
Por decreto de 13 de Junho de 1901, foi segunda vez nomeado governador civil da Madeira e tomou posse
do logar a 15 do mês e ano referidos. Neste periodo do seu govêrno, recebeu a visita dos reis de Portugal D.
Carlos e D. Maria Amelia, sendo pôr essa ocasião agraciado com a gran-cruz da Conceição.
Exerceu pela terceira vez o mesmo cargo, para que foi nomeado por decreto de 22 de Maio de 1906,
havendo tomado posse a 29 do dito mês e ano.
Foi pela quarta vez nomeado governador civil da Madeira, por decreto de 27 de Junho de 1910 e tomou
posse a 13 do mês de Julho seguinte.
Foi o ultimo governador civil efectivo no regimen monarquico e representou a Madeira no parlamento na
legislatura de 1908 a 1910.
Morreu em Lisboa a 14 de Maio de 1915, vitima da revolução que nesse dia rebentou naquela cidade.
Cunha (Pedro da Silva da)
Este governador e capitão general da Madeira foi nomeado a 16 de
Janeiro de 1655 e tomou posse a 22 de Abril do mesmo ano.
Cunha (Troilo de Vasconcelos da)
É hoje um nome inteiramente desconhecido entre nós,
mas que na sua epoca granjeou notavel nomeada como poeta e escritor. Os que se dedicam a estudos mais
aprofundados da nossa historia literaria conhecem as paginas que lhe consagram Barbosa Machado na
Bibliotheca Lusitana e Costa e Silva no Ensaio Critico dos Poetas Portugueses. Nasceu no Funchal em 1654,
ao tempo em que seu pai Bartolomeu de Vasconcelos exercia o cargo de governador e capitão-general deste
arquipelago. Dedicou-se ao estudo profundo das humanidades, revelando em especial o seu vasto saber no
conhecimento das linguas, sobretudo do grego e do latim. Consagrou-se também ao estudo de varias
questões teologicas, que quis versar nas suas composições poeticas, especialmente na obra intitulada O
Espelho do Invisivel, em que revela grandes qualidades de poeta, mas cujo assunto, improprio de ser
tratado em verso, tornou esse poema de dificil compreensão e despido das galas que devem adornar as
composições desta natureza, a pesar, como diz Inocencio, da pureza do estilo e de não estar muito eivado
dos defeitos da escola gongorica, que então dominava na nossa literatura.
Trasladou para vernaculo o poema latino de Justino, com o titulo de Justino Lusitano, e deixou muitas
composições ineditas em prosa e verso.
Exerceu cargos muito importantes, como o de secretario da Junta dos Tres Estados, e ainda outros.
Faleceu em Lisboa a 4 de Agôsto de 1729.
Cupertino (Fr. José)
Foi religioso do convento de S. Francisco do Funchal e gozou entre nós de
muita nomeada no seu tempo, como prègador e homem de larga ilustração. Conhecemos dois discursos que
publicou no Funchal em 1823, sendo um prègado na igreja de S. Martinho e outro com o titulo de Oraçâo de
acção de graças prégada na igreja cathedral da Sé do Funchal em 8 de Julho de 1823 por ocasião da solene
festividade... pela feliz restauração de el-rei N. S. ao throno de seus augustos maiores... Funchal, 1823.
São rarissimos estes discursos.
Curral das Freiras (Freguesia do)
Fica esta pequena paroquia situada no interior da ilha, e
assenta no fundo da cratera dum extinto vulcão, segundo varios geologos o afirmam. Para alcançar este
logar, mister é subir altas e ingremes montanhas e descer pelas declivosas ravinas que circuitam o profundo
vale, que se nos mostra como um horroroso e insondavel abismo, ao ser observado dos pincaros da serrania.
E talvez o ponto da Madeira em que a natureza se apresenta mais notavelmente grandiosa e de aspectos
mais surpreendentes, pela grande elevação e forma caprichosa dos montes, pelo alcandorado e aprumo das
encostas, pelos desfiladeiros e abismos que se encontram disseminados por tôda a parte, pelo tom agreste e
selvagem da paisagem, o que tudo dá ao conjunto um ar de tamanha grandeza e magestade e de tão
extraordinaria e encantadora beleza, que o visitante, ainda o menos apercebido e sensivel, fica surpreso e
extatico ao deparar com este cenario de tantas e tão incomparaveis maravilhas. “Vimos um boqueirão, diz
um distinto escritor, de muitos metros de largo e cortado quasi a pique, voragem espantosa, cavidade
imensa em volta da qual, excepto pelo sul, se erguem pincaros titanicos, de phantasiosos perfis, e, no fundo
do abysmo... a miniatura campesina de um paraiso... “ Sobranceiros ao Curral das Freiras ficam alguns dos
mais elevados picos da Madeira, sobressaindo entre todos o conhecido Pico Ruivo, que se eleva a uma
altitude aproximada de dois mil metros acima do nivel do mar. Em inumeras obras nacionais e estrangeiras
se encontram largas referencias ao Curral, tendo sido este logar bastante visitado por muitos homens
ilustres e entre eles alguns que se notabilizaram nos dominios das ciencias e das letras.
Nos tempos primitivos da colonização teve apenas o nome de Curral, que lhe provinha do facto de ser um
centro de abundantes pastagens de gado lanigero e caprino, e onde pastores, entregando-se a uma vida
quasi nómada, por ali pastoreavam livremente os seus rebanhos. Foram-se-lhe reunindo alguns escravos,
que, fugindo do povoado, alcançavam ali a sua carta de alforria, e também varios criminosos escapados á
acção da justiça, formando-se deste modo um pequeno nucleo de povoação naquele longinquo e apartado
êrmo, que a distancia e as dificuldades das comunicações, através de montes fechados de arvoredo e
semeados de perigosos abismos, tornavam quasi inacessivel. Começou depois o arroteamento e cultura das
terras, e já por fins do seculo XV havia ali um pequeno centro de população de habitantes de moradia fixa e
legalmente constituída. Deixou então de ser um valhacoito de foragidos e criminosos. Teve pouco
desenvolvimento este primitivo nucleo de população, pois que em 1794 era apenas de cento e dez o numero
dos seus habitantes.
Em 1480 eram proprietarios do Curral Rui Teixeira e sua mulher Branca Ferreira, que tinham residencia no
Campanario. Foi a 11 de Setembro deste ano que celebraram a escritura de venda desta vasta propriedade
ao segundo capitão donatario do Funchal, João Gonçalves da Camara, propriedade cuja área se estendia
“desde o Passo da Cruz e Ribeirão dos Socorridos até onde ela nasce de arrife a arrife, de uma a outra
banda“. O prêço desta compra foi de “23$500 reis de cinco ceitis ao real e 50 cruzados de ouro, valendo 380
reis cada um“. Destinava o capitão donatario esta aquisição de terrenos á dotação que fêz a suas filhas D.
Elvira e D. Joana, quando estas professaram em Santa Clara, mosteiro que o mesmo donatario fundara em
1492, entrando para ele as primeiras religiosas em 1497. Deve ter sido realizada no periodo decorrido de
1492 a 1497 a dotação do Curral, que a partir desta epoca passou a denominar-se Curral das Freiras.
Em 1560 foi a cidade do Funchal saqueada por corsarios franceses luteranos, de que falam com tanto horror
as antigas cronicas madeirenses. As freiras de Santa Clara viram-se forçadas a abandonar o seu convento
para não serem vitimas daquela horda de selvagens, e, como diz Frutuoso, “sahiram por entre os canaviaes e
se acolheram e não pararam até ao seu Curral, que dista bom pedaço da cidade, e assim se foram sem salvar
nenhum ornamento, deixando tudo no mosteiro, salvo a custodia do Santissimo Sacramento... “. Os
franceses permaneceram no Funchal, na sua faina de destruição e de matança de 3 a 17 de Outubro, e logo
depois da sua saída desta ilha deixaram as religiosas o Curral, recolhendo-se ao seu convento na cidade.
Não sabemos se já então tinham as freiras de Santa Clara construído no Curral a capela de Santo Antonio,
que ali existiu até meados do seculo passado e que era pertença do mesmo mosteiro.
Antes da sua elevação a paroquia, pertenceu o Curral das Freiras á freguesia de Santo Antonio, da qual se
desmembrou em 1790. Teve porém o Curral seus capelãis privativos com residencia mais ou menos
permanente ali, sendo em 1678 passada carta de capelão ao padre Cristovão Vieira. O serviço religioso fazia-
se na capela de Santo Antonio, que, sendo visitada em 1756 pelo visitador episcopal dr. Antonio Mendes de
Almeida, determinou este, em provimento exarado no arquivo da paroquia de Santo Antonio, que se
avisasse a abadessa de Santa Clara para prover a mesma capela dos objectos necessarios ao culto, como a
isso se obrigara, sob pena de procedimento ulterior.
Para a construção dum novo templo e residencia do capelão, tendo-se já certamente em vista a proxima
fundação da paroquia, doou o convento de Santa Clara, por escritura celebrada a 24 de Julho de 1784, á
mitra desta diocese, seis alqueires de terra com o simples encargo do fôro anual de uma franga, pago a 12 de
Agôsto de cada ano, destinadas as referidas construções a usufruto dos respectivos capelãis e seus
sucessores.
Diz o erudito anotador das Saudades da Terra que a freguesia do Curral das Freiras teve sua sede na capela
de Santa Quiteria, fundada por Simão de Nobrega, havendo nisto visivel engano, pois que esta capela ficava
na paroquia de Santo Antonio, no sitio que ainda hoje conserva aquele nome, e sendo ponto averiguado que
a pequena capela de Santo António, existente no Curral e pertencente ao convento de Santa Clara, serviu
para a instalação e sede da nova freguesia, quando esta foi criada por alvará régio de 17 de Março de 1790.
Não podemos precisar a epoca da construção da nova igreja e também o ano em que para ela se transferiu a
sede da paroquia, mas sabemos que foi edificada no reinado de D. Maria I, pela inscrição que no mesmo
templo se encontra, conjecturando nós que essa construção se realizou nos primeiros anos do seculo
passado. O seu orago é Nossa Senhora do Livramento, que é objecto duma romaria que se realiza no ultimo
domingo de Agôsto. Sofreu notaveis reparações no seu interior, nos anos de 1917 e 1918.
O centro da freguesia dista 14 kilometros da igreja paroquial de S. António e 17 kilometros e meio da cidade
do Funchal. Passada a ribeira de Vasco Gil e galgada a ladeira do lombo de D. Isabel, entra-se numa estrada
plana, que se estende até á Eira do Serrado, na altitude de 1026 metros e donde se divisa ao fundo tôda a
povoação do Curral. Começa aí a descida em torcicolo e rápido declive, chamada o Passo da Chave, que
conduz ao centro da freguesia.
Além do vinho, tinha o Curral a abundante produção da cereja, da castanha e da cidra, sendo esta muito
importante e quasi privativa desta freguesia.
Nas fragosas encostas desta freguesia nasce a Ribeira dos Socorridos, que é a mais importante corrente do
sul da ilha. Nesta ribeira encabeçam as importantes levadas dos Piornais e Nova do Castelejo.
Tem o Curral das Freiras ha já alguns anos uma escola oficial do sexo masculino, mas em 1846, numa visita
que ali fêz o benemerito governador civil José Silvestre Ribeiro, reconheceu este que apenas o paroco e o
regedor sabiam ler e escrever!
Os seus principais sitios são Lombo Chão, Serra Velha, Balseiras, Terra-Chã, Capela, Murteira, Casas
Proximas, Achada, Ribeira do Cidrão, Fajã dos Cardos, Pico do Furão, Colmeal e Fajã Escura.
Tem a população de 1430 habitantes.
Curral dos Romeiros
Sitio na freguesia do Monte, onde passa a estrada que conduz á Choupana.
Acima da ponte do Curral, na Ribeira de João Gomes, há uma pequena, mas bonita queda de agua, á qual se
chega seguindo a levada que passa junto da mesma ponte.
O Curral dos Romeiros é sitio muito visitado por nacionais e estrangeiros e fica no fundo dum grande vale,
onde se colhem gratas impressões.
Curso de Desenho
Houve no Funchal um curso de desenho sustentado pela Camara Municipal,
que foi inaugurado no dia 1 de Outubro de 1877 e extinto em sessão camararia de 1 de Setembro de 1892.
Regia este curso o director das obras municipais do Concelho, o falecido José Maria Teixeira de Agrela.
Dália (Dhalia variabilis)
Composta originaria do Mexico, muito cultivada nos jardins do
Funchal.
Damasqueiro (Prunus Armeniaca)
Árvore originaria da China, muito cultivada na
Madeira.
Os seus frutos que aparecem em Junho e Julho, variam muito no tocante ás dimensões e mesmo á côr,
havendo uma variedade de damascos a que chamam pretos, cujo epicarpo apresenta a côr de certas
ameixas.
As principais variedades de damascos que aparecem na Madeira são as seguintes: damascos legitimos,
franceses, brancos, churros, alperches, “pêches“ e maracotões.
Dana (J. D.)
Geologo americano que visitou a Madeira em Setembro de 1838. O resultado dos seus
trabalhos foi publicado no vol. X da United States Exploring Expedition.
Dantas
A capela de Nossa Senhora da Penha de França, foi fundada por Antonio Dantas em 1622, sendo
de crer que o apelido de familia Dantas, Antas ou Antes proceda de Mem Afonso de Antas, oriundo do logar
de Antes, antigo concelho de Coura, no Minho.
Darja
Este apelido de familia, hoje extinto na Madeira, procede de Simão Darja, que nos fins do seculo
XVI tinha um engenho de moer cana doce, no Funchal.
Darwin (Carlos)
Este sabio naturalista inglês refere-se por várias vezes á Madeira, nos seus
trabalhos sôbre a origem das especies e a variação dos animais e das plantas. Na sua monografia dos
cirripedes, menciona 13 especies madeirenses.
Datas Históricas
Vamos enumerar algumas das principais datas que interessam á historia da
Madeira, apontando especialmente as que indicam os factos de maior importancia, ocorridos no largo
periodo de cinco seculos. A primeira data a assinalar neste logar deve ser a do descobrimento do
arquipelago
(V. Descobrimento do arquipelago),
a que uns fixam o ano de 1419, com a descoberta do
Pôrto Santo, e outros o ano seguinte; e, conforme as duas opiniões, a ilha da Madeira teria sido descoberta
respectivamente no ano de 1419 ou de 1420, devendo no entretanto notar-se que a opinião mais seguida é a
primeira, dando deste modo as ilhas do Pôrto Santo e Madeira como descobertas em 1418 e 1419.
1418-Descobrimento da ilha do Pôrto Santo? Vid. Descobrimento do Arquipelago.
1419-Descobrimento da ilha da Madeira?
1430-Criação das freguesias de Camara de Lôbos e Calheta.
1433-D. Duarte faz doação do arquipelago da Madeira ao infante D. Henrique.
1433-D. Duarte faz doação deste arquipelago á Ordem de Cristo, quanto ao espiritual.
1440-Doação da capitania de Machico a Tristão Vaz.
1440-Criação das paroquias do Caniço e Ribeira Brava.
1445-0 navegador Luiz Cadamosto (V. este nome) visita a Madeira e Pôrto Santo.
1446-Doação da capitania do Pôrto Santo a Bartolomeu Perestrelo.
1449-Confirmação de D. Afonso V da doação feita por D. Duarte ao infante D. Henrique.
1450-Criação da freguesia de Machico.
1451-Doação da capitania do Funchal a João Gonçalves Zarco.
1451-O Funchal é elevado á categoria de vila.
1454-João Gonçalves faz doação duns terrenos em São Paulo, destinados á fundação do primeiro hospital.
1467-Morre no Funchal o primeiro capitão-donatario João Gonçalves Zarco.
1477-Criação da Alfandega do Funchal.
1493-Adoptam-se providencias muito importantes acêrca de aguas, madeiras, gados, cousas agricolas etc..
1497-D. Manuel I torna realengo e faz reverter para a coroa o arquipelago da Madeira.
1497-Fundação do convento de Santa Clara.
1501-Criação da vila da Ponta do Sol.
1501-Morre no Funchal o 2º. capitão-donatario João Gonçalves da Camara.
1502-Criação da Vila da Calheta.
1505-No convento de São Bernardino, da freguesia de Camara de Lobos, morre com fama de santidade Fr.
Pedro da Guarda, conhecido pelo nome de Santo Servo de Deus.
1508-É a vila do Funchal elevada á categoria de cidade.
1508-Veio á Madeira exercer funções episcopais o bispo D. João Lobo, o primeiro prelado que esteve nesta
ilha e que aqui se demorou aproximadamente dois anos.
1514 É criada a diocese do Funchal.
15l5- logar de Santa Cruz é elevado á categoria de vila.
1516-Sagração da Sé Catedral do Funchal.
1517-É criada a freguesia de S. Jorge.
1523-Voto feito pelo povo e pela Camara do Funchal a S. Tiago, que é escolhido para
(cid:1176)
principal padroeiro
(cid:1177)
da
Madeira.
1526-Morre no continente o primeiro bispo do Funchal, D. Diogo Pinheiro.
1530-Morre em Matozinhos, proximo do Porto, o terceiro capitão-donatario do Funchal, Simão Gonçalves
da Camara.
1533-Caso dos profetas Fernão Bravo e Filipa Nunes, na ilha do Porto Santo.
1533-É criado o arcebispado do Funchal.
1536-Morre no Funchal o 4º capitão-donatario João Gonçalves da Camara.
1540-Morre o capitão-donatario de Machico, Diogo Teixeira, revertendo a capitania para a coroa.
1550-Criação da freguesia do Faial.
1551-É extinto o arcebispado do Funchal e acrescenta-se o arquipelago de Arguim á jurisdição desta diocese.
1552-Criação da freguesia de Sant'Ana.
1553-Criação da freguesia do Seixal.
1557-Criação das freguesias da Sé e Santa Maria Maior.
1558-Criação da freguesia de Gaula.
1560-Criação da freguesia de Agua de Pena.
1561-Criação da freguesia do Caniçal.
1565-Criação das freguesias do Monte e S. Gonçalo.
1566-Terrivel saque dos corsarios franceses á cidade do Funchal.
1566-Fundação do Seminario do Funchal.
1566-Criação da freguesia de S. Pedro.
1568-Criação da freguesia da Tabua.
1569-Morreu em Lamego o distinto madeirense e ilustre prelado D. Manuel de Noronha, filho do 3
(cid:1187)
.
capitão-donatario do Funchal, Simão Gonçalves da Camara, o Magnifico.
1570-Estabelecem-se os jesuítas na Madeira.
1571-Criação da freguesia da Fajã da Ovelha.
1572-Criação da freguesia do Arco da Calheta.
1575-Morre o ilustre madeirense, padre Luiz Gonçalves da Camara, celebre aio do rei D. Sebastião.
1577-Criação das freguesias dos Canhas e Pôrto da Cruz.
1579-É extinta a freguesia de S. Pedro e novamente restaurada em 1587.
1579-Criação das freguesias de S. Roque e S. Martinho.
1580-Morrem o 5º. e 6º. capitãis-donatarios do Funchal, Simão Gonçalves da Camara e João Gonçalves da
Camara.
1581-Começa a Madeira a ser governada por governadores gerais, sendo o primeiro o desembargador João
Leitão, como representante do govêrno filipino.
1582-É criada a paroquia da Madalena do Mar.
1583-Morreu em Evora o abalizado gramatico e distinto madeirense padre Manuel Alvares.
1588-0 distinto madeirense D. Sebastião de Morais, que foi o primeiro bispo do Japão, morreu em
Moçambique, quando ia a caminho do seu bispado.
1590-Escreve o dr. Gaspar Frutuoso a afamada obra Saudades da Terra, morrendo no ano seguinte na ilha
de S. Miguel.
1593-Dá-se nesta ilha o fenomeno de incandescencia atmosferica, que ficou conhecido pelo nome de fogo do
céu, que queimou tôda a vegetação, chegando até a incendiar algumas casas.
1595-Morreu o ilustre madeirense e abalizado jurisconsulto dr. Antonio da Gama Pereira.
1608-Morre no Funchal e jaz sepultado na Sé Catedral, o bispo diocesano D. Luiz Figueiredo de Lemos.
1624-Morreu o governador e capitão general da Madeira D. Francisco Henriques, sendo sepultado na igreja
do Colegio.
1626-Morreu o governador e capitão general deste arquipelago, Fernão de Saldanha.
1641-É proclamada na Madeira a restauração de Portugal, com a aclamação de D. João IV.
1650-Fundação do convento da Incarnação, pelo conego Henrique Calaça de Viveiros.
1654-Começa a Madeira a ter representação nas antigas côrtes gerais.
1655-É fundado o Recolhimento do Bom Jesus, pelo arcediago Simão Gonçalves Cidrão.
1656-Doação do arquipelago da Madeira, feita por D. João IV a sua filha a infanta D. Catarina.
1665-Morre Manuel Tomaz, o autor do poema a Insulana.
1668-Grande sedição popular no Funchal, que depôs o governador e capitão-general Francisco de
Mascarenhas e praticou outras violencias.
1674-Morreu no Funchal o bispo diocesano D. Gabriel de Almeida, que foi sepultado na Sé Catedral.
1676-Foram criadas as paroquias do Arco de S. Jorge, Camacha, Santa Luzia, Serra de Agua e Paul do Mar.
1681-Morreu e jaz sepultado na cidade de Olinda, no Brasil, o ilustre madeirense João Fernandes Vieira, o
restaurador de Pernambuco.
1682-Morreu nesta cidade o prelado diocesano D. Antonio Teles da Silva, sendo sepultado na Sé Catedral.
1690-Dois navios corsarios dão um saque na ilha do Pôrto Santo e incendeiam a igreja e outros edificios.
1691-Morreu o distinto madeirense, conego Antonio Veloso de Lira.
1699-Grande incendio na fortaleza de São Lourenço, destruindo as moradas dos governadores e capitãis-
generais do arquipelago.
1704-Morreu no Funchal o governador e capitão-general do arquipelago, João da Costa de Ataíde e
Azevedo.
1708-É a ilha do Pôrto Santo saqueada por piratas franceses.
1724-Houve uma grande aluvião, que causou consideraveis prejuizos.
1729-Morre o distinto poeta madeirense Troilo de Vasconcelos da Cunha.
1730-Morre o escritor madeirense e distinto genealogista, Henrique Henriques de Noronha.
1733-Criados os curatos da Boaventura, Ribeira da Janela e Prazeres.
1734-Criado o curato do Jardim do Mar.
1743-Criada a vila de São Vicente.
1748-Violento abalo de terra, que causou bastantes estragos e algumas vitimas.
1753-Morre no Funchal o bispo diocesano D. João do Nascimento.
1755-0 dr. Julião Fernandes da Silva escreve o curioso e interessante livro intitulado Carta critica sobre o
methodo curativo dos medicos funchalenses.
1756-É decretada a construçõo dum pôrto de abrigo no Funchal.
1760-Os jesuítas são expulsos da Madeira.
1765-Houve uma grande aluvião, causando enormes prejuízos.
1767-Reforma judicial, que definitivamente estabelece na Madeira um corregedor e um juiz de fora.
1770-Celebre alvará regio adoptando importantes providencias acêrca da ilha do Pôrto Santo, e que ficou
conhecido pelo nome de lei dos Quintos e Oitavos.
1772-São criadas na Madeira diversas escolas de instrução primaria, três aulas de latim, uma de filosofia e
uma de retorica.
1775-É criada a Junta da Fazenda deste arquipelago.
1777-0 ilustre governador da Madeira João Antonio de Sá Pereira sai desta ilha, chamado pelo govêrno da
metropole, a justificar-se das acusações que lhe foram feitas.
1784-Morre nesta cidade o bispo diocesano D. Gaspar Afonso da Costa Brandão.
1786-Grandes chuvas e um violento vendaval, que causou muitos prejuízos.
1787-O colegio e igreja dos jesuítas são cedidos ao bispo diocesano para a instalação do Seminario.
1790-É criada a freguesia do Curral das Freiras.
1792-Acontecimentos graves determinados pela perseguição do governador e bispo diocesano aos membros
das lojas maçonicas.
1798-É definitivamente criado o correio na Madeira.
1798-Morre no Funchal o ilustre governador e capitão general deste arquipelago, D. Diogo Pereira Forjaz
Coutinho.
1801-É a Madeira ocupada por tropas inglêsas.
1803-Grande aluvião que produziu os maiores estragos e vitimou algumas centenas de pessoas.
1806-Morreu em Lisboa o poeta madeirense Francisco Alvares de Nobrega, conhecido pela autonomásia de
Camões Pequeno.
1807-Morre no Funchal o brigadeiro Reinaldo Oudinot, que dirigiu o encanamento das ribeiras do Funchal
e construção das respectivas muralhas, depois da grande aluvião de 1803.
1807-Tropas inglêsas ocupam pela segunda vez a Madeira.
1810-Morreu no Funchal o bispo diocesano D. Luiz Rodrigues de Vilares.
1810-É criada a Junta de Melhoramentos da agricultura da Madeira e Porto Santo.
1814-Morreu no Funchal o governador e capitão general da Madeira, Luiz Baltrão de Gouveia e Almeida.
1815-Passa Napoleão na Madeira.
1815-Grande aluvião que causou grandes prejuízos.
1821-É proclamada a Constituïção na Madeira.
1821-Sai o Patriota Funchalense, o primeiro jornal que se publicou na Madeira.
1822-É lançada com grande solenidade a primeira pedra dum monumento destinado a perpetuar a
memoria da proclamação da Constituição na Madeira.
1823-Veio uma alçada a esta ilha, composta de seis juízes, com o fim de julgar e punir os que se tivessem
mostrado desafectos ao govêrno absoluto.
1828-Vieram dois desembargadores proceder a uma rigorosa devassa acêrca de acontecimentos politicos,
sendo pronunciados mais de duzentos individuos, a maior parte dos quais foi condenada a diversas penas,
principalmente de degrêdo para as provincias ultramarinas.
1828-A esquadra miguelista bombardeia a vila de Machico e efectua-se ali um desembarque de tropas,
tomando estas o caminho da cidade, que ocuparam, proclamando-se em seguida o govêrno absoluto.
1829-Morreu em Lisboa o distinto madeirense dr. João Francisco de Oliveira.
1832-Tropas constitucionais vindas dos Açores e comandadas por Luiz Mousinho, ocupam a ilha do Pôrto
Santo.
1832-Morreu em Lisboa o ilustre madeirense e distinto escritor, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar.
1835-Começam as obras de construção das levadas do Rabaçal.
1836-É criado o liceu do Funchal, que começou a funcionar no ano seguinte.
1836-Funda-se a Associação Comercial do Funchal.
1837-É criada e instalada a Escola Medico-Cirurgica do Funchal.
1838-É instalada e aberta ao publico a biblioteca da Camara Municipal do Funchal.
1838-É benzido solenemente e inaugurado o cemiterio das Angustias.
1840-Conclue-se e abre-se ao publico o mercado de S. Pedro.
1840-Chega á Madeira o grande poeta Antonio Feliciano de Castilho.
1842-Houve grandes temporais e uma aluvião que causou muitos estragos.
1846-José Silvestre Ribeiro é nomeado governador civil deste distrito.
1846-O governador José Silvestre Ribeiro iniciou o grande serviço da iluminação publica do Funchal.
1846-O celebre propagandista protestante dr. Roberto Kalley, é violentamente forçado a sair da Madeira,
dando-se por essa ocasião varios tumultos.
1847-Veio á Madeira, onde se demorou alguns meses, a rainha Adelaide, de Inglaterra.
1847-É instalada a Junta Governativa, repercutindo-se na Madeira os acontecimentos iniciados no país pela
Junta do Pôrto.
1847-É conhecido pelo nome de ano da fome, em virtude da pavorosa crise alimenticia por que passou este
arquipelago.
1847-É criado o asilo do Funchal, devido á iniciativa de José Silvestre Ribeiro, e que ainda hoje recorda o
seu nome.
1848-São criadas as freguesias da Ribeira da Janela, Achadas da Cruz e São Roque do Faial, que já
anteriormente eram curatos autonomos, e também neste ano é criada a freguesia da Quinta Grande.
1848-Construção da ponte do Ribeiro Sêco e começo dos trabalhos para a construção da estrada que dali
conduz a Camara de Lôbos.
1849-É decretada a construção do Lazareto na foz da Ribeira de Gonçalo Aires.
1850-Na praia do Pôrto Santo naufraga um barco daquela ilha, morrendo quinze pessoas.
1850-Por iniciativa do governador civil José Silvestre Ribeiro, se estabelece um museu de historia natural
no palacio de São Lourenço.
1852-Começou a propagar-se e a causar os maiores estragos na vinha uma doença que ficou conhecida pelo
nome de mangra e que originou uma das maiores crises por que a Madeira tem passado.
1853-Morreu no Funchal a princesa D. Maria Amelia, filha de D. Pedro IV.
1853-Em memoria de sua filha, funda a imperatriz D. Amelia o Hospicio da Princesa D. Maria Amelia, que
se instalou provisoriamente numa casa á rua do Castanheiro, sendo em 1862 definitivamente instalado no
magnifico edificio que para tal fim a imperatriz fêz construir e dotar com os fundos necessarios para o seu
regular funcionamento.
1856-É a Madeira assolada por uma das maiores calamidades que a têm afligido a epidemia da colera-
morbus, que vitimou cêrca de dez mil dos seus habitantes.
1856-No mês de Maio deste ano foram criadas em varias freguesias deste arquipelago mais de vinte escolas
de ambos os sexos.
1857-Morreu em Lisboa o ilustre madeirense dr. Lourenço José Moniz.
1858-O principe D. Luiz depois rei de Portugal, visitou pela primeira vez esta ilha.
1860-A imperatriz Isabel da Austria visita a Madeira e aqui se demora alguns meses.
1861-Morre em Lisboa o ilustre madeirense visconde Jervis de Atouguia.
1862-É fundada a Associação de Beneficencia do Funchal, que tem hoje o nome de Associação de Socorros
Mutuos “4 de Setembro de 1862“.
1865-Morre em Coimbra o distinto lente da Universidade e ilustre madeirense, dr. Justino Antonio de
Freitas.
1866-Morre no Funchal o distinto madeirense e abalizado professor, Marceliano Ribeiro de Mendonça.
1868-Deram-se graves acontecimentos na praia desta cidade, havendo mortos e feridos em que o povo
obstou ao desembarque do distinto madeirense Jacinto de Sant'Ana e Vasconcelos, que vinha a esta ilha
tratar da sua candidatura a deputado.
1869-Chega pela primeira vez a esta ilha o ilustre romancista Julio Deniz, que escreveu o seu primoroso
livro Os Fidalgos da Casa Mourisca.
1870-Morreu o abalizado medico e distinto madeirense dr. Antonio da Luz Pita.
1870-Graves acontecimentos em Machico ocorridos por ocasião das eleições, caindo mortos alguns
populares pelas balas da força armada, que se viu coagida a usar da violencia.
1872-Grande epidemia de variola, que dizimou cêrca de mil individuos.
1873-É organizada a Companhia Fabril de Açucar Madeirense, que fêz construir a grande fabrica de S. João.
1873-Publicação da parte da afamada obrado dr. Gaspar Frutuoso, que se ocupa da Madeira, intitulada
Saudades da Terra, pelo ilustre professor e advogado dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo e que ele enriqueceu
com largas e eruditas anotações.
1874-Fica a Madeira ligada ao continente por um cabo submarino.
1874-Em Angra do Heroismo faleceu o ilustre madeirense dr. Nicolau Anastacio de Betencourt.
1875-São criadas as comarcas de Santa Cruz, Ponta do Sol e S. Vicente.
1875-Fundou-se nesta cidade o Banco Comercial da Madeira.
1876-Grandes temporais, que arremessam alguns navios á praia do Funchal.
1876-Sai o Diario de Noticias, o primeiro jornal diario que se publicou entre nós.
1876-Morre no Funchal o distinto poeta e ilustre madeirense José Antonio Monteiro Teixeira.
1877-Criação do curso de preparatorios no Seminario do Funchal e poucos anos depois a instalação dum
museu regional de produtos de historia natural.
1878-Começa uma larga emigração para as ilhas de Sandwich.
1879-É proibida a circulação da moeda estrangeira na Madeira, que antes tinha livre curso.
1880-Morre em Lisboa o ilustre madeirense D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, arcebispo de Goa.
1884-Graves acontecimentos na freguesia da Ribeira Brava, por ocasião da eleição de deputados, morrendo
varios populares.
1887 Graves perturbações da ordem em muitas freguesias da Madeira, com o fim de obstar a instalação
das Juntas de Paroquia, movimento popular que teve consequencias muito funestas e que ficou conhecido
entre o povo pelo nome de Parreca.
1888-Inauguração do Corpo de Bombeiros Voluntarios do Funchal.
1888-É inaugurado o teatro “Manuel de Arriaga“, que teve primitivamente o nome de D. Maria Pia.
1889-É instalado o Pôsto Medico Municipal.
1889-É criada a Escola Industrial do Funchal.
1889-É fundada a Associação Protectora dos Pobres, conhecida pelo nome de Sopa Economica, devido á
iniciativa do governador D. João de Alarcão.
1890-Comete-se no Funchal o assassinato do menor Francisco José de Ornelas, que muito emocionou a
população madeirense.
1892-Manifestou-se a raiva, sendo varias pessoas atacadas e tendo algumas sucumbido á terrivel doença.
1892-Construção do cais da Entrada da Cidade, cujos trabalhos tinham começado em 1889.
1893-Inauguração do primeiro trôço do Caminho de Ferro do Monte.
1897-Inauguração da luz electrica no Funchal.
1897-São dadas por concluidas as obras de reconstrução e ampliação do molhe da Pontinha, cujos trabalhos
primitivos tinham começado em 1886.
1899-Morre em Lisboa o nosso distinto patricio dr. Luiz da Camara Pestana.
1900-É criada a Escola de habilitação para o magisterio primario.
1901-É concedida a autonomia administrativa a este distrito, cujas faculdades e atribuições residem numa
corporação de eleição popular, que tem o nome de Junta Geral.
1901-Os reis de Portugal D. Carlos e D. Maria Amelia, visitam esta ilha.
1902-Morreu no Funchal o ilustre madeirense conde de Canavial.
1902-É criado o Auxilio Maternal.
1905-É lançada com grande solenidade a primeira pedra do edificio do Sanatorio dos Marmeleiros, em
virtude da concessão anteriormente feita pelo govêrno português ao principe Frederico Hohenloe.
1906-É fundado o Monte Pio Madeirense.
1906-Inicia-se o funcionamento do Manicomio Camara Pestana.
1906-Um grupo de populares ataca o edificio do Lazareto, onde estavam em tratamento muitos individuos
atacados da epidemia da peste, que grassava na Madeira, destruindo as instalações e pondo em liberdade os
doentes, que ali tinham dado entrada, coagidos pela fôrça imperiosa das circunstancias ocorrentes.
1907-Faleceu em Lisboa o ilustre madeirense José Vicente Barbosa du Bocage, sabio zoologo e distinto
estadista.
1908-A bela igreja da freguesia da Ponta Delgada é destruida por um incendio.
1908-A Camara Municipal do Funchal é autorizada a contrair um emprestimo exclusivamente destinado á
canalização de esgotos e abastecimento de aguas potaveis.
1910-No fim deste ano manifesta-se a colera nesta cidade, que se alastrou por quasi tôda a ilha e que causou
cêrca de 550 vitimas, tendo por esse motivo mandado o govêrno central á Madeira o dr. Alfredo de
Magalhãis, como alto comissario da Republica, e o dr. Carlos França, como chefe de todos os serviços
clinicos e de higiene.
1911-Morre no Funchal o ilustre prelado diocesano D. Manuel Agostinho Barreto.
1911-É estabelecida a rede telefonica no Funchal.
1911-É criada a Junta Agricola da Madeira, que foi extinta em 1919.
1913-É criada a Junta Autonoma das Obras do Pôrto do Funchal.
1914-É criado o concelho da Ribeira Brava.
1916-Inauguração da Estrada do Funchal á Encumeada de S. Vicente.
1916-Bombardeamento da cidade do Funchal por um submarino alemão, e que se repetiu no ano imediato.
1917-Morre em Lisboa o ilustre madeirense Jaime Constantino de Freitas Moniz.
1921-É publicado o primeiro volume do
(cid:1176)
Elucidario Madeirense
(cid:1177)
.
1922-Realizaram-se grandes festejos e um imponente cortejo historico comemorativo do Quincentenario do
descobrimento do arquipelago da Madeira.
1922-De regresso da sua viagem ao Brasil passa no Funchal o Presidente da Republica dr. Antonio José de
Almeida.
1925-Os drs. Antonio Oliveira Salazar e Mario de Figueiredo estiveram no Funchal e proferiram algumas
conferencias nas salas da Associação Catolica.
1929-Uma grande enchente no sitio do Estreito da Vargem, freguesia de São Vicente, causou a morte a 32
pessoas.
1930-O hospital da Santa Casa da Misericordia é instalado no sanatorio dos Marmeleiros na freguesia do
Monte.
1930-Uma enorme “quebrada“ na foz da Ribeira do Vigario, freguesia de Camara de Lobos, arrastou para o
mar, no refluxo da corrente, 20 pessoas que ali perderam a vida.
1931-É criado o Arquivo Distrital do Funchal.
1931-Sublevação militar, que foi sufocada por fôrças terrestre e maritima vindas do continente e que ficou
conhecida pelo nome de Revolução da Madeira.
1933-Inauguração do prolongamento do cais da Entrada da Cidade.
1936-Graves alterações da ordem publica em varias freguesias por causa da criação da Junta dos Lacticinios
e dos serviços que lhe estavam anexos, tendo vindo dois navios de guerra e contingentes de tropas para
sufocarem esse movimento revoltoso.
1938-O general Antonio Oscar Carmona, presidente da Republica, chega à Madeira, sendo
entusiasticamente recebido.
1939-Inauguração da Avenida do Mar.
Deado. O cargo de Deão da Sé do Funchal foi criado pela propria bula pontificia que instituiu a diocese,
fazendo-se nela expressa menção do sacerdote que deveria exercer essas funções. Nuno Cão (V. este nome),
que a Ordem de Cristo mandou á Madeira com faculdades especiais, foi o primeiro pároco da Sé, ao ser
criada esta freguesia, e também o primeiro deão, cargos que nos primeiros tempos eram cumulativamente
exercidos pelo mesmo individuo. A Nuno Cão sucedeu Filipe Rebelo, e por morte deste foi o logar de deão
separado do de pároco, sendo então criados dois curatos exclusivamente destinados ao serviço paroquial.
Os ultimos eclesiasticos que ocuparam o deado da Sé do Funchal foram Antonio Joaquim Gonçalves de
Andrade, Aires de Ornelas de Vasconcelos e João Joaquim Pinto (V. estes nomes). Até a implantação da
Republica, para ser provido neste logar, tornava-se mister a formatura em direito ou teologia.
Acerca do deado da Sé do Funchal e dos sacerdotes que exerceram este elevado cargo eclesiastico, leia-se a
serie de artigos publicada em "0 Jornal" nos meses de Dezembro de 1935 e Janeiro de 1936.
Debate (O)
Publicaram-se 93 numeros, sendo o 1º. a 16 de Novembro de 1902 e o ultimo a 12 de Maio
de 1903.
Decápodos.
V. Carcinologia
Declinação da Agulha
É o angulo que faz o meridiano magnetico com o meridiano astronomico.
No Funchal esse angulo era de 15º 30' W. em 1768 (Dr. Heberden); de 21º 32' W. em 1829 (Penny Cyclop.);
de 21º W. em 1835 (Wyld); de 21º W. em 1843 (Vidal); de 20º 57 1/2' W. em 1851 (A. P. de Azevedo); de
20º 56' W. em 1861 (Friesach); de 19º 55' W. em 1885 (Mapa do Almirantado); e de 19
(cid:1187)
W. em 1892 (idem).
Segundo os oficiais da Challenger, a declinação era 18º 25' W. a 4 de Fevereiro de 1872, e 20º 33' W. a 17 de
Julho de 1873. 0 coronel Francisco Afonso de Chaves, que em 1903 (22 de Junho) e em 1906 (4 de Junho)
fêz também observações magneticas no Funchal, achou que no primeiro destes anos a declinação era 20º
31'30" W. e no segundo 20º 36' 55'' W.
A 14 de Novembro de 1842 a variação magnetica no Pôrto Santo era 24º 38' 12", segundo se lê na carta
daquela ilha, do falecido general Antonio Pedro de Azevedo.
Bory, que visitou a Madeira em 1755 e publicou a relação da sua viagem na Histoire et Mémoires de
L'Académie Royale des Sciences pour l'an 1772, diz que “a variação da agulha magnetica, que a nossa
posição e a falta de meridiana nos impedia de conhecer em terra, foi muitas vezes observada a bordo do
Cometa; ela regulou entre 10º 35' W. e 11º 55'' o que dá o resultado médio de 11º 3/4. “
Dedaleira (Digitalis purpurea)
Planta bienal da familia das Escrofulariaceas, muito comum
na Madeira. As suas flores, que são pendentes e dispostas em cacho alongado, apresentam corolas grandes,
tubuloso-campanuladas e purpureo-rosadas, tendo na parte interna maculas mais escuras, rodeadas de
branco.
A dedaleira é muito venenosa, e em alta dose produz a morte; em dose moderada é util nas molestias do
coração, na asma, no reumatismo, etc.. A digitalina é o principio activo da dedaleira.
Os madeirenses dão ás vezes á dedaleira o nome de teijeira, mas a verdadeira teijeira é a Lappe minor,
planta da familia das Compostas, que também se encontra na ilha.
Defensor (O)
Deu trezentos e oitenta e seis numeros, o primeiro a 4 de Janeiro de 1840 e o ultimo a
18 de Maio de 1847.
Com o mesmo titulo se publicou outro jornal no Funchal, tendo saido o primeiro numero a 1 de Maio de
1912, e o ultimo, o numero 6, a 5 de Junho do mesmo ano.
Defensor da Liberdade (0)
Sairam noventa e seis numeros deste jornal, dois por semana, o
primeiro a 2 de Junho de 1827, e o ultimo em 26 de Abril de 1828.
Degredados
Nos tempos do govêrno absoluto, era uso serem degredados para a Madeira certos
criminosos cujas culpas não eram consideradas muito graves pelos tribunais. Joaquim Pedro Cardoso
Casado Giraldes (V. este nome) foi degredado para a Madeira por ter servido de interprete aos generais
franceses e espanhóis por ocasião da guerra peninsular, e há um oficio de José Lucio Travassos Valdez,,
datado de 25 de Maio de 1827, em que este governador e capitão-general aponta os inconvenientes que há
em serem remetidos para esta ilha degredados condenados a trabalhos publicos.
Delgado
Este apelido de familia procede de Pedro Delgado, o Nabo, o qual segundo diz o Dr. Azevedo,
casou com Isabel Fernandes, a Velha da Serra, sendo ambos nobres e da vila da Arruda, em Portugal. Foram
dos primeiros povoadores da ilha da Madeira, e tiveram sesmaria na Ponta do Sol, parece que no Lombo
das Adegas.
Democracia (a)
Publicou-se de 15 de Abril a 23 de Setembro de 1913, tendo saído 46 numeros.
Democrata (0)
Saíu o 1(cid:1187). numero a 7 de Abril de 1901 e o ultimo a 1 de Março de 1903, publicando-
se 98 numeros.
Publicou-se uma segunda serie do mesmo jornal de 8 de Março a 10 de Maio de 1903, saindo 10 numeros.
Dendrites
Infiltrações, geralmente de sais de manganés e ferro, que se encontram no interior das
rochas de fractura lamelar, com a aparencia de algas e musgos imprensados e de côr escura.
São vulgares nas traquites da Serra de Nossa Senhora, no Pôrto Santo, e raros nas lajeas basalticas de S.
Martinho. S.
Deniz
Este apelido da familia era usado pelo capitão Fernão Nunes Deniz, Gonçalo Deniz e outros, todos
no seculo XIV.
Dente de Cão
Dá-se este nome na Madeira ás ligeiras camadas de neve com a forma cristalina, que
aparecem nas serras depois dos grandes frios. Estas camadas de neve provêm da congelação rapida do
vapor de agua em contacto com os corpos em que elas aparecem.
As geadas ou dente de cão costumam aparecer na costa do norte acima de 600 ou 700 metros, mas na do sul
cremos que são desconhecidas dentro dos limites da região cultivada.
Quando há frios cortantes e demorados, costumam dizer os camponios que está caindo dente de cão.
Deportados Politicos
Por ocasião da revolta que se deu em Tôrres Vedras em 4 de Fevereiro de
1844, com o fim de fazer cair o governo de Costa Cabral, foram presos e enviados para a Madeira 23
insurgentes, entre os quais figuravam os advogados António Maria Ribeiro da Costa Holtreman e Leonel
Tavares Cabral, o juiz do Tribunal do Comercio Lourenço de Oliveira Grijó, o cónego Dr. Manuel Joaquim
Cardoso Castelo Branco e oito oficiais do exército.
Destes presos políticos, que vieram no brigue Douro, que chegou ao Funchal a 20 de Abril, e deram entrada
na fortaleza do ilhéu; os restantes vieram no cuter Andorinha, que chegou aqui a 28 do mesmo mês, e
recolheram á fortaleza do Pico. Foram todos postos em liberdade logo que chegou á Madeira a noticia
oficiosa do malogro da revolução de Torres Vedras.
Em 1919, depois da revolução monárquica dos princípios deste ano, vieram para o Funchal novos
prisioneiros políticos, que chegaram aqui no vapor Africa, da Empresa Nacional de Navegação, o qual fora
arvorado em transporte de guerra. Esses prisioneiros, em numero de 289, que vinham acompanhados de
uma fôrça de marinha, desembarcaram no dia 8 de Maio, três dias depois da chegada do Africa, sendo
instalados no Lazareto de Gonçalo Aires.
Entre os prisioneiros vinham o antigo ministro João de Azevedo Coutinho, o ex-coronel João de Almeida, o
conde de Sucena, o conde de Arrochela, o visconde de Siqueira e João Moreira de Almeida, tendo ficado no
Funchal uma força de 30 praças da armada e 1 sargento para guardar o Lazareto, e vindo juntar-se a essa
força, também para o mesmo fim, um destacamento de infantaria, comandada por um alferes.
Por determinação do capitão do porto, foi proibida a passagem e a permanência de quaisquer embarcações
na zona marítima limitada pela fortaleza de S. Tiago e o cabo Garajau.
Não obstante estas precauções, deu-se no dia 3 de Junho pelo desaparecimento de 8 prisioneiros, entre os
quais o conde de Sucena, sabendo-se depois que todos eles tinham chegado a Las Palmas, na lancha-
automovel Glafiberta, pertencente ao sportsman Humberto dos Passos, que foi quem preparou a evasão.
Sôbre o modo como se deu a fuga, lemos num jornal o seguinte: “Numa bela tarde, quasi todos os presos
políticos internados no Lazareto do Funchal saíram do edifício com o pretexto de arejar e juntaram-se na
nesga da praia que lhe fica imediatamente inferior. Os guardas limitaram-se a vigia-los das janelas do
Lazareto. Durante momentos cantaram, retoiçaram, deram vivas, e quando a algazarra atingia o seu auge e
os guardas estavam distraídos com o pagode, aproximou-se da praia um bote destacado da Glafiberta e
recolheu sem pressa, os 8 presos... Horas depois, a lancha-automovel, rebocada pelo Milano, da casa Blandy
(que ignorava que espécie de serviço se pedira ao seu rebocador), singrou em Direcção ás Desertas, e mais
tarde aproou ao sul, caminho das Canárias“.
Com os oito prisioneiros foi também o proprietário da Glafiberta, que pedira dias antes ao capitão do porto
autorização para fazer com o seu barco uma viagem á roda da ilha.
Dos restantes prisioneiros que haviam recolhido ao Lazareto, 7 foram postos em liberdade em virtude de
um telegrama recebido do ministro da guerra em 13 de Maio, tendo todos os demais saído para Lisboa em
diferentes paquetes que tocaram no Funchal desde Junho até Agosto. O vapor Moçambique conduziu os
prisioneiros, os últimos dos 280 que tinham desembarcado no Funchal em 8 de Maio.
Deputados.
V. Representação em Cortes
Desacato e Roubo na Igreja do Estreito
Na noite de 6 para 7 de Novembro de 1829 foi
arrombada a igreja do Estreito de Nossa Senhora da Graça de Câmara de Lobos, sendo roubados dali
diferentes vasos sagrados, algumas coroas de prata, 1 cordão de ouro com a imagem de Nossa Senhora, 1
flor de prata com engaste de pedras encarnadas, 1 cruz processional, 2 lâmpadas de prata, etc.. As partículas
que se achavam no sacrario foram consumidas pelos ladrões.
Dos autores deste crime, 6 foram condenados por sentença da Relação de Lisboa, de 6 de Março de 1830 a
serem garrotados no cais de Sodré, e 2 a degredo perpetuo para Africa. Os réus condenados á pena ultima
foram os seguintes: José Marreiros, anspeçada de infantaria 2, Jacinto Fernandes, trabalhador, Manuel de
Sequeira, trabalhador, Januario Soares, soldado de infantaria 13, João Rodrigues, o Espera Diabos,
trabalhador, e José de Andrade, o Rangido, quadrilheiro, sendo o primeiro e o quarto naturais de Portugal e
os restantes da Madeira.
Os três últimos réus, além da pena de garrote, foram condenados a serem arrastados desde a cadeia até ao
patíbulo, devendo depois de mortos terem as cabeças cortadas, a fim de serem expostas em postes durante
três dias.
Os réus condenados a degredo perpetuo foram Francisco de Sales Rodrigues, ourives, e Timoteo da Graça,
trabalhador, ambos naturais da Madeira, tendo a relação comutado depois em sentença de degredo para a
Africa, a sentença de morte proferida contra o réu José Marreiros.
Descobrimento do Arquipelago
Já muito se tem escrito acerca do descobrimento do
arquipelago madeirense, mas continua envolvida em densas trevas a determinação precisa da época em que
se realizou esse feliz e importante acontecimento. O problema não interessa apenas á Madeira, mas
igualmente á historia dos nossos descobrimentos marítimos, pois que ele representa o início glorioso dos
nossos feitos homéricos através de continentes e oceanos. O descobrimento da Madeira é o grande padrão
imorredouro que verdadeiramente marca o começo auspicioso da nossa odisseia de navegantes. Antes dos
portugueses aportarem a estas praias desconhecidas, só realizaram empreendimentos arrojados, mas quasi
inteiramente infrutíferos, e depois disso é que descobriram os Açores, a Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e
Príncipe, Angola, o Cabo da Boa Esperança, a Índia, o Brasil e essa infinidade de ilhas dispersas na vastidão
do Atlântico e do Pacifico. A descoberta deste arquipelago não representa somente uma notável expansão
territorial dos nossos domínios como nação, mas sobretudo assinala a nossa primeira grande conquista
como navegadores e futuros dominadores dos mares. Para uma nação, cujo principal papel na historia foi o
das navegações e conquistas marítimas, não pode deixar de ser considerada como um grande e glorioso
acontecimento a primeira importante descoberta que fizemos, devendo haver o mais acrisolado empenho
em fixar-se com inteira e absoluta precisão a época em que se deu esse notável acontecimento. A verdade é
que coisa alguma se tem feito nesse sentido. A pesar de existir no seio da Academia das Sciencias de Lisboa
uma comissão especialmente encarregada de promover a comemoração das nossas conquistas e
descobertas, não nos consta que tenha encetado quaisquer trabalhos de investigação histórica, com o fim de
determinar precisamente a época de algumas dessas descobertas e conquistas, como base segura e
indispensável para a celebração dessas mesmas comemorações.
Há varias lendas, conjecturas e hipóteses que fazem remontar o conhecimento da Madeira e outras ilhas do
Oceano Atlântico a épocas remotissimas, mas nada de positivo se acha a tal respeito averiguado. No artigo
Atlantida, já nos referimos á possibilidade da existência dessa ilha, de que fala o filosofo Platão,
reproduzindo as antigas tradições egipciacas, e a que porventura poderia ser a Madeira um pequeno
destroço do grande cataclismo que sepultou a talvez mitológica Atlantida nos abismos do Oceano.
Em torno da suposta ou verdadeira existência desta ilha, se têm arquitectado muitas hipóteses e inventado
variadas conjecturas, que só particularmente interessam aos que pretendam versar mais profundamente
esse assunto. Outra lenda, de que fazem menção alguns autores, é a das ilhas de S. Brandão, monge irlandês
que teria percorrido varias ilhas do Atlântico, uma das quais seria a Madeira. Ainda afirmam outros que os
fenicios, os árabes, os cartagineses e os normandos, em épocas diversas, percorreram as costas ocidentais
da Africa e visitaram muitas das ilhas dispersas pelo Atlântico, deixando em algumas delas vestígios da sua
passagem. Em especial do cartaginês Hanon e de seu Périplo, ou descrição de sua rota marítima, se têm
ocupado muitos escritores, havendo alguns autores de boa nota e de autorizada critica que reputam como
verdadeira a existência desta viagem. E deste modo se admitiria a possibilidade do arquipelago madeirense
ter sido ponto de passagem de alguma ou algumas dessas duvidosas e problemáticas navegações. Crê-se
geralmente, e com os mais bem alicerçados fundamentos, que essas viagens, devido ao atraso da arte de
navegar. À pequena lotação das embarcações, aos terrores que infundia a vastidão do oceano, á crença em
animais marinhos de enorme corpulência, capazes de tragar ou fazer sossobrar os navios, e ainda a outras
lendas e superstições, essas viagens, dizíamos, só se realizavam costa a costa, tendo-se principalmente como
balizas e pontos de referência os cabos, promontórios e pontas mais salientes da terra, não se abalançando
então os navegantes ás viagens de alto mar e ás largas e afastadas singraduras, que demasiadamente os
desviassem da vista da terra firme. É por estes ponderosos motivos que, embora se admita a possibilidade
dessas remotas navegações, todas as probabilidades militam a favor do facto geralmente aceito e
reconhecido de não haver sido o arquipelago madeirense visitado antes de João Gonçalves Zarco e Tristão
Vaz terem demandado estas ignotas paragens. O distinto geografo e historiador M. d'Avezac, na segunda
parte da sua notável obra Iles de l'Afrique, de pag. 2 a 41, ocupa-se largamente das lendas e tradições a que
aqui apenas fazemos uma rápida referência, e também delas se ocupa o ilustre anotador das Saudades da
Terra, numa das suas eruditas notas á obra de Gaspar Frutuoso. Não nos referimos neste lugar á conhecida
lenda de Machim, porque dela nos ocuparemos em artigo especial.
Sem entrar em conta com essas lendas e tradições têm alguns autores afirmado que não foram os navios
portugueses os primeiros que demandaram as praias deste arquipelago. Dessa opinião se fez eco o nosso
ilustrado patrício e distinto investigador Dr. Jordão de Freitas, no seu interessante opúsculo Quando foi
descoberta a Madeira?, afirmando que um frade mendicante espanhol do século XIV fez uma viagem a esta
ilha, e que na respectiva descrição, publicada em 1877 no boletim da Sociedade de Geografia de Madrid,
menciona claramente as ilhas Salvage, Desierta, Lecname e Puerto Santo. Já o visconde de Santarém se
referira setenta anos antes a essa viagem do monge espanhol, mas sem lhe dar foros de cidade, e até
considerando-a como de nenhum valor histórico e geográfico. Outros ainda, fundamentando-se
principalmente nas memórias históricas do académico Joaquim José da Costa de Macedo, insertas nas
Memórias da Academia de Lisboa e publicadas em 1816 e 1835 em que julgaram haver-se provado da
maneira mais concludente que os portugueses descobriram as ilhas Canárias no segundo quartel do século
XIV, afirmaram por isso que o arquipelago madeirense teria sido descoberto por essa época, não sendo
portanto as caravelas do infante, comandadas por Zarco e Tristão Vaz, as primeiras que aportaram á
Madeira. O ilustre publicista Dr. Teofilo Braga, pretendendo despojar D. Henrique da glória de ter sido o
verdadeiro iniciador das nossas grandes descobertas marítimas, compartilhou também daquela opinião,
mas sem aduzir argumentos decisivos e nem ainda aceitáveis probabilidades que tentem dar foros de
verdade, ao menos aparente, á sua arrojada afirmativa. A argumentação de Costa de Macedo baseia-se
especialmente numa carta dirigida por D. Afonso IV ao Papa Clemente VI, carta copiada dum autor
estrangeiro e que não oferece seguras garantias de autenticidade. Estes diversos problemas históricos, a que
aqui fazemos uma rápida referência, foram tratados por Aires de Sá no seu notável trabalho sôbre Gonçalo
Velho Cabral e mais tarde por João da Rocha na obra intitulada Lenda Infantista, publicada em 1916. Neste
ultimo estudo, prova-se exuberantemente e sem receio de uma contradita bem fundamentada, que os
portugueses não estiveram nas Canárias no segundo quartel do século XIV e que o arquipelago madeirense
foi descoberto por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz na época comummente indicada pelos historiadores,
não sendo anteriormente conhecido por outros navegadores nacionais ou estrangeiros. A Lenda Infantista é
sôbre o assunto, uma obra completa e exaustiva, como modernamente costuma dizer-se, não só pelo
indefesso e largo trabalho de investigação histórica, mas principalmente pela critica imparcial e justa com
que está escrita, e ainda pela segura e cerrada dialéctica que norteia toda a argumentação do seu autor.
Parece ponto averiguado que João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz foram arrojados por um violento temporal
ás praias da ilha do Porto Santo. Assim o afirmam os mais antigos cronistas que se ocupam do
descobrimento desta ilha. Iam aqueles navegadores á aventura das descobertas, á exploração do
desconhecido, demandando especialmente as terras da Guiné, que era então o ponto de atracção para as
navegações arrojadas dos portugueses, quando a tempestade os conduziu inesperadamente ás costas duma
ilha desconhecida. Gomes Eanes de Azurara (V. este nome), o mais antigo narrador destes acontecimentos
diz que
(cid:1176)
vendo o Ifante suas boas voontades (as de Zarco e Tristão), lhes mandou aparelhar hûa barcha, em
que fossem darmada contra os Mouros, encaminhandoos como fossem em busca da terra da Guiné... e
como Deos querya encaminhar tanto bem para este regno... guyouhos assy que com tempo contrairo
chegarom aa ilha que se agora chama do Porto Sancto...por cuja rezom leixaram aquela ilha e passaronse aa
outra da Madeira... “. Para mais completo esclarecimento deste texto de Azurara, transcrevemos o judicioso
comentario que lhe fêz o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo numa das anotações das Saudades:
“ Á vista do precedente texto, de Azurara, é claro que Zargo e Tristão Vaz, quando pela primeira vez
surgiram nas aguas deste arquipelago da Madeira, não os trazia cá alguma noticia deste, de origem
castelhana, inglêsa ou outra; iam “em busca da Terra da Guiné“, que era a mira constante de D. Henrique, e
segundo elle dera regimento aos seus navegadores: ninguem senão “DEOS OS GUYOU“, impellindo-os com
tempo contrairo“ á rota que levavam, até que “ASSY chegarom aa ilha que se agora se chama do Porto
Sancto“ e “no anno seguinte“ os mesmos descobridores “PASSARAM-SE“ da ilha de Porto-Sancto “aa outra
ilha da Madeira“.
“Passaram-se“, disse muito bem Azurara; que nesta só palavra se inclue perfeita a historia do
descobrimento desta ilha; historia muito mais ingenua e sã que todas quantas teem sido depois
phantasiadas; porque é physicamente impossivel estar alguns tempos na ilha do Porto Sancto, e, em dias
claros, não avistar reconhecidamente a terra da Madeira, tão alta como é. Neste ponto Azurara tem por si o
testimunho unanime de quantos aqui vivem, e confirmado pelo de quantas gerações aqui teem vivido de
Zargo para cá. O descobrimento de uma importava de força o da outra.- “Passaram-se“, sim os
descobridores portugueses, e de motoproprio, sem aventura de Machim, nem aviso de castelhano, simples e
chãmente, por mar de rosas; e assim ficou o descobrimento consumado.
“A' luz da prova resultante do exame local, Azurara, foi escrupulosamente veridico. Não o acoimem de
deficiente; que escreveu as palavras precisas para referir e afirmar o facto. “Deos guiou-os pela mão da
tempestade á ilha do Porto Sancto; e desta passaram-se Zargo e Tristão Vaz á da Madeira: está dicto
tudo“.
Os cronistas que imediatamente a Azurara se ocuparam do descobrimento da Madeira foram João de
Barros e Damião de Góis, cujas narrativas não diferem essencialmente da descrição do autor da Chronica da
Guiné. Anteriormente a Barros e a Góis, é certo que Diogo Gomes de Sintra e Luiz Cadamosto, não como
historiadores ou cronistas, mas como simples navegantes, se referiram nas suas narrativas ao
descobrimento deste arquipelago, não se encontrando contudo nelas quaisquer afirmações que contrariem
as terminantes asserções dos historiadores citados, particularmente Eanes de Azurara, que foi
contemporaneo dos factos que narrou.
Em que ano foi descoberta a ilha do Pôrto Santo? Como já acima fizemos notar, não está ainda averiguada a
data precisa desse acontecimento. Ouçamos no entretanto a narrativa de Gaspar Frutuoso:
“Chegando em poucos dias ao Porto Santo... viram logo do mar aquele negrume... E assim se detiveram
alguns dias... Hum demingo ante manhaa, tres horas antes de sahir o sol, mandou fazer os navios á vela...
Correram hum bom tempo a cometer o negrume... E sendo já tempo de meio dia... tendo pouco espaço
andado... viram... terra... e por ser já muito tarde não sahiram aquele dia em terra... Ao outro dia...
desembarcado... tomou posse... dia da visitação de Santa Izabel, dous de Julho do anno acima dito de 1419“.
Os trechos do dr. Gaspar Frutuoso, que ficam transcritos, são comentados pelo ilustre anotador das
Saudades, o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, nos termos seguintes:
“Quanto a ter o dia 1 de Julho, apontado pelo dr. Frutuoso, sido aquele em que Zargo chegou pela primeira
vez a esta ilha, não temos razões que oppôr; pelo contrario, a minudencia de precedentes, concomitantes e
consequentes com que o indica, leva a presumir que esta passagem seja uma das conservadas do antigo
manuscrito attribuido a Gonçalo Ayres e que depois foi correcto e augmentado pelo conego Leite“.
Para os menos versados em cousas históricas madeirenses, convém lembrar que Gonçalo Aires Ferreira foi
um dos companheiros de Zarco, a quem se atribue a autoria dum escrito intitulado Descobrimento da Ilha
da Madeira, cujo original se transmitiu, por herança, de pais a filhos, entre os capitãis-donatarios do
Funchal, até que no tempo do sexto capitão e segundo conde da Calheta, João Gonçalves da Câmara, se
serviu desse manuscrito o cónego da Sé do Funchal, Jeronimo Dias Leite, para escrever as notas que enviou
ao Dr. Gaspar Frutuoso e que este aproveitou para a sua importante obra As Saudades da Terra.
A termos como absolutamente certa a narrativa de Frutuoso, a Madeira fora descoberta no Domingo 1 de
Julho de 1419, efectuando-se o primeiro desembarque na praia de Machico no dia imediato, isto é na
segunda-feira 2 de Julho do mesmo ano. A esta terminante afirmativa do autor das Saudades, opõe o Dr.
Manuel Sardinha, em artigo publicado no Diário de Noticias desta cidade, de que é redactor, as seguintes
judiciosas reflexões:
(cid:1176)
Escrevendo o distinto açoreano em seu “Descobrimento das Ilhas ou Saudades da Terra“ que os
navegadores Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira alcançaram na sua nau “S. Lourenço“ a Madeira, em
um domingo, primeiro dia do mês de Julho, essa descoberta só podia ter sido efectuada em 1414 ou 1425,
anos mais próximos dos pretendidos, em que o dia 1 de Julho caíu num domingo. Em 1420 o dia 1.
(cid:1187)
de Julho
era uma segunda-feira. Com certeza a indicação de Frutuoso tem um erro: ou do dia da semana, ou dia do
mês. Enquanto que 2 de Julho de 1419 era um domingo!" 0 Dr. M. Sardinha chegou a estas conclusões, que
são inteiramente verdadeiras, depois de sérias investigações e estudos, podendo pois, peremptoriamente
afirmar-se que o dia 1 de Julho de 1420 caiu numa segunda-feira e o dia 2 de Julho de 1419 caiu num
domingo.
É evidente que há manifesto equivoco da parte do historiador das ilhas ao pretender determinar com
tamanha precisão o dia da descoberta da Madeira. Salvo mais autorizada opinião, somos inclinados a crer
que a caravela S. Lourenço dobrou a ponta que depois teve este nome e se aproximou da baía de Machico,
pela tarde de 1 de Julho de 1419, tendo se realizado o desembarque no domingo 2 de Julho do mesmo ano,
dia da Visitação de Santa Isabel.
No artigo que fica transcrito, redigido há muitos anos, deixámos consignadas as ideias então-correntes e
geralmente aceitas acerca do descobrimento do nosso arquipelago. Nesse período de tempo decorrido,
apareceram muitos artigos dispersos pelos jornais e publicaram-se vários opúsculos, que não resolveram
definitivamente o assunto no que de modo especial dizia respeito á segura fixação da época em que se deu
esse acontecimento, aos nomes dos verdadeiros descobridores e a outras circunstancias ocasionais que o
tivessem acompanhado. É, no entretanto, indubitável que novos e valiosos elementos se carrearam para a
solução do interessante problema, suscitando-se ponderosas dúvidas e surgindo desencontradas opiniões
originadas pela discussão e pelo estudo a que essa debatida matéria tem dado lugar. E, desta forma, alguns
princípios se assentaram e conjecturas muito prováveis se foram formulando, que postas ao serviço duma
mais rigorosa investigação histórica podem conduzir ao encontro da verdade.
A' luz dos conhecimentos que hoje possuimos, ninguem poderá sustentar como um ponto incontroverso que
a ilha do Porto Santo fosse descoberta no ano de 1418 ou 1419 e que a Madeira o houvesse sido num dos
anos imediatos de 1419 ou 1420, como em geral se tem afirmado sempre, repetindo-se invariavelmente o
que a tal respeito disseram alguns dos nossos mais antigos cronistas, a não ser que atribuíamos á palavra
“descobrir" o significado que teve de “reconhecer“ ou “encontrar de novo“, e ainda de “visitar“, como já
judiciosamente foi observado por alguns.
Os que nos últimos anos se têm ocupado deste assunto sustentam a opinião de que á data, em que
geralmente se atribue o descobrimento do arquipelago, já ele era conhecido pelos navegadores portugueses,
segundo várias razões o fazem acreditar. É sabido que então se mantinha um relativo sigilo acerca das
primitivas explorações marítimas, no tocante a épocas e logares, e até se afirma que em alguns roteiros e
descrições dessas viagens se encontram erros intencionalmente cometidos com o fim de ocultar, segundo as
circunstancias ocorrentes o aconselhavam, os descobrimentos que se iam realizando através dos mares
desconhecidos.
Não é fácil admitir-se que as cartas régias de doação feitas a João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz e das duas
nomeações para chefes das capitanias e ainda outros documentos oficiais da época não façam qualquer
referência ao facto do descobrimento, quando é certo que nelas se alude a circunstancias pessoais de
pequena importância comparadas com as daquele tão notável e honroso acontecimento, devendo advertir-
se que esses documentos foram passados quando já iam adiantados os trabalhos do povoamento e portanto
não se impunha então a necessidade de manter-se o aconselhado silêncio acerca dos descobrimentos
realizados.
O que parece averiguado e vai ganhando foros de verdade histórica é que João Gonçalves Zarco e Tristão
Vaz, poucos tempos antes de iniciarem os árduos trabalhos da colonização madeirense, teriam feito um
“reconhecimento“- deste arquipélago, como preparação para um próximo povoamento e em virtude de
ordens e instruções emanadas do próprio infante D. Henrique.
Para conseguir-se uma mais segura e larga noticia acerca deste assunto e conhecer-se as fases de caracter
lendário e histórico por que ele tem passado, é forçoso compulsar-se o notabilissimo estudo do Dr. Alvaro
Rodrigues de Azevedo inserto nas notas III-IV (pag. 329-432) das Saudades da Terra, e também os artigos
“Machico“, “Machim“ e “Madeira“ do Diccionario Universal Portuguez Illustrado devidos á pena do mesmo
escritor, embora se tenha de discordar de algumas das suas conclusões, á vista dos importantes trabalhos de
investigação e critica históricas realizados nos últimos anos. Além dessas eruditas notas e das obras nelas
citadas, é absolutamente indispensável fazer-se a consulta dos seguintes escritos, que aqui deixamos
apontados, como meros subsídios para o leitor que pretenda ter um conhecimento mais desenvolvido deste
assunto: “Memoria sobre a descoberta das ilhas de Porto Santo e Madeira“ por E. A. de Bettencourt, Lisboa,
1875; “Desenvolvimentos, guerras e conquistas dos portugueses em terras do ultramar nos seculos XV e
XVI“ pelo mesmo, Lisboa, 1882; “As relações do descobrimento da Guiné e das ilhas dos Açores, Madeira e
Cabo Verde“, de Diogo Gomes, escritas na língua latina no princípio do século XVI e traduzidas em
português por Gabriel de Almeida no ano de 1899 e publicadas no Boletim da Sociedade de Geografia de
Lisboa (17ª série, 1898-1899, n.º5); “Quando foi descoberta a Madeira“ por Jordão de Freitas, Lisboa, 1911;
“A Lenda Infantista“ por João da Rocha, 1916; “O Reconhecimento do Arquipelago da Madeira“ por Pestana
Júnior, Funchal 1920; “Apontamentos de Historia Insular“ por João Cabral do Nascimento, Funchal, 1927;
“0 Arquipelago da Madeira nos mapas e portulanos do século XIV“ por Antonio Ferreira de Serpa in
Arquivo Histórico da Madeira I-125 e seguintes; “D. Francisco Manuel de Melo e o descobrimento da
Madeira“ por Antonio Gonçalves Rodrigues, Lisboa, 1935; “A Relação de Francisco Alcoforado“ por João
Franco Machado, Lisboa, 1936; “Origens e evolução da cartografia náutica portuguesa, na época dos
descobrimentos“ por Antonio Barbosa, publicado na revista Ocidente (n 8-1938); “Zarco ou os efeitos da
publicidade“ por João Cabral do Nascimento, no Arquivo Histórico da Madeira V-81;
(cid:1176)
O Problema do
descobrimento da Madeira
(cid:1177)
por Antonio Alvaro Doria, publicado na revista Ocidente (n.º 19-1939 e n.º 27-
1940); “Quem descobriu o arquipelago da Madeira“ por Duarte Leite, artigos publicados no Primeiro de
Janeiro, do Porto, a 28 de Março e 4 de Abril de 1939 e que foram transcritos nos jornais diários do
Funchal; -O Descobrimento do Arquipelago da Madeira por M. Higino Vieira, Lisboa, 1939.
Com os conhecimentos até hoje adquiridos acerca deste debatido assunto, que tanto interessa á historia da
Madeira, poderemos, talvez, chegar ás seguintes conclusões: 1.º-Este arquipelago já era conhecido pelos
navegadores portugueses anteriormente ao ano de 1418; 2.º-São ignorados o ano do primitivo
descobrimento e os nomes dos primeiros descobridores; 3.º-O
(cid:1176)
reconhecimento
(cid:1177)
realizado por João
Gonçalves Zarco e Tristão Vaz poderá fixar-se nos últimos anos do primeiro quartel do século XVI, isto é
pelos anos de 1418 a 1425; 4.º-Os trabalhos do povoamento empreendidos por aqueles dois primeiros
donatarios deverão ter sido iniciados nos primeiros anos do segundo quartel do século XV, isto é nos anos
de 1425 ou pouco tempo depois dessa época.
Longe iríamos, se pretendêssemos reproduzir aqui a longa série de argumentos que têm sido apresentados
em favor dessas prováveis conjecturas, mas a brevidade que imperiosamente é preciso guardar na redacção
destas paginas obriga-nos a encerrar este já longo e fastidioso artigo.
Desembarcadouro
Em uma pequena saliência da costa marítima, a oeste da praia e enseada de
Machico, há um lugar que tem aquele nome e que a tradição afirma ter sido o ponto em que desembarcaram
os primeiros descobridores ou colonizadores da Madeira. Conviria que ali se levantasse um pequeno
padrão, comemorativo do facto historico do descobrimento ou do inicio da colonização da Madeira.
Desembarcadouros (Ilhéu dos)
A Carta Geo-Hydrographica da ilha da Madeira, do general
A. Pedro de Azevedo, traz este ilhéu indicado com a denominação de ilhéu Vermelho ou de Ametade sendo
também conhecido pelos nomes de Ilhéu da Cevada ou dos embarcadouros, como vem mencionado em
outros lugares. São considerados como fazendo parte da Ponta de São Lourenço (V. este nome) e ficam na
linha do seu prolongamento o Ilhéu de Agostinho, este dos Desembarcadouros e o Ilhéu de Fora. O mais
pequeno e mais próximo da Ponta propriamente dita e dela separado por um estreito canal é o ilhéu de
Agostinho (V. este nome), seguindo-se-lhe o dos Desembarcadouros e, a leste deste, o ilhéu de Fora ou do
Farol. Este ilhéu dos Desembarcadouros fica, pois situado entre os ilhéus de Agostinho e o de Fora. Os dois
ilhéus dos Desembarcadouros e de Fora estão entre si separados por um canal chamado Boqueirão Grande,
que mede 180 metros de largura e tem cerca de 8 metros de fundo, sendo por isso navegável para os “barcos
de carreira“ e vapores costeiros, que o atravessam frequentemente. Tem o Ilhéu dos Desembarcadoros uma
eminência, a cerca de 100m de altitude, conhecida pelo nome de Pico Vermelho, e uma pequena praia, que
dá acesso á parte superior do mesmo ilhéu. Destes três ilhéus chamados Ilhéus da Ponta de São Lourenço, é
o dos Desembarcadouros de mais vasta área e de terreno bastante acidentado.
A parte superior do ilhéu dos Desembarcadouros é de difícil acesso, mas galgadas as rochas do litoral,
torna-se fácil percorrê-lo em todas as direcções. O naturalista Lowe chamava-o o horto botânico da Ponta
de S. Lourenço, em razão de se encontrarem ali reunidas muitas espécies raras, difíceis de achar noutras
partes da Ilha. A Beta patuta, o Crepis divaricata, o Asphodelus fistolosus e o Phalaris maderensis são
plantas que, na Madeira, não têm sido achadas fora do ilhéu dos Desembarcadouros.
Este ilhéu é também conhecido pelos nomes de ilhéu da Metade, Vermelho, da Cevada e dos
Embarcadouros, e está separado do Ilhéu de Fora pelo chamado Boqueirão Grande. Tem do lado W. uma
praia ou calhau, que é coberto em dois logares pelas águas durante a preiamar.
Deserta Grande ou somente Deserta (Ilha da)
Das três ilhotas que formam o grupo
das Desertas, é a mais importante e de maior superfície a chamada Deserta Grande ou simplesmente
Deserta. Aproximadamente na direcção norte-sul, ficam o Ilhéu Chão, a Deserta Grande e o Bugio,
separados entre si por estreitos boqueirões, apenas navegaveis para barcos de pequena lotação.
(cid:1176)
A Deserta
Grande (Dic. Univ. Port. II. assim denominada por ser a maior delas; mede sete milhas e um terço ou treze
quilómetros e meio de comprimento por uma milha e um terço ou quasi dois quilómetros e meio de largura:
é separada quer de um quer de outro daqueles dois ilhéus por estreitos boqueirões ou canais onde só barcos
navegam: tem... em circuito rochas escarpadas sôbre o mar, sendo acessível só em um pequeno porto a
oeste, de onde por estreito córrego e ás voltas se sobe ao alto, que é quasi plano das três Desertas, esta é a
única que tem água potável, mas salobra, e de uma só e escassa nascente
(cid:1177)
. Nesse alto, forma-se uma pequena
planície, atravessada em parte por um vale que tem o nome de Pedregal, e ali se levanta uma eminência de,
cerca de 480m de altitude.
A Deserta Grande nunca teve uma população de caracter permanente mas apenas temporária e somente na
época da caça e da colheita da urzela.
A Deserta Grande teve outrora uma casa de telha e duas palhoças, mas presentemente cremos que só existe
a primeira. Também houve ali uma capela, mandada construir pelo Infante D. Henrique, onde era obrigado
a estar um clérigo durante a semana Santa e nos meses de Novembro e Dezembro, pago pelos dizimos da
ilha.
Quando Frutuoso escreveu as Saudades Terra havia na Deserta 8 homens com 1 feitor, encarregados de
colher a urzela e cuidar dos gados e de algumas culturas de trigo e cevada que ali se faziam, mas mais tarde
chegou a haver 20 a 30 homens empregados nestes trabalhos. Também chegou a estacionar ali durante
largo tempo uma pequena força militar, encarregada da defesa e guarda da ilha.
As pessoas que visitam a Deserta Grande desembarcam em geral no porto da Castanheira ou a oeste da
Ponta do Norte, não sendo difícil de qualquer destes pontos alcançar o interior da ilha, que no alto é mais
ou menos plano, mas onde por causa do gado e da falta de águas se não cultivam agora cereais ou outras
plantas úteis. Em 1823 ensaiou-se ali, mas sem resultado, a cultura da semilha, do tabaco e da vinha.
Há na Deserta gado caprino, coelhos e alguns gatos bravos, tendo estes últimos sido levados para ali no
século XIX, para destruírem os roedores que devastavam as cearas. A urzela, que era colhida outrora para
exportação, abunda nas rochas da ilha, e a barrilha aparece em muitas localidades, assim como várias
plantas próprias para a alimentação dos gados.
A população que M. d'Avezac cuida haver na Deserta, diz o Dr. Azevedo, os conventos cercados de laranjais
que Bouillet ahi imaginou e os estimados vinhos que este atribue ao Ilheu Chão, assim como Dezobry e
Bachelet ao grupo todo, são meros sonhos de levianos turistas, em cujos escriptos estes escriptores
incautamente confiaram, com o que deram causa a que outros, portugueses mesmos, cahissem em taes
aberrações“.
Em 1503, alguns pastores se defenderam na Deserta Grande de um ataque de cerca de 80 inglêses dirigidos
pelo corsário português Penteado, “deitando pedras pelo regato abaixo, diz Frutuoso, com as quaes as
rochas, quebrando, os ajudavam com terra e outras pedras que de si sacudiam, de tal maneira que os
inimigos se tornaram a embarcar com mais pressa da que com que subiram; e vindo os pastores abaixo
depois deles embarcados, acharam um cão de fila e muitas flexas, que com a pressa deixaram, e no calhau
muito sangue de inimigos feridos“.
Perto da casa da Deserta Grande há dois reservatórios de água turva e uma fonte que dá pouco mais de um
barril de água no espaço de algumas horas. No sítio da Eirinha também se encontra alguma água.
Em 1894 deu-se um grande desabamento de terrenos no litoral da Deserta Grande, de que resultou o mar
avançar e recuar depois em vários pontos da costa sul da Madeira. Houve quem atribuísse este
desabamento a um abalo de terra, que, a ter-se dado, não foi sentido no Funchal.
A Deserta Grande pertenceu á capitania do Funchal até o 3.º capitão donatario Simão Gonçalves da
Câmara, mas por morte deste passou para Luiz Gonçalves de Ataide, filho do mesmo capitão e de sua
segunda mulher D. Isabel da Silva, como dote e arras de sua mãi. Por essa época rendia a ilha cerca de
200$00 réis anuais.
Os lobos do mar (Monachus albiventer) aparecem nas furnas da Deserta Grande, mas são agora pouco
abundantes.
No mês de Setembro de 1930, numa eminência sobranceira á Praia da Lapa da Deserta Grande se
inaugurou um pequeno monumento religioso, que consta dum modesto plinto sobre o qual assenta uma
imagem de Nossa Senhora das Graças e que se deve á iniciativa do madeirense Rui da Silva.
Desertas (Ilhas)
Compõe-se este grupo de três pequenas ilhas conhecidas pelos nomes de ilhéu
Chão, Deserta Grande ou simplesmente Deserta e Bugio. Encontram-se na direcção nor-noroeste a su-
sudeste com a Ponta de São Lourenço e a sueste da Madeira, ficando mais próximas daquela Ponta. Ao
norte das três ilhotas, acha-se um pequeno ilhéu conhecido pelos nomes de Furilhão, ou melhor Farilhão,
Ilhéu ou Rocha do Navio e ainda de Prego do Mar (V. este nome) o qual está separado do ilhéu Chão por
apertado canal. Na direcção aproximadamente norte-sul, segue-se ao ilhéu Chão a Deserta Grande e a esta o
Bugio, afastados entre si por estreitos boqueirões, apenas navegaveis para embarcações de exígua lotação.
Os pontos extremos deste pequeno grupo de ilhas ou minúsculo arquipélago, como já foi classificado, são:
pelo norte, o referido Ilhéu do Furilhão; pelo sul, a Ponta das Agulhas, na extremidade sul do Bugio; por
leste a mesma Ponta; e, por oeste, a Ponta do Pedregal, na costa ocidental da Deserta Grande. A situação
geografica das três ilhas, consideradas em conjunto, é esta: ficam entre 32º 35' e 32º 22' 20'', lat. norte e
entre 16º 27' 25'' e 16º 32' long. oeste (Greenwich). Dista este grupo cerca de onze milhas ou
aproximadamente vinte quilómetros da Ponta de São Lourenço. As Desertas consideram-se como
pertencendo á freguesia da Sé, mas parece que já estiveram encorporadas na paróquia do Caniço e
geralmente ali se sepultavam os indivíduos que faleciam naquelas ilhas.
0 Ilhéu Chão (Pôrto de Santa Maria) fica distanciado cerca de 19 milhas do porto do Funchal, 15,5 do
Caniço, 14 de Santa Cruz, 14,5 de Machico e II da Ponta de São Lourenço. A Deserta Grande (Carga da Lapa)
acha-se 22 milhas aproximadamente distante do Funchal. A Ponta da Agulha, do ilhéu Chão, que é o ponto
mais meridional do grupo das Desertas e do arquipélago madeirense, dista do Porto do Funchal quasi 27
milhas.
0 encontro deste grupo anda ligado ao descobrimento da Madeira, pois que não é possível demandar a
costa-sul desta ilha sem se avistar distintamente as Desertas. Parece que algumas tentativas de colonização
se fizeram, mas especialmente a falta de água e ainda outras circunstancias locais não permitiram nunca um
povoamento no sentido rigoroso deste termo. Nas épocas mais apropriadas á caça, á pesca e á colheita da
urzela permaneciam para esse fim alguns homens na Deserta Grande, mas nunca ali houve habitantes de
moradia fixa. As Ilhas Desertas pertenciam aos capitãis-donatários do Funchal, passando do terceiro
donatário Simão Gonçalves da Câmara a seu filho Luiz Gonçalves de Ataíde e depois ao filho deste João
Gonçalves de Ataide, que foi o sexto conde de Atouguia, em cuja casa ficaram encorporadas as mesmas
ilhas. A sua posse transitou para os condes da Taipa, tendo o representante desta casa, Gastão da Câmara
Coutinho, 12.º senhor das Desertas, vendido a propriedade delas em 1864, a Alexandre Fernandes
Camacho, passando depois ao filho deste, do mesmo nome. Em 1894 foram arrematadas, em hasta pública,
por Henrique Hinton e Carlos Cossart.
Subordinado ao título As Desertas, publicou o Sr. Alberto Artur Sarmento um folheto em que se encontram
valiosas informações sôbre a Deserta Grande, o Bugio e o Ilhéu Chão, e no livro intitulado La carrière d'un
navigateur, dedicou o príncipe de Mónaco o capítulo La Chasse a uma interessante descrição de uma caçada
nas Desertas. Na revista francesa Le Cosmos, de 1902, no Diário do Comercio, de Março de 1903, no
boletim da Sociedade Portuguesa de Sciencias Naturais, de 1911, e na Revista Semanal, de 1861, pag. 108,
também se podem colher alguns esclarecimentos sôbre o mesmo grupo de ilhas.
V. os artigos Arquipélago da Madeira, Deserta Grande, Bugio e Ilhéu Chão.
Desertas (Pontas das Ilhas)
As maiores saliências da costa marítima do grupo das Desertas
são a Ponta de Santa Maria, no litoral oeste do Ilhéu Chão, as da Castanheira e Pedregal, na costa-oeste da
Deserta Grande e a Ponta das Agulhas no extremo-sul do Bugio. (V. estes nomes).
Desinfecções
V. Posto de Desinfecção e Posto Marítimo de Desinfecção
Desporto (O)
Deu o 1.º numero a 17 de Abril de 1918 e publica-se quinzenalmente.
Desterro
Sítio povoado da freguesia do Monte, em que se encontra uma capela dedicada a Nossa
Senhora do Desterro, que foi fundada no ano de 1625 pelo cónego Jorge Furtado de Sousa e restaurada
recentemente pelo Dr. Juvenal de Araújo seu actual proprietário.
Diabelha (Plantago Coronopus)
Planta da família das Plantaginaceas, frequente na
Madeira, Porto Santo e Desertas. Tem as folhas dispostas em roseta, alongadas, peludas ou quasi glabras, de
ordinário 1-2-penatipartidas, e as espigas estreitas, com pedunculos basilares. A infusão das suas folhas
usa-se em gargarejos nas moléstias de garganta. 0 nome de diabelha é mais conhecido no Porto Santo do
que na Madeira.
Diabinho (João Nunes)
Nasceu no Funchal a 16 de Março de 1850, foi por largos anos
empregado da estação semaforica do Ilhéu, cargo este em que se aposentou, e é muito conhecido como
charadista, tendo colaborado no Almanach de Lembranças e noutras publicações. Inventou e construiu um
aparelho a que deu o nome de despertador-translator, e é homem de inegaveis faculdades artísticas, como o
provam vários outros trabalhos que tem executado. Morreu a 11 de Janeiro de 1927.
Diário da Madeira. Publicou-se desde 3 de Novembro de 1880 a 15 de Dezembro de 1881, saindo 281
números.
Com o mesmo título, começou a sair outro jornal no dia 1 de Janeiro de 1912, que ainda actualmente se
publica. Foi seu primeiro director Francisco Bento de Gouveia, e seguidamente o Dr. Juvenal Henriques de
Araújo e o major J. Reis Gomes.
Diário da Manhã
O primeiro número publicou-se a 8 de Julho de 1882 e o ultimo que foi o numero
129, a 7 de Dezembro do mesmo ano.
Diário da Tarde
Saíram 305 números deste jornal, sendo o primeiro a 17 de Dezembro de 1881 e o
ultimo a 30 de Dezembro de 1882.
Diário de Notícias
O primeiro periódico que se publicou nesta cidade foi o Patriota Funchalense,
em 1821, que era bi-semanal e 55 anos depois saiu o primeiro jornal quotidiano - o Diário de Noticias, - que
deu o seu primeiro numero a 11 de Outubro de 1876.
Num meio restrito como a Madeira e onde o amor pelo cultivo das letras nunca foi grande, a iniciativa da
publicação dum jornal diário representa um empreendimento arriscado, mas digno do mais alevantado
elogio. Aquela data marca uma étape gloriosa na historia do jornalismo indígena, e o nome do fundador
deste jornal está insculpido em letras de ouro nos anais do nosso movimento literário.
O ilustre madeirense, o cónego Alfredo César de Oliveira, poeta, jornalista e orador de raros méritos, foi o
iniciador da publicação desse jornal diário, que a muitos pareceu uma utopia irrealizável e ao maior numero
uma empresa cuja existencia iria pouco além da das rosas de Malherbe... Amparou-a durante alguns anos
com a força do seu talento, do seu prestigio e da sua influencia, tendo para isso que lutar com enormes
dificuldades, que a tenacidade e a energia da sua vontade souberam inteiramente dominar.
Na redacção e direcção do Diario de Noticias teve o cónego Alfredo de Oliveira a valiosa coadjuvação do
distinto escritor madeirense João de Nobrega Soares.
Foram sucessivamente redactores deste jornal, além do cónego Alfredo C. de Oliveira e de João de Nobrega
Soares, os seguintes escritores e jornalistas: Francisco Clementino de Sousa, João José Vieira, capitão
Antonio Alves Conti, alferes Augusto César de Morais, capitão José Augusto Pereira Ramalho, tenente João
Augusto César de Freitas, padre João Mauricio Henriques, tenente João José de Freitas, João José de
Macedo Júnior, Luiz de Ornelas Pinto Coelho, Ciriaco de Brito e Nobrega, padre Fernando Augusto da Silva,
Dr. Manuel Sardinha, Francisco da Conceição Rodrigues, José da Silva Coelho, Dr. Domingos dos Reis
Costa, Feliciano Soares e Dr. Alberto de Araújo.
A propriedade da empresa deste jornal passou do cónego Alfredo de Oliveira para Alexandre Fernandes
Camacho e depois para o barão do Jardim do Mar e João Eleuterio Martins, sendo hoje seus proprietários
Blandy Brothers.
Os primeiros 24 números publicaram-se na Calçada do Cidrão, e começou depois a sair da sobre-loja do
edifício onde esteve há poucos anos o governo civil, á rua de João Tavira, passando mais tarde todas as suas
instalações para o prédio que faz esquina com a mesma rua e princípio da Avenida do Dr. Manuel de
Arriaga.
É o jornal mais antigo da Madeira e aquele que entre nós tem tido mais larga e prospera existencia.
Diário do Commercio
Publicou-se o primeiro numero a 1 de Outubro de 1891 e o ultimo a 8 de
Setembro de 1896, tendo saido 8 números.
Diário do Commercio (O)
O primeiro numero saiu a 9 de Setembro de 1896 e o ultimo, que foi
o numero 4023, a 12 de Maio de 1911.
Durante muitos anos foi Francisco Antonio Ferreira o redactor principal deste jornal.
200, a
Diário do Funchal
Iniciou a sua publicação a 5 de Novembro de 1877 e terminou com o n
14 de Julho de 1878.
Diário Popular
Iniciou a sua publicação a 18 de Dezembro de 1882 e suspendeu a 25 de Novembro
de 1888, tendo saído 282 números.
Saiu outro jornal com o mesmo nome a 1 de Julho de 1897, cuja publicação suspendeu a 24 de Dezembro de
1911, tendo dado 137 numeros.
Dias
Este apelido de família é muito antigo entre nós. Um dos primeiros que o usou nesta ilha foi Rui
Dias de Aguiar, filho de Diogo de Aguiar e neto de Zarco.
V. Aguiar.
Dias (Baltazar)
Das circunstancias pessoais deste madeirense pouco se sabe, a pesar de ter tido
grande nomeada no seu tempo como poeta e autor de vários autos, que as classes populares liam
avidamente e de que se fizeram muitas edições. Vagamente consta que nasceu na freguesia de Sant'Ana e
presume-se que tivesse passado uma parte considerável da sua vida no continente do reino, onde faleceu em
ano que não podemos determinar. Diz Barbosa Machado na sua Bibliotheca Lusitana “que foi um dos
celebres poetas que floresceram no reino del-rei D. Sebastião, principalmente na composição de autos, com
a circunstancia de ser cego de nascimento“, limitando-se o Diccionario Bibliographico de Inocencio, no
tomo 1, a reproduzir a sucinta noticia que dá Barbosa Machado.
Dá Inocencio nota das seguintes composições de Baltazar Dias: Auto d'el-rei Salomão, 1613; Auto da Paixão
de Christo, metrificado, 1613; Auto de Santo Aleixo, 1613, 1616, 1638, 1749 e 1791; Auto de Santa Catharina
Virgem e Martyr, 1616, 1638, 1659, 1727 e 1786: Auto da Feira da Ladra, 1613; Conselhos para bem casar,
1638, 1659 e 1680; Auto da milicia das mulheres, 1640 e 1793; Historia da Imperatriz Porcina, mulher do
Imperador Lodonio de Roma, 1660, que tem sido reimpressa muitas vezes; Auto do Nascimento de Christo,
1665; Trovas de arte maior sobre a morte de D. Joâo de Castro...; Tragédia do Marquez de Mantua, 1665.
São de Inocencio os seguintes esclarecimentos, que textualmente transcrevemos:
(cid:1176)
Esta tragédia (a do Marquez de Mantua) de que ha várias reimpressões posteriores, foi ultimamente
incluída pelo V. de Almeida Garrett no tomo III do seu Romanceiro (Vol. XV das Obras) de paginas 195 até
296, onde os leitores a poderão ver. Ahi se emitte a opinião de que esta versão portugueza de um romance
originalmente francez ou provençal, data dos fins do século XIV, ou quando muito dos princípios do século
XV. Se assim for, não seria por certo Balthasar Dias, e erradamente lhe andava atribuída pelos nossos
bibliographos; o que todavia o illustre critico parece ignorar, pois que nem palavra diz de Balthasar Dias,
nem de que a obra andasse jamais em nome deste.
“Bem desejara eu aclarar melhor o que diz respeito a este antigo poeta, cujas producções ou suas ou
attribuidas, são tão conhecidas e vulgares, quanto são ignoradas as suas circunstancias pessoaes, e a epocha
precisa, e certa em que viveu:-e também verificar se além das edições que ficam apontadas, extrahidas da
Bibl. Lus., e repetidas no Catalogo da Academia, ha outras mais anteriores, como parece provável, se o
auctor viveu na epocha que se diz: não posso porém satisfazer ainda este desejo, por não ter colhido
resultado satisfatório das investigações até agora feitas.
“Se obtiver, como espero, algumas noticias ulteriores, direi no Supplemento o que tiver accrescido. O que é
innegavel, sejão ou não de Balthasar Dias essas obras que andam em seu nome, é que ellas tem tido (se não
todas, a maior parte) repetidas reimpressões: e que apesar dos erros de que andam cheias, que muitas vezes
desfiguram o sentido, tem toques tão nacionaes e tão gostosos para o povo, que ainda hoje são procuradas e
lidas tanto em Lisboa como nas províncias. “Percorrei, (diz um dos nossos mais conspícuos autores
modernos) as choupanas nas aldeias e as oficinas e lojas de artífices nas cidades, e em quasi todas achareis
uma ou outra das multiplicadas edições dos autos de S. Aleixo, S. Catharina, Imperatriz Porcina, Malicia das
Mulheres, etc, “
No tomo VIII do seu Diccionario, acrescenta Inocencio o seguinte: - “Subsiste acerca deste nosso poeta, da
epocha certa em que viveu e do tempo em que pela primeira vez se imprimiram as producções cuja
paternidade se lhe attribue, a mesma escassez de noticias, que torna escuro e duvidoso tudo o que a elle diz
respeito“.
Na “Recapitulação da Historia da Litteratura Portuguesa II. Renascença“, de Teofilo Braga, encontram-se, a
pag. 308, as seguintes interessantes informações:
“De todos os poetas da eschola vicentina foi o querido do povo, cuja sympathia ainda dura, sendo lido e
representado pelas aldeias: Homem carecido de vista, se lê d'elle em um manuscripto do século XVII, o que
no alvará de 29 de Fevereiro de 1537 com o privilegio para a publicação das suas obras se confirma:
(cid:1176)
faço
saber que Baltazar Dias, ceguo, da ilha da Madeira, me disse per sua petyçam que tem feytas algûas obras
assy em prosa como em verso, as quaes foram já vistas e aprovadas e algûas d'ellas ymprimidas, segundo
podia ver por um pubrico estromento que perante mi apresentou. E por quanto elle quer mandar imprimir
as ditas obras que tem feitas e outras que espera de fazer, por ser homem pobre e nam ter outra industria
para viver por o carecimento de sua vista se nam vender as ditas obras, me pidia houvesse por bem, por lhe
fazer esmolla, dar-lhe de privilegio pera que pessoa alguma não possa imprimir nem vender suas obras sem
sua licença, com certa pena. “ Concedido o privilegio e imposta multa de trinta cruzados ao contrafactor,
impoz-se-lhe:
(cid:1176)
se elle fizer algumas obras que toquem em cousa de nossa santa fee, nam se imprimiram sem
primeiro, serem vistas e enjaminadas por Mestre Pedro Margualho, e vindo por elle vistas e achando que
não falla em cousa que se não deva fallar, lhe passe disso certidam, com a qual certidam hey por bem que se
imprimam as taes obras e d'outra maneira nam. “
Estes rigores de censura eclesiástica foram systematisados no primeiro Índice dos Autos condemnados pelo
Cardeal Infante D. Henrique em 1551, e pelos que prohibiram os Autos sobre assumptos tirados da Bíblia e
dos Evangelhos. Perderam-se o Auto del rei Salomâo, o Auto da Paixâo de Christo metrificado, o Auto da
Feira da Ladra. São ainda de uma grande actualidade o Auto de Santo Aleixo e o Auto de Santa Catherina
formados nas narrativas da Legenda Aurea e a tragédia do Marquez de Mantua. Tinha um vivo sentimento
poético, que faz com que ainda sejam lidos pelas aldeias a Historia da Imperatriz Porcina, a Malicia das
Mulheres e os Conselhos para bem casar. Por uma estrophe d'esta sátira popular sabe-se que viveu os seus
últimos annos na Beira:
Vossa fama pregoeira
Me faz esta vos mandar,
Posto que estou n'esta Beira
Tão remoto de trovar,
Que não faço trova inteira.
Bem mereciam todas estas obras de cunho classico dispersas em folhas volantes, ficarem reunidas em um
volume com uma cuidada recensão litteraria. Supõe-se ter falecido pelo fim do reinado de D. Sebastião. “
Dias e Sousa (Bartolomeu dos Martires)
Foi deputado pela Madeira nas sessões
legislativas de 1842 a 1845 e de 1846.
Era formado em cânones e fez as campanhas da liberdade. Distinguiu-se como político e jornalista. Dizia-se
que era homem duma profunda cultura intelectual.
Nasceu a 27 de Julho de 1806 e morreu a 7 de Janeiro de 1872.
Dias Ferreira (Dr. Augusto)
Foi deputado pela Madeira na sessão legislativa de 1892 a 1893.
Era filho do grande jurisconsulto e estadista José Dias Ferreira.
Dias Ferreira (José)
Este distinto político e jurisconsulto chegou ao Funchal, onde se demorou
alguns meses, a 7 de Março de 1873, tendo residido na quinta Bianchi, ao sítio da Nazaré, em S. Martinho,
que é hoje propriedade dos herdeiros de Manuel José de Favila Vieira e pertencia a esse tempo ao falecido
negociante Augusto César de Bianchi, depois visconde de Bianchi.
O conselheiro José Dias Ferreira nasceu a 30 de Novembro de 1837 e faleceu em Vidago a 9 de Setembro de
1907.
Dias Leite (Cónego Jerónimo)
Foi cónego de meia prebenda da Sé do Funchal, lugar de que
tomou posse no ano de 1572, sendo em 1590 nomeado cónego de prebenda inteira. Ignoramos a sua
naturalidade e outras circunstancias pessoais que lhe digam respeito. O seu nome é muito conhecido dos
que se dedicam a investigações históricas madeirenses, porque foi talvez ele o primeiro que entre nós se
dedicou a este género de estudos. Tomando por base de seu trabalho um pequeno escrito deixado por
Gonçalo Aires (V. este nome), companheiro de Zarco, sôbre o descobrimento da Madeira, e “ajudando-se,
diz Frutuoso, dos tombos das Câmaras de toda a ilha (que todos lhe foram entregues) “escreveu a História e
Informação dos ilustres capitães da ilha da Madeira.
O autor das Saudades da Terra em mais de um lugar confessa que foi Dias Leite quem lhe forneceu os
principais elementos para o trabalho que em 1590 escreveu na ilha de São Miguel. Referindo-se ao
manuscrito de Gonçalo Aires, diz que Dias Leite “o recopilou, acrescentou e lustrou com seu grave e polido
estylo, escrito em onze folhas de papel e mo inviou“.
Perder-se-ia a obra do cónego Jerónimo Dias Leite? Referindo-se o Dr. Alvaro de Azevedo aos autores que
se ocupam do caso de Machim, diz possuir um manuscrito anónimo, intitulado Historia do descobrimento
da ilha da Madeira e da descendência nobilissima dos seus valerosos Capitães, que ele presume ser o
original redigido por Dias Leite pouco antes de 1590, acrescentando em outro lugar que é “escripto em 22
folhas de quarto pequeno e algumas linhas mais, isto é onze folhas de papel“, o que parece indicar ser este o
próprio manuscrito original de que fala Gaspar Frutuoso.
Na Biblioteca da Câmara Municipal do Funchal existe um manuscrito, que tem sido por alguns considerado
como o trabalho histórico de Jeronimo Dias Leite, embora seja talvez uma copia, e não o verdadeiro
original. Deste curioso escrito foram publicadas algumas poucas paginas por meados do século passado, de
que se encontra um exemplar na mesma biblioteca, o unico de cuja existencia temos conhecimento. Entre
os antigos manuscritos que se ocupam de cousas madeirenses, devera ser este um dos que primeiramente
merecessem as honras da publicidade, embora talvez se não possa verificar se a autoria pertence ou não ao
cónego Dias Leite, porque, independentemente dessa circunstancia, encerra noticias interessantes e
curiosas e é sem duvida um valioso subsidio para a historia deste arquipelago.
Sôbre este assunto, é interessante ler-se o capítulo “O manuscrito de Gonçalaires“ do livro de João Cabral
do Nascimento intitulado Apontamentos de Historia Insular.
Dibblee (Harrison)
Representante da Cruz Vermelha Americana, que chegou á Madeira a 6 de
Novembro de 1918 no transporte Lake Forest, que trouxe para esta ilha 1465 sacos com semilha, 1047 com
feijão, 3000 com farinha de milho e 10628 com milho em grão, remetidos por aquela benemérita sociedade,
a pedido de Mr. Kemper, cônsul americano no Funchal. Este importante fornecimento de mantimentos
constituiu um alto beneficio prestado á população madeirense, que lutava já com a fome, devido a estarem
quasi esgotados os géneros destinados á sua subsistência.
Em homenagem a Mr. Dibblee e ao cônsul americano, houve no dia 9 de Novembro um jantar no Palácio de
S. Lourenço, em que tomaram parte 76 convivas, tendo-se realizado também duas manifestações populares,
uma promovida pela Câmara Municipal e a outra pelas classes operarias, ambas com o fim de agradecer
àqueles dois beneméritos estrangeiros o terem abastecido o nosso mercado do cereal necessário para o
nosso consumo publico.
Mr. Dibblee saiu para Norfolk (Virginia) a 17 de Novembro, e residiu, enquanto esteve no Funchal, no
palacio de S. Lourenço.
Diferença
Sítio povoado da freg. do Faial, onde Manuel Carvalho Valdavesso, genro do Valentim de
Ornelas e Vasconcelos 7.º morgado da Penha de Águia, edificou no ano de 1725, uma capela da invocação de
São Luiz.
Dillon (Frank)
Tirou diferentes vistas da Madeira em 1848 e 1849, as quais foram publicadas mais
tarde em Londres, com o título seguinte: A Series of Views of Funchal and its Neighbourhood.
Diniz (Julio)
Joaquim Guilherme Gomes Coelho, o eminente romancista que em todos os seus
escritos adoptou o pseudónimo de Julio Diniz, tem a sua existencia ligada á historia desta ilha, porque
várias vezes a visitou e nela escreveu um dos seus mais conhecidos e primorosos livros.
Atacado duma pertinaz doença pulmonar, veio pedir á benignidade do nosso clima lenitivo aos seus
padecimentos e procurar aqui esse ideal que se chama saude, segundo a sua própria e já desalentada
expressão.
Chegou pela primeira vez ao Funchal a 8 de Fevereiro de 1869 e aqui voltou nos anos de 1870 e 1871.
Conforme umas notas publicadas na antiga revista Serões e que temos por fidedignas, Julio Diniz habitou,
embora por pouco tempo numa casa aos Ilhéus onde já residiu o distinto advogado Nuno Ferreira Jardim, e
mais demoradamente num prédio á rua da Carreira, pertencente á família do falecido comerciante Antonio
Pinto Correia, em cujo rés-do-chão se acha instalada uma farmácia, e que fica quasi fronteiro á rua de São
Francisco. A Câmara do Funchal praticaria um acto, que todos os seus munícipes olhariam com reconhecido
louvor, mandando colocar naquela casa uma simples placa de metal, que mais não pudesse ser,
comemorando a estada na nossa terra dum dos maiores vultos da nossa literatura contemporânea.
Julio Diniz escreveu nesta cidade o seu notável romance Os Fidalgos da Casa Mourisca que alguns julgam
superior e muitos colocam no plano das Pupilas do Senhor Reitor e da Morgadinha dos Cannaviaes.
Durante trinta e tantos anos se conservou inédita uma extensa carta que escreveu da Madeira e em que a
largos traços descreve as suas incomparáveis belezas, comunicando a um amigo as impressões pessoais
recebidas ao chegar á formosa ilha que se levanta da espuma do mar com a mitologica Citheréa... segundo
uma frase do grande escritor. É um trecho de bela e sugestiva prosa, que pela primeira vez se publicou na
citada revista os Serões e que foi reproduzido no livro de escritos inéditos de Julio Diniz intitulado Ineditos
e Esparsos. Nesta obra publicaram-se 17 cartas de Julio Diniz, escritas no Funchal, sendo a ultima datada de
20 de Fevereiro de 1870. Na edição desta obra, de 1919, insere 31 cartas escritas no Funchal, omitindo 7
daquela edição, o que perfaz a totalidade de 38. 0 “Diário da Madeira“, de 24 de Agosto de 1919, publicou
mais duas cartas inéditas do grande romancista também datadas da Madeira.
O grande romancista demorou-se nesta ilha nos períodos decorridos de Março a Maio de 1869, de Outubro
de 1869 a Maio de 1870 e de Outubro de 1870 a Maio de 1871. Durante a sua permanência no Funchal,
manteve a mais estreita intimidade com o seu patrício e amigo o cónego Dr. Custódio de Morais e Brito, que
era homem de não vulgar talento e de rara ilustração.
As seguintes palavras foram encontradas num livro manuscrito do ilustre escritor e eram do seu próprio
punho: “Principiei a escrever Os Fidalgos da Casa Mourisca, no Funchal, em Março de 1869. Levava-o em
meio do capítulo 8.º quando voltei de Porto em Maio do mesmo ano. Trabalhei no Porto e escrevi até o
princípio do capítulo 17.º, desde Junho até Outubro, época em que voltei para a Madeira. Concluiu-o no
Funchal em 11 de Abril de 1870“.
Julio Diniz morreu no Porto a 12 de Setembro de 1871, quatro meses depois de sair da Madeira, tendo
apenas 31 anos de idade.
Diocese (Criação da)
A primeira diocese criada nos domínios das nossas conquistas e
descobertas foi a do Funchal. A nossa sempre crescente expansão colonial e marítima desde os princípios de
século XV e o povoamento e exploração das terras descobertas, determinaram a instituição de vários
bispados fora da metrópole, tendo o arquipelago Madeirense a primazia na criação duma dessas dioceses.
Quando depois se criaram os bispados de Angra, Cabo Verde, S. Tomé e Goa, foi o do Funchal elevado á
categoria de arcebispado e ficou constituindo a sede duma província eclesiástica, tendo como sufragâneas
aquelas dioceses. (V. Arcebispado).
O aumento continuo da população e a importância que notavelmente foi adquirindo o Funchal deram
motivo a que D. Afonso V elevasse essa povoação á categoria de vila, pelo ano de 1451, e depois D. Manuel
lhe desse foros de cidade, por alvará de 21 de Agosto de 1508.
Era também indispensável regularizar a situação religiosa do arquipelago duma maneira mais satisfatória,
pois pertencendo a Madeira á Ordem de Cristo, que tinha a sua sede em Tomar, era a ela que cabia
superintender nos assuntos de jurisdição eclesiástica tendo para isso delegado no vigário de Nossa Senhora
do Calhau a direcção de todas as questões religiosas nesta ilha. Impunha-se pois a criação duma diocese
autónoma, que tivesse á sua frente um prelado que pudesse exercer todos os actos do culto e superintender
livremente em todos os negócios da disciplina eclesiástica. Assim o compreendeu o rei D. Manuel, e
solicitando a criação da diocese funchalense, foi esta estabelecida pelo papa Leão X, por Bula de 12 de
Junho de 1514 desligando o novo bispado da jurisdição do mestrado da Ordem de Cristo.
O primeiro bispo desta diocese foi D. Diogo Pinheiro, que exercia um elevado cargo na Ordem de Cristo, a
que a Madeira pertencia no espiritual. Dele nos ocuparemos em artigo especial. O fim principal da criação
da diocese foi entregar a direcção pessoal e imediata das questões religiosas neste arquipelago a um prelado,
que pudesse também exercer todos os actos do culto e da jurisdição canónica privativos da hierarquia
eclesiástica a que pertencem os bispos. Não sucedeu, porém, assim. Só cinquenta e dois anos depois da
criação da diocese funchalense é que o quarto bispo dela, D. Jorge de Lemos, veio pessoalmente tomar
posse do seu cargo, que desempenhou durante alguns anos.
A pagina 568 das Saudades da Terra, encontra-se o texto latino duma bula, que ali se diz ser a da criação
desta diocese. Não é exacto. A bula Pro excellenti praeeminentia, que com este título se acha citada em
diversos logares, é que é o diploma pontificado que instituiu o bispado do Funchal. Vem integralmente
transcrito a pag. 257 do vol. 1.º do Corpo Diplomatico Portuguez, dirigido por Rebêlo da Silva e publicado
em 1862, e já antes tinha sido inserta, ao menos parcialmente, em outras obras mais antigas. A publicação
de Rebêlo da Silva é copia directamente extraída da Torre do Tombo, cujo original e registo autentico se
encontra no Maço das Bulas, sob o n.º 34. Este documento, que é bastante extenso, foi há anos traduzido
em português pelo distinto professor do nosso liceu o padre Ricardo Augusto de Sequeira e publicado em
alguns números do Correio do Funchal, do mês de Novembro de 1897.
No mesmo volume do Corpo diplomático, já citado, encontra-se a pag. 261 outra bula, que começa pelas
palavras Gratiae divinae praemium, dirigida ao rei D. Manuel, em que se faz a participação oficial da criação
da diocese funchalense e da nomeação de D. Diogo Pinheiro para bispo dela. A que vem transcrita nas
Saudades da Terra é dirigida aos fieis e clero da Madeira. Têm todas a data de 12 de Junho de 1514. No
antigo Paço episcopal do Funchal, encontrava-se emoldurado e pendente duma das paredes da sala
principal do palácio, o pergaminho contendo o próprio original duma Bula referente á criação deste
bispado, que julgamos ser a que se acha transcrita nas notas das Saudades.
V. Cabido.
Diogo (Duque D.)
Herdou de seu pai o infante D. Fernando o senhorio do arquipelago da Madeira
e foi Duque de Vizeu, tendo sido assassinado por seu cunhado o rei D. João II, a 23 de Agosto de 1481. Por
morte dele passou o senhorio do mesmo arquipelago para seu irmão D. Manuel, que foi mais tarde rei de
Portugal.
Diplomatas
Seguiram a carreira da diplomacia e foram representantes de Portugal em diversos
países, os seguintes madeirenses: conde de Torre Bela, José Anselmo Correia Henriques, João Francisco de
Oliveira, Visconde das Nogueiras, Agostinho de Ornelas, Barão de São Pedro, João de Oliveira Sá Camelo
Lampreia e Jorge Santos. (V. cada um destes nomes).
Diques
São muros de rochas vulcanicas formados pela penetração da matéria em fusão nas fendas
abertas por abalos de terra em terrenos preexistentes. Quando os diques são abundantes numa localidade,
prova isso que a acção vulcanica se fez sentir aí com grande intensidade.
No Curral das Freiras e noutros vales do interior da Madeira, há grande numero de diques, e no Cabo Girão
encontra-se diques verticais e outros horizontais.
Os diques terminam ás vezes em ponta no alto, havendo também alguns, como o do montículo da Piedade,
na Ponta de S. Lourenço, que são cortados ou interceptados na base por terrenos horizontais.
O dique basaltico que forma um cabeço ou mamilo no alto do Garajau, distingue-se dum e doutro lado deste
cabo, sendo duplo na parte leste, havendo também diques duplos no Ribeiro Frio, na parte da Penha de
Águia soltada para o mar e noutros pontos, os quais procedem provavelmente duma nova penetração da
lava nas mesmas fendas.
Há diques que aparecem isolados, devido á destruíção dos terrenos pelas desnudação. Os picos dos
Empinos, perto do Curral, são constituídos por diques isolados, e no Ribeiro do Juncal, no alto da Ribeira
da Metade, há um dique nas mesmas condições, com cerca de 45 metros de alto e 18 de largo.
Supõe-se que na maior parte dos diques da Madeira, a matéria em fusão foi impelida da parte inferior para
a superior, mas no já citado dique da Piedade, e num outro que existe no Ribeiro dos Piornais, entre o
Caniço e o Funchal, parece que se deu o caso contrario, visto ambos serem interrompidos ou cortados na
base.
Direcção das Obras Publicas
Existiu uma no Funchal desde que foi criado o Ministério das
Obras Publicas, em 1852. Antes disso havia aqui uma repartição denominada Arquivo de Engenharia Civil,
dirigida por oficiais do Real Corpo de Engenheiros. Esses serviços correm hoje pela repartição técnica da
Junta Geral do Distrito.
Direita (Rua)
Fica na Freguesia da Sé, e comunica o largo do Pelourinho com a rua 31 de Janeiro,
outrora da Princesa.
É uma antiga via publica de pequena extensão e de importância secundaria, se a compararmos com outras
ruas desta cidade. Foi no entretanto, entre as ruas do antigo Funchal, uma das mais importantes e também
das mais extensas, começando no Pelourinho e estendendo-se pela margem esquerda da Ribeira de Santa
Luzia até ás proximidades do Torreão. Gaspar Frutuoso falando dela, em 1590, diz que era “uma grande e
larga rua e que era a maior da cidade“, acrescentando que o bispo D. Jeronimo Barreto (1574-1585) tinha
nela “seus aposentos muito ricos, com seus frescos jardins“. Nesta antiga rua ficava a igreja e albergaria de
São Bartolomeu e nela tinha casa de moradia algumas das mais qualificadas pessoas do Funchal.
Direito (O)
O primeiro numero saiu a 21 de Outubro de 1857 e o ultimo, que foi o 93, a 7 de Agosto de
1859. Foi seu redactor Pedro Maria Gonçalves de Freitas.
Saiu outro jornal com o mesmo título, que se publicou com várias intermitências, durante algumas dezenas
de anos, sendo seu fundador e redactor principal o escritor madeirense João Augusto de Ornelas. Saiu o 1.º
numero a 2 de Novembro de 1859.
Outra série do mesmo Jornal, que julgamos ser a quarta, se publicou de 20 de Abril de 1902 (n.º 2511) a 11
de Janeiro de 1911( nº 5060).
Discursos
Para não dar uma demasiada extensão no artigo Bibliografia, reservámos para este lugar a
rápida enumeração de várias peças oratórias publicadas por indivíduos naturais deste arquipelago, ou cujo
assunto possa de qualquer modo interessar á historia destas ilhas. A pesar de muito incompleta, pode esta
relação servir de subsidio para o estudo da bibliografia madeirense. As diversas espécies de que pudemos
alcançar noticia, vão aqui indicadas sem obediência á selecção de assuntos ou ainda á ordem cronológica
São elas:
Oratio in funere Philippi II, Romae, 1599,
Gratulatio de S. Pontif. Paulo V, Romae, 1607, e in funere Seraphinae a Portugalis Joannis Brigantiae Ducis
filiae etc., Romae, 1604, pelo dr. Manuel Constantino;
Sermão da Conceição de Nossa Senhora em a Igreja Collegiada de São Pedro da cidade do Funchal. Rochela,
1656, e Sermão da Visitação da Mãy de Deus Rochela, 1654, pelo Dr. Francisco de Castro;
Sermão penegyrico em a solemnissima festa que o reverendo cabido da Sé do Funchal fez em 13 de Junho
de 1697, por Pedro Correia Barbosa; Sermões dos Domingos, 1 Parte, Lisboa, 1629, por Fr. Gregorio
Baptista;
Pregação da beatificaçâo de S. Francisco Xavier, 1621, pelo padre Luiz de Morais;
Sermão na festividade do Coração de Jesus, 1733, Tardes de Quaresma, 1738, Sermão pelas melhoras do
Infante, 1739, Sermão pelas melhoras del Rey, 1742, Sermão de São Luiz Rey, 1746, Sermão de Acçam de
Graças a S. Luiz, 1748, Panegyrico fúnebre do Senhor Rey D. Joâo V, 1750, Panegyrico fúnebre da Rainha de
Portugal, 1755 , Sermão da Conceição, 1757 e Oração Académica, 1757, pelo padre Manuel Rodrigues,
Orações que pela feliz inauguração do Seminário na cidade do Funchal, compôz e recitou Francisco Manuel
de Oliveira, 1789;
Oração de acção de graças que na solemnidade do anniversario do faustissimo dia 28 de Janeiro de 1821
prégou na Igreja Cathedral da Sé do Funchal o vigário de São Jorge Joâo Manuel de Freitas Branco, 1822;
Oração de acção de graças pregada na igreja Cathedral da Sé do Funchal em 8 de Julho de 1823 pela feliz
restauraçâo de el-rei IV. S. ao throno dos seus maiores, 1823, e Sermâo pregado na egreja de São Martinho,
1823, por Fr. José Cupertino;
Oração na abertura dos estudos do seminario episcopal do Funchal pronunciada em XVII de Outubro de
MDCCCXII, por um dos professores do mesmo Seminário, 1814; Collecçao das peças recitadas nas varandas
da casa do Senado no real theatro de S. Joâo pelo Dr. José Manuel da Veiga, 1821;
Oração fúnebre nas exequias do Sr. D. Miguel de Bragança, Rio de Janeiro, 1867;
Oração de S. M. El-Rei D. Pedro V, Rio de Janeiro,1862 e Oração fúnebre recitada nas exéquias celebradas
na igreja de Santa Clara do Funchal, por alma de Pio IX, 1878, pelo Dr. Patrício Moniz;
Discursos do conde de Tojal proferidos na câmara dos dignos Pares, 1848;
Discurso pronunciado na assembleia geral da Companhia Fabril de Assucar Madeirense, pelo cónego
Feliciano João Teixeira, 1873; Sermôes do cónego Alfredo Cesar de Oliveira, I parte, 1868;
Discurso proferido na Camara dos Deputados na sessão de 7 de Maio de 1883, 1883, Discurso proferido na
Câmara dos Deputados na sessão de 13 de Fevereiro de 1884, 1884, e Discurso proferido na Câmara dos
deputados na sessão de 7 de Julho de 1888, 1888, por Manuel José Vieira;
0 Dogma da Imaculada Conceição de Maria, 1880, pelo padre Dr. José Gonçalves de Aguiar;
Allegação da defeza por parte de José Vieira de Castro proferida em 30 de Novembro 1870, publicada no
livro Processo e julgamento de José Vieira de Castro, 1870, e Discurso proferido na Câmara dos Deputados
na sessão de 15 de Março de 1878, 1878, por Jaime Constantino de Freitas Moniz;
Cousas Portuguezas. Conferencia realisada no salão do theatro da Trindade em 8 de Julho de 1884, 1885,
por José Julio Rodrigues; Sermão pregado no dia 12 de Setembro de 1813, anniversario da sagração
episcopal de D. Matheus de Abreu Pereira, bispo de S. Paulo, pregado por Francisco do Monte Alverne, que
vem publicado nas Obras deste grande orador sagrado brasileiro;
Oração que no aniversário da sagração episcopal de D. Matheus Abreu Pereira recitou na Cathedral de S.
Paulo a 14 de Setembro de 1817, 1818, pelo padre Joaquim Antonio Fernandes Saldanha;
Incompatibilidades Políticas, discursos proferidos na Camara dos Pares,1889, 3ª ed., por D. Luiz da Cãmara
Leme;
Discurso recitado na sala da Associação Catholica do Funchal, no dia 2 de Fevereiro de 1884, 1884, por
Alfredo de Paula Sardinha;
Obras de D. Ayres de Ornellas de Vasconcellos, 1882, que contêm nove discursos proferidos no Funchal
pelo bispo D. Ayres;
Discursos proferidos na Camara dos Deputados nas sessões de 15 e 16 de Janeiro de 1885, 1885, pelos
deputados Consiglieri Pedroso, Pedro Maria Gonçalves e Elias Garcia;
Discurso proferido nas solemnes exéquias maçonicas de Elias Garcia, celebradas no templo da Loja
Liberdade aos 18 de Julho de 1891, 1891, por Azevedo Ramos;
Discurso acerca do estado anárquico em que se encontra o districto do Funchal, pronunciado na Camara
dos Deputados na sessão de 17 de Março de 1903, por João Augusto Pereira;
Discursos pronunciados no Paço episcopal do Funchal nos anos de 1896, 1897, 1898 e 1899, 1900, por João
Baptista de Freitas Leal;
Discurso pronunciado, no Paço Episcopal em 1900, 1900, por João Baptista de Freitas Leal, e outros
discursos pelo mesmo, relativos ao ano de 1901, 1902, 1903, 1907 e 1908, também pronunciados no Paço
Episcopal do Funchal e, publicados em cinco opúsculos no mesmo ano que foram proferidos; A escravidão
da Egreja em Portugal, Discurso proferido na Câmara dos Deputados na sessão de 5 de Maio de 1905, 1905,
Necessidade do Descanso Dominical. Discurso proferido na Camara dos deputados na sessão de 6 de
Fevereiro de 1907, 1907 e A Situação da Madeira. Discurso proferido na Câmara dos Deputados na sessão
de 19 de Fevereiro de 1907, 1907, pelo cónego Antonio Homem de Gouveia,
A Immaculada Conceiçao. Discurso proferido na Egreja da Sé (Funchal no dia 8 de Dezembro de 1906,
1907, pelo cónego Antonio M. Pereira Ribeiro;
Á memória de Leão XIII. Oração funebre pronunciada na Sé Cathedral do Funchal a 12 de Novembro de
1903, 1904, pelo padre Jose Pereira da Silva;
A Bandeira Portuguesa. Allocução proferida no Campo de D. Carlos I, do Funchal, no dia 20 de Janeiro de
1907, 1907;
Elogio Fúnebre de Hintze Ribeiro, proferido nas exéquias... celebradas na Sé do Funchal a 2 de Setembro de
1907, 1907 e Brevi Vivens Tempore. Elogio fúnebre proferido na Sé Cathedral do Funchal em 31 de Março
de 1908, nas exéquias por alma de el-rei D. Carlos e o príncipe D. Luiz Filipe, 1908, pelo padre Luiz Alves
Martins;
A Região Amazonica. Seu passado, presente e futuro. Conferencia realisada no Palácio Monroe, a 29 de
Outubro de 1913, Rio de Janeiro, 1913, por José Simão da Costa;
oração Fúnebre nas exéquias do S. Pontífice Pio X, proferida na Cathedral do Funchal em 2 de Dezembro de
1914, pelo padre Manuel Gomes Jardim;
Resumo da conferencia realisada na Associação Comercial do Funchal em 15 de Outubro de 1905, 1905, por
Antonio Batalha Reis; Sermão do SS. Sacramento, 1912, pelo padre Manuel Gomes Jardim;
El rei D. Luiz Iª Oraçâo Fúnebre, Funchal, 1890, pelo cónego A. Aires Pacheco;
Discurso pronunciado na reunião eleitoral do partido progressista a vinte e cinco de Março, Funchal, 1870,
Discurso de abertura pronunciado na escola Medico-cirurgica do Funchal no dia 15 de Maio de 1867, 1867 e
Discurso pronunciado em 20 de Março de 1876 na sessão da abertura da Escola Central da Associação de
Protecção e Instrução do Sexo Feminino do Funchal, 1876, pelo Dr. João da Câmara Leme Homem de
Vasconcelos;
Discursos e trabalhos parlamentares, 1887, por Luiz Antonio Gonçalves de Freitas.
Discussão (A)
O primeiro numero saiu a 8 de Fevereiro de 1855 e o ultimo a 28 de Agosto de 1858,
dando 77 numeros. Foram seus redactores Antonio Correia Heredia, Dr. Antonio Gonçalves de Freitas, João
de Sant'Ana e Vasconcelos e Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo.
Distâncias marítimas
A distancia entre os portos de Lisboa e Funchal é geralmente computada
em 520 milhas marítimas.
O lugar da costa africana que fica mais próximo da Madeira é o Cabo Cantim, sendo de 350 milhas a
distancia que separa esses dois pontos.
A extensão de mar, que separa as ilhas da Madeira e Porto Santo, conhecida pelo nome de Travessa, tem o
cumprimento de 21 milhas e meia, entre o Ilhéu de Fora (Ponta de São Lourenço) e o Ilhéu de Baixo (Porto
Santo). A distancia entre o porto da cidade do Funchal e o da vila do Porto Santo é aproximadamente de 41
milhas.
Socorrendo-nos especialmente duma tabela organizada pelo oficial da marinha mercante Afonso Coelho,
vamos dar uma nota das distancias aproximadas existentes entre os diversos portos deste arquipelago,
exprimindo os algarismos o numero de milhas e suas fracções decimais:
Do porto do Funchal a Câmara de Lobos.................. 4,0
De Câmara de Lobos ao Campanario ...................... 3,0
Do Campanário á Ribeira Brava ......................... 1,7
Da Ribeira Brava á Ponta do Sol ....................... 2,1
Da Ponta do Sol á Fajã do Mar ......................... 2,4
Da Fajã do Mar á Calheta .............................. 2,3
Da Calheta ao Jardim do Mar ........................... 2,1
Do Jardim do Mar ao Paul do Mar........................ 1,2
Do Paul ao Pesqueiro .................................. 2,3
Do Pesqueiro á Ponta do Pargo . ....................... 0,7
Da Ponta do Pargo ao Porto do Moniz ................... 7,5
Do Porto do Moniz ao Seixal. .......................... 4,0
Do Seixal a S. Vicente . .............................. 3,0
De S. Vicente a Ponta Delgada ......................... 3,6
Da Ponta Delgada a São Jorge .......................... 4,0
De São Jorge ao Faial ................................. 3,2
Do Faial ao Porto da Cruz ............................. 2,5
Do Porto da Cruz á Ponta de São Lourenço .............. 9,3
Da Ponta de São Lourenço ao Caniçal. .................. 4,0
Do Caniçal a Machico .................................. 1,6
De Machico a Santa Cruz ............................... 4,3
De Santa Cruz ao Porto Novo ........................... 2,0
Do Porto Novo ao Funchal .............................. 5,9
Do Porto do Funchal ao Garajau ........................ 2,9
Do Garajau á Ponta da Oliveira ........................ 1,1
Da Ponta da Oliveira ao ilhéu de Fora.................. 10,6
(Ponta de São Lourenço) ............................... 21,6
Do Ilhéu de Fora ao ilhéu de Baixo(Porto Santo)........ 4,3
Do ilhéu de Baixo ao porto da vila do Porto Santo ..... 21,5
Do Porto do Funchal á Deserta Grande (Carga da Lapa) .. 21,5
Do Porto do Funchal ao Ilhéu Chão,Desertas, (porto de
Santa Maria)........................................... 19,0
Districto (0)
Saiu de 25 de Maio de 1893 a 22 de Junho de 1904, publicando-se 346 números.
Districto do Funchal (0)
Principiou a publicar-se a 16 de Janeiro de 1864 e terminou a 5 de
Agosto de 1865, tendo saído 66 números.
Outro jornal do mesmo título se publicou de 24 de Maio de 1877 a 24 de Abril de 1878, tendo saído 23
números.
Dita
Os madeirenses dão este nome á união natural de dois frutos. Os casos de concrescencia não são
raros na Madeira, e observam-se nas bananas, nas pepinelas, nos tomates, nas batatas, etc., etc.. De
Candolle chamou á concrescencia enxerto natural, e de facto existe nela, semelhantemente ao que se dá na
enxertia, aderência ou soldadura de orgãos de estrutura idêntica ou análoga.
V. Fasciação.
Dix (John)
E.: A Winter in Madeira and a Summer in Spain and Florence, New York, 1850, 1 vol. Esta
obra foi traduzida, em parte, por J. de Meneses, tendo a tradução o título seguinte: Um inverno na Madeira,
California, 1896, 1 vol..
Esta tradução traz no fim algumas pequenas notas esclarecendo o texto, que o tradutor diz pertencerem a
um distinto publicista madeirense. O livro de Dix, a pesar das inexactidões e apreciações erróneas que possa
conter, é uma das obras estrangeiras escritas sôbre a Madeira em que o autor revela maior imparcialidade e
desejo de ser justo para com as cousas e pessoas madeirenses.
Dixon (H. N.)
E.: Contributions to the Moss Flora of the Atlantic Islands- Madeira, (Journ of Botany,
1909).
Dizimos.
V. Contribuições
Doação da Ilha da Madeira á Infanta D. Catarina
Na ânsia de um apoio seguro e não
sucumbir Portugal na luta da Independência, esteve preparado um alto sacrifício para pesar prontamente
na balança das nossas concessões e atrair o auxílio da Inglaterra. Ia ser doada á infanta D. Catarina, filha de
D. João IV e futura rainha inglesa, a jóia mais cara de Portugal- nos presentes da noiva figuraria, se preciso
fosse, o florido ramalhete da ilha da Madeira.
A rainha regente D. Luisa, rodeada de amarguras com o peso do governo, olhando um herdeiro inábil e uma
corte, qual bastidor de emaranhadas representações políticas, não querendo tomar sôbre si a
responsabilidade de alienar a Madeira, nem incorrer na maldiçam de Deus, conforme a carta de D. Manuel
quando fez a ilha realenga (T. 1.º do Arquivo da Camara Municipal do Funchal), faz forjar uma doação do
rei defunto a sua filha, e envia-a aos Senados do Funchal e Machico para que se tombassem os diplomas.
Este curioso ponto histórico é tratado pelo Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo nas notas ás Saudades da
Terra, pag. 384.
Eram documentos para precaução, pois lá está escrito, coando for tempo, com o fim de vencer qualquer
obstáculo que sobreviesse nas negociações diplomáticas.
No Arquivo da Câmara Municipal de Machico, acham-se tombados curiosos documentos sôbre este assunto,
nos títulos do L. 3.º Parte 1 (fs. 158 v.º Traslado do Alv. de S. M. da mercê feita á S. Infanta D. Catharina. a
23 de Novembro de 1660; fs. 261 Traslado da procuração da S. I. D. Catharina, 18 de Novembro de 1660;
Alvará que declara a forma com que a S. I. D. Catharina deve usar das doações que lhe fez S. M. seu augusto
Pai).
Fazia-se também reviver nesse tempo a lenda dos namorados inglêses que aportaram a esta ilha, a fim de
cohonestar uma suposta prioridade da descoberta, para amortecer a dor da perda da Madeira, se acaso fosse
preciso
.
(V. Machim)
Não foi necessário tamanho sacrifício. A liberdade do comercio inglês no Brasil e nas Índias Orientais,
Tanger e Bombaim, “chaves do Mediterrâneo e da India“ satisfizeram a diplomacia britanica, ignorando os
citados documentos que revestiam um certo caracter confidencial.
Existe um folheto intitulado Um Ponto de Historia Pátria, Funchal, 1914, separata de artigos publicados no
Heraldo da Madeira, nºs 2815-16 e 2823-24, que se refere a este assunto. S.
V. Melo.
Doações
É muito de presumir, embora o não digam os cronistas nem se conheça documento que o
comprove, que fosse o próprio D. João I que doasse ou, melhor, confirmasse a posse do arquipelago da
Madeira a seu filho o infante D. Henrique, a cuja audaz iniciativa se devia principalmente o descobrimento
do mesmo arquipelago.
Diz-nos Bernardo de Brito na Monarchia Lusitana que em 1433, ano em que começou a reinar D. Duarte, a
este fizera seu irmão D. Henrique a “doação destas três ilhas para a coroa do reino, por isso el-rei lhas
tornou logo a largar, reservando para si o bater moeda, casos de morte e cortadura de membro; e para lhe
tornarem o seu domínio as doara á ordem (de Cristo) no ano apontado“. Não deve isto propriamente
entender-se duma doação do infante D. Henrique ao rei, porque ele a não podia fazer, mas apenas
reconhecer no novo monarca o primordial e fundamental direito, como chefe da nação, ás novas terras
descobertas, que constituíam parte integrante da mesma nação.
No tomo I.º do Arquivo da Camara Municipal e transcrita nas Saudades da Terra, a pag. 325, vem a Carta
Régia de D. Duarte, datada de 26 de Setembro de 1433, doando á Ordem de Cristo “para todo o sempre todo
o espiritual das nossas ilhas da Madeira e Porto Santo e da ilha Deserta... “ Com a mesma data, e do mesmo
monarca, há outra carta inserta na obra Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo acerca
da avançada e conquistas dos portugueses, fazendo mercê das referidas ilhas ao infante D. Henrique.
Deve entender-se que a doação á Ordem de Cristo dizia respeito á jurisdição espiritual e a que foi feita a D.
Henrique ao domínio temporal do arquipelago. Sendo, porém, o infante o grão-mestre da Ordem, conclue-
se da leitura daquela carta que ele teria sôbre as ilhas do mesmo arquipelago o mais absoluto domínio, o
que não obstou a que a interferência real se fizesse por vezes sentir na administração das coisas destas ilhas.
“Porém, é de notar, continua o citado Bernardo de Brito, que o infante conhecendo que as conquistas por
sua morte não poderiam ser continuadas com o cabedal da Ordem, e que era necessário braço real, repartiu
tudo o que tinha descoberto em tal forma, que deixasse a Ordem ampliada e enobrecida, e a Coroa do Reino
dilatada. E assim fez doação do temporal daquelas ilhas e do continente da Guiné aos reis de Portugal e
reservou para a Ordem o espiritual, que é hoje o que os reis logram como Mestres, que por esta causa tem os
dizimos e apresentações daquelas igrejas. Já no ano de 1439, em que el-rei D. Duarte estava de posse do
estado temporal das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas, que o infante lhe tinha outra vez doado, foi
concedida a espiritualidade delas para a Ordem, por carta feita em Lisboa a 20 de Maio de aquele ano... “
Por cartas regias de D. Afonso V, de 11 de Março de 1449 e 17 de Agosto de 1459, confirmou este monarca a
doação feita ao infante D. Henrique pelo rei D. Duarte, em 26 de Setembro de 1433.
Na já referida obra Alguns documentos do Arquivo Nacional etc. vem transcrita uma carta do infante D.
Henrique, datada de 18 de Setembro de 1460, em que se faz nova doação destas ilhas, no espiritual, á
Ordem de Cristo, o que não sabemos suficientemente explicar, existindo as doações anteriormente feitas e
que ficam acima citadas.
O infante D. Henrique morreu a 13 de Novembro de 1460 e logo a 3 de Dezembro do mesmo ano D. Afonso
V assinou uma carta régia doando o arquipelago madeirense ao infante D. Fernando seu irmão, que foi o
sucessor de D. Henrique no grão-mestrado da Ordem de Cristo e, portanto, dos privilégios que este tinha
sôbre as terras descobertas.
No cargo de grão-mestre da Ordem de Cristo sucedeu a D. Fernando seu filho o infante D. João, duque de
Vizeu, e a este seu irmão D. Diogo, que foi assassinado por D. João II. Não conhecemos as cartas que lhe
teriam sido passadas, se porventura o foram, de doação destas ilhas.
Ao infante D. Diogo sucedeu naquele grão-mestrado seu irmão D. Manuel, depois rei. O lugar de chefe dessa
poderosa Ordem, que tão assinalados serviços prestou ao nosso país, passou á Coroa e a ser exercido pelo
monarca com todos os privilégios, regalias e isenções que á mesma pertenciam.
Tinham acabado as doações e a Madeira estava feita realenga. É muito interessante o diploma que o atesta e
que vem transcrito a pag. 479 das Saudades da Terra. É a carta Régia de D. Manuel, de 27 de Abril de 1497,
em que ele diz que “nos parece cousa justa e necessária que a dita ilha com seu senhorio, rendas e jurisdição
seja somente da dita nossa coroa para sempre e dos reis nossos herdeiros e sucessores... que nunca a dita
ilha nem parte dela seja dada por nós nem nossos sucessores de graça nem em vida nem de juro nem por
outra qualquer maneira a qualquer pessoa de qualquer estado, condição e proeminência... juramos ao sinal
da cruz e aos santos evangelhos em que corporalmente pomos as mãos o cumprirmos e mantermos assim
inteiramente... e rogamos e encomendamos muito aos reis nossos herdeiros e sucessores que por nossa
bênção e sob pena de maldição de Deus e nossa, sempre o assim cumpram e conservem para sempre... “.
Com a encorporação do grão-mestrado da Ordem de Cristo na Coroa em 1497 e com a criação da diocese do
Funchal em 1514, passou a ser quasi nula a jurisdição daquela Ordem neste arquipelago.
A pesar de dizermos acima que cessaram as doações, é certo ter havido um simulacro de doação feita por D.
João IV, cinco dias antes de morrer, a favor de sua filha D. Catarina, que casou com Carlos II de Inglaterra,
doação que obedeceu a fins não bem averiguados, mas que era ilegalissima e que não chegou
verdadeiramente a realizar-se. Dela nos ocupamos em artigo especial.
Não tratamos neste lugar das doações feitas aos donatarios, porque já a elas nos referimos nos artigos
Capitanias e Donatarios.
Dobrada. (Oblada vulgaris)
Peixe da família Esparida, vulgar nos mares da Madeira. Tem o
lóbulo inferior da barbatana caudal mais largo ou com um raio mais longo do que o superior. A sua carne é
saborosa.
Dode (L. A.)
Botânico francês que escreveu no Bulletin de la Societé Dendrologique de France, de
1907, um trabalho com o título seguinte: Un nouveau Sorbus.
Este novo Sorbus é o S. maderensis, que se encontra perto do Pico do Arieiro, etc..
Doenças
As doenças dominantes na Madeira são a tuberculose, as diarreias, as lesões orgânicas do
coração, as apoplexias e outras moléstias do cérebro, as pneumonias e as bronquites. De 3631 óbitos que
houve em 1917 no Distrito do Funchal, 263 foram devidos a tuberculose dos pulmões, 11 a tuberculose das
meninges, 17 a outras tuberculoses, 890 a diarreias e enterites (só 382 dos falecidos tinham mais de 2 anos),
246 a lesões orgânicas do coração, 239 a congestões, hemorragias e amolecimento cerebral, 167 a
bronquites agudas, 40 a bronquites crónicas, 155 a pneumonias e 105 a outras doenças do aparelho
respiratório.
O cancro aparece muitas vezes atacando diferentes orgãos, e a hepatite aguda e cronica, o reumatismo
agudo e crónico, as escrofulas, certas moléstias cutâneas e as febres continuas de diferentes formas,
principalmente a gástrica e a ataxo-dinamica, também não são raras na ilha. Em 1917 morreram de cancros
e outros tumores malignos, 91 indivíduos em todo o arquipelago.
A elefantíasis aparece em várias localidades da Madeira, principalmente em indivíduos das classes pobres.
As freguesias da Ponta do Sol e Ponta do Pargo são as que dão maior percentagem de indivíduos atacados
desta molestia.
O sarampo e a varíola têm aparecido algumas vezes na Madeira, com caracter epidémico, desenvolvendo-se
sempre pelo contagio de indivíduos vindos de fora. Entre as epidemias de varíola, mencionaremos a de
1801, a de 1815, que produziu para cima de 2000 mortes em toda a ilha, a de 1858 e 1859, a de 1870, a de
1873 e a de 1907; e entre as de sarampo, a de 1751, que produziu uma mortalidade notável, a de 1816 e a de
1884.
Em 1905 manifestou-se a peste bubonica (V. este nome) na Madeira, mas sem caracter epidémico, e em
1907 houve 14 mortes na freguesia de Santo Antonio, devidas, segundo se disse, a pneumonias infecciosas.
A colera-morbus (V. este nome) visitou-nos em 1856 e em 1910, a raiva (V. este nome) em 1892, a
escarlatina em 1814, 1825 e 1864, a gripe, com muitos casos de pulmonite, em 1884, a meningite cerebro-
espinhal, com caracter epidémico, em 1904 e a espanhola (espécie de influenza) e a gripe pneumonica, em
1919. Sôbre estas duas ultimas moléstias escreveu o Sr. Dr. Nuno Silvestre Teixeira um notável relatório,
que começou a ser publicado no Diário de Noticias do mês de Dezembro de 1919.
O nome de influenza dado agora á gripe que frequentes vezes aparece na Madeira, já era conhecido entre
nós no segundo quartel do século XIX, segundo se vê de documentos registados no arquivo da Câmara
Municipal do Funchal.
Em 1847 houve muitas afecções irritativas do aparelho digestivo, motivadas pela fome, sendo grande a
mortalidade, e em 1888 deram-se muitos casos de uma anemia especial na freguesia do Porto da Cruz,
devidos, segundo declarou o falecido medico Dr. Vicente Cândido Machado, ao Anchylostomum intestinale,
Em 1893 desenvolveu-se uma epidemia de febres tifóides na freguesia do Pôrto do Moniz, que fez sucumbir
um grande numero de pessoas. A “coqueluche“ poucas vezes se desenvolve na ilha, com caracter epidémico,
o mesmo se podendo dizer acerca do bócio ou papeira.
Na Madeira não há moléstias endémicas; o que há simplesmente são as enfermidades comuns a todos os
países, as quais se apresentam geralmente com caracter benigno. A Madeira fever, de que falam os
detractores do clima da ilha, é apenas um embaraço gástrico, que ataca uma ou outra vez os estrangeiros
que comem em grande quantidade certas frutas que não existem no norte da Europa.
A insuficiência do vestuário, uma alimentação fraca, o abuso das bebidas alcoólicas e certas negligencias
indesculpaveis no asseio, fazem com que os indivíduos das classes pobres estejam em geral mais sujeitos ás
doenças dominantes na ilha, do que os indivíduos pertencentes ás classes mais favorecidas da fortuna. No
entretanto, a proporção da mortalidade causada por essas moléstias comparadas com a de outros países, é
bastante favorável á Madeira, para o que muito concorrem a amenidade do nosso clima e o natural vigor e
resistência da nossa raça.
V. Longevidade.
Doenças das Semilhas
A molestia que mais estragos causa nas plantações de semilhas é devida á
Phytophthora infestans, fungo da família das Peronosporaceas. As plantas invadidas por este fungo,
apresentam manchas escuras nas folhas, e acabam geralmente por secar.
A mela é outra moléstia que ataca as semilhas e que pelos seus efeitos, tem sido identificada com a grangena
húmida dalgumas localidades europeias.
Domingo Catholico (O)
Publicação quinzenal, tendo saído o primeiro numero em Fevereiro de
1885 e o ultimo em Dezembro de 1899.
Domínio Castelhano
A Madeira a exemplo do que fizeram muitas povoações de Portugal, aceitou
sem resistência o Jugo castelhano, O que lhe valeu ser poupada das atrocidades com que Filipe II
costumava inaugurar o seu governo nas terras que conquistava pela força das armas.
Não se conhece o dia em que teve lugar a aclamação do primeiro rei intruso no Funchal, nem o modo como
essa cerimónia se realizou, visto terem desaparecido os livros das vereações donde isso devia constar, mas
conhecem-se vários factos ocorridos durante o domínio filipino na Madeira, alguns dos quais bem revelam
quanto esse domínio foi nefasto e opressor para os povos desta ilha.
Diz Gaspar Frutuoso nas Saudades da Terra, obra escrita em 1590, que em 1587, sendo governador e
superintendente das cousas da guerra o donatario Tristão Vaz da Veiga, conseguiram os portugueses
recuperar dois navios, um carregado de vinho e outro de trigo, de que um corsário se havia apoderado na
baía do Funchal, e que no ano imediato foi metida a pique uma nau inglesa que andava roubando os navios
que entravam ou saíam do nosso porto. Refere ainda o mesmo autor que esperando-se em 1582 que os
franceses da armada de D. Antonio efectuassem um desembarque na Madeira, trouxe Antonio de Carvalhal
ao Funchal 300 homens que manteve á sua custa durante cinco meses, em serviço do rei católico D. Filipe.
A execução do frade João do Espírito Santo, de que fala Rebêlo da Silva, teve lugar provavelmente em 1582,
ou pouco depois, embora Gaspar Frutuoso se não refira a ela. Este frade que tinha estado na ilha Terceira e
era um verdadeiro patriota, foi enforcado no Funchal, vestido com trajos de leigo, por andar incitando o
povo a seguir o partido do Prior do Crato, depois desta ilha haver sido reduzida á obediência de Filipe II.
Entre 1600 e 1602 rebentaram no Funchal alvoroços de caracter tão grave que saiu de Lisboa uma comissão
com amplos poderes para os castigar, e alguns anos depois eram ainda tantos os excessos que deshonravam
a capital da Madeira, chegando a cometer-se crimes de assassinato em plena rua e á luz do dia, que Filipe III
de Espanha, por carta de 29 de Novembro de 1614, encarregou o Dr. Gonçalo de Sousa, desembargador da
Casa da Suplicação, de vir a esta ilha, a fim de punir severamente tais excessos.
As cousas não melhoraram com a vinda do Dr. Gonçalo de Sousa ao Funchal, pois que desde então até 1627
houve 38 mortes violentas nesta cidade, entre as quais a de D. Francisco Henriques, filho de D. Isabel
Grega, pessoa pertencente á nobreza da ilha.
A Justiça não era respeitada, e os criminosos, mercê da protecção de que dispunham, raras vezes eram
punidos. Quando se deu o assassinato de D. Francisco Henriques, encontrou o criminoso abrigo na igreja do
Colégio, onde dois clérigos se opuseram a que ele fosse preso, e tendo o ouvidor capturado e entregue ao
alcaide um cunhado do assassino, foi este arrebatado das mãos da autoridade por um alferes e vários
soldados do presídio castelhano!
D. Isabel Gomes, mulher viúva e de boas famílias, teve a casa arrombada e uma filha seduzida por um tal
João Rodrigues Mandragão. Havendo comparecido o Juiz ordinário, prendeu este não o sedutor, que era
seu parente, mas um filho da mesma D. Isabel, que fora ferido com um tiro de pistola ao acudir em defesa
da irmã!
Muitos indivíduos já julgados pelo Dr. Gonçalo de Sousa, estavam escondidos, sem que a justiça procurasse
prendê-los, e da cadeia da cidade tinham fugido vários presos, um dos quais devia sofrer a pena de morte na
forca por haver cometido dois assassinatos!
Rui Gomes foi morto por Braz de Freitas na sala do governador geral, tendo o assassino ferido na mesma
ocasião alguns oficiais que se achavam presentes, e haviam procurado evitar o crime!
Em 13 de Outubro de 1627 expediu-se uma carta regia ao Dr. Estevão Leitão de Meireles, que o nomeava
juiz duma alçada que tinha de vir á ilha da Madeira inquirir dos crimes que aqui se haviam praticado, com
ordem de os punir severamente. O juiz dos resíduos e o provedor da fazenda deveriam servir de adjuntos da
mesma alçada, correndo as despesas desta por conta dos culpados, cujos bens poderiam ser penhorados.
O Dr. Estevão de Meireles começou o processo dos delinquentes mal chegou a esta ilha, mas decorridos dois
anos, ainda muitos dos mesmos delinquentes não tinham sido presos nem ouvidos pelos juízes da alçada,
pela razão do governador geral lhes haver dado guarida no seu próprio palácio e se recusar abertamente a
entrega-los!
Contra esta protecção descarada a facínoras poderosos, mas da mais baixa espécie, protestaram o
presidente da alçada e as referidas D. Isabel Grega e D. Isabel Gomes, o que deu em resultado o governador
ser censurado pelo seu procedimento e compelido a entregar os indivíduos recolhidos na fortaleza.
Não conhecemos o destino que tiveram estes indivíduos, muitos dos quais eram merecedores de um
exemplar castigo pelos assassinatos e outros crimes graves que haviam cometido no Funchal, tendo-nos
afirmado pessoa digna da maior confiança que na Torre do Tombo se não encontram os processos dos
mesmos indivíduos, que é possível estejam sepultados nalgum arquivo de Espanha.
Durante o governo filipino veio á Madeira um visitador do Santo Oficio, tendo sido recomendado aos
oficiais da ilha que lhe dessem todo o favor e ajuda precisos para o bom desempenho do serviço de que
vinha incumbido, mandando mesmo despejar para sua residência os melhores prédios que houvesse nos
logares onde ele tivesse de ir. Chamava-se Francisco Cardoso de Cernejo esse visitador, e foi nomeado por
provisão de 20 de Julho de 1612.
Em 1617 foi a ilha do Porto Santo atacada e saqueada pelos mouros, que levaram muitos cativos, constando
dum auto lavrado na sessão da Câmara Municipal do Funchal de 16 de Junho de 1632 que fora atribuída á
protecção do padroeiro S. Tiago Menor o facto desses piratas não terem vindo á Madeira pela mesma época.
A fortaleza de S. Tiago, o castelo de S. João do Pico, parte dos muros de circunvalação e o forte do Pico do
Castelo, na ilha do Porto Santo, são obras militares executadas no tempo dos castelhanos, sendo também
dessa época um túnel que nunca se concluiu, existente no sítio do Rabaçal, e que era destinado, segundo
parece, a dar passagem ás águas que existiam desaproveitadas naquele ponto da ilha.
No tempo de Filipe II foi criado o cargo de governador geral, e desde então nunca mais o nosso arquipelago
deixou de estar sujeito á superintendência duma autoridade superior de nomeação régia. As donatarias não
se extinguiram, mas os donatarios, embora vissem os seus privilégios confirmados pelos reis intrusos,
tiveram de reconhecer a supremacia do delegado do poder central nas terras que seus antepassados tinham
governado como senhores quasi absolutos.
Em 1600 revoltaram-se as tropas do presídio castelhano por não estarem pagas em dia, e em Abril de 1626
houve novos motins no Funchal, ainda pelo mesmo motivo, sendo nesta ocasião maltratado pelos soldados
o provedor da Fazenda. Tendo-se dirigido este funcionário á alfândega, foi o edifício rodeado por uma força
militar comandada pelo capitão Antonio de Mira, a qual só retirou depois de haver recebido parte do
dinheiro a que tinha direito.
Por falta de pagamento dos vencimentos do clero, excomungou o bispo D. Jeronimo Fernando em 1621 0
provedor da Fazenda e os oficiais da Alfândega, mas a provisão régia de 21 de Novembro do mesmo ano
obrigou-o a levantar essa excomunhão.
Não eram só o clero e os militares que não andavam pagos em dia; também os negociantes não recebiam as
importâncias dos fornecimentos que faziam ás tropas, o que deu lugar a várias reclamações e a que baixasse
finalmente uma provisão para que daí em diante se não comprassem a crédito os géneros e mercadorias
destinados á guarnição do presídio.
Em 1637 foi a Madeira obrigada a concorrer com 10.000 cruzados cada ano para a armada da restauração
de Pernambuco, e quasi pela mesma época exigia-se-lhe que fornecesse 1000 homens para irem combater
na Espanha contra os exércitos franceses. Foram estas, segundo cremos, as ultimas medidas com que o
governo castelhano houve por bem oprimir os habitantes desta ilha.
Do resumido quadro que acabamos de traçar vê-se que o domínio castelhano na Madeira foi notável
principalmente pela anarquia, pelas extorsões e pelas iniquidades a que estiveram sujeitos os povos
enquanto ele durou. As poucas providencias úteis adoptadas durante os sessenta anos de cativeiro, passam
quasi despercebidas no meio dos erros e abusos cometidos pelos governantes, tendo sido estes erros e
abusos, mais talvez que o próprio amor pela independência nacional, que levaram os habitantes desta ilha a
aderir prontamente e com o maior entusiasmo ao glorioso movimento do dia 1 de Dezembro de 1640, que
separou para sempre dois povos unidos pelos laços dum despotismo opressor.
Donatarios. É sabido que nos tempos primitivos da colonização dos nossos domínios ultramarinos, se
dividiam as terras descobertas, para o efeito da sua administração publica, em províncias de maior ou
menor extensão, a que então se dava o nome de capitanias. Tinham por chefe ou autoridade suprema local,
o capitão-donatario, que em geral gozava dos mais amplos poderes na direcção dos diversos negócios
públicos, sobretudo nos primeiros tempos da nossa administração colonial.
A prioridade dessas capitanias ou províncias ultramarinas coube ao arquipelago madeirense, sendo a sede
duma delas na ilha do Porto Santo, e de outras duas em Machico e no Funchal. É hoje impossível
determinar com precisão a época em que foram criadas, devendo contudo admitir-se como certo que a sua
existencia data do tempo em que começou a colonização e povoamento deste arquipelago. Quando os
primeiros capitãis-donatarios destas ilhas vieram estabelecer-se aqui definitivamente, procederam sem
demora á divisão e demarcação dos terrenos que deveriam pertencer ás suas respectivas Jurisdições, sendo
para acreditar que já então se achassem investidos dos privilégios e regalias que as doações lhes haviam de
conferir mais tarde duma maneira mais legal e autentica, com a confirmação da autoridade do infante D.
Henrique e ainda dos monarcas.
Nos tempos primitivos da colonização destas ilhas, e ainda muito depois, toda a jurisdição civil e criminal
residia nos donatarios. Para isso concorriam graves e ponderosas razões, que tinham sua principal origem
na manifesta influencia que o antigo feudalismo manteve entre nós, a acção preponderante, levada ás vezes
até o despotismo, que os nobres, os grandes e as autoridades locais exerciam nas terras dos seus domínios, a
distancia a que as donatarias ficavam da metrópole e a dificuldade de comunicações com o reino, a
necessidade de resolver prontamente muitos negócios de uma administração publica incipiente e sem leis
que a regulassem, a severidade de que os capitãis-donatarios tinham frequentemente de revestir o seu
governo no meio de uma população tão heterogénea de negros, escravos, foragidos e criminosos chamados a
trabalhar no arroteamento das terras incultas, tudo isso e por certo ainda muitos outros motivos para nós
desconhecidos, contribuíram poderosamente para que fossem tão latitudinarias as atribuições e regalias
que usufruíam os donatarios na administração das cousas publicas.
A pesar do poder real não abdicar das suas prerrogativas, do infante D. Henrique chamar a esta ilha a
minha ilha da Madeira, não só porque fora o iniciador da sua descoberta, como pelas doações que lhe
fizeram os monarcas, e da poderosa Ordem de Cristo ter toda a Jurisdição espiritual sôbre estas ilhas e
ainda diversos privilégios na administração de certos negócios públicos, era todavia quasi soberana, ao
menos nos primeiros tempos, a acção governativa dos donatarios, não só pelas razões que sumariamente
deixamos apontadas, e em particular pela distancia a que se encontravam da metrópole, mas
principalmente porque os monarcas, o infante D. Henrique e depois os grãos-mestres da Ordem de Cristo
quasi se limitavam, no período mais antigo da colonização, á arrecadação das rendas e impostos, e de várias
contribuições de guerra com que no princípio se achavam os povos muito sobrecarregados.
Com respeito aos donatarios do Funchal e de Machico, davam-se circunstancias de todo o ponto
ponderosas, que melhor explicam o poder quasi ilimitado de que gozavam, e que convém acentuar aqui. O
facto de serem estes donatarios os próprios descobridores das terras que vieram administrar, o terem sido
brilhantes colaboradores do infante D. Henrique na sua grandiosa obra das navegações e descobertas, o
dar-se-lhes o primeiro governo duma terra longínqua, iniciando-se deste modo um novo género de
administração até então desconhecido, tudo isso haveria certamente concorrido para a concessão, ou
melhor talvez permissão tácita, de todas essas faculdades, isenções e regalias. Especialmente com relação a
João Gonçalves Zarco, ainda militavam outras razões não despiciendas, como seriam o nome e prestigio que
granjeou em Marrocos, onde ganhara as suas esporas de ouro de cavaleiro valente e esforçado, a fama que
tinha conquistado de audaz navegador e ainda os créditos de que gozava junto do infante D. Henrique,
como cavaleiro e familiar da sua casa.
Notaremos neste lugar que, devido certamente a essas circunstancias, foram o primeiro donatario do
Funchal e os seus imediatos sucessores os que mais largamente usaram desses amplos poderes de
administração, que chegaram por vezes a estender-se ás outras donatarias embora com manifesta invasão
das atribuições alheias. O rápido engrandecimento e prosperidade da capitania do Funchal e a decadência e
ruína das outras capitanias, explicam suficientemente a influencia e preponderância dos descendentes e
herdeiros de João Gonçalves Zarco. Até em documentos oficiais se chamava por vezes ao donatario do
Funchal o capitão da ilha, como se neste arquipelago não houvesse a sede de mais duas capitanias. O
Funchal tornara-se o centro de toda a vida activa do arquipelago, fora feito cidade e capital da diocese,
transformara-se num importante emporio comercial, e os seus donatarios, vivendo no fausto e na grandeza,
e frequentando a corte como os mais nobres e ricos senhores do reino, adquiriram tal influenciar prestigio e
poderio, que em breve reduziram os outros donatarios a uma situação verdadeiramente subalterna e
humilhante aos olhos dos povos deste arquipelago.
As doações das capitanias de Machico, Porto Santo e Funchal feitas aos primeiros donatarios Tristão Vaz,
Bartolomeu Perestrelo e João Gonçalves Zarco, datam respectivamente de 1440, 1446 e 1450, sendo para
estranhar que tão tardiamente se realizassem essas concessões, devendo com bons fundamentos supor-se
que as cartas regias que têm aquelas datas, são apenas diplomas de confirmação das doações anteriormente
concedidas.
É muito de presumir, como já fizemos notar, que os três donatarios, ao serem investidos no governo das
suas capitanias, o que provavelmente se deu no fim do primeiro quartel do século XV ou princípio do
segundo quartel do mesmo século, tivessem recebido do infante D. Henrique ou talvez mesmo do monarca,
algumas instruções ou qualquer regimento, embora de caracter geral, e sem grande individuação de cousas
e pessoas, que os devessem guiar na gerência dos negócios de administração publica, que por certo não
ficariam exclusivamente entregues ao critério e ás arbitrariedades dos mesmos donatarios. Nada se conhece
de positivo sôbre este assunto e nem sequer a tal respeito temos encontrado as mais ligeiras referências.
As cartas regias que fazem a concessão das capitanias aos três primeiros donatarios não diferem
essencialmente entre si nas suas principais disposições. Vamos transcrever alguns trechos da carta dirigida
a João Gonçalves Zarco, que foi extraída dos livros da Câmara Municipal do Funchal e publicada pelo Dr.
Alvaro de Azevedo numa das notas das Saudades da Terra:
E me praz que ele tenha em esta sobre dita terra a Jurdiçom por mim & em meu nome do ciuell & crime
resaluando morte ou talhamento de membro que desto benha per amte mim apellaçom porem sem
embargo da dita Jurdiçom a mim praz que hos meus mandados todos & correyçom sejam compridos ahy
como cousa propia minha. Outro sy me praz que ho dito Joham Gonçalues que aja pera sy todollos moynhos
do pam que ouver em a parte da dita ylha de que lhe assy dou carreguo & que ninguem non faça y moynhos
soo mente elle ou quem lhe prouuer & em esto se no emtemda moo de braço que a faça quem quizer nõ
moemdo e outrem nem atafona se nom elle ou quem lhe prouuer. E me praz que aja de todallas serras
dagoa que se y fiserem de cada hua hum marco de prata em cada hum anno ou seu çerto balor ou duas
tabuas cada somana das que customarem serrar nas serras pagamdo porem a mim ho Dizimoo de todallas
ditas serras segumdo pagam das outras asy como pagam das outras cousas que serrarem as ditas serras.
Esto aja tam bem ho dito Joham gomçalues de quall quer emgenho que se ahy fizer tiramdo byeyros de
ferrerzia & doutros mataees. E me praz que todollos fornos de pam em que ouuer poya sejam seus porem
nom embargue a quem quizer fazer fornalha pera seu pam que a faça mas nom pera outro nenhum. E me
praz que tendo elle sall pera bemder que ho nom posa bemder outrem se nom elle damdo elle a rezom de
meyo rreall de prata ou sua dereyta ballia & mais nom. E quando ho nom touuer que ho bendam hos de a
ylha a sua bomtade atee que ho elle tenha. Outro si me praz q de tudo ho que Eu ouuer de remda na dita
parte da ylha que elle aja de dez hum & ho qiWe Eu ey de aber na dita ylha he conteudo no forall que pera
ella mandey fazer & per esta guisa me praz que aja esta remda seu filho ou outro seu deçemdente per linha
dereyta q o carrego teuer. E me praz que elle possa dar per suas Cartas a terra desta parte per ho forall da
ylha a quem lhe prouuer com tall comdiçom que aquelle a quem der a dita terra aproueyte atee cinco annos
& nom aproueytamdo que Eu a possa dar a outrem & despois que aproueytada for a leyxar por aproueytar
atee outros cinco annos que per yso mesmo a possa dar. Este nom embargue a mim que se y ouber terra
pera aproueytar que nom seja dada que Eu a possa dar a quem minha mercee for. E asy me praz que a deym
seu Jilho ou erdeyros deçemdemtes qae ho dito carrego teberem.
Pondo em linguagem mais acomodada ao nosso tempo e resumindo a transcrição feita, vemos que o infante
não se limitou a dar aos três donatarios as terras, deu-lhes também a Jurisdição cível e criminal nessas
terras e o direito de cobrarem a redizima ou a decima parte de tudo quanto ele houvesse de renda nas duas
ilhas. Só os donatarios podiam vender sal, quando este genero não excedesse o prêço de meio real de prata
ao alqueire, e ter moinhos e fornos publicos de cozer pão. Era, porém, livre o fabrico de pão destinado ao
consumo domestico e era também livre a venda do sal quando os donatarios o não tivessem em deposito.
Igualmente recebiam um marco de prata anual ou duas taboas por semana por cada serra de agua que
houvesse na ilha. Em alguns documentos se lê que os donatarios eram senhores de agua e vento, alusão ao
privilegio das aguas e moendas que, juntamente com o da venda do sal, constituíam importantes e avultadas
rendas, além das outras, que seriam muito maiores ainda. Na acção criminal estendia-se o poder dos
capitãis-donatarios ao julgamento de tôdas as causas, resalvando morte ou talhamento de membro, como
diz a carta de doação, tendo também a faculdade de mandarem cortar as orelhas aos escravos que
cometessem determinados crimes, o que lhes foi concedido por alvará regio no ano de 1505.
Não teve uma mui larga duração o primitivo poder dos capitãis-donatarios. Essas amplas faculdades foram-
se a pouco e pouco cerceando com o decorrer dos tempos. Os reis avocando a si os privilegios que neste
arquipelago tinha a Ordem de Cristo, a fundação dos municipios, a instituïção das sesmarias e dos
morgadios, as diversas leis agrarias, sobretudo acêrca de aguas, madeiras, gados e açucares, o lançamento
feito pelos soberanos de algumas contribuições e impostos, a criação de varios cargos publicos e
especialmente de alguns de mera administração judicial, além de muitas outras medidas do poder central,
contribuíram poderosamente para o gradual cerceamento das atribuições civis, militares e judiciais de que
os capitãis-donatarios gozavam neste arquipelago.
Um golpe fundo vibrado nessas tão latitudinarias atribuições foi a carta regia de 27 de Abril de 1497, em que
D. Manuel, como soberano e como grão-mestre da Ordem de Cristo, fez realengo e encorporou
definitivamente na coroa o arquipelago madeirense. São muito significativas e eloquentes as palavras do rei
venturoso, exaradas nesse curioso documento, donde transcrevemos o seguinte periodo:
“Teemos por bem & per esta em nossa nome & de nossos herdeyros & sobçessores prometemos pera sempre
& damos nossa fee Reall que em algum tempo por alguua neçesydade ou caussa cuydada & nam cuidada que
a nos & a nossos sobçessores sobre benham aymda que seja de gramde peso ou ymportamcia nunca a dita
ylha nem parte della com seu sennorio Remdas & Jurdiçam seja dada per nos nem per nossos sobçessores
De graça nem em bida nem de juro nem per outra quall quer maneyra a alguma pessoa de quall queer
estado comdiçam ou primynemçia que seja nem a ygreja nem a moesteyro nem a casa outra piadosa nem a
Religiam nem a hordem posto que seja de cauallaria amtes queremos & outra vez prometemos que a dita
ylha ymteyra e junta seja sempre nossa de nossa coroa & dos Rex nossos sobçesores & nunqua de nos nem
delles seja desonida e apartada em algum tempo. E por mais firmesa & seguramça do quall nos em nosso
nome & dos Rex nossos sobçesores e herdeyros juramos ao sinall da cruz & a hos samtos abamgelhos em
que corporallmente poemos as maaõs de nos e hos ditos nossos herdeyros e sobçessores o comprirmos &
mamtermos asy ynteiramente sem arte cautella nem mimguamento algum & de nunca em algum tempo
pedirmos releuamento nem absoluçam deste Juramento amte sopricamos a nosso muy samto padre que
pello tempo for presydente na ygreja de Deus que comtra este Juramento nunca despense nem o tempere
pera com a liçemçia delle se fazer o contrayro desto. Rogamos & emcomemdamos muyto aos Rex nossos
herdeyros e sobçessores que pellos tempos forem que per nossa bemçam & sob pena da maldiçam de Deus e
nossa sempre ho asy compram & conseruem para SEMPRE em testemunho & fee do quall mamdamos dar
esta carta aa dita ilha & a hos moradores della... “
- Não podemos deixar de transcrever o interessante comentario que a esta carta regia faz o erudito anotador
das Saudades da Terra:
“O primeiro desses documentos é a carta régia de 27 de Abril de 1497, pela qual fez a ilha da Madeira
realenga; carta que foi um golpe de estado, como agora se diz á francesa, ou um motu-proprio, como dizia a
antiga monarchia; carta pela qual o rei engastou de vez, definitiva e seguramente, esta pérola do oceano, a
ilha da Madeira, na sua coroa, e consolidou os povos da mesma ilha na autonomia portugueza; carta pela
qual o rei interpoz o seu potente sceptro como dique aos incríveis vexames de toda a espécie, que os
donatarios, a aristocracia local e o clero se arrogavam sobre a população morigerada e laboriosa; carta sob
as augustas palavras da qual se sente o arfar despeitado do cardume de todos esses interesses egoístas,
abatidos perante o poder régio, a cujo abrigo então se acolheram, tímidos, o direito e a moral, o trabalho e a
esperança; carta pela qual a ilha da Madeira começou a deixar de ser quasi escrava de tantos, para ser
súbdita directa de um só; carta que talvez esmagou, com as austeras juras e tremendas maldições que
contém, alguma surda conspiração desses mesmos interesses, para os quais a satisfação era tudo, e tudo o
mais, nada“.
Os abusos de jurisdição cometidos pelos donatarios, que ás vezes iam até a invasão do poder real, não eram
raros, o que em várias ocasiões determinou a vinda a esta ilha de ouvidores e corregedores, investidos de
poderes quasi discricionários, que tinham por missão especial o sindicarem e julgarem desses excessos de
Jurisdição. Eram estes magistrados enviados primitivamente em casos extraordinários, e depois em
circunstancias mais normais, que atenuavam e corrigiam aquelas invasões do poder, levantando-se por
vezes conflitos entre eles e os capitãis-donatarios, a que sempre vinha por termo o governo da metrópole
nos recursos interpostos perante a coroa.
Temos disso vários exemplos, especialmente o da vinda á Madeira, no ultimo quartel do século XV, do
corregedor Alvaro Fernandes com alçada por el-rei em toda a ilha, e mais tarde a do bacharel Rui Pires,
também com jurisdição em todo o arquipelago. No primeiro quartel do século XVI, mandou D. Manuel a
esta ilha o corregedor Dr. Diogo Teixeira por certas razões que a isso o moveram em respeito ao capitão
Simão Gonçalves, diz Gaspar Frutuoso, o que em extremo irritou o capitão-donatario, a ponto de que
resolveu abandonar a capitania, chegando a embarcar em duas caravelas com sua família e o melhor móvel
de sua casa, em direcção a Espanha, o que não realizou por ter arribado ao Algarve e lhe ter sido dada por
el-rei satisfação da afronta, “porque, como afirma o citado cronista, pelos serviços que tinha feito a el-rei lhe
não merecia meter corregedor“. Este episódio serviu de assunto a uma interessante narrativa de Inacio
Vilhena Barbosa, inserta no seu livro Virtudes Civicas e Domesticas.
Outras providencias sucessivamente adoptadas foram pouco a pouco restringindo as amplas faculdades
jurisdicionais dos donatarios. Em 8 de Março de 1498 determinou D. Manuel que se não cumprissem
sentenças que não fossem confirmadas por ele, e em 25 de Março de 1500 expediu ordens para que os
fidalgos, cavaleiros e vassalos desta ilha o acompanhassem á guerra no verão seguinte, sendo até então o
serviço militar prestado espontaneamente pelos capitãis-donatarios. Pelos anos de 1579, o cardial-rei
cerceou consideravelmente aquelas prerrogativas, determinando especialmente que os ofícios e empregos
de justiça fossem de apresentação regia, o que antes pertencia de direito aos capitãis-donatarios.
Com a dominação filipina, ainda mais se restringiu o poder dos donatarios. O governo espanhol criou os
cargos de governadores gerais para a administração das nossas possessões e enviou para este arquipelago o
desembargador Dr. João Leitão, que vinha também encarregado de proceder a uma devassa acerca dos
acontecimentos políticos ocorridos nesta ilha por ocasião da proclamação de Filipe II. Desde então, os
capitãis-donatarios deixaram de residir entre nós e exerciam as suas faculdades jurisdicionais por
intermédio dos seus ouvidores, que eram da sua nomeação e aos quais outorgavam todas as atribuições de
que gozavam. É fácil, porém, de presumir que a ausência dos donatarios das suas capitanias e a autoridade
exercida com verdadeiro despotismo pelos representantes do governo espanhol, teriam imensamente
concorrido para reduzir a proporções mesquinhas o poder dos mesmos donatarios no governo destas ilhas.
A pesar de serem quasi meramente honoríficas, a partir desta época, as atribuições dos donatarios na
administração local e na aplicação da justiça, continuaram no entretanto a receber importantes rendas dos
diversos impostos cobrados no arquipelago, tendo, por meados do século XVIII, sido largamente
indemnizados da perda, que então começaram a sofrer dessas mesmas rendas e impostos.
Será hoje difícil e talvez mesmo impossível determinar com precisão a esfera das atribuições, na época em
que começou a ocupação castelhana, tanto dos capitãis-donatarios como dos diversos magistrados enviados
a este arquipelago pelos monarcas. O mesmo diremos acerca do período da dominação espanhola e da
época decorrida desde 1640 até o tempo do marquês de Pombal.
Não foi sem protesto que os donatarios assistiram á sucessiva e gradual diminuição das suas largas
atribuições e não vulgares prerrogativas. Esse protesto, embora se não possa considerar como meramente
platónico, não impediu que a acção governativa do poder central se fizesse sentir cada vez mais na
administração das cousas publicas. É certo que D. Manuel moderou ou atenuou a dureza de algumas das
medidas que tinha adoptado, e na carta régia de 20 de Abril de 1509, registada no arquivo da Câmara desta
cidade, algumas concessões fez ao capitão Simão Gonçalves da Câmara, mas a obra reformadora do
monarca não afrouxou e seguiu o impulso que lhe dera o movimento inicial. Esta atitude de D. Manuel e a
satisfação dada ao donatario que arribara ao Algarve, a que acima nos referimos, provam apenas que o
espírito prudente e conciliador do soberano não queria impor violentamente medidas que fossem de
encontro a antigos e inveterados costumes, e que ferissem o brio e o pundonor de vassalos que tinham
prestado assinalados serviços á pátria. Porém a sua acção reformadora prosseguiu e consumou-se.
Já em outro lugar rapidamente nos referimos á vida de fausto e grandeza que levavam os donatarios do
Funchal. Parece que alguns queriam ombrear com os monarcas no luxo e magnificência, apresentando-se
nas solenidades da corte e nas aparatosas cerimónias do casamento dos príncipes com tão extraordinário
brilho e desusada pompa, que deslumbravam os mais ricos e nobres fidalgos que frequentavam os paços
reais. Organizaram grandes expedições para a conquista e socorro das nossas praças de Marrocos, em que
frotas de dezenas de navios e muitos centenares de homens e de cavalos, permaneciam de vez em quando
alguns meses consecutivos em Africa, e tudo isto á sua custa e sem o menor encargo para o governo da
metrópole. Entre as manifestações de fausto e grandeza que esmaltaram a vida ostentosa do terceiro
donatario Simão Gonçalves da Câmara (V. este nome), chamado o Magnifico, destaca-se a aparatosa oferta
ao pontífice Leão X, do Sacro Colégio feito em alfenim, realizada por meio duma embaixada, como já noutro
lugar fica descrito. Ao 5.º capitão-donatario Simão Gonçalves foi dado em 1576 o título de conde da Calheta,
em atenção aos serviços dos seus maiores e ao esplendor e riqueza da sua grande casa.
As donatarias do Funchal e de Machico foram transformadas em alcaidarias-mores durante a administração
do marquês de Pombal, passando então para a coroa a jurisdição e a maior parte dos privilégios que
possuíam os donatarios. O privilegio de nomear ouvidores e certos oficiais de justiça, da câmara, da
almotaçaria e do juízo dos orfãos foi cedido pelo conde de Castelo Melhor, donatario do Funchal, á coroa,
por escritura de 9 de Setembro de 1766, recebendo ele como indemnização das prerrogativas que perdia, o
título de marquês, algumas propriedades importantes em Portugal e um padrão de juro que lhe dava direito
á pensão de 10 000 cruzados anuais, garantida pelo rendimento dos tabacos. Estes bens ficaram com o
caracter de bens patrimoniais e de perpetuo vinculo de morgado para se devolverem aos sucessores do
mesmo conde por direito de consanguinidade.
O direito á redizima não desapareceu, embora os alcaides-mores deixassem desde então de ter parte no
rendimento dos dizimos, e o monopólio dos foros públicos e da venda do sal também foi conservado, não
podendo, porém, o donatario exigir, por este género, preço superior ao fixado pelo governo. Aos
particulares continuou a ser permitido o fabrico de pão destinado, exclusivamente, ao consumo domestico.
Quando foram extintas as capitanias do Funchal, Machico e Porto Santo, pertenciam elas respectivamente a
José Caminha de Vasconcelos e Sousa, marquês de Castelo Melhor, ao marquês de Valença, como
representante da casa dos condes de Vimioso e a Estevão de Bettencourt, descendente de Bartolomeu
Perestrelo.
O rendimento médio da capitania do Porto Santo no período que vai de 1766 e 1770 foi apenas de 242$112
réis ao passo que as duas alcaidarias-mores do Funchal e de Machico produziram para os respectivos
alcaides no ano de 1807, a importante soma de 23:110$000 réis, proveniente da redizima de todos os
rendimentos da fazenda real, á excepção dos dizimos.
As alcaidarias-mores do Funchal e de Machico foram extintas em virtude do decreto de 13 de Agosto de
1832, o qual só teve inteira execução depois de proclamado o governo liberal em todo o país.
Foram primeiramente capitãis-donatarios do Funchal: João Gonçalves Zarco (1425-1467), João Gonçalves
da Câmara (1467- 1501), Simão Gonçalves da Câmara (1501-1530),João Gonçalves da Câmara (1530-1536) e
Simão Gonçalves da Câmara (1536-1580) (V este nome), tendo na menoridade deste, governado a donataria
seu tio Francisco Gonçalves da Câmara. Este Simão Gonçalves da Câmara morreu no Funchal a 4 de Março
de 1580, tendo-lhe sucedido seu filho João Gonçalves da Câmara, que morreu três meses depois em
Almeirim, sem haver chegado a tomar posse da capitania. Começa o governo filipino e, afora os importantes
rendimentos que os donatarios continuaram a usufruir, passaram a ser quasi meramente honoríficas as
suas atribuições na administração dos negócios públicos. Depois de João Gonçalves da Câmara seguiram-
se, como donatarios do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara (1585-1623), João Gonçalves da Câmara
(1623...), D. Mariana de Alencastre e Câmara, falecida em 1689, Luiz de Vasconcelos e Câmara, conde de
Castelo Melhor (1690-1726), Afonso Caminha de Vasconcelos, conde de Castelo Melhor (1726...) e José
Caminha de Vasconcelos e Sousa, conde e depois marquês de Castelo Melhor, que cedeu os seus direitos á
coroa em 1766, mas todos estes donatarios viveram sempre na corte, tendo sido esbulhados de uma boa
parte dos seus antigos privilégios pela nomeação dos governadores gerais para administrarem o
arquipelago.
A donataria do Funchal conservou-se sempre na posse dos descendentes directos de João Gonçalves Zarco
até ser extinta, ao passo que a capitania de Machico teve como 1º donatario o descobridor Tristão Vaz, 2.º
donatario foi seu filho Tristão Teixeira, chamado das Damas, 3.º donatario o filho deste, também por nome
Tristão Teixeira, a quem sucedeu seu filho Diogo Teixeira que, morrendo sem sucessão, foi a capitania
encorporada nos bens da coroa. D. João III fez dela mercê em 1542 a Antonio da Silveira, que muito se
distinguiu na Índia. Em 1549 vendeu este a capitania a D. Afonso de Portugal, conde de Vimioso, e por sua
morte foi capitão de Machico o conde seu filho D. Francisco de Portugal, que morreu gloriosamente,
defendendo os direitos do Prior do Crato, na batalha que se deu nas águas de Vila Franca do Campo, nos
Açores, a 23 de Julho de 1582. D. Filipe II, a 25 de Fevereiro deste ano, isto é, ainda em vida do conde de
Vimioso, deu a donataria de Machico a Tristão Vaz da Veiga (V. este nome), tristemente celebre como
traidor á pátria. 0 4.º conde de Vimioso D. Luiz de Portugal, pôde rehaver a donataria em 1604, tendo
professado e morrido num convento em Evora, no ano de 1637. Foram sucessivamente capitãis-donatarios
de Machico, mais de direito que de facto, D. Afonso de Portugal, 5.º conde, D. Luiz de Portugal, 6.º conde,
falecido em 1656, D. Miguel de Portugal, 7.º conde, falecido por 1680, D. Francisco de Portugal e Castro, 8.º
conde e 2.º marquês de Valença (1679-1749) e D. José Miguel de Portugal e Castro, 9.º conde e 3.º marquês
de Valença (1709-1775).
Teve o Porto Santo como capitãis-donatarios: Bartolomeu Perestrelo (1425), Pedro Correia, Bartolomeu
Perestrelo (1473), Bartolomeu Perestrelo (1529), Diogo Soares Perestrelo (1545), Diogo Perestrelo Bisforte
(1576), Vitorino Bettencourt Perestrelo (1653), Diogo Perestrelo, Estevão Bettencourt Perestrelo, Vitorino
Bettencourt Perestrelo e Estevão Bettencourt Perestrelo.
Donativo. Imposto que recaía sôbre os produtos da terra, lançado no domínio filipino, em 1635. De difícil
cobrança, a pesar de ter um superintendente e fintadores, só em 1658 é que foi regularizado, num patriótico
apelo, em que o capitão-general da Madeira fez reunir no senado do Funchal as câmaras das vilas,
representantes dos logares, ouvidores e juízes, para que se alvitrasse a maneira mais suave do seu
pagamento, pois era de 200:000 cruzados o donativo anual com que a Madeira devia contribuir para as
despesas da guerra da Independência, e ficou assim tributado:
Uma maquia por alqueire de pão que for aos moinhos, assim como se paga aos donatarios;
4 réis em canada de vinho que se vender;
200 réis em cada pipa, por conta do dono do vinho;
100 réis por cada coiro que se embarcar para fora;
200 réis por duzia de taboado que se embarcar para fora;
1.000 réis por moio de trigo que se embarcar para fora;
400 réis por quintal de ferro;
300 réis por pipa de vinagre ou beberagem;
400 réis por pipa de vinho;
2 cruzados por pipa de aguardente.
E que a ilha do Porto Santo concorra para a dita contribuição em dinheiro, visto não ter vinhos nem
moinhos. O ultimo diploma respeitante ao donativo tem a data de 1691. S.
V. Contribuições.
Doria
O nobre genovês Estevão Anes teve uma filha por nome Leonor Doria, que casou com Rui
Gonçalves Velosa, sendo estes na Madeira o tronco desta antiga família.
Dornelas. V. Ornelas.
D'Orsey (Alexander J. D.)
Foi capelão anglicano e director de um colégio no Funchal. E:
Colloquial Portuguese, or the Words and Phrases of every day, de que houve seis edições, a primeira de 1854
e a ultima de 1891, e A Pratical Grammar of Portuguese and English, de que houve três edições. Neste
ultimo trabalho colaborou Marceliano Ribeiro de Mendonça, reitor do liceu do Funchal.
Douglas (Dr.)
Escreveu um folheto intitulado Gran Canária, em que pretendeu provar as vantagens
de Las Palmas sôbre a Madeira, como estação de saúde. V. Teles de Meneses (Guilherme).
Dourada (Coryphaena equisetis)
Peixe da família Escombrida, que aparece ordinariamente
no mês de Junho e desaparece depois de Outubro. A sua carne é pouco apreciada. O nome de dourada
provém da cor que apresentam as espécies do género Coryphaena.
Segundo Lowe, o nome de dourado fêmea é aplicado á Coryphaena equisetis e o do dourado macho á
Coryphaena hippuris.
Douradinha
Nome vulgar do Senecio incrassatus, composta com as folhas penatifendidas e capítulos
pequenos e amarelos. Encontra-se no Garajau, na Piedade, no Porto Santo e nas Desertas.
Doutores
Receberam o grau de doutor de capelo na Universidade de Coimbra os madeirenses Antonio
da Gama (direito), Fr. Francisco de Santa Teresa (teologia), João Antonio Monteiro (filosofia), Viturio
Lopes Rocha (matemática), João Francisco de Oliveira (medicina), José Ferreira Pestana (matemática),
José Manuel da Veiga (direito), Justino Antonio de Freitas (direito), Jacinto Antonio de Sousa (filosofia),
Aires de Ornelas de Vasconcelos (teologia), Antonio João de França Bettencourt (teologia), e Augusto Arzila
da Fonseca (matemática). (V. cada um destes nomes).
Doutor Jose Antonio de Almada (Avenida do)
É o antigo caminho da Pontinha,
construído por 1874. Passa ao sul das quintas Vigias e Lambert e para abri-lo foi necessário destruir
algumas rochas do litoral, que ficavam junto dessas quintas.
Downe
Botânico inglês que herborizou na Madeira em 1776. As plantas que ele colheu acham-se no
Museu Britanico.
Dragoeiro (Dracaena Draco)
Árvore peculiar da Madeira, Canárias e Cabo Verde, com 6 a 15
metros de alto; caules a princípio simples, depois ramosos no cimo, mas com os ramos partindo sempre da
mesma altura; folhas terminais, alongadas, lineares; flores esbranquiçadas; bagas globosas, amarelas.
Esta árvore, quasi extinta na Madeira, há muito que desapareceu do Porto Santo, onde, segundo conta
Frutuoso, se faziam com os seus troncos barcos em que podiam pescar 6 ou 7 homens.
Em antigos tempos extraía-se do dragoeiro, por meio de incisões, o sangue-drago, mas hoje ninguém pensa
em utilizar a mesma árvore para tal fim, em razão da sua extrema raridade.
Não consta que na Madeira se encontrasse nunca dragoeiro algum com as dimensões do celebre dragoeiro
de Tenerife, destruído pelo temporal de 23 de Janeiro de 1868; o maior exemplar madeirense de que há
noticia, existiu no sítio da Pontinha de Cima, em Machico, e foi derrubado por uma tempestade em 16 de
Fevereiro de 1843. O seu caule, que alguém fez medir, tinha 5,m40 de circunferência e 11,m85 de
comprimento, o que deveria dar para toda a árvore uma altura total de 15 a 16 metros, enquanto que o
dragoeiro de Tenerife media, segundo Broussonet, um pouco mais de 15 metros de circunferência na base,
por 24,m33 de altura.
Dois dragoeiros seculares que há cerca de 10 anos se viam ainda numa quinta do Monte, que pertencera ao
falecido conde da Calçada, foram mandados arrancar pelo actual proprietário da mesma quinta, e o mesmo
destino teve um outro indivíduo da mesma espécie que existia na entrada da “Quinta da Palmeira“, á
Levada de Santa Luzia. Os exemplares do Monte eram muito admirados pelos estrangeiros por causa da sua
beleza e grandes dimensões.
Nas quintas do Funchal e subúrbios encontram-se ainda vários dragoeiros, mas fora delas só conhecemos
agora um exemplar no Garajau, outro no Caniço, outro na Ribeira Brava e um grupo de indivíduos no sítio
das Neves.
Driver (John)
E.: Letters from Madeira in 1834, Londres, 1838 e Historical and descriptive account
of the Island of Madeira, and guide to Visitors. Esta ultima obra anda anexa á do Dr. Mason sobre o clima
da Madeira, publicada em 1850.
Drumond
“Este apelido, diz o anotador das Saudades, é um dos mais distintos dos nobiliarios
madeirenses; procede de João Escorcio Drumond, natural do reino da Escocia e filho de João Drummond,
senhor de Stobhall, irmão de Annabella, mulher de Roberto III, rei daquelle reino, como se mostra do
documento authentico que seus descendentes conservam, passado em Escócia em 1525, do qual também
consta que o dito João Escorcio Drummond se passara a esta ilha da Madeira cem anos antes, ficando daqui
evidente que foi em 1425: viveu em Santa-Cruz, onde casou com Branca Affonso, irmã do primeiro vigário, e
natural da Covilhã“.
Armas:
(cid:1176)
Um escudo com o campo de ouro e três faxas ondadas de vermelho, e por diferença uma brica de
verde com um D de ouro; elmo de prata aberto, guarnecido de ouro, paquife de ouro e vermelho, com sua
coleira de ouro
(cid:1177)
.
Diz Inocencio, no seu Diccionario Bibliografico, que no Brasil se publicou uma memória acerca da família
Drumond, da ilha da Madeira.
Drumond (Inacio Correia)
Nasceu no Funchal por 1768, foi, nesta cidade escrivão da
correição e esteve no Rio de Janeiro de 1818 a 1821, tendo desempenhado aí por algum tempo o cargo de
procurador da Câmara Municipal. Escreveu e publicou no Rio de Janeiro alguns trabalhos poéticos, cujos
títulos vêm mencionados nos tomos X e XI do Diccionario Bibliographico, de Inocencio Francisco da Silva.
Faleceu em 1830.
Drumond (João Pedro de Freitas Pereira)
Foram seus pais o capitão José Luiz de
Freitas Silva Nunes e D. Ana Inacia Caetano Drumond e nasceu em Câmara de Lobos em 1760. Era bacharel
formado em leis pela Universidade de Coimbra, foi o primeiro presidente da Sociedade dos Amigos das
Sciencias e Artes e desempenhou os cargos de almotacé, guarda-mor de saúde, vereador da Câmara do
Funchal, juiz de fora interino e membro da direcção da Escola Lancasteriana. Em sessão de 18 de Outubro
de 1803 resolveu a Câmara Municipal encarrega-lo de fazer um relatório do estado em que ficara a cidade
depois da aluvião daquele ano, a fim de ser guardado no arquivo da mesma Camara. Publicou no
Investigador Português uma memória com o título de Noticias Mineralogicas da Ilha da Madeira e escreveu
os Apontamentos Historicos e geographicos sobre a ilha da Madeira, de que existe o autografo na biblioteca
municipal e vários artigos que foram publicados no Patriota Funchalense. Foi constitucional exaltadissimo,
advogado distinto e homem bastante erudito. Faleceu sem descendência, em Março de 1825. Era conhecido
entre os seus contemporâneos pela alcunha do Dr. Piolho, por ser de baixa estatura.
Drumond de Meneses (Antero)
Era filho de Servúlo Drumond de Meneses, nasceu no
Funchal a 1 de Dezembro de 1830 e tomou o grau de doutor em medicina na faculdade de Montpellier, em
1856. Foi medico do partido da Câmara Municipal do Funchal e facultativo da Associação de Socorros
Mútuos 4 de Setembro de 1862. Faleceu em Lisboa a 30 de Setembro de 1916. E.: L'Etiologie comme source
du diagnostic médical, Montpellier, 1856.
Drumond de Meneses (Servulo)
Nasceu no Funchal a 23 de Dezembro de 1802, era filho de
João Nepomuceno Correia Drumond e de D. Maria Isidora de Meneses e Brito, e frequentou nesta cidade
estudos secundários, na intenção de matricular-se no curso de direito da Universidade de Coimbra. Não
tendo seguido este destino, por motivos que desconhecemos, entrou como praticante no escritório de seu
tio, o escrivão da correição Inacio Correia Drumond, conseguindo ser nomeado em 1826 escrivão do
judicial;, e, mais tarde, depois de proclamada a Constituição, advogado provisionista. Foi presidente da
Câmara Municipal do Funchal e, anos depois, vereador da mesma Câmara, sendo devido a iniciativa sua
que se fundou a 12 de Janeiro de 1838 a biblioteca publica da cidade, que é ainda hoje o mais importante
estabelecimento municipal. Desempenhou também os cargos de vogal do Conselho de Distrito, de
procurador á Junta Geral e de Secretario Geral do Governo Civil, este ultimo durante a administração do
Conselheiro José Silvestre Ribeiro, tendo sido ainda Governador Civil interino desde 17 de Julho de 1848
até 24 de Julho de 1849, enquanto o mesmo conselheiro Silvestre Ribeiro esteve ausente em Lisboa, como
deputado ás Cortes.
Militou no partido cartista e depois no cabralista, foi um dos redactores da Flor do Oceano, publicada em
1828, e colaborou no Regedor, sendo ainda bastante novo, na Ordem e noutros periódicos funchalenses.
Publicou a Collecção de Documentos relativos ao Asylo de Mendicidade do Funchal, Funchal, 1848, de 72
pag., a Colecção de Documentos relativos á Crise da Fome, Funchal, 1848, de 310 pag., a Collecção de
Documentos relativos á Construçâo da Ponte do Ribeiro Secco, Funchal, 1848, de 110 pag. e os volumes 1.º e
2 º da obra intitulada Uma Epocha Administrativa da Madeira e Porto Santo, Funchal, 1849 e 1850, de 636
e 659 pag., tendo o 3.º volume da mesma obra sido publicado por Antonio Jacinto de Freitas, em 1852.
Foi um dos mais distintos advogados do seu tempo e deixou várias peças de direito administrativo e civil,
umas inéditas, outras impressas avulso. Era cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição, foi antes
de 1820 cadete do corpo de Artilharia Auxiliar e, enquanto novo, cultivou as musas, encontrando-se
algumas poesias suas na Collecçao d'algumas obras poéticas offerecidas ao Ill.mo e Ex.mº Sr. Sebastião
Xavier Botelho (Funchal, 1821).
Faleceu no Funchal a 13 de Janeiro de 1867.
Em 1905 resolveu a Câmara Municipal do Funchal, por proposta do falecido vereador Francisco José
Nogueira Guimarãis, dar o nome de Servulo Drumond de Meneses á rua entre a antiga Travessa da Alegria e
a Estrada do Conde de Carvalhal, mas a pesar de tal proposta ter sido aprovada por unanimidade, conseguiu
alguém que ela não fosse exarada no livro das sessões, sendo dado mais tarde o nome de Rua Nova da
Alegria á referida via publica!
Duarte (D.)
“No ano de 1516, diz Gaspar Frutuoso, por elle (o primeiro Bispo do Funchal D. Diogo
Pinheiro) ser ocupado no serviço d'El-Rey como desembargador do paço e impedido em negócios d'El-Rey e
do Reyno, mandou á cidade do Funchal hum bispo, que se chamava D. Duarte, o qual por elle não poder vir,
crismou e deo ordens e regimento na See, e executou outros ministerios cumpetentes a seu oficio e cargo, e
consagrou a See da cidade do Funchal, hum dia de São Lucas, 18 de Outubro, com muita solemnidade, e
benzeo hum dos sinos que pozeram na torre da mesma, e fez outras cousas muito necessarias“.
D. Duarte veio á Madeira dois anos depois da criação desta diocese, e anteriormente, em 1508, mandou a
Ordem de Cristo a esta ilha, o bispo D. João Lobo.
Duncan (P. Martim).
V. Antozoários
Duro
Este apelido, que julgamos extinto entre nós, proveio de Manuel Mendes Duro, descendente de
uma nobre família de Setúbal, por nome Sardinha.
Dyster (F. S.)
E.: Madeira as residence for invalids, Londres, 1854.
Eça (João Fogaça de)
Sob o jugo castelhano foi governador geral da Madeira João Fogaça de Eça,
cuja nomeação data de 14 de Agosto de 1603.
Echo Académico
Saíram poucos números, publicando-se o primeiro a 21 de Novembro de 1896.
Echo da Revolução (O)
Publicou-se de 27 de Junho de 1846 a 23 de Janeiro de 1847, saindo 31
números.
Echo de Santa Cruz
Saiu o primeiro numero a 24 de Setembro de 1877 e o numero 14 a 30 de
Março de 1878. Era composto e impresso na vila de Santa Cruz e foi o primeiro jornal que na Madeira se
publicou fora da capital do distrito.
Ecos da Madeira
Deu o seu primeiro numero a 22 de Janeiro de 1920 e publica-se na Ponta do Sol.
Edenfeld (Moritz)
E.: Eine Reise nach den Canarischen Inseln und Madeira, Strasburg, 1945, I
Vol.
Edifícios Antigos
Além do edifício da Alfândega, que nas suas arcadas e portadas interiores tem,
como diz o Dr. Azevedo, indelével o cunho arquitectónico manuelino, existiam no Funchal, há cerca de meio
século, quatro prédios que, pelas suas janelas góticas e bipartidas, inculcavam também uma notável
antiguidade. Desses prédios que chamavam a atenção de todas as pessoas entendidas em assuntos de
arquitectura, três desapareceram há muitos anos sob o camartelo destruidor, que nada respeita em geral na
nossa terra, estando agora de pé apenas um só, que deve ser considerado como verdadeira relíquia dos
tempos em que o tipo arquitectónico gótico era usado ainda nas construções do Funchal.
O prédio a que nos referimos, que pertenceu ao morgado Pedro Cipriano de Ornelas, está situado na rua dos
Aranhas ou do Dr. Chaves, e fica ao fundo de um recinto, em cuja porta se podem ver as armas dos Ornelas
e a data de 1606. Neste prédio foi morta em 1693, com um tiro de espingarda partido da cerca do extinto
convento de S. Francisco, “uma mulher nobilissima, por nome D. Mecia
(cid:1177)
, quando se achava a uma janela que
olhava para a mesma cerca, tendo este caso, que foi romantizado por Camilo Castelo Branco no seu livro O
Santo da Montanha, sido narrado por Antonio Vanguerve Cabral numa obra que tem por título Epilogo
juridico de varios casos civeis e crimes.
Segundo conta Vanguerve Cabral, que era em 1693 juiz comissário do bispado do Funchal e assessor do
bispo, o homicídio foi casual, tendo sido
(cid:1176)
autor dele um religioso que pegou em uma espingarda que estava
carregada com quartos, dizendo que queria atirar a um francelho, e com effeito atirou e errou o tiro”.
Quando falámos de Colombo, a pag. 286 este Eucidario, referimo-nos a um dos três prédios antigos já
demolidos; quanto aos outros dois, estavam situados um na antiga rua do Peru hoje do Comercio, e outro na
rua da Boa Viagem, vendo-se em ambos eles também janelas bipartidas e estabelecendo a transição do
gótico para a renascença.
A casa da rua da Boa Viagem, pertencente á capela instituída por Bento da Veiga, tinha duas janelas, cujas
pedras foram vendidas a um súbdito inglês, que as fez transportar para o seu país: a casa da rua do Peru, do
Conde do Carvalhal, tinha apenas uma janela, ignorando nós o destino que tiveram as respectivas pedras.
As pedras da janela da casa de Colombo estavam em poder dos herdeiros do falecido conselheiro Agostinho
de Ornelas, tendo a mesma janela sido fotografada pelo fotografo João Camacho, na ocasião da demolição.
Além dos prédios mencionados, nenhuma outra construção civil conhecemos, notável pela sua vetustez e
tipo arquitectónico. Entre os edifícios religiosos, porém, alguns há que foram assinalados pelo Dr. Neale
numa memória lida perante a Cambridge Camdem Society em 1844, como apresentando mais ou menos
distintamente o tipo gótico terciario ou flamboyant, o qual apareceu na Europa nos séculos XIV e XV.
Os templos mencionados pelo Dr. Neale foram a Sé Catedral, a igreja de Machico, a capela do Senhor dos
Milagres, a igreja de Santa Cruz, a capela de Nossa Senhora das Neves, as igrejas da Incarnação e de Santa
Clara, a igreja de S. Bernardino, em Câmara de Lobos, a igreja do Estreito da Calheta, a igreja do Porto
Santo, a capela de S. Sebastião na mesma ilha, etc., mas é de advertir que muitos destes edifícios sofreram
depois de 1844 modificações mais ou menos notáveis, que lhes imprimiram uma feição um pouco diversa da
que antes apresentavam.
O Dr. Neale fez uma descrição bastante extensa da catedral do Funchal, cujas belezas interiores aprecia,
acrescentando porém que na parte externa, só na capela do Santissimo Sacramento há trabalhos e ornatos
dignos de nota.
A Sé do Funchal, como é sabido, é considerada monumento nacional, e a sua arquitectura é manuelina,
tendo começado a ser edificada pouco depois de 1493.
Vid. “Casas Madeirenses “ por J. Reis Gomes.
Ega (Conde da)
Aires José Maria de Saldanha Albuquerque Matos e Noronha, 2.- conde da Ega, era
filho de Manuel de Saldanha de Albuquerque e nasceu no Funchal a 29 de Março de 1755, quando seu pai
exercia aqui o cargo de governador e capitão-general deste arquipelago, tendo sido baptizado na capela do
palácio de São Lourenço, a 27 de Maio do mesmo ano. Exerceu elevados cargos públicos, como o de
embaixador de Portugal em Madrid, mas ficou sendo mais conhecido o seu nome por ser marido da celebre
condessa da Ega, que foi amante do general Junot, quando este entrou em Portugal, comandando as tropas
da primeira invasão francesa. Quando as tropas de Napoleão saíram de Portugal em 1811, toda a família do
conde de Ega foi para França, onde o conde recebeu do imperador uma pensão de sessenta mil francos
anuais, que usufruiu até á queda de Napoleão. Tendo então o nosso governo procedido contra os
portugueses que estavam em França, foi o conde da Ega condenado á morte, mas esta sentença nunca se
executou, e em 1823 foi absolvido dos crimes que lhe imputavam.
Eira do Serrado
No alto da íngreme ladeira do Passo da Chave, que do fundo da povoação do Curral
das Freiras conduz á estrada que se dirige ao Funchal, encontra-se o lugar daquele nome, que tem uma vista
surpreendente sôbre a freguesia do Curral e as alterosas montanhas que o circuitam.
Eirinha
Sítio da Deserta Grande (Ilhas Desertas), onde se encontra uma pequena nascente de água
potável.
Eiró (Anguila vulgaris)
Peixe da família Leptocefalida, frequente nas partes baixas dalgumas
ribeiras e charcos da Madeira. Embora de sabor agradável, não é objecto de comercio algum e a sua pesca é,
quando muito, um simples passatempo do rapazio.
O eiró reproduz-se no mar, para onde retira em certas épocas. Os novos eirós depois de haverem passado
pelo estado de leptocefalos, vivem ainda algum tempo na água salgada, só recolhendo aos charcos e ribeiras
depois de adquirirem um certo desenvolvimento.
Eirós (Pico dos)
Fica esta elevação montanhosa na freguesia de Gaula e do seu cume disfruta-se
uma vasta e surpreendente paisagem.
Eleições
Nos tempos do governo absoluto o acto eleitoral era indirecto e realizava-se de harmonia com
o disposto no Tit. 67 do Lº 1 das Ordenações. Os indivíduos que exerciam cargos municipais, eram eleitos
da forma seguinte:
Os homens bons e o povo reuniam-se na casa da Câmara nas oitavas do Natal, e aí, em presença do juiz
mais velho e do escrivão, votava cada eleitor, oralmente e em sigilo, em seis cidadãos, visto ser este o
numero dos individuos a quem cumpria eleger os membros do senado. Pelo rol da votação, que o escrivão
da Câmara organizava, escolhiam os juízes e os vereadores os seis cidadãos mais votados, sendo estes
separados dois a dois, a fim de que cada par votasse os diferentes cargos do Concelho. Os eleitores não
podiam ser parentes nem cunhados dentro do quarto grau.
Reunidos os róis, que eram em número de três para cada cargo, o juiz mais antigo, “concertando-os uns
com os outros “, organizava em a sua própria mão a pauta com os nomes dos eleitos, que era por ele
assinada, cerrada e selada, sendo em seguida distribuídos os nomes dos mesmos eleitos por três pelouros,
um para cada ano do futuro trienio. Os pelouros, que eram de cera, metiam-se num saco dividido em tantos
compartimentos quantos os ofícios, devendo ficar também dentro do mesmo saco a pasta e os róis, a fim de
se poder verificar no fim dos três anos se alguma irregularidade havia sido cometida na chamada.
O saco dos pelouros era guardado num cofre de três chaves, cada uma das quais ficava em poder dum
vereador do ano anterior, sendo a sorte que decidia a ordem a seguir na chamada dos indivíduos eleitos
para exercer os cargos concelhios. Os pelouros eram tirados do saco por uma criança de idade não superior
a sete anos.
Os juízes só superintendiam nas eleições na falta ou impedimento do corregedor.
Estabeleceu o alvará de 12 de Novembro de 1611, registado no tomo V do Arquivo da Câmara, que os
corregedores ou ouvidores ao fazerem as eleições escolhessem duas ou três pessoas das mais antigas e
honradas, “zelosas do bem publico e de sã consciência “, e lhes perguntassem pelas pessoas que tinham
qualidades para poderem entrar nos cargos da governança, etc., lançando pregões de que aqueles que
pedissem votos ou procurassem subornar os eleitores seriam degredados por dois anos para Africa e
pagariam 50 cruzados para os cativos. Convocado o povo, devia este eleger dentre as pessoas mais nobres e
da governança da terra, seis cidadãos dos mais velhos e zelosos do bem publico, cumprindo aos eleitos votar
em pessoas “sem raça alguma “ para os ofícios municipais. No restante, os trabalhos eleitorais deviam
regular-se pela Ordenação.
Segundo uma provisão expedida em 1613 e que é quasi idêntica a outra publicada em 1803 e que, como
aquela, se acha registada no Arquivo da Câmara do Funchal, o Corregedor devia tomar até três homens dos
mais antigos e nobres e de que tivesse informação de que eram
(cid:1176)
de boa consciência, zelosos do bem publico e
naturais da terra
(cid:1177)
, a fim de indicarem as pessoas que costumavam andar na governança ou cujos pais ou
avós tinham andado nela, e aquelas que possuíam os requisitos precisos para servirem cargos municipais,
devendo o mesmo corregedor mandar fazer de cada uma dessas pessoas “um título separado em um
caderno com todas as declarações acima referidas “. Feito o caderno, devia o corregedor indicar na margem
de cada título, com letra sua, as qualidades das mesmas pessoas, mandando depois lançar os pregões na
forma já indicada.
O corregedor devia fazer apresentar em Câmara os homens fidalgos e da governança a fim de escolherem os
seis cidadãos encarregados de eleger os vereadores, cumprindo aos mesmos cidadãos, depois de eleitos,
prestar juramento “de que conforme as suas consciências votariam nas pessoas que lhes parecessem “.
Na referida provisão encontram-se também algumas disposições sôbre a forma de tirar os traslados das
eleições, guarda destes na arca da Câmara, etc., etc..
Determinou o alvará de 13 de Agosto de 1508 que a Câmara do Funchal fosse “regida & gobernada por
maneyra que se rrege a de Lisboa “, só podendo daí em diante ser vereadores os fidalgos, e que o resultado
das eleições, que se deviam realizar de três em três anos, fôsse enviado ao monarca para ser por ele
confirmado. Antes disso, em 1461, tinha o infante D. Fernando ordenado que os cargos da Câmara fossem
providos por eleição e que se fizessem em cada ano dois pelouros, um para juízes e outro para vereadores e
procurador, devendo o capitão-donatario deferir juramento aos que saíssem eleitos, mas sem intrometer no
acto eleitoral.
Em 1471 apareceu uma carta da infanta para que todos servissem os ofícios do concelho, ainda mesmo que
tivessem alvarás de escusa, e em 1534 foi estabelecida a multa de 20 cruzados para quem pedisse votos ou
procurasse subornar os eleitores.
D. João IV, por decreto de 6 de Julho de 1654 deu ao Funchal representação em cortes, mas vê-se dum
documento citado pelo Dr. Azevedo a pag. 635 das notas ás Saudades da Terra, que já em 1479 a Madeira
mandava representantes seus ás mesmas cortes. É de advertir, porém, que a nossa ilha não está
compreendida na lista dos logares que em 1535 davam procuradores, existente no arquivo da Torre do
Tombo e publicada pelo Sr. Antonio de Sousa Júnior no Censo da metropole, e que nos livros da Câmara do
Funchal se não encontra referência alguma á eleição desses procuradores, embora fosse uso as cartas regias
convocatórias das cortes serem enviadas ás municipalidades.
Os deputados pela Madeira durante o regime monarquico-constitucional eram escolhidos ora por eleição
indirecta ora por eleição directa, tendo o primeiro sistema sido adoptado nas eleições de 1821, 1826 e nas
que precederam a Revolução de Setembro e o segundo em 1822 e nas que se seguiram ao triunfo da mesma
Revolução. Em 1842 voltou-se ao sistema da eleição indirecta, o qual durou até ser publicado o Acto
Adicional de 5 de Julho de 1852, excepto em 1846 e 1847, enquanto esteve em vigor o decreto de 27 de
Julho de 1846.
Era indirecta a eleição dos pares do Reino a que se refere a lei de 24 de Julho de 1885, mas a eleição de
deputados nunca mais deixou de ser directa depois de 1852. Os senadores mencionados na Constituição de
4 de Abril de 1838, eram escolhidos por eleição directa.
Pelo que respeita aos corpos administrativos locais, as Câmaras foram sempre eleitas directamente pelos
concelhos, depois da restauração do governo constitucional na Madeira, ao passo que a Junta Geral só em
1878 é que deixou de ser escolhida por eleição indirecta. Os códigos de 1895 e 1896 estabeleceram que as
Comissões Distritais que substituíram as Juntas Gerais fossem eleitas por delegados das Câmaras
Municipais, presididos pelo Auditor Administrativo, mas o decreto de 8 de Agosto de 1901, que concedeu a
autonomia administrativa ao Distrito do Funchal, criou novamente uma Junta-Geral escolhida
directamente pelos concelhos.
Vid. o artigo “Representação em Cortes “.
Elementos para a História Madeirense.
O mais importante e copioso repositorio de
informações e noticias que interessam á historia deste arquipelago encontra-se no arquivo da Câmara
Municipal do Funchal, que contém muitos e valiosissimos documentos, sobretudo dos séculos XV, XVI e
XVII, sendo bastante para sentir que se conservem inéditos na sua quasi totalidade, com excepção dos que o
Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo publicou nas suas eruditas anotações ás Saudades da Terra. Este distinto
professor e advogado, referindo-se a este arquivo diz, no artigo Madeira do Diccionario Universal Português
Illustrado o seguinte:
“0 mais rico é o da Câmara Municipal do Funchal que tem um bem elaborado repertório em dois grandes
tomos de fólio com o título Indice Allphabetico dos tombos do Senado da Camara do Funchal, obra de
Antonio José de Jesus Lamedo (V. este nome), porteiro e guarda-livros da mesma Câmara, e que chega até
1794; este repertório é fundamental para o estudo da historia insulana, não só madeirense senão também
açoreana e cabo - verdeana, e ainda da historia ultramarina em geral; muitas vezes o obscuro auctor deste
artigo solicitou inutilmente da aludida Câmara a publicação deste precioso e desconhecido manuscripto, e
agora aproveita a ocasião para reiterar o pedido á mesma Câmara e fazel-o ao governo, á Academia Real das
Sciencias de Lisboa e á benemérita Sociedade de Geographia “.
A publicação do índice organizado por Lamedo seria sem duvida um apreciável serviço prestado aos
estudiosos e aos investigadores da historia madeirense, mas as corporações administrativas deste
arquipelago deviam realizar obra mais completa, procedendo á publicação integral dos tomos mais antigos
do arquivo da Câmara do Funchal, de muitos documentos que se encontram em outros arquivos e ainda de
diversos manuscritos existentes nas mãos de vários particulares, a alguns dos quais referiremos neste
artigo. A exemplo do que fizeram os açoreanos, há muito que entre nós se devera ter pensado na publicação
duma revista de caracter essencialmente regional, em que fossem arquivados todos os elementos que se
pudessem carrear como materiais indispensáveis para a historia do nosso arquipelago. Do Archivo dos
Açores se publicaram doze grossos volumes, no período decorrido de 1878 a 1894, recomeçando a sua
publicação, que continua ainda, no ano de 1906, sob a direcção do ilustre açoreano coronel Francisco
Afonso de Chaves. Outro tanto deveramos ter feito, se entre os madeirenses houvesse uma mais nítida
compreensão do valor e utilidade dos trabalhos desta natureza.
Das outras Câmaras municipais do arquipelago é a de Machico a que possue um arquivo mais abundante e
valioso, por ter sido a sede de uma capitania, que nos tempos primitivos da colonização ombreou em
importância e prosperidades com a do Funchal e até a excedeu, segundo alguns o afirmam. Deste arquivo
falta o primeiro tomo, que era o mais precioso, no dizer do Dr. Rodrigues Azevedo, e que, tendo sido há
muitos anos oficialmente pedido pelo governo civil, nunca mais voltou á sua procedência e decerto se
perdeu para sempre, pois não se encontrou naquela repartição, quando a Câmara de Machico o reclamou, a
pesar das diligências que nesse sentido se fizeram. A Câmara Municipal da Calheta também possuía
importantes documentos, e entre eles se encontraria por certo o registo do diploma que elevou esta
localidade a vila e cuja data precisa se ignora, mas uma inundação que ali houve por meados do século
XVIII destruiu completamente todo o arquivo, perdendo-se assim os mais preciosos elementos para a
historia daquela vila e município. Não tivemos ocasião de examinar os arquivos das Câmaras de Santa Cruz
e Ponta do Sol, mas consta-nos que neles se encontram documentos dignos de consulta, que não somente
interessam á historia daquelas localidades, mas ainda de todo o arquipelago. Devera ser também valioso o
arquivo da Capitania do Porto Santo e da respectiva paróquia, mas os diversos assaltos feitos àquela ilha
pelos piratas, incendiando por mais duma vez a casa da câmara e a igreja paroquial, destruíram por
completo todos os documentos ali existentes. Consta, pelos Anais daquele concelho, que os livros da Câmara
foram destruídos no princípio do século XVII e os do arquivo paroquial no ano de 1690.
É também importante e copioso em documentos dos séculos XVIII e XIX o arquivo do Governo Civil deste
distrito, que parece ser filão pouco explorado ainda e do qual disse o citado anotador das Saudades:
“Estava ha alguns annos em montão numa agua-furtada do edifício do mesmo Governo Civil; o auctor deste
artigo foi lá duas vezes, e, tomando uns documentos ao acaso, viu que eram do reinado de D. Maria I e de
importantes providencias para a historia madeirense: além deste antigo arquivo, ha na secretaria do
referido governo alguns livros de registo desde meado do século XVIII, livros em perfeito estado, que
conteem copias e extractos de interessantes documentos, de alguns dos quaes também o auctor deste artigo
obteve traslado “.
O arquivo que estava em montão numa água furtada, quando a repartição do Governo Civil se encontrava
ainda no andar norte do edifício da Alfândega, é indubitavelmente o mesmo, ou uma parte considerável
dele, que o secretario geral Curado de Campos removeu há cerca de trinta anos para a praia e dele fez um
auto de fé, destruindo em alguns minutos muitos centenares de documentos que bastante deviam interessar
á historia do nosso arquipelago!
Não só para a historia deste bispado, mas ainda para a nossa historia eclesiástica ultramarina, deveria ser
muito importante o arquivo da câmara episcopal desta diocese. Sendo o Funchal a sede do nosso primeiro
bispado ultramarino e também do nosso primeiro arcebispado, que teve como sufragâneas quatro dioceses
e cuja jurisdição se extendia até ao extremo oriente, certamente que ali se deveriam ter arquivado valiosos
documentos, que um incêndio ocorrido no Paço Episcopal no terceiro ou ultimo quartel do século XVII
destruiu inteiramente.
O Dr. Azevedo classificou de rico o arquivo do Cabido da Sé do Funchal, mas acha-se hoje desprovido dos
seus mais antigos e importantes documentos, porque há cerca de vinte anos um empregado superior da
Torre do Tombo os removeu para aquela repartição, por ordem do governo central, e ali se encontram num
mare magnum de milhares de codices e de documentos avulsos, sem ordem nem catalogação alguma, sendo
hoje absolutamente impossível a sua consulta. Melhor fora que se conservassem no arquivo da Sé Catedral,
onde permaneceram cuidadosamente arrecadados durante algumas centenas de anos.
São dignos de consulta os arquivos do Comando Militar e da Alfândega, embora não tenham a importância
dos anteriores e se limitem a pontos muito restritos da historia madeirense.
A antiga Provedoria datava do século XV e juntamente com a Alfândega constituía uma só repartição,
correndo por ela quasi todos os assuntos respeitantes á fiscalização dos impostos, á arrecadação de muitas
contribuições e rendas publicas, á criação de vários lugares e nomeações de funcionários, etc.. Havia nesta
repartição um largo e valioso registo de milhares de documentos, especialmente alvarás régios e ordens
emanadas do governo da metrópole, que hoje seria uma fonte preciosa de seguras e autenticas informações
acerca da administração publica deste arquipelago, sendo muito para sentir que de todo se tivesse perdido.
Temos disso conhecimento pelo in-folio, que ainda existe, intitulado Índex Geral do Registo da antiga
Provedoria da Real Fazenda... desde o anno de 1419 até o de 1775, da extinção da mesma Provedoria. Por ele
se vê que compreendia vinte e quatro tomos de registo geral, além dos tomos dos Titulos Reaes, Ordens do
Erário e outros. A leitura deste Index, que é proveitoso e fornece ainda elementos bastante apreciáveis para
a historia desta ilha, mostra-nos a importância daquele registo e a falta irreparável que hoje nos ocasiona o
seu desaparecimento. A antiga Provedoria foi substituída pela Junta da Real Fazenda, e acerca do seu
arquivo informa o Dr. Azevedo que
(cid:1176)
estava ha anos e cremos ainda estar em deplorável abandono; esteve em
um pardieiro, donde muitas arrobas de papeis foram extraviadas
(cid:1177)
. Será este o arquivo da antiga Provedoria,
a que acima fazemos referencia? E em que local se encontrava? Nada sabemos a tal respeito.
Também se extraviaram, ou é para nós desconhecido o destino que tiveram, os livros do Juizo dos Resíduos
e Capelas, em que se encontravam os registos das antigas instituições vinculares com os seus encargos pios,
fundação das capelas, descrição das terras vinculadas, etc., o que tudo por certo constituiria um abundante
e interessantissimo pecúlio de noticias para um ponto muito importante da nossa história, sobretudo
sabendo-se que aproximadamente dois terços dos terrenos da Madeira eram bens pertencentes aos
inúmeros vínculos e morgadios que aqui existiam.
Dos Anais do Municipio, que deveriam ser aqui mencionados, já neste Elucidário nos ocupámos em artigo
especial. Também sob o título Arquivo da Marinha e Ultramar demos uma desenvolvida noticia da preciosa
colecção de inúmeros documentos enviados da Madeira para o governo da metrópole num período
aproximado de dois séculos.
Fora dos arquivos públicos, merecem especial referência neste lugar, como elementos muito apreciáveis
para a historia deste arquipelago, os seguintes manuscritos:
1.- Noticia das cousas da Ilha da Madeira desde o seu segundo descobrimento pelo Zargo; 2.- Memorias
sobre a criaçao e augmento do Estado Eclesiastico na Ilha da Madeira;
3.- Índex Geral do Registo da Antiga Provedoria, a que já acima nos referimos;
4.- Um volume existente no Paço Episcopal, que se ocupa dos bispos desta diocese;
5.- Um manuscrito da autoria do padre Antonio Gomes Neto;
6.- Memorias seculares e eclesiásticas para a composição da Historia da diocese do Funchal, atribuídas a
Henrique Henriques de Noronha.
O primeiro é um manuscrito do século XVIII, de autor anónimo, encontrado no espólio do falecido bispo
desta diocese D. Patrício Xavier de Moura, que contém interessantes informações relativamente ao
descobrimento, primitiva colonização, primeiros donatarios, etc., terminando com uma desenvolvida
noticia acerca da descendência de João Gonçalves Zarco. O segundo, que é do princípio do século XIX,
encontrava-se na antiga secretaria do seminário desta diocese e ocupa-se especialmente da criação da
diocese e das diversas paróquias, com a designação dos diplomas que as estabeleceram, côngruas dos
párocos, vencimentos eclesiásticos etc., sendo um dos mais apreciáveis elementos de que se serviu o Dr.
Alvaro Rodrigues de Azevedo para a redacção da nota XIX das Saudades da Terra. O terceiro, a que já nos
referimos, foi o trabalho que mais dados forneceu para a elaboração do escrito anterior e de que parece não
ter tido conhecimento o anotador de Gaspar Frutuoso. O quarto trata sumariamente dos bispos desta
diocese e com bastante desenvolvimento da administração episcopal do prelado D. João do Nascimento,
que faleceu em 1753, e neste ano terminam as noticias fornecidas pelo mesmo manuscrito. O quinto que é
devido á pena do ilustrado sacerdote padre António Gomes Neto e foi redigido por meado do século
passado, encerra interessantes informações de caracter eclesiástico e contém também muitas noticias
acerca da alfândega, da criação de diversos cargos públicos, etc., com apreciáveis comentários, embora nem
sempre aceitáveis, feitos ao sabor das ideias políticas que o autor professava, parecendo-nos ser escrito
diferente dos que vêm citados nas notas das Saudades. Todos estes manuscritos foram, em boa parte,
publicados no antigo Heraldo da Madeira, devido ás diligências dum dos autores deste Elucidário, que era
então redactor daquele jornal, mas não somente a revisão tipográfica deixou muito a desejar, encontrando-
se sobretudo em datas e nomes de pessoas muitos erros e lapsos que devem ser corrigidos, como ainda se
notam grandes lacunas e deficiências nas transcrições ali feitas, na divisão das matérias, etc., o que tudo
aconselha uma nova e mais cuidada publicação, a que deverão acrescentar-se algumas notas elucidativas do
texto.
O sexto e último manuscrito é trabalho de Henrique Henriques de Noronha, do qual o Diccionario
Bibliographico diz o seguinte:- “Manuscripto in folio de 225 folhas, e contendo mais um Appendice de 34
folhas. Este manuscripto autographo, que se diz ser uma obra completa da Historia Madeirense, foi ha
annos comprado em Lisboa, a peso, por pessoa que o conserva em seu poder “. O Dr. Alvaro Rodrigues de
Azevedo refere-se várias vezes ao estudo de Henriques de Noronha e primeiramente supôs ser ele o mesmo
que o trabalho que deixamos citado sob numero 2, mas depois afirma que os dois manuscritos eram
inteiramente diferentes, e afinal no artigo do Diccionario Universal Português Illustrado, volta a sustentar
que as Memorias sobre a criaçâo e augmento do Estado Eclesiastico e as Memórias... de Noronha
constituem um e o mesmo trabalho. Comunicou-nos há anos o distinto investigador e nosso patrício Dr.
Jordão de Freitas, que tivera ocasião de examinar em Lisboa o manuscrito de Henrique Henriques e
acabam de nos informar que o Dr. Manuel Monteiro Velho Arruda, residente em Vila Franca do Campo, na
Ilha de S. Miguel, possue esse decantado trabalho histórico e que brevemente o vai dar á luz da publicidade,
sendo então ocasião de se desvanecerem por completo todas as duvidas que se têm levantado acerca dele.
Entre os antigos escritos que de todo se perderam, merece menção especial o que vem citado no n.
2 do
jornal Flor do Oceano, do ano de 1834:
(cid:1176)
A segunda obra mais importante de que temos noticia é a que tem
por título Memorias authenticas e curiosas da ilha da Madeira, manuscripto em sete grandes volumes em
fólio, composto pelo padre Manuel Carlos de Vasconcellos, beneficiado da parochia de N. S. do Calhau. Esta
interessante collecção passou, segundo nos consta, juntamente com o opúsculo do cónego Leite, ás mãos do
padre J. L. de N., e contém interessantes documentos relativos á ilha, desde a sua descoberta até ao período
em que as tropas britanicas do comando do marechal Beresford dela tomaram posse “ Parece-nos que as
iniciais J. L. N. querem designar o cónego e arcediago da Sé do Funchal José Luiz de Nobrega, que faleceu
por meados do século passado. Outro escrito que igualmente se extraviou, é o que vem mencionado no já
citado artigo Madeira do Diccionario Universal Português, nos seguintes termos: “Semelhantemente
aconteceu com o manuscripto de uma obra histórico estatística da Ilha da Madeira do malogrado e
talentoso escriptor madeirense Januario Justiniano de Nobrega, a este pago pelo cofre da Câmara do
Funchal, e portanto a esta pertencente: quem estas linhas escreve possue fragmentos do borrão da obra e o
documento authentico da ordem de pagamento do preço dela “.
Os nobiliarios madeirenses também fornecem algumas noticias que podem interessar á historia do
arquipelago, mas deles nos ocuparemos em artigo especial.
Das obras impressas, a mais importante e valiosa de todas é o conhecido escrito do Dr. Gaspar Frutuoso,
que o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo enriqueceu e tornou um trabalho verdadeiramente monumental
com as eruditas anotações que lhe acrescentou. Será objecto dum artigo na altura competente deste
Elucidário.
Vid . “Bibliografia “.
Vem a propósito dizer que em Julho de 1931 foi criado o Arquivo Histórico da Madeira, sendo no ano
imediato provisoriamente instalado numa das dependências do palácio da Junta Geral do Distrito, onde
hoje (1940) funcionam os diversos serviços do Seminário Diocesano. No ano de 1933 foi o Arquivo Histórico
transferido para o palácio de São Pedro e ali se encontra com caracter definitivo, dependendo técnica e
administrativamente da Direcção Geral dos Arquivos e Bibliotecas. Nele têm sido encorporados alguns
milhares de códices e documentos dispersos por diversos arquivos e repartições publicas, constituindo o
mais abundante e valioso repositorio de elementos para a historia deste arquipelago. Dirige a importante
publicação Arquivo Histórico da Madeira, de que já saíram seis volumes, que contém valiosos elementos e
as mais interessantes informações e que hoje se tornam indispensáveis aos investigadores da historia
madeirense. É para lamentar que não se tivesse iniciado a publicação do índice dos documentos existentes
no arquivo municipal organizado por Antonio José de Lamedo, a que acima fazemos referência, publicação
há tanto desejada e que já o ilustre comentador das Saudades da Terra, em 1873, julgava absolutamente
indispensável realizar-se sem demora.
Entre esta valiosa documentação destaca-se o precioso recheio do arquivo municipal do Funchal, a que
acima se faz referência e de que nos seis volumes publicados do “Arquivo Histórico da Madeira “se
encontra um rápido mas interessante catalogo ou inventario, que merece ser consultado pelos estudiosos.
Supérfluo será dizer que no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a mais rica, a mais abundante e a mais
selecta colecção de manuscritos existentes no nosso país se encontra também uma vasta e valiosa
documentação respeitante a todos os assuntos que possam interessar ao arquipelago da Madeira. Esse
precioso minério está quasi inteiramente por explorar e nem sequer existe ainda um breve inventario dos
documentos referentes a esta ilha, que possa servir de guia a qualquer estudioso que queira aplicar-se a
determinadas investigações históricas. No entretanto deixamos aqui indicado um artigo publicado no
“Diário da Madeira “, de 21 de Dezembro de 1933, em que se faz desenvolvida menção de muitas colecções
de documentos de largo proveito para os investigadores. Não é de menor utilidade a consulta dos artigos
insertos nos citados volumes do “Arquivo Histórico da Madeira “ acerca dos manuscritos existentes na
Torre do Tombo referentes ás cousas do arquipelago madeirense.
Devemos deixar aqui consignada a boa informação que das Memórias de Henrique Henriques de Noronha,
a que acima se faz referência, existe uma copia manuscrita na Biblioteca Municipal, extraída do respectivo
original que se encontra na Biblioteca Publica da cidade de Ponta Delgada.
Embate
Os madeirenses chamam embate ao vento que sopra do mar durante o dia, e terral ao vento
que sopra da terra durante a noite. O embate principia ordinariamente das 8 para as 9 horas da manhã e
desaparece pela tarde; o terral manifesta-se das 9 até ás 10 horas da noite e dura até a madrugada do dia
imediato. Entre o aparecimento destes dois ventos, há sempre um intervalo em que a atmosfera fica serena.
Os ventos a que nos referimos apresentam no inverno grandes anomalias, mas no verão sopram com grande
regularidade, sendo devidos á diferença de temperatura entre a terra e o mar, de noite e de dia. De dia,
como os raios de sol aquecem o ar da terra, e este tornando-se mais leve sobe para as regiões superiores, é
do mar que sopra a brisa; de noite, como a atmosfera da terra está mais fria que a do mar, dá-se o fenómeno
contrário.
O embate vem geralmente do sudoeste, em virtude da força da brisa de nordeste, e é por isso que as
embarcações de vela que passam entre a Ponta de S. Lourenço e as Desertas tomam aquele rumo para
entrar no porto do Funchal; o terral sopra do norte ou do nordeste e é um vento benéfico, pois que arrasta e
dispersa pelo oceano as emanações da cidade.
Embicheirar
É apanhar o peixe grande com o bicheiro (V. este nome), lançando-o depois dentro do
barco.
Embleton (Dennis)
E.: A visit to Madeira in the winter 1880-81, London, 1881. 1 vol.
Embutidos
Os embutidos madeirenses executam-se
talhando convenientemente pequenos
fragmentos de madeira e introduzindo-os e colando-os em aberturas feitas com as mesmas dimensões
noutras madeiras. As madeiras do til, do barbusano, do fustete, da urze, da murta, do perado, do piorno, do
massaroco, da nogueira, da laranjeira, do buxo, do vinhatico do Brasil, do cedro e do teixo, são as mais
usadas na indústria dos embutidos, podendo obter-se por meio delas desenhos de cores variadas e bastante
ornamentais.
Todas estas madeiras são usadas em geral com a sua cor natural, somente a do perado é ás vezes
mergulhada em urina para tomar uma cor azulada, muito usada na composição das flores.
“Há já na Madeira, diz Vitorino José dos Santos no n.º 5 do Boletim do Trabalho Industrial, alguns
operários embutidores, convenientemente orientados por ensino técnico e dispondo de talento para a
composição artística, que produzem trabalhos de reconhecido merecimento, procurados e apreciados por
pessoas entendidas; porém, em geral aos operários madeirenses falta a cultura intelectual e gosto artístico,
o que os desinteressa da ideia de progredir, variando e melhorando a composição dos seus trabalhos, e por
isso a maioria dos embutidos produzidos continua rotineiramente a apresentar-se segundo os mesmos
modelos, quasi sempre figurando os tradicionais -vilões madeirenses-, os carros de bois, redes e carrinhos
do Monte, guarnecidos de cercaduras de desenhos simétricos e pouco variados.
“Estes embutidos guarnecem em regra mesas de pequeno formato, as chamadas -mesas de campainha“,
mesas de jogo, tabuleiros e variadas pequenas caixas destinadas a costura, a papel, a lenços, a luvas,
estampilhas, agulhas e alfinetes, etc., etc., e destes produtos, os de inferior qualidade são os mais
numerosos, e são os que, expostos diariamente nos “spardecks“ dos paquetes que guardam o porto do
Funchal, vão de mistura com outros produtos de indústria local, constituir um importante comércio
marítimo, o da classe dos “bomboteiros“, que dele vivem exclusivamente“.
Entre os melhores trabalhos de embutidos fabricados na Madeira, há a mencionar uma mesa oferecida em
1918 ao falecido Presidente da Republica o Dr. Sidonio Pais, e duas mesas encomendadas pelo Rei D. Luiz,
quando infante na sua estada na Madeira em 1858, destinadas como ofertas ao Rei D. Pedro V e á Rainha D.
Estefania. Estes dois últimos trabalhos eram citados por pessoas entendidas daquele tempo, com grande
apreço e elogio.
Emigração
Já no século XVI havia emigração na Madeira, pois que Frei Gaspar da Madre de Deus nas
suas Memórias para a Historia da Capitania de S. Vicente do Estado do Brasil, refere-se á ida para aquela
capitania de muitos casais desta ilha. A emigração para o Brasil continuou nos séculos XVII e XVIII, e entre
os muitos madeirenses que para ali foram em busca de fortuna, durante o domínio filipino, conta se o
celebre João Fernandes Vieira, o libertador de Pernambuco. Em 1676, diz o Dr. Azevedo, tinha chegado a
ponto tal nesta ilha a decadencia do comercio dos açucares, que a emigração para as terras de Santa Cruz,
até então mero expediente ou exploração de particulares, passou a ser promovida pelo governo, e em 1747
foi publicada uma carta regia para que o governador geral da Madeira desse ajuda a essa emigração
Pelo alvará de 4 de Julho de 1758 foram exigidos passaportes aos indíviduos que daí em diante
pretendessem deixar a ilha, e em 1779 mandou o governador geral proceder a uma devassa “para o
descobrimento dos engajadores da emigração, e dos navios que se empregavam no transporte de
emigrantes. “ Havia então emigração para o Brasil e emigração para os países estrangeiros, sendo contra
esta ultima principalmente que se insurgia o governador, que chegou a propor ao governo o
desenvolvimento da agricultura, como meio de evitar o despovoamento da ilha.
Em 1792 emigraram muitas famílias madeirenses para os Estados Unidos da América por causa da
perseguição que os mações sofreram nesse ano, e sabe-se que já em 1753 saíam muitos individuos para
aquele país, quasi sempre clandestinamente, para fugir á miséria que afligia a população da ilha.
A emigração para Demerara e colónias inglesas das Índias Ocidentais parece que só começou a fazer-se em
larga escala por 1840.
Em 1841 subiu a 4045 o numero de emigrantes, em 1846 a 4945, em 1847 a 4720 e em 1853 a 3060, tendo
ido uma boa parte destes indivíduos para aqueles países, para onde desde 1842 o governo inglês pagava os
transportes, devido à falta que havia ali de braços para o trabalho. Em 1847 estacionou por alguns tempos
nos nossos mares um navio de guerra português, com o fim de coadjuvar as autoridades locais na repressão
clandestina.
Dos milhares de madeirenses que seguiram para a Guiana e para outras colónias inglesas em busca de
riquezas, alguns foram favorecidos pela sorte, existindo hoje descendentes deles tanto naqueles países como
entre nós. O demerarista que á custa de penosissimos trabalhos e de flagelos de toda a espécie conseguia
amontoar capitais, não se esquecia em geral da sua terra, e era aqui que gostava de vir passar o resto da sua
vida, rodeado de comodidades e confortos a que não fora habituado na sua mocidade. Era ele quem nas
freguesias fazia com maior empenho as festas do Senhor, festas em que havia sempre grande abundância de
tiros e foguetes, cousas estas muito do agrado do povo rude da nossa ilha.
Desde 1835 até 1855 saíram da Madeira cerca de 40.000 pessoas, das quais apenas umas 20.000 levaram
passaporte, tendo ido muitas delas para o Brasil e Estados Unidos da América, onde por esse tempo alguns
patrícios nossos conseguiram também fazer fortuna. Em 18 de Junho de 1854 saiu para o Rio de Janeiro o
iate português Experiência, conduzindo 188 colonos, e no mesmo ano deixaram o Porto Santo 104
indivíduos com destino aos trabalhos públicos em Portugal, segundo se lê nos Anais do municipio daquela
ilha.
A emigração para as ilhas de Sandwich começou em 1878, tendo os primeiros emigrantes saído daqui numa
grande galera, que gastou cerca de 6 meses em conduzi-los ao porto do seu destino. De 1883 a 1887 saíram
novas levas de emigrantes para aquelas ilhas, o mesmo sucedendo em 1909 e 1911, e ainda noutros anos.
Em 1884 saíram 232 indivíduos para Africa, tendo 210 sido contratados pelo governo para irem para
Mossamedes, e em 1889 e 1890 saíram 1338 com destino ao mesmo continente, estabelecendo-se a maior
parte deles em Angola e Lourenço Marques, para onde se pretendia fazer desviar a corrente emigratoria que
antes disso se dirigia principalmente para a América e Oceânia.
Compulsando as modernas estatísticas da emigração, vê-se que a América do Norte e o Brasil foram os
países que receberam maior numero de emigrantes madeirenses no período decorrido de 1903 a 1913. No
primeiro daqueles países entraram 195 madeirenses em 1903, 218 em 1905, 874 em 1909, 1064 em 1910,
1051 em 1912 e 1491 em 1913; e no segundo entraram 377 em 1903, 1198 em 1905, 839 em 1909, 985 em
1910, 2059 em 1912 e 1522 em 1913. Em 1915 saíram 1114 emigrantes para a América do Norte e apenas 62
para o Brasil.
Todos os anos vêm para a Madeira importâncias avultadas, remetidas pelos madeirenses residentes nos
Estados Unidos da América. Muitos desses madeirenses tem regressado já á pátria, trazendo capitais que
aplicam quasi sempre á compra de propriedades.
No Brasil poucos madeirenses tem conseguido modernamente fazer fortuna, e a Africa portuguesa cremos
que só a colónia estabelecida no planalto de Mossamedes está hoje em situação florescente. Para a Africa
oriental também foram em 1889 ou 1890 alguns colonos, que arrastaram ao princípio uma vida de
privações e de misérias, por não terem achado ali os recursos que o governo prometera facultar-lhes.
No Cabo de Boa Esperança e na Republica Argentina existem colónias madeirenses, tendo emigrado em
1905 para este ultimo país cerca de 250 indivíduos.
De 1872 a 1879 saíram da Madeira 6624 emigrantes, e de 1882 a 1889, 13.750. Quanto á emigração em
épocas mais recentes, acha-se consignada no quadro seguinte:
Anos Emigrantes
1901............ 1080 1909............ 2483
1902............ 1103 1910............ 2135
1903............ 836 1911............ 2298
l904............ 1178 1912............ 3222
Anos Emigrantes
1905............ 1844 1913............ 3295
1907............ 2678 1915............ 1271
1908............ 1347 1916............ 2326
Emigrados Espanhóis. Como fôsse mal sucedida a revolução que houve em Espanha em princípios de 1866,
muitos revolucionários se internaram em Portugal, tendo vindo para esta ilha 70, sendo 46 oficiais e 24
soldados, os quais chegaram aqui a 1 de Julho do mesmo ano.
Estes emigrados espanhóis, alguns dos quais casaram nesta ilha, saíram daqui depois de triunfar a
revolução de 1868, que destronou Isabel II, tendo ido embarcar de noite á Praia Formosa, sem que as
autoridades tivessem conhecimento da sua partida.
Encharéu (Caranx dentex)
Peixe da família Carangida, comum dos mares da Madeira.
Aparece ás vezes em grandes cardumes, sendo pescado de ordinário com a briqueira ou a agulheira, e mais
raramente com o espinhel ou a cana.
Enchova (Temnodon saltator)
Peixe da família Carangida, de passagem irregular na
Madeira. É muito voraz e destrói grande parte das espécies costeiras. Pescam-no por meio de redes, junto á
costa, ou á linha, e neste caso muitas vezes pelo processo chamado de corrico.
Encumeada
Este nome substantivo só se emprega toponimicamente na Madeira, designando o cume
de certos montes e eminências, donde se descortinam largos horizontes em torno do observador. A mais
conhecida é a chamada Encumeada de São Vicente.
Encumeada de São Vicente
Esta alta cumeada fica situada entre as freguesias da Serra de
Água e São Vicente, a uma altitude superior a mil metros e na crista da cordilheira que longitudinalmente
atravessa o interior da Madeira. Passa ali a estrada que da Ribeira Brava se dirige a São Vicente, e desse
ponto se avistam as costas setentrional e meridional da ilha, ou como diz o povo “vê-se o mar do norte e o
mar do sul“, o que realmente se verifica em dias de horizontes desanuviados. Na freguesia da Serra de Água
fez a Delegação de Turismo na Madeira construir no ano de 1939 uma confortável casa de pousada e de
abrigo, sendo muito para lamentar que esta construção não se levantasse em local mais aproximado daquela
eminência.
Engenhos
Existem actualmente na Madeira 51 fabricas de espremer cana doce, sendo 10 no concelho
do Funchal, 3 no de Câmara de Lobos, 2 no da Ribeira Brava, 7 no da Ponta do Sol, 8 no da Calheta, 1 no do
Porto Moniz, 6 no de S. Vicente, 7 no de Sant'Ana, 4 no de Machico e 3 no de Santa Cruz. Destas fabricas, só
duas se acham habilitadas a produzir açúcar em larga escala, tendo a montagem duma delas sido ultimada
no corrente ano.
Das 51 fabricas que laboraram enquanto vigorou o regime sacarino estabelecido pela lei de 24 de Novembro
de 1904 e decreto de 11 de Março de 1911, 49 só destilavam aguardente a 26º Cartier, destinada toda ao
consumo publico da Madeira, tendo estado a cargo das duas restantes, as únicas matriculadas, o fabrico do
açúcar e do álcool a 40º destinado ao tratamento dos vinhos.
O primeiro engenho para espremer cana doce que existiu na Madeira foi construído em 1452, mas em 1590,
quando Frutuoso escreveu as Saudades da Terra, havia para cima de 30 engenhos disseminados pela ilha, a
pesar de já a esse tempo a indústria sacarina apresentar sintomas de decadência entre nós. Em 1730,
segundo refere Soares da Silva nas Memorias para a historia del-rei D. João o I, havia poucos engenhos na
Madeira, calculando o Dr. Azevedo que a indústria sacarina desaparecesse inteiramente da ilha em 1748, em
razão de não poder continuar a suportar a concorrência dos açucares americanos, que de há muito vinham
invadindo os mercados europeus, onde eram vendidos por baixos preços.
Quando Bowdich visitou a Madeira em 1823, fabricava-se aqui uma quantidade insignificante de açúcar, e
em 1826 havia um único engenho em toda a ilha, tendo Severiano Ferraz (V. este nome) procedido á
construção dum outro no ano imediato, o qual ficou concluído em 1828. Em 1851 havia quatro fabricas na
Madeira (Harcourt, Sketch of Madeira) e em 1856 dez no Funchal e 18 em toda a ilha, todas para destilação
de aguardente (White, Madeira its climate and scenery).
Em 1861 contavam-se vinte e nove fabricas em toda a ilha, cinco das quais manipulavam açúcar, e em 1872
dizia o Dr. Azevedo nas notas ás Saudades da Terra que se conheciam aqui “sete fabricas a vapor, e dellas
cinco em laboração, e uma a começal-a; nove engenhos movidos a água; e alguns pela força de bois“;
produzindo as primeiras açúcar e aguardente, esta consumida quasi toda no país.
Em 1900 o numero de fabricas subia a 49, distribuídas pelo seguinte modo: 11 no Funchal, 2 em Câmara de
Lobos, 10 na Ponta do Sol, 7 na Calheta, 5 em S. Vicente, 7 em Sant'Ana, 4 em Machico e 3 em Santa Cruz,
mas destas fabricas somente três manipulavam o açúcar, que eram as de W. Hinton, no Torreão, a de Silva
Manique (outrora Severiano Ferraz) na Ponte Nova, e a de José de Faria & C.a, em S. Martinho.
Anteriormente tinham produzido também algum açúcar as fabricas de Vitorino Ferreira Nogueira, em S.
Martinho, a de Wilbraham, na Ponta do Sol, a de Diogo Frasão, no Arco da Calheta, e a de Ornelas Frasão,
em Santa Cruz.
Tendo W. Hinton adquirido por compra a fabrica da Ponte Nova e os maquinismos de outras destinadas á
produção do açúcar, ficou desta sorte senhor absoluto duma das mais ricas indústrias da ilha, acabando por
conseguir do Governo a publicação duma lei, segundo a qual só ás fabricas matriculadas era permitido
manipular aquele produto e o álcool destinado ao tempero dos vinhos.
Apesar de serem duas as fabricas matriculadas, a de W. Hinton e a de José Julio de Lemos, esta ultima foi
sempre a bem dizer uma dependência da primeira, acabando os seus actuais proprietários por arrendá-la a
Hinton por vinte e cinco contos anuais até 31 de Março de 1919, com a clausula de prorrogação se o regime
sacarino de 1911 fosse também prorrogado pelo Governo.
Das fabricas existentes, a do Torreão é a mais notável, podendo mesmo dizer-se que é o mais importante
estabelecimento industrial do distrito do Funchal, e no seu género, um dos mais perfeitos de todo o mundo,
visto o seu poder de laboração atingir 500 toneladas de cana em vinte e quatro horas.
A fabrica de José Julio de Lemos é de capacidade muito inferior á do Torreão e só tem fabricado álcool, mas
é também um estabelecimento importante, tendo melhorado as suas instalações e possuindo poderosos
geradores de vapor do tipo Babcock & Wilcox.
Quanto ás fabricas de aguardente, nada oferecem de notável, tendo assinalado o Sr. engenheiro Vitorino
José dos Santos no Boletim do Trabalho Industrial, de 1913, que a destilação se exerce nelas em geral em
alambiques de trabalho contínuo, sendo as mesmas fabricas “na sua grande maioria, servidas no
movimento e destilação por geradores de vapor, com excepção de 5 fabricas no concelho da Ponta do Sol, 4
no de S. Vicente e 5 no de Sant'Ana, onde essa destilação se pratica pela acção do fogo directo“.
Como dissemos a pag. 262 deste Elucidário, no dia 23 de Março de 1873 teve lugar a instalação da fabrica
denominada de S. João, pertencente á Companhia Fabril de Açúcar Madeirense, mas esse estabelecimento,
dotado dos melhores aparelhos que então se podiam obter, teve sempre uma vida atribulada, acabando por
sossobrar, em virtude da guerra desleal e vergonhosa que lhe moveram os seus inimigos. Para se formar
uma ideia da maneira como foi conduzida essa guerra, bastará dizer-se que houve um ano em que uma boa
parte da garapa produzida na fabrica foi cair no leito da ribeira de S. João e que por várias vezes se tentou
inutilizar os cilindros que esmagavam a cana, introduzindo neles ferros e pedaços de cantaria rija!
Mais antiga que a fabrica de S. João, mas excelente para o seu tempo, era a fabrica fundada em 1856 por
Severiano Alberto Ferraz e em que dispendeu cerca de vinte e cinco contos. Melhorada pelos filhos do
fundador, a fabrica da Ponte Nova tinha em 1862 clarificadores a vapor, concentradores de Bour, maquinas
centrífugas para a extracção do melaço, etc., etc., sendo considerada como um estabelecimento de primeira
ordem e o melhor que existia então no Funchal. Tinha como motor o vapor, sendo o movimento distribuído
por uma maquina de dez cavalos, a outras diferentes maquinas de fabricação.
A fabrica do Torreão foi fundada por William Hinton & C.a, também em 1856, e tinha como motor a água,
mas quando esta escasseava no verão, o movimento era estabelecido por uma maquina a vapor da força de
doze cavalos.
Os primitivos engenhos da ilha eram todos movidos a água ou pela força de bois, sendo os cilindros
construídos algumas vezes com madeira de til, outrora muito frequente. Além dos engenhos, havia também
as alçapremas ou prensas manuais, das quais tivemos já ocasião de falar noutro lugar deste Elucidário.
Não dizem os antigos documentos de que processo se serviram os proprietários de engenhos e alçapremas
para fabricar o açúcar, mas é de crer que esse processo consistisse em fazer cozer as garapas em caldeiras
até a consistência do xarope espesso, transferindo-as neste estado para vasos furados no fundo, onde se
depositariam os cristais, saindo o liquido pelos orifícios. É também de supor que na purificação dos
açucares fossem empregados a água de cal e o carvão animal, produtos estes que a indústria moderna utiliza
igualmente.
A indústria da refinação dos açucares floresceu na Madeira no século XV, sendo daqui que ela passou a
Lisboa, onde, como diz o Dr. Azevedo, “criou tantas fortunas particulares, com detrimento das colónias e da
indústria saccharina mesma“.
Engos (Sambucus Ebulus)
Planta da família das Caprifoliaceas, que se encontra na Ponta do
Pargo, no Porto Novo, no Funchal, etc.. Tem folhas com cheiro desagradável, imparipenatisectas, com os
segmentos oblongo-lanceolados, serrados, e flores brancas ou avermelhadas, com as anteras purpureas. As
folhas pisadas desta planta têm emprego no tratamento das cantusões.
Enjeitados
Em 1583 ficou a administração dos enjeitados a cargo do Bispo, mas uma provisão regia,
de 1685, passou esta administração para o Governador Geral. Desde 1693 que a superintendencia dos
expostos está a cargo da Câmara, tendo porém durante largos anos o pagamento ás amas sido feito por um
tesoureiro eleito anualmente pela casa dos Vinte e Quatro, o qual para esse fim e para o sustento dos
lazaros, cobrava a têrça parte da renda da imposição do vinho. Em 7 de Maio de 1761 resolveu a Câmara do
Funchal dirigir uma consulta ao Governo sobre se devia continuar a permitir que o aludido tesoureiro
arrecadasse o terço da imposição, visto competir ao tesoureiro do Concelho a cobrança das rendas
municipais.
Um alvará régio, de 1752, concedeu ás amas de expostos deste arquipelago os mesmos privilégios que
usufruíam as de Lisboa.
Vê-se de antigos documentos que em 1811 a Câmara do Funchal lutava com falta de recursos para sustentar
os expostos, e ainda no terceiro quartel do século XIX as amas não recebiam em dia os seus salários, o que
levou muitas delas a venderem as suas contas por baixo preço a certos especuladores, que ganharam nesta
transacção somas importantes.
A antiga roda dos expostos ou enjeitados estava no edifício da Santa Casa da Misericórdia, sendo aí que
muitas mãis abandonavam os filhos, quando por falta de meios ou outra qualquer causa os não podiam
criar.
Entrada da Cidade
Como o próprio nome está indicando, é ali verdadeiramente a entrada da
capital da Madeira para os que, vindo de fora da ilha, pretendam entrar nesta cidade. Há cerca de 80 anos
que foi construída. A antiga entrada da cidade era o portão dos Varadouros (V. este nome), que se demoliu
no ano de 1911. Por ali faziam os prelados e os antigos governadores e capitãis-generais a sua entrada
oficial, que revestia sempre grande e solene aparato.
A actual entrada da cidade teve noutro tempo o nome de Porto da Saúde e desde 27 de Outubro de 1910 que
se chama Avenida Joâo Gonçalves Zarco. Existia ali uma pequena e estreita rua, fechada no seu extremo sul
por um redente e uma das portas da cidade. Junto do portão, ou muito próximo dele, se levantava a
chamada Casa da Saúde (V. este nome), que no ultimo quartel do século XVIII foi de novo reconstruída ou
notavelmente acrescentada. É o edifício onde durante muitos anos estiveram instaladas a Associação
Comercial, a Estação de Saúde e a Capitania do Porto, edifício que pertencia á Câmara Municipal do
Funchal e que esta vendeu em hasta publica no ano de 1914.
A 12 de Janeiro de 1838 concedeu o governo central á Camara desta cidade autorização para demolir o
portão e proceder ao alargamento da viela ali existente. O portão foi abatido no ano imediato e
seguidamente se construiu a rua, aproveitando-se para isso alguns terrenos pertencentes á fortaleza de S.
Lourenço e uns casebres a leste desta fortaleza. Para o tempo em que foi construída, era uma ampla rua, a
que as aleas de plátanos, a proximidade e vista do mar e a sua comunicação com o passeio publico davam
uma particular beleza.
No prolongamento da Entrada da Cidade se começou em 1843 a construção dum cais, cujas obras não
chegaram a concluir-se. O actual cais foi construído no período decorrido de 1889 a 1892. V. Cais.
Entrosa
Assim se chama a uma aprumada escarpa, que, subindo da margem direita e próximo da foz
da ribeira do Porco, na Boaventura, vai entestar com a freguesia do Arco de São Jorge. Esta ravina é
atravessada por um caminho em torcicolo, que liga as duas freguesias e que é um trecho da estrada que
circunda a Madeira próximo do seu litoral.
Epanaphoras.
Epidemias.
V. Melo (D. Francisco Manuel de)
As que mais triste recordação deixaram na Madeira pela mortalidade que causaram, foram
as seguintes: a da peste, que começou antes de 1521 e durou até 1538; a do sarampo, em 1751; a das bexigas,
em 1815 e em 1873; e a da colera-morbus em 1856 e em 1910 e 1911.
Como nos ocupamos em artigos especiais das epidemias da peste e da colera-morbus, falaremos aqui tão
somente das epidemias de sarampo e de bexigas acima mencionadas, não nos referindo a outras que têm
havido também nesta ilha porque, além de menos importantes, foram assinaladas já no artigo Doenças,
publicado neste Elucidário.
No livro de Dr. Julião Fernandes da Silva intitulado Carta critica sobre o método curativo dos médicos
funchalenses, encontram-se informações valiosas sôbre a epidemia de sarampo que grassou na Madeira no
ano de 1751. “Tudo era pranto, dizia o Dr. Fernandes da Silva, onde os corações eram mais ternos; tudo
pavor onde o perigo era contingente; e tudo fúnebres espectáculos nas pias conduções dos cadaveres para as
sepulturas“.
Enquanto alguns médicos aplicavam as sangrias, os medicamentos frios e permitiam o uso da água aos
indivíduos atacados de sarampo, outros prescreviam o tratamento contrario, dando-se o caso, segundo
afirma o Dr. Fernandes da Silva, de ter sido menor a mortalidade entre os doentes submetidos aquele
regimen.
Os médicos partidários da sangria eram apenas o Dr. Silva e o celebre Dr. Heberden, a esse tempo residente
na Madeira, tendo chegado este ultimo, a ser exacto o que afirma o aludido autor, a curar mais de duzentas
pessoas atacadas de sarampo, sem que perigasse doente algum. A teimosia de alguns médicos em não
darem água aos doentes, acrescenta o Dr. Silva, foi o único motivo das muitas mortes que houve na ilha.
Sôbre a epidemia da varíola de 1815, diz o Dr. Heineken que foi trazida por um navio vindo de Cabo Verde, e
que vitimou cerca de 2.000 pessoas. A esse tempo, e mesmo muito depois, a utilidade da vacina era ainda
pouco conhecida do nosso povo, sendo esta, decerto, a principal razão porque a referida epidemia foi tão
mortífera entre nós. (V. Adams e Vacina).
A epidemia de 1872 e 1873 vitimou 1007 indivíduos, sendo depois da de 1815 a que mais estragos causou
nesta ilha. Foi um passageiro do Maria Pia, vindo de Lisboa em Outubro de 1872 e que recolheu ao Hospital
Civil, quem trouxe a moléstia para a Madeira, tendo esta durado até os fins de 1873 ou princípios de 1874, e
feito grandes estragos especialmente nos concelhos do Funchal, Santa Cruz, Calheta e Câmara de Lobos.
A varíola algumas vezes apareceu na Madeira depois de 1873, mas mercê da vulgarização da vacina e de
certas medidas acertadas adoptadas pelas autoridades, nunca mais tomou o incremento das antigas
epidemias. Em 1907 morreram muitos variolosos no Funchal, mas a epidemia durou pouco tempo e não
chegou a adquirir a intensidade das de 1815 e 1873, devido aos doentes que não podiam ser isolados em suas
casas terem recolhido ao Lazareto a partir duma certa época, onde encontraram da parte dos médicos e de
enfermeiras desveladas e conhecedoras do seu mister, cuidados e atenções que não lhes seriam dispensados
nos seus domicílios.
V. Colera-morbus em 1876 e 191O, Doenças e Peste.
Época Administrativa (Uma)
É uma preciosa colecção dos principais documentos
respeitantes á modelar administração do conselheiro José Silvestre Ribeiro como governador civil do
distrito do Funchal no período decorrido de 1846 a 1852. São três volumes de 636, 659 e 706 paginas
publicados nos anos de 1849, 1850 e 1852, que ainda hoje podem ser lidos com apreço e consultados com
grande proveito para a historia da Madeira, especialmente naquela época.
Além disso, constituem uma alta lição e o mais salutar exemplo para todos quantos queiram portar-se com
acêrto na administração das cousas publicas.
Epocha (A)
O primeiro periódico com este título que se publicou no Funchal, apareceu a 6 de
Setembro de 1886 e acabou a 30 do mesmo mês e ano, tendo saído oito números.
Com o mesmo título apareceu outro jornal em 1895, que deu seis números, o primeiro a 14 de Janeiro e o
ultimo a 21 de Fevereiro.
A 16 de Junho de 1912 apareceu na vila da Ponta do Sol um periódico ainda com o mesmo título, o qual foi o
terceiro jornal que se publicou naquela vila.
Equinodermes
Pertencem a este grupo de animais as estrelas do mar, os ouriços do mar e as
holoturias, os quais aparecem nas proximidades da costa ou nas poças do litoral da Madeira.
V. Estrelas e Ouriços do mar.
Equisetáceas
Estão representadas na Madeira por uma única espécie -- o Equisetum maximum,
planta que se encontra nos logares encharcados em São Vicente, Ribeira de Santa Luzia, Ribeira de S. João,
etc..
Ermida
Sítio povoado da freguesia do Santo da Serra. Neste lugar, onde chamam o Alcoforado, ergueu
Gil de Carvalho uma pequena ermida, no segundo quartel do século XVI, que deu o nome àquele sítio,
conjecturando-se que seria dedicada ao taumaturgo Santo Antonio. Pertence ao concelho de Machico.
Erva Arroz
Nome vulgar do Sedum farinosum e do S. nudum, plantas indígenas da família das
Crassulaceas. A primeira espécie encontra-se nas Torrinhas, nas proximidades do Paul da Serra, etc.; a
segunda é frequente em toda a costa do norte.
Ervilha (Pisum sativum)
Leguminosa originaria da Asia Ocidental, muito cultivada nas hortas
madeirenses.
Ervilhaca
Nome vulgar da Vicia sativa, planta da família das Leguminosas, frequente na Madeira.
Escalracho (Andropogon halepensis)
Graminea vivaz, de 3-15 decímetros, com as
espiguetas reunidas em panicula ampla, piramidal, de ordinário violacea. Esta planta é considerada
prejudicial e até venenosa para os gados, antes da sua completa maturação. É possível que, enquanto nova,
haja nela algum acido prussico.
Escarpiada
Os habitantes da ilha do Porto Santo dão este nome ao pão fabricado com farinha de
milho. A escarpiada de Portugal é uma espécie de pão de rala.
Escola (A)
Publicação quinzenal, de que saíram 12 números, sendo publicado o primeiro a 1 de Maio e
o ultimo a 15 de Outubro de 1912.
Escola de Geometria e Trigonometria
Nos fins de 1760 e especialmente destinada aos
que seguiam a carreira das armas, criou-se no Funchal uma Escola de Geometria e Trigonometria, que se
instalou no Colégio dos Jesuítas, hoje quartel do batalhão de infantaria n.
19 e que teve como primeiros
professores o sargento-mor Francisco de Alincourt e o engenheiro Francisco Salustiano da Costa. Passados
nove anos, isto é, em 1769, o governador e capitão - general João Antonio de Sá Pereira, comunicava ao
governo da metrópole os bons resultados obtidos com o funcionamento desta escola. Ignoramos quando
deixou de existir e quaisquer outras circunstâncias que lhe digam respeito.
Escola de Pilotagem
Adjunta á Capitania do Porto desta cidade funciona uma Escola de
Pilotagem, que foi criada por decreto de 14 de Novembro de 1917, sendo ministro da marinha o capitão de
fragata Arantes Pedroso. A criação desta escola deve-se aos aturados e diligentes esforços do capitão do
porto do Funchal, o capitão de fragata Artur de Sales Henriques, que foi o encarregado da sua instalação e
que dela tem sido o único professor. O seu curso, como as demais escolas desta natureza, é de dois anos,
constando o primeiro das disciplinas de aritmética, princípios de álgebra, geometria plana e no espaço,
trigonometria rectilínea, geografia geral, agulhas e navegação estimada, e o segundo de trigonometria
esférica, astronomia geral, cálculos náuticos, navegação astronómica, manobra á vela e a vapor, sinais e
meteorologia.
O curso desta escola habilita para oficiais de marinha mercante, conferindo carta de piloto, depois dos
aspirantes terem um certo tempo de navegação como praticantes.
No ano lectivo de 1917 a 1918 matricularam-se 17 alunos, alcançando 4 passagem para o segundo ano. Em
1919 concluíram o curso 3 alunos, os primeiros que nesta escola se habilitaram a obter a carta de piloto.
Foi extinta.
Escola de Utilidades e Belas Artes. Era destinada á instrução de crianças do sexo feminino, e foi estabelecida
em virtude de uma deliberação da Junta Geral, tomada em 12 de Fevereiro de 1913, começando a funcionar
em Fevereiro do ano imediato.
Ensinava-se ali música, pintura, desenho, línguas, higiene, gimnastica, dansa, lavores, cozinha, jardinagem
e horticultura, aritmética, geografia, etc..
A Escola de Utilidades funcionava no edifício do antigo Seminário á Incarnação, e foi extinta por
deliberação da Junta Geral de 13 de Setembro de 1919, sendo o mesmo edifício cedido a esta corporação
pela quantia de 9 contos, em Agosto de 1919. Desde Setembro do mesmo ano que estão ali instaladas as
repartições da Junta Geral.
A receita e despesa da Escola de Utilidades e Belas Artes no período que vai de 1914 a 1918 constam do
15.498$27
seguinte mapa:
Receita Despesa
1914 ................................
1915 .............. 1.060$71 ............ 10.999$92
1916 .............. 1.433$51 ............ 10.975$85
1917 .............. 1.551$37 ............ 12.738$96
1918 .............. 704$65 ............ 3.994$06
Escola Elementar do Comercio
No antigo edifício da Associação Comercial desta cidade, á
Avenida de João Gonçalves Zarco, funcionou durante alguns anos uma escola elementar de comercio, que,
no nosso meio, prestou bons e reconhecidos serviços. Os rapazes que se dedicavam á vida do comercio
encontravam ali o ensino das línguas francesa e inglesa, e de escrituração e contabilidade comerciais, e na
Escola Industrial completavam os seus estudos com os cursos da língua portuguesa e aritmética e
geometria, e ainda de desenho, adquirindo deste modo as indispensáveis habilitações para afoitamente e
com segurança abraçarem a carreira comercial.
Este estabelecimento de instrução, que tinha o caracter de um curso particular, foi criado pela Associação
Comercial, ao tempo em que a ela presidia o Sr. Henrique Vieira de Castro, que muito contribuiu para a sua
instalação.
Era mantida pela mesma agremiação, que para esse fim recebia um modesto subsidio da Câmara Municipal
deste concelho. O curso compunha-se das aulas de francês, inglês e escrituração comercial, havendo exames
no fim dos anos lectivos, embora não revestissem as formalidades oficiais. Da língua francesa foi professor
Jacinto Augusto Pereira Brasão, de inglês Archibald Clode e de escrituração comercial Abraão Atias e depois
A. C. Coutinho Gorjão.
Foi em 1897 que aquele curso começou a funcionar, mas não teve larga duração, a pesar dos bons serviços
que prestou.
Escola Industrial Antonio Augusto de Aguiar
O pintor Joaquim Leonardo da Rocha
veio em 1807 a esta ilha procurar abrigo aos horrores que sofria o continente do reino com a primeira
invasão napoleonica. A sua estada entre nós despertou a ideia da criação duma aula de desenho e pintura,
tendo um grupo das pessoas mais qualificadas desta cidade dirigido uma representação ao governo da
metrópole, nos princípios do ano de 1809, em que expunha a conveniência e a necessidade dessa criação, e
havendo o então governador e capitão-general do arquipelago Pedro Fagundes Bacelar não só informado
favoravelmente a representação, como empregado os seus melhores ofícios para que no Funchal se
estabelecesse sem demora a pretendida aula ou escola de desenho e pintura.
Pela Carta Regia de 7 de Julho de 1809, foi criada essa aula, que se instalou em Março de 1810 e cuja
regência se confiou ao referido pintor Joaquim Leonardo da Rocha. No mesmo ano escreveu este professor
um opúsculo intitulado Medidas gerais do corpo humano arranjadas em dialogo, e metodo fácil para uso da
real aula de desenho e pintura da ilha da Madeira em 1810, que foi publicado em Lisboa no ano de 1813. É
um pequeno folheto de 14 paginas, que os nossos distintos bibliografos Figanière e Inocencio dizem ser
rarissimo, mas que nos parece ter pouco valor debaixo do ponto de vista essencialmente técnico ou
cientifico. Na biblioteca da Escola Industrial existe um exemplar desta raridade bibliográfica, oferecido por
um dos professores deste estabelecimento de instrução.
Pouco depois de instalada a aula de desenho em data de 10 de Abril de 1810, enviou o governo central umas
Instruções para regular o seu funcionamento, que decerto constituíam a lei orgânica da mesma aula e que
deveriam conter os métodos de ensino ou programa das matérias ali professadas. Não temos conhecimento
dessas Intruções, como também ignoramos o local em que a aula funcionava e o tempo da sua duração. É
possível que tivesse feito parte do grupo de cadeiras que constituíam as chamadas Aulas do Pátio, mas nada
podemos afirmar de positivo a tal respeito. Apenas sabemos que em 1812 obteve L. Rocha aumento de
vencimento como professor da aula de desenho e pintura, e que em 1818 ainda existia e residia nesta cidade,
pois que neste ano pintou um retrato do primeiro Conde de Carvalhal, que se encontra no palácio de S.
Pedro.
A pesar do Liceu do Funchal, criado em 1837, ter uma cadeira de desenho no seu quadro de estudos, foi
sempre julgada necessária entre nós a existencia de uma aula daquela disciplina, estranha ao mesmo liceu,
onde de modo especial os operários pudessem adquirir os conhecimentos que se tornam indispensáveis ás
suas artes e ofícios, orientando-os em harmonia com as necessidades das profissões a que especialmente se
dedicam. Foi em obediência a essa orientação que a Câmara Municipal do Funchal criou e sustentou uma
cadeira de desenho, de que nos últimos anos da sua existencia foi professor o chefe da repartição técnica da
mesma câmara, José Maria Teixeira de Agrela.
Ha muito que era reconhecida a necessidade da criação duma escola de desenho nesta cidade, quando, por
decreto de 10 de Janeiro de 1889, referendado por Emidio Navarro, o ministro a quem o país
verdadeiramente deve a criação e o desenvolvimento do seu ensino industrial, foi estabelecida no Funchal a
Escola de desenho Industrial Josefa de Obidos, dizendo-se no respectivo diploma de criação que ela teria
por fim “ministrar o ensino do desenho com aplicação á indústria ou indústrias predominantes na
localidade“. Esta criação fora feita em harmonia com os decretos de 30 de Dezembro de 1886 e 23 de
Fevereiro de 1888.
A escola teve primeiramente o nome de Josefa de Óbidos, passando pelo decreto de 8 de Outubro de 1891,
que remodelou o ensino industrial, a ter a denominação de Antonio Augusto de Aguiar. Por esta reforma,
compreendia o quadro de estudos da nossa Escola as cadeiras de desenho elementar (classe preparatória e
complementar), desenho arquitectónico (desenho artístico, modelação e desenho técnico) e desenho
ornamental ( desenho de ornato, modelação e composição ornamental).
O decreto de 5 de Outubro de 1893, que introduziu profundas alterações no ensino industrial, elevou a
Escola de Desenho Industrial Antonio Augusto de Aguiar á categoria de Escola Industrial, conservando-lhe
a mesma denominação. Foram então criadas as oficinas de marcenaria e carpintaria, e de lavores femininos.
O decreto de 14 de Dezembro de 1897 remodelou profundamente o ensino industrial no nosso país, e dessa
reforma se ressentiu beneficamente a Escola Industrial do Funchal com a criação das três aulas teóricas da
língua portuguesa, aritmética e geometria e princípios de física e química. Estas cadeiras, com excepção da
ultima, que não chegou a ser criada, só foram, porém, providas em princípios de Dezembro de 1901 e
começaram a funcionar no ano lectivo de 1902 a 1903.
A lei de 1 de Dezembro de 1918 reformou os serviços das escolas industriais e alterou o quadro das
disciplinas professadas no Funchal, que ficou assim organizado: língua pátria, aritmética e geometria,
princípios de física e química e noções de terminologia, geografia e historia, língua francesa, desenho geral,
desenho especializado e trabalhos oficinais.
Foi em Setembro de 1889 e num prédio á rua de Santa Maria que se instalou a nova escola, tendo aberto
matrícula 260 alunos e começado em Outubro seguinte o funcionamento das aulas. Foi Cândido Pereira o
seu primeiro professor e director, e professor contratado o súbdito austríaco Hans Nowach. O primeiro
serviu até o fim do ano lectivo de 1903 e o segundo até o ano de 1895. 0 professor Nowach foi interinamente
substituído pelo oficial de engenharia Carlos Roma Machado de Faria e Maia, que serviu até Julho de 1897.
Do ano lectivo de 1897 a 1898 até o mês de Março de 1903 foi professor contratado desta Escola o súbdito
espanhol D. Manuel de la Cuadra, natural da cidade de Sevilha, que faleceu no Funchal a 3 de Abril de 1903,
com cerca de 60 anos de idade.
Têm sido professores desta Escola: Cândido Pereira (1889-1903), Hans Nowach (1889-1895), D. Manuel de
la Cuadra (1897- 1903), Vitorino José dos Santos (1902), padre Fernando A. Silva (1902), Augusto Pascoal
Correia Brandão (1903-1908), Joaquim Porfirio (1909-1910), João Gomes Correia Faria (1911-1912), José
Pedro Nolasco (1914-1915), Emanuel Paulo Vitorino Ribeiro (1914-1917), Alfredo Vital Miguéis (1917), D.
Maria Emilia Arroja (1919) e Abel Tiago de Sousa e Vasconcelos (1919). Também foram professores
interinos Carlos Roma Machado de Faria e Maia, João dos Reis Gomes, Henrique Franco de Sousa e, por
diversas vezes, o mestre das oficinas Francisco Franco de Sousa.
O primeiro director deste estabelecimento de ensino industrial foi Cândido Pereira, actual professor da
Escola de Afonso Domingues, de Xabregas, no período decorrido de 1889 a 1903, e deste ano até ao
presente o engenheiro civil Vitorino José dos Santos.
Como fica dito, a reforma de 5 de Outubro de 1893 criou as oficinas de marcenaria, carpintaria e lavores
femininos, de que têm sido mestres Manuel Rodrigues Gaspar, que faleceu em 1900, Francisco Franco de
Sousa, Manuel Dias da Costa e D. Augusta das Dores Ornelas. A lei de 1 de Dezembro de 1918 criou a oficina
de embutidos e incrustações, que começou a funcionar em Outubro de 1919 e de que é mestre Manuel dos
Passos Aguiar.
A Escola Industrial Antonio Augusto de Aguiar foi convertida em escola industrial e comercial pelo decreto
de 11 de Setembro de 1925, ficando os respectivos cursos organizados da forma seguinte:
Secção Industrial: marceneiro, embutidor, debuxador de bordados e de costura, corte e bordados, todos de
quatro anos; e a Secção Comercial: Curso Elementar de comercio também de quatro anos.
O decreto de 20 de Outubro de 1931 remodelou a organização desses cursos, que passaram a ser os
seguintes: marceneiro, carpinteiro, embutidor, cerralheiro, (sendo posteriormente convertido em
cerralheiro - mecânico), costura e bordados, bordadora, mestre de obras e de complementar de comercio.
As disciplinas que constituem cada um dos mencionados cursos acham-se assim distribuídas:
Marceneiro - cinco anos - : compreende as aulas de português, francês, matemática, física e química,
tecnologia, desenho geral e profissional e trabalhos oficinais;
Embutidos-cinco anos-: português, matemática, desenho geral e profissional e trabalhos oficinais:
Cerralheiro-mecanico-cinco anos-: português, matemática, física e química, mecânica técnica, tecnologia,
desenho geral e profissional e trabalhos oficinais;
Debuxador de bordados-três anos-: desenho geral e desenho profissional (debuxo), reservado aos
empregados da indústria de bordados;
Mestre de obras-cinco anos-: português, matemática, física e química, tecnologia, desenho geral, desenho
de projecções, desenho de construção, medições e orçamentos, e legislação.
Costura e Bordados-cinco anos-: português, matemática, desenho geral e profissional e trabalhos oficinais;
Curso de aperfeiçoamento-quatro anos-: desenho geral e desenhos profissionais adequados á profissão dos
alunos.
Curso Comercial-quatro anos-:
português, francês, inglês, aritmética comercial e geometria,
geografia comercial, vias de comunicação e transportes, elementos de direito comercial e de economia
política, noções gerais de comercio, escrituração e contabilidade comercial, elementos de física e química e
de historia natural, noções de tecnologia das mercadorias e aulas práticas de caligrafia, dactilografia e
estenografia.
Habilitação Complementar-um ano- compreendendo, além do curso comercial, mais as disciplinas de
álgebra e física e química, e que serve de habilitação para a entrada nos Institutos Comerciais de Lisboa.
A frequência desta escola tem aumentado consideravelmente de ano para ano, como se vê desta abreviada
nota estatística relativa ao numero de matrículas nos seguintes anos lectivos:
1925-1926........................215
1930-1931........................418
1935-1936........................624
1940-1941........................900
Além dos professores Cândido Pereira, falecido em Lisboa a 15 de Abril de 1935, e Vitorino José dos Santos
falecido no Funchal a 1 de Outubro de 1928, aos quais este estabelecimento de ensino técnico ficou devendo
os mais relevantes serviços, têm servido de seus directores efectivos os professores major João dos Reis
Gomes no período decorrido de 1929 a 1939 e o Dr. Alvaro de Meneses Alves Reis Gomes desde o ano de
1939.
A Escola Industrial e Comercial ficou instalada em Novembro de 1938 no amplo edifício onde estivera o
Asilo dos Velhinhos á rua das Hortas e Avenida Elias Garcia, depois dos importantes reparos a que ali
mandou proceder a Junta Geral do Distrito Autónomo, que tem a seu cargo a manutenção deste
estabelecimento de ensino secundário.
Escola Lancasteriana
Foi o súbdito inglês José Phelps quem introduziu na Madeira o ensino
mútuo pelo sistema de Lancaster.
A Escola Lancasteriana, fundada em 1819, esteve primeiro numa casa situada ao Ribeirinho, passando daí
para a Travessa do Surdo o depois para o prédio á Rua da Princesa, hoje 31 de Janeiro, onde está agora
instalada a escola masculina da freguesia de Santa Luzia. Este prédio foi mandado construir pela Associação
Funchalense destinada a promover o ensino mútuo, tendo o terreno sido adquirido por ela nos fins do ano
de 1822.
A Associação Funchalense destinada a promover o ensino mutuo foi fundada em 21 de Dezembro de 1821,
tendo sido o seu primeiro tesoureiro o referido José Phelps e o seu primeiro presidente o cónego Lúcio
Antonio Lopes Rocha. Esta associação promovia bailes e subscrições para obter os fundos de que
necessitava para a sustentação da escola.
Em 25 de Julho de 1827 dizia o director da aula de ensino mútuo, pertencente á Associação promotora
desse ensino: “Esta aula tem tido desde a sua abertura no 1.º de Dezembro de 1823 até o presente, 275
alunos, e tem agora 78 e lugar para 305. Deve advertir-se que o terrível instrumento chamado palmatória é
proscrito nesta aula, onde se conseguem os mesmos ou melhores resultados por meios mais brandos e ao
mesmo tempo mais sensíveis ao amor próprio dos alunos“.
A escola a que nos referimos era destinada a crianças do sexo masculino; houve, porém, uma outra
destinada a meninas, estabelecida pelas snr.as Blackburn e Phelps. A sustentação desta ultima escola corria
em 1850 por conta de uma sociedade de senhoras nacionais e estrangeiras, contribuindo o Governo com
parte do ordenado da mestra, ao passo que a sustentação da escola masculina estava então a cargo do
Estado, sendo pago por este o vencimento do respectivo professor.
Desconhecemos o ano em que o sistema de Lancaster deixou de ser adoptado na antiga escola da rua da
Princesa, mas é de supor que ele fosse banido dali em 1828 quando o professor Alexandre Luiz da Cunha se
ausentou para a América.
O edifício da antiga rua da Princesa, hoje 31 de Janeiro, foi consertado por conta do Estado em 1850, tendo
corrido também por conta deste as obras da entrada do mesmo edifício, executadas em 1851 por ordem do
governador José Silvestre Ribeiro. Em 1912 e 1914 mandou a Câmara fazer vários consertos na escola.
Há uma publicação intitulada Relatório dos progressos da Escola Lancasteriana na Província da Madeira,
que tem no fim a data de 6 de Fevereiro de 1823, onde se encontram interessantes informações sobre o
método de ensino de Lancaster e a maneira como ele foi introduzido na ilha.
Escola Medico-Cirurgica
O Regimento do Hospital de Santa Isabel desta cidade, aprovado pela
Mesa Gerente da Santa Casa da Misericórdia a 10 de Agosto de 1816 e confirmado por provisão régia de 19
de Outubro de 1819, nos dezanove artigos que constituem o Titulo V, criou, adjunta ao mesmo hospital, uma
aula medico cirurgica, com o fim “de evitar o estrago da humanidade nesta Colónia, pela ignorância dos
Barbeiros, que sem os conhecimentos próprios andam nos campos curando gente, levando á sepultura os
que ainda viveriam se fossem tratados por habeis professores, ou menos ignorantes do que semelhantes
curandeiros“.
Ignoramos quando começou a funcionar esta Aula e qual o tempo da sua duração, mas sabemos que teve
uma curta existencia, pois que em 1824 o governador e capitão-general informava o governo da metrópole
da necessidade urgente da criação duma Aula de Cirurgia Operadora, ponderando que no Porto Santo e nos
campos da Madeira não havia nenhum cirurgião operador, e que “apenas se encontrava algum miserável
sangrador, de cuja competência teem sido vitimas muitos dos que o chamaram para o trato e curativo de
suas moléstias“. O mesmo governador, ainda no ano imediato, voltava a ocupar-se de tão momentoso
assunto, sem que dos seus esforços e diligências se houvesse tirado o menor resultado pratico.
O distinto madeirense e abalizado medico Dr. João Francisco de Oliveira, quando em 1825 foi provedor da
Santa Casa da Misericórdia desta cidade, criou, no hospital que lhe está anexo, uma aula de cirurgia que ele
próprio regeu gratuitamente durante algum tempo e de cuja regência encarregou depois o cirurgião daquele
estabelecimento hospitalar, o Dr. Joaquim de Oliveira Simões. Foi por esse tempo que o Dr. João Francisco
de Oliveira, apresentou ao governo um projecto da criação duma escola medica, indicando as bases do seu
funcionamento, método do ensino, etc., que, a pesar de merecer a apreciação superior, não teve deferimento
favorável.
Pelo que fica exposto, vê-se com clareza a maneira como neste arquipelago se exercia a clinica médica e
cirurgica, e se mostra eloquentemente a necessidade da criação de um estabelecimento cientifico, que
preparasse indivíduos suficientemente habilitados para o exercício dessa clinica.
O decreto de 29 de Dezembro de 1836 criou em cada uma das capitais dos distritos ultramarinos uma escola
medico-cirurgica, em que haveria duas cadeiras, ensinando-se na primeira anatomia, fisiologia, operações
cirúrgicas e arte obstetricia e na segunda patologia, matéria medica e terapêutica, e que seriam
respectivamente regidas pelo medico e cirurgião principais do hospital a que a mesma escola estivesse
anexa. A primeira cadeira teria um ajudante demonstrador, que seria o preparador dos trabalhos
anatómicos, e na botica do hospital ministraria lições de farmácia o farmacêutico do mesmo
estabelecimento. A portaria de 16 de Janeiro de 1837, dirigida ao administrador geral deste distrito,
mandava dar plena execução na Madeira ás disposições daquele decreto. Estava criada a Escola Medico-
Cirurgica do Funchal.
A comissão administrativa da Santa Casa da Misericórdia, então presidida por João Agostinho Jervis de
Atouguia, tratou de dar cumprimento ás ordens emanadas do governo central, sem demora adaptou a
antiga enfermaria dos súbditos inglêses e duas salas contíguas á instalação da nova Escola, que ficou sendo
o mais graduado estabelecimento de instrução existente entre nós.
Eram então cirurgião, medico e boticário do hospital de Santa Isabel, respectivamente o Dr. Luiz Henriques,
o Dr. Lourenço José Moniz e o farmacêutico Nicandio Joaquim de Azevedo, que foram, segundo a letra
expressa do decreto, encarregados da regência das cadeiras que compunham o curso da nova Escola. Sendo
o ilustre madeirense Dr. Lourenço Moniz deputado por esta ilha e tendo feito desistência do seu lugar de
professor da Escola, foi substituído no exercício deste cargo pelo Dr. António da Luz Pita. Teve a escola
medica do Funchal a boa forma de iniciar os seus trabalhos sob a direcção de dois médicos abalizados, que
sobremaneira honraram este novo estabelecimento de instrução superior, começando ele desde logo a
granjear os bons créditos de que sempre gozou não só no nosso país mas ainda em algumas terras
estrangeiras.
A 2 de Maio de 1837 reuniu-se pela primeira vez o conselho escolar, que ficou constituído pelo Dr. Luiz Pita,
presidente, Dr. Luiz Henriques, vogal, e Nicandio de Azevedo, secretário, sendo este também o dia da
definitiva instalação da Escola e começando as primeiras aulas a funcionar no mês de Outubro seguinte. O
lugar de ajudante-demonstrador só foi ocupado no ano seguinte pelo Dr. Juvenal Honorio de Ornelas. As
nomeações destes quatro logares somente se tornaram definitivas pelo decreto de 8 de Setembro de 1838. O
Dr. Luiz Henriques e o farmacêutico Nicandio Joaquim de Azevedo serviram até 1845, ano em que
faleceram, e o Dr. Luz Pita até o ano de 1866, em que obteve a sua jubilação.
Em 1850 foi nomeado lente da Escola o Dr. Antonio Alves da Silva, que faleceu em 1854 no exercício deste
cargo. O Dr. João da Câmara Leme Homem de Vasconcelos, depois visconde e conde de Canavial, exerceu o
mesmo lugar desde 1861 até 1883, ano em que se aposentou.
Os Drs. João Augusto Teixeira e Mauricio Augusto Sequeira começaram a fazer parte do corpo docente da
Escola Médica em 1874 e regeram as suas cadeiras até 1907 e 1910, anos em que faleceram. O Dr. Nuno
Silvestre Teixeira foi nomeado lente em 1883 e permaneceu no exercício deste lugar até á data da extinção
da Escola em 1910.
Francisco de Paula Drolhe, Manuel Figueira de Chaves e Francisco Clementino de Sousa, que tinham feito o
seu curso médico na Escola do Funchal, foram, cada um por duas vezes, professores interinos da mesma
Escola, e também ali regeram cadeiras os Drs. Candido Joaquim da Silva, Acursio Garcia Ramos, Carlos
Leite Monteiro e Fortunato Alfredo Pita.
Depois de Nicandio Joaquim de Azevedo, primeiro secretario e primeiro professor de farmácia, que morreu
em 1845, foi nomeado para este lugar José Figueira da Silva, falecido em 1858, seguindo-se-lhe Francisco
Xavier de Sousa e depois Abilio Augusto Martins, nomeado em 1880. Vasco da Silva Pereira, que lhe
sucedeu, foi o ultimo secretario e professor de farmácia da nossa Escola Médica.
Foram directores dela o Dr. Luiz Henriques (1838-1845), Dr. António da Luz Pita (1845-1866), dr. João da
Câmara Leme Homem de Vasconcelos, depois conde de Canavial (1866-1883), Dr. João Augusto Teixeira
(1883-1907) e Dr. Mauricio Augusto Sequeira1907- 1910).
O curso foi de três anos até 1842, passando a ser de quatro desde 1843, e assim se conservou até a sua
extinção. Os primeiros médicos formados nesta Escola foram Valentim Maximiano de Sousa, Antonio José
da Silva, João Luiz Monteiro Júnior, Francisco Simplicio de Vasconcelos Lomelino e João Augusto de
Oliveira, que concluíram o seu curso em 1840. Do curso de 4 anos foram Crispiniano Evangelista da Silva,
Manuel Lúcio de Freitas, António Manuel da Silva e Teofilo Joaquim Vieira os primeiros médicos que ali
obtiveram a sua formatura.
Em 1902 concluíram o curso desta Escola D. Palmira Conceição de Sousa e D. Henriqueta Gabriela de
Sousa, as primeiras e únicas medicas que ali se formaram.
Na sua existencia de 73 anos, habilitou a Escola do Funchal cerca de 250 médicos, que têm exercido
livremente a clinica, e por muitas vezes com verdadeiro brilho e notável proficiência, não só em todo o
arquipelago madeirense mas também em muitas terras do continente português, Açores e colónias
ultramarinas, e mesmo ainda nalguns países estrangeiros. Para só falarmos dos mortos, devemos
mencionar os nomes de Manuel Figueira de Chaves, Henrique Crawford Rodrigues João Crawford
Rodrigues, Antonio Augusto de Santa Clara Gabriel Franco de Castro, Luiz Augusto Rodrigues, João de
Deus Vieira, Henrique José Vera Cruz, Francisco Clementino de Sousa e Henrique Venancio de Ornelas,
que sobremaneira honraram a escola de que eram filhos.
A nossa Escola Médica tinha uma biblioteca com cerca de dois mil volumes que se achava no edifício da
Misericórdia, e encontra-se hoje na Biblioteca Municipal.
Das teses ou dissertações inaugurais, apresentadas pelos alunos na conclusão dos seus cursos, apenas temos
conhecimento de que se imprimisse a do aluno António Francisco da Silva Ramos, natural do continente do
reino, que versou sôbre a pneumonia fibrinosa e sôbre a etiologia e tratamento do carcinoma, e que foi
defendida no ano de 1895.
A primitiva organização desta Escola só permitia passar aos que se habilitassem com o seu curso a carta de
cirurgião ministrante, que depois se modificou, tendo ainda posteriormente o decreto de 22 de Junho de
1870 concedido aos seus alunos vantagens e regalias de que antes não gozavam, sendo-lhes então permitido
concorrer aos partidos médicos municipais ou outros dependentes das corporações administrativas. Este
assunto tem dado lugar a várias discussões na imprensa, merecendo menção especial a série de artigos
publicados no Diário de Noticias do Funchal nos meses de Janeiro e Fevereiro de 1896. Os médicos pela
nossa Escola têm sempre exercido livremente a clinica em muitas terras do continente, nos Açores e nas
províncias ultramarinas, e ainda em países estrangeiros. Muitos deles não só foram providos em partidos
médicos municipais como também obtiveram sua colocação no exército e na armada, sem desdouro para a
Escola que os habilitou e ombreando com os médicos formados pelas escolas superiores do nosso país.
Várias tentativas se fizeram em diferentes épocas para a extinção da Escola Medica do Funchal, que
resultaram sempre infrutíferas, até que finalmente foi extinta pelo seguinte decreto:
“Artigo 1.º-É extinta a Escola Medico Cirurgica do Funchal.
§ único - O pessoal da Escola assim extinta ficará adido.
Artigo 2.º-Fica revogada a legislação em contrario.
Dado nos Paços da Republica em 11 de Novembro de 1910. Antonio José de Almeida. “
Escola Normal
A escola distrital de habilitação para o magistério primário foi estabelecida pelo
decreto de 10 de Maio de 1900, depois de se haver reconhecido a necessidade da criação dum
estabelecimento de instrução desta natureza num distrito insular como o nosso, e numa época em que já se
fazia sentir a falta de professores suficientemente habilitados para a regência das escolas que se achavam
vagas e ainda daquelas que porventura viessem a vagar. Em Outubro de 1900 abriram matrícula 37 alunos,
e a Escola começou a funcionar no dia 10 do mês e ano referidos. Em Julho do ano seguinte realizaram-se
os exames de passagem do 1.º ano do curso, tendo obtido aprovação 26 alunos. Foi primeiro e único
director deste estabelecimento o Dr. Pedro José Lomelino, e seus primeiros professores Constantino Silvano
Pereira, Francisco Augusto da Silva, Manuel José Varela, D. Maria da Piedade Oliveira e o já referido
director. A Escola foi instalada num edifício á rua dos Aranhas e ali funcionou sempre, sendo nesta mesma
casa que também funciona agora (1922) a Escola de Ensino Primário Superior.
Por decreto de 24 de Dezembro de 1901 foram extintas as escolas distritais de habilitação para o magistério
primário e convertidas em escolas normais, passando o curso, que era de dois anos, a ser de três, ficando a
Escola do Funchal com o mesmo pessoal docente e com o mesmo numero de disciplinas que anteriormente
tinha.
O decreto de 10 de Maio de 1919 extinguiu todas as escolas normais do país, com excepção das de Lisboa,
Porto e Coimbra, e transformou-as em Escolas Primarias Superiores, ficando uma delas com sua sede no
Funchal.
A Escola Normal desta cidade, nos seus dezanove anos de existencia, habilitou 172 professores de instrução
primaria de ambos os sexos.
Escola Primaria Superior
O decreto de 10 de Maio de 1919 extinguiu ou antes transformou a
Escola Normal desta cidade em Escola Primaria Superior. Os professores da Escola Normal passaram a
fazer parte do corpo docente do novo estabelecimento de instrução, sendo o respectivo quadro completado
com mais oito professores e ficando assim constituído: Pedro José Lomelino, director, Constantino Silvano
Pereira, Francisco Augusto da Silva, Manuel José Varela, Jordão Mauricio Henriques, Adolfo de Sousa
Brasão, Jorge Silvio Pelico de Oliveira Neto, Francisco dos Anjos França, Domingos dos Reis Costa, Manuel
José da Fonseca, D. Maria Clara do Monte Falco Brito Figueiroa e D. Maria Julieta de Brito Figueiroa. A
nova escola começou a funcionar no mês de Outubro de 1919.
Foi extinta pelo decreto de 15 de Junho de 1926.
Escolar (Thyrsites pretiosus)
Peixe da família Triquiúrida, que poucas vezes aparece nos
mercados da Madeira. É de grandes dimensões, em geral considerado de bom sabor, mas, pela excessiva
gordura tem propriedades laxativas muito acentuadas, que o tornam insuportável para muitas pessoas.
Escolar de Natura (Tetragonurus Cuvieri)
Peixe de pouco ou nenhum valor comestível,
rarissimas vezes observado nos mares deste arquipelago. Parece ser espécie pelágica; no entanto foi colhido
um exemplar, junto á praia do Porto Santo.
Escolas Primárias
Das constituições do Bispado do Funchal promulgadas pelo bispo D. Jeronimo
Barreto em 4 de Maio de 1579, vê-se que já nessa época se ensinava na Madeira a ler e a escrever. As pessoas
que exerciam este mister, eram obrigados a ensinar também a doutrina cristã pela Cartilha novamente
impressa, e não podiam servir-se nas escolas senão de “papeis & livros de boa doutrina
(cid:1177)
aproveitáveis aos
bons costumes das crianças.
A instrução primaria, como se vê, era então, directa ou indirectamente, clerical; o ensino secular só foi
estabelecido muito mais tarde, tendo sido o Marquês de Pombal quem o iniciou nesta ilha.
Pela lei de 6 de Novembro de 1772 foram estabelecidas seis escolas primarias na Madeira, sendo duas no
Funchal e uma em cada uma das vilas de Machico, Santa Cruz, Ponta do Sol e Calheta; e por 1793, foi criada
uma escola primaria no Campanário, sendo dotadas mais tarde com o mesmo beneficio as vilas de S.
Vicente e do Porto Santo.
Em 1821, ao serem proclamados os princípios liberais na Madeira, existiam no Funchal 4 escolas publicas
de primeiras letras e 2 escolas particulares de ensino mútuo, sendo uma para o sexo masculino e outra para
o feminino. Nas restantes localidades do arquipelago não tinha aumentado o numero de estabelecimentos
públicos de instrução primaria.
O Congresso Constituinte, pela sua resolução de 28 de Junho de 1821, garantiu a instrução primaria a todos
os cidadãos, e a carta de lei de 30 do mesmo mês e ano permitiu a qualquer cidadão o ensinar e abrir escolas
de instrução primaria. Viveu porém tão pouco tempo a revolução de 1820, que a instrução publica na
Madeira não chegou a ser melhorada, nada havendo também a assinalar durante o regimen absolutista que
se lhe seguiu a não ser a supressão, durante o governo de D. Manuel de Portugal e Castro, de uma das
antigas escolas de primeiras letras, sendo o ordenado do respectivo professor aplicado á sustentação de uma
aula de inglês e francês que foi criada no Funchal.
A instrução primaria só começou a progredir na Madeira depois da restauração do governo constitucional,
em 1834. De então até 1848 foram criadas 33 escolas publicas na Madeira, sendo 4 pelo Estado, em 1838, e
as restantes pelas Câmaras Municipais, aparecendo também muitas escolas particulares, visto a liberdade
de ensino, abolida pelo governo absoluto, haver sido restabelecida pelo governo constitucional.
A Câmara Municipal do Funchal criou em 14 de Maio de 1841 as escolas masculinas de S. Roque, S.
Martinho e S. Gonçalo; em 12 de Maio de 1845 a escola feminina de Santo Antonio; em 2 de Outubro do
mesmo ano a escola feminina de S. Roque; e em 2 de Dezembro de 1846 as escolas femininas de S.
Martinho, Monte, S. Gonçalo e Santa Maria Maior.
A Escola da Infância Desvalida, criada pela Sociedade das Escolas Infantis, de que era presidente Luiz da
Silva Mousinho de Albuquerque, foi aberta em 1834 ou pouco depois, e a Escola Lancasteriana, ou de
ensino mútuo, para meninas, de que já falámos atrás, ainda existia em 1856, mantida e inspeccionada por
uma sociedade de senhoras nacionais e estrangeiras. Esta ultima escola, ao menos nos últimos tempos, era
destinada a habilitar raparigas pobres a ganharem a subsistência como mestras, como costureiras ou como
criadas de servir.
O Governo, a instâncias do deputado Lourenço José Moniz, cedeu em 1837 á Sociedade das Escolas Infantis
uma casa situada no Campo da Barca, pertencente á Fazenda Nacional, sendo aí que por largos anos
funcionou a chamada Escola da Infância Desvalida, a qual se não deve confundir com uma outra escola com
a mesma denominação, criada em 1882 pela Maçonaria do Funchal, e que funcionou num prédio á rua
Nova de S. Pedro.
No ano lectivo de 1848 a 1849 havia no arquipelago 42 escolas de instrução primaria pagas pelo tesouro ou
pelos municípios, e 30 sustentadas por particulares. Das primeiras, 29 eram masculinas e 13 femininas; e
das segundas, 10 eram para rapazes e 20 para meninas. No concelho do Funchal existiam 20 escolas
publicas, sendo 9 para o sexo masculino e 11 para o feminino, e 26 escolas particulares, sendo 8 para
rapazes e 18 para meninas.
Em 1855 havia no Distrito 47 escolas publicas e 24 particulares, e em 1863 era de 34 o numero das escolas
oficiais, sendo 25 do sexo masculino e 9 do feminino, frequentadas respectivamente por 950 e 370 alunos, e
de 17 o numero das escolas municipais, sendo 8 do sexo masculino e 9 do feminino, aquelas com 412 e estas
com 489 alunos. No mesmo ano havia 16 escolas particulares, 4 do sexo masculino e 12 do feminino
frequentadas respectivamente por 225 e 374 alunos.
Em 1870 conheciam-se 36 escolas oficiais (27 do sexo masculino e 9 do feminino), 17 escolas municipais (9
do sexo masculino e 8 do feminino) e 48 particulares (15 do sexo masculino e 33 do feminino), sendo todos
estes estabelecimentos frequentados por 1732 rapazes e 1515 meninas, e no ano lectivo de 1882 a 1883 tinha
o numero das escolas publicas (oficiais e municipais) subido a 65, existindo também 44 escolas de ensino
livre. Das escolas publicas, 1 era mixta, 42 para o sexo masculino, 21 para o feminino e 1 para o ensino de
desenho linear; das particulares, 7 eram para o sexo masculino e 37 para o feminino.
O Decreto de 7 de Maio de 1856 criou escolas do sexo masculino nas freguesias da Camacha, Caniço, Gaula,
Porto da Cruz, S. Torre, Boaventura, Fajã da Ovelha, Ponta do Pargo, Tabua, Canhas, Ribeira Brava e Serra
de Água,, e do sexo feminino em Santa Cruz, Machico, Sant'Ana, S. Vicente, Porto do Moniz, Calheta,
Câmara de Lobos e Porto Santo.
Em 1904 tinha o arquipelago 73 escolas publicas, sendo 42 para o sexo masculino, 29 para o feminino e 2
mixtas; e em 1905 existiam mais 2 escolas, sendo uma para rapazes outra para meninas.
Em Agosto de 1918 existiam em todo o Distrito 108 escolas publicas, sendo 104 oficiais e 4 municipais, estas
ultimas para o sexo feminino. Havia também 11 cursos nocturnos, todos no concelho do Funchal, sendo 3
oficiais e 8 municipais. Das escolas oficiais, 12 eram mixtas, 48 para o sexo masculino e 44 para o feminino.
O concelho do Funchal possuía 4 escolas municipais femininas e 33 escolas oficiais; destas, 16 eram para o
sexo masculino, 14 para o feminino e 3 mixtas. Fora deste concelho não existiam cursos nocturnos para
individuos do sexo masculino.
Na mesma época havia em todo o arquipelago 40 escolas particulares para o sexo feminino e 11 para o
masculino, sendo estas escolas e as oficiais e municipais frequentadas, segundo os melhores cálculos, por
6956 discípulos (3912 meninas e 3044 rapazes). Em 1849 recebiam instrução nas escolas primarias do
Distrito 3304 alunos de ambos os sexos, e em 1883 eram as mesmas escolas frequentadas por 2500 alunos e
2407 educandas.
Em fins de 1918 foram criadas no Funchal 4 escolas centrais, sendo 2 para cada sexo, e lê-se num relatório
enviado pela Inspecção Escolar do Circulo ao Secretario de Estado da Instrução, em 10 de Outubro de 1918,
que no ultimo ano lectivo as escolas oficiais da cidade tinham sido frequentadas por 570 indivíduos, dos
quais apenas 189 haviam atingido o saber de contas, escrita e leitura corrente. Segundo o mesmo relatório,
o ultimo recenseamento da população escolar do Funchal dá a existencia de 5816 crianças de 7 a 14 anos
(2929 do sexo masculino e 2887 do feminino), elevando-se a população escolar em todo o circulo a 19:290
indivíduos.
Há presentemente (1922) em todo o Distrito 11 escolas móveis, sendo 2 em S. Roque, 2 em Santo Antonio, 1
na Ponta do Pargo, 1 na Madalena, 1 nos Canhas, 3 na Ponta do Sol e 1 no Porto Santo. Em Setembro de
1919 era de 9 o numero destas escolas.
No Distrito existem (1922) dois círculos escolares - o oriental e o ocidental - ambos com sede no Funchal,
pertencendo ao primeiro os concelhos do Funchal, Santa Cruz, Machico, Sant'Ana e Porto Santo, e ao
segundo, os concelhos de Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Calheta, Porto do Moniz e S.
Vicente. Antes de Setembro de 1919 a sede do circulo ocidental era na Ribeira Brava, tendo havido
primeiramente um só circulo em todo o Distrito, sob a direcção ora dum inspector, ora dum subinspector
escolar.
Da publicação do Ministério das Finanças intitulada Analfabetismo em Portugal (folha para vulgarização-
n.º 5) vê-se que a percentagem do analfabetismo global de ambos os sexos no Distrito do Funchal era de
88,4 por cento em 1864, de 90,1 em 1878, de 84,5 em 1890, de 90,0 em 1900 e de 82,7 em 1911. Ignoramos
qual seja a percentagem do mesmo analfabetismo na actualidade, mas é de crer que tenha decrescido de
1911 para cá, embora os indivíduos das classes pobres nem sempre cuidem em obrigar os seus filhos á
frequência das escolas.
Damos, em seguida, a relação completa das escolas primárias e postos de ensino actualmente (1940)
existentes neste distrito:
Freguesia de Água de Pena: Igreja-Dupla e Torre-Dupla.
Arco da Calheta: Arco-Masculina, Arco-Feminina, Loreto-D. e Florenças-Posto de Ensino Duplo.
Arco de São Jorge: Lagoa-D.
Boaventura: Boaventura-M, e Boaventura-F..
Calheta: Lombo da Estrela-M., Lombo da Estrela-F. e Atouguia-D.
Camacha: Camacha-M., Camacha-F. Casais de Além-P. E. M , Casais de Além-P. E. F., Vale Paraíso-P. E. D.,
Nogueira-P. E. D., Ventrecha-P. E. D..
Câmara de Lobos: Vila-M., Vila F., Lourencinha-M., Lourencinha- F., Ribeiro de Alforra-D., Preces-D., Cruz
da Caldeira-P. E. M. e Heras-P. E. D..
Campanario: Campanário-M. e Campanário-F.
Canhas: Canhas-M., Canhas-F. e Serrado-D..
Caniçal: Caniçal-D..
Caniço: Vargem-M., Vargem-F., Assomada-P. E. M. , Barreiros-P. E. M. e Abegoaria-P. E. D..
Curral: Casas Próximas-D..
Estreito da Calheta: Estreito-M. e Estreito-F..
Estreito de Câmara de Lobos: Igreja-M., Igreja-F., Covão-D., Pico e Salões--P. E. D.,
Faial: Covas-M., Igreja-F.e Lombo de Cima-D..
Fajâ da Ovelha: Fajã da Ovelha-M., Fajã da Ovelha-F., Lombada-P. E. D. e Raposeira-P. E. D..
Gaula: Povo-M., S. João de Latrão-F., Achada-D., Povo-P. E. F..
Jardim do Mar: Piedade-D..
Machico: Vila-M., Vila-F., Caramanchão-D., Caramanchão-P. E. D. Torre-P. E. M. e Ribeira Seca-P. E. M..
Madalena: Madalena-M., Madalena-F. e Ribeira do Medo-P. E. D..
Monte: Quinta da Piedade-M. Babosas-M., Tílias-F., Quinta dos Reis-D., Corujeira-D., Quinta dos Reis-P. E.
D. e Penha de França-P. E. D..
Nª Sª da Piedade: Vila-M., Vila-F. Campo de Baixo-P. E. M..
Paúl do Mar: Serrado-M. e Serrado-F..
Ponta Delgada: Ponta Delgada-M . Ponta Delgada-F..
Ponta do Pargo: Salão-M. Salão-F. Pico Queimado:-P. E. M..
Ponta do Sol: Vila-M., Vila-F., Lombada-D. e S. Caetano-D..
Porto da Cruz: Igreja-M. e Casas Próximas-F..
Põrto do Moniz: Vila-M., Vila-F. e Levada Grande-D..
Prazeres: Prazeres-M..
Quinta Grande: Igreja-D..
Ribeira Brava: Vila-M., Vila-F., Banda de Além-D. e Lombo de S. João-D..
Ribeira da Janela: Banda de Além-D..
Santa Cruz: Vila-M., Vila-F., Têrça-D., Rego-D. e Janeiro-P. E. D. .
Santa Luzia: Santa Luzia-M., Santa Luzia-F . , Consolação-F. , Viveiros-P . E . D. e Rua Sidónio Pais P. E. D..
Santa Maria: Rochinha-D., Faial-D., Bom Sucesso-V., Rua de Santa Maria-M., Rua de Santa Maria-F., Rua
do Conde Carvalhal -F., Rua de Santa Maria-P. E. M. e Levada do Foguete P. E. D..
Sant'Ana: Serrado-M. e Igreja-F..
Santo Antonio: Boliqueme-F., Encruzilhadas-M., Encruzilhadas-F., Courelas-M., Preces-F., Casas
Próximas-F . , Madalena-M., Madalena- F., Salão-M., Ribeirinho-D., Laranjal-M., Lombo dos Aguiares-D.,
Pilar-P. E. D., Pinheiro das Voltas-P. E. D., Pinheiro das Voltas-P. E. M., Ribeira Grande-P. E. D.,
Miradouro-P. E. 1). e Penteada-P. E. D..
Santo da Serra: Santo da Serra-M. e Santo da Serra-F.
Sé: Rua da Conceição-M., Rua da Conceição-F. e Sindicato dos Padeiros-P. E. M..
Seixal: Poiso,-M. e Seixal-F..
Serra de Água: Poiso-M. e Pereira-F..
São Gonçalo: Igreja-M., Louros-M., Caminho do Palheiro-M., Louros-F., Igreja-D., Valado-D., Pedra Sina-
D., Estanquinhos-D., Cancela-D., Neves-P. E. D. e (Caminho do Palheiro-P. E. D..
São Jorge: S. Pedro-F. e Covas-M..
S. Martinho: Ajuda-M., Ajuda-F., Ribeiro Seco--M., Vitória-D., Várzea-D., Areeiro-D., Poço Barral-P. E. D.,
Casa Branca-P. E. D., Amparo-P. E. F., Pico do Funcho-P. E. M. e Lombada-P. E. F..
S. Pedro: Rua da Carreira--M., Ilhéus-F., Achada-F. e Cruz de Carvalho-P. E. D..
S. Roque: Salão-M., Salão-F., Achada-M., Lombo de João Boieiro-M. e Fundoa de Cima-P. E. D..
S. Roque do Faial: S. Roque do Faial-D..
S. Vicente: Vila – M., Vila-F., Feiteiras -M., Feiteiras - F., Lameiros-D. e Vargem-D..
Tabua: Tábua-M. e Tábua-F..
Escorcio
Este apelido de família tem a mesma origem que o apelido Drumond. Escorcio parece ser
corruptela de escocio ou escocês.
V. Drumond:
Escravos.
O solo madeirense foi durante séculos abundantemente regado pelo suor do escravo. O difícil
e penoso arroteamento das terras desta ilha fez nos primeiros tempos da colonização por meio dos escravos
negros, dos mouros cativos e dos canários. A escravatura, que começara no Rio do Ouro por meado do
século XV, foi gradualmente aumentando com a exploração e cultura dos terrenos das ilhas recentemente
descobertas, isto é dos arquipelagos da Madeira, Açores e Cabo Verde.
No fim do século XV e princípios do século seguinte, o flamengo João Esmeraldo, somente na sua
propriedade da Lombada da Ponta do Sol, tinha oitenta escravos entre mouros, negros e mulatos. Diz
Frutuoso que os rois de confissão acusavam em 1552 a existencia de 2700 escravos no Funchal, que no
mesmo ano se elevaram a 3OOO, porque quatro navios conduziram mais 3OO a esta ilha. Se atendermos a
que nessa época a população total do arquipelago orçava por vinte mil habitantes, concluiremos que era
considerável o numero de escravos que aqui havia, sendo para notar que dentro dum ano se fez a
importação de trezentos! Meio século mais tarde, quando os corsários franceses saquearam a cidade do
Funchal em 1566, levaram cativos apenas trezentos negros, porque mais não lhe permitiu a lotação dos
navios.
Nos arquivos paroquiais de todas ou quasi todas as freguesias se encontram muitos registos de baptismos e
casamentos de escravos negros e mulatos. Até da Índia vieram escravos, pois que Tristão Vaz da Veiga, que
foi governador geral do arquipelago em 1582, tinha doze escravos indianos para serviço particular da sua
casa.
Parece que a escravatura cresceu ainda com o decorrer dos tempos, mas escasseiam-nos elementos seguros
para ajuizar com relativa aproximação do numero de escravos e das épocas da sua introdução nesta ilha. A
eles se deve em boa parte o rápido e notável desenvolvimento da indústria do açúcar, que foi o mais
importante factor da riqueza e prosperidade deste arquipelago nos séculos XV e XVI. O colono vindo do
continente fez-se sesmeiro, tornou-se depois senhor da terra e em muitos casos transformou-se em
morgado, deixando aos escravos o cultivo e amanho das propriedades rústicas e indo disfrutar na cidade ou
na corte o rendimento dos seus campos e herdades. Os escravos, libertando-se a pouco e pouco da tutela do
seu senhor, cultivando por conta própria as terras de sesmaria, sobrecarregando-as com casas, paredes e
outras bem-feitorias, e valorizando-as deste modo consideravelmente, contribuíram para a criação do
contrato de colonia e quasi passaram a ser co-proprietarios dessas mesmas terras e propriedades.
Parece que os escravos eram tratados neste arquipelago com mais alguma humanidade e que a sua situação
material era menos para lamentar do que em outras colónias portuguesas. Teriam talvez contribuído para
isso a nativa feracidade do solo, as várias expedições guerreiras a Marrocos, o numero considerável de
estrangeiros aportados a esta ilha, com costumes mais brandos e tendências mais civilizadoras, e ainda
outras causas que desconhecemos. Refere Frutuoso, ocupando-se de Machico, “que ha nesta vila muitas
mulatas e mui bem tratadas e de ricas vozes, que he signal da antiga nobreza dos seus moradores, porque
em todas as casas grandes e ricas ha esta multiplicação dos que as servem“. É, porém, certo que os
donatarios obtiveram em 1505 o alvará régio, que se acha registado no tomo 1.º do arquivo da câmara do
Funchal, a fls. 111, em virtude do qual podiam mandar cortar as orelhas aos escravos que a merecessem por
Justiça. E aproximadamente por esta época, tendo alguns escravos de João Rodrigues Castelhano
assassinado um feitor do mesmo Castelhano, foram cinco deles enforcados na vila da Calheta.
As condições sociais foram-se modificando e o trafico da escravatura passou a ser um acto condenavel e
punido pelas leis. “Pelo alvará de 19 de Setembro de 1761, diz o Dr. Rodrigues de Azevedo, ficara prohibido
transportar escravos para o continente do reino, e havidos por libertos e forros os que ali chegassem a
entrar; e em 7 de Julho de 1768 foi publicada na cidade do Funchal, por um bando, uma carta do Secretario
de Estado ao Corregedor dr. Francisco Correia de Mattos, pela qual se mandava aplicar a este archipelago a
disposição desse alvará. Principiou então na Madeira a gradual extinçâo da escravatura. Outro alvará, de 16
de Janeiro de 1773 veiu consumar o intuito humanitário do de 1768“.
Embora os escravos se encontrassem dispersos por toda a ilha, parece que em alguns pontos
nomeadamente no Funchal, Ponta do Sol, Machico e Curral das Freiras se constituíram importantes núcleos
de população negra e mourisca, que entre si se foram cruzando e também misturando com os habitantes
descendentes dos colonos continentais, diluindo-se e confundindo-se deste modo na população madeirense
os traços característicos daquelas raças. Um numero, porém, considerável de indivíduos negros, mulatos e
mouros conservou, até há poucos anos ainda, as linhas fisionómicas que distinguem os povos donde
descendiam. Não é raro encontrar-se ainda alguns indivíduos com os traços bem acentuadamente definidos
da raça preta.
Os nomes das ruas da Mouraria e das Pretas dão-nos ainda a conhecer a existencia dos mouros e negros no
Funchal. Os oitenta escravos de João Esmeraldo, na Lombada da Ponta do Sol, e muitos outros que por ali
havia em diversas fazendas povoadas, mostram-nos que existiu naquela freguesia um avultado numero de
indivíduos pertencentes ás raças africanas. O Curral das Freiras (V. este nome), como já dissemos, foi nos
tempos primitivos da colonização um valhacouto de criminosos e de escravos foragidos, que neste logar
ermo e quasi inacessível encontravam a sua verdadeira carta de alforria, tendo formado um centro de
população, que depois se confundiu com os povoadores que ali se estabeleceram.
Segundo um diploma de 1483, os escravos que fugiam para as serras podiam ser vendidos por aqueles que
os apanhassem uma vez que os seus legítimos donos os não procurassem ou fizessem prender dentro do
prazo de quatro meses a contar da época da fuga. No mesmo ano veio uma ordem para se inquirir da vida
dos escravos, não se lhes permitindo o aluguer das casas, sem previa licença, e antes disso, em 1474,
ordenou o infante que nenhum escravo pudesse manter casa “per si“.
Em 1490 proibiu-se a residência na Madeira aos indivíduos oriundos de Grã Canária, Palma, Tenerife e
Gomera, mas em 1515 foi esta ordem revogada para aqueles que exercessem o oficio de mestres de açucares.
Em Novembro de 1767 chegou á Madeira um navio com escravos, mas a venda destes foi proibida pelo
Corregedor da Comarca, a pesar de, como atrás dissemos, só em 7 de Julho do ano imediato ter sido
publicada aqui, por um bando, a carta que mandou aplicar a este arquipelago as disposições do alvará de 19
de Setembro de 1761.
Escudeiro (João). Foi o primeiro que na Madeira usou este apelido.
V. Bemposta.
Escutas (Corpo Nacional de)
Fundado em Braga e em 1923 pelo saudoso Arcebispo Primaz D.
Manuel Vieira de Matos, o Corpo Nacional de Escutas depressa se desenvolveu e espalhou pelo país além,
encontrando grandes dedicações da parte dos católicos, que viam, muito justamente, no movimento
escutista organizado em bases cristãs e católicas, uma escola ideal de formação para a juventude
portuguesa, até então quasi inteiramente abandonada das classes dirigentes.
A ideia da fundação duma Região do C. N. E. na nossa ilha surgiu em 1926. Após um largo período de treino
e formação, fundou-se o C. N. E. na Madeira com elementos da antiga Juventude Católica do Funchal, tendo
os mesmos feito a promessa solene a 8 de Dezembro de 1928, na Igreja do Colégio.
O organismo superior-a Junta Regional- ficou assim constituído: Comissário Regional: Capitão Eduardo
dos Santos Pereira; Director: Padre Jorge de Faria e Castro; Secretario: Engenheiro Antonio Henriques de
Araújo; Médico: Dr. José da Cunha Tavares da Silva; Chefe da Escola de Instrutores: Jose Vieira da Luz
Júnior.
O primeiro grupo fundado foi o nº 5 (Infante D. Henrique) de que era chefe António J. de Caires.
Desde então, o movimento escutista aumentou, fundando-se novas unidades em Santa Maria Maior (Grupo
88, Santiago), S. Roque (Grupo 55, S. Roque), S. Gonçalo (Grupo 76, S. Gonçalo), Caniço (Patrulhas
Andorinha e Oliveira Salazar) e Porto Santo (Patrulha Nun'Alvares); no centro da cidade, existem o Grupo 5
(Baden Powel) e o Grupo 72 (Afonso de Albuquerque).
O C. N. E. desde então realizado diversas actividades colectivas, em especial acampamentos, cuja
organização tem sido considerada verdadeiramente modelar.
Não tem descurado também a prática religiosa, ministrando regularmente conhecimentos de religião aos
seus associados e tendo organizado já alguns retiros espirituais.
O C. N. E. na Madeira tem participado em grandes acampamentos nacionais e estrangeiros, enviando
sempre delegações escolhidas. Os acampamentos nacionais foram os de Cacia(1928), Braga(1932) e Lisboa
(1934) e internacionais (chamados jamburis) em Inglaterra (1929), Hungria (1933), Holanda (1937) e no
rover moot da Suiça (1932).
Na Madeira realizou também o C. N. E., em 1938, o I Acampamento Regional, e, em 1939, promoveu-se um
Congresso de Dirigentes, na Camacha, no qual tomaram parte numerosos Escutas do Continente.
Para comemorar os Centenários da Fundação e Restauração de Portugal, os Escutas da Madeira
organizaram uma Exposição Escutista que esteve aberta de 1 a 8 de Dezembro de 1940.
A Junta Regional do C. N. E. na Madeira está hoje assim constituída: major Eduardo dos Santos Pereira,
Comissário Regional; Padre Jorge de Faria e Castro, Assistente Regional; António de Santa Clara Gomes,
Secretário Regional; João Virissimo Nunes, Secretário Regional Adjunto; sendo médico Regional o Dr.
Agostinho Cardoso.
0 C. N. E. na Madeira conta, actualmente um efectivo aproximado de 160 elementos.
Esmeraldo (João)
Entre os forasteiros de origem nobre que os azares da fortuna trouxeram a esta
ilha nos tempos da colonização, destaca-se o fidalgo flamengo João de Esmenaut, cujo nome foi
aportuguesado em João de Esmeraldo e que parece ter aportado ao Funchal pelos anos de 1480. Justificou a
sua nobre ascendência, e por carta régia de 13 de Agosto de 1511 lhe mandou D. Manuel guardar os
privilégios de fidalgo, visto que o era na Picardia, terra da sua naturalidade. Mais tarde, por alvará de 16 de
Maio de 1520, que vem transcrito no nobiliario de H. Henriques de Noronha, foi-lhe concedido brasão de
armas e foi feito fidalgo da casa real, honraria, que Carlos 5.º de Espanha lhe tinha já anteriormente
conferido. Este brasão compreende, além das armas próprias dos Esmenauts, as armas de Piennes, de
Hallwin e Nedenchel, famílias aliadas á primeira e das mais ilustres do norte da França.
João Esmeraldo teve muitas terras de sesmaria nesta ilha, e por escritura de 28 de Janeiro de 1498 comprou
ou aforou a Rui Gonçalves da Câmara, filho de João Gonçalves Zarco, a grande propriedade chamada
Lombada da Ponta do Sol, que depois teve o nome de Lombada dos Esmeraldos e da qual nos ocuparemos
em artigo especial. Ali instituiu o morgado de Santo Espírito, que por escritura de 12 de Junho de 1522 com
o consentimento de sua segunda mulher Agueda de Abreu e do filho do primeiro matrimónio João
Esmeraldo e do filho do segundo matrimónio Cristovão Esmeraldo, dividiu em dois morgadios
denominados do Santo Espírito e do Vale da Bica, cabendo, por sortes, o primeiro a Cristovão e o segundo a
João Esmeraldo, o que tudo foi confirmado por D. João III, por alvará régio de 13 de Novembro daquele
ano.
Diz Gaspar Frutuoso: “A Lombada de João Esmeraldo, de nação genoez, a qual chega do mar á serra, de
muitas cannas de assucar, e tão grossa fazenda que já aconteceu fazer João Esmeraldo vinte mil arrobas de
sua lavra cada anno; e tinha como oitenta almas suas captivas, entre mouros, mulatos e mulatas, negros e
negras e canarios. Foi esta a mayor casa da ilha, e tem grandes casarias de aposento, engenhos, casas de
purgar, e igreja. E depois do falecimento de João Esmeraldo, ficou tudo a seu filho Christovão Esmeraldo,
que o mais do tempo andava na cidade do Funchal sobre huma mula muito fermosa, com outo homens
detraz de si, quatro de capa e quatro mancebos em corpo, filhos de homens honrados... “
A pesar da sua extensão e de nela haver 80 escravos, achamos excessiva a produção de vinte mil arrobas
numa só propriedade, sobretudo numa época em que uma parte considerável das terras estava por cultivar
e o seu difícil arroteamento se fazia com muita lentidão, devido principalmente ao relevo e acidentado dos
terrenos, sendo também para advertir que João Esmeraldo era flamengo ou francês, e não genovês como
afirma Frutuoso. Embora consideremos um tanto hiperbólicas as palavras do cronista, não podemos deixar
de acreditar na riqueza e prosperidade da Lombada, se atendermos á importância que ela ainda hoje tem, á
grande casa de habitação e formosa igreja que ali construiu Esmeraldo e ás muitas referências que temos
encontrado a esta propriedade, que era considerada como o mais importante morgadio da opulenta casa
Carvalhal.
A igreja foi sagrada em 1508 pelo bispo D. João Lobo e ali se sepultou o seu fundador que morreu a 19 de
Junho de 1536.
0 nome de João Esmeraldo anda indissoluvelmente ligado á estada de Cristovão Colombo nesta ilha, e para
evitar escusadas repetições, remetemos o leitor para o artigo que consagrámos ao grande navegador.
João Esmeraldo foi o primeiro que nesta ilha usou este apelido, e o brasão de armas que lhe foi concedido e
aos seus descendentes é assim descrito por Noronha: “O campo esquartelado: o primeiro de prata, com uma
banda preta; o segundo de azul, com uma faxa de ouro camelia; o terceiro de prata, com um leão preto, e
por cima delle um filete vermelho com banda, e de redor delle bilhetas pretas; o quarto de azul e uma banda
preta fimbrada de vermelho: elmo de prata aberto, guarnecido de ouro, paquife de ouro e de azul e por
timbre um leão preto“. Esta descrição difere algum tanto da que se encontra no volume 3.º do dicionário
Portugal, a pag. 184.
Vid. o opúsculo A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira
pelo Pe.
Fernando Augusto da Silva.
Esmeraldo (Rua do)
Provém-lhe o nome de João Esmeraldo (V. este nome), que ali teve grandes
casas de moradia. Fica paralela á rua do Sabão, com a qual comunica por meio da Travessa de Cristovão
Colombo, e estende-se desde a rua da Alfândega até á do Comercio.
Espada Branca (Lepidopus argyreus)
Peixe Triquiúrida de passagem na Madeira, em
cujas águas, aparece irregularmente. É pescado á linha, muitas vezes na profundidade de 100 braças.
Espadana (Phormium tenax)
Liliacea originaria da Nova Zelandia, cultivada no Monte,
Sant'Ana e nalguns jardins do Funchal. As folhas glaucas e longas desta planta, cortadas em tiras depois de
murchas, servem para ataduras em substituição do vime, podendo extrair-se delas um fio que nalguns
países tem aplicação ao fabrico de cordas e de um tecido forte e durável. O suco das folhas de espadana tem
sido aconselhado contra as moléstias cancerosas.
Espada Preta (Aphanopus carbo)
Peixe Triquiúrida, quasi peculiar dos mares profundos da
Madeira, onde vive em grande quantidade. Colhido exclusivamente pelos pescadores de Câmara de Lobos, é
peixe saboroso que abastece em larga escala o mercado do Funchal. A sua captura exerce-se a uma
profundidade de cerca de 1000 braças, sendo por isso uma das mais profundas pescas de todo o globo.
O peixe espada outrora muito barato, chega a vender-se agora ao preso de 60, 70 e 8o centavos cada um, no
mercado do Funchal.
Esparto
Nome vulgar do Asparagus Lowei, Liliacea-Asparagoidea muito cultivada nos jardins e quintas
da Madeira e que aparece espontânea no Porto do Moniz e entre S. Jorge e Sant'Ana. Tem caules lenhosos e
sarmentosos ou volúveis, cladodios fasciculados e setaceos e flores brancas, com os pedunculos articulados
e mais curtos que os cladodios. O esparto de folha miúda, muito cultivado nos jardins, é o Asparagus
plumosus, e nas proximidades do Gorgulho tem sido achado o H. scoparius, bonita planta quasi extinta na
ilha.
Esperança
Revista mensal dos estudantes do Seminário Diocesano. Saíu o primeiro numero em
Dezembro de 1907 e o ultimo em Novembro de 1908.
Esperança (A)
Saíram onze números, de 7 de Março a 8 de Junho de 1914.
Esperança (Teatro).
V. Teatros
Espinafre (Tetragonia expansa)
Planta da Australia e Japão, cultivada e naturalizada na
Madeira. As suas folhas servem para esparregado. O espinafre conhecido pelo nome botânico de Spinacea
oleracea, é frequente em Portugal, mas desconhecido na Madeira.
Espinheiro (Lycium europaeum)
Arbusto espontaneo na Madeira e Porto Santo. Encontra-
se na Calheta, em Câmara de Lobos, etc.. A infusão das suas folhas é diuretica.
Espinal
Aparelho de pesca formado de linhas e anzóis. E pouco usado na Madeira.
Espinola
É apelido nobre e muito antigo entre nós, e provém de Antonio e Leonardo Espinola,
próximos parentes, que vieram para esta Ilha no primeiro quartel do século XVI. Eram naturais de Génova e
oriundos duma antiga e nobre família desta cidade.
Há dois ramos: Espinolas de Adorno ou Aderno, cujo brasão de armas, concedido em 1513, consiste em
“campo de ouro e uma faxa de escaques de prata e vermelho, e nela um ramo de espinhas vermelho, e por
diferença uma marlota de azul, elmo de prata aberto e por timbre o mesmo ramo, paquife de ouro e
vermelho“. O outro ramo, conhecido pelo nome de Rosa ou de la Rosa, tem brasão de armas, conferido a 27
de Fevereiro de 1535, e cuja descrição em nada difere da anterior.
Antonio Espinola teve muitas terras de sesmaria. A 30 de Abril de 1524 doou um terreno na extremidade da
cidade, no qual se se construiu a capela de São Tiago, com a condição de que na mesma se desse sepultura
ás pessoas da sua família e o capelão pedisse um Padre Nosso e uma Ave - Maria por sua alma, segundo
afirma o anotador da Historia Insulana.
Espírito Santo (Capelas do)
Descrevendo Gaspar Frutuoso a exploração feita pelos
descobridores através da ilha, para o efeito da divisão das capitanias, diz: “... João Gonsalves Zarco...
chegando a hum alto sobre Câmara de Lobos, traçou ali onde se fizesse huma igreja do Spirito Santo... e
todos estes altos tomou para seus herdeiros. “ Esta capela, que foi mais duma vez reconstruida, ainda existe
e em bom estado de conservação. Foi fundada pelo próprio descobridor da Madeira e serviu durante muitos
anos de igreja paroquial, quando em 1430 se criou a freguesia de Câmara de Lobos. Por 1720 procedeu-se á
sua reedificação, pelo estado adiantado de ruína em que se encontrava, e em 1908 fizeram-se também ali
importantes repairos e na pequena casa que fica anexa. A pesar de talvez não restar cousa alguma da
primitiva edificação, é no entretanto esta capela um pequeno monumento histórico para o concelho e
freguesia de Câmara de Lobos, que recorda o nome do descobridor da Madeira, que a mandou construir, e
ainda por ter sido a sede da instalação da paróquia por ocasião da criação, como já dito fica.
No sítio do Campo de Baixo da ilha do Porto Santo, existe a capela do Espírito Santo, que se acha bem
conservada e onde se praticam os actos do culto. Não é de construção recente e foi completamente
restaurada no primeiro quartel do século passado pelo capitão Sebastião Antonio Drumond.
Espírito Santo (Festas do)
Os grandes festejos que se realizavam outrora no domingo do
Espírito Santo, estão muito reduzidos; todavia ainda em muitas freguesias revestem um certo brilho, sendo
os impérios vistosamente adornados e distribuindo-se depois das cerimónias religiosas uma refeição e um
fato completo a doze pobres. Se as dádivas dos devotos para as festas foram abundantes, ainda outros
pobres são contemplados com esmolas, consistindo estas muitas vezes em pano de algodão, chita, etc.. Em
cada freguesia existe uma comissão, nomeada sempre de acordo com o pároco, a quem cumpre obter os
meios precisos para levar a efeito as festas do Espírito Santo.
A comissão a que nos referimos, quando em exercício de funções, reconhece-se pelas capas encarnadas dos
seus membros, um dos quais leva a coroa, outro o cetro, outro a bandeira e um quarto o pendão. Alguns
tocadores de machete e de viola acompanham a mesma comissão, e a ela se agregam também muitas vezes
várias raparigas vestidas dum modo especial, a que chamam saloias. Homens e raparigas entoam cânticos
religiosos nas casas onde entram para pedir esmolas, não sendo raro os membros da comissão concluírem a
sua tarefa diária um tanto embriagados, devido á maneira obsequiosa como costumam ser recebidos pelos
devotos da freguesia.
Nos imperios de outrora havia sempre um imperador ou divino imperador, que era coroado no domingo da
Trindade; tal entidade desapareceu, porém, em toda a ilha há cerca de quarenta anos, embora a coroa
continue a figurar nas festas do Espírito Santo. O imperador era o homem que no ano anterior tinha levado
o cetro, e após a eleição era uso, ao menos em certas localidades, os circunstantes dirigirem-lhe a quadra
seguinte, para a qual havia musica apropriada:
Está coroado e bem coroado
O nosso Imperador.
Foi coroado e bem coroado
Pelas mãos de Nosso Senhor.
Nalgumas freguesias é costume os promotores das festas enviarem uns bilhetes ás pessoas mais abonadas
ou categorizadas da localidade, as quais se os aceitam e pagam, ficam com o direito de os distribuir depois
aos pobres seus protegidos, a fim de que estes recebam uma esmola no dia do Império, ou depois deste
realizado.
Muitas dádivas em géneros, obtidas pelas comissões de que falámos, costumam ser vendidas ou rifadas para
que o seu produto tenha aplicação ás despesas com o império e as festas. A condução do pão e dos géneros
para o local do império é uma cerimónia que reveste nalgumas partes um certo brilho, sendo uso no dia da
festa o celebrante benzer o pão destinado á refeição que pouco depois é fornecida aos pobres.
Nos Fastos Açoreanos do Sr. José de Torres, lê-se o seguinte, a propósito das festas do Espírito Santo:
“Ninguém como o povo é depositário de melhores cousas, assim como ninguém mais propenso a viciar ou
disvirtuar muitas, que em seus primordios eram excellentes. Não ha instituto que não tenda a ser
corrompido pelo abuso. Assim foram as irmandades ditas do Espírito Santo, e os festejos públicos que
promovem, logo que passaram ao domínio popular“.
“Fomes apertadas nos estados allemães determinaram um dos imperadores da dynastia, Othon, a lançar os
fundamentos desta instituição, como banco formado de esmolas para acudir a pobres nos anos de penúria.
Da divindade que invocavam, do imperante que tomara a iniciativa, nasceram os festejos religiosos, que a
confraria imperial votara ao culto do Espírito Santo nesta quadra do anno, devoção e costume que de lá se
propagou pelos estados da Europa Christã, cujos reis marcharam á frente da obra a seu modo civilisadora e
humanitária, até que o povo lhes foi usurpar o privilegio e se apoderou da instituição pia... “
As festas do Espírito Santo, embora muito menos aparatosas na Madeira do que nos Açores, revestem ainda
um certo brilho nalgumas freguesias. O povo nunca nega o seu obulo para a realização dessas festas em que
de par com o edificante esplendor das cerimónias religiosas, aparecem os impérios e os bodos, com o que
sempre aproveitam os pobres da localidade.
No século XVIII, segundo se lê na Breve e verdadeira demonstração dos princípios e progressos do governo
que Joâo Antonio de Pereira fez na Ilha da Madeira, realizavam-se imperios “em cada rua da cidade“, em
que havia “gulas e ebriedade“, mas tais festas só têm lugar hoje nas proximidades das igrejas paroquiais,
tendo perdido muito a feição carnavalesca e ás vezes pouco digna que apresentavam noutras épocas.
Espírito Santo (Fr. João do)
Frade português que foi enforcado no Funchal, vestido com
trajos de leigo, em 1582 ou pouco depois, por haver incitado o povo desta ilha a seguir o partido de D.
Antonio, prior do Crato.
Fr. João do Espírito Santo esteve em Angra antes de vir para o Funchal, e a ele se refere a Relação das coisas
que aconteceram na cidade d'Angra, ilha Terceira, depois que se perdeu el-rei D. Sebastião em Africa.
Esta relação foi publicada no vol XIII. pag. 159, do Panorama.
Espírito Santo (João Gomes do)
Nasceu na freguesia de São Gonçalo deste concelho e
faleceu na cidade do Porto a 16 de Dezembro de 1839, tendo cerca de oitenta anos de idade. Foi um distinto
oficial de artilharia e durante alguns anos comandou a bataria aquartelada na fortaleza de São Tiago. Era
homem de aprumado caracter e distinguiu-se como jornalista, havendo sido redactor dum jornal-politico
publicado no Funchal e que no tempo gozou de grande nomeada. (Colaborou em muitos periódicos do
continente, estando há muitos anos afastado das lides jornalísticas.
Esponjas
Cerca de 70 espécies de esponjas têm sido colhidas nos mares da Madeira, muitas delas
siliciosas ou calcareas, figurando entre estas a Melia Normani, descoberta pelo Sr. Adolfo de Noronha nos
mares do Porto Santo e descrita pelo Sr. Kirkpatrick, naturalista do Museu Britanico.
A maior espécie achada até agora nos mares do arquipelago mede cerca de 60 centímetros, tem um pouco a
forma de uma escudela e é constituída por fios vítreos apertadamente entrelaçados. Quando as linhas dos
pescadores atingem os grandes fundos, trazem ás vezes esponjas da mesma natureza da procedente, presas
nos anzóis. Na Ponta de São Lourenço temos visto, boiando perto da costa, pequenas esponjas fibrosas,
provenientes certamente dos fundos próximos.
No numero 1289 do Heraldo da Madeira encontram-se informações curiosas acerca da Melia Normani, a
esponja do Porto Santo.
Espora (A)
Começou a publicar-se este jornal a 5 de Junho de 1891 e terminou a 22 de Fevereiro de
1892, tendo saído 72 números.
Espranger
Este apelido de família, de origem nobre, procede de Adrião Basali Espranger, que teve
terras de sesmaria no Arco da Calheta e ali teve descendentes. Justificou a sua origem fidalga e tinha brasão
de armas.
Estabelecimento do Porto
Nas sizígias o preiamar não coincide com a passagem da lua pelo
meridiano, visto as águas continuarem ainda a subir depois dessa passagem, em virtude da velocidade
adquirida. O estabelecimento do porto, ou a hora da maré cheia das águas vivas, é no Funchal, segundo a
carta do general Antonio Pedro de Azevedo, ás 12h48', sendo a elevação da maré de 2m, 28.
Estações Telegrafo-Postais
Existem na Madeira doze estações telegrafo-postais, sendo uma de
primeira classe, no Funchal, duas de segunda em Santa Cruz e na Calheta, seis de terceira na Ribeira Brava,
Ponta do Sol, Porto do Moniz, S. Vicente, Sant'Ana e Machico e três de quarta em Câmara de Lobos, Ponta
Delgada e Porto da Cruz.
Na Ponta do Pargo há uma estação telegrafo-postal e semaforica, na Ponta de S. Lourenço uma estação
telegrafica e semaforica e no Ilhéu um posto semaforico.
Estanquinhos
Sítio na extremidade norte do Paul da Serra e a cerca de 1500 metros acima do nível
do mar, onde existe uma casa de abrigo. A fonte dos Estanquinhos é muito conhecida de todas as pessoas
que passam no Paul, por causa da baixa temperatura e da excelente qualidade das suas águas. Nas rochas,
junto dessa fonte encontra-se o raro Sedum farinosum, peculiar da Madeira.
Estatutos
Como subsidio para um estudo bibliografico madeirense e ainda como continuação dos
elementos fornecidos pelos artigos Bibliografia e Discursos, damos aqui rápida noticia de algumas espécies
bibliograficas concernentes a estatutos, compromissos, regimentos, etc. de que conseguimos obter
conhecimento, embora tenhamos como muito incompleta a resenha que fazemos neste lugar:
Regimento do Hospital Real de Santa Isabel da cidade do Funchal... sendo provedor... D. Fr. Joaquim de
Menezes e Athaide, Lisboa, 1819, de 60 pag.;
Estatutos e Regulamento da Sociedade Funchalense dos Amigos das Sciencias e Artes, Funchal, 1822, de 23
pag.;
Compromisso (da Confraria de N. Senhora da Graça, orago da Parochial Igreja da Freguesia do Estreito de
Câmara de Lobos.. Lisboa, 1829, de 12 pag.;
regimento do Hospital Nacional e Real de Santa Isabel da cidade do Funchal... Funchal, 1840, de 16 pag.;
Estatutos da Sociedade Agrícola Madeirense, Funchal, 1850, de 8 pag.;
Estatutos da Sociedade Club União, Madeira, 1854, de 32 pag.;
Estatutos da Sociedade Club-Economico, Funchal, 1856, de 12 pag.;
Estatutos do Club Recreativo, Madeira, 1856, de 22 pag.;
Estatutos da Congregação de Nossa Senhora da Soledade, Funchal, 1857, de 16 pag.;
Estatutos da Sociedade Esperança no Funchal, ilha da Madeira, Funchal, 1861;
Estatutos da Associação de Beneficencia do Funchal, Madeira, 1862, de 25 pag.;
Estatutos da Sociedade Humanitária do Funchal, Funchal, 1863, de 25 pag.;
Estatutos da Associaçâo de Beneficência do Funchal, Madeira, 1872, de 28 pag.;
Estatutos da Sociedade Club Funchalense, Funchal, 1872;
Estatutos da Associação católica do Funchal, Funchal, 1874, de 17 pag.;
Estatutos do Banco Comercial da Madeira, Porto, 1875, de 25 pag.;
Estatutos da Sociedade Cooperativa de Consumo e Credito do Funchal, Funchal,1875, de XI-49 pag.;
Estatutos da Associação Catholica do Funchal com o Regulamento para a execução dos art.ºs 4º e 48.º,
Funchal, 1876, de 23 pag.;
Estatutos do Club Funchalense, Funchal, 1877, de 20 pag.;
Estatutos da Companhia de Seguros Madeirense, Funchal, 1877, de 16 pag.;
Estatutos da Associação Madeirense promotora do Bem Publico e do Auxilio Mútuo, Funchal, 1878, de 12
pag.;
Estatutos da Associação de Beneficência do Funchal, Madeira, 1879, de 36 pag.:
Estatutos da Sociedade Club-Uniâo do Funchal, Funchal, 1879, de 21 pag.;
Estatutos da Sociedade Club-Restauraçâo do Funchal, Funchal, 1879, de 21 pag.;
Estatutos da Confraria de S. Paulo erecta na capela do mesmo nome... Funchal, 1880, de 14 pag.;
Estatutos da Congregaçao de Nossa Senhora da Soledade, 1887, de 15 pag.; Estatutos da Sociedade Recreio
Musical Madeira, 1888, de 26 pag.;
Estatutos da Associação Commercial do Funchal, Madeira, 1888, de 15 pag.;
Estatutos da Sociedade de Socorros Mútuos denominada Associação de Beneficência do Funchal, Funchal,
1888, de 31 pag.;
Estatutos da Associação Protectora dos Pobres, Madeira, 1889, de 15 pag .;
Compromisso da Confraria de Nossa Senhora do Monte do Carmo estabelecida na igreja do mesmo nome...
Funchal, 1890, de 23 pag.;
Estatutos da Associação Philantropica dos Estudantes Funchalenses, Funchal, 1892, de 15 pag.;
Estatutos da Sociedade Cooperativa dos officiais do Regimento de Caçadores n.º12, Funchal, 1892, de 15
pag.;
Estatutos do Club Recreio e Intruçâo do Funchal, Funchal, 1892, de 14 pag.;
Compromisso da Confraria do Escapulario e Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, do
Funchal, Funchal, 1894, de 38 pag.;
Estatutos da Associação de Socorros Mutuos “4 de Setembro de 1862“, Lisboa, 1895 de 43 pag.;
Estatutos da Sociedade Recreio 1º de Maio, Funchal, 1855;
Estatutos do Club Restauração do Funchal, Funchal, 1897, de 27 pag.;
Estatutos da Sociedade Protectora dos Animais Domésticos do Funchal, Funchal, 1897, de 20 pag;
Estatutos da Associação de Classe dos Industriais Madeirenses, Funchal, 1901, de 19 pag.;
Estatutos da Associação de Soccorros Mutuos do Sexo Feminino do Funchal “15 de Setembro de 1901“,
Funchal, 1902, de 35 pag.;
Estatutos da Associação de Socorros Mútuos do Monte Pio Marítimo Funchalense, Funchal, 1902, de 17
pag.;
Compromisso da Confraria de Nossa Senhora do Rosário erecta na freguesia de S. Vicente, Funchal, 1902,
de 15 pag.;
Compromisso da Confraria do S. S. Sacramento da freguesia do Caniço, 1902, de 12 pag.;
Estatutos da Associação de Beneficência Auxilio Maternal do Funchal, Funchal, 1903, de 12 pag.;
Projecto de reforma dos Estatutos da Associação de Soccorros Mútuos “4 de Setembro de 1862“, Funchal,
1904, de 61 pag.;
Estatutos da Caixa Económica Districtal Funchalense, Funchal, 1904, de 15 pag.;
Estatutos da Associação de Socorros Mutuos Monte Pio Madeirense, Funchal, 1905, de 34 pag.;
Estatutos da Associação de Soccorros Mutuos Reforma dos Operarios Madeirenses, Funchal, 1905, de 15
pag.;
Estatutos da Companhia Madeirense de moagem a vapor, Funchal, 1907, de 10 pag.;
Estatutos da Associaçao de Soccorros Mutuos “4 de Setembro de 1862“, Funchal, 1907, de 36 pag.;
Estatutos da Companhia de Seguros Garantia Funchalense, Funchal, 1907, de 14 pag.;
Estatutos da Associaçâo Assistencia a creanças fracas, Funchal, 1908, de 10 pag.;
Compromisso da Confraria do Santissimo Sacramento da freguesia de Santa Luzia, Funchal, 1910, de 11
pag.;
Estatutos da Associaçâo de Soccorros Mutuos Monte Pio Madeirense e da Caixa Economica adjunta,
Funchal, 1913, de 44 pag.;
Estatutos da Associaçâo de Classe dos Chauffeurs da Madeira, Funchal, 1913, de 12 pag..
Estepe
O Dr. Martin Vahl, o bem conhecido botanico e biologo de Copenhague, num interessante
trabalho intitulado Zonas e biochoros geograficos, incluíu no dominio das estepes a sociedade de plantas
que reveste uma boa parte dos terrenos secos da região inferior da Madeira e na qual o Andropogon hirtum
parece ser a especie mais freqüente.
Embora reconheçamos que a deficiencia de aguas meteoricas é em certos anos muito sensivel na Madeira,
não podemos perfilhar a opinião do Dr. Vahl, pois que para a delimitação da estepe é necessario não perder
de vista certas influencias climaticas, algumas delas perfeitamente locais.
É sabido que em consequência da proximidade do mar e das correntes que entre este e a terra se
estabelecem, existe quasi sempre na zona baixa da Madeira uma dose avultada de vapor de água. Este vapor
que, mercê das condições térmicas da mesma zona, raras vezes se manifesta sob a forma de névoa, não pode
deixar de ser considerado como um auxiliar da vegetação nas épocas em que faltam as precipitações
atmosféricas. Como todos os solos são higroscopicos, embora em grau diverso, é evidente que podem tomar
directamente da atmosfera a umidade que esta contém, a qual uma vez absorvida deve concorrer de certo
modo para alimentar a vida das plantas.
Refere o Dr. Mason que deixando um prato exposto ao ar livre em noites claras, conseguiu recolher em
poucas horas uma quantidade avultada de orvalho, mas este facto, tratando-se da região baixa da Madeira,
nada tem de geral, como o têm notado outros observadores, embora se não possa contestar que sôbre o solo
e os orgãos das plantas se condensa em muitas noites uma certa dose de vapor de água, e que desta
circunstancia algum beneficio deve resultar para a vegetação.
A umidade atmosférica diminuindo a energia da transpiração, provoca nas plantas um menor consumo da
água que armazenam ou tiram do solo pelas suas raízes. Mesmo nos climas secos podem as plantas
economizar os seus líquidos, quer demorando o seu crescimento, quer esquivando-se por outras formas ás
perdas a que dá lugar a referida função.
Existem diversos tipos de estepe, mas provavelmente é a estepe graminosa a que o Dr. Vahl supõe existir na
região baixa da Madeira. Segundo o Dr. Drude, esta estepe é caracterizada por formações sujeitas ao
repouso hibernal e em que as plantas secam durante o período dos grandes calores, existindo nela como
elementos acessórios grandes vegetais herbaceos, por vezes bastante tomentosos, plantas providas de
bolbos ou tubérculos e moitas de espécies pouco sucosas.
Na região inferior da Madeira existem algumas gramineas e outras plantas que, já pelo comprimento das
suas raizes ou rizomas, já pelo aspecto e conformação dos seus caules e folhas, parecem adaptadas a resistir
a um forte grau de secura; mas se se considerar que tais plantas tanto podem existir na estepe como fora
dela, e que as formas bolbosas se não encontram na mesma zona, ao passo que as formas sucosas são aí
abundantes, impossível será deixar de ver nestes factos uma prova de que as associações de plantas em que
predomina o Andropogon pertencem a um domínio diverso daquele em que o Dr. Vahl pretendeu incluí-las.
Os primeiros povoadores, derrubando as florestas com o fim de arrotear os terrenos, provocaram talvez
alterações sensíveis tanto no clima e solos da região baixa da Madeira, como na distribuição e aspecto da
flora, mas o que eles não conseguiram, como vimos, foi anular as influencias provenientes da proximidade
do mar e da situação e configuração da ilha. É devido a estas influencias que a estepe não existe na Madeira,
embora se não possa negar que o regime pluvial da região inferior da ilha oferece em certos anos analogias
notáveis com o dos países dotados duma flora adaptada a resistir a um forte grau de secura.
Estorninho (Sturnus vulgaris)
Pássaro da família Esturnida, que visita invariavelmente as
ilhas deste arquipelago durante a estação invernosa. É ave de hábitos sociaveis, sendo vista em bandos por
vezes assaz numerosos.
Estrada e Ponte monumental. A ponte do Ribeiro Sêco, e a estrada que, entestando nela, conduz á freguesia
da Câmara de Lobos, são geralmente conhecidas pelos nomes de Ponte Monumental e Estrada
Monumental, porque o primitivo projecto da sua construção obedeceu ao pensamento de as considerar
como um monumento erguido á memória do rei de Portugal D. Pedro IV. Deveriam ter o seu nome e
destinavam-se a comemorar entre nós a sua acção como rei libertador. Foi o seu companheiro de armas e
amigo dedicado, Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque, o primeiro governador da Madeira no período
constitucional, que, em 1835, concebeu esse projecto que a sua curta demora na administração superior
deste distrito deixou apenas iniciado. Ocupando-se deste assunto, diz Servulo Drumond de Meneses:
“Logo ao sahir da cidade para o lado d'oeste encontra-se uma grande quebrada que as torrentes hão
formado, e no fundo da qual passa o Ribeiro Secco. Esta quebrada intentou o Sr. Mousinho d'Albuquerque
atravessar por meio de uma ponte pensil; e para esse fim começou por mandar construir dois gigantescos
pilares, afora dos fortissimos encontros em cada uma das bordas da quebrada. Entrava no plano a ideia de
levantar um monumento á memória do Immortal Duque de Bragança, Magnânimo Libertador dos
Portugueses, e nesta conformidade devia a obra ser magnífica e grandiosa. Sucedeo porem que ausentando-
se da Ilha o Sr. Mousinho de Albuquerque, não progrediram mais os trabalhos já começados, e assim se
frustaram por muito tempo os louváveis e patrióticos desígnios do ilustre governador da Madeira, que,
incansável e preserverante, havia não só dado já um grande impulso á obra, mas também reunido muitos
materiais, que por fim se foram perdendo. “
O governador civil barão de Lordelo (1838-1840) tentou louvavelmente prosseguir os trabalhos começados,
mas não conseguiu remover as dificuldades que se levantaram á execução desta obra. Coube essa glória ao
benemérito e mais ilustre governador deste arquipelago o conselheiro José Silvestre Ribeiro, que, depois de
aturados esforços pôde levar a cabo a realização desse grande empreendimento. Os trabalhos de construção
começaram no dia 6 de Março de 1848 e achavam-se quasi concluídos no fim do mesmo ano.
O conselheiro José Silvestre abriu para este fim uma subscrição publica, que rendeu mais de três contos de
réis, e a câmara do Funchal contribuiu com cerca de dois contos.
O secretario geral do governo civil do Funchal, Servulo Drumond de Meneses, publicou em 1848 um folheto
intitulado Colecção de documentos relativos á construçao da Ponte do Ribeiro Secco, que contém dados
muito interessantes acerca desta obra que, não merecendo o nome de monumental, foi no entretanto um
importante melhoramento, há muito reclamado e que veio satisfazer uma grande necessidade publica.
A estrada que é a continuação da ponte, ficou então apenas iniciada e prosseguiu com bastante lentidão até
o seu final acabamento, e a ponte de alvenaria, na ribeira dos Socorridos, foi começada a 5 de Junho de
1848.
Estradas
Relativamente ao ano em que se publicou a primeira edição desta obra, deixámos dito, com
inteira verdade, que a viação na Madeira estava ainda muito atrasada. A maior parte das estradas da ilha
não se prestava a certos meios de transporte cómodos e rápidos, por causa da sua inclinação e péssimo
empedramento, e outras, embora mais planas, não passavam de simples veredas, por onde só se pode
transitar a pé ou em rede. A Junta Geral do distrito tem procurado nestes últimos anos remediar este mal,
melhorando certas vias de comunicação e estabelecendo outras entre diversas localidades há, porém, muito
ainda a fazer para dotar esta ilha com uma boa rede de estradas, não sendo exagero dizer-se que em muitos
pontos da costa do norte, e mesmo da do sul, a viação se encontra no mesmo estado em que estava no
tempo dos donatarios (1922).
As vias de comunicação na Madeira eram, sem contestação possível, as piores de todo o nosso país, devido a
variadas causas e especialmente ao inverosímil acidentado dos terrenos e ainda a outras inevitaveis
condições do meio. A maior parte delas não merecia o nome de estradas, pois que na sua generalidade eram
estreitas veredas praticadas num solo de penoso e dificilimo piso, sobranceiras a insondaveis abismos e
costeando os flancos de elevadas montanhas, oferecendo quasi sempre aos viandantes os mais graves
incómodos e perigos. Até o ano de 1901, em que foi concedida a autonomia administrativa a este distrito,
somente havia nove quilómetros duma boa estrada, que punha a cidade do Funchal em comunicação com a
vila de Câmara de Lobos. Começou então e prossegue ainda a construção duma larga rede de estradas, que
dentro de poucos anos tornará fácil o percorrer-se toda a ilha em viação acelerada e serem rápida e
comodamente visitadas as suas principais localidades.
Além das receitas próprias, a Junta Geral do Distrito foi autorizada pelo decreto de 12 de Julho de 1912 a
contrair um empréstimo destinado exclusivamente á construção das estradas. O decreto de 25 de Junho de
1935 determinou a vinda a este arquipélago duma missão técnica encarregar de estudar e propor as
necessárias providencias para a execução da rede das estradas e o decreto de 14 de Abril de 1938 aprovou o
plano apresentado por essa comissão de estudos, procedendo se diligentemente á realização dos respectivos
trabalhos de construção.
Pela sua nimia importância e indispensável esclarecimento ao grandioso projecto da conclusão da rede das
nossas estradas, vamos transcrever alguns artigos do decreto que deixámos citado:
-Artigo 1.º. O plano de trabalho para a execução da rede complementar das estradas da ilha da Madeira, na
importância total de 44.000.000$, é o que consta do mapa anexo a este decreto.
Art. 2.º. Os trabalhos relativos a este plano deverão ser executados em três fases, a saber:
a) A primeira, na importância de 1 5.000.000$, deverá ser executada num período de três anos, a que
corresponde uma dotação anual de 5.000.000$;
b) As outras duas fases, na importância total de 29.000.000$, deverão realizar-se em períodos de cinco
anos cada uma, o que corresponde á dotação anual de 3.000.000$ nos nove primeiros anos e de
2.000.000$ no último ano.
Art. 3.º. As obras constantes deste plano serão comparticipadas pelo Governo na proporção de 75 por cento
do seu custo, ficando os 25 por cento restantes a cargo da Junta Geral Autónoma do distrito do Funchal.
§ único. Pode o Governo autorizar esta Junta Geral a contrair um empréstimo para fazer face aos encargos
que lhe competirão“.
As antigas estradas reais denominam-se nacionais depois da implantação da Republica no país, sendo as
mais importantes as que têm os números 23, 24, 25, 26, 27 e 28 no respectivo mapa de viação distrital, já
pela sua extensão, já porque estabelecem comunicações entre as principais localidades da ilha. Os mapas
seguintes indicam a direcção que seguem as mesmas estradas, bem como as distancias que separam os
principais sítios ou povoações que elas atravessam:
Estrada Nacional n.º 23
Pontos extremos e intermedios Quilometros
Do Funchal (Sé) a Câmara de Lobos (Igreja).......... 9.958
De Câmara de Lobos á Quinta Grande (Igreja) ........ 4.998
Da Quinta Grande ao Campanário (entroncamento do caminho para a Igreja) ............................. 3.069
Do Campanário á Ribeira Brava (entroncamento do ramal do Cais-Igreja)................................ 4.684
Da Ribeira Brava á Tabua (Corujeira)................ 1.291
Da Tabua á Ponta do Sol (cais)...................... 3.000
Da Ponta do Sol á Madalena (igreja) ................ 4.560
Da Madalena ao Arco da Calheta (Fajã do Mar) ....... 1.440
Do Arco da Calheta á Calheta (Igreja)............... 4.840
Da Calheta ao Estreito (entroncamento do caminho para a Igreja) .......................................... 3.680
Do Estreito aos Prazeres (entroncamento do ramal do Paúl)3880
Dos Prazeres á Fajã da Ovelha (entroncamento do ramal do Paul) ........................................... 6.624
Da Fajã da Ovelha á Ponta do Pargo (entroncamento do ramal do Pesqueiro)............................... 5.701
Da Ponta do Pargo as Achadas (Igreja)............... 9.325
Das Achadas ao Porto Moniz (Igreja)................. 7.720
Do Porto Moniz á Ribeira da Janela (Igreja)......... 3.880
Da Ribeira a da Janela ao Seixal (Igreja)........... 7.695
Do Seixal a S. Vicente (Igreja)..................... 8.033
De S. Vicente á Ponta Delgada (entroncamento do ramal do porto) .................................... 7.038
Da Ponta Delgada á Boa Ventura (entroncamento da estrada n.º 27)..................................... 2.569
Da Boa Ventura ao Arco de S. Jorge (Igreja)......... 2.975
Do Arco de S.Jorge a S.Jorge (Igreja)............... 6.760
De S. Jorge a Sant,Ana (igreja) .................... 6.380
De Sant,Ana ao Faial (igreja)....................... 4.720
Do Faial a S. Roque do Faial (Igreja)............... 2.260
De S. Roque ao Porto da Cruz (Igreja)............... 2.700
Do Porto da Cruz a Machico (entroncamento do ramal do cais)............................................11.000
De Machico a Santa Cruz (vila)...................... 8.220
De Santa Cruz ao Porto Novo ........................ 4.740
Do Porto Novo ao Caniço (entroncamento do ramal da Ponta da Oliveira).................................. 3.440
Do Caniço a S. Gonçalo (entroncamento do caminho da igreja)............................................. 5.520
De S. Gonçalo ao Funchal (Sé)....................... 3.480
Extensão desta estrada.............................166,180
Estrada Nacional n.º 24
Pontos extremos e intermédios Quilometros
Do Funchal (Carmo) ao Monte (igreja)................ 3.217
Do Monte ao Poiso .................................. 6.783
Do Poiso ao Ribeiro Frio............................ 4.240
Do R. Frio á Cruzinha .............................. 4.760
Da Cruzinha a Sant'Ana.............................. 9.160
Extensão desta estrada..............................28,160
Estrada Nacional n.º 25
Pontos extremos e intermédios Quilometros
Do Funchal (Ponte de S. João) a S.Martinho (Igreja). 3.000
De S. Martinho ao Estreito de Câmara de Lobos(Igreja)6.000
Do Estreito de Câmara de Lobos ao entroncamento do caminho do Jardim da Serra ................... 3.520
Do dito Entroncamento á Cumeada de S. Vicente ......14.080
Da Cumeada ao Rosário .............................. 4.150
Do Rosário a S. Vicente (Igreja).................... 4.200
Extensão desta estrada..............................34.950
Estrada Nacional n.º 26
Pontos extremos e intermédios Quilómetros
Da Ribeira Brava (ponte) á Serra de Água
(entroncamento do caminho para a Igreja)............ 7.520
Da Serra de Água á Cumeada de S.Vicente ............ 5,540
Extensão desta estrada..............................13,060
Estrada Nacional n.º 27
Pontos extremos e intermedios Quilómetros
Do Funchal (Maravilhas) a Santo Antonio (Igreja).... 2.495
De Santo Antonio ao entroncamento do Caminho da
Igreja do Curral....................................11.350
Do Curral á Boaventura (Igreja).....................19.085
Da Boaventura ao entroncamento da Estrada n.º 23.... 0.537
Extensão desta estrada..............................33.467
Estrada Nacional n.º 28
Pontos extremos e Intermedios Quilómetros
Da Ponta do Sol ás Cruzinhas......................... 5.000
Das Cruzinhas á Cumeada (beira do Paul).............. 2.350
Da Cumeada ás Casas do Paúl.......................... 2.650
Das Casas do Paúl aos Estanquinhos................... 3.000
Dos Estanquinhos ao Caramujo ........................ 1.450
Do Caramujo ás Feiteiras (S. Vicente)................ 4.825
Extensão desta estrada...............................19,275
Estas estradas, que são em geral de mau piso e por vezes oferecem perigo aos viandantes, como já ficou
referido, perderam a sua antiga importância e deixaram de ser tão frequentemente transitadas nos pontos
em que as novas e recentes estradas as vieram substituir com a maior vantagem. No entretanto continuam
prestando excelentes serviços como meios de comunicação entre diversas localidades e são os verdadeiros
caminhos vicinhais para os habitantes que têm as suas moradias nas imediações dessas mesmas estradas.
Não devem por isso ser deixadas ao abandono, merecendo continuadas reparações para a sua conservação e
melhoramento.
Como acima ficou dito, foi depois da concessão da autonomia administrativa, no ano de 1901, que se iniciou
e prossegue ainda a construção da importante rede de estradas, que se vai estendendo por toda a ilha,
permitindo já a visita rápida e cómoda a mais de vinte freguesias rurais e sendo de esperar que decorridos
poucos anos se poderão estabelecer fáceis comunicações entre todas as paróquias da Madeira. Não existe
uma medição oficial das novas estradas construidas, mas conseguimos obter alguns dados, que nos
fornecem uma estimativa muito aproximada da sua extensão e que em seguida apresentamos.
Estrada pelo lado de leste
Do Funchal ao Caniço................................... 9.500
Do Caniço a Gaula ..................................... 6.000
De Gaula a Santa Cruz.................................. 3.500
De Santa Cruz a Machico................................ 7.000
De Machico á Portela .................................. 7.000
Estrada pelo lado de oeste Quilometros
Quilometros
Do Funchal a Câmara de Lobos........................... 9,000
Câmara de Lobos ao Estreito de Camara de Lobos......... 4.500
Do Estreito á Quinta Grande ........................... 7.000
Da Quinta Grande ao Campanário......................... 4.000
Do Campanário á Ribeira Brava.......................... 6.000
Da Ribeira Brava á Tabua .............................. 3.500
Da Tabua à Ponta do Sol................................ 5.500
Da Ponta do Sol aos Canhas ............................ 2.500
Dos Canhas ao Arco da Calheta (Loreto)................. 9.000
Do Loreto á Calheta (Estrela) ......................... 7.000
Da Estrela ao Estreito da Calheta ..................... 3.400
Do Estreito da Calheta aos Prazeres ................... 7.000
Dos Prazeres á Fajã da Ovelha (Raposeira) .............. 4.000
Da Ribeira Brava á Ponta Delgada Quilometros
Da Ribeira Brava á Serra de Água....................... 8.000
Da Serra de Água á Encumeada ..........................15.000
Da Encumeada a S. Vicente.............................. 14.000
De S. Vicente á Ponta Delgada ......................... 8.000
Do Funchal ao Ribeiro Frio Quilómetros
Do Funchal ao Monte ................................... 6.000
Do Monte ao Poiso .....................................15.500
Do Poiso ao Ribeiro Frio...............................20.000
Vid.
Duas Palavras sobre a Viação na Ilha da Madeira, por Joaquim Maria Fragoso, in “Boletim da
Associação dos Condutores de Obras Publicas“, ano X, de pag. 1-27.
Estrangeiros
As conquistas e descobertas que os portugueses iniciaram no alvorecer do século XV
despertaram o interesse e a curiosidade da Europa inteira. Não faltaram espíritos irrequietos e ambiciosos
que, abandonando o seu país natal, se arriscassem aos azares da sorte, procurando nas longínquas terras
descobertas a glória e as riquezas que a pátria não podia dar-lhes. Se a alguns impulsionava apenas o amor
da aventura, o desejo do imprevisto e do desconhecido, o ardor pelas empresas arriscadas e façanhas
heróicas, é certo que a maior parte ia atraída pela sede das riquezas, pela conquista do velo de ouro, que
mais uma vez punha em sobressalto as ambições de um tão grande numero de audaciosos aventureiros.
A Madeira foi o primeiro e o mais importante empório comercial que se formou nos nossos domínios
coloniais, e, portanto, também o primeiro e mais ambicionado ponto de atracção para os forasteiros que
demandavam as novas plagas descobertas. O numero deles foi considerável, embora não possamos, nem
aproximadamente, determinar esse numero, as qualidades e posição social que os distinguiam, as épocas
precisas em que aqui aportaram e outras circunstancias de caracter genérico, que nos forneçam elementos
seguros para assinalar a sua acção ou influencia no meio em que se vieram estabelecer. É certo que de
diversos estrangeiros se conhecem algumas circunstancias pessoais, que muito abonam a sua procedência e
apreciáveis dotes de caracter, mas estes constituem um numero bastante reduzido com relação aos
numeráveis forasteiros que fizeram assentamento nesta ilha nos tempos primitivos da colonização. Os
nomes de Simão Acciaioly, João Esmeraldo, João Bettencourt, Pedro de Lemilhana Berenguer, João
Drumond, Antonio Espinola, Antonio Leme, Urbano Lomelino, João Rodrigues Mondragão, João Salviati,
Adriano Espranger, João Valdavesso e ainda de outros, que se estabeleceram neste arquipelago, tornaram-
se conhecidos pelas distintas famílias de que foram troncos e provaram a sua nobre ascendência, sendo a
muitos deles concedidos foros de fidalgos, com os privilégios inerentes á mais autentica nobreza. Não
queremos com isto significar que os nomes dos forasteiros que ficaram para nós desconhecidos e que são o
maior numero, não tivessem iguais ou superiores qualidades ás dos que deixamos mencionados, mas
apenas pretendemos consignar aqui os apelidos de algumas famílias que frequentemente encontramos
citados em documentos antigos e nos velhos nobiliarios madeirenses.
Os estrangeiros contribuíram consideravelmente, embora com proveito próprio, para o estado de
prosperidade a que chegou esta ilha desde os fins do século XV até meados do século seguinte. Entregaram-
se a diversos ramos de negocio, montaram muitos engenhos de açúcar e era por seu intermédio que se fazia
uma boa parte da exportação desse produto para os países estrangeiros. Gaspar Frutuoso afirma, embora
talvez exageradamente, que João Esmeraldo produzia anualmente vinte mil arrobas de açúcar nas suas
propriedades da Lombada. Muitos deles eram simultaneamente agricultores, industriais e comerciantes.
Já por meados do século XV se encontravam muitos estrangeiros nesta ilha, que viviam em boas relações
com os naturais, entregando-se o maior numero deles ao trafico do açúcar. No princípio a notável
fertilidade do solo e o preço remunerador dos canaviais, satisfazia plenamente o colono, o senhorio e o
negociante, mas veio depois a baixa dos preços, motivada por causas várias, que excitou a desconfiança e a
animosidade dos produtores da matéria prima do açucar contra os negociantes, especialmente estrangeiros,
chegando a Camara do Funchal a tomar medidas de repressão contra eles, que foram até á violencia de
ordenar a sua expulsão desta ilha.
(cid:1176)
Entre elles, diz o Dr. Azevedo, breve desavindos, sobreveiu logo a especulação e o capital dos mercadores
extrangeiros, os quaes, despeitados contra a fortuna, que tantas e tão ricas colónias conferira a Portugal e
Hespanha, não perderam o ensejo de tomar, pela usura, prompta represalia sobre esta população
desvairada. Os adeantamentes por conta entregaram-lha, submettida pela mingua de uns e desperdícios de
outros. Já se haviam apropriado dos vindouros productos da terra, e iam-se assenhoreando da terra mesma.
E, como se esta crise intestina não fosse de si bastante temerosa, a decadência, lenta mas continua, do preço
do assucar, género ainda então limitado ao consumo na pharmacia e na confeitaria, a recrudesceu. De sorte
que, ao constante conflicto entre o colono, que produzia, e o senhorio, que gastava, cumulou-se a
imperturbável e inclemente pressão do capital ou numerário forasteiro, simultaneamente fecundante e
destruidor, cubiçado e maldito por ambos.
Esta peripécia dos factos, pouco a pouco condensada, e surgindo agora, repercutiu-se na opinião,
transformando-a. Já em 1486 a Câmara do Funchal, sem tacto para diagnosticar as verdadeiras causas do
damno, ou obsecada por ellas, tinha irrompido contra esses ainda havia poucos annos bemquistos e
festejados extrangeiros estantes na ilha; ordenando-lhes, por uma postura, que até septembro desse anno
della se retirassem, ao que o Duque, zeloso de suas immunidades e resentido, obstou, por uma carta de 7 de
Agosto“.
Embora o anotador das Saudades o não diga, parecendo até querer justificar o procedimento dos
estrangeiros, devemos acreditar que a medida violenta adoptada pelo selado funchalense, impondo, no ano
de 1486, a sua saída imediata deste arquipelago, se fundamentaria em mui graves e ponderosas razões,
determinadas pelos excessos cometidos pelos negociantes na desaforada especulação dos preços dos
açucares. Não sabemos se as providencias tomadas pela Câmara do Funchal chegaram a ter plena execução,
mas o regimento de 7 de Outubro, emanado do poder central, tendente a debelar a crise por que estava
passando a indústria sacarina, só permite em cada ano a estada temporária de estrangeiros nesta ilha, e
entre outras medidas repressivas, proibe-lhes o arrendamento das terras cultivadas de cana de açúcar.
Também ignoramos se o regimento de 7 de Outubro se cumpriu fielmente, sendo certo que o alvará régio de
22 de Março de 1498 permite a livre permanência dos estrangeiros nesta ilha, declarando nele D. Manuel
que abemos por bem & e nos praz que possam estar & trautar nella (ilha) dasemto & como lhe mais prouuer
quaes quer estrangeyros que quezerem.
A pesar de ser antiga a cultura da vinha na Madeira, parece certo, segundo a afirmativa do Dr. Alvaro
Rodrigues de Azevedo, que essa cultura se tornou mais intensa e os vinhos desta ilha começaram a ser
conhecidos e estimados na Europa por meados do século XVI. Foram os estrangeiros que para isso muito
concorreram, sendo eles os que primeiramente se entregaram entre nós a esse reino de comercio, que
chegou a atingir um grande desenvolvimento. No ultimo quartel do século XVII havia no Funchal vinte e
sete casas comerciais que negociavam na compra e exportação de vinhos, sendo vinte delas estrangeiras. No
período que decorre dos fins do século XVIII até os primeiros vinte anos do século seguinte, a produção
vinícola nesta ilha é verdadeiramente extraordinária, e a sua exportação, que se faz principalmente por
intermédio de casas comerciais inglesas, atinge uma media anual superior a vinte mil pipas, mantendo-se
para uns viticultores um preço bastante remunerador. Quando, no princípio do século passado, as casas
comerciais estrangeiras exportadoras se mancomunaram para estabelecer uma grande baixa nos preços dos
vinhos, obstou a isso o grande proprietário João de Carvalhal, comprando os mostos por preços
compensadores, o que obrigou os negociantes inglêses a se dirigirem ao mesmo Carvalhal e a adquirirem os
vinhos em condições bastantes vantajosas para os agricultores.
De benemerencias praticadas por estrangeiros nesta ilha, em tempos mais afastados de nós, não temos
conhecimento. Na primeira metade do século passado, sabemos dos relevantes serviços prestados pelos
estrangeiros John March e Roberto Page, a que fazemos especial referência em outro lugar desta obra.
Todos sabem que, em épocas recentes, alguns estrangeiros adquiriram na Madeira avultadas fortunas, que
chegaram a milhões, mas não nos consta que os seus sentimentos humanitários ou de vulgar
reconhecimento pela terra que os enriqueceu, se tivessem manifestado em quaisquer obras ou acções que
mereçam ficar aqui registadas, a não ser a que deixamos referida no artigo Bibliotecas. (1922)
Estrapagado. V. Boieiro.
Estreito da Calheta (Freguesia do).
Encontrámos algures não ter uma plausível explicação
o emprego do vocábulo Estreito, aplicado ás freguesias do Estreito da Calheta e Estreito de Câmara de
Lobos. Também compartilhamos desta opinião. Embora dêmos a essa palavra o significado de desfiladeiro,
vale ou profundidade, que alguns dicionaristas lhe querem atribuir, não nos parece que, no seu conjunto, as
condições orograficas daquelas freguesias justifiquem semelhante denominação. É possível que um
pequeno sítio ou lugar, com maior ou menor propriedade na aplicação do termo, tivesse tido
primitivamente o nome de Estreito, que depois se estendesse aos terrenos circunvizinhos e até se alargasse
para designar mais tarde uma freguesia inteira, como aconteceu com outras paróquias da Madeira. E, de
mais, nos tempos primitivos da colonização, devera ter sido grande a arbitrariedade na designação dos
diversos sítios, que em muitos casos obedeceria apenas ao capricho e á predilecção dos antigos
colonizadores, sem atenção á orografia e hidrografia dos logares e nem ainda a quaisquer outras
circunstancias ponderosas que poderiam porventura dar-se. Um acontecimento de nenhuma importância e
até ás vezes um pequeno episódio, era razão justificativa da denominação dada a um determinado sítio ou
lugar, como por certo, sucedeu com as freguesias da Fajã da Ovelha, Campanário, Curral das Freiras, etc..
Como já fizemos notar, foi a Calheta um dos mais antigos logares fora do Funchal, sujeitos á primitiva
colonização e exploração agrícola. Devemos supor que o povoamento e o arroteamento dos terrenos que
depois constituíram a freguesia do Estreito se não fizesse demorar largo tempo. Houve ali uma ou mais
fazendas povoadas, que formaram o primitivo núcleo da povoação que se estabeleceu neste lugar.
O anotador das Saudades, seguindo os antigos nobiliarios madeirenses, diz que esta freguesia teve origem
na fazenda povoada a que ali deu princípio André Gonçalves de França, conhecido pelo nome de Polonês,
por ser natural do reino da Polónia, donde veio para esta ilha, por meados do século XV, tendo obtido
muitas terras de sesmaria na então freguesia da Calheta, terras que depois pertenceram á futura paróquia
do Estreito. Foi seu filho João de França que deu maior extensão á já vasta propriedade e a “engrandeceu
com boas casarias e capela“, no dizer do Dr. Alvaro de Azevedo. Fez construir a capela de Nossa Senhora da
Graça, em que depois se criou e instalou a nova paróquia, sendo também a sede do morgadio que fundou
em 1503 e que é uma das mais antigas instituições vinculares da Madeira. João de França morreu por 1511,
tendo sido sepultado na capela de que foi o instituídor.
Gaspar Frutuoso, fazendo uma rápida descrição das freguesias desta ilha, com relação ao tempo em que
escreveu as Saudades e ainda anteriormente a essa época, diz, com relação ao Estreito da Calheta:
“E logo perto huma legoa da Calheta, está a fazenda de João Rodrigues Castelhano, que se chamou assi por
fallar castelhano, sendo elle genovez de nação; que he fazenda grossa de canas com seu capellão. Este João
Rodrigues causou no Funchal duas filhas muito ricas, e são dellas agora as melhores fazendas da ilha: teve
muitos escravos, cinco dos quaes lhe mataram hum feitor; elle os entregou á Justiça, e foram enforcados na
Vila da Calheta. Da fazenda deste João Rodrigues Castelhano obra de meya legoa, está outro engenho de
Diogo de França, que teve doze filhos nobres e ricos, boa fazenda de canas e vinhas, agoas e fructas“.
Talvez anterior a este João Rodrigues Castelhano é Francisco Homem de Gouveia, fidalgo que se
estabeleceu na Calheta nos princípios do século XVI, e que com sua mulher D. Isabel Afonso, fundou a
capela e morgado dos Reis Magos nesta freguesia do Estreito, acerca dos quais publicou um dos redactores
deste Elucidário, no Brado d'Oeste de 2 de Setembro de 1916, um desenvolvido artigo, donde extraímos os
seguintes períodos:
“Francisco Homem de Gouveia adquiriu na freguesia do Estreito da Calheta a lombada que teve o seu nome
e que depois da construção da capela passou a chamar-se Lombo dos Reis, denominação esta que ainda hoje
conserva. Foi por escritura de 4 de Agosto de 1529 que, com sua mulher, instituiu nas têrças dos seus bens o
morgadio dos Reis, com sucessão perpetua no seu primogénito. Não sabemos se a capela é a edificação
coeva da instituição vincular, mas julgamos não ser de construção muito posterior a essa época. Tinha este
morgadio a obrigação da missa quotidiana na mesma ermida, onde jazem sepultados os seus instituidores,
havendo a mulher de Francisco Homem morrido a 5 de Março de 1554“ Este vinculo foi encorporado na
casa dos donatarios do Porto Santo, por ter uma neta e herdeira do instituïdor, D. Maria da Câmara, casada
com Diogo Perestrelo de Bisforte, 5.
Por meados do século XVIII tinham casas de residencia nesta freguesia, e cremos que também terras
vinculadas, António João de França Andrade e João António Cardoso Belzago, aos quais foram concedidos
em 1750 e 1753 breves pontificios para erigir oratórios nas moradas que ali possuíam e poder nelas celebrar-
se o sacrifício da missa.
capitão-donatario e governador daquela ilha.
A criação da freguesia é anterior a 1562, porque o alvará régio de 12 de Janeiro deste ano eleva a côngrua do
respectivo pároco a 17$300 réis anuais, que antes era apenas de 13$300 réis, Os sucessivos alvarás de 30 de
Março e 22 de Junho de 1572, 20 de Abril de 1589, 17 de Novembro de 1591, 30 de Maio de 1624 e 5 de
Março de 1641 acrescentaram a côngrua do vigário, á medida que ia aumentando a população e que o
trabalho paroquial se tornava mais penoso.
O alvará régio de Filipe II, de 20 de Outubro de 1602, criou um curato nesta freguesia.
A capela de Nossa Senhora da Graça, depois convertida em igreja paroquial, foi edificada nos fins do século
XV ou princípios do século XVI, tendo sido acrescentada ou melhor reconstruída em ano que não podemos
precisar. O mandado do Conselho de Fazenda de 20 de Julho de 1690 determinou que se procedesse á
construção dum novo templo, sendo as respectivas obras arrematadas por Salvador Lopes pela importância
de 1:395$000 réis, e o alvará da infanta D. Catarina, regente do reino, de 27 de Junho de 1705, aprovou a
mudança que o bispo diocesano D. José de Sousa de Castelo Branco fez da nova igreja para outro sítio. Mas
procedeu-se realmente nesta época á construção da nova igreja? É certo que o templo actual foi edificado no
ano de 1791 e benzido em 1793. Será provável a edificação de dois templos dentro dum período de tempo
inferior a um século? Não nos parece. Sôbre o pórtico da actual igreja encontra-se uma lápide, que tem a
seguinte inscrição: Mariae Patris Filiae Filii Matri Spiritus Sancti Sponsae hoc templum consecravit Aug.
Reg. Maria Prima suae piae liberalitatis regio erario administro. Anno MDCCLXXXXI.
Esta freguesia tem como orago a Nossa Senhora da Graça. A respectiva imagem, que se venera no altar-mor
da igreja paroquial, é uma primorosa escultura, a cujo culto e veneração consagra Fr. Agostinho de Santa
Maria um capítulo no tomo X do seu Santuário Mariano.
Tem esta paróquia as capelas dos Reis Magos, de Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade e
Nossa Senhora do Livramento, das quais nos ocuparemos em outro lugar.
A actual freguesia dos Prazeres fez parte da paróquia do Estreito e desta se desmembrou em 1733, criando-
se ali um curato autónomo, por alvará régio de 12 de Novembro do mesmo ano.
Os irmãos Ricardo José de França e José Sebastião de França, filhos do capitão-mor José Antonio de
França, começaram no princípio do século passado a exploração das águas das Fontes dos Balcões, Água
Negra e Assobiadores, destinadas a alimentar a levada que pretendiam construir para irrigar os terrenos
desta e outras freguesias. Em Fevereiro de 1811 organizaram uma sociedade com outros indivíduos para a
exploração e captação destas águas e requereram ao governo da metrópole a concessão delas, obtendo
parecer favorável do corregedor da comarca, o Dr. Antonio Rodrigues Veloso de Oliveira.
Os principais sítios desta freguesia são Lombo dos Castanheiros, Lombo do Lameiro, Lombo dos Reis,
Lombo dos Serrões, Lombo da Igreja, Lombo dos Moinhos, Lombo do Girão, Lombo da Fazendinha e
Lombo da Ribeira Funda.
A ribeira de São Bartolomeu a leste, divide esta freguesia da da Calheta, e a Ribeira Funda, a oeste, divide-a
da paróquia dos Prazeres.
Além da levada do Rabaçal, é o Estreito da Calheta irrigado pela levada dos Moinhos, levada Nova, levada
do Ribeiro do Farrobo e levada dos Ferreiros.
Tem uma escola oficial do sexo masculino criada por 1879, e uma do sexo feminino, criada no ano de 1911.
É de 2300 o numero dos seus hahitantes.
Estreito de Câmara de Lobos. (Freguesia do)
Com bons fundamentos se julga que,
fora do Funchal, foi Câmara de Lobos um dos logares em que primeiramente se deu o povoamento e cultivo
das terras, constituindo-se ali desde logo um importante núcleo de população. Não tardaria muito que esse
arroteamento dos terrenos incultos se fosse estendendo e alargando até as alturas da actual freguesia do
Estreito, ao menos na parte sul dela e nos pontos que a delimitam da paróquia de Câmara de Lobos.
Com relação á origem do nome da freguesia do Estreito, temos apenas que reportar-nos ao que já
expusemos no artigo consagrado á paróquia do Estreito da Calheta, pois que nada mais podemos nem
sabemos acrescentar ao que ali fica dito acerca deste ponto. Gaspar Frutuoso referindo-se a esta freguesia
no ultimo quartel do século XVI, diz: Acima delle (convento de S. Bernardino) estão os pomares do Estreito,
que tem muita castanha, e noz, e peros de toda a sorte muito doces, e vinhos e criações e huma freguesia
que se chama o Estreito, de até trinta fogos... “
Não conhecemos a data do diploma que estabeleceu esta paróquia, mas sabemos que a sua criação remonta
aos primeiros anos do século XVI, assinando-lhe o anotador das Saudades o ano de 1509. Julgamos que já
anteriormente tinha sido sede dum curato na capela de Nossa Senhora da Graça, que ali existia e que depois
se transformou em igreja paroquial. Diz o Dr. Alvaro de Azevedo que, por três escrituras lavradas na antiga
nota de Câmara de Lobos, se sabe que em 1539 era o padre Sebastião Vaz vigário do Estreito.
O diploma mais antigo que encontramos citado acerca desta freguesia é o de 20 de Janeiro de 1572, que
concede ao padre Gonçalo de Aguiar, pároco de então, o acrescentamento de 9$300 réis á côngrua que
anteriormente tinha. Os alvarás de 18 de Janeiro de 1582 e 15 de Novembro de 1591 aumentaram e
remodelaram o vencimento anual do respectivo vigário, que passou a ser de 16$000 réis em dinheiro, uma
pipa e meia de vinho e um moio e meio de trigo.
O alvará de D. Pedro II, de 28 de Dezembro de 1676, suprimiu um dos logares de beneficiado da colegiada
de Câmara de Lobos, aplicando a respectiva côngrua ao curato do Estreito, criado pelo mesmo diploma
régio. Outro alvará de 9 de Maio de 1688 fixou o vencimento anual do coadjutor em 120$000 réis em
dinheiro, um moio de trigo e uma pipa de vinho.
Ignoramos em que época foi construída a capela de Nossa Senhora da Graça, que deu o nome á nova
paróquia, sendo nela instalada a sua sede. O pequeno templo sofreu grandes reparos aproximadamente pelo
tempo da criação da freguesia, e também no ultimo quartel do século XVII se realizaram ali obras
importantes. Temos conhecimento dos seguintes diplomas, que encontrámos apontados no Índice Geral do
registo da antiga Provedoria da Real Fazenda: mandado do Conselho da Fazenda, de 23 de Setembro de
1692, para se fazer a obra da nova igreja arrematada por Francisco Rodrigues, por 811$000 réis; mandado
do mesmo Conselho, de 5 de Março de 1748, para a factura da igreja e de 194$000 réis para o pagamento de
um alqueire e meia quarta da terra precisa para a dita obra e de 551$662 réis da casa do vigário, que se deve
desmanchar para o mesmo fim; mandado de 15 de Fevereiro de 1764 para se arrematar ao mestre
entalhador Julião Francisco a obra do altar-mor, por 2:000 réis. Além do que dizem os documentos citados,
pudemos de fonte segura averiguar que por meados do século XVIII se demoliu a antiga igreja, ficando de
pé a capela-mor, que ainda por alguns anos continuou a servir de igreja paroquial. A 3 de Fevereiro de 1753
se lançou e benzeu a primeira pedra do novo templo, sendo a 18 de Janeiro de 1756 benzida a capela-mor e
para ela conduzido o Santissimo Sacramento, prosseguindo depois os restantes trabalhos de construção.
Esta igreja foi sagrada em 1814 pelo prelado diocesano D. Joaquim de Meneses e Ataide.
Foi neste templo que, poucos anos depois, a 6 de Novembro de 1829, se deu um grande desacato, a que já
nos referimos mais largamente em outro lugar deste Elucidário. Sôbre este caso, que parece ter causado
grande sensação, publicou-se um opúsculo de 13 paginas, que o Diccionario Bibliographico Português cita
sob o título seguinte: Sentença da Relação de Lisboa contra Jacinto Fernandes e mais septe reos, culpados
do roubo e desacato na egreja da Graça do Funchal. Morreram seis enforcados e o ultimo foi degolado.
(Datado de 6 de Março de 1830). Impresso em Lisboa na Typ. de J. B. Morando.
Entre os mais antigos sacerdotes que exerceram funções paroquiais nesta freguesia, podemos citar os
nomes dos padres Sebastião Vaz (1539), Gonçalo de Aguiar (1563), Sebastião Gonçalves (1586), João
Gonçalves Evangelho (1607), Matias Lopes (1620), Manuel Lopes (1631) e Luiz Gonçalves Velho (1643).
Tem esta freguesia as capelas de Nossa Senhora da Incarnação, Nossa Senhora da Consolação, Santo
Antonio e Nossa Senhora do Bom Sucesso, das quais nos ocuparemos mais de espaço nos artigos dedicados
ás capelas. No sítio da Ribeira da Fazenda existiu a capela de Sant'Ana.
Os principais sítios são: Vizinhanças da Igreja, Caminho do Concelho para a Ribeira da Caixa, Pico e Salões,
Caminho do Concelho para a Ribeira da Fernanda, Vargem, Barreiros, Covão e Panasqueira, Castelejo, Fajã
das Galinhas, Quinta de Santo Antonio, Romeiras, Foro, Fonte do Frade e Cruz dos Pomares, Serra, Cabo do
Podão, Marco e Fonte da Pedra, Fontes, Casa Caída, Marinheira, Pomar do Meio, Garachico, Furneira e
Jardim da Serra. Deste ultimo sítio, casa e sepultura de H. Veitch, que nele se encontram, nos ocuparemos
em artigo especial. (V. Jardim da Serra).
São naturais desta freguesia o Dr. Luiz Vicente de Afonseca e João Augusto de Ornelas (V. estes nomes).
Há nesta freguesia uma pequena indústria de chapéus de palha, quasi inteiramente privativa desta
localidade, e ali existe também uma fabrica de manteiga.
A chamada Boca dos Namorados é o sítio mais pitoresco desta paróquia. Dali se disfrutam vastos e
surpreendentes panoramas, sendo muito visitado, principalmente por estrangeiros.
Tem como freguesias confinantes: ao norte Serra de Água e Curral das Freiras, ao sul Câmara de Lobos, a
leste a Ribeira dos Socorridos, que a separa de Santo Antonio e Curral, e a oeste Quinta Grande e Câmara de
Lobos.
Tem uma escola oficial para cada sexo e a sua população é de 6.200 habitantes.
No dia 22 de Maio de 1927 deu-se uma lamentável tragédia nesta freguesia, tendo o padre André dos Passos
sido assassinado por um demente ao sair da capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, no sítio de
Garachico, onde acabara de celebrar o sacrifício da missa. Este tristissimo acontecimento causou a maior
emoção em toda a ilha e particularmente nesta freguesia.
Estrela (Capela e sítio da).
V. Nossa Senhora da Estrela
Estrelas
Nome vulgar do Chrysanthemum frutescens, composta originaria de Canárias, muito cultivada
nos Jardins do Funchal. Esta planta é também conhecida pelo nome de ovos fritos.
Estrelas do Mar
São conhecidas por esta denominação alguns equinodermes da Madeira, entre os
quais avultam a Uraster glacialis, de espinhos azulados, o Ophidiaster attenuatus, vermelho e inerme, a
Ophiocoma nigra, de cor negra, a Ophiolepis squamata, pequena e branca e a 0. siliata, de espinhos rígidos.
Esta ultima espécie é comum na profundidade de 20 a 30 braças.
A maior das estrelas do mar é o Astropecton aurantiacus, espécie mediterrânea de cor vermelha, que atinge
ás vezes grandes dimensões.
Estrella Académica
Publicaram-se poucos números, sendo o primeiro a 10 de Dezembro de 1875.
Estrella Literaria
Jornal literário, tendo saído 25 números, sendo o primeiro a 1 de Janeiro de
1874.
Estudante (O)
Deu 3 números, saindo de 2 de Fevereiro a 2 de Março de 1890.
Estudo (O)
Este jornal literário começou a publicar-se a 12 de Julho de 1851 e terminou a 10 de Junho
de 1853. 0 primeiro ano compreende 24 números (12 de Julho de 1851 a 26 de Junho de 1852), e o segundo
ano deu 12 números (14 de Julho de 1852 a 10 de Junho de 1853).
Estufas
As estufas tiveram princípio nesta Ilha em 1794; proibidas por editais do governador e capitão
general de 13 de Agosto de 1802 e 6 de Novembro de 1803, voltaram a funcionar em virtude duma ordem
régia datada de 7 de Maio de 1804.
As estufas são destinadas a dar aos vinhos uma aparência de velhice que não têm, e as do sistema primitivo,
ainda hoje existentes na ilha, aquecem-se pelo ar quente ou pelo sol. As de ar quente são edifícios de pedra,
divididos em compartimentos aquecidos por meio de canos onde passa o ar que vem de uma ou mais
fornalhas, ficando o vinho novo em comunicação com o ar da estufa por meio de um orifício aberto na pipa.
A temperatura do ar na estufa regula entre 60 e 70 graus centígrados, mas pode descer a 54 graus, ou
mesmo a menos, em se tratando de vinhos de boa qualidade.
Os vinhos ficam nas estufas durante quatro a seis meses, com o fim de apressar o seu desenvolvimento e
impedi-los ao mesmo tempo de fermentar, mas adquirem quasi sempre um gosto a torrado, ás vezes muito
pronunciado, que o tratador consegue atenuar, mas não fazer desaparecer inteiramente, com o emprego
subsequente do carvão vegetal.
Nas estufas de sol, as paredes e cobertura do edifício são feitas de vidro.
Num estabelecimento fundado em 1889 pelo falecido Conde do Canavial, o vinho antes de ir para as
estancias ou estufas, onde permanece durante semanas ou meses, entra num reservatório onde desce
lentamente por um cano de estanho, no qual é elevado em banho-maria, e ao abrigo do ar, á temperatura de
70 a 80 graus centígrados. É nesta temperatura que o vinho é recebido na vazilha em que vai para as
estancias, nas quais a temperatura é de 50 graus, descendo depois lentamente, e fazendo as paragens
convenientes, até o fim do afinamento.
Neste sistema aperfeiçoado consegue-se a esterilização do vinho pela elevação da temperatura a 70 ou 80
graus, mas sendo esta a temperatura em que o vinho entra em contacto com o ar, resulta daí ele oxidar-se,
adquirindo um certo gosto a cozido.
Este gosto desaparece quasi inteiramente num outro sistema aperfeiçoado de aquecimento em que o vinho
é lançado num tanque de alvenaria, susceptível de se fechar hermeticamente e que é atravessado por uma
serpentina em que passa o vapor. O vinho só se tira quando está arrefecido, e a operação do aquecimento
começa por se elevar a temperatura a 80 graus centígrados, fazendo-se depois passar de vez em quando
novo vapor pela serpentina, de maneira a conservar o vinho a uma temperatura quasi constante, ou a
temperaturas variáveis. conforme as conveniências.
O sistema de beneficiar os vinhos pelas estufas, hoje muito aperfeiçoado, teve em tempos antigos alguns
detractores. No preâmbulo do decreto de 23 de Junho de 1834 lê-se que é ele
(cid:1176)
a principal causa do actual
descredito dos vinhos madeirenses, outrora muito apreciados
(cid:1177)
, mas Paulo Perestrelo da Câmara na Breve
Noticia sobre a ilha da Madeira defende o aludido sistema, tendo também o decreto de 20 de Fevereiro de
1835 modificado bastante a doutrina do diploma anterior acerca das estufas.
É fora de duvida que se abusou muito das estufas e que por meio delas muitos vinhos ordinários se
prepararam para serem vendidos nos mercados europeus por baixo preso e em descredito dos vinhos
generosos; no entretanto houve sempre boas razões para não pôr de parte estes estabelecimentos, que se
por um lado favoreciam a fraude, por outro auxiliavam o negociante honesto a valorizar rapidamente os
vinhos novos provenientes das boas castas, desenvolvendo neles, qualidades que por outro meio só
tardiamente se manifestariam.
V. Vinhos, Vinhos de canteiro e Vinho de roda
.
Eucalipto
O Eucaliptus globulus, oriundo da Australia, é a única espécie do género Eucalyptus
frequente na Madeira, encontrando-se no Monte, na Choupana e em várias outras localidades da ilha.
Atinge grandes dimensões e desenvolve-se com grande rapidez, não convindo porém plantá-lo perto das
fontes, por ser espécie que absorve pelas suas raizes grande porção de água.
Segundo o Sr. Dr. Jorge Perez, distinto medico e naturalista de Tenerife, é o E. globulus, e não o E. collossea
como disseram alguns jornais, que tem acção sôbre o sistema nervoso e faz cessar a secreção da glucose na
diabetes. A primeira destas espécies é mais rica em óleo essencial do que a segunda, sendo esta a razão por
que as suas folhas devem ser preferidas na preparação da infusão usada no tratamento daquela moléstia.
Diz ainda o mesmo médico que a infusão do eucalipto é um medicamento que se deve administrar com
cautela, pois que se citam casos de envenenamento produzidos por ela, quando usada em excesso.
O Eucaliptus robusta também é cultivado na Madeira, e na quinta do Sr. Luiz da Rocha Machado, na
freguesia do Monte, existem três espécies de Eucaliptus, uma das quais parece ser o E. longifolia.
Consta-nos que o E. collossea tem sido semeado recentemente na Madeira.
Eugenia (Imperatriz)
A imperatriz Eugenia, viúva de Napoleão III, passou na Madeira, a bordo
do vapor inglês German, no dia 30 de Março de 1880. Seguiu o mesmo itinerário que seu filho o príncipe
Eugenio Napoleão, que morreu na Africa do Sul, na guerra contra os zulos, até o próprio local em que ele
encontrou a morte. O príncipe havia desembarcado no Funchal no dia 4 de Março de 1879, estando de
passagem no nosso porto no vapor inglês Danube.
Execuções Capitais
Escassas noticias possuímos acerca de execuções capitais que se tivessem
dado neste arquipelago, determinadas por sentença publica. Já alguém julgou que o sítio conhecido pelo
nome de Forca, na freguesia de Santa Maria Maior, fora o lugar onde se executara uma sentença capital, em
que a forca tivesse sido o instrumento de suplício aplicado ao criminoso. Não sabemos, e até nos inclinamos
a acreditar que a explicação dada para justificar o nome daquele sítio não tem fundamento sério.
Falando o Dr. Gaspar Frutuoso de João Rodrigues Castelhano, que teve terras de sesmaria na freguesia do
Estreito da Calheta, diz o seguinte: “teve muitos escravos, cinco dos quaes lhe mataram um feitor; elle os
entregou á justiça e foram enforcados na villa da Calheta“.
Na dominação filipina, pelo ano de 1582, foi enforcado no Funchal, segundo afirma Rebêlo da Silva, o
religioso Fr. João do Espírito Santo, acusado de incitar o povo a seguir o partido de D. Antonio, Prior do
Crato.
Em Dezembro de 1813, quando esta ilha se achava ocupada por tropas britanicas, foi enforcado nesta cidade
um soldado inglês por haver assassinado um sargento seu compatriota. Contra esta execução, que ofendia
os direitos da soberania portuguesa, protestou o então governador e capitão general do arquipelago Luiz
Beltrão, sem que o general Gordon, comandante das forças inglesas, atendesse a sua reclamação.
No alvorecer do século XVII foi enforcado em efígie no largo do Pelourinho desta cidade, um indivíduo
chamado Francisco Rodrigues Jardim, de origem plebeia, por ter raptado uma senhora, por nome D. Maria
de Ornelas, pertencente a antigas e nobres famílias madeirenses. Se não houvesse, pela fuga, escapado á
acção das justiças, lá teria expiado na força a ousadia do seu crime.
Exéquias
Do Livro de Acclamações e Exequias existente no arquivo da Câmara Municipal do Funchal,
consta que se realizaram exéquias solenes na Catedral desta cidade pelo falecimento dos seguintes
monarcas: D. João V, a 19 de Dezembro de 1753; D. José I, a 28 de Junho de 1777; D. Maria I, a 17 de
Dezembro de 1816; D. João VI, a 10 de Maio de 1826; D. Maria II, a 26 de Janeiro de 1854; D. Pedro V, a 19
de Janeiro de 1862; D. Luiz I, a 29 de Novembro de 1889; e D. Carlos I e o príncipe Luiz Filipe, a 31 de
Março de 1908.
Não consta do referido livro que houvesse exéquias no Funchal por ocasião do falecimento de D. Pedro IV.
Lê-se no Indice Alphabetico dos tombos da Câmara que em 1495 mandou D. Manuel uma carta ao senado, a
fim de que este o aclamasse e fizesse o funeral de D. João II, que em 1656 veio uma carta da rainha
comunicando o falecimento de D. João IV, que em 1666 veio uma carta do rei, noticiando a morte da rainha,
e finalmente que em 1683 mandou o príncipe D. Pedro uma carta á Câmara, participando-lhe a morte do
monarca D. Afonso VI. Lê-se mais no mesmo livro que nas exéquias da rainha D. Luísa, em 1666, se
gastaram 192$300 réis e que nas de D. Afonso VI se dispenderam réis 100$000 do dinheiro da imposição.
As exéquias dos réis eram precedidas da cerimónia da quebra dos escudos, realizada pelos vereadores em
vários pontos da cidade, organizando-se para esse fim um prestito em que se encorporavam as autoridades,
os funcionários e todas as demais pessoas de representação da cidade. A ultima vez que teve lugar no
Funchal a cerimónia da quebra de escudos, foi por ocasião das exéquias de D. Luiz I.
Quando morreu D. José I, todos os membros do cabido da Sé do Funchal se recusaram a fazer o elogio
fúnebre desse monarca, alegando “falta de forças para tão alto encargo“. Foi o frade franciscano José
Faustino quem salvou a situação, fazendo um discurso adequado ao acto.
Estão publicados os elogios fúnebres de D. Luiz I e de D. Carlos I e seu filho Luiz Filipe, tendo aquele sido
feito pelo conego Antonio Aires Pacheco, e este pelo capelão do regimento de infantaria n.
27, o padre
Luiz Alves Martins.
Encadernado com o Regimento da vereação e foral da Câmara Municipal de Lisboa, existe no arquivo da
Câmara do Funchal um documento que tem por título Dos estilos que ha nas exéquias de hum Rey defeito e
na acclamaçãao do vivo em as cidades e pouos, onde se encontram assinaladas todas as cerimónias que se
realizavam no Funchal por ocasião da morte dos antigos monarcas.
Ex-Libris
A interessante Revista dos Ex-libris portugueses, que se publica em Lisboa debaixo da
direcção do conde de Castro e Solla, tem reproduzido vários ex-libris, que foram usados por bibliófilos
madeirenses e estrangeiros que residiram na Madeira, havendo até ao presente dado copia dos seguintes:
no 1.- volume, sob o n.º XVI, os que usou Fernando José Correia Henriques de Noronha, 1.º visconde de
Torre Bela; sob o n.º XXII, o de Roberto Page; sob o n.º XXIV, o de Benjamim de Oliveira; sob o n.º XL, o
do capitão de mar e guerra Jaime Pereira de Sampaio Forjaz de Serpa Pimentel; sob o n.º XLIV, o do
morgado João José de Bettencourt e Freitas; no volume 2.- sob o n.
LVII, o do morgado João Agostinho
Figueiroa de Albuquerque e Freitas; sob o n.º LIX, o de Thomas Murdoch; sob os nºs LXII e LXIII, os de
Robert e Mary Blackburn; sob o n.º LXXX, o de Leland C. Cossart; sob o n.º XC, o de Thomas Harris; sob o
n.º XCI, o de William Penfold; sob o n.º XCVIII, o de Joseph Pringle: no 3.º volume, sob o n.º CXX, o de
Charles Murray; sob o n.º CXXV, o de Thomas Robinson; sob o n.º CXXXIII, o de Robert Bayman; e no
volume 4º, a pag. 15, o de Russel Manners Gordon, 3.º visconde e 1.º conde de Torre Bela. S.
Vid. Arquivo Histórico da Madeira.
Expedições Cientificas
. Das muitas expedições cientificas que têm vindo á Madeira, quer para
obter refrescos para as suas viagens, quer para realizar alguns estudos nesta ilha, as mais importantes e
conhecidas são as que a seguir vão assinaladas:
1755. Bory veio á Madeira neste ano, a bordo do Cometa, tendo feito aqui algumas observações sôbre a
variação da agulha.
1764. Neste ano, a 13 de Julho, chegaram ao porto do Funchal os navios Delphim e Tamar, conduzindo a
expedição dirigida pelo comodoro João Byron, que se propunha descobrir novas terras entre o Cabo da Boa
Esperança e o Estreito de Magalhãis. A expedição limitou-se a tomar alguns refrescos.
1766. A 7 de Setembro ancoraram no porto do Funchal o Delphim, a Swallow e o Príncipe Frederico,
conduzindo a expedição comandada pelo capitão Samuel Wallis e de que fazia parte, como oficial, Filipe
Carteret, companheiro de Byron. A expedição limitou-se a substituir aqui as provisões já consumidas.
1768. Foi neste ano a 13 de Setembro, que chegou á Madeira a expedição cientifica comandada pelo celebre
navegador ingles James Cook, que ia observar na ilha de Taiti a passagem de Venus pelo disco do Sol.
Faziam parte desta expedição os naturalistas José Bancks e Dr. Solander, e o astrónomo Carlos Green,
tendo os dois primeiros feito vários estudos científicos nesta ilha. O Endeavour, que conduzia a expedição,
saiu do porto do Funchal a 19 de Setembro.
1772. Na segunda viagem que o capitão Cook realizou nos mares do sul, passou pela Madeira a 19 de Julho
deste ano, a bordo da Resoluçâo, tendo os naturalistas João Reinhold Forster e seu filho João Jorge, que
faziam parte da expedição, realizado aqui algumas observações botânicas.
1785. A expedição cientifica comandada por João Francisco Galaup de La Pérouse chegou ao Funchal a
bordo da Bussola e do Astrolabio a 13 de Agosto deste ano, saindo três dias depois para Canárias. Faziam
parte desta expedição o engenheiro Monneron, o geografo Bernizet, o cirurgião Rollin, o astrónomo
Lepaute-Dagelet, o físico Lamonon, o botânico Collignon e o ilustre Monge, não tendo tido este ultimo o fim
desgraçado dos seus companheiros de viagem, por haver desembarcado em Tenerife, a 29 de Agosto de
1785.
1792. O ilustre orientalista João Barrow visitou a Madeira neste ano, na sua viagem para a Cochinchina.
1816. A expedição cientifica inglesa, do comando do capitão J. K. Tuckey, esteve á vista da Madeira no dia 31
de Março deste ano, tendo encontrado, dormindo sôbre as águas, grande numero de tartarugas (Testudo
caretta).
1838. Neste ano, a 16 de Setembro, chegou ao Funchal uma pequena esquadra americana, composta do
Purpoise, das balandras Vincennes e Peacock, e das escunas Sea-Gull e Flying-Fish, comandada pelo
tenente Carlos Wilkes. Os sábios que vinham nestes navios, mediram a altura do Pico Ruivo e fizeram aqui
algumas observações geológicas, tendo saído da Madeira a 25 de Setembro.
1839. Os navios inglêses Erebus e Terror, debaixo do comando de James Clark Ross e Francisco Roland
Crozier, visitaram a Madeira em Outubro deste ano, tendo os seus oficiais medido a altura do Pico Ruivo e
feito observações magnéticas em Cabo Verde, Santa Helena e Cabo da Boa Esperança, antes de se dirigirem
para as regiões antárcticas e outros países que exploraram.
1857. Em Junho deste ano esteve na Madeira a fragata austríaca Novara, comandada pelo comodoro
Wullerstorf-Urbair, que fez uma viagem á roda do mundo. Os sábios da expedição mediram a altura do Pico
Ruivo e receberam muitas informações do medico Dr. Antonio da Luz Pita, do engenheiro militar major
Antonio Pedro de Azevedo, do botânico João Maria Moniz e do cônsul austríaco Carlos Bianchi.
1883. Esteve neste ano nos mares da Madeira, a bordo do Talisman, uma expedição cientifica francesa,
dirigida por Alphonse Milne Edwards, encarregada de proceder a estudos oceanograficos no Atlântico.
Segundo Milne Edwards, existe neste mar uma imensa cadeia vulcanica paralela á costa de Africa, de que é
possível que as ilhas de Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores sejam os únicos pontos não cobertos agora
pelas águas. (V. Atlantida).
1897. A 12 de Setembro deste ano chegou ao porto do Funchal, procedente de Ostende, a barca Belgica, que
conduzia a expedição cientifica belga que, sob o comando do capitão-tenente Adrien Gerlache, se dirigia
para as regiões antárcticas. Estiveram no Curral das Freiras os membros da expedição, entre os quais se
contavam o tenente Danco, encarregado das observações magnéticas, o Dr. Artoski, encarregado da
meteorologia e oceanografia e o Dr. Racsvitze, incumbido da botanica e zoologia.
1901. Nos dias 15 e 16 de Agosto deste ano esteve fundeado no porto do Funchal o vapor inglês Discovery,
que se destinava a uma viagem de exploração nas regiões antárcticas, sob a direcção de Roberto Scott. Como
é sabido, este navegador foi coadjuvado por Wilson e Shackleton nalguns estudos e investigações a que
procedeu naquelas paragens.
Neste mesmo ano, a 30 de Agosto, passou á vista do Porto Santo, a bordo do vapor Gauss, a expedição
antárctica alemã, dirigida pelo Dr. Erich von Drygalski. No relatório desta expedição, publicado em parte no
Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, lê-se “que a 31 de Agosto, quando vagarosamente se ia
occultando a Madeira, elevava-se um explendido fogo de vistas sobre o Funchal; e nós suppozemos que
fosse em honra do navio inglez Discovery da expedição ao Polo Sul, que alli tinha tocado nesse dia“.
Achamos curiosa, esta suposição, tanto mais, que a Discovery, como ficou dito, não esteve aqui a 1 de
Agosto, mas na data que atrás ficou mencionada.
1902. No mês de Julho deste ano esteve no porto do Funchal o navio Morning, do comando do capitão
Colbeck. Este navio, em que ia o Dr. Wilson, dirigia-se para as regiões antárcticas, a fim de prestar auxilio á
Discovery, do comando de Roberto F. Scott.
1903. A 10 de Setembro deste ano chegou ao porto do Funchal, procedente de Brest, o vapor Le Français,
trazendo a seu bordo o celebre navegador francês João Charcot que, como os precedentes, se propunha
explorar as regiões antárcticas. João Charcot demorou-se naquelas regiões até 1905, tendo o resultado dos
trabalhos de historia natural a que procederam os membros da expedição sido publicado por especialistas,
sob a direcção de L. Joubin.
1908. Neste ano, a 12 de Setembro, passou pela segunda vez na Madeira o explorador João Charcot, que se
dirigia para as regiões antárcticas, a bordo do Pourquoi Pas.
1910. A 23 de Junho de 1910 ancorou no porto do Funchal o navio Terra Nova, que conduzia a segunda
expedição que ia explorar as regiões antárcticas, sob a direcção de Roberto Scott. Este explorador, que
estivera anos antes na Madeira, não vinha a bordo do Terra Nova, no qual só embarcou mais tarde. O Terra
Nova, que estava provido dos melhores aparelhos e petrechos exigidos para as navegações polares, deixou o
porto do Funchal a 26 de Junho.
Neste mesmo ano, a 6 de Setembro, ancorou no porto do Funchal o navio norueguês Fram, a fim de receber
diversos artigos trazidos pelo vapor alemão Hans Hoermann. O Fram, que se dirigia para as regiões
antárcticas, sob a direcção do capitão Amundsen, deixou o nosso porto a 10 do referido mês.
1911. Na campanha cientifica realizada neste ano pelo príncipe Alberto de Mónaco a bordo da Hirondelle II,
algumas colheitas de algas marinas foram feitas pelo Dr. Luiz Gain nas costas do arquipelago. O príncipe
Alberto visitou também os mares do arquipelago em 1901, em 1904, em 1912 e ainda noutros anos, quer a
bordo da Hirondelle, quer da Princesa Alice, tendo numa das suas viagens visitado a Deserta Grande, da
qual se ocupou no seu livro intitulado La Carrière d'un navigateur.
1914 Neste ano, a 27 de Junho, chegou ao porto do Funchal a chalupa Armaner-Hansen, em que o ilustre
sábio norueguês F. Nansen fez sondagens e diversos estudos oceanograficos no Atlântico. O pequeno navio
deixou a Madeira a 28 de Junho, com destino aos Açores.
Neste mesmo ano esteve na Madeira o navio explorador inglês Endurance, sob o comando do capitão
Worsley, o qual se destinava ao Pólo Sul, devendo tomar em Buenos Aires o conhecido homem de ciência
Ernesto Shackleton. O Endurance, que chegou a 21 de Agosto e saiu a 25, esteve no dia 24 nas Desertas,
onde os sábios da expedição e o naturalista madeirense Sr. Adolfo César de Noronha fizeram diversas
investigações cientificas.
1920. A 6 de Abril deste ano entrou no porto do Funchal o iate dinamarquês Dana, a fim de receber o Dr.
Johannes Schmidt, muito conhecido pelos seus estudos biologicos e ictiologicos, que chegara no dia
anterior á Madeira, no Almanzora. 0 Dana partiu no dia 7 para Tenerife, levando os aparelhos e petrechos
necessários para a exploração cientifica do Oceano.
1921. A 16 de Outubro deste ano chegaram ao porto do Funchal os iates Dans e Quest, este conduzindo a
nova expedição inglesa, dirigida por Shackleton, que se destinava ao Pólo Antárctico, e aquele levando a seu
bordo o Dr. Johannes Schmidt, director do “Laboratorio Carlesberg“, de Copenhague, que pretendia estudar
a biologia e a física do Oceano, ao norte do Equador.
O pessoal cientifico do Dana fez explorações oceanográficas ao norte do Porto Santo no dia 15, e visitou a
Deserta Grande no dia 18, e o do Quest efectuou observações termometricas no mar ao sul do Funchal, na
profundidade de cerca de 1500 metros, correspondente ao habitat do nosso peixe espada preta.
0 Dana saiu do nosso porto no dia 18 á noite, e o Quest no dia 19, pela 1 hora e meia da tarde.
Os sábios da expedição dinamarquesa foram acompanhados na sua viagem á Deserta pelo naturalista
madeirense Adolfo de Noronha, tendo sido a pedido deste nosso conterrâneo que o pesssoal do Quest fez as
observações termometricas a que já nos referimos.
1922. Neste ano, a 6 de Junho, esteve no Funchal o navio norueguês Harmaner Hansen, que conduzia uma
expedição cientifica organizada pela Universidade de Bergen e de que faziam parte os professores H.
Hansen e Damas. A expedição destinava-se a estudos oceanograficos.
1923. A 17 de Maio deste ano chegou ao Funchal o pequeno vapor francês La Tanche, do serviço cientifico o
técnico das pescarias, onde vinha o cientista Gerard Belloc, do museu Lafaille, na Rochela, que se propunha
fazer investigações sôbre o atum e a sua pesca. Demorou-se aqui alguns dias.
1924. Em fins de Fevereiro de 1924 chegou ao Funchal o zoólogo inglês James Hornell, antigo director do
serviço das pescarias de Madrasta, na Índia, que fez vários estudos etnográficos. Deixou a Madeira a 1 de
Maio, do navio St. George, que conduzia uma expedição cientifica que se dirigiu daqui para a Trindade e
Panamá.
Exposições
Nos quatro primeiros dias do mês de Abril de 1850 realizou-se uma exposição de
indústria madeirense nas três salas principais do Palácio do Governo Civil. Figuraram nela tecidos, obras de
ourives, de marcenaria, de gesso e de palha, quadros, bordados, lavores, etc., assim como alguns produtos
agrícolas. Foram distribuídas 17 medalhas de prata pelas pessoas que apresentaram melhores objectos. O
iniciador desta exposição foi o Conselheiro José Silvestre Ribeiro.
Em 29 de Abril de 1854 houve no pátio e salas do palácio de S. Lourenço uma exposição agrícola promovida
pelo botânico João Maria Moniz, e nos dias 20, 21, 22 e 23 de Abril de 1861 realizou-se no mesmo palácio a
primeira exposição, promovida pela Sociedade Agrícola da Madeira.
Nesta exposição, a mais brilhante que teve lugar no Funchal, figuraram árvores e arbustos, plantas
industriais, pratenses e de ornamento, cereais, legumes, tuberculos e raizes, um herbario e uma colecção de
conchas madeirenses, gados, etc..
No dia 25 de Maio de 1861 houve uma reunião da Sociedade Agrícola, presidida pelo Governador Civil,
sendo distribuídos nessa ocasião pelos expositores, 12 prémios de primeira classe, 18 de segunda e 20
menções honrosas.
Os sócios da referida sociedade encarregados por ela de obter e classificar os objectos que figuraram na
exposição, foram o major Antonio Pedro de Azevedo, João Maria Moniz e o Dr. João Perestrelo de
Vasconcelos.
Em 1863 e 1864 houve duas insignificantes exposições de gado no Funchal, tendo comparecido na primeira
apenas nove cabeças, e não sendo a concorrência maior no ano imediato.
A ultima exposição que houve no Funchal teve lugar em fins de junho de 1901 por ocasião da visita regia a
esta ilha. Figuraram nela vinhos, aguardentes, fotografias, quadros, tecidos diversos, bordados, parquets e
embutidos, obras de vimes e de palha, etc.. A exposição realizou-se na Praça Académica, hoje Campo do
Almirante Reis, em barracas e pavilhões levantados ai para esse fim.
V. Feiras.
Facheiro
No primitivo sistema militar da defesa da costa havia o cargo de facheiro, encarregado de
acender fogueiras no cimo dos picos para avisar as povoações de que velas inimigas estavam á vista. Esta
usança durou até o governo de D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho, e recordam-na o nome do Pico do Facho,
em Machico e Porto Santo.
Facho (Pico do)
Sobranceiro á vila de Machico e a 330m de altitude, encontra-se esta elevação
montanhosa, cujo cume domina os terrenos que formam a freguesia do Caniçal e o formoso vale por onde
corre a ribeira daquela vila. Existiu ali um posto semafórico, que comunicava com outro estabelecido no
chamado Pico do Telégrafo, na freguesia do Caniço.
Algures se diz que no alto do Pico há uma pequena fonte, cujas águas sobem quando sobe a maré e descem
quando esta desce. Este fenómeno parece ser devido á existência dum canal interior, entre o reservatório da
fonte e a costa, canal em que o mar penetra mais quando sobe a maré. É o ar existente neste canal que,
afluindo ao reservatório da fonte, provoca provavelmente a elevação do nível das águas que se observa
durante o preamar nas costas de Machico (V. Picos).
Facho. (Pico do)
É o monte mais elevado da ilha do Porto Santo e fica na região setentrional, a uma
altitude de 500m.
Facho da Malhada (Pico do)
Na região meridional da Ilha do Porto Santo, para as bandas do
sussudoeste, fica a eminência deste nome, a 265m de altitude.
Fagundes (Pedro)
V. Meneses (Pedro Fagundes Bacelar de Antas e).
Faia (Myrica Faya)
Árvore ou arbusto da família das Miricaceas, frequente na Madeira. Tem
folhas glabras, obovado-lanceoladas ou oblongo-lanceoladas, de ordinário serradas, flores dióicas e frutos
drupaceos, a princípio vermelhos e depois negros, reunidos em pequenos grupos em virtude da aderência
das flores femininas. A faia produz boa lenha, e os seus caules são utilizados para estacas em muitos pontos
da costa norte. A sua casca é taninosa, a sua madeira é de cor baça, puxando ás vezes a rosado, e os seus
frutos, aparentemente polispermicos e granulosos, tem sabor agradável quando bem maduros. A faia
europeia (Fagus silvatica, L.) é cultivada nalgumas quintas do Monte.
Faial (Freguesia do). Da faia (Myrica Faya)
lhe provém esta denominação. Um sítio
houve ali em que abundava esta miricacea, tomando o nome de faial, que depois se estendeu aos terrenos
circunvizinhos e mais tarde a toda a paró¬¬quia. Referindo-se á origem deste nome lá diz Frutuoso que o
tem esta freguesia por ali haver grande quantidade de faias. Poder-se-ia talvez afirmar desta paróquia o que
Antonio Cordeiro, na Insulana, diz, na devida proporção do meio, da ilha do Faial: «chamou-se Faial por ser
a tal ilha de muitas e grandes faias toda cheia».
Os terrenos que constituíram esta freguesia e os da do Porto da Cruz foram os primeiros, nas bandas do
norte, explorados e povoados nos tempos da primitiva colonização. Um dos mais antigos povoadores foi
Lançarote Teixeira, quarto filho do primeiro donatario de Machico, Tristão Vaz, e de quem as Saudades
fazem o seguinte elogio: «foi hum dos melhores ginetarios da ilha; porque, além de por sua inclinação ser
muito bom cavalleiro, tinha mui grande mão para domar cavallos, e era dado muito a isso, em tanto que em
seu tempo se ajuntavam na villa de Machico sessenta cavalleiros de esporas douradas muito bem postas, e
encavalgados por indústria deste Lançarote Teixeira, que, quando vinha hum dia de S. João ou de Corpo de
Deos, eram tantos os cavalleiros para jogos de canas e escaramuças, que mais parecia exército de guerra,
que folgar de festa: e além de todos serem mui destros nesta arte, elle todavia se divisava entre elles, que se
pode com razão dizer que foi luz e ornamento de Machico». Este Lançarote Teixeira teve muitas terras de
sesmaria no Faial, e entre elas as que vão do Ribeiro Frio até á Ribeira da Metade, compreendendo a Penha
de Aguia, e foi ali tronco de numerosa descendência.
Esta freguesia teve sua origem na fazenda povoada que ali existiu com sua capela da invocação da
Natividade da Virgem ou de Nossa Senhora do Faial, que serviu de sede á nova paróquia. 0 padre João
Soares foi capelão desta ermida desde o ano de 1531, tendo anteriormente sido beneficiado na nossa praça
africana de Arzila.
Quando o alvará régio de 20 de Fevereiro de 1550 criou esta freguesia, foi o referido sacerdote nela provido
como seu primeiro pároco, tendo-lhe sido arbitrada a congrua anual de 6.000 réis, além dos 8.000 réis que
já percebia como capelão da referida ermida. Os alvarás régios de 30 de Maio de 1572 e 20 de Junho do
mesmo ano elevaram o vencimento anual do vigário respectivamente a 20.000 réis e 25.000 réis, fixando o
alvará de 15 de Novembro de 1591 a sua côngrua em 19 000 réis em dinheiro, e um moio e meio de trigo.
Posteriormente, por alvará régio de 17 de Abril de 1780, novamente foi este vencimento elevado a 22.000
réis em dinheiro, dois moios de trigo e duas pipas de vinho. Como fica dito, foi o padre João Soares o
primeiro vigário desta freguesia, a que sucessivamente se seguiram os padres Bernardo de Quintal,
Sebastião Gonçalves, Cristovão Ferreira, Francisco José, Valentim José, Pedro Catanho de Meneses, etc..
0 aumento da população determinou a criação dum curato, que foi autorizada pelo alvará régio de 11 de
Fevereiro de 1746, tendo sido o padre Pedro Catanho o primeiro que exerceu este lugar e ao qual se fixou o
ordenado anual de um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho.
A capela de Nossa Senhora do Faial, em que foi instalada a sede da paróquia, ficava na margem esquerda da
ribeira, estando muitas vezes na iminência de ser arrastada pela violencia da corrente nas invernias mais
rigorosas, tendo-se no ano de 1699 mandado proceder á construção duma muralha destinada a proteger o
templo, devido ás diligências do vigário de então, o padre Manuel Catanho de Meneses. Isto não obstou a
que, alguns anos depois, tornando-se as águas mais caudalosas, destruíssem quasi totalmente a velha
capela, impondo-se com urgência a necessidade da construção duma nova igreja.
Essa necessidade há muito que se reconhecia, não só pelo perigo a que estava exposta a situação na capela,
quando a torrente engrossava e invadia os terrenos marginais, mas ainda pelas suas acanhadas dimensões e
estado adiantado de ruína em que há muito se encontrava. Não sabemos se se refere á antiga ermida ou ao
novo templo o seguinte trecho que encontramos no tomo X do Santuario Marianno de Fr. Agostinho de
Santa Maria: «a igreja muito grande e de grande comprimento e largura ainda assim dizem que foi toda
emadeirada com a madeira que deitou um só pau de cedro, signal que devia ser muito grande ou
grandíssimo, o qual se achou ali perto da mesma ermida de Nossa Senhora...» Em outro lugar encontramos
também certo detalhe de construção, mas referido á antiga ermida, como o próprio autor do Santuário
Marianno parece inculcar no fim da citação que deixamos transcrita. Por mandado do Conselho da Fazenda,
de 20 de Novembro de 1744, se deu de arrematação a Cristovão Gomes, pela importância de, 7:980$000
réis, a construção da nova igreja, que se erigiu na vertente da ribeira, posta então ao abrigo da impetuosa
violência da corrente. A 5 de Agosto de 1745 se lançou e se procedeu á bênção da primeira pedra, ignorando-
se quando foram dadas por concluídas as obras da construção. É uma igreja ampla e elegante, com
excelente obra de talha, destacando-se o altar-mor pelo aprimorado bom gosto da sua factura. Por breve
pontificio de 30 de Agosto de 1785 foi concedida indulgência plenaria aos que visitarem este templo por
ocasião da festa do respectivo orago, que é a 8 de Setembro, dia da Natividade da Santissisima Virgem.
Havia nesta freguesia a capela de S. Roque, que passou a ser a sede duma nova paróquia em 1848, e a de S.
Luiz de que nem restam vestígios. Existe ainda a de Nossa Senhora da Penha de França, no sítio da
Diferença. De todas nos ocuparemos em outro lugar desta obra.
O Dr. Gaspar Frutuoso, ocupando-se desta paróquia no ano de 1590 diz o seguinte: «Terá esta freguesia
como cem fogos. A igreja está entre duas ribeiras muito altas das rochas. Tem muita fructa de espinho, de
cidras e limões; pêras, pêros e maçans, e noz. Sendo a igreja de bom tamanho, dizem que se armou de hum
grandissimo páo de cedro, que se achou perto della. Pelo seu dia, que vem a outo de Setembro, se ajuntão de
romagem de toda a ilha, passante de outo mil almas, onde se vê huma rica feira de mantimentos de muita
carne de porco, vaca e chibarro, a qual he huma estremada de carne de gostosa naquella ilha, ainda que em
muitas outras terras e ilhas seja a peior de todas. Ali se ajuntão muitos cabritos e fructas, e outras cousas de
comer, para os romeiros comprarem, os quaes muitas vezes se deixão estar dous, tres, e mais dias em Nossa
Senhora, descançando do trabalho do caminho, porque vem de dez, e doze legoas por terra mui fragosa, e
juntos fazem muitas festas de comedias, danças, e muzicas de muitos instrumentos de violas, guitarras,
fructas, rabis, e gaitas de fole; e pelas faldeas das ribeiras, que tem grandes campos, no dia de Nossa
Senhora é em seu outavario, se alojão os romeiros em diversos magotes, fazendo grandes fogueiras entre
aquelas serranias. Dizem que ali apareceo Nossa Senhora onde tem a igreja.
«Tem esta freguezia dous engenhos de assucar, hum de Antonio Fernandes das Covas, que está perto de
Nossa Senhora; e outro de Luiz Doria. No fim das ribeiras (que ambas se vão ajuntar em hum porto de mar)
tem bom porto. Está nesta freguezia huma serra dagoa, que foi um grande e proveitoso engenho, em que
dous ou tres homens chegão por engenho hum páo de vinte palmos de comprido, e dous ou tres de largo á
serra, e por arte hum só homem, que he o serrador, com hum só pee (como faz o oleiro quando faz a louça),
leva o páo avante, e a serra sempre vai cortando; e como chega ao cabo com o fio, com o mesmo pee dá para
traz, fazendo tornar o páo todo, e torna a serra a tomar outro fio; de maneira que quem vir esta obra, julgará
por mui grande e necessária invenção a serra d'agoa naquella ilha, onde não era possível serrarem-se tão
grandes páos, como nella ha, com Serra de braços, nem tanta soma de taboado, como se faz, para caixas de
assucar, que se fazem muitas, e para outras do mais serviço, que vem a ser cada anno muito grande soma.
Tem esta freguezia grandes montados de criações a muitos proveitosas».
Ainda presentemente é esta igreja objecto de uma concorrida romagem nos dias 7 e 8 de Setembro de cada
ano, sendo, depois das grandes romarias de Nossa Senhora do Monte, Milagres, de Machico, e Senhor
Jesus, da Ponta Delgada, uma das que atrai maior afluência de romeiros de todos os pontos da ilha e que
oferece um aspecto mais interessante e pitoresco aos olhos do observador. Pelo testemunho de Frutuoso se
vê que é bastante antiga e de notável concorrência, tendo-se assim mantido através de alguns séculos.
Uma das mais imperiosas necessidades desta freguesia e cuja realização constituía objecto de antigas
reclamações, era a construção das pontes destinadas a estabelecer comunicação com as paróquias vizinhas e
com a parte sul da ilha, tendo sido satisfeitas as aspirações dos povos daquela região no ano de 1904, com o
começo dos trabalhos daquela obra verdadeiramente notável, que dentro de poucos anos se concluiu
inteiramente.
Tem esta freguesia um pequeno porto de mar e um cais construído na Pedra da Pescaria, de que tomou o
nome. Na obra de Adolfo Loureiro Os portos maritimos de Portugal e Ilhas Adjacentes lê-se o seguinte: «O
projecto deste caes foi elaborado pelo Sr. J. Maria Fragoso e executado de 1903 a 1905. Para esta obra
concorreu generosamente o Sr. visconde de Cacongo com a quantia de 1.000$000 reis, dispendendo-se nela
5:478$000 reis». A Junta Geral do Distrito, que mandara construir este cais, resolveu na sua sessão de 21
de Junho de 1904, dar-lhe o nome de Cais do visconde de Cacongo, acedendo a um pedido que lhe fora feito
pela Câmara Municipal de Sant'Ana.
Tem como pontos confinantes: a paróquia de Sant'Ana e o Oceano Atlântico, ao norte, a freguesia de São
Roque do Faial, ao sul, a de Porto da Cruz, aleste, e a de Sant'Ana, a oeste. Nela se contam os sítios
povoados do Guindaste, Pico do Guindaste, Covas, Igreja, Tajal, Lombo do Lourenço, Chicharos, Diferença,
Fazenda, Pinheiro, Corujeira de Baixo, Corujeira de Cima, Ressoca, Serra de Água, Água de Alto, Quebrada,
Lombo do Galego, Pico do Lombo do Galego, Fajã da Murta, Alhendros, Limoeiro, Cruzinha, Fajã Grande,
Lombo de Cima, Lombo de Baixo, Lugar, Longueira, Moinhos, Penha de Águia e Fajã, havendo outros sítios
de menor importância, como sejam o Pedregal, Cerrado, Fajã do Mar, etc.. São pontos pitorescos e donde se
descobrem vastos horizontes a Vigia, o Cortado, a Portela, a Cova da Roda, a Penha de Águia, a Ponta de
Catarina Pires, etc..
Do Faial se desmembrou em 1848 a actual freguesia de São Roque do Faial, que desde então ficou
constituindo paróquia autónoma.
São naturais desta paróquia o Dr. João Catanho de Meneses e D. Joana de Castelo Branco (V. estes nomes).
Faial (Ilhéus do)
Não muito distanciados da costa marítima da freguesia do Faial, encontram-se os
pequenos ilhéus do Faial, Pedra do Canto, Pedra Francesa, Pedra da Galé e vários baixios adjacentes,
conhecidos geralmente pelo nome de Ilhéus do Faial.
Faial (Porto do)
Pequeno porto no litoral da freguesia deste nome. V. Pedra da Pescaria (Cais da).
Faial (Ribeira do)
Nasce nas proximidades do Pico Ruivo e recebe como torrentes subsidiarias as
ribeiras do Ribeiro Frio e da Metade, atravessando a freguesia do Faial e ali desembocando. Nos anos
decorridos de 1907 a 1910,- construiu-se sobre esta ribeira a mais extensa ponte que se encontra na Madeira
e que há muito era considerada como uma das maiores necessidades a satisfazer em obras publicas
distritais. Assenta o respectivo tabuleiro sobre diversos arcos e mede cerca de 130 metros de comprimento.
Faial
Sítio da freguesia de Santa Maria Maior, onde se encontra a capela de Nossa Senhora da
Natividade, conhecida pelo nome de capela do Faial, fundada por Zenobio Acciaioli em 1582 e que foi sede
dum antigo morgadio.
Faiscas (As)
Publicação mensal de que saíram quatro números, de Março a Setembro de 1883, sendo
seu redactor Ciriaco de Brito e Nobrega.
Fajã
Dá-se na Madeira o nome de «Fajãs» a certos tractos de terreno, de maior ou menor extensão,
formados pelo desmoronamento de terras situadas a montante, constituindo em geral um solo de notável
fertilidade. As «Fajãs» formam-se tanto no interior da ilha pelo desabamento de terras que se desagregaram
das vertentes das montanhas, como ao longo de toda a costa marítima, de que são frisantes exemplos uma
parte considerável da freguesia do Jardim do Mar, o Lugar de Baixo, a Fajã dos Padres, a Fajã da Areia, e
ainda outras. O termo «Fajã» é em geral usado toponimicamente e existem dezenas de sítios que têm o
nome de Fajã de...
Vid. Fajãs.
Fajã
Sítio povoado da freguesia do Arco da Calheta. Existiu ali uma capela dedicada a Nossa Senhora da
Boa Hora, de que apenas restam algumas ruínas e cujos instituidores e ano da edificação se desconhecem.
Fajã
Sitio povoado da freguesia de Santo Antonio. Fica na margem esquerda da Ribeira dos Socorridos e
ali se lançam, na mesma ribeira, os afluentes do Vasco Gil e da Lapa.
Fajã da Areia (Porto da)
No sítio deste nome, freguesia de São Vicente, encontra-se um porto,
servido por uma pequena praia, preferível ao da vila de São Vicente, do qual se acha pouco distanciado.
Faja da Ovelha (Freguesia da)
Há nesta paróquia um sítio que desde os tempos primitivos da
colonização conserva o nome de Fajã da Ovelha, que depois se estendeu aos terrenos circunvizinhos e mais
tarde a toda a freguesia. É cousa vulgar que um simples episódio, uma circunstancia ocasional ou um facto
de pequena monta tenha justificado a existência dum nome aplicado a determinado sítio ou lugar, que
depois se venha a converter num centro populoso ou numa importante localidade. Semelhantemente teria
acontecido com o nome desta freguesia, como já fizemos notar no artigo consagrado á paróquia do Estreito
da Calheta.
Afirma o douto anotador das Saudades da Terra que esta freguesia só começou a chamar-se da Fajã da
Ovelha, quando, nos principios do século XVIII, foi autorizada a construção dum novo templo, que poucos
anos depois se erigiu no sítio que então tinha e hoje tem ainda aquele nome. Discordamos desta opinião,
embora muito autorizada, pelos motivos que rapidamente vamos apresentar. É certo que esta paróquia teve
a sua sede durante quasi dois séculos na capela de S. Lourenço, no sítio deste nome, e que por meados do
século XVIII se mudou para a nova igreja construída no sítio da Fajã da Ovelha, mas nunca foi conhecida
pelo nome de freguesia de S. Lourenço, como era natural que fosse, se porventura não tivesse outro nome,
como na verdade tinha. O mais antigo diploma respeitante a esta paroquia, citado no Índex Geral do registo
da antiga Provedoria da Real Fazenda e nas Memorias sobre a creaçâo e augmento do estado eclesiástico na
ilha da Madeira é de 1553, e já nele se faz referência á igreja da freguesia da Fajã da Ovelha, que era o nome
pelo qual já era então conhecida. Não sendo S. Lourenço nem Fajã da Ovelha, que nome teria em época
anterior ao século XVIII? Não se conhece. Daqui logicamente inferimos que esta freguesia teve sempre o
nome de Fajã da Ovelha, desde os primitivos tempos da colonização, ou, ainda mais rigorosamente, desde a
época em que ali se estabeleceu a sede duma nova paróquia.
Como quasi todas as freguesias desta ilha, teve a Fajã da Ovelha seu princípio numa capela bastante antiga
que ali existia e em torno da qual se foi formando um núcleo importante de população. Era a capela de S.
Lourenço, que antes da criação da paróquia tinha já seu capelão privativo, sendo o seu ultimo capelão e
primeiro pároco o padre Antonio Enes.
A criação desta freguesia como curato é anterior a 1553, pois que o alvará régio de 11 de Abril deste ano
acrescentou á primitiva côngrua do cura ou capelão-curado, que era de 9 000 réis mensais, um moio de
trigo e um quarto de vinho. O alvará de 26 de Julho de 1559 fez novo acrescentamento ao vencimento do
sacerdote que ali exercia as funções paroquiais. Pouco antes de 1573 é que verdadeiramente a Fajã da
Ovelha se constituiu paróquia autónoma e passou o capelão-curado a gozar as honras e privilégios de
vigário. Um diploma de 6 de Julho deste ano fixou a côngrua anual do pároco em 20.000 réis e outro de 3
de Junho de 1687 elevou-a a 25.000 réis em dinheiro e um moio e meio de trigo e uma pipa de vinho.
Com o desenvolvimento da população foi nesta freguesia criado um curato, pelos fins do século XVIII.
A capelania-curada e a paróquia tiveram a sua sede, como já dito fica, na capela de S. Lourenço e ali
permaneceram até o segundo quartel do século XVIII. O alvará da infanta D. Catarina, regente do reino, de
27 de Junho de 1705, autorizou a construção dum novo templo e a sua mudança para o local que fosse
julgado mais apropriado para esse fim e em harmonia com os desejos manifestados pelo povo, depois das
mais reiteradas instâncias do respectivo pároco de então. A pesar disso, a edificação da nova igreja só se
realizou alguns anos mais tarde, sendo escolhido o sítio da Fajã da Ovelha como o lugar que melhor
satisfazia ás condições exigidas para essa construção. O mandado do Conselho da Fazenda de 24 de Janeiro
de 1747 (e não 1737 como dizem as Saudades) deu a obra de arrematação ao carpinteiro Francisco Gomes
pela importância de 6:350$000 réis. Ignoramos quando se concluíram as obras e quando se procedeu á
benção da nova igreja.
Quando esta paróquia era ainda capelania-curada, dela se desmembrou a freguesia da Ponta do Pargo e
mais tarde a dos Prazeres, constituída em parte por terrenos da Fajã da Ovelha e parte do Estreito da
Calheta.
Sítios principais:
Lombada dos Marinheiros, Lombo dos Falcões, Eirinhas, Farrobo, Massapês, Fajã
da Ovelha, S. João, Casais da Serra, S. Lourenço, Lombada dos Cedros, Raposeira do Serrado, Raposeira do
Logarinho e Maloeira.
O pico da Maloeira, a rocha da Raposeira do Logarinho e as ribeiras dos Cedros e dos Marinheiros merecem
referência especial pelo pitoresco que oferecem ao visitante e belos panoramas que dali se desfrutam.
Atravessam esta freguesia as ribeiras da Inez, que a separa dos Prazeres e as da Cova, da Chã, dos Cedros,
de S. João, dos Falcões e dos Marinheiros. Por algumas destas ribeiras são alimentadas as levadas da Cova,
do Ribeiro Chão, Moinhos e Fonte do Folhado, que irrigam esta freguesia, além da do Rabaçal. Há fundadas
esperanças de que dentro de poucos anos se fará a tiragem duma extensa e abundante levada, que se destina
á irrigação desta e doutras freguesias do concelho da Calheta.
No livro do engenheiro de minas Eugenio Ackermann, intitulado L'Ile Madère considerée au point de vue
scientifique, se faz referência ao minério de manganés encontrado nesta freguesia, dando-se ali uma
pequena analise da proporção dos elementos que o compõem. Parece que tem pouco valor industrial.
Tem 2757 habitantes e é S. João o orago da sua igreja paroquial. O novo cemitério foi benzido e inaugurado
em Março de 1910.
Esta freguesia tem uma escola oficial para cada sexo, e a sede dum partido medico que abrange esta
paróquia e as da Ponta do Pargo, Paul do Mar e Prazeres.
São naturais desta freguesia o padre Antonio Gomes Neto (V. este nome), o cónego Antonio Joaquim
Jardim, que muito se notabilizou como orador sagrado e que sendo partidário das ideias liberais esteve
alguns anos preso durante o governo absolutista, e Augusto César de Gouveia, que pelo seu desinteresse,
prestigio, ilustração e génio empreendedor prestou a esta paróquia assinalados e reconhecidos serviços.
Fajã da Ovelha (Pico da)
Fica esta elevação montanhosa na serra da freguesia do mesmo nome,
não muito distante do Pico da Fonte do Bispo.
Fajã da Ovelha (Ponta da)
Saliência da costa marítima na freguesia do mesmo nome.
Fajã das Nogueiras
Sítio na serra da freguesia do Faial, onde se encontra uma pequena casa para
abrigo dos transeuntes.
Fajã do Manuel
Sítio no litoral da freguesia do Porto do Moniz, onde naufragou, no ano de 1856,
uma galera de nacionalidade inglesa, tendo morrido 15 pessoas das vinte e uma que trazia a seu bordo.
Fajã do Mar (Porto da)
O sítio deste nome, Arco da Calheta, tem um pequeno porto, também
chamado de Nossa Senhora da Vida, que dista 2,4 milhas do porto da vila da Ponta do Sol e 2,3 do da
Calheta.
Fajã do Mar
Sítio povoado da freguesia do Arco da Calheta. Neste sítio e numa pequena eminência
sobranceira ao mar, fica a capela de Nossa Senhora da Vida, fundada em 1663 por Inez Teixeira, tendo sido
reedificada há poucos anos.
Fajã do Penedo
Sítio povoado da freguesia da Boaventura. Existiu ali uma pequena ermida da
invocação de Sant'Ana, edificada no ano de 1768 pelo morgado Antonio Francisco de Caires, tendo sido
demolida pouco depois de 1840. D. Maria dos Anjos Ribeiro fez construir neste sítio, no ano de 1919, uma
capela consagrada ao Imaculado Coração de Maria.
Fajã dos Asnos
Fica na freguesia de Câmara de Lobos e aquém do Cabo Girão, e é conhecida
também pela denominação de Fajã do Gregorio. É cultivada em parte, e nas rochas que a limitam pelo lado
norte abunda o Helichrysum Monizii, espécie que dificilmente se encontra noutras partes da ilha.
Fajã dos Padres
Esta pequena Fajã está situada na costa sul da Madeira e um pouco para além do
cabo Girão. Tem ao fundo uma grande rocha, escalvada e nua, de cerca de 300 metros de alto, e a sua
população regula por 50 habitantes que dão obediência, no espiritual, á igreja de S. Braz na freguesia do
Campanário.
A Fajã dos Padres, que pertenceu noutras épocas aos padres da Companhia de Jesus e onde se encontram
ainda vestígios duma capela mandada edificar talvez por eles, foi propriedade do coronel Manuel J. de
França Doria que, depois de ter cultivado, mas sem grande resultado, a cana de açúcar nas suas terras,
voltou a estabelecer ali a cultura da vinha, que parece ser a que melhor se adapta ao solo da localidade.
Da Fajã dos Padres vinha outrora o melhor vinho malvasia produzido na ilha, cultivando-se também ali o
sercial e outras castas de vinha de excelente qualidade.
Fajãs
Há uma freguesia conhecida pela denominação de Fajã da Ovelha, e nas paróquias de S. Gonçalo,
Faial, S. Jorge, S. Vicente, Porto do Moniz, Ponta do Pargo, Arco da Calheta, Estreito da Calheta, Canhas,
Ribeira Brava, Campanário, Curral, etc., existem fajãs mais ou menos extensas e mais ou menos antigas.
A Fajã da Ovelha, na freguesia deste nome, a Fajã dos Padres (Campanário), a Fajã dos Asnos ou do
Gregorio (Câmara de Lobos) e a Fajã da Areia S. Vicente), são as mais conhecidas da ilha.
A propósito do desabamento dos terrenos diremos que o Lugar de Baixo é desde 1804, muito maior que
dantes, porque nesse ano grande parte das terras da Lombada cairam para o lado do mar, e ali formaram
uma campina extensa e produtiva. O choque da queda, diz o Dr. Azevedo, foi tal, que o mar saiu do seu nível
em toda a costa adjacente, e sentiu-se o abalo tanto em terra, como no mar, a distancia de mais de 10
quilómetros. O mar entrou muito a dentro da vila da Ponta do Sol.
O falecido Antonio Pedro de Azevedo encontrou uma carta escrita em 1689 em que se fala dum
deslocamento dum terreno com cerca de meia légua de extensão, ocorrido poucos tempos antes no Arco de
S. Jorge (V. este nome). A ser certo o que diz o autor da referida carta, o deslocamento foi tão lento e suave
que os prédios que existiam sobre o terreno nada sofreram com a mudança de situação.
Em Abril de 1856 deslocou-se uma extensão considerável de terreno em Machico, tendo desabado todas as
choças que sobre ele estavam edificadas, e em 1894 deu-se uma grande quebrada na Deserta Grande, de que
resultou o mar avançar e recuar sensivelmente nalguns pontos da costa sul da Madeira, semelhantemente
ao que sucedera por ocasião do terramoto de 1755.
As fajãs são frequentes em certas ravinas do interior, tendo provocado algumas delas desvios mais ou
menos consideráveis na primitiva direcção das águas. Quando estas fajãs se acham nas proximidades dos
povoados, costumam aproveita-las por serem em geral muito produtivas, mas as torrentes devastam-nas e
corroem-nas ás vezes durante a estação invernosa, podendo mesmo destrui-las se elas estão muito baixas ou
imperfeitamente consolidadas.
Fajãzinha de Bento. Sítio na freguesia da Serra d'Agua, onde a Câmara Municipal do Funchal possuía uma
pequena propriedade, que foi vendida, com autorização do Governo, em 25 de Abril de 1918.
Falcão
Foi o primeiro vapor que estabeleceu viagens regulares entre diversos portos da costa sul da
Madeira. Chegou ao porto do Funchal a 27 de Fevereiro de 1881, sendo um barco de 40 toneladas e da força
de 22 cavalos, mandado vir pela casa Blandy Brothers & Cª.
Falcão e Sousa (Cristovão)
A 20 de Abril de 1600 foi nomeado governador geral do
arquipelago madeirense Cristovão Falcão e Sousa que alguns erradamente julgaram ser o celebre autor do
Crisfal e que outros afirmam ser seu filho, o que é ponto controverso.
Falgairolle (Edmond). Publicou no ano de 1895, em Paris, um opúsculo de 31 paginas intitulado Une
expedition française à l'ile de Madère en 1566, que se ocupa com manifesta parcialidade do terrível assalto
que no mês de Outubro de 1566 os corsários franceses deram a esta ilha e de que Gaspar Frutuoso se ocupa
largamente nos capítulos XL, XLI e XLII das Saudades da Terra.
Vid. Saque dos Franceses.
Familiares do Santo Oficio
Dos livros da Câmara Municipal do Funchal consta terem sido
familiares do Santo Oficio, os seguintes indivíduos: Manuel Mendes Serrão (1697), o Padre Augusto de Góis
(1739) e o Padre Antonio Ribeiro de Sousa (1741). Estes dois últimos foram notários daquele tribunal.
Em 1551 fez o rei mercê a um filho de João Rodrigues Cavaleiro, escrivão da Câmara, do oficio de notário do
Santo Oficio.
Fanal. Sítio nas serras do Seixal e da Ribeira da Janela, onde existe uma cratera, que se transforma em lago
durante o inverno. Junto desta cratera existe uma pujante vegetação formada por árvores e arbustos
indígenas, entre os quais avultam os adernos e outras espécies raras. Os fetos, as gramineas e os musgos
abundam em todo o Fanal, sendo este um dos pontos da ilha mais dignos de serem visitados, por causa dos
formosos panoramas que dele se desfrutam.
Fanerogamicas
Das 907 Fanerogamicas assinaladas até o presente no arquipelago da Madeira, 635
são indígenas ou aparentemente indígenas, e 272 naturalizadas ou frequentemente cultivadas. No grupo das
espécies indígenas há 505 Dicotiledoneas, 126 Monocotiledoneas e 4 Gimnospermicas; no grupo das
espécies evidentemente introduzidas há 218 Dicotiledoneas, 53 Monocotiledoneas e 1 Gimnospermica.
Há no arquipélago 443 Fanerogamicas anuais, das quais 374 são Dicotiledoneas e 69 Monocotiledoneas,
estando as Fanerogamicas indígenas representadas por 289 Dicotiledoneas e 51 Monocotiledoneas, e as
introduzidas por 85 Dicotiledoneas e 18 Monocotiledoneas. Das 464 Fanerogamicas perenais, 205 são
indígenas e 169 introduzidas, compreendendo as Fanerogamicas indígenas 216 Dicotiledoneas, 75
Monocotiledoneas e 4 Gimnospermicas, e as introduzidas 133 Dicotiledoneas, 35 Monocotiledoneas e 1
Gimnospermica. Nas Fanerogamicas perenais indígenas contam-se entre árvores, arbustos e subarbustos
106 espécies.
Entre as 272 Fanerogamicas introduzidas há 80 Dicotiledoneas, 18 Monocotiledoneas e 1 Gimnospermica
bem naturalizadas, sendo cultivadas em larga escala, adventícias ou mal estabelecidas ainda no arquipelago
todas as espécies restantes. Nas Dicotiledoneas naturalizadas há 34 espécies anuais e 46 perenais; nas
Monocotiledoneas 7 anuais e 11 perenais; e nas Gimnospermicas 1 perenal.
Existem na nossa região 102 espécies peculiares e 54 que são comuns ao arquipelago da Madeira e a outros
grupos de ilhas do Atlântico. Das primeiras, 70 são madeirenses, 5 do Porto Santo, 1 do Ilhéu Chão, 1 do
Bugio, 10 da Madeira, Porto Santo e Desertas, 10 da Madeira e Porto Santo e 5 da Madeira e Desertas; das
segundas, 3 encontram-se nos arquipelagos da Madeira, Canárias e Açores, 41 nos arquipelagos da Madeira
e Canárias, 9 nos arquipelagos da Madeira e Açores e 1 nos arquipelagos da Madeira, Canárias e Cabo
Verde. Todas estas espécies, cujo indigenato está ao abrigo de qualquer contestação, são legítimos
representantes da flora primitiva da Madeira, a qual é de crer que se fixasse na nossa região durante a época
terciaria, trazida pelas aves, pelos ventos, pelas correntes marítimas e até mesmo por alguns insectos.
O estudo dos fosseis vegetais madeirenses não acusa qualquer evolução-floristica local. Muitas das plantas
encontradas no jazigo de S. Jorge, na costa setentrional da Madeira, estão representadas na flora indígena
da actualidade, e se modificações houve nos caracteres morfológicos de outras espécies da nossa vegetação
primitiva, não é crível que essas modificações fossem tão profundas que dessem logar ao aparecimento de
novas formas especificas com o caracter de endemicas ou peculiares.
Estas formas, no nosso entender, não provieram da transformação lenta ou brusca de outras espécies, e se
caracterizam agora o arquipelago da Madeira, é porque as condições compatíveis com a sua existencia,
realizadas outrora em grandes áreas, só continuaram a subsistir, a partir de certa época, dentro dos
estreitos limites da nossa região floral.
A lista mais completa que existe das Fanerogamicas da região madeirense foi publicada por Carlos A.
Meneses, em 1914, com o título de Flora do Arquipelago da Madeira, mas este trabalho, devido ao pouco
cuidado que presidiu á sua revisão, contém alguns erros que o desfeiam bastante. A diagnose que
acompanha o Thlaspi arvense não diz respeito a esta espécie, mas á Draba muralis, e no Lotus argenteus os
foliolos nem sempre são chanfrados, no Lotus Loweanus os foliolos são antes vilosos que pubescentes e no
Senecio incrassatus as folhas são profundamente penatifendidas. O plátano cultivado na Madeira é o
Platanus orientais e não o P. occidentalis, e pelo que respeita ao género Scrophularia é possível que o
numero das espécies que o referido trabalho assinala, tenha de ser reduzido. O Sambucus Ebulus não é um
subarbusto, embora os seus caules anuais sejam algumas vezes quasi lenhosos.
Ocuparam-se também das Fanerogamicas da Madeira os botânicos Bornmuller, Britten, Brown, Cosson,
Holl, Lowe e Vahl, e entre os que fizeram aqui colecções de plantas, hoje distribuídas por alguns museus
europeus, não devem ser esquecidos os nomes de Banks, Castelo de Paiva, Lemann, Lippold, Mandon,
Masson, Moniz, Norman e Webb.
Faria
Parece ter introduzido este apelido na Madeira, Braz Gil de Faria, que teve terras de sesmaria na
margem direita da Ribeira da Caixa, em Câmara de Lobos.
Faria (João Alfredo de)
Nasceu na freguesia de Santo Antonio e era filho de José de Faria e de
Claudia Matilde de Faria. Frequentou o liceu do Funchal e tinha o curso de infantaria da antiga Escola do
Exército. A sua carreira das armas, em que verdadeiramente se notabilizou como um dos mais distintos
oficiais do exército, não decorreu apenas nas fileiras e serviços internos dos quartéis, mas principalmente
nos tribunais e repartições superiores, para onde fora chamado pelos brilhantes dotes de inteligência,
comprovada competência em cargos que anteriormente exercera e uma notável e reconhecida inteireza de
caracter. Foi promotor de justiça nos tribunais militares e deputado em diversas legislaturas. No
desempenho destes cargos, revelou-se um orador muito fluente, de acurada correcção de forma e profundo
conhecedor das matérias que versava. A sua palavra fácil, correcta e incisiva despertava particular interesse
nos auditórios e era sempre escutada com o mais devotado apreço. Nalgumas causas celebres, em que teve
de intervir como promotor de justiça, proferiu discursos, que foram julgados como verdadeiros modelos de
eloquência forense. Não sendo um especializado em assuntos financeiros, causou surpresa a sua nomeação
para Inspector Geral dos Impostos, mas com tal proficiência se houve, no exercício dessa importante
comissão de serviço, que conseguiu provocar espontâneos e fervorosos louvores ainda de indivíduos
desafectos á situação política então dominante. O extenso relatório, que acerca desses serviços publicou em
dois volumes, foi objecto de controvertidos juízos na imprensa, mas ninguém pôde negar ao autor de tão
valioso trabalho um estudo consciencioso e aprofundado do assunto, o mais acendrado desejo de bem servir
o seu país e as fulgurações dum alto espírito, que nesse mesmo documento profundamente se revelou.
Tinha ascendido ao posto de general pouco antes do seu falecimento, que ocorreu a 24 de Janeiro de 1921.
Faria (José Cupertino de)
Nasceu no Funchal por 1866 e é filho de Manuel de Faria e de D.
Maria Isabel Fernandes de Faria. Frequentou o Seminário desta diocese, cujos preparatórios não chegou a
concluir, alistando-se depois no exército. Há muito que saiu desta ilha, e residiu largos anos na cidade de
Setúbal. Foi ali que em 1901 publicou um volume de 202 paginas, intitulado O Arquipelago da Madeira, que
contém muitos erros e inexactidões.
Faria e Castro (José Carlos de)
Nasceu na freguesia de Santa Maria Maior a 9 de Dezembro
de 1835, sendo filho de José Carlos de Faria e Castro e de D. Amélia de Faria e Castro, e frequentava o
Seminário Episcopal do Funchal com destino á vida eclesiástica, quando conheceu o escritor Platão de
Vaksel que o convidou a visitar a Rússia, em sua companhia. Vaksel tinha vindo á Madeira para
acompanhar uma irmã, afectada de moléstia pulmonar e que aqui faleceu.
Aceito o convite, seguiu Faria e Castro para o império moscovita, onde passados tempos casava com uma
outra irmã do seu amigo Vaksel, estabelecendo desde então residência no castelo de Raudamy, á beira do
Niemen, pertencente á família de sua mulher.
Faria e Castro esteve na Madeira em 1898 e 1903, tendo em ambos estes anos visitado também algumas
cidades europeias. Era sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, cavaleiro da Ordem de
Cristo e moço fidalgo da Casa Real, e escreveu além de muitos artigos de jornais, os trabalhos seguintes: O
Estado e o seu âmbito, Lisboa, 1878; L'Epopée maritime des Portugais, Vasco da Gama et le Camoens,
Bruxelas, 1898; L'Ouverture de la grande navigation a travers l'Océan au quinzième siècle..Paris, 1902; e
Les Jesuites et Camoens sous le roi D. Sebastiâo.
Faleceu no castelo de Raudamy em Abril de 1910.
Faróis
Só por meados do terceiro quartel do século passado é que verdadeiramente se pensou na
iluminação das costas do nosso arquipelago. Varias tentativas se fizeram anteriormente, mas sem
resultados apreciáveis.
A 25 de Junho de 1861 os deputados pela Madeira Antonio Gonçalves de Freitas, Luiz de Freitas Branco e D.
Luiz da Câmara Leme apresentaram no parlamento um projecto de lei autorizando a construção dum farol
de rotação na ponta de S. Lourenço e um farol fixo no Ilhéu da Pontinha. Ainda surtiu infrutífera esta nova
tentativa.
Farolim do Ilhéu
Era um pequeno farol de luz fixa, de pouco poder iluminante, a que, em época
não muito afastada, se chamava frequentemente a brasa do ilhéu. Servia de ponto de referência ás
embarcações que demandavam o porto do Funchal e começou a funcionar no dia 18 de Maio de 1866.
Foi substituído por um novo farol no dia 1 de Agosto de 1931.
Farol de São Lourenço
Como se sabe tinha o nome de S. Lourenço o navio que João Gonçalves
Zarco comandava por ocasião do descobrimento da Madeira, e ao demandar pela primeira vez aquela língua
de terra, deu-lhe o mesmo nome da caravela que o conduzia. A extremidade desta ponta, ou antes um
pequeno rochedo isolado que lhe fica fronteiro, foi sempre julgado o local mais apropriado para a
montagem dum farol, pois que a sua acção iluminativa se estenderia por uma parte considerável do norte e
sul da ilha, e ainda pela travessa que separa a Madeira do Porto Santo. Esse rochedo é um ilhéu adjacente á
ponta, da qual está separado por um estreito boqueirão, apenas navegável para embarcações de pequena
lotação.
Em 1867 procedeu-se á organização do definitivo projecto e orçamento das obras deste farol, tendo os
trabalhos da construção da respectiva casa e dependências anexas, começado em 1868 e terminado em
princípios do ano de 1870.
O farol é dioptrico ou lenticular, de segunda ordem, emitindo uma luz branca com clarões intermitentes de
30 em 30 segundos e avista-se a 25 milhas de distancia. Foi construído pela casa francesa Saulter e veio
proceder ao seu assentamento o engenheiro Charles Trepardoux. O seu custo, incluindo o transporte e a
montagem, foi de 8.370$00.
A lanterna está colocada a 140 metros acima do nível do mar e fica a 32.° e 41, de latitude norte e 16.° e 39,
de longitude oeste pelo observatório de Greenwich.
Começou a funcionar, iluminando pela primeira vez aquelas paragens, a 30 de Setembro de 1870.
Estava satisfeita uma grande necessidade publica. As reclamações da navegação eram constantes e até
pedidos de indemnização se tinham feito pelos prejuízos causados a muitas embarcações. Alguns navios
naufragaram naquelas imediações, devendo especializar-se o encalhe do Forerunner, em Outubro de 1854.
Farol do Porto Santo
Depois do farol de S. Lourenço, sempre se reconheceu como de primeira e
mais urgente necessidade a construção dum farol na ilha do Porto Santo. A falta de iluminação daquelas
costas ocasionou vários desastres, com perda de vidas e embarcações, de que fazem menção os Anais
daquela ilha. Realizaram-se alguns estudos e organizaram-se projectos e orçamentos, mas passados
quarenta anos depois de começar a funcionar o farol de S. Lourenço é que o farol da vizinha ilha do Porto
Santo principiou a iluminar aquelas paragens, num raio de onze milhas. O local escolhido foi um pequeno
ilhéu, conhecido pelo nome de Ilhéu de Cima, separado da ilha do Porto Santo por um estreito e pouco
extenso boqueirão. A lanterna fica situada a 118 metros acima do nível do mar. Era uma luz fixa de cor
branca, que se avista a 11 milhas de distancia. Começou a funcionar no ano de 1901. Tem prestado
relevantes serviços á navegação e em especial ás embarcações que demarcavam o porto do Funchal.
Farol da Ponta do Pargo
É também uma reconhecida necessidade a iluminação do outro
extremo da costa sul da Madeira, ficando o farol de S. Lourenço a leste e o projectado farol da Ponta do
Pargo a oeste. O edifício e outras dependências destinadas á instalação do farol e respectivo pessoal foram
construídos há alguns anos, estando ultimados todos os trabalhos. Apenas se aguarda a aquisição da
respectiva lanterna e mais aparelhos destinados á montagem do farol, que o conflito europeu impediu de
estar já a funcionar. A continuação do edifício deve-se á Junta Geral deste distrito, que vai adquirir
brevemente o farol e proceder á sua instalação. (1921).
O farol da Ponta do Pargo foi inaugurado a 5 de Junho de 1922. Está na ponta da Vigia, a cerca de 375
metros acima do nível do mar, no sítio onde outrora houve um telégrafo e era conhecido pelo nome de Casa
do Rei. Lemos algures que este farol «emite três sucessivos fachos de luz branca da potência de 5,500
carcelas, cada um de 0,5 de segundo, a espaços de 3,5 segundos».
Farrobo
Dava-se outrora este nome no arquipelago ao Sempervivum glutinosum, crassulacea
conhecida hoje pela designação de saião ou ensaião. «Do Ilheu da Fonte da Areia menos de meia légua
adiante, diz Frutuoso, está para o Nascente da parte do norte huma povoação de até quinze moradores; que
se chama o Farrobo, por haver ali esta herva assim chamada com que os pescadores tingem as linhas».
O Sempervivum glutinosum desapareceu do Porto Santo, mas é bastante comum nas rochas da Madeira,
continuando a servir para tingir e tornar mais rijas e consistentes as linhas destinadas á pesca. As linhas são
esfregadas com a casca pisada da planta e depois mergulhadas em urina, adquirindo por este processo uma
cor negra, que as torna pouco visiveis do peixe.
O termo alfarroba ou farroba serve na ilha de Lançarote, nas Canárias, para designar o Sempervivum
balsamiferum, crassulacea que tem as mesmas aplicações do S. glutinosum, da Madeira.
Ferrobar as linhas significa na Madeira esfregá-las com o saião, como ficou dito, sendo ferrobar corruptela
de alfarrobar. A herva chamada outrora farrobo e hoje saião, deu o nome a um sítio no Porto do Santo e a
vários sítios na ilha da Madeira.
Farrobo (Joaquim Pedro Quintela, segundo conde do)
Nasceu em Lisboa a 18 de
Maio de 1823 e ali morreu a 28 de julho de 1882. Foi nomeado governador civil do Funchal a 1 de Fevereiro
de 1860, tendo tomado posse a 29 do mês e ano referidos. Esteve pouco mais de um ano á testa da
administração deste distrito. Na tradição local conserva-se ainda noticia das brilhantes e aparatosas festas
que os condes do Farrobo deram no palácio de S. Lourenço.
Fasciação
Fenómeno teratologico caracterizado pela aderência e achatamento dos caules ou dos
ramos de uma planta. A fascinação observa-se frequentes vezes no Echium plantagineum, do Porto Santo, e
nos exemplares da Euphorbia exígua que crescem entre Machico e Água de Pena, tendo também sido
notada na vinha, nas aboboreiras, etc..
Fauna
A fauna madeirense, como a maior parte das faunas insulares, é caracterizada pela ausência de
mamíferos terrestres e pela pobreza em espécies de muitos grupos largamente representados nas faunas
continentais.
A Madeira recebeu da Europa a sua fauna e a sua flora indígenas, tendo sido as aves, os ventos e as
correntes marítimas os principais veículos das espécies animais e vegetais que a povoam. Depois do que
escreveu Darwin com respeito á origem das faunas insulares, ninguém ousa pôr em duvida que os moluscos
terrestres e outros animais possam ser transportados pelas aves e até mesmo pelas correntes marítimas, e
que o vento seja em muitos casos o veículo de certos insectos, como o é das plantas, cujos frutos ou
sementes são providos de apêndices adequados a facilitar a disseminação.
A presença de muitas espécies endémicas no arquipelago da Madeira, pode ser atribuída ou a modificações
sofridas aqui pelos tipos ancestrais dessas espécies, ou ao desaparecimento no continente de formas
idênticas ás que povoam ainda a nossa região. Como vimos no artigo Caracóis, existem no arquipelago 131
espécies de pulmonados peculiares, havendo também outros grupos ricos em espécies privativas, entre os
quais avulta o dos insectos, que, infelizmente, se não acha ainda bem estudado.
Conhecem-se no arquipelago mais de 3.100 espécies de animais, que podem sem grande erro, ser assim
repartidas: Protozoarios, 70 espécies; Celenterados, 111; Equinodermes, 19; Vermes, 250; Artropodos, 1621;
Moluscos, 476; Moluscóides, 130; e Vertebrados, 451. As melhores colecções zoológicas do arquipelago da
Madeira estão no Museu Britanico, mas no Museu do Seminário do Funchal também se encontram algumas
colecções valiosas, entre as quais avultam as das aves, peixes, conchas e corais.
Os mamíferos terrestres existentes na Madeira foram todos importados pelo homem, tendo os primitivos
colonizadores, encontrado apenas um mamífero–a foca–ainda frequente nas Desertas, mas que já
raramente aparece nas costas desta ilha.
As aves, dotadas da locomoção aérea e para as quais o espaço de cerca de 350 milhas que nos separa da
costa marroquina não é difícil de transpor, têm farta representação na fauna do arquipelago. Em conjunto
têm sido observadas muito perto de 200 espécies, mais do que nas Canárias e muito mais que nos Açores, a
pesar da maior extensão desses dois arquipélagos. Segundo o padre Ernesto Schmitz o número averiguado
das que aqui se reproduzem sobe a 36, havendo 12 formas peculiares, das quais 3–o bisbis (Regulus
madeirensis), o tentilhão (Fringilla Madeirensis), e o pombo trocaz negro, de dedos compridos, (Columba
Trocaz)–são por alguns consideradas boas espécies, ao passo que as restantes 9 são meras variedades locais.
Entre as aves, umas há de passagem regular e outras de passagem acidental e ainda outras de arribação.
Notável pelo seu valor comercial é a cagarra, indígena, mas não sedentária, que chega a estes mares na
primavera e se ausenta no outono depois de ter deposto um ovo por cada casal nas anfractuosidades das
rochas marítimas, principalmente nas Desertas e no grupo das Selvagens.
Quanto aos invertebrados vamos encontrar muitos artropodos, como os insectos coleopteros, os aracnídeos
e outros grupos daquele vasto sub-reino representados por espécies nitidamente distintas das congéneres
de outras regiões, o mesmo se deve dizer dos moluscos terrestres, podendo afirmar-se a respeito destas
ilhas e em particular do Porto Santo, que poucas ou nenhumas partes do mundo abarcam em tão limitado
espaço tão grande número de espécies endémicas de gasterópodos pulmonados.
É abundante e variada a fauna marítima madeirense, contando-se por 250 espécies de peixes os que têm
sido colhidos nos mares desta ilha, sendo muitas delas notáveis pelo brilho das suas cores e pela
singularidade da sua forma ou estrutura. Entre essas espécies, pelo seu grande valor comercial, merecem
menção especial o atum e a espada preta, a que de modo particular nos referiremos no artigo consagrado á
indústria da pesca.
Os naturalistas que têm contribuído pelos seus estudos ou explorações para tornar conhecidas as riquezas
zoológicas madeirenses, são as seguintes: R. T. Lowe, E. V. Harcourt, J. Y. Johnson, C. Azevedo de Meneses,
J. M. Moniz, Wollaston, Dr. Heer, Dr. Forel, Becker, Padre E. Schmitz, M. Andrew, Barão do Castelo de
Paiva, Dr. Augusto Nobre, A. C. de Noronha, Padre J. G. Barreto, R. B. Watson. G. Busk, T. Hinks, A. T.
Waters, Dr. A. M. Norman, Dr. Albers, J. Gray, P. M. Duncan, 1. C. Thompson, C. Darwin, Dr. Fisher, A.
Girard, Padre J. da S. Tavares, Padre Longino Navas, H . Hempel, Dr . Langerhans, M. Lachlan, A. Fauvel,
Alberto Artur Sarmento, etc..
Nos logares competentes procuraremos dar conta quer da natureza das investigações realizadas por muitos
destes naturalistas, quer dos trabalhos publicados por alguns deles sobre a fauna do nosso arquipelago.
Fauvel (Alberto). E
: Catalogue des Coléoptères des Iles de Madère, Porto Santo, et Desertas;
Catalogue des Coléoptères des Iles Selvages; e Arachnides recueillis à l'Ile de Madère en 1896. Os dois
primeiros trabalhos foram publicados na Revue d'Entomologie, 1897; o ultimo no Bulletin de la Societe
Entomologique de France, 1897.
Fava ( Vicia Faba)
Leguminosa-papilionada anual muito cultivada na Madeira e Porto Santo. É
originaria da região Caspica e do norte da Africa.
Favas do Mar
São sementes de leguminosas que aparecem, trazidas pela corrente oceânica, na costa
do norte da Madeira, principalmente no Porto da Cruz. As sementes que ali se encontram com mais
frequência, são as da Guillandina Bonduc e duas espécies dos géneros Entada e Mucuna.
Ha quem suponha que Colombo, a quem talvez não passou despercebida a vinda de tais sementes, visse
nelas uma prova da existencia de terras desconhecidas para os lados do ocidente.
As sementes a que nos referimos, também são conhecidas pela denominação de castanhas do mar.
Favila
Primitivamente teve este apelido a grafia de Favela, que pertence a uma antiga e nobre família
que se estabeleceu nesta ilha nos fins do século XV. 0 primeiro que o usou entre nós foi Fernão Favela,
chamado o Velho, que tinha servido valorosamente em Africa e que fora fidalgo da casa real. Casou na
Madeira com Beatriz Pires e instituíu o morgadio dos Piornais, com sede na capela de Nossa Senhora da
Ajuda, por ele fundada e onde foi sepultado, tendo falecido no ano de 1545, segundo diz Henriques de
Noronha, e em 1537, conforme a data assinada pelo Dr. Rodrigues de Azevedo. Foi seu filho e sucessor
Antonio Favila, que morreu em 1601 e jaz sepultado na capela da Ajuda. D. Inez Moniz, que nasceu em 1553
e morreu em 1589 era filha de Antonio Favila e instituiu um morgadio a favor de sua sobrinha D. Isabel
Acciaioli de Vasconcelos, com a clausula de andar perpetuamente na filha primogénita, o que é uma
circunstancia em extremo curiosa e cremos que muito rara, ao menos entre nós.
Fazenda (Cónego Manuel Esteves)
Era natural da cidade da Covilhã e faleceu em Lisboa a
13 de Março de 1903, tendo 58 anos de idade. Em 1899 foi apresentado cónego da Sé do Funchal e nesta
cidade se distinguiu como político e jornalista, tendo entre nós exercido várias comissões de serviço político.
Fedegoso
Nome vulgar madeirense da Psoralea bituminosa, planta da família das Leguminosas.
No Porto Santo dão o nome de fedegoso ao Chenopodium album, quenopodiacea frequente tanto ali, como
na região inferior da Madeira.
Fedorento (Eruca sativa)
Crucifera anual, muito comum no Porto Santo.
Feijoa
Nome vulgar madeirense do Phaseolus multiflorus, leguminosa originaria da América tropical. A
feijoa é cultivada principalmente no Monte e na Camacha, onde as suas raízes, segundo se afirma, duram 7
anos. As suas sementes têm em 20 a 30 milímetros de comprido por 12 a 16 de largo, e as suas vagens são
pubescentes, sobretudo em novas, e falciformes ou um pouco curvas.
Feijoeiro (Phaseolus vulgaris)
Leguminosa-papilionada muito cultivada nas hortas
madeirenses. E originaria, ao que parece, da América.
O feijão vassoura ou rasteiro, é uma simples forma do feijoeiro comum. 0 feijão verde, conhecido pelo nome
de vaginha, é um artigo de exportação madeirense; antes da guerra saíam da ilha uns 1800 a 2000 cestos de
vaginha semanalmente, durante a época da maior produção.
Feio (Dr. Carlos José Barata Pinto)
Foi nomeado governador civil do Funchal por decreto
de 18 de Dezembro de 1917 e tomou posse no mesmo dia em que chegou a esta ilha, a 5 de Fevereiro de
1918.
Saiu para Lisboa a 12 de Março do mesmo ano, tendo pouco depois pedido a sua exoneração.
Feiras. E
m 19 de Julho de 1839 resolveu a Câmara Municipal do Funchal estabelecer uma feira anual e
outra semanal na cidade, sendo esta deliberação aprovada pela Junta, que deixou a cargo da mesma Câmara
a escolha do local para a instalação da feira.
A pesar dos bons desejos manifestados pela Camara, a sua deliberação não foi executada, e só mais tarde,
em 29 e 30 de Junho de 1850, é que, por iniciativa do benemérito conselheiro José Silvestre Ribeiro, pôde
ser estabelecida uma feira no Funchal, «com o fim de promover o Comercio e de estreitar as relações entre
as diferentes povoações da ilha».
Foi na Praça Académica que se estabeleceu a feira, que nos dois referidos dias foi visitada por não menos de
quinze mil pessoas, que deixaram ali uma soma avultada de dinheiro.
«As barracas da feira, lê-se num oficio dirigido pelo conselheiro J. Silvestre Ribeiro ao Ministro do Reino,
estavam dispostas com a melhor ordem, e como a Praça he muito vasta, ficaram algumas das suas extensas
ruas desembaraçadas para o transito da imensa multidão. No meio da Praça ergueo-se um grande tablado, e
junto dele um coreto para a banda de musica do batalhão de Caçadores n.° 6. Por volta da tarde do dia 29,
subiram ao tablado treze camponezes da freguezia de S. Martinho, vestidos com trajes peculiares do paiz, e
dansaram primorosamente uma dansa particular da Madeira, conhecida pela denominação de «A la moda».
Seguio-se áquella dansa outra de mascaras, que sobresahio pelos ricos trajos antigos de que os figurantes
vinham vestidos. A banda de musica do batalhão 6 de Caçadores, que o digno commandante daquelle corpo
obsequiosamente me concedeu, entreteve os espectadores até alta noite, em ambos os dias, tocando
lindissimas peças».
Outras feiras houve mais tarde na Praça Académica, depois do conselheiro José Silvestre Ribeiro deixar esta
ilha, mas nenhuma delas apresentou o brilho nem a extraordinária animação da que se realizou em 29 e 30
de Junho de 1850, por iniciativa daquele ilustre governador civil.
Em sessão da Câmara Municipal do Funchal de 3 de Fevereiro de 1768 foi mandada executar uma provisão
pela qual o Monarca, a pedido da mesma Câmara, permitira que houvesse no Terreiro da Sé uma feira
publica ás têrças-feiras, mas se tal feira chegou a realizar-se, não teve longa duração, nem deu os resultados
que era licito esperar dela.
No largo do Comercio ou do Chafariz reúnem-se ás quartas e sábados os vendedores de botas chãs para
exercerem aí o seu comercio, e aos sábados acodem os negociantes de gado bovino ao Campo da Barca ou de
Miguel Bombarda, e os negociantes de varas á Praça dos Lavradores, efectuando-se aí muitas transacções. A
venda de gado suíno realiza-se ás sextas-feiras, junto do antigo armazém do petróleo.
V. Mercado de D. Sebastião.
Feiteira (Pteridium aquilinum)
Feto muito comum na Madeira e que vegeta também nas
localidades não calcareas da ilha do Porto Santo. Nas proximidades do Pico Ruivo chega a atingir 2 metros
de alto.
A feiteira é utilizada como adubo e para cama de animais.
Feiteiras (Chão das)
Sítio quasi plano e a curta distancia da casa de abrigo do Poiso, cortado pela
estrada que conduz da mesma casa ao Ribeiro Frio. A feiteira (Pteridium aquilinum) é aí muito abundante.
Feiticeiro do Norte. Manuel Gonçalves, nascido na freguesia do Arco de São Jorge em mil oitocentos e
sessenta e tantos, mais conhecido pela alcunha de Feiticeiro do Norte, é um camponês analfabeto e sem
grau algum de cultura, que, aproximadamente aos quarenta anos de idade, começou a revelar uma
extraordinária aptidão para a composição e improvisação de trovas e cantigas populares, que logo
alcançaram uma grande nomeada entre a gente dos campos desta ilha. Ao som dum rajão, numa melopeia
monótona, cantava o Feiticeiro os seus versos, que, pela sua originalidade e pitoresco, e, sobretudo, pelo
interesse que o assunto despertava, eram avidamente escutados e constituíam um dos grandes atractivos
nos diversos arraiais da Madeira. De pequenas trovas e de ligeiros recitativos passou a mais desenvolvidas
composições, muitas das quais foram impressas em folhetos avulsos, e entre estas podemos citar: Santo
Antonio, Chegada de Suas Magestades, As Raparigas dos bordados, O Lavrador, A Cidade do Funchal, As
Inundações, O meu galo preto, A antiguidade de meu pae, A vida do Feiticeiro do Norte escrita por ele
mesmo, A Madeira, etc. etc.. Manuel Gonçalves, animado pelo êxito das suas composições, foi ao Brasil,
onde se demorou algum tempo,, e entre os folhetos que ali imprimiu conta-se um intitulado Pedro Alvares
Cabral.
Faleceu na freguesia do Arco de São Jorge no mês de Abril de 1927.
Feitoria Britânica
Foi criada antes de 1774 e extinta em 31 de Dezembro de 1838. Sustentava uma
enfermaria especial para inglêses no Hospital da Santa Casa, e prestou, enquanto existiu, vários outros
serviços á colónia britanica nesta ilha.
Felner (Rodrigo José de Lima)
Deve-se a este conhecido escritor e académico a memória
Nome verdadeiro do portuguez João Fernandes Vieira, publicada em 1873, em que pela primeira vez se
afirma e se prova que o ilustre madeirense João Fernandes Vieira ( V. este nome) ao sair desta ilha em 1624,
trocou o nome de Francisco de Ornelas Moniz pelo que adoptou e usou até á morte.
Lima Felner faleceu em Lisboa, em Novembro de 1877.
Feno
Recebem este nome as ervas que são consumidas pelos animais depois de secas. A escolha da
época do corte do feno é determinada pela necessidade de obter ao mesmo tempo uma forragem abundante
e de boa qualidade. No litoral é no mês de Maio que as plantas são colhidas; nos altos é em Julho que tem
lugar esta operação.
O feno da Ponta de S. Lourenço é do melhor que a Madeira produz, mas do Caniço, de S. Gonçalo, da
Camacha, etc., também vem para o Funchal muita erva seca, destinada ao consumo do gado estabulado.
Entram anualmente na cidade cerca de 500:000 quilos de feno madeirense, constituído em geral por
espécies da família das Gramineas. De Portugal vem muita palha de trigo para alimento dos animais.
Outrora o prêço médio de cada 15 quilogramas de feno madeirense regulava por 30 centavos, mas no
corrente ano foi o feno da Ponta de S. Lourenço vendido ao preço de 150 centavos.
O Andropogon hirtus e o Agrostis castellana gramineas muito comuns na Madeira, são conhecidos pela
denominação de feno, mesmo enquanto verdes.
Fenologia
Estudaram a fenologia madeirense o Dr. Heer, em 1851, e C. A. Meneses, de 1903 a 1912.
Vejam-se os artigos publicados por este ultimo no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, de 1910, e
no Bolletin de l'Académie Internationale de Geographie Botanique, de 1905, 1908 e 1912, onde se
encontram além de varias informações úteis, a lista dos trabalhos que devem ser consultados por aqueles
que quiserem conhecer as épocas do descoramento das folhas e da folheação de algumas espécies lenhosas
cultivadas na ilha.
Sobre esta matéria publicou Carlos A. de Meneses uma série de artigos no «Diário da Madeira» no mês de
Junho de 1910.
Fernandes (D. 0limpia Pio)
Esta senhora madeirense, que há muito reside fora desta ilha,
cultivou as letras entre nós com brilho e justificada reputação. Colaborou em diversos jornais, e por 1877
escreveu um drama intitulado Aldo ou a Filha do Mar, que foi representado nesta cidade e que obteve da
assistência os maiores aplausos. As principais cenas deste drama foram publicadas num jornal do Funchal.
Falando de D. Olimpia Fernandes, disse uma brilhante cultura das letras: «Tenho lido com interesse todas
as outras produções da distinta escriptora, e ou eu estarei muito enganada, ou s. ex.ª ha de ocupar, ainda
um dia, um dos primeiros logares entre as senhoras que cultivam as letras».
Ignoramos se D. Olimpia Fernandes continuou o cultivo das letras e se porventura terá publicado outros
escritos, como era de esperar do seu talento e ilustração.
Fernandes (Gonçalo)
Foi um antigo povoador desta ilha e cuja personalidade os antigos
imobiliários madeirenses envolvem nas sombras do mistério, parecendo no entretanto tratar-se dum filho
do rei D. Afonso V e de sua sobrinha D. Joana, a Excelente Senhora. O anotador da Historia Insulana,
seguindo vários linhagistas, diz que «este homem tem vislumbres do Máscara de Ferro, em Paris, e veiu
para a Madeira com expressa proibição de sair desta ilha. Tratava-se com grandeza e todos os anos lhe
mandavam da casa real quanto lhe era necessário em abundância, porém nunca se soube quem eram seus
pais. Falecendo em 13 de Julho de 1539, foi sepultado na sua capela, na qual poz por armas as quinas
portuguesas em aspa sobre a cruz da Ordem de Cristo. Na lápide sepulcral de mármore está escrito o seu
nome; e tem em meio relevo a figura dum menino com o rosto sobre a mão esquerda, e o cotovello sobre
uma caveira, apontando com a mão direita para esta sentença tirada do livro da Sabedoria: Sic et nos nati
continuo desivimus esse. A sua chegada á Madeira depois da paz celebrada entre D. Afonso V e a rainha de
Castela D. Isabel, fez conjecturar que fosse filho delle e que razões de estado impedissem de reconhecel-o».
A capela a que aqui se alude é a que se levantava próximo ao mar, na margem da ribeira da Serra de Água,
na freguesia do Arco da Calheta, e da qual nos ocuparemos em artigo especial. Foi a sede dum morgadio
instituído por Gonçalo Fernandes, no qual sucedeu seu filho Pedro Gonçalves de Andrade. Esta casa
vinculada passou mais tarde aos Freitas da Madalena, de que foi ultimo representante o morgado Nuno de
Freitas Lomelino.
Acerca deste lendário personagem encontramos no Dicionário Portugal, volume VI pag. 373 mais os
seguintes interessantes esclarecimentos: «. . . Gonçalo Fernandes, cujo verdadeiro nome era D. Gonçalo
Afonso de Aviz Transtamara Fernandes, filho de D. Afonso V e da infeliz rainha D. Joana de Castella, a
excelente Senhora, que á força obrigaram a professar em Santa Clara de Coimbra. Era a este que competia
succeder no throno a D. João II, se por conveniências de ordem política com a Espanha e com receio de que
o matassem, não tivessem ocultado o seu nascimento, desterrando-o para a ilha da Madeira, com proibição
de lá sair, muito embora levasse ali vida de príncipe, que de direito lhe pertencia, nada lhe faltando da parte
da Casa Real para a ostentação dessa grandeza, enviando-lhe todos os anos caravelas carregadas com tudo o
que lhe era preciso. Com a morte de D. João II e com o sequestro de D. Gonçalo quebrou-se a geração real,
indo por isso ocupar indevidamente o throno de Portugal D. Manuel e sendo ainda mais anómala a sucessão
dos Braganças».
Fernandes (Valentim)
Valentim Fernandes ou Valentim Fernandes Alemão foi um impressor e
editor de nacionalidade alemã, que se estabeleceu em Lisboa por fins do século XV e que ficou conhecido na
historia dos nossos descobrimentos marítimos por haver coligido alguns escritos inéditos que interessam á
historia dessas mesmas descobertas. Acerca desses inéditos publicou em 1845 o Dr. Schmeller uma curiosa
memória, de que Henrique Major dá desenvolvida noticia na sua obra sobre o infante D. Henrique. Essas
narrativas de alguns descobrimentos marítimos realizados pelos portugueses no século XV interessam á
historia do descobrimento deste arquipelago, e por isso delas se ocupa com largueza o Dr. Rodrigues de
Azevedo a pag. 366-372 e 905 das Saudades da Terra. Uma parte dessas narrativas, respeitante aos Açores,
foi publicada no tomo 1 do Archivo Açoreano. Parece-nos que se conservam ainda inéditos os restantes
manuscritos da colecção de Valentim Fernandes.
Fernandes da Silva (Dr. Julião)
Carta critica sobre o método curativo dos medicos
funchalenses. MDCCLXI, é o título dum volume de 310 paginas, publicado sob a forma duma carta que
termina por estas palavras: O seu mais dependente e intimo venerador I. F. D. S., Madeira 7 de Setembro de
1755. Não traz a indicação do lugar em que foi publicado nem o nome do impressor.
Esta obra, como o título claramente indica, é uma larga critica, por vezes severa e mordaz, mas muito
judiciosa e sempre bem fundamentada, segundo os conhecimentos da época, da maneira como os médicos
exerciam a clinica na Madeira por meados do século XVIII. O autor, a pesar de pouco amadurecido em
anos, como na própria carta o confessa, revela uma abundante copia de conhecimentos da arte de curar e
era muito versado nas obras dos grandes mestres, que no tempo tinham toda a autoridade em assuntos
médicos.
Sobre o valor do livro, debaixo do ponto de vista estritamente cientifico, nada poderemos dizer, por em
absoluto nos escassear a competência para isso. Dele diz o ilustre anotador das Saudades da Terra «que é
curioso e até útil, não só á historia medica deste archipelago, mas também ao estudo dos costumes da
epocha. A orthographia sonica e a aggressiva dicção desta carta denunciam ser producção de algum afoito
innovador da escola de Luiz Antonio Verney».
Há neste importante trabalho alguns pontos tratados com grande interesse e sem duvida com notável
proficiência, como seriam a epidemia do sarampo, que tantas vitimas causa entre nós, a doença e morte do
bispo D. João do Nascimento e as causas da elefantíase e maneira de a curar, sendo o livro em tudo muito
curioso e digno de ser lido ainda por indivíduos estranhos á ciência medica.
Quem é o autor do interessante livro? Nem Inocencio Francisco da Silva no Diccionario Bibliographico, nem
o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo nas suas valiosas anotações á obra do Dr. Gaspar Frutuoso nos dão a
menor indicação a tal respeito. Foi um mero acaso que proporcionou ao distinto madeirense conselheiro
Manuel José Vieira o ter descoberto o nome oculto, talvez por mais dum século, do talentoso e ilustrado
autor da Carta critica. No espólio do falecido medico César A. Mourão Pita (V. este nome) encontrou o
conselheiro Vieira um exemplar impresso da obra e outro manuscrito que presumimos terem pertencido ao
ilustre madeirense e abalizado medico Dr. Antonio da Luz Pita (V. este nome). Um simples e rápido
confronto dos dois volumes logo denunciou tratar-se do mesmo e único trabalho. O manuscrito, que parece
ser o próprio autografo, contém mais do que os exemplares impressos uma casta em frase excessivamente
laudatória datada, do convento de S. Francisco desta cidade, de 28 de Agosto de 1755, escrita por Fr. João
de S. José e dirigida ao autor do livro, carta que não acompanhou a impressão desta obra por motivos que
desconhecemos. Neste manuscrito se dá o Dr. Julião Fernandes da Silva como autor dele e seu nome
perfeitamente condiz com as iniciais encontradas no fim do volume impresso. O interessante manuscrito foi
descoberto em Julho de 1907 e logo adquirido pela Biblioteca Municipal do Funchal, onde se encontra
actualmente.
O Dr. Julião Fernandes da Silva era filho de Manuel da Silva e nasceu no Funchal entre os anos de 1723 e
1726. Tinha a formatura em medicina pela Universidade de Coimbra, cujo curso terminou a 17 de
Novembro de 1748. Além da Curta Critica, escreveu a obra intitulada Exame de Sangradores, que vem
mencionada no Diccionario Bibliographico Portuguez.
Sobre este assunto publicou o Diário do Commercio de 12 de Dezembro de 1909 um desenvolvido artigo,
que pertence á autoria dum dos redactores deste Elucidario.
O ilustre professor e académico Dr. Augusto da Silva Carvalho que tem publicado tão valiosos trabalhos
acerca da historia da medicina em Portugal, tencionava ocupar-se com largueza da Carta Critica. . . do Dr.
Julião Fernandes da Silva, que acima fica citada, por se tratar duma obra de grande valor cientifico
relativamente á época em que foi escrita, salvando-se assim dum imerecido esquecimento o nome do seu
distinto autor. Esta comunicação foi feita há poucos anos a um dos redactores do Elucidario Madeirense,
mas não nos consta que até o presente tenha sido publicado esse prometido e, por certo, interessante
estudo.
Fernandes de Sant'Ana (Padre, Manuel)
A 14 de Maio de 1864 nasceu na freguesia de S.
Gonçalo o padre Manuel Fernandes de Sant'Ana, que era filho de Francisco Fernandes e de D. Ana Pereira
Fernandes de Sant'Ana. Em 1881 abandonou o curso de preparatórios do Seminário desta diocese para dar
entrada na Companhia de Jesus em cujo instituto professou e se conservou até á data da sua morte. Dando
nova orientação aos seus trabalhos escolares, começou os seus estudos em Portugal, prosseguindo-os depois
em Espanha, na Alemanha e na Inglaterra e concluindo-os na Holanda. Em Ona, Espanha, num curso de
filosofia de aspirantes á Companhia, foi, entre noventa seleccionados alunos, considerado o mais talentoso e
de uma mais arguta e penetrante inteligência. Os seus triunfos académicos contam-se pelo numero de
matérias e disciplinas que frequentou. Notabilizou-se no conhecimento das línguas orientais, afirmando-se
que lhe era familiar o grego como a própria língua materna, na matemática, na biologia e nas ciências
sociais, e na teologia era profundo conhecedor de tudo quanto se relaciona com os vastos estudos da
Sagrada Escritura.
Era um trabalhador incansável. Além do escrupulosissimo desempenho das suas privativas obrigações de
sacerdote, todo o tempo de que podia dispor era inteiramente consagrado ao estudo e ás obras de
apostolado católico. Parece que tinha uma febre ardente e insaciável de saber, e á medida que ia rasgando
horizontes novos no campo dos seus trabalhos cientificos mais o devorava a ânsia insofrida de alargar os
seus já tão vastos e profundos conhecimentos. De tal modo o absorvia a aplicação ao estudo e com tanta
avareza desejava aproveitar o tempo, que se privava de todo o descanso e ainda dos pequeninos
passatempos e recriações que a sua regra lhe impunha, procurando sempre justificar essa falta com a
necessidade de realizar sem demora os mais urgentes e inadiaveis trabalhos. Foi desta maneira a par do seu
excepcional talento e da fácil e pronta percepção de que era dotada a sua inteligência, que conseguiu
enriquecer o seu espírito com esse assombroso cabedal de conhecimentos que constituíam a admiração dos
que o escutavam ou liam os seus escritos. O padre Sant'Ana não era apenas um erudito, mas um filosofo e
um verdadeiro homem de ciência, como eloquentemente o revelou na obra que escreveu refutando as
doutrinas do Dr. Miguel Bombarda.
O apostolado de acção católica exercido pelo padre Fernandes de Sant'Ana foi verdadeiramente notável, e
talvez nunca em Portugal se houvesse desenvolvido uma propaganda dos ideais religiosos com tão
acendrado zelo, com tamanha abnegação e com tanto espírito de sacrifício e de desinteresse como essa de
que ele foi a alma e o valoroso e intemerato caudilho. A obra da imprensa católica mereceu durante algum
tempo todas as atenções do seu esclarecido zelo e a ela consagrou todas as energias da sua pasmosa
actividade, fundando um jornal de larga circulação, escrevendo folhetos, tornando-se um destemido atleta
do jornalismo pela palavra e pela pena, criando algumas agremiações e formando vários núcleos de
propaganda, tudo tendente ao desenvolvimento da acção católica por meio da mesma imprensa.
É muito importante a obra literária e cientifica do padre Sant'Ana, mas seria de maior vulto ainda se não
tivesse morrido na idade pujante de 46 anos incompletos, os últimos dos quais passou nas agruras duma
atroz enfermidade. A sua constituição débil, os trabalhos excessivos de apostolado a que durante muitos
anos se entregou, o tempo dedicado ao professorado e ainda muitas outras preocupações e canseiras, tudo
isso muito concorreu para abreviar a sua activa e operosa existencia.
Além da sua vasta colaboração em varias revistas e jornais e de alguns folhetos, publicou as seguintes obras:
Questões de Biologia. O materialismo em face da sciencia, 1900, 2 volumes de 489 e 567 pag., Curso de
Religião. Apologetica, 1901, de 317 pag.; tendo apenas saído o 1.° vol. e O Evangelho segundo S. Matheus,
1909, de LVII-325 paginas.
Com o título P. Manuel Fernandes de Santanna, Gotas Biographicas, publicou o seu confrade A. de Meneses
um opúsculo de 36 paginas, que contém dados muito interessantes e valiosos para a biografia deste nosso
distinto patrício.
O padre Fernandes de Sant'Ana, que foi um dos mais ilustres madeirenses dos últimos tempos, morreu em
Lisboa a 3 de Maio de 1910.
Fernandes Vieira. (João)
Nasceu Francisco de Ornelas Moniz Júnior–mais tarde mudado a
seu nome em João Fernandes Vieira– na capitania de Machico, em 1613, numa epoca de opressão e de
pobreza, em que dominava o governo castelhano.
Seu pai, Francisco de Ornelas Moniz, era bisneto de Tristão Vaz, o primeiro donatario de Machico, e neto de
Lançarote Teixeira, o grande ginetario; sua mãi, Antonia Mendes, era bisneta de Pedro Vieira, o grande
morgado da Ribeira de Machico; entre os seus bisavós se conta Antonio Fernandes, sesmeiro nas Covas do
Faial, no norte da ilha.
É ao ramo de Fernandes, ligado ao de Vieira, que Francisco de Ornelas Moniz, o moço, vai buscar um nome
de disfarce entre a corrente emigratoria para o Brasil, querendo trabalhar como um desconhecido para não
enxovalhar os pergaminhos dos Teixeiras, Ornelas, Monizes, Sàvedras, Mendonças e Vasconcelos, num
período em que o trabalho era desonra e opressivo tributo da classe baixa. A fidalguia de Machico foi da
mais orgulhosa: morria á fome, mas arrotando brasões.
O domínio filipino, acabando com certas prerrogativas dos donatarios nas capitanias, ordenou uma revisão
dos vínculos e extinguiu muitos morgadios por insustentaveis e ridículos. Nessa época, na populosa
jurisdição de Machico, não havia quem boamente pudesse sustentar um cavalo, excepto duas ou três
pessoas, como se expressa o historiador das ilhas. Vieram as crises das culturas, e os morgados a sonharem
grandezas, refastelando-se na ociosidade, cairam pouco a pouco na ruína e no contrato de colónia, pelo qual
entregavam as suas terras aos colonos, delas havendo a demidia dos produtos da cultura.
Os filhos primeiros dos morgados, desta sorte ainda se aguentaram, vivendo de suas rendas, porém os
irmãos, á fome, indignados com a fortuna, só em terra estranha se sujeitaram ao trabalho e ainda assim
trocando por outro o seu nome fidalgo, como se verifica de vários nobiliarios madeirenses em títulos de
famílias dos séculos XVI e XVII, alguns membros das quais se passaram ao Brasil.
Decaído o açúcar na Madeira, produzia-o exuberantemente as terras descobertas por Cabral, pelas canas ali
importadas, e mesmo alguns práticos no cultivo e fabrico dos gulosos produtos da Madeira, já lá tinham ido
ter no tempo de Martim Afonso de Sousa, o governador da América Lusitana, e sabendo os que por cá
ficavam á miséria do bom resultado colhido e das terras distribuídas á farta em amplo regime de sesmaria,
foram-se passando em auspiciosa aventura–daí uma grande corrente emigratoria–para o Brasil, tentar a
vida distante do pátrio lar oprimido, livres de estranhos preconceitos.
João Fernandes Vieira, o descendente do descobridor e 1.° donatario, era caixeiro em Pernambuco quando
os holandeses invadiram a província em 1630.
Assenhoreado o inimigo de Olinda, marchou sobre o Recife, mal defendido do lado de terra, e sem forças
para eficaz resistência, confiada a ordenanças feitas á pressa. Sem disciplina, abandonaram estas a posição,
deixando presidiados os fortes de S. Francisco e S. Jorge.
É neste ultimo que o moço herói se inicia, obrando prodígios de valor, e embrulha-se na bandeira
portuguesa para que e não caia em poder do inimigo, que concedeu uma capitulação honrosa.
Com o mar aberto, os holandeses entornavam no Recife contínuos reforços, não lhes faltando os recursos e
trabalhando por estenderem o seu domínio, enquanto forcejavam os portugueses por impedir-lhes o passo
em difíceis circunstancias.
O moço Fernandes Vieira, cavalheiresco e aventureiro, é o comandante dos exploradores do campo quando
o inimigo ataca o arraial em 1634. Matias de Albuquerque, o governador português, não quis arriscar
batalha porque conhecia bem a natureza das suas forças e abandonou a fortaleza, perdendo o fruto de
quatro anos de trabalho insano na extensa linha de circunvalações a Pernambuco. Vieira mete-se na
fortaleza, quere defender-se o destemido, mas é feito prisioneiro e se resgata a peso de ouro.
Depois deste novo contratempo João Fernandes Vieira parece pacifico, enamora-se de D. Maria César, filha
do seu patrício Francisco Berenguer de Andrade, também empenhado na mesma causa da defesa do
património português, e com ela casa, tratando agora da vida comercial com mira a enriquecer.
Retumbou no Brasil a nova da revolução do 1º. de Dezembro de 1640, e um ano depois a do tratado de D.
João IV com os Países Baixos, política de ligação com os inimigos de Castela, o que manifestava os
defensores do Brasil, porém os holandeses sem escrúpulos e com frívolos pretestos iam continuando a sua
obra de assenhoreamento.
João Fernandes Vieira tem um rebate, e pretende restaurar Pernambuco, servindo-se da mesma táctica
manhosa dos inimigos. Chamam-no estes ao seu serviço e ele aceita os cargos de agente de negócios da
Companhia e membro do seu conselho supremo, ficando assim conhecedor de todos os tramas e recursos.
Escreve a D. João IV pedindo-lhe licença para resgatar o país da mão dos usurpadores, ao que o monarca se
opôs!
Descobriram os holandeses os seus intentos, dissimularam também, querendo atraí-lo ao Recife, mas Vieira
iludiu-os e pôs-se em campo, levantando o pendão da Liberdade em Pernambuco–de fazenda em fazenda,
de engenho em engenho incitava a Revolução.
Lançaram bando os holandeses prometendo amnistia aos revoltosos que se apresentassem em determinado
prazo. Vieira declara traídores quantos não seguissem a sua causa. O conselho de Pernambuco põe a preço a
sua cabeça. Vieira põe a preço a cabeça dos membros do Conselho de Pernambuco!
Protegeu-o a boa estrela de Tabocas e Guarapes. Esta ultima batalha é comparada á de Aljubarrota, pois
decidiu da independência do país.
Venceu. Cumularam-no de favores. É a lei da sorte. Foi governador de Paraiba e depois de Angola, fidalgo
da Casa Real, alcaide-mor da vila de Pinhel e comendador de muitas comendas, daquelas que rendiam bom
dinheiro.
Com 85 anos, a 10 de Janeiro de 1681, morreu em Olinda João Fernandes Vieira, deixando um curioso
testamento.
Quem quiser mais amplos esclarecimentos acerca deste distinto madeirense, leia o pesado volume de Fr.
Rafael de Jesus sobre o Castrioto Luzitano ou a edição francesa mais leve, de 1842, 0 Valoroso Lucideno por
Mauuel Calado, a memória de Lima Felner apresentada á Academia das Sciencias em 1873, e a monografia
Ascendência, naturalidade & mudança de nome de João Fernandes Vieira, pelo autor deste artigo. S.
No n.° 152 do Correio da Madeira, do mês de Setembro de 1922, foi publicado um interessante documento
extraído duma copia do L.° I dos Baptizados e Casamentos da paróquia do Faial; que diz o seguinte: «Em os
vinte e nove dias do mez de Junho de. . . zei nesta Igreja a Fran.° fo de Francisco dor Nellas e de Ant.ª
Mendes e foram padrinhos Braz Prª e de Au=fª de Beatriz oriz e assim os padrinhos com os bautizados são
fregueses desta Igreja de Na S...Uerd.de fiz este termo oje dia mez anno as--Sebastião Gonsalves=e Braz
Prª». Estando este termo entre dois outros do ano de 1596, parece evidente ter ele sido feito neste ano,
havendo também fortes razões para crer que o indivíduo a quem o mesmo termo se refere seja o celebre
João Fernandes Vieira, cujo verdadeiro nome era Francisco de Ornelas Moniz e que teve por pais Francisco
de Ornelas Moniz e Antonia Mendes. A ter Fernandes Vieira nascido a 29 de Junho de 1596, faleceu com 85
anos incompletos e não com 68, como se disse na 1ª. edição desta obra.
A copia do L.° I dos Baptizados e Casamentos da paróquia do Faial foi tirada em 1766, em virtude do mesmo
livro se achar em muito mau estado, tendo esse trabalho sido mandado fazer pelo Bispo da Diocese em
Junho daquele ano, segundo certificou o vigário actual da freguesia o Rev. Dr. Francisco Fulgencio de
Andrade. (1921).
Por iniciativa do Dr. Abel Capitolino Baptista, ergueu-se na Avenida Manuel de Arriaga um modesto
monumento á memória de João Fernandes Vieira, que se inaugurou solenemente no dia 11 de Maio de 1924
e que no ano de 1933 foi transferido para o Jardim Municipal.
Fernando (Infante D.)
Era filho do rei D. Duarte e herdou de seu tio o infante D. Henrique o
senhorio do arquipélago da Madeira, em 1460. Casou com sua prima D. Beatriz, filha do infante D. João.
Ferraz (Francisco João de Freitas)
O anotador das Saudades da Terra faz menção deste
sacerdote, como sendo um dos mais distintos oradores sagrados desta diocese no século passado. Nasceu no
Funchal em 1823 e morreu em Lisboa a 31 de Julho de 1859. A sua doença e morte prematura não
permitiram que revelasse toda a pujança do seu talento e as notaveis, aptidões que possuía para a prédica,
mas, a pesar disso, foi considerado no seu tempo como um brilhante ornamento do púlpito não só da
Madeira, como de todo o país. Tinha as honras de cónego e era cura da Sé Catedral desta cidade. Morreu em
Lisboa, onde fora procurar melhoras á sua saúde, vitimado pela tuberculose pulmonar.
Ferraz (Ricardo Julio)
Nasceu nesta cidade a 26 de Maio de 1824 e era filho de Severiano
Alberto de Freitas Ferraz e de D. Leonor Filomena Ferraz. Tinha o curso duma escola superior de
engenharia de Paris. No exercício da sua profissão de engenheiro deixou o seu nome vinculado a obras de
grande vulto, como as do porto artificial de Ponta Delgada e do edifício da Penitenciária de Lisboa. De 1866
a 1870 foi o director das obras daquele porto e escreveu um relatório acerca da maneira como dirigiu os
respectivos trabalhos de construção. Foi ao estrangeiro fazer estudos especiais sobre os diversos sistemas
penitenciários e de prisões para os delinquentes condenados a penas maiores, a fim de orientar os trabalhos
de construção da Penitenciária de Lisboa, trabalhos que traçou, planeou e dirigiu até o quasi final
acabamento deste grande edifício. A maneira como realizou esses importantes trabalhos, provocou algumas
discussões na imprensa. Entre os logares que desempenhou em Lisboa, conta-se o de director da
Companhia das Águas.
Representou a Madeira em cortes na sessão legislativa de 1879.
Faleceu no Funchal a 24 de Dezembro de 1880.
Ferraz (Severiano Alberto de Freitas)
Distinto artista e industrial madeirense, falecido
no Funchal, com 64 anos, a 24 de Agosto de 1856. Fez em 1822 um novo alambique a vapor, muito simples
e de excelentes resultados práticos, e estabeleceu no Funchal, em Março de 1828, uma fabrica de açúcar, a
primeira que houve na Madeira depois da ruína da indústria sacarina madeirense no meado do século
XVIII. Esta fabrica foi imensamente melhorada em 1856, pouco antes da morte do seu proprietário. Foi
sócio correspondente da Sociedade Funchalense dos Amigos das Sciencias e Artes, membro da Câmara
Municipal e escreveu um artigo sobre as pedras preciosas no n.° 50 do Patriota Funchalense. Sofreu
perseguições durante o governo de D. Miguel, por causa das suas ideias liberais.
Ferreira (Alipio Augusto)
Nasceu na freguesia de Santa Cruz a 27 de Dezembro de 1837.
Cursou o liceu do Funchal e foi professor de instrução primaria, exercendo depois o lugar de escrivão de
fazenda nalguns concelhos deste distrito. Teve uma importante colaboração em prosa e verso em diversos
jornais madeirenses e foi redactor principal da Pátria. Segundo diz Inocencio, escreveu as novelas Um
Sacrilegio e Romance em seis capítulos, que tinha prontas para a impressão, mas que não chegaram a ser
publicadas em volume, saindo apenas alguns excertos em diversos jornais. Residiu muitos anos em
Demerara e ali foi redactor do jornal 0 Portuguez. Foi negociante, mas teve pouco sucesso nas suas
transacções comerciais, vindo a morrer em New York, no catre dum hospital, a 3 de Agosto de 1915, na
miséria e na mais completa obscuridade.
Ferreira (Francisco Antonio)
Começara por ser compositor tipográfico e a sua habilitação
literária oficial era apenas a do exame de instrução primaria. Conquanto ele próprio se lamentasse das
deficiências de uma mais larga e solida ilustração, é todavia certo que na vida jornalística soube suprir essa
falta originaria com a exuberância dum privilegiado talento e com a superficial e fugidia leitura de alguns
prosadores e poetas contemporâneos, de par com o estudo ligeiro de poucos livros didácticos. Em diversos
jornais, e nomeadamente no Diário do Commercio, de que durante alguns anos foi o redactor principal,
revelou a sua notável aptidão para as letras e as suas acentuadas qualidades de jornalista. A feição
característica dos seus escritos, em que sempre punha uma nota inconfundível, era a ironia mordaz, a sátira
causticante e o motejo irreverente, em que a graça, o talento, a arte, o sabor literário, a perfeição da métrica
e o conceituoso da frase sobejamente redimiam as demasias do pensamento e as intenções nem sempre
mais puras e louváveis do seu autor. 0 seu temperamento impulsivo, volúvel e irrequieto levaram-no por
vezes a lamentaveis excessos, que ele era o primeiro a reconhecer, quando a reflexão e a calma substituíam
os entusiasmos do seu, feitio combativo e ardente. Na gazetilha pode afirmar-se que Francisco Antonio foi
inexcedível, e noutro meio teria adquirido uma justificada celebridade. Pena é que não tenham sido
reunidos em volume alguns desses primores literários.
Francisco Antonio Ferreira nasceu no Funchal a 25 de Novembro de 1870, sendo filho de Francisco Antonio
Ferreira e de D. Maria Cândida Ferreira, e faleceu nesta cidade a 24 de Outubro de 1912. Desempenhou o
cargo de amanuense da Junta Geral do Distrito e costumava firmar as suas poesias com o pseudónimo de
Campos Verde.
Ferreira (Gonçalo Aires)
No pequeno artigo consagrado a João Afonso, já fizemos rápida
referência aos companheiros de João Gonçalves Zarco na arriscada empresa do descobrimento ou
colonização deste arquipelago. Conquanto João Afonso se destacasse entre os marinheiros que tripulavam
as caravelas comandadas por Zarco e Tristão Vaz, é, porém, certo que Gonçalo Aires Ferreira foi o mais
distinto companheiro do primeiro descobridor, não só pela sua nobre ascendência, mas ainda pela
ilustração que possuía, cotejada com a dos restantes indivíduos que compunham a equipagem da pequena
frota que pela primeira vez demandou esta ilha. Alguns linhagistas têm posto em relevo a circunstancia de
ser Gonçalo Aires o mais dedicado companheiro e o mais devotado amigo de João Gonçalves Zarco nos
trabalhos da expedição e descoberta e também na primitiva colonização da capitania do Funchal.
Gaspar Frutuoso, referindo-se á primeira expedição feita através da costa pelos descobridores, diz o
seguinte:
«Antes que chegassem a este deleitoso valle, foram correndo a costa, que de altas rochas era, sem acharem
logar onde sahir, senão em huma ribeira que bota huma pedra ao mar, em que podem desembarcar como
em caes: ali mandou o capitam o seu amigo Gonçallo Ayres, que sahisse em terra nesta ribeira com certos
companheiros, e andassem pela terra algum espaço, ver se havia nella alguns animais ou bichos, serpentes
ou cobras venenosas, e não se afastassem da corrente d'agoa, para se saberem tornar aos bateis, que no mar
deixavam. Foi Gonçallo Ayres com os companheiros correndo a terra por espaço de tres horas, no fim das
quaes se agastava já o capitam com a tardança delles, senão quando, exque assomavam pela ribeira abaixo
com capelas na cabeça, e enramados vinham falando com muito prazer, que não achavam cousa viva, senão
aves; e daqui ficou nome a Ribeira de Gonçalayres».
Diz noutro lugar, falando de alguns dos companheiros de Zarco, «que em sua companhia vieram. . . tiveram
filhos, muitas terras e propriedades que grangearam e geração mui nobre, como foi a de Gonçallo Ayres de
quem procede a casta que na ilha da Madeira se diz a grande».
Teve Gonçalo Aires vastas terras de sesmaria desde a ribeira que recebeu o seu nome até á de Santa Luzia,
que se estendiam ás cumeadas da serra. Além de ter dado o seu nome àquela ribeira, ficou também com esta
denominação a rua actualmente conhecida pelo nome de rua do Carmo e que então se estendia desde a
igreja até á margem da Ribeira de João Gomes.
Já no artigo em que nos ocupámos do cónego Jeronimo Dias Leite nos referimos á relação do
descobrimento deste arquipelago, atribuída a Gonçalo Aires. Sobre este assunto dizem as Saudades da
Terra: «Trazia (o sexto capitão-donatario do Funchal) no seu escriptorio o Descobrimento da Ilha da
Madeira, o mais verdadeiro que até agora se achou; o qual dizem que foi feito por Gonçallo Ayres Ferreira,
que foi a descobrir a mesma ilha com o primeiro Capitam João Gonçalves Zargo; e como este
Descobrimento competia aos Capitães da mesma ilha, elles o traziam nos seus escriptorios, como cousa
hereditária de descendentes em descendentes. E, sendo pedida informação desta ilha da Madeira, da minha
parte, ao Reverendo Cónego da See do Funchal Hyeronimo Dias Leite, tendo elle visto em poder do dito
Capitam João Gonçalves da Câmara, lho mandou pedir a Lisboa, onde então estava, e ele o mandou
trasladar pelo seu camareiro Lucas de Saa, e lho mandou escripto em três folhas de papel, da letra do dito
camareiro; e por sua carta (porque o descobrimento não faz menção disso lhe mandou dizer que Gonçallo
Ayres Ferreira, o qual fora hum dos criados que o Zargo, primeiro Capitam, lá levara, escrevera tudo aquillo
que vio com os seus olhos, e, como não era curioso nem homem docto, o notara com ruda minerva, sem al
composto».
Gonçalo Aires era filho de Gomes Ferreira e de Isabel Pereira de Lacerda. Veio casado para esta ilha no
princípio da colonização e do seu consórcio houve dois filhos gémeos, que foram os primeiros indivíduos
que nasceram na Madeira, os quais tiveram por isso os nomes de Adão e Eva. Por esta circunstancia anda o
nome de Gonçalo Aires ligado ao primitivo povoamento do arquipelago, sendo também o tronco de distinta
e numerosa descendência. Foi o primeiro que entre nós teve o apelido de Ferreira, usando e os seus
descendentes as seguintes armas: «em campo vermelho quatro faxas de ouro, timbre uma ema de sua cor,
com uma ferradura de ouro no bico».
No manuscrito Noticias das cousas da Ilha da Madeira desde o seu segundo descobrimento pelo Zarco (V.
Elementos para a historia madeirense) lemos o seguinte, que temos por verdadeiro: «Gonçalo Ayres teve no
Funchal muitas terras e os melhores valles que nelle havia, como era todo o Valle Formoso. Foi muito
amado e querido do capitam Zargo, por ser pessoa de estimacão e cavalleiro da casa do Infante: e quando
falleceu, o Zargo o mandou sepultar em Nossa Senhora de Cima, na Capella-Mór, que era o jazigo que para
si e sua mulher e filhos havia feito».
Também usou deste apelido Braz Ferreira, a quem já nos referimos no artigo consagrado á freguesia do
Arco da Calheta, e que não sabemos se seria descendente de Gonçalo Aires Ferreira.
Ferreira ( Nicolau)
Em algumas igrejas desta diocese se encontram varias telas com a rubrica do
pintor Nicolau Ferreira, de quem não conseguimos alcançar noticia. Temos razões para acreditar que esses
quadros foram executados nesta ilha e que datam dos fins do século XVII.
Ferreira de Freitas (Joaquim José)
Todos os biógrafos de Joaquim José Ferreira de
Freitas o dão como nascido na Madeira, mas resultaram sempre infrutíferas todas as diligências
empregadas pelo falecido conselheiro Freitas e Abreu e por quem estas linhas escreve, no sentido de
descobrir a freguesia da sua naturalidade ou quaisquer outras circunstancias pessoais que pudessem
interessar á sua biografia. Supomos que houvesse saído desta ilha em verdes anos, para entregar-se talvez a
estudos que neste meio e naquela época não poderia fazer no Funchal, e também suspeitamos que não mais
tivesse voltado ao torrão natal, o que facilmente se explica com a vida acidentada que levou por essa Europa
fora.
Na historia das perturbações políticas por que passou o nosso país no período agitado de 1820 a 1834, ficou
Ferreira de Freitas conhecido pelo nome de Padre Amaro, a pesar de não ser sacerdote, por ter publicado
em Londres um periódico com aquela estranha denominação, que gozou de reputação europeia, e onde
principalmente afirmou as suas grandes faculdades de escritor.
Espírito irrequieto e aventureiro, vemo-lo percorrer a Europa inteira, ora combatendo nos exércitos de
Napoleão, ora tornado confidente de José Bonaparte, aqui comerciante e industrial, além fornecedor de
géneros para as tropas, hoje director dum gabinete de leitura de Paris e amanhã o insigne e vigoroso
jornalista e panfletário, que em Londres tão assinalados serviços prestou á causa da liberdade portuguesa.
Todos reconhecem que Ferreira de Freitas teria deixado um grande nome na historia literária do nosso país,
se a vida lhe decorresse serena e tranquila no remanso dum gabinete, entregue á meditação e ao estudo.
Teve uma existencia acidentadissima de lutas e paixões, de ódios e desesperos, com lances de fortuna e
passando também pelos transes aflitivos da miséria, para o que muito concorreram as flagrantes
incoerências e contradições do seu espírito, que infelizmente nem sempre se deixou orientar pelas normas
da mais austera probidade ou pelos mais imparciais princípios da Justiça.
No entretanto, além da sua vasta e brilhante obra jornalística, escreveu alguns volumes, que são
documentos incontestaveis do seu prodigioso talento e das suas raras qualidades de escritor. Em 1822
publicou em Londres a Memória sobre a conspiração de Gomes Freire, em que pretende justificar o
marechal Beresford da responsabilidade que lhe é imputada da morte do general português e por cujo
trabalho se diz ter Ferreira de Freitas recebido a importância de 300 libras que era avultada para a epoca.
Publicou pouco depois o Coup d'oeil sur l'état politique du Brésil. Contraditado pelo distinto escritor francês
Afonso de Bauchamp na obra intitulada Historia do Brasil, Ferreira de Freitas respondeu com tal galhardia
e copia de argumentos, que mereceu os elogios do próprio contraditor. Empreendeu a publicação duma
obra de maior vulto intitulada Bibliotheca Histórica, Política e Diplomatica da Nação Portuguesa, de que
apenas saiu o primeiro volume, em Londres, no ano de 1830. Atacando o distinto jurisconsulto Ferreira
Borges, escreveu o opusculo O Bota-Fora do catavento ou a cabeça de bacalhau fresco, atribuído a Garrett e
em que as composições em prosa e verso ali contidas não envergonhariam o autor do Fr. Luiz de Sousa.
Redigiu vários escritos na língua portuguesa, francesa e inglesa, destinados principalmente a favorecer a
independência do Brasil e depois a implantação do governo constitucional em Portugal.
Quasi até á morte trabalhou afanosamente como jornalista e panfletário, vindo a falecer em Londres, com
pouco mais de 50 anos, a 20 de Julho de 1831. Custeou-lhe as despesas do funeral o abastado madeirense e
seu patrício e amigo o 1º. Conde de Carvalhal, que então se encontrava exilado naquela capital.
Ferreira Passos (José Gerardo)
A 14 de Junho de 1854 foi nomeado governador civil deste
distrito e tomou posse a 25 do mesmo mês e ano, tendo cumulativamente exercido o cargo de comandante
militar da Madeira.
Fez parte do exército libertador e distinguiu-se notavelmente em muitos combates. Era general de divisão,
par do reino e teve a pasta da guerra.
Nasceu em Elvas a 11 de Novembro de 1801 e morreu em Lisboa a 12 de Abril de 1870.
Ferreira Pestana (Daniel)
Nasceu no Funchal a 13 de Outubro de 1824 e morreu na cidade de
Nova Goa no mês de Novembro de 1906, sendo filho de Manuel Ferreira Pestana e de D. Vicencia Rosa de
Jesus Guedes Pestana. Casou em primeiras núpcias com a mãe do conde de Nova Goa e pela segunda vez
com a condessa de Torres Novas. Em 1845 acompanhou á Índia seu tio o conselheiro José Ferreira Pestana
(V. este nome), na qualidade de ajudante de campo, e ali passou uma parte considerável da sua existencia.
Seguiu a carreira militar, tendo sido despachado alferes em 1844 e morrendo no posto de general. Na Índia
Portuguesa, onde gozou da maior consideração e onde foram muito apreciados os seus dotes de caracter e
de inteligência, exerceu varias e importantes comissões de serviço publico. Também no reino desempenhou
alguns cargos honrosos, como o de ajudante de campo do marechal-Saldanha, de quem se afirma ter
imitado o conhecido aprumo marcial. Colaborou em alguns jornais e publicou na Índia um compêndio de
gramatica, que vem mencionado no Diccionario Bibliographico Portuguez com o titulo Principios de
grammatica geral applicada á lingua portuguesa, publicados e offerecidos á mocidade de Nova Goa, Nova
Goa, 1848, de XII-196 paginas. Não há muito que uma pessoa ilustrada e que durante alguns anos residiu
na Índia Portuguesa, nos informou que esta obra era uma imitação servil do trabalho de Francisco de
Andrade, publicado no Funchal no ano de 1844, o que não tivemos ocasião de verificar.
Pestana um dos mais ilustres madeirenses do século XIX, tendo-se notavelmente distinguido como militar,
como professor e homem de ciência, como político e estadista, e não menos ainda como caracter da mais
austera probidade, legando aos seus vindouros um nome prestigioso que inteiramente se impunha á
consideração de todos os seus compatriotas. É larga a sua biografia, que procuraremos condensar em
poucas linhas, para não dar a este artigo uma demasiada latitude.
Era filho do capitão-mor da Ribeira Brava Manuel Ferreira Pestana e de sua esposa D. Ana Teresa Sousa
Pestana, tendo ali nascido a 26 de Março de 1795. Tendo feito no Funchal, os estudos preparatórios e depois
de haver assentado praça no batalhão de artilharia desta cidade, seguiu em 1815 para Coimbra a fim de
matricular-se nas faculdades de filosofia e matemática da Universidade. A vida academica de Ferreira
Pestana foi uma série ininterrupta de triunfos, que lhe mereceram ser proposto pela respectiva congregação
universitária para receber gratuitamente os graus de licenciado e de doutor, tendo obtido o capelo na
faculdade de matemática no dia 3 de Julho de 1820. Regressando á terra natal, onde permaneceu algum
tempo regendo uma cadeira de matemática, foi depois fixar residencia em Coimbra, a fim de desempenhar o
cargo de ajudante do observatório astronómico e de preparar-se para o concurso ao magistério da
Universidade. As lutas civis levaram-no a abandonar Coimbra e, somente em 1834, por decreto de 14 de
Julho deste ano, é que foi nomeado lente da faculdade de matemática.
Esboçado o movimento de reacção contra o governo miguelista, desde logo o Dr. Ferreira Pestana na
qualidade de tenente do corpo académico, se associou a este movimento, expondo-se deste modo ás
perseguições dos sequazes do absolutismo, sendo preso e conduzido ás cadeias da cidade do Porto, onde
permaneceu largo tempo. Envolvido nas malhas da alçada que ali mandou o conde de Basto, foi condenado
por sentença de 9 de Abril de 1829 a degredo perpetuo, com a aplicação da pena de morte se porventura
tentasse voltar a Portugal. Pela mesma sentença foram condenados á pena ultima dez companheiros de
prisão de Ferreira Pestana, sendo este também obrigado, por determinação dos juízes da alçada, a assistir
na Praça Nova á execução dos infelizes condenados. Cumpriu-se esta sentença no dia 9 de Maio de 1829,
tendo Ferreira Pestana, vestido com a alva de sentenciado e com a corda ao pescoço, dado três voltas em
redor da fôrca e assistido á morte dos dez desgraçados, vitimas da tirania de D. Miguel. Conta uma
testemunha do tempo que, não querendo o Dr. Ferreira Pestana presenciar o horrível espectáculo da
execução, baixara a cabeça e cerrara as pálpebras, mas que um dos ajudantes do carrasco lhe descarregou
uma violenta bofetada e o obrigou a olhar para o cadafalso.
Ferreira Pestana não foi executado na Praça Nova, como fora o seu patrício e amigo Dr. José Martiniano da
Fonseca e os outros condenados, porque a dedicação sem limites, levada até ao heroísmo, da sua esposa D.
Maria Lecor, conseguiu liberta-lo das mãos sanguinárias dos algozes. Dirigiu-se esta senhora a Lisboa, a fim
de implorar a clemência do rei e dos seus ministros em favor de seu marido. Não pôde ser recebida por D.
Miguel, mas conseguiu que a infanta D. Maria de Assunção a acolhesse benignamente e se rendesse aos seus
rogos e ás suas lágrimas. Por sua intervenção, conseguiu D. Maria Lecor aproximar-se de diversas
autoridades e obter delas algumas cartas de recomendação para os juízes da alçada. Uns a receberam com
benevolência, mas outros se encheram de indignação, dizendo-lhe que o marido era um grande malhado,
digno da mais severa punição. Não foram, porém, inuteis as suas lágrimas e a sua heróica dedicação, pois
que a sentença condenatoria livrou o Dr. Ferreira Pestana de subir os degraus da forca. A dedicada esposa
acompanhou o marido nas voltas dadas em torno do patíbulo e acompanhou-o depois para o exílio.
Depois da execução dos seus companheiros, recolheu Ferreira Pestana ás cadeias do Porto, e pouco depois
foi enviado para Lisboa, onde deu entrada nas celebres enxovias de S. Julião da Barra e ali permaneceu
algum tempo, sofrendo os horrores que o celebre Teles Jordão fazia passar aos prisioneiros daquelas
masmorras. Em 1829 saiu de Lisboa em direcção a Luanda, a cumprir a pena de degredo a que fora
condenado pela alçada do Porto. Em Angola pode Ferreira Pestana com outros deportados políticos fretar
clandestinamente um navio, que a pesar do arriscado da empresa, conseguiu conduzi-los à cidade do Rio de
Janeiro. Na capital do Brasil, para granjear os meios de subsistência, estabeleceu um colégio de que foi
director e que teve ali grande nomeada.
Restabelecido o governo constitucional, regressou Ferreira Pestana á pátria e retomou o seu lugar que tinha
no exército, começando também a regência da sua cadeira na faculdade de matemática, para que havia sido
despachado por decreto de 14 de Julho de 1834. Parece não ter sido muito assíduo no exercício do
professorado, porque a vida activa da política e os diversos cargos que desempenhou não lhe permitiram
uma demorada permanência em Coimbra. Em 1834, achando-se ainda no Rio de Janeiro, foi eleito
deputado pela Estremadura, e representou a Madeira nas sessões legislativas de 1836, de 1837 a 1838, de
1838 a 1840, de 1840 a 1842 e de 1851 a 1852 tendo também sido deputado por Coimbra. Numa época em
que somente homens de reconhecidos méritos exerciam o cargo de governador civil foi Ferreira Pestana
chefe dos distritos de Vila Real, Leiria e Coimbra. Em 1841 foi chamado aos conselhos da coroa, sendo
ministro da marinha de Julho daquele ano a Fevereiro do ano seguinte. Voltou ao ministério em 1851,
sobraçando a pasta do reino. A partir desta época recusou-se sempre a fazer parte do governo, a pesar das
muitas instâncias que por vezes lhe foram dirigidas. Por carta regia de 30 de Dezembro de 1862 foi
nomeado par do reino.
Foi efémera e passou despercebida a administração de Ferreira Pestana nos distritos em que exerceu o
cargo de governador civil, mas o mesmo se não deu na Índia como governador geral daquele estado, num
tempo em que ainda estavam muito vivas as tradições dos vice-reis e as honrarias e privilégios de que estes
gozavam. A pesar de já extinto o lugar, ficou Ferreira Pestana geralmente conhecido, e em particular nesta
ilha, pelo nome de vice-rei da Índia. Por duas vezes desempenhou as funções daquele então elevado cargo,
revelando não somente qualidades de um verdadeiro homem de governo, mas ainda os seus eminentes
dotes de carácter, sobretudo pela imparcialidade e justiça com que sabia moldar todos os actos da sua
administração. Impossível é descer aqui a detalhes e pormenorizar factos, que nos levariam muito longe.
Nao podemos no entretanto resistir á menção dum acontecimento que se deu quando pela segunda vez
governou a Índia, que teve então uma grande nomeada e cujos ecos se repercutiram com grande admiração
na Europa. Foi o caso que nas proximidades de Goa, mas em território britânico, moveram os fondus uma
insurreição contra o domínio inglês, que foi sufocada depois duma renhida luta de prolongados meses e em
que as tropas britânicas sofreram grandes revezes. Um numero considerável de revoltosos e suas famílias
refugiaram-se no território português, depondo as armas e pedindo a protecção da nossa bandeira. As
reclamações e as exigências do governador de Bombaim e do governador geral de Calcutá, pedindo a
entrega dos insurrectos, foram enérgicas e cheias de ameaças, mas Ferreira Pestana, ao abrigo do direito
das gentes e impulsionado pelos mais justos e elementares sentimentos de humanidade recusou
terminantemente essa entrega. As negociações duraram alguns meses, e, por fim o envio de tropas
britanicas para a fronteira portuguesa e um navio de guerra inglês ancorado em Goa com as portinholas
abertas e as peças apontadas para o palácio do governador, davam claramente a entender que o caso ia
liquidar-se pela violência e que Portugal mais uma vez sofreria um vexame e uma afronta por parte da sua
fiel aliada. No entretanto aparece em Goa o coronel Ontiani e em nome do governador geral da Índia
Inglesa exige a entrega imediata dos refugiados. Ferreira Pestana limitou-se a responder que não entregaria
os insurrectos que se tinham acolhido á sombra da bandeira portuguesa e que ao serem aprisionados e
conduzidos pela força ao território inglês, iria entre eles o governador e representante de Portugal,
salientando e pondo deste modo em grande relevo a violência que o governo geral da Índia pretendia
praticar. Esta firmeza e esta altivez, que as ameaças e os perigos não conseguiram dobrar, acobardaram os
ingleses, tendo-se depois solucionado amigavelmente este assunto entre os respectivos governos das duas
metrópoles.
O conselheiro José Ferreira Pestana, que se reformara em 1875 no posto de general, morreu em Lisboa a 12
de Junho de 1885, tendo 90 anos de idade completos.
Para a biografia deste ilustre madeirense podem ser consultados os opúsculos José Ferreira Pestana,
apontamentos biográficos, por V. Esteves, Nova Goa, 1855, e Duas palavras sobre a India Portuguesa em
relação ao Sr. conselheiro José Ferreira Pestana, ao Sr. conselheiro José Joaquim Lopes Lima e a Custódio
M. Gomes. Lisboa, 1848.
Ferreira da Silva (Dr. Antonio Joaquim)
Este abalizado homem de ciência, cujos
trabalhos são muito conhecidos e apreciados no estrangeiro, escreveu dois opúsculos que interessam
bastante á vinicultura madeirense: Sur les vins de Madère, 1896 e La vinification des vins de Madère et leur
composition, 1911. Este ultimo trabalho foi publicado nos Annales des falsifications, pag. 4-59.
Ferreiro (Pico do)
Não muito distante da Encumeada de São Vicente encontra-se o Pico do
Ferreiro.
Ferreiro de Fora (Pico do)
Eminência próxima da anterior.
Ferreiros (Rua)
É uma das mais transitadas ruas do Funchal e estende-se desde a rua 5 de Outubro
até á ponte do Torreão. O nome de Ferreiros só se aplicava noutro tempo á parte da rua que ia do princípio
dela até o chamado largo do Chafariz ou de S. Sebastião. Em época relativamente recente, ainda se chamava
do Peru a parte da rua compreendida entre os largos do Chafariz e Colégio, do Estudo á que ficava entre o
Colégio e a rua dos Netos e do Pinheiro á que ia da rua dos Netos ao Torreão. O nome de Ferreiros proviria
certamente do facto de ali existirem algumas oficinas desta arte manual. «Christovão Martim de Agrinhão,
diz um antigo nobiliario, foi fidalgo da Casa do Duque de Bragança e veiu a esta ilha, do Peru, nas Índias de
Hespanha, e por isso se chamou o Peru, cujo nome deu á rua onde morou». Durante muitos anos tiveram os
jesuítas os seus cursos na rua dos Ferreiros e depois da sua expulsão ali continuaram as chamadas Aulas do
Patio, onde também se instalou o liceu no ano de 1837. Isto explica suficientemente o nome de Estudo dado
a uma parte desta rua. Frutuoso falando da rua Direita diz que «he a mayor da cidade, vai ter ao Pinheiro
que he uma árvore que está no cabo della, a mais grande e formosa que ha na mesma cidade». É preciso
notar que, a pesar do Pinheiro ficar na margem esquerda da ribeira, o local conhecido por aquele nome se
estendia até á margem direita, devendo também advertir-se que uma parte considerável da actual rua dos
Ferreiros ficava marginal á ribeira e não distanciada dela como hoje se encontra.
Uma parte desta rua, nas proximidades do antigo largo do Chafariz, teve em época mais remota os nomes
de Simão Acciaioly e de Pedro ou Pero Bettencourt.
A rua dos Ferreiros recebeu a 19 de Novembro de 1915 o nome de rua do Comercio.
Ferreiros
Pequeno sítio também chamado Quinta dos Ferreiros, na freguesia da Calheta, onde existiu
uma capela dedicada a Nossa Senhora da Penha, construída em 1682 pelo dr. Manuel Fernandes Gomes.
Ferro (Ilhéu de)
A sudoeste da Ilha do Porto Santo, da qual se acha separado por um estreito
boqueirão, fica o Ilhéu de Ferro. Altitude de 115 m.
Ferro
Encontra-se no arquipélago grande quantidade deste mineral, porém em compostos que não vale
a pena explorar, e quando apresenta maior percentagem é apenas em diminutos filões, como as lindas
lâminas de ferro especular na rocha sobranceira ao cais da Ponta do Sol e em revestimentos internos de
canais de lava, como nas furnas do Cavalum, em Machico, e na dos Cardais, em S. Vicente.
É devido aos sais de ferro que a maior parte das rochas das nossas encostas se desagregam, e assim se dá a
preparação das novas terras (poios), deixando-as esboroar pela acção dos agentes naturais e retendo-as em
pequenos tabuleiros de cultivo.
É o ferro que dá a cor pardacenta dos revestimentos dos blocos de basalto, a cor vermelha ás terras
chamadas de massapês e ainda as laterites que listam as rochas, especialmente no literal, intercaladas entre
duas assentadas basalticas.
Encontra-se granular entre tufos nos Canhas, celular na Madalena do Mar, e lamelar sobre argilas em
Sant'Ana e S. Jorge, com a aparência de sucata e em dissolução na água de algumas fontes, como na do
Jamboto, em S. Antonio. S.
Ferrugem do Trigo
Manchas amarelas e por fim negras, que aparecem nas folhas do trigo e
doutros cereais. Estas manchas são produzidas pelos esporos da Puccinia rubigo-vera, irrompendo através
do tecido foliar. A ferrugem altera as funções das folhas e pode diminuir as colheitas.
Festa da Árvore
A primeira festa da árvore que houve no Funchal foi promovida pela Inspecção de
Instrução Primaria e realizou-se no dia 29 de Março de 1914, pelas 11 horas da manhã. O cortejo saiu do
Palácio de S. Lourenço para o Campo da Barca ou de Miguel Bombarda, onde teve lugar a cerimónia da
plantação de algumas essências exóticas, havendo por essa ocasião alguns discursos em que os oradores
aconselharam os circunstantes e em especial as crianças, a olharem as árvores como objectos sagrados, por
causa dos grandes benefícios que nos proporcionam.
As árvores solenemente plantadas no dia 29 de Março de 1914, estavam secas alguns meses depois, pois que
ninguém mais pensou nelas depois que retiraram do Campo da Barca os promotores da festa e as pessoas
que a abrilhantaram com a sua presença!
Feto Abrum (Dicksonia Culcita)
Feto muito raro na Madeira e que apenas se encontra agora
no Montado dos Pessegueiros e na serra da Boa Ventura. Os seus rizomas são revestidos de pêlos
ferruginosos e macios que serviam noutras épocas para encher colchões e almofadas.
Feto de Botão (Woodwardia radicans)
Feto comum nos vales e ravinas do norte e do
interior da Madeira. Produz perto do cimo das frondes, gemas radicantes.
Fetos
Conhecem-se no arquipelago da Madeira 41 fetos indígenas e 4 naturalizados, havendo nestas 45
espécies 1 Ciateacea, 3 Himenofilaceas, 40 Polipodiaceas e 1 Ofioglossacea. Das 40 Polipodiaceas, 36 são
indígenas e 4 naturalizadas. A Dicksonia culcita, Herit. (Feto abrum) é uma linda Ciateacea que só é
frequente no Montado dos Pessegueiros; e a Davallia canariensis (cabrinha), o Adiantum reniforme, o Pteris
arguta, o Pteridium aquilinum (feiteira), a Woodwardia radicans (feto de botão), o Athyrium Filix-foemina,
o Asplenium Adianthum-nigrum, o Polystichum aculeatum, o Nephrodium Filix-mas, etc. etc., são
Polipodiaceas frequentes na Madeira. Na Flora do Arquipelago da Madeira, de C. A. Meneses (Funchal,
1914) e nos Madeira Ferns, do mesmo autor (Funchal, 1906) encontram-se listas completas dos fetos do
arquipelago da Madeira.
Few (A) plain words to visitors to the Island of Madeira on the present position of the English Church there.
. . by a visitor. Funchal, 1848, 19 pag..
Fichas
O Almanach de lembranças Madeirense, para o ano de 1908 publicou um artigo intitulado
Fichas Madeirenses, escrito pelo nosso patrício Dr. Carlos da Silva Carvalho, funcionario da Alfândega de
Lisboa, que com a devida vénia vamos transcrever, sendo este o trabalho mais completo que sobre o assunto
conhecemos:
«Andam tão ligadas ao desenvolvimento commercial desta ilha, as fichas ou tentos, quer servindo para
facilitar os trocos nos tempos em que a moeda miuda escasseava, quer para pagamento de carretos aos
boieiros e borracheiros que nos fins de cada semana as trocavam por moeda corrente, que julgamos dalgum
interesse uma resumida noticia acerca d'aquelles equivalentes, actualmente conhecidos, ampliando assim
uma resenha ha tempos publicada no Diario de Noticias desta cidade.
Datam dos fins do século XVIII as primeiras fichas conhecidas, e, honra é dize-lo, foi um madeirense quem
primeiro as introduziu na circulação fiduciária, o negociante J. F. Esmeraldo; aproveitando-se
seguidamente das mesmas vantagens outras casas commerciais, como as de Vicente d'Oliveira &
Companhia, Phelps, Page & C.°, Colson, Smith & Robinson, Diogo Adams, etc..
A pouco e pouco se foi generalisando o seu uso e hoje é raro encontrar uma casa commercial de certa
importância ou club onde se jogue que não as tenha cunhado, sendo tal a confiança que o publico deposita
nestes pedacitos de latão cobre, zinco e até folha de Flandres, que quasi toda a gente os aceita, certa de que
elles representam dinheiro. Haja vista as curiosas fichas do Conde da Calçada Diogo d'Ornelas Frazão
(sinete sobre lacre D. O. F. e valor), que teem curso entre os numerosos feitores da mesma opulenta casa na
vila da Calheta.
Além da lista que abaixo publicamos, sabemos que muitas outras casas as cunharam, mas o desleixo e os
sôfregos cadinhos das fundições não nos deixaram d'ellas nenhuns vestígios.
1–1793–João Francisco Esmeraldo, 50, 100 e 200 rs. em latão. Muitíssimo raras, pois são conhecidos três
exemplares, um de cada.
2–1799–Vicente d'Oliveira e Companhia. 40, 50, 80 e 100 rs. em cobre. São communs e estão ainda em uso
na casa dos srs, Francisco da Costa & Filhos, com excepção do exemplar de 80 rs., cujo único exemplar
conhecido foi offerecido em tempos pelo Exm° Padre Schmitz para um museu do estrangeiro.
3–1802–1. W. Phelps e Companhia.–40, 50 e 100 em cobre. Raras.
4 –1803–Phelps, Page & Companhia–40, 50 e 100 rs. em cobre. Raras.
Existe um erro n'algumas fichas de l00 rs., tendo no anverso cincoenta reis. Os dois únicos exemplares
conhecidos pertencem aos Ex.mos Snrs. Padre Schmitz e H. Hempel.
5–1804–Colson, Smith e Robinson–40, 50 e 100 rs. em cobre. Excessivamente raras.
6–1815–Thaumaturgo de Souza Drummond–20 rs., 50 rs. (3 variedades). 75, 100 (3 variedades), e 200 rs.
(3 variedades), em zinco, com curso na freguesia de S. Vicente. Foram descobertas pelo Ex.mº Sr. H.
Hempel que se dignou de me offerecer uma série completa.
São todas excessivamente raras.
7–1816–João Antonio de Bianchi–50, 60, 80 & 100 rs. em cobre, pouco vulgares.
8–1831–Diogo Adams & Companhia--40, 50, 60, 80 e 100 rs. em cobre, duma linda execução de cunhagem.
Vulgares.
9–1840–Blandy Brothers & Cº.–50, 100, 200, 240, e 300 rs. em latão, e ainda em circulação.
10–1841–Diogo d'Ornelas Frazão (depois Visconde e Conde da Calçada), 100 e 20C rs., sinete de lacre sobre
cartão, curso no engenho da villa da Calheta. Pouco vulgares.
11-1842–Administração do Cabrestante do Commercio–80 rs. em seis variedades. Zinco. Pouco vulgares.
12–1855–Carlo de Bianchi–100 rs. em folha de Flandres. Excessivamente raro. Um único exemplar em
poder do Ex.m° Snr. Hempel.
13-Fabrica do Torreão. (W. Hinton & Sons)–50, 100, 150, 200, 250, 300, 400, 500 e 600 rs. em latão e
ainda em circulação.
14–1876–Alfandega do Funchal–40, 50, 60, 80, 100, 200, 250, 300 e 400 rs. em latão e ainda em
circulação.
15–1884–Fenay & Irmãos.
F. 1.. Contra marca sobre as do n.° 3.
F. 1.. Contra marca sobre as do n.° 4; existe o mesmo erro n'algumas fichas de 100 rs.
. F. 1.. Contra marca sobre as do n.° 5.
Estas ultimas excessivamente raras.
16–1887–Manuel Ferreira Cabral, 50 e 100 rs. em zinco. Raras.
17–1888–Viúva de Romano Gomes & Filhos, sem indicação de valor, em folha de Flandres.
18–1889–A. Izidro Gonçalves, sem indicação de valor, em chumbo.
19–1990–Luiz Gomes da Conceição sem indicação de valor, duas variedades em folha de Flandres.
20–1892–Francisco Rodrigues & Companhia, sem indicação de valor, em zinco.
21–1896–D. Erminio Pojal,–1 ficha em vermeil sem indicação de valor, circulando com o de 500 rs; 1 de
100 rs. em nikel; 1 de 100 rs. em vermeil; 1 sem indicação de valor em alumínio, circulando por 3$600 rs.
22–1896. Club Funchalense. 1. 2. 5. 10, representando 100, 200, 500 e 1$000 rs., em marfim. Raras.
23–1897–Krohn Brothers & C.a -40, 100, 150, 200, 240 e 500 rs. em latão.
24–1898–William J. Krohn–100 e 200 rs., em alumínio.
25–1898 -Almeida & Companhia. 24 variedades sem indicação de valor, mas com números indicando a
quantidade de leite fornecido á fabrica das Adegas na Ponta do Sol, em folha de Flandres.
26–1899–Confraria de S. Vicente de Paulo–50 rs. em alumínio prateado. Lindissimo desenho.
27–1899–José Fernandes d'Azevedo–60, 100, 120, 150, 200 e 250 rs., em folha de Flaudres. Pouco comuns.
28–1901–Casino da Quinta Vigia–200 rs. em prata.
29–1901–Club Restauração–-100, 200 e 500 rs., em alumínio. 100, 200, 250, 500 e 1$000 rs. em osso.
30–190l–Cory's Madeira Coaling Company Limited–2 variedades sem indicação de valor (em cobre). 1 sem
indicação de valor. em alumínio.
31–1902–Cossart Gordon & Companhia. 50, 100 e 200 rs. em nikel , 50, 100, 200, e 500 rs. em latão.
32–1902–Wilson Sons & Company Limited, sem indicação de valor, em latão.
33–1903–Club Recreio Musical–50, 100, 200, 250, 500, e 1$000 rs. em alumínio prateado. Soberba
gravura.
34-1903–John Payne & Sons (Sucessores Martin- Wartemberg). Com valores, em allemão: 10, 20, 50, 100 e
200 Pfenings, em latão. Idem, 1, 3, 10, 30, 50 e 100 Pfenings em alumínio.
35–1904–Luiz Augusto da Silva Carvalho. L A S C. 120 rs. Contra marca sobre 40, 50, 60 e 80 rs. do n.° 8.
L A S C. 200 rs. Contra marca sobre 40, 50, 60 e 80 rs. do n.° 8. Raras.
36–1905–Carlos Teixeira–2 variedades sem indicação de valor, em folha de Flandres.
37–1905–M. Gonsalves & Companhia– 2 variedades sem indicação de valor, em zinco, e 1 sem indicação de
valor, em cobre.
38–1905–Forte de São Philippe (A. Giorgi & Companhia)–1 sem indicação de valor, em latão.
Fichas que se julgam terem circulado na Madeira, cujas casas se ignoram:
1.°–S. I. D. & Cª–Sem data, 40, 50 e 100 em cobre, existentes na collecção do Snr. Andrade, madeirense
residente no Brasil. Em Fevereiro de 1907, foi vendido por 6 florins em Amsterdam um exemplar de 40 rs.
(Samuel John Dreff & C.º?)
2.°–R. I. M.–sem data, sem valor, em cobre, encontrada nas obras do caes da Casa Blandy, á Pontinha,
existente no museu do Seminário.
3.º O. P. sem data, sem valor, em latão. (Obras Publicas ?)
4.°–10 e 50 sem data, sem valor, em latão.
5.°–CFF 3 variedades sem data, sem valor, em zinco.–(Correia, França & Filhos?)
6.°- P. L). sem data e sem valor, em cobre.
7.°–W. H. sem data, sem valor, em cobre (William Hatchison?)
Fichas com curso em Portugal, Madeira e Açores. T (abaco), S (abão), P. (olvora). (5 variedades PX RX PXX
RXX PXXX)».
No jornal alemão Munz Blatter publicou o rev.° padre E. Schmitz uma pequena noticia acerca das fichas
madeirenses, tendo se ocupado também do mesmo assunto o Sr. major Alberto Altur Sarmento, num artigo
que apareceu no extinto Diário do Commercio do Funchal.
Figueira
Foi Pedro Figueira, natural da ilha do Faial e filho de João Figueira e de Aldonça Fernandes,
um dos primeiros que nesta ilha usaram este apelido, tendo-se aqui estabelecido pelos anos de 1500. Um
seu filho, por nome Manuel Figueira instituiu um vinculo nesta ilha. O Dr. Álvaro de Azevedo dá a estes o
nome de Figueiró, mas em vários nobiliários temos encontrado o apelido Figueira referido aos indivíduos
que ficam mencionados, acrescentando o mesmo comentador das Saudades ignorar quem fosse o primeiro
que introduziu este apelido nesta ilha. É certo que também Alvaro Figueira foi um dos primeiros
povoadores da Madeira e teve terras de sesmaria em Câmara de Lobos.
Figueira (Dr. João Joaquim)
Formou-se em 1837 na faculdade de medicina de Montpellier,
defendendo a tese Etude de l'accouchement premature artificiel, que imprimiu num opúsculo de 59 pag..
Prestou relevantes serviços em França por ocasião duma epidemia de cólera-mórbus, sendo por isso
agraciado com uma medalha de honra. Na Madeira, onde exerceu clinica durante muitos anos, foi medico
do partido da Câmara Municipal do Funchal.
Faleceu em 1859 ou pouco depois.
Figueira (Ficus Carica)
Árvore originaria da zona mediterranea, muito cultivada na Madeira e
Porto Santo. Os figos madeirenses mais apreciados são os doces, os martinhos, os brancos, os cotios e as
beberas, distinguindo-se estes últimos dos restantes, pela sua cor negra e pela sua forma alongada. Os figos
que passam o inverno em estado rudimentar e se desenvolvem antes do tempo no ano imediato, são
denominados lampos.
Na Serra de Dentro, na ilha do Porto Santo, há uma grande figueira, que se diz ter sido plantada pelos
antigos colonizadores. É sem duvida alguma a árvore mais velha da vizinha ilha.
Figueira (Padre Antonio da Silva)
Nasceu na freguesia do Arco da Calheta a 13 de Junho
de 1887. Depois de haver cursado o Seminário desta diocese, ordenou-se de presbítero no bispado de
Portalegre, no mês de Novembro de 1912, e tem exercido funções paroquiais em algumas freguesias desta
ilha. Além de colaboração vária, em prosa e verso, nalguns jornais, publicou em 1914 um volume de poesias
intitulado Columbario, de 89 pag..
Figueira da Índia (Ficus comosa)
Linda árvore cultivada nas quintas e em alguns largos do
Funchal. Pertence á família das Urticaceas, e tem folhas persistentes e de um lindo verde, e pequenos
sícones que não chegam a amadurecer completamente.
Diz-se que a primeira figueira da Índia que existiu na Madeira veio num navio que se destinava á Europa e
naufragou no porto do Funchal nos fins do século XVIII. Tendo um marinheiro desse navio conseguido
trazer para terra a referida figueira, foi plantada nos terrenos da quinta Vigia, onde viveu por largos anos,
vindo a ser o tronco de todos os indivíduos da mesma espécie que depois apareceram na ilha.
Figueira do Inferno
Três espécies são conhecidas por este nome na Madeira, sendo duas delas
indígenas e uma cultivada. As espécies indígenas são a Euphorbia mellifera e a E. piscatória, esta sempre
arbustiva, aquela ás vezes arborescente; a espécie cultivada é a Ficus stipulata, muito usada para revestir
muros e que é conhecida também pelo nome de figueira do diabo. A Euphorbia mellifera, conhecida
nalgumas partes da ilha pelo nome de alindres ou alhendros, encontra-se nas Achadas da Cruz, no Seixal,
no Ribeiro Frio, etc.; a E. piscatoria é frequente nos terrenos do litoral. O látex produzido pelos ramos
cortados desta ultima espécie, é utilizado pelos pescadores para cegar ou atordoar o peixe que aparece nas
poças á beira-mar.
Figueiredo
Provém este apelido de Pedro Lopes de Figueiredo, que teve residência em Machico e
Santa Cruz no princípio do século XVI.
Figueiredo de Lemos (D. Luis)
Entre os prelados que se distinguiram na administração
episcopal desta diocese destaca-se o nome de D. Luiz de Figueiredo de Lemos, 7.° bispo da Madeira, Porto
Santo e Argüim.
Nasceu na pequena ilha de Santa Maria do arquipelago açoreano a 21 de Agosto de 1544, sendo filho de
Miguel Figueiredo de Lemos e D. Luiz Nunes Velho, que eram ali pessoas muito consideradas.
Feitos os primeiros estudos na sua ilha, foi para a cidade de Ponta Delgada e ali se dedicou ao estudo das
humanidades e preparatórios para poder seguir em Coimbra o curso universitario. Cursou as faculdades de
cânones e de leis, em que se bacharelou, e numa delas fez exame de licenciado.
Voltou á ilha de S. Miguel, já ordenado de presbítero e precedido de fama de homem ilustrado e virtuoso,
ocupando ali o lugar de ouvidor eclesiástico, e sendo depois nomeado deão da Sé de Angra e mais tarde
vigário geral e governador daquele bispado.
Em 1585 foi apresentado bispo do Funchal e confirmado pela Santa Sé em princípios do ano de 1586,
chegando á Madeira a 4 de Agosto do mesmo ano.
Foi o seu episcopado muito frutuoso pelas diversas reformas que introduziu em muitos serviços
eclesiásticos, sobretudo na administração das paróquias, em que eram grandes os abusos cometidos pelo
abandono a que os pastores deixavam as freguesias, pela falta de casas paroquiais, pela carência de
escrituração regular do movimento religioso, pela ruína adiantada de muitos templos, etc., sabendo
providenciar com energia e eficácia acerca de todos aqueles males, o que particularmente conseguiu com as
visitas pastorais que realizou em todas as igrejas da diocese.
O antigo paço episcopal, de que ainda resta uma parte considerável, e a capela contígua de S. Luiz hoje
profanada, foram construídos por seus esforços e diligências, e junto do mesmo paço e também nas
dependências deste instalou o seminário diocesano, cuja direcção e engrandecimento lhe mereceram os
seus especiais cuidados.
Reuniu um sínodo diocesano em 1587 e nele foram promulgadas umas novas Constituições Diocesanas para
se reunirem ás Constituições ordenadas pelo bispo D. Jeronimo Barreto e que foram impressas em Lisboa
em 1601.
Criou de novo a paróquia de São Pedro que tinha sido extinta, deu um novo regimento ao cabido da Sé
Catedral, aumentou as côngruas paroquiais, reformou inteiramente a chancelaria episcopal e remodelou
muitos outros serviços eclesiásticos, o que tudo lhe conferiu o título dum prelado eminentemente
reformador e que deixou nas crónicas deste bispado as mais honrosas tradições, devendo acrescentar-se que
era de uma grande austeridade de vida, de um impecável proceder e de uma irrepreensível conduta na
administração de todos os negócios da sua diocese.
Morreu nesta cidade a 26 de Novembro de 1608 e foi sepultado na capela de S. Luiz, que ele erigira junto do
Paço Episcopal. Estando profanada esta capela, mandou o saudoso bispo D. Manuel Agostinho Barreto
trasladar em 1903 os restos mortais daquele prelado para a Sé Catedral, sendo inumados a dentro do
guarda-vento e cobertos com a lápide de mármore lavrado que estava sobre a sua sepultura na referida
capela de S. Luiz.
Figueiroa (Francisco Anacleto de)
Era coronel de milícias e morreu no Funchal no ano de
1810. Nada sabemos a seu respeito que o torne digno de menção, mas a morte horrível que encontrou no
fundo duma sepultura merece aqui registo especial. Num documento oficial deparámos com a seguinte
informação: «Francisco Anacleto de Figueiroa, coronel de milícias, foi dado por morto no Funchal onde
residia. Conduziram-no ao carneiro tumular de João Gonçalves Zarco, no convento de Santa Clara.
Passados anos, outra morte na família obrigou a visitarem o carneiro, e, junto do pesado gradeamento da
entrada, no fundo sombrio da escadaria, deparou-se o esqueleto de Figueiroa, estreitando os ferros num
ultimo desespero de atroz agonia».
Figueiroa de Albuquerque (Luiz)
Nasceu nesta cidade a 4 de Fevereiro de 1828 e morreu
no Caniço a 13 de Dezembro de 1904, sendo filho do tenente-coronel Luiz Agostinho Figueiroa de
Albuquerque e de D. Maria Vicencia de Freitas Bettencourt. Era homem de não vulgar ilustração, que
principalmente adquiriu na sua longa permanência no estrangeiro e em especial na capital da França.
Dedicou-se particularmente a estudos económicos, publicando um volume sobre esta matéria e muitos
artigos dispersos nos jornais. Exerceu os logares de presidente da Câmara Municipal do Funchal, de
secretario geral deste distrito e do de Ponta Delgada, de presidente da comissão administrativa da
Misericordia desta cidade e de vogal do antigo Conselho de Distrito, tendo também desempenhado
interinamente o lugar de Governador Civil deste arquipelago. Foi colaborador do antigo jornal o Povo e de
outros periódicos, publicando em separado os dois volumes Tratado Elementar de Economia Politica, de 171
pag., e o Compêndio Elementar do Novo Systema Geral de Pesos e Medidas, de 166 pag..
Filhos e Genros de Zarco
Dizem os antigos nobiliarios madeirenses que o descobridor João
Gonçalves Zarco teve três filhos e quatro filhas: João Gonçalves da Câmara, Rui Gonçalves da Câmara,
Garcia Rodrigues da Câmara, Helena Gonçalves da Câmara, Beatriz Gonçalves da Câmara, Izabel Gonçalves
da Câmara e Catarina Gonçalves da Câmara. Não são porém conforme os linhagistas no que diz respeito ao
lugar do nascimento dalguns destes filhos. Vários afirmam, e é essa a opinião mais seguida, que Gonçalves
Zarco ao fixar residência na Madeira com sua mulher D. Constança de Sá, trouxe o filho primogénito, que
foi o herdeiro da casa, e a filha D. Helena Gonçalves da Câmara. Parece que o primeiro filho nascido nesta
ilha foi Rui Gonçalves da Câmara. Deste e de João Gonçalves da Câmara, o segundo donatario do Funchal,
já nos ocupámos neste Elucidario. Os livros de linhagens dão Garcia Rodrigues da Câmara como filho
natural do descobridor, que sempre mereceu de seu pai a mais particular estima e foi dele um rico herdeiro,
tendo casado com a filha de Nuno Cardoso, instituidor do morgadio de S. João de Latrão, em Gaula, e
sucedendo na administração desta casa vinculada.
Dos dois filhos varões João Gonçalves da Câmara, 2.° capitão-donatario do Funchal, e Rui Gonçalves da
Câmara, 3.°capitão-donatario da ilha de São Miguel, procedem algumas das mais distintas famílias de
Portugal, como os condes de Vila Franca e de Atouguia, marqueses da Ribeira Grande, condes de Tarouca,
marqueses de Castelo Melhor e outros.
Tendo Gonçalves Zarco pedido a D. Afonso 5.° que lhe enviasse algumas pessoas de qualidade para casarem
com suas filhas, respondeu-lhe o monarca nos seguintes termos: "ahi vos mando quatro fidalgos para
casardes vossas filhas, que se vos os dotardes a elles segundo suas qualidades eu vos haverei por muito
honrado e a elles por bem dotados". Estes fidalgos casando com as filhas do ilustre descobridor, foram
troncos de numerosa descendência e todos instituíram nesta ilha importantes casas vinculadas.
Helena da Câmara, a filha mais velha, casou com Martim Mendes de Vasconcelos, que fez assentamento em
São Martinho, na margem esquerda da ribeira dos Socorridos, onde teve muitas terras de sesmaria e
também no Estreito de Câmara de Lobos. Foi sepultado na igreja do convento de Santa Clara, dizendo a tal
respeito o erudito anotador das Saudades da Terra:–«está na igreja do convento de Santa Clara do Funchal,
á entrada do lado direito, o sarcophago desse Martim Mendes de Vasconcellos, com inscrição de letra
gothica maiúscula, illegivel por gasta; mas no pavilhão adjacente, se vê uma grande lápide de mármore, e
nella o seguinte epitaphio:
Sª. DO CAPITÃO GASPAR MENDES DE
UASCONSELLOS Q. MANDOU FAZER
Pª. SI E SEUS ERDEIROS POR SE TIRAR
A PRIMEIRA CAMPA Q. AQUI SE POS
COMO DECENDENTE DO PRIMEIRO
MARTIM MENDES DE VASCONSELLOS
QVE AQUI JAZ E PASSOU A ESTA ILHA
A CASAR COM ELENA GLIZ. DA CAMARA
FILHA DE JOAO GONSALVES ZARCO
SEU DESCOBRIDOR DESTA. FOI FEITA
NA ERA DE 1710
É este o túmulo chamado de João Gonçalves Zarco e que como tal vem reproduzido pela gravura em muitas
obras principalmente estrangeiras. Vem a propósito dizer que o descobridor foi sepultado junto dos degraus
do altar da capela-mor, afirmando um antigo manuscrito «que a obra se ordenou de sorte que a sepultura
de Zarco ficou no meio da capela-mor, com um túmulo de pedra em cima tão alto que singularmente a faz
venerável e respeitosa». Diz-se que, muitos anos depois, as freiras conseguiram a remoção do aparatoso
mausoléu, que lhes interceptava a vista do altar, sendo talvez por essa ocasião que se tivesse procedido á
trasladação das cinzas do descobridor da Madeira para o jazigo de seu genro Martim Mendes de
Vasconcelos. É certo que em Março de 1919, quando se levantou o sobrado do pavimento da capela-mor da
igreja de Santa Clara, se encontraram apenas as lápides tumulares do segundo, terceiro e quinto capitãis-
donatarios do Funchal, sendo provável que ali se descobrisse a pedra sepulcral do túmulo de Gonçalves
Zarco se porventura os seus despojos mortais se achassem naquele recinto. Mas fez na verdade a
trasladação? E quando se realizou ela? Não sabemos.
D. Brites ou Beatriz Gonçalves da Câmara, segunda filha de Zarco, casou com Diogo Cabral, filho de Fernão
Alves Cabral, guarda-mor do infante D. Henrique, que teve vastos terrenos de sesmaria na Calheta, doados
por seu sogro. Cumpriu os votos e desejos de Zarco, edificando naquela freguesia a capela de Nossa Senhora
da Estrela (V. este nome). Morreu a 15 de Dezembro de 1486, e foi sepultado na capela de que foi o
fundador e que tornou a sede dum morgadio.
Foi terceira filha do descobridor, Isabel Gonçalves da Câmara, que contraiu matrimónio com Diogo Afonso
de Aguiar, dizendo Henriques de Noronha «que o dote que eu vi foi feito no ano de 1439». Era filho,
segundo uns, de José Afonso de Aguiar, primeiro tesoureiro da moeda de Lisboa, e, segundo outros, de
Pedro de Aguiar, que pertencia a uma antiga e nobre família do reino. Teve muitas terras de sesmaria nesta
ilha. Seu filho, D. Martinho de Aguiar, foi bispo de Ceuta e Tanger.
Garcia Homem de Sousa foi o fidalgo que contraiu matrimónio com Catarina Gonçalves da Câmara, quarta
filha de Zarco. Dizem antigas crónicas que era homem turbulento e que sustentara lutas sangrentas com
seus cunhados. No sítio de Santo Amaro, na freguesia de Santo Antonio, teve uma grande fazenda povoada
e ali edificou uma capela com aquela invocação. (V. Santo Amaro).
Filoxera. A invasão filoxérica na Madeira, diz F. de Almeida e Brito num relatório publicado em 1883, foi
verificada em 1872, havendo a esse tempo já muitas vinhas perdidas e terrenos completamente devastados
nos concelhos do Funchal e Câmara de Lobos, o que faz supor que a doença já aqui existia desde 1865, pelo
menos. Segundo o mesmo agrónomo, a praga foi trazida para a Madeira em bacelos da Izabella, ou vinha
americana, admitida á cultura por causa da sua provada resistência ao oidium ou mangra, sendo esta
opinião partilhada por muitos viticultores da ilha, que haviam seguido de perto a marcha e o
desenvolvimento da nova moléstia.
Por varias vezes tinham os madeirenses solicitado do governo que lhes facultasse os meios de resistirem ao
terrível flagelo que devastava os vinhedos da ilha, mas só em 1883 foram atendidos em parte esses pedidos,
sendo mandado aqui, no mês de Junho, o inspector Almeida e Brito, que imediatamente empreendeu uma
campanha de luta contra a filoxera, coadjuvado por alguns proprietários, pelo intendente de pecuária
Salvador Gamito de Oliveira e pelo presidente da comissão distrital antifiloxérica, o falecido João de Sales
Caldeira.
Em 1873 tinha um súbdito inglês aplicado resina e essência de terebintina, dissolvidas em água quente, nas
raízes de muitas videiras doentes, mas embora este tratamento ajudado por abundantes estrumações, desse
resultado, não foi possível generalizá-lo, pelo preço por que ficava aos proprietários.
Em 1883, no mês de Fevereiro, foi aplicado pela primeira vez o sulfureto de carbono nalgumas vinhas
madeirenses, sendo este o sistema de tratamento adoptado depois em toda a ilha, com o fim de salvar as
plantações que ainda existiam. Numa propriedade do alto de S. João estabeleceu-se, por indicação do
referido inspector, um posto de tratamento, tendo anexo um deposito de sulfureto de carbono e injectores,
verificando-se que as vinhas que exibiam ainda bastante vigor melhoravam sempre pelo emprego daquele
insecticida, que era usado na dose de 28 e 24 gramas por metro quadrado, em tratamento simples.
Para tornar possível a replantação dos terrenos devastados, por meios de híbridos e cepas americanas
dignos de confiança, estabeleceram-se dois viveiros de estacas e barbados, um no Ribeirinho e outro no
Torreão, sendo distribuídos já em 1883 cerca de 60.000 bacelos pelos proprietários da ilha: A Riparia, o
Jacquez, o Herbemont, a Rupestris, a Solonis, a Taylor, o Clinton, o Elsimbro e o York Madeira foram as
cepas que primeiro foram cultivadas nos referidos viveiros, vindo depois a Cunningham, a Viala, a Elvira, o
Othelo, a Cinerea, a Black Pearle o Gaston Bazile. Segundo declarava o inspector Almeida e Brito no seu
relatório, a Taylor era a cepa que devia ser empregada com maior confiança na Madeira, pois que tinha «já
sete anos de prova, vegetando admiravelmente em terrenos filoxerados».
Mostrou a experiência que esta cepa se não adaptava tão bem como outras aos terrenos da ilha, e por isso
foi ela pouco a pouco sendo substituída pela Riparia, pelo Herbemont, pela Cunningham e pelo Jacquez,
sendo este ultimo o cavalo preferido de há muito para a enxertia dos garfos da vinha europeia.
Examinando umas preparações muito bem feitas de filoxeras nas suas diferentes fases, feitas pelo súbdito
inglês Leacock, o inspector Almeida e Brito não achou nelas insectos hibernantes, como há no continente, o
que o levou a concluir que aquele parasita tem na Madeira uma vida de constante actividade, sendo este o
motivo da intensidade e rapidez com que destruiu os formosos vinhedos da ilha.
A filoxera só foi conhecida no Porto Santo por 1895, tendo sido as cepas dos terrenos argilosos as que mais
devastadas foram por ela. Nos terrenos arenosos poucas foram as vinhas atacadas por aquele insecto, que
decerto foi levado para aquela ilha em bacelos provenientes da Madeira.
Segundo o inspector Almeida e Brito a área de cultura da vinha em 1883 não excedia 500 hectares, podendo
a colheita ser avaliada em 3 500 pipas, quando antes do aparecimento da filoxera era aquela área de 2.500
hectares, elevando-se a produção a 16 000 pipas.
Há muito que a filoxera e as tuberosidades que ela produz não são observadas nas vinhas madeirenses, mas
isto não significa que o terrível hemiptero tenha desaparecido inteiramente da nossa ilha. A grande
dificuldade que há em conservar ou multiplicar as antigas castas, salvo enxertando-as em híbridos ou cepas
americanas resistentes, e o aparecimento do insecto no Porto Santo, muitos anos depois dele ter deixado de
ser assinalado na Madeira, levam-nos a crer que se não acha de todo extinta entre nós a Phylloxera
vastatrix, o mais cruel inimigo da Vitis vinifera, a planta que a partir do século XVI tanto concorreu pelas
suas abundantes e excelentes produções para fomentar a riqueza da ilha e garantir o bem estar de muitos
dos seus habitantes.
V. Vinhas.
Fischer (Dr.S.)
Ocupou-se dos entomostraceos madeirenses nas Transacções da Academia Real das
Sciencias da Baviera, 1855 .
V. Carcinologia.
Flor do Oceano (A)
Publicou-se o primeiro numero a 22 de Junho de 1828 e o ultimo a 22 de
Agosto do mesmo ano. Teve como redactores o Dr. Manuel Ferreira de Seabra da Mota e Silva, então juiz de
fora nesta ilha, Servulo Drumond de Meneses (V. este nome) e o advogado João de Bettencourt.
Com o mesmo título saiu outro jornal que foi o primeiro que se publicou entre nós depois da implantação do
governo constitucional. O primeiro numero é de 9 de Novembro de 1834 e o ultimo de 29 de Outubro de
1840. A numeração saiu seguidamente até o n.° 108, 23 de Dezembro de 1836. Nos anos seguintes a
numeração foi anual.
A 1 de Setembro de 1860 se publicou outro jornal com o título de Flor do Oceano, saindo o ultimo numero
que foi o 353º, a 31 de Agosto de 1867.
Flora. Como é geralmente sabido, encontram-se na Madeira em familiar e agradável companhia, respirando
o mesmo ar e iluminadas pelo mesmo sol, plantas de quasi todos os países do mundo, sem serem precisos
abrigadouros ou estufas para a grande maioria delas –circunstancia que dá logo a ideia da excelência do
clima e da bondade do céu que o cobre e protege. Representa um trecho reunido da flora de latitudes muito
diversas, deparando-se ao lado das espécies arboreas de porte altivo e majestoso dos países intertropicais
com as plantas humildes e rasteiras das regiões setentrionais. Na Madeira, como em todos os países
montanhosos, onde se observam variadas condições de clima, os vegetais acham-se repartidos dum modo
mais ou menos característico em zonas distintas. Na opinião de Lowe, essas zonas podem reduzir-se ao
numero de quatro: 1ª Zona, a dos cactos e bananeiras, que se estende da orla do oceano até cerca de 200
metros de altitude; 2ª Zona, da vinha e castanheiros, que compreende os terrenos de altitude de 150 a 750
metros; 3ª Zona, dos loureiros e urzes, de 750 a 1.650 metros; e 4ª Zona, a dos altos cumes, abrangendo
todos os pontos elevados que vão de 1.650 a 1.850 metros. Esta classificação não exclue a existencia de
outras plantas, que têm grande predomínio e extensão em cada uma dessas zonas, e assim temos a cana de
açúcar, cuja cultura é muito generalizada dentro da primeira e em parte da segunda das zonas referidas, o
mesmo acontecendo com respeito ao cultivo da vinha e ainda a muitos vegetais que são aqui largamente
cultivados. Na determinação dessas zonas reconhece-se facilmente o papel que o factor térmico exerce na
distribuição das plantas, havendo todavia numerosos factos que atestam que ele nem sempre está só na
delimitação das linhas de vegetação de certas especies.
É incontestável que os incêndios e a exploração agrícola provocaram o desaparecimento de muitas espécies
vegetais, talvez abundantes antes do povoamento, mas em compensação são numerosas as produções de
outros países que se têm naturalizado ou aclimado na Madeira, havendo algumas delas trazido á sua flora
modificações que se não harmonizam em muitos casos com a situação geografica da ilha. A cana de açúcar,
das Índias Orientais, a vinha, da Europa e Asia Central, o pinheiro marítimo, da Europa, as acácias, da
Australia e a abundancia, do México, são espécies mais ou menos aclimadas ou naturalizadas, que
imprimem em muitas partes á vegetação da nossa ilha um cunho que destoa bastante do cunho primitivo.
A flora actual conhecida do arquipelago da Madeira, compreende 931 fanerogamicas, 50 criptogamicas
vasculares, 265 muscineas e 916 talófitas, mas se pusermos de parte as plantas naturalizadas, fica o grupo
ou divisão das fanerogamicas apenas com 641 espécies e o das criptogamicas vasculares com 45. No grupo
das faneragamicas há 104 espécies que consideramos endémicas e 55 que são comuns ao arquipelago da
Madeira e a outros grupos de ilhas do Atlântico, o que equivale a dizer que das referidas 641 espécies a que
costumamos chamar indígenas, 159 se não encontram nas regiões continentais próximas, embora sejam
provavelmente legítimos representantes duma flora ali existente outrora.
Conhecem-se no nosso arquipelago 106 vegetais lenhosos indígenas, entre árvores, arbustos e subarbustos,
estando os dois primeiros grupos, que são os mais importantes, representados por 34 espécies, 10 das quais
são europeias, 1 da Madeira e Açores, 3 da Madeira, Açores e Canárias, 11 da Madeira e Canárias e 9
peculiares ou endémicas. Distribuem-se estas espécies por 22 famílias, 4 das quais se não encontram na
Europa, estando, porém, uma delas representada no vizinho império de Marrocos.
Se as fanerogamicas e criptogamicas vasculares madeirenses se podem considerar bem estudadas, graças ás
pacientes investigações do barão de Castelo de Paiva, João M. Moniz, Mandon, Lowe, Carlos de Menezes,
Pe. Gonçalves da Costa e outros, o mesmo se não pode dizer acerca das criptogamicas celulares, muito
embora sobre alguns grupos delas existam trabalhos dignos do maior apreço e que muito facilitam a
determinação das espécies. São os musgos, os líquenes e os fungos as plantas celulares que mais têm
merecido as atenções dos colectores, não significando isto, porém que se um dia se fizerem explorações
metódicas e cuidadosas em muitas regiões da ilha, não venha a resultar daí descobrirem-se muitas espécies
dos mesmos grupos não assinaladas até agora na nossa terra.
Os distintos homens de ciência Richard Thomas Lowe, súbdito britanico, e Carlos Azevedo de Meneses,
ilustre madeirense, foram os botânicos que mais desenvolvidamente estudaram a flora desta ilha, deixando
largos e notáveis trabalhos, que têm sido devidamente apreciados e elogiados pelos sábios que cultivam esta
especialidade cientifica.
Vid.
Algas, Equisetaceas, Fetos, Cogumelos, Hepaticas, Musgos, Líquenes, licopodiaceas, Selaginelaceas e
Fanerogamicas.
Florença. Provem este apelido de João Salviati, natural de Florença, que, com vários membros da sua
família e outros compatriotas se uniram na defesa da sua pátria contra a opressão e tirania dos Medicis, por
meados do século XV. Sendo mal sucedidos, foram alguns deles enforcados e outros tiveram que procurar
no exílio e na fuga abrigo seguro contra as perseguições dos partidários dos Medicis. Um arcebispo, tio de
João Salviati, foi enforcado numa das ameias do seu palácio, tendo este encontrado na Madeira asilo á
perseguição que lhe moveram. Teve aqui distinto acolhimento em atenção á causa nobre que defendera e á
sua ascendência fidalga, sendo-lhe conservados os privilégios da nobreza de que gozava na sua pátria. Teve
terras de sesmaria na margem da ribeira dos Socorridos, na freguesia de Câmara de Lobos, onde fez
assentamento, e também na freguesia do Arco da Calheta, no sítio que ainda hoje conserva o nome de
Florenças e onde um seu descendente, por nome João Homem de El-Rei, instituiu um morgadio.
Flores da Madeira
O Dr. José Leite Monteiro e o cónego Alfredo César de Oliveira (V. estes
nomes) publicaram em 1871 e 1872 dois volumes de 210 e 190 paginas, em que coligiram cerca de cem
poesias de poetas madeirenses seus contemporâneos e a que puseram o título de Flores da Madeira. Esta
colecção, que é um elemento valioso para o estudo da nossa literatura, mereceu as mais elogiosas
referências ao eminente publicista Teofilo Braga num artigo que foi transcrito no n.° 5 do jornal A lâmpada,
que se publicou nesta cidade no ano de 1872.
Florosa. Na Ribeira Brava e em outras freguesias dão este nome ao papinho.
Focas
As focas são geralmente chamadas lobos marinhos e no artigo dedicado á freguesia de Câmara de
Lobos (pag. 210, 1.° vol.) ficou explicado o motivo do nome dado a essa paróquia. Estes mamiferos anfíbios,
que abundavam nos mares do nosso arquipelago, desapareceram quasi inteiramente destas paragens e só
de longe em longe têm sido capturados alguns desses animais. Ainda há poucas dezenas de anos não era
raro o seu aparecimento nas vizinhas ilhas Desertas, onde os pescadores lhes davam caça. Sobre este
assunto, é interessante ler-se o que se encontra a pag. 79 e seguintes do livro de A. Artur Sarmento
intitulado Mamíferos do Arquipelago da Madeira.
Focinho de Burro. Escrofulariacea frequente no Porto Santo e que também tem sido achada na freguesia de
Sant'Ana, na Madeira. O seu nome cientifico é Bellardia Trixago.
Fogo do Céu. No dia 26 de Julho de 1593 deu-se nesta ilha um fenómeno de incandescência atmosférica,
que nas cronicas madeirenses ficou conhecido pelo nome de Fogo do Céu.
Nos dias 24 e 25 do mês e ano referidos soprara violentamente o conhecido «vento leste» acompanhado de
tão intenso calor, que, no dizer duma testemunha coeva do acontecimento, «não havia pessoa viva que. . .
sahisse de casa nem abrisse janela, nem se podia sofrer dentro das casas, nem se podia nestas estar por ser o
ar tão quente que tudo era cuidarem que pereciam e o vento era tal que parecia queimava os ossos, cousa
que jamais os homens viram nestas partes».
Tornou-se cada vez mais intenso o calor e pelo começo da noite no dia 26 era já bem visível o raro mas
conhecido fenómeno de incandescência atmosférica, que pelas 11 horas se transformou num pavoroso
incêndio, queimando toda a vegetação e reduzindo a um enorme braseiro um numero considerável de
habitações.
O incêndio manifestou-se nas casas de Tristão Gomes de Castro, não se podendo determinar com precisão
se seria provocado pela incandescência do ambiente ou se pela queda de uma faísca eléctrica. Dentro de
quatro horas arderam cento e cinquenta casas de habitação, entre as quais se encontravam alguns dos mais
ricos e importantes moradores da cidade. Os prejuízos causados foram consideráveis, sobretudo nas
culturas agrícolas, destruindo a colheita das uvas e danificando também os canaviais, além da devastação de
todas as verduras, o que tudo fez elevar esses prejuízos a muitas centenas de milhares de cruzados. As casas
incendiadas eram de madeira na sua maioria, mas muitas continham grandes cabedais, ardendo também
alguns armazéns, onde se encontravam arrecadados milhares de arrobas de açúcar destinados a embarque.
Foi esta indubitavelmente, uma das maiores calamidades que assolaram a Madeira, ocorrida apenas vinte e
sete anos depois do terrível saque e matança dos huguenotes franceses, ainda de mais tristes e lamentaveis
consequências do que o espantoso Fogo do Céu.
Fojo
Escavação a oeste da Ponta da Cruz e da qual já falámos a pag. 230 do 1º vol. deste Elucidario. O
mar é visível ao fundo desta escavação, a qual comunica com ele por meio dum canal subterrâneo.
Folclore
Está ainda por elaborar um estudo, embora de caracter elementar, acerca do folklore
madeirense, em que as crenças, tradições e usanças populares deste arquipelago tenham sido postas em
saliente relevo, não somente debaixo do restrito ponto de vista das ingénuas canções empregadas pelo povo
mas também sob um aspecto de maior generalidade, abrangendo deste modo os velhos costumes regionais
nas suas mais variadas e caracteristicas modalidades. No entretanto diremos que varios escritos dispersos
de Adolfo de Noronha, A. Artur Sarmento, Carlos Santos, E. Antonino Pestana, J. Reis Gomes e visconde do
Porto da Cruz fornecem elementos apreciáveis para esse estudo. Nos artigos Bucho Encostado, Costumes
Antigos, Crenças Populares, Indumentaria, Lendas, Medicina Campestre, Mau Olhado, Natal, Procissões e
Romaria deste Elucidario encontram-se também diversas noticias e informações que podem aproveitar ao
mesmo estudo.
Folhado (Clethra arborea)
Pequena árvore da família das Ericaceas, frequente na Camacha e
em muitos outros pontos da Madeira. Tem fôlhas oblongas ou oblongo-lanceoladas, ferruginoso-
pubescentes nos peciolos e nas nervuras da pagina inferior, e flores brancas, aromáticas, dispostas em
cachos formando panicula. Os troncos novos e os rebentões desta árvore dão magnificos bordões ou
hasteas, muito usados na ilha, e da madeira fazem-se colheres, fusos, etc..
O folhado é uma árvore peculiar na Madeira e é a única espécie do género Clethra, que vive no estado
espontâneo fora da América.
Fome na Madeira em 1757
Em Setembro de 1757 houve fome na Madeira, em razão de haver
faltado o pão. Segundo se lê num oficio dirigido pelo governador Manuel Saldanha da Gama a Tomé
Joaquim da Costa Corte Real, nalguns pontos da ilha o povo só de raízes, flor de giesta e frutos se
alimentava, mas a crise foi pouco duradoura, pois que em Novembro seguinte já a ilha se achava abastecida
de cereais. É curioso que o povo utilizasse na sua alimentação as flores de giesta, quando tinha muitas
plantas, tais como os agriões, as azedas, as rabaças, as labaças e até mesmo as urtigas e as serralhas, dotadas
de um sabor mais agradável do que as referidas flores.
Em 1757 ainda as semilhas não tinham sido introduzidas na Madeira, mas a batata doce já aqui era
cultivada, não sabemos se em tão larga escala como actualmente.
Fome na Madeira em 1846 e 1847
Morreu uma boa parte da população madeirense os
horrores da fome durante os últimos três meses de 1846 e os primeiros meses de 1847, por haver faltado a
semilha, então o principal alimento das classes pobres, destruida por uma moléstia, antes disso
perfeitamente desconhecida na ilha. Se a população dos campos dispusesse dos meios precisos para
adquirir outras subsistências e estas abundassem na ilha seria menos terrível a crise que a afligiu, mas
desgraçadamente veio juntar se á molestia das semilhas um decrescimento notavel no preço dos vinhos, o
que trouxe como consequencia a miséria entre os agricultores e os pequenos proprietários rurais, cujos
recursos pecuniários provinham quasi exclusivamente da venda dos mostos aos negociantes.
Felizmente era a Madeira governada desde os princípios de Outubro de 1846 pelo conselheiro José Silvestre
Ribeiro, o homem que a tudo atendia com zelo e uma dedicação verdadeiramente notáveis, sendo devido ás
providencias acertadas que ele imediatamente adoptou, que pôde ser atenuada a violência do mal e
abreviada a sua duração.
No dia 15 de Outubro de 1846 houve na secretaria do Governo Civil uma reunião das principais autoridades
e funcionários do distrito, convocada pelo governador, em que foi deliberado que os três clavicularios do
cofre central adiantassem até á importancia de réis 1 500$000 para as obras do desentulho das ribeiras, e
pouco depois conseguia o mesmo Governador que a Comissão Central de Auxílios, criada por ocasião da
aluvião de 1842, aplicasse ás mesmas obras a importância de 282$000 réis, que ainda tinha em cofre, o que
permitiu dar trabalho, e por consequência recursos pecuniários, a um grande numero de homens que
lutavam com a miséria.
Como houvesse no mercado grande falta de géneros, fez o conselheiro José Silvestre Ribeiro com que a
Câmara Municipal da cidade fosse autorizada a receber do referido cofre central a soma necessária para a
compra e distribuição pelo povo, pelo preço do custo, de uma grande porção de milho que um negociante
inglês tinha em deposito, ao mesmo tempo que conseguia que vários negociantes e alguns proprietários
contribuíssem, segundo as suas posses, para um fundo especial, destinado á aquisição de mantimentos nos
países que pudessem fornecê-los em condições vantajosas. Por essa ocasião constituiu no Funchal, ainda
por inclinação do mesmo Governador, uma emissão de 7 membros, nacionais e estrangeiros presidida pelo
Bispo, para solicitar donativos em beneficio dos indigentes, ficando resolvido que essa comissão
estabelecesse comissões filiais em todas as paróquias para obterem socorros em dinheiro e em géneros, e
distribui-los pelos pobres.
Até 25 de Maio de 1847 reuniram os negociantes da cidade e alguns proprietários um fundo de 32.500$000
réis para a compra de comestíveis, tendo a comissão encarregada da gerencia desse fundo apresentado até
aquela data os seguintes géneros: em Março, 2 moios de feijão; em Abril, 100 moios de milho, 100 de trigo,
1250 barris de farinha e 194 sacas de arroz; e em Maio 557,5 quintais de milho. Outros mantimentos
entraram ainda na cidade, não mandados vir, porém, pela referida comissão.
Esta comissão procedendo á liquidação dos géneros que adquirira, não só conseguiu embolsar os
negociantes das importâncias com que haviam contribuído, mas até apurou um saldo de 1.755$55 réis, que
a Câmara Municipal do Funchal veio a aplicar em 1848 á construção da ponte do Ribeiro Seco.
Em fins de Fevereiro de 1847, quando era maior a falta de subsistências, chegou a haver receios de tumultos
graves, pois era grande a irritação do povo contra os negociantes, que eram alcunhados de monopolistas e
de inimigos das classes pobres; mas felizmente não chegou a ser alterada a ordem, tendo concorrido
bastante para isto a circunstancia de alguns desses negociantes, receosos do que podia vir a acontecer-lhes,
haverem resolvido expor á venda o milho e o trigo que tinham em deposito em condições vantajosas para o
publico.
Houve dias no mês de Fevereiro em que grande parte do povo se sustentou com a cana de açúcar, e alguns
passos se deram para que os engenhos a não moessem para aguardente e melaço.
Os tesoureiros das comissões filiais das paróquias muitas vezes encontraram dificuldade em dar aplicação
ao dinheiro que recebiam, por isso que não encontravam géneros á venda, ou apenas se lhe deparavam
pequenas quantidades deles. Foi necessário distribuir rações de carne e de peixe fresco as pessoas a quem
eram destinados os socorros, para estas não morrerem de fome.
As medidas extraordinárias tomadas pelo Governador com respeito ao levantamento de dinheiro do cofre
central para acudir com pronto remédio aos males que afligiam o povo do arquipélago, mereceram a
aprovação do Governo, mas tendo o mesmo Governador solicitado um credito de 30 contos para obras
publicas do distrito, só lhe foi permitido despender a importância de 2.500$000 réis, além da que estava já
autorizada para as mesmas obras pelo credito do ano económico.
A fim de beneficiar os povos do arquipélago, reduziu o Governo a 25 réis o direito de importação do trigo de
produção estrangeira e isentou do pagamento do terço exigido pela lei de 2 de Agosto de 1839 para as
imposições municipais, todos os demais cereais quer em grão, quer em farinha. Estas disposições só
vigoraram, porém, até a época das colheitas no arquipélago.
Em 1 de Março fez o Governador com que saísse dos cofres públicos mais a importância de 3 contos de réis
para a compra de comestíveis destinados ás pessoas verdadeiramente necessitadas das diferentes
freguesias, que não pudessem trabalhar ou não tivessem trabalho, e na noite de 17 de Abril houve no
pequeno teatro da cidade, a pedido do mesmo Governador, uma récita de caridade, representando-se o
drama de Ducange e Dinaux Trinta anos ou a vida de um jogador, que tinha sido ensaiado pelo Dr. Luiz da
Costa Pereira. Na noite de 26 de Abril foi o mesmo drama novamente á cena, tendo-se prestado
gostosamente todos os actores, tanto desta como da primeira vez, a desempenhar gratuitamente, e até com
despesas suas, os papéis que lhe haviam sido distribuídos.
"Durante a crise da fome, diz o Dr. Azevedo nas notas ás Saudades da Terra, uma commissão composta dos
Srs. George Stoddart, John Howard March, George Hasch e Richard Davies, promoveu subscripções no
estrangeiro, o producto das quais foi o seguinte: de Hamburgo, 556$520 reis,- em dinheiro; da Russia,
873$60O reis, em dinheiro; dos Estados Unidos da América, 19.660$780, em mantimentos, e reis
3.215$190, em dinheiro; da Inglaterra e Irlanda, 48$000 reis, em mantimentos, e reis 10.073$080 em
dinheiro. Na capela britannica desta ilha, depois de um sermão sobre a caridade pelo Rev.° T. K. Brown,
foram então offertados 464$000 reis em dinheiro. Também aquella commissão sollicitou dos inglezes,
americanos e allemães n'esta ilha uma subscrição, a qual, incluindo as offerendas individuaes dos referidos
quatro membros, produziu 2.536$600 reis, em dinheiro. O total destes donativos, comprehendendo 54$554
reis de premio sobre os soberanos importados, subiu a 37.482$324 reis».
Devido aos relevantes serviços do conselheiro José Silvestre Ribeiro e á leal coadjuvação que a este ilustre
funcionário prestaram as câmaras municipais, os administradores do concelho, as comissões de socorros,
vários estrangeiros e até mesmo alguns negociantes, já em fins de Abril de 1847 tinha melhorado bastante a
situação do povo madeirense. Todavia só mais tarde é que tudo se normalizou, quando pelo
desenvolvimento que tomou a cultura da batata doce, pela extinção da moléstia das semilhas e pela entrada
de grandes porções de cereais vindas do estrangeiro e de algumas colónias portuguesas, ficou inteiramente
assegurada a subsistência da população.
Os três primeiros meses do ano de 1847 foram para os madeirenses uma quadra de miséria e de desolação;
no entretanto não consta que ninguém conseguisse acumular grandes riquezas á custa das desgraças do
povo, como sucedeu em épocas mais recentes, nem que qualquer autoridade ou funcionário deixasse de
cumprir honestamente o seu dever. O direito de propriedade foi respeitado, e se alguns géneros subiram de
preço, não foi isso por falta de previdentes medidas adoptadas pelas autoridades.
Em 1 de Março de 1847 dizia o Governador aos Administradores do Concelho que se os moradores das
freguesias dos campos se arrojassem a vir á cidade com o criminoso intento de obrigarem os negociantes a
expor á venda milho que supunham existir ainda nos armazéns, "estava disposto a escarmenta-los muito
severamente e por maneira que a lição lhes lembrasse por longos annos», mas ao mesmo tempo que
procurava fazer respeitar o direito de propriedade, publicava um edital em que convidava todos os
negociantes de cereais que tivessem algum milho guardado, a manifesta-lo imediatamente perante a
Câmara, a fim de ser reduzido a farinha e exposto á venda nas condições que anteriormente tinham sido
estabelecidas.
O conselheiro José Silvestre Ribeiro não tinha contemplações com ninguém em se tratando de zelar os
interesses do povo, sendo devido a esta circunstancia que o mais completo sossego reinou sempre e que
todos sofreram sem um protesto digno de nota as desgraças que oprimiram a Madeira nos anos de 1846 e
1847.
Na Collecção de documentos relativos á crise da fome, publicada por Servulo Drumond de Meneses em
1848, encontram-se assinaladas todas as providencias adoptadas por José Silvestre Ribeiro para minorar os
sofrimentos do povo enquanto durou a mesma crise, deverão os estudiosos recorrer a esse trabalho, se
porventura quiserem conhecer com mais pormenores, os benefícios que os madeirenses ficaram devendo
àquela autoridade na quadra calamitosa que a ilha atravessou.
V. Doenças.
Fome no Porto Santo
A crise que a Madeira atravessou no ano de 1847 também se fez sentir na
vizinha ilha do Porto Santo. Por diferentes vezes foi preciso enviar para ali socorros em géneros e em
dinheiro, mas a pesar disso, «decerto não poderia o povo resistir a tão grande flagelo, dizem os Annais do
Porto Santo, a não ser a grandissima abundância de peixe, principalmente cavalas, que se chegaram a
vender a 50 por meio tostão».
Em 1802 em 1806, em 1815, em 1816 e em 1829 houve também fome no Porto Santo, tendo sido preciso
enviar para ali socorros em géneros, e depois de 1847 ainda aquele flagelo se fez sentir mais algumas vezes
naquela ilha, como por exemplo em 1850, em 1854, em 1855 e em 1883.
Por ocasião da fome de 1850 tomou o Governador José Silvestre Ribeiro sobre si a responsabilidade de
mandar sair dos cofres públicos o dinheiro preciso para a compra de 75 moios de cereais destinados ao povo
da vizinha ilha, assim como conseguiu que dois vasos de guerra americanos que apareceram no porto do
Funchal contribuíssem com 8 moios de milho para o mesmo fim.
As estiagens prolongadas a que está sujeita a ilha do Porto Santo são a causa principal da miséria e da falta
de subsistências que se notam ali em certos anos. Quando é grande a seca, são insignificantes as colheitas, o
que constitue a maior das desgraças num país em que uma grande parte da população vive apenas dos
recursos que fornecem as terras.
Fonseca (Dr. Augusto de Arzila)
Nasceu no Funchal a 21 de Outubro de 1853. Formou-se
em 1883 na Universidade de Coimbra em filosofia e matemática, e em 1884 doutorou-se na ultima destas
faculdades, havendo antes concluído o curso de infantaria na Escola do Exército, em que foi o primeiro
classificado. Por ocasião do seu doutoramento publicou a sua These de mathematica pura e applicada. Em
1885 foi nomeado lente substituto da Universidade. Publicou: Princípios elementares de quaterniões à
mecanica. Faleceu a 17 de Fevereiro de 1912.
Fonseca (Dr. José Maria Martiniano da)
Os medianamente versados em assuntos de
historia pátria sabem que no dia 7 de Maio de 1829 foram justiçados na Praça Nova da cidade do Porto dez
individuos, vitimas da intolerância do governo miguelista. Entre eles contava-se o madeirense Dr. José
Maria Martiniano da Fonseca, como já referimos no artigo consagrado ao conselheiro José Ferreira
Pestana.
Pouco sabemos da biografia do Dr. Martiniano da Fonseca e se não fora a sua trágica morte, é possível que o
seu nome tivesse ficado inteiramente desconhecido para nós. Nasceu na freguesia da Sé desta cidade a 16 de
Outubro de 1794 e era filho de José Maria da Fonseca, inspector geral da Agricultura, e de D. Ricarda
Umbelina Spinosa. Formou-se em leis pela Universidade de Coimbra e exerceu a advocacia no Funchal.
Tendo-se organizado na cidade do Porto uma junta revolucionária destinada a combater a usurpação
miguelista, quis o governador e capitão-general da Madeira, Travassos Valdez, aderir ao movimento
iniciado por essa junta e pôr-se em comunicação directa com ela por intermédio de pessoa idónea e de
inteira confiança que pudesse cabalmente desempenhar a importante e arriscada missão de que ia
encarrega-la. A escolha recaiu no Dr. José Maria da Fonseca, que saiu do Funchal a bordo dum navio
americano a 30 de Junho de 1829 e entrou no Porto a 13 do mês seguinte, ao tempo em que já nesta cidade
se tinha reconhecido o governo de D. Miguel. Era critica a situação do emissário do governador da Madeira,
que tentando aproximar-se do desembargador Caldeira Velez, secretario da Junta revolucionária, foi preso
por suspeitas e conduzido ás cadeias da Relação. Uma busca feita ao seu domicílio e os papéis que aí
encontraram, que era a correspondência de Travassos Valdez, tornaram em certeza aquelas suspeitas.
O Dr. José Martiniano da Fonseca estava para sempre irremediavelmente perdido. Depois de nove meses de
prisão, foi julgado com outros réus e a 9 de Abril de 1829 se proferiu a sentença condenando dez deles a
pena ultima e outros a diversas penas. A iniqua e revoltante sentença executou-se no dia 9 de Maio daquele
ano. Ergueram duas forcas no largo da Praça Nova e ali sofreram a pena capital os dez réus, sendo o Dr.
José Martiniano da Fonseca o oitavo que subiu os degraus da forca. Para se dar completa execução á
sentença, foram cortadas as cabeças ás vitimas e colocadas em diversos pontos da cidade. A do Dr. Fonseca
esteve exposta três dias em S. João da Foz, e no dia 12 de Maio a irmandade da Misericórdia a conduziu
para a sua capela e ali a fez sepultar juntamente com os despojos mortais dos outros réus sacrificados á
ferocidade do governo miguelista.
Sete anos mais tarde, a 6 de Fevereiro de 1836, se procedeu á exumação das cinzas daquelas vitimas, sendo
todas recolhidas numa urna e novamente sepultadas na igreja da Misericórdia, aguardando a oportunidade
de mais condigna e apropriada sepultura. Foi em 1875 que no cemitério do Prado do Repouso, no recinto
pertencente á Misericórdia do Porto, se levantou um elegante mausoléu destinado a guardar os despojos
mortais dos indivíduos justiçados no dia 7 de Maio de 1829 e de mais dois que sofreram igual pena no dia 9
de Outubro do mesmo ano. A trasladação dos últimos restos dessas vitimas, que ficaram conhecidas pelo
nome dos Doze Martires da Pátria, revestiu uma desusada e brilhantissima imponência, formando-se um
préstimo fúnebre em que tomaram parte milhares de pessoas e toda a guarnição do Porto, sendo um dos
mais aparatosos e significativos cortejos que se têm organizado no país, como se pode ver no opúsculo.
Memória Descriptiva da trasladação das ossadas dos Doze Martyres da Pátria, publicada no ano de 1878.
Fontainhas
Pequena elevação montanhosa na ilha do Porto Santo, não muito distanciada do Pico do
Facho.
Fonte Arcada (Pedro Joaquim de Magalhãis Iº visconde de)
Foi um ilustre
militar e casou nesta ilha com D. Luíza da Silva, filha de Manuel Dias de Andrade, que era o administrador
do morgadio dos Andrades. Fonte Arcada, que morreu em 1688, herdou esta casa vincular. Um seu
descendente e de sua mulher, Francisco Joaquim de Magalhãis, 4.º visconde de Fonte Arcada, diplomata
distinto e par do reino, administrou este importante morgadio e esteve nesta ilha em 1865 em visita ás suas
propriedades, tendo aqui colaborado num dos jornais do Funchal. Um seu descendente e herdeiro vendeu
há cerca de vinte anos todas as propriedades que possuía na Madeira.
Fonte da Areia (Ilhéu da)
ou simplesmente ilhéu da Fonte. Está situado a noroeste da ilha do
Porto Santo, não longe da costa e em frente do lugar conhecido pelo nome de Fonte da Areia. Altitude de
82m.
Fonte da Areia. (Ponte da)
ou somente Ponta da Fonte. Pequena saliência na costa marítima, a
noroeste da ilha do Porto Santo, no sítio daquele nome.
Fonte da Areia
Sítio na costa setentrional da ilha do Porto Santo, onde se acha a Ponta do mesmo
nome. Encontra-se ali um fontanário de boa água potável e é lugar bastante frequentado pelas pessoas que
visitam aquela ilha, fazendo-se muitas excursões a este local nos tradicionais carros de rodas do Porto
Santo.
Fonte da Bica (Pico da)
Elevação montanhosa no Paul da Serra, a 1 560 metros de altitude.
Fonte do Bispo (Pico da)
Eminência a cerca de 1300m de altitude, nas serras da freguesia da
Fajã da Ovelha.
Fonte do Norte (Pico da)
A 1540 metros de altitude, no Paul da Serra, fica esta elevação
montanhosa, próxima do lugar que chamam a Casa Queimada.
Fonte dos Ingleses
No sítio do Fanal, serras da Ribeira da Janela, há um pequeno lugar conhecido
pelo nome de Fonte dos Ingleses, que se recomenda pela sua amenidade e por uma fonte de cristalina água.
Fonte Vermelha
Na margem da estrada que comunica a freguesia de Santo António com a do
Curral das Freiras, não muito distante do sítio da Eira do Cerrado há um lugar com aquele nome e nele se
encontra uma fonte de água potável, construída no ano de 1847.
Fontes (Bataria das)
Foi entregue á Câmara Municipal em Março de 1898, sendo mandada
demolir para melhoramento dos terrenos a oeste da antiga Praça da Rainha, hoje Praça do Marquês de
Pombal. (1921).
V. Fortificações.
Fontes de João Diniz
A mais antiga referência que temos encontrado ás fontes de João Diniz é a
que se lê num documento tombado no tomo 3.° do arquivo da Câmara Municipal do Funchal e publicado
nas Saudades da Terra, que tem o título de Apontamentos & Regimento que se ha de ter nas obras de
forteficaçâo que ellRey nosso senhor mâdou fazer na cidade do Funchal. Diz assim: «E que das fontes da
fortalleza se recolha a parte que bem parecer da aguoa dellas em hum chafaris que se faraa no terreiro de
fora da fortalleza como sua alteza tinha mãdado por Pero da Sylva & do resto da dita aguoa se faram duas
biquas ou as que bem pareçer para os navios fazerem aguoada as quoaes biquas se poram ao longuo do
calhao ». O documento refere-se ao saque dos corsários franceses, que foi no ano de 1566, e pareceres pouco
posterior a esta época.
O nome que estas fontes conservam de João Diniz deve provir do seu primitivo proprietário ou de algum
indivíduo que tivesse feito a exploração delas. Já em 1590 lhes dava Gaspar Frutuoso este nome.
O Dr. F. A. Barral enaltece as boas qualidades da água destas fontes e dedica-lhes algumas paginas do seu
livro Noticia sobre o Clima do Funchal (pag. 139 a 141).
Em sessão de 7 de Abril de 1784 resolveu a Câmara Municipal «fazer uma defesa ou uma muralha em
condições de evitar que o mar em tempos invernosos continuasse a entulhar as fontes da cidade», sendo
essa obra orçada em 1 082$500 réis, e em 1841 foi construído o actual chafariz, desaparecendo por essa
ocasião as canhoneiras da bataria que ficava para o lado do mar, na fortaleza de S. Lourenço.
Em Março de 1896 foram as águas das fontes de João Diniz declaradas suspeitas pelo administrador do
concelho! Guilherme Teles de Meneses, o que não obstou a que o publico continuasse a abastecer-se delas
com tanta confiança como dantes. Realizaram-se no entretanto por essa ocasião algumas obras nas
canalizações do palácio de S. Lourenço a fim de evitar possíveis infiltrações susceptíveis de alterar a pureza
das mesmas águas.
Com as grandes obras de reparação realizadas no Palácio de São Lourenço, desapareceram as tão
conhecidas Fontes de João Diniz no mês de Novembro de 1939.
Fontes Pereira de Melo (António Maria de)
Este notável estadista português esteve na
Madeira em 1858, chegando aqui a 10 de Setembro, no bergantim Mariana, e partindo para Cabo Verde, no
mesmo navio, no dia 26.
Fontes Pereira de Melo que era então tenente de engenharia, visitou as obras da levada do Rabaçal.
Fontinha
Sítio na vila do Porto Santo, onde existe um chafariz cujas águas foram analisadas em 1893,
na Escola Nacional de Minas de Paris. O peso do resíduo encontrado num litro das mesmas águas foi de
1,728 gr., estando a sílica representada por 0,048 gr., o carbonato de sódio, compreendendo os carbonatos
alcalino-terrosos, por 0,891 gr., o sulfato de sódio por 0,290 gr. e o cloreto de sódio por 0,490 gr.. Segundo
o analista da mesma escola, a água mineral do Porto Santo, pode ser incluída entre as águas bicarbonatadas
e sulfato-sodicas, tendo a analise acusado muito pouca cal e magnesia e bem assim que a quasi totalidade do
acido carbonico dos bicarbonatos se encontra combinado com os álcalis.
São sem contestação consideradas como excelentes águas de mesa e delas se faz hoje um largo consumo na
Madeira, sendo também exportadas para fora do arquipélago. Encontra-se neste sítio um fontanário que
fornece essas águas ao publico e também o edifício da empresa concessionária, que as prepara e exporta
daquela ilha.
Fora (Ilhéu de)
É também conhecido pelo nome de Ilhéu do Farol. Adjacente á Ponta de São
Lourenço e dela apenas separado por um estreito boqueirão, fica o pequeno ilhéu chamado de Agostinho,
encontrando-se muito próximo deste o dos Desembarcadouros e a uma pequena distancia o ilhéu de Fora
ou do Farol. Os dois últimos acham-se entre si separados por um canal conhecido pelo nome de Boqueirão
Grande, que mede cerca de 180 metros de largura e 8 de fundo, dando fácil passagem aos vapores costeiros,
que por ali transitam frequentemente. É este ilhéu o ponto mais oriental da Madeira e nele se encontra
funcionando desde o mês de Setembro de 1870 um farol, que tem prestado relevantes serviços á navegação.
A respectiva lanterna fica a cerca de 100m acima do nível do mar e acha-se situada a 32° e 41, de latitude
norte e 16º e 39' de longitude oeste (Greenwich). É um farol de luz branca com clarões intermitentes, que se
avista a 25 milhas de distancia. Existe ali uma estação telegráfica ligada com a estação central do Funchal.
Encontra-se a sudoeste do ilhéu de Fora o perigoso baixio da Badajeira (V. este nome). A altitude deste
ilhéu é de 107m.
Fora (Ilhéu de)
A nordeste da ilha do Porto Santo e adjacente á sua costa marítima, fica o chamado
Ilhéu de Fora, também conhecido pelo nome de Rocha de Nordeste. Altitude de 100 metros.
Forais
Vários forais teve a ilha da Madeira mas os mais antigos apenas são conhecidos pela menção que
deles fazem certos documentos que lhes são posteriores, e as Saudades da Terra do Dr. Gaspar Frutuoso.
Nas cartas de doação das capitanias do Funchal e de Machico a João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz,
transcritas a pag. 453 e 456 das notas á referida obra de Frutuoso, refere-se o infante D. Henrique ao foral
que para a ilha mandou fazer, mas nem este foral, nem o que D. Afonso V deu em 1452 à então vila do
Funchal, se encontram registados nos arquivos municipais.
Numa Miscelânea manuscrita anónima, citada pelo Dr. Azevedo e que está na Biblioteca Nacional de
Lisboa, se lê que «em 1452 D. Affonso V deu foral á villa do Funchal com muitos privilégios, fazendo os
moradores de toda a ilha livres de pagarem siza, nem portagens, nem fintas das que naquelle tempo havia
no reino». 0 Dr. Gaspar Frutuoso cita o ano de 1472 como sendo aquele em que o dito foral foi concedido,
mas julga o Dr. Azevedo haver nisso erro ou do autor das Saudades, ou do copista, porquanto existem
registados no Arquivo da Câmara Municipal do Funchal vários documentos donde se vê que já antes
daquele ano estava criado o município funchalense.
O foral da cidade do Funchal (V. este nome) e das vilas da Ponta do Sol e da Calheta tem a data de 6 de
Agosto de 1515 e dele existe uma certidão em livro especial no Arquivo da Câmara Municipal desta cidade,
extraída do Livro das Ilhas, em 2 de Maio de Maio de 1736. É um documento por muitos motivos curioso e
que o Dr. Azevedo transcreve a pág. 494 das notas ás Saudades da Terra, assinalando os seus quarenta e um
capítulos os impostos a que estavam sujeitos os povos da capitania do Funchal, as formalidades que era
necessário preencher para o fabrico, transporte e exportação dos açucares, as multas em que incorriam os
jogadores, os excomungados e as pessoas que eram achadas com armas ou se serviam delas, etc., etc..
A pág. 507 das mencionadas notas transcreve o Dr. Azevedo o foral das vilas de Machico e Santa Cruz, o
qual pouco difere nos seus capítulos, do foral do Funchal e das vilas da Ponta do Sol e da Calheta. Tem a
data de 15 de Dezembro de 1515 e determinou no capítulo 2º que na capitania de Machico houvesse uma
alfândega, a qual poderia ser estabelecida em Machico ou Santa Cruz, «honde Sua Alteza depois declarar».
O lugar de S. Vicente foi feito vila e separada da jurisdição de Machico por alvará régio de 23 de Agosto de
1743, mas se lhe foi concedido foral, não temos deste conhecimento. Permitiram o referido alvará e a carta
de mercê de 25 de Agosto de 1744 que á nova vila fossem agregados os logares do Porto do Moniz, do Seixal,
da Ponta Delgada, do Arco de S. Jorge e de S. Jorge, «os quaes estavam todos distantes da vila de Machico,
por cuja causa experimentavam os seus habitantes as mesmas oppressões que os do logar de S. Vicente».
Por alvará de 17 de Agosto de 1508 mandou D. Manuel que a câmara da vila do Funchal fosse governada
como a da cidade de Lisboa, o que deu lugar a que desde logo fossem adoptadas aqui muitas disposições do
regimento desta ultima Câmara. No Arquivo da Câmara Municipal do Funchal existe um livro bastante
antigo e escrito por um dos melhores caligrafos da época, contendo o regimento e foral da Câmara
Municipal de Lisboa, no qual foram sendo introduzidas pouco a pouco certas alterações, algumas das quais
constam de notas lançadas nas margens do mesmo livro.
Segundo o referido regimento e foral, a mesa das vereações devia ter dez palmos de longo e seis de ancho,
sentando-se os vereadores todos três de «hua parte e despejados com o rosto ao povo». O vereador que
ocupava o meio era o encarregado de responder a «todalas partes aquillo que por todos era determinado &
acordado», mas este serviço só durava um mês, decorrido o qual outro vereador passava a desempenhar
aquelas funções. O escrivão ficava «assentado no banco do topo da mesa» e em frente dele o corregedor,
quando ia á Câmara, assim como os juízes do cível, crime, almotacés, procurador da cidade, juiz dos orfãos,
etc., etc., quando iam «desembargar os feitos das partes» ou os mandavam chamar. O viador das obras ou
contador da cidade, sentava-se, quando ia á Câmara, «no banco & topo do escrivão», não havendo banco
«na outra parte da mesa de contra o povo», mas uma grade que não devia ser mais alta que a dita mesa,
nem «torvar a vista dos vereadores ao povo».
É de crer que nas sessões da Câmara Municipal do Funchal, ao menos naquelas a que assistiam apenas os
membros desta corporação, o juiz ordinário, substituído mais tarde pelo juiz de fora, se sentasse numa das
cabeceiras da mesa, dando a esquerda aos vereadores e procurador do concelho, e que em frente dele se
sentasse o escrivão. O referido regimento, cuja redacção nem sempre é clara, dá origem a muitas duvidas,
sendo licito supor que sofresse varias modificações para poder ter aplicação ao senado do Funchal, visto não
terem nunca existido aqui certas entidades oficiais de que nele se faz menção.
Em sessão camarária de 22 de Dezembro de 1802 foi resolvido que dai em diante o presidente, isto é o juiz
de fora, «se sentasse na cabeceira da banca, tendo na sua frente o escrivão e ao lado, esquerdo os vereadores
por ordem das idades, sendo o ultimo logar ocupado pelo procurador do concelho» e que os mesteres se
sentassem ao fundo da mesa, «em postura tal que não ficassem embaraçados na cadeira do escrivão». Os
mesteres só tinham direito a «cadeiras rasas» ao passo que os restantes membros do senado deviam sentar-
se em cadeiras de espaldar, prerrogativa esta também concedida aos membros da nobreza, quando
assistiam ás sessões camarárias. O logar destes era defronte dos vereadores, e o juiz do povo quando vinha á
Câmara «sentava-se acima do mais velho dos mesteres».
No regimento e foral da Câmara Municipal de Lisboa encontram-se também disposições acerca das contas
da Câmara, obras, maneira de acompanhar o rei, procissões, nomeação dos almotacés e tesoureiro, etc., etc.,
devendo este ultimo ser pessoa fiel e prudente». Na procissão de Corpus Christi (V. Procissões) os
vereadores com suas varas vermelhas deviam ir «da parte direita del-rei e atraz delle, de maneira que nam a
par», não podendo outra qualquer pessoa ir «ao deante delle, senam da outra parte esquerda».
Como no Funchal o rei não podia acompanhar a procissão de Corpus Christi, era a Câmara quem neste
préstito religioso ocupava o primeiro lugar, seguindo logo atrás do pálio. Este mesmo lugar lhe foi garantido
pelo alvará de 2 de Abril de 1763, o que não obstou a que mais tarde um governador e capitão-general lho
quisesse disputar, sem para isso ter direito algum.
Algumas vezes na referida procissão o governador se colocou entre o primeiro e o segundo vereador e o
corregedor entre o procurador do senado e o escrivão, não sendo isto permitido, porém, nem pelo foral,
nem pela provisão de 1763, e em nossos dias vimos a Câmara ceder sempre o seu lugar ás autoridades, ou
por excesso de cortezia ou por desconhecimento dos diplomas que lhe permitiam seguir atrás do pálio
naquele préstito religioso.
Vid. Saudades da Terra, a pag. 888.
Foraminiferos
Cerca de 70 espécies destes protozoarios foram colhidas na Madeira pelo naturalista
inglês H. B. Brady. Encontram-se na areia, entre as algas marinhas, etc., e têm uma pequena concha ou
casca, provida de uma só abertura ou de numerosos orifícios.
Forel (Dr.)
Ocupou-se das formigas do arquipelago da Madeira nos Mittheilungen der Schweiz
Entom Gesellschaft.
As espécies estudadas pelo Dr. Forel foram colhidas pelo Revº Padre E. Schmitz.
Forerunner
Na tarde do dia 25 de Outubro de 1854 saiu do porto do Funchal o vapor inglês
Forerunner, procedente da costa de Africa e com destino á Inglaterra, conduzindo muitos oficiais do
exército britanico e o governador de Serra Leoa. Na altura da ponta de S. Lourenço, sendo já noite, topou o
vapor com um baixio que ali há, denominado a Badajeira, submergindo-se completamente e morrendo no
naufrágio três passageiros e onze tripulantes. Um barco de Machico que passava casualmente no local do
sinistro, prestou os melhores serviços no salvamento dos passageiros e tripulantes, sendo os homens do
barco elogiados pelo Governo Português em portaria, e condecorados com a medalha da Real Sociedade
Humanistica.
Forjaz Coutinho (D. Diogo Pereira)
Por Carta Regia de 26 de Setembro de 1781 foi D.
Diogo Pereira Forjaz Coutinho nomeado governador e capitão-general deste arquipelago e tomou posse
deste cargo a 15 de Novembro do mesmo ano.
Foi um dos governadores da Madeira que, pelo seu zelo e rectidão na administração das cousas publicas,
mais honrosas tradições deixou entre nós. Varias vezes foi reconduzido no exercício do seu lugar, a
instâncias do senado funchalense e de algumas representações do povo e da nobreza. A sua acção
governativa fez sentir em todos os ramos da administração publica, corrigindo muitos abusos, introduzindo
reformas e melhoramentos em muitos serviços e indicando muito frequentemente ao governo da metrópole
as medidas mais acertadas e indispensáveis para o engrandecimento e prosperidade deste arquipelago.
Foi um dos mais beneméritos provedores da Santa Casa da Misericórdia desta cidade, á qual prestou
relevantissimos serviços, conservando-se ainda hoje o seu retrato em tamanho natural na sala das sessões
da Mesa Gerente daquele estabelecimento. No vestíbulo do edifício se encontra uma lápide com o seu nome
e ano em que fez construir uma nova entrada que dá acesso ás enfermarias.
Levado por indicações do governo central e prestando auxilio ao bispo diocesano D. José da Costa Torres,
promoveu uma tenaz perseguição ás sociedades secretas que se haviam organizado na Madeira no ultimo
quartel do século XVIII. Daí resultaram muitas prisões e o embarque clandestino de vários indivíduos e
suas famílias na noite de 19 de Julho de 1792.
Era o que hoje chamamos um homem de espírito, manejando habilmente a sátira e a ironia, conservando-se
ainda na tradição local noticia de alguns episódios em que ele foi o espirituoso protagonista.
Deixou o governo do arquipelago, por motivo de doença, a 26 de Março de 1798 e veio a falecer nesta cidade
a 30 do mesmo mês, tendo sido sepultado na igreja do Carmo.
Formigas
Têm sido achadas na Madeira sete espécies de formigas, a mais vulgar das quais é a
Iridomyrmex humilis, oriunda das regiões intertropicais da América e introduzida de Demerara em 1886 ou
1887. Esta espécie, que apareceu primeiramente no Funchal, acha-se agora espalhada por toda ou quasi
toda a região baixa da ilha, atingindo nalguns pontos altitudes superiores a 500 metros. A antiga formiga
madeirense, a Pheidole megacephala ou Oecophthora pusilla, que se encontra também na Europa, tem
desaparecido gradualmente da ilha depois que esta foi invadida pela Iridomyrmex humilis.
Não se conhece na Madeira nem no Porto Santo espécie alguma peculiar, mas há duas variedades que
parecem ser próprias da primeira destas ilhas, que são a Plagiolepis pygmaea var. Schmitzii e o Tepinoma
erraticum var. maderense. A Stenamma structor, encontrada há mais de 40 anos no Jardim Municipal,
parece ser espécie introduzida.
O Monomorium Salomonis encontrado nas Selvagens, não aparece na Madeira, ao passo que o M.
carbonarium tem sido achado nesta ilha, em pontos não muito afastados do litoral.
Embora o Dr. Heer publicasse por meado do século XIX uma curiosa descrição da Oecophthora pusilla, só
muito mais tarde, graças ás investigações do revº padre Schmitz, é que as formigas da Madeira ficaram
sendo regularmente conhecidas. Das espécies colhidas no nosso arquipelago, ocuparam-se primeiro o Dr.
Forel (V. este nome) e depois o rev.° Schmitz, num artigo publicado nos Annaes de Sciencias Naturaes, do
Porto, e reproduzido nos nºs 5.709 e 5.713 do Diário de Noticias, do Funchal, do mês de Março de 1896.
Vid.
Subsidio para o estudo das formigas da Madeira por Alberto Artur Sarmento, 1937.
Fornos de Algodres (João Maria de Abreu Castelo Branco Cardoso e
Melo, Iº visconde e Iº conde de).
Nasceu em 1789 e morreu a 7 de Janeiro de 1878. Foi
nomeado governador civil deste distrito, sendo visconde de Fornos de Algodres, a 13 de Novembro de 1852,
tendo exercido este cargo cerca dum ano.
Forster (João Reinhold)
Este botânico alemão e seu filho João Jorge Adão Forster
acompanharam o capitão Cook na segunda viagem que este realizou aos mares do sul, tendo chegado ao
porto do Funchal a 29 de Julho de 1772. Os exemplares das plantas colhidas por eles nesta ilha estão nos
herbarios da Universidade de Kiel e do Museu de Historia Natural de Paris. Forster filho trata de algumas
plantas madeirenses em dois trabalhos com os títulos de Plantae Atlanticae (Goetting, 1787) e Herbarium
Australe (Goetting, 1797).
Fortificações
As sedes das duas capitanias da Madeira–Funchal e Machico, foram desde o começo
dois centros importantes de comercio e navegação, predominando o Funchal pelo seu amplo porto. João
Gonçalves da Câmara, 2.° donatario do Funchal, sabendo do dano que os mouros causavam no alto mar ás
embarcações mercantes e temendo um ataque á florescente vila, solicitou da infanta D. Beatriz, tutora de
seu filho D. Diogo, e administradora do mestrado de Cristo que se fizesse uma fortaleza para defensão do
porto, mas a infanta, pretextando muitas despesas havidas, foi adiando a obra.
D. Manuel, quando duque, providenciou para que se fizesse uma cerca na vila do Funchal, prometendo que
depois desta concluída, se passaria a idêntica fortificação na vila de Machico, porém, considerando os
encargos que isso traria, foi reduzindo o seu projecto a um baluarte apenas no Funchal, que seria pago por
acréscimo do tributo do açúcar e computado em 1:266$ anuais, grossa quantia nessa época, além de um dia
de trabalho obrigatório, de que somente teriam escusa os fidalgos.
Os trabalhos de fortificações, começaram somente no reinado de D. Manuel, iniciando-se o baluarte e
torreão, dando-lhe impulso as novas contribuições lançadas no reinado de D. João III, especialmente a
imposiçâo das carnes, modificando-se depois o projecto de defesa em 1572, que manda se faça fortaleza com
três baluartes, se derribem as casas que lhe são impedimento, se cortem os balcões da frontaria do calhau,
onde se hão-de construir os muros da cidade com cinco portas–duas ao sul para o mar, uma a leste e duas a
oeste, correndo as muralhas entre as ribeiras de João Gomes e de S. Francisco (hoje de S. João), a
entestarem nos morros da Pena e do Pico dos Frias.
O ataque dos corsários á cidade em 1566, feito pela Praia Formosa, fez com que se olhasse para a defesa da
costa, trabalhando-se nos entrincheiramentos em pontos que dominavam o mar, nas rochas a cavaleiro
sobre as povoações e que se chamavam fortes roqueiros, a cargo das vigias e superintendência dos capitãis-
cabos & os portos se empossebillytaram asy & da maneyra que se fez de camara dellobos atee a cidade.
No domínio filipino modificaram-se as regras da defesa consoante o traçado poligonal e foram conseguidos
os fortes de S. Tiago, S. Felipe, Loures e Penha de França, e iniciada a Fortaleza do Pico, no Funchal, S.
Roque em Machico e Castelo do Pico na ilha do Porto Santo.
No período da Restauração e século XVII se fizeram o reduto de Santo Antonio da Alfândega, Santa
Catarina e a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu, e se aumentaram os muros da cidade para
leste, a entestarem com a fortaleza de S. Tiago.
No século XVIII se construíram os fortes de S. Pedro e S. José da Pontinha, no Funchal; na costa até
Câmara de Lobos, os do Gorgulho, Engenhoca, Nossa Senhora da Ajuda, Praia Formosa, Nossa Senhora da
Vitoria, Pastel e S. Sebastião, em Câmara de Lobos; o de S. Bento, na Ribeira Brava; os da Madalena do
Mar, Ponta do Sol e Calheta; a fortaleza de Santo Antonio, no Paul do Mar; o forte do Porto do Moniz; o do
Faial, o da Entroza, na Boaventura, o da Terrachã, em S. Vicente, o de S. Jorge e o do Arco de S. Jorge; o do
Porto da Cruz; o reduto do Caniçal; os fortes de S. João Baptista e Nossa Senhora do Amparo, em Machico;
os de S. Francisco, S. Lazaro e Nossa Senhora da Graça, em Santa Cruz; o fortim da foz da Ribeira do Porto
Novo; o dos Reis Magos e o da Ribeira do Caniço; e o forte de S. José, na ilha do Porto Santo.
No século XIX se fizeram a bataria das Fontes, em frente de S. Lourenço, o reduto do Seixo, em Água de
Pena, o Forte do Porto Novo, no Caniço, e o reduto do Pico de S. João.
Finalmente em 1916 se construiu a bataria da Quinta Vigia, e em 1917 a da Montanha, para a defesa da
cidade, contra os submarinos.
Fortaleza de S. Lourenço
Iniciada no reinado de D. Manuel, por um simples baluarte, foi
sucessivamente modificada nos reinados de D. João III e D. Sebastião, e rematada no domínio filipino. Em
1566 foi tomada de assalto pelos piratas, pela banda do norte, cujo muro se elevava apenas a 12 palmos de
alto, e tendo-se Montluc apossado de uma casa fronteira, dali mandou varejar o cubelo e mais partes do
forte, e sendo depois forçada a porta do baluarte, foram passados a fio de espada 250 indivíduos, entre
defensores e pessoas que ali se achavam refugiadas.
No torreão de leste, em cantaria lavrada, tem as armas de Portugal, a coroa ducal, duas esferas
emblemáticas de D. Manuel e uma cruz de Cristo. No baluarte norte, em mármore branco, tinha as armas
de Castela, sobre as quais foram enxeridas depois as de Portugal, e cortado o saliente em 1917, para
alinhamento da avenida Dr. Manuel de Arriaga.
Dentro do recinto da Fortaleza Velha foi construída a capela de S. Lourenço em 1635, passando desde então
a chamar-se Fortaleza de S. Lourenço.
O alvará do 1.° condestavel é de 20 de Junho de 1566, em favor de Gonçalo Fernandes, vindo de Lisboa. Era
guarnecida por 24 bombardeiros a 30 réis diários, passando em 1753 a receberem 80 réis.
O 1.° capelão foi o padre José da Costa, em 1641, a quem foi mandado dar 44, como se fazia a qualquer
soldado quando assentava praça, e tinha soldo de artilheiro, com obrigação de ali dizer missa aos domingos
e dias santificados.
Vários edifícios públicos foram construídos na Fortaleza de S. Lourenço, ao redor do amplo pátio
quadrangular interno e do baluarte do norte. (Vid. Palácio de S. Lourenço).
Fortaleza de S. Tiago
Foi mandada construir durante o domínio filipino, sobre uma ponta de
rocha a leste do porto e no pórtico primitivo tem a data de 1614. Aumentada depois da Restauração, teve
uma nova muralha e portão exterior, sendo o remate dos muros da cidade. Em 1697 foi capitão ad honorem
desta fortaleza Manuel Telo Catanho de Meneses com a obrigação de a ter limpa e provida de vigias. Em
1767 sofreu novas modificações, como se vê duma inscrição ali existente: «Esta fortaleza foi reedificada e
acrescentada, sendo governador e capitão-general desta ilha José Correia de Sá e para a mesma fortaleza
mandou vir de Londres cincoenta peças de artilharia, com todos os preparos no ano de 1767».
Quando as tropas inglesas ocuparam a Madeira no começo do século passado, foi esta fortaleza guarnecida
pelos artilheiros britânicos. Nela esteve preso em 1803 o morgado João de Freitas da Silva, fugido do
convento de S. Bernardino, «para onde tinha sido mandado até se instruir nos rudimentos da doutrina
cristã»,–curioso documento publicado pelo Heraldo da Madeira. n.° 441.
Serve actualmente de quartel á Bataria n.° 3 de Artilharia de Montanha. (1921).
Fortaleza do Pico
Para a defesa marítima e dominando a cidade foi no domínio filipino iniciado
um castelo sobre o Pico dos Frias e concluídas as primeiras obras em 1632, como acusa a data sobre o
portão exterior, seguindo-se trabalhos até 1640, conforme se lê numa lápide: «O governador Luiz de
Miranda Henriques Pinto fez o terço do baluarte S. Paulo e quasi toda a cortina que pega ao baluarte S. João
e a cisterna com seus locais e corpo da guarda rotos na rocha e o revelim da porta e as quatro casas».
A Conclusão dos baluartes foi feita no período da Restauração, bem como a capela de S. João Baptista na
primeira praça que deu o nome ao castelo.
O 1.° condestável desta fortaleza foi Francisco de Sousa, em 1624, com o ordenado de 24$ anuais e duas
pipas de vinho.
D. João IV criou o posto de tenente da fortaleza do Pico, sendo provido Benedito Catalão, e houve o posto de
capitão-cabo em 1751, exercido por Rodrigo da Costa Almeida.
Em 1770 foram mandados os rapazes vadios do Porto Santo aprender ofícios para as oficinas desta
fortaleza, que as houve de latoaria, ferraria, folha de Flandres, armaria e coronharia. Estas oficinas tiveram
grande incremento em 1802, sob a fiscalização do sargento-mor, e foram ali feitas três espingardas com
coronhas de diferentes madeiras da ilha, para instrução de suas altezas reais. (Livro das ordens, fl.as 6).
Na grande aluvião de 1803 todas as famílias que ficaram desabrigadas foram mandadas para a Fortaleza do
Pico, que se encheu de barracas de campanha, armadas nas esplanadas.
Em 1833 passou a chamar-se forte de S. Miguel, mas novamente em 1834 retomou o antigo nome, logo que
foi derrubado o governo miguelista.
O recinto da fortaleza, em forma de cidadela, ocupa uma área de 2.750 metros quadrados e acha-se numa
altitude de 111m.
Tem uma grande cisterna cavada na rocha e em abobada sobre a bataria principal, medindo 18m de
comprimento por 6 de largo e 10 de altura até o fecho.
A Fortaleza do Pico é um dos pontos onde mais facilmente se pode gozar do majestoso panorama da cidade
e porto do Funchal.
Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu. A ordem do Governador para que se fizesse esta
fortaleza é de 1642 (Arquivo da Cam. Mun. Tomo 6, fl. 66) sobre um rochedo insulado a oeste da baía do
Funchal, mas só começou a edificar-se em 1656. Em 1670 tinha um capitão de artilheiros a quem foi
mandado abonar 10$ anuais de azeite para alumiar os soldados.
Em 1682 é mandada edificar a capela de Nª S. da Conceição, tendo noticia do 1.° capelão, cargo exercido
pelo Padre Manuel de Andrade, com o ordenado de 18$ anuais.
Em 1698 é nomeado o primeiro condestável Simão Fernandes Forte, sendo a guarnição de 12 artilheiros
pagos a 30 réis por dia. Nessa época os pescadores eram obrigados a fazer a condução de viveres para o
Ilhéu sem remuneração alguma, porém se o mar impedia, era lançado um cabo á terra, em casos extremos,
para acudir aos bloqueados.
Tem a seguinte inscrição:
«Esta fortaleza fez o governador o capitão general Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha... 1654. Neste
tempo era provedor da Fazenda Francisco de Andrade, assistiu ás despesas da fortificação e ajudou muito
esta obra».
Deixou de ficar insulada pela construção do molhe da Pontinha, que nela entesta.
Tem estação semaforica e um farolim. (Vid. Molhe da Pontinha).
Castelo do Pico na Ilha do Porto Santo. Os sucessivos saques dos piratas á ilha do Porto Santo, sendo o
maior o de 1619 em que pereceu ou foi cativa quasi toda a população, restando apenas 18 homens e 7
mulheres, fez com que Felipe II cuidasse do repovoamento e mandasse construir uma fortaleza sobre o Pico
que domina a vila, íngreme e pedregoso, mandando edificar no pequeno planalto do cabeço, casas de
residência, armazéns e uma cisterna, recinto mais de hospitalização, do que de guerra, embora fosse
convenientemente artilhado.
O cargo de condestavel foi criado em 1624 e provido Francisco de Sousa com o ordenado anual de 24$ e
duas pipas de vinho, pago pelo almoxarifado do Porto Santo.
Martim Mendes de Vasconcelos, governador da ilha, muito se interessou pelo ressurgimento do Porto
Santo, e os tijolos de que eram feitas as abobadas do Castelo foram preparados naquela ilha.
Forte de S. Felipe da Praça
Mandado construir pelo bispo governador D. Jerónimo Fernando,
em 1628, entre as fozes da Ribeira de João Gomes e de Santa Luzia e ao sul do Pelourinho, no local onde
existiu um grande til cuja madeira foi empregada numa nau de guerra castelhana.
Em 1754 era condestavel o capitão Roque João Acciaioly.
Vendido pelo Ministério da Guerra, deu lugar a um grande armazém.
Forte de Santo António da Alfândega
A ordem para que se faça um saliente nos muros de
circunvalação e no pátio da Alfândega Grande é de 1644, tendo por fim bater a praia com fogos cruzados,
sendo aberto o portão da Alfândega para maior comodidade «no embarque e desembarque das fazendas».
Este forte tinha 11 canhoneiras, local transformado depois em armazéns, tendo a seguinte inscrição:
«Manuel de Sousa Mascarenhas sendo governador e capitão general desta Ilha da Madeira mandou fazer
este reducto e portas dele por ordem de Sua Magestade ano de 1645 sendo provedor Manuel Vieira
Cardoso».
Forte de S. Pedro
também chamado Forte Novo. Ficava na cortina de Nossa Senhora do Calhau, ao
Corpo Santo. Tinha uma portada de gola em estilo renascença, encimada por um dístico, sobrepujado por
uma coroa ornamentada e muito bem trabalhada em mármore branco, por onde se via que os trabalhos de
fortificação a que mandou proceder na Ilha o capitão-general Duarte Sodré Pereira foram ultimados em
1707. Havia neste forte um forno de balas ardentes, que eram tiradas com tenazes de ferro e introduzidas
pela boca da peça já carregada e com uma bucha de estopa umedecida. Em virtude do calor, a peça
disparava, chegando a bala em brasa á tolda dos navios de madeira, onde fazia rombo e os incendiava.
Foi demolido em 1897.
Forte da Penha de França
Era uma obra avançada, defendendo a enseada do Ribeiro Seco, e
construída em 1712, sendo 1.° condestavel Manuel de Ceia. Em 1801 foi ali aquartelada parte da tropa
inglesa, do coronel Clinton.
Forte de Loures
É tradição ter sido mandado construir por um particular, no século XVII. Batia a
enseada de Gonçalo Aires e foz da ribeira. Já sem importância no tempo do capitão-general D. Diogo
Coutinho, pretendeu este montar ali uma fabrica de seda.
Forte do Porto Novo
Foi começado em 1827 pelo governador Travassos Valdez, sobre a riba
direita da ribeira do Porto Novo. Ainda não estava concluído quando da tomada da ilha pelas tropas
miguelistas, em 1828, tendo ali explodido um caixão com munições. Este forte foi mandado concluir por D.
Alvaro da Costa e era servido pela estrada velha do Caniço.
Houve um fortim na praia, já arruinado nesta época e sem importância.
Forte de S. João Baptista
chamado também do Ancoradouro e do Desembarcadouro. Foi
construído sobre uma ponta de rocha a leste da baía de Machico, em 1708.
Fez fogo sobre o brigue de guerra da esquadra miguelista, Infante D. Sebastião, em 22 de Agosto de 1828,
danificando-o ligeiramente.
Em 1910 foram construídas, na esplanada, casas de madeira e adaptado para hospital de coléricos.
Forte de Nª Sª do Amparo
De traçado triangular, foi construído em 1706, sem despesa para a
Fazenda Real.
Conforme uma inscrição, correu com a obra dele Francisco Dias Franco, que foi o seu primeiro capitão.
Fica junto ao passeio de Machico e foi o ultimo a se render por ocasião do desembarque das tropas
miguelistas, em 1828.
Forte de S. Roque de Machico
Construído no domínio filipino, na foz do Ribeirinho a dentro
da baía de Machico. Ficava junto ao campo de revistas de S. Roque.
Em 1695 era condestável Pedro de Sousa Maciel.
Apenas restam uns blocos das muralhas sobre a praia.
Forte do Caniçal
Mandado construir no 1º. quartel do século XVIII, depois de um desembarque de
piratas naquela povoação. Em 1758 era capitão deste forte João de Morais Perestrelo. Ficava sobre a
enseada.
Forte de S. Bento da Ribeira Brava
Mandado construir pelo governador Duarte Sodré
Pereira para defesa do lugar.
Forte do Porto da Cruz
É de 1708 e foi construído sobre a baía. Em 1804 foi desmantelado,
sendo a guarnição existente mandada trabalhar na desobstrução da Ribeira de Machico.
Em 1713 foi nomeado capitão deste forte João de Vasconcelos Uzel.
Forte de Santo António no Paul do Mar. Foi construído em 1754. Uma provisão do Conselho de Guerra, de
1761, manda aumentar ao condestável mais uma pipa de vinho ao ordenado anual de 12$ da sua criação.
Forte de S. Jorge da Calheta
Em 1751 era capitão deste forte Bernardo da Gama.
Reduto de S. Jorge
Na freguesia de S. Jorge. Em 1785 era seu capitão Francisco Manuel Jardim
Telo de Meneses.
Forte de S. Francisco
Foi mandado edificar na vila de Santa Cruz, pelo bispo governador D. Fr.
João do Nascimento em 1749, aplicando para essa obra o dinheiro proveniente das multas que pagavam as
ordenanças por falta de serviço de vigias.
Forte de S. José da Ilha do Porto Santo
Construído no governo pombalino a dentro da
vila, tendo casa para residência dos governadores.
Acha-se cedido actualmente á guarda fiscal.(1921)
Fortificações
Foi primeiro fortificador João de Carceres, pedreiro de estima, residente no Funchal, e
na carta regia de 13 de Maio de 1513 se recomenda que nenhua pesoa de qualquer estado nem condiçõ que
seja lhe nom faça nenhum nojo desaguisado nem sem rezam mas de todos receba onra e favor, pois estava
encarregado da construção do baluarte e primeiros muros de defesa.
Em 1595 foi nomeado fortyficador da Ilha da Madeira o arquitecto Jeronimo Jorge, fidalgo da Casa Real,
com o ordenado de 100$ anuais.
Os dois filhos de Jeronimo Jorge,–Bartolomeu João e João Falcato–exerceram o oficio paterno durante o
domínio filipino, notabilizando-se o primeiro na Fortaleza do Pico, sendo seus méritos cantados por Manuel
Tomás, na Insulana, L. X., EST. 57.
Em 1602, Mateus Fernandes tem carta de fortificador, com o pomposo título de engenheiro mestre das
obras reaes. Em 1617 é enviado a fortificar a Madeira, Bartolomeu Arias, por causa do dano causado pelos
corsários nas pequenas povoações da costa.
No tempo da Restauração encontramos como fortificador Bartolomeu João, e um filho deste, Bartolomeu
João de Abreu, herdou-lhe o oficio, de que teve mercê em 1660. É uma família de fortificadores.
O mais curioso é que uma senhora, D. Mariana da Câmara, por ser viúva dum fortificador, obteve o oficio
em 1664 para a pessoa que casasse com sua filha, recebendo o futuro genro serventuario, apenas a terça
parte do rendimento enquanto um filho que se achava ausente no Brasil e que devia herdar o oficio, não
regressasse a tomar posse, por morte do pai.
As obras assim ressentiram-se. Foi então mandado vir do continente Manuel Gomes Ferreira, em 1699,
fortificador de Setúbal, com os mesmos vencimentos que ali percebia.
Em 1711 tem carta de engenheiro das fortificações Inácio Gomes Fragoso e nenhuma obra da Fazenda Real
se pode fazer sem sua intervenção, tendo o soldo mensal de 8$.
O Conselho da Fazenda contrata em 1 744 João Moniz de Abreu, por 100$ anuais, para exercer idêntico
oficio, seguindo-se em 1748 Domingos Rodrigues Martins.
De 1756 em diante este cargo é exercido por militares com um curso especial de engenharia, destacando-se
entre eles Francisco Tossi Columbina, Francisco de Alincourt, Faustino Sebastiano da Costa e o brigadeiro
Reinaldo Oudinot.
Os trabalhos de fortificação e engenharia militar acham-se presentemente a cargo duma secção do
Comando Militar da Madeira. S.
Fosforescência do Mar. São miriades de cistoflagelados, pertencentes á Noctiluca miliaris, que produzem a
fosforescencia dos mares do litoral da Madeira, já notada por La Peyrouse por ocasião da visita que fez a
esta ilha nos fins do século XVIII.
Há muitos dinoflagelados que são também fosforescentes, sendo possível que alguns venham a ser
descobertos, quando o plancton da Madeira fôr convenientemente estudado.
Fosseis.
folhas e Linhite.
V. Corpos calcareos da Piedade, Fanerogamicas, Jazigo de
Fothergill (Dr.)
Aconselhou as pessoas afectadas de molestias pulmonares a procurarem o clima da
Madeira, num trabalho que tem por título On consumption medical observations, 1775.
Fotografia
As primeiras experiências fotográficas em terras portuguesas foram feitas na Madeira, por
Vicente Gomes da Silva em 1848, estudando o daguerreótipo em chapa de cobre prateada, e trazendo-lhe
depois de França, José Antonio Monteiro Teixeira, uma câmara e caixilho e foi este a primeira pessoa
fotografada nesta ilha. O atelièr «Vicente» abriu na rua de João Tavira, á esquina sul da rua do Bispo,
executando positivos em vidro colorido á mão, e em 1856 muitas pessoas atacadas já da terrível epidemia da
cólera, foram ali, á pressa, fotografar-se para deixarem o retrato á família.
Quando a imperatriz viúva do Brasil esteve na Madeira, mandou a expensas suas João Francisco Camacho,
estabelecido na mesma rua com oficina de encadernador, se aperfeiçoar em Paris, mas este aproveitando a
sua estada naquela capital, tratou de aprender a arte fotográfica, e de regresso á Madeira em 1864,
estabeleceu-se na rua leste do convento de S. Francisco, com atelier fotográfico, o qual foi o segundo que
aqui existiu. S.
Em 1867 havia numa casa contígua ao antigo mercado de S. João uma fotografia pertencente a Jacinto A. de
Freitas e Aluisio Betencourt, e antes disso, por 1863, uma senhora natural desta ilha e filha do engenheiro
militar Antonio Pedro de Azevedo (V. este nome), executou vários trabalhos fotográficos, que foram muito
apreciados nesta ilha. Chamava-se essa senhora D. Amelia Augusta de Azevedo e faleceu em Idanha, perto
de Lisboa, a 20 de Novembro de 1914, com 70 anos de idade.
V. Silva (Vicente Gomes da) e Torre Bela (Conde de).
Fowler (R). E.:
Hither and thither, or sketches of a travel on both sides of Atlantic, containing notes
of a visit to Madeira, Lisbon; Gibraltar, etc., Londres. Ignoramos o ano da publicação desta obra.
Frade (Peixe)
Nome dado antigamente na Madeira ao Blennius palmicornis, peixe conhecido hoje
pela designação de caboz. Habita a costa, sendo frequente nas poças.
O peixe conhecido em Portugal pelo nome de frade, é o Selache máxima, que aparece de vez em quando nos
mares da Madeira. É um esqualo de grandes dimensões, que vem dos mares frios do norte e é encontrado ás
vezes já morto, flutuando á superfície do oceano.
Fradesso Bello (João)
Musico natural de Portugal e que residiu por largos anos no Funchal,
onde constituiu família e faleceu a 15 de Maio de 1861. Foi discípulo do celebre musico Fr. José Marques, e
deixou produções musicais de grande valor, que tiveram muita voga e receberam especiais louvores de
notáveis criticos da arte musical.
Fraga Gomes (Alfredo de)
Nasceu no Funchal a 21 de Abril de 1873 e é agrónomo deste
distrito e membro da Sociedade de Sciencias Agronomicas de Lisboa. Escreveu uma interessante
monografia da freguesia de Câmara de Lobos, que foi publicada no Boletim da Direcção Geral da
Agricultura, e um folheto intitulado A doença da canna d'assucar pelo Conyothyrium melasporum na Ilha
da Madeira, Lisboa 1900. Tem publicado numerosos artigos sobre assuntos agrícolas nos jornais do
Funchal, e é conhecido em todo o distrito como funcionário muito zeloso, distinto e ilustrado. (1921)
Fragoso (Joaquim Maria)
É natural do continente e há muitos anos que reside nesta cidade
onde, como funcionário do Ministério das Obras Publicas, tem exercido varias comissões de serviço publico,
e entre elas a de director da repartição técnica da Junta Geral do Distrito. No n.° 1 do vol. X do Boletim da
Associação dos Condutores de Obras Publicas publicou um estudo sobre as estradas desta ilha, que intitulou
Duas palavras sobre a viação da Ilha da Madeira, que ocupa 28 paginas da mesma revista. (1921).
Faleceu a 17 de Maio de 1923.
França
Pouco depois da descoberta, veio para esta ilha André Gonçalves, conhecido pelo nome de
Polonês, que se estabeleceu no Estreito da Calheta e ali teve terras de sesmaria. Seu filho João de França,
que foi o que introduziu este apelido nesta ilha, teve muita fazenda e boa casa no Estreito, sendo o fundador
da primitiva igreja desta freguesia, onde fez a sede do morgadio que instituiu. Morreu em 1511 e foi
sepultado na igreja de que era fundador e padroeiro. Foi ultimo representante deste morgadio, um dos
maiores da ilha, o conde da Calçada, que faleceu em 1906.
França (Alfredo de)
Pertence a uma antiga família da freguesia do Faial, onde nasceu a 14 de
Dezembro de 1883, sendo filho de Alfredo Abel de França. Cursou a faculdade de direito da Universidade de
Coimbra, não chegando a tomar o grau de bacharel. Sendo ainda estudante, publicou, em verso, os
opúsculos Poema Rubro, A Imagem, e o Pagem. Tem colaboração em muitos jornais e é actualmente
redactor do Século, de Lisboa. É funcionário superior do Ministério das Colónias. (1921).
França (Dr. Carlos)
Medico militar e distinto bacteriologista, enviado pelo governo á Madeira por
ocasião da epidemia colérica de 1910. Prestou relevantissimos serviços a esta ilha na direcção dos serviços
sanitários durante o período da epidemia, tendo revelado sempre uma competência profissional pouco
vulgar e grande abnegação no desempenho dos variados serviços a seu cargo.
Em homenagem ao Dr. Carlos França houve em 5 de Março de 1911 uma sessão solene nos Paços do
Concelho, oferecendo-lhe o presidente da Câmara por essa ocasião uma elegante taça de prata finamente
ornamentada e uma pasta com embutidos alegoricos de madeiras indígenas, dentro da qual estava a
mensagem lida pelo mesmo presidente na referida sessão.
A esposa do Dr. Carlos França assistiu a esta festa, sendo-lhe oferecida pela Câmara uma bela corbeille de
flores naturais, ornada com laços de fitas das cores nacionais.
Relativos á Madeira escreveu o Dr. França os trabalhos seguintes: A Epidemia colérica da Madeira, 1910-
1911, relatório apresentado no Ministerio do Interior, Lisboa, 1911, de 91 pag., Le Cholera à Madère (Bullet.
de la Soc. de Pathologie Exotique, tom. IV, 1911); e Contribution à l'étude du Lapin de Porto Santo (Bullet.
de la Soc. Port. de Sc. Natur, VI, 1913).
França e Vasconcelos (José Julio de)
Nasceu na Boaventura em 1776, formou-se em
direito na Universidade de Coimbra e foi advogado no Funchal, onde faleceu a 22 de Abril de 1859, Deixou
manuscrito um Nobiliario Madeirense.
France (Anatole)
Já ficou dito neste Elucidario (I-66) que o eminente escritor francês Anatole
France passou na Madeira a caminho da Republica Argentina no ano de 1909, tendo como companheiro de
viagem o seu secretario particular e também homem de letras Jean Jacques Brousson. Publicou este em
1927 um livro intitulado Itenerario de Paris a Buenos Aires, em que se ocupa da sua passagem nesta ilha,
dando largas á mais ardente fantasia e atribuindo a Anatole France ideias e opiniões acerca do que este
escritor viu e ouviu no Funchal, que estão muito distanciadas da verdade, e que devem ser da pura inventiva
do seu imaginoso secretario. A tal respeito, é interessante ler-se o artigo do Diário de Noticias do Funchal,
de 23 de Junho de 1929.
Francelho (Cerchneis tinnunculus)
Ave da família Falconida, que nidifica na Madeira e
pode ser vista ás vezes sobre os telhados das casas, mesmo no centro do Funchal. É hoje muito menos
frequente do que outrora, devido á guerra gue lhe movem certos caçadores.
Alimenta-se principalmente de lagartixas, cigarros e morganhos, mas se se lhe oferece ensejo, devora
também pequenas aves, tais como canários, pintassilgos, etc..
A sua postura compõe-se muitas vezes de cinco ou seis ovos, de forma e cor variáveis, depositados
geralmente nas fendas de rochedos inacessíveis.
Franco de Castro (Alfredo César)
Ignoramos quaisquer circunstancias a seu respeito e
apenas sabemos que em 1865 publicou em Lisboa um volume de 144 pag. intitulado Julia ou Recordações
da Ilha da Madeira. É um romance dedicado a Vasco Tristão da Câmara, cujo entrecho se passa nesta ilha,
onde o autor esteve alguns meses por motivo de saúde. Traz a descrição de vários edifícios do Funchal e
ocupa-se sumariamente de alguns pontos da historia deste arquipélago.
Franco de Sousa (Francisco)
Francisco Franco de Sousa Júnior nasceu no Funchal a 9 de
Outubro de 1885 e é filho de Francisco Franco de Sousa e de D. Maria Carolina de Sousa. Depois de ter
iniciado os seus estudos de desenho com seu pai na Escola Industrial do Funchal, matriculou-se na antiga
Academia Real de Belas-Artes, hoje Escola de Bellas Artes, onde fez brilhantemente o seu curso de escultura
com o insigne mestre Simões de Almeida.
Ainda na Escola de Belas-Artes entrou nos concursos para o monumento da Guerra Peninsular e o
monumento Barahona, obtendo uma menção honrosa em cada um desses concursos. Por essa mesma época
executou o busto de D. Manuel II, que foi adquirido para o Museu de Artilharia de Lisboa e um outro
trabalho encomendado pelo Gremio Literário de Lisboa.
Em 1910 foi aprovado no concurso de provas praticas para pensionista do Legado Valmor, em Paris, sendo
notável a sua prova, um baixo relêvo, sobre um tema clássico. Nesse mesmo ano seguiu para Paris, onde foi
discípulo do escultor francês A. Mercier, na Escola de Belas-Artes, e fez uma viagem de estudo por Espanha,
Bélgica e Holanda.
Regressou à sua terra em 1911, mas três anos depois voltava a Paris, por causa da guerra. Entre os muitos
trabalhos que tem executado no Funchal desde 1911 até o presente, mencionaremos os seguintes: os bustos
dos Srs. Visconde de Cacongo, H. Vieira de Castro e Rocha Machado; o monumento em bronze do
descobridor da Madeira, colocado na esplanada do Terreiro da Luta; a estátua monumento para o túmulo
da família Rocha Machado; o monumento em bronze para o cemitério das Angústias, dedicado ás vitimas
dos torpedeamentos de 3 de Dezembro de 1916; a maquette para o monumento a Gonçalves Zarco,
encomendada pela Junta Geral; a maquette para o monumento a Cristovão Colombo; o busto do presidente
de Republica, Sidonio Pais; e o monumento em bronze consagrado aos aviadores, para o Jardim Municipal
do Funchal(1921).
Franco de Sousa (Henrique)
É irmão do precedente e nasceu no Funchal a 3 de Março de
1883. Iniciou em 1892 os seus estudos de desenho na Escola Industrial do Funchal, seguindo depois para
Lisboa a matricular-se na então Academia Real de Belas-artes, onde completou o seu curso de pintura
histórica com o eminente pintor Columbano Bordalo Pinheiro, em 1911. Durante o seu curso obteve varias
medalhas de bronze e prata, menções honrosas e os prémios «Lupi» e «Anunciação».
Em 1910 expunha pela primeira vez na Sociedade Nacional de Belas-Artes três quadros e cinco desenhos,
sendo nessa ocasião classificado com as medalhas de 2ª. e 3ª. classes, em pintura e desenho; em 1911 expôs
sete quadros e três desenhos, tendo o Estado adquirido nessa ocasião, para o Museu de Arte
Contemporanea, o seu quadro Outros Tempos; e em 1912 era aprovado no concurso da Pensão Valmor, a
artistas para o estrangeiro, seguindo nesse mesmo ano para Madrid e fixando-se depois em Paris, onde
executou o quadro Ar livre, como prova de aproveitamento no estrangeiro.
Regressou á sua terra em 1914, onde tem continuado a revelar as suas notaveis faculdades artísticas em
muitos trabalhos de valor (1921).
Frangolho
Papa feita com farinha de cevada ou de trigo. A cevada e o trigo destinados a esta papa são
moidos em moinhos de mão, e a farinha é peneirada, mas quando se usa da cevada, seca-se ligeiramente o
grão ao calor do lume, antes de ir para o moinho.
Frasão. «Provem, dizem as notas das Saudades, de Pedro Frazão, o qual vivia na ilha da Madeira por 1532 e
casou com Maria de Gouveia, da qual teve D. Francisca Frazão, que em 1581 casou com Diogo de Ornelas e
Vasconcelos». O nome Frasão era o apelido característico do conde da Calçada e de muitos de seus
ascendentes.
Frasão
Assim se dominava a primeira embarcação a vapor que foi construída na Madeira. Era
propriedade do falecido morgado Frasão, depois visconde e conde da Calçada, e foi lançada no mar em 1870
ou pouco depois.
Frederico Carlos
O príncipe Frederico Carlos Cristiano, que em 1848 sucedeu a seu pai na coroa da
Dinamarca, com o nome de Frederico VII, esteve na Madeira no ano de 1846, na fragata dinamarquesa
Glefioar, demorando-se nesta cidade de 25 a 30 de Maio daquele ano. Teve uma afectuosa recepção por
parte das autoridades locais, havendo o príncipe oferecido a bordo um jantar de gala ás principais entidades
oficiais do Funchal.
Freguesias
Os religiosos franciscanos que acompanharam João Gonçalves Zargo quando este iniciou
o povoamento e colonização do Funchal, foram os primeiros sacerdotes que nesta ilha exerceram funções
eclesiásticas e paroquiais nas capelas de Santa Catarina, S. Paulo, Nossa Senhora do Calhau, Conceição de
Cima, S. Sebastião, S. João, etc.. A primeira freguesia criada foi indubitavelmente no Funchal, mas torna-se
difícil terminar hoje com precisão a sua primeira sede, sendo provável que ela não tivesse sido sempre a
mesma e que até o serviço paroquial se exercesse simultaneamente em mais duma capela. O anotador das
Saudades diz que talvez a primeira paróquia se tivesse estabelecido na ermida de S. Sebastião, o que não
passa duma simples conjectura. O Dr. Alvaro de Azevedo afirma que o primeiro templo erigido no Funchal
foi o de S. Sebastião, o que nos parece não ser verdadeiro, como em outro lugar veremos, e daí deduz a
probabilidade da criação da primeira paróquia naquela capela. O descobridor João Gonçalves Zargo fixou a
sua primitiva moradia no alto de Santa Catarina e depois em S. Paulo, mas é certo que o primeiro e mais
importante núcleo de população se foi formando não longe da praia e pela margem esquerda da ribeira, que
depois se chamou de João Gomes, sendo mais provável que a sede da primeira paróquia se estabelecesse ali,
ao menos quando esta tornou um carácter mais permanente e de mais definitiva organização.
A primitiva capela de Nossa Senhora do Calhau data do segundo quartel do século XV, sendo construída
pelos anos de 1438, devendo contar-se desta época ou pouco depois a criação da freguesia que ali teve a sua
primeira sede.
A ordem de Cristo sempre ciosa dos seus privilégios e regalias, temendo que os religiosos franciscanos
avocassem a si os direitos que a ela pertenciam pela doação que do espiritual lhe fora feita deste
arquipélago, mandou a esta ilha um membro qualificado da mesma ordem, Fr. Nuno Cão ( V. este nome), a
fim de superintender em todos os serviços religiosos e fazer valer os direitos e isenções que D. Duarte
concedera à referida ordem pela Carta Regia de 26 de Setembro de 1433. Fr. Nuno Cão assumiu a direcção
da paróquia de Nossa Senhora do Calhau, e quando esta transferiu a sua sede, em 1508, para o templo que
depois passou a ser catedral, continuou aquele eclesiástico a ser o pároco da freguesia até que em 1514 foi
nomeado deão, por ocasião da criação da diocese.
A primeira paróquia, enquanto teve sua sede em Nossa Senhora do Calhau, como ainda depois de ser
transferida para a Igreja Grande, teve uma área muita vasta, e dela se foram a pouco e pouco
desmembrando novas freguesias, como aconteceu em muitos outros pontos da ilha. Por 1558 foi o Funchal
dividido em duas freguesias, com suas sedes nas igrejas da Sé Catedral e de Nossa Senhora do Calhau. Já
então as capelas de S. Martinho, Santo António, S. Roque, Nossa Senhora do Monte e Nossa Senhora das
Neves formavam outros tantos centros de população e constituíam fazendas povoadas de relativa
importância, sendo em breve transformadas em paróquias ou curatos autónomos e passaram a ser as sedes
de novas freguesias. Em 1566 tinha sido criada a paróquia de S. Pedro, que teve pouca duração, pois foi
extinta no ano de 1579, sendo de novo restaurada em 1589.
Fora do Funchal parece ter sido Câmara de Lobos a primeira freguesia que se criou no ano de 1430, e talvez
pela mesma época ou pouco depois a da Calheta, que são consideradas mais antigas do que Machico, a pesar
de ser esta a sede duma capitania. Por 1440 se criaram as freguesias da Ribeira Brava e Caniço e a seguir a
da Ponta de Sol e Santa Cruz. De todas estas se desmembraram novas paróquias, quando a população se foi
estendendo e galgando os montes e as lombas do interior.
A cada uma das freguesias deste arquipélago consagramos em artigo especia1, em que damos uma sucinta
noticia dos factos que mais possam interessar á sua historia.
Apresentamos em seguida a relação completa de todas as paroquias.
Concelho do Funchal: Sé, São Pedro, Santa Maria Maior e Santa Luzia (freguesias urbanas); S. Martinho,
Santo António, S. Roque, Nossa Senhora do Monte e S. Gonçalo (freguesias suburbanas);
Concelho de Câmara de Lobos: Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos; Quinta Grande e Curral das
Freiras;
Concelho da Ribeira Brava: Ribeira Brava, Campanário, Serra de Água e Tabua;
Concelho da Ponta do Sol: Ponta do Sol, Canhas e Madalena do Mar;
Concelho da Calheta: Calheta, Arco da Calheta, Estreito da Calheta, Prazeres, Jardim do Mar, Paul do Mar,
Fajã da Ovelha e Ponta do Pargo;
Concelho do Porto do Moniz: Porto do Moniz, Achadas da Cruz, Ribeira da Janela e Seixal; Concelho de S.
Vicente: São Vicente, Ponta Delgada e Boaventura;
Concelho de Sant'Ana: Sant'Ana, São Jorge, Arco de São Jorge, Faial e São Roque do Faial;
Concelho de Machico: Machico, Porto da Cruz, Caniçal, Santo Antonio da Serra (parte) e Água de Pena
(parte);
Concelho de Santa Cruz: Santa Cruz, Água de Pena (parte), S. Antonio da Serra (parte), Gaula, Camacha, e
Caniço;
Concelho e ilha do Porto Santo: uma só freguesia, Porto Santo.
Destes concelhos, ficam na costa-norte da Madeira–Porto do Moniz, São Vicente e Sant'Ana, e os restantes
na costa-sul, além do do Porto Santo, que fica na ilha do mesmo nome.
Freira
São conhecidas por este nome na Madeira a Brama raii, peixe escombrida, de hábitos pelágicos, e
a Ostrellata mollis, palmipede marinho procelarida, indígena do arquipélago. A Brama raii é usada na
alimentação, mas a sua carne é de ruim qualidade; a Ostrellata mollis, é espécie rara, sabendo-se que
nidifica nas montanhas vizinhas do Curral das Freiras e nas rochas marítimas das Desertas, onde tem sido
observada nos meses de verão e outono.
Freire (Ascenso de Sequeira)
Foi nomeado governador e capitão-general da Madeira a 15 de
Outubro de 1803, tendo chegado ao Funchal a 5 de Dezembro seguinte e tomado posse a 8 do mesmo mês e
ano, quando ainda se encontrava nesta cidade o seu antecessor D. José Manuel da Câmara.
Veio acompanhado do desembargador Dr. Joaquim Antonio de Araújo, encarregado de proceder a uma
sindicância acerca das graves desinteligências que se deram entre o governador e capitão-general D. José
Manuel da Câmara e o bispo D. Luiz Rodrigues de Vilares. (V. estes nomes).
Durante o seu governo, em virtude das guerras europeias, navios de guerra ingleses entravam
frequentemente no nosso porto, conduzindo diversas embarcações, principalmente espanholas, que
apresavam no alto-mar.
Realizou-se nos anos de 1804 e 1805 o importante melhoramento do encanamento e construção das
muralhas das três ribeiras que atravessam a cidade, sob a direcção do distinto engenheiro o brigadeiro
Reinaldo Oudinot (V. este nome).
Ascenso de Sequeira Freire saiu da Madeira depois da chegada do seu sucessor Pedro Fagundes Bacelar de
Antas e Meneses, que tomou posse do lugar nos fins de Julho de 1807.
Freire (Francisco da Costa)
Foi governador e capitão-general deste arquipélago e a sua
nomeação data de 6 de Junho de 1724, tendo tomado posse a 27 de Julho do mesmo ano.
Como provedor da Santa Casa, prestou excelentes serviços a este estabelecimento de caridade. Deixou o seu
nome vinculado á historia madeirense com a fundação do Recolhimento das Órfãs, em 1724 (V. este nome).
Freire (Nuno Pereira)
Foi o primeiro governador e capitão-general da Madeira nomeado depois
da libertação de Portugal do jugo castelhano. A sua nomeação é de 9 de Agosto de 1641, tendo tomado posse
a 20 de Março de 1642.
Freire de Carvalho (José Liberato)
Este conhecido e distinto escritor foi em Setembro de
1834 deputado pela Madeira para a sessão legislativa de 1834 a 1836.
Juntamente com Lourenço José Moniz, Antonio Aluísio Jérvis de Atouguia e João de Oliveira, foi dos
primeiros representantes deste arquipélago em côrtes depois da implantação do govêrno constitucional.
Freitas
É apelido muito antigo entre nós. Um dos primeiros que o usou foi Gonçalo de Freitas, que fez
assentamento no lugar de Santa Cruz e ali teve moradia, na quinta chamada da Torre. Era fidalgo da Casa
Real e monteiro-mor do infante D. Fernando. Sua filha Catarina de Freitas instituiu um morgadio na terra
que herdou de seu pai no sítio que depois teve o nome de Santa Catarina. De Gonçalo de Freitas foi filho
João de Freitas, que gozou os privilégios de nobreza herdados de seu pai, dizendo um antigo nobiliário que
por ordem de el-rei fez a igreja do Salvador em Santa Cruz e por isso teve a mercê da capela da mesma igreja
para seu jazigo, em atenção aos seus serviços e aos gastos que na dita igreja havia feito. Um filho deste, por
nome Jordão de Freitas, distinguiu-se valorosamente na Índia e foi ali senhor duma ilha e capitão de
Moluco. Foi membro desta família João de Freitas da Silva, que em 1631 organizou nesta ilha uma
companhia de 100 homens á sua custa e com ela foi servir em Pernambuco, onde os holandeses o mataram.
Outra família do mesmo apelido e também muito antiga houve nesta ilha, que procede de João Rodrigues
de Freitas, natural do Algarve, que teve terras de sesmaria na Madalena e ali morreu em 1523, sendo
sepultado na igreja que ali fundara Henrique Alemão, com cuja viúva, por nome Isabel Lopes, tinha
contraído matrimónio. Instituíram ali um morgadio, que depois foi uma importante casa e que teve como
ultimo representante o morgado Nuno de Freitas Lomelino.
Freitas (Augusto César de). F
oi um homem de raro talento e de notáveis aptidões literárias, a
quem a adversidade feriu duramente, não permitindo que os seus dotes de espírito brilhassem e fossem
apreciados como realmente o mereciam. Pouco conhecemos da sua biografia, a pesar de se tratar dum
contemporâneo. Sabemos que foi professor de instrução primaria e que se dedicou ao jornalismo, revelando
notáveis qualidades de escritor. No Funchal foi redactor do Noticioso e do Paiz, e em Lisboa colaborou no
Parlamento, Conservador e Monitor Portuguez, a par dos primeiros jornalistas, segundo afirma uma
testemunha do tempo. Foi companheiro na redacção da Revolução de Setembro, do nosso primeiro
jornalista António Rodrigues de Sampaio que muito o apreciava. Morreu abandonado na enxerga dum
hospital em 21 de Dezembro de 1874.
Freitas da Silva (Dr. João de)
Nasceu em Lisboa em 1842, e é 1.° visconde de Monte Belo,
medico cirurgião pela extinta escola medica do Funchal, doutor em medicina pela faculdade de Montpellier
(1863) e guarda-mor da Estação de Saúde. Foi director do Lazareto de Gonçalo Aires e procurador á Junta
Geral do Distrito. E.: De l'Affection bilieuse, thèse présentée et publiquement soutenue à la faculté de
médicine de Montpellier. (1921).
Freitas (Dr. Justino Antonio de)
Nasceu este ilustre madeirense a 13 de Setembro de 1804.
Cursava a faculdade de direito da nossa Universidade quando rebentou a guerra civil, que o obrigou a
interromper os trabalhos escolares, fazendo que só tardiamente pudesse concluir a sua carreira académica.
Professando ideias liberais, sofreu as perseguições do governo absoluto, tendo estado largos meses preso
nas cadeias de Coimbra e passando também algum tempo homiziado.
Fez um curso distintíssimo, concluindo a sua formatura em 1836 e tomando o grau de doutor em Abril de
1837. Entrou para o magistério superior da Universidade em 1840, como lente substituto, sendo promovido
a lente catedrático por decreto de 4 de Novembro de 1852. Como professor do nosso primeiro
estabelecimento de instrução, notabilizou-se principalmente pela reforma que introduziu no ensino do
ramo até então pouco cultivado entre nós das ciências jurídicas, que era o direito administrativo,
organizando em bases seguras e com uma verdadeira orientação cientifica, o estudo dessa disciplina que até
essa época se professara na Universidade por uma maneira muito antiquada e que muito deixava a desejar.
Para servir de texto na regência desta cadeira, publicou um valioso trabalho intitulado Instituições de
Direito Administrativo Portuguez», de que se fizeram duas edições dentro de poucos anos. Além da sua
importante colaboração nas revistas da especialidade, escreveu o Manual dos Juizes eleitos, que teve sete
edições, e o Manual do Rendeiro, que duas vezes foi reeditado.
Foi o Dr. Justino de Freitas um dos mais habeis advogados do seu tempo, sendo em Coimbra, onde havia
tantos distintos jurisconsultos que se dedicavam á carreira do foro, considerado então como o mais ilustre
causidico daquela cidade, tendo continuado em Lisboa essas honrosas tradições, quando exerceu a
advocacia na capital, ao fixar ali residência para desempenhar o cargo de vogal do conselho Superior de
Instrução Publica e tomar uma parte mais activa nas lutas políticas e, de modo especial, nos trabalhos
parlamentares.
Sustentou com brilho no seio da representação nacional, onde durante muitos anos teve assento como
deputado, os créditos de que vinha precedido de distinto jurisconsulto e orador. Foi talvez, porém, como
membro de varias comissões do parlamento e como relator de inúmeros projectos, que revelou as suas
qualidades de distinto parlamentar. Teria varias vezes sobraçado uma pasta, se não procurasse sempre
esquivar-se a entrar na formação de qualquer ministério. Os trabalhos do seu gabinete de advogado,
tratando frequentemente de causas de muita importância e algumas delas de notória celebridade, a sua
assiduidade nas sessões do Conselho Superior de Instrução e ainda os trabalhos no seio das comissões
parlamentares, afastaram-no sistematicamente das graves preocupações e pesadas responsabilidades que
lhe acarretariam uma pasta de ministro. «Foi por isso, lê-se algures, que em Justino de Freitas, além do
notável talento, servido por não vulgar erudição das cousas forenses, havia como que a inspiração artística
da advocacia, e nos últimos anos de vida, mais que os interesses da honrosa e gloriosa profissão, o prendia á
banca de advogado o amor fanático pelo exercício da jurisprudência».
O Dr. Justino António de Freitas militou activamente na política desde os bancos escolares. Seguiu as ideias
liberais durante as nossas lutas civis, o que lhe valeu estar preso e ser perseguido, e tomou depois parte
muito activa no movimento revolucionário de 1846, chegando a ser membro do governo provisório que
então se constituiu. A pesar disso não pediu á política prebendas nem honrarias, pois nunca aceitou nem
solicitou empregos, como também desprezou sempre os títulos e cargos honoríficos com que por vezes o
quiseram distinguir.
Morreu em Lisboa a 28 de Novembro de 1865. Era pai do conhecido estadista Augusto César Barjona de
Freitas.
Freitas (João Joaquim de)
Nasceu em Machico a 5 de Outubro de 1832 e faleceu no Funchal a
1 de Abril de 1910. Desempenhou durante mais de trinta anos as funções de bibliotecário da biblioteca
municipal do Funchal e foi também professor interino de literatura e língua portuguesa no liceu central
desta cidade. A pesar de ter morrido quasi ignorado, foi um distinto pedagogo, e homem de não vulgar
talento e muita erudição. Coadjuvou o distinto jurisconsulto Álvaro Rodrigues de Azevedo (V. este nome) na
interpretação e correcção do manuscrito de Frutuoso, intitulado As Saudades da Terra, e colaborou nalguns
jornais da ilha. Deixou uma rica biblioteca, que os subditos inglêses W. e A. Reid adquiriram por dois mil
escudos e ofereceram á Câmara Municipal do Funchal. A antiga rua das Cruzes, no Funchal, tem
actualmente o nome de João Joaquim de Freitas. (1921).
Freitas (Jordão Apolinario de)
Nasceu nesta cidade a 23 de Julho de 1866 e é filho de Luiz
M. de Freitas e de D. Ana Fortunata de Sousa e Freitas. Depois de ter concluído o curso teologico do
Seminário desta diocese, tirou o curso da Escola Médico-cirúrgica do Funchal. Há muitos anos que fixou
residência em Lisboa, onde actualmente (1921) exerce o cargo de director da biblioteca publica da Ajuda,
tendo sido antes bibliotecário da Sociedade de Geografia. Tem-se especialmente dedicado a trabalhos de
investigação histórica e é já abundante a sua bagagem literária em livros e opúsculos, além da sua
colaboração em varias revistas e jornais.
Tem publicado:
Subsídios para a bibliografia portugueza relativa ao estudo da língua japoneza e para a biografia de Fernâo
Mendes Pinto 1905;
Fernâo Mendes Pinto e a sua ultima viagem á China, 1905;
A Inquisiçâo em Goa, 1907;
0 2.° visconde de Santarém e os seus atlas geographicos, 1909;
Capela Real a Egreja Patriarchal na Ajuda, 1909;
O Marquez de Pombal, 1910;
Francisco Moraes o "Palmeirim", 1910;
Quando foi descoberta a Madeira, 1911;
Camões em Macau, 1911;
0nde nasceu o 2.° visconde de Santarém? ,1913;
0 Naufragio de Camões e os Lusiadas, 1915;
A imprensa de tipos moveis em Macau e no Japão nos fins do seculo XVI, 1916;
Cervantes e Argensola, 1916;
0 Marquez de Pombal e o Santo Oficio da Inquisição, 1916;
Dom Bento de Camões e o Príncipe dos poetas Lusitanos, 1917,
além de outros trabalhos. Foi o compilador e anotador e escreveu o prólogo das obras do visconde de
Santarém Opúsculos e Esparsos, 2 volumes, e Inéditos, 1 volume.
Freitas (José Vicente de)
Nasceu na Calheta a 22 de Janeiro de 1869 e pertence a uma antiga
familia daquela vila. É tenente-coronel de infantaria e fêz parte do corpo expedicionário português que
esteve combatendo em França. (1921)
Foi nomeado governador civil deste distrito por decreto de 9 de Fevereiro de 1915, tomando posse deste
cargo a 22 do mesmo mês e tendo servido até 15 de Maio do ano referido. A 28 de Abril de 1918 foi eleito
deputado pela Madeira.
Publicou os trabalhos seguintes: Atlas de desenho, geometria descritiva e noções de arte, Lisboa 1908; Atlas
de desenho, organizado em harmonia com os programmas de 1905, Lisboa, 1908, 2 volumes, o primeiro
para a 1ª., 2ª. e 3ª. classes e o segundo para a 4ª. e 5ª. classes dos liceus; Compendio de Desenho para a
instrução primaria, Lisboa, 1903, 2 volumes, o primeiro para a 1ª. e 2ª. classes e o segundo para a 3ª. e 4ª.;
Roteiro e planta de Lisboa na escala de 1/7.500, edição de 1906; e Livro de Leitura para 4ª. classe das
escolas primarias, com a colaboração F. Veyrier, Lisboa, 1910.
Foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa e chefe do governo durante alguns anos.
Freitas Vale (Henrique Felix)
Pertence a uma antiga família madeirense e nasceu nesta
cidade por 1840. Foi advogado provisionista e recebedor do concelho do Funchal, e exerceu varias
comissões de serviço publico. Teve uma larga colaboração em vários jornais e foi redactor principal da Lei e
do Diário do Funchal. Publicou os folhetos A Crise Agrícola da Madeira, suas causas e efeitos, 1887 e A
Revolta da Madeira e a comissão de inquérito, 1888. Há muitos anos que fixou residência no continente,
onde tem exercido vários cargos administrativos. (1921).
Freixo (Fraxinus excelsior)
Esta oleacea que só aparece agora nalgumas quintas, parece que
fez parte outrora da flora florestal madeirense. Numa carta expedida por D. João II em 1493 «pera
confirmaçom & firmidom da merçee das auguas & outras cousas» se lê o seguinte: « . . . emos por bem &
nos praz de comfirmar como per esta confirmamos & emos per confirmado o dito capitollo em que as ditas
cousas se conteem com tall decraraçom que dos freyxos e cedros que pera nos reseruamos nom usaram nem
cortaram tirado pela algua igreja ou casa de camara. . . »
Frias
O pico onde se começou a construir em 1622 o castelo de S. João Baptista mais conhecido pelo
nome de fortaleza do Pico, teve e tem ainda o nome de Pico dos Frias, que lhe foi dado por Romeu Frias, de
nacionalidade italiana, que ali morou e ali teve terras de sesmaria, havendo sido um dos mais antigos
povoadores desta ilha.
Friderichsen (K)
Batologista dinamarquês que determinou as espécies do género Rubus colhidas
pelo Dr. Vahl na Madeira. E.: Rubi fra Madeira (Bot. Tidsskrift, 1905).
Frigorifico
Pretendeu a extinta Junta Agrícola estabelecer um frigorifico no Funchal, adquirindo para
esse fim um terreno entre as antigas ruas da Conceição e das Hortas, hoje Correia Heredia e do Alferes
Veiga Pestana, pela quantia de 10.500$00. As maquinas para o mesmo estabelecimento custaram
6.000$00 e em instalações, muros, abertura da comunicação entre as duas referidas ruas, etc.,
dispenderam se até 1915 cerca de 5:000$00.
O frigorifico a pesar de ser um estabelecimento susceptível de prestar bons serviços, nunca chegou a
funcionar, e em sessão da Junta Agrícola de 23 de Agosto de 1918 foi resolvido que se entregasse á Câmara
Municipal a rua onde foram construídas as edificações que lhe eram destinadas. (1921).
Fritze (R.)
Botanico alemão que herborizou na Madeira em 1879 e 1880. E.: Ueber die Farnvegetation
der Insel Madeira (Jahresbericht der schlesischen Ges. fur vaterl. Kultur, (1881).
Frutas
A não ser o cultivo cuidado e metódico da vinha e da bananeira, pode duma maneira genérica
afirmar-se que neste arquipélago não existe a cultura das árvores de fruto, a pesar das especiais condições
climatéricas permitirem uma excelente e abundante produção e a situação geográfica da Madeira favorecer
uma fácil exportação das frutas para diversos países estrangeiros e colónias portuguesas. É certo que se
encontram muitas árvores frutíferas de variadas qualidades e de quasi todas as regiões e ainda dos climas
tropicais, mas são geralmente abandonadas ao desenvolvimento que lhes dá a própria natureza, sem o
tratamento adequado que a experiência e a ciência lhes possam ministrar. O verdadeiro pomar é quasi
inteiramente desconhecido entre nós, aparecendo as fruteiras espalhadas no meio das outras culturas, como
sendo de geração espontânea e sem merecer a atenção e os cuidados da maior parte dos agricultores.
No entretanto, força é confessar que nos últimos anos tem-se modificado bastante essa situação e já o
cultivo das árvores de fruto se pode considerar como um factor apreciável na economia do distrito.
Promulgaram-se algumas medidas legislativas, especialmente determinadas pela cultura e exportação da
banana, que presentemente representa um dos mais importantes elementos da riqueza publica da Madeira.
O Decreto de 5 de Junho de 1935 criou no Funchal o Grémio de Exportadores de Frutas e Produtos
Hortícolas, outro decreto da mesma data estabeleceu nesta cidade uma Delegação da Junta Nacional de
Frutas, e os decretos de 21 de Agosto de 1938 e de 16 de Maio de 1939 adoptaram algumas medidas de
protecção á exportação daqueles produtos.
Frutuoso (Doutor Gaspar)
Gaspar Frutuoso, o famigerado autor das Saudades da Terra,
nasceu na capital da ilha de S. Miguel, no ano de 1522, sendo filho de pais nobres e abastados, que lhe
proporcionaram todos os meios de adquirir uma sólida e vasta instrução.
Em Salamanca, para onde se dirigiu em tenros anos, completou os preparatórios para a matrícula na
célebre universidade daquela cidade, e ali se doutorou na faculdade de teologia, em que foi um estudante
distintíssimo e se revelou uma inteligência privilegiada. Obtida a laurea de doutor, dirigiu-se para a diocese
de Braga, onde pouco tempo se demorou, por as reiteradas instancias dos seus parentes, amigos e
admiradores o forçarem a regressar á sua cidade natal. Ao passar em Lisboa, foi vivamente solicitado para
aceitar uma mitra, que terminantemente recusou nesta e ainda em outras ocasiões da sua vida.
Precedera-o em Ponta Delgada a fama dos seus méritos e virtudes e por isso estava o Dr. Gaspar Frutuoso
naturalmente indicado para exercer na sua diocese os mais elevados cargos, a que procurou sempre
escusar-se, contentando-se com paroquiar na freguesia da vila da Ribeira Grande, onde viveu largos anos e
onde morreu e jaz sepultado.
Era de uma modéstia e simplicidade de trato verdadeiramente notáveis, "preferindo uma vida obscura e
tranquila, dedicada ao trabalho e ao estudo, ás situações brilhantes e aparatosas, a que sem duvida podiam
aspirar o seu talento, a sua vasta ilustração e as suas eminentes virtudes.
Morreu na vila da Ribeira Grande a 24 de Agosto de 1591, tendo 69 anos de idade, e foi sepultado na
respectiva igreja paroquial, em que se lia na lápide tumular o seguinte epitáfio: Aqui jaz o Doutor Gaspar
Frutuoso, que foi Vigário e Pregador desta Igreja, vere Varão Apostolico, insigne em letras, e virtudes.
Foi no retiro remansoso do seu presbitério da Ribeira Grande que escreveu a vasta obra das Saudades da
Terra, a que se seguiram as Saudades do Céo, que parece não chegou a completar.
Passando no ano de 1922 o quinto centenário do nascimento do doutor Gaspar Frutuoso, constituiu-se na
cidade de Ponta Delgada uma comissão encarregada de comemorar condignamente essa data,
aproveitando-se a oportunidade de pôr em justo relevo as eminentes qualidades de prosador, historiador e
humanista, que notabilizaram aquele ilustre micaelense. Com o mais vivo aplauso de todos entendeu a
Comissão Promotora do centenário, que a maior homenagem a prestar ao autor das Saudades da Terra seria
a publicação integral da sua vasta obra, fazendo assim avigorar e perdurar a sua memória através das
idades, ao mesmo tempo que proporcionava aos contemporâneos e vindouros o conhecimento da historia
do grupo oriental das ilhas açorianas nos séculos XV e XVI. Por motivos ponderosos, não realizou aquela
comissão o seu pensamento inicial, mas conseguiu dar á publicidade os livros terceiro e quarto das
Saudades, compreendendo a historia das ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, que formam o distrito
administrativo de Ponta Delgada.
Constituem quatro grandes volumes, que têm a opulentar-lhes o valor e o interesse um desenvolvido estudo
acerca do historiador das ilhas, em que o assunto ficou inteiramente esgotado, quaisquer que sejam os
múltiplos aspectos em que porventura possamos julga-lo e aprecia-lo. A erudita Noticia Bibliográfica das
Saudades da Terra, do Sr. João Simas, e muito especialmente a biografia e apreciação de Gaspar Frutuoso e
da sua obra, da autoria do Sr. Rodrigo Rodrigues são estudos que revelam, não somente um paciente e
consciencioso trabalho de investigação histórica a par do mais apurado e severo espírito critico, mas ainda
um aprofundado conhecimento dos dotes e predicados que devem caracterizar a obra do escritor, do erudito
e do historiador, entrando em conta com as condições do tempo, do meio e de outras circunstancias
especiais em que a obra foi elaborada. Do magistral estudo do Sr. R. Rodrigues, cumpre destacar o capítulo
111, intitulado O Humanista, o Historiador, e o Valor da sua Obra (pág. XXXIX-LV), que, sem sombra de
hipérbole, se pode colocar na mesma plana dos trabalhos congéneres de D. Carolina Michaelis, Teofilo
Braga, Mendes dos Remédios e Fidelino de Figueiredo, os mais autorizados mestres da historiografia
literária do nosso país.
No ano de 1866, procedeu-se á trasladação dos restos mortais do doutor Gaspar Frutuoso, que se
encontravam na igreja paroquial da vila da Ribeira Grande, para o cemitério municipal da mesma vila,
fazendo-se a inumação num modesto mausoléu mandado erigir pela respectiva Câmara Municipal á
memória do ilustre historiador das ilhas.
Funchal (Agostinho de Sousa Coutinho, marquês do)
É filho do conde de
Linhares e pertence á família do primeiro conde e primeiro marquês do Funchal, de quem nos ocupamos
neste Elucidário, tendo nascido a 3 de Março de 1866. Foi governador deste distrito de 23 de Dezembro de
1899 a 25 de Junho de 1900.
Exerceu segunda vez o mesmo cargo, para que foi nomeado por decreto de 22 de Outubro de 1904, havendo
tomado posse a 10 de Dezembro do mesmo ano.
Funchal (Marquês do)
Domingos António de Sousa Coutinho foi um dos mais distintos
diplomatas portugueses, que em diversas capitais europeias e especialmente em Londres representou o seu
país com o maior brilho e desinteresse, prestando serviços muito assinalados numa época de grandes
perturbações que agitavam toda a Europa.
É sabido que a Madeira foi duas vezes ocupada por tropas inglesas a título de protecção e defesa contra os
supostos ataques das forças napoleónicas, que corresponderam a uma verdadeira conquista, o que se prova
não somente com muitos documentos diplomáticos da época, mas ainda pela maneira como administraram
os negócios públicos deste arquipélago, conservando as autoridades portuguesas apenas um simulacro do
poder, que na verdade residia unicamente no comandante em chefe das forças britânicas (V. Ocupação da
Madeira por tropas inglesas). Os madeirenses sofreram toda a sorte de vexames nos oito anos que duraram
essas ocupações. A pesar das resoluções tomadas no congresso de Viena em que a Inglaterra teria que
evacuar sem demora esta ilha, é certo que em muitas chancelarias europeias e até nas altas esferas do
governo português se julgava que a ocupação da Madeira correspondia a uma posse absoluta e definitiva. Ao
distinto diplomata e então representante de Portugal em Londres, D. Domingos Antonio de Sousa Coutinho,
que pelas eminentes qualidades de estadista e pelos seus numerosos escritos publicados no estrangeiro,
tantos e tão assinalados serviços prestou ao seu país, se deve a desocupação deste arquipélago e a sua
reentrega á nação portuguesa. O nosso governo agraciou-o com o título de conde e depois marquês do
Funchal, título que ainda hoje é usado pelos representantes da sua família. Se ainda somos portugueses, a
ele principalmente o devemos, e todavia não existe nesta cidade cousa alguma que recorde este facto e que
seja ao mesmo tempo uma pequena homenagem prestada á memória do ilustre diplomata.
Morreu em Londres no ano de 1832.
Funchal – I Origem do nome
Afirma-se comummente que a umbelifera Foeniculum vulgare,
que tem o nome de funcho, houvesse dado o nome ao Funchal. E não se conhecem razões ou factos que
contradigam essa afirmativa. Os descobridores ou primitivos povoadores, ao desembarcarem neste lugar,
que depois foi vila e mais tarde cidade, depararam com a planta, que abundantemente vegetava no vale e
que, sem demora e sem esforço, se começou a chamar Funchal. Lá diz Frutuoso: «. . .Funchal, a que o
capitam deo este nome, por se fundar em hum valle fermoso de singular arvoredo, cheyo de funcho até o
mar». Segundo o autor das Saudades, foi o próprio João Gonçalves Zargo que deu o nome de Funchal ao
lugar que depois foi a capital deste arquipélago.
Uma pergunta ocorre no entretanto fazer, e não é a primeira vez que ela é formulada. Existindo, por certo,
neste vale árvores e plantas de grande porte, como iriam os descobridores dar-lhe de preferência o nome de
um vegetal, que nem chega a ser um arbusto? É possível que no meio do maciço de árvores que povoavam o
vale, houvesse uma clareira em que abundasse o funcho e que deste modo se destacasse da vegetação
circunvizinha. Também se afirma que, nas mais próximas imediações do local do desembarque, depararam
logo os descobridores com o funcho em abundância, e daí o fácil baptismo de Funchal dado ao lugar.
Com o nome de Funchal existiu e não sabemos se ainda existe uma povoação na freguesia do Lumiar, nos
arredores de Lisboa, como já fizemos notar no artigo Ameixoeira (V. este nome). Segundo lemos na
Encyclopedia Portuguesa, de Maximiliano de Lemos, também existem povoações com o nome de Funchal
nas freguesias de Aldoar e Igreja Nova, no concelho de Mafra, Terrugem, no concelho de Sintra, e Vilar de
Mouros. Existirá porventura, qualquer correlação entre o nome do Funchal e alguma destas povoações?
A este respeito, é interessante ler-se o pequeno artigo intitulado Ameixoeira inserto a pag. 63 do primeiro
volume deste Elucidário.
Ainda recentemente, no «Dicionário Corografico de Portugal Continental e Insular», vimos mencionadas
duas dezenas de sítios e povoações com o nome de Funchal.
II – Criação da vila e município.
É possível que simultaneamente e em mais de um lugar se
tivesse iniciado o primitivo povoamento, estando averiguado que na margem esquerda da ribeira de João
Gomes e não distante da sua foz se formou um dos primeiros núcleos de população, que em breve
extensamente se alargou pelas suas circunvizinhanças. E certo que este local e as suas mais próximas
imediações ofereciam vantagens apreciáveis para um largo povoamento em virtude da sua vastidão, do
abrigo que lhes ofereciam as altas montanhas que o circundavam, dum bom porto de mar, das abundantes
linhas de águas que o atravessavam, do clima temperado que nele predominava, além de muitas outras
circunstancias dignas da maior ponderação. Mas também não deixava de apresentar seus graves perigos,
por se achar exposto a iminentes inundações, quando as caudalosas ribeiras, saindo dos seus leitos e
galgando as suas margens se tornassem elementos terríveis de destruição e de morte, como por vezes
aconteceu, especialmente no ano de 1803, em que unia parte considerável da cidade e alguns centenares dos
seus habitantes foram arrastadas para o oceano.
No entretanto foi rápido o desenvolvimento desse centro de população e logo adquiriu um notável grau de
prosperidade, ao mesmo tempo que em outros pontos da ilha se iam também constituindo importantes
núcleos de povoadores, transformados sem demora em paróquias autónomas e posteriormente em vilas e
municípios.
Diz-nos o ilustre anotador das Saudades da Terra que no ano de 1430 se estabeleceu a primeira freguesia
nesta ilha, tendo a sua sede em o sítio de Nossa Senhora da Calheta, no centro de população que ali se
formara, o que nos parece pouco provável, se quisermos dar a essa palavra o significado dum agrupamento
de povoadores com vida própria e independente debaixo do ponto de vista social e religioso. Seria talvez
uma capelania, como as que se estabeleceram em diversos pontos, e que depois se transformaram em outras
tantas freguesias.
Foi crescendo rapidamente em importância com o largo desenvolvimento da colonização, não tardando
muito que surgissem as legitimas aspirações da sua elevação à categoria de vila, usufruindo os privilégios e
regalias que os respectivos forais concediam aos municípios.
A pesar das diligentes pesquisas a que procedeu o erudito anotador das Saudades da Terra, não conseguiu
descobrir o diploma que elevou a vila a primitiva povoação do Funchal, mas pelos valiosos argumentos que
aduz, baseados em vários documentos, pode assinalar-se o ano de 1451 como o daquela criação. E o mesmo
anotador diz ter examinado uma miscelânea manuscrita na Biblioteca Publica de Lisboa, em que encontrou
o seguinte: "Em 1452 D. Afonso V deu foral á villa do Funchal com muitos previlegios, fazendo os
moradores de toda a ilha livre de pagarem siza nem portagens nem frutos nem tributos dos que naquele
tempo havia no Reyno". Esta transcrição corrobora as conclusões a que chegou o Dr. Alvaro Rodrigues de
Azevedo.
No diploma que criava as vilas se incluía ou a ele vinha apenso foral, que constituía a lei organica dos
municípios, com as regalias e isenções que lhes eram concedidos e também com os encargos com que
ficavam onerados. Até agora se não encontrou ainda o registo do foral da vila do Funchal e apenas se tem
dele conhecimento pelas referências que lhe fazem vários diplomas oficiais e outros documentos, como o
que acima fica citado.
A vila e primitivo município do Funchal compreendia a antiga capitania do mesmo nome e estendia-se
desde a Ponta da Oliveira pelo sul e costa oeste da Madeira, até á Ponta do Tristão. Passado meio século foi
esta área notavelmente reduzida com o estabelecimento das vilas e municípios da Ponta do Sol e da Calheta,
sendo a primeira criada no ano de 1501 e a segunda aproximadamente pela mesma época, como já fizemos
notar em outro lugar deste Elucidário. Decorridos pouco mais de 50 anos depois da criação da vila do
Funchal, é esta elevada á categoria de cidade, no ano de 1508.
Ainda em 1834 o município do Funchal se estendia desde a parte oriental da freguesia da Ponta do Sol até o
Caniço, sendo somente em 1835 que adquiriu a área que agora tem. Pelo alvará do Prefeito da Província, de
20 de Janeiro de 1835, perdeu a parte da freguesia da Ponta do Sol que lhe fora conservada pela carta do rei
D. Manuel de 2 de Dezembro de 1501, em que fez «billa ho logar da Ponta do Soll», e em fins do mesmo ano
de 1835 perdeu o Caniço, anexado ao concelho e município de Santa Cruz, e bem assim as freguesias de
Câmara de Lobos e as que se lhe seguem pelo lado oeste até o mesmo lugar da Ponta do Sol. A antiga vila do
Funchal teve primitivamente uma área muito restrita, e ainda no fim do século XV era limitada ao sul, junto
á praia, por uma cerqua de pedra seca, guarnecida dalguns cubelos eqüidistantes um tiro de besta e também
por uma solida trincheira de madeira, a oeste pela ribeira de São João ou de São Paulo, ao norte pelos
terrenos do Pico dos Frias e Valverde e a leste aproximava-se da margem direita da ribeira de Santa Luzia.
O importante núcleo de população que desde os primeiros tempos se formou na margem esquerda da
ribeira de João Gomes e proximidades da praia, ficava fora da área do que primitivamente se chamava vila,
tendo depois sido encorporado nela.
V. Forais.
III – Criação da cidade
.
O natural e sempre crescente desenvolvimento do Funchal em antigos
tempos, tornando-o um importante empório comercial e um centro de grande actividade industrial e
mercantil, plenamente justifica a medida tomada pelo rei D. Manuel na sua carta Regia de 21 de Agosto de
1508, elevando a vila do Funchal á categoria de cidade. Havia 50 anos que de simples povoação se fizera
vila, e decorrido apenas meio século passa a ter os foros de cidade, a primeira que se criou nos nossos
domínios ultramarinos. A pesar da concisão que temos dado ás matérias versadas nesta obra, vendo-nos
forçados a omitir toda a documentação, vamos excepcionalmente transcrever o diploma régio que criou esta
cidade, que é a capital do arquipélago, o principal centro da sua vida intelectual e a sede do seu comercio e
das suas indústrias. Ei-lo:
«Dom Manuel por graça de deos Rey de portugall & dos algarues daquem & daallem mar em africa Sennor
de guinee & da comquista nauegaçom & comercio de ethioopia arabia persia & da yíndia. A quantos esta
nosa carta birem fazemos sabeer que comsiramdo Nos como louuores a noso Sennor ha billa do Funchall na
nosa ylha da madeyra tem creçido em mui grãde pouoraçom & como biuem nella muytos fidalguos
caualleyros & pessoas homrradas e de gramdes fazendas pollas quaees e pollo gramde trauto da dita ylha
esperamos com ajuda de noso Sennor que a dita billa muyto mays se emnobreça & acreçemte e abemdo
respeyto ao muyto seruiço que reçebemos dos moradores e esperamos ao diamte reçebeer e des hy por
folgarmos de fazeer homrra e merçee ahos ditos fidalguos caualleyros escudeyros e poboo della sem elles
nem outrem por elles nollo pedir nem requerer nos de noso moto proprio poder Reall e absoluto com
aquella booa boomtade que sempre teemos e teemos pera todo bem & mayor acreçemtamento das cousas da
dita billa por esta presente carta nos praz a fazermos e de feyto fazemos çidade & queremos e nos praz que
daqui em diamte se ymtitulle e chame çidade & tenha todallas ymsinyas que haas çidades de nosos Regnos
pertemçe teer e huse e gouua de todollos priuilegios priminemçias liberdades merçees graças & framqueeas
de que gouuem e husam e deuem de gouuir & husar as çidades dos ditos nosos Regnos e que pollos Reys
nosos anteçesores e por noz lhe sam outorgados. Porem o noteficamos asy a todos em geerall & mandamos
a todollos nossos Corregedores Desembargadores Juyzes Justiças ofeçiaaes e pessoas a que esta nosa carta
for mostrada e ho conheçimento della pertemçeer per quall queer guisa & maneyra que seja que em todas as
cousas da dita çidade lhe compram e guardem e façam muy ymteyramente comprir e guardar hos
priuilegios liberdades graças priminemçias homrras & merçees que sam outorgados aas çidades de nosos
Regnos e de que elles deuem gouuir e husar das ymsinyas que lhe pertemçe teer como dito he sem lhe yrem
nem comsemtirem irem em parte nem em todo comtra cousa algua das sobre ditas por que nosa merçee &
boomtade he que muy ymteiramente lhe seja todo guardado sem comtradiçom algua e por çertidom dello
lhe mandamos dar esta carta por nos asynada e assellada de noso sello pemdente. Dada em simtra a xxj dias
do mes Dagosto. Anno de noso sennòr Jhu xpo de mil quinhentos & oyto. E estes privilegios de que asy nos
praz que gouua ha dita çidade do funchall nom seram aquelles que em especiaal sam outorgados a alguuas
çidades de nosos Regnos por que soomente husara & gouuira daquelles que em geerall sam dados o
outorgados aas çidades de nossos Regnos. ElRey».
Poucos dias antes de ser expedida esta Carta Regia, tinha D. Manuel, em data de 17 de Agosto de 1508,
enviado um alvará determinando que a câmara do Funchal seja regida &. governada pela maneira que se
rege a câmara da nossa cidade de lixboa. Este diploma, que apenas precedeu alguns dias o que elevou a vila
á categoria de cidade, constitue um acto de especial deferência do monarca para com os habitantes do
Funchal, que teve como seu complemento a Carta Regia de 21 de Agosto de 1508.
Vid.
os artigos Armas (1-85 e ss.), Bandeira da Cidade (I-123 e ss.) e Forais.
IV – Capitania.
Para o efeito da sua administração publica, foi este arquipélago dividido nas três
capitanias ou donatarias do Porto Santo, Machico e Funchal, tendo como chefes, revestidos de poderes
quasi ilimitados, os capitãis-donatarios, em virtude das respectivas doações, que lhes foram conferidas
pelos alvarás régios dos anos de 1440, 1446 e 1450. Nos desenvolvidos artigos subordinados aos títulos de
Capitanias (1-244) e Donatarios (1-373) ficou dito o indispensável para se ter uma suficiente noticia acerca
da capitania do Funchal.
V – Distrito Administrativo.
O distrito do Funchal é constituído pelas ilhas que formam o
arquipélago da Madeira (V. Arquipélago da Madeira). Antes do estabelecimento do governo constitucional
era o arquipélago madeirense uma província e colónia ultramarina, cuja administração estava
principalmente subordinada ao Ministério da Marinha. Por 1834, com a criação dos quatro distritos
insulares, três nos Açores e um na Madeira, ficou este arquipélago com uma administração absolutamente
idêntica á dos outros distritos, governando-se pelas mesmas leis que todo o continente do reino.
Aos donatarios sucederam em 1580 os governadores gerais e a estes os governadores e capitãis-generais, em
1640, que perduraram até o ano de 1834. (V. Autoridades Superiores do arquipélago). Com a criação do
distrito, teve a autoridade superior o título de Prefeito, sendo este lugar exercido pela primeira vez em 1834
por Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque. Em 1835 passou este cargo a ter o nome de Governador Civil e
em 1836 o de Administrador Geral, e novamente o de Governador Civil em 1846, que ainda conserva.
Desde a criação deste distrito teve ele os dez concelhos do Funchal, Machico, Porto Santo, Ponta do Sol,
Calheta, Santa Cruz, São Vicente, Câmara de Lobos, Sant'Ana e Porto do Moniz, e em 1914 foi criado o
concelho da Ribeira Brava. (V. Concelhos). 0 concelho de Sant'Ana foi extinto em ano que não podemos
determinar agora e pouco depois restabelecido, e o concelho do Porto Moniz foi também suprimido em
1849 e em 1896 e novamente restaurado em 1855 e em 1898.
Vid. Organização Administrativa.
VI – Concelho.
Desde os fins de 1835 têm-se mantido inalteraveis os limites do concelho do Funchal.
Os povos da Camacha e do Caniço, e especialmente os desta ultima freguesia, já fizeram mais duma
tentativa e representaram ao chefe do distrito no sentido da sua desanexação do concelho de Santa Cruz,
mas as influencias politicas da sede deste concelho anularam inteiramente os desejos e os esforços dos
habitantes daquelas paróquias. Houve um governador civil que num relatório oficial apresentou a ideia da
extinção do concelho de Câmara de Lobos, não tendo essa proposta encontrado eco nas estações superiores.
O concelho do Funchal, como já ficou dito no artigo Freguesias, compõe-se das freguesias da Sé, S. Pedro,
Santa Maria Maior, Santa Luzia, Monte, S. Martinho, Santo Antonio, S. Roque e S. Gonçalo, mas em 1834,
ao serem proclamados os privilegios constitucionais no arquipélago, ainda faziam parte dele as freguesias
de Câmara de Lobos, Estreito de Nossa Senhora da Graça, Curral das Freiras, Campanário, Ribeira Brava,
Serra de Água, Tabua e Caniço.
Os limites do concelho do Funchal são: pelo norte, os cumes centrais dos montes que dividem as vertentes
das costas norte e sul; pelo lado sul, o oceano; por oeste, a ribeira dos Socorridos; e por leste, a ribeira da
Quinta, que separa a freguesia de São Gonçalo da do Caniço .
VII A Cidade
– O arquipélago madeirense, que constitue o Distrito Administrativo do Funchal, tem
como capital a cidade deste nome, que está situada na costa meridional da Madeira e alonga-se na base de
elevadas montanhas, subindo rapidamente pelas encostas, desde a orla do oceano até uma altitude
aproximada de duzentos metros. Constitue a parte considerável dum vasto e formosíssimo anfiteatro,
estendido em dilatado vale, que no seu conjunto se apresenta como uma das mais surpreendentes
maravilhas, que é dado á vista contemplar. Como que servindo de espaldar á cidade e sobranceira a ela, em
quasi toda a sua extensão, levanta-se uma cordilheira ininterrupta de montes e colinas, cobertas da mais
opulenta e variada vegetação, polvilhadas das mais pitorescas habitações, que ainda maior realce, maior
encanto e maior deslumbramento imprimem a tão maravilhoso cenário. Não é para estranhar que o
visitante entrando no porto do Funchal, quer dobre o Cabo do Garajau ou a Ponta da Cruz quer venha do
quadrante sul, ao defrontar com um trecho autentico da baia e encostas da cidade de Nápoles, sinta preso e
avassalado o espírito ao presencear este inigualável panorama e dele conserve para sempre as mais
profundas e gratíssimas impressões. A povoação, que serviu de núcleo á futura cidade, tem cinco séculos de
existencia e foi erguida em terrenos muito irregulares e acidentados, sem obediência a quaisquer ideias ou
planos preconcebidos, num meio bastante distanciado dos centros populosos e por colonos vindos de
pobres terras e aldeias, inteiramente divorciados dos elementos que a civilização mundial lhe poderia nessa
época proporcionar. Os islenhos de então, nossos antepassados e progenitores, entregues apenas ao próprio
esforço e sem um eficaz auxílio do governo metropolitano, lá foram erguendo, neste isolamento do oceano,
muitas povoações, algumas vilas e uma cidade, particularmente estimulados pela notável feracidade do solo
e pela amena benignidade do clima. No entretanto, embora a cidade do Funchal, considerada em si, não
tenha belezas e encantos deslumbradores, conserva uma acentuada e interessante feição regionalista, que
lhe é peculiar, e apresenta características próprias dignas do observador atento, que as condições
mesológicas lhe imprimiram, oferecendo os ricos produtos das suas videiras, de reputação universal, os seus
incitáveis bordados, as suas frutas e incomparáveis flores de todo o ano, os seus originalissimos trenós, os
típicos carros do Monte, a mais encantadora paisagem da criação, o mais benigno e temperado clima deste
planeta, etc., etc. e, a sobredourar tudo isso, uma eterna primavera e a nunca desmentida e sempre
carinhosa hospitalidade dos seus habitantes.
«0 Funchal, dizem os Srs. Adriano e Anibal Trigo no trabalho a que já nos referimos, não é uma cidade
moderna que se recomende pelas suas amplas avenidas, grandes monumentos, variadas distracções e
outros atractivos que distinguem as mais importantes cidades da Europa; há todavia aqui um conjuncto de
circunstancias naturais, verdadeiros privilégios da criação, um modo de ser tão particular e típico, um
conforto tão agradável, uma hospitalidade tão atraente por parte dos seus habitantes, que dão á cidade uma
feição muito característica, recomendando-a como estação sanitária por excelência, especialmente aos
estrangeiros que aqui acorrem em elevadissimo numero, principalmente na estação de inverno para
gozarem as delicias deste clima sem rival ou para procurarem lenitivo aos seus padecimentos».
«A impressão do viajante que pela primeira vez desembarca no Funchal, diz o Sr. Alberto Artur Sarmento
num interessante trabalho que publicou em 1908, é sempre marcada duma agradável surpresa, quer pela
claridade dos objectos e limpidez atmosférica, quer pelo aparato original tão simples e grandioso que brota
da pouca Arte como a muita Natureza. Donde quer que seja a procedência do turista e a quadra do ano que
atravesse, não deixa de ser sensível a uma emoção particular, emanada duma doce temperatura que rege
este clima sem igual. E se acaso é no inverno e vem fugido ás pesadas brumas do norte, a sua admiração
toca as raias, vendo tão prestes mudado o cenário, transformado o continuo manto de gelo em tapetes de
verdura, matizados de flores»,
Como é fácil de presumir, na cidade do Funchal concentram-se principalmente todas as manifestações da
actividade humana nos seus múltiplos e variados aspectos, que têm apenas um atenuado reflexo nas
restantes povoações do distrito. E assim o movimento turístico, comercial e industrial, á parte a indústria
agrícola e algumas indústrias dela derivadas, a vida do pensamento exteriorizada pela imprensa e
publicações literárias e ainda as raras concepções registadas no campo das artes. . . tudo isso se manifesta e
se desenvolve no centro da civilização madeirense, que é a pequena cidade do Funchal.
VIII–Área da cidade–
Os seus limites foram-se sempre alargando á medida que o movimento
industrial e comercial do arquipélago, que nela inteiramente se ressentia, ia tomando maiores proporções,
atingindo em breve um elevado grau de prosperidade. Nos anos de 1809, 1863 e 1909, a Câmara Municipal
assinalou com precisão esses limites, em conformidade com o desenvolvimento da população, tendo na
ultima daquelas deliberações sido fixados deste modo: a área da cidade «seria o perímetro formado pelos
ângulos, cujos vértices se apoiam nos pontos seguintes: 1.° Hotel Reid, á Estrada Monumental; 2.° Ponte
Velha do Ribeiro Seco; 3.° Intersecção da Rua do Arcebispo D. Aires com a Estrada da Levada de Santa
Luzia; 4.° Intersecção da dita estrada com a Avenida Pedro José de Ornelas; 5.° Intersecção do Caminho do
Palheiro Ferreiro com o Caminho do Terço; e 6.º Foz da Ribeira de Gonçalo Aires, advertindo-se que a
ligação do 3.° e 4.° vértices deve supor-se feita pela linha poligonal que segue todas as sinuosidades da
Estrada da Levada de Santa Luzia».
A Câmara Municipal em sua sessão ordinária de 17 de Outubro de 1927, resolveu dar á cidade uma área
excessivamente vasta, internando-a muito nas freguesias suburbanas e fixando os seus limites nos seguintes
termos, que, aliás, não primam pela clareza: «Do mar em linha recta ao Caminho de ligação da Estrada
Nacional n.° 23 com o Caminho Velho de São Gonçalo, Caminho da igreja de S. Gonçalo, Caminho do
Palheiro Ferreiro, Caminho do Terço, Caminho da Levada do Bom Sucesso em linha recta á Estrada da
Levada de Santa Luzia, daqui em linha recta ao Muro da Coelha (norte da Quinta Drolhe), Caminho da Água
de Mel, Álamos, Ponte da Ribeira Grande, Quinta do Leme, Pilar, Avista-Navios, Caminho de São Martinho
e do Amparo á Estrada Monumental e em linha recta até ao mar». Com estes novos limites, fixados á área
da cidade, passou ela a ter uma quasi duplicada superfície, tomando proporções verdadeiramente
exageradas. Segundo a deliberação camarária de 1909, faziam parte integrante da cidade as freguesias da Sé
e de Santa Luzia, a quasi totalidade da de São Pedro e ainda uma parte considerável da de Santa Maria,
sendo por isso chamadas freguesias urbanas. Pela nova divisão citadina de 1927, ficou a capital do distrito
compreendendo a área estabelecida em 1909, acrescida da superfície que lhe deram as freguesias
suburbanas de São Martinho, Santo Antonio, São Roque e São Gonçalo, sendo a paróquia do Monte a única
gue não comparticipa do perímetro recentemente fixado aos limites da cidade. A sua antiga área, que era
computada em cerca de quinhentos hectares, deve actualmente atingir uma superfície aproximada de 750.
A verdade é que o alargamento demasiado da cidade não feriu as atenções da população, que continua
considerando como extremos do Funchal citadino os limites, que lógica e acertadamente lhe foram fixados
no ano de 1909.
Funchal (Comarca do)
Somente no ano de 1767, com a nomeação de caracter permanente dos
juízes de fora e dos corregedores, é que a administração da justiça neste arquipélago tomou uma feição
regular de harmonia com a natureza dos importantes serviços que desempenhava. Perdurou esta situação
até o ano de 1838 com a criação de duas comarcas, ambas com sede na cidade do Funchal, que ficaram
denominadas comarca ocidental e comarca oriental, compreendendo a primeira as freguesias do concelho
do Funchal, Câmara de Lobos, Ponta do Sol, Calheta, Porto do Moniz e S. Vicente, com excepção da
paróquia da Sé, e abrangendo a segunda a freguesia da Sé e as paróquias dos concelhos de Santa Cruz,
Machico, Sant'Ana e Porto Santo.
O decreto de 12 de Novembro de 1875 alterou profundamente a divisão judicial com a criação das comarcas
do Funchal, Ponta do Sol, Santa Cruz e São Vicente. A do Funchal instalou-se no dia 16 de Novembro de
1876 e foi dividida em nove julgados, compreendendo as freguesias dos concelhos do Funchal e de Câmara
de Lobos.
O decreto de 22 de Junho de 1927, que extinguiu a comarca de São Vicente, alterou a divisão dos julgados
ou juízes de paz da comarca do Funchal, que então ficaram compostos pelas freguesias do Arco de São
Jorge, Câmara de Lobos, Campanário, Curral das Freiras, Estreito de Câmara de Lobos, Faial, Santa Luzia,
Santa Maria Maior, São Pedro, São Roque, Monte, Porto Santo, Quinta Grande, Sant'Ana, Santo Antonio,
São Jorge, São Martinho e São Gonçalo, constituindo um julgado cada uma destas freguesias.
O extraordinário movimento desta comarca determinou a criação de mais um juízo, passando a haver o
Juizo Cível e Comercial e o Juizo criminal, com um juiz á frente de cada um dos dois tribunais, o que tudo
foi regulado pelo Decreto de 22 de Junho de 1927 e prestando-se deste modo um assinalado serviço ao
regular e profícuo exercício da justiça. O Decreto de 29 de Junho de 1933 remodelou as disposições do
decreto anterior, estabelecendo duas varas de competência mixta com a denominação de Juizo de Direito da
Primeira Vara da Comarca do Funchal e de juizo de Direito da Segunda Vara. Por esse decreto foi criada a
Secretaria Judicial, sendo cada Vara constituída por três secções e cada secção por um chefe e um oficial, e
havendo ainda uma secção central comum ás duas varas com dois chefes, que tem a denominação de chefes
de secretaria, sendo um adjunto.
A relação completa dos magistrados que têm exercido as funções de juízes de direito nas comarcas do
Funchal desde o ano de 1835 até á época actual será publicada nos artigos subordinados aos títulos de
Juizes.
Vid.
Administração Judicial e Organização Judicial.
Funchal. (Diocese do)
Ao artigo dedicado á criação desta diocese (1-363) cumpre acrescentar
que ela é a circunscrição eclesiástica portuguesa de mais limitada área e abrange apenas o território do
arquipélago madeirense, tendo já pertencido á sua jurisdição a pequena ilha de Arguim. Compreende 50
paróquias que inteiramente correspondem ás 50 freguesias em que se acha dividido o distrito, estando essas
paróquias agrupadas em quatro arciprestados (V. este nome) para o efeito da sua administração
eclesiástica. Tem a sua sede na cidade do Funchal com a sua Sé Catedral e respectivo Cabido, Paço
Episcopal, Seminário, repartições eclesiásticas e diversos serviços religiosos, em tudo superintendendo a
acção directa do prelado diocesano, que tem residência efectiva na mesma cidade.
Foram os religiosos franciscanos e depois os sacerdotes enviados pela Ordem de Cristo, a que o arquipélago
pertencia no espiritual, os primeiros que aqui exerceram funções eclesiásticas. O rápido desenvolvimento da
população determinou a criação duma diocese, em que o respectivo prelado pudesse livremente exercer
todos os actos do culto próprios da sua jerarquia episcopal. A Bula pro excellenti praeeminentia, de 12 de
Junho de 1514, estabeleceu a Diocese do Funchal e na mesma data foi Diogo Pinheiro, um dos mais
graduados membros da Ordem de Cristo, nomeado seu primeiro prelado, não chegando a vir á sua diocese.
Compreendia então uma vastíssima área, que se estendia á maior parte das ilhas e terras descobertas ou
conquistadas pelos portugueses. Em 1533 foi elevada á categoria de arcebispado, tendo como dioceses
sufragâneas os bispados então criados, de Angra, Cabo Verde, São Tomé e Goa, sendo o arcebispado extinto
no ano de 1551. O bispo D. Jeronimo Barreto promulgou e publicou no ano de 1581 as Constituições do
Bispado, que o prelado D. Luiz de Figueiredo fez reimprimir em 1601, publicando no mesmo ano as
Constituições Extravagantes, que adicionou àquelas. É o apóstolo São Tiago Menor o padroeiro da diocese
do Funchal, cuja comemoração se faz anualmente no primeiro dia do mês de Maio.
A Sé Catedral é uma bela e vasta igreja, classificada como monumento nacional, que merece ser
demoradamente visitada. O puro gótico das suas linhas arquitectónicas, a esbelteza das colunas das suas
naves, o tecto fabricado de cedro indígena, em estilo árabe e marchetado de marfim, a magnífica capela do
Santíssimo Sacramento, a riquíssima cruz processional de prata dourada oferecida por D. Manuel I,
algumas excelentes telas e outros primorosos objectos de arte são motivos de admiração e apreço para todos
os que visitam este templo. A sua construção começou nos últimos anos do século XV e foi sagrada em 1516,
não estando ainda inteiramente concluídas as obras de ornato e decorações interiores de toda a igreja.
Vid.
o opúsculo Sé Catedral do Funchal pelo Padre Fernando Augusto da Silva.
O antigo Paço Episcopal, onde está instalado o liceu, foi construído em 1751, e a pesar da sua frontaria
pesada e despida de quaisquer primores arquitectónicos, conserva no entretanto um certo aspecto de
grandeza e não desonrava a alta hierarquia dos seus moradores. A actual residência episcopal fica situada
no largo do Ribeiro Real e nas suas dependências encontram-se as diversas repartições eclesiásticas.
Com este assunto, tem uma próxima afinidade os artigos Arcebispado, Bispos do Funchal, Cabido, Deado,
Paço Episcopal, Sé Catedral e Seminário, insertos neste Elucidário.
Funchal (Baía do).
É a baía do Funchal a mais ampla do arquipélago e tem como limites a Ponta do
Garajau, a leste e a Ponta da Cruz a oeste. Desenvolve-se numa curvatura e reentrância sensivelmente
regulares entre aquelas duas pontas, achando-se ao abrigo dos ventos de todos os quadrantes, com excepção
do vento que sopra de SSE a SSW pelo S. A sua amplidão permite fazer dela um vasto ancoradouro, mas as
comunicações com a terra só podem estabelecer-se com relativa facilidade nos pontos mais acessíveis da
costa marítima, que se estendem desde o Ilhéu da Pontinha, a oeste, até as proximidades da fortaleza de São
Tiago, a leste, afastados um do outro cerca de dois mil metros. Dentro destes limites se realiza todo o
tráfego e movimento do porto, sendo este limitado por uma praia de calhaus rolados, de grande fundo e
livre de restingas ou cachopos, que possam dificultar o seu acesso. A preiamar ou o estabelecimento do
porto, segundo a carta geografica da Madeira do general A. P. de Azevedo, é ás 12h e 48m, sendo a elevação
da maré de 2m,28, afirmando, porém, o engenheiro Mariano F. Faria e Maia, que as amplitudes das marés
chegam a 2m,80. Com respeito ao porto do Funchal e marés do litoral da Madeira, diz o ilustre engenheiro
Adolfo Loureiro que pouco se conhece acerca das influencias lunares no fenómeno das marés vivas e
mortas, propagação, velocidade e direcção que nelas se observam, altura e força da vaga conforme o rumo
do vento, o seu impulso, duração, etc.. A temperatura das águas e a sua distribuição à superfície, os seus
movimentos periódicos e condições, seguindo uma lei que parecia constante, deveriam passar a ser objecto
de estudos oceanograficos muito interessantes, que infelizmente não se fizeram nunca.
Vid.
Cais, Junta Autonoma das Obras do Porto, Molhe da Pontinha, Porto do Funchal e Marés.
Funchal (Roteiro do)
Vid. Roteiro do Funchal
Funchal Antigo
No pequeno artigo dedicado particularmente á elevação da antiga vila do Funchal á
categoria de cidade, transcrevemos o alvará régio de 21 de Agosto de 1508 que promoveu essa criação,
querendo agora deixar lançada neste lugar uma rápida ideia do que seria o Funchal nessa época com
respeito aos poucos e estreitos arruamentos que então limitadamente o formavam. Como não é fácil fazê-lo
com um grande rigor topográfico, limitar-nos-emos a um ligeiro esboço, apresentando os escassos
elementos de que é possível dispor-se para esse fim.
A igreja que tomou por orago Nossa Senhora da Conceição, vulgarmente Nossa Senhora do Calhau,
destruída pela aluvião de 1803, já em 1508 estava edificada na margem esquerda da ribeira de João Gomes,
próximo do local onde hoje se encontra o chamado Poço do Calhau. Para leste dessa igreja estavam as ruas
dos Balcões e de Santa Maria, esta menos extensa provavelmente do que agora é, mas com muitas casas
grandes e bem construídas: em que residiam vários fidalgos e homens abastados.
O largo do Pelourinho e as ruas Direita e dos Mercadores existiam em 1508, mas decerto com aparência
bem diversa da que agora apresentam. O largo do Pelourinho era arborizado, provavelmente com essências
indígenas, e no sítio onde está hoje a rua da Cadeia Velha, via-se um enorme til, que, no dizer de Manuel
Tomaz, «abraçava com ramos estendidos duas ribeiras», a de João Gomes e a de Santa Luzia.
Já a esse tempo existiam igualmente as ruas do Sabão e do Esmeraldo, estando nesta ultima a casa nobre de
João Esmeraldo, cavaleiro flamengo que viera para a Madeira em 1480, e perto dela o granel do poço, que
fora residência de Cristovão Colombo e onde, segundo a tradição, esteve acomodada a primitiva alfândega
do Funchal.
A capela dos Varadouros, demolida em 1911, existia já em 1508, mas do actual edifício da Alfandega, se
alguma cousa existia, seriam apenas os alicerces, pois foi nesse ano que veio ordem da metrópole para se
proceder á sua construção.
A primeira igreja paroquial foi a de Nossa Senhora do Calhau, mas em 1508 foi a paróquia transferida para
a chamada igreja grande, cujo orago é Nossa Senhora da Assunção, e começada a edificar em 1493 com os
rendimentos da imposição do vinho, a qual, desde que em 1514 foi criado o bispado do Funchal, ficou sendo,
como ainda agora é, a Catedral. Só em 1558 é que a cidade foi dividida em duas freguesias, a da Sé e a de
Santa Maria Maior, passando desde então a igreja de Nossa Senhora do Calhau a ser novamente templo
paroquial.
Para além da rua dos Mercadores, no ponto onde está agora a entrada da cidade, havia algumas casas, mas
o local era bem diferente do que é presentemente. A fortaleza de S. Lourenço não tinha sido ainda
construída, e no terreno onde está agora a Praça da Constituição havia plantações de cana sacarina que se
estenderiam provavelmente até perto da rua da Carreira, visto o edifício do hospital de Santa Isabel só ter
sido começado depois de 1686.
Ao tempo do Funchal ser elevado á categoria de cidade, existia um pequeno hospital na rua a que chamam
agora do Hospital Velho, tendo antes havido um outro estabelecimento de igual natureza junto da capela de
S. Paulo já fora da povoação, em terreno cedido pelo donatário da ilha em 25 de Março de 1454.
A casa da câmara, denominada então Curral do Concelho, estava no sítio onde actualmente se dá o encontro
da Avenida Antonio José de Almeida com a rua da Alfândega, e no largo de S. Sebastião via-se a capela da
invocação deste santo, a qual foi um dos primeiros templos erigidos na ilha. A rua dos Ferreiros ia até pouco
acima da igreja do Colégio que é edificação posterior á época a que nos referimos. Perto da actual travessa
de João de Oliveira existia há muitos anos um prédio que chegámos a conhecer e cuja construção deveria
remontar aos tempos do reinado de D. Manuel.
O recolhimento do Bom Jesus ainda não existia em 1508, nem tão pouco a rua onde ele se acha, nem a das
Hortas. A igreja do Carmo não estava também ainda edificada, mas a rua que da mesma igreja tomou o
nome deveria existir a esse tempo, comunicando com a rua Direita pela rua chamada mais tarde da Cadeia
Velha, e pela da Margem da Ribeira. É de crer que uma ponte de madeira no terminus da rua Direita,
pusesse em comunicação as duas margens da ribeira de Santa Luzia.
A rua da Carreira, a mais larga da povoação, mas com aspecto bem diferente do actual, não iria
provavelmente além da rua dos Aranhas, construída mais tarde, ficando-lhe perto a Mouraria, residência
dos mouros cativos. A rua das Pretas existia também em 1508, mas a igreja de S. Pedro só mais tarde
começou a ser edificada.
Fora da cidade estava o mosteiro de Santa Clara, levantado em 1492 perto da residência do donatário, que
era provavelmente na quinta denominada agora das Cruzes, e bem assim a capela de S. Paulo e de Santa
Catarina, tendo esta anexa um hospício onde viviam mulheres pobres. É possível que o hospital de S. Lazaro
estivesse já edificado em 1508.
No sítio onde agora estão a rua 5 de Junho e as travessas que nela vêm desembocar, havia grande numero
de casebres em que residia a gente mais pobre da povoação. Para oeste viam se extensas plantações de vinha
e cana sacarina que deveriam ocupar os terrenos cortados agora pela rua da Imperatriz, calçada da
Cabouqueira e parte da rua da Carreira.
A igreja de Santa Luzia e de Santa Maria Maior, o Convento da Incarnação, o das Mercês e a cortina da
cidade, são edificações posteriores a 1508. Existiam porém, já a esse tempo o convento de S. Francisco, no
sítio onde está hoje o Jardim de S. Francisco e a capela de S. João.
Por essa época, embora com aspecto diferente do actual, existiam já as pequenas ruas de João Tavira, Santa
Catarina, Cidrão e Hospital Velho e os largos do Corpo Santo e de S. Paulo, além de outros largos e ruas,
cujos nomes não ficaram na tradição local.
Do que fica dito vê-se, pois, que embora o Funchal de 1508 fosse muito menos extenso do que o actual,
possuía no entanto a área suficiente para constituir uma cidade. Pelo lado de oeste estendia-se até pouco
além do convento de S. Francisco, não chegando, porém, a atingir a ribeira de S. João, pelo lado de leste até
a capela do Corpo Santo, que ainda no tempo de Frutuoso pegava com as primeiras casas da cidade, e
finalmente pelo lado norte eram seus limites a rua do Hospital Velho, a do Carmo, que não iria
provavelmente além do ponto onde está a igreja, a da Carreira, a das Pretas e a Mouraria.
Mas não era só pela sua extensão que se recomendava a primeira povoação da Madeira no tempo de D.
Manuel; recomendava-se também pelo seu clima, pelo seu porto e por ser a sede da indústria e da
navegação de todo o arquipélago, sendo possível que todas estas circunstancias contribuíssem mais ou
menos directamente para levar o monarca a assinar o diploma que elevava á categoria de cidade a vila
fundada por Zargo.
Funchalense (O)
Deste jornal publicaram-se apenas três números, de 2 a 21 de Julho de 1847.
Com o mesmo título se publicou outro periódico, de que foi redactor o Dr. Sebastião Frederico Rodrigues
Leal, saindo 103 números de 17 de Abril de 1859 a 13 de Junho de 1861.
Um terceiro jornal do mesmo título, de que apenas se publicaram 9 números, saiu de 1 de Setembro a 26 de
Outubro de 1886.
Funchalense Liberal (O)
O primeiro numero publicou-se a 3 de Fevereiro de 1827 e o decimo
sétimo a 26 de Maio do dito ano. Foi seu redactor o distinto madeirense Dr. José Martiniano da Fonseca,
enforcado no Porto pelas «justiças miguelistas».
V. Fonseca.
Funchalia
Género de crustáceos dedicado pelo falecido naturalista inglês, James Yate Johnson, á cidade do
Funchal, onde residiu por largos anos. A Funchalia Woodwardi é a única espécie assinalada até agora no
referido género, que foi publicado nos Proceedings of the Zoological Society, de 28 de Novembro de 1867.
Funcho (Foeniculum vulgare)
Umbelifera frequente na região baixa da costa sul da Madeira.
Os seus frutos são estimulantes e carminativos. Veja-se o que deixamos dito sobre a origem do nome do
Funchal.
Funcho (Pico do)
Fica na freguesia de São Martinho, com a altitude de 255 m.
Funda (Ribeira)
Nasce nos Picos da Silva e da Relva e separa as freguesias do Estreito da Calheta e
dos Prazeres, tendo como afluente o ribeiro do Mendes.
Funda (Ribeira)
A freguesia de São Jorge é atravessada por uma ribeira que tem aquele nome.
Fundoa
Sítio povoado da freguesia de São Roque do Funchal. Neste sítio e na margem direita da
Ribeira de Santa Luzia, encontra-se a capela de Nossa Senhora do Rosário, edificada por João da Paz de
Castro no ano de 1668. Os jesuítas tiveram ali uma residência com capela privada e terras circunjacentes.
Neste sítio se encontrava um importante reservatório de águas potáveis que, por meio dum extenso
aqueduto, eram conduzidas para o centro da cidade e especialmente destinadas ao abastecimento do antigo
hospital da Misericórdia e outros edifícios. Foi mandado construir pelo então provedor o bispo D. Fr.
Joaquim de Meneses e Ataíde no ano de 1817 e dirigido pelo engenheiro Paulo Dias de Almeida, sendo
considerado na época como uma valiosa obra debaixo do ponto vista técnico.
Furado (Baixa do)
É um baixio que se encontra na costa da freguesia das Achadas da Cruz.
Furado (Baixa do).
V. Nariz (Baixa do)
Furado (Ponte do)
É a saliência da costa marítima, que pelo lado de leste, limita a enseada da
Abra (V. este nome), próxima da Ponta de São Lourenço.
Furado (Ponta do)
No litoral da ilha do Porto Santo, a sudoeste se encontra esta ponta, também
chamada Ponta da Cana Vieira.
Furão (Pico do)
Fica esta elevação montanhosa nas serras da freguesia do Curral das Freiras.
Fura-Vasos
Peixe da família Percida, que frequenta no verão as águas do litoral do arquipélago. É
raro, sendo quasi sempre colhido em redes de atravessar. O sabor é delicado e a cor dum carmezim
brilhante.
É Também chamado alfonsim do rolo, e outrora foi conhecido por alfaraz e realista.
Furilhão
O Furilhão ou Prego do Mar, é um rochedo com 49 metros de alto, que se ergue a muito
pequena distancia do ilhéu Chão.
E tradição na Madeira que este rochedo foi bombardeado em certo dia por uma fragata inglesa, que o
tomara por um navio suspeito. O Furilhão é conhecido dos navegadores inglêses pelo nome de Sail Rock.
Furna da Mulher
Tem este nome uma cavidade ou furna situada na costa marítima, de oeste, na
Deserta Grande. (Ilhas Desertas).
Furtado
O apelido Furtado procede de Rodrigo Enes Furtado, que foi um dos mais antigos povoadores
da Ponta do Sol e ali edificou uma capela na respectiva igreja paroquial, onde jaz sepultado, tendo falecido
em 1486.
Furtado (Diogo de Mendonça)
A sua nomeação para governador e capitão-general da
Madeira data de 17 de Dezembro de 1659 e a respectiva posse é de 2 de Dezembro de 1660.
Cinco dias depois foi às casas da câmara desta cidade e perante o senado apresentou o diploma de doação
que D. João IV fizera deste arquipélago à princesa D. Catarina, a fim de que fosse convenientemente
registado. V. Doação da ilha da Madeira á Infanta D. Catarina.
Fusão (A)
Publicou-se o primeiro numero a 21 de Janeiro de 1868, e o ultimo por meado de Julho do
mesmo ano, tendo saído vinte e quatro números.
Fustete.
V. Ameixieira de Espinho
Gabinete de Historia Natural Antigo
Estabelecimento, onde se deviam coleccionar os
mais notáveis produtos naturais e curiosidades das Ilhas da Madeira e Porto Santo, começou a ser
organizado no dia 4 de Abril de 1850, tendo sido destinadas para a sua acomodação algumas salas do
Palácio de S. Lourenço.
O gabinete de historia natural, um dos muitos melhoramentos devidos á iniciativa e á enérgica vontade do
conselheiro José Silvestre Ribeiro quando governador civil do Distrito, foi sempre muito deficiente, e as
colecções que ele chegou a encerrar, perderam-se todas ou foram roubadas, depois que o mesmo
governador deixou esta ilha no ano de 1852.
V.
Museus.
Gados
.
Figuram na agricultura madeirense, dizia em 1865 o agrónomo Eduardo Dias Grande, todas as
raças de animais domésticos do continente do reino, formando a raça bovina o capital mais importante da
pecuária distrital. Havia então, segundo o mesmo agrónomo, 25:338 cabeças de gado bovino em todo o
arquipélago, regulando o peso vivo de cada cabeça por 238 quilogramas.
«Ha boas razões para se acreditar, lê-se no relatório apresentado por Eduardo Grande á Sociedade Agrícola
do Funchal, que viessem do Minho (pátria de Zargo) os primeiros indivíduos da raça bovina, e é também de
suppor que concorressem outros do Algarve, d'onde nas primeiras epochas accudiram grande numero de
colonos. A ser assim, da conjugação d'aquelles dois ramos, proviria a raça da ilha, e a corpulência dos bois
do norte modificada pelo aligeirado dos do Algarve, devia ainda ir apoucando-se no vulto, de geração em
geração e affeiçoando-se á imagem das raças pequenas dos paizes quentes, de pastos finos e de relevo tão
caprichosamente montanhoso. Esforço no trabalho, mediania na secreção do leite, producção abundante de
manteiga, são caracteres destas raças.»
Miguel Fitzgerald fez vir para a Madeira em 1802 os primeiros bovideos de raças inglesas e pouco depois
pedia a cooperação do governo português para o estabelecimento duma granja modelo nesta ilha. Essa
cooperação foi-lhe concedida, tendo chegado a celebrar-se um contracto entre o mesmo Fitzgerald e o
governador e capitão-general D. José Manuel da Câmara para o estabelecimento da dita granja, mas a
empresa não deu resultado, por motivos que inteiramente desconheemos.
Depois de Fitzgerald, outros indivíduos introduziram bovideos de Inglaterra e doutras proveniências na
Madeira, os quais tendo-se cruzado com os animais da ilha, deram origem a uma raça de corporatura meã,
mas mais desenvolvida que a raça da terra. Os mestiços predominam hoje na população bovina madeirense,
sendo conhecidos geralmente pela denominação de gado inglês, ao passo que no Porto Santo é a raça da
terra que predomina, tendo ali adquirido dimensões mais reduzidas do que na Madeira.
Os bois, como os coelhos e certos vegetais, apresentam no Porto Santo exemplos típicos de nanimo,
fenómeno este que bem pode ser atribuído á dificuldade que têm as espécies encerradas num espaço
limitado, de fortificarem a sua raça por intermédio dos cruzamentos entre indivíduos variados e numerosos.
Há noticia de entre 1830 e 1840 serem introduzidas algumas vacas Ayrshire Dairy na Madeira, tendo mais
tarde um criador inglês mandado vir as primeiras Durham. Depois vieram as reses holandesas, as Jersey, as
Schwitz, as Alderney e as Taurinas, tendo sido todos estes elementos que misturando-se com a raça da terra
em repetidos cruzamentos, deram origem ao novo tipo que, como dissemos, predomina agora na Madeira.
Na raça da terra há a assinalar duas sub-raças: a vermelha e a alvaçã. A primeira, a mais comum, acha-se
representada em todas as freguesias da Madeira e conhece-se pelos pêlos vermelhos ou dum amarelo
escuro; a segunda está limitada aos concelhos do Porto do Moniz e da Calheta e é caracterizada
principalmente pela cor branca ou esbranquiçada da pelagem. As reses da sub-raça vermelha também são
conhecidas pela denominação de profetas ou do Porto Santo, enquanto as da sub-raça alvaçã recebem
muitas vezes o nome de gado maneiro ou da Ponta do Pargo.
Os bois para o trabalho usados no Funchal, são quasi todos do Porto Santo; embora pequenos, estes
animais prestam-se excelentemente ao serviço rude que se lhes exige e desenvolvem uma actividade que
dificilmente se observa em bovídeos de outras proveniências. No resto da ilha o trabalho é feito muitas
vezes por vacas da raça da terra, as quais não deixam por este motivo de ser votadas também á criação.
O gado nascido no Porto Santo desenvolve um pouco a sua estatura quando alimentado nos estábulos do
Funchal e arredores, mas os seus descendentes perdem um tanto a rijeza nos cascos que torna os bovídeos
da vizinha ilha tão apreciados para o trabalho em terrenos acidentados ou pedregosos.
Como animais de trabalho, são dignos também de apreço os bois que se importam ás vezes dos Açores, cuja
corporatura é mais avantajada que a dos animais da raça da terra. As vacas Corvinas, importadas daquele
arquipélago, parece que perderam na Madeira uma boa parte das suas aptidões lactígenas.
Os cruzamentos comunicaram mais actividade na secreção do leite á raça terranteza, mas esmoreceram-lhe
o ânimo para o trabalho e enfraqueceram-lhe a aptidão para arrastar pesadas cargas nos acidentados
terrenos da nossa ilha. Diz-se que as vacas da raça cruzada fornecem entre 900 e 1500 litros de leite
anualmente, mas o agrónomo Eduardo Grande admite que esse fornecimento possa ir até 1770 litros nas
freguesias desde a Ribeira da Janela até os Canhas, devido á humidade atmosférica, á qualidade das
ervagens e a outras circunstancias que aí se dão. A produção diária no período de maior secreção do leite
não vai geralmente além de 6 a 8 litros, embora se citem casos dessa produção atingir 14 e 15 litros.
Outrora criavam-se nas serras numerosos bovídeos da raça do arquipélago, mas presentemente quasi todos
esses animais vivem estabulados ou estão sujeitos a um regime misto de pasto e estabulação. No Paul da
Serra, nas Achadas da Cruz e nalgumas localidades mais, encontra-se ainda algum gado manadio o qual é
destinado geralmente a ser abatido.
A criação do gado cavalar tem muitíssimo menor importância na Madeira que a do gado vacum, havendo a
distinguir nele os animais nascidos na terra e os que são importados de Portugal, da Inglaterra e de outros
países quasi sempre pelos alquiladores. A raça da terra é forte, activa, sóbria e de singular ardência, mas
tem pequena procura hoje, por causa da sua pequena estatura.
Por 1891 veio para a Madeira um garanhão de boa raça, destinado a melhorar a qualidade dos animais da
terra, mas nenhum beneficio resultou dessa introdução, talvez pela grande diferença de estatura que havia
entre o cavalo reprodutor e as éguas da ilha. O cavalo depois de haver estado na Fajã da Ovelha, veio para o
Funchal, onde foi sustentado por algum tempo pela Câmara Municipal, seguindo finalmente para Lisboa, a
fim de recolher ao posto ou estabelecimento que o havia cedido.
A indústria hípica, que nenhuma importância tem agora na ilha, está restringida ao Paul da Serra e ao Santo
da Serra. Os animais são criados geralmente em liberdade, mas quando têm dois ou três anos o criador
recolhe-os para os vender se atingem uma certa corporatura, voltando os de qualidade inferior para a serra,
se não podem ter aplicação alguma. Os potros de estatura muito reduzida são castrados no geral para obstar
a que se reproduzam.
Também se encontra na Madeira o gado muar e asinino, aquele importado de Portugal, da Andaluzia e de
Marrocos, e este do Porto Santo. A produção do gado muar já existiu no Porto Santo, mas hoje está ali
completamente extinta.
Pelo que respeita aos ovídeos, aos caprideos e aos suídeos, há a dizer que são criados por toda a parte na
Madeira, existindo ainda muitas cabras e porcos nas serras, a pesar disso ser proibido por lei. Grandes são
os prejuízos que estes animais tem causado ás nossas matas, e seria um acto de grande utilidade publica
fazer cumprir por toda a parte a chamada «lei de pastagem de gado nas serras da ilha da Madeira»
publicada em 23 de Julho de 1913.
Os ovídeos madeirenses são quasi todos da raça da terra, que é bastante robusta e se cria geralmente nas
montanhas, mas afora esses animais, existem alguns carneiros merinos e de raças inglesas, sujeitos ao
regímen da estabulação ou da meia estabulação.
Segundo conta Eduardo Grande, o regente enviou em 1802 um oficio ao capitão-general D. José Manuel da
Câmara, felicitando-o «pelo bom resultado que houvera da introdução do gado ovelhum de lan comprida»,
mas este gado degenerou na ilha, o mesmo acontecendo a outros animais de boa estirpe, introduzidos
posteriormente. O referido Eduardo Grande encontrou no arquivo do Governo Civil alguns documentos
donde se vê que no aludido ano de 1802 o irlandês Fitzgerald ofereceu ao Governo um casal de gado
lanigero da mais excellente raça da Inglaterra.
As lãs brancas dominam no distrito, servindo para encher colchões e para o fabrico de certos tecidos
grosseiros de que se vestem os camponeses.
O gado caprino, que até há bem pouco tempo vivia em grande quantidade nas serras, começa agora a ser
retirado para as fazendas, mas há de ser difícil acabar com o mau habito de deixá-lo pastar livremente na
região elevada da ilha, embora todos reconheçam que ele constitui o pior açoute das árvores e de toda a
sorte de culturas. Os incêndios que desde 21 a 28 de Agosto de 1919 destruíram muitas das valiosas matas
madeirenses, foram devidos aos criadores de gado, cuja irritação é grande por terem sido forçados a acatar
as disposições da lei da pastagem nas serras da ilha da Madeira, publicada em 23 de Julho de 1913.
O leite das cabras que se apascentam nas montanhas fica desaproveitado, mas não deixam por isso de ser
úteis estes animais, pois que fornecem as peles de que se fazem os chamados borrachos (V. este nome) e as
botas chãs ou de vilão. A carne de cabra é pouco apreciada, mas a dos cabritos de tenra idade é saborosa e
aparece em muitas mesas, principalmente durante a Páscoa.
É costume os criadores de cabras reunirem-se na serra num dia do mês de Agosto, a fim de colherem os
animais destinados a serem vendidos ou abatidos. Com o auxilio dos cães, conseguem esses criadores
conduzir as cabras para um terreno a que chamam falso, e que cercam de varapaus e urzes entrançados,
sobre os quais colocam os coletes, sendo ai que se faz a referida escolha. As reses que vêm para os povoados
são destinadas as mais das vezes á produção do leite, de que se faz um grande consumo em todo o distrito.
As fêmeas da raça da terra produzem anualmente 200 a 250 litros de leite, não falando no que é consumido
pelas crias, mas há cabras de outras proveniências, de maiores aptidões lactígenas.
A cabra das Desertas, oriunda de animais que de longe em longe são lançados naquelas ilhas, é mais
pequena que a da Madeira, distinguindo-se dela também pelos membros mais robustos e pelos chifres mais
direitos. A armação dos bodes é robusta e retorcida no alto.
Entre as cabras que são conduzidas diariamente ao Funchal para o fornecimento de leite, vêm-se muitas,
pertencentes á raça do vizinho arquipélago das Canárias, que se distinguem das cabras da terra pelo focinho
mais grosso, pelos pêlos muito mais compridos, pelas orelhas grandes e pendentes e por alguns outros
caracteres.
Pelo que respeita ao gado suíno, o único de que nos resta falar, distinguem-se nele a raça da terra, oriunda
de animais vindos de Portugal nos tempos do povoamento, e as raças importadas modernamente, avultando
entre estas as inglesas e alentejanas. Os suideos do Alentejo têm-se abastardado um tanto no distrito, mas
as raças Berkshire, Yorkshire e outras, oriundas de Inglaterra, dão excelentes exemplares, quer se trate de
animais de meã, quer de grande corporatura. A raça Poland-China, de origem americana e também
introduzida na Madeira, é menos apreciada que as Berkshire e Yorkshire, pois que toma demasiada
gordura.
Os porcos da terra que vivem errantes nas serras, apresentam ás vezes caracteres que os distinguem dos
suínos das pocilgas, sendo principalmente no Fanal que se encontram os melhores exemplares da variedade
madeirense. Os varrões desta variedade têm defesas robustas, que igualam em tamanho as do Sus Scrofa.
"0 porco, diz Eduardo Grande no seu já citado relatório, é o animal dos países pobres e da pequena
propriedade. Vorazes e omnívoros, a facilidade da sua propagação e a modicidade do seu preço, tornam-no
precioso e quasi indispensável para os pobres habitantes dos nossos campos, e o único compatível com a
estreiteza dos seus meios".
Com efeito, poucos são os camponeses que não criam nas parcelas de terreno que cultivam um ou mais
suínos, sendo estes animais que lhes fornecem uma boa parte do adubo com que fertilizam as terras, e a
carne que comem pelo Natal e no resto do ano.
A criação dos suídeos em plena liberdade pelas serras é proibida, como já dissemos, pela lei das pastagens,
mas há-de ser difícil acabar em ela, se bem que alguma cousa se tenha feito nos últimos tempos com o fim
de pôr termo a um abuso que bastante tem contribuído para o aniquilamento das nossas matas.
Os principais centros de produção de gado porcino são Sant'Ana e Ponta do Sol, mas em toda a ilha se cria
este gado, de imensa utilidade para o camponês. Os machos e as fêmeas destinados á engorda, são castrados
Bovina
Cavalar
28.417
309
77
51
0 mapa seguinte mostra qual o numero de cabeças de gado de diferentes espécies existente no distrito
20.917 21.720
390
259
83
95
201
251
l6.150 28.417
90.403
86.686
18.210 18.604
23.510 34.230
19.667
dos dois meses em diante, e três ou quatro meses antes de serem abatidos têm uma melhoria na
alimentação, passando a receber diariamente uma certa dose de milho ou de farelo de trigo a fim de
nutrirem rapidamente.
do Funchal nos anos de 1851, 1873 e 1893:
Espécies 1851 1873 1893
Muar
Asinina
Ovina
Caprina
Suína
Antes de concluirmos esta rápida noticia sobre as diferentes espécies da população pecuária do arquipélago,
devemos dizer que embora o numero de cabeças de gado bovino e suíno não aumentasse de 1893 para cá
tão consideravelmente como certas circunstancias podem fazer supor, todavia o seu valor é hoje
imensamente superior ao que era então. Uma junta de bois para o trabalho, que pouco depois de principiar
a guerra europeia se comprava por 200 e 250 escudos, custa hoje de 800 a 1200 escudos, e uma vaca de
leite que há 20 anos se adquiria por 50 e 60 escudos e ainda não há muitos tempos por 100 e 120 escudos,
atinge presentemente preços que oscilam entre 200 e 300 escudos. Um pequeno suíno custa agora 30 e 40
escudos, quando o seu preço regulava há poucos anos por 5 e 6 escudos.
A enorme procura que agora tem o leite, em virtude do desenvolvimento tomado pela indústria do fabrico
da manteiga, é uma das principais causas dos preços atingidos pelo gado vacum, sendo de notar que
nalgumas localidades está posta quasi inteiramente de parte a criação dos vitelos, que são mortos poucos
dias depois de nascerem, a fim de que a produção lactígena das reses possa ser destinada exclusivamente a
fins industriais.
A nosso ver, a população pecuária não pode ser notavelmente aumentada enquanto senão melhorarem os
recursos forraginosos do distrito. Segundo os melhores cálculos, só existem hoje no arquipélago mais 3.480
cabeças de gado bovino do que em 1893, mostrando este acréscimo verdadeiramente insignificante para um
país que tem na criação dos gados e no fabrico da manteiga importantíssimas fontes de receita, que estas
indústrias adquiriram já todo o desenvolvimento compatível com os recursos locais.
O criador de gados que incendeia as florestas das nossas montanhas tem em vista geralmente alargar a área
pascigosa do distrito, quando o que ele devia fazer para conseguir este desideratum era explorar
convenientemente os prados e pastagens existentes e introduzir e propagar novas espécies forraginosas,
adequadas aos terrenos e clima da ilha. Nunca se cuidou a sério em melhorar os recursos forraginosos do
país, e deste desleixo se ressente agora mais do que nunca a nossa terra, cuja economia rural muito teria a
lucrar com o incremento da população bovina e o aproveitamento racional das raças leiteiras.
Quem quiser possuir uma noticia mais circunstanciada sobre os gados existentes neste arquipélago, tem de
compulsar o importante e desenvolvido trabalho, que lhe dedicou o distinto veterinário João Tierno, inserto
no relatório que, há cerca de quarenta anos, dirigiu às Estações superiores, na qualidade de intendente de
pecuária do distrito do Funchal. A pesar de não se referir a uma época muito recente, os seus dados
estatísticos e as suas interessantes informações conservam ainda uma grande actualidade e podem ser
consultadas com o maior aproveitamento. Ocupa-se do recenseamento dos gados, das áreas que ocupam, do
numero das suas espécies com relação á superfície e á população, das suas raças e sub-raças, das suas
características anatómicas, da sua importância na economia do distrito, das causas da sua pequena
expansão etc. etc., o que tudo constitui indubitavelmente um largo e proficiente estudo.
Entre os interessantes artigos
Bovideos
,
Equideos
,
Ovideos
,
Caprideos
e
Suideos
, deve destacar-se o
primeiro, a que o seu autor deu uma desenvolvida esplanação, tornando-o, quanto possível, inteiramente
completo no seu género.
Sobre o assunto, é também de grande aproveitamento o ler-se o interessante livro
Mamíferos do
Arquipélago Madeirense
, da autoria do Sr. tenente-coronel Alberto Artur Sarmento.
Parecendo-nos muito acertadas e proveitosas as considerações que o
Diário de Noticias
do Funchal
apresentou num dos seus editoriais do mês de Janeiro do ano corrente de 1941 acerca do fomento pecuário,
vamos com a devida vénia transcrevê-las nestas paginas, persuadidos de que elas poderão servir de
orientação e de estimulo para os que neste arquipélago particularmente se dedicam á criação do gado
bovino.
Na Madeira, terra essencialmente agrícola, a questão pecuária reveste interesse especial, sob o ponto de
vista da lavoura, dos lacticínios e da própria alimentação publica.
Infelizmente, a criação do gado faz-se nesta ilha sem qualquer critério racional e o resultado é que não se
tira da exploração pecuária todo o rendimento que esta comporta.
Em todas as terras onde existe um critério inteligente a este respeito procura-se determinar qual o fim da
exploração pecuária e conforme este visa a produção de leite ou de carne assim também se escolhem as
raças ou animais para criação.
Nas regiões próximas da cidade dão-se a preferência ás raças grandes produtoras de leite, por serem estas
as mais remuneradoras. Nas regiões mais afastadas, em que o leite produzido se destina á indústria dos
lacticínios, escolhem-se as raças que, produzindo menos leite, dão, contudo, um produto mais próprio para
o fabrico de queijo ou de manteiga.
Na Madeira, infelizmente, o nosso agricultor não tem orientação segura a este respeito e não só não existem
tipos ou variedades definidas mas também o que resta de importações feitas há anos tende a degenerar cada
vez mais, com misturas e cruzamentos a que não preside qualquer critério racional.
A criação do gado não obedece a preceitos que são elementares em pecuária. Não se cuida da saúde dos
animais, estes muitas vezes, vivem com falta de ar e luz, e quando no Matadouro se condena um animal por
estar doente ou ser impróprio para o consumo, faz-se grande algazarra como se o publico fosse obrigado a
comprar tudo aquilo que para ele é destinado.
Valha a verdade que raro é o gado criado entre nós, com o fim de ser abatido. A maior parte das reses que
vêm para o Matadouro são vacas que foram, durante anos, leiteiras e que são mortas por já não ser
compensadora a sua exploração.
Cremos que devia levar-se o nosso agricultor a seleccionar o seu gado na base que acima deixamos exposta.
Nas freguesias suburbanas, S. Roque, S. Martinho, Monte, etc.--o gado criado devia ser essencialmente de
grande produção leiteira. Nas freguesias mais distantes: Santa Cruz, Sant'Ana, Fajã da Ovelha, deviam ter-
se vacas cujo leite, pela sua constituição, rica em nata, fosse o mais apropriado para o fabrico de queijo ou
de manteiga.
Nas variedades locais, adaptadas ao meio, ao seu clima e ao sistema de estabulação, poderiam encontrar-se
tipos aproveitáveis; susceptíveis de serem melhorados por uma selecção racional e por sangue novo, sempre
conveniente e benéfico.
Não se cria na Madeira gado para carne.
Mas era também um aspecto a considerar e um objectivo a atingir desde que se pagasse a carne em
consideração da qualidade do gado apresentado. É claro que já hoje se segue, em parte, esse critério,
estabelecendo-se categorias no gado abatido. Mas devia ir-se mais além ainda acentuando-se bem que o
criador que escolhe e trata racionalmente os seus animais deve ter uma maior compensação.
A instabilidade que se tem notado no lugar de Intendente de Pecuária tem prejudicado a adopção dum
plano de acção em capítulo de tão grande importância na vida rural madeirense. Mas agora que aquela
função está na dependência da Junta Geral, este corpo administrativo vai marcar, com certeza, uma
orientação própria e estável tanto mais que o seu interêsse pelos assuntos e problemas da lavoura garantem,
em absoluto, o critério e o acerto dessa orientação.
Gafanhotos.
De longe em longe aparecem na Madeira alguns gafanhotos vindos da costa africana, mas
verdadeiros estragos causados por esses insectos, só há a registar os do mês de Outubro do ano de 1844.
Durante dois ou três dias os gafanhotos descreveram no ar uma elipse com 5 a 6 quilómetros de diâmetro,
pousando pela tarde sobre as árvores e as outras plantas, cuja folhagem destruíam.
Os gafanhotos desapareceram tão rapidamente como tinham aparecido, mas nas águas da baía do Funchal e
do Porto Santo viu-se boiar durante alguns dias grande numero daqueles animais. "A Câmara Municipal do
Porto Santo, dizem os Anais daquela ilha, lavrou um acordam em que se determinou que cada um dos
habitantes deveria apresentar um alqueire daqueles insectos ao secretario da mesma Câmara João António
Pedroso, e deste modo em poucos dias foram enterrados 360 alqueires daquela monstruosa praga».
Os gafanhotos que invadiram a Madeira e o Porto Santo nos fins do mês de Outubro de 1844 pertenciam á
espécie
Dectycus albifrons
, a qual depois disso, tem sido vista algumas vezes no Funchal.
Gagel (Dr. C.)
Geólogo e paleontologo alemão que visitou a Madeira em princípios do século XX. E.:
Ein Ausflug Nach Madeira
, Berlim,
1904,
Geologische Beobachtungen auf Madeira, Die
mtittelatlantischen Vulkaninseln
(incluido no
Handbuch der regionalen Geologie
) e
Beitrage zur Kenntnis
der insel Selvagem Grande
(publicado no
Neuen Jahr.für Miner. Geol. und. Palaont
., 1911).
Gago (António)
No artigo Afonso (João) não nos referimos a outro companheiro de João Gonçalves
Zargo na sua primeira viagem de descoberta do arquipélago, que tinha o nome de Antonio Gago e que
Frutuoso diz ser «homem nobre dos Gagos do Algarve».
Vid.
Companheiros de Zargo.
Gaiado (Thynnus pelamys)
Peixe da família Escombrida, de passagem na Madeira, principalmente
durante o verão e outono. É abundantissimo em certos anos e é consumido geralmente depois de salgado e
seco ao sol. Apanham-no á linha e é aproveitado, como as outras espécies do género Thynnus, para a
preparação da chamada conserva de atum, que a Madeira exporta em larga escala para Portugal.
O gaiado é conhecido também pelo nome de bonito nalgumas partes de Portugal.
V.
Atum
.
Gaias
Por fins do século XV habitava em Machico Braz Gonçalves de Gaias, que era da casa de el-rei. Foi
um dos antigos povoadores desta ilha e aqui introduziu este apelido, que se extinguiu.
Gain (Dr. L.)
Colheu algumas algas nas praias e rochas marítimas da Madeira e Deserta Grande, nos
dias 11 e 12 de Agosto de 1911. E.:
Algues provenant des campagnes de l'Hirondelle
II–1911 à 1912 (
Bullet
de l'Institut Océanographique
, n.° 279, Janvier 1914, Monaco). Também estudou as algas das Selvagens.
Gaivota (Larus cachinnans)
(Larus cachinnans)
. Ave da familia Larida, sedentária no arquipélago. A postura tem lugar
sobre os rochedos marítimos, durante Abril e Maio, constando a ninhada de três ovos de cor variável. O
ninho é construído com plantas secas, entrelaçadas.
Os madeirenses dão o nome de gaio ou gaivoto aos indivíduos novos da gaivota, os quais se distinguem dos
adultos pela plumagem escura, que só ao cabo de três anos está substituída pela plumagem definitiva.
Galão
Medida de capacidade correspondente a 3,5 ou 3,6 litros. É muito usada nesta ilha na medição
dos vinhos e aguardentes.
Galdo
No artigo consagrado á freguesia da Boaventura já nos referimos a Pedro Gomes Galdo, que foi
um dos primeiros povoadores que usaram este apelido entre nós. Teve muitas terras de sesmaria na
Boaventura e em S. Jorge. A este Pedro Galdo ou a um dos seus descendentes se atribue a fundação da
capela de S. Cristovão, na freguesia da Boaventura, fundação muito anterior á da criação da paróquia.
Galé (Baixa da)
Na costa marítima da ilha do Porto Santo, não muito afastado do Boqueirão de Cima,
fica um baixio, que tem o nome de Galé.
Galé (Ponta da )
A esta pequena saliência do litoral da freguesia do Estreito da Calheta também alguns
chamam Galera, estando situada entre a foz da Ribeira de São Bartolomeu e a da Ribeira Funda.
Galeão (Baixa do)
A leste do porto da vila de São Vicente e não muito distanciada da costa, encontra-se
uma restinga, que tem aquele nome.
Galhardo
Diz o anotador das Saudades que o nome Galhardo tem sua origem no apelido Gaillard,
ignorando-se quem o introduziu nesta ilha.
Galinhas (Ribeira das)
Nasce esta linha de água na freguesia da Fajã da Ovelha e desemboca na costa
marítima da freguesia do Paul do Mar existindo um pequeno porto na sua foz, a que chamam o Porto das
Galinhas.
Galinhola (Scolopax rusticula)
Ave da família Caradiidra, sub-familia Escolopacina, que cria na
Madeira, habitando de preferência os vales arborizados do interior, como Ribeira da Janela, etc.. É muito
perseguida pelos caçadores.
Galo (Peixe)
V.peixe Galo .
Galo (Pico do)
Eminência no sítio da Cruz da Caldeira, na freguesia de Câmara de Lobos, pouco distante
do Cabo Girão.
Vid.
Pico do Galo
.
Galvão (António)
Este conhecido escritor no seu Tratado dos descobrimentos antigos e modernos,
escrito em 1550, ocupa-se do descobrimento deste arquipélago.
V.Saudades da Terra , pag. 372.
Gama
Parece ter sido o Dr. Lourenço Vaz Pereira da Gama o primeiro que nesta ilha usou este apelido
de família. Passou à Madeira nos princípios do século XVI a exercer o lugar de provedor de defuntos e
ausentes. Foi pai do Dr. Antonio da Gama, de quem nos ocupamos nesteElucidário .
Gama (Arnaldo)
O conhecido romancista Arnaldo Gama (1828-1869) escreveu entre outros livros o
romance intitulado
A Caldeira de Pêro Botelho
, cujo entrecho se passa em boa parte nesta ilha, sendo
alguns personagens também naturais da Madeira, nomeadamente os fidalgos Diogo e Pêro Botelho. Acerca
dos elementos de que se serviu para a urdidura deste romance histórico, diz Arnaldo Gama numa nota final
do seu livro:–«Terminando, tenho a dizer que a historia dos amores de Diogo Botelho e D. Beatriz, bem
como a da Caldeira de Pêro Botelho, foram tiradas da Relação de uma viagem a Espanha, escrita por Tomé
Pinheiro da Veiga, que dizem ser autor da celebre Arte de Furtar, viagem de cujo manuscrito é possuidor o
Sr. Antonio Rodrigues da Cruz Coutinho, proprietário e editor de este livro».
Gama (Dr. António da)
António da Gama é por certo um nome desconhecido para a maioria dos
madeirenses, a pesar de ter florescido no século XVI como um abalizado jurisconsulto, gozando de grande
reputação no seu tempo, em toda a Europa culta.
Os seus escritos e a fama que adquirira como professor numa universidade estrangeira granjearam-lhe no
nosso país os foros de um dos primeiros legistas da sua época, tendo exercido os mais elevados cargos na
Casa da Suplicação, na Chancelaria e no Desembargo do Paços principalmente em atenção aos seus vastos
conhecimentos de jurisprudência. A sua obra De Juribus, quibus Lusitanum imperium in Africa, Índia ac
Guinea. Decisiones supremi senati regni Lusitanae foi sucessivamente publicada em Lisboa, Francfort,
Cremona, Veneza e Antuérpia, tendo seis edições nesta cidade, sendo a ultima em 1735, cento e quarenta
anos depois da morte do seu autor.
A voga que tiveram alguns dos seus escritos em toda a Europa, durante um tão longo período de tempo, só
deve atribuir-se ao seu valor intrínseco, tratando-se sobretudo de um estrangeiro, natural de um país que
não se evidenciara muito pela sua cultura intelectual.
António da Gama ou António da Gama Pereira, como também se assinou em algumas das suas obras,
nasceu nesta cidade no ano de 1520, sendo filho do doutor Lourenço Vaz da Gama Pereira, que neste
arquipélago exerceu o lugar de provedor dos defuntos e ausentes, e de sua mulher Dona Branca Homem de
Gouveia.
Desde tenros anos mostrou notável inclinação para as letras, e depois do estudo das humanidades, em que
revelou grande aptidão para a língua latina, foi em 1537 cursar a Universidade de Coimbra, onde estudou
direito cesareo, sendo o mais distinto discípulo do afamado professor e jurisconsulto Gonçalo Vaz Pinto,
dizendo Barbosa Machado «que não invejando os seus condiscípulos era de todos elles invejado».
Em 1543 tomou o grau de bacharel e a 23 de Fevereiro de 1546 fez oposição a uma das cadeiras da
universidade, com grande aplauso de mestres e discípulos.
Querendo alargar a área dos seus conhecimentos, dirigiu-se á Universidade de Bolonha, talvez a mais
afamada daquela época, e depois de dar ali brilhantes provas do seu talento e do seu saber, foi admitido
como membro do corpo docente deste celebre instituto, considerado então como um dos grandes focos da
ciência europeia.
D. João 3.°, atraído pela fama do seu nome, convidou-o a vir para Portugal, nomeando-o em seguida lente
de uma cadeira na nossa Universidade, sendo depois chamado á corte, onde permaneceu até a morte,
desempenhando aqui elevados cargos, em que brilharam notavelmente a sua vasta inteligência e a
profundeza dos seus conhecimentos. Foi Desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, passando
depois a Chanceler e em seguida ao Desembargo do Paço, tendo ainda exercido outros importantes logares.
Não só se notabilizou como magistrado e se evidenciou sempre como um jurisconsulto distintíssimo, mas
ainda era muito venerado pelas suas eminentes qualidades de carácter, impondo-se o seu nome á mais alta
consideração de todos.
Durante mais de 40 anos se entregou inteiramente ao desempenho das funções dos seus diversos cargos,
não abandonando nunca o estudo da jurisprudência, em que era mestre consumado, sendo sempre a sua
opinião muito acatada e consultada nos assuntos mais difíceis.
Além da obra que acima fica apontada, deixou outros escritos, todos em latim, que vêm enumerados na
Bibliotheca Lusitana
, alguns dos quais tiveram diversas edições. Também deixou varias obras inéditas.
Faleceu em Lisboa a 30 de Março de 1595, sendo sepultado no convento de Santo Elói, lendo-se no seu
túmulo a seguinte inscrição:
Sepultura do Doutor Antonio da Gama Pereira do Conselho del Rey N.
Senhor, seu Desembargador do Paço e Canceller da Casa da Suplicação nos quaes Tribunaes serviu 49
anos. Viveu 75. Falleceu em 30 em Março de 1595
.
Gamboa
Este apelido "procede, diz o anotador das Saudades, de Antonio Garcia Gamboa, natural da
vila de Almeida, cavalleiro da Ordem de Christo, que foi comendador das miunças da ilha do Porto Santo e
do dizimo do pescado da villa de Machico e da de Santa Cruz: teve este também o foro de fidalgo, e a
propriedade do posto de sargento-mor da ilha da Madeira, em tempo de D. Sebastião.»
Gamboa e Liz (António de)
(António de)
. Foi nomeado Governador Civil deste distrito por decreto de 7 de
Dezembro de 1835 e tomou posse a 14 de Maio do ano seguinte. Durante o seu governo, o cargo de chefe do
distrito passou a ter a denominação de Administrador Geral, sendo o primeiro que entre nós exerceu este
lugar. Em 1838, a Câmara Municipal do Funchal dirigiu uma representação ao governo da metrópole contra
a má administração deste governador.
Nasceu em Arruda dos Vinhos a 10 de Janeiro de 1778 e morreu a 26 de Março de 1870.
Gansos de Arribação
Entre as aves que vêm ao arquipélago, têm sido observadas algumas
espécies de gansos, tais como oAnser cinereus e oA. segetum , o primeiro dos quais habita a Europa do
norte e a oriental e o segundo as regiões do circulo polar artico.
Garajau (Sterna Hirundo)
Ave da família árida, comum nos mares da Madeira. Faz criação sobre
as rochas sobranceiras ao mar, depositando sobre o solo nu os três ovos de cor e forma variável que
constituem a sua postura.
O garajau deixa estas ilhas em Outubro e Novembro e volta nos primeiros meses da primavera.
V.
Cabos.
Garajau (Cabo)
Referindo-se Gaspar Frutuoso á descoberta desta ilha e á primeira exploração através
da costa marítima, diz o seguinte:–«Chegados a huma alta e grande ponta, que a terra fazia grossa e
alcantilada no mar, acharam nella tantos garajáos (aves do mar), os quaes sem nenhum medo se punham
sobre suas cabeças e sobre os remos, que os tomavam com a mão, com o que tiveram muito gosto e fizeram
grande festa. E por esta causa ficou o nome de Ponta do Garajao. . . » Esta ponta constitue o extremo leste
da baia do Funchal, e ao transpô-la, na direcção leste-oeste, aparece-nos de surpresa o encantador
panorama da cidade a trepar em anfiteatro pelas encostas verdejantes, dando o conjunto um dos mais
maravilhosos trechos de paisagem que um viajante pode ansiosamente esperar. . . A ponta do Garajau
eleva-se 126 metros acima do nível do mar.
Num dos seus pontos mais elevados, a cerca de 120 metros de altitude e ainda dentro dos limites da
propriedade que o conselheiro Aires de Ornelas possuía na freguesia do Caniço, fez este distinto madeirense
erguer no ano de 1927, uma grande estátua dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, que as embarcações
avistam a grande distancia, quando demandam o porto do Funchal.
Sobre este palmipede e a ponta da costa marítima a que ele deu o nome, é interessante ler-se a série de
artigos que o distinto naturalista Adolfo de Noronha publicou no
Diario de Noticias
do Funchal no mês de
Dezembro de 1927.
Vid.
Cabos
.
Garantia Funchalense
A Companhia de Seguros Garantia Funchalense foi fundada nesta cidade
a 6 de Janeiro de 1907, com o capital social de 200.000$000 réis, tendo por fim realizar seguros terrestres
e marítimos.
Garapa
É o suco produzido pela espremedura da cana sacarina. Nas fabricas que produzem aguardente
está calculado que são precisos 30 quilogramas de cana para se obter um almude (171) de garapa, e que este
almude de garapa produz 5 a 6 quartilhas de aguardente com 26 graus Cartier.
V.
Cana Sacarina
.
Garapau
Este nome é aplicado tanto na Madeira como no Porto Santo aos indivíduos novos do goraz e
algumas vezes do besugo (V. estes nomes). Quando o primeiro destes peixes atinge um certo
desenvolvimento, é chamado peixe anique, e só depois de adulto é que recebe a denominação de goraz. O
goraz adulto procura as profundidades, ao passo que os indivíduos novos, os garapaus, vivem junto da
costa, onde são pescados á linha pelos simples amadores.
Como é bem sabido, não há analogia alguma entre os garapaus da Madeira e os carapaus de Portugal,
servindo este ultimo nome para designar os indivíduos novos do chicharro (V este nome), espécie esta que
se encontra também nos mares que banham a Península.
Garças
AArdea purpurea e aA. cinerea são duas espécies de garças que visitam o arquipélago,
recebendo esta ultima o nome de garça real. A primeira aparece de preferência nos meses de outono,
inverno e primavera. Pertencem á família Ardeída.
Garcez (Dr. António João Rodrigues)
Era medico no Funchal, quando em 1821 foi eleito
deputado pela Madeira para as Cortes Constituintes que funcionaram de 1821 a 1822. Não chegou a tomar
assento nas cortes, por ter falecido em Lisboa antes de se terem verificado os seus poderes. Para preencher a
vacatura foi chamado o deputado substituto Dr. João José de Freitas Aragão. (V. este nome).
Garcia Ramos (Acursio)
Nasceu na ilha Terceira no ano de 1834. Durante alguns anos residiu no
Funchal, exercendo as funções de medico militar. Em 1872 foi nomeado professor interino da Escola
Medico-Cirurgica desta cidade e medico do hospital da Misericórdia. Entre ele e a Comissão Administrativa
da Santa Casa, levantou-se um grave conflito, tendo por tal motivo o Dr. Acursio Ramos publicado em 1874
um folheto intitulado
O Hospital de Santa Isabel da cidade do Funchal visto á luz da hygiene
. Em 1880
publicou em Lisboa a obra
Ilha da Madeira
, em dois volumes, de 276 e 200 pags.. Deixou outras obras
impressas.
Tendo-se envolvido nas lutas políticas da Madeira, conseguiram os seus inimigos que o coronel Antonio
Augusto de Macedo e Couto o fizesse prender no ilhéu sob a acusação de pretender anarquizar o batalhão de
caçadores n.° 12 e de ser a alma de um conluio maçónico que tinha por fim entregar a ilha aos americanos,
mandando-o seguir dali para Lisboa, onde deu entrada no Castelo de S. Jorge e depois na torre de S. Julião
da Barra. Tendo sido preso em 19 de Abril de 1874, só em 8 de Dezembro do mesmo ano conseguiu o Dr.
Acursio recuperar a liberdade, depois do conselho de investigação do ridículo processo que lhe fora
instaurado pelo referido coronel Macedo e Couto ter declarado que não havia fundamento para um
conselho de guerra.
Faleceu em Lisboa a 14 de Setembro de 1892.
Gardner
E.:The Geology of Madeira (Quart. Journ. of Geol. Soc. of London ), XXXVIII, 1882.
Garnier (Dr. P.)
Medico francês que publicou em 1858 uma tradução da obra do Dr. Barral sobre o
clima da Madeira. Esta tradução tem o título
Le Climat de Madère et son influence thérapeutique sur la
phthisie pulmonaire
, e nela foram introduzidas, com assentimento do autor, diversas alterações
importantes.
O Dr. Garnier, que esteve na Madeira nos fins de Outubro de 1850, escreveu também um folheto com o
seguinte título:
Itinéraire de Paris à Madère
(
Union Médicale
, Outubro, 1859).
Garoto (O)
Publicação clandestina, de que saiu apenas um numero, com a numeração o e a indicação
do 5.° ano de publicação, a 28 de Outubro de 1912.
Com o mesmo título saiu outra publicação clandestina e irregular, que deu quatro números, sendo o 1.° a 23
de Setembro de 1906 e o ultimo em Janeiro de 1907.
Garoupa (Serranus cabrilla)
Peixe da família Percida, que habita os baixos fundos rochosos
desde a costa até um pouco além de 100 braças. A briqueira é o aparelho geralmente empregado na sua
pesca.
Além de comum, é a garoupa um dos peixes mais finos dos mares da Madeira.
Garreta (Léon)
Jovem naturalista francês que fez uma exploração cientifica nas Selvagens em Junho
de 1911 e que também visitou a Madeira, onde se demorou alguns dias. Viajava na pequena chalupa Adolphe
Marie, que esteve quasi a soçobrar no seu regresso á Europa.
Garreta encontrou a morte nos campos de batalha da França, em 1914 ou pouco depois.
Garro
Usou este apelido de família Afonso Garro, que foi um dos primitivos povoadores do Funchal.
Julgamos que há muito está extinta.
Gaspar (Alfredo Rodrigues)
Nasceu nesta cidade a 8 de Agosto de 1865, sendo filho de Manuel
Rodrigues Gaspar e de D. Maria Augusta Gaspar. Concluiu o curso de engenheiro maquinista em 1885 e o
de oficial de marinha em 1888, e é capitão de mar e guerra e desde 1898 lente da Escola Naval. Tem-se
particularmente dedicado ao estudo da balística e explosivos de que é lente, sendo considerado nestas
matérias como uma verdadeira autoridade. Representou o nosso país no congresso de química aplicada que
em 1909 se realizou em Londres e ali fez uma importante comunicação sobre o Estudo comparativo de
algumas das provas de estabilidade dos explosivos. . .
Foi em 1911 eleito deputado ás Constituintes e senador em 1913. Em 1914 e 1915 foi ministro das colónias,
voltando a gerir os negócios da mesma pasta em 1919, no ministério presidido pelo Sr. Sá Cardoso. Foi
presidente do concelho de ministros no ano de 1924.
Morreu em Lisboa a 30 de Novembro de 1938.
Gata (Scymnus lichia)
Esqualo dos mares profundos da Madeira, que tem sido colhido entre 150 e
900 braças. Tem valor industrial pelo azeite que se extrai do seu figado e pela lixa que fornece a sua pele,
usada na marcenaria sob o nome de lixa de gata.
Gaula (Freguesia de)
Os medianamente versados na historia da literatura portuguesa conhecem a
celebrada novela de cavalaria Amadis de Gaula, atribuída a Vasco de Lobeira e cuja origem, língua em que
foi escrita, época da sua redacção, etc., têm sido objecto de diversos trabalhos de critica literária e de
investigação histórica, especialmente nos livros de Teofilo Braga–
Introdução e
Theoria da Historia da
Literatura Portugueza
,
Poetas Palacianos
e
Amadis de Gaula
. Existirá alguma correlação entre o nome
dado a esta paróquia e o da famosa novela? O Dr. Alvaro de Azevedo não o nega nem afirma, fazendo uma
referência vaga e ambígua á freguesia de Gaula, quando trata do romance narrativa e dos cultores que ele
teve neste arquipélago. Parece ter querido propositadamente esquivar-se a emitir uma opinião, que
porventura poderia ser alcunhada de arriscada ou temerária. No entretanto, transcrevamos as palavras do
anotador das Saudades: « Tristão de Léonois, Lancelot do Lago, e Yseult, são desses personagens; Gaula é a
pátria do protagonista de uma dellas; Amadis de Gaula é o título da celebre novella attribuída ao nosso
Vasco de Lobeira, contemporâneo de D. João I. E nestas ilhas abundaram, nos princípios deste período, os
Tristões, desde Tristão Vaz, ou simplesmente Tristão, Tristão da Ilha, primeiro capitão donatario de
Machico, assim designado, não por inferioridade em referência a Zargo, mas ao revez, por uma espécie de
celebridade poética do nome, em honra de sua singular cavallaria e nobreza,» como escreve Fructuoso,
copiado por Antonio Cordeiro, na
Historia Insulana
, liv. III, cap. IX, § 54: houve também nestas ilhas mais
de um fidalgo chamado Lançarote, manifesta corrupção de Lancelot: Bartholomeu Perestrello, primeiro
donatario da ilha de Porto-Sancto, poz a sua segunda filha o nome de Yseu, ou Hiseua, também clara
viciação de Yseult: e, finalmente, Gaula, é denominação de então dada aos vastos terrenos a oeste da villa de
Sancta-Cruz, que formam, desde 1558, a freguezia de Gaula.»
O Dr. Teófilo Braga refere-se ao assunto, quasi em idênticos termos aos do Dr. Álvaro de Azevedo, no seu
livro Amadis de Gaula, donde trasladamos os seguintes períodos:– «E para notar, que no único ponto aonde
a tradição portugueza conserva o romance de Lancelot, é onde há mais vestígios de um conhecimento do
Amadis na sociedade aristocrática: o nome de Grimanesa, amante de Apolidão, senhor da ilha Firme, era
também o da mulher de Tristão Teixeira, terceiro capitão de Machico. «O quarto e ultimo filho do capitão
Tristam se chamou Lançarote Teixeira: foi um dos melhores ginetarios da ilha; porque além de por sua
inclinação ser mui bom cavalleiro, tinha mui grande mão para domar cavallos, e era dado muito a isso, em
tanto que em seu tempo se ajuntavam na villa de Machico sessenta cavalleiros de esporas douradas muito
bem postos, e encavalgados por indústria deste Lançarote Teixeira, que quando vinha um dia de Sam João
ou do Corpo de Deus, eram tantos os cavalleiros para jogos de canas e escaramuças, que mais parecia
exército de guerra que folgar de festa: e além de todos serem mui destros nesta arte, elle todavia tanto se
divisava entre elles, que se pode com razão dizer que foi luz e ornamento de Machico.» Deste Lançarote
Teixeira nasceram além doutros filhos, um chamado Lançarote Teixeira de Gaula, e uma filha que casou
com Fernão Nunes de Gaula. Gaspar Fructuoso descreve este lugar arredado de Machico: «Andando mais
adiante desta ribeira (da Boaventura) quase uma legoa, está uma povoação de trinta visinhos do mesmo
termo de Santa Cruz, que se chama Gaula, e tem muitas vinhas de malvasias e muitas vinhas de outras
castas». A influencia da novella do Amadis de Gaula neste mesmo local facilmente se prova, sabendo que
esse Lançarote Teixeira de Gaula era neto de Tristão Teixeira das Damas, poeta amoroso do Cancioneiro de
Resende: «Chamou-se-lhe das Damas, porque foi muito cortesão, grande dizidor e fazia muitos motes ás
damas, e era muito eloquente no fallar. Este poeta, casado com D. Guiomar de Lordello, dama da Excellente
Senhora, era contemporâneo de Azurara e o seu caracter e gosto por força o faria conhecer das aventuras do
Amadis de Gaula».
Do que fica transcrito, não se pode logicamente inferir que haja qualquer correlação entre o nome dado a
esta freguesia e a existência da celebre novela de cavalaria. Embora Teófilo Braga afirme que a influencia do
Amadis de Gaula neste mesmo local facilmente se prova, a verdade é que o facto de existirem em Gaula um
Lançarote e a neta de um Tristão, personagens dos romances de cavalaria da novela do Amadis, isso não
constitue um argumento que nos leve a estabelecer a identificação dos nomes da freguesia e da novela.
Cumpre observar aqui que nos assentos mais antigos do registo paroquial, a começar por meados do século
XVI, se encontra sempre o nome desta freguesia com a grafia de Guaula, que parece ser o nome primitivo
que uma corrutela popular transformou em Gaula. Isto mais afasta ainda a ideia de qualquer próxima
afinidade entre os dois nomes.
Esta freguesia foi constituída por terrenos que pertenciam á paróquia e vila de Santa Cruz, donde foi
desmembrada pelos anos de 1558. Não temos encontrado noticia de que existisse ali uma capela, que
houvesse sido a sede da nova freguesia. O respectivo pároco teve primitivamente a côngrua anual de 12.300
réis, que o alvará de D. Sebastião, de 9 de Junho de 1572, elevou a 20$000 réis, sendo então vigário Fr.
Diogo Moreno. Os alvarás subsequentes de 9 de Junho de 1581, de 20 de Janeiro de 1589 e de 4 de Julho de
1592 aumentaram sucessivamente o vencimento do pároco, que o ultimo diploma fixou em 16$000 réis em
dinheiro, uma pipa de vinho e um moio e meio de trigo. Jorge Rodrigues, Diogo Fernandes e Fr. Diogo
Moreno foram dos mais antigos sacerdotes que exerceram funções paroquiais nesta freguesia.
A sede da paróquia instalou-se numa capela que já ali existia ou que foi construída por ocasião da criação da
freguesia e que ficava a leste e a não grande distancia da actual igreja paroquial. A pesar de ser um templo
de acanhadas dimensões, foi a sede da paróquia num período aproximado de dois séculos. O mandado do
Conselho da Fazenda de 17 de Outubro de 1753 autorizou a edificação de uma nova igreja, cujas obras foram
arrematadas pelo pedreiro Manuel Rodrigues pela importância de 3:400$000 réis. Ignoramos quando se
concluíram as obras de construção e em que ano se procedeu á bênção do novo templo. O campanário foi
construído em 1915, dispendendo-se nele a quantia de 1.800$00.
Tem esta igreja paroquial uma artística cruz de prata, que, em 1882, figurou na Exposição Retrospectiva de
Arte Ornamental, realizada em Lisboa, e que no respectivo catalogo vem assim descrita: «Cruz processional
de prata dourada com a imagem de prata branca, e tendo as extremidades com a forma de flor de liz.
Appoia-se numa base hexagonal representando um castello, defendido por seis gigantes com corucheus de
estylo gothico. Altura, Om,70. Século XV.».
Teve esta freguesia as capelas de São João de Latrão, no sítio que ainda hoje conserva este nome, e a de São
Marcos, no sítio do Porto Novo, das quais nos ocuparemos em outro lugar.
São principais sítios: Porto Novo, Fazenda, Levadas, Achada de Baixo, Achada de Cima, Achada da Rocha,
Salgados, Pico, Cova do Moinho, Faia, Lombo, Fonte, Povo, Lobos, Furtados, Salão, Torre, Fonte do Lopo,
Fazendinha São João, Castelejo, Aldonça, Beatas, Lombadinha, Lajeas, Farrobo e Contenda.
Entre os sítios merece especial menção o da Achada, conhecido pela Achada de Gaula, onde se encontra um
grande agrupamento de casas de habitação, muitas das quais rodeadas de altos buxos, que as abrigam dos
ventos e que dão ao local um aspecto bastante interessante e pitoresco, local que tem grandes traços de
semelhança com a encantadora freguesia de Sant'Ana, até na constituição do próprio terreno. Do Pico dos
Eirós, que domina as freguesias da Camacha, Santo da Serra e Caniço, descortina-se um vasto e
surpreendente panorama, que pelo lado de leste se estende até a Ponta de S. Lourenço. O sítio da
Lombadinha merece particular referência por ter sido noutro tempo quasi exclusivamente foreiro ao Cofre
de Cativos, que tinha a sua sede em Lisboa e que se destinava ao resgate dos portugueses que ficavam
prisioneiros dos mouros em Marrocos, onde sofriam os maiores ultrajes e as mais duras crueldades.
É esta freguesia irrigada pela levada do Pico dos Eirós, que é a mais importante, e nasce dentro dos limites
da paróquia, a da Ribeira da Metade, que tem sua origem no ribeiro da Junça, na freguesia da Camacha, e a
levada da Roda, cujo caudal vem da freguesia de Santa Cruz.
A paróquia é separada das freguesias do Caniço e Camacha pela ribeira do Porto Novo em cuja foz se
encontra um pequeno porto com este nome, que é o mais importante da freguesia e onde a Junta Geral fez
construir um pequeno cais ou desembarcadouro há cerca de quinze anos. Em Setembro de 1873 chegou ao
Funchal a corveta norte-americana Supply, que não teve livre pratica por proceder dum porto onde grassava
a colera-morbus. Dois escaleres deste vaso de guerra tentaram fazer um desembarque de gente no Porto
Novo, ao que energicamente se opuseram os habitantes do lugar, tendo esta atitude dos gauleses obrigado
os marinheiros americanos a desistir do seu intento. Também há nesta freguesia o insignificante porto de
Aldonça, tendo num ponto que lhe fica sobranceiro mandado construir o capitão-general Sebastião Botelho
um pequeno forte no ano de 1820.
Afirma-se que, em outro tempo, ao ser um habitante desta freguesia interrogado acerca da sua naturalidade,
respondia invariavelmente: sou; de Gaula, você que se importa, se a pregunta era feita na época das amoras,
que ali abundavam, ou então sou de Gaula por meus pecados, se a resposta era dada passada a época da
colheita daquele fruto. A pregunta ainda hoje frequente e intencionalmente se repete, mas em geral não
obtém resposta, porque o gaulês vê nela uma ofensa ou um motivo de irrisão ou escárnio para a freguesia da
sua naturalidade.
Nuno Fernandes Cardoso, que era filho de Fernão Nunes Cardoso, «filho de linhagem», no dizer dos
nobiliarios, veio para esta ilha pelos fins do século XV e teve largas terras de sesmaria na freguesia de Gaula,
onde instituiu em 1511 o morgadio de São João de Latrão. Seu filho primogénito, Pedro Nunes Cardoso, foi,
segundo afirma H. H. de Noronha, corregedor do crime da corte, desembargador da Casa do Porto e herdou
nesta ilha o morgado de seus pais, morrendo em Gaula a 17 de Maio de 1552 e sendo sepultado na capela de
São João de Latrão. Um irmão deste, por nome Diogo Nunes Cardoso, estudou em Coimbra e na Itália, onde
se doutorou, e foi desembargador do Paço. Deste Diogo Cardoso foi filho Tomaz Nunes de Afonseca, que,
diz um antigo nobiliario, «estudou em Coimbra e foi corregedor do crime na corte e depois de haver servido
a el-rei em negocios de muita importância veiu a esta ilha, onde tinha herdado o morgado de Gaula de seu
avô, por falta de sucessão de seu tio Pedro Nunes Cardoso». 0 ultimo representante desta casa vinculada foi
Nuno Fernandes Cardoso e Vasconcelos, avô de Luiz Cardoso de Castro e Abreu, actual professor desta
freguesia de Gaula. (V.
S. João de Latrão
).
O orago desta paróquia é Nossa-Senhora da Luz e tem a freguesia 3.120 habitantes.
No dia 28 de Março de 1932, faleceu nesta freguesia, onde nascera e exercia as funções paroquiais, o padre
João Jorge Bettencourt, que, sendo um sacerdote das mais acrisoladas virtudes, se distinguiu como
jornalista, havendo durante alguns anos sido o redactor principal dum jornal diário que se publicou nesta
cidade.
Recentemente surgiu a ideia de atribuir-se a origem do nome desta freguesia a uma família de apelido
Gaula, que ali houvesse feito assentamento nos tempos primitivos da colonização, mas a verdade é que esse
nome não deixou vestígios entre a população nem ficou registado nos livros do respectivo arquivo
paroquial.
Vid.
Diário de Notícias
de 19 de Maio de 1929.
Gavião
«João Gavião, diz um distinto linhagista, era da casa de el-rei, vindo para a ilha da Madeira,
naufragou na do Porto Santo, e passou a residir no Caniço, onde faleceu com testamento em 1555». Foi um
dos primeiros que nesta ilha usaram o apelido de Gavião.
Gavião (Accipiter nisus)
Ave falconida que estabelece o seu ninho sobre as árvores. É indígena,
mas pouco frequente, não tendo sido mencionada na lista de Harcourt. É também conhecida pelo nome de
fura-bardos.
Gavina (Rissa tridactyla)
Ave da família Larida, oriunda das regiões articas e que vem hibernar no
arquipélago da Madeira. Na baia do Funchal é comum vê-la no inverno, ora balouçando-se ao sabor da
onda, ora empoleirada na borda das fragatas do carvão.
Gazeta da Madeira (
A
)
. Publicou-se de I de Fevereiro de 1866 a 27 de Fevereiro de 1869, tendo
saído 101 números.
Geheeb (A.)
E.:Bryologische Fragment E. Madeira Moose (Flora, 1886) . Faleceu a 13 de Setembro
de 1909.
Gente Nova
Deu o primeiro numero a 15 de Outubro de 1919 e o ultimo, o decimo, a 20 de Março de
1920. Voltou a publicar-se em Fevereiro de 1921.
Era um jornal redigido por alunos do liceu.
Geodesia
Subordinado à epígrafe geral de Geodesia e debaixo do subtítulo de Localização das Cartas
Hidrográficas do Arquipélago da Madeira no Elipsóide Internacional, publicou o Sr. Pires de Matos, distinto
oficial da marinha de guerra portuguesa, nos
Anais do Club Militar Naval
(Jan.-Fev., 1940), um largo e
valioso artigo, não permitindo a sua extensão trasladá-lo integralmente nestas paginas, mas de que apenas
vamos transcrever uns breves períodos, a fim de pôr este assunto ao corrente dos nossos leitores, aos quais
ele possa porventura oferecer algum interesse.
«Em 1914 a Direcção dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos, estabeleceu uma triangulação na Ilha da
Madeira, que teve como principal utilidade e fim imediato o levantamento da carta coro gráfica da Ilha,
executado em 1915, revisto e actualizado pelo Instituto Geográfico e Cadastral em 1934 e publicado em 1938
na escala de 1/50 000.
A base da triangulação foi medida no Paul da Serra e para origem de coordenadas tomou-se o marco do
Forte de S. Tiago, que foi construído próximo do local onde em 1892 uma Missão Americana fez
observações de latitude e longitude astronómicas, tendo a Direcção dos Trabalhos Geodésicos e
Topográficos observado no Forte de S. Tiago, o azimute astronómico de um dos lados da triangulação.
Com excepção do azimute, foram pois as observações astronómicas da Missão Americana que serviram para
o cálculo das coordenadas geográficas da Ilha da Madeira.
Em 1936 reconheceu-se a necessidade de rever a triangulação de 1914, reconstruir alguns marcos
destruídos, triangular Porto Santo e Desertas e efectuar a ligação entre as Ilhas do Arquipélago, com o fim
imediato do levantamento coro gráfico de Porto Santo e Desertas e levantamento hidrográfico do
Arquipélago da Madeira. Nestes novos trabalhos realizados em 1936 pelo Instituto Geográfico e Cadastral,
foram abandonados alguns vértices da antiga triangulação de 1914. Por outro lado e paralelamente com o
Instituto, a Missão Hidrográfica prolongou a triangulação até a linha da arriba e aos portos em que se
levantaram planos hidrográficos.
O Instituto Geográfico e Cadastral abandonou a antiga origem do Forte de S. Tiago e realizou observações
astronómicas–latitude, longitude e azímute no marco astronómico da Ilha de Porto Santo.
Embora este marco esteja em melhor situação do que o de S. Tiago, pelo menos no respeitante á latitude,
tudo fazia prever que as observações viriam ainda afectas de desvio da vertical considerável e que por
consequência, adoptando as observações astronómicas desta nova origem, se cometeriam erros apreciáveis,
na colocação do conjunto no elipsoide.
a) atribuição ao marco de origem de coordenadas astronómicas afectas de desvio da vertical e de erros
b) observações geodésicas não isentas de erros de observação;
c) transporte de coordenadas geográficas num elipsoide de referência que se afasta do geoide mais ou
Se tivéssemos para origem de coordenadas um marco no qual se não sentisse o efeito do desvio da vertical,
se as triangulações fossem rigorosamente medidas e calculadas, se as superfícies do geoide e elipsoide
internacional se ajustassem perfeitamente, se não existissem causas perturbadoras nem erros de
observação, as coordenadas geográficas de qualquer vértice transportadas geodèsicamente, seriam sempre
iguais às coordenadas astronómicas nele directamente observadas.
Assim não sucede contudo, verificando-se diferenças por vezes consideráveis que tem a sua explicação nas
seguintes causas:
de observação;
menos irregularmente e segundo leis desconhecidas;
d) influencias perturbadoras locais, devidas a desequilíbrio na distribuição de massas em volta das
estações astronómicas e difíceis de calcular, pelo desconhecimento das densidades das várias camadas
geológicas existentes abaixo da superfície da terra.
Uma única estação astronómica dar-nos-ia para os vértices e lados geodésicos determinadas latitudes,
longitudes e azimutes geográficos. Cada vértice terá então tantos sistemas de coordenadas quantas as
origens escolhidas.
A Missão Hidrográfica tinha ao seu dispor dois sistemas de coordenadas geográficas, correspondendo o
primeiro à triangulação de 1914, com a origem em S. Tiago e o segundo à triangulação de 1936 com a origem
em Porto Santo. Embora aproveitando provisoriamente o primeiro destes dois sistemas, nem um nem outro
foram os adotados na publicação definitiva das cartas.
Para melhor esclarecimento e solução deste problema, resolveu a Missão Hidrográfica realizar observações
astronómicas nos marcos seguintes:
PICO RÁDIO–FUNCHAL, a sul da Ilha da Madeira;
MONTADO, a norte;
PONTA DO PARGO, a oeste;
CANCELA, a este;
POISO E BICA DA CANA, no interior da Ilha respectivamente a altitudes de 1:414 e 1:621 metros;
ILHÉU CHÃO, nas Desertas.
As observações astronómicas nos marcos acima referidos, foram feitas com um teodolito universal,
adquirido em 1937, á firma alemã Askania Werk A. G. Bambergwerk designado nos catálogos por
Instrumento Universal A. U. Z. 21 C.
Adoptou-se o método de Talcott para a observação da latitude, conseguindo-se com cerca de 15 pares de
estrelas fundamentais do catálogo Eichelberger, erros prováveis inferiores a 0".10. A longitude obteve-se
comparando-se os estados referidos a GW. recebidos radiotelegraficamente e calculados pela determinação
das horas do cronómetro das coincidências dos sinais rítmicos e dos segundos exactos do cronómetro, com
os estados referidos a tempo local, conseguidos com cerca de 6 séries de 12 estrelas, sendo em cada série, 6
observadas com a ocular a leste e 6 com a ocular a oeste. O azimute foi obtido pela observação de estrelas
circumpolares em elongação.
Uma vez recolhidos os elementos astronómicos citados, o problema a resolver consistiu em adotar métodos
de cálculo, por meio dos quais todas as estações astronómicas acima referidas, pudessem contribuir para
arbitrarmos aos vértices da rede geodésica estudada, as coordenadas geográficas mais prováveis.
No estado actual da geodesia o problema no seu aspecto absoluto é insolúvel, mas a verdade é que essa
circunstancia não desaconselha a adoção de um dos vários processos existentes para se atingir o fim em
vista. Embora reconhecendo o valor das criticas feitas á hipótese de isostasia formulada por Pratt e adotada
por Faye, Airy e outros cientistas, resolvemos contudo seguir o método de Hayford, que se fundamenta na
hipótese da compensação isostática e que serviu para definir o elipsoide internacional.
Se os resultados obtidos se não podem legitimamente apresentar como definitivos, não é menos certo que
apresentam inegável interesse.
D=0"000328 vezes a cota em metros;
D=0.000202 vezes a profundidade em metros.
Como na Madeira parte das cartas utilizadas têm as cotas e profundidades expressas em metros, será:
As cartas empregadas no cálculo dos desvios topográficos foram as seguintes:
1) PLANO HIDROGRÁFICO DA BAIA D FUNCHAL–escala 1/7500;
2) CARTA COROGRÁFICA DA ILHA DA MADEIRA–escala 1/25000;
3) CARTA COROGRÁF1CA DA ILHA DA MADEIRA–escala 1/50000;
4) PLANO HIDROGRÁFICO DA BAIA DE PORTO SANTO–-escala 1/15000;
5)CARTA COROGRÁFICA DA ILHA DE PORTO SANTO–escala 1/25000;
6) CARTA HIDROGRÁFICA DA ILHA DA MADEIRA–escala 1/75000;
7) CARTA HIDROGRÁFICA DA ILHA DE PORTO SANTO–escala 1/50000;
8) CARTA HIDROGRÁFICA DAS DESERTAS–escala 1/50000;
9) CARTA HIDROGRÁFICA DO ARQUIPÉLAGO DA MADEIRA–escala
1/150000;
1O) CARTA HIDROGRÁFICA DO ALMIRANTADO INGLES NÚMERO 1:226 –escala do paralelo médio
1/3181400.
Estas cartas exigiram a construção de Gráficos de distribuição de compartimentos nas escalas respectivas e
tomando em consideração a projecção considerada.
Pela relação estabelecida r'/r
1
=1.426, nota-se que o raio que limita exteriormente um compartimento, se
obtém multiplicando o raio interior por 1.426.
Cada duas circunferências consecutivas dão lugar a um anel que compreende 16 compartimentos.
Atendendo à escala das cartas o anel interior de que nos servimos foi o 30, limitado exteriormente pelo raio
de 134m,2. O anel exterior atingido pela compensação foi o número 6 com o raio exterior de 670,8 km.
Da observação dos resultados obtidos no Arquipélago da Madeira, podemos concluir que não havendo
possibilidade de se obterem elementos astronómicos em número elevado de estações, é de toda a vantagem
escolherem-se estações localizadas em terrenos tipograficamente pouco acidentados. É bom não perder de
vista que o acidentado tipográfico muito próximo da estação, exige cartas suficientemente detalhadas que
nem sempre se podem obter com facilidade. Quanto mais extensa for a região plana em volta da estação,
tanto menores serão as escalas das cartas necessárias para se obter determinado rigor.
Numa ilha bastante acidentada, convirá localizar o marco astronómico em zona elevada, de preferência
planáltica, em relação á qual haja, tanto quanto possível, simetria de distribuição de massas.
Num arquipélago, convém escolher para observações astronómicas a ilha de menor acidentado orográfico.
Nas condições acima definidas afigura-se-nos suficiente a correcção feita ás observações do marco da
origem.
Devido á instabilidade dos eixos de referência e dificuldade de relacionar entre si esses eixos, o que só é
possível aproximadamente depois de muito trabalho, as poligonais astronómicas, só nos podem prestar
bons serviços, em trabalhos de mero reconhecimento.
As variações do desvio da vertical são máximas nas regiões da costa. Esse facto indica-nos como é perigoso
o uso de uma poligonal astronómica nessas regiões, para a confecção de cartas em que se pretenda traduzir
com certo cuidado e verdade a topografia do terreno. Em extensões de duas centenas de quilómetros
poderemos cometer erros por vezes superiores a 500 metros em costas como a de Angola e Moçambique.
Poder-se-iam corrigir dos efeitos do desvio da vertical os vértices astronómicos, mas mesmo nas regiões em
que se disponham de cartas suficientes, o método por muito trabalhoso não é de aconselhar.
Se a compensação nos faz perder parte do rigor conseguido mercê da aparelhagem moderna empregada e
observações e cálculos mais demorados, não são, segundo algumas opiniões, de justificar despesas
importantes com a aquisição de boa aparelhagem e maior perda de tempo gasto em melhores métodos de
observação e cálculo.
A minha discordância é completa porque entendo não devermos perder de vista, que nestas espécies de
trabalho há dois fins a atingir:
Primeiro–Localizar as cartas o melhor possível no elipsoide internacional, á luz dos métodos de
investigação actualmente conhecidos.
Segundo–Reunir uma série cada vez maior de documentos para o estilo actual e principalmente futuro da
forma da Terra.
Se para atendermos ao primeiro fim, qualquer teodolito modesto é suficiente, o segundo só poderá ser
plenamente atingido se empregarmos nos nossos trabalhos o melhor que for possível de aparelhagem
moderna e bons métodos de observação e cálculo.
Aqueles a quem o Estado entrega postos de investigação cientifica, segundo a minha modesta maneira de
ver, nunca devem esquecer que os serviços não contribuem para o aumento dos conhecimentos humanos
somente pelo fim imediato e utilitário dos seus trabalhos, mas também pelo mediato, por vezes menos
aparente, mas de grande importância futura.
E depois a verdade é que o pequeno aumento de despesa que se faz não é impeditivo, mesmo quando os
serviços contam com orçamentos modestos.
Geologia
A formação das ilhas que constituem o arquipélago da Madeira remonta á época terciaria, no
mioceno. Levantamentos submarinos, formando colunas de emersão, nas quais se manifestaram acções
vulcânicas até os primeiros tempos do quaternário, alteraram o seu contorno em períodos sucessivos de
convulsões, bifurcando-se a Madeira e Porto Santo a 2000m de profundidade, e aflorando no Atlântico a 21
milhas de distancia.
A ausência de crateras bem definidas, já derrubadas ou modificadas pelos agentes naturais, é uma prova
característica do seu longo período de formação.
Na Madeira, o principal foco eruptivo manifestou-se na parte central da ilha, no Curral das Freiras, imenso,
brutal, produzindo relevos parciais de longada, estádios que se ergueram de 300m a 600m daí a 1200m
num grande dilúvio de lavas, marcando e definindo o dorso da cadeia central, acumulando escorias
envolvidas em novas torrentes, elevando-se progressivamente até altitudes maiores do que agora
apresentam.
Focos adventícios e secundários se abriram, quer em parte no maciço central, quer irrompendo em pontos
bem distanciados. A inclinação exterior dos cones é por vezes bastante áspera, de forma que as lavas nem
sempre se solidificam em camadas regulares, e então se dispersam em blocos e fragmentos.
Aos longos períodos de repouso sucederam-se maiores paroxismos, e numa das durações de tranquilidade
se formaram terras pela desagregação natural das rochas, e puderam assim vegetar algumas plantas, flora
inicial descoberta na linhite de S. Jorge, soterrada por subsequentes emanações vulcanicas. Num dos
períodos convulsivos se deu o levantamento marcado pelos fosseis marinhos de S. Vicente, encravados a
montante de um vale de erosão, a 360m de altitude, constituindo um enclave.
As primeiras formações sub-aereas manifestam-se no plioceno por uma grande ejaculação de lavas
basálticas irradiando do primitivo foco, ora mais densas, ora mais fluidas, solidificando-se mais
rapidamente á superfície, cobrindo-se de escorias em crusta flexível que fende e se eriça, estendendo-se
mais para o norte, recortando-se para o sul, correndo e escoando em diferentes declives, que próximo ao
mar tendem para a horizontalidade.
Um novo período basáltico se lhe seguiu com grande projecção de escorias e formação de conglomerados,
obstruindo e derivando as correntes de lava, lançadas irregularmente em todos os sentidos.
As lavas traquiticas sucederam-se ás basálticas, depois da Madeira ter atingido um relevo médio, e nelas se
abrem fendas e focos que determinaram a corda de montanhas do espinhaço da ilha, lavas elevadas a uma
grande percentagem de alumina ao norte do Curral, cobrindo depressões, acumulando-se entre os
obstáculos.
As traquidolerites alternam com as traquites e a sua maior expansão é principalmente para oeste e norte,
notando-se que as lavas desta natureza no vale da Boaventura são mais modernas do que as da formação
superior do Curral.
As essexites brotadas de fendas adventícias e desentranhadas por pressão a grandes profundidades,
parecendo rochas antigas, são recentes na formação, e encontram-se encravadas no Porto da Cruz, Curral e
Ponta do Sol.
Muitos picos no interior da ilha acham-se encravados em lavas mais modernas que as da sua formação,
correndo lhes pelo sopé e encostas; outros afogaram-se em lavas e blocos de desabamento das caldeiras
mais próximas, como se reconhece nos cortes das ribeiras dos Socorridos e Boaventura.
A cratera principal de formação, que na sua maior amplitude acusa 2.500 metros de diâmetro, interrompida
no segmento sul, derrubado, arcava-se de oeste para leste pelos picos Grande, Empinos, Arranhamento,
Jorge, Casado, Torrinhas, Lage, Eirinhas, Coelho, Ruivo, Torres, Cidrãos Cedro, e os focos adventícios a
dentro da mesma cratera deram origem aos ricos da Roda, do Meio e do Cerro, e aos montados do Cidrão e
do Paredão.
O Paul da Serra considerado até há pouco tempo como uma cratera engasgada por desmoronamento
interno, opinião Stuebel, -– é visto nos mais recentes estudos como um banco de lava, com tufos e escórias
idênticos aos da formação do Lombo Gordo, no Curral,– opinião Gagel.
Efectivamente, uma linha de alturas com pequenas depressões, talhadas pela erosão, liga estes dois pontos
por:–Bica da Cana, Pináculo, Monte Medonho, Rocha Negra, Pico do Ferreiro.
Se toda a acção vulcânica se tivesse patenteado na caldeira central, o relevo máximo da Madeira ascenderia
para o Pico Ruivo, ou um outro, á altitude de 2.500 metros.
O ultimo arranco vulcânico é manifestado fora da zona média, nos extremos da ilha– Porto do Moniz,
Caniçal–já desligadas as Desertas; e na região sul, por Câmara de Lobos, Funchal, Caniço, onde se
encontram os cones mais recentes de formação.
Basaltos
. O basalto é uma rocha de aparência homogénea, anegrada, pesada e rija.
A variação de cor e dureza dependem dos elementos acessórios e do seu antigo estado de fluidez. Encontra-
se em grandes assentadas, desde as de pequena espessura a massas rochosas enormes, lavas de diferentes
períodos de formação, predominando na região mais baixa.
Observam-se nos basaltos fendas de retracção pelo arrefecimento, partindo-se em blocos prismáticos,
volumosos, de secção poligonal, em que predomina o hexágono irregular, colono se vê nos trabalhos de
exploração das pedreiras. O empilamento destes maciços em alongados prismas forma lindas muralhas de
basalto colunar, frequentes nas margens das ribeiras profundas, sendo a fachada mais típica a do Tem-te-
não-caias, no vale do Porto da Cruz.
Em menor espessura e corrente de fraca inclinação, encontra-se o basalto lamelar, retraído em faces
paralelas que se desagregam pelo choque violento do picão. O basalto colunar é chamado pedra viva,
variável de densidade e, portanto, exigindo diferente carga de mina para ser separado em blocos, faceado
em parte depois, para material de construção. O basalto lamelar produz as lajes empregadas para mestras,
levadas, lavadouros, pavimentos, etc.. As lájeas do adro do Monte foram arrancadas a uma pedreira já
extinta, que pela natureza da rocha deu o nome ao sítio das Lajinhas. Estes basaltos são insusceptíveis de
serem lavrados.
Na fractura do basalto encontra-se este, por vezes, coberto de um revestimento ou ténue camada
pardacenta, devido à alteração de sais de ferro, provocando a linha de menor resistência, o casco, que os
alvanéus descapam, rejeitando este basalto para trabalhos de maior importância, como tanques, etc..
Nos basaltos encontram-se pequenas bolhas formadas por gases, e a sua disposição e forma são indicativas
da direcção e velocidade da corrente. Em bolhas maiores, ovóides, se formam, por vezes, geodes, onde
cristaliza, exsudada da massa basaltica pelo arrefecimento, a aragonite, conhecida pelo nome de madre de
pedra, por se encontrar no interior da rocha.
Quando cheio de um grande numero de vesículas, o basalto é conhecido pela designação de pedra favada e
pedra de porco, pela aplicação que dela é feita em esfregar o coiro deste animal depois da chamusca, na
matança, para o despojar das cerdas.
O basalto de grão fino e um tanto vesicular forma as cantarias rijas, que podem ser bem trabalhadas e de
largo emprego em edificações, escudos, aduela de ponte, mós, moinhos de mão, gamelões, etc.. Bonitos
lavores se encontram na fachada da capela de S. Luiz, na antiga rua do Bispo, e no pórtico do cemitério das
Angústias.
Traquites.
São rochas rudes, de textura microlítica e determinada fluidez, apresentando, por vezes o aspecto
de esferóides decompostos em camadas concêntricas como um bolbo tunicado, de cor pardo-suja,
acinzentada, constituindo uma matéria amorfa de elementos feldespaticos, e contendo, á vista, pequenos
cristais disseminados de sanidina e magnetite.
As traquites têm sido confundidas com o pórfiro, e quando truncadas com as bombas vulcanicas.
As traquites na Madeira encontram-se na zona superior a 300m de altitude, decompondo-se como se vê nos
cortes de caminhos desaterrados, onde apresentam um nódulo mais escuro.
Traquidolerites
. Têm o aspecto de antiga fluidez bem característico, como se observa numa torrente de lava
no vale da Boaventura, e são mais ricas em alcalinos do que as traquites, contendo por vezes granulos de
peridotos.
De coloração variável, passando do cinzento claro ao escuro, com transições pelo amarelado, salpicadas de
pontuações mais claras, as traquidolerites alternam com as traquites nalguns pontos da região elevada e na
encosta do Pico do Serrado, Rabaçal e Porto da Cruz.
Essexites
. São rochas de profundidade, constituídas principalmente por plagioclase, olivina, magnetite,
distinguindo-se a essexite porfirica cinzento-escura, acastanhada, ponteada de magnetite diopsido de brilho
vítreo gorduroso, como na Penha de Águia, ribeiro do Massapez e Ponta do Sol, e a essexite melafirica,
cinzenta, porosa, de grão fino, com cristais relativamente grandes, de augite e microlitos de olivina, como
em Ponta Delgada, Ribeira Brava e ribeira de S. Vicente.
No ribeiro da Soca, no Porto da Cruz a primeira assentada de essexite tem um aspecto diferente das outras
rochas da mesma natureza, não só das encontradas na Madeira, como de todas as outras conhecidas; por
isso o Dr. Gagel, em vista da analise quantitativa e qualitativa desta rocha, e consultadas as maiores
sumidades na matéria, a designou com o nome de madeirite, apresentando uma linda microfotografia, a
cores, desta rocha, no seu valioso trabalho Studien über den Aufbau und die Gesteine Madeiras.
Diques.
No período de convulsão, estalaram-se as rochas e novas lavas e escórias vieram preencher as
fendas abertas, formando filões entre as paredes da fractura, que, quando menos resistentes que a massa
introduzida, desagregando-se pela acção dos agentes atmosféricos, desamparam o filão e o deixam a nu.
É na região central que predominam os diques desnudados, e o recorte das Torres e Torrinhas assemelha-se
ás ruínas de fantásticos castelos, cortina imensa derruida pelas forças da natureza, e qual sentinela isolada,
ao subir para o Pico Ruivo, se depara na Achada do Ferreiro, a 1522m de altitude, o pitoresco dique, o
Homem em pé, que parece crescer pela erosão do terreno da base.
Entre os numerosos diques que atravessam as rochas do litoral, merecem reparo os encastoados nas
paredes a prumo do Cabo Girão, entre eles, o Poço do Eiró, perfeitamente vertical.
A disposição dos diques e a sua direcção transversal, convergente e até de cruzamento, representa o efeito
de diferentes centros de vibração em tempos distanciados, os quais tiveram muitas vezes os seus focos em
pontos agora submersos no mar.
Canais de lava
. As lavas esfriaram mais rapidamente á superfície e em contacto com as paredes e o leito
onde correram que no interior, e por isso conservaram aqui por mais tempo a sua fluidez, tornando-se
assim ocas ao terminar o escoamento e formando canais subterrâneos. Os canais de lava mais
característicos são: o Fojo (canal derrubado), próximo á Ponta da Cruz; os do Cavalum, na Ribeira de
Machico; o do Cardal, junto á ponte da vila de S. Vicente.
Bombas vulcânicas
. São pedaços de lava contorcidos, quer projectados pelas caldeiras, e então apresentam
o aspecto piriforme e lenticular, ou passados por fendas, tendo o aspecto da massa forçada num coador.
Encontram-se entre conglomerados e isoladamente próximo aos cones mais modernos de formação. As
bombas de olivina são fragmentos de uma rocha peridotica situada a profundidade e arrancada sob pressão
nas explosões vulcânicas, ligada a basaltos ou formando conglomerados como mais frequentemente se
encontra no Porto Moniz.
Tufos
. São consolidações de lamas vulcanicas, muito variáveis segundo a natureza dos materiais que a
constituíram, e apresentam-se geralmente escorificados.
Os tufos mais vulgares dão a pedra mole, de colorações amareladas, nas mais claras predominando a cal,
contendo as mais escuras oxidações de sais de ferro. Emprega-se apenas em arrumação e muros para
suporte de terras.
A cantaria mole é de grão grosseiro, heterogéneo, pardacenta, ou magenta escura; a cantaria de filtro, é
cinzenta escura e aplicada para coar água em poços e pias; a cantaria de forno, vermelho-acastanhada, é
empregada no fabrico de fogareiros e aduela de fornos. Estas cantarias brandas são utilizadas também para
material de construção, sendo no entanto corroidas pelo tempo e acção dos agentes naturais.
Escorias.
Provieram das escumas vulcânicas que se solidificaram, rudes, rugosas, vesiculares, por vezes
depondo-se em camadas, ou constituindo montículos, cones e gibosidades, nos contrafortes orograficos,
sendo neste caso massas projectadas da caldeira em explosivo cachão.
Tem colorações muito variáveis, predominando as anegradas. Dão-lhes emprego como revestimento
exterior de tanques e cascatas de jardins, e modernamente no interior dos tabiques de casas, substituindo as
aparas de madeira.
Cinzas vulcanicas.
Apresentam-se num estado de grande divisão da lava pulverizada durante as explosões,
constituindo agregados microlíticos de aspecto amorfo, contendo porém uma infinidade de pequenos
cristais escuros em que abunda a augite, as oxidações do ferro, e nas cinzas mais recentes a aragonite
concrecionada–Ribeiro Seco, Gorgulho, etc..
Arrastadas por vezes em fraco declive pelas águas, interpõem-se em camadas negras nos tufos e acham-se
depositadas em cavidades formando a areia de furna, empregada na argamassa para revestimento interno
de algumas casas de habitação. Na magma dos tufos encontram-se também cinzas fazendo parte integrante
das cantarias brandas.
A chamada areia do Monte é um aglomerado de cinzas, de tonalidade arroxeada, que reduzido
mecanicamente a partículas, tem idêntica aplicação á da areia de furna.
Pedra pomes.
É uma obsidiana esponjosa sobrepondo-se ás lamas vulcanicas, formando com estas
aglomerados, quando viscosamente se escoam–Santa Luzia, Pilar, etc.,–ou assentadas em camadas
paralelas ás dos tufos, como ordenadamente se observa no litoral da Penha de França, á foz do Ribeiro Seco.
Pómices verdoengas, de aspecto recente, se encontram no Porto dos Frades, no Porto Santo, parecendo
terem sido ali trazidas pelas correntes marítimas.
Argilas.
Constituem uma massa formada de grande variedade de produtos terrosos, provenientes da
decomposição de silicatos alumínios das rochas, especialmente das traquites.
Argilas antigas, endurecidas, contendo hidróxidos ferricos e carbonatos, acham-se intercaladas e cozidas
entre camadas de produtos vulcanicos, recebendo o nome de laterites.
As argilas contendo areias formam os barros, natureza de terreno que dá o nome a vários sítios chamados
Barreiros. Algumas argilas estão revestidas de uma camada de hidróxidos de ferro, com aparência de sucata
–S. Jorge, Santana, etc.,–outras de carbonatos e sulfatos–Porto Santo.
O massapez é uma terra contendo grande quantidade de argila ferruginosa, pardacenta, conservando por
muito tempo a água que embebe, e o salão é avermelhado e menos denso. Estas designações dão igualmente
o nome a vários sítios onde se encontram as duas mencionadas terras.
As terras arroxeadas são provenientes da decomposição de traquitóides das altitudes, as terras amarelentas,
da desagregação dos tufos chamados pedra mole.
Sobre as terras minerais corantes e argilas há dois curiosos relatórios do tempo dos capitãis-generais D.
Diogo Coutinho e D. José da Câmara, sobre a aplicação do almagre, ocres, e pozolana, propondo a sua
aplicação e desenvolvimento industrial.
Alagoas
. Dá-se este nome a vários sítios onde o terreno é alagadiço, formando lagoas na invernia,
provenientes de depressões causadas pela erosão, em logares baixos, ou a vestígios de antigos focos
eruptivos secundários que se encontram nas altitudes. Desta ultima causa são as alagoas do Porto Moniz,
Fanal de Cima e Fanal de Baixo, e a do Santo da Serra. No Pico da Cancela, no Caniçal, existe uma em forma
de ferradura, e portanto, antiga alagoa derrubada.
Calcareos
. São provenientes dos detritos de uma vida submarina, carapaças e conchas de pequenos
animais, mecânica e quimicamente transformados em rochas que afloraram á superfície, ou foram
arrancadas por acções vulcanicas.
Muitas vezes se encontram produtos calcareos vomitados pelas crateras sob a forma de lamas–Ponta da
Cruz, Queimadas de Machico, etc..
Os calcareos actualmente em exploração para os fornos, existem no ilhéu da Cal, na Ilha do Porto Santo, na
Selvagem Grande e a norte da Madeira, em S. Vicente. Em alguns jazigos não explorados se poderiam obter
pedras para outros fins industriais.
Carbonatos de cálcio em formas concrecionadas e estalactites revestem as paredes de algumas furnas,
especialmente no Ilhéu da Cal.
A calcite em forma de romboedros, de um branco puro ou variedades granulosas amarelentas, se encontra
em S. Vicente; a aragonite, do sistema ortorrombico em agulhas e feixes divergentes, e lindas formas
colunares e aciculares, acha-se na Madalena do Mar e Boaventura.
A acção antiga das águas carregadas de sulfatos, em dissolução, sobre os calcáreos, produziu o gesso
intercalado em leitos de sedimento ou em concreções: nalguns logares, compacto, noutros grosseiramente
cristalino. Puro, forma, a selenite encontrada na Selvagem Grande.
Concreçôes
. A água das chuvas, carregada de anidrido carbónico e dissolvendo os carbonatos de cálcio,
penetra nos tufos e areias movediças, formando caniculos pela retracção, ramificáveis conforme a direcção
do infiltramento.
Assim se formaram as curiosas arborizações calcareo-arenosas da Piedade, no Caniçal, e dos Mornos, no
Porto Santo, e ainda nalguns tufos dos Covões, no Caniço, e entre tufos e cinzas no Fojo e Praia Formosa.
A forma caprichosa como por vezes se aglutinaram as areias calcareas, especialmente na Piedade, deu-lhes
o nome popular de bonecos.
Outras opiniões há que admitem a origem vegetal dos depósitos da Piedade e Mornos, incluindo-os na
categoria de fôsseis. (V.
Corpos calcareos
).
Erosão
. O relevo do grupo Madeira tem sido pela acção dos tempos bastante modificado, tendo como
principal agente a acção da água das chuvas e do mar, no seu trabalho por vezes estupendo, mecânica e
quimicamente desgastando os diferentes materiais e acarretando-os para o mar.
As rochas vão sendo decompostas, desequilibram, pendem e desabam, transformando-se em sucessivos
detritos, depósitos transitórios em função do peso e da velocidade das correntes. As chuvas torrenciais que
acompanharam os diferentes períodos de formação vulcanica originaram a erosão progressiva e escavaram
os vales com variável grau de energia, conforme a natureza do leito, enquanto as correntes, ora apertadas
entre as ribas, ora ressaltando de nível, tombando em quedas, a escavar poças profundas removidas na sua
base, transbordando, alargando-se depois, a formar os chãos e as várzeas, foram depondo e removendo a
carga conforme os tributos de confluência, o fluxo e obstáculos encontrados.
A diferente intensidade invernosa, causando por vezes aluviões, estorce e deriva o caminho das águas,
marcado em antigos leitos, traçado nas margens elevadas das ribas pelos vestígios do transporte.
Os nossos vales são cortes magníficos que mostram a forma como se precederam as camadas que os
formam, os acidentes da sua disposição e a influencia das causas de discordância que motivaram a sua
configuração actual.
A acção do mar tem reduzido muito o contorno do litoral e feito variar a linha da costa, talhada nalguns
pontos quasi a prumo, abrindo calhetas, abras e enseadas, aumentando e diminuindo as praias, abrindo e
insulando rochedos. A costa norte tem sido visivelmente corroída, a costa sul, sensivelmente aumentada, já
nos tempos históricos.
As rochas traquiticas do ilhéu da Fonte da Areia, no Porto Santo, acham-se escavadas em forma de taças,
onde, por vezes, se depositam o sal marinho e areias de diferentes detritos.
As fontes de João Diniz brotavam sobre o calhau no século XVI; o pilar de Bânger foi construído sobre uma
baixa, passando-se no século XVIII em canoa, entre esta e a muralha da defesa da cidade; a capela da
Misericórdia de Machico ficava na foz da ribeira e acha-se hoje distanciada do mar cerca de 200 metros. A
ribeira de S. João vai assoreando a enseada da Pontinha. Basta ver a obstrução das ribeiras nas invernias e
olharmos para o ourelo barrento do mar, para facilmente se compreender o trabalho provocado pelas águas.
Fajãs.
O desabamento de quebradas pela denudação forma pataréus, poios ou sapatas na base do
desmoronamento que, quando de grandes dimensões, constituem terrenos de inclinação natural, no interior
ou na costa:– Fajã Escura, Fajã das Galinhas, Fajã dos Padres, Fajã do Mar, etc..
O Lugar de Baixo, na Ponta do Sol, é uma fajã progressiva, e muito aumentada pela aluvião de 1803.
Quando as quebradas tombam sobre as ribeiras, obrigam estas a estorcer-se e lhes derivam o leito.
A infiltração das águas entre camadas sedimentares de diferente natureza e de fraca inclinação ocasionou,
no século XVII, um escorregamento suave ou avalanche de terrenos que se intrometeram no mar, na
freguesia de S. Jorge.
Areias
. São provenientes da trituração e rolamento de diferentes materiais. A sua coloração e natureza
caracterizam a origem:–assim, a areia negra provém do basalto; a areia castanho-acinzentada, das
traquites; a amarela escura, dos tufos; a amarela clara, dos calcareos conquiliferos. Nas areias se encontram
cristais microlíticos das rochas decompostas, sendo abundantes os de olivina nos grandes preiamares da
Praia Formosa.
As areias calcárias formam por vezes um arenito, aglomerado empedernido, ou se conglomeram com
partículas de diferentes materiais, recebendo o nome de ariusco–Porto Santo. S.
Nas publicações do
Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra Memórias e Noticias
n.°
II, 1940, vem inserto um desenvolvido estudo acerca da Geologia das Ilhas Selvagens subordinado ao título
de
Uma Missão Geológica a bordo do navio Hidrográfico Carvalho de Araújo
, devido á pena do Dr. J. C.
de Morais, director daquele museu.
V.
Bowdich, Dana, Albuquerque, Hartung, Lyell, Smith, Macaulay
.
Germinal (O)
(O)Deu o primeiro numero a 8 de Janeiro de 1919.
Giesta (Cytisus scoparius)
Arbusto muito comum na Madeira e que aparece também na ilha do
Porto Santo. Pertence á família das Leguminosas, sub-familia das Papilionadas, e tem folhas 3 foliadas, com
os foliolos muito pequenos, flores amarelas e vagens muito comprimidas, celheadas nas margens. A giesta é
muito usada para adubo das terras, e com os seus ramos fabricam-se cestas, gigos e outros pequenos
artefactos. Esta industria já existia na ilha no tempo em que foram escritas as
Saudades da Terra
.
Gil
Na freguesia de Santo Antonio há o sítio de Vasco Gil, onde um indivíduo deste nome, que foi um dos
primeiros povoadores desta ilha, teve terras de sesmaria e pertenceu ao numero dos homens bons da antiga
governança do Funchal. Foi talvez o primeiro que neste arquipélago usou o apelido de Gil.
Gil (Emilio A. Santos)
Foi eleito deputado pela Madeira em Agosto de 1910, mas as cortes não
chegaram a reunir-se.
Ginjeira (Prunus Cerasus)
Árvore ou arbusto da família das Rosáceas, sub-familia da Prunoideias,
cultivada e naturalizada na Madeira. É originaria do Oriente e distingue-se facilmente da cerejeira em ter as
folhas glabras na pagina inferior. As ginjas madeirenses são dum vermelho escuro e pouco acidas e sucosas.
Ginjeira Brava (Prunus Lusitanica, var. Hixa)
Árvore sempre verde, com folhas estreitas,
oblongas, acuminadas, serradas, glabras, e flores brancas, dispostas em racimos longos e axilares. Só tem
sido achada recentemente na Ribeira da Janela. Produz madeira amarelo-rosada ou castanho-avermelhada,
muito resistente.
V.
Tintureira.
Gipso
Sulfureto hidratado de cálcio; sistema monoclinico. Encontra-se sob a forma cristalizada e lamelar
na ilha do Porto Santo.
Giraldes
«Trouxe este apelido o florentino Dr. Pedro Giraldes, que viveu na Calheta pelos anos de 1500
a 1535, e neste ultimo anno ahi instituiu a Misericordia, da qual foi o primeiro provedor».
Giraldes (Joaquim Pedro Cardoso Casado)
Pelo tempo das invasões francesas, foi aplicada ao
oficial do exército Casado Giraldes a pena de deportação para esta ilha, por suspeitas de ter prestado
informações ás tropas de Napoleão quando invadiram o nosso país. Provada a falsidade da acusação,
continuou Geraldes a residir na Madeira, e aqui exerceu o importante cargo de secretario geral do governo.
Foi um paciente investigador das cousas madeirenses e afirma-se que no seu espólio se encontraram muitos
documentos, que bastante interessavam á historia deste arquipélago. No primeiro quartel do século XIX
publicou em Paris a Estatística Historico-Geographica das ilhas da Madeira e Porto Santo, de que apareceu
na mesma cidade uma edição na língua francesa (V.
Autoridades Superiores do Arquipélago
). Escreveu
diversas obras, entre as quais se cita um compêndio de geografia em quatro volumes, que teve muita voga
no seu tempo. Morreu na cidade de Génova, onde era cônsul de Portugal, a 3 de Setembro de 1845.
Girão (Cabo)
Notam alguns a pouca propriedade que há no emprego da palavra cabo aplicada a esta
elevadissima rocha, talhada a prumo sobre o oceano. Observando o mapa geográfico desta ilha, não
divisamos ali uma saliência ou língua de terra que justifique aquele nome, o que melhor se verifica quando
se viaja ao longo da costa ou ainda mesmo quando no ponto mais alto e saliente da rocha se descortina esta
na sua maior extensão. Frutuoso parece querer dar-lhe o nome de cabo para significar o termo da primeira
parte da primitiva exploração marítima, e de Girão por findar ali o giro do primeiro dia dessa mesma
exploração. Para justificar ainda a denominação de cabo, refere-se o cronista a uma ponta que abaixo fazia,
ponta que quasi passa despercebida ao observador e que de modo algum pode merecer o nome de cabo.
Dizem as Saudades: «...viram uma rocha muito alta logo ahi pegada, e arrebentar o mar em huma ponta,
que ela abaixo fazia, a qual lhes ficou por meta e fim do seu descobrimento, e lhes deram o nome de Cabo de
Gyrão, por ser daquella vez a derradeira parte, e cabo do gyro de seu caminho».
Como rocha sobranceira ao mar, afirmam vários autores que é das mais altas e aprumadas que se
encontram no universo. Dalguns dos pontos mais elevados e salientes daquela gigantesca escarpa vê-se
numa profundidade aproximada de 600 metros, a vaga do oceano quebrar-se no sopé da aprumada rocha. E
por isso que em inúmeras obras nacionais e estrangeiras se encontram frequentes referências ás rochas do
Cabo Girão, que ao estudioso e ao turista sobriamente oferecem motivo de atenta e demorada observação.
Não é facil e cómodo o acesso aos pontos mais altos da rocha, por falta de uma boa estrada que lá conduza.
Está projectada a construção de um ramal, na extensão de 800 metros, que deve comunicar esses pontos
com a estrada nacional que atravessa as freguesias da Quinta Grande e Campanário. (1921)
Por 1935 ou pouco depois, fez-se a ligação da estrada com o alto da rocha do Cabo Girão e ali se construiu
um belo miradouro, que tem sido largamente visitado por nacionais e estrangeiros. Deste lugar se
descortina um vasto e surpreendente panorama, em que a vista se alonga extasiada desde o formoso
anfiteatro do Funchal até ás freguesias do concelho da Ponta do Sol.
No relatório de um antigo director de obras publicas distritais na Madeira, encontramos uma curiosa
noticia acerca deste conhecido ponto da nossa costa marítima, que vamos parcialmente transcrever, em
virtude do interesse que ela porventura possa oferecer a algum dos nossos leitores.
«No Cabo Girão há um desnível, a prumo sobre o mar de 633 metros, altura grandiosa, que não se encontra
facilmente em outro ponto do globo. Quando, estudando a estrada real do Funchal a S. Vicente, passei na
parte superior do Cabo Girão e verifiquei pelo nivelamento a verdade desta altitude, e quis experimentar a
impressão que sentiria ao contemplar o espectáculo de uma tão grande altura, pois que ouvira afirmar, com
admiração, que os touristas ingleses ali se assentavam numa saliência do terreno, dependurando as pernas
sobre o abismo. Aproximei-me timidamente da borda da rocha e notei que nenhuma impressão me causou
a vista de tamanha altura! A razão era simples: em baixo o mar. . . o mar a perder de vista, imensa planície
sem um ponto de referência que me desse a consciência de uma tão grande altura em que estava colocado.
Os meus companheiros de trabalho duvidaram do tamanho de semelhante altura, quando um facto de
ocasião me facilitou poder provar-lhes que os não havia enganado. Na prumada dessa altura, em baixo, no
mar, estava um barco em que se pescava junto á terra. Via-se o barco, muito pequeno, e completamente
vazio. Tinha encontrado um ponto de referência. No barco estavam homens que não se podiam avistar,
porque a 633 metros de distancia, na vertical, é difícil, se não impossível, ver-se a olho nu a projecção
horizontal dum homem, que pouco mais é de que a superfície dum chapéu. . . ».
Vid.
Cabos e Geologia.
Girard (Alberto A.)
Naturalista que acompanhou o falecido rei D. Carlos em muitas das suas
explorações oceanograficas. Era cidadão francês, mas naturalizou-se português e tinha curso de engenharia
civil tirado em Portugal. Nasceu em 1860 e faleceu a 2 de Setembro de 1914. E
.: Les Céphalopodes des Iles
Açores et le l'Ile Madère
(
Jorn. das Sc. Math, Phys. e Nat.,
1892). Também se ocupou de alguns moluscos
fósseis do arquipélago da Madeira no
Extracto das communicações da Commissão de trabalhos
Geológicos
, tomo II, fasc. II.
Girassol (Heliantus annuus)
Planta anual bastante cultivada na Madeira. Pertence á família das
Compostas, é originaria do Peru e produz capítulos com um a dois decímetros de diâmetro. Os seus
aquenios servem para alimento das aves, e as folhas são comidas com prazer pelos carneiros e vacas.
Godman (Frederic du Cane)
No seu livro intitulado
Natural History of the Asores
(Londres,
1870), publicou uma lista, organizada por W. Mitten, das Muscineas da Madeira, Canárias e Açores, assim
como um trabalho de H. C. Watson sobre a botânica açoreana, onde se encontram algumas observações que
podem ser proveitosas àqueles que estudam a flora do nosso arquipélago.
Gofe
Papa que se faz no Porto Santo com a cevada tenra esmagada, depois de sofrer um princípio de
torrefacção.
Quando as Canárias foram conquistadas pelos espanhóis, notaram estes que os habitantes «comiam gofio
de cevada torrada», sendo de crer que gofe seja corruptela de gofio, e que este termo fosse introduzido no
arquipélago da Madeira pelos indivíduos oriundos de Grã Canária, Palma, Tenerife e Gomera, que no século
XV vieram para a nossa ilha. (V.
Escravos
).
Diz Eliseu Réclus que o gofio, o prato nacional de Canárias, é uma massa confeccionada com farinha de
diversos grãos, rebentados ao fogo.
V. Frangolho.
Goiabeira (Psidium pyriferum)
Pequena árvore originaria das Índias Ocidentais, cultivada e
naturalizada na região inferior da Madeira. Com os frutos (goiabas) desta Mirtacea confecciona-se um doce
muito saboroso.
A goiabeira é hoje muito menos frequente que outrora.
Goimpy (Comte François Louis Edmond Gabriel Martz de)
Na Academia de Marinha em
Paris, existe um manuscrito com o título Observations faites à Aveiro et à Funchal e de que é autor o conde
Francisco L. E. G. M. de Goimpy. Ignoramos em que época foram feitas as ditas observações, bem como a
natureza delas.
Góis (Damião de)
Este ilustre cronista, que viveu na primeira metade do século XVI, foi, depois de
Gomes Eanes de Azurara, um dos mais antigos historiadores que se ocuparam do descobrimento da
Madeira. Acerca do valor das suas afirmativas, veja-se o que dizem as anotações das Saudades, a pag. 338
desta obra.
Goivo
Nome vulgar daMatthiola maderensis e daM. incana , plantas da família das Cruciferas, a
primeira das quais é indígena e habita nas rochas do litoral, e a segunda cultivada nos jardins.
Goldschmidt (Julius)
Este medico alemão, que durante muitos anos residiu no Funchal, habitava
em Paris, onde tinha larga clinica, quando rebentou a guerra em 1914. Ocupando-se de cousas madeirenses,
publicou os
folhetos Die lepra auf Madeira
, 1891,
Madère Étudiée comme station d'hiver
, 1880, e
Madère
étudiée comme station d'hiver et d'été
, 1884.
Faleceu no ano de 1924.
Gomes (António Gil)
Nasceu Antonio Gil Gomes na freguesia do Arco de S. Jorge a 23 de Junho de
1803 e morreu no Funchal a 3 de Julho de 1868, sendo filho do capitão João José Gil Gomes e de D. Maria
Justina Gil Gomes. As suas ideias liberais obrigaram-no a sair da Madeira em 1828, subtraindo-se assim ás
perseguições e vexames que sofreram alguns dos seus amigos e pessoas de sua familia. No Rio de Janeiro,
onde fixou residência, entregou-se ao exercício do professorado e colaborou assiduamente em vários
jornais, tendo também escrito alguns opúsculos, que publicou naquela cidade. Estabelecido o governo
representativo, regressou sem demora á sua terra natal, onde chegou em Agosto de 1834, e aqui se dedicou
ao estudo e cultivo das letras, vivendo inteiramente afastado das lutas partidárias e quasi de todo segregado
do convívio social. No Funchal teve uma larga colaboração em muitos jornais que se publicavam nesta
cidade e em que de preferência versava assuntos económicos, publicando também aqui um folheto sobre
reformas aduaneiras e um livro intitulado Compilaçâo de Elementos de Filosofia Racional. Gozou no seu
tempo da fama de homem de não vulgar inteligência e de uma vasta ilustração.
Gomes (Francisco Luiz)
Este distinto publicista (1829-1869), que escreveu os Brahananes e outras
obras de incontestável valor, sendo atacado duma grave doença pulmonar, veio a esta ilha procurar
melhoras aos seus padecimentos, não encontrando, porém, na benignidade do nosso clima a cura que tanto
ambicionava. O grande romancista Julio Diniz (V. este nome) que se encontrou no Funchal com Francisco
Luiz Gomes, refere-se a ele numa carta datada de 5 de Abril de 1869, nos termos seguintes: «0 Francisco
Luiz Gomes está aqui no Funchal. Fiquei desapontado quando o vi. É uma figura que ninguém vê sem se
voltar para traz depois d'elle passar. Imagina tu um esqueleto no rigor da palavra, alto, esguio; as pernas a
vergarem-se-lhe sob o peso do corpo; a roupa a fluctuar-lhe como se pendurada de um prego; a cor de cobre
própria dos índios; os dentes descarnados e salientes. Faz medo, coitado! Ninguém dirá que está ali um
homem de inteligência!»
Pouco depois deste encontro com Julio Diniz, saiu Francisco Luiz Gomes da Madeira e dirigiu-se á Índia
Portuguesa, sua terra natal, tendo sucumbido durante a viagem, aos estragos da tuberculose pulmonar, nos
primeiros dias do mês de Outubro de 1869.
Gomes (João)
Não está averiguado se veio para este arquipélago como um dos seus antigos
povoadores ou se teria nascido nesta ilha. Em diversos logares é citado com o nome de João Gomes da Ilha
e também com o de João Gomes o Trovador, pois que cultivou com distinção a poesia, encontrando-se treze
composições suas no Cancioneiro de Garcia de Resende. Casou no Funchal com D. Guiomar Ferreira, filha
de Gonçalo Aires Ferreira, o conhecido companheiro de Gonçalves Zarco. Teve terras de sesmaria nas
margens da ribeira que tomou e ainda hoje conserva o nome de João Gomes. Foi pagem do infante D.
Henrique e faleceu no ano de 1495. Foi um dos primeiros que neste arquipélago usou o apelido do seu
nome.
V.
Cancioneiro de Resende (A Madeira no).
Gomes (M. Teixeira)
É o actual representante de Portugal na Inglaterra (1921). Visitou há anos a
Madeira e percorreu uma parte da ilha, dando-nos conta das suas excursões na segunda edição do seu livro
Cartas sem moral nenhuma
, de pag. 159 a 239. Refere-se com grande entusiasmo ao tríptico existente na
sacristia da igreja de S. Pedro, dizendo que «como typos nada conheço superior em pintura alguma, e a
composição, o colorido, o desenho são, de certo, de um poderosissimo artista». O visconde de Meireles
ocupou-se em artigos publicados no Heraldo da Madeira, das referências feitas por Teixeira Gomes, pondo
em brilhante relevo as belezas daqueles quadros. Teixeira Gomes afirma que foi o descobridor dessa
maravilha, e na verdade não sabemos de outro indivíduo que anteriormente a ele se tivesse referido a essas
telas desconhecidas.
Gomes (Romano de Santa Clara)
É bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra e
conservador privativo do Registo Predial na comarca do Funchal. (1921)
Representou a Madeira no parlamento, como deputado, na sessão legislativa de 1895 a 1897.
Nasceu no Funchal a 12 de Agosto de 1869.
Gomes de Castro (Tristão)
Nasceu nesta ilha em 1543, sendo filho de Cristovam Martins de
Agrinhão e de D. Joana Gomes de Castro. Era descendente de João Gomes, o Trovador, e administrou a
casa vinculada que herdou de seus pais. Fez estudos fora desta ilha, tendo fama entre os seus
contemporâneos de homem de larga ilustração. Cultivou a poesia, dizendo vários nobiliarios que foi um
excelente poeta latino. Barbosa Machado, na Biblioteca Lusitana, ocupa-se de Tristão Gomes de Castro,
citando a obra por ele escrita em dois volumes, Argonautica da Cavallaria, Façanhas de Lesmundo, que
ficou inédita. Morreu em 1611.
Gomes de Cintra (Diogo)
V.
Cintra (Diogo Gomes de) e Descobrimento.
Gomes Leal
Este distinto poeta residiu no Funchal durante algum tempo, quando seu pai era
funcionário na alfândega desta cidade. O «Diario da Madeira» de 7 de Julho de 1923, publicou uma
interessante carta de Gomes Leal, escrita na Madeira e dirigida a Albano Coutinho com a data de 25 de Abril
de 1868, em que faz referência a diversas cousas madeirenses.
Gomito de Baleia
V. Baleias.
Gonçalo Aires (Ribeira de)
Gaspar Frutuoso, ao referir-se aos primeiros trabalhos de exploração,
quando se iniciou o povoamento desta ilha, conta, entre outros episódios, o seguinte: «Foi Gonçalo Ayres
com os companheiros correndo a terra por espaço de três horas, no fim das quaes se agastava já o capitam
com a tardança delles, senão quando, exque assomavam pela ribeira abaixo com capellas na cabeça, e
enramados vinham fallando com muito prazer, que não achavam cousa viva, senão aves; e daqui ficou o
nome a «Ribeira de Gonçalayres». Esta ribeira atravessa a freguesia de São Gonçalo, e na sua foz fica o
lazareto chamado de Gonçalo Aires.
V.
Ferreira (Gonçalo Aires) e Lazareto.
Gonçalves (Comendador Manuel)
Foi um inteligente e activo comerciante do Funchal, que pelo
seu génio empreendedor e de rasgada iniciativa prestou excelentes serviços á sua terra, e mais ampla e
prestimosa seria a sua acção se uma acintosa guerra não tivesse entravado a realização dos seus projectos.
Foram grandes e frutuosas as diligências que empregou para libertar o comercio local da influencia de
certas casas estrangeiras, que asfixiavam as actividades comerciais e industriais dos negociantes naturais
desta ilha. Deve-se principalmente ao seu esforço a organização da Companhia dos Sanatórios, como mais
largamente se verá no artigo que lhe será dedicado.
Como director da Companhia de Ferro do Monte, realizou o importante melhoramento do prolongamento
do elevador desde o Monte até o Terreiro da Luta, e fez construir ali um excelente restaurante, que
rivalizava com os estabelecimentos congéneres existentes no estrangeiro.
O comendador Gonçalves nasceu no Funchal por 1867 e faleceu na freguesia do Monte a 18 de Agosto de
1916.
Gonçalves (Francisco Mendes)
Por meados do século passado, saiu da Madeira um rapaz de
tenra idade, natural da freguesia do Campanário, que se fixou na Republica Argentina, onde passados
alguns anos adquiriu uma grande fortuna e posteriormente chegou a ser um dos homens mais ricos daquela
prospera nação sul-americana. O que, porém, merece registo especial neste lugar é a pasmosa actividade e o
genio empreendedor deste madeirense, que como comerciante, colonizador de vastos territórios incultos,
director de casas bancárias e negociador de operações da alta finança, alcançou o maior prestigio e a maior
influencia, estendendo a rede das suas transacções a toda a Argentina, ao Brasil e Paraguai e não sendo raro
que os governos desses países tivessem de recorrer á sua experiência e aos seus conhecimentos para a
solução de muitos problemas que de perto tocavam aos mais altos interesses do estado. Morreu na cidade
de Buenos Aires, em idade avançada e possuidor de uma grande riqueza, a 28 de Dezembro de 1930, sendo
conhecido pelo nome de milionário Gonçalves.
É para lamentar que não tivesse atendido a nenhuma das solicitações que da Madeira lhe foram dirigidas
para acudir a alguns pequenos melhoramentos a realizar na sua paróquia natal e de que esta urgentemente
necessitava.
Gonçalves (Joaquim Melchior)
Foi membro da primeira Câmara Constitucional do Funchal,
capitão de ordenanças e sócio correspondente da Sociedade dos Amigos das Sciencias e Artes. Condenado
pela alçada que veio à Madeira em 1823 a quatro anos de degredo para as ilhas de Cabo Verde, partiu para
ali, voltando, porém à pátria em 1826. Constitucional exaltadíssimo, foi pronunciado pela alçada mandada á
Madeira em 1828, mas não chegou desta vez a ser preso por se ter homiziado.
Conta-se que tendo Melchior Gonçalves saído em certa noite para visitar alguns amigos, se encontrou no
Largo da Sé com um bando de quadrilheiros, dirigidos pelo Governador José Maria Monteiro.
Reconhecendo que lhe era impossível fugir, tomou a resolução de se dirigir ao referido governador, e
declarando-lhe que andava em sua busca para lhe fazer uma comunicação que só por ele devia ser ouvida,
pediu-lhe que para poder falar livremente fizesse retirar os quadrilheiros para uma certa distancia.
Tendo o pedido sido satisfeito, dispunha-se o governador a ouvir a comunicação que Melchior Gonçalves
tinha a fazer-lhe, quando este lhe atirou rapidamente alguns socos que o prostaram, fugindo em seguida,
sem que os quadrilheiros, que logo correram em sua perseguição, conseguissem alcançá-lo.
Ignoramos as datas do nascimento e do falecimento de Francisco Melchior Gonçalves, mas diz-nos pessoa
da sua família que era natural do Campanário e que emigrou antes de 1834 para o Brasil, onde morreu.
Gonçalves (Moisés).
Era cirurgião-dentista por uma escola de Nova Iorque, tendo exercido durante
muitos anos a clinica dentária na cidade de Lisboa com grande clientela e sendo então considerado o mais
distinto da sua classe. Em 1895 publicou o importante trabalho «Os Dentes Humanos» num volume de 198
paginas. Era natural da vila de Santa Cruz.
Gonçalves de Freitas (Conselheiro António)
Nasceu na freguesia da Ponta Delgada a 5 de
Dezembro de 1827 e era filho do capitão António Joaquim Gonçalves de Freitas e de Eulalia Cândida de
Freitas, tendo falecido em Lisboa a 14 de Julho de 1875. Formou-se em direito pela Universidade de
Coimbra no ano de 1848, depois de haver obtido varias classificações e de se ter revelado um estudante
muito talentoso e aplicado. No período decorrido de 1852 a 1860 exerceu a advocacia no Funchal e dedicou-
se á política e ao jornalismo. Foi deputado pela Madeira nas três legislaturas decorridas de 1860 a 1865.
Fixando residência na capital, ali desempenhou vários cargos públicos e entre eles o de director geral das
contribuições directas. Era tido como uma grande autoridade em questões de administração de fazenda
publica, em que se especializou. Foi mais de uma vez convidado para sobraçar uma pasta de ministro, num
tempo em que nem todos o poderiam ser, mas recusou sempre aceitar um cargo de tamanha
responsabilidade. Gozou em Lisboa de grande prestigio, não só pelos seus dotes intelectuais e reconhecida
competência, mas ainda pelas austeras qualidades de carácter que enobreciam o seu espírito. Foi um dos
mais distintos madeirenses do século XIX.
Gonçalves de Freitas (Luiz António)
Era filho do conselheiro António Gonçalves de Freitas
(V. este nome) e de D. Julia de Abreu Gonçalves de Freitas, tendo nascido a 23 de Fevereiro de 1858.
Concluíu em Coimbra a sua formatura em direito em 1880. Começou muito cedo a cultivar as letras e
publicou alguns volumes de versos, sendo ainda aluno da Universidade. É grande a sua bagagem literária
tanto em prosa, como em verso. Depois de ter dado á luz alguns volumes, empreendeu a publicação de
todos os seus escritos com o título de Obras Completas de Luiz António Gonçalves, que a morte não o
deixou completar, mas de que ainda saíram a lume dezanove volumes. Entre as suas obras podemos citar
Impressões
,
Phantasias, A Pupila de Beltrão
,
Oscillações
,
Mavalen
,
Reminescências, Discursos e
Trabalhos Parlamentares
,
Artigos Políticos
,
Das Galerias, Expansões, Respigas, Humorismos, Discussão
e Controvérsias, Mescla de Assumptos, Rachel, Horas de Paz, Noite de Nupcias, Os Pecados da Mocidade
.
Representou a Madeira em cortes na sessão legislativa de 1882 a 1884 e os discursos que proferiu no
parlamento, defendendo os interesses deste arquipélago, acham-se publicados no seu livro
Discursos e
Trabalhos Parlamentares
.
Foi chefe de repartição no governo civil de Lisboa e exerceu diversas comissões de serviço publico.
Alguns meses antes de falecer passou o Dr. Luiz Gonçalves de Freitas pelo enorme desgosto de perder a sua
selecta biblioteca, devorada por um incêndio, o que lhe causou um abalo tão violento, que esteve prestes a
sucumbir. Algum tempo depois fulminou-o uma congestão cerebral, a 28 de Outubro de 1904, tendo apenas
46 anos de idade.
Foi um distinto e apreciado poeta, tendo também escrito varias peças teatrais tanto em prosa, como em
verso. Teve larga colaboração em muitas revistas e jornais, sendo um grande numero desses escritos
coligido na edição das suas
Obras Completas.
Gonçalves de Freitas (Visconde de)
Pedro Maria Gonçalves de Freitas, visconde de Gonçalves
de Freitas, nasceu nesta ilha a 17 de Março de 1836, sendo filho do capitão António Joaquim Gonçalves de
Freitas e de D. Eulália Candida Gonçalves de Freitas. Cedo se dedicou, como advogado provi sionista, à
carreira do foro e nela veio a conquistar os créditos de um distinto e brilhante causídico. Foi advogado de
algumas causas que ficaram celebres, revelando sempre a pujança do seu extraordinário talento, a argúcia
do seu espírito, a engenhosa dialéctica da sua argumentação, de par com uma linguagem fácil, imaginosa e
cheia de calor e entusiasmo, que impressionava profundamente os auditórios.
Como político, teve entre nós um extraordinário prestigio e houve tempo em que foi o maior influente
partidário de todo o arquipélago. Representou a Madeira em cortes, como deputado, nas legislaturas de
1884 e 1887 e de 1894 a 1895, e como par do reino electivo na sessão legislativa de 1887 a 1889. Também foi
deputado pelo arquipélago de Cabo Verde, onde residiu alguns anos, exercendo ali a advocacia.
Foi empregado superior das alfândegas e desempenhou o cargo de director da alfândega do Funchal, tendo
também exercido outras comissões de serviço publico, como a de governador civil deste distrito.
Redigiu o antigo periódico o Direito e colaborou em outras publicações, revelando-se um distinto jornalista.
No seio da representação nacional, mostrou as suas brilhantes qualidades de parlamentar, já como orador,
já como profundo conhecedor dos assuntos que ali versava.
Morreu nesta cidade a 6 de Julho de 1915, contando 79 anos de idade.
Gonçalves Marques (Vasco)
V. Marques (Vasco Gonçalves).
Goraz (Pagellus centrodontus)
Peixe da família Esparida, vulgar na Madeira e um dos que mais
apreciados são, pelo seu fino sabor. A gorazeira e a briqueira são os aparelhos preferidos para a sua captura.
Gorazeira
Aparelho de pesca muito usado na Madeira. Compõe-se de uma linha principal e de
pequenas linhas secundarias que se ligam á primeira, tendo cada uma destas um anzol na extremidade. Na
extremidade da linha principal está fixo um peso que obriga o aparelho a mergulhar.
Gorda (Ponta)
Pequena saliência na costa marítima, não muito distanciada do ilhéu do Gorgulho e da
Ponta da Cruz, na freguesia de São Martinho.
Gorda (Ponta)
No litoral da freguesia de São Jorge. V.São Jorge (Ponta de ).
Gordo (Pico)
Elevação montanhosa nas serras da freguesia da Calheta, próxima do Monte das
Estrebarias, a uma altitude de 1200 metros.
Gordo (Monte)
V.Piedade .
Gordon (C. A.)
(C. A.) E.: The Flower of the Ocean, the Island of Madeira. London, 1894, I vol.
Gorgulho
O nome de gorgulho é aplicado ao Sitophilus granarius e ao S. Orizae, espécies de
coleopteros que atacam o grão e as farinhas e que são frequentes nas casas e armazéns em toda a ilha. A
segunda espécie, que parece ser mais comum do que a primeira, distingue-se facilmente pela sua cor mais
escura.
Gorgulho (Sítio e Ilhéu do)
Sítio do litoral para oeste da cidade e na freguesia de S. Martinho
onde existiu um pequeno forte, hoje em completa ruína.
O Gorgulho é interessante sob o ponto de vista geológico por causa das correntes de lava que se vêem junto
do referido forte.
Há ali uma escada de ferro e um plano inclinado, mandados construir pela Companhia Wilson.
Neste sítio mandou a Câmara Municipal do Funchal construir no ano de 1932 uma piscina publica para
banhos e exercícios de natação, que é servida com água do mar.
Neste sítio e a pouca distancia do litoral fica um pequeno ilhéu com o nome de Gorgulho.
Gorjão (Francisco Pedro de Meneses)
A sua nomeação para governador e capitão-general da
Madeira foi de 18 de Maio de 1737 e tomou posse a 16 de Julho do mesmo ano. Exerceu este lugar até o dia
27 de Maio de 1747, em que saiu desta ilha directamente para o Maranhão, a governar aquela província,
tocando no Funchal a frota que para ali se dirigia e que conduzia o novo bispo da mesma diocese, D. Fr.
Francisco de São Tiago.
No cargo de governador da Madeira, sucedeu-lhe o bispo diocesano D. João do Nascimento, que foi
nomeado a 5 de Maio de 1747 e exerceu o lugar até o ano de 1751.
Vimos algures que Francisco Pedro de Meneses Gorjão «falleceu na idade de 83 anos, cheio de serviços pela
pátria, como consta da lápide da sua sepultura existente na capella da quinta de S. Lourenço.
Gourlay (Dr. William)
Médico inglês que veio para a Madeira em 1792 e aqui residiu por espaço de
18 anos. E.:
Observations on the Natural History, climate and diseases of Madeira during a period of
eighteen years
, London, 1811. A exactidão das observações meteorológicas publicadas na obra de Gourlay e
referentes ao período que vai de 1793 a 1803, tem sido posta em duvida por alguns autores, entre os quais o
distinto médico português Dr. Barral.
Gouveia (Cónego António Homem de)
Nasceu na freguesia da Ponta do Pargo a 17 de
Dezembro de 1869. Cursou o Seminário desta Diocese e ordenou-se de presbítero no ano de 1893. Por Carta
Regia de 30 de Novembro de 1899 foi nomeado cónego da Sé do Funchal. Foi escrivão da Câmara
Eclesiástica e tem exercido diversas comissões de serviço publico. Representou a Madeira em cortes nas
sessões legislativas de 1905 a 1906, de 1906 e de 1906 a 1907. Dos discursos que proferiu no parlamento,
foram três publicados em opúsculos com os títulos de
A Escravidão da Igreja em Portugal
, Lisboa, 1905, de
que no mesmo ano se fez outra edição no Funchal,
Necessidade do Descanso Dominical
, Lisboa, 1907, e
A
Situaçao da Madeira
, Lisboa, 1907.
Gouveia (Francisco Bento de)
Nasceu na freguesia da Ponta Delgada a 16 de Julho de 1874 e tem-
se consagrado a estudos e pesquisas industriais, conseguindo fabricar o papel com a palha da cana de
açúcar e extrair das traquites madeirenses a sílica necessária ao fabrico do vidro. Dedicou-se também há
anos a estudos enológicos, chegando a fabricar com o Jacquez um tipo de vinho de pasto, que mereceu a
aprovação do falecido Batalha Reis. Foi um dos redactores no antigo Diário Popular, colaborou numa
revista que foi levada á cena no teatro Manuel de Arriaga e é fiscal de primeira classe dos produtos
agrícolas, conservando-se porém afastado do serviço há já algum tempo. (1921)
Gouveia (João).
Nasceu nesta cidade a 8 de Fevereiro de 1880 e é filho do coronel José Maria de
Gouveia e de D. Elisa Camacho de Gouveia. Cedo amanheceu nele o estro poético, mas cedo também deixou
de cultivar a poesia. Desconhecemos os motivos que o levaram a abandonar a carreira das letras, que tão
auspiciosamente tinha encetado. Publicou os volumes
Breviário
, Funchal, 1900, de 112 pág. e
Atlante
,
Lisboa, 1903, de 108 pág..
Parece que João Gouveia fechou a sua alma á inspiração das musas para melhor se entregar aos estudos da
mecânica, e de modo especial á construção do aeroplano de que foi o inventor. Os jornais ocuparam-se
largamente e com os maiores elogios deste invento, mas parece que surgiram graves e insuperáveis
dificuldades para a sua construção.
Há muitos anos que João Gouveia vive em Lisboa, tendo aplicado ultimamente a sua atenção á construção
dum aparelho avícola, que despertou grande interesse em todos os que se consagram á criação artificial das
galinhas. (1921).
Gouveia (José Maria de)
Nasceu no Funchal a 13 de Março de 1856 e há muitos anos que fixara
residência no continente. Era coronel de infantaria, e em 1895 publicou nesta cidade um folheto intitulado
Serviço de Campanha, Instrução Pratica de secção para uso dos oficiais inferiores da arma de infantaria.
Faleceu em Lisboa no mês de Novembro de 1930.
Gouveia Júnior ( Francisco Gomes de)
( Francisco Gomes de)
Nasceu na freguesia de Santo António a 12 de Abril de
1864 e era filho de Francisco Gomes de Gouveia e de D. Antónia de Jesus de Gouveia. Depois de ter cursado
o liceu do Funchal, frequentou a antiga escola dos correios de Lisboa, cujo curso concluiu. Era oficial
aposentado dos correios e exerceu varias comissões de serviço publico, entre as quais as de vice-presidente
da Câmara Municipal do Funchal e presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia.
Teve uma larga colaboração em diversos jornais funchalenses e em outras publicações, e foi o redactor
principal do jornal
A Madeira
.
Faleceu a 11 de Agosto de 1926.
Governador e Capitães-Generais
Em 1640 começou o arquipélago madeirense a ser
administrado por Governadores e Capitães-Generais, de que damos a seguir a relação completa:
Luiz Miranda de Henriques Pinto (1640),
Nuno Pereira Freire (1641),
Manuel de Sousa Mascarenhas (1645),
Manuel Lobo da Silva (1647),
Bartolomeu de Vasconcelos (1651),
Pedro da Silva da Cunha (1655),
Diogo de Mendonça Furtado (1659),
D. Francisco de Mascarenhas (1665),
Aires de Saldanha de Sousa e Meneses (1668),
João de Saldanha de Albuquerque (1672),
Alexandre de Moura e Albuquerque (1676),
João da Costa de Brito (1680),
Pedro de Lima Brandão (1683),
D. Lourenço de Almada (1687),
D. Rodrigo da Costa (1689),
Pantaleão de Sá e Melo (1694),
D. Antonio Jorge de Melo (1698),
João da Costa de Ataíde e Azevedo (1701),
Duarte Sodré Pereira (1703),
D. Pedro Alvares da Cunha (1711),
João de Saldanha da Gama (1715),
Jorge Martins de Sousa e Meneses (1718),
Francisco da Costa Freire (1724),
D. Filipe de Alarcão Mascarenhas (1727),
Joao de Abreu Castelo Branco (1733),
Francisco Pedro de Meneses Gorjão (1737),
D. Alvaro José Xavier Botelho de Távora (1751),
Manuel de Saldanha e Albuquerque (1754),
José Correia de Sá (1758),
João Antonio de Sá Pereira (1766)
João Gonçalves da Câmara Coutinho (1777),
D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho (1781),
D. José Manuel da Câmara (1800),
Ascenso de Sequeira Freire (1803),
Pedro Fagundes de Antas e Meneses (1807),
Luiz Beltrão de Gouveia e Almeida (1813),
Florencio José Correia de Melo (1814),
Sebastião Xavier Botelho (1818),
D. Rodrigo Antonio de Melo (1821),
Antonio Manuel de Noronha (1822)
D. Manuel de Portugal e Castro (1823)
José Lúcio Travassos Valdez (1827),
José Maria Monteiro (1828) e
D. Alvaro da Costa de Sousa e Macedo (1830).
V.
estes nomes.
Governadores Civis
Sob a denominação de Governadores Civis, damos aqui a relação completa
das autoridades superiores deste distrito desde a implantação do governo constitucional embora algumas
destas autoridades tivessem o nome de Prefeito e de Administrador Geral:
Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque (1834),
Conde de Carvalhal (1835),
Antonio de Gamboa e Liz (1835),
Barão de Lordelo (1838),
Domingos Olavo Correia de Azevedo (1841),
José Silvestre Ribeiro (1846),
Visconde de Fornos de Algodres (1852),
José Gerardo Ferreira Passos (1854),
Antonio Rogerio Gromicho Couceiro (1856),
José Maria Baldy (1858),
Conde de Farrobo (1860),
Januario Correia de Almeida (1862),
Jacinto Antonio Perdigão (1863),
D. João Frederico da Câmara Leme (1868),
Marquês de Sesimbra (1868),
Visconde de Andaluz (1869),
Afonso de Castro (1870),
D. João Frederico da Câmara Leme (1870),
Francisco de Albuquerque Mesquita e Castro (1876),
Afonso de Castro (1877),
Visconde de Vila Mendo (1881),
Visconde de Vila Mendo (1882),
Tomaz Nunes de Serra e Moura (1884),
Vasco Guedes de Carvalho e Meneses (1884),
Visconde de Canavial (1884),
D. João de Alarcão Valasques Sarmento Osorio (1885).
José de Azevedo Castelo Branco (1890),
D. Manuel Saldanha da Gama (1890),
Luiz do Canto de Castro Merens de Tavora (1892)
D. Manuel Saldanha da Gama (1893),
Antonio Augusto de Sousa e Silva (1894),
José Ribeiro da Cunha (1896),
José Antonio de Almada (1897),
Marquês do Funchal (1899),
D. Tomás de Almeida Manuel de Vilhena (1900),
D. Bernardo da Costa de Sousa Macedo (1901),
José Ribeiro da Cunha (1901),
Marquês do Funchal (1904),
João de Soares Branco (1906),
José Ribeiro da Cunha (1906),
D. Bernardo da Costa de Sousa Macedo (1906),
Boaventura Mendes de Almeida (1907),
João de Paiva de Faria Leite Brandão (1908),
Afonso de Melo Pinto Veloso (1910),
José Ribeiro da Cunha (1910),
Manuel Augusto Martins (1910),
João Maria de Santiago Prezado (1912),
Alfredo Ernesto de Sá Cardoso (1913)
Vasco Borges (1914),
Sebastião Heredia (1914),
José Vicente de Freitas (1915),
Sebastião Heredia (1915),
José de Sousa Rosa (1917),
Daniel Telo Simões Soares (1917),
Carlos José Barata Pinto Feio (1918),
Americo Ciriaco Correia da Silva (1918),
Manuel Augusto Martins (1919),
Daniel Telo Simões Soares (1919),
Vasco Crispiniano da Silva (1920),
Antonio da Cruz Rodrigues dos Santos (1920),
João Miguel Rodrigues da Silva (1920),
Antonio Augusto da Silva Pereira (1921)
Aires de Mesquita Espranger (1921),
Acacio Augusto Correia Pinto (1921),
Alvaro Nobre da Veiga (1922),
Eduardo Rocha Sarsfield (1922),
João Augusto de Freitas (1922),
Daniel Telo Simões Soares (1923),
Julio Ferreira Cabral (1924)
José Varela (1924)
Antonio C. Rodrigues Leitão (1924),
João Guilherme Meneses Ferreira (1925),
Manuel dos Santos Mendonça (1926),
Francisco Martins Luzignan de Azevedo (1926),
Ernesto Florencio Cunha (1927)
José Maria de Freitas (1928),
Artur Almeida Cabaço (1931),
Antonio Caldeira Coelho (1934)
Augusto Goulart de Medeiros (1934),
José Nosolini Pinto Osorio da Silva Leão (1938),
Gustavo Teixeira Dias (1941).
Governadores Gerais
Com o domínio filipino terminou o governo dos Capitães-Donatarios (V.
Donatarios), passando este arquipélago a ser administrado por Governadores Gerais, da imediata nomeação
do governo espanhol. A administração dos Governadores Gerais durou todo o período da administração
castelhana. Foram eles:
João Leitão (1581),
D. Agostinho Herrera (1582),
João Leitão (1583),
Tristão Vaz da Veiga (1585),
Antonio Pereira de Barredo (1590),
Diogo de Azambuja e Melo (1594),
Cristovão Falcão de Sousa (1600),
João Fogaça de Eça (1603),
D. Manuel Pereira Coutinho (1609),
Jorge da Câmara (1614),
Pedro da Silva (1618),
D. Francisco Henriques (1622),
Fernão de Saldanha (1625),
D. Francisco de Sousa (1627),
D. João de Meneses (1632) e
Luiz de Miranda Henriques Pinto (1635).
V.
cada um destes nomes e o artigo Autoridades Superiores do Arquipelago.
Os governadores e capitãis-generais e depois deles os primeiros governadores civis, tomavam posse dos
seus cargos na sala das sessões da Câmara Municipal do Funchal, na presença da municipalidade reunida.
Era tal o respeito que inspiravam os antigos capitães-tenentes que, quando saíam, todos os homens
paravam e tiravam os chapéus quando eles se aproximavam, devendo os cavaleiros apear-se á sua
passagem. Em 3 de Setembro de 1803 recolheu ás prisões do ilhéu um tal Henrique Correia de famílias
fidalgas, por se não haver apeado á passagem do governador D. José Manuel da Câmara e responder um
tanto desabridamente a esta autoridade ao ser admoestado pela sua desatenção, e o falecido morgado
Antonio João da Silva Betencourt Favila também foi preso em certa ocasião por não ter cumprimentado um
governador e capitão-general!
Quantum matatus ab illo
!
O Dr. Damião Peres, ilustre professor da Universidade de Coimbra e antigo reitor do liceu do Funchal, que
tem o seu nome ligado a valiosos trabalhos acerca da historia do nosso país, publicou nos anos de 1974 e
1975 dois interessantes opúsculos intitulados
O Desembargador João Leitão Governador Geral da
Madeira e O Problema dos Governadores Gerais da Madeira
, em que se propôs demonstrar que carecia de
fundamento a designação genérica de Governadores gerais dada pelo Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo,
erudito comentador das Saudades da Terra, ás autoridades superiores deste arquipelago durante a
dominação castelhana, competindo-lhes apenas o nome de capitâis gerais, segundo se lê em alguns
documentos oficiais da época. O co-autor deste Elucidário C. A. de Meneses, numa série de artigos
publicados no
Diário da Madeira
do mês de Setembro de 1925, explica e justifica a designação empregada
pelo Dr. A. R. de Azevedo, aduzindo ponderosos argumentos que invalidam a afirmação do Dr. Damião
Peres. Bom é notar que se trata duma particularidade de secundaria importância, que não oferece grande
interesse á historia desta ilha.
Governadores Militares. V.
Comandantes Militares.
Grabham (Dr. Michael)
Médico inglês nascido a 11 de Janeiro de 1840 e que residiu durante
muitos anos no Funchal. E.:
The Climate and resources of Madeira
, Londres, 1870 e
Materia Atlantica
,
Londres, 1901. Este ultimo trabalho, escrito em português, era destinado a servir de guia ás pessoas que
viessem a esta ilha, por ocasião da visita dos reis de Portugal. O Dr. Grabham publicou alguns artigos na
imprensa londrina acerca da Madeira.
Graça
Sítio da freguesia de Machico, nas imediações da Vila, onde se encontra a capela de Nossa
Senhora da Graça, ignorando-se a época da sua construção. Sabe-se que é bastante antiga e que foi
reedificada pela respectiva irmandade no ano de 1750.
Graça
Sítio da ilha do Porto Santo. Nela existiu uma antiga capela, dedicada a Nª Sª da Graça, que deu
o nome ao local. Achando-se muito arruinada, foi iniciada a sua reconstrução em proporções maiores do
que a primitiva, nos princípios do século XIX, por iniciativa do governador daquela ilha Manuel Inacio de
Avelar Brotero, mas não chegou a concluir-se a sua reedificação, estando hoje reduzida a um montão de
ruínas. Oferecia a singularidade de ter a forma octogonal, dizendo-se que reproduziria em miniatura um
celebre templo de Itália.
Gráfico (O)
Numero único de um jornal publicado pela classe tipográfica. Saiu a 8 de Janeiro de 1919.
Grama (Cynodon Dactylon)
Graminea rizomatosa com espigas lineares, verdes ou violaceas,
reunidas em numero de 3 a 7 no alto dos caules. É muito comum na Madeira, e os seus rizomas são
emolientes e diüreticos.
Gramacho
Parece ter sido origem deste apelido de família entre nós, que hoje julgamos extinto, o
fidalgo Rui Gramacho, que foi um dos primeiros povoadores e teve terras de sesmaria em Santa Cruz.
Na freguesia de Sant'Ana há um sítio que tem o nome de Achada do Gramacho.
Grande (Eduardo)
Era natural de Portalegre e foi agrónomo adido ao Governo Civil do Distrito do
Funchal, tendo sido depois secretario geral do mesmo Governo Civil. Desempenhou também o cargo de
vogal da comissão administrativa da Santa Casa da Misericórdia. Escreveu um relatório que foi apresentado
á direcção da antiga Sociedade Agrícola do Funchal, sendo publicado em 1865. Este relatório, a pesar de ter
algumas deficiências, contém varias informações curiosas sobre o estado agrícola da Madeira na época em
que foi publicado.
Eduardo Grande faleceu em Lisboa por 1881.
Grande (Pico)
Uma das grandes eminências que circuitam a freguesia da Serra de Água, á altitude de
1600 metros.
Grande (Pico)
Elevação montanhosa da cordilheira do interior da ilha, não muito distanciada do
conhecido Pico Ruivo.
Grande (Ribeira)
É afluente da ribeira de Machico.
Granel do Poço. V. Alfândegas e Colombo.
Granizo
É este meteoro aquoso, conhecido na Madeira pelo nome de neve, que forma os extensos
lençóis brancos que, durante o Inverno, cobrem ás vezes durante dias as serras da ilha. A queda do granizo
nas serras é acompanhada ou precedida muitas vezes de trovoadas, e traz sempre como consequência um
abaixamento sensível de temperatura em todo o litoral.
O granizo na região alta da ilha, apresenta-se sempre em pequenas massas irregulares e esquinadas; a
forma arredondada, que parece ser devida a um começo de fusão sofrido pelas mesmas massas ao
atravessarem uma camada mais espessa da atmosfera, só aparece na região media, e uma ou outra vez no
litoral. Na altitude de 1500 metros chega o granizo algumas vezes a formar camadas com mais de um metro
de espessura. Quando ele aparece, o que é raro, entre 600 e 800 metros, derrete geralmente ao cabo de
poucas horas.
O granizo é quasi desconhecido no Porto Santo; todavia caiu em tanta abundância naquela ilha em 4 de
Fevereiro de 1860, que os montes e os vales ficaram cobertos dele. "Na vila era em tal porção, dizem os
Anais do Porto Santo que muitas pessoas encheram pratos e celhas, chegando a fazer sorvete; caso virgem
entre este povo".
O granizo sob o nosso clima só aparece desde os fins do Outono até o principio da primavera, e concorre
notavelmente para aumentar o volume das águas das fontes e das ribeiras. Diz-se que há perto de 60 anos
uma chuva de pedra causou grandes estragos nas culturas da freguesia do Caniçal, e cita-se também o facto
de há anos o granizo ter destruído uma boa parte da folhagem das árvores frutíferas e de outros vegetais na
freguesia dos Canhas. Estes casos são, porém, felizmente tão raros que o agricultor madeirense ao proceder
ao cultivo das suas terras nem se lembra desse inimigo, tanto para recear em latitudes mais setentrionais.
Para deixar consignadas nestas paginas uma noção mais completa acerca da natureza dos fenómenos
meteorológicos da neve, geada e granizo nas ilhas do nosso arquipélago, vamos transcrever alguns períodos
dum artigo que sobre esse interessante assunto o co-autor deste Elucidário, e distinto naturalista C.
Azevedo de Meneses publicou há bastantes anos no antigo Diário da Madeira.
São tão deficientes as informações que nos fornecem sobre estes meteoros as varias obras que tratam da
climatologia e meteorologia da Madeira, que talvez ofereçam um certo interesse os poucos dados, fruto
quasi todos da própria observação, que acerca dos mesmos passamos a apresentar.
A neve, em regra, só cai na Madeira desde Janeiro até princípios de Março, isto é, no período em que os
frios são mais intensos, e nunca se observa, segundo cremos, abaixo de 1200 ou 1000 metros. Os
madeirenses, que visitam ou atravessam as serras durante os meses de inverno, chamam aos flocos de neve
folhelho, reservando o termo neve para designar o granizo, o qual é muito mais frequente na ilha,
observando-se também em menores altitudes.
Durante a época dos maiores frios, o termómetro centígrado desce por vezes no Funchal a 8 e a 7 graus. Se
se admitir pois, que o calor diminui um grau por cada 180 metros de elevação, temos que o termómetro
deverá marcar nas mesmas ocasiões, em altitudes superiores a 1300 metros, temperaturas um pouco
inferiores a zero, as quais são suficientes, como é sabido, para provocar o aparecimento das nevadas. A neve
no nosso clima é pouco duradoura, derretendo geralmente ao cabo de poucas horas.
Guilherme Teles de Meneses, que fêz algumas observações meteorológicas no posto do Pico do Arieiro
(1700 metros), viu o termómetro registar aí 2 graus abaixo de zero em Novembro, sendo lícito supor,
portanto, que na mesma localidade se observam temperaturas ainda mais baixas nos meses de Janeiro e
Fevereiro que, na Madeira, são os mais frios do ano.
Na opinião do falecido naturalista inglês James J. Johnson, o limite das neves eternas na latitude da
Madeira deve estar a 3450 metros, altitude esta da qual nem se aproxima o nosso Pico Ruivo. . .
Durante os meses de Inverno acontece também algumas vezes aparecerem as geadas nos pontos elevados
da ilha. As camadas de neve com a forma cristalina, que se formam sobre certos corpos, são conhecidas do
povo pelo nome de dente de cão. Informam-nos que as geadas costumam aparecer na costa do norte acima
de 600 ou 700 metros, mas na costa sul cremos que elas são desconhecidas dentro dos limites da região
cultivada, a qual só em raros pontos vai acima de 800 metros.
O granizo é muito mais frequente na ilha do que a neve em floco ou folhelho e as geadas ou dente de cão.
Cai em maior abundância desde Novembro até Março, mas também aparece algumas vezes em Outubro e
Abril. É o granizo que forma esses extensos lençóis brancos que na estação invernosa cobrem ás vezes
durante dias (3 a 15, poucas vezes mais) uma boa parte das nossas montanhas.
Todos os anos cai granizo nas serras, mas nem sempre ele é visível do Funchal. A queda do granizo é muitas
vezes acompanhada ou precedida de trovoadas, e traz sempre como consequência um abaixamento de
temperatura na cidade. Quando esse meteoro aparece, o que é raro, entre 600 e 800 metros, derrete
geralmente ao cabo de poucas horas.
O granizo nas serras da Madeira apresenta-se sempre em pequenas massas irregulares e esquinadas,
semelhantes na forma ás areias basálticas das praias. A forma arredondada, que é muito menos frequente,
só aparece nas altitudes medias das vertentes meridional e setentrional, e uma ou outra vez nas
proximidades da costa. Na altitude de 1500 metros, chega o granizo nalguns anos a constituir camadas de
mais de um metro de espessura.
As neves e as geadas, pelas altitudes em que aparecem, nenhuns prejuízos causam ás culturas da ilha; o
granizo, porém, pode ser ás vezes nocivo, mas nunca tanto como nos países da Europa. Diz-se que há mais
de 50 anos uma chuva de pedra provocou grandes estragos nas culturas da freguesia do Caniçal, e contou-
nos Guilherme Teles de Meneses ter visto há uns nove ou dez anos o granizo destruir uma boa parte da
folhagem das árvores frutíferas em outras regiões da freguesia dos Canhas. Estes casos, porém, são
felizmente tão raros, que o agricultor madeirense ao proceder ao cultivo das suas terras, como acima ficou
dito, nem se lembra desse inimigo, tanto para temer em latitudes mais setentrionais. Muito mais se arreceia
ele das estiagens, cujos efeitos são na verdade bem mais funestos para a agricultura, principalmente nos
pontos onde não chegam as águas de irrigação».
Vid.
Neve e Dente de Cão.
Grant (W. R. O.)
Ornitologista do Museu Britanico que explorou cientificamente as Selvagens.
Publicou na revista
The Ibis
do ano de 1896, p. 41-55, um trabalho intitulado
On the Birds observed in the
Salvage Islands near Madeira
, e nas revistas
The Field
e
The Zoologist
um relato da sua viagem ás
Selvagens. Este ultimo trabalho, em que colaborou Cecil Bering, tem por titulo
An Expedition to Salvage
Islands
.
Grão de Bico (Cicer arietinum)
Leguminosa muito cultivada na Madeira e Porto Santo. As suas
sementes, de um amarelo pálido ou escuras, servem para alimento do homem, e torradas e reduzidas a pó,
são empregadas como sucedâneas do café.
Gras (A. le)
V. Kherallet.
Gray (J. E .)
V. Antozoarios.
Greeff (Richard)
Doutor em filosofia e medicina. E.:Reise nach den Canarischen Inseln , Bonn, 1868,
eMadeira und die Canarischen Inseln , Marburgi, 1872. 0 primeiro destes escritos trata também da ilha da
Madeira.
Green
Dois astrónomos com este nome visitaram a Madeira, o primeiro em 1768, por ocasião da
primeira viagem do capitão Cook, e o segundo em 1877. Este ultimo fez aqui algumas observações sobre o
planeta Marte, que são mencionadas por Flammarion num dos seus trabalhos sobre astronomia.
Greenfield de Melo (José Maria)
Foi eleito deputado pela Madeira para a legislatura de 1890
a 1892.
Gregorio (Fajã do)
V.Fajã dos Asnos .
Greshoff (M.)
E:De Tuinen van Funchal :Botanische Herinneringen aan het eiland, Madeira (Overgedrukt uit Album der Natur ).
Grey (H.)
(H.) E.:A Voyage to Madeira and the Azores with a peep at Lisbon in september and october
1879 ; Londres. 0 autor desta obra prefere a ilha de S. Miguel á da Madeira.
Grilos
Insectos ortopteros muito conhecidos por causa do som agudo que produzem pelo atrito das
pernas contra os élitros.
São frequentes na Madeira oLiogryllus bimaculatus e oGryllus hispanicus , sendo aquele o grilo dos
campos e este o grilo das cozinhas.
Grinalda Madeirense (A)
Saíram doze números deste jornal literário, publicando-se o primeiro
numero a 14 de Março de 1880.
Foi um jornal muito apreciado, que teve como redactores os alunos do liceu João Jovita dos Santos e João
de Caires, que depois se formaram em direito.
Guarda (Frei Pedro da)
Foi Frei Pedro da Guarda um pobre e humilde franciscano, que nasceu em
1435 na cidade de que tomou o apelido e que morreu no convento de São Bernardino, da freguesia de
Câmara de Lobos, no ano de 1505. A austeridade da sua vida, as duras penitencias a que se entregava e a
pratica exemplarissima, de todas as virtudes cristãs, granjearam-lhe fama de santo, ainda durante a sua
peregrinação terrena. Depois da sua morte atribuíram-lhe, por sua intercessão, muitos factos miraculosos,
tendo-se promovido vários processos de beatificação para canonicamente se lhe poder prestar o culto dos
altares. 0 ultimo foi há cerca de 32 anos e num volume de 163 paginas in-fol. se publicaram vários extractos
das principais peças do processo. A Santa Sé nunca chegou a pronunciar-se sobre a canonização, mas os
prelados desta diocese permitiram um certo culto publico, que durante séculos não esmoreceu nunca e
antes se foi afervorando com o tempo. 0 Santo Servo de Deus, nome por que era conhecido e ainda hoje o é,
tinha inúmeros e fervorosos devotos, que de toda a ilha acorriam ao local da sua sepultura a implorar-lhe
protecção e socorro para os males de que sofriam.
Na cidade da Guarda viviam João Luiz, tecelão, e sua mulher Agueda Gonçalves, de cujo consórcio nasceu
Pedro, no ano de 1435. Aos vinte anos de idade entrou na ordem franciscana, onde professou como leigo, e
durante trinta anos esteve em conventos do continente, tornando-se notória a austeridade da sua vida e
atribuindo-se-lhe alguns factos prodigiosos. Querendo subtrair-se á admiração que causavam as suas
virtudes, pediu para recolher-se na Madeira num convento da sua ordem, o que fez pelos anos de 1485.
Procurando um obscuro abrigo no convento de São Bernardino, da freguesia de Câmara de Lobos, ali viveu
cerca de vinte anos, tendo morrido a 27 de Julho de 1505. A vida penitente que levou neste retiro e
sobretudo os factos miraculosos que se atribuíram á sua intercessão, atraíram as atenções dos seus
contemporâneos, como já fizemos notar, formando-se em torno do seu nome uma verdadeira auréola de
santidade, que ainda mais cresceu e se avolumou depois da sua morte.
O governador deste bispado António Alfredo Santa Catarina Braga mal chegou a esta ilha em 1835,
esforçou-se por apagar os vestígios da influencia exercida pelas ordens religiosas, que tinham sido expulsas
no ano anterior. A essa influencia estava ligado o culto prestado, ao Santo Servo de Deus e tratou sem
demora de proibir todas as manifestações de carácter religioso em honra do humilde franciscano.
A 2 de Junho de 1835, dirigiu-se Antonio Alfredo ao convento de São Bernardino, acompanhado de vários
eclesiásticos e de algumas pessoas de representação social, e procedeu a uma investigação sumaria acerca
dos factos prodigiosos atribuídos a Frei Pedro da Guarda, ordenando em seguida que a estátua deste
religioso, que ali se venerava, fosse publicamente queimada na sua presença e bem assim outros objectos
que serviam nas cerimónias culturis prestadas àquele humilde irmão leigo da ordem franciscana. De tudo
fez lavrar um auto no próprio local que é documento cheio de rancores, embora aparente o maior zelo pela
integridade da doutrina católica e prestigio da religião. No dia seguinte fez publicar uma provisão em que o
culto ao Santo Servo de Deus era inteiramente condenado e proibido, infligindo severas penas aos
eclesiásticos que não acatassem as determinações contidas na mesma provisão.
O acto praticado pela autoridade eclesiástica causou grande indignação e escândalo em toda a ilha, não
tanto pela proibição do culto, que podia justificar-se á face das leis canónicas, mas pelo aparato e solenidade
de que foi revestida, e especialmente pelo auto de fé praticado na imagem do pobre frade, cuja memória não
merecia certamente ser exposta a tamanha execração publica.
Parece que o processo de beatificação há poucos anos instaurado, vai prosseguir novamente, sendo possível
que num futuro próximo seja decretada pela Santa Sé a prestação de culto publico a Fr. Pedro da Guarda,
que o povo só conhece pelo nome de Santo Servo de Deus.
Como acima ficou dito, varias diligências se empregaram no sentido de alcançar-se o decreto de beatificação
do humilde franciscano Fr. Pedro da Guarda, sendo a mais importante de todas a que se realiza pelos anos
de 1623, cujo processo se encontra ainda em Roma e que chegou a atingir um adiantado desenvolvimento.
No ano de 1905, iniciou-se na cúria episcopal do Funchal e prosseguiu em Roma nos tribunais da Santa Sé
um novo processo, de que em 1905 se publicaram varias peças avulsas num in-folio de 180 paginas. Este
processo, por motivos que desconhecemos, nao teve prosseguimento, estando suspensos os trabalhos de
investigação que a tal respeito se tinham ali começado na secretaria das congregações eclesiásticas.
No ano de 1864, publicou-se no Funchal um opúsculo, contendo uma biografia de Fr. Pedro da Guarda,
extraída das crónicas da Ordem Serafica em Portugal.
Guarda Nacional
Por alvará do Prefeito e Governador Militar da Madeira, datado de 1 de Setembro
de 1834, foi nomeada uma comissão para fazer o recenseamento e alistamento nominal de todos os
indivíduos que nos termos do decreto de 29 de Março do mesmo ano, deviam fazer parte da guarda nacional
mas em fins de 1835 não estava ainda devidamente organizada esta guarda a pesar dos oficiais dela terem
sido já eleitos e aprovados pelas autoridades competentes.
Parece que nos primeiros tempos houve um certo receio em fornecer armamento aos indivíduos da Guarda
Nacional, por se suspeitar que nem todos eles eram afectos á causa constitucional.
A Portaria de 19 de Março de 1835 mandou formar na Madeira um batalhão de caçadores da Guarda
Nacional, o qual se constituiu definitivamente em 1836, tendo os seus oficiais e oficiais inferiores sido
eleitos em 10 de Janeiro deste ultimo ano, numa reunião realizada na Praça da Constituição.
A Câmara Municipal enviava ao Governador a lista dos oficiais eleitos para este a submeter á aprovação do
Governo. Havia eleições de dois em dois anos, e o primeiro comandante do batalhão de caçadores da
Guarda Nacional foi Valentim de Freitas Leal.
A Guarda Nacional do Funchal tinha uma bandeira oferecida por D. Ana Mascarenhas e Ataíde em 14 de
Janeiro de 1835.
As guardas nacionais foram dissolvidas pela lei de 7 de Outubro de 1846.
Guarda Republicana
A companhia independente n.° 1 da Guarda Republicana, hoje (1921)
companhia mixta n.° 1, foi criada por decreto de 10 de Maio de 1919. A 3 de Dezembro de 1919 chegaram ao
Funchal, no Quelimane, 2 sargentos, 3 cabos e 21 soldados da referida guarda, pertencendo 11 praças á
cavalaria e 15 á infantaria, tendo essa força sido aumentada de então para cá, e contando ao presente 3
sargentos, 8 cabos, 1 cabo corneteiro e 66 soldados, comandados por um capitão comandante da
companhia, e 1 subalterno comandante da secção mixta do Funchal. Na re-ferida força há 16 madeirenses,
soldados licenciados de infantaria e artilharia.
O efectivo da Companhia não está ainda bem determinado, pois depende do numero de postos que vierem a
estabelecer-se na ilha.(1921)
A Guarda Republicana retirou para Lisboa em 1922, nas viagens do vapor São Miguel dos meses de Abril e
Maio. Nos últimos tempos tinha o seu quartel na Quinta Vigia, pertencente ao Estado e onde em antigos
tempos residiram a imperatriz de Áustria e o arquiduque Maximiliano, depois imperador do México.
Guarnição de Jardim
os madeirenses dão esta denominação a varias espécies do género
Verbena, a mais comum das quais é a V. bonariensis, perfeitamente naturalizada em vários pontos do
Funchal. Esta espécie é conhecida também pelos nomes de jarvão ou urgebão e, como a V. officinalis,
considerada pelo povo como estimulante e tónica. Tem flores lilases, dispostas em espigas, e folhas muito
asperas, inciso-serradas.
Guarnição Militar
A guarnição militar da Madeira é formada pelo regimento de infantaria n.° 27,
pela bataria n.° 3 de artilharia de montanha, por uma companhia da guarda republicana e pela companhia
n.° 1 da guarda fiscal (1921). Antes, porém, de ser distribuída á ilha esta guarnição, estiveram aqui outras
forças militares, muitas das quais constam da relação que a seguir publicamos:
Infantaria N.° 5.
0 regimento de infantaria n.° 5 foi organizado pelo decreto de 21 de Julho de 1834, para
defesa da Madeira.
Infantaria n.° 11.
0 batalhão de infantaria n.° 11 guarneceu a Madeira desde 1837 a 1847, tendo, porém,
parte dele saído para Portugal em 1843. Foram forças de infantaria n.° 11 e de artilharia n.° 4 que fizeram o
pronunciamento de 29 de Abril de 1847, saindo por este motivo da ilha em Agosto do mesmo ano, depois de
restabelecido o governo da rainha.
Caçadores n.° 6
. O batalhão de caçadores n.° 6, na força de 400 praças, chegou á Madeira em 1847, mas
tendo-se revoltado na noite de 30 para 31 de Julho de 1852, foi transferido imediatamente para Lisboa,
onde chegou a 15 de Agosto, sendo desarmado a bordo, e indo as praças de pré para a fragata Diana e os
oficiais para a fragata D. Fernando. (V.
Lapierre
).
Infantaria nº. 7
. 0 2º. batalhão de infantaria n.° 7, na força de 241 praças, chegou ao Funchal a 29 de
Agosto de 1852 e demorou-se aqui até 19 de Abril de 1853.
Infantaria n.° 13
. Rendeu o 2.° batalhão de infantaria n.° 7 uma força de 250 praças de infantaria nº. 13,
que esteve na Madeira até 27 de Julho de 1854. 0 vapor Duque da Terceira, que conduziu esta força a
Portugal, naufragou perto de Aveiro.
Caçadores n.° 2
. De 24 de Julho de 1854 a Agosto de 1855 estiveram na Madeira quatro companhias do
batalhão de caçadores n.° 2.
Infantaria n.° 4
. 0 2.° batalhão do regimento de infantaria n.° 4 esteve na Madeira desde 24 de Agosto de
1855 até Julho de 1856.
Infantaria nº. 1
. O 1.° batalhão de infantaria n.° 1 chegou á Madeira a 28 de Junho de 1856 e retirou para
Portugal a 6 de Agosto de 1858. Foi esta força que nos trouxe a epidemia da colera-morbus, que grassava
então com grande intensidade em Portugal.
Infantaria n.º 16. Uma força de 306 praças de infantaria n.° 16 rendeu a força precedente demorando-se na
Madeira até 17 de Agosto de 1859.
Infantaria n.º 10
. A Madeira esteve guarnecida por forças deste regimento, desde que saiu daqui infantaria
16, até 1860.
Infantaria n.º 2.
Substituiu infantaria n.° 10, e esteve na Madeira até 19 de Junho de 1861.
Caçadores n.º 1
. Chegou a 16 de Junho de 1861, e saiu para Portugal em Julho de 1862.
Caçadores n.° 5
. Uma força de 218 praças do batalhão de caçadores n.° 5 chegou á Madeira a 17 de Julho de
1862 e saiu para Portugal a 1 de Agosto de 1864.
Caçadores n.° 12
. Em Julho de 1864 vieram para a Madeira 10 oficiais e 72 praças de pré a fim de
constituírem o novo batalhão de caçadores n.° l2 que, segundo o plano publicado a 23 de Junho de 1864,
devia ter o seu quartel no Funchal. 0 efectivo do novo batalhão foi completado com praças recrutadas na
ilha.
O batalhão de caçadores n.° 12 era destinado a estacionar no Funchal; como, porém, fosse transferido para
Tomar em Dezembro de 1869 em virtude de intrigas políticas, veio substitui-lo o batalhão de caçadores n.°
5, só regressando á ilha, donde desde então não tornou mais a sair, no ano de 1870.
Pela organização militar de 30 de Novembro de 1884 passou a ser regimento o batalhão de caçadores n.° 12.
Caçadores n.° 5
. 0 batalhão de caçadores n.° 5 chegou á Madeira em Dezembro de 1869, mas como duas das
suas companhias se insubordinassem no dia 2 de Agosto de 1870, em seguida a uma revista de armamento,
foi todo o batalhão transferido para Portugal, sendo mandado regressar á ilha o já mencionado batalhão de
caçadores n.° 12.
Infantaria n.° 27
. 0 regimento de caçadores n.° 12 desde o dia 9 de Outubro de 1899 que se chama
regimento de infantaria n.º 27, de harmonia com o disposto no decreto de 14 de Setembro do mesmo ano.
(1921).
Além das forças a que acabamos de referir-nos, outras há a mencionar, mas que só vieram a esta ilha para
retornar temporariamente as tropas aqui em serviço. Assim em 1847, estiveram na Madeira o batalhão de
caçadores n.° 4 e um destacamento de artilharia n.° 2, mandado vir dos Açores pela Junta Governativa; em
1887, o regimento de infantaria n.° 1 e uma companhia de caçadores n.º 5, enviados para esta ilha por causa
dos motins populares provocados pelas eleições das Juntas de Paróquia; e em 1911, o batalhão de caçadores
n.° 6, a quem o Governo da Republica encarregou de manter a ordem na Madeira, conjuntamente com as
tropas da guarnição, enquanto durou aqui a epidemia colérica. Dos princípios de 1918 a Março de 1919,
esteve no Funchal uma companhia de artilharia de posição para defesa desta ilha contra qualquer ataque
dos alemães.
Antes da proclamação da Constituição no dia 5 de Junho de 1834, só temos conhecimento de haverem
estado na Madeira as seguintes forças regulares do exército: o regimento de infantaria n.° 7 e um
destacamento de artilharia n.° 2, que chegaram aqui a 23 de Agosto de 1823, recolhendo o primeiro a Lisboa
em 1826, depois de haver provocado alguns conflitos no Funchal; uma força de artilharia n.° 7, que se
achava na Madeira em 1823; um batalhão de infantaria n.° 1, um outro de infantaria n.° 2, um contingente
de caçadores n .° 11, um destacamento de artilharia e um outro de artífices engenheiros, que guarneceram a
ilha durante o governo miguelista; o regimento de infantaria n.° 13, que também esteve aqui durante o
mesmo governo, saindo para Lisboa em fins de 1829, depois de se haver insubordinado; e finalmente quatro
companhias do regimento de caçadores da Beira Alta e o primeiro batalhão do regimento de infantaria de
Lagos, que estavam nesta ilha em 1831.
Em 1815 havia na Madeira um batalhão de artilharia de 1ª linha, com seis companhias, como vem referido
na Estatística Histórico-geográfico da ilha da Madeira, de Casado Giraldes, e durante o domínio dos Filipes
houve na Madeira o chamado presídio espanhol, constituído por tropas permanentes e assalariadas,
destinadas a assegurar a posse desta ilha e a autoridade do governador geral da guerra «Era o dito presídio,
diz o Dr. Azevedo, composto de quatro companhias, cada uma com o seu capitão, e o da primeira
comandante do presídio todo, e em sua autoridade independente do governador português».
Pelo que respeita a tropas de 2ª e 3ª linhas, sabe-se ter havido na Madeira as milícias, as ordenanças, as
vigias, a artilharia auxiliar e a guarda nacional (V. estes nomes), assim como os terços auxiliares, aprovados
pela resolução regia de 27 de Novembro de 1784, o batalhão de voluntários de D. Pedro IV e o batalhão de
voluntários realistas urbanos, este criado no tempo de D. Miguel, e aquele durante o governo de Travassos
Valdez, o batalhão nacional de voluntários funchalenses, estabelecido em 28 de Agosto de 1836, o batalhão
nacional de caçadores do Príncipe Real, criado em 6 de Março de 1847 e dissolvido em 29 de Abril do
mesmo ano, o batalhão nacional do Funchal, organizado pela Junta Governativa, em 1847, etc., etc..
No tempo de D. Pedro II foi instituída uma companhia de artilharia, para a acomodação da qual se
principiou a construir uma casa que, antes de concluída, foi devorada por um incêndio, e em 5 de Setembro
de 1661 ordenou-se a criação de um corpo de 100 artilheiros para defesa das fortalezas, vencendo cada um
deles 50 réis diários. Em 1762 havia na Madeira uma companhia de cavalaria, em 1780 uma companhia de
infantaria da guarda do governo e em 1799 existiam tropas de infantaria que venciam soldo, sendo de crer,
porém, que todas estas forças pertencessem á 2ª linha.
O Sr. major Alberto Artur Sarmento nos seus Alicerces para a historia militar, em vários artigos publicados
no Heraldo da Madeira e em outros escritos, fornece valiosas informações com respeito ás forças militares
que em diferentes épocas têm guarnecido esta ilha.
Guedes (Vasco)
Vasco Guedes de Carvalho e Meneses, ao tempo em que era comandante militar da
Madeira, foi nomeado governador civil deste distrito por decreto de 14 de Agosto de 1884, tendo tomado
posse a 18 do mesmo mês.
Foi governador geral de Angola e para justificar-se das acusações que lhe fizeram quando administrava
aquela possessão ultramarina, publicou em 1882, no Funchal, um folheto intitulado
Apontamentos para a
Historia de Angola
.
Morreu em Abril de 1915.
Guelro (Atherina presbyter)
Pequeno peixe da família Aterinida, frequente nos mares do
arquipelago. Na estação calmosa frequenta em densos cardumes as águas do litoral e as poças da costa. É
peixe saboroso, mas que poucas vezes aparece no mercado, costumando os pescadores utiliza-lo como isca e
engodo. É na pesca do gaiado que ele tem a principal aplicação.
Guerra (Grande)
Ficou sendo conhecida por esta denominação a luta tremenda que teve começo na
Europa em 1914, provocada pela Alemanha, e que durante quatro longos anos agitou todo o mundo
civilizado, obrigando os países beligerantes a esforços e sacrifícios que nenhuma guerra anterior tinha ainda
exigido. Portugal também entrou nessa luta, a pedido da sua velha aliada, a Inglaterra, e as suas tropas,
embora pouco numerosas, prestaram excelentes serviços em todos os pontos onde foram chamadas a
combater. Quer na Europa, quer na Africa, os soldados portugueses fizeram resplendor com todo o seu
brilho o nome do nosso país, e a maneira como os seus serviços durante a campanha foram apreciados pela
imprensa estrangeira, especialmente a francesa, é altamente honrosa para o nosso orgulho nacional.
Na relação que a seguir publicamos, vão indicados os nomes dos filhos da nossa terra que morreram em
combate ou ficaram prisioneiros do inimigo, e bem assim os daqueles que foram condecorados ou louvados
por bons serviços prestados durante a campanha, não abrangendo a mesma relação os nomes de todos os
3 .°–
Americo Olavo Correia de Azevedo
(V. este nome), capitão de Infantaria. Ficou prisioneiro dos
2.°–
João Nepomuceno de Freitas
, major de Infantaria e comandante do batalhão de Infantaria n.° 2.
1.°–
Ernesto de França Mendes
, major do Estado Maior do Exército. Foi agraciado pelo Governo
madeirenses que fizeram parte dos corpos expedicionários e estiveram na zona da guerra, por nos ter sido
impossível obter a tal respeito informações completas e dignas de confiança:
Francês com a grã cruz da Legião de Honra e pelo Governo inglês com a ordem de Serviços Distintos.
Ficou prisioneiro no combate de 9 de Abril de 1918.
alemães no referido combate, e foi condecorado com a Cruz de Guerra e a Torre e Espada.
4.º-
Jaime César Nunes de Oliveira
, capitão de Infantaria e comandante da 4.ª companhia do
batalhão de infantaria n.° 35 do C. E. P.. Foi condecorado com a medalha de Serviços Distintos em
campanha e com a medalha de campanha com a legenda «Passagem do Escalda e perseguição do inimigo»,
tendo tido além disso três louvores, sendo dois do General-Comandante do C. E. P. e um do Ministro da
Guerra.
Infantaria n.° 35. Menção honrosa.
Abril de 1918.
9.°–
João Paulo da Veiga Pestana
, alferes miliciano de infantaria. Contava 20 anos de idade e estava
tirando o curso de engenharia em Portugal quando foi chamado a frequentar a escola de oficiais milicianos,
partindo pouco depois para a França, onde encontrou morte gloriosa no combate de 9 de Abril de 1918. Em
sessão da Câmara Municipal do Funchal de 10 de Abril de 1919 propôs o vereador Francisco Gomes de
6.°–
Jaime Pereira Rodrigues Baptista
, capitão de Infantaria. Foi feito prisioneiro no combate de 9 de
5.º-
Francisco Silvestre Varela
, capitão de Infantaria e comandante da 1ª companhia do batalhão de
7.º_
Antonio Eduardo Gonçalves Henriques
, tenente de Infantaria. Louvado.
8.º–
Carlos José Machado dos Santos
, tenente medico. Louvado.
10.°–
Gabriel Rocha de Gouveia
, alferes miliciano de Infantaria. Era natural da Calheta e morreu em
Gouveia que fosse dado o nome de Alferes Veiga Pestana á rua das Hortas, sendo esta proposta aprovada
por unanimidade.
França, a 13 de Outubro de 1917, com cerca de 30 anos de idade.
11.°–
Alfredo de França Doria Nobrega
, alferes miliciano de Infantaria. Foi condecorado com a Cruz
de Guerra, sendo feito depois cavaleiro de Cristo, com palmas, por ter contribuído para que o batalhão de
Infantaria 15 fosse, depois da batalha de 9 de Abril de 1918, retomar o seu logar na frente, encorporado
como unidade de combate numa brigada britanica.
12.°–
Henrique Ernesto Teixeira Moniz
, alferes miliciano de Infantaria. Foi primeiramente louvado,
recebendo depois a Cruz de Guerra de 3ª classe pela coragem e sangue frio que revelou no combate de 23 de
Novembro de 1917.
de Abril de 1918.
Abril de 1918.
de 1918.
dedicação praticados durante a campanha. Partiu para França em Agosto de 1918.
serviços distintos em campanha.
17.°–
Armando Pinto Correia
, alferes de Infantaria. Louvado duas vezes por actos de coragem e
15.°–
Carlos Olavo Correia de Azevedo
(V. este nome), alferes miliciano. Ficou prisioneiro em 9 de Abril
19.°–
João da Silva Júnior
, alferes miliciano. Foi condecorado com a Cruz de Guerra de 2ª classe por
13.°–
Americo Aldonio de Meneses
, alferes miliciano de Infantaria. Foi feito prisioneiro no combate de 9
14.°–
Artur de Brito Figueiroa
, alferes miliciano de Infantaria. Foi feito prisioneiro no combate de 9 de
16.º-
Osvaldo de Andrade
, alferes de artilharia. Louvado.
18.°–
José Maria da Conceição Macedo
, alferes miliciano. Tem a Cruz de Guerra de 3.ª classe por
serviços distintos prestados na batalha de 9 de Abril de 1918.
20.°–
Daniel Fernandes de Aguiar
, tenente de Infantaria. Tem a Cruz de Guerra de 3ª classe e a
medalha militar de prata, de bons serviços, e foi louvado pelo arrojo e espírito guerreiro que revelou em
muitos combates e pelas missões arriscadas que desempenhou durante a campanha.
21.°–
Antonio Martins Ferreira Júnior,
alferes de Infantaria 2. Louvado pela coragem com que conduziu
os seus homens e esforço empregado para recolher os feridos no raid realizado de 2 para 3 de Abril de 1918,
a pesar de se achar também ferido. Tem a Cruz de Guerra e ficou prisioneiro dos alemãis na batalha do Lis
em 9 de Abril de 1918.
22.°–
Carlos Elói da Mota Freitas
. Foi morto no combate naval que o caça minas Augusto de Castilho
sustentou com um submarino alemão, em 15 de Outubro de 1918. O Governo concedeu-lhe a Cruz de Guerra
de 1.ª classe, tendo o certificado desta condecoração sido enviado pela Secretaria de Estado da Marinha ao
pai do mesmo aspirante. A Câmara Municipal do Funchal, em sessão de 8 de Maio de 1919 resolveu dar o
nome do aspirante Mota e Freitas à travessa da Sacristia, em Santa Maria Maior.
no combate de 12 de Abril de 1918.
Funchal. Foi ferido em combate e condecorado pelo Governo Americano.
29.°–
João de Andrade
, cabo contramestre de corneteiros, natural do Paul do Mar. Faleceu a 24 de
26.°–
Pedro da Silva
, soldado voluntário do exército americano, natural da Madeira. Morreu em França,
27.°–
Luiz Baptista
, soldado voluntário do exército americano, natural da freguesia de S. Pedro, no
2S.°–
Henrique José de Sousa
, tenente de Infantaria. Foi morto em combate, na Africa Oriental.
23.°–
João Augusto de Sousa
, alferes-capelão. Menção honrosa.
24.°–
Jaime de Gouveia Barreto
, alferes-capelão. Louvado.
75.°–
Eduardo Rodrigues
, 2.° sargento. Foi feito prisioneiro no combate de 9 de Abril de 1918.
32.°-–
Alvaro Teles de Azevedo
, capitão (hoje major) de infantaria. Comandou uma bataria de
33.º-
Manuel da Costa Dias
, tenente (hoje major) da administração militar. Esteve no sul de Angola em
35.°–
Dr. João Francisco de Sousa
. V. este nome.
34.6–
Braulio Ludgero de Freitas
, tenente (hoje capitão) da administração militar. Esteve em Angola em
30.º-
Julio Teodoro Betencourt,
tenente de Infantaria. Tem a Cruz de Guerra de 3.ª classe por serviços
31.°–
Alberto de Sena Mendes
, 1.º sargento do batalhão do 1.° grupo de metralhadoras. Morreu no
Agosto de 1918, no hospital de Lourenço Marques, em virtude de ferimentos recebidos em combate. Fora
louvado em ordem de serviço da expedição de 9 de Abril de 1918.
distintos na Africa Ocidental, na campanha contra os alemãis.
combate de Naulila, depois de haver detido com o fogo da sua peça o avanço dos alemãis.
metralhadoras no sul de Angola e tem a Cruz de Guerra e a medalha de prata de valor militar.
1915, e em França de 1917 a 1918. Tem a Cruz de Guerra e duas medalhas de bons serviços.
1915 e em França de 1917 a 1918. Louvado e tem a medalha de prata, de bons serviços.
Dos madeirenses mortos em combate só o cabo João de Andrade pertencia ao regimento de Infantaria n.°
2,, existindo no quartel do Colégio uma singela lápide destinada a relembrar o seu nome. Esta lápide foi
inaugurada em 10 de Junho de 1920, tendo sido feito o descerramento pelo pai do falecido e assistindo á
cerimónia o regimento na sua máxima força.
A grande guerra, além de se ter feito sentir na Madeira pelas tristíssimas consequências que atingiram o
mundo
inteiro, também ecoou sinistra e sangrentamente na capital deste arquipélago com o
bombardeamento do nosso porto por submarinos alemãis, nos dias 3 de de Dezembro de 1916 e 12 de
Dezembro de 1917 como já referimos no artigo
Bombardeamento do Funchal
. Os submarinos inimigos
percorreram com frequência as águas deste arquipélago e as equipagens de muitas embarcações a vapor e á
vela, afundadas por eles, vieram procurar a sua salvação nas costas marítimas destas ilhas. Vamos
mencionar algumas dessas embarcações, e ainda outras que foram torpedeadas ou assaltadas em viagem
para a Madeira, sendo possível que a nossa relação apresente lacunas sensíveis, sobretudo com respeito ao
período em que a imprensa se viu forçada a omitir a narrativa de certas ocorrências de guerra.
A escuna Senhora da Conceição foi afundada por um submarino alemão, nas costas da França, mas
pertencia à praça do Funchal e trazia um carregamento de enxofre para esta ilha. Tinha sete tripulantes e
um praticante de piloto, natural da Madeira, desembarcando todos no porto de Gijon, em Hespanha. O
torpedeamento deu-se no mês de Abril de 1916.
No mês de Julho do ano referido, saiu do Funchal, conduzindo um carregamento de vinho com destino a
alguns portos do norte da Europa, o vapor dinamarquês Moskow que foi apresado e afundado pelos
alemães, tendo a companhia de seguros Aliança Mardeirense pago a importância da carga.
O vapor italiano Etna foi torpedeado a 150 milhas do Porto Santo, tendo os seus 44 tripulantes chegado
àquela ilha no dia 2 de Abril de 1917.
Na freguesia da Ribeira Brava desembarcaram a 17 de Julho de 1917 os marinheiros que tripulavam o vapor
grego Chalkidom, que fora afundado por um submarino a 80 milhas da Madeira. Tinha 23 tripulantes e
dirigia-se de New-York para Marselha.
A cerca de 150 milhas da ilha do Porto Santo foi metida a pique a barca portuguesa Viajante, que trazia
carga geral para a Madeira. Depois de três dias de extenuante viagem, chegou a equipagem desta
embarcação ao Funchal a 5 de Outubro, seguindo alguns dias depois para Portugal.
Aportaram á vizinha ilha do Porto Santo, no dia 22 de Outubro do mesmo ano, cinquenta tripulantes,
incluindo os oficiais, do vapor japonês Ikoma Maru, que se dirigia de Marselha para o Chile a receber um
carregamento de salitre. O Ikoma Maru travou combate, sem resultado, com o submarino alemão, a 170
milhas daquela ilha e ali foi afundado. Pertenciam á nacionalidade japonesa, com excepção de dois
artilheiros e um telegrafista, que eram franceses, tendo chegado ao Funchal no dia 24 de Outubro.
O iate americano Margaret S. Roberts, que a 6 de Outubro do ano referido saíra de New York, conduzindo
um carregamento de trigo para a Madeira, foi torpedeado a 15 de Novembro entre os Açores e esta ilha,
chegando os seus seis tripulantes ao Funchal, no dia 19 do mesmo mês.
Um submarino alemão, conduzindo apresados dois vapores noruegueses, encontrou a galera francesa
Tijuca, no dia 22 de Novembro de 1917, a cerca de 240 milhas a nordeste da Madeira, tendo afundado os
vapores, a galera e o iate português Trombeta, que navegava nas mesmas águas. As equipagens dos navios
noruegueses e do iate português tomaram o rumo dos Açores, dirigindo-se os tripulantes do Tijuca ao
Funchal, onde desembarcaram, em numero de 36, no dia 27 de Novembro.
No dia 17 do mencionado mês e ano, foi torpedeado a 250 milhas desta ilha, o lugre português Açoreano,
cuja tripulação, composta de 12 indivíduos, aportou á Ponta do Sol no dia 19, seguindo no mesmo dia para o
Funchal.
No nosso porto fundeou no dia 4 de Junho de 1917 o vapor norueguês Kaggefos, que conduzia a tripulação,
composta de 23 marinheiros, do vapor da mesma nacionalidade Sorland, que tinha sido metido a pique por
um submarino alemão, nas costas da França, e que se dirigia de Saint Nazaire para Baltimore. Estes
tripulantes desembarcaram no Funchal, e alguns dias depois seguiram para Inglaterra.
A 30 de Janeiro de 1918 foi torpedeado o pequeno vapor Neptuno (antigo Maria) pertencente á praça do
Funchal. Saíra na véspera de Lisboa com destino a esta ilha.
Na primeira quinzena do mês de Fevereiro de 1918 aportaram ao Funchal os tripulantes de um navio inglês,
um grego e um italiano, torpedeados nas águas deste arquipelago.
vinte homens que a tripulavam chegado ao Funchal no dia 15 de Março de 1918.
A 30 do mesmo mês e ano, foi afundada a 100 milhas do Porto Santo a escuna portuguesa Beira Alta, que
trazia de Lisboa para a Madeira 20 toneladas de semilhas, além doutra carga.
Aportaram ao Funchal, nos primeiros dias do mês de Abril de 1918, os tripulantes de um veleiro português,
que seguia o rumo dos Açores para Lisboa e que fora torpedeado por um submarino.
É de 24 de Fevereiro de 1916 o decreto que autorizou a apreensão dos navios das nações inimigas surtos em
portos portugueses, encontrando-se então ancorados na baía do Funchal os vapores alemais Colmar,
Petropolis, Guahyba e Hochfeld. Em virtude de ordens superiores, o capitão do nosso porto Sales
A 250 milhas das nossas costas, entre os Açores e Madeira, foi afundada uma barca italiana, tendo os
Henriques, acompanhado do comandante da guarda fiscal tenente Leovegildo Rodrigues, procedeu no dia 2
de Março de 1916 á ocupação daquelas embarcações, tendo os respectivos tripulantes, em numero de 100,
deixado sem demora os seus navios. Segundo as declarações dalguns desses tripulantes, o governo alemão
mandou destruir e inutilizar varias peças dos maquinismos, obstando assim a que os navios pudessem
navegar. Essas ordens foram cumpridas pelas tripulações, mas depois dos convenientes reparos, ficaram os
vapores em boas condições de navegabilidade, tendo seguido todos para o continente. A esses navios foram
postos os nomes de Madeira, Porto Santo, Machico e Desertas.
Os súbditos alemãis residentes na Madeira foram internados no Lazareto de Gonçalo Aires, seguindo dali
para a ilha Terceira. Do Lazareto evadiu-se o capitão do vapor Colmar, correndo entre o publico varias
versões acerca da maneira como se realizou aquela fuga.
No dia 30 de Março de 1921 desembarcaram no cais da Pontinha, pouco depois das 8 horas da noite, os
despojos mortais de um soldado desconhecido, que caíra, dando a vida pela pátria, nas plagas longínquas da
Africa Oriental, na luta contra os alemãis. A urna contendo os despojos, que tinha vindo no vapor Briton, da
Union Castle Mail, passou a noite no Posto de Desinfecção Marítima, sendo conduzida no dia imediato, pela
1 hora da tarde, para os Paços do Concelho, onde ficou depositada até o dia 3 de Abril, em que embarcou
para bordo do cruzador Republica, encarregado de transportá-la para Lisboa. Tanto por ocasião da vinda da
urna para os Paços do Concelho, onde ficou em câmara ardente, como da retirada dela para o cais, a fim de
embarcar, se formaram luzidos e imponentes cortejos, tendo-se encorporado no dia 1 de Abril as
autoridades civis e militares, o corpo consular, alguns oficiais ingleses, representantes das diferentes escolas
e agremiações, contingentes das forças militares da guarnição do Funchal, etc. etc.. No artigo Soldado
desconhecido procuraremos descrever as aparatosas manifestações que se realizaram nesta cidade de 1 a 3
de Abril de 1921, para glorificar o modesto soldado, cujos restos mortais descansam agora no majestoso
mosteiro da Batalha, mandado edificar pelo rei D. João I após a heróica peleja de Aljubarrota.
Para melhor esclarecimento do que deixamos dito, deve ler-se o artigo
Bombardeamento do Funchal
,
inserto a pag. 159 do vol. I deste Elucidário. Ainda como informação que bastante interessa a este assunto,
diremos que no
Diário da Madeira
, de 9 de Janeiro de 1919, se encontra uma desenvolvida narrativa do
primeiro bombardeamento do Funchal, de 3 de Dezembro de 1916, escrita pelo próprio comandante do
submarino U. 38 Max Valentiner, de que um redactor do Seculo fez largos extractos e criteriosamente
comentou.
O Diário do Governo de 14 de Abril de 1938 publicou uma relação de 62 pessoas residentes no Funchal,
vitimas dos prejuízos causados por um submarino alemão, ás quais se reconheceu o direito a certas
indemnizações no valor total de 46.451$04.
Guerra Júnior (Manuel José Júlio)
Era filho do oficial de engenharia Manuel José Júlio
Guerra e nasceu no Funchal no ano de 1845. A pesar de não ter completado o curso de engenharia civil,
dedicou-se a esta especialidade, executando alguns trabalhos que foram bastante apreciados. Escreveu a
obra
Diccionario Topographico para uso dos engenheiros civis e seus auxiliares
, de que apenas publicou a
primeira parte em 1872. Foi um distinto fotografo amador, tendo realizado vários aperfeiçoamentos nesta
arte. Pelos seus trabalhos, mereceu ser condecorado com um grau da ordem de S. Tiago.
Guillin
Fez algumas observações geológicas no Funchal, que foram publicadas no apêndice da obra de
Bory Saint Vincent.
Guincho (Baixa do)
Fica na costa norte da Ponta de São Lourenço.
Guincho (Ilhéu do)
Não muito distanciado do porto do Pesqueiro, na costa marítima da freguesia da
Ponta do Pargo, encontra-se um pequeno ilhéu que tem aquele nome.
Guincho (Ilhéu do)
V. Seixal (Ilhéus do).
Guindaste (Ponta do)
Fica esta saliência da costa marítima na freguesia de Gaula, não muito
afastada do pequeno porto do Porto Novo.
Guiomar (Mirante de D.)
Nas antigas instruções sobre o modo de ancorar no porto do Funchal
vem assinalado o mirante de D. Guiomar por ser ponto fácil de distinguir e de reconhecer de bordo das
embarcações. Está situado na quinta das Angústias que pertenceu ao Conde Alexandre Carlos de Lambert
(V. este nome) e foi vendida ao Dr. Julio Paulo de Freitas, por escritura de 19 de Agosto de 1903.
D. Guiomar, ou melhor D. Guiomar Madalena Acciaioly, a senhora que deu o nome ao mirante da antiga
quinta das Angústias, viveu nos fins do século XVIII e princípios do XIX, e teve os seus bens penhorados
por dividas á Fazenda Nacional. Pertencia-lhe a casa do largo da Sé, agora demolida, onde esteve a cadeia
(V. este nome), e possuía outros prédios na cidade. No Archivo da Marinha e Ultramar faz-se referência a
um oficio do governador D. José Manuel da Câmara para D. Rodrigo de Sousa Coutinho, relativo á remessa
de letras da junta da Fazenda para o Real Erário e de jóias, pratas e tapeçarias pertencentes á herança de D.
Guiomar Madalena.
Gulf Stream
Esta corrente oceânica que tem origem no golfo do México e avança até o Cabo Norte e
Spitzberg, divide-se em vários ramos, um dos quais, mais considerável que todos os outros, desce ao longo
da costa ocidental de Africa. Este ramo depois de seguir a direcção E., corre para S. S. W. entre a Madeira e
Canárias, com uma velocidade de 12 a 16 milhas por dia.
A corrente do Golfo do México eleva a temperatura do mar e é a causa principal da grande quantidade de
água no estado de vapor, que contém a atmosfera do nosso arquipélago. É essa corrente que transporta as
sementes de Guilandina, Mucuna e Entada (favas ou castanhas do mar) que aparecem ás vezes no Porto da
Cruz e na ilha do Porto Santo.
V. Favas do Mar.
Günther (Alberto)
Ictiologo do Museu Britanico, que descreveu algumas espécies novas de peixes
madeirenses, entre as quais o
Melanocetus Jahnsonii
, peixe das grandes profundidades oceânicas e que
constituiu o objecto de uma comunicação á sociedade Zoológica de Londres, sob o título
On a new genus of
Pediculate Fish from the sea of Madeira
.
Guyaneida (A)
Há cerca de oito anos houve uma grande emigração de madeirenses para a Guiana
Inglesa. Esse êxodo extraordinário, que ameaçava deixar esta ilha desprovida, inspirou a alguns rapazes
cheios de talento e de bom humor um poema herói-cómico que, a pesar de não ter sido impresso, teve voga
no tempo e foi então muito apreciado. O assunto era a emigração e nele figuravam alguns dos indivíduos em
maior destaque na sociedade funchalense. O poema era em extremo caustico e mordaz, chegando por vezes
a ser irreverente e talvez mesmo agressivo. Não tinha, porém os menores intuitos ofensivos, e constituía
apenas a expansão franca e alegre de rapazes que se divertiam, ao mesmo tempo que se adestravam no
cultivo da poesia. Essa engraçadissima sátira foi escrita por vários indivíduos que mais tarde se
distinguiram em diversos ramos da actividade humana. Eram eles Francisco Clementino de Sousa, Mauricio
Castelo Branco, Gabriel Franco de Castro, Matias Figueira, João José Vieira e Carlos Acciaioli Ferraz de
Noronha.
Existem várias copias manuscritas dessa sátira, cuja publicação seria interessante fazer-se, a pesar de haver
actualmente poucos indivíduos contemporâneos das pessoas que figuram nesse poema herói-comico.
Habitações primitivas
Abundando copiosamente nesta ilha, por ocasião do descobrimento as
espécies florestais, foram elas que forneceram a principal matéria prima para a edificação das primeiras
habitações. As primitivas casas de moradia eram todas construídas de madeira extraída desse basto
arvoredo, sendo de presumir que em muitas delas se empregasse o cedro indígena e outras espécies que
melhor se adaptassem àquele fim.
João Gonçalves Zargo teve a sua primeira morada no alto de Santa Catarina, construída talvez dos ricos e
odoríferos cedros que em matas cerradas abundavam por toda a parte. Seria sem duvida uma mais que
modesta e desconfortável habitação, edificada num só pavimento e despida de todo o aparato
arquitectónico. De madeira era também a pequena capela de Santa Catarina, que a mulher do descobridor
fez construir junto da sua habitação.
Somente alguns anos depois é que se construiu a primeira casa de dois andares, encontrando-se a tal
respeito num antigo manuscrito a seguinte interessante informação: «Neste Campo de Duque (V. vol. 1,
pág. 22)) se fez a primeira casa sobradada que houve nesta villa do Funchal e em toda a ilha, e a mandou
fazer João Manuel, de madeira de cedro lavrada. Teve-se esta casa de sobrado naquelle tempo por cousa
tam nova e admirável, sendo todas as outras casas que havia terreas e de taboado, que deram capítulos a El-
Rei contra o dito João Manuel, acumulando-lhe que fazia torre, onde parecia se queria fazer forte e
levantar-se contra o Funchal e contra a coroa.
A dita casa ainda hoje (meados do século XVIII) está em pé e a possui António de Carvalhal, e é a casa de
sobrado mais baixa que há no Funchal».
Segundo vemos em varios logares, consta da tradição que a primeira casa de pedra construída nesta ilha foi
a que João Gonçalves Zargo levantou para sua moradia junto da capela de São Paulo
(Vid. Moradias de
Zargo)
. Também se afirma que uma das mais antigas edificações desta natureza foi a que se destinou a
hospital e construída também nas proximidades da mesma capela de São Paulo.
Hadfield (William)
E.: Brazil, the River Plate and the Falkland Island..., including notices of Lisbon,
Madeira, etc., Londres, 1854.
Haeckel (Ernesto)
Biólogo alemão nascido em 1834 e falecido a 10 de Agosto de 1919. Esteve na
Madeira em 1866 e na Historia Natural da Criação ocupa-se do coelho do Porto Santo, considerando-o
como espécie distinta do coelho europeu. Já a pág. 283 deste Elucidário tivemos ocasião de dizer que tal
opinião não tem o mínimo fundamento, cumprindo-nos acrescentar agora que as doutrinas do sábio
professor da Universidade de Iena estão desacreditadas perante todos os homens de ciência, chegando o
professor Yves Delage a declarar que elas não passam de «uma execranda mixórdia, indigna de naturalistas
do nosso tempo».
Hagen (Dr. O.)
(Dr. O.) E.: Notiz uber eine aufserordentliche Lufttrockenheit in Madeira (1861, folh. de 5
pag.).
Hann
E.: Klima der Azoren und der Madeira (Meteor. Zeitschr., 1871).
Harcourt (Eduardo Vernon)
E
.: A Sketch of Madeira, with maps and views (Londres, 1850).
Encontram-se nesta obra uma lista das aves madeirenses e várias notas meteorológicas, entre as quais as de
W. V. Harcourt.
Hartung (Dr. George)
Distinto geólogo alemão que visitou o arquipelago da Madeira no inverno de
1853 a 1854. E.: Geologische Beschreibung der Inseln Madeira und Porto Santo, Leipzig, 1864.
É este o trabalho mais completo que existe publicado sôbre a geologia do arquipelago, compreendendo
também uma noticia sôbre os fosseis madeirenses estudados pelo professor Carlos Mayer, alguns dos quais
eram desconhecidos da ciência.
Hartwig (W.)
(W.) E.
: Die Vogel Madeira's (Cab. Journ. f. Ornith, 1896, p. 452-485). No Ornis, jornal de
Viena, encontra-se uma noticia sôbre algumas espécies de aves, publicada por Hartwig e na já citada revista
Cab. Journ. fur Ornith. do ano de 1893, encontra-se um aditamento á lista das aves do arquipelago.
Heberden (Dr. Thomas)
Era irmão do bem conhecido William Heberden e exerceu a profissão
medica no Funchal, tendo prestado excelentes serviços por ocasião da epidemia de sarampo de 1751.
Quando Banks e o Dr. Solander visitaram a Madeira em 1768, forneceu-lhes muitos objectos de historia
natural, assim como uma copia das suas observações sôbre a flora da ilha. Dedicaram-lhe os dois
naturalistas o género Heberdenia, reunido por Aiton, mais tarde, ao género Ardisia. As observações
meteorológicas feitas pelo Dr. Herberden, no Funchal, desde 1747 a 1751, foram as primeiras que se
realizaram nesta ilha, tendo sido publicadas no vol. X das Philosophical Transactions.
O Dr. Heberden fez também alguns estudos astronómicos na Madeira, tendo aparecido nas Philosophical
Transactions um trabalho seu com o seguinte título: Observations of immersions and emersions of Jupiter's
first Satellite made at Funchal, in Madeira, 1763-1768.
V. Doenças e Epidemias.
Heer (Dr. Osvaldo)
Botânico e paleontólogo suíço, que esteve na Madeira desde o inverno de 1850 á
primavera de 1851. E.: Remarques sur la manière de végéter des arbres de l'Europe et des Etats Unis
transportés à Madère (Bot. Zeitung 1853); Ueber die fossilen Pflanzen von St. George in Madeira (Zurich,
1855); e Der Renton-Garten in Funchal (Gartenflora Deutschlands und der Schweiz). Faleceu em Lausanne
em 1883.
Heineken (Dr. Carlos)
Medico inglês que residiu no Funchal durante 9 anos e faleceu aqui a 4 de
Janeiro de 1830. Num artigo publicado no vol. XII (1824) do Medical Repository e noutro escrito que
apareceu nos Rambles in Madeira, recomenda o clima do Funchal no tratamento das moléstias pulmonares.
Durante a sua residência na ilha fez muitas observações meteorológicas, que são de grande valor para o
conhecimento da nossa climatologia.
Henrique (Infante D.)
O nome do infante D. Henrique anda indissoluvelmente ligado ao
descobrimento e primitiva colonização deste arquipélago. Foi ele o iniciador e o promotor das nossas
descobertas marítimas, e a Madeira é o grande padrão imorredouro que verdadeiramente marca o começo
auspicioso da nossa odisseia de navegantes. Se a João Gonçalves Zargo se devera há muito ter erguido entre
nós um monumento, que recordasse a nacionais e estrangeiros a distinta individualidade do descobridor,
não devera também ser esquecida a figura gloriosa do ínclito infante que abriu a Portugal uma nova era de
prosperidade, iniciando a realização da única empresa que verdadeiramente nos tornou grandes aos olhos
do mundo inteiro. A Madeira é devedora á sua memória de uma condigna homenagem, que os vindouros
saberão com inteira justiça prestar-lhe, quando chegar a oportunidade do futuro reparar os erros e as faltas
do passado.
Já em outro artigo nos referimos ás doações que deste arquipélago foram feitas ao infante D. Henrique. É de
presumir, embora o não digam os cronistas nem exista documento conhecido que o comprove, que fosse o
próprio D. João I quem primeiro tivesse doado esta ilha a seu filho e nele reconhecesse o verdadeiro senhor
de todo o arquipélago. As conhecidas doações posteriores (V. Doações) serviriam apenas para confirmar de
uma maneira mais solene e mais autentica as já anteriormente feitas, e seriam também uma prova de que
D. Duarte, sem querer abandonar os seus direitos de soberania, reconhecia em seu irmão os privilégios e
regalias que o monarca seu pai e antecessor tinha conferido ao mesmo infante.
A prova da latitudinaria concessão alcançada por D. Henrique está nas doações por ele feitas aos
descobridores João Gonçalves Zargo e Tristão Vaz, e em que ele, referindo-se a esta ilha diz minha ylha da
Madeyra. Estamos convencidos que o monarca doou este arquipélago à Ordem de Cristo, levado
principalmente pela circunstancia de ser o infante D. Henrique o grão-mestre da mesma Ordem, além de
outras ponderosas razões que porventura aconselhassem essa concessão.
Pode afirmar-se que D. Henrique teve sobre este arquipélago o domínio mais absoluto e nele exerceu
verdadeiros direitos majestáticos. Aos contemplados com as doações do infante, foram os monarcas
gradualmente cerceando os privilégios que ele lhes concedera, os quais quasi inteiramente acabaram com o
domínio filipino.
Em vários logares desta obra nos referimos á acção do infante D. Henrique na descoberta, primitiva
colonização administração e desenvolvimento deste arquipelago e por isso omitimos aqui vários factos e
circunstancias que poderiam interessar ao assunto deste artigo.
O infante D. Henrique nasceu em 1394 e faleceu em 1460.
Henriques
Este apelido de família procede de D. João Henriques, terceiro filho de D. Henrique
Henriques, que foi aposentador e caçador-mor de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel. Há outros Henriques
que descendem de Henrique Alemão, e Henriques de Noronha, que procedem de D. João e de D. Diogo
Henriques, e de D. João e D. Garcia de Noronha, todos filhos de D. Garcia Henriques, de Sevilha.
Henriques (D. Francisco)
Foi nomeado governador geral da Madeira a 20 de Julho de 1622 e
tomou posse a 28 de Outubro do mesmo ano. Era natural desta ilha e nela morreu, quando exercia o cargo
de governador, a 27 de Junho de 1624 e jaz sepultado na igreja do Colégio. Por sua morte ficou exercendo
interinamente as funções de governador geral o bispo diocesano D. Jerónimo. Fernando, que foi
confirmado no logar por Carta Regia de 3 de Agosto de 1624.
Henriques (Dr. Júlio Augusto)
Esteve na Madeira a 25 de Junho de 1903, por ocasião da viagem
cientifica que fez à ilha de S. Tomé, tendo visitado o Monte e diversos pontos da cidade.
O Dr. Júlio A. Henriques nasceu em Cabeceira de Bastos a 17 de Janeiro de 1838 e era lente jubilado da
cadeira de botânica da Universidade de Coimbra, e um dos mais distintos naturalistas do nosso país.
Henriques (Dr. Luiz)
Pelos fins do século dezoito, uma violenta tempestade arrojou contra os
rochedos da costa, para os lados da Pontinha, uma embarcação de nacionalidade norueguesa. João de
Carvalhal Esmeraldo, depois conde de Carvalhal apareceu nas imediações do local do sinistro e, ao observar
a triste situação dos pobres náufragos, feriu a sua atenção uma criança de cerca de doze anos de idade, moço
da câmara do navio naufragado, que, pela sua fisionomia insinuante, viveza de expressão e olhar inteligente
e prescrutador, lhe despertou um vivo interesse e o moveu á mais terna compaixão. O abastado fidalgo
tomou a criança debaixo da sua protecção e alguns anos depois enviou-a para a Inglaterra a frequentar a
Universidade de Edimburgo. Terminado o curso de medicina, que foi brilhantissimo, regressou á Madeira,
onde fixou residência e aqui constituiu família, falecendo nesta cidade no ano de 1845. Era o Dr. Luiz
Henriques.
Ignoramos os motivos que o levaram a adoptar um nome genuinamente português e a abandonar o nome
que tinha no seu país natal. No entretanto, foi sempre considerado como estrangeiro e, quando pretendeu
exercer cargos públicos, teve que naturalizar se cidadão português, o que se deu por decreto de 22 de
Dezembro de 1821.
Foi o Dr. Luiz Henriques um medico abalizado e um distintissimo operador. Afirma-se que teve a
prioridade numa dificilima operação cirúrgica, que só algum tempo depois começou a fazer-se em Londres,
tendo-nos alguém informado que o caso vem narrado em alguns livros de medicina, escritos em língua
inglesa. Também nos informam que foi o primeiro medico que nesta ilha, e talvez em Portugal, fez aplicação
da então recente descoberta do clorofórmio nas operações cirúrgicas, tendo a essa primeira operação
assistido o nosso grande estadista e diplomata o conde e mais tarde duque de Palmela, que nessa ocasião se
achava no Funchal.
Quando em 1837 se criou a Escola Medico-Cirurgica do Funchal, foi o Dr. Luiz Henriques nomeado lente
dela e o seu primeiro director, cargos que exerceu até o ano de 1845, tendo simultaneamente sido cirurgião
principal do hospital de Santa Isabel.
O Dr. Henriques suicidou-se nesta cidade no dia 18 de Julho de 1845, ingerindo() uma dose avultada de
ópio, de que frequentemente abusava.
Na sala principal da Escola Medica encontrava-se o seu retrato a oleo, oferecido a este estabelecimento pelo
seu bisneto o Dr. Salvador Brun do Canto (V. este nome), que foi deputado por esta ilha.
Henriques (Jordão Mauricio)
É filho de António Maria Henriques, frequentou o liceu e o Curso
Superior de Letras e nasceu no Funchal a 15 de Outubro de 1880. Foi escrivão interprete da Estação de
Saúde e professor da Escola Primaria Superior, tendo também sido professor interino do Liceu. Foi redactor
do antigo Diário Popular e teve uma larga e valiosa colaboração em outros jornais madeirenses,
distinguindo-se os seus escritos por uma requintada forma literária.
Publicou em 1922 um livro intitulado Da Pátria e da Escola. Tendo seguido a carreira diplomática, prestou
serviço durante alguns anos no Ministério dos Negócios Estrangeiros, sendo actualmente cônsul geral de
Portugal na cidade do Rio de Janeiro.
Henriques (Manuel António de Azevedo)
Se temos conhecimento deste madeirense pelo
pouco que dele nos diz o autor do Diccionario Bibliographico Portuguez. Publicou em Lisboa, em 1778, um
opúsculo de 47 paginas, intitulado Reino de Deus ou Reino de Portugal, Panegyrico Funchalense, oferecido.
.. a D. Maria I e D. Pedro III.
Henriques (Padre João Mauricio)
Nasceu nesta cidade a 22 de Março de 1852 e era filho de
António Gomes Henriques e D. Ana Rosa de Sousa Henriques, tendo falecido em Lisboa a 16 de Dezembro
de 1901. Cursou o liceu e o seminário do Funchal, e ordenou-se de presbítero no ano de 1877. Depois de ter
exercido funções eclesiásticas como cura da freguesia de Santa Cruz e pároco das Achadas da Cruz e de
Santana, foi despachado capelão militar por decreto de 2 de Março de 1885, tendo servido algum tempo no
Algarve e passando em 1887 a prestar serviço no Funchal, no regimento de caçadores n.° 12 e depois em
infantaria n ° 27. Colaborou em alguns jornais madeirenses e foi redactor do Diário de Noticias desta
cidade. Em 1909 publicou no Funchal um opúsculo de 104 paginas, intitulado Breve Noticia historica e
descriptiva do extinto regimento de caçadores n.° 12.
Henriques (Padre Leão)
Nasceu na freguesia da Ponta do Sol no primeiro quartel do século XVI,
sendo filho de D. João Henriques e de D. Filipa de Noronha. Era próximo parente do padre Luiz Gonçalves
da Câmara (V. este nome), celebre aio de D. Sebastião, e descendia de João Gonçalves Zargo, o ilustre
descobridor da Madeira. Estudou cânones em Paris e em Coimbra, e foi o primeiro reitor da Universidade
de Évora. Abraçou o instituto da Companhia de Jesus ainda em tempo do fundador, tendo mantido com ele
estreitas relações de amizade e dele directamente recebido provas da mais alta consideração e apreço.
Exerceu na sua ordem os mais elevados cargos como os de reitor dos colégios de Coimbra e Évora,
provincial, delegado em Roma, etc.. Foi durante muitos anos confessor e conselheiro do cardial e rei D.
Henrique, junto de quem gozou de muito prestigio e influencia. Teve uma grande nomeada na sua época
como homem de vasta erudição e de extraordinário talento. Os seus biografos referem-se particularmente
aos sentimentos da mais generosa e ardente caridade de que era dotado, tendo para com os pobres e
infelizes as mais requintadas expansões de carinho e ternura de que é susceptível o coração humano.
Morreu em Lisboa a 8 de Abril de 1589.
Henriques de Noronha (Henrique)
Nasceu na freguesia de Câmara de Lobos a 1 de Março de
1667, sendo filho de Pedro Bettencourt Henriques e de D. Maria de Meneses, e tendo sucedido na casa
vinculada de seu tio o morgado Inácio de Bettencourt e Câmara. Era uma inteligência muito culta e
dedicou-se especialmente a estudos históricos e genealógicos, em que alcançara uma grande cópia de
conhecimentos, sendo considerado uma verdadeira autoridade em assuntos respeitantes à historia
madeirense. Enviou alguns trabalhos manuscritos á Academia Real da Historia Portuguesa, sendo por isso
admitido no numero dos seus membros. Diogo Barbosa Machado na Biliotheca Lusitana e António Caetano
de Sousa na Historia Genealogica da Casa Real Portuguesa, ocupam-se com louvor dos trabalhos de
Henriques de Noronha e fazem-lhe referências muito elogiosas. São-lhe atribuídas as Memorias seculares e
eclesiásticas para a composição da historia da diocese do Funchal, a que se referem as Saudades da Terra a
paginas 786 e a que já também nos referimos com alguma largueza a pág. 389 e 390 do I vol. deste
Elucidário. Escreveu um Nobiliário Genealógico de famílias madeirenses, de que existe uma copia em três
volumes na biblioteca da Câmara Municipal deste concelho e que é tido por um dos mais autorizados
escritos sobre o assunto
(V. Nobiliarios).
Morreu Henrique Henriques de Noronha a 26 de Abril de 1730. Existe dele um retrato a óleo no palacete
dos condes de Torre Bela.
Henriques Pinto (Luis de Miranda)
Foi nomeado governador geral deste arquipelago a 18 de
Novembro de 1635 e tomou posse a 6 de Junho de 1636, tendo terminado o seu governo a 6 de Junho de
1640. Foi o ultimo governador geral da Madeira, passando o seu sucessor a ser chamado governador e
capitão-general.
Henriques Pinto (Luiz de Miranda)
Sucedeu a seu pai Luiz M. Henriques Pinto e foi o
primeiro governador deste arquipélago que teve o nome de governador e capitão-general, denominação esta
que se conservou até 1834, e foi o ultimo que governou a Madeira sob o domínio castelhano. A sua
nomeação, feita pela vice-rainha de Portugal Margarida de Saboia, duquesa de Mantua é datada de 22 de
Maio de 1640, tendo tomado posse a 6 de Junho do mesmo ano. Foi ele que a 11 de Janeiro de 1641 fez a
proclamação de D. João IV nesta ilha. V. Restauração de Portugal.
Henry (Paul)
Oficial da marinha de guerra francesa, morto em Pekin a 30 de Julho de 1900, por
ocasião da entrada dos exércitos aliados na cidade. Esteve na Madeira em Outubro de 1895, a bordo do
navio Iphigénie, e em Outubro de 1896 e Junho de 1897 a bordo da Melpomène.
R. Bazin ocupa-se da estada deste oficial na Madeira no seu livro intitulado L'enseigne de vaisseau Paul
Henry.
Hepáticas
Estas Muscineas estão representadas no arquipelago da Madeira por 76 espécies, segundo
diz Miss Armitage no seu trabalho intitulado Some Madeira Hepaticae. São pequenas plantas que vivem nos
logares umidos, nos troncos das árvores, na terra, nos muros e nas rochas, e que se apresentam ora com
caule e folhas, ora inteiramente desprovidas destes orgãos. Entre as Hepáticas madeirenses mencionaremos
- a Madotheca canariensis, a M. Thuja, a Frullania polysticta, a F. Teneriffae, o Anthocerus dichotomus, a
Aitonia rupestris, a Saccogyna viticulosa, a Plagiochila spinulosa, a Lunularia cruciata e a Marchantia
polymorpha. V. Armitage, Mitten, Godman e Luisier.
Hera (Hedera Helix subesp. canariensis)
Planta trepadora por meio de raízes laterais, curtas.
Pertence á familia das Araliaceas e é muito frequente na Madeira, onde a utilizam para bardos e para
revestir muros. A água de heras serve para lavar e tingir os tecidos pretos. As cordas chamadas de hera são
fabricadas não com as fibras, mas com os ramos delgados e flexíveis da planta. É com estas cordas que é uso
segurar o bagaço das uvas nos lagares.
Hera-Terrestre (Sibthorpia peregrina)
Escrofulariacea-antirrinoidea de caules radicantes nos
nós; folhas peludas, orbicular-reniformes; corolas amarelas ou brancas, pequenas, com 5 a 8 divisões. É
muito frequente na Madeira onde a empregam frequentemente como espectorante. No Seixal dão a esta
planta o nome de herva redonda. A verdadeira hera-terrestre (Glechoma hederacea) é uma planta da família
das Labiadas, que se não encontra na Madeira, nem mesmo cultivada.
Heraldo da Madeira (O)
Começou este jornal diário a publicar-se no dia 14 de Agosto de 1904 e
terminou a sua publicação a 14 de Agosto de 1915, tendo saído 3.218 números. Nos primeiros anos tinha
oito paginas e publicava gravuras aos domingos. Durante algum tempo publicou-se deste jornal uma edição
em língua inglesa, especialmente destinada aos passageiros dos vapores estrangeiros que demandavam o
porto do Funchal, sendo esta edição de publicação irregular.
Teve como director o capitão J. Reis Gomes, sendo redactor principal O Pe. Fernando A. Silva e redactores
os tenentes A. Artur Sarmento e Jaime de Campos Ramalho.
Publicou um numero considerável de escritos inéditos e de valiosos documentos que muito interessam à
historia deste arquipélago.
Herbários
Os herbários madeirenses não são raros na Europa, em razão do grande numero de
explorações botânicas realizadas aqui nos séculos XVIII e XIX, principalmente por naturalistas
estrangeiros. No Museu Britânico e no Jardim de Kew estão as colecções de R. T. Lowe, possuindo também
o primeiro destes estabelecimentos os herbarios de Banks, do Dr. Solander, de Francisco Masson e de
Downe, e o segundo, o valioso herbario do nosso falecido conterrâneo João Maria Moniz e parte do Dr.
Carlos Lemann. Na Universidade de Cambridge estão numerosos exemplares colhidos por este ultimo
naturalista na Madeira, e no já referido jardim de Kew acham-se muitos exemplares das colecções do
botânico francês Mandon, que percorreu o arquipélago em 1865 e 1866.
É de supor que o herbario madeirense que pertenceu ao Dr. Heer se ache no Jardim Botânico de Zurique,
visto terem sido depositadas aí muitas das suas colecções botânicas, e que o herbario de Forster esteja na
Universidade de Kiel ou no Museu de Historia Natural de Paris, para onde foram, segundo diz Alphonse De
Candolle, as colecções botânicas obtidas na segunda viagem de Cook á roda do mundo.
Nos herbarios de Franqueville e de Cosson, em França, nos de Boissier, de Candolle e de Delessert, na
Suíça, e no do Museu Palatino de Viena, existem muitos exemplares de plantas madeirenses colhidas por
Mandon, e no Museu Botânico de Florença estão muitas das colecções que o botânico inglês Webb
organizou nesta ilha em 1828. Nos herbarios de M. Gandoger e de O. Debeaux, em França, existem ricas
colecções provenientes desta ilha, oferecidas por um dos autores deste Elucidario, e nas Universidades de
Coimbra, Lisboa e Porto podem ver-se numerosas plantas secas da nossa região, remetidas pelo mesmo
colector, o qual enviou também colecções completas das Ranunculaceas, Onoteraceas e Ciperaceas
madeirenses á antiga Academia Internacional de Geografia Botânica de Mans e colecções dos Fetos
indígenas à mesma Academia e ao Príncipe Bonaparte, distinto pteridologo francês.
Ignoramos que destino tiveram as colecções de Holl, Lippold, Schacht e capitão Norman; quanto ás de
Bornmuller, Trelease e Dr. Vahl, tudo leva a supor que se achem em poder dos seus organizadores. Muitas
das plantas colhidas por Nathaniel Mason na Madeira estão no já citado Museu Palatino, ao passo que as
colecções do distinto botânico português Barão de Castelo de Paiva, foram por ele oferecidas á Academia
das Sciencias de Lisboa, passando daí á Faculdade de Sciencias da mesma cidade.
James Y. Johnson organizou um pequeno herbario de plantas madeirenses, que se acha depositado no
Museu do Seminário do Funchal, sendo esta colecção, a pesar de bastante incompleta, notável por conter a
maior parte das espécies raras da ilha. A ultima vez que a vimos (1921) estava em bom estado de
conservação, devido ao cuidado que havia em submetê-la de tempos a tempos aos vapores de sulfureto de
carbono.
Graças ás herborizações do jovem botânico madeirense José Gonçalves da Costa, estudante do 3.° ano
teologico do Seminário Episcopal do Funchal, é hoje (1921) o herbario do mesmo seminário um dos mais
ricos que se conhecem em plantas do arquipelago da Madeira. As herborizações do Sr. Costa têm sido
efectuadas especialmente no Funchal, Porto do Moniz, Achadas da Cruz, Ribeira da Janela e Porto Santo,
havendo resultado delas elementos de muito valor, entre os quais algumas espécies e variedades novas.
Temo-nos referido a colecções de Fanerogamicas e de Criptogamicas Vasculares; pelo que toca a colecções
de Criptogamicas Celulares, as mais valiosas que têm sido organizadas até o presente são, segundo cremos,
as de Kny, Johnson, Mandon, Winter, Miss Armitage, Castelo de Paiva, Bornmuller e Padre J. Barreto, as
cinco primeiras de Muscíneas e as restantes de Liquenes madeirenses. 0 rev.° padre Jaime Barreto fez há
anos abundantes colheitas de Fungos madeirenses, e o Dr. Liebetruth, o capitão Albertis, o rev.° E. Schmitz
e o Dr. Gain coligiram as Algas marinas do arquipélago. 0 Dr. Lindman coligiu as algas de água doce da
Madeira, e o mesmo fez um dos autores deste Elucidario, tendo os seus exemplares sido determinados em
grande parte pelos rev.os Zimmermann, botânico suíço, e Schodduyn, botânico francês.
0 museu do Seminário do Funchal possue além do herbario de Johnson, de que já falámos a excelente
colecção de Muscineas que pertenceu a este mesmo botânico, as colecções de Líquenes e de Fungos do Rev.
padre Jaime Barreto e as de algas marinas do Rev. padre Ernesto Schmitz, encontrando-se também ali um
caderno com Líquenes colhidos há muitos anos nesta ilha pelo falecido naturalista madeirense João Maria
Moniz, além de outros materiais de menor valor.
As colecções botânicas existentes no Seminário são as únicas que podem orientar o naturalista estrangeiro
que visita a Madeira, no estudo da flora indígena, pois que nem o governo nem as corporações
administrativas se lembraram ainda de criar um museu regional, destinado a receber as produções dos três
reinos, que são variadissimas e interessantes em muitas partes do arquipélago.
V. Gabinete de historia Natural e Museus.
Heredia
O fidalgo espanhol D. Antonio Herédia fez parte do exército que sob o comando do duque de
Alba entrou em Portugal em 1580. Em 1602 veio para a Madeira como capitão da Companhia do Presídio
Castelhano, sendo depois comandante do mesmo Presídio, e mais tarde governou todo o arquipelago, na
ausência do governador efectivo. É este o tronco da família Herédia, na Madeira, que teve como últimos
representantes Francisco Correia Herédia, Antonio Correia Herédia e Francisco Correia Herédia, visconde
da Ribeira Brava (V. estes nomes). D. Antonio Herédia e os seus descendentes ligaram-se ás mais distintas
famílias madeirenses. Na família Heredia se incorporou o importante morgadio dos Britos, que tinha sua
sede principal na freguesia da Ribeira Brava, na capela de Nossa Senhora da Apresentação, no sítio que
ainda hoje conserva este nome. Existia adjunta uma grande casa solarenga, que era uma das maiores
residências existentes fora do Funchal. Casa e capela há muito que foram demolidas.
Heredia (António Correia)
Nasceu este ilustre madeirense a 2 de Março de 1822 e faleceu em
Lisboa a 23 de Junho de 1899, sendo filho de Francisco Correia Herédia
(V. este nome)
e de D. Ana
Margarida de Bettencourt Acciaioly e Sá Escórcio Drumond, e descendia de antigas e nobres famílias desta
ilha. Não sabemos que possuísse habilitações literárias oficiais, mas a falta de cursos superiores ou
universitários não obstou a que fosse um hábil e talentoso jornalista, e teria porventura sido um distinto
escritor, se variadas ocupações não lhe houvessem inteiramente absorvido a grande actividade do seu
espírito. Provam-no os escritos que deixou. Exerceu muitos cargos públicos, e assim foi presidente da
Câmara Municipal, procu rador à Junta Geral, secretário geral, governador civil, director das alfândegas do
Funchal, Porto e Lisboa, director geral das alfândegas, deputado, par do reino, presidente de muitas
comissões destinadas à reforma de diversos serviços públicos etc. No desempenho de alguns destes cargos
escreveu vários relatórios, regulamentos e projectos de lei, que exuberantemente provam o seu saber, a sua
competência e as suas grandes faculdades de trabalho. Além da sua obra jornalística, que é grande,
publicou:
Breves reflexões sobre a abolição dos morgados na Madeira,
Lisboa, 1849, As
contradições
xmcula-das,
Funchal, 1850,
A Boa Fé do «Archivista»,
Funchal, 1852,
Observações sobre a situação
económica da ilha da Madeira e sobre a reforma das Alfândegas,
Lisboa, 1888, de 96 pág.,
Relatório do
Projecto do Regulamento Geral das Alfândegas,
Lisboa, 1876, de 129 pág.,
Exposição e Docwmentos
enviados à Camará dos Dignos Pares,
Lisboa, 1886,
António Correia Herédia
—
Ao Público,
Lisboa, 1885,
de 235 pág..
António Correia Herédia foi secretário geral deste distrito e serviu também de governador civil, e
representou a Madeira no parlamento, nas sessões legislativas de 1857 a 1858, 1858 a 1859 e 1865 a 1868.
Por ocasião do governo provisório da Junta do Porto, no ano de 1847, foi António Correia Herédia o
secretário da Junta Governativa da Madeira, ou antes (foi nesta cidade a alma desse movimento
revolucionário. V.
Junta Governativa.
Heredia (Conselheiro Francisco Correia)
Pertencia à antiga e nobre familia Herédia desta ilha.
Um dos representantes directos desta família e administrador de vários vínculos foi D. José de Brito
Heredia, cuja filha e única herdeira, D. Antonia Basilia Heredia de Bettencourt, casou em 1801 com o
conhecido e distinto diplomata e estadista Antonio Saldanha da Gama, que foi agraciado com o título de
conde do Porto Santo. Morrendo os condes do Porto Santo sem descendência, passou a importante casa ao
parente mais próximo Francisco Correia Herédia, pai de Antonio Correia Herédia e avô do visconde da
Ribeira Brava.
O conselheiro Francisco Correia Heredia nasceu nesta ilha a 4 de Julho de 1793 e morreu em Lisboa a 27 de
Julho de 1880, e era filho de D. Francisco Moniz de Aragão e Melo de Heredia. As perseguições que ele e sua
família sofreram por parte dos miguelistas, obrigaram-no a emigrar para o Brasil, seguindo depois para
França e Inglaterra e reunindo-se mais tarde ao exército libertador, em cujas fileiras militou, distinguindo
se pelo seu valor, principalmente no cerco do Porto.
Foi deputado por este distrito na sessão legislativa de 1842 a 1845, e presidente da Junta Governativa que
na Madeira se organizou por ocasião do movimento revolucionário da Maria da Fonte.
Foram assinalados e ficaram memoráveis os serviços que prestou por ocasião da epidemia da colera-
morbus, que assolou esta ilha em 1856.
Exerceu entre nós diversos cargos públicos, como presidente da Câmara do Funchal, recebedor geral,
governador civil interino, presidente da Junta Governativa, etc..
A Religião e Progresso, de 20 de Agosto de 1880, transcreveu um longo artigo biográfico do conselheiro
Herédia, publicado no Diário de Noticias, de Lisboa.
Herédia (Francisco Correia)
V.
Ribeira Brava (Visconde da).
Herédia (Sebastião de)
Por decreto de 30 de Dezembro de 1914, foi nomeado governador civil da
Madeira, havendo tomado posse a 8 de Janeiro de 1915.
Foi segunda vez governador civil deste distrito por decreto de 24 de Maio de 1915 e tomou posse deste cargo
a 22 de Julho do mesma ano.
Hermenegildo Capelo (Rua)
Os terrenos que actualmente formam o Jardim Municipal, a rua
Hermengildo Capelo e o local onde se levanta o teatro Manuel de Arriaga, constituíam a antiga cerca do
convento de S. Francisco. A pesar da oposição dos religiosos franciscanos abriu-se ali a rua no ano de 1814,
que ficou tendo o nome de Rua dos Frades. Em 1823 foi patente ao publico o mercado mandado construir
pela câmara desta cidade no local que depois se destinou ao teatro, passando a rua adjacente a ter a
denominação de Rua do Mercado de S. João. No ano de 1885, por ocasião da passagem nesta ilha dos
exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens
(V. estes nomes)
, deliberou a câmara municipal
dar os seus nomes ás ruas que ladeiam pelo sul e norte o Jardim Municipal.
Herrera (D. Agostinho)
Senhor de Fuerte-Ventura e conde de Lançarote, foi nomeado a 12 de
Novembro de 1582 governador geral da Madeira. Veio a este arquipelago na missão especial de preparar a
defesa militar desta ilha contra a suposta invasão da esquadra francesa que, ás ordens de D. António, Prior
do Crato, atacava os navios portugueses e se preparava para assaltar alguns portos, como depois sucedeu no
arquipélago dos Açores. Dissipado o receio dessa suposta agressão, deixou Herrera a Madeira, retomando
João Leitão o logar de governador geral (V. este nome).
Herva-Branca
V.
Abrotona e Selvageira.
Herva-Cidreira (Melissa officinalis)
Planta europeia da família das Labiadas, cultivada nas
hortas madeirenses. É empregada em infusão como sudorifico, e nas digestões laboriosas e afecções
nervosas.
Herva-da-Guiné
Graminea forraginosa, cultivada e naturalizada no Funchal e em Santa Cruz. Tem
colmos altos e peludos nos nós, e racimos estreitos, frouxos, alongados; reunidos em panicula.
É planta antiga na terra, pois que foi achada por Masson em 1776. 0 seu nome cientifico é Panicum
Maximum.
Herva-de-Santa-Maria (Solanum nigrum)
Solanacea de folhas ovadas ou romboidais, de
ordinário sinuado-dentadas; flores brancas reunidas em cimeiras corimbiformes; bagas negras na
maturação. Encontra-se nos entulhos, muros, logares cultivados, etc., no Funchal e arredores. As folhas
desta planta são empregadas como anódinas; adicionando-se-lhes azeite depois de cortadas e esmagadas,
formam o chamado emplasto ou unguento das Aires, muito útil no tratamento das feridas e inflamações.
Herva-de-São-João
V. Hipericão.
Herva-Ferrea (Brunella vulgaris)
Labiada geralmente prostrado-ascendente, com os
verticilastros reunidos em espiga terminal e compacta, provida de grandes brácteas. E planta adstringente e
o seu suco é usado ás vezes no tratamento das chagas e inflamações.
Herva-Gigante (Acanthus mollis)
Acantacea do sul da Europa, cultivada na Madeira. As folhas
grandes e irregularmente recostadas desta planta, usam-se no tratamento das feridas.
Herva-Menina (Commelina agraria)
Planta da família das Comelinaceas frequente nos logares
umidos da zona inferior da Madeira. É originaria da América Meridional, e tem pequenas flores azuis,
dentro de um involucro espataceo e cordiforme.
Herva-Pessegueira
Poligonacea muito abundante nos charcos e logares umidos da Madeira. As
suas folhas são manchadas e as suas flores são pequenas, rosadas e reunidas em espiga cilindrica ou
alongada. O nome cientifico desta planta é Palygonum Persicaria.
Herva-Pombinha
V.
Molarinha.
Hidrografia
Vid.
Geodesia.
Hinks (Rev. Thomas)
E.: The Madeiran Polyzoa (Ann. & Mag. Nat. Hist., ser. 5, Vol. VI).
Hinton
Há mais de 90 anos que a família Hinton, de nacionalidade inglesa, se estabeleceu na Madeira.
Em 1838 William Hinton que era estudante da Universidade de Oxford, veio a esta ilha por motivo de
saúde. Encontrava-se então no Funchal o súbdito britânico Robert Wallas proprietário de uma fabrica de
moagem a vapor, montada no mesmo local onde actualmente se acha a Fabrica do Torreão. William Winton
casou em 1839 com Mary Wallas, filha de Roberto Wallas e de Mary Wallas, tendo vendido as propriedades
que possuía na Inglaterra e estabelecendo-se definitivamente na Madeira no ano de 1841. Alguns anos
depois fundou a fabrica de açucar do Torreão. William Hinton, que era representante duma casa vinculada
(esquire) em Greenhill House, no condado de Wiltshire, Inglaterra, nasceu em Nápoles no ano de 1817 e
morreu no Funchal a 15 de Junho de 1904. Era o pai de Harry Hinton, actual proprietário da Fabrica do
Torreão.
No artigo dedicado à freguesia da Camacha, a pág. 196 do I volume, deixámos indicada a origem da
importante indústria de obra de vimes, devendo aqui acrescentar que ela se deve principalmente a William
Hinton, que levou um hábil operário daquela freguesia a construir uma peça de mobiliário empregando o
vime da Madeira e servindo-lhe de modelo uma cadeira de fabrico inglês que esse súbdito britânico e activo
industrial trouxera de Inglaterra.
É ocasião oportuna de apresentar um ligeiro perfil do actual representante dessa distinta família, que tem o
seu nome intimamente ligado à Madeira pelo grande desenvolvimento dado ás indústrias sacarinas e pelos
actos de larga benemerencia que entre nós tem praticado e particularmente pela desvelada protecção
dispensada a todas as obras de assistência existentes nesta ilha. Para isso reproduziremos alguns trechos de
um artigo publicado num jornal diário do Funchal, por ocasião de Henrique Hinton ser agraciado pelo
governo português, como justo reconhecimento dos serviços prestados a esta terra.
«Temos a dar hoje aos nossos leitores uma noticia que é, particularmente, de todo o ponto agradável: foi
proposto para o grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito Agrícola e Industrial, o nosso bemquisto amigo
Sr. Henrique Hinton, que já era por seus altos merecimentos, Comendador da antiga Ordem de Cristo.
Poucas vezes sentimos tanta satisfação, como hoje, em dar a publico uma noticia desta ordem, pois não
temos que forçar a nossa consciência e o nosso espírito na busca de merecimentos, tantas vezes fictícios,
com que dourar a mercê proposta. Eles aí estão bem patentes, diante de nossos olhos e na mente de quantos
conhecem a vida agrícola e industrial da Madeira. Conservando as tradições de sua distinta família que, no
corrente ano, faz precisamente um século se estabeleceu nesta Ilha, como se lê no Elucidário Madeirense, e
ilustrando essa tradição com um trabalho constante, inteligente e probo, no sentido do desenvolvimento e
aperfeiçoamento da sua grande indústria, o actual chefe e alma da Fabrica do Torreão, vai receber a nova
honra que lhe dá o Governo Português como um preito da mais nítida e absoluta justiça. De há anos que a
agricultura madeirense, presa de vicissitudes várias, tem vivido, principalmente, pelo mecanismo que
representa na nossa economia a Fábrica da firma William Hinton & Sons.
De nome inglês, ela tem à sua frente essa nobre e varonil figura de gentleman que é Mr. Harry Hinton,
nascido nesta Ilha, aqui casado, aqui residindo, e possuindo pela terra do seu berço um amor e um carinho
que se manifesta, a cada hora, em múltiplas manifestações de coração, que vão desde as obras de
assistência-ocultas muitas-até o interesse bibliográfico e artístico de todas as publicações nacionais e
estrangeiras, antigas e modernas, que se referem á Madeira. Mas este, sendo muito importante para a nossa
sensibilidade e para a nossa gratidão, não é o aspecto que devemos especialmente focar, neste momento ao
falarmos da alta mercê honorífica proposta para o peito de Mr. Harry Hinton, pelo Sr. Ministro do
Comércio e Indústria.
Esse aspecto é o da sua acção industrial no nosso meio, acção que, movimentando e desenvolvendo a
cultura sacarina, valorizou consideravelmente os terrenos madeirenses, deu aos lavradores remuneração
certa pelo seu produto-o que não aconteceu nem acontece com mais nenhuma outra cultura -, pode manter
a criação dos gados e a produção do leite com que se fabrica uma das mais acreditadas, senão a mais
preferida, das marcas de manteigas portuguesas. E, tudo isto, a par da produção dum dos melhores
açucares do mundo e do álcool para condimento de nossos preciosos vinhos, em condições de tão rara
perfeição fabril, que sempre mereceram as classificações mais honrosas nos certames a que têm concorrido.
No seu género, Mr. Hinton possue e apetrecha a fabrica mais aperfeiçoada do mundo: dizem-no os
competentes; e, com ela, pode desenvolver, para sua matéria prima, uma agricultura que é a melhor fonte
da riqueza madeirense.
E podemos ainda acrescentar que a cultura da banana madeirense, em larga escala, como todos sabemos
muito deve á iniciativa e esforços deste benemérito industrial, que é sob este ângulo também um grande e
inteligente agricultor.
Por isso a condecoração proposta, o Grande Oficialato da Ordem do Mérito Agrícola e Industrial, cabe-lhe
com toda a propriedade e com toda a justiça. Estendendo ao facto o conceito inglês, bem poderemos
exprimir que, dentro deste grau honorífico, Mr. Hinton será bem «the right man in the right place».
Hinton (Questão)
A chamada questão Hinton, que por muitas vezes se tem agitado na imprensa, no
parlamento, no seio das corporações administrativas, nos centros diplomáticos, nos conselhos de ministros
e até em comícios, tirou sua origem do regímen de privilegio concedido pelos governos da metrópole ao
industrial Henrique Hinton, proprietário da Fabrica do Torreão, para o fabrico exclusivo do açúcar e álcool,
mediante a observância de determinadas clausulas, sendo a principal a da obrigação da compra da cana de
açúcar produzida na costa sul da ilha por um preço previamente fixado por lei. Este regímen foi concedido
por meio de varias leis e decretos, quasi idênticos nas suas disposições fundamentais, embora se
diferenciem entre si nalguns pontos de secundaria importância.
O regímen sacarino que durante perto de um quarto de século vigorou na Madeira, foi um notável elemento
de prosperidade para este arquipélago. 0 preço regularmente compensador da cana de açúcar levou os
lavradores a cultivarem este género agrícola em grande escala, tendo-se deste modo valorizado
consideravelmente a propriedade rústica e reflectindo-se isso muito beneficamente na vida económica do
distrito.
0 primeiro período do regímen sacarino começou com o decreto de 30 de Dezembro de 1895, que criou a
matrícula facultativa das fabricas de açúcar e de álcool. 0 decreto de 24 de Setembro de 1903 e o seu
regulamento de 24 de Dezembro de 1904, vieram introduzir varias modificações no regímen de 1895. A lei
de 24 de Novembro de 1904 reforçou as disposições do regímen em vigor, alterando algumas dessas
disposições. Menos de quatro anos decorridos, promulgou o parlamento um novo regímen sacarino com a
lei de 9 de Setembro de 1908, que foi substituída pelo decreto de 11 de Março de 1911, aparecendo
finalmente os decretos de 12 de Abril e 2 de Maio de 1919, que acabaram com o monopólio sacarino. Este
ultimo diploma contém certas disposições que são geralmente consideradas como prejudiciais aos
interesses dos cultivadores da cana, mas que o decreto de 12 de Abril de 1920, agora em vigor, não revogou.
Os artigos publicados pela imprensa periódica, os panfletos avulsos, as representações e reclamações
dirigidas ao governo e os discursos proferido no parlamento acerca da questão Hinton, dariam matéria para
encher alguns volumes. Além disso, temos conhecimento da publicação dos seguintes folhetos: O alcool do
continente na Madeira, Lisboa, 1908, de 10 pag,; A questão saccharina da Madeira, Lisboa, 1910, de 50 pág.
(dr. Quirino de Jesus); Bases para a soluçâo da questão saccharina e meios de combater o alcoolismo na
Madeira, por Henrique A. Vieira de Castro, Funchal, 1911, de 12 pag.; A nova questão Hinton, Lisboa, 1915,
de 65 pag. (dr. Quirino de Jesus); A Nova Questão Hinton, Lisboa, 1915, de 137 pag.; A nova questão
Hinton, Lisboa, 1915, de 103 pag. (João Soares Branco); 0 problema sacarino da Madeira, por Pestana
Júnior, Funchal, de 51 pag.; Os Direitos de W.
m
Hinton & Son por Quirino de Jesus e a Questâo Sacarina,
por Julio do Amaral, 1918, de 22 pag..
Hipericão
São conhecidos por este nome o Hypericum perforatum e o H. humifusum, plantas vivazes
da família das Hipericaceas, com flores amarelas e pequenos pontos transparentes nas folhas. A primeira
destas espécies, a que dão também os nomes de herva-de-S. João e de malfurada, tem os caules firmes,
muitas vezes erectos, e as folhas estreitas, linear-oblongas ou elípticas, distintamente agudas; a segunda
tem os caules filiformes e prostrados, e as folhas pequenas, ovadas ou oblongas, mais ou menos obtusas.
Ambas estas espécies são frequentes na Madeira, e a infusão das suas folhas é preconizada nas moléstias
renais e da bexiga. 0 Hypericum Androsaemum não existe na Madeira.
Hiperstenite
Johnson assinala esta rocha, pertencente ao grupo diabasico, no Porto da Cruz, mas
esta descoberta parece não estar confirmada pelas observações dos geólogos modernos que têm visitado a
localidade. No entender de Gagel aparecem naquela localidade a essexite e a madeirite, rochas estas que
correspondem provavelmente à Hiperstenite, de Johnson.
V. Geologia.
Hissopo (Satureja thymoides)
Pequena Labiada lenhosa, com as folhas sésseis ou quasi sésseis,
parecendo lineares por serem enroladas nas margens, e corolas purpurescentes, pequenas, com o tubo
incluso ou quasi incluso no cálice. É muito frequente em quasi todo o arquipélago, onde é empregada como
espectorante. 0 hissopo das farmácias (Hyssopus officinalis) não se encontra na Madeira, nem mesmo
cultivado.
Historia Insulana
O título completo desta obra é Historia Insulana das Ilhas a Portugal sugeitas no
Oceano Occidental, sendo seu autor o padre António Cordeiro (V. este nome) e havendo-se feito dela duas
edições nos anos de 1717 e 1866. Foi até 1873 um trabalho muito conhecido e apreciado por todos os que se
interessavam pela historia do arquipélago madeirense, mas com a publicação naquele ano das Saudades da
Terra e das valiosíssimas anotações que as acompanham, passou a obra do padre Cordeiro a ter um valor
muito secundário, principalmente pela circunstancia de ser um resumo, nem sempre isento de defeitos, do
desenvolvido manuscrito do Dr. Gaspar Frutuoso. Além das poucas paginas que alguns cronistas tinham
dedicado á historia da Madeira, nada mais se conhecia impresso sobre o assunto, tendo por esse motivo
despertado verdadeiro interesse o aparecimento do livro do padre Antonio Cordeiro. Como faz notar o Dr.
Álvaro Rodrigues de Azevedo no prefácio das Saudades da Terra, não supre a Historia Insulana o trabalho
de Frutuoso, nem em alguma cousa se lhe avantaja, porque a obra de Cordeiro é um resumo das Saudades e
não vai além de 1590, ano em que elas foram escritas, a pesar da Historia Insuluna ter sido publicada no
ano de 1717. Enquanto o livro II das Saudades ocupa 300 paginas impressas, o livro III da Historia
Insulana, que se ocupa da Madeira, não excede 44 paginas de texto na segunda edição desta obra.
A Historia Insulana compõe-se de nove livros, tratando o primeiro dos diversos povos que ocuparam a
antiga Lusitania, o segundo das Canárias e Cabo Verde, o terceiro do Porto Santo e Madeira e os seis
restantes das ilhas dos Açores, ás quais consagra Cordeiro a parte mais considerável da sua obra. Há muito
que se tinha esgotado e era já bastante rara a Historia Insulana, quando em 1866 se fez uma segunda
edição, em tudo igual á primeira, com excepção de um aditamento que tem por título Algumas notas e
adições á História Insulana do padre Antonio Cordeiro na parte relativa á ilha da Madeira, por A. J. G. A..
Numa breve introdução, diz o anotador, referindo-se ao vasto trabalho de Gaspar Frutuoso, embora um
pouco exageradamente: «esta obra continha materiais reunidos sem critica, amontoados de genealogias, em
que era valente o seu autor, e lançados sem ordem, os quais exigiam um homem de outro pulso, e capaz de
escrever uma historia seguida e limpa dos muitos defeitos que porventura o mesmo Gaspar Frutuoso
haveria evitado, se lhe sobejasse vida. Tal não era o padre Cordeiro! ele não se deu a este trabalho, nem
procurou verificar os factos relatados pelo seu antecessor; antes contentando-se de recopila-los como
Justino fizera á historia de Trogo Pompeu, cahiu nas mesmas faltas do seu original, e a Insulana está ainda
bem longe de perfeição».
Pinheiro Chagas no II volume da terceira edição da sua Historia de Portugal, atribue erradamente estas
notas ao escritor Guião, sendo indubitavelmente certo que elas pertencem ao distinto madeirense Antonio
Joaquim Goncalves de Andrade (V. este nome), deão da Sé do Funchal, que residia em Lisboa, quando se
publicou a segunda edição da Insulana. Essas notas, que ocupam apenas trinta paginas de texto, são muito
interessantes e valiosas, e mostram o aprofundado conhecimento que o autor tinha das cousas históricas
deste arquipelago.
Historia Insulana (Comissão de)
Por portaria de 17 de Março de 1911, foi nomeada uma
comissão composta de distintos homens de letras, entre os quais se contavam alguns que se haviam
notabilizado pelos seus escritos relativos às Ilhas Adjacentes, comissão que tinha por missão especial fazer
coligir e dar á luz numa publicação intitulada Arquivo Insular todos os documentos que pudessem
interessar á historia dos arquipélagos da Madeira e dos Açores. Essa comissão instalou-se sem demora e
reuniu-se varias vezes, tomando varias deliberações acerca dos importantes trabalhos a realizar, entre os
quais avultavam a publicação de altigos manuscritos e documentos inéditos e a reedição de obras raras e de
difícil aquisição, prestando-se assim um relevante serviço á cultura portuguesa e de modo particular aos que
se dedicavam ao estudo das nossas primitivas descobertas e aos iniciais empreendimentos da nossa
colonização ultra marina. Por motivos que desconhecemos, não teve essa comissão uma larga duração e não
produziu trabalho digno de apreço, a pesar do carácter oficial que a caracterizava e da competência que
distinguia a totalidade dos seus membros.
História Madeirense
Para a historia deste arquipélago existem muitos materiais dispersos,
carreados por alguns pacientes investigadores, mas ainda não apareceu o arquitecto e o construtor do
edifício. Um consciencioso estudo sôbre a Madeira, que se não restrinja apenas a uma enumeração
fastidiosa de nomes e datas, está inteiramente por fazer. Queremos referir-nos a um moderno trabalho de
critica histórica, em que as ideias do tempo os costumes os indivíduos o ambiente em que se desenrolaram
os acontecimentos, etc, sejam apresentados numa brilhante e evocadora síntese, dando-nos num rápido
conjunto a visão completa de toda a vida madeirense no período largo de cinco séculos. Nesse quadro
panorâmico, destacar-se-iam em acentuado relevo, a primitiva colonização, que logo tomou o aspecto das
velhas sesmarias e se transformou depois no contrato de colonia, as relações entre os senhorios, feitos
morgados, e os servos da gleba que arroteavam o solo, a acção despótica e quasi discricionária dos
donatários a influência exercida neste meio pelos colonizadores continentais e por inúmeros estrangeiros,
as expedições à Africa, as antigas emigrações para o Brasil, os elementos de riqueza trazidos pelo fabrico do
açúcar e do vinho, o seu correlativo comercio de exportação, as modificações que todos esses e ainda outros
factores teriam produzido nos costumes locais, etc., etc..
Todo esse laborioso estudo aguarda ainda uma robusta inteligência e um investigador consciencioso que,
com um notável poder de generalização realize essa desejada obra, aproveitando os elementos
fragmentados e dispersos que em varias partes se encontram. As eruditas e valiosas anotações das Saudades
da Terra são uma prova incontestável de que o seu talentoso e ilustradissimo autor tinha sobejo fôlego e
uma segura orientação para tamanho empreendimento, mas o seu modesto intento de simples anotador do
trabalho de Gaspar Frutuoso não lhe permitiu legar-nos a obra que, sem esforço e talvez até com grande
aprazimento do seu espírito, poderia ter produzido. Pontos há da nossa historia que o Dr. Álvaro Rodrigues
de Azevedo trata com o indispensável desenvolvimento e com todo o rigor da critica histórica, havendo
outros que deixou apenas esboçados e sem os comentários que o assunto exigia, por estarem fora do plano
que traçou e o obrigarem a dar ás notas das Saudades da Terra uma desmarcada latitude. A pesar de tudo, é
principalmente nesse valioso e abundante repositorio de noticias e informações, de apreciações e de criticas,
de observações e reflexões filosóficas que o futuro autor da historia madeirense encontrará o seu mais
copioso tesouro ao pretender elaborar e escrever a sua obra.
Uma dúzia de anos depois de impressas anotações, publicou o Dr. Rodrigues de Azevedo no Diccionario
Universal Portuguez Illustrado um desenvolvido artigo sobre a Madeira, que é uma interessantissima
monografia acerca deste arquipélago e que se ocupa embora em resumido quadro, de todos os assuntos que
possam porventura interessar ás diversas manifestações da sua actividade desde os tempos primitivos da
descoberta. Nele traça magistralmente um notável esboço da historia madeirense, que divide em quatro
períodos e que faz preceder das seguintes palavras:
«E isto é emprêsa não fácil, mórmente na parte que respeita à crise desde o descobrimento até á definitiva
consolidação deste arquipelago com a metropole; crise solapada e ainda até agora não investigada, crise
que, seguramente, se repercutiu depois no arquipélago dos Açores, mais ou menos em todo o nosso
ultramar, e cujos efeitos talvez seriam fatalissimos ao poder colonial de Portugal, se o elemento monarchico
não a conjurasse, como bizarramente soube e conseguiu conjurar, auxiliado pelos magistrados
jurisconsultos e apoiado no burguez elemento municipal, na lucta em que, desde o continente até ali, se
empenhou contra o elemento aristocrático fortemente localizado na ilha da Madeira e, talvez, de princípio,
inconsciente instrumento de um intuito pessoal. Mas, além mesmo d'esta parte melindrosa, a historia
madeirense é interessante já quanto à autonomia local, já quanto ás relações com a metrópole e com as
demais colónias portuguesas, mormente as da Africa occidental e da América, porque a ilha da Madeira, e,
n'esta, a villa, depois cidade, do Funchal foram, por tempos, o centro da outrora importantíssima
governação eclesiástica, o ponto principal de todo o movimento náutico e mercantil dos portugueses no
Atlântico, avultando primeiramente na exportação de »madeiras de construcção, depois na cultura, fabrico
e comercio do assucar, em seguida no dos seus optimos vinhos, por ultimo em ambos estes géneros, além de
outros de menos monta, e, finalmente como estação de saúde, em razão do seu bello e afamado clima e
pittoresca paizagem, pelo que namorada é de quantos forasteiros a visitam, maxime dos Inglezes, que duas
vezes militarmente a ocuparam no primeiro quartel do presente século e a custo a largaram de sua posse,
fazendo ainda muitos delles ahi a sua predilecta residência, especialmente na estação invernosa. Em
consequência das particulares circunstancias acima indicadas, quem queira estudar as instituições e historia
do Portugal ultramarino tem de força que ir em grande parte investigal-as nos archivos e historia da
Madeira, terra onde Colombo esteve e onde talvez recebeu os primeiros raios de luz que lhe revelou a
existencia do novo mundo. É, pois, sem duvida, útil e curiosa esta historia. Junctemos á succinctissima
sinthese acima exarada alguns traços mais importantes ou mais característicos do quadro».
Os quatro períodos em que o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo divide o seu esboço da historia do
arquipelago, decorrem: o 1.° desde o descobrimento até á morte de D. João I, em 1433, o 2.° desde este ano
até á libertação do jugo espanhol, em 1640, o 3.° estende-se até a implantação do governo constitucional,
em 1834, e o 4.° desde este ano até a actualidade. No artigo Bibliografia dissemos que no artigo Elementos
para a Historia madeirense faríamos uma pequena resenha das obras que oferecessem um mais abundante
pecúlio de noticias e informações respeitantes á historia deste arquipelago. Nesse artigo tratámos com
algum desenvolvimento dos arquivos públicos e mais fontes manuscritas, mas por mero lapso não
inserimos uma breve relação das obras impressas, o que faremos deste logar. Como por vezes temos dito e
geralmente todos sabem, são as Saudades da Terra, e sobretudo as suas valiosas e abundantes notas, o mais
rico, copioso e seguro repositorio de elementos que possuímos para a historia do nosso arquipelago. Desse
trabalho monumental nos ocuparemos na altura competente deste Elucidario. Seguem-se em importância e
valor as obras Historia Insulana e o Archivo da Marinha e Ultramar, ás quais já consagrámos neste
Elucidario artigos especiais. De importância mais secundaria, mas oferecendo também apreciáveis
informações e noticias, podemos fazer menção da Epocha Administrativa (3 vol., 1849, 1850, 1852) e dos
outros opúsculos de Servulo de Meneses acerca da administração modelar do governador Silvestre Ribeiro,
Breve Noticia sobre a Ilha da Madeira.. . por Paulo Perestrelo da Câmara (1841), Catalogo dos Bispos da
Igreja do Funchal, por D. Antonio Caetano de Sousa (1721), na Colecção dos Documentos e Memórias da
Academia Real de Historia Portugueza, tomo 1, As Dezertas e As Selvagens,por A. Artur Sarmento (1903 e
1906), Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, por Adolfo Loureiro (1910, vol. V), vários
opúsculos sobre o contrato de colónia (V. a bibliografia do artigo Contrato de Colonia), Documentos para a
Historia das cortes geraes da nação portugueza, pelo barão de São Clemente (1888, vol. V), Constituições
Sinodais do Bispado do Funchal (V. artigo Constituições do Bispado), diversas obras sôbre o descobrimento
deste arquipelago, que vêm citadas a pag. 330, 349, 350 e 906 das Saudades e ás quais devemos
acrescentar-Memória sobre a descoberta das ilhas do Porto Santo e Madeira, por E. A. Betencourt (1875),
Quando foi descoberta a Madeira?, por Jordão de Freitas (1911) e 0 Reconhecimento do Arquipelago da
Madeira, por Manuel Gregorio Pestana Júnior (1920), alguns opúsculos sôbre os morgadios da Madeira e a
sua abolição (V. o artigo Instituiçoes Vinculares), vários folhetos acerca da proclamação da Constituição de
1821 neste arquipelago (V. o artigo Constituição de 1821), três opúsculos sobre a corografia madeirense (V.
artigo Corografia), Statistica Historico-Geografica das ilhas da Madeira e Porto Santo, por Joaquim Pedro
Cardoso Casado Giraldes (Paris, 1815), Ilha da Madeira, por Acursio Garcia Ramos (2 vol., 1879 e 1880),
alguns folhetos acerca do proselitismo protestante do Dr. Roberto Kalley (V. o artigo Kalley) e a preciosa
colecção de jornais madeirenses pertencente á empresa do Diário de Noticias do Funchal, de que se ocupa o
opúsculo Resenha Chronologica do Jornalismo Madeirense (1908). No artigo Madeira do Diccionario
Universal Portuguez Illustrado, que consagra algumas paginas á bibliografia madeirense, no artigo
Bioliografia deste Elucidário e em todo o decurso desta obra se faz menção de muitas espécies bibliograficas
que interessam à historia do nosso arquipélago.
Seja-nos permitida a satisfação, que não vaidade, de dizer aqui que no longo decurso desta obra também
carreámos alguns materiais apreciáveis para a historia do nosso arquipélago. E, tanto maior é essa
satisfação, quanto podemos sem contradita afirmar que o fizemos com o mais completo desinteresse, pondo
ao dispor deste modesto empreendimento o trabalho de alguns anos de perseverantes e conscienciosas
investigações e pesquisas nos arquivos públicos e particulares, e em muitas dezenas de obras impressas e
manuscritas tanto nacionais como estrangeiras. Parece-nos ter deixado suficientemente esclarecidos vários
pontos da historia madeirense e concorrido com muitos elementos indispensáveis para aqueles que depois
de nós tentarem escrever essa historia, ou, ao menos, forem os continuadores deste nosso desvalioso, mas
aturado trabalho.
Historical (An)
(An)Account of the Discovery of the Island of Madeira, abridged from the Portuguese
Original, to which is added an Account of the Present State of the Island. Londres, 1750, 1 vol.
Historical (An)
(An)Sketch of the Island of Madeira, with a coloured view of the Island. Londres, 1819, 1
vol.
History (A)
(A)of Madeira, with a series of twenty seven coloured engravings illustrative of the costums,
manners and occupations of the Inhabitants of that Island. Londres, 1821. É obra de William Combe (1741-
1823).
Hochstetter (Dr. Ferd. von)
Geólogo austríaco que visitou a Madeira em Julho de 1857, na
qualidade de membro da expedição cientifica dirigida pelo comodoro Wuellerstorf- -Urbair, comandante da
fragata Novara. Mediu a altura do Pico Ruivo e escreveu um folheto intitulado Madeira (Viena, 1861).
Holl (Frederico)
Botânico alemão que esteve na Madeira desde Junho a Agosto de 1827. E.:
Verzeichniss der auf der Insel Madeira beobachteten Pflanzen (Flora oder Bot. Zeitung, 1830).
Holotúria
Género de equinodermes holoturidos, que compreende um grande numero de espécies. A
Holothuria tubulosa, de corpo alongado e mole, é frequente perto da costa, na Madeira. V. Equinodermes.
Homem
Este apelido de família procede: de Garcia Homem de Sousa, que casou com Catarina
Gonçalves da Câmara, filha de Zargo; de Francisco Homem de Gouveia, fidalgo da casa de D. Manuel e que
viveu no Estreito da Calheta, onde instituiu um morgado em 1529; de Francisco Homem d'El-Rei, que viveu
na Calheta, no princípio do século XVI; e de Rui Fernandes Homem, filho natural de Fernão Homem e
sobrinho do referido Garcia Homem de Sousa.
Homem em pé
Coluna de lava de cerca de 12 metros de alto, que se ergue isolada nas proximidades
da Cumeada Alta, na freguesia de Sant'Ana.
V. Geologia.
Homenagem de Desagravo ao Redemptor do Mundo
Numero único de um jornal
publicado a 26 de Outubro de 1913 pela Juventude Católica do Funchal, em grande formato e de 24 paginas.
Hooker (William)
Na sua obra intitulada Niger-Flora encontra-se uma lista de plantas da Madeira,
organizada por ele, á qual se segue uma outra do Dr. C. Lemann, relativa também a plantas desta ilha. No
volume VI (1847) do Journal of Botany foi publicado um artigo de W. Hooker intitulado Notes on Madeira
Plants.
Hora Oficial
Foi estabelecida pelo decreto n.° 2.922 de 30 de Dezembro de 1916. Em 31 de Janeiro do
ano imediato pediu a autoridade militar à Câmara que o Relogio da Sé fosse adiantado uma hora, ás 23
horas, sendo atendida esta requisição, mas com a declaração feita pelo presidente o Dr. Fernando Tolentino
da Costa, de que não reconhecia em tal medida utilidade alguma para a Madeira.
Hortas (Rua das)
Chama-se agora (1921) rua do Alferes Veiga Pestana, em virtude da deliberação
tomada pela Câmara em 10 de Abril de 1919, e comunica a rua do Carmo com as avenidas de Pedro José de
Ornelas e Elias Garcia, na freguesia de Santa Luzia.
O alferes João Paulo da Veiga Pestana morreu em França, no combate de 9 de Abril de 1918.
Hortelã
Nome vulgar da Mentha viridis e da M. silvestris, plantas da família das Labiadas, a primeira
das quais parece ser indígena. As folhas da M. viridis deitadas no leite, dão-lhe um sabor particular. Ambas
estas espécies são cultivadas nas hortas madeirenses, sendo porém a M. silvestres muito menos comum que
a M. virídis.
Hortelã de Burro (Cedronella triphylla)
Labiada subarbustiva e de cheiro forte e
desagradável; folhas com 3 segmentos lanceolados e crenados; corolas grandes, violaceas, nervosas,
dilatadas na face. É frequente no Monte, Ribeiro Frio, Camacha, Jardim da Serra, etc..
Hortelã Pimenta (Mentha aquatica-viridis f. piperita)
Labiada muito aromática e de
sabor apimentado, glabra ou quasi glabra, com as folhas lanceoladas ou oblongo-lanceoladas, serradas. É
muito cultivada nas hortas, e a infusão das suas folhas é útil nas dores intestinais, nas cólicas e nas tosses
espasmodicas. O óleo essencial da hortelã-pimenta é muito caustico.
Hospício da Princesa D. Maria Amelia
Já no artigo consagrado à imperatriz D. Amélia (v.
este nome) dissemos que a viúva de D. Pedro IV, acompanhando sua filha a princesa D. Maria Amélia,
chegou à Madeira no dia 28 de Agosto de 1852, tendo a princesa falecido nesta cidade a 4 de Fevereiro do
ano seguinte. Dois meses depois, a 6 de Maio de 1853, saía a imperatriz desta ilha, acompanhando os restos
mortais da saudosa e malograda princesa.
Antes, porém, de abandonar a Madeira dirigiu à rainha D. Maria II, a 13 de Abril de 1853, uma carta em que
se encontra o seguinte período: «Desejando deixar nesta ilha, em proveito dos indigentes atacados da cruel
enfermidade a que sucumbiu a princesa D. Maria Amélia, Minha Muito Amada e Saudosa Filha, algum
vestígio da Nossa Estada na Madeira, que recorde os testemunhos que Ambas recebemos dos seus bons
habitantes, ocorreu-me a ideia de estabelecer no Funchal por ora unicamente por modo de ensaio, para
mais tarde, segundo me mostrar a experiência, ter a forma de uma fundação pia, um hospício ou casa de
caridade, para serem recebidas e tratadas vinte e quatro pessoas pobres e doentes de tísica pulmonar,
debaixo da direcção de uma comissão». A esta carta, respondeu a rainha de Portugal com outra carta, donde
são estractadas as seguintes palavras: «A tentativa de uma fundação que exprime de um modo tão digno de
Vossa Majestade Imperial a ilustrada virtude que a inspira, não podia deixar de provocar as minhas
simpatias e merecer a minha plena aprovação, comprazendo-me em assegurar a Vossa Majestade Imperial
que me empenharei em prestar-lhe toda a cooperação e auxilio que de mim dependa para se realizar o
generoso propósito de Vossa Majestade Imperial».
A imperatriz, querendo realizar sem demora o seu nobilíssimo pensamento, fez arrendar um prédio à rua do
Castanheiro, pertencente ao morgado Antonio Caetano Moniz de Aragão, e determinou que ali se instalasse
provisoriamente o hospício, cuja abertura teve lugar a 10 de Julho de 1853. Antes de deixar a Madeira,
visitou a ilustre fundadora todas as instalações e dependências do novo hospital, dando-lhe por essa ocasião
os regulamentos e instruções necessárias para o seu conveniente funcionamento. Foi nomeado seu director
clínico o distinto madeirense e abalizado medico Dr. António da Luz Pita, e encarregou uma comissão,
composta do cónego Dr. António Joaquim Gonçalves de Andrade, D. Jorge da Câmara Leme, José Phelps,
Joaquim Pedro de Castelbranco e Jacinto de Freitas Lomelino, de dirigir a administração do
estabelecimento. Tendo o cónego Andrade acompanhado a imperatriz na qualidade de seu capelão e
havendo D. Jorge da Câmara Leme pedido escusa de membro daquela comissão, foram indigitados para me
substituir Antonio Gonçalves de Almeida e Diogo Guilherme Selby.
Na fundação do novo hospital prestaram os mais relevantes serviços o cónego Gonçalves de Andrade e o Dr.
Luz Pita que, depois, como medico do estabelecimento, lhe consagrou a mais fecunda actividade e um zelo
inexcedível, de que é uma prova eloquente o relatório que escreveu acerca do movimento do hospício e das
observações clinicas por ele feitas no primeiro ano da sua instalação. Deve aqui fazer-se particular menção
do acrisolado serviço prestado pela primeira regente D. Amália Cândida Teixeira, sobretudo no calamitoso
período em que a colera-morbus grassou intensamente nesta cidade, pelo que a imperatriz lhe ofereceu um
magnífico relógio de ouro, como lembrança do excessivo trabalho dispendido durante a terrível epidemia.
Foi esse exgotante trabalho que em extremo lhe depauperou as forças, vindo a falecer no hospício a 23 de
Janeiro de 1867.
Queria a imperatriz perpetuar nesta ilha, por maneira mais duradoura, a memória da filha estremecida e ao
mesmo tempo exteriorizar mais proficuamente os sentimentos de caridade que nutria pela sorte dos
desgraçados feridos pela terrível tísica pulmonar. E, logo a ideia da construção de um edifício apropriado
que, pela sua situação, dimensões, amenidade do local e todos os requesitos de conforto, pudesse satisfazer
inteiramente ao fim que tinha em vista nasceu no seu espírito, tomou vulto e dentro de pouco tempo passou
a ser uma feliz e eloquente realidade.
A Carta de lei de 19 de Julho de 1853 autorizou a fundação do Hospício com as faculdades e privilégios nela
consignados podendo para isso fazer-se a aquisição de bens independentemente de toda a licença ou
encarte, ter uma administração apenas subordinada à fundadora ou aos seus herdeiros e não ficar na
dependência ou fiscalização de quaisquer estações ou entidades oficiais. O Dr. António da Luz Pita, como
procurador e representante da imperatriz, comprou os terrenos águas e benfeitorias destinados à
construção do novo estabelecimento hospitalar.
No dia 4 de Fevereiro de 1856 realizou-se o assentamento da pedra angular ou lançamento da primeira
pedra do grandioso edifício. O acto, a que presidiu o prelado diocesano, D. Manuel Martins Manso, revestiu
uma imponente solenidade e a ela assistiram todas as pessoas mais qualificadas do Funchal e uma grande
multidão de povo. O local para a construção e os terrenos adjacentes tinham sido previamente preparados, e
já nele se haviam realizado importantes trabalhos para o fim a que se destinavam os projectos e plantas do
edifício foram elaborados pelo arquitecto inglês E. B. Lamb, tendo-se-lhe introduzido notáveis modificações
indicadas pelo madeirense e distinto engenheiro e arquitecto João de Figueiroa de Freitas e Albuquerque,
sob cuja direcção se realizou a construção de toda a obra e à qual prestou os mais apreciáveis serviços.
A construção, por dificuldades insuperáveis, não decorreu com a presteza que desejava a augusta fundadora
e só foi dada por concluída seis anos depois de iniciada. Longe teríamos de ir, se quiséssemos fazer uma
descrição detalhada do sumptuoso edifício e das suas numerosas dependências. Sem nele encontrarmos
grandes primores arquitectónicos, nem traços rigorosos de um estilo bem definido, não tendo também as
proporções de um vasto e grandioso palácio, é no entretanto uma construção elegante, cheia de imponência
e de majestade embora de linhas severas, para o que muito contribui o basalto negro das suas portas,
janelas, cunhais, cimalhas e ornatos, que se destacam na nítida brancura das paredes. É o que em toda a
parte se pode chamar um grande e belo edifício, que em nada deslustra a posição social da sua ilustre e
virtuosa fundadora.
Entre as dependências do Hospício, destaca-se a capela, pequena, mas elegantissima, de sóbrios mas
primorosos ornatos. Sobranceira ao altar, vê-se uma linda imagem de Nossa Senhora das Dores oferta do
infeliz príncipe Fernando Maximiliano, depois imperador do Mexico.
Seria um pormenor interessante saber-se o custo da compra dos terrenos, da construção do edifício, das
diversas instalações e do mobiliário mas ignoramos se existem dados seguros a tal respeito ou se a
imperatriz ocultaria propositadamente até onde chegou a generosidade do seu coração.
A ilustre fundadora confiou a direcção do Hospício e o tratamento dos doentes ao instituto religioso das
Irmãs de Caridade, fundado por S. Vicente de Paulo e que tinha a sua sede na cidade de Paris. O capelão do
estabelecimento seria um sacerdote da Congregação da Missão, também fundada pelo protótipo da caridade
cristã. O primeiro capelão, por nome Carlos Francisco Bertrand, e as primeiras Irmãs de Caridade chegaram
á Madeira em princípios do 1862. A 4 de Fevereiro deste ano nove anos depois da morte da princesa
receberam-se os primeiros doentes, em numero de doze, e iniciou-se o funcionamento do novo
estabelecimento hospitalar.
Ao fundo do amplo vestíbulo e entre os dois lanços da escadaria, se encontra uma lápide de mármore preto,
contendo a seguinte inscrição, que sintetiza a historia daquela casa de caridade: «hospício da Princesa D.
Maria Amélia, Filha de D. Pedro I.", Imperador do Brasil e Rei de Portugal, 4.° do mesmo nome e Duque de
Bragança, e de D. Amélia, Imperatriz do Brasil e Duqueza de Bragança. Chegou a esta ilha a 20 de agosto de
1852. Faleceu a 4 de Fevereiro de 1853, tendo de idade 21 anos, 2 meses e três dias. Em memoria de tão
amada e chorada Filha, sua saudosa Mãe levantou este edifício para tratamento de pobres, doentes de
moléstia do peito. Foi lançada a primeira pedra a 4 de fevereiro de 1856 e acabada a obra no ano de 1859.
Entraram os primeiros doentes a 4 de fevereiro de 1862».
O Hospício apenas funcionou alguns meses, tendo cerrado as suas portas por meados de Julho de 1862. As
Irmãs de Caridade tinham recebido ordens do governo português para deixar o nosso país, saindo para
França a 9 de Junho daquele ano, na fragata de guerra francesa Arenoque, que expressamente as fora
buscar ao Tejo. Fizera-se uma excepção para a Madeira, mas M. Etienne, superior geral da congregação,
ordenou que as irmãs de Caridade deixassem a direcção do Hospício da Princesa D. Maria Amelia e
recolhessem sem demora ao seu país, tendo saído do Funchal a 2 de Agosto de 1862. A imperatriz
determinou, então, que se encerrasse provisoriamente, até ulterior resolução, a casa de que fora a
fundadora.
Só passados nove anos, em Novembro de 1871, é que o Hospício reabriu as suas portas e, pela segunda vez,
nele entram os primeiros doentes. Voltaram as Irmãs de Caridade, que assumiram a direcção dos serviços
de administração e de enfermagem, como anteriormente tinham.
Pouco mais de um ano depois da sua abertura, faleceu a 26 de Janeiro de 1873 a imperatriz D. Amélia, a
ilustre e generosa fundadora daquele hospital modelar, e a cuja saudosa e santa memória tanto deve a
pobreza da nossa terra. Não chegou nunca a visitar a sua grandiosa obra, que tanto ambicionara ver de
perto, nem tão pouco assegurara de uma maneira definitiva a sua existência futura, deixando a sua irmã
Josefina, rainha da Suécia, o encargo de assentar em bases sólidas a perpetuidade do monumento que
consagrara á memória de sua filha, a princesa D. Maria Amélia.
No testamento da imperatriz lêem-se as seguintes palavras: «Conhecendo a afeição de minha irmã Josefina
por mim e tendo-se compreendido sempre os nossos corações, recomendo-lhe instantemente a fundação
permanente do pequeno hospital para doentes do peito «Hospicio da Princesa D. Maria Amelia», que fiz
construir no Funchal, na ilha da Madeira, para aí perpetuar a memória da minha querida filha, afim de que
se vier a morrer antes de concluída a dita fundação, tudo se faça segundo as minhas intenções. A baroneza
Carolina de Stengel, minha dama de honor, o Senhor Primislao Sperling, meu secretario, o bom e tão
dedicado doutor Barral poderão dar a minha irmã todas as informações que ela desejar a tal respeito; eles
conhecem os meus projectos de dotação e de administração para o dito hospital, e o Dr. Barral, pelos seus
conhecimentos especiais, será de muito bom conselho».
Tornou-se então a rainha Josefina a desvelada protectora da obra que sua irmã fundara, e foi ela que
verdadeiramente assegurou a sua existência futura, acrescentando os fundos e dando-lhe uma mais sólida
organização. Foi a 5 de Junho de 1876; poucos dias antes de morrer, que, em disposição testamentaria,
determinou a maneira de dar estabilidade à obra e ordenou que por instrumento publico se desse o carácter
oficial e definitivo de fundação perpétua ao Hospício da Princesa Dona Maria Amelia. Seu filho, o rei Óscar
da Suécia, realizou em 1877 o pensamento daquela rainha, sendo então lavrados vários documentos, que
asseguraram a existência do Hospício e regularam a maneira do seu funcionamento. Para isso muito
contribuiu, com a sua inteligente e eficaz cooperação, M. Primislao Sperling, antigo secretario da imperatriz
D. Amélia.
É interessante e engenhosa a maneira como se organizou a direcção e administração do Hospício. O rei
Oscar nomeara em 1877 um conselho composto de três membros, tendo cada um deles por sua vez
nomeado um suplente. Por falta ou morte do efectivo é chamado o suplente que logo nomeia o seu
substituto. Por falta de tidos, nomeia o representante da rainha Josefina um membro do conselho e a
superiora das Irmãs de Caridade outro, e os dois nomeiam o terceiro. Têm sido membros efectivos do
conselho de administração o visconde de Aljezuar, que foi camarista da Imperatriz, padre Emilio Eugenio
Miel, conselheiro Augusto Maria Quintela Emauz, Bernardino de Barros Gomes, José Franco de Sousa, Dr.
Luiz Filipe de Abreu, Vitor Boulard, Marquês de Pombal, conde de Oeiras, José Quintela, Desiré Caulet,
Alfredo Fragues, Dr. Lino Neto e outros. Este conselho tem a sua sede em Lisboa e cumpre-lhe enviar
anualmente ao representante da rainha Josefina, ao rei de Portugal, ao imperador do Brasil e á Superiora da
congregação das Irmãs de Caridade um relatório da sua administração e do estado financeiro do
estabelecimento, estando impressos muitos desses relatórios. Os seus fundos foram constituídos em 1877
por um milhão de francos em títulos de dívida do estado francês, que depois, por indicação do rei Oscar, se
converteram em acções de uma companhia dos caminhos de ferro da Suécia. Estes fundos têm aumentado
sempre, embora lentamente, porque o crescimento das despesas não permite que esse aumento seja grande.
No fim do ano de 1914 tinham atingido o valor de 261:055$98. Os membros do conselho de administração
tem sempre dado provas do maior zelo e do maior desinteresse na direcção dos negócios deste
estabelecimento, pelo que são credores das simpatias dos madeirenses, aos quais o mesmo hospital
exclusivamente interessa e aproveita.
Por contrato, realizado em Paris, a 20 de Maio de 1877, e em obediência aos desejos da fundadora e da
rainha Josefina, entre o conselho de Administração e a Superiora das Irmãs de Caridade, foi entregue a
estas a direcção do Hospício, no que diz respeito aos serviços de administração interna, de enfermagem,
etc., e ao mesmo conselho dão conta da maneira como dirigem esses serviços.
Os serviços religiosos do hospital ficaram a cargo dos sacerdotes da Congregação da Missão, estando ali,
permanentemente, ao menos um eclesiástico que exerce as funções de capelão. Desde a fundação, têm
desempenhado este cargo os padres Carlos Francisco Bertrand, em 1862; Francisco Fougeray, 1862 João
Baptista Pémartin, 1871; Ernesto Schmitz, 1874; Alberto Docet, 1875; Jorge Luiz Monteiro, 1875; Ernesto
Schmitz, 1878: Pedra Varet, 1881; Leão Xavier Prévot, 1892; Pedro Pinto Leitão, 1895; José Maria Garcia,
1897; Vitor Maria Boulard, 1898; Fernando Aliot, 1900; Sebastião Mendes, 19o8; José Maria Garcia, 1909; e
Henrique Jansen, 1920.
A direcção dos diversos serviços clínicos do Hospício tem quasi sempre sido confiada a um só medico, mas
esses serviços já estiveram a cargo de dois, embora por pouco tempo, sendo então um o medico principal e o
outro servindo de ajudante. Foi o abalizado medico António da Luz Pita, o primeiro que ali desempenhou
funções clínicas, seguindo-se-lhe o Dr. Pedro Júlio Vieira, por pouco tempo, e depois o Dr. César Augusto
Mourão Pita, num longo período de algumas dezenas de anos. Por morte deste, em 1907, foi nomeado o Dr.
João Francisco de Almada, que é o medico actual. Além do relatório do Dr. Luz Pita, consta-nos que o Dr.
Mourão Pita imprimiu alguns relatórios dos serviços clínicos do hospital, mas de que não temos
conhecimento. Todos os anos é enviado ao conselho de administração, pelo medico em exercício, um
circunstanciado relatório do movimento hospitalar e do serviço clínico ali desempenhado.
Poucas pessoas ilustres e de distinção têm passado na Madeira que não hajam visitado aquela casa de
caridade, estando os livros dos visitantes cheios de nomes de indivíduos de todas as categorias sociais,
desde reis e príncipes, de sábios e homens notáveis nas ciências e nas letras, até obscuros marinheiros de
navios aportados ao Funchal. O rei D. Carlos e a rainha D. Amélia, o rei Óscar da Suécia e vários príncipes e
princesas ali inscreveram os seus nomes e entre os homens de ciência destaca-se o Dr. Jaccoud, uma grande
notabilidade medica e especialista em doenças pulmonares, que em breves linhas traçou o mais alevantado
elogio daquele estabelecimento.
Na sala de visitas, encontram-se duas magníficas telas, representando a imperatriz D. Amelia e sua filha a
princesa D. Maria Amelia. Quando o rei Oscar visitou o edifício, notou a falta do retrato da rainha Josefina,
sua mãe, mandando-o depois colocar ali, o que simplesmente constituía um acto de inteira justiça.
O numero dos doentes que actualmente se encontram ali é de vinte e quatro, tencionando o conselho de
administração aumentar esse numero, ao que tem obstado a pavorosa crise determinada pela guerra.
(1921).
A imperatriz concebeu a ideia, que deixou consignada numa das suas disposições, de criar nas vizinhanças
do Hospício um orfanato com escolas adjuntas, destinadas a crianças pobres. A irmã superiora daquela
casa, madame Rolland, pôde, em Maio de 1878, depois da prévia construção de um edifício que mais tarde
se ampliou, realizar o nobre pensamento da fundadora, recebendo então doze crianças. Esse numero
aumentou consideravelmente e chegou a contar-se por muitas dezenas, havendo os acontecimentos
políticos do nosso país determinado o quasi completo desaparecimento dessa obra, uma das mais notáveis e
mais proveitosas que entre nós tem inspirado o espírito da caridade. O funcionamento do orfanato em nada
afectava a vida económica do Hospicio, pois que era exclusivamente mantido pela generosidade de muitas
pessoas, nacionais e estrangeiras, que viam nele um verdadeiro elemento de regeneração social e um abrigo
seguro para tantas desventuradas crianças, que a orfandade lançara na miséria e a muitas no caminho da
perdição.
A demasiada latitude dada a este artigo, obriga-nos a omitir outras circunstancias e pormenores, que
porventura poderiam aproveitar á historia deste estabelecimento verdadeiramente modelar, que a nossa
terra tem a glória de possuir.
Hospital de Santa Isabel
Vid.
Hospital dos Marmeleiros.
Hospital de S. Lazaro
Desconhecemos o ano em que foi estabelecido este hospital, mas tudo leva
a crer que a sua instituição remonte aos fins do século XV. Em 25 de Julho de 1512 permitiu-se que a «casa
da gaferia se mude a Santa Catarina e Santa Catarina a ella. . . . , resguardando o que compre aos
encarreguos da dita casa de Santa Catarina », mas, segundo parece, o hospital de São Lazaro continuou no
local onde o haviam estabelecido, não voltando a falar-se depois na sua transferência.
Em 1515 resolveu a Câmara do Funchal «que todollos que forem doentes do mall de sam lazaro se baoõ aa
casa de s. lazaro...... & que os oficiaes a ruem as ruas & todollos que acharem que sam doentes do dito mall
os faram logo yr a sam lazaro ou sayr fora da cidade». Resolveu mais a mesma Câmara que os servidores
dos lazaros trouxessem umas tabuletas de madeira, para serem conhecidos, e que os lazaros achados na
cidade, depois de lhes haver sido dado destino, fossem açoutados publicamente.
A princípio recebiam os leprosos a quantia de 30 reis diários para a sua alimentação, mas em 26 de Janeiro
de 1641 passaram a ter o subsidio de 40 réis pago pela Câmara, subsidio que foi elevado a 80 réis no século
XVIII e a 100 réis em 4 de Setembro de 1801.
A 24 de Abril de 1835 resolveu a Câmara fornecer directamente o alimento aos doentes do Hospital de S.
Lazaro, devendo o vereador do respectivo pelouro apresentar mensalmente uma conta das despesas feitas
com o mesmo alimento, e em 1910 regulavam as dietas dos enfermos por 145 réis diários, resolvendo a
Municipalidade em sessão de 17 de Novembro conceder para o dito fim até a importância de 200 réis
diários.
Uma provisão régia de 1685 confiou ao Governador Geral a administração dos lazaros, que estivera antes a
cargo do bispo, mas pela provisão de 1693 passou a superintendência desses doentes para o juiz de fora,
continuando as despesas com os mesmos a serem feitas pela Câmara do Funchal. Há um antigo diploma
determinando que os lazaros «se fossem enviando para a ilha de Maio».
O Dr. Julião Fernandes da Silva, autor da Carta Critica sobre o metodo curativo dos médicos funchalenses,
atribuía os casos de elefantiase que desde o século XV se manifestam na ilha, ao uso do peixe salgado, das
favas, do vinho azedo e do inhame acrescentando que as moléstias venéreas mal curadas e a supressão das
hemorróidas, também podem originar aquela moléstia. Para aquele distinto medico do século XVIII, a
elefantíase é contagiosa, devendo portanto haver «clausura para os que padecem a moléstia», mas o Dr.
Barral, que escreveu em 1853, diz que embora a mesma moléstia seja hereditária em bastantes casos, nunca
pareceu contagiosa na ilha. Muitos médicos modernos consideram a elefantíase moléstia contagiosa, mas
conhecemos vários enfermeiros e enfermeiras do extinto hospital de S. Lazaro que, tendo privado durante
anos com doentes afectados daquela terrível enfermidade, nunca tiveram nem a mais ligeira erupção
cutânea.
«O hospital de S. Lazaro, diz o Dr. Barral, collocado no sítio de Santa Catharina, ao oeste da cidade, é uma
pequena e antiga casa destinada a recolher doentes atacados de elephantiase, e sustentada pelo município.
Contem vinte e seis doentes pouco mais ou menos, de ambos os sexos e de diferentes idades, e já tem
asylado mais de trinta e quatro. Ali acham casa, cama, alimento, assistência de facultativo e remédios. O
edifício como objecto de arte, a pesar de ter sido de seu princípio, destinado para este fim, é de péssima e
insignificante construcção. É bem ventilado porque sempre é possível ter as janellas, ainda que pequenas,
abertas, e reune as principais condições de salubridade. Não encontrámos ali cheiro nenhum infecto, posto
que na divisão do sexo feminino os repartimentos e cortinas, que desaprovamos, poderiam muito contribuir
para o haver. Os doentes ali asylados recebem uma alimentação suficiente e saudável e alguns remédios
palliativos ou outros para combater os symptomas mais incommodos da moléstia, ou de doenças
intercurrentes».
Em 5 de Junho de 1912 resolveu a Câmara, por proposta do Dr. Fernando Tolentino da Costa, extinguir o
hospital de S. Lazaro, onde só existiam quatro doentes, pertencendo dois ao concelho do Funchal e dois ao
da Ponta do Sol, e em 19 de Junho do ano imediato deliberava a mesma Câmara que a Cadeia Civil fosse
instalada no edifício do hospital extinto, visto serem bastante onerosas as condições em que o Governo
cedia provisoriamente a fortaleza do Pico para a acomodação dos presos.
Em 28 de Dezembro de 1912 procedeu o Presidente da Câmara ao arrolamento de todos os moveis e
utensílios existentes em S. Lazaro, mas só em Fevereiro do ano imediato foram os dois leprosos, que a esse
tempo estavam ainda no hospital, recolhidos num casebre á travessa do Cascalho, tendo-se pensado antes
em remetê-los para o hospital de S. José ou para o da Universidade de Coimbra. As ultimas folhas do
hospital de S. Lazaro pagas pela Câmara foram de despesas efectuadas no referido mês de Fevereiro.
Além do subsidio de 10.000 réis mensais concedido pelo Governo, tinha o hospital de S. Lazaro o
rendimento de dois legados, sendo um de António Ferreira de Araújo Guimarães da cidade do Porto, e outro
do Barão de Castelo de Paiva. Em 1912 a Câmara gastava a quantia de 1:693$000 réis com aquele
estabelecimento, estando incluída nesta verba os ordenados dos empregados, na importância de 693$600
réis. Há uma provisão do bispo D. João do Nascimento, datada de 16 de Dezembro de 1748, autorizando a
criação de uma confraria, com sede na igreja de S. Pedro, destinada a auxiliar a manutenção do hospital de
S. Lazaro.
A terra para a igreja nova dos Lazaros foi comprada por 8:000 em 1665, e em 17 de Maio de 1779 ficou
concluído um cemitério para enterramento dos doentes que morriam no hospital, visto se ter reconhecido
que a mesma igreja não tinha capacidade para dar sepultura a todos eles. A instalação dos presos na cadeia
de S. Lazaro teve logar em 29 de Novembro de 1913, a pesar de só em Fevereiro de 1915 terem sido
arrematadas as obras de conclusão do edifício.
Em fins de 1890 e princípios de 1891 aplicou o Dr. Julio Goldschmidt a tuberculina de Koch em vários
doentes do hospital de S. Lazaro, mas sem fazer suspender, em nenhum deles, a marcha da moléstia, da
qual todos vieram a falecer. Os tuberculosos, em quem pela mesma época foi inoculada a referida
tuberculina, também nenhuns resultados satisfatórios tiraram desse método de tratamento.
Nos últimos 30 anos, raras vezes albergou o hospital de S. Lazaro mais de dez leprosos, sendo a maior parte
deles naturais dos concelhos da Ponta do Sol e Calheta. A elefantiase dos gregos é a mais frequente na ilha e
aqueles que dela sofrem apresentam tubérculos ou ulcerações na cara, mãos, pernas, etc., tem uma
respiração difícil e raras vezes atingem a idade de 50 anos, manifestando-se a moléstia quasi sempre entre
os 15 e 25 anos. Dos doentes que conhecemos no hospital, quasi todos morreram repentinamente, em
virtude da sufocação provocada por edema nos orgão respiratórios.
Ao assunto deste artigo, oferece particular interesse o livro do Dr. Augusto da Silva Carvalho Historia da
Lepra em Portugal, que contém um capítulo acerca do hospital de S. Lazaro do Funchal, o opúsculo do Dr.
Julio Goldschmidt La Lèpre, incluindo as demoradas observações clinicas feitas por esse medico no referido
hospital, e o Arquivo Historico da Madeira vol I-107 e seguintes, que encerra algumas valiosas notas
referentes á sua historia.
No Diário de Noticias, do Funchal, de 12 de Março de 1937, publicou o Dr. Vicente Henriques de Gouveia
um desenvolvido artigo epigrafado Haverá alguma relação entre o inhame e a elefantiase?, que oferece
particular interesse aos que pretendem ter mais amplo conhecimento deste assunto.
Hospital dos Marmeleiros
O Hospital de Santa Isabel, pertença da Santa Casa da Misericórdia
do Funchal, que durante 244 anos funcionou no edifício actualmente ocupado pelas instalações da Junta
Geral deste distrito autónomo, começou a ser conhecido pelo nome de Hospital dos Marmeleiros desde o
ano de 1931, em que os diversos serviços hospitalares passaram a ser desempenhados na nova e ampla casa
existente no sítio dos Marmeleiros da freguesia de Nossa Senhora do Monte.
Como mais largamente se dirá no artigo Sanatórios, o governo português fez no ano de 1903 a concessão ao
príncipe alemão Frederico Hohenlohe de poder estabelecer na Madeira sanatórios marítimos e de altitude
destinados ao tratamento de moléstias pulmonares, mediante a obrigação de neles ser recebido um certo
numero de doentes pobres de nacionalidade portuguesa atacados de doenças daquela natureza. Entre esses
estabelecimentos contava-se o hospital do sítio dos Marmeleiros, começado a construir em 1905 e
particularmente destinado aos indigentes e que por isso se ficou chamando Sanatório dos Pobres. O decreto
de 3 de Novembro de 1909 autorizou a rescisão do contrato feito entre o governo português e o príncipe de
Hohenlohe, sendo a este arbitrada a indemnização de 4.425 000 marcos acrescidos de 328.541 marcos
correspondentes ao juros decorridos.
O edifício dos Marmeleiros cuja construção não ficara de todo concluída, permaneceu ali ao mais completo
abandono e exposto a todas as intempéries, até que o governo central no acto mais louvável e mais
proveitoso de administração pública, o cedeu à Misericórdia do Funchal, para a instalação do seu hospital
pelos decretos de 9 e 29 de Março de 1928, sendo para ali transferidos os primeiros doentes no mês de
Novembro de 1930 e os restantes no ano seguinte. Procedeu-se então à inteira conclusão do edifício e á sua
conveniente adaptação àquele fim, sendo, no seu género, uma das primeiras casas hospitalares do país, não
só como uma instalação apropriada mas ainda pela maneira como ali se ministram todos os serviços
clínicos e de enfermagem.
Para esse fim, foi a Mesa Gerente da Santa Casa autorizada, pelo decreto de 17 de Janeiro de 1930, a
contrair um empréstimo de quinhentos contos de réis na Caixa Geral dos Depósitos, dando como garantia a
percentagem do adicional de 4% sôbre os impostos cobrados na alfândega do Funchal, que foi criado pelo
decreto de 28 de Novembro de 1927.
É de inteira justiça deixar aqui consignado que o mais assinalado beneficio recebido pela instituição da
Santa Casa da Misericórdia do Funchal no longo período de quatro séculos foi o da instalação do seu
hospital no edifício do Sanatório dos Marmeleiros e que esse inapreciável e nunca assaz louvado
melhoramento se deve principalmente aos diligentes esforços e á dedicação sem limites da Mesa Gerente
presidida pelo cónego Manuel Francisco Camacho, no período decorrido de 1930 a 1933.
Eram porém insuficientes as instalações hospitalares para o numero sempre crescente de doentes,
impondo-se urgentemente a ampliação do edifício e também a criação de novas receitas para melhorar a
situação económica daquela instituição de assistência.
A pesar das instantes diligências das respectivas Mesas Gerentes junto das estações superiores, foi
indispensável que o Dr. José Nosolini assumisse o cargo de governador civil deste distrito para se alcançar a
realização do grande beneficio da construção de algumas novas enfermarias, que pudessem acomodar mais
120 doentes e de três salas de operações, além de outros melhoramentos, verificando-se no dia 10 de Agosto
de 1940 a instalação solene desses novos serviços hospitalares.
Vid.
Misericórdias.
Hospital Militar
Há mais de um século, quando adoeciam as praças da guarnição militar da
Madeira eram recolhidas no Hospital da Santa Casa da Misericórdia desta cidade. Alegando carência de
recursos e falta de sala apropriada para manter uma enfermaria destinada especialmente a esse fim, a
direcção daquele estabelecimento ponderou, por mais de uma vez, ás estações superiores, a necessidade de
um pequeno hospital independente e separado do da Santa Casa e apenas sujeito ás autoridades militares
desta então província ultramarina. Por seu lado, os governadores e capitãis-generais apoiaram as propostas
da Santa Casa, e insistiram pela criação de uma modesta casa hospitalar.
Não se conhece o ano preciso da sua instalação, mas sabe-se que foi criado no período decorrido de 1820 a
1824. Do mês de Janeiro daquele ano existe um oficio enviado pelo governador e capitão-general Sebastião
Xavier Botelho ao governo da metrópole, insistindo por essa criação, e do ano de 1824 há conhecimento de
um documento oficial, contendo diversas referências respeitantes ao movimento do novo hospital, que teria
sido estabelecido pouco anteriormente ao citado ano de 1824.
Consta que foi primeiramente instalado num prédio urbano situado na rua do Castanheiro, conhecido pelo
nome de Casa de D. Guiomar, edifício de certa amplitude mas cuja construção não fora inteiramente
concluída e onde não teve uma larga permanência, passando depois a funcionar numa casa «á rua das
Mercês, acima da capela do mesmo nome», isto é nas proximidades do actual edifício em que se encontra o
estabelecimento de assistência publica denominado Auxilio Maternal.
Uma portaria, datada de 14 de Fevereiro de 1849, autorizou a mudança do hospital para a casa da rua da
Rochinha de Baixo com servidão para a rua de São Tiago, onde funcionou até o ano próximo passado de
1938, que era uma propriedade particular e que passara à posse da Fazenda Publica por falta do pagamento
das respectivas contribuições.
Aceita definitivamente a ideia do aproveitamento das diversas dependências do antigo hospital militar,
como sendo o local mais apropriado para a construção do edifício destinado à instalação do nosso liceu,
logo se empregaram as necessárias diligências para a aquisição do velho casarão da rua da Rochinha, que
para aquele fim foi cedido á Junta Geral deste distrito pelo decreto de 5 de Setembro de 1936, com a
faculdade desta corporação administrativa poder expropriar os terrenos circunjacentes, que se tornassem
indispensáveis para essa projectada edificação.
A Direcção Geral da Assistência Publica, por incumbência do Ministério da Guerra, propôs á provedoria da
Santa Casa da Misericórdia do Funchal o internamento, no Hospital dos Marmeleiros, das praças e oficiais
que carecessem de hospitalização, ao que a Mesa Gerente da mesma Santa Casa prontamente acedeu
mediante o cumprimento de certas clausulas, que foram aceitas por aquela Direcção Geral de Assistência
Publica.
Nos meses de Setembro e Outubro de 1938, em virtude da correspondência oficial trocada entre o Comando
Militar da Madeira e a Mesa Gerente da Santa Casa da Misericórdia, ficaram definitivamente assentes as
condições da admissão de doentes da guarnição militar desta ilha no Hospital dos Marmeleiros, tendo os
primeiros doentes dado ali entrada no dia 22 de Novembro daquele ano.
Hospital Velho (Rua do)
Estende-se da praça dos Lavradores até entestar com o limite sul da rua
da Rochinha e com a travessa do Arciprestre. É das mais antigas ruas do Funchal e teve em outros tempos o
nome de Diogo Afonso. A sua denominação provém de nela ter permanecido durante longos anos o hospital
de Santa Isabel, anteriormente à sua instalação no edifício onde actualmente se encontra. Também teve
depois o nome de rua de Santo António, que ainda hoje para muitos conserva, por ali se haver construído
uma capela daquela invocação, cujas ruínas se encontram no lado sul da mesma rua. Contígua ao hospital
ficava a antiga igreja paroquial da freguesia de Santa Maria Maior.
Hughes (T. M.)
Poeta inglês que visitou a Madeira em 1845, e autor da Ocean Flower, poema em dez
cantos, precedido de um resumido estudo histórico e descritivo sobre a ilha e de um esboço de literatura
portuguesa.
O poeta Hughes é um dos poucos ingleses que consideram a historia de Machim e Ana de Arfet como pura
invenção, «provavelmente originada das íntimas relações entre Portugal e a Inglaterra.. «Bem quizera eu,
diz o poeta, não devassar a tocante ficção (de Machim); poucas fabulas ha tão poéticas como essa legenda de
que ora trato: porém, mau grado meu, só lhe acho a frágil base da vaga tradição; tal que, demorando-me
com acuradas investigações por três dias em Machico, não alcancei envergar ali o mínimo vestígio
confirmativo da realidade do caso».
Eça (João Fogaça de)
Sob o jugo castelhano foi governador geral da Madeira João Fogaça de Eça,
cuja nomeação data de 14 de Agosto de 1603.
Iceria (Icerya Purchasi)
Insecto da ordem dos hemipteros, assinalado pela primeira vez no Funchal
há cerca de 40 anos e que já foi encontrado também em S. Vicente e noutras localidades da ilha. Vive em
muitas espécies florestais e frutíferas, assim como em varias plantas de jardim.
A Vedalia cardinalis muito semelhante ao pequeno insecto conhecido na Madeira pela denominação de rã-
rã, é o pior inimigo da iceria, convindo portanto distribui-la pelas árvores atacadas por este hemiptero. A
Vedalia faz a postura dentro do saco dos ovos da iceria, servindo as larvas desta de alimento ás daquela, á
medida que vão aparecendo.
Cada fêmea da iceria pode pôr 1000 ovos ou mesmo mais, os quais ficam dentro dum saco de matéria
cerosa segregada por ela e deposta em filamentos juxtapostos lateralmente.
Ideia (A)
Saíram quatro números deste periódico, de 11 a 30 de Novembro de 1902.
Ielinek
Escreveu, de colaboração com o Barão de Castelo de Paiva, o trabalho seguinte: Reise S. Magestat
Fregate «Novara» um die Erde (Botanischer Theil I. Wien ).
Vid.
Novara.
Igreja
Neste sítio da freguesia de Nossa Senhora do Monte encontram-se a igreja paroquial deste orago,
onde se acha sepultado o imperador Carlos da Áustria falecido na quinta do Monte a 1 de Abril de 1922, e a
capela de Nossa Senhora da Conceição, fundada há poucos anos pelo capitão José Sotero da Silva e hoje
propriedade de José de Freitas Belmonte.
Igreja
Vid. Achada, I-II.
Igreja
Em o sítio deste nome da freguesia da Quinta Grande, na quinta do Pombal, encontra-se a capela de
Santo António, mandada edificar pelo padre António Silvino Gonçalves de Andrade no ano de 1884, de que
é actual proprietário o Dr. João Francisco de Almada.
Igreja Velha
Na freguesia de São Roque do Funchal acha-se um sítio deste nome e até existiu uma
antiga capela dedicada a S. Roque, que serviu de igreja paroquial desde 1579 a 1790, ano em que se
desmoronou, encontrando-se já então em adiantado estado de ruína.
Igrejas Inglesas
O terreno onde está a igreja anglicana da rua da Bela Vista foi comprado pela
Feitoria Inglesa em 1810, por 5.435 dólares. Alguns anos mais tarde adquiriu a mesma Feitoria por 840
dólares, um outro terreno situado na mesma rua e contíguo àquele. A igreja ficou concluída em Março de
1822, tendo custado 40:000 dollares, importância esta que foi obtida por meio de subscrições e pela
contribuição voluntária de 2 xelins e 6 dinheiros por cada pipa de vinho exportada pelos negociantes
ingleses.
Em 1848 estabeleceu-se na rua dos Aranhas uma outra igreja anglicana, da qual foi capelão o botânico
Ricardo Tomás Lowe. Divergências havidas por questões religiosas entre os súbditos ingleses residentes na
Madeira, deram lugar à abertura daquela igreja, onde durante 33 anos houve serviço religioso. A igreja
escocesa, aberta em 1842 numa casa á travessa do Surdo, tem hoje edifício seu na rua do Conselheiro, junto
do Jardim Municipal.
Igrejinha (Rua da)
(Rua da)
Tinha por limites o largo do Colégio e a rua das Pretas. Na extremidade dela, no
sítio onde está hoje o largo da Igrejinha, ficava a capela de Nossa Senhora da Piedade, ou, como
vulgarmente se dizia, a Igrejinha fundada em 1613 por Domingos Rodrigues Garcez e demolida pela Câmara
em 1836.
Ilha
Sítio povoado da freguesia de S. Jorge. Houve ali uma pequena capela da invocação de Nª. Sª. da
Piedade, construída no ultimo quartel do século XVIII pelo padre Matias Jorge Jardim. Fazia este sítio
parte de um morgadio instituído por Jorge Pinto, em 1559, de que foi ultimo administrador o açoreano
Laureano da Câmara Falcão, chamado o morgado da Ilha, que há algumas dezenas de anos vendeu estas
terras aos respectivos caseiros. O nome dado a este sítio provém da circunstancia de ser rodeado pela
ribeira que, bifurcando-se, se torna a ajuntar-se num mesmo ponto.
Ilha da Madeira
Deu quatro números este periódico, sendo o primeiro a 7 de Setembro e o ultimo a
3 de Outubro de 1878.
Ilhéu
É entre nós conhecido por este nome o ilhéu que fica situado no extremo e a oeste do porto do
Funchal e que hoje (1921) constitui um dos limites do molhe ou porto de abrigo da Pontinha. Nele se achava
a pequena fortaleza de Nossa Senhora da Conceição do ilhéu, um farol de luz vermelha, ele indicava a
entrada do porto, e um posto semafórico. Tem sido reproduzido pela gravura em inúmeras obras nacionais
e estrangeiras, em muitas revistas, em bilhetes postais, etc., e também figura frequentemente como
composição nos embutidos madeirenses, em caixas de costura e outros produtos de marcenaria local.
Referindo-se á primeira exploração através da costa marítima, feita pelos descobridores, diz Gaspar
Frutuoso: «no cabo do qual (o vale do Funchal) estão dous ilhéus, onde se foram abrigar por ser já tarde».
Os dois ilhéus eram o que actualmente se chama Ilhéu embora hoje ligado á terra por meio do molhe, e o
que deixou de ter esse nome quando se construiu o pequeno forte de S. João da Pontinha, nos fins do século
XVIII, e que desde então ficou também em ligação com a terra. Quem conhece o local, sabe que os dois
pequenos ilhéus se encontravam a curta distancia um do outro.
Francisco Manuel de Melo nas suas
Epanaphoras de Varia Historia Portuguesa
, em que se ocupa da
suposta historia de Machim, faz umas erróneas referências a estes ilhéus, ás quais o ilustre anotador das
Saudades contrapõe as seguintes palavras:
«Corre parelhas com esta a não menor ficção, no seu tanto, de que Zargo «tomou água e lenha» nos dois
ilhéus, que, no dizer pittoresco de Melo, são os guardaventos do porto do Funchal. Desses dois ilhéus, o
mais ao mar, é ainda agora insulado nas águas como dantes (era em 1873), pelo qual conserva o nome Ilheo;
o outro desde muitos tempos ligado ao litoral da ilha por fortes paredões, tem, por isso, a denominação de
Pontinha: ambos são escalvados penhascos, açoitados e varridos pelas vagas nas levadias e tempestades do
quadrante do sul, infelizmente não raras nesta paragem; ambos, por isso, só teem a vegetação do limo e
musgo marítimos; ambos são sem nascente alguma de água potável; ambos, inabaláveis testemunhas a
deporem com a sua eterna nudez contra a afirmativa de terem eles dado água e lenha a Zargo e seus
companheiros».
Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu foi construída por meados do século XVII (V.
Fortificações
) e a respectiva capela foi mandada edificar por alvará régio de 9 de Novembro de 1682, tendo
seu capelão privativo. V.
Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu (Capela de
).
O farolim do ilhéu começou a funcionar a 18 de Maio de 1866 (V.
Faróis
).
Em 1890 ficou o ilhéu definitivamente ligado ao litoral por meio de um quebra-mar que une aqueles dois
pontos e que constitui a parte mais considerável do molhe da Pontinha.
Vid.
Chão (Ilhéu
), 1-269 e
Deserta Grande
e
Desertas
, 1-356 e 357.
Ilhéu Chão
Tem 1,852 metros de comprido por 617 na maior largura, e é assim chamado, por ser plano no
alto. É desabitado, como as outras duas Desertas, e o seu ponto mais elevado está a 98 metros acima do
nível do mar. Está separado da Ponta de S. Lourenço por um canal de pouco mais de vinte quilómetros de
largo, pelo qual navegam navios de todo o lote.
O Lolium Lowei, graminea peculiar do arquipelago, só tem sido achado, até o presente, no Ilhéu Chão.
As três Desertas «todas são morgado dos Capitães da Jurisdição do Funchal, diz Frutuoso, por onde se pode
colegir deverse a eles a glória deste descobrimento; pois, com estas ilhas jazerem defronte de Machico, e
muito perto delle em comparação do Funchal, todavia nunca os capitães de Machico tiveram jurisdição,
posse ou propriedade nellas, que todas são dos Capitães do Funchal: pela qual rasão, seus descendentes se
intitulão senhores dellas, como já tenho dito».
Ilhéu de Baixo
Vid. Baixo (Ilhéu de), I-116.
Ilhéu de Cima
Vid. Cima (Ilhéu de), 1-272.
Ilhéu de Fora
Vid. Fora (Ilhéu de), II-42.
Ilhéus
Os principais ilhéus adjacentes ao litoral da Madeira são, na costa meridional: Agostinho,
Desembarcadouros e de Fora (Ponta de S. Lourenço), Santa Catarina (Santa Cruz), Ilhéu (baía do Funchal),
Gorgulho e Praia (São Martinho), Campanário ou Lapa (Campanário), Guincho, (Ponta do Pargo); e na
costa setentrional os do Porto do Moniz chamados Mole e Negro (Porto do Moniz), os da Ribeira da Janela
(Ribeira da Janela), os do Seixal, conhecidos pelos nomes de Ceroulas e Guincho, (Seixal), os da Boaventura
ou Preto e Vermelho (Boaventura). São Jorge (São Jorge), Rocha do Navio (Sant'ana), os do Faial, sendo o
principal o do Faial (Faial), e Porto da Cruz (Porto da Cruz). Vid. estes nomes.
Os principais ilhéus, que, a não grande distancia da costa, rodeiam a ilha do Porto Santo são estes: o das
Cenouras, o de Baixo ou da Cal, o de Cima ou dos Dragoeiros e hoje chamado também do Farol, o de Fora
ou Rocha do Nordeste, o da Fonte ou Fonte da Areia e o de Ferro (V. cada um destes nomes).
No grupo das Desertas encontra-se o ilhéu do Furilhão ou Prego do Mar (V. estes nomes), também
conhecido pelo nome de ilhéu do Navio.
Iluminação Pública
Quem, há pouco mais de noventa anos percorresse, pela noite, as ruas do
Funchal, encontrava-as envolvidas em completa escuridão. De longe em longe, um traço de luz coado pelas
vidraças das habitações ou uma lanterna guiando algum transeunte noctívago, vinham quebrar
momentaneamente as trevas em que a cidade se achava sepultada.
O benemérito conselheiro José Silvestre Ribeiro tomou posse do cargo de governador civil a 7 de Outubro
de 1846 e logo a 23 do mesmo mês mandou colocar alguns candeeiros, embora poucos, nos pontos mais
centrais da cidade. Estava iniciado o grande melhoramento da iluminação publica do Funchal.
Os particulares vieram em auxilio da iniciativa do ilustre governador, e algumas das pessoas mais abastadas
fizeram também colocar candieiros nos prédios que habitavam. Em Dezembro daquele ano já a cidade
contava algumas dezenas de focos de iluminação publica. Só mais tarde, á força de instâncias de Silvestre
Ribeiro, é que a Câmara Municipal tomou a deliberação de alargar a área da iluminação e tomar a si os
encargos daquele importante serviço. O mesmo governador comunicava ao governo central, a 22 de Agosto
de 1849, que esta cidade se achava iluminada com 70 candieiros, esperando que esse numero fosse
gradualmente aumentado.
A iluminação foi alimentada a azeite até o ano de 1870, passando pouco depois a ser a petróleo até a
instalação da luz eléctrica.
Da extremidade de umas hastes de ferro horizontais, de pouco mais de um metro de comprimento, pendiam
os candeeiros, sendo os mais antigos amarrados a uma corrente, que, ao longo da haste e da parede, se
vinha prender numa fechadura que era aberta para fazer subir ou descer o deposito do combustível e assim
proceder-se á sua limpeza e também acender-se ou apagar-se o candeeiro. Depois passaram a estar fixos na
extremidade de varas de ferro, sendo preciso o auxilio de escadas para todo o serviço de iluminação.
Silvestre Ribeiro ainda fez varias tentativas para iluminar a cidade a gás, mas resultaram inúteis os seus
esforços e diligências. Na sessão camarária de 14 de Julho de 1858 tomaram-se nesse sentido algumas
deliberações, que não foram coroadas de melhor êxito. Chegou a abrir-se um concurso, cujas bases foram
publicadas num opúsculo, mas sem resultado algum apreciável.
A 4 de Janeiro de 1884 a Câmara do Funchal fez um contrato com o engenheiro Eduardo Augusto Kopke
para a iluminação do Funchal a gás, podendo ser substituída pela luz eléctrica, contrato que não chegou a
ter execução.
A 22 de Maio de 1895 realizou-se novo contrato entre o mesmo engenheiro e a Câmara Municipal desta
cidade para a iluminação a luz eléctrica, que ainda está em vigor, e em 20 de Abril de 1896 transferiu A.
Kopke para «The Madeira Electric Lighting Company Limited», a concessão que lhe havia sido feita, tendo
esta transferência sido autorizada pela Camara, em sessão de 25 de Maio de 1896.
A inauguração da luz eléctrica na cidade do Funchal teve logar em 19 de Maio de 1897, e em 28 de
Dezembro do ano imediato funcionavam já as 500 lâmpadas e os 8 arcos voltaicos mencionados no artigo
4.° do contrato, tendo esta ultima data sido considerada como termo do prazo de 24 meses fixado á mesma
companhia para a instalação das luzes destinadas á iluminação publica.
Em 5 de Janeiro de 1899 aprovou a Câmara Municipal uma proposta para ser elevado de 500 a 701 o
numero de lâmpadas da iluminação publica, existindo presentemente em toda a cidade e subúrbios 14 arcos
voltaicos e 1400 lâmpadas, e estendendo-se a mesma iluminação até o Lazareto, quinta Reid, no Caminho
do Meio, Conceição, em S. Roque, Quinta do Leme, em Santo António, Nazaré em São Martinho, e
Confeiteira, no Monte.
Em 1821 tentou a Câmara Municipal do Funchal estabelecer a iluminação publica na cidade, tendo resolvido
em sessão de 26 de Fevereiro «fazer colocar 1, 2 ou 3 lanternas em cada rua, e devendo os moradores
concorrer alternadamente com as despesas para a mesma iluminação».
Em fins de Fevereiro de 1821 apareceram iluminadas algumas ruas da cidade, mas este melhoramento teve
curta duração, a pesar da sua utilidade.
Imaculado Coração de Maria (Capela do)
Em 1918 se começou a construir uma capela desta invocação
no sítio da Fajã do Penedo, da freguesia da Boaventura, devido á iniciativa e aturados esforços de D. Maria
Margarida dos Anjos Ribeiro, que reside no mesmo sítio. Foi solenemente benzida e com notável brilho, a
23 de Agosto de 1919, pelo prelado diocesano D. António Manuel Pereira Ribeiro.
Imparcial (0)
Começou este jornal a publicar-se a 14 de Abril de 1840 e suspendeu a 20 de Junho de
1846, tendo saído 300 números.
Com o mesmo título se publicou outro jornal, que deu 40 números, desde 8 de Julho a 21 de Novembro de
1889.
Saiu um jornal com igual título a 3 de Dezembro de 1916, dando porém poucos números.
Imperador
V. Castanheta do alto.
Importações e Exportações
A ilha da Madeira importa cereais, tecidos de lã, linho e algodão,
azeite, petróleo, sal, enxofre, géneros de mercearia e de botequim, aduela, adubos químicos, louças, vidros,
tabaco, material mecânico, obra de cutelaria, etc., e exporta vinho, açúcar, bordados, obra de verga,
manteiga, ovos, cebolas, frutos, etc.. Reexporta carvão de pedra.
Os valores das importações, exportações e reexportações pela Alfândega do Funchal, no ano de 1908, foram
respectivamente de 2.012:000$00, 750:000$00 e 1.215:000$00.
Uma verba importante que figura nas importações, é a do carvão de pedra, produto este destinado
especialmente ao abastecimento dos navios a vapor que frequentam o nosso porto. No referido ano de 1908
importaram-se 167.682.031 toneladas de carvão e reexportaram-se 150.617.881.
V.
Alfândegas.
Imprensa (A )
Publicaram-se trinta e sete números deste jornal, desde 24 de Julho de 1862 a 29 de
Novembro de 1863. Foi seu redactor Alipio Augusto Ferreira.
Imprensa Livre (A )
Deu noventa e um números, tendo saído o primeiro a 29 de Agosto de 1868 e
o ultimo a 24 de Dezembro de 1870. Foi seu redactor o Dr. José Leite Monteiro.
Incêndios (Extinção de)
O serviço municipal da extinção de incêndios na cidade foi iniciado em
1837, tendo a Câmara dispendido com a aquisição de uma bomba mandada vir de Londres por intermédio
da casa de João de Oliveira & C.ª, a quantia de 460$000 réis.
Antes de 1837, eram as bombas pertencentes a alguns particulares, que se empregavam na extinção dos
incêndios, tendo os condutores das mesmas sido isentos de servir na guarda nacional, a fim de se poder
contar com o seu auxilio nas ocasiões precisas.
O serviço da extinção de incêndios só em 1889 é gue principiou a ser bem desempenhado, devido á criação
da Companhia de Bombeiros Voluntários do Funchal. Antes disso, cometiam-se os maiores desatinos em
ocasiões de incêndios, chegando-se a lançar espelhos e loiças das janelas dos prédios atingidos pelo fogo,
para obstar a que este os destruísse!
Em Agosto de 1878, por ocasião dum incêndio que se manifestou num prédio á rua da Alfândega, onde
estavam instaladas a padaria e a confeitaria do inglês Payne, foram tantos os vidros e loiças atirados á rua,
que houve quem supusesse terem os prejuízos causados pelo homem, no mesmo prédio, sido mais
avultados do que os causados pelo fogo.
No fim do volume ou em suplemento a esta obra, daremos uma noticia mais circunstanciada acerca dos
melhoramentos introduzidos no serviço dos incêndios e em especial nos havemos de referir às corporações
de Bombeiros Voluntários e Municipais, que nesta cidade se têm organizado para esse fim.
Incêndios nas Matas
Dos muitos incêndios que tem havido nas matas da ilha da Madeira, os mais
importantes são incontestavelmente os dois de que fazemos aqui menção:
Incêndio no tempo de Zargo. O incêndio das matas da Madeira no tempo de Zargo, o primeiro donatário do
Funchal, é um acontecimento a que se referem João de Barros, Frutuoso, Antonio Cordeiro, Manuel Tomás
e outros autores, e que também foi perpetuado pela tradição. Refere Ferdinand Denis que um antigo
viajante francês conheceu um velho marinheiro a quem uma testemunha ocular contara o incêndio da ilha
da Madeira, e segundo o erudito anotador das Saudades da Terra, no Arquivo da Torre do Tombo,
Livro das
Ilhas
, folhas 84, está a pública-forma de um breve apostolico do Pontífice Paulo II, com data de 1469, em
que manifestamente se alude ao mesmo incêndio.
Gaspar Frutuoso, o historiador das ilhas, dá conta nos termos seguintes, do incêndio no sertão da Madeira:
«Daqui acordou o capitam (João Gonçalves Zargo), vendo que se não podia com o trabalho dos homens
desfazer tanto arvoredo que estava nesta ilha desde o princípio do mundo ou da feitura della, e para o
consumir, e se lavrarem as terras e aproveitar-se dellas era necessário por-lhe o fogo; e como quer que, com
o muito arvoredo e pela muita antiguidade, estava delle derribado pelo chão, e delle seco em pee, apegou o
fogo de maneira neste valle do Funchal, que era tão bravo que, quando ventava de sobre a terra, não se
podia soffrer a chama e quentura delle, e muitas vezes se acolhia a gente aos ilhéus e aos navios até o tempo
se mudar; e, por ser o valle muito espesso assi de muito funcho, como de arvoredo, atiou-se de maneira o
fogo, que andou sete anos apegado pelas árvores, e troncos e raizes debaixo do chão, que se não podia
apagar, e fez grande destruição na madeira assi no Funchal, como em o mais da ilha ao longo do mar na
costa da banda do sul, onde se determinou roçar e aproveitar».
D. Francisco Manuel de Melo, referindo-se ao incendio da Madeira, diz na Epanaphora III o seguinte: «He
força que duvide do incêndio que (Barros) affirma durou sete anos por toda a ilha. Ao que, parece, implicão
os bosques que sempre nella permanecerão, dos quaes ha tantos anos, se cortão madeiras, para fabrica de
assucares: de que dizem chegou a haver na Ilha, cento & cincoenta ingenhos; que mal poderião
continuamente sustentarse, depois de hum incêndio tão universal, & menos produzir-se depois delle: mas
fique sempre salvo o credito de tal Autor».
Os argumentos de Melo têm um certo valor para mostrar que o incêndio da Madeira nem durou sete anos,
nem se estendeu a todos os pontos da ilha, havendo ainda a acrescentar que se ele tivesse sido geral, como
pretendem alguns escritores, não poderia Cadamosto, que também se refere ao sinistro, dizer em 1455 (?)
que o nosso país produzia madeiras muito apreciadas, entre as quais sobressaíam o cedro e o teixo. É ainda
de advertir que para o fogo durar sete anos consecutivos em matas constituídas especialmente por essências
folhosas seria preciso que durante esse longo espaço de tempo não caíssem na ilha nenhum desses violentos
aguaceiros que, ainda hoje, a pesar das chuvas serem muito menos abundantes do que outrora, inundam os
vales do interior e dão origem a torrentes que se despenham em catadupas do alto das serranias.
Não padece duvida que muitas matas do vale do Funchal e de outros pontos da costa sul da ilha foram
destruídas pelo fogo, mandado lançar imprudentemente por João Gonçalves Zargo para o fim de arrotear as
terras, mas admitir que esse fogo, ateando-se rapidamente e saltando de arvore em arvore, chegou a atingir
toda a ilha, parece-nos fantasia própria da imaginação opulenta de Manuel Tomás e de outros antigos
escritores. Do trecho das Saudades da Terra que deixámos transcrito, não se depreende que o incendio fosse
geral, e João de Barros, o primeiro historiador que noticiou o sinistro, circunscreve-o á parte da ilha da
Madeira «onde se ora chama Funchal», acrescentando, porém, «que o fogo tomou posse da roça & do mais
aruoredo, que sete anos andou viuo no brauio daquellas grandes matas que a natureza tinha criado auia
tantas centenas de anos».
Diz o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo que tendo sido a parte sul da ilha «precisamente a cultivada e
habitada logo depois do descobrimento, é possivel, não só que ahi fossem pouco a pouco roteados os
terrenos por meio de incendio das matas virgens, systema que ainda hoje, por falta de braços, por outras
rasões agricolas e economicas, e por necessidade de momento, se emprega nos sertões americanos, mas
tambem que a estes roteamentos pelo fogo se fosse recorrendo nos septe primeiros annos, sem que disso
poucos tempos depois se achassem resquicios. O sul da ilha da Madeira foi o primeiro explorado e habitado,
e é a zona mais productiva. Curto periodo fôra preciso para que o trabalho do homem ahi extinguisse os
signais de devastação. E limitado o incendio a uma parte da ilha somente, os argumentos em contrario
perdem a força. Mello mesmo duvida não tanto do incendio, quanto de que este fosse tão universal».
Reduzido o sinistro ás proporções que lhe atribue o dr. Azevedo, não há motivo para que deixemos de
aceitá-lo como verdade historica, tanto mais que, como diz o mesmo escritor, ele se acha autenticado pela
clara alusão do Breve Apostolico, que é quasi contemporaneo. Foi um êrro, não resta duvida, mandar lançar
fogo aos arvoredos, em vez de os decepar a machado, mas desse erro não resultou felizmente o completo
aniquilamento das mesmas matas, como já atrás se viu.
O incêndio fez crescer a fertilidade do solo madeirense, que era ainda maravilhosa ao tempo em que
Cadamosto visitou esta ilha, mas não mereceu a aprovação do infante D. Henrique, que nos primeiros
tempos da povoação tirava, segundo parece, das madeiras que eram levadas para Portugal, um rendimento
considerável.
Refere Frutuoso que na ilha havia tanta quantidade de madeira tão fermosa e rija, que levavam para muitas
partes copia de taboas, traves, mastros, que tudo se serrava com engenhos ou serras d'agua, dos quaes ainda
hoje ha muitos da banda do norte da mesma ilha: e neste tempo, pela muita madeira que dahi levavam para
o Reyno, se começara com ella a fazer navios de gavea e castello d'avante, porque dantes não os havia no
Reyno, nem tinham para onde navegar, nem havia mais navios que caravellas do Algarve, e barineis em
Lisboa e no Porto».
Azurara, tratando das vantagens que resultaram dos descobrimentos devidos á iniciativa do infante D.
Henrique, menciona «as grandes alturas das casas que se vão ao ceo, que se fizeram e fazem com a madeira
daquellas partes». Ao que o visconde de Santarém acrescenta a seguinte nota, que é transcrita por Pinheiro
Chagas na sua
Historia de Portugal
:
«Esta interessante particularidade indica que a Madeira transportada a Portugal das ilhas novamente
descobertas pelo infante D. Henrique, principalmente da ilha da Madeira, fôra em tanta quantidade, que a
sua abundancia fizera mudar o systema de construcção dos predios urbanos, augmentando os andares,
elevando assim as casas, substituindo-o por esta sorte ao romano e arabe, que até então provavelmente se
usara. Esta probabilidade adquire maior pêso á vista do systema de illuminação de Lisboa, ordenado por el-
rei D. Fernando, como consta duns documentos do cartorio da camara de Lisboa».
Azurara, extremamente laconico em tudo quanto diz respeito ás ilhas, nada diz na Chronica do
Descobrimento da Guiné acerca do incêndio da Madeira, mas do que ele aponta sôbre a altura das casas,
pode deduzir-se que por mais duradouro e extenso que fosse o mesmo incêndio, ficou ainda o arvoredo
suficiente para a ilha poder exportar grande copia de madeiras para Portugal.
Incêndio em 1919. Depois do incêndio das matas da Madeira, ocorrido durante a vida de Gonçalves Zargo, o
que maiores proporções atingiu e mais danos causou é incontestavelmente o do mês de Agosto de 1919,
ateado por mãos criminosas. Durante oito dias se trabalhou vigorosamente na extinção do referido
incêndio, que tendo principiado no dia 21, na parte ocidental da Madeira, se alastrou depois rapidamente a
outras localidades da ilha mas o vento extraordinariamente seco e quente, a que os naturais chamam leste e
que soprou com desusada violência desde o referido dia até 27 de Agosto, veio inutilizar muitas vezes os
esforços daqueles que, com a maior coragem e dedicação, procuravam, sob uma atmosfera de fogo, obstar
ao avanço do terrível elemento destruidor. Por varias vezes se receou que os incêndios atingissem os
povoados, alguns dos quais, como é sabido, ficam situados perto da região média da ilha, mas felizmente
pôde isso ser evitado, a pesar do vento ter contrariado bastante os trabalhos tendentes a localizar as
devastações do fogo. Na região alta, alguns pequenos prédios foram devorados pelas chamas, e
desapareceram muitos gados e ficaram inutilizadas muitas culturas, mas não se registaram desastres
pessoais importantes, embora alguns indivíduos se ferissem ligeiramente nos trabalhos da extinção dos
incêndios. Nos dias 28 e 29 de Agosto caíram algumas chuvas nas serras, que bastante concorreram para
extinguir totalmente os incêndios que nos dias anteriores haviam aniquilado muitas das nossas mais belas
matas, causando em toda a ilha prejuízos superiores a 2:000 contos.
No concelho do Porto do Moniz sofreram bastante as matas da parte da Ribeira da Janela e do Fanal; no de
S. Vicente, as da beira do Paul, da Lombada das Vacas, do Lombo da Palha e da serra da Ponta Delgada; no
de Sant'Ana, as do Arco de S. Jorge e do Faial; no de Machico, as do Pico da Suna e dos Lamaceiros; no do
Funchal, as de S. Roque e do Monte; no de Câmara de Lobos, as do Ribeiro Garcia e Fontainhas; no da
Ribeira Brava, as da Serra de Água; e no da Calheta, as da Lombada Gorda, da Ribeira dos Moinhos, do
Rabaçal e da beira do Paul da Serra.
No Rabaçal, nesse sítio que os viajantes percorrem com entusiasmo, pelas soberbas paisagens que dele se
disfrutam, os prejuízos não foram gerais, e as casas nada sofreram, devido ao esforço e dedicação
empregados para salvá-las. No Monte e em S. Roque o incêndio tomou proporções verdadeiramente
assustadoras, abrangendo uma área de alguns quilómetros e ameaçando destruir um grande numero de
habitações, e na Bica da Cana, no Paul da Serra, ficaram muito danificadas as plantações mandadas fazer aí
pela Junta Agrícola.
Na grave conjuntura que a ilha atravessou, prestaram bons serviços o Governador Civil, general Simões
Soares, o Comandante Militar, coronel Veiga, o Regente Silvícola Schiappa de Azevedo, o pessoal florestal e
varias forças de infantaria 27, tendo todos dentro dos limites das suas atribuições, trabalhado com
perseverança e empregado os meios possíveis para a localização e extinção dos incêndios. No que houve
pouco zelo e energia foi em procurar os incendiários e entrega-los ao poder judicial, a fim de serem
castigados sem contemplação, sendo a benevolência com que sempre têm sido tratados os inimigos das
nossas matas, a principal causa do desnudamento das montanhas e da ilha ter sofrido por diferentes vezes
os estragos causados pelas torrentes e aluviões.
Incenso
V. Árvore do Incenso.
Inclinação Magnética.
Foi medida por A. P. de Azevedo e Soulier de Sauve, a 25 de Abril de 1839, e
pelo mesmo A. P. de Azevedo e os oficiais do Rattermaker, a 20 de Dezembro de 1846. As primeiras
observações feitas na Praça Académica com a bússola de Gambey, acusaram a inclinação de 59° 30; as
segundas, feitas no adro do Colégio com o «Fox's Dipping» e o «Intensity Instrument», deram a inclinação
de 60º 40.
Em 4 de Fevereiro de 1872 e 17 de Julho de 1873, acharam os oficiais da Challenger, respectivamente, a
inclinação 56° 14' 1 N. e 55° 12 5 N.. Mais recentemente, achou o distinto meteorologista açoreano, Sr.
coronel Francisco Afonso Chaves, as seguintes inclinações magnéticas: 54° 32' 5 N., em 22 de Junho de
1903, e 54° 22'7 N., em 4 de Junho de 1906. Todas estas observações foram realizadas na parada do quartel
do Colégio, tendo-se servido o Sr. coronel Chaves da bússola Abbadie-Brunner para o conhecimento da
inclinação.
Independente (O)
(O)
A 20 de Agosto de 1846 saiu o primeiro numero deste jornal e o ultimo a 15 de
Maio de 1847, tendo-se publicado trinta e seis números.
Com o mesmo título publicaram-se oito números de um jornal, que durou de 22 de Julho a 20 de Agosto de
1881.
Houve um terceiro jornal com o mesmo título, que teve pouca duração, tendo saído o primeiro numero a 19
de Agosto de 1915.
Indumentária
O vestuário do camponês da Madeira nada oferece hoje de extraordinário, pois
consiste geralmente numas calças de linho, seriguilha, marafuz ou qualquer outro tecido, numa camisa de
linho ou algodão e num colete e casaco feito muitas vezes do mesmo tecido das calças. Nalgumas partes da
ilha está muito em uso um casaco de marafuz ou seriguilha, sem mangas, ficando os braços cobertos apenas
pelas mangas da camisa. 0 agricultor enquanto trabalha despe de ordinário o colete e o casaco, mas
conserva o chapéu ou o barrete, que lhe protegem a cabeça contra os ardores do sol.
O barrete do camponês não tem semelhança alguma com as antigas carapuças; é feito de lã, adapta-se bem
à cabeça e tem no alto uma pequena borla e nos lados dois apêndices que, ou se deixam cair sobre as
orelhas, ou se levantam, prendendo-se ás vezes num botão. Este barrete, a que chamam de orelhas, parece
ser criação madeirense e já era usado em 1857.
Os antigos trajos das mulheres dos campos quasi que desapareceram, tendo sido substituídos por vestidos e
corpetes ou polcas de chita ou lã, perfeitamente idênticos aos que usam as mulheres das classes baixas do
Funchal. Na Camacha e nalgumas outras localidades as mulheres amarram na cintura um rolo de pano e
vestem sobre ele varias saias, do que resulta as ancas tomarem uma forma arredondada e o vestido, que é
um tanto curto, mover-se de um para outro lado, durante as marchas. Este movimento não é destituído de
graça quando a mulher é alta e elegante, e anda com passo desembaraçado.
O lenço, cujas pontas são amarradas sob o queixo, é a cobertura da cabeça mais usada pelas camponesas,
mas freguesias há onde o uso da mantilha e do chapéu tende a generalizar-se sobretudo entre as mulheres
que vêm frequentes vezes ao Funchal. Um chale lançado sôbre as costas, completa muitas vezes o vestuário
da mulher dos nossos campos.
Os antigos trajos dos nossos camponeses eram incontestavelmente muito mais engraçados e pitorescos que
os actuais. Umas calças largas de linho terminando nos joelhos, onde eram franzidas, e uma camisa e uma
jaqueta do mesmo pano constituíam o vestuário dos homens ao passo que as mulheres vestiam saia listada
de um tecido de linho e lã, fabricado na ilha, camisa de linho e capa de baeta azul ou encarnada, descendo
até baixo da cintura, tendo a mesma capa recortes agudos, debruados ás vezes de fita. Muitos homens
possuíam casacos ou capotes de lã grosseira, com que se cobriam em dias de frio.
Para os dias festivos tinham os homens os seus jalecos e casacos de fazenda azul, e as mulheres lindos
coletes ou espartilhos de cores vistosas, ás vezes engenhosamente bordados, que vestiam sôbre as camisas.
Homens e mulheres abotoavam as camisas de fino linho com botões amarelos, ás vezes de oiro, e cobriam a
cabeça com um pequeno barrete de pano azul (carapuça), forrado de encarnado, o qual apresentava a forma
de um funil invertido. As mulheres abastadas reconheciam-se pelos cordões de ouro com que se enfeitavam,
os quais depois de darem duas voltas em torno do pescoço, vinham prender-se na parte inferior do
espartilho.
É de crer que as saias listadas e os espartilhos bordados procedessem de antigos trajos mouriscos, tanto
mais que se sabe que houve outrora muitos mouros, principalmente no Funchal e Ponta do Sol, mas pelo
que respeita á carapuça, difícil é conjecturar qual fosse a sua origem, se bem que White nos diga que
nalguns quadros de Rubens se vê na cabeça das senhoras um objecto muito semelhante a esse antigo
barrete madeirense. A carapuça protegia tão mal a cabeça, que causa admiração que o povo a usasse nesta
ilha.
Sloane, Ovington, o capitão Cook, Forster e Barrow não aludem á carapuça nas relações das suas viagens, o
que nos leva a crer que esse barrete só no primeiro quartel do século XIX principiou a ser usado na Madeira.
Paulo Dias de Almeida na sua Descrição da ilha da Madeira, escrita em 1817 e publicada no
Archivo da
Marinha e Ultramar
, apresenta duas estampas em que figuram as carapuças, mas sem as longas pontas que
davam a estes barretes a forma de funis invertidos.
Antes de conhecerem a carapuça em forma de funil, usavam os camponeses um barrete de lã encarnada ou
azul, cuja forma se pode ver na estampa que acompanha a obra sôbre o clima da Madeira, publicada pelo
Dr. Nicolau Caetano Pita em 1812. Este barrete ajustava-se á cabeça e era por certo muito mais cómodo do
que a carapuça terminada em ponta, que pouco depois se generalizou na ilha.
Diogo Vieira de Tovar e Albuquerque num trabalho inédito escrito em 1807 e que tem por título Descripçâo
política e económica da ilha da Madeira, diz-nos o seguinte com respeito aos trajos usados na ilha: «Os
homens de trabalho vestem sempre uma carapuça de pano, unida á cabeça, com duas pequenas orelhas,
uma casaca comprida, ceroulas de panno de linho largas, e curtas pelo joelho ao que são unidas, botas justas
da cor natural do couro, de que são feitas. Accredito que este costume he conservado talvez do uso dos
primeiros habitantes portuguezes da ilha, pois que os portuguezes d'esse tempo vestião quasi da mesma
maneira, ao menos na forma: também accredito que o uso das casacas compridas, na gente do trabalho, he
fomentado e mantido pelos ingleses, afim de favorecerem o maior consumo dos seus pannos, pois toda a
ilha se fornece de pannos da Inglaterra. As mulheres usam das mesmas carapuças, saias de algodão, ou
chita, e botas. A gente polida veste inteiramente á portugueza».
Na freguesia do Caniço os homens usam uns chapéus feitos de folha de palmeira, que embora tenham
grande duração, se não recomendam pela elegância ou pela maleabilidade. Ignoramos em que época
começaram a ser usados esses chapéus.
As carapuças com a forma de funil invertido foram usadas em certas freguesias até 1870; no entretanto
ainda por 1880, e mesmo depois apareciam uma vez por outra no Funchal alguns velhos camponeses
trazendo na cabeça esses extravagantes barretes. Algumas carapuças tinham nos lados dois apêndices, ao
passo que outras eram desprovidas deles.
Dos antigos trajos madeirenses só restam hoje as botas de couro branco, ou amarelado, desprovidas de salto
e tendo o cano voltado no meio, e as capas de baeta azul, com recortes agudos, que ainda são usadas por
algumas camponesas, mesmo nas freguesias limítrofes do concelho do Funchal.
Barrow, que esteve na Madeira em 1792, diz que a classe média, isto é os lojistas e os trabalhadores
mecânicos, usavam chapéu, sapato e meia, e um comprido casaco para lhes esconder os remendos das
calças, e que as mulheres da mesma classe vestiam invariavelmente fato preto e traziam um capacete na
cabeça. Ovington que visitou a ilha em 1689, notou que o povo afectava uma certa gravidade no vestuário,
trajando de preto para imitar o clero, e que o uso da espada estava tão generalizado, que até os criados
traziam consigo, enquanto serviam á mesa.
Os homens de certa categoria social usavam outrora coletes de seda bordados, e os médicos ainda em 1870
se reconheciam quasi sempre pelas longas sobrecasacas pretas e pelo chapéu alto. Durante a semana santa e
na época das confissões, as senhoras substituíam os chapéus por véus pretos, que lhes cobriam a cabeça e ás
vezes a cara, tendo esta moda, que remontava a antigos tempos, começado a cair em desuso pouco depois de
1880.
Pelo meado do século XIX os vereadores da Câmara Municipal do Funchal usavam capas e calção e meia
nas cerimónias oficiais, sendo ainda com este trajo e os obsoletos chapéus de plumas que os membros da
Municipalidade se apresentaram nas exéquias de D. Luiz I e na aclamação de D. Carlos I, realizadas em
1889, não obstante o uniforme municipal se achar reduzido nessa época ás referidas capas, que eram de
seda preta e forradas de branco.
Estas capas foram substituídas por faixas de seda azul e brancas nos princípios do século XX, as quais se
usaram até á época da proclamação da República nesta ilha.
Afora pequenas particularidades locais, o vestuário dos habitantes da Madeira em nada difere hoje do
vestuário usado na Europa. As modas de Paris são rigorosamente acatadas no Funchal, rendendo-lhe
principalmente o belo sexo a mais fiel vassalagem, ás vezes á custa de grandes sacrifícios.
Se no tempo de Barrow as mulheres das classes médias vestiam sempre um fato preto, sabe Deus em que
estado hoje são elas as que mais culto prestam á moda e as que mais tendência manifestam para o luxo não
obstante o alto preço dos tecidos de qualquer natureza, e em especial dos tecidos finos. São os novos ricos
de um e outro sexo, criaturas geralmente vaidosas e sem educação, quem exibe os melhores trajos,
enquanto as classes superiores vestem ás vezes modestamente, já por falta de recursos, já para se não
confundirem com aqueles que, por meios nem sempre lícitos, conseguiram aumentar de um modo
assombroso os seus capitais.
Quem percorre em dias festivos as ruas da cidade nota por toda a parte o maior luxo e sente a impressão de
que a grande maioria dos funchalenses dispõe dos meios precisos para sustentá-lo. Infelizmente, porém,
não é assim, e se nos fosse dado penetrar em muitas casas, talvez encontrássemos aí a miséria e o desalinho
a contrastar com as custosas galas que os seus habitantes ostentam em publico. (1921).
A verdade é que a antiga e característica indumentária, especialmente a usada pelas mulheres dos campos
da Madeira, desapareceu inteiramente embora se pretenda descobrir quaisquer vestígios dela em certas
localidades mais afastadas do centro do Funchal.
Para um estudo mais desenvolvido acerca desta matéria, devem ser consultadas, além dos autores que ficam
citados neste artigo, os seguintes escritos, que fornecem curiosas e interessantes informações:
Diário da
Madeira
de 7, 8 e 13 de Março de 1938,
Arquivo Historico da Madeira
, vol. IV a pág. 178 e seguintes, e
Ilhas de Zargo
, a págs. 683 e seguintes.
Indústria Agrícola
É a indústria agrícola a mais antiga e a mais generalizada no arquipélago
madeirense, ocupando-se nela cerca de setenta e cinco por cento dos seus habitantes. Os terrenos aráveis
pouco excederão a superfície de 300 quilómetros quadrados ou sejam 30.000 hectares. As terras incultas,
compreendendo os pontos mais altos e acidentados, devem abranger uma área superior a 200 quilómetros
quadrados. O cultivo destas terras não vai geralmente além de 700 a 750 metros de altitude, ficando as de
situação imediatamente mais elevada reservada para a apanha das lenhas, matos e giestas, e ainda para a
criação e pastagem dos gados, com excepção do da raça bovina.
É interessante e útil trasladarmos aqui o que o distinto botânico madeirense Carlos Azevedo de Meneses
deixou num dos seus escritos acerca da distribuição das plantas, segundo as altitudes em que elas podem
aclimar-se e desenvolver-se.
Pode-se admitir a existência na Madeira de quatro zonas agrícolas, correspondentes às quatro zonas
botânicas em que é uso dividir a ilha, estendendo-se a primeira desde a beira-mar até 200 ou 300 metros, a
segunda até 700 ou 750 metros, a terceira até 1 600 metros e a quarta até 1.850 metros.
A cana de açúcar, a bananeira e os cactos caracterizam a primeira zona, a que podemos chamar subtropical,
adoptando a classificação de Koppen, cultivando-se, porém, nela além daquelas plantas, a vinha, o trigo, a
cevada, o milho, as couves, os nabos, a aboboreira negra ou da Guiné, a aboboreira de Tenerife ou
chilacaiota, a cabaça a caiota, as favas, os feijões, as ervilhas, as batatas as semilhas, etc., etc.. Entre as
fruteiras frequentes abaixo de 200 ou 300 metros, citaremos a anoneira, a mangueira, a goiabeira, a
pitangueira, a papaia e a abacate, espécies oriundas dos países quentes e que exigem um certo grau de calor
para viver e prosperar.
São especies características da segunda zona a vinha e os castanheiros, vendo-se, porém, em muitas partes
as mesmas plantas hortenses da zona inferior, assim como várias fruteiras que também ali existem, tais
como as laranjeiras, as pereiras, as macieiras, as ameixieiras, os pessegueiros, os damasqueiros, as
nespereiras, as nogueiras, as figueiras, as amoreiras, etc., etc.. Os cereais e em especial o trigo, são
abundantemente cultivadas principalmente nos terrenos não irrigados artificialmente, ao passo que a cana
sacarina é a partir de 300 ou 400 metros uma planta pouco remuneradora, em virtude do baixo grau das
suas garapas. As cerejeiras são cultivadas nos vales umidos e frescos da parte superior da segunda zona
vivendo ás vezes associadas aos loureiros, aos tis e aos vinhaticos, magníficas lauraceas que fazem parte da
flora florestal indígena.
A terceira zona, quasi inteiramente destinada á produção das forragens, dos matos e das árvores silvestres,
apresenta, ainda, aqui e além, alguns campos cultivados de trigo e de centeio, e algumas courelas onde
vegetam as couves, os feijões, as semilhas, etc., mas aí já a batata não produz tubérculos aproveitáveis, a
bananeira e a anoneira não frutificam e a vinha não amadurece seus frutos senão nalgumas localidades
menos visitadas pelos nevoeiros. É na terceira zona que existem os bardos, que separam a região inculta da
região cultivada.
A quarta zona, que abrange os píncaros dos mais altos montes, tem-se conservado inculta até o presente, e
não cremos que em tempo algum venham a utiliza-la com proveito para trabalhos agrícolas, por ser inóspita
durante a maior parte do ano e as suas terras serem escoriaceas e pouco fundas.
Das espécies úteis que assinalámos nas quatro zonas em que se subdivide a Madeira, as mais importantes já
pelo seu rendimento, já pela área que ocupam, são a cana sacarina, a vinha, a bananeira e o trigo. A cultura
da cana, que abrange agora uma superfície de cerca de 2000 hectares, foi até há pouco tempo e continua
sendo ainda uma das mais rendosas da ilha, muito mais lucrativa do que a da vinha e a par da da bananeira.
Esta ultima abrange uma área de 150 a 200 hectares, e a vinha e o trigo uma área que deve regular, para
cada uma destas plantas, por uns 2.000 a 2.200 hectares.
Os terrenos da Madeira são trabalhados á enxada e só em muito raras localidades se faz uso da charrua,
quando os mesmos terrenos permitem o emprego desta maquina agrícola. Extremamente dividida, em
virtude de várias circunstancias, a propriedade rústica madeirense oferece geralmente nas suas courelas
uma associação de culturas que, embora curiosa, nem sempre nos parece de vantagem para os interesses do
agricultor.
Convém dizer aqui que sob o ponto de vista agrícola não está a nossa ilha tão atrasada como geralmente se
supõe. Se os trabalhos agrícolas se fazem a braços por quasi toda a parte, é porque a conformação dos
terrenos se não presta ao emprego de maquinas aratorias, e se não está em uso o sistema da rotação das
culturas, tão necessário para se obterem boas colheitas, é porque ele é contrario à extraordinária divisão da
propriedade e também ás vezes aos interesses do agricultor. Nas terras inclinadas das vertentes meridional
e setentrional, são as águas que carream dos altos os principais elementos fertilizadores, sendo assim que
muitos solos não adubados nem beneficiados pelos afolhamentos, mantêm constantemente um certo grau
de produtibilidade.
As sorribas, o emprego dos adubos, a limpeza e beneficiação das terras, etc., fazem-se quasi sempre na
Madeira de um modo racional, e se alguma coisa nos parece digna de censura é principalmente o pouco
cuidado que se presta as mais das vezes á selecção das sementes e á conservação das boas variedades, e a
maneira pouco criteriosa como é encaminhada em muitos casos a cultura das árvores. A baixa qualidade de
muitos dos nossos frutos e o mau aspecto de muitos dos exemplares que povoam os nossos pomares, são
quasi sempre consequência da falta ou má execução das podas e do excesso da produção a que as fruteiras
são forçadas na ilha.
É nesta indústria que se encontram os mais importantes elementos da riqueza publica e das prosperidades
de todo o arquipélago. A vida económica da sua população e o seu relativo bem-estar dependem em grande
parte do progresso e desenvolvimento da indústria agrícola.
As duas principais culturas que pelos seus lucros compensadores ocupam os terrenos mais férteis e em mais
larga extensão, são a cana sacarina e a vinha, quasi coevas dos primitivos trabalhos da colonização. Nos
últimos três decénios tem-se extraordinariamente desenvolvido a cultura da bananeira, que, com as duas
precedentes, constituem as chamadas três culturas ricas da Madeira.
A mais antiga é a do cultivo da cana de açúcar, que foi o principal factor do rápido desenvolvimento da
população em diversos pontos da ilha, após o seu descobrimento. A sua produção não se tem mantido
uniformemente através dos tempos, em virtude das moléstias que por vezes atacaram os canaviais, e ainda
devido a causas económicas de carácter local. Na actualidade é talvez esta cultura o mais apreciável fautor
da riqueza publica, sobretudo na região meridional da Madeira mais próxima do litoral, não somente pelo
seu preço remunerador, mas ainda pela forragem que fornece á criação dos gados e matéria prima para a
preparação dos adubos chamados de curral. A área ocupada pela cultivação da cana sacarina deve ser
aproximadamente de dois mil hectares. A produção por hectare tem sido variável, oscilando entre vinte a
trinta e cinco toneladas, sendo aproximadamente de trinta a média da época actual. A média da sua
produção total em todo o arquipélago foi, nos últimos quatro anos, de quarenta e seis milhões e
quatrocentos e quarenta mil quilos em cada ano.
É também hoje um apreciável elemento de riqueza e de prosperidade o cultivo da vinha.
Como o da cana sacarina, tem igualmente tido sorte vária, conforme as épocas e as circunstancias
particulares do meio e sobretudo as doenças, que causaram já a completa extinção dessa cultura, como
aconteceu por meados do século XIX. A pouco e pouco se foi refazendo a plantação dos vinhedos e há
algumas dezenas de anos, que é notável a produção do mosto em todo o arquipélago. Vimos algures que a
superfície ocupada por esta cultura é de cerca de dois mil hectares, com a produção média de seis a sete
pipas de vinho por hectare. O cultivo das vinhas estende-se normalmente desde o litoral até a altitude de
500 metros, atingindo algumas 600 e até 700 metros.
Por várias causas, foi pouco compensador ou antes ruinoso o trabalho dos viticultores nos últimos anos, em
virtude do baixo preço por que foram vendidos os respectivos mostos.
ANOS LITROS
1910............................5.135.994
1911............................7.609.411
1912............................8.468.683
1913............................6.787.968
1914............................6.088.310
1915............................6.579.574
1916............................9.260.397
1917............................2.843.518
A produção vinícola no período decorrido de 1910 a 1930 foi o seguinte:
1918............................5.352.890
1919............................8.041.177
1920............................6.929.287
1921............................4.881.355
1922............................5.946.635
1928............................5.193.315
1929............................7.114.656
1930...........................11.956.300
No quinquénio 1918-1922, a média de produção anual foi de cerca de 6 230.000 litros, não tendo baixado
no decénio decorrido de 1923 a 1931 e podendo portanto conjecturar-se que o arquipélago teria
aproximadamente produzido nos últimos dez anos uma média anual de 6.500.000 litros de vinho ou sejam
1.300 pipas de quinhentos litros.
Os concelhos do Funchal e de Câmara de Lobos são os de maior produção vinícola, seguindo-se-lhes os de
São Vicente, Porto do Moniz, Porto Santo e Calheta. É na costa meridional da Madeira que se encontram as
videiras que fornecem a matéria prima para a preparação dos vinhos generosos, de reputação universal,
devendo especializar-se a freguesia de Câmara de Lobos, como sendo o local em que se produzem os mais
preciosos mostos do arquipélago. As principais e mais afamadas castas cultivadas eram o sercial, a
malvasia, o boal e o verdelho, de que se fabricavam tipos especializados de vinhos, de que as duas primeiras,
depois de envelhecidas, constituíam as mais preciosas espécies de vinhos generosos de todo o mundo. Com
a invasão filoxerica introduziram-se novas cepas resistentes com as quais foram enxertadas as antigas
castas, não se tendo porém mantido, senão em escala muito limitada, a selecção especializada no fabrico das
diversas espécies.
O mais rico auxiliar da indústria agrícola é o característico sistema de irrigação constituído pelos
importantes e numerosos aquedutos conhecidos pelo nome de Levadas, que se acham espalhados em todas
as freguesias da Madeira. Delas nos ocuparemos com o necessário desenvolvimento.
Os artigos
Bananeira
,
Cana Sacarina
,
Vinhos
e
Junta Agrícola
interessam a este assunto da Indústria
Agrícola.
Indústria da Obra de Vimes
A indústria da obra de vimes ou de artefactos de verga,
especialmente destinada ao fabrico de peças de mobiliário, tem o seu principal centro produtor na freguesia
da Camacha e dela já demos uma rápida noticia a págs. 195 e segs. do I volume no artigo dedicado àquela
freguesia.
No ano de 1912 dizia o chefe da secção dos serviços técnicos da indústria no Funchal:
«A fabricação das obras de vime experimenta ao presente grandes progressos, isto tanto pelo aumento e
valorização das culturas correspondentes, como pelo valor da exportação de vimes e de obras, que cresce e
se enriquece também pela mais esmerada mão de obra e gosto na composição.
É já hoje frequente encontrar trabalhos de gosto e esmerado acabamento nesta especialidade, e tudo isto
que o operário madeirense consegue com absoluta falta de instrução profissional, deixa-nos a viva
impressão do muito melhor que ele seria capaz de produzir, quando guiado pelo ensino artístico.
Dado o modo por que esta indústria aqui funciona, quasi que exclusivamente localizada na freguesia da
Camacha, donde não tem sido possível desvia-la, é fácil reconhecer que só o ensino profissional exercido em
escola na mesma localidade, poderia ser convenientemente aproveitado.
A Escola Industrial do Funchal podia contribuir para a educação deste operário, mas ele é que não a
frequenta porque reside muito longe, e as condições da indústria inteiramente ligadas desde largos tempos
aos costumes e hábitos de trabalho locais, não oferecem na maioria dos casos remuneração suficiente para
quem tenha de residir fora de sua casa e afastado doutros pequenos interesses de que carece para viver.
0 preço da mão de obra tem descido nos últimos tempos, e é certamente também, como nos bordados, por
um certo carácter de indústria caseira, que o pagamento da mão de obra se pode reduzir a preços que, no
trabalho oficinal, seriam absolutamente inadmissíveis.
A exportação de vimes pode supor-se ter sido em 1911, de 900 toneladas, não sendo exagerado supor-se que
outras tantas se terão consumido no fabrico local.
O valor comercial da exportação não se deve calcular em menos de 180 contos de réis anuais, somente em
obras de verga.
Esta indústria pode supor-se ao presente ocupar a actividade de mais de 600 pessoas, contando-se mais de
300 homens, 200 mulheres e 100 menores».
Da mesma procedência obtivemos, em 1921, as seguintes informações: «Esta indústria está hoje decadente,
ao passo que se desenvolve noutros países, e principalmente na Africa do Sul, para onde a ilha exporta os
seus vimes. 0 encarecimento da matéria prima, que obsta a que alguns industriais que lutam com falta de
capitais a adquiram na época própria, a saída para o estrangeiro de muitos operários que se empregavam na
referida indústria, enquanto outros se dedicam na ilha a outros serviços mais lucrativos, os fretes mais
pesados que oneram os vimes em obra, em razão destes ocuparem maior espaço nos porões dos navios, e os
direitos e impostos locais que oneram mais os artefactos de verga do que a matéria prima, são, no entender
daquele esclarecido industrial, as principais causas da referida indústria ter perdido uma grande parte da
sua antiga importância.
A Madeira produz 700 a 800 toneladas de vimes anualmente, saindo talvez metade desta produção para
fora da ilha. No Cabo da Boa Esperança, outrora importante mercado consumidor dos artefactos de verga
da Madeira, fabricam-se hoje muitos dos mesmos artefactos com vimes importados da nossa ilha, o mesmo
acontecendo no Brasil. A Inglaterra é o país que importa actualmente maiores quantidades da obra de verga
fabricada na Madeira, recebendo também, segundo nos informam, grandes porções de vimes em bruto».
Posteriormente àquele ano, não conseguimos colher outros dados de informação, mas julgamos que essa
indústria entrou há muito numa fase de grande decadência devida ás causas que ficam apontadas e
particularmente pela concorrência que lhe é feita pelo aparecimento de outros centros produtores.
Indústria dos Bordados
Esta indústria concorreu consideravelmente para as prosperidades do
arquipélago, sendo por todos considerada como um grande elemento de riqueza. Constituindo uma
ocupação caseira, em que a mulher madeirense, a dentro do seu lar e desempenhando as suas obrigações
domesticas, podia simultaneamente entregar-se aos trabalhos dessa indústria, conseguiu ela estender-se a
todos os casais pobres e remediados, e foi um dos mais apreciáveis factores da prosperidade da família.
Crianças de oito e dez anos e velhas octogenárias entregavam-se afanosamente aos misteres dessa indústria,
quando ela atingiu um estado muito florescente e altamente compensador para todos. Veio depois a sua
decadência e a sua ruína, sendo na actualidade pouco remuneradores os trabalhos dos que a ela se entregam
e havendo até um avultadíssimo numero de operarias que não encontram ocupação á sombra da mesma
indústria. No entretanto, ainda muitos milhares de pessoas, espalhadas em todo o arquipélago, se dedicam
á confecção dos bordados, a pesar da situação ruinosa a que chegou a respectiva indústria. É ainda um
pequeno recurso para os pobres e uma atenuante para a crise que a todos avassala.
Quando em 1920 era muito prospero o estado daquela indústria chegou a haver na cidade do Funchal 60
casas comerciais, a maior parte estrangeiras, que exclusivamente se ocupavam da compra, manipulação e
exportação de bordados, existindo então mais de 35 000 bordadeiras espalhadas por todas as freguesias
desta ilha e Porto Santo. Nos fins do ano de 1923 o numero de casas exportadoras elevava-se a 100,
computando-se então em 70.000 contos o valor da mercadoria exportada especialmente para a América do
Norte. Veja-se o que acerca desta indústria deixámos já dito com algum desenvolvimento a págs. 162 e segs.
do vol. I desta obra subordinado ao título bordados.
Indústria dos Lacticínios
De há muito que se fabrica manteiga na Madeira, mas a princípio era
bastante rudimentar a maneira como ela era confeccionada. 0 leite, pouco abundante guasi sempre era
demorado nas vasilhas até se perfazer a quantidade de nata indispensável para se obter a coagulação dos
princípios butirosos o que, reunido á falta de asseio e á ignorância no método do salgar fazia com que o
produto obtido fosse em geral de baixa qualidade.
Em todo o caso, já em 1870 se fabricava na Madeira alguma manteiga que rivalizava com a que vinha do
estrangeiro, a qual costumava ser vendida no Funchal a 300 réis a libra. 0 preço da manteiga de segunda
qualidade regulava entre 180 e 240 réis a libra (459 gramas).
Nos princípios do segundo quartel do século XIX quasi toda a manteiga que se consumia no Funchal vinha
da Inglaterra, mas quarenta anos depois já a ilha produzia a manteiga necessária para o seu consumo,
podendo mesmo exportar alguma para Lisboa. A exportação da manteiga que em 1881 era apenas de 129
quilogramas subiu em 1885 a 1932 quilogramas, em 1887 a 9 897, em 1889 a 25:554 e em 1890 a 42:476,
baixando nos dois anos imediatos a 1775 e a 2.580 quilogramas, para subir em 1893 a 48:124.
Por 1895 montou Adolfo Burnay uma fabrica de lacticínios em Santo António da Serra, a qual tendo
começado um tanto modestamente, pois que apenas aproveitava o leite produzido pelas suas vacas, alargou
mais tarde o campo da sua exploração, passando a adquirir todo o leite que os criadores de gado da
localidade podiam ceder e pagando-o a 20 réis o litro.
Os criadores ficavam com direito ao soro, o que constituía para eles uma grande vantagem, visto esse
produto, em virtude dos processos rápidos de desnatação, não ter tempo para fermentar, e poder portanto
ser aproveitado na alimentação do homem.
A fabrica do Santo da Serra, além de excelentes manteigas que eram vendidas na ilha e exportadas para
Lisboa, produzia também queijos mas estes tiveram pouca aceitação, devido a ser pouco esmerado o seu
fabrico. Só muitos anos depois é que esta ultima indústria pôde aperfeiçoar-se e tomar um certo incremento
na Madeira, devido aos estudos e experiências do engenheiro-agronomo João da Mota Prego.
Em 1920 existiam dispersas pela ilha 22 fabricas e 30 e tantos postos de desnatação, que pagavam cerca de
600 contos pelos 11 a 12 milhões de litros de leite comprados anualmente ao lavrador. 0 preço do leite, que
era outrora de 2 centavos o litro, foi fixado em 1919 em 5 centavos, e mais recentemente, em 4 de Janeiro de
1921, em 10 centavos quando para o fabrico de manteiga e em 14 centavos quando para o fabrico do queijo.
A Madeira exportou para a metrópole e Africa em 1920 cerca de 450:000 quilogramas de manteiga, tendo
sido o consumo local de cerca de 110:000 quilogramas. 0 preço da manteiga no deposito do Funchal, que
era a princípio de $72 e $80, passou para 1$20 em Dezembro de 1919, em virtude de uma portaria
solicitada pelos exportadores, para 3$00 em Setembro de 1920 e para 4$00 em Novembro de 1921, mas
sucede muitas vezes o consumidor não poder obter ali aquele género de primeira necessidade, visto os
exportadores nem sempre fornecerem convenientemente o único estabelecimento onde o publico pode ser
servido em condições vantajosas.
Sendo precisos em media 23 litros de leite para se obter um quilograma de manteiga, é claro que o lucro dos
negociantes está principalmente na exportação, visto aquele género atingir em Lisboa e Africa preços
muitíssimo superiores aos do Funchal. A manteiga destinada aos usos industriais, mas de que se abastece ás
vezes uma parte da população do Funchal, é vendida (1921) a 8$00 o quilograma, tendo-o sido antes a
7$00, a 5$00, a 4$80 e a 1$80. Este ultimo preço vigorou até Agosto de 1920.
Segundo um termo de responsabilidade assinado pelos representantes de varias fabricas de manteiga muito
recentemente (1921) o deposito deveria ser abastecido diariamente com 400 quilogramas desse género, ou
sejam 2.800 quilogramas cada semana, para serem vendidos ao publico ao preço de 4$00, devendo a
manteiga antes de entrar no consumo ser examinada pelo sub-delegado de saúde e ficando os fabricantes
com o direito de vender particularmente e pelo preço que estipularem aquela que exceder as quantidades
com que têm de concorrer para o mesmo depósito.
A nenhuma pessoa era permitido vender manteiga por preço superior a 4$00 o quilograma desde que não
fosse fornecedora do deposito, e os fabricantes que faltassem ás clausulas do acordo, deixando de entrar no
deposito com as quantidades que lhes fossem rateadas, ficavam privados de obter autorização para exportar
qualquer porção de manteiga enquanto não provassem estar em dia os seus fornecimentos.
Antes do acordo a que nos referimos eram os fabricantes obrigados a fornecer para o consumo publico no
Funchal 10 por cento da manteiga que exportassem, e em fins de 1919 existiam dez fabricas que deviam
concorrer para o deposito com 40 por cento da sua produção, havendo um rateio que era feito pela
Administração do Concelho.
Como os fabricantes eram em regra pouco pontuais em remeter para o deposito junto do Mercado as
quantidades de manteiga a que eram obrigados, resultava daí o publico não poder fornecer-se muitas vezes
desse género de primeira necessidade pelos preços estabelecidos no acordo e ter de ir adquiri-lo por preços
exorbitantes num deposito particular que existia á rua Direita. Se as autoridades exercessem sempre uma
fiscalização rigorosa no fornecimento da manteiga, em vez de recorrerem ás denominadas bicas, que só
serviam para afugentar muitos consumidores e proteger os fabricantes, evitar-se-iam bastantes abusos e
estabelecer-se-ia a ordem num género de serviços que, embora tenha sido melhorada nos últimos tempos,
está ainda muito longe de satisfazer ás necessidades do publico.
O que acima fica dito a respeito da indústria dos lacticínios não vai além do ano de 1921, continuando
posteriormente a esta época a progredir e a desenvolver-se bastante essa indústria, que constitui um
apreciável factor na riqueza publica deste arquipélago. Promulgaram-se vários diplomas legislativos
destinados a promover a prosperidade da mesma indústria, entre os quais se destacam o decreto de 4 de
Junho de 1936, que criou a Junta Nacional de Lacticínios da Madeira, e os decretos de 22 de Setembro e 24
de Novembro de 1938 e 24 de Novembro de 1939, que regulam o funcionamento da referida Junta.
Uma parte considerável da população rural não aceitou de boamente as disposições desses decretos que
julgou atentatórias dos seus legítimos interesses, e levou os seus protestos ao ponto de praticar os maiores
excessos, invadindo as repartições publicas e cometendo outros lamentáveis desacatos. A força armada,
vinda do continente, teve de intervir, perdendo a vida alguns populares. Efectuaram-se inúmeras prisões e
muitos indivíduos sofreram a pena de exílio nos Açores e Cabo Verde.
Hoje todos reconhecem as vantagens das medidas legislativas que foram adoptadas, tendo-se as direcções
da Junta Nacional de Lacticínios desempenhado cabalmente da espinhosa missão que lhe foi cometida. Os
seus Boletins de Informação e Publicidade são documentos valiosos, que merecem a ponderada leitura dos
que se interessam por estes assuntos.
Indústria Pecuária
A indústria agrícola tem, como se sabe, na criação dos gados um dos seus mais
valiosos auxiliares, especialmente na espécie bovina, fornecendo esta a matéria prima para o fabrico do
queijo e da manteiga. Vivendo todo o gado vacum na Madeira estabulado, é este que principalmente
abastece o agricultor com os elementos indispensáveis para a adubação dos terrenos destinados ás diversas
culturas.
O que poderíamos aqui dizer acerca da indústria pecuária ficou exposto com alguma largueza no artigo
Gados
, a pág. 70-75 deste volume do
Elucidário
, para onde remetemos o leitor.
No entretanto não queremos deixar de consignar aqui uma particularidade interessante acerca dos equídeos
da região madeirense, como um esclarecimento ou complemento do que já ficou dito no artigo dedicado aos
Gados
. Esta informação é extraída de um artigo publicado no antigo Diário Popular de 2 de Julho de 1902,
cuja leitura pode ser bastante proveitosa a este assunto.
«De Portugal foram para a Madeira os gados necessários à alimentação e labutação dos colonos. Como
porém pelo arroteamento das terras diminuíssem gradualmente os pastos, gradualmente foi também
diminuindo a corporatura dos animais por escassez de alimentação.
Hoje os descendentes dos cavallos que primeiro povoaram a ilha constituem uma variedade caracterizada
pela sua exígua estatura, pois que, em média os cavalos madeirenses tê em a altura de 1.m22, não
ultrapassando o máximo de 1.m30.
Eis como esta variedade foi descripta pelo Sr. João Tierno, antigo intendente de pecuária da Madeira.
«Em geral os cavalos d'esta casta teem a cabeça comprida, delgada e descarnada; o chanfro direito, outras
vezes ligeiramente arqueado; orelhas curtas; arcadas orbitarias salientes; pescoço pouco grosso e
regularmente crinado; costado chato; dorso ensellado; garupa descahida; cauda grande e espessa; ventre
pequeno e deprimido, membros direitos de ossos delgados. São resistentes, sóbrios, dessa sobriedade
forçada a que os magros roedouros obrigam; e a gymnastica funccional, a que os acostumou o pascigo em
serras alcantiladas, deu-lhes o aprumo dos membros, a rijeza dos cascos, qualidades que, juntas á ardencia
natural do seu temperamento de montanhezes, os torna aptos para o trabalho nas veredas ásperas da ilha.
Por esta ocasião se vê que o poney da Madeira é o cavallo portuguez de perfil convexo, o typo betico-lusitano
que, apesar da exiguidade a que o escasso regimen alimentar o reduziu, conserva ainda a elegância das
formas primitivas.
O regimen do gado cavallar na Madeira é o pastoril. Até mesmo as éguas em adeantado período de gravidez,
são mantidas n'esse regimen, pascendo nas montanhas, onde as crias nascem e acompanham as mães, sem
um abrigo que as preserve das contingências do tempo.
Em taes condições, comprehende-se como a raça betico-lusitana, transportada para a ilha, durante cinco
séculos foi atenuando a morphologia primitiva, até se transformar no que é actualmente a variedade
madeirense.
A população hippica da Madeira não tem importância económica. Alguns bons cavallos que se vêem na ilha
foram levados do continente e são utilisados em serviço de sella ou para tiro do pequenissimo numero de
carruagens de rodas que ha na cidade do Funchal, onde a viação urbana se faz de preferência em luxuosos
trenós tirados por bois.
Mais d'uma vez os madeirenses tentaram a aventura dos cruzamentos, com a mira no augmento da
corporatura dos seus garranos; o regimen imposto aos animaes pela situação agrícola da ilha inutilisou
sempre essas tentativas.»
Indústria Piscatória
Esta indústria exerce-se nas duas ilhas principais do arquipélago, selado no
Funchal, Caniço, Machico, Câmara de Lobos e Paul do Mar, na costa sul da Madeira, que ela tem maior
importância. Em 1914 havia 537 embarcações matriculadas e com a tonelagem de 1.222,17, sob a designação
expressa de servirem na pesca nos nossos mares, e no mesmo ano existiam 519 embarcações empregadas
noutros serviços marítimos, tais como transporte de passageiros, bombotes, condução de cargas entre os
diversos portos do arquipélago, etc., etc.. Os pescadores registados como tais, pagando o seu imposto de
capitação e concorrendo para o Instituto de Socorros a Náufragos, eram em numero de 893, sendo 835
adultos e 58 menores, havendo porém outros indivíduos com autorização para exercerem a indústria da
pesca, mas que não se entregavam a ela senão na falta de outros trabalhos. Com este adicionamento, subia a
1648 o total dos pescadores matriculados, sendo 1585 adultos e 63 menores.
Os principais aparelhos de pesca empregados na Madeira são as redes, as canas, a briqueira, a agulheira, a
gorazeira, a cherriola, o peneiro, as varas de salto e os covos (V. estes nomes). A pesca que se faz a maior
distancia da costa é a do atum e a das espadas, empregando-se nesta ultima um cordel muito longo, do qual
partem pequenos cordeis laterais ou chambions, tendo cada um deles na extremidade um pedaço de arame,
que sustenta o anzol. Prendendo um ou mais destes aparelhos á borda do barco, obtém-se, às vezes em
pouco tempo uma grande quantidade de espadas. O peixe espada vive geralmente à profundidade de cerca
de mil braças.
Com as redes colhem-se os chicharro, as cavalas, os sargos, os pargos e outras espécies que vêm à superfície
da água; com a briqueira, a garoupa, o peixe-rei, o pargo, o alfonsim, a bôca-negra, o goraz, a castanheta-
do-alto, etc.; com a agulheira, os pargos, os chicharros, as cavalas, etc.; com a gorazeira, o salmonete do
alto, a pescada, o pargo, a bôca-negra, o goraz, a castanheta-do-alto, etc.; com a cherriola, a pescada, o
cherne, etc.: com o peneiro, a castanheta, o roncador e outros peixes pequenos; e com os covos, as moreias,
os salmonetes de rolo, os polvos, etc.. As varas de salto são destinadas á pesca do atum e do gaiado, os quais
também podem ser apanhados á linha, quando não aparecem á superfície das águas, e as canas de pesca
servem para apanhar bodiões, bogas, douradas, dobradas e muitas outras espécies que não atingem grandes
dimensões. A cavala, o chicharro, o caranguejo, a lapa, a pota e a aranha do mar são muito usados como
isca, variando esta muitas vezes com as espécies que se pretendem colher.
As redes chamadas de arrasto, em que há uns pesos de chumbo num dos lados para as fazer tomar a posição
vertical, usam-se com bom resultado na pesca das espécies que vivem perto da costa. As redes pequenas, de
forma cónica, usadas por vezes na pesca da cavala, do chicharro, da sardinha e do guelro, dão alguns
pescadores a denominação imprópria de peneiros (V. este nome).
Há um candeio, a que os pescadores chamam griseta-cão, que é empregado frequentes vezes na pesca
nocturna (V. Chicharro), e para enganar o peixe há o sistema de pesca a que chamam de corrido, de que já
falámos a pág. 320 do volume I deste Elucidario.
Em 1910 estabeleceu Judice Fialho uma armação para a pesca do atum no Porto Santo, que não deu
resultados, dizem que por serem as águas junto daquela ilha muito claras; e tempos antes, em 1903,
procuraram os falecidos comendadores Manuel Gonçalves e Francisco de Araújo Figueira estabelecer
armações fixas para a pesca das especies pelagicas, sem também serem felizes nas suas tentativas, a pesar
de terem vindo á Madeira um técnico e dois mandadores de armações para estudarem as condições
piscatórias dos nossos mares, e se ler num relatório apresentado pelo mesmo técnico em Outubro de 1903,
ser de vantagem o exercício da grande pesca no arquipélago, utilizando as armações, indicando-se o ilhéu de
Cima, no Porto Santo, e Machico, como os melhores locais para a colocação de aparelhos destinados á pesca
do atum.
A Companhia Atlântica de Pescarias, que pretendeu explorar a indústria da pesca nas águas do arquipélago,
servindo-se de aparelhos não conhecidos em Portugal, também não obteve resultados animadores nos
trabalhos a que procedeu, retirando-lhe o Governo, em princípios de Dezembro de 1921, a licença que lhe
concedera para proceder á dita exploração, e em 1792 e 1802 houve duas tentativas para o estabelecimento
de sociedades de pescarias na Madeira, nenhuma das quais foi, porém, coroada de êxito. Em 1822 chegaram
a vir práticos de Sesimbra para dirigir os serviços da pesca, o que não obstou a que a sociedade que nesse
ano se estabeleceu se dissolvesse passado pouco tempo.
Em 1909 estabeleceu-se uma fabrica de conserva de atum na Ponta da Cruz e em 1912 uma outra no Paul do
Mar, mas estas iniciativas que beneficiaram certamente a indústria da pesca na Madeira, foram causa de
que aquele peixe subisse de preço, passando também a faltar amiudadas vezes no mercado, onde
anteriormente era frequente. Deve-se notar, no entretanto, que se o atum se tem vendido nos últimos
tempos a 2, 3 e mesmo a 4 escudos o quilo, deve-se isso mais á ganância e falta de escrúpulos dos
negociantes, do que á procura que têm sempre as varias espécies do género
Thynnus
que aparecem nos
mares do arquipélago, para a indústria da conserva do peixe. (1921)
Os barcos de pesca pertencem umas vezes ás respectivas companhas, outras a negociantes com quem os
pescadores dividem os rendimentos que auferem da exploração do mar. Quanto aos aparelhos usados na
pesca, são sempre ou quasi sempre pertença do dono ou donos das embarcações.
Os pescadores da Madeira são conhecidos não somente pelo arrojo e intrepidez no mar, mas ainda pelas
aptidões que revelam no exercício do seu mister. Pouco favorecidos pela sorte ainda não há muitos anos,
constituem hoje uma classe que vive com relativa independência, mercê do lucro exagerado que tiram da
venda do peixe e das suas necessidades serem poucas e de fácil satisfação. (1921). 0 rendimento da indústria
da pesca que orçou por 110 contos em 1914, por 434 contos em 1920 e por 977 contos em 1921, subiu de
Janeiro a Novembro de 1922 a mais de 1:155 contos, não porque as quantidades de peixe colhidas fossem
muito maiores do que em 1921 ou nos anos anteriores, mas por serem muito mais altos os preços das
vendas. Há barcos de pesca que podem numa só viagem trazer peixe de valor superior a 3 contos.
O imposto do pescado rendeu 22.252$65 em 1920, 50.080$94 em 1921 e 59.257$96 de Janeiro a Novembro
de 1922, e a quantidade de peixe pescado anualmente nos mares do arquipélago deve regular entre
1.500:000 e 1.800:000 quilogramas.
O culto na capela do Corpo Santo, no Funchal, e na capela de Nossa Senhora da Conceição em Câmara de
Lobos é mantido principalmente por indivíduos da classe piscatória. Em Câmara de Lôbos fundaram os
pescadores em 1769, um montepio com a invocação de S. Pedro Gonçalves Telmo, estando a imagem deste
santo colocada no altar da referida capela de Nossa Senhora da Conceição.
Entre os peixes que se pescam nos mares da Madeira, os de melhor qualidade são o cherne, o alfonsim, o
salmonete-do-alto, a tainha, o peixe-galo e a abrotea, seguindo-se-lhes a garoupa, o salmonete, o sargo, o
goraz, o pargo, o boqueirão, o bodião, o atum avoador, a agulha, a espada, a cavala, o chicharro e a sardinha,
que são também bastante procurados e apreciados.
A falta ou abundância de determinadas espécies em certas épocas do ano explica-se pelas modificações que
sofre o plancton (V.
Oceanografia
) em virtude de causas pouco conhecidas. Assim como os animais
herbívoros procuram as campinas verdejantes, por ser aí que encontram a sua alimentação, assim também
os peixes buscam as localidades onde abundam os organismos de que se nutrem. Se o plancton falta, sucede
que o peixe que dele se sustenta directamente emigra para outras regiões, visto sem uma alimentação
conveniente não ser possível a vida das espécies que existem quer em terra quer nas águas do oceano.
Para maior complemento desta matéria, transcrevemos as seguintes informações do
Dicionário
Corografico do Arquipelago da Madeira
:
Escasseiam-nos dados seguros e recentes acerca do movimento desta indústria entre nós. Vamos apresentar
os elementos de estatística, que no importante trabalho Portos Maritimos de Portugal nos oferece o ilustre
engenheiro Adolfo Loureiro relativos ao ano de 1909 e colhidos na Capitania do Porto do Funchal. Os portos
em que se exerce a indústria piscatória são estes: Funchal, Caniço, Porto Novo, Aldonça, Santa Cruz, Seixo,
Machico, Caniçal, Porto da Cruz, Faial, São Jorge, Ponta Delgada, São Vicente, Seixal, Porto do Moniz,
Ponta do Pargo, Paul do Mar, Jardim do Mar, Calheta, Fajã do Mar, Madalena do Mar, Anjos, Lugar de
Baixo, Tabua, Ribeira Brava, Campanário, Câmara de Lobos e Porto Santo, advertindo-se que uma grande
parte destes portos são centros piscatórios de pequena e até alguns de insignificante importância. 0 numero
total de pescadores atingiria então 2 482, sendo 1.566 maiores de 18 anos, 726 de 12 a 18 anos e 190
menores de 10 anos. São relativamente de movimento bastante considerável e de todos os mais importantes
os portos de Câmara de Lobos Paul do Mar e Machico, que respectivamente contavam 575, 336 e 244
indivíduos empregados nos misteres da pesca. A estes seguem-se, em numero de pescadores, os portos do
Funchal com 153, Porto Santo 156, Caniço 95, Caniçal 90, Santa Cruz 88, Calheta 82, etc.. Os barcos
ocupados nesta indústria eram em numero de 509 com a lotação de 1 268 toneladas e o valor de 29.113$000
réis, computando-se o valor do pescado em 126 523$265 réis, que pagou de imposto 5.696$572 réis.
Contrariando um pouco estas informações, fornece-nos o
Elucidário Madeirense
alguns dados, de carácter
oficial, relativos ao ano de 1914, dizendo-se ali que era então de 893 o numero de pescadores, 835 adultos e
58 menores, havendo, porém outros indivíduos com autorização de exercer essa indústria, mas que só o
faziam transitoriamente, o que dava um total de 1648 pescadores matriculados, sendo 1.585 adultos e 63
menores.
0 imposto cobrado em todo o arquipelago sôbre o peixe exposto á venda produziu, 4.346$48 no ano de
1930 3.040$40 em 1931, 2.308$52 em 1932 e 1.259$52 no primeiro semestre de 1933.
Na importante publicação
Estatística das Pescas Maritimas no Continente e Ilhas Adjacentes no ano de
1931....»,
encontramos os seguintes dados referentes ao nosso arquipélago: No ano de 1927 existiam
empregadas nesta indústria 446 embarcações de vela ou remos com 1427 pescadores, em 1928 havia 481
embarcações de velas ou remos com 1735 pescadores; em 1929 era de 490 o numero de embarcações com 1
547 pescadores, em 1930 havia 21 embarcações de motor mecânico e 519 de vela ou remos com 1.416
pescadores, e em 1931 existiam 24 embarcações de motor e 1444 de vela ou remos.
Indústria Sacarina
Das matérias primas fornecidas pelas culturas da cana sacarina e da vinha
nasceram imperiosamente as indústrias do fabrico do açúcar, do álcool, da aguardente e do vinho. A
indústria sacarina, no regímen proteccionista em que actualmente se encontra, é de todas a mais
importante e a que presta melhores serviços á agricultura, como já acima fica dito. A produção do açúcar,
que foi nos tempos primitivos da colonização o maior elemento de riqueza e de prosperidade, tem sido
muito variável no longo período de cinco séculos, porque ela está intimamente ligada á existência
florescente ou decadente dos respectivos canaviais, que em certas épocas as moléstias fizeram
completamente desaparecer. O açúcar consumido no arquipélago, que é de superior qualidade, e todo
fabricado no Funchal, tendo sido a sua produção de quatro mil cento e setenta e três toneladas no ano de
1932.
O álcool fabricado aplica-se exclusivamente ao tempero e á adubação dos vinhos generosos e sem ele
tornava-se impossível a conveniente preparação dos vinhos destinados à exportação. A indústria do álcool
no ano de 1932 produziu oitocentos e doze mil e setecentos e setenta e sete litros.
O fabrico da aguardente, que durante muitos anos constituiu o maior flagelo que assolava a Madeira, era
muito considerável e tinha entre nós um consumo assustador, mas felizmente que nos últimos vinte anos
está reduzido a proporções bastante reduzidas, o que notavelmente tem concorrido para combater com
eficácia o alcoolismo e melhorar a saúde publica, sendo, por todos os motivos, para desejar que absoluta e
inexoravelmente se mantenham as medidas proibitivas em vigor. Chegou-se a produzir dois milhões de
litros de aguardente, embora uma parte dele se aplicasse ao tempero de vinhos consumidos no arquipélago
reduzindo-se em 1927, por disposição legal, essa produção a quinhentos mil litros em cada ano, que na sua
quasi totalidade era ingerida pelos amadores desse apetecido tóxico, sendo hoje bastante diminuta essa
produção.
Apresentamos em seguida uma nota da produção total da cana sacarina em todo o arquipélago, durante
alguns anos, e bem assim da produção do açúcar e do álcool no mesmo período de tempo, devendo advertir-
se que na totalidade da cana produzida está também incluída a que foi empregada no fabrico da
aguardente.
ANOS
1929
1930
1931
1932
DE
PRODUÇÃO
CANA (QUILOS)
44.776.559
DE
PRODUÇÃO
AÇÚCAR (QUILOS
1.763.313
DE
PRODUÇÃO
ALCOOL (LITROS)
615.093
46.992.144
45.006.160
48.997.194
3.148.200
3.541.275
4.173.565
715.422
914.579
812.777
Para um mais perfeito conhecimento deste assunto, torna-se indispensável a leitura dos artigos
Açúcar
,
Aguardente
,
Álcool
e
Cana Sacarina
, insertos no primeiro volume deste
Elucidário
.
Indústria Vinícola
Esta indústria pela sua notável importância e pelas características particulares
que a distinguem tem sido através dos tempos não somente um dos maiores elementos de riqueza publica
deste arquipelago como ainda, a par da benignidade do clima e da encantadora paisagem, um dos factores
mais apreciáveis para a generalizada fama de que goza o nome de Madeira.
Poucos anos depois de povoada, já esta ilha produzia alguns vinhos, pois que Cadamosto que esteve aqui
por 1450 se refere a eles, bem como á cultura da vinha. Uma provisão de 1485 autorizou o lançamento da
imposição do vinho para as despesas do concelho, e nos forais de 1515 se mandou pagar dizimo do vinho da
ilha.
Para a corte de Francisco I, de França, que subiu ao trono em 1515 e morreu em 1547, exportou a Madeira,
segundo refere Paulo Perestrelo da Câmara, os seus vinhos malvasia e seco por ocasião das guerras em que
aquele soberano envolvera os seus estados, e diz Rebelo da Silva na Historia de Portugal, que já em 1567 a
Bélgica importava os vinhos da ilha. Lemos algures que consta de um velho registo da Alfandega desta
cidade que em 1566 a Madeira exportava alguns vinhos e que regulava então por 3.200 réis o preço da pipa
de vinho, havendo ainda a narrativa da viagem de Lopes, escrita em 1588 e publicada no Purchas'
Pilgrinages, e as Saudades da Terra, de Frutuoso, escritas em 1590, que se referem á exportação dos nossos
vinhos no século XVI. Lê-se a pág. 113 desta ultima obra que o «vinho malvasia é o melhor que se acha no
universo, e se leva para a Índia, e para muitas partes do mundo».
Ernbora, porém, esteja bem averiguado que no século XV a Madeira produzia vinhos e que a exportação
destes se fazia já no século XVI, é opinião do Dr. Azevedo, e vários factos vêm comprova-la que foi depois de
1640 e especialmente desde a íntima aliança entre Portugal e a Inglaterra pelo casamento da infanta D.
Catarina com Carlos II, em 1660, gue a mesma exportação começou a fazer-se em larga escala, em virtude
de muitos comerciantes ingleses se haverem estabelecido na Madeira para dedicar-se a esse ramo de
negocio os quais foram cumulados de privilégios e isenções pelo nosso governo.
Em 1621 solicitaram a Câmara e os moradores do Funchal uma provisão regia para que no Brasil só fossem
admitidos os vinhos nacionais, isto com o fim dos desta ilha poderem facilmente ser para ali exportados,
mas, segundo parece, só em 1643 é que alguma coisa se fez no intuito de proteger a nossa vinicultura, tendo
sido expedida nesse ano carta de D. João IV ao provedor da fazenda real para que se abastecesse aqui de
vinhos para as armadas.
Em 1646, diz o anotador das Saudades, exportava a Madeira umas 2000 pipas de vinho, e Christopher
Jeaffreson que passou por esta ilha em 1676, na sua viagem para as Indias Ocidentais, declara terem-no
informado que nalguns anos orçava a produção do vinho por 25:000 pipas, indicando quais os artigos
importados que eram trocados por esses vinhos e pelos doces que aqui se fabricavam. Jeaffreson fez
embarcar no seu navio uma porção de vinhos com destino a St. Kitts.
Pelos anos de 1680, segundo refere Paulo Perestrelo, havia na cidade do Funchal umas dez casas de
comercio inglesas, outras dez de diversos estrangeiros, e seis ou oito portuguesas, que compravam os vinhos
já prontos e os exportavam tomando em retorno artigos de consumo, e alguns mercadores começaram a
reduzir os vinhos mais baixos a aguardente, que embarcavam para o Brasil e costa de Africa, com outros
géneros havidos por importação, recebendo em troca escravos e oiro.
Diz o viajante inglês Atkins que visitou o Funchal em 1720, que conseguiu adquirir aqui duas pipas de
vinho, dando por uma delas dois fatos usados e por outra três cabeleiras em segunda mão, mas embora esta
informação só possa merecer confiança se se admitir que aquele viajante confundiu pipas com galões, o que
se não pode pôr em duvida é que em antigos tempos estava muito em uso na ilha a troca de certos objectos
por vinho, referindo o inglês Paterson, chefe de uma expedição que visitou a Madeira em 1698, haverem
alguns membros dela trocado aqui certos artigos de vestuário agaloados ou bordados, por vinho e outras
provisões.
Lê-se num artigo publicado em 1882 no
Wine and Spirits News
que o vinho da Madeira se tornara muito
conhecido na Inglaterra no século XVIII, e que em 1799 um comboio de 96 navios ancorara no porto do
Funchal, no dia 14 de Outubro, a fim de carregar 3041 pipas de vinho para as Índias Ocidentais, devendo
parte desse vinho seguir depois para Inglaterra.
José Soares da Silva que escreveu por 1730
as Memorias para a historia do governo de D. Joâo o I
, diz aí
que a Madeira «exportava todos os anos mais de 20:000 pipas de vinho, além das águas ardentes», e numa
antiga estatística se lê que em 1774 era a exportação de 7.073 pipas, em 1788 de 10.8l9, em 1790 de 13.713,
em 1800 de 16.891, em 1813 de 22.000, em 1818 de 18.000, em 1821 de 10.115 e em 1825 de 14.432.
Em 1830 estava reduzida a exportação a 5.994 pipas, mas depois melhorou ela notavelmente, tendo saído
da ilha 8.875 pipas em 1834, 9.782 em 1840, 7.054 em 1844 14.445 em 1849, 13.875 em 1850 e 12.356 em
1851.
Em 1852 foram exportadas 5.676 pipas somente, já por efeito da mangra que devastava então os vinhedos
da ilha, e entre 1853 e 1881 a maior quantidade de vinho exportado foi 4.204 pipas, em 1853, e a menor 536,
em 1865.
A exportação em 1882 foi de 4.250 pipas, em 1883 de 2.759, em 1884 de 3.210, em 1885 de 3.701, em 1886
de 5.227 e em 1887 de 4.247.
A exportação do vinho Madeira no período que vai de 1910 a 1932 consta do mapa seguinte, sendo fácil
reduzir a pipas as quantidades mencionadas, sabendo-se que cada pipa (V. este nome) de embarque
corresponde a 418 litros:
Anos Litros
1910................................ 2.962.317
1911................................ 3.189.672
1912................................ 2.872.369
1913................................ 3.242.427
1914................................ 2.392.508
1915................................ 2.630.393
1916................................ 4.754.724
1917................................ 1.268.781
1918................................ 1.286.213
1919................................ 8.361.286
i920................................ 2.581.352
1921................................ 1.429.858
1922................................ 3.790.131
1923................................ 3.558.193
1924................................ 4.435.085
1925................................ 4.884.110
1926................................ 3.765.340
1927................................ 3.303.997
1928................................ 4.004.097
1929................................ 4.392.128
1930................................ 4.747.304
1931................................ 4.670.113
1932................................ 3.262.009
Nos anos de 1920, 1921 e 1922 importou a França, respectivamente, 413.343, 95.458 e 1.705.187 litros de
vinhos da Madeira; a Alemanha 9.703.000, 72 381 e 348.428; a Inglaterra 304.437, 419.594 e 217.800; a
Suécia 1.111.033, 189.108 e 371.403; a Dinamarca 297.465, 337.169 e 872.925; e o Brasil 208.570, 33.923 e
68.740. No tempo do império, era a Rússia um dos principais países importadores dos vinhos da Madeira,
tendo ido para ali 770.840 litros em 1899, 674.600 em 1900, 491.420 em 1901 e 239.710 em 1902.
A França foi o país que em 1922 importou maiores quantidades de vinho Madeira, mas a falta de um acordo
comercial com aquele país, baseado na reforma das nossas pautas, deu logar a que depois de decorridos
doze anos em regímen de modus-vivendi, tendo-se obtido nos últimos tempos numerosas prorrogações a
curto prazo, fosse ali proibida em 1923 a entrada dos nossos vinhos licorosos, com grave prejuízo para a
vinicultura madeirense e de Portugal.
Os nossos vinhos mais preciosos são hoje exportados principalmente para a Suécia, Dinamarca e Noruega,
onde se faz um largo consumo deles (1921).
As guerras entre a França e a Inglaterra, a da independência dos Estados Unidos da América e as
campanhas da mesma França contra a Europa, e especialmente contra a Inglaterra (1754-1761, 1775-1783 e
1793-1815) deram azo, diz o Dr. Azevedo, a uma grande procura dos nossos vinhos, chegando-se a exportar,
termo médio, de 1810 a 1815, umas 20:000 pipas, anualmente, mas a adulteração ou falsificação dos
mesmos vinhos feita não só no estrangeiro, mas até na ilha mesma pouco a pouco fizeram declinar um ramo
de negocio que durante mais de meio século se manteve bastante prospero.
Em 1809 pagava-se 7.000 a 8.500 réis por um barril de mosto e o negociante vendia o vinho ao preço de
250$000 até 400$000 réis cada pipa; em 1922 e 1923 variou o preço dos mostos, respectivamente, entre 30
e 35 escudos e entre 85 e 110 escudos, pagando-se a pipa de vinho no estrangeiro ao preço médio de 30
libras. Se se atender ao valor da nossa moeda nos princípios do século XIX e na actualidade, facilmente se
reconhece que embora as condições da nossa viticultura e vinicultura tenham melhorado notavelmente nos
últimos anos, não são todavia tão prosperas agora como o foram em épocas afastadas de nós.
Para obstar noutras épocas a que os vinicultores adulterassem os vinhos, quer temperando-os com
aguardentes de baixa gualidade, quer lotando-os com vinhos fracos, apareceram o decreto de 22 de
Dezembro de 1800, ordenando e policiando as marcas das vasilhas, o decreto de 22 de Julho de 1801
proibindo a admissão dos vinhos dos Açores na Madeira, as ordens da Junta da Fazenda vedando a entrada
nesta ilha aos vinhos do continente, e por fim a postura da Câmara Municipal, de 27 de Maio de 1837, pela
qual se procurou impedir que os vinhos das freguesias do norte transitassem para as do sul. «Mas a
falsificação, diz o Dr. Azevedo, mormente no estrangeiro, continuou em grande ponto, e o descrédito e
concorrência que trazia aos genuínos vinhos da Madeira, muito os prejudicaram na estima, valor e consumo
que tinham».
«Ao mesmo tempo, diz ainda o mesmo autor, outros vinhos, tais como o do Porto, o de Xerez, os da Sicília,
os da França, e o do Cabo da Boa Esperança desde 1815, afluíram ao mercado inglês, tornando-se alguns
delles predilectos do paladar dos opulentos: de modo que, pacificada a Europa nesse anno de 1825, e á
proporção que a agricultura se desenvolveu, a geração então nova se foi habituando a ess'outros vinhos, em
detrimento dos da Madeira, especialmente de 1825 em diante, como mostra o interessante mappa dos
vinhos importados de diversos paizes para consumo na Inglaterra, desde 1784 até 1842, inserto no artigo
Wine, do Dictionary. . . of commerce. . ., by J. R. Mc. Cullosh. Esse mappa não menciona, quanto ao anno de
1784, importação alguma de vinho da Madeira; no período de 1786 a 1794, indica 196:140 galões; no de
1805 a 1814, 354:050; no de 1815 a 1820, 353:940; no anno de 1821, 400:476; no de 1825 , 372:504; e
depois, em gradual diminuição, chega a 1842, anno em que a Inglaterra só importou 65:509 galões.
Quantum mutatus ab illo!–Aos convergentes golpes da fraude, da concorrência, e da moda, foi, portanto,
declinando o commercio dos vinhos da Madeira nas praças britannicas.
«Mas, em compensação, conquanto não completa, estes vinhos, na década de 1830 a 1840, se foram de mais
em mais acreditando nos mercados das cidades Hanseaticas, Russia, Hollanda, e outros pontos da Europa,
e nos Estados Unidos da América. Estes importavam umas 4:200 pipas anualmente; o império moscovita,
2:000; os outros países, cerca de 3000. Por isso, a exportação de vinho desta ilha, que em 1830 estava
reduzida, como já dissemos, a 5:994 pipas, progressivamente augmentou, chegando em 1840 a 9:782, no
preço de 30 a 44 libras esterlinas por pipa».
Para evitar a mistura nos lagares das uvas das castas inferiores com as daquelas que produzem os vinhos
generosos da Madeira, houve outrora em cada freguesia um inspector geral escolhido pela Câmara
Municipal, com autoridade para nomear sub-inspectores encarregados de «fiscalizar a pureza das vindimas
e a boa escolha das uvas, e tudo o mais concernente á bondade da colheita».
A primeira nomeação de inspectores para as vindimas fez-se, segundo cremos, em sessão camarária de 21
de Agosto de 1820, e em sessão de 3 de Setembro de 1836 recomendou-se aos indivíduos nomeados para
esses cargos que evitassem a mistura «da uva de mau vinho, tal como a denominada cachudo, malvazião,
carão de dama, maroto, etc., com a uva de boa qualidade».
Dissemos atrás que foi por 1660 que a exportação dos vinhos da Madeira começou a tomar incremento, em
virtude do impulso que lhe deram os negociantes britânicos, mas estes negociantes a quem os nossos
monarcas comularam de privilégios, chegando a dispensa-los do pagamento do imposto de 400 réis por
cada pipa de vinho exportado, estabelecido em 1646, vieram a tornar-se mais tarde os mais cruéis inimigos
da viticultura madeirense.
Sendo quasi os únicos compradores de vinhos, os mercadores britânicos tornaram-se, como diz o Dr.
Azevedo, árbitros supremos do preço deles, ficando-lhes todos na mais completa sujeição. Nos fins do
século XVIII e princípios do século XIX essa sujeição era pouco manifesta, pois que os vinhos, devido ao seu
alto preço, davam para remunerar condignamente os proprietários e agricultores, mas ao começarem os
mesmos vinhos a decair, logo se iniciou para muitos madeirenses uma época de misérias e de privações que
foi de larga duração e trouxe á nossa ilha alterações profundas na sua situação económica. «Antes do
nefando tratado de 1810, diz Paulo Perestrelo da Câmara, era inibido aos ingleses comprar vinhos em
mosto; porem, sendo-lhes isto facultado, tornaram-se os árbitros deste género, e os verdadeiros senhorios
das terras».
Se não fora a existência dalgumas respeitáveis casas comerciais portuguesas na ilha, entre as quais ocupava
o primeiro logar a do morgado João da Câmara de Carvalhal, mais tarde Conde de Carvalhal, teriam os
mercadores britânicos exercido aqui livremente a mais deplorável das tiranias, enquanto auferiam no
estrangeiro os lucros ainda consideráveis da exportação dos nossos vinhos. Varias vezes essas casas
estabeleceram preços remuneradores para os mostos a fim de evitar que estes fossem pagos por preços
irrisórios, como pretendiam os negociantes ingleses aqui estabelecidos.
Em 1852 apareceu na ilha o Oidium Tuckeri que destruíu a maior parte dos seus vinhedos, levando a
miséria a muitos lares e obrigando muitos madeirenses a emigrar para o Brasil e outros países, mas a crise
medonha que então assolou a nossa terra regenerou-a, como judiciosamente diz o dr. Alvaro de Azevedo nas
suas notas ás Saudades da Terra. «O mercador inglês, extinto o vinho, liquidou como poude e retirou-se;
das antigas casas britannicas só ficaram as de Newton Gordon & Comp.ª J. W. & T. Selby, Blandy, e
Rutterford & Grant, sendo as duas ultimas mantidas principalmente pelo valioso negocio do carvão de
pedra. Assim a Madeira ficou libertada desses seus dominadores capitalistas. O villão, aguilhoado da
necessidade, devotou-se ás terras que colonisava, explorando-as, não com uma exclusiva cultura, como até
então fora a vinha, mas com diversas: a da canna de assucar, que em breve lhe deu mais e mais prompto
dinheiro que o vinho nos ultimos tempos; e as dos cereaes, dos legumes, da batata doce e não doce, do
inhame e das hortaliças, que em breve lhe trouxeram ao lar a fortuna e a alegria, por annos tão arredias».
De 1872 a 1883 sofreu a Madeira novas devastações produzidas desta vez pela invasão filoxerica, mas
reconstituídas as suas plantações de vinha pela introdução de cepas resistentes com as quais foram
enxertadas as antigas castas, de novo voltou a ilha a produzir os seus deliciosos e afamados vinhos.
Infelizmente, porém, não estavam esquecidos os processos de falsificação a que já aludimos, e a maneira
como deles se abusou, principalmente no estrangeiro, chegando-se a imitar os rotulos de consideradas casas
exportadoras para facilitar a aceitação das mais ordinárias mistelas, bastante concorreu para desvalorizar a
principal produção da nossa ilha e para tornar bastante critica a situação do viticultor, a quem os
negociantes pagavam pelos mostos preços irrisorios pela dificuldade que tinham em encontrar compradores
para os seus vinhos.
A grande guerra fazendo esgotar os stocks do verdadeiro vinho Madeira, concorreu para valorizar as
colheitas e fomentar a exportação, mas para que esta se mantenha e se desenvolva, como é de interesse para
a ilha, preciso é, todos o sabem, que o sabor, o corpo e o aroma do mesmo vinho não sejam alterados pelas
falsificações. Lotar os nossos vinhos com vinhos fracos de Portugal ou adulterá-los por outra qualquer
forma, mesmo não prejudicial à saúde, é um erro, ou melhor, um crime, que pode prejudicar gravemente a
economia desta ilha, que tantas perturbações tem sofrido já por causa da ganância e da falta de escrúpulos
de alguns negociantes.
Nalguns mercados estrangeiros não poucas vezes se comete o abuso de apresentar como provenientes da
Madeira vinhos produzidos na Espanha, na Grecia e noutros países, cumprindo também que o mesmo
abuso não continue a praticar-se, para o que é necessário pôr em execução e generalizar as clausulas do
convenio do Washington de 2 de Junho de 1911 e o que ficou estabelecido nos artigos 274 e 275 do tratado
de paz assinado em Versailles em 28 de Junho de 1919 e celebrado entre a Alemanha, de uma parte, e da
outra 27 potencias, uma delas Portugal.
Afirma-se que alguns viticultores para alcançarem quantidades de álcool superiores aquelas de que
necessitam e a que têm direito, fornecem notas exageradas da produção dos mostos das suas propriedades,
o que, a ser exacto, constitui um abuso certamente prejudicial aos interesses da terra, visto o excesso do
mesmo álcool poder ser utilizado nas falsificações. Em 15 de Outubro de 1919 pretendeu-se obter no
Parlamento uma lei que autorizasse os nossos vinicultores a empregar na preparação dos vinhos da Madeira
as mesmas quantidades de álcool aplicadas aos vinhos do Porto, mas tal lei que só serviria para favorecer a
fraude, não chegou a ter aprovação. Com álcool e açúcar em abundância não precisariam alguns
comerciantes de ir buscar ao agricultor o vinho preciso para satisfazer as encomendas vindas do
estrangeiro.
A utilização no preparo dos vinhos generosos de uvas adequadas ao fabrico de vinhos de pasto embora não
constitua uma verdadeira fraude, deve no entretanto evitar-se, criando-se tipos especiais madeirenses
destes últimos vinhos, conforme é permitido pelo regulamento de 1913. Um conhecido enólogo conseguiu
fabricar há anos um tipo de vinho de pasto madeirense, que alguns provadores, consideraram de excelente
qualidade.
Entre os actuais (1921) exportadores de vinhos da Madeira mencionaremos os seguintes: Companhia
Vinicola da Madeira; Antonio Isidro Gonçalves; Tarquinio Torquato da Camara Lomelino; Freitas Martins,
Caldeira & C.ª; Julio A. Cunha, Sucessores; Portugal, Santos & C.ª; F. F. Ferraz & C.ª; Luiz Gomes da
Conceição & Filhos; João Carlos de Aguiar & C.ª; Artur Barros Sousa; F. M. Sardinha & C.ª; João Teodoro
Figueira; The Madeira Wine Association; Cossart, Gordon & C.ª; Blandy Brothers & C.ª; Leacock & C.ª;
Henrique P. Miles; e Power, Drury & C.ª. A venda dos nossos vinhos no estrangeiro faz-se por intermédio
de agentes que as casas exportadoras mantêm ali para tal fim.
Temo-nos ocupado da exportação dos vinhos da Madeira e da necessidade que há de restituir-lhes a
merecida fama de que gozaram outrora em muitos países estrangeiros; vamos agora apresentar alguns
dados relativos á produção, aos principais tipos e ao fabrico dos mesmos vinhos, no intuito de completar a
noticia que nos propusemos escrever sobre uma das principais riquezas da nossa ilha.
A produção vinícola que em 1813 era de 25.440 pipas, estava reduzida a 20.986 pipas em 1847, a 11.140 em
1850, a 2.277 em 1852, a 660 em 1853, a 138 em 1854 e a 38 em 1855. De 1856 em diante nota-se um
pequeno aumento na produção em relação àqueles dois últimos anos, mas em 1858 ainda ela não excedia
197 pipas, tendo descido a 162 no ano imediato. Em 1861 e 1865 foi a produção, respectivamente, de 400 e
5.000 pipas, e em 1882, quando a filoxera (V. este nome) fazia ainda grandes devastações nos vinhedos da
ilha, foi ela de cerca de 4.500 pipas, baixando a 3.500 em 1883.
A enxertia das antigas castas em cepas resistentes e o aproveitamento em larga escala do Jacquez como
produtor directo, melhoraram notavelmente a situação da ilha nos anos subsequentes, tendo sido a
produção de umas 8.000 pipas em 1895, de 9.200 em 1900 e de 11.401 em 1909.
O Funchal e Câmara de Lobos são os concelhos em que é maior a produção vinícola, seguindo-se-lhes os
concelhos de S. Vicente, Porto do Moniz, Porto Santo e Calheta. Os vinhos generosos provêm da costa do sul
da Madeira, e em especial de Câmara de Lobos e do Funchal, mas os vinhos do Porto da Cruz, na costa do
norte, são em regra de muito boa qualidade.
Os principais vinhos madeirenses são os seguintes: malvasia, boal, sercial, verdelho, tinta e Madeira. Os
quatro primeiros receberam os nomes das uvas que os produzem; o ultimo provém da mistura no lagar de
diversas castas madeirenses.
O malvasia é doce e aromático, e no entender de Frutuoso e dos modernos consumidores ingleses, o mais
valioso dos vinhos da Madeira; o boal é também aromático e excelente para mesa ou toast»; o sercial é seco
e não pode ser consumido antes de oito ou dez anos, sendo considerado, porém, nesta idade «como um dos
vinhos mais delicados e salutares da ilha», o verdelho é forte, aromático e «tem muito valor para mesa»; e a
tinta é doce e aromática, sobretudo enquanto é nova, devendo a sua cor ao folhelho que se deixa ficar no
vinho durante a fermentação. 0 Madeira, o mais comum dos vinhos da ilha, provém de uvas de diversas
castas espremidas juntas nos lagares e pode ser mais ou menos forte e mais ou menos aromático conforme a
sua idade e composição.
É o Madeira que a ilha exportava e exporta ainda em larga escala, sendo este vinho conhecido outrora nos
mercados ingleses pelos nomes de East ou West Índia Madeira, quando tinha sido enviado até esses países a
fim de melhorar pela acção do calor, e de London Particular, quando não tinha realizado tal viagem.
Na Madeira prepara-se um vinho a que chamam surdo, juntando aos mostos quantidades avultadas de
álcool. Este vinho que conserva uma parte do açúcar, serve para dar corpo a outros vinhos e também para
adoçá-los, tendo tido outrora na Inglaterra, para onde se exportavam pequenas quantidades dele, o nome
de Nuns's wine.
Dissemos atrás que era de 30 libras o preço médio actual da pipa de vinho, mas afirmam-nos que alguns
vinhos velhos têm sido vendidos ultimamente a 100 libras. Johnson que escreveu o seu Handbook em 1885,
diz aí que o preço do vinho da Madeira vai desde 25 a 300 libras por pipa, e nos princípios do século XIX, na
época da grande exportação, variava esse preço entre 55 e 90 libras. 0 custo duma pipa de vinho era de 15,
18 e 20 libras antes da ultima guerra (1914-1918), de cerca de 40 libras em 1878 (preço médio), de 50 a 80
libras em 1856, de 25 a 50 alguns anos antes e de 30 a 44 em 1840.
As vindimas realizam-se no mês de Setembro, mas nos logares quentes e soalheiros podem principiar nos
fins de Agosto, e nos logares altos e frios prolongar-se até meados de Outubro. As uvas são esmagadas no
lagar por homens descalços, vendo-se junto dele uma tina destinada a receber o mosto. Espremidas as uvas,
é o bagaço arrumado no centro do lagar e apertado helicoidalmente por meio duma corda grossa, fazendo-
se depois assentar sobre ele umas taboas, nas quais se vai exercer a pressão da vara, uma grossa trave que se
aperta por meio dum parafuso que a atravessa numa das extremidades e se prende inferiormente á
chamada pedra do lagar.
Assim comprimido, o bagaço fornece uma nova porção de mosto que sai pela bica do lagar para a tina que se
acha num plano inferior, mas o trabalho da extracção do sumo da uva não está ainda concluído, pois resta a
operação da repisa, que consiste num ultimo esmagamento do bagaço, realizado igualmente por homens
descalços, dentro do lagar. Esta operação é bastante violenta e só pode ser bem executada por indivíduos
novos e sadios.
A água-pé é fabricada deitando água sobre o bagaço e submetendo este a uma nova pressão. Adicionando-
lhe álcool, obtém-se um vinho fraco que é consumido nos campos da ilha.
O mosto é transportado em barris ou em borrachos para a adega do vinicultor, sendo despejado aí em pipas
ou tonéis, onde tem logar a fermentação, que dura em regra dois meses. Terminada a fermentação, são os
vinhos limpos das borras e transferidos para outros cascos de antemão lavados, desinfectados com cal e
finalmente mechados, onde se realiza a sua clarificação por meio de ovos, leite, sangue de boi ou barro.
Depois da clarificação, são os vinhos remetidos para as estufas, isto quando a sua educação se não faz pelo
sistema de canteiro. 0utrora era costume deitar álcool no vinho antes do aquecimento, mas hoje o processo
mais seguido é não lhe deitar nenhum senão depois. E o álcool extraído da cana sacarina que é usado agora
no tratamento dos nossos vinhos, mas por meados do século XIX empregava-se nesse tratamento o álcool
fabricado com os vinhos do norte, e nos princípios do mesmo século muitas vezes serviram as aguardentes
estrangeiras para o tratamento dos vinhos da ilha, encontrando-se registadas nos livros da Câmara
Municipal do Funchal varias representações do Senado solicitando a proibição da entrada dessas
aguardentes na Madeira.
Aos vinhos fracos madeirenses adiciona-se em geral 10 a 11 por cento de álcool, aos vinhos melhores, 6 por
cento, e ao vinho surdo, 30 por cento. Este ultimo vinho serve, como já dissemos, para melhorar e dar corpo
aos outros vinhos, sendo preferível o seu emprego ao da calda de açúcar, muito utilizada outrora pelos
vinicultores. O arrobe (mosto fervido), é pouco empregado hoje no tratamento de vinhos.
Segundo o Dr. Ferreira da Silva, os mostos madeirenses têm uma percentagem de açúcar de l9 a 28 por
cento, e dizem Kickton e Murdfield que para a preparação dos vinhos generosos da Madeira «é necessário
aumentar a qualidade nobre e vinosa pelo adicionamento de mostos tornados surdos (vinhos abafados ou
surdos, Jeropigas), e por líquidos destilados do vinho», acrescentando, porém, a seguir, que o álcool, como
produto rectificado da cana sacarina, também é empregado em larga escala na ilha no tempero dos vinhos.
Dizem ainda os mesmos autores que o vinho da Madeira é um vinho de dessert, de carácter particular e
exclusivamente preparado na ilha portuguesa da Madeira, e que a sua composição é pouco uniforme em
diversos resultados analíticos, o que é devido não só á percentagem de açúcar, que é variável para os
diversos vinhos de base, mas sobretudo á diversidade dos meios de adoçá-los, que são empregados.
O diploma que regulamentou o comercio e produção dos vinhos da Madeira e de 8 de Novembro de 1913,
não tendo obtido aprovação um outro que apareceu em 1915 e contra o qual se insurgiram a imprensa, as
corporações administrativas e o povo da ilha. As principais disposições deste ultimo diploma e o que acerca
dele se disse e se escreveu, constam duma publicação que tem por título–A Imprensa, as Colectividades do
Distrito e o Projecto de Regulamentação da Produção, Fiscalização e comercio dos Vinhos da Madeira
(Funchal), (1916).
Desde o meado de Janeiro de 1924 ficou existindo no Funchal uma comissão encarregada pelo Ministério
da Agricultura de propor ao Governo as alterações que deve sofrer o regulamento de 8 de Novembro de
1913, de maneira a exercer-se a mais rigorosa fiscalização dos vinhos e a evitarem-se as adulterações.
Acerca da compra dos mostos aos viticultores e da exportação dos vinhos publicou o governador civil José
Nosolini um Regulamento datado de 18 de Outubro de 1939, que estabelece as condições em que essa
compra e exportação devem ser feitas.
Prestam apreciáveis elementos de informação ao assunto deste artigo os seguintes escritos: «Os vinhos da
Madeira e o seu descredito pelas estufas», 1889, «Noticia sobre o vinho Canavial», 1882, e «Os tres
sistemas de tratamento dos vinhos da Madeira», 1900, todos da autoria do conde de Canavial; «0 Vinho da
Madeira. Como se prepara um nectar», 1937, por J. Reis Gomes; «Os Vinhos da Madeira», 1935, por Nuno
Simões; Acção Bactericida do Vinho Madeira pelo dr. Vicente Henriques de Gouveia, 1930, e «Vinho da
Madeira» por Ferreira da Silva.
V
. Álcool, Estufas, Vinhas, Vinho de roda e Vinho de canteiro.
Industrias
Nas páginas precedentes, apresentámos uma resenha do movimento industrial exercido neste
arquipélago debaixo dos seus principais aspectos, e neste artigo daremos uma ligeira noticia de outras
indústrias, que, embora de menor importância, merecem figurar neste lugar para conhecimento de algum
dos leitores desta obra.
Existem presentemente (1921) na Madeira 2 fábricas de conserva de peixe, 1 de tabacos (vide este nome) 1
de velas de estearina, 2 de velas de cera, 1 de cerveja, 2 de bebidas gasosas, 2 de sabão (V.
Saboarias
), 2 de
pregos, 1 de telha e ladrilhos de cimento, 6 de serração de madeiras, 5 de bolacha e biscoitos, 7 de massas
alimenticias, 1 de adubos quimicos e 1 de tintas. Existem também uma oficina de fundição, varias pequenas
fabricas de manteiga (V. este nome), 7 de queijos, 5 olarias, 6 fabricas e cêrca de 300 azenhas para a
moagem de cereais, diferentes marcenarias, nalgumas das quais se fabricam moveis muito elegantes e que
rivalizam com os que vêm de Portugal, pequenas fabricas de cortumes, grande numero de lagares onde se
espremem as uvas que produzem os deliciosos vinhos da ilha. (V.
Vinhos
), estufas (V. este nome) para
tratamento dos mesmos vinhos, 2 oficinas de pequenas reparações e construções navais, diferentes oficinas
de fogo de artificio, varios fornos de cal, muitos teares, etc., etc.. As bordadeiras (V.
Bordados
), estão
espalhadas por tôda a ilha, e há também fabricantes de botas chãs ou de pele de batata, de chapeus de palha
de centeio e de artefactos de verga (V.
Camacha
,
Giesta
e
Vime
), e quem se dedique á tinturaria, se bem que
esta industria esteja ainda muito atrasada entre nós. Merece também aqui uma especial referencia a
industria das incrustações em madeiras que, embora pouco desenvolvida, tem uma feição caracteristica e
regional, e que é bastante apreciada pelos estrangeiros (V.
Embutidos
).
As industrias das velas de estearina, dos pregos, do queijo, dos adubos quimicos, das tintas, de telha de
cimento, das bolachas e biscoitos e da conserva de atum são modernas na ilha, exercendo-se esta ultima na
fabrica da Ponta da Cruz, fundada em 1909, e na do Paul do Mar, fundada em 1912, ao passo que as
restantes são tôdas mais ou menos antigas, remontando algumas aos seculos XV e XVI, como a do açucar, a
da moagem, a do sabão, a da serração de madeiras, a dos artefactos de giesta, etc., etc..
A fabrica de conservas da Ponta da Cruz exportou para Portugal 557.085 quilos de atum em 1910, sendo
este o ano em que preparou maior quantidade de peixe, e a fabrica de velas de estearina a que atrás nos
referimos chegou a fornecer mais de 60:000 pacotes anualmente, tendo porém agora, por motivos que
desconhecemos, reduzido a sua producção.
Outrora fabricavam-se no Funchal muitas velas de sebo, mas esta industria começou a desaparecer por
1878, com a afluencia ao nosso mercado das velas de estearina vindas da Inglaterra, que eram vendidas por
preços bastante modicos. As velas de sebo apareciam noutras epocas tanto na residência dos ricos, como na
dos pobres, e eram vendidas a 20 réis cada uma.
As fabricas e azenhas da Madeira, e os moinhos de vento do Pôrto Santo, reduziam a farinha, antes da
guerra, 9 a 10 milhões de quilogramas de trigo, sendo 7 a 8 milhões importados, 11 a 12 milhões de
quilogramas de milho, sendo quasi todo ele importado, e cerca de 350 mil quilogramas de cevada e centeio,
produzidos na ilha. No tempo dos donatarios só eles podiam ter moinhos de cereais e fornos públicos, sendo
licito porém a qualquer ter moo de braço, mas não moendo a outrem.
A industria da serração de madeiras é, como a da moagem, bastante antiga, e a ela se referem Frutuoso e a
carta de doação da capitania do Funchal feita pelo infante D. Henrique a João Gonçalves Zargo. Segundo
aquele cronista, «na ilha havia tanta quantidade de madeira tão fermosa e rija, que levavam para muitas
partes copia de taboas, traves, mastros, que tudo se serrava com engenhos ou serras d'agua, dos quais ainda
hoje ha muitos das bandas do norte da mesma ilha.»
A este assunto interessa ler-se o opúsculo Serras de Agua na Ilha da Madeira e Porto Santo publicado em
1937 pelo Dr. Jordão de Freitas.
Em vez das serras de água, há agora varias oficinas para a serração de madeiras, em que o motor é a força
do vapor, sendo seis as principais, como atrás ficou dito.
Frutuoso refere-se ás indústrias do sabão e dos artefactos de verga, tendo a primeira constituído um
monopólio até a publicação da lei de 25 de Abril de 1857. Em 1860 havia já duas fabricas de sabão, e duas
existem também actualmente, importando-se todavia de Portugal grandes quantidades daquele produto
para o consumo da ilha.
Em 1856 havia uma fabrica de cerveja no Funchal, e a indústria da fundição data talvez de 1834. Ha oitenta
anos fundiam-se já o ferro, o estanho, o cobre e o zinco nas oficinas de José Pires Soares e de William
Hinton, empregando-se os altos-fornos e trabalhando a ventoinha pela força braçal ou por cavalos, e se essa
indústria não tomou desde logo incremento entre nós, é porque da Inglaterra vinham grandes porções de
objectos metálicos de varia natureza, que eram vendidos aqui por baixos preços. Além da fabrica de
fundição, estabelecida agora (1921) na rua 5 de Junho, havia há poucos anos uma outra na antiga rua da
Princesa.
Embora no Funchal e na Camacha se trabalhe em tecidos de palha de centeio para o fabrico de chapéus, é
no Estreito de Câmara de Lobos que esta indústria está mais desenvolvida e que se executam trabalhos mais
esmerados. As tecedeiras desta ultima freguesia entrançam também a palha com que se fabricam chapéus
arrendados para senhoras.
A indústria dos queijos, estacionária durante anos, mas que parece agora em progresso, exerce-se no Faial,
no Estreito de Câmara de Lobos, na Ponta do Sol e nos Canhas. Foi Adolfo Burnay quem fabricou os
primeiros queijos na Madeira, numa fabrica de lacticínios montada por ele no Santo da Serra em 1895, mas
essa tentativa não deu resultados, e só decorridos quinze anos é que começaram a aparecer no concelho da
Ponta do Sol alguns queijos que, pelo seu sabor agradável e bom preparo, mereceram a aceitação do
publico.
Os teares estão muito disseminados pela ilha e tecem panos de linho, estopas e tecidos mixtos de linho e lã
(seriguilha, marafuz, etc.). Segundo uma estatística que temos presente, há cerca de oitenta anos
fabricavam-se em todo o distrito 143.000 metros de pano de linho, 3.300 de estopa e 7.800 de tecidos
mixtos, mas hoje está essa produção reduzida talvez a metade, devido aos panos da terra serem menos
procurados para os usos domésticos. Os concelhos da Calheta, Sant'Ana e Ponta do Sol são aqueles em que
se fabrica maior quantidade de tecidos de linho e de linho e lã.
São de construção madeirense não só os barcos de vela e a remos que fazem serviço nas águas do
arquipelago, mas ainda o pequeno vapor Vitoria, que navegava na costa sul da Madeira. Este vapor foi
construído em Machico, e a leste da antiga Praça Académica construíram operários madeirenses, há mais de
cinquenta anos, o pequeno, mas excelente vapor Queen, que, depois de ter navegado nas nossas águas,
passou a fazer serviço no Tejo. Em 1920 construiu no recinto do Cabrestante o iate Gonçalves Zargo, e está
agora (1921) em construção no Campo do Almirante Reis um outro navio de maior lotação do que aquele–o
iate Anfitrite–destinado também a viagens no alto mar.
No Funchal há três olarias, a mais importante das quais é a Funchalense, na estrada do Conde de Carvalhal,
e espera-se que dentro em pouco será instalado no sítio do Gorgulho um estabelecimento de primeira
ordem, destinado ao fabrico do vidro
(V.
Traquites
)
e da telha, tijolos, etc. (1921).
As matérias primas usadas na cerâmica da ilha são o barro vermelho, a areia branca e o salitre de Portugal,
e o barro massapez da Madeira e Porto Santo, mas este ultimo tem o inconveniente de se fender ás vezes,
quando não associado a outro barro, em virtude de um excesso de óxido ferrico. No Estreito da Calheta
fabricam telhas de forma arqueada, infusas e outros objectos, utilizando apenas o barro da terra.
Diz Frutuoso que no Porto Santo havia muitos dragoeiros, do tronco dos quais se fazia muita louça, mas
hoje estão estas árvores extintas naquela ilha, não sendo utilizadas na Madeira, onde são muito raras, em
coisa alguma. Da madeira da urze e do folhado se fazem colheres e outros objectos na Camacha e noutras
freguesias.
Nos campos da Madeira, e em especial no Porto do Moniz, fabricam-se massas alimentícias por meio de
maquinas muito rudimentares, construídas na
ilha. Estabelecimentos providos de maquinismos
aperfeiçoados, destinados ao mesmo fim, só existem no Funchal e em Santa Cruz.
A indústria da confeitaria teve importância no Funchal, como vimos a pág. 298 do I.º volume deste
Elucidario, e entre as pequenas indústrias caseiras da Madeira, convém assinalar a das flores de penas e de
papel, a das gaiolas, a dos chapéus de folhas de palmeira (V. Caniço) e a da ginger-beer. As mulheres da
Madeira, diz Frutuoso, «além de serem mui bem assombradas, mui fermosas, e discretas, e virtuosas, são
extremadas na perfeição de ricos e exquisitos manjares de toda a sorte, e em todas as invenções de ricas
cousas que fazem, não somente em pano com polidos lavores, mas também em assucar com delicadas
fructas.»
No fim de 1912 havia 494 estabelecimentos industriais registados em todo o distrito, e a população fabril era
de 3.547 indivíduos, sendo 209 empregados, 287 mestres e contramestres e 3.051 operários. Nesta ultima
classe contavam-se 2 042 homens, 426 mulheres, 288 menores do sexo masculino e 295 do sexo feminino.
Embora a Madeira seja um país mais agrícola do que industrial, indústrias há todavia que se podem
considerar aqui vigorosas e outras que prometem vantagens, sendo mesmo já hoje mais ou menos
remuneradoras. O pessoal operário é em regra activo e inteligente, e se nem sempre produz trabalhos
isentos de certos defeitos, é porque a sua pouca educação não só literária, mas também artística, lhe não
permite adiantar-se convenientemente.
A indústria do desdobramento dos produtos da cana sacarina é das mais valiosas da ilha, sendo também
muito importantes a dos bordados, a da manteiga, a das moagens, a do sabão, a da fundição e a da cerveja.
Estas duas ultimas indústrias, que foram exercidas por portugueses, estão agora nas mãos de estrangeiros,
tendo sido também um industrial inglês quem durante largos anos teve o monopólio do fabrico do açúcar
em todo o distrito.
Infante (
Pico do
)
.Elevação montanhosa, na freguesia de Santa Maria Maior, ao norte do sítio da
Choupana.
Inferno (
Ribeira do
)
.
Nasce nas serras da freguesia de São Vicente e separa esta freguesia da do
Seixal, lançando-se no oceano. Nas margens desta ribeira e nos pontos interiores dela, encontram-se alguns
dos pontos da nossa mais arrebatadora paisagem, deparando-se ali frequentemente com os mais horrorosos
e profundos despenhadeiros. O caudal desta ribeira alimenta uma levada, que fertiliza as terras da freguesia
de São Vicente.
Influências Étnicas
Os primeiros núcleos de povoadores, que no segundo quartel do século XV
vieram colonizar este arquipélago constituíram-se com habitantes do continente português, especialmente
das províncias do Minho e do Algarve. Foram na sua maioria recrutados entre os agricultores e
trabalhadores dos campos, encontrando-se também bastantes artífices, que se entregavam ao exercício das
chamadas artes mecânicas.
Os capitães-donatarios fizeram-se acompanhar de alguns parentes e de outras pessoas das suas próximas
relações, e já atrás (I vol. pág. 293 ) deixámos indicados os nomes de catorze indivíduos, alguns dos quais de
origem nobre, que compartilharam com João Gonçalves Zarco dos trabalhos do primitivo povoamento. O
mesmo teria sucedido com os donatários Tristão Vaz em Machico, e Bartolomeu Perestrelo no Porto Santo.
Dá-nos o dr. Gaspar Frutuoso esta curiosa informação, que varias razões persuadem não ser destituida de
fundamento: « . . .deo licença El-Rey a toda pessoa que quizesse vir com ele (Zargo) para povoação das ditas
ilhas, assi a do Porto Santo como a da Madeira. Mandou dar os homicidas e condenados que houvesse pelas
cadeias e Reyno, dos quaes João Gonçalves não quis levar nenhum dos culpados por causa da fee, ou
traição, ou por ladrão; das outras culpas e homisios levou todos os que houve e foram dele bem tratados; e
da outra gente, os que por sua vontade queriam buscar vida e ventura, foram muitos, os mais deles do
Algarve».
Não é de estranhar que assim houvesse acontecido, em virtude da falta de gente para uma tentativa de
colonização numa região tão afastada e em condições inteiramente desconhecidas, sendo também para
notar que em todo os tempos e lugares os criminosos e condenados forneceram sempre um largo
contingente para os incipientes povoamentos. Esta circunstancia não podia ter influencia na pureza etnica
da população e nem ainda nos seus costumes e predicados de carácter, porque essa pequena leva de
condenados era relativamente insignificante comparado com o numero avultado dos colonizadores vindos
de muitas terras de Portugal.
Não pode, porém, negar-se que a grande multidão de mouros, negros e mulatos trazidos para estas ilhas nos
primeiros tempos da colonização e ainda em épocas posteriores abastardou notavelmente a pureza nativa
da raça lusa, imprimindo-lhe certas características próprias das origens étnicas de onde procediam, que
ainda presentemente se notam em muitos habitantes de algumas localidades rurais. Já o deixámos
assinalado no desenvolvido artigo acerca dos Escravos (I-407) e voltaremos a versar o assunto no artigo que
dedicaremos aos Mouros.
Sendo também bastante considerável o numero de estrangeiros vindos de diversos países da Europa, que no
princípio da colonização e particularmente nos séculos XVI e XVII se estabeleceram na Madeira, não é para
causar estranheza que do seu cruzamento com os naturais se manifestassem em alguns centros de
população certos traços fisionómicos característicos de outras raças europeias, como tem sido observados
por vários visitantes nas suas narrativas de viagem e pode ainda verificar-se no nosso meio, devendo a este
propósito ler-se o artigo Estrangeiros inserto a pag. 419 do 1.° volume desta obra.
Conquanto se possa discordar de algumas das afirmativas feitas nos capítulos Povoadores e Origem Étnica
da apreciada obra Ilhas de Zargo, é no entretanto indubitável que ali se encontram valiosos elementos de
informação e de estudo para o assunto que serve de epígrafe a este pequeno artigo.
Ingleses
Já no artigo Doação da Ilha da Madeira á infanta D. Catarina nos referimos ás tentativas, que
se dizem feitas pelo governo inglês, para obter a posse deste arquipelago, por ocasião do casamento da
infanta portuguesa D. Catarina com Carlos II, rei de Inglaterra. O ponto foi largamente tratado pelo Dr.
Álvaro Rodrigues de Azevedo numa das notas das Saudades da Terra, e embora se não prove ali de uma
maneira concludente que se tivessem entabolado negociações entre os dois governos para a cedência da
Madeira não pode pôr-se em duvida que nesta e ainda em outras ocasiões, quis a diplomacia britânica
aproveitar o ensejo de manifestar essas aspirações, que se julga virem de longe. Posteriormente àquela
época, há então factos positivos e eloquentes, que claramente demonstram os desejos da nossa velha aliada.
As duas ocupações da Madeira por tropas inglesas, realizadas a título de protecção e defesa contra os
supostos ataques das forças napoleonicas, corresponderam a uma verdadeira conquista, o que se prova não
somente com muitos documentos diplomáticos da época, mas ainda pela maneira como administraram os
negócios públicos deste arquipélago, conservando as autoridades portuguesas apenas um simulacro de
poder, que na verdade residia unicamente no comandante em chefe das forças britânicas.
(V. Ocupação
da Madeira por tropas inglesas)
. Os madeirenses sofreram toda a sorte de vexames nos oito anos
que duraram essas ocupações. A pesar das resoluções tomadas no congresso de Viena em que a Inglaterra
teria que evacuar sem demora esta ilha, é certo que em muitas chancelarias europeias e até nas altas esferas
do governo português se julgava que a ocupação da Madeira correspondia a uma posse absoluta e definitiva.
Ao distinto diplomata então representante de Portugal em Londres, D. Domingos António de Sousa
Coutinho que pelas eminentes qualidades de estadista e pelos seus numerosos escritos publicados no
estrangeiro, tantos e tão assinalados serviços prestou ao seu país, se deve a desocupação deste arquipélago e
a sua reentrega á nação portuguesa. O nosso governo agraciou-o com o título de conde e depois marquês do
Funchal título que ainda hoje é usado pelos representantes da sua família. Se ainda somos portugueses, a
ele principalmente o devemos, e todavia não existe nesta cidade cousa alguma que recorde este facto e que
seja ao mesmo tempo uma pequena homenagem prestada á memória do ilustre diplomata.
No período das nossas lutas civis em que a diplomacia britânica tanta interferência teve nos nossos negócios
internos, voltou de novo a Inglaterra a esboçar os seus velhos e nunca esquecidos desejos, embora de uma
maneira sempre velada, que não chegou a comprovar-se por meio de factos que deixassem vestígios nas
relações diplomáticas dos dois países. É certo, porém, que nos centros políticos da época se falou por vezes
no assunto com certa insistência, sobretudo nas ocasiões em que mais necessário se tornava o auxilio da
Inglaterra.
Em 1897, o Jornal inglês The Empire aventou a ideia da cedência do arquipélago madeirense á Inglaterra,
ou então realizar a sua compra, o que não deixou de ser secundado por outras folhas britânicas embora seja
certo que alguns jornais de grande circulação e importância de Londres enjeitaram por completo o que
parecia ser o começo de uma campanha intencionalmente preparada.
No artigo Estrangeiros não fizemos referência especial aos ingleses ou a outros súbditos de qualquer
nacionalidade, merecendo no entretanto a colónia britânica na Madeira que, pela sua antiguidade, numero
dos seus membros, importância de que goza entre nós e outras circunstancias particulares, lhe dediquemos
um pequeno artigo nesta altura do Elucidário.
Não parece ter sido grande o numero de ingleses que procurassem estas paragens nos tempos primitivos da
colonização e ainda no decorrer do século XV e princípio do século XVI. Por esses tempos, muitos
estrangeiros do norte da Europa, nomeadamente flamengos e também do sul, especialmente genoveses,
foram os que em maior numero aportaram a esta ilha, trazidos pelo espírito de aventura e mais ainda pelo
trafico industrial e comercial (V. Estrangeiros). Só por fins do século XVI é que a colónia inglesa foi
engrossando e começou a ter verdadeira importância, dizendo o Dr. Rodrigues de Azevedo «que data de
1640 o seu estabelecimento na Madeira em maior numero do que dantes.»
O consulado inglês nesta ilha foi criado em 1658, sendo nele provido primeiramente João Cater. Podemos
apresentar uma relação, que não temos por completa, doutros indivíduos que exerceram este cargo:
Richard Milty, João Arls e Guilherme Bolton (todos em 1691),
Benjamin Henrique (1705),
Thomás Morgan (1709),
Diogo Clarque (1726)
Ricardo Baker (1734),
Matheus Itnox (1738),
Carlos Chambres (1750),
Guilherme Naich (1756),
Carlos Murray (1787),
José Pringle (1803),
Archibald Brown (1805),
Henrique Veitch (1813),
George Stoddart,
G. Hayward e W. Keen.
Temos nota de que em 1754 eram negociantes no Funchal os súbditos ingleses Guilherme Naich, João
Catanach, Gul Mundach, Richard Hill, Thomas Lamar, Richard Hill Jnr., João Scot, João Pringle, Matheus
Hiccox, Carlos Chamber, Diogo Gordo, João Searte e Francisco Newton, além de outros. Paulo Perestrelo da
Câmara no seu livro Breve Noticia sobre a ilha da Madeira diz que em 1840 existiam nesta cidade vinte e
tantas casas comerciais inglesas, das quais cita o nome de doze, a que chama ricas e acreditadas, cujas
firmas o Dr. Azevedo transcreve a pag. 721 das Saudades.
A partir de 1640 se apossou a colónia britânica de quasi todo o comercio, sobretudo de vinhos, que chegou a
estar inteiramente nas mãos dos negociantes ingleses. Daqui resultou, com este verdadeiro monopólio, que
esses mercadores criassem para si, como diz o anotador de Gaspar Frutuoso, grossas fortunas e os
proprietários das terras e os agricultores vinhateiros empobrecessem. Foram depois surgindo algumas casas
comerciais exportadoras de vinhos de nacionalidade portuguesa, mas não podiam lutar com os colossos
ingleses, não só por falta de capitais, mas também por não encontrarem no estrangeiro a fácil colocação dos
seus produtos, além dos privilégios e isenções de que gozavam aqueles negociantes estrangeiros. Os
administradores de terras vinculadas que geralmente levavam uma vida ociosa, e também muitos
proprietários rurais, sem exclusão dos próprios colonos, iam no decurso do ano levantando nas casas
inglesas quantias avultadas para serem satisfeitas na época das colheitas, tornando-se assim aquelas casas
credoras dos pobres viticultores, que ficavam à mercê do capricho e da ganância dos comerciantes de
vinhos. Numa destas ocasiões, em que as casas exportadoras fixaram um preço pouco remunerador dos
mostos, salvou João de Carvalhal, depois conde de Carvalhal, a situação angustiosa dos lavradores,
comprando os vinhos por preços compensadores e obrigando os mercadores ingleses a seguir-lhe o salutar
exemplo. Mas João de Carvalhal gozava entre nós do maior prestigio e influencia, era um riquíssimo
proprietário em todas as freguesias da ilha e, mais ainda, tinha cerca de três milhões de cruzados em
estabelecimentos bancários de Inglaterra.
Da nota XXVIII das
Saudades da Terra
transcrevemos alguns períodos, que muito interessam ao assunto
deste artigo:
«Feita a revolução do 1.° de Dezembro de 1640, Portugal, para que se mantivesse na guerra da
independência contra Hespanha, teve de captar os bons officios da França, e especialmente da Inglaterra, e
só os obteve a preço de penosos holocaustos, como já tivemos ocasião de notar a pag. 378. Um dos favores
concedidos aos súbditos britannicos foi o permitir-se-lhes, em 1654, a entrada das suas mercadorias,
mediante pequeno direito. Em 1658 já havia na ilha da Madeira um cônsul inglez. De 1660 a 1662 já os
mercadores inglezes aqui gozavam de especial isempção tributaria na exportação do vinho. Em 1680 já aqui
tinham poderosas casas de comercio, que sortiam dos géneros de primeira necessidade a população em
geral, e de todos os géneros, inclusive os de luxo, a classe agrícola, e a proprietária, a qual, infelizmente,
salvas honrosas excepções, se havia habituado á ociosidade e dissipação. –Daqui data a preponderância
ingleza na ilha da Madeira».
Esta preponderância mais se radicou e alargou com os privilégios concedidos aos inglêses pelo celebre
tratado de Methuwen, tornando ainda mais apertada, diz a citada nota, a vassalagem da Madeira ao
mercantilismo britânico, que se transformou em completo e absoluto domínio com a ocupação deste
arquipélago pelas tropas vindas da Inglaterra.
Não sabemos se com o fim de atenuar um pouco os excessos desse reconhecido predomínio e evitar
quaisquer protestos ou reclamações por parte da autoridade superior do arquipélago acerca dele, tinha o
governo inglês resolvido oferecer ao Governador e Capitão General da Madeira uma importância anual, que
para a época não era pequena oferta, cuja legalidade ou conveniência em recebê-la suscitou reparos no
espírito do Governador João António de Sá Pereira, que, numa consulta ao governo do marquês de Pombal,
datada de 30 de Abril de 1768, diz as seguintes curiosas palavras:
«A Nação ingleza querendo obsequiar os Governadores para os ter sempre propícios a fim de melhor poder
continuar nos grandes interesses que tira desta ilha, e vendo que as suas embarcações nada pagavam para o
Governo, impôz com permissão de sua Corte, um tributo aos capitães dos seus navios da quantia de 240 reis
por cada pipa de vinho ou aguardente, de 300 por cada caixa de assucar, de 150 por cada arroba de
casquinha e de 200 por cada saco de urzella, que se exporte d'aqui nas suas embarcações, a que ficaram
chamando–direitos de nação–cujos são pagos pelos carregadores, sejam portuguezes, inglezes ou de
qualquer outra nação, para a arrecadação dos quais nomeiam todos os anos um thesoureiro e escrivão, o
que faz uma grande soma; d'ella se valem para todas as despezas que o comum da nação aqui faz, entre as
quaes é esta. . . ». A oferta era de 600$000 réis anuais, o que há 150 anos representava uma quantia
avultada. Ignoramos quando começou a ser paga, e se o continuou a ser depois da consulta de Sá Pereira. O
que achamos bastante curioso, mas em extremo aviltante para os nossos brios de nação livre, era o
privilegio concedido á Inglaterra de poder arrecadar impostos e direitos aduaneiros nesta ilha, como se
fosse uma colónia inglêsa!
Outro privilegio de que gozou a colónia britânica desta ilha foi o que já deixámos indicado no artigo
Conservador dos Ingleses (V. este nome), em virtude do qual tinham os súbditos ingleses o direito da
escolha de um juiz no julgamento das causas em que tivessem de dirimir-se pendências ou questões entre
eles e os portugueses. Tiveram também os ingleses aqui residentes uma conservatória privativa para o
registo das suas propriedades e de certas transacções comerciais, mas não podemos determinar com
precisão em que consistia esse privilegio e como funcionava a respectiva repartição.
Os súbditos britânicos tiveram alguns templos no Funchal para o exercício do culto protestante. Há
actualmente a igreja anglicana, na rua da Bela Vista, construída no primeiro quartel do século passado, e a
igreja calvinista na rua do conselheiro José Silvestre Ribeiro. Ainda não há muitos anos existia outro templo
na rua dos Aranhas, que julgamos ter pertencido à seita chamada dos ritualistas (V.
igrejas Inglesas
).
Temos vaga noticia de que anteriormente à construção destes templos, outras igrejas protestantes houve
nesta cidade, mas não podemos precisar a época da sua construção nem os locais em que foram erigidas.
Em diversas épocas apareceram entre nós alguns súbditos britânicos, estranhos á colónia inglesa, que se
têm entregado á propaganda e ao proselitismo da religião calvinista, nomeadamente o distinto medico Dr.
Roberto Kalley, de quem nos ocuparemos em artigo especial.
Tem a colónia inglesa seu cemitério privativo e teve outro nas proximidades do actual, como mais
largamente se poderá ver no artigo
Cemiterio Britanico.
Nos princípios do século passado se instalou no hospital de Santa Isabel desta cidade uma enfermaria
conhecida pelo nome de Enfermaria Britânica, que principalmente se destinava ao tratamento dos
tripulantes dos navios inglêses que demandavam o nosso porto. Não durou muitos anos, porque nas salas
ocupadas por essa enfermaria se instalou em 1837 a Escola Médico-cirúrgica do Funchal. Ignoramos
quaisquer circunstancias que digam respeito á fundação desta enfermaria, á sua sustentação e
funcionamento, motivos da sua extinção, etc..
A excepcional benignidade do nosso clima (V.
Clima
) tem atraído a esta ilha um extraordinário numero de
estrangeiros, entre os quais figuram em primeiro logar os ingleses; muitas personagens ilustres da
Inglaterra, como a Rainha Adelaide (V. este nome) e outros príncipes, estadistas, homens de ciência,
literatos, etc., têm procurado na Madeira lenitivo aos seus padecimentos ou um logar de repouso para
restaurar forças depauperadas por trabalhos extenuantes, colocando-se ao abrigo de um clima que é uma
eterna primavera e numa região em que superabundam as mais encantadoras e surpreendentes belezas
naturais.
É ocasião de dizer aqui que a um numero relativamente grande de súbditos ingleses se deve o estudo de
certos ramos de historia natural deste arquipélago. Existem trabalhos muito valiosos e de profunda e
demorada pesquisa cientifica, que não podem nem devem ser esquecidos pelos madeirenses. Neste
Elucidário
temos procurado pôr em relevo os nomes dos autores desses trabalhos, dando, embora
sucintamente, uma noticia da natureza dos seus estudos e dos serviços que prestaram ás ciências naturais.
Os distintos homens de ciência Richard T. Lowe, T. V. Wollaston, James Y. Johnson, Dr. A. M. Norman,
etc., etc., serão sempre lembrados por todos os que se dedicarem ao estudo das coisas madeirenses e os seus
nomes acham-se indissoluvelmente ligados á historia do nosso arquipélago. Se no nosso jardim publico,
como alguém já lembrou, se inaugurasse uma galeria de uma série de bustos em mármore ou bronze,
representando alguns dos mais distintos filhos da Madeira ou que a esta terra tivessem prestado serviços
assinalados, certamente que ali figurariam com inteira justiça dois ou três dos mais ilustres naturalistas
ingleses que se ocuparam da flora e fauna das ilhas do arquipélago.
O Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo referindo-se á influencia exercida no nosso meio pelos ingleses, disse o
seguinte: a Madeira está em grande porte anglizada, na raça, nos costumes, na propriedade, no comercio,
na moeda; e a língua inglesa é aqui a mais falada depois da nacional. Se nós somos imprudentes em dizer
isto, o que são os governos se o ignoram, pois que o não evitam, o que serão? Só o brio português nos
mantém portugueses.
Estas palavras, embora referidas ao ano de 1873 em que foram escritas, não se ajustam inteiramente á
verdade, mas encerram sem duvida alguma afirmativa que de todo perfilhamos e que nos parece
corresponderem à realidade dos factos. A colónia inglesa criou neste meio uma notável influencia e
predomínio, devido em grande parte ao açambarcamento que conseguiu fazer de alguns importantes ramos
de comercio, estando inteiramente nas suas mãos a compra e a exportação dos vinhos, as agências das
embarcações que frequentavam o nosso porto, bem como o fornecimento do respectivo carvão e dos
mantimentos e refrescos de que essas embarcações precisavam, as transacções cambiais e de transferência
de fundos para o estrangeiro, o negocio da importação e da venda dos principais géneros de alimentação e
vestuário de que nesta ilha se necessitava, a exploração de diversas indústrias, etc., ficando deste modo
quasi uma população inteira na dependência de algumas dúzias de súbditos estrangeiros. E à medida que as
casas inglesas iam alargando o seu trafico comercial e engrossando os seus cabedais, ia paralelamente
crescendo o seu predomínio, para o que muito concorriam a altivez inata da sua raça e a natural e conhecida
timidez dos madeirenses. Nestas circunstancias, não foi difícil aos ingleses imporem-se como dominadores,
abusando de uma maneira verdadeiramente despótica e cruel da triste e angustiosa situação em que
algumas vezes se encontraram os habitantes desta ilha. Não é também de estranhar que uns pobres
insulares, vivendo no isolamento do oceano e sem espírito algum de reacção contra as influencias estranhas,
se deixassem seduzir pelos costumes, tendências e predilecções de estrangeiros, que vinham dos grandes
centros europeus e eram considerados como os verdadeiros protótipos de um povo civilizado, sendo certo
que essas influencias exerceram em alguns pontos uma acção muito benéfica no nosso meio especialmente
nas relações sociais e no convívio elegante das chamadas pessoas de sociedade.
Daqui, porém, a asseverar-se que a Madeira está anglizada e que a influencia britânica se fez sentir na raça,
e de uma maneira muito profunda nos costumes e hábitos dos naturais, é certamente uma afirmativa
exagerada, que não deve passar sem os ligeiros reparos que fazemos. E se quiséssemos aplicar as palavras
do Dr. Alvaro de Azevedo ás circunstancias presentes, maior seria ainda a distancia a que elas ficam da
realidade (1921). 0 predomínio da colónia inglesa madeirense tem enfraquecido bastante nas duas ultimas
décadas, devido á eficaz iniciativa e enérgica atitude de alguns comerciantes portugueses, e especialmente
do malogrado negociante comendador Manuel Gonçalves. 0 comercio libertou-se das influencias britânicas
locais, e essa emancipação dia a dia se faz notavelmente sentir em muitos ramos da nossa actividade
industrial e comercial.
É ocasião oportuna de dizer que a colónia inglesa não chegou nunca a radicar simpatias no nosso meio, a
pesar do predomínio e da influencia de que gozava. 0 orgulho de raça, o isolamento que quasi sempre
procurou guardar, a altivez com que em geral tratava os naturais, as raras manifestações de filantropia ou
benemerencia em favor da terra que a tornou opulenta, são as principais causas de não ter criado um
ambiente que lhe fosse propicio e a tornasse benquista aos olhos dos madeirenses. Há, porém, raras e
honrosas excepções, e no que diz respeito a actos de assinalada filantropia, não esqueceremos nos logares
respectivos os nomes de Roberto Page, J. Phelps e Harry Hinton
(V.
Estrangeiros).
0 numero de indivíduos de nacionalidade inglesa com residência permanente no Funchal era em 1920 de 50
a 60, ao passo que em 1845 havia aqui 293 indivíduos daquela nacionalidade, 280 em 1855 e 200 em 1885.
De 1845 a 1855 a média dos visitantes ingleses foi de 342, e de 1880 a 1885, de 200. Acham-se agora no
Funchal cerca de 250 ingleses, que tencionam passar aqui o Inverno (1921).
Embora o inglês seja a língua estrangeira mais conhecida da classe comercial, e haja muitos marítimos e
bomboteiros analfabetos ou quasi analfabetos que o falem praticamente com um certo desembaraço, é certo
todavia que a grande maioria das pessoas cultas do Funchal ou não conhece essa língua ou a conhece mal. A
língua francesa é a única cujo estudo merece as atenções de todas as pessoas que desejam instruir-se, sendo
grande o numero dos madeirenses que a falam com elegância e perfeição, e ainda maior o daqueles que, se
bem que a não falem, estão nos casos de ler e compreender o que de melhor se tem escrito nessa língua.
Nos meses de Março e Abril de 1930, publicou o Diário de Noticias do Funchal uma série de artigos,
subordinados ao título
Ingleses na Madeira
e devidos á pena do Sr. tenente-coronel Alberto Artur
Sarmento, que encerra largas e interessantes informações acerca da colónia britanica da Madeira no longo
período de três séculos.
Inhame
Das cinco ou seis espécies da família Aróideas, conhecidas na Madeira pelo nome de inhames,
diz o distinto botânico Carlos Azevedo de Meneses, somente duas nos parecem dignas de menção especial,
por causa da sua frequência e das vantagens que da cultura das mesmas tiram os habitantes. São elas a
Colocasia antiquorum
e a
C. esculenta
.
A primeira espécie que se diz ter sido introduzida na Madeira em 1640, goza desde os mais remotos tempos
da reputação de planta alimentar, pois já os povos do Egipto e da antiga Grécia faziam dos seus rizomas
alongados, tuberculosos e feculentos, um largo uso nas suas mesas, chegando mesmo a exportá-los para
outros países do Mediterrâneo.
Os madeirenses distinguem na
Colocasia antiquorum
duas variedades, dando a uma o nome de inhame
branco, e a outra o de inhame vermelho. Separa-se esta daquela variedade em ter as nervuras da pagina
inferior das folhas um pouco avermelhadas e o interior dos rizomas de uma cor rosea ou vermelha pálida,
que se torna mais pronunciada depois da cozedura.
Os inhames brancos encontram-se nos logares encharcados; os vermelhos são menos exigentes em
umidade, e podem mesmo viver nos logares secos, uma vez que haja o cuidado de irriga-los a miúdo.
Os inhames a que nalguns pontos da ilha chamam do mato ou da feiteira entram na variedade vermelha, e
provêm de terrenos altamente situados e que só recebem águas de irrigação de 8 em 8 ou de 15 em 15 dias.
A colheita dos inhames faz-se geralmente em Março e Abril, e a multiplicação da espécie tem logar por meio
de pequenos fragmentos dos seus tubérculos, a cada um dos quais deve aderir um ramo aereo a que se
eliminam as folhas. Sempre que é possível, adubam-se com estrumes de curral ou com substancias vegetais
as terras destinadas aos plantios.
Decorrido um ano depois da plantação, podem-se colher os inhames, mas algumas pessoas costumam
deixa-los na terra mais tempo, ás vezes dois anos, a fim de obterem assim rizomas mais volumosos.
O inhame vermelho coze com mais facilidade que o branco. Este só deve considerar-se nos casos de ser
consumido, depois de haver estado exposto ao fogo durante cinco horas pelo menos. Alguns médicos têm
querido atribuir os casos de elefantiase que se observam nalguns pontos da ilha ao largo consumo que aí se
faz de inhames mal cozidos.
Até ao presente, que nos conste, ainda nenhum naturalista observou flores nos inhames brancos e
vermelhos da Madeira, o que talvez se deve atribuir à circunstancia destas plantas serem arrancadas muito
novas ou antes da época da fluorescência. No Algarve, segundo Brotero, os inhames florescem durante o
verão.
Os inhames vermelhos são mais procurados do que os brancos, pelos habitantes do Funchal, em razão de
serem mais saborosos, menos picantes e mais fáceis de cozer. Os inhames brancos são consumidos quasi
exclusivamente pela população dos campos.
A cultura dos inhames ocupa uma larga área tanto no norte como no sul da Madeira, mas tem menos
importância do que a das batatas e e batatas doces. Os terrenos baixos que marginam as ribeiras e ribeiros,
e uma boa parte do leito destes, são os pontos em que essa cultura se faz em maior escala.
A
Colocasia esculenta
, conhecida vulgarmente pelo nome de inhame de enxerto, é muito menos cultivada
do que a
C. antiquorum
, embora os seus rizomas sejam mais saborosos e feculentos que os desta espécie.
O inhame de enxerto, do mesmo modo que o vermelho, requere terrenos umidos ou irrigados a miúdo, mas
não encharcados, e a sua multiplicação faz-se também por meio de fragmentos dos rizomas, a cada um dos
quais deve aderir uma haste ou ramo aéreo.
Inhame de Lagartixa (Cotyledon Umbilicus)
Planta pequena e suculenta, com as folhas
basilares peltado-suborbiculares, longamente pecioladas. Esta Crassulacea é frequente nos muros e rochas
no Monte, S. Martinho, Santo António, etc., e o seu suco tem sido aconselhado contra a epilepsia, as chagas
e feridas das pernas, etc..
Inquisição
O Tribunal da Inquisição não existiu na Madeira, mas sabe-se que teve aqui familiares,
estando registados os nomes dalguns deles nos livros da Câmara Municipal do Funchal ( V.
Familiares do
Santo Oficio
).
Por provisão de 20 de Julho de 1612 foi encarregado o visitador Francisco Cardoso de Cernejo de vir a esta
ilha, mas ignoramos se dessa diligência resultaria serem mergulhados nos cárceres do Santo Oficio, em
Lisboa, ou entregues ás chamas, alguns filhos da Madeira.
Recomendava-se na referida provisão aos oficiais da ilha que dessem todo o favor e ajuda precisos ao dito
Cernejo, mandando mesmo despejar para sua residência, os melhores prédios que houvesse nas localidades
que ele tivesse de visitar!
Dos madeirenses perseguidos pela Inquisição, o mais conhecido é o poeta Francisco Alvares de Nobrega ( V.
este nome ). Como Bocage, gemeu nos cárceres do Santo Oficio, e, ainda depois de morto, teve o quarto em
que residia invadido pelos familiares daquele tribunal, que inutilizaram muitos dos seus escritos (V.
Judeus
).
Insectos
Segundo o falecido naturalista inglês James Yate Johnson, existem no arquipelago da Madeira
1.331 espécies de insectos, distribuídos do modo seguinte: Coleopteros, 695: Euplexopteros, 4; Ortopteros,
19; Tisanopteros, 6; Neuropteros, 37; Tricopteros, 10; Himenopteros, 217 . Lepidopteros, 112; Hemipteros,
54; Homopteros, 14; Afanipteros, 3; e Dipteros, 160.
É preciso notar, porém, que depois que estes dados foram publicados, novos estudos se fizeram sôbre
alguns grupos, tendo o professor Teodoro Becker assinalado 212 espécies madeirenses no grupo dos
Dipteros e Malcolm Burr 29 no dos Ortopteros. Talvez nos não afastemos muito da verdade se dissermos
que existem no arquipelago umas 2.000 espécies de insectos, sendo os grupos dos Coleopteros, dos
Himenopteros e dos Dipteros os que se acham mais largamente representados na nossa região.
Wollaston, o autor dos
Insecta Maderensia
, achou 629 Coleopteros na Madeira, 163 no Porto Santo e 89
nas Desertas, tendo notado que muitas destas espécies não têm asas ou as têm muito imperfeitamente
desenvolvidas. Este facto, no entender de Darwin, é uma consequência da selecção natural, combinada
provavelmente com a falta de uso daqueles orgãos. Os insectos, acrescenta o mesmo naturalista, que não se
nutrem no solo, mas que, como certos Coleopteros e Lepidopteros, se nutrem nas flores, e que devem por
conseguinte servir-se das asas para achar os alimentos, têm, como observou Wollaston, as asas muito
desenvolvidas, em vez de as terem no estado rudimentar.
Instituição Filosófica e Mecânica
Com este título fundou-se no Funchal, em 1840, uma
sociedade que tinha por fim fazer estudos científicos sobre a Madeira. Durou pouco tempo esta sociedade,
tendo um dos seus membros, o engenheiro militar António Pedro de Azevedo, publicado na Flor do Oceano
uma tradução da memória de James Smith sobre a geologia madeirense.
Instituições de Beneficência
Por 1425 fundou Constança Rodrigues de Almeida, mulher do
descobridor João Gonçalves Zargo, a capela de Santa Catarina (V. este nome) e «a par dela, diz Frutuoso,
fez muitas casas para gasalhado de mulheres de boa vida, pobres mercieiras a quem deixou esmolas para
sempre terem cuidado de alimparem e servirem aquela casa (a capela) como ainda agora se costuma». Estas
palavras são comentadas pelo Dr. Rodrigues de Azevedo da maneira seguinte: «A Mercearia de Santa
Catharina.... era como que um hospício, onde, por esmola, viviam mulheres pobres e de bons costumes, que
tinham a seu cargo o aceio da capela da sancta. Uma e outra teem sido conservadas até ao presente. São
propriedade do Sr. conde de Castello-Melhor».
Nada sabemos acrescentar ao que fica transcrito e ignoramos também se realmente até o ano de 1873 se
manteve a fundação de Constança de Almeida, embora, sem duvida, com tenção diferente da instituição
primitiva. O que podemos agora asseverar é que essa instituição há muito que desapareceu e que as casas e
a capela passaram a outros proprietários. Foi esta certamente a primeira instituição de beneficência que
houve na Madeira, tendo tido uma existencia de cerca de quatro séculos e meio.
Por meados do século XV doou João Gonçalves Zargo uns terrenos junto á capela de São Paulo para a
fundação de um hospital, que á custa do povo foi construído por 1469. É a segunda instituição de
beneficência que teve o arquipélago. Este hospital, que ali permaneceu poucos anos, foi transferido para a
freguesia de Santa Maria Maior e ficou a cargo da confraria da Misericórdia, que então se instituiu nesta
cidade e que depois se estabeleceu nas vilas de Machico, Santa Cruz, Calheta e Porto Santo. Do hospital, que
mais tarde se mudou para o edifício que actualmente ocupa, e das Misericórdias do Funchal e das cidades
vilas nos ocuparemos mais largamente no artigo Misericórdias. Ao hospital de S. Lazaro, cuja fundação data
dos princípios do século XVI, já consagrámos um artigo especial neste Elucidário. Do hospital de alienados
Manicomio Câmara Pestana nos ocuparemos em outro logar desta obra.
Gonçalo Aires fundou no ultimo quartel do século XV a capela de S. Bartolomeu e, anexa, uma albergaria
destinada a clérigos pobres, mas parece que não chegou a ter a aplicação para que foi instituída. (V. o artigo
Gonçalo Aires
).
Do recolhimento do Bom Jesus, que também teve e ainda conserva o carácter de uma instituição de
beneficência, já dissemos o indispensável no artigo que lhe fica dedicado no logar respectivo. Alguma cousa
se dirá também acerca do Recolhimento das Orfãs, fundado em 1725, na altura conveniente desta obra.
No artigo
Asilos
, tratámos com alguma largueza destas casas de caridade, quer das extintas, quer das que
ainda existem, e para ele remetemos o leitor.
A bela instituição de beneficência, que tem por nome Hospício da Princesa D. Maria Amélia, consagrámos
já um desenvolvido artigo e nele nos referimos também ao Orfanato que lhe fica anexo.
Embora sob a forma de associação, são verdadeiras instituições de caridade a Associação Protectora dos
Pobres, a Associação Protectora dos Estudantes Pobres, a Assistência a Crianças Fracas e o Auxilio
Maternal, aos quais já noutro logar fizemos referência.
Instituições Vinculares
Tem-se asseverado que o arquipélago madeirense, proporcionalmente à
sua área e à sua população, foi a região do país em que existiu maior numero de morgadios ou prazos
vinculados. A avaliar o facto pelo numero de capelas, que na sua grande maioria eram de instituição
vincular, espalhadas por todas as freguesias da ilha, pode assegurar-se que os morgadios abundavam
fartamente na Madeira. Afirmou o conselheiro José Silvestre Ribeiro, num documento oficial, que dois
terços dos terrenos de todo o arquipélago eram vinculados. A Madeira foi uma terra de morgadios, embora
alguns deles arrastassem uma vida miserável, que não abonava as suas prosapias avoengas.
Nos tempos primitivos da colonização aportaram a esta ilha muitos fidalgos nacionais e estrangeiros e um
numero ainda mais avultado de mercadores e aventureiros, que vieram aqui tentar fortuna, atraídos pela
fama da notável feracidade do solo, pelo espírito de aventura e também pela falta de recursos nas terras
donde eram oriundos. A estes foram dados em sesmaria grandes tratos de terrenos, que faziam arrotear por
escravos negros e mouros importados de Africa, e por colonos livres vindos do continente do reino. Muitos
desses sesmeiros criaram boas casas com avultado rendimento que lhes dava a exuberante fertilidade do
solo, sobretudo com a produção do açúcar, que em larga escala se exportava. Depois «o sesmeiro rico, no
dizer do anotador das Saudades da Terra, enfastiou-se da vida campesina, ufanou-se da sua originaria
fidalguia e apeteceu vivenda de mais aparato bulício; desprezou por isso a terra, vinculou-a na mira de
assegurar-se dos réditos dela; contratou-lhe a cultura com os colonos livres mediante a demidia, ou, por
partes, o terço do fructos, para manter-se em ocioso gaudio abandonou as suas fazendas e veiu assentar
residência luxuosa e desperdiçada nas povoações, principalmente no Funchal, Machico Santa Cruz, Calheta,
Ponta do Sol e Ribeira Brava.»
Embora o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo carregue as cores ao quadro, como em geral costuma fazê-lo
quando se refere ao monarquismo, á nobreza e ao clero, no entretanto encerra grandes verdades o trecho
que aí deixamos transcrito. Nele se põem em relevo algumas das causas de caracter local da criação dos
morgados nesta ilha, causas que devem conjugar-se com outras que eram comuns a todo o país e que Gama
Barros aponta na sua monumental obra historia da Administraçâo Publica em Portugal. Já em outro logar
tínhamos dito que o colono vindo do continente fez sesmeiro, tornou-se depois senhor da terra e em muitos
casos se transformou em morgado, deixando aos escravos o cultivo e amanho das propriedades rústicas e
indo desfrutar na cidade ou na corte o rendimento dos seus campos e herdades.
Parece que já no segundo quartel do século XV se instituíram alguns morgadios na Madeira. Assim o dá a
entender Gaspar Frutuoso, embora o não diga de uma maneira clara e terminante. De vínculos criados no
ultimo quartel do mesmo século há então noticia segura, como sejam o de Água de Mel, em Santo António,
que se encorporou na casa Carvalhal, o da Consolação, no Caniço, de que foi ultimo representante o
conselheiro Aires de Ornelas, o de João Afonso em Câmara de Lobos, que ficou na casa Torre Bela, o de
Vasco Moniz, em Machico, de que foi ultimo administrador José de Betencourt e Freitas, os instituídos por
João Gomes, junto da ribeira que tomou este nome, o de Rodrigo Aires Furtado, na Ponta do Sol, e ainda
muitos outros.
Foi na primeira metade do século XVI que se instituíram muitos vinculos, alguns dos quais constituíram
depois importantes casas, contando-se entre eles o morgadio da Lombada dos Esmeraldos (V. este nome),
na Ponta do Sol, fundado em 1512 pelo fidalgo flamengo João Esmeraldo (V. este nome) nas terras que
aforou a Rui Gonçalves da Câmara, o dos Lomelinos, em Santa Cruz, instituído por Urbano Lomelino, em
1518, o dos Franças, no Estreito da Calheta em 1503, por João de França, o de São João de Latrão, em
Gaula, por Nuno Fernandes Cardoso, em 1511, o da Penha de Águia, no Porto da Cruz, por Antonio Teixeira,
em 1535, o de São Gil, em Santa Cruz, por D. Brites Escorcio, filha de João Drumond, o da Ribeira dos
Melões, na freguesia do Campanário, por Pedro Gonçalves de Clara, o dos Reis Magos, no Estreito da
Calheta, em 1529, por Francisco Homem de Gouveia, além de outros que por brevidade omitimos.
Dentre os morgadios que ficam apontados e outros que se criaram no decorrer dos tempos, alguns houve
que se tornaram casas muito abastadas e que se mantiveram até os nossos dias na prosperidade e na
opulência. Mencionaremos entre outros a casa do conde de Carvalhal uma das mais ricas do nosso país em
bens territoriais e que há setenta anos tinha a renda anual de cem contos de réis, a do conde da Calçada, a
da condessa de Torre Bela, a do morgado Nuno de Freitas Lomelino, a do conselheiro Agostinho de Ornelas,
a do visconde de S. João e a do morgado Bettencourt e Freitas.
Como já tivemos ocasião de dizer no artigo Elementos para a historia madeirense, perderam-se ou
ignoramos o destino que tiveram os livros do antigo Juízo dos Resíduos e Capellas, em que se encontravam
os registos das antigas instituições vinculares, com seus encargos pios, fundação de capelas, descrição das
terras vinculadas, etc., sendo ai que se poderiam colher dados valiosos para um estudo interessante e
completo acerca dos morgados e vínculos existentes neste arquipélago.
Esse numero avultado de instituições vinculares foi reduzido com a lei do marquês de Pombal, de 9 de
Setembro de 1769, que suprimiu muitos dos pequenos morgadios, e ainda com a lei de 3 de Agosto de 1770,
que remodelou os vínculos então existentes e principalmente coibiu a criação de outros.
A pesar disso, subsistiram ainda entre nós muitas casas vinculadas, que lutaram com grandes dificuldades
económicas, chegando alguns a pedir, como tivemos ocasião de verificar em documentos dos princípios do
século XIX e não sabemos se ainda antes, a comutação dos encargos pios a que estavam obrigadas, com o
fundamento de que os rendimentos das terras eram insuficientes para a satisfação desses mesmos encargos.
A 17 de Fevereiro de 1849, o madeirense e par do reino Dr. Daniel de Ornelas e Vasconcelos, 1.° barão de
São Pedro, apresentou na câmara alta um projecto de lei extinguindo todos os vínculos existentes neste
arquipélago, considerando-os não só inúteis, mas até nocivos, especialmente por constituírem um grande
entrave aos progressos da agricultura. Este projecto produziu grande sensação na Madeira e deu logar a
larga discussão na imprensa. Trinta e tantos representantes de antigas casas vinculadas dirigiram uma
representação ao parlamento, refutando a doutrina do projecto e pedindo a sua rejeição. É um documento
sobremaneira interessante e que ainda hoje merece ser lido. Além dele e da discussão na imprensa local,
publicaram-se sôbre o assunto os folhetos:
Breves reflexões sobre a aboliçâo dos morgados na Madeira
,
por António Correia Heredia,
As contradições vinculadas
, pelo A.
das «Breves reflexões sobre a abolição
dos morgados na Madeira»,
e
Resposta ao folheto «Breves reflexões sobre a abolição dos morgados na
Madeira
, pelo Sr. A. C. Heredia», cujo autor ignoramos.
O projecto do barão de São Pedro não obteve aprovação nas câmaras, mas a lei de 11 de Maio de 1863, que
decretou a completa abolição dos morgados em todo o país, veio dar um golpe profundo nas instituições
vinculares madeirenses e acabar com antigas e abastadas casas desta ilha. Foram-se a pouco e pouco
dividindo e subdividindo, não restando hoje intacta nenhuma dessas casas.
No livro
Vínculos Portugueses
de Alfredo Pimenta, encontrámos algumas noticias acerca de diversas casas
vinculadas ou morgadios com sede na Madeira, devendo especialmente mencionar-se a que teve por ultimo
administrador o 2.° visconde de Torre Bela, João Correia Brandão Henriques de Noronha, e que
compreendia 26 vínculos, havendo sido o primeiro instituidor João Afonso Correia no ano de 1490; a casa
dos condes da Calheta, encorporada no marquesado de Castelo-Melhor, instituído primitivamente por João
Gonçalves Zargo em 1450; a dos morgados da Ilha (sítio da freguesia de S. Jorge) instituída por Jorge Pinto
no ano de 1559; e a das Selvagens (Ilhas) instituída em 1717 por Manuel Ferreira Teixeira.
Foi felizmente incorporada no Arquivo Distrital do Funchal uma parte considerável dos documentos que
constituíam o importante arquivo do Juízo dos Residuos e Capelas a que acima se faz referência e que se
encontravam na antiga repartição da Administração do Concelho do Funchal
(Vid. Juiz dos Resíduos
e Capelas).
Instrução
Como é natural e lógico que tivesse acontecido, a instrução publica neste arquipélago seguiu
aproximadamente as fases da do continente do reino. Nas suas linhas fundamentais, a historia de uma é a
historia da outra.
A instrução superior teve representação entre nós com a criação da Escola Médico-cirúrgica do Funchal, em
1837, que acabou no ano de 1910
(V.
Escola Médico-cirúrgica
).
Nalgumas localidades da Madeira,
já se está fazendo sentir (1921) a falta de médicos, que dentro de pouco tempo será grande, podendo,
decerto, em época não muito afastada de nós, afirmar-se o que em 1824 dizia ao governo da metrópole o
governador e capitão general deste arquipélago: que no Porto Santo e nos campos da Madeira não havia
nenhum cirurgião operador e que «apenas se encontrava algum miserável sangrador, de cuja competência
teem sido vitimas muitos dos que o chamaram para o trato e curativo das suas molestais». A nossa Escola
Medica deveria ter sido remodelada na sua organização primitiva e quadro das suas aulas, tornando-se mais
profícuo o ensino das matérias ali professadas, mas as necessidades dos distritos insulares não
aconselhavam a sua extinção, que foi principalmente devida, segundo se afirma, a imposição do director de
saúde publica, o Dr. Ricardo Jorge.
A instrução especial foi professada entre nós com o ensino da teologia no Seminário Diocesano, a partir da
fundação deste no ultimo quartel do século XVI
(V.
Seminário
).
Também havia cursos especiais de
teologia no convento de S. Francisco e no Colégio dos Jesuítas, para uso privativo dos respectivos religiosos.
Como cursos especiais se podem considerar a aula de desenho e pintura, criada em 1810, a aula de desenho
que durante alguns anos funcionou nesta cidade, sustentada pela Câmara Municipal do Funchal, e a Escola
Industrial, estabelecida em 1889, de que tudo já demos desenvolvida noticia no artigo Escola Industrial
António Augusto de Aguiar. No primeiro quartel do século passado existiu nesta cidade um curso de estudos
militares, cuja organização, funcionamento e tempo da sua existência desconhecemos por completo. Como
cursos de instrução especial devemos ainda citar a Escola Normal
(V. este nome)
, que durou de 1900 a
1910, a Escola Primaria Superior
(V. este nome),
criada em 1919, e a Escola de Pilotagem
( V. este
nome)
, que começou a funcionar no ano de 1914.
As primeiras aulas de instrução secundaria de carácter publico que houve entre nós, foram as que os
jesuítas regeram no seu Colégio de S. João Evangelista e que constavam de latim, filosofia, retórica e
literatura. Não sabemos quando começaram a funcionar, mas já existiam em 1590, pois a elas se refere o
autor das Saudades, e terminaram com a expulsão daqueles religiosos no ano de 1759. Foi este curso
secundário conhecido pelo nome de Aulas do Pátio, por funcionar num pátio interior, que era uma de
pendência do colégio. Ficava situado na rua do Estudo e no mesmo edifício continuaram a ser regidas
algumas aulas secundarias depois da expulsão dos jesuítas, com a mesma denominação de Aulas do Pátio. E
foi ainda no mesmo edifício que em 1837 se estabeleceu o liceu desta cidade
(V. Liceu),
que ali
permaneceu cerca de 50 anos. Não podemos precisar que tempo mediaria entre a expulsão dos jesuítas e a
continuação das Aulas do Patio e nem também sabemos dizer se esses cursos funcionaram
ininterruptamente até o estabelecimento do nosso liceu. Em 1772 foram criadas as aulas publicas de
filosofia, latinidade, matemática e retórica, e por 1825 as de francês e inglês
(V. Aulas Secundarias)
,
levando tudo a supor que essa criação se destinasse a suprir a falta das aulas regidas pelos jesuítas, devendo
então admitir-se que houve uma interrupção nesses cursos no período decorrido de 1759 a 1772.
Com relação à instrução primaria, leia-se o artigo Escolas Primárias, em que este assunto é tratado com
algum desenvolvimento.
Insubordinações Militares
Apenas temos conhecimento das seguintes, ocorridas na ilha da Madeira: a
de Julho de 1829, no regimento de infantaria n.° 13, por ter sido nomeado comandante interino um oficial
estranho á corporação; a de 30 de Julho de 1852, no batalhão de caçadores n.° 6, sendo morto por essa
ocasião o tenente Lapierre; e a 2 de Agosto de 1870, no batalhão de caçadores n.° 5, em seguida a uma
revista de armamento.
V.
Guarnição Militar e Lapierre.
Insulana
Deste poema nos ocuparemos, quando falarmos do seu autor.
V.
Tomaz (Manuel).
Invejosa
É conhecido por esta denominação na ilha do Porto Santo, oEchium plantagineum , planta da
família das Borraginaceas, que também se encontra na Madeira e Desertas.
Inverno no Funchal
Acerca da estação invernosa nesta cidade, dá o Dr. F. A. Barral, na sua
apreciada obra Noticia sobre o clima do Funchal, uma noticia muito curiosa e interessante, que vamos
registar nestas colunas, embora já nos tenhamos referido ao assunto no artigo Clima:
«O clima do Funchal tem uma estação mais quente, e outra mais fria; tem chuvas, trovoadas, algumas vezes
ventos fortes, tempestades, alluviões, e o leste; e tudo isto que não vem todos os annos em época e estação
fixa, que não dura sempre o mesmo tempo, produz variações notáveis, e quebra essa supposta uniformidade
e monotonia. Os anos de 1749 e 1750 foram summamente seccos, segundo Heberden. No de 1826 choveu
muito mais do que nos outros annos. No anno de 1834 para 1835 houve mais dias de chuva do que é
costume haver, não caindo proporcionalmente uma maior quantidade de água; a chuva foi mais miúda e
aturada como nos paizes do Norte. Em 1803 e 1842 houve terríveis alluviões.
Alguns annos o verão é mais quente: no de 1852 o thermometro á sombra subiu no mez de Setembro a 83°
(escala de Fahrenheit), e em alguns logares a 85º, o que é raro. Em quasi todos os invernos ha dias em que
cahe neve na serra e se sente algum frio; no inverno de 1851 para 1852 não cahiu neve, e no de 1852 para
1853 cahiu maior quantidade de neve do que em muitos invernos antecedentes, sentiu-se frio e o
thermometro desceu em algumas noites abaixo de 50°, e chegou alguma vez a 45.°, o que também é raro.
É certo que ali as estações não apresentam aquellas grandes diferenças e notáveis contrastes dos climas de
mais alta latitude, e que dão ao paiz aspectos mui diversos. A Madeira, ou para melhor dizer, a parte
meridional da Madeira, onde está situado o Funchal, é sempre um jardim. Nem os frios do inverno, nem os
calores do verão murcham e seccam a sua viçosa vegetação; mas assim mesmo passa-se nessas differentes
épocas do anno chamadas estações, alguma cousa que muito bem as caracterisa: fenomenos menos
pronunciados do que em outros paizes, mas facilmente sentidos pelos naturaes. O inverno do Funchal será
o verão de Londres, porém o residente ali percebe a diferença entre as duas estações: temperatura mais
baixa, noites mais frias, maior humidade, mais vezes chuva: todas estas alterações caracterisam para elle o
inverno; ainda que a estação pareça ao inglez recem-chegado o seu verão, e ao portuguez do continente o
seu outono.
O inverno no Funchal é uma bella estação. Temperatura agradável durante o dia, atmosphera pela maior
parte clara, ou com poucas nuvens; ventos e chuva moderados, e está de tal modo regulada que deixa
intervallos no dia, em que todos, ainda mesmo os doentes, podem sahir sem incommodo, as ruas secando
com facilidade. É no inverno que se conhece bem a excellencia d'este clima, sobretudo quando se compara
com todos os outros mais conhecidos e procurados; e esta é a estação que dá, segundo pensamos, a grande
superioridade ao clima da Ilha sobre os outros climas, que no verão poderão melhor disputar com a
Madeira a sua preeminência. Se alguma vez se chega a sentir frio, é de madrugada ou de noite, e fora de
casa, a horas em que os doentes não devem passear; e esses mesmos dias reputados mais frios em alguns
annos tem sempre muitas horas de uma temperatura agradável em que os doentes podem sahir. Ha
habitações no Funchal que pela sua exposição ou construção teem nesses poucos dias de frio uma
temperatura mais baixa do que se desejaria e do que convém: dias em que o fogão acceso algumas horas
com pouco lume, principalmente á noite, é agradável, sobretudo para os habitantes do norte. E o lume
ainda tem a vantagem de diminuir e dissipar a humidade que no inverno pode haver em algumas casas. Ha
n'essa estação por vezes um vento de Nordeste menos húmido e de uma temperatura fresca, que dá aos
indivíduos um certo grão de vigor e energia útil.
A transição do inverno para a primavera é ordinariamente insensível, parece a continuação da mesma
estação; entretanto algumas vezes em Março ha chuvas fortes, que duram por dias com ventos do quadrante
do Oeste. Esta estação é summamente agradável até ao fim do mez de Maio, a temperatura conservando-se
ainda muito moderada. E em geral é só em Julho que um certo numero de doentes, principalmente inglezes,
julgam dever deixar a Ilha para voltar a Inglaterra, e antes d'esse tempo a mudança pode ser muito estranha
e prejudicial».
Irmãzinhas dos Pobres
Vieram estas religiosas para a Madeira no ano de 1900 e logo fundaram
um asilo para velhos, para o que muito contribuíram o prelado diocesano D. Manuel Agostinho Barreto e o
padre Antonio José de Macedo, como já fica referido no artigo Asilos, a pag. 94 do 1.° vol. desta obra. Com o
decreto da expulsão das ordens religiosas do nosso país, tiveram as Irmãzinhas dos Pobres que abandonar o
asilo que haviam fundado, saíndo da Madeira, em numero de doze, no dia 18 de Abril de 1911, em direcção á
cidade francesa de Latour.
Isabel (Imperatriz)
V
. Austria (Imperatriz da)a pág. 106, do 1.° volume desteElucidario .
Isabel (Princesa)
A rainha Isabel da Bélgica, esteve na Madeira nos tempos em que era princesa,
tendo chegado aqui no vapor inglês Araguaya, a 28 de Julho de 1909, e saído para Canárias no vapor
alemão Kamerun, a 6 do mês de Agosto seguinte. Residiu no Monte Palace Hotel, onde meses antes estivera
seu marido o príncipe Alberto, actual rei da Bélgica (1921), e visitou muitos pontos da cidade e arredores,
tendo também feito duas viagens por mar, uma até a Ponta do Pargo, desembarcando na Madalena, e outra
até Machico, desembarcando nesta localidade e fazendo uma excursão até o sítio da Portela.
A princesa viajava com o nome de condessa de Rethy e foi cumprimentada pelo Governador Civil e
Comandante Militar, tendo sido acompanhada nalguns passeios pela primeira destas autoridades.
V. Bélgica (Rei da).
Isca (Phagnalon saxatile)
Pequeno subarbusto da família das Compostas, muito comum em todas
as ilhas do arquipelago. Com os seus ramos, depois de esmagados, fabricam no Porto Santo uma isca muito
ordinária, mas que é bastante utilizada pelos habitantes daquela ilha, especialmente os pescadores.
Noutras épocas também se fabricava na Madeira muita isca do
Phagnalon
, sendo conhecidas ainda hoje de
muita gente as aplicações que pode ter esta planta.
Isopodos
V. Bicho Conta e Carcinologia.
Ivo (Pedro)
Este escritor portuense que deixou assinalada a sua passagem na literatura do nosso país
com um conhecido e apreciado livro de contos, visitou a Madeira no ano de 1867 e seduzido pelas belezas
naturais desta ilha escreveu uma inspirada composição poética a que deu o título de
Adeus à Madeira
, que
veio inserta no
Diário da Madeira
de 19 de Junho de 1924.
Jaca Brava (Grapsus marmoratus)
Crustaceo decápodo braquiúro, comum no litoral das ilhas
do arquipelago. Habita de preferência a região entre os níveis do preia-mar e baixa-mar, sendo procurado
como isca para certas espécies de peixe.
Jaca de Pau (Grapsus minutus)
Crustaceo braquiúro que as correntes marítimas trazem a esta
ilha, preso geralmente a objectos de madeira, tais como vigas, quartolas, etc. Vive também sôbre as
carapaças das tartarugas que vêm ás águas da Madeira.
Jacarandá (Jacaranda mimosifolia)
Árvore da família das Bignoniaceas, cultivada nas quintas,
avenidas e jardins do Funchal. Floresce durante a primavera, sendo de um lindo efeito as suas flores azues
reunidas em paniculas, e conserva-se despida ou mal vestida de folhas até o começo do verão, o que a torna
muito pouco estimada como árvore de sombra e imprópria por consequência para revestir ruas e praças
publicas, ao menos sob o nosso clima.
Jacas Mansas (Xantho floridus e X. rivulosus)
Crustáceos decápodos braquiúros que vivem
nas costas madeirenses, na parte descoberta pela maré-baixa. São aproveitados como isca.
Jaccoud (Dr.)
Este abalizado medico francês, conhecido especialista de doenças pulmonares, esteve
na Madeira nos meses de Setembro e Outubro de 1881, onde veio expressamente dedicar-se ao estudo do
nosso clima debaixo do ponto de vista terapêutico, chegando á conclusão de que era incontestável a
superioridade do clima desta ilha sôbre o das outras estações de saúde. Na sua notável obra
Curabilité et
traitement de la phthisie pulmonaire
, ocupa-se com largueza da Madeira como estação de inverno para o
tratamento das doenças pulmonares. Essas paginas, que revestem a maior importância pela incontestada
autoridade do nome que as subscreve, devem ser lidas e ponderadas pelos que queiram ocupar-se do clima
deste arquipelago.
Jacinto (Hyacinthus orientalis)
Liliacea de flores azuis, cultivada nalguns jardins
funchalenses. Foi achada naturalizada nas proximidades da Santa, no Porto do Moniz, pelo Sr. J. G. da
Costa.
Jambeiro (Eugenia Jambos)
Árvore da família das Mirtaceas, cultivada nalguns jardins e quintas
da Madeira. É originaria da Índia e produz frutos subglobosos e odoríferos, de sabor agradável. A infusão
das folhas de jambeiro tem sido aconselhada contra a diabetes.
Jamboto
Sítio povoado da freguesia de Santo Antonio do Funchal. Este nome é a corrutela de João
Boto, antigo povoador. Neste sítio se encontra uma nascente de água férrea, que em tempo adquiriu
bastante nomeada, por se lhe atribuirem determinadas qualidades terapêuticas, tendo por isso a Câmara
Municipal do Funchal mandado proceder á analise química e bacteriologica dessa água, sendo o resultado
da mesma analise publicado num opúsculo no ano de 1900 e transcrito a pags. 119 e seguintes do livro
Paroquia de Santo Antonio da Ilha da Madeira
da autoria de um dos autores deste
Elucidario
.
Janela (Ribeira da)
É o mais extenso e caudaloso curso de água da Madeira. Tem sua origem no Paul
da Serra e, atravessando a freguesia de que conserva o mesmo nome, ali se lança no oceano. A pequena
distancia da sua foz encontra-se um ilhéu que também tem igual nome. As conhecidas levadas do Rabaçal
alimentam-se em boa parte dos mananciais desta ribeira, captados nas suas origens.
V. Ribeira da Janela (Freguesia da).
Jangão
Sítio povoado da freguesia da Ponta do Sol. Era a sede do antigo morgadio do Vale da Bica,
instituído em 1522 por João Esmeraldo e de que foi ultimo representante o distinto madeirense conselheiro
Aires de Ornelas. Encontra-se ali e fazia parte desta casa vinculada a capela de Nossa Senhora da Piedade,
fundada por Antonio de Carvalhal Esmeraldo pelos anos de 1670, tendo sido restaurada em 1777 e em 1879
pelos respectivos administradores Francisco de Ornelas de Vasconcelos e o conselheiro Agostinho de
Ornelas de Vasconcelos.
V.
Lombada dos Esmeraldos.
Jardim (Dr. Alberto Figueira)
Nasceu nesta cidade a 10 de Abril de 1882, sendo filho do
advogado Dr. Nuno Ferreira Jardim e de D. Isabel Figueira Jardim. É bacharel formado em direito pela
Universidade de Coimbra e professor efectivo do Liceu do Funchal. Entre as comissões de serviço publico
que tem desempenhado, contam-se as de vogal da Junta Geral do Distrito, de presidente da Comissão
Executiva da mesma Junta, de membro da Câmara Municipal e de Juiz substituto desta comarca. Além de
varia colaboração em alguns jornais, escreveu na língua inglesa o opúsculo
Madeira, the Pearl of the
Atlantic
, Lisboa, 1914, e em português o livro de poesias
Amostras
, Funchal, 1915 e a tragédia em verso
Galateia
, Funchal, 1920.
Jardim (Dr. Manuel Gomes)
Nasceu na freguesia do Porto do Moniz a 9 de Janeiro de 1881.
Concluído o curso do Seminário Diocesano, frequentou em Roma a Universidade Gregoriana, tendo-se
ordenado de presbítero no ano de 1904. Em 1921 foi nomeado cónego da Sé do Funchal. Há anos que é
professor do Seminário desta diocese. Tem tido varia colaboração nalguns jornais, sendo actualmente
(1921) o director da
Vida Diocesana
. Dos seus discursos sacros estão publicados em opúsculos–Sermão ao
Santíssimo Sacramento, Funchal, 1912 e
Oração Fúnebre nas exéquias do S. Pontífice Pio X
, Lisboa, 1915 e
num volume
A Aurora da Redenção
. É autor dos notáveis trabalhos de polémica religiosa
As Razões do
Protestantismo
,
A Existencia de Deus á luz da sciencia e da razão
e
A Igreja e o Protestantismo
. Em defesa
da restituição do edifício do Seminário da Incarnação á Comissão Diocesana do Culto do Funchal escreveu o
opúsculo A Legalidade do Decreto n ° 13.514.
Jardim (Dr. Nuno Ferreira)
Nasceu no Funchal a 27 de Janeiro de 1851 e formou-se na faculdade
de direito da Universidade de Coimbra no ano de 1874. Tem exercido a advocacia nas comarcas da Madeira
com notável brilho e proficiência, dando á luz alguns dos trabalhos jurídicos em que houve de intervir a sua
acção como distinto advogado.
Jardim (Lino Cassiano)
Nasceu na freguesia de Santana e era medico-cirurgião pela Escola Medica
desta cidade. Para poder exercer livremente a clinica no Brasil, defendeu tese perante a faculdade de
medicina do Rio de Janeiro, publicando a sua dissertação com o título
Da Febre Biliosa. .
. Rio de Janeiro,
1871.
Jardim (Luiz António)
Era bacharel em leis pela Universidade de Coimbra, sócio da Sociedade dos
Amigos das Sciencias e Artes e foi advogado no Funchal, onde nasceu, segundo presumimos, por 1780. Fez
parte da primeira Câmara Constitucional do Funchal, e em 1822 foi eleito por esta ilha deputado substituto
ás cortes ordinárias. Publicou na imprensa do
Patriota Funchalense
uma colecção Poética, em um volume
de 122 paginas, e sob o título de
Parabéns poetico-politicos
, uma oitava, dezoito sonetos e uma ode, em um
folheto de 29 paginas.
Faleceu no Funchal a 14 de Fevereiro de 1825.
Jardim Botânico
Sítio da freguesia do Monte, onde existiu um viveiro de plantas, nos princípios do
século passado, conhecido pelo nome de Jardim Botânico.
Jardim da Serra
No extremo norte da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos se encontra a
encantadora e aprazível estancia conhecida pelo nome de Jardim da Serra. A amenidade e beleza do logar
justificam esta denominação. É em grande parte formado por um pitoresco vale encravado no seio de
acidentadas montanhas e rodeado de basta e luxuriante vegetação. É incontestavelmente um dos pontos
mais encantadores da Madeira e das suas eminências se descortinam alguns dos mais vastos e
surpreendentes panoramas de toda a ilha. No Pico dos Bodes e na Boca dos Namorados, que lhe ficam
sobranceiros, temos principalmente que extasiar-nos á vista do abismo do Curral das Freiras e das
montanhas que o circundam, sendo este um dos pontos da Madeira, como já notámos, em que a natureza se
apresenta mais notavelmente grandiosa e de aspectos mais surpreendentes, pela grande elevação e forma
caprichosa dos montes, pelo alcandorado e aprumo das encostas, pelos desfiladeiros que se encontram
disseminados por toda a parte, pelo tom agreste e selvagem da paisagem, o que tudo dá ao conjunto um ar
de tamanha grandeza e majestade, e de tão extraordinária e encantadora beleza, que o viajante, ainda o
menos apercebido e sensível, fica surpreso e estático ao deparar com este cenário de tantas e tão
incomparáveis maravilhas. E é das alturas do Jardim da Serra que melhor se podem observar essas
surpreendentes vistas panorâmicas, que fazem atrair a este local um considerável numero de visitantes
nacionais e estrangeiros.
Foi certamente seduzido por essas belezas naturais e encantadora amenidade do lugar que o cônsul inglês
Henrique Veitch fez construir neste sítio uma bela casa de campo, tendo sido sepultado nas imediações
dela, num mausoléu que ali se levanta em plena serrania.
(V.
Veitch
).
Foi neste sítio, que entre nós se tentou pela primeira vez a cultura do chá em princípios do século XIX, sob a
direcção de H. Veitch, que conseguiu, diz-se algures, «oferecer um tea genuíno e da Madeira, que foi
bastante apreciado por todos os seus convidados». Cremos que já ali não existe exemplar algum da Thea
sinensis. Sabemos que recentemente (1921) o ilustrado agricultor Augusto César de Gouveia ensaiou com o
melhor êxito a plantação do chá nas suas propriedades da Fajã da Ovelha, obtendo um excelente produto,
que rivaliza com o melhor chá aqui importado de Inglaterra. Parece-nos que além das tentativas do Jardim
da Serra e da Fajã da Ovelha, outras se fizeram nesta ilha para o cultivo daquela planta.
Jardim de Aclimação
O botânico austríaco Frederico Welwitsch propôs em 23 de Setembro de
1852 a criação de dois jardins de aclimação, um em S. Paulo de Luanda, e outro no Funchal. «O jardim do
Funchal, dizia o referido botânico, formaria um jardim subtropical, recebendo os vegetais tropicais já
habituados a certa cultura regular, naturalizando-os aí, para depois se poderem cultivar com melhor
resultado em climas menos quentes, bem como acostumando as plantas para ali remetidas de países mais
frios, a vegetar numa temperatura mais elevada, adaptando-as deste modo a não estranharem tanto a sua
cultura em regiões da zona tropical... Os jardins científicos de Lisboa, Coimbra e Porto receberiam do
jardim do Funchal os vegetais tropicais e subtropicais ali aclimados, e lhe remeteriam as plantas úteis
vindas dos países mais frios, para ali se aclimarem».
O jardim de aclimação do Funchal nunca chegou a ser criado, a pesar das grandes vantagens que dele
deviam resultar não só para a nossa ilha, mas também para Portugal e vários países estrangeiros.
V
. Smith.
Jardim de Oliveira (António)
Nasceu na freguesia de S. Vicente a 7 de Junho de 1858 e formou-
se em direito pela Universidade de Coimbra, em 1883. Exerceu durante alguns anos a advocacia no Funchal
e desempenhou entre nós diversas comissões de serviço publico, tendo sido também professor de legislação
no liceu do Funchal.
A 30 de Março de 1890 foi eleito representante da Madeira em cortes, para a sessão legislativa de 1890 a
1892.
Nomeado Secretario Geral do Governo Civil do Funchal em 1890, abandonou a vida activa de advogado e
quasi exclusivamente se consagrou ao desempenho das suas funções oficiais.
Na falta, ausência ou impedimento dos Governadores Civis, inúmeras vezes teve ocasião até 1919, ano em
que se aposentou, de desempenhar o cargo de chefe superior do distrito.
Embora adoptássemos por norma abster-nos de referências elogiosas aos vivos, não podemos deixar de
aludir aos assinalados serviços que o conselheiro Dr. Jardim de Oliveira prestou á Madeira, sobretudo por
ocasião da grave crise das subsistências por que passou esta terra, motivada pela conflagração europeia.
Tendo ordenado, para afastar o espectro da fome, o desembarque de algumas toneladas de milho de uma
embarcação portuguesa que chegara ao nosso porto em princípios de Agosto de 1917, não foi este acto
aprovado pelas estações superiores, sendo logo nomeado Governador Civil e Comandante Militar o coronel
Sousa Rosa e deixando por tal motivo a chefia do distrito o conselheiro Jardim de Oliveira. O facto causou a
mais funda impressão de desagrado em todos os habitantes desta ilha e logo nos dias 7 e 9 de Agosto se
realizavam duas imponentes manifestações de apreço e simpatia ao conselheiro Jardim de Oliveira, que
tiveram a mais alta significação, por se terem a elas jubilosamente associado inúmeras pessoas de todas as
categorias sociais, sem distinção de quaisquer facções de seita ou partido.
O conselheiro Jardim de Oliveira residiu alguns tempos em Lisboa depois de obter a sua aposentação, mas
tendo regressado ao Funchal em 1921, exerceu aqui a profissão de advogado, da qual andara um tanto
afastado em virtude das suas funções oficiais.
Faleceu no Funchal a 31 de Maio de 1926.
Jardim do Mar (Freguesia do)
A meio das escalvadas rochas que constituem uma parte do
litoral das freguesias da Calheta e do Paul se acha situada a minúscula freguesia do Jardim do Mar. A
transição brusca de encostas aprumadas e despidas de vegetação para uma risonha e verdejante estancia,
que pitorescamente se debruça sobre o oceano, dá suficiente explicação ao nome que os primitivos
povoadores deram a este logar. E, de mais, se afirma que ali abundavam varias flores silvestres, entre as
quais sobressaiam as rosas bravas, existindo ainda hoje um sítio que tem o nome de Roseiras, que parece
confirmar a tradição.
Gaspar Frutuoso na descrição sumaria que faz das freguesias e logares mais importantes da costa sudoeste
desta ilha, refere-se ás localidades do Jardim do Mar e do Paul do Mar, dando-lhes apenas os nomes de
Jardim e de Paul, ignorando nós se nos tempos primitivos da colonização assim seriam conhecidas e sem
talvez a acrescentada designação de Mar, que hoje e desde há muito conservam. Também não sabemos se os
logares do Paul da Serra e do Jardim da Serra tiveram estas denominações para os distinguir daquelas
localidades, sendo umas banhadas pelo mar e outras situadas no interior da ilha. Será hoje talvez impossível
averiguá-lo.
Entre o litoral da Calheta e Paul, se destaca uma saliência da costa, que tem o nome de Ponta do Jardim e
que constitue uma parte considerável desta freguesia. É esta também formada por uma fajã, que se deslocou
dos terrenos sobranceiros que lhe ficavam a montante. Não há noticia da sua formação e conjectura-se que
já existisse em época anterior á descoberta.
Diz Gaspar Frutuoso: «Daqui a meya legoa está huma freguesia que se chama o Jardim, de quarenta fogos,
com huma igreja de invocação de Nossa Senhora da Graça. Também tem engenho, terra de pão e vinhas». O
anotador das Saudades rectifica essa informação com as seguintes palavras: «Ha nesta noticia manifesto
equivoco porque, como mostram os supracitados diplomas relativos ás freguesias do Estreito da Calheta e
Jardim do Mar, Nossa Senhora da Graça era já então o orago da primeira, e, ao tempo em que o mesmo
Gaspar Frutuoso compoz as Saudades (1590), ainda não tinha sido erecta a segunda: referia-se, pois, o
autor aquela e não a esta, o que se confirma pelas circunstancias locais que indica».
Sendo o solo do Jardim do Mar bastante fértil, é de presumir que o arroteamento das suas terras se fizesse
nas mais antigas explorações agrícolas, embora por indivíduos que tivessem moradia permanente na
vizinha localidade do Paul, a que o Jardim primitivamente pertenceu. Também é de presumir que a sua
população de residência fixa provenha de época bastante antiga, a pesar da paróquia ser de criação mais
recente, o que tem cabal explicação no numero muito restrito dos seus habitantes.
Entre os mais antigos moradores do Jardim do Mar, faz o Dr. Rodrigues de Azevedo menção de Gonçalo
Alves de Araújo, que do continente se passou á Madeira no fim do século XV e que ali teve terras de
sesmaria, sendo conhecido pelo nome de Gonçalo Alves do Jardim. Foi, porém, mais rico sesmeiro aqui e no
Paul do Mar, Joanes de Couto Cardoso, tendo o primeiro e o segundo filhos deste instituído dois morgados
com sedes no Paul e no Jardim, de que é hoje (1921) representante Francisco João Vasconcelos de Couto
Cardoso, importante proprietário na ultima destas freguesias.
Começou o Jardim do Mar por ser um curato dependente dos Prazeres ou do Paul, o que não conseguimos
averiguar, parecendo que primeiramente foi curato filial dos Prazeres e depois do Paul do Mar, datando a
sua criação do segundo quartel do século XVIII. No Índice Geral do Registo da Provedoria da Real Fazenda
se lê a pag. 132: «Alvará do Senhor Rei D. João V, de 15 de Novembro de 1734, da criação do cura do Jardim
do Mar, com ordenado de um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho, visto o grave incomodo que
tinham os moradores deste logar de irem ouvir missa á freguesia dos Prazeres ou Paul, o que
consequentemente não só perdiam missa, mas também morriam sem sacramentos». E nas Memorias sobre
a criaçâo e augmento do Estado Eclesiástico na Ilha da Madeira, encontramos citado mais o seguinte
diploma: «Alvará do dito Senhor, de 12 de Março de 1736, do respectivo ordenado de um moio e meio de
trigo e uma pipa e meia de vinho ao dito cura do Jardim do Mar, o Padre Manuel do Nascimento, com a
certidão do vigário dos Prazeres de como cumpre suas obrigações».
O curato foi criado em fins do ano de 1734 e parece ter começado o respectivo serviço religioso no princípio
do ano seguinte com a nomeação do cura Manuel do Nascimento, existindo ali uma pequena capela, que
serviu de sede ao mesmo curato. Foi reedificada em 1786, pois que a 9 de Dezembro deste ano foi concedida
licença para ser benzida. 0 requerimento, pedindo essa licença, é feito por Francisco Manuel da Silva, cura
do Jardim do Mar, dizendo-se nele que «por ordem de Sua Magestade.... se fabricou de novo a capella de N.
S. do Rosário a que é afecto aquelle curato, que se achava arruinada, ficando somente o altar em pé e
construindo-se de novo todas as paredes do seu corpo...»
E provável que o Jardim constituísse uma fazenda povoada, com capela, como aconteceu em tantos outros
pontos da Madeira, tendo as fazendas e capelas sido o primitivo núcleo e o centro de futuras freguesias.
O cura não tinha residência permanente no Jardim do Mar, pois que uma provisão do prelado diocesano de
20 de Julho de 1809, ordenava que o sacerdote que exercesse esse logar estabelecesse ali a sua morada para
prontamente acudir a todas as obrigações do seu cargo, o que somente começou a observar-se depois de
1836, quando o vigário capitular e governador do bispado, por provisão de 28 de Setembro deste ano,
desligou o Jardim da dependência do Paul do Mar, dando deferimento a uma representação que lhe fôra
dirigida pelos respectivos moradores, que já então eram em numero aproximado de 300. Sòmente, porém,
pela carta regia de 24 de Junho de 1848, é que o Jardim foi elevado á categoria de paroquia, sem a menor
dependencia, na sua vida civil e religiosa, da vizinha freguesia do Paul do Mar.
A antiga capela serviu de igreja paroquial até que foi substituída pelo templo actual, acerca do qual vamos
transcrever do Jornal, de 28 de Maio de 1909 os seguintes trechos:
«Em 3 de Maio de 1906, o então vigário desta freguesia, Rev. padre César Martinho Fernandes principiava a
demolir o acanhadissimo, vetusto, e meio arruinado templosinho de Nossa Senhora do Rosário, para, em
seu logar, levantar um edifício elegante, belo e artístico para o serviço do culto divino.
Era então ministro do reino Hintze Ribeiro, e governador civil do Funchal o Sr. conselheiro José Ribeiro da
Cunha. Este funcionário prometera um conto de réis para a ajuda da reconstrução da igreja; no entretanto,
o ministério caiu, a promessa claudicou e já não havia igreja no Jardim do Mar.
Dinheiro, nenhum!
Povoação pequeníssima, que contava nesse ano 420 habitantes simplesmente. Como reedificar, pois, sem
recursos um templo? Era um sonho de crianças ou uma quimera de visionários... Mas não foi sonho nem
quimera; foi muito em breve uma realidade.
A generosidade mais desentranhada e a dedicação mais devotada pelo culto da religião, levou a população
desta freguesia a realizar prodígios de economia verdadeiramente sublimes!
Meteram mãos á obra.
O pároco, espírito perspicaz e audaz, desenha a planta do novo templo, efectua a compra de uma parte do
terreno, contrata com emprezarios, convoca o seu povo, recolhe-lhe as quotas para as empreitadas e põe
tudo em movimento.
Muitos dos paroquianos não tendo dinheiro para satisfazerem as suas quotas, pedem-no emprestado sob
juros e alguns deles ainda hoje o estão devendo.
O pároco não foi só o arquitecto; é também o construtor, o mestre e o operário: ele dirige todos os trabalhos,
mede, alinha, esquadrinha, terça a cal e lança o prumo.
As mulheres gemem e suam sob o peso de sacos de areia e de cargas de pedra, que, da mesma maneira que
seus maridos, pais e filhos, os acarretam da praia para o local das obras, tudo pelo amor de Deus!
O nosso distinto amigo, Sr. Francisco João de Vasconcelos, além de pôr á disposição do Rev. pároco a sua
capela de Nossa Senhora da Piedade, para a celebração dos ofícios divinos, oferece terreno, dá avultadas
somas, e só num dia sustentou á sua custa noventa e tantos homens que, a pedido dele, acarretaram pedra
gratuitamente.
Houve também outras pessoas que, além das quotas que lhes competiam, ofereceram outras quantias
espontaneamente.
Os emigrados desta freguesia ao terem lá fora a noticia desta enorme tarefa, remetiam o precioso fruto dos
seus suores para ser aplicado nesta obra de zelo religioso.
E a conjugação de todos estes esforços e sacrifícios fez surgir da terra a breve trecho um edifício,
rigorosamente construído segundo a arte, o único que na Madeira ostenta o verdadeiro estilo gótico puro.
Na construção deste templo distinguiram-se três entidades beneméritas, que convém salientar: o pároco de
então, Rev. padre César Martinho Fernandes, o Sr. Francisco de Vasconcelos e o povo em geral, cujos nomes
ficarão perpetuamente vinculados á historia desta freguesia, e sempre vivos e lembrados enquanto a igreja
existir de pé, com o seu campanário elegante e donairoso, sorrindo ás gerações futuras.
O Jardim do Mar orgulha-se (1921) legitimamente de ter sido a única povoação de toda a diocese que
edificou uma igreja paroquial. Porém, o seu principal orgulho está na esperança da recompensa futura, por
cujo fim se realizaram tantos prodígios de abnegação».
O novo templo foi solenemente benzido pelo prelado diocesano D. Manuel Agostinho Barreto, no dia 19 de
Outubro de 1907, havendo por essa ocasião diversas manifestações de regozijo, que revestiram grande
brilhantismo e ás quais concorreram inumeras pessoas das freguesias circunvizinhas.
O Rev. padre César Martinho Fernandes deixou pouco depois esta paróquia, tendo exercido funções
eclesiásticas noutras freguesias e seguindo para a América do Norte, onde permaneceu alguns anos. Ao
regressar á pátria voltou a paroquiar na pequena freguesia do Jardim, e ali faleceu no dia 1 de Novembro de
1920, tendo apenas 42 anos de idade. Repousa á sombra da igreja que ele com tantos trabalhos e canseiras
conseguiu levantar, sendo de inteira justiça que os habitantes desta freguesia façam erguer um modesto
mausoléu sobre os sete palmos de terra que cobre o seu cadáver.
O Diário da Madeira, de 20 de Novembro de 1920, publicou uma pequena biografia deste dignissimo e
benquisto sacerdote, a quem esta Freguesia ficou devedora dos mais relevantes e assinalados serviços, os
quais bem dignos se tornaram de ser rememorados.
Desde que os curas do Jardim do Mar foram obrigados pelo prelado diocesano a ter moradia fixa dentro da
área do seu curato, ali tiveram com efeito residência mais ou menos permanente, no período decorrido de
1837 até 1848, ano da criação definitiva da freguesia, os sacerdotes Francisco José Nunes, João José Lucio
Gonçalves, Manuel da Purificação, Manuel Joaquim de Sena, Francisco Gomes da Silva e Manuel Rodrigues
Correia.
Junto da casa solarenga dos morgados Coutos Cardosos, levanta-se a capela de Nossa Senhora da Piedade,
que serviu de igreja paroquial durante a construção do novo templo. Dela nos ocuparemos no artigo
consagrado ás capelas.
Esta paróquia tem por limite as freguesias do Paul, Prazeres e Estreito da Calheta. Comunica com a
primeira através de uma praia de grossos calhaus e exposta aos perigos das pedras que violentamente se
despenham das rochas sobranceiras. Conduzem ás outras duas freguesias uns simulacros de estrada,
pequenos carreiros praticados em aprumadas vertentes, que nos últimos anos sofreram importantes e
indispensáveis repairos. O local do desembarcadouro e o caminho que leva ao Paul do Mar também foram
convenientemente reparados, sendo todos esses melhoramentos devidos á iniciativa e diligentes esforços de
Francisco João de Vasconcelos, que era ali grande proprietário e ali residia quasi todo o ano. Também em
boa parte se deve ao mesmo cavalheiro a construção da nova igreja, como já fica referido, tendo sido o mais
poderoso auxiliar do padre Martinho Fernandes na erecção desse templo. João Francisco de Vasconcelos
faleceu em Lisboa a 13 de Abril de 1928.
O orago da igreja paroquial é Nossa Senhora do Rosário.
Tristão Vaz Teixeira Bettencourt da Câmara, irmão de José Bettencourt da Câmara de quem já nos
ocupámos neste Elucidário (V. vol. I, pág. 204), casou com uma senhora da casa vinculada dos Coutos
Cardosos, a quem acima nos referimos, tendo sido agraciado em 1896 com o título de barão do Jardim do
Tem uma escola oficial mista criada em 1914.
Mar. Foi proprietário e director do Diário de Noticias do Funchal e morreu nesta cidade a 20 de Outubro de
1903. Era tio de Francisco João de Vasconcelos de quem acima nos ocupámos.
Jardim Municipal
Em 21 de Fevereiro de 1878 nomeou a Câmara Municipal do Funchal uma
comissão de vereadores, encarregada de promover sob a superintendência do Governador Civil, o
estabelecimento de jardins na cerca do extinto convento de S. Francisco e no terreno entre a mesma cerca e
a Praça da Constituição. O terreno a oeste da Praça da Constituição foi ajardinado pouco tempo depois, mas
os trabalhos na cerca de S. Francisco só se iniciaram em Agosto de 1880, tendo o projecto e planta do
jardim que ali existe sido aprovados pela Câmara em 15 de Setembro de 1881. Para custear as despesas
exigidas por esses trabalhos, destinou a Câmara primeiramente a importância de 15 contos, desviada do
empréstimo de 69.980$000 réis, contraído em 1883 com a Companhia Geral do Credito Predial, e depois a
importância de 19 980$000 réis, proveniente de outro empréstimo contraído no ano imediato com a
mesma companhia.
Em Outubro de 1880, quando se procedia aos primeiros trabalhos no terreno do extinto convento de S.
Francisco, achou-se ali, seguido diz um documento da época, «uma pedra, servindo de tampa a um pequeno
vão talhado em outra pedra, no qual foram encontrados uns restos que pareciam de pergaminho
apodrecido». A pedra ou tampa foi mandada recolher no Arquivo Municipal, onde todavia se não encontra,
e apresentava a seguinte inscrição, em letras douradas:
D. Ma. Iª. Rainha de P. Pio VI, P. M. Fr. Bernardo
N. E. P. D. U. S. C. “ Julho 1780 “.
Em 1 de Outubro de 1885 deu a Câmara ao novo Jardim o nome de Jardim Municipal, mas em 6 de
Setembro de 1897 foi esse nome substituído pelo de Jardim D. Amélia, o qual se conservou até, 27 de
Outubro de 1910, em que foi resolvido restabelecer a denominação dada em 1885 ao mesmo recinto. Em 21
de Março de 1902 inaugurou-se ali a iluminação eléctrica, e em 1916 foi a mesma iluminação melhorada,
visto já em 1911 se ter reconhecido que os fios transmissores da energia se achavam em mau estado.
Em 28 de Março de 1921, pelas 5 horas da tarde, foi celebrada perante enorme assistência a cerimónia do
lançamento da primeira pedra do monumento que o Sr. Henrique Vieira de Castro vai fazer erigir no Jardim
Municipal, em homenagem aos aviadores que primeiro realizaram o raid Lisboa-Madeira, sendo a acta,
depois de assinada pelas autoridades que assistiram á cerimónia, encerrada, juntamente com algumas
moedas, num cofre de ferro, que o Governador Civil colocou nos alicerces da obra (1921).
As primeiras plantas introduzidas no Jardim Municipal vieram de Paris, tendo chegado depois outras do
Porto e de mais algumas procedências. Entre as espécies que vegetam ali actualmente, são dignas de
menção especial a
Pritchardia filifera
, a
Phoenix canariensis
e o
Trachycarpus excelsus
, palmeiras muito
ornamentais, a
Dammara australis
e a
Ginkgo biloba
, coniferas de fôlhas largas, e a
Wigandia
macrophylla
, a
Astrapaea Wallichii
, a
Jossinia tinifolia
, a
Plumiera lutea
, a
Pterocarya japonica
, o
Negundo fraxinifolium
e a
Alsophila excelsa
. Em 29 de Agosto de 1888 resolveu a Camara comprar vinte e
nove vidraças para o estabelecimento de uma estufa que ainda hoje existe no Jardim Municipal e onde
vegetam algumas especies curiosas, principalmente begónias e avencas.
O terreno e edificio do convento de S. Francisco, onde está o Jardim Municipal, foram cedidos à Camara por
decreto de 7 de Novembro de 1844.
Jardim Pequeno
Assim se denominava um pequeno jardim construído em 1878, entre a antiga Praça da
Constituição e a cerca do extinto convento de S. Francisco, hoje Jardim Municipal. Este jardim, onde havia
alguns bancos e uma bela vegetação, desapareceu em 1914, quando se começou a construir a Avenida Oeste,
hoje do Dr. Manuel de Arriaga.
No local do jardim houve outrora um chafariz, cujas águas o governador D. Álvaro da Costa de Macedo fez
desviar para a fortaleza de S. Lourenço, e antes de 1878 havia no mesmo local um largo ou praça, em torno
do qual se viam algumas árvores. As bacias do chafariz foram requisitadas pela Câmara ao Administrador
Geral em 1838, achando-se presentemente no largo de S. Sebastião ou do Comercio.
Por ocasião da inauguração das comunicações telegráficas com o continente, em 1874, houve
brilhantíssimas iluminações no antigo largo de S. Francisco.
Jardin (Sir W.)
Ocupou-se das aves da Madeira noEdin. Journ. of Nat. and Geogr. Science , de
Janeiro de 1830, p. 245.
Jardins Botânicos
V. Viveiros.
Jardins da Madeira
Nem só as plantas espontâneas oferecem interesse aos naturalistas que
visitam a Madeira; as plantas cultivadas nas quintas e jardins são dignas também de atenção, já pela sua
variedade, já pela pujança da sua vegetação, já finalmente pelo brilho e esplendor da sua folhagem ou flores.
Ao lado das plantas da Europa média, crescem ao ar livre nos jardins madeirenses muitas espécies tropicais,
produzindo esta associação de formas das mais variadas latitudes, uma impressão estranha no visitante
ilustrado que pela primeira vez percorre esta ilha com o fim de admirar as suas belezas naturais. As floras
das mais variadas zonas do globo tem aqui representantes, e só a árvore do pão, o cavaleiro, o cajueiro, o
baobab e diferentes espécies mais, não vegetam sob o clima da Madeira, certamente por não encontrarem
aqui o numero de raios de calor de que carecem para percorrer todas as fases da sua vegetação.
Em todos os quintais do Funchal há sempre algumas parcelas de terreno destinadas á cultura de flores, e
raras são as pessoas dentro da cidade que não possuem pelo menos alguns vasos com plantas ornamentais,
ás quais dispensam os maiores cuidados. Nos campos observa-se a mesma inclinação para guarnecer as
proximidades das habitações de lindas e variadas plantas, reconhecendo o naturalista entre elas diversas
formas que, em latitudes mais setentrionais, só podem viver em estufas ou protegidas por abrigadouros,
cousas estas quasi desconhecidas entre nós.
Em quasi todos os pequenos jardins dos campos da Madeira se encontram os mimos, os martírios, os
craveiros, a urze-de-cheiro, as malvas (
Pelargonium
), as maravilhas, os goivos, as saudades-de-inverno, o
não-me-deixes, a losna, os alfinetes-de-senhora, a dália, os cuidados, os pampilios, as mãozinhas-de-nossa-
senhora, a madre-silva, a saudade, a bôca-de-peixe, o manjericão, o alecrim, a salva, o rosmaninho, o
pessegueiro-inglês ou verbena, a erva-gigante, os amores-perfeitos, os lírios, as beladonas, as açucenas, a
coroa-de-henrique, os junquilos, o esparto, o alegra-campo (V. todos estes nomes), os amores-de-rapazes
(
Mesembrianthemum conspicuum
), os amores-escondidos (
Grazania rigens
) a
Lobelia Erinus
, a
Vinca
rosea
, a
Epiphyllum truncatum
, etc., mas estas espécies, mais ou menos ornamentais, não podem ombrear
nem em brilho nem em magnificencia com certas formas que povoam as quintas da ilha e lhes imprimem
uma fisionomia especial.
A quinta Vigia, a quinta do Deão, o Jardim Municipal e o do Hospício da Princesa D. Maria Amelia, são os
recintos dentro do Funchal que mais se recomendam pelo luxo e variedade da sua vegetação arborescente,
vendo-se ai belas amostras da flora de varias latitudes do globo, associadas aos tipos indígenas de folhagem
coriácea e persistente. O
Liriodendron tulipiferum
, o
Bombax ceiba
, a
Astrapaea Wallichii
, a
Mammea
americana
, a
Euphoria Lit-chi
, a
Pachira aquatica
, a
Spondias lutea
, o
Podocarpus neriifolius
e o
Taxodium distichum
são essências que vegetam na quinta Vigia, ao passo que nos jardins do Hospício da
Princesa D. Maria Amelia, que lhe ficam próximos, se encontram entre outras as seguintes espécies
lenhosas:
Pittosporum Tobira
,
P. eigenioides
,
Brachychiton populneum
,
Erythrina senegalensis
,
E.
poianthes
,
E. Caffra
,
Schotia brachyata
,
Acacia Julibrissin
,
Aleurites triloba
e
Gingko biloba
. A Crescentia
cucurbitina é um dos principais ornamentos da quinta do Deão, enquanto no Jardim Municipal são as
palmeiras, entre as quais avulta a Phoenix canariensis, e o Pandanus odoratissimus e a Dammara australis
que constituem o principal adorno do local.
As essências que ficam indicadas, á excepção de três ou quatro, são bastante raras na ilha: entre as que são
frequentes, parecem-nos dignas de menção a magnolia, a arvore-do-incenso, diferentes acácias, o louro-
cerejo, a pimenteira-da-índia (Schinus), o louro-regio, o ligustro, a cevadilha, o jacarandá, a duranta, o
canforeiro, a caneleira, o carvalho, o plátano, a sementeira (
Celtis
), a figueira-da-índia, o cedro-de-goa e a
araucária. Estas árvores, o barbuzano, o til, o vinhatico e o dragoeiro indígenas, e diferentes arbustos
exóticos, entre os quais assinalaremos a camelia, os cardiais (
Hibiscus
), a manhã-de-páscoa, a trombeteira e
diferentes roseiras e mimos, constituem os principais representantes da flora lenhosa das quintas e jardins
madeirenses.
A camelia, se bem que cultivada no Funchal, não atinge aqui todo o desenvolvimento de que é susceptível, e
caso semelhante se dá com a Kalmia, o
Rhododendron arboreum
X
ponticum
, o
Prunus lauro-cerasus
, o
Viburnum Opulus
, a
Syringa vulgaris
, a
Ribes Grossularia
, a
R. rubra
e a
Betula Alba
, que vegetando
perfeitamente nos jardins da Camacha, definham e morrem muitas vezes em altitudes inferiores a 400 ou
500 metros. 0 vinhatico, árvore indígena, desenvolve-se mal abaixo de 150 ou 200 metros.
Cobrindo os muros e gradeamentos das quintas e jardins do Funchal aparecem numerosas plantas, tais
como os Ampelopsis, a
Quisqualis indica
, a
Tacsonia manicata
, a
Wistaria sinensis
as Allamandas, as
Bignonias (V. este nome), o
Stephanotis floribunda
(jasmim-do-cabo), a
Cobaea scandens
, o
Plumbago
capensis
, o
Jasminum grandiflorum
, a
Thunbergia Harrisii
, a
Solandra macrantha
, a
Lantana Camara
, a
Bougainvillea spectabilis
, a
Ficus stipulata
e o
Asparagus Lowei
(espontaneo), enquanto nos canteiros,
que ocupam muitas vezes uma boa parte dos mesmos jardins, se vêem de mistura com os arbustos de que
atrás fizemos menção, os coleos, os crisantemos, os pelargonios, os gladiolos, os bambus, o
Lathyrus
odoratus
, a
Russelia juncea
, a
Salvia eriocalyx
, a
Libonia floribunda
a
Cyrthanthera Pohliana
, a
Zinnia
elegans
, o
Heliotropium peruvianum
, a
Acalipha musaica
, a
Iresine Verschaffelti
, a
Dichorisandra
thyrsiflora
, a
Iris biflora
, a
Canna indica
(conteira), a
Globba nutans
(flor-de-espirito), o
Imantophyllum
miniatum
, o
Crinum Moorei
, o
C. Amabile
e ainda varias outras plantas. Lindas azáleas e begonias, assim
como o Farfugium grande, orquídeas dos generos
Sobralea
,
Stanhopea
e
Cypripedium
, algumas palmeiras
e numerosos fetos indigenas e exoticos, se cultivam em vasos e barricas para ornamento dos jardins e das
entradas das habitações.
A Madeira não possui jardins alguns que em extensão e riqueza da sua flora possam rivalizar com certos
jardins do sul da Europa ou da ilha de S. Miguel, nos Açores; há porem, naqueles recintos da nossa ilha uma
fisionomia tão peculiar, filha quer da variedade de aspectos da sua vegetação, quer da maneira como aí se
manifesta a vida da natureza, que o estrangeiro que os visita tem neles sempre bastante que admirar e que
aprender, sobretudo se é dotado do espírito de observação que dá o estudo das ciencias naturais. Qualquer
que seja a epoca em que essa visita se realize, depara ele sempre com uma multidão de plantas em tôda a
pujança da sua vegetação, facto este que não pode deixar de impressioná-lo vivamente, pois que revela a
existencia nesta ilha de uma primavera constante, desconhecida em países mais setentrionais.
«É extraordinariamente deliciosa e magnifica, diz o comodoro Wuellerstorf-Urbair, comandante da fragata
austriaca Novara, a primeira impressão que a vista do Funchal causa ao viajante com a perspectiva dos seus
jardins e das suas flores e com a opulenta vegetação que engrinalda e coroa os montes, que se elevam desde
a margem. Não ha ali, é verdade, a selvatica majestade nem as formas colossais da vegetação, que é própria
dos países dos tropeços. Sentem-se ali antes as feições de uma ilha da Itália meridional do que as
magnificências duma paisagem do equador. Desenrola-se, porem, ao aspecto do observador, um tão grato
painel, onde a vida da natureza aparece em tão rica variedade e formosura que a mais criadora fantasia
nada pode conceber de mais amorável e encantador. As mais formosas plantas das zonas temperadas e
subtropicais deleitam ali os olhos em seu pleno desenvolvimento, ao passo que aparecem também alguns
dos mais belos representantes da flora dos tropicos no esplendor luxuriante desta maravilhosa vegetação,
que um naturalista da Alemanha comparou ha pouco tempo aos fabulosos hortos pensis de Semiramis».
Os períodos que deixamos transcritos, elegantemente traduzidos por Latino Coelho, exprimem a admiração
e o deleite de um homem de ciência ao contemplar pela primeira vez a luxuriante vegetação da nossa ilha.
Como o sábio austríaco falam outros viajantes, não se notando discrepâncias nos seus escritos quanto á
maneira de apreciar o aspecto e a riqueza da flora das quintas e jardins da Madeira.
Jarro
Nome vulgar da Richardia aethiopica, planta da família das Aráceas naturalizada na Madeira.
Jasmineiro-do-cabo
São conhecidas por esta denominação aGardenia florida , arbusto da família
das Rubiaceas, originario das Índias, e aStephanotis floribunda , planta volúvel da família das
Asclepiadaceas, originaria de Madagáscar.
Jasmineiros
Existem na Madeira varias espécies do género
Jasminum
, duas das quais –o
J.
odoratissimum
e o
J. azoricum
, são indígenas. A primeira destas Oleaceas, que tem folhas geralmente 3-
foliadas e flores amarelas, encontra-se em S. Gonçalo, no Caniço, etc.: a segunda, que tem folhas também 3-
foliadas, mas com os foliolos maiores, e flores brancas, tem sido achada unicamente nas proximidades da
Serra de Água. O
J. grandiflorum
, do Malabar, e o
J. revolutum
, da Índia, são cultivados nos jardins, tendo
o primeiro flores brancas, e o segundo flores amarelas.
O
Trachelospermum jasminoides
também é conhecido na Madeira pelo nome de Jasmineiro, embora
pertença á família das Apocinaceas.
Jaspe
É uma mistura de quarço opaco com hidratos diversamente corados. Encontra-se no Porto Santo,
onde apresenta uma cor amarela clara e acastanhada.
Jazigos de folhas
No Ribeiro do Meio, numa encosta do vale de S. Jorge, foram encontrados há
muitos anos, no mesmo local em que aparece a linite, diferentes camadas de tufos e de argilas, numa das
quais havia numerosas folhas de Dicotiledoneas e de Fetos. O Dr. Heer que estudou estas folhas,
reconheceu que elas pertenciam a 25 espécies, entre as quais se contavam o til, o folhado, a urze molar, a
uveira, a tintureira e a murta.
Num tufo claro a oeste da povoação do Porto da Cruz, também aparecem algumas folhas e impressões de
folhas pertencentes talvez ao Rubus Bollei e ao Carex pendula, assim como pedaços de uma madeira
esponjosa e macia.
Quando falarmos da linite, referir-nos-emos novamente ao jazigo de S. Jorge; quanto ao jazigo do Porto da
Cruz, pode-se admitir que ele se formasse num antigo lago, limitado talvez pelo ilhéu da baía, tendo-se
acumulado aí os tufos e as areias que a erosão pôs mais tarde a descoberto.
Jerónimo Fernando (D.)
Ficando vago o bispado do Funchal em 1617 pela transferência do
prelado D. Lourenço de Távora para Elvas, foi apresentado bispo da nossa diocese o presbítero secular
Jerónimo Fernando, no ano de 1619, tendo tomado posse do cargo no ano de 1621. Era natural de Santarém
e filho de Cristóvão Dias de Figueiroa e de D. Maria de Basto, descendendo por bastardia do rei D. Duarte,
segundo se lê no seu epitáfio, no claustro do convento da Graça em Lisboa. Camilo Castelo Branco numa
nota do seu romance o Regicida, diz o seguinte acerca da ascendência deste prelado:
« O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamava Leonor. A rainha
D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã daquela menina, levou-a para o paço e educou-a com esmero e
carinho de irmã. Saiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a
reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia estando a corte em Santarém, a irmã colheu a
bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a
rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que
havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!–replicou a mulher de D. João II–has de casar
com quem eu muito bem quizer; e ha de ser com o primeiro homem que passar na rua, se for solteiro».
Neste lance, apontou no extremo da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de
officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capellão que os casasse. Tiveram filhos. 0 padre
Jeronymo Fernandes, de Santarém, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã del-rei
D. Manuel, e também portanto bisneto do tal Fernandes correeiro. 0 padre allegou e provou a Filipe II que
era terceiro neto do infante D. Fernando e obteve a mitra do Funchal».
D. Jerónimo Fernando foi o nono prelado desta diocese, governando-a pelo longo período de trinta anos.
Pouco afável no trato e de seu natural áspero e desabrido, teve por isso a alcunha de Bravo, sabendo no
entanto atenuar o significado dessa palavra com a impecável correcção do seu proceder e pela maneira
irrepreensível como desempenhou as altas funções do seu cargo. Uma grave acusação, porém, se lhe fez,
mas de carácter político: a de ter sido partidário do domínio espanhol e de não se associar ás manifestações
que entre nós se fizeram por ocasião da restauração. Foi o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo que numa das
anotações das Saudades se tornou eco dessa acusação, mas é certo que num manuscrito do meado do século
XVIII se diz que «sendo governador desta ilha Luiz de Miranda Henriques, e chegando em dez de Janeiro
esta nova (a da restauração) logo foi aclamado rei o dito senhor em toda a ilha, sendo grande a parte do
bispo em socegar o tumulto do povo a quem se fez suspeitoso o governador pela homenagem que tinha dado
a el-rei Filipe II». Esta afirmação contradiz a afirmativa do anotador das Saudades da Terra, não sendo hoje
muito fácil averiguar de que lado estará a verdade histórica.
Foi D. Jerónimo Fernando muito zeloso no exercício da pregação e nas visitas pastorais, tendo sido o
primeiro prelado que esteve crismando e pregando na ilha do Porto Santo.
Era assíduo no serviço religioso da catedral, á qual deu um novo regimento, e mandou fazer á sua custa o
órgão grande que ainda ali se encontra no coro, que fica junto á entrada principal do templo. Reformou
vários serviços eclesiásticos, coibindo muitos abusos e impondo a rigorosa observância da disciplina
canónica, embora por vezes com excessiva severidade, levantando por isso clamores e protestos da parte
dos seus súbditos. É certo que foi acusado de prover em vários cargos eclesiásticos alguns sacerdotes do
continente, com preterição de antigas praxes e até de ordens regias existentes a favor dos clérigos
madeirenses, mas justificou-se dessa acusação e as suas nomeações foram mais tarde mantidas e
confirmadas pelas estações superiores.
Por três vezes, na ausência dos respectivos governadores, esteve á frente da administração do arquipélago,
tendo sido louvado pelos governos da metrópole pela maneira imparcial como se houve no desempenho
desse cargo.
Por fins de 1641 se retirou para o continente, não voltando mais á diocese. Morreu a 2 de Maio de 1650,
sendo sepultado na igreja do convento da Graça, em Lisboa. Na sua lápide tumular se lê o seguinte epitáfio:
Túmulo de D. Jerónymo Fernando, bispo do Funchal mais de trinta annos, quarto neto de El-Rei D. Duarte
de Portugal pelo serenissimo infante D. Fernando, seu filho, falleceo a 2 de Maio de 1650.
Jérvis
Este apelido de família procede de Ricardo Jarvis, mercador inglês que, por 1660 se estabeleceu
no Funchal.
Jervis de Atouguia e Almeida (D. Maria Helena de)
Vid
.Almeida (D. Maria
Helena Jérvis de Atouguia).
Jesuítas
O sexto capitão-donatario do Funchal João Gonçalves da Câmara achava-se em Lisboa
quando nos primeiros dias do mês de Outubro de 1566 os corsários franceses assaltaram esta cidade e
deram aqui o terrível saque de que falam com tanto horror as antigas crónicas madeirenses. Acudiu
prontamente o donatario, mas chegaram tarde os socorros da sua armada, pois que os franceses haviam já
saído da ilha, depois de alguns dias de destruição e de matança. Nesta frota trouxe o capitão-donatario o
jesuíta português Francisco Varca, que tinha como companheiro um religioso castelhano de apelido Naxera,
pertencente á mesma ordem. Agradaram em extremo as pregações e os serviços religiosos dos dois
membros da Companhia de Jesus chegando o autor das Saudades a dizer, numa exageradissima hipérbole,
«que não sabia qual destas cousas fora maior para esta ilha, se o que perdeu com a chegada dos corsários, se
o que ganhou com a vinda destes religiosos».
Três anos depois, a instantes pedidos dos moradores do Funchal, criou D. Sebastião nesta cidade um colégio
da Companhia pelo alvará régio de 20 de Agosto de 1569, que vem integralmente transcrito a pág. 738 das
Saudades da Terra
. Por este diploma é fixada a dotação anual de 600$00 réis, «pagos em fructos dos de
melhor qualidade e de que o Reytor e padres do dito Colégio sejão mais contentes». Esta dotação, referida
ao ano de 1569, isto é, há três séculos e meio, não era pequena, mas aumentou consideravelmente com
muitas doações particulares e vários privilégios concedidos pelos monarcas.
Para a formação da nova comunidade, partiram de Lisboa no dia 9 de Março de 1570, chegando á Madeira
no dia 18 do mesmo mês, os padres Manuel de Sequeira, reitor do Colégio, Pedro Quaresma, professor de
teologia moral, Belchior de Oliveira, para o desempenho das funções religiosas, o diácono Vasco Baptista,
professor de latim e retórica e mais dois religiosos, que em virtude de estar grassando a peste na capital, não
deram entrada nesta cidade, tendo-se instalado provisoriamente numas casas contíguas á capela da Ajuda,
pertencentes a Fernão Favila, onde permaneceram pouco mais dum mês.
Transferiram em seguida os Jesuítas a sua residência para a albergaria de São Bartolomeu, fundada por
Gonçalo Anes Velosa (V. vol. 1, pag. 30 e 70) e ali estiveram alguns anos. Decorridos menos de dois meses
depois da sua chegada, abriram as suas aulas de teologia, filosofia, latim e retórica numas casas contíguas á
antiga capela de S. Sebastião, no local que hoje tem o nome de largo do Comercio. A abertura solene
realizou-se a 6 de Maio, tendo por essa ocasião o professor Vasco Baptista proferido na língua latina um
discurso alusivo ao acto.
De 13 a 30 de Junho de 1570, isto é poucos meses depois dos religiosos da Companhia se estabelecerem no
Funchal, demoraram-se nesta cidade os quarenta jesuítas que nas alturas das Canárias foram martirizados
por huguenotes franceses, sendo mais tarde canonizados, como fica referido no artigo dedicado ao beato
Inacio de Azevedo. (V. vol. I, pág. 110).
Do Colégio e Igreja dos jesuítas nos ocuparemos em artigo especial.
No alvará régio de instituição se lê que os religiosos residiriam neste Colégio «estudando e lendo latim e
casos de consciência», mas sabe-se que ensinavam também lógica e retórica, o que constituía um curso
abreviado das antigas humanidades. Quando os religiosos da Companhia se instalaram no novo Colégio,
abriram ali os seus cursos, que tiveram o nome de Aulas do Pátio, por funcionarem num pátio interior, que
era uma das dependências do mesmo Colégio, como já tudo fica referido no artigo Instrução.
Além da igreja do Colégio de S. João Evangelista, possuíram os jesuítas as residências do Pico dos Frias, nas
proximidades da fortaleza do Pico, a do Pico do Cardo, em Santo António, a de Nossa Senhora do Socorro,
no Caniço, e a da Fundoa, em S. Roque, na margem direita da ribeira de Santa Luzia. Eram casas de campo
com suas capelas anexas, onde alternativamente desempenhavam os diversos serviços religiosos.
A manutenção da comunidade, as solenidades religiosas e outras funções do culto, os encargos pios
impostos pelos benfeitores e doadores do colégio e igreja, e ainda as outras obrigações inerentes ás ordens
religiosas, demandavam grandes despesas, que eram custeadas pelas avultadas rendas que nesta ilha
possuiam os Jesuítas. A darmos inteiro credito aos documentos publicados a pag. 747 e seguintes das
Saudades, vemos que a Companhia de Jesus contava na Madeira com a receita de 10.808$049 réis,
provindo 5:670$000 réis de impostos públicos, 4:028$783 réis dos rendimentos das fazendas do Colégio,
Igreja e Capela-Mor e 1:109$266 réis dos rendimentos das fazendas das capelas de N. S. do Socorro, Santo
Antonio, S. Miguel, S. Francisco Xavier e Cem Mil Virgens. Além destes rendimentos, tinha a comunidade
do colégio de S. João Evangelista outros, provenientes de capitais mutuados a juros, etc..
Os impostos públicos que arrecadavam os Jesuítas eram, segundo os mesmos documentos, a renda do pão e
vinho das freguesias do Campanário, Ribeira Brava, Tábua e Serra de Água, a do pescado e miunças da
freguesia do Campanário, a do pescado, verdura e miunças da freguesia da Ribeira Brava, a das miunças e
verduras das freguesias da Tábua e Serra de Água e a do pescado da freguesia da Tabua.
Com a expulsão dos jesuítas ordenada pelo marquês de Pombal em todo o país, tiveram os mernbros da
Companhia residentes nesta ilha de abandonar o seu Colégio, havendo antes ali permanecido mais de um
ano presos e incomunicaveis. A 29 de Maio de 1759 foram inesperadamente cercados o Colégio e a Igreja,
mantendo-se a prisão e a incomunicabilidade até o dia 16 de Julho de 1760, em que os religiosos
embarcaram para Lisboa. Veio ao Funchal a nau Nossa Senhora da Natividade, comandada pelo conde de S.
Vicente, que foi o encarregado de conduzir á capital os dezoito jesuítas que estavam na Madeira.
Durante a prisão procedeu-se ao sequestro de todos os bens moveis e imóveis, fazendo-se o arrolamento das
propriedades rústicas e urbanas, do mobiliário, dos objectos do culto, das pratas e do dinheiro, etc., sendo
cuidadosamente arrecadados todos os documentos e papéis que se encontravam nas diversas residências. A
Igreja e o Colégio foram entregues á guarda do Prelado Diocesano. Deram-se os prédios de arrendamento,
sendo mais tarde vendidos em hasta publica. A Quinta Grande, que é hoje uma freguesia e constituía a mais
vasta propriedade dos jesuítas, foi vendida por 140:000 cruzados, a quinta do Pico do Cardo por 7 contos e
a residência do Pico dos Frias por 9 contos.
Entre os jesuítas madeirenses devemos aqui mencionar Luiz Gonçalves da Câmara, Manuel Alvares e
Sebastião de Morais, dos quais nos ocupamos em outros logares deste
Elucidario
.
Jesus (Dr. Quirino Avelino de)
Nasceu no Funchal a 10 de Novembro de 1865, sendo filho de
Manuel de Jesus e D. Quirina Augusta de Jesus. Depois de cursar as aulas preparatórias do Seminário desta
diocese e de ter concluído o segundo ano do curso teologia matriculou-se em 1887 na faculdade de direito
da Universidade de Coimbra, terminando a formatura no ano de 1892. Sendo ainda aluno da Universidade,
colaborou em vários jornais, tornando-se muito conhecida a série de artigos que escreveu acerca da situação
económica da Madeira, que logo revelaram as suas futuras qualidades de escritor e jornalista.
Concluída a formatura em direito, estabeleceu-se na capital e dedicou-se com ardor ao jornalismo, á
advocacia e ao estudo de diversas questões sociais religiosas e económicas, tendo-se especializado em
assuntos coloniais, em que em breve se tornou uma verdadeira e indiscutida autoridade. Em 1893 publicou
o livro As Ordens Religiosas e as Misões Ultramarinas, e na sessão legislativa de 1897 proferiu, como
deputado, um discurso sôbre a questão ultramarina, que lhe deu foros de distinto colonial. Mais se
robusteceram estes créditos com a publicação da notável revista Portugal em Africa, de que foi durante
alguns anos director e redactor principal.
Dedicou-se activamente à vida jornalística, foi director do Correio Nacional e assíduo colaborador e depois
redactor principal da Tarde, e em ambos estes periódicos sustentou campanhas que ficaram assinaladas nas
crónicas do jornalismo português. É vasta e valiosa a sua colaboração em muitos jornais e revistas, sendo
ultimamente o director do Economista Português, versando largamente questões económicas e financeiras,
que, ao presente, (1921), constituem uma das modalidades do seu espírito.
A pesar de se não haver dedicado ex-professo ao exercício da advocacia, tem no entretanto produzido vários
trabalhos jurídicos, devendo especializar-se um sobre as levadas da Madeira, que está publicado em
opúsculo. Como advogado da casa comercial Hinton Sons desta praça, escreveu e publicou vários folhetos,
que já ficaram mencionados no artigo
Questão Hinton
. De acérrimo e entusiástico defensor, como advogado
e publicista, do regimen sacarino, tornou-se a breve trecho, com igual ardor e convicção, um inimigo
declarado do mesmo regimen.
O Dr. Quirino A. de Jesus era chefe de serviço da Caixa Geral dos Depósitos, lugar este para que foi
nomeado em 1890, e foi eleito deputado pela Madeira em 25 de Novembro de 1900, tendo antes
representado em cortes o distrito de Braga. Havendo militado a princípio no partido regenerador, filiou-se
depois no partido nacionalista, do qual se afastou em virtude de divergências que teve com os respectivos
dirigentes.
Além de prosador distinto, como o provam os inúmeros artigos que tem escrito sôbre questões económicas
e coloniais, administração publica, Jurisprudência, etc., etc., é também poeta de merecimento, tendo
publicado um poema épico intitulado
Lusa Epopeia
, que é pouco conhecido na Madeira.
Faleceu em Lisboa a 3 de Abril de 1935.
Jesus (Fr. Rafael de)
Nasceu em 1614 e morreu em 1693. A pesar dos seus defeitos como literato e
historiador, gozou de nomeada no seu tempo e escreveu, além de outras, uma obra que interessa á historia
deste arquipelago e da qual se fizeram duas edições. Intitula-se a 1ª. edição:
Castrioto Lusitano. Entrepresa
e restauração de Pernambuco e das capitanias confinantes. Vários e bellicos successos entre portuguezes e
belgas, acontecidos pelo decurso de 24 anos, tirados de noticias, relações e memórias certas. Oferecidos a
João Fernandes Vieira
, Castrioto Lusitano; Lisboa, 1679. É a descrição da vida e feitos heróicos do ilustre
madeirense João Fernandes Vieira, de quem já nos ocupámos neste
Elucidario
.
Jesus Maria José (Capela de)
Sebastião Gonçalves Cordeiro e sua mulher Luzia de Ornelas
fundaram em 1694 a capela de Jesus-Maria-José, na freguesia de Câmara de Lobos, no sítio que hoje
conserva aquele nome. A respectiva escritura de dotação é de 10 de Maio de 1694.
No sítio do Lombo do Doutor, na freguesia da Calheta, também se encontrava uma capela de Jesus-Maria-
José, fundada em 1708 por João de Andrade Berenguer Neto e sua mulher D. Tomásia de França Andrade,
que a dotaram por escritura publica de 30 de Outubro daquele ano.
Com a mesma invocação existiu uma capela na freguesia da Sé, em local que não podemos determinar,
fundada em 1626 pelo cónego Manuel Afonso, e Mateus da Gama Ferreira fundou na freguesia do Monte,
em terreno que depois passou a pertencer á freguesia de Santa Luzia, uma capela consagrada igualmente a
Jesus-Maria-José. A sua construção deve ser anterior a 1676, ano em que foi criada a freguesia de Santa
Luzia.
João de Deus (Método de)
Em 1 de Setembro de 1879 dirigiu o conde de Carvalhal, presidente da
Câmara Municipal do Funchal, um oficio ao Dr. João de Deus, apresentando-lhe o professor Teodoro João
Henriques, encarregado pela mesma Câmara de estudar o novo processo de ensino da leitura ás crianças,
organizado por aquele distinto poeta e zeloso apóstolo da instrução popular. 0 professor Henriques esteve
alguns meses em Lisboa, sendo ele quem no regresso á Madeira divulgou entre o professorado publico e
particular o processo de ensino que aprendera com o ilustre autor da Cartilha Maternal.
João Diniz (Fontes de)
V
. Fontes de João Diniz.
Jogo das Canas
Esteve muito em uso na Madeira no tempo dos donatários, tendo tido por ele grande
predilecção o capitão Simão Gonçalves da Câmara, conde da Calheta. Lê-se a pág. 202 das Saudades da
Terra que em 1555, por ocasião de regressar á Madeira Antonio Gonçalves da Câmara, acompanhado de sua
segunda mulher D. Margarida de Vila-verde, dama da rainha, se fizeram aqui muitas festas, em que muito
brilhou Francisco Leomelim, que era tão destro no jogo das canas «e tão bem se adragava, que lhe não dava
canna, nem nas unhas do cavallo».
O jogo mourisco das canas consistia, diz Pinheiro Chagas, «em arrojar ligeiramente, no rápido galope dum
cavallo costumado a esta espécie de exercício, uma cana ligeira, que o adversário devia evitar, arrojando ao
mesmo tempo a sua».
Na Novela
A Filha de Tristão das Damas
, da autoria de J. Reis Gomes, encontra-se uma interessante
noticia acerca do «jogo das canas» nesta ilha.
Johnson (James Yate)
Distinto naturalista inglês falecido no Funchal, com cerca de 80 anos de
idade, a 3 de Fevereiro de 1900. Veio para a Madeira pouco depois de 1850, tendo visitado antes a Argélia e
a Sicília, em busca de alívios para os seus padecimentos pulmonares. Publicou grande numero de trabalhos
sobre a ictiologia madeirense, e dedicou-se também ao estudo das conchas, dos briozoarios, dos crustáceos,
dos zoófitos e da flora do arquipelago, tendo deixado um herbario de fanerogamicas bastante incompleto,
mas rico em espécies raras, que se acha agora no museu do Seminário do Funchal. Colheu grande numero
de muscíneas madeirenses, que foram estudadas pelo briologista inglês William Mitten. Foi também
distinto jurisconsulto e um grande amigo da Madeira, tendo sido nesta ilha, onde a princípio só residia
durante o inverno, que conseguiu melhorar consideravelmente dos seus antigos padecimentos pulmonares.
Publicou a segunda e terceira edições da obra
intitulada Madeira its climate and scenery
(V. White), aquela
em 1857 e esta em 1885, e escreveu vários trabalhos sôbre a historia natural da ilha, entre os quais
mencionaremos os seguintes:
Description of some new genera and species of fishes obtained at Madeira
(
Proc. Zool. Soc
., 1863);
Description of three new genera of marine fishes obtained at Madeira
(
Ibid
.,
1863);
Description of a new genus of Trichiuroid Fishes obtained at Madeira
(
Ibid
., 1865);
Description of
Trachichthys darwinii
(
Ibid.,
1866
); Description of a new genus of Spinacidae
(
Ibid.,
1867);
Description of
a new species of Cancer obtained at Madeira
(
Ibid.,
1861);
Description of a new genus and a new species
of Macrurous Decapod Crustaceans... discovered at Madeira
(
Ibid
., 1867);
e Notes on some rare and little
known plants of Madeira
(
Hooker's Journ. Botany
, 1857).
V.
Antozoarios.
Johnston (William)
V. Cartas Geograficas.
Joinville (Príncipe de)
Nasceu em 1818 e morreu em 1900. Era filho de Luiz Filipe de Orléans, rei
de França, e tinha casado com a infanta portuguesa D. Francisca, irmã de D. Pedro 2º. do Brasil e da rainha
de Portugal D. Maria II. Foi um distinto oficial da marinha francesa e nessa qualidade visitou varias vezes a
Madeira, comandando alguns navios de guerra. Em 1840 estiveram no nosso porto as fragatas da marinha
de guerra francesa La Belle Poule e La Favorite, que conduziam a missão encarregada de proceder em Santa
Helena á exumação do cadáver de Napoleão 1.° e de o conduzir a terras de França, sendo o príncipe de
Joinville o chefe dessa importante e honrosa missão. A este facto nos referiremos mais largamente no artigo
Napoleão na Madeira.
Joksimowitsch (Ziwko)
Paleontologista servio que se ocupou dos fosseis do Porto Santo e
Selvagens num trabalho a que deu o título de
Die Zweite Mediterranstufe von Porto Santo und Selvagem
.
Este trabalho publicado em Berlim, nas Memorias da Sociedade Geológica, assinala 106 formas distintas,
entre espécies e variedades, todas colhidas pelo naturalista madeirense Adolfo César de Noronha naquelas
ilhas.
Jones (Eugene F. G)
E: A Handy, Guide to Madeira,1895, folh..
Jorge (Francisco)
Este arquitecto e engenheiro foi por alvará régio de 10 de Fevereiro de 1595,
encarregado de dirigir os trabalhos das fortificações desta ilha. Era pai de João Bartolomeu, de quem já nos
ocupamos neste Elucidario. (V.Disc. dos Arch. e Eng. Port. vol. 2.°, pág. 38).
Jornal (O)
Principiou a ser publicado a 27 de Março de 1906 e suspendeu a 31 de Dezembro de 1910,
tendo saído mil trezentos e noventa e sete números.
Jornal da Manhã
Publicaram-se cento e vinte e oito números deste jornal, tendo saído o primeiro
numero a 6 de Fevereiro e o ultimo a 22 de Agosto de 1887.
Jornal de Notícias
Saíram cento e oito números, de 31 de Março a 23 de Agosto de 1886.
Jornal do Commercio do Funchal
Publicou-se de 15 de Julho a 18 de Novembro de 1878,
saindo cento e cinco numeros.
Jornal do Funchal
Saiu o primeiro numero a 31 de Outubro de 1878 e o ultimo, que foi o 73º., a 31
de Janeiro de 1879.
Jornal do Povo
Começou a publicar-se a 22 de Janeiro de 1888 e suspendeu a 10 de Janeiro de
1890, tendo saído cento e dezassete numeros.
Jornalismo
O nosso patrício Dr. Jordão Apolinário de Freitas publicou há anos, em folha avulsa, uma
relação alfabética dos jornais madeirenses, que a empresa do Diário de Noticias desta cidade corrigiu e
ampliou com a publicação do opúsculo
Resenha Cronológica do Jornalismo Madeirense
, do qual nos
vamos servir para organizar a lista que damos em seguida, acrescentando os nomes dos jornais que entre
nós viram a luz publica desde 1908, ano em que foi publicada aquela Resenha.
Nos domínios coloniais portugueses, isto é fora do continente do reino, foi nesta ilha que viu a luz da
publicidade o primeiro Jornal–o
Patriota Funchalense
(V. este nome), aparecido no ano de 1821. Quando
em 1830 saiu nos Açores a primeira publicação periódica, já no Funchal se tinham publicado oito jornais.
«Feita a revolução no Funchal, diz o Dr. Rodrigues de Azevedo em 28 de Janeiro de 1821, o Dr. Nicolau
Caetano Bettencourt Pitta projectou o estabelecimento de uma typographia e a publicação de um periódico;
foi aquella mandada vir de Lisboa com o typographo Alexandre Gervasio Ferreira; e no dia 2 de Julho do
mesmo ano, dia escolhido por ser considerado o do descobrimento da ilha, sahiu o n.° 1 do Patriota
Funchalense, de que era redactor o referido Dr. Pitta».
O Patriota Funchalense terminou a sua publicação em Agosto de 1823 e em Fevereiro deste ano começou a
sair o Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei, em Abril o Regedor e no mesmo mês a Atalaia da
Liberdade. De cada um destes periódicos e de todos os outros que se publicaram nesta ilha, damos uma
rápida noticia nos logares respectivos.
1821–O Patriota Funchalense.
1823–O Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei, O Regedor e A Atalaia da Liberdade.
1827–O Funchalense Liberal e O Defensor da Liberdade.
1828–O Regedor Filho, A Flor do Oceano e O Realista.
1834–A Flor do Oceano.
1838–A Chronica.
1840–O Defensor, O Imparcial, A Chronica e Chronica Official.
1841–O Tribunal Secreto.
1842–O Beija-Flor.
1846–O Echo da Revolução e O Independente.
1847–O Madeirense, Boletim Oficial e O Funchalense.
1849–Correio da Madeira.
1850–O Amigo do Povo e O Archivista.
1851–O Agricultor Madeirense, o Estudo e O Progressista.
1852–A Ordem e O Baratissimo.
1854–Semanário Oficial e O Clamor Publico.
1855–A Discussão.
18S6–O Meteoro
1857–A Madeira e O Direito.
1858–A Verdade, A Justiça e A Reforma.
1859–O Funchalense.
1860–A Voz do Povo, A Flor do Oceano e Direito.
1861–A Revista Semanal, A Lei e O Campo Neutro.
1862–A Aurora do Domingo, Boletim Official do Distrito Administrativo do Funchal, A Pátria, A Imprensa e
O Noticioso.
1863–O Archivo Litterario e O Recreio.
1864–O Districto do Funchal, O Raio da Madeira e A Tribuna.
1865–O Paiz, 0 Crepúsculo e Revista Judicial.
1866–Gazeta da Madeira, A Sentinella, O Oficial da Ronda, O Commercio do Funchal e As Novidades.
1867–O Correio do Funchal e A Razão.
1868–A Fusão, A Aurora Litteraria, O Popular, Imprensa Livre e A Voz Publica.
1870–A Liberdade e Revista Jurídica.
1871 - A Regeneração e A Onda.
1872–A Madeira Liberal e A Lâmpada.
1873–O Oriente do Funchal, A Vergasta e A Lei.
1874–Estrella Litteraria, O Paquete e O Popular.
1875–A Verdade, A Aurora Litteraria, A Aurora Liberal, Estrella Academica e O Liberal.
1876–Diário de Noticias.
1877–A Penumbra Litteraria, O Districto do Funchal, Echo de Santa Cruz, Diário do Funchal, Boletim
Judicial e O Athleta.
1878–Jornal do Commercio do Funchal, A Ilha da Madeira, Jornal do Funchal, Reflexos, Maceta de Santa
Cruz e A Liberdade.
1879–A Lei, O Progresso, Religião e Progresso e A Liberdade.
1880–A Grinalda Madeirense e Diário da Madeira.
1881–A Liga, O Independente, As Novidades e Diário da Tarde.
1882–Diário da Manhã, a Primavera, The Comet e Diário Popular.
1883–O Povo, A Mulher, As Faíscas, A Republica e O Palco.
1884–A Monarchia, o Correio da Manhã e O Academico.
1885–O Domingo Catholico.
1886–Jornal de Noticias, A Epocha e Funchalense.
1887–Jornal da Manhã.
1888–Jornal do Povo e A Lucta.
1889–O Monoculo, O Latego, O Imparcial e O Reclame.
1890–O Combate, O Estudante e A Opinião.
1891–Portugal, A Espora e Diário do Commercio.
1892–O Clamor Popular, Atalaia e A Madeira Liberal.
1893–O Districto.
1894–A Madeira, Boletim Mensal da Obra Diocesana de São Francisco de Salles e O Zé Povo.
1895–A Épocha.
1896–A Voz Publica, A Lucta, O Diário do Commercio, Echo Académico e O Commercio da Madeira.
1897–Correio do Funchal, A Aurora, A Tribuna Academica, A Madeira, Diário Popular e O Recreio.
1898–Trip - Trap e Semana Ilustrada.
1899–A Voz do Operário.
1900–A Academia e Revista Madeirense.
1901–Quinzena Religiosa, O Rebate, O Democrata, Correio da Tarde, A Cruz, e The Madeira Magazine.
1902–A Luz da Madrugada, A Ideia, Debate e Revista Litteraria.
1903–O Democrata.
1904–O Heraldo da Madeira.
1906–Alma Académica, O Jornal, A Pátria, A Risota, O Garoto e A Chacota.
1907–O Povo, Revolucionário, Trabalho e União, Primeiro de Dezembro e Esperança.
1908 - A Voz da Madeira.
1909–Brado d'Oeste e A Sentinella.
1910–Rebelde, Comercio do Funchal Academia.
1911–Radical, Aurora e A Voz do Povo
.
1912–Diário da Madeira, A Boa Nova, o Defensor, A Escola, Boletim Eclesiástico da Madeira, A Epocha, O
Tempo e A Vida.
1913–O Liberal, a Democracia, Athenista, Alma Nova e A Vida Académica.
1914–A Regeneração, A Esperança e Parochia de Santo Antonio do Funchal.
1915–O Realista, A Verdade e O Independente.
1916–O Chicote, O Imparcial e O Progresso.
1917–O Democrata.
1918–A União, O Desporto, O Madeirense, O Seringa, O Atlantico, O Nacional e O Vigilante.
1919–O Germinal, a Luz, A Esperança, a Sentinella e Gente Nova.
1920–Echos da Madeira, O Operário, O Commercio da Madeira, Os Novos, A Razão e Revista de Direito.
1921–Vida Diocesana.
1922–Correio da Madeira, O Proletário, Terra e Tribuna do Povo.
1923–A Lanterna, O Cacete, Jornal da Madeira e Sport do Funchal.
Judeus
Havia judeus na Madeira no século XV, tendo muitos deles, com vontade ou sem ela, abraçado
o cristianismo, depois do bárbaro decreto da expulsão dos filhos de Israel, publicado por D. Manuel em
Dezembro de 1496.
Essa conversão não colocou porém as antigas famílias hebreias ao abrigo de rigores e perseguições, e muito
antes de 1547, ano em que o Tribunal do Santo Oficio foi definitivamente estabelecido em Portugal,
sofreram os cristãos-novos desta ilha muitos agravos e violências, devidos ao espírito de intolerância que
reinava então no nosso país.
Nas ilhas dos Açores e da Madeira, diz Alexandre Herculano na Origem e Estabelecimento da Inquisição em
Portugal, nesses pequenos tractos de terra, como que perdidos nas solidões do Atlântico, se repetiram os
insultos e as accusações de judaismo, em cujo abono appareciam facilmente testemunhas, que depois se
provava serem falsas». «fazem disto fé, acrescenta uma nota o mesmo autor, os instrumentos judiciais
apresentados pelos christãos novos em Roma em 1544, que se acham na Symicta, vol. 31, fol. 137 e
seguintes».
Convém observar que D. Diogo Pinheiro, bispo do Funchal, sustentou sempre nos conselhos do rei D.
Manuel os verdadeiros princípios da tolerância evangélica em tudo quanto se relacionava com os infelizes
hebreus. «Os processos por crimes de Judaismo, diz Herculano, que cahiam apparentemente debaixo da
sua jurisdição, ou que lhe mandavam julgar, terminavam por via de regra, pela soltura dos réus.
Conhecendo a fundo a historia da conversão dos judeus, que tinha presenciado, estava profundamente
convencido de que tal conversão não passara de uma brutal violência. Para elle o facto do baptismo imposto
não tinha validade alguma, e os conversos haviam ficado tão judeus como eram d'antes».
Nos «Apontamentos e Capítulos» que o infante D. Fernando remeteu em 1461 a João Gonçalves da Câmara
e aos cavaleiros, escudeiros, juízes, procuradores e homens bons da capitania do Funchal, lê-se o seguinte:
«No que me pedis que judeus nem genoeses nom trautem em essa ylha asy como compradores y
arremdadores por a destroyçam Que se faz em terra ondes elles husam, digo que me praz em ello teer a
maneyra que o dito senior infante meu padre tinha».
Revela a petição dirigida ao infante que já em 1461 havia na Madeira uma certa má vontade contra os
israelitas, má vontade que só bem claramente se manifestou mais tarde, quando a intolerância e o
fanatismo de D. Manuel vieram abrir caminho ás perseguições de que foram vitimas os membros dessa raça
proscrita, ainda mesmo quando aceitavam o baptismo, para evitar a expulsão do país.
Júdice de Vasconcelos (João Frederico)
Foi deputado pela Madeira na sessão parlamentar
de 1904.
Juiz da Alfândega
Era o mais importante cargo desta casa fiscal, que passou depois a ter a
denominação de provedor. Além da direcção da alfândega, tinha a seu cargo a arrecadação de outras
receitas e cobrança de diversos impostos, como deixámos referido no artigo
Alfândegas
. (V. vol. I, pág. 36).
D. Manuel nomeou em 20 de Fevereiro de 1494 Francisco Alvares juiz da alfandega do Funchal, por ter
casado com uma filha do Juiz anterior, tendo este cargo subsistido até o século XIX.
Juiz Conservador da Nação Britânita
V.
Conservador dos Ingleses.
Juiz do Povo
Era eleito pela
Casa dos Vinte e Quatro
(V. este nome),
representava-as classes
populares junto, de diversas corporações e entidades oficiais e tinha certas atribuições de carácter
administrativo. Desempenhava oficiosamente o papel de intermediário entre o povo e as autoridades locais,
principalmente nos casos em que as disposições legais não eram da mais evidente clareza, e não podia ser
eleito sem ter seis anos, pelo menos, de exercício na Casa dos Vinte e Quatro.
Segundo uma deliberação tomada pelo Senado da Cidade do Funchal em 22 de Dezembro de 1802, o juiz do
povo quando ia á Câmara «requerer sobre algum negocio», sentava-se numa cadeira rasa (as cadeiras de
espaldar eram destinadas aos vereadores e ao escrivão) acima do mais velho dos mesteres».
Não sabemos quando foi criado entre nós o cargo de juiz do povo, que durou até 1834.
Juiz dos Resíduos e Capelas
Tinha primitivamente o nome de Juiz dos Resíduos e Provedor
de Capelas, Hospícios, Albergarias, Gafarias e Orfãos da Ilha da Madeira. Em 1486, foi provido neste logar
João do Porto, que é o mais antigo de que encontrámos notícia. O cargo, que passou depois a ter atribuições
menos latas, destinava-se principalmente a fiscalizar o cumprimento dos legados pios e encargos inerentes
a muitas capelas e igrejas, e registo das propriedades oneradas com esses encargos, etc..
Em 1763, queixava-se o Corregedor da Comarca ao Governador e Capitão-General dos abusos cometidos
neste juízo, mostrando a necessidade da criação dum Provedor de Capelas e Resíduos, a fim de pôr-se termo
a tais desmandos e excessos. Refere-se ao tombo começado a organizar em 1590 e composto de oito
volumes, dizendo que por eles se verifica que muitas capelas foram usurpadas á coroa ou aos seus legítimos
possuidores. Desconhecemos que providências foram adoptadas acerca das faltas graves que se cometeram.
Sabemos no, entretanto, que, no ano de 1800, se descobriram novos abusos praticados por João Luiz
Pestana da Silva, escrivão do juízo, que se apropriou de uma importante soma proveniente de vários
legados, falsificando para isso diversos documentos.
O «Archivo da Marinha e Ultramar» dá-nos noticia dos indivíduos que exerceram o importante cargo de
Juiz dos Resíduos e Capelas no largo período de tempo decorrido de 1493 a 1767, cujos nomes inserimos em
seguida:
Pedro Quaresma (1493),
bacharel João Fernandes (1501),
Afonso Costa (1535), Luiz da Guarda (1546),
licenciado José Jorge (1555),
Jácome Dias, Simão Cabral e o licenciado Gonçalo Mendes (1560),
Liones Simões Homem e o licenciado Luiz Preto (1566),
Manuel Rodrigues Pereira (1593),
desembargador André Lobo e o bacharel Pedro Fernandes Tinoco (1597),
desembargador Baltasar Fróis (1599);
Belchior Tavares de Sousa (1639),
António Tavares de Sousa 1682-1699),
Francisco Moniz de Meneses (1705),
António da Cunha Franco (1714),
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos (1718),
Sebastião Mendes de Carvalho (1731),
Pedro Nicolau Betencourt de Freitas (1752),
António Dionisio da Silva Conde (1761),
João José Betencourt de Freitas (1767),
José Vicente Lopes de Macedo (1769),
Pedro Nicolau de Betencourt e Freitas (1797).
Á medida que se foram multiplicando os vínculos e morgadios, tornou-se muito considerável o número dos
legados e dos encargos pios, que oneravam os prédios rústicos e urbanos, não sendo raro que os respectivos
usufrutuários, procurassem subtrair-se ao cumprimento desses mesmos encargos. Esse tribunal,
especialmente em assuntos de carácter religioso, nem sempre procedia com a devida isenção e de harmonia
com as leis, dando-se por vezes graves conflitos entre os respectivos juízes e as autoridades eclesiásticas e
vendo-se estas forçadas a recorrer ás estações superiores, a fim de serem cumpridas as disposições dos
legados pios, que deveriam constituir o mais sagrado dever e a que ninguém poderia conscienciosamente
eximir-se. Por vezes, o corregedor da comarca e o governador e capitão-general intervieram nesses
conflitos, a fim de coagir o tribunal á observância das leis vigentes.
Tornando-se vinculada na Madeira a maior parte das propriedades e encontrando-se registados e
arquivados no cartório deste tribunal todos os documentos respeitantes ás instituições vinculares, aos seus
direitos de posse das propriedades e aos privilégios a elas inerentes, é fácil avaliar a importância que tinha
esse cartório e o interesse que ainda pode oferecer para o estudo pormenorizado dessas instituições.
Julgava-se inteiramente perdida essa valiosa colecção de documentos, mas não há muitos anos que foi
encontrada na antiga secretaria da administração do concelho do Funchal, achando-se hoje devidamente
catalogada no Arquivo Distrital da Madeira. Fica assim rectificado o que foi dito a pág. 388 do I vol. do
Elucidário
(2ª. edição) acerca deste tribunal.
Ignoramos quando foi extinto na Madeira este tribunal, mas sabemos que ainda funcionava no ano de 1829.
Nas administrações dos concelhos, com a implantação do sistema constitucional, exerciam-se muitas das
funções privativas desse tribunal, que desde há muito caducaram.
Juízes de Direito
Existem na Madeira desde 15 de Outubro de 1835, dia em que entrou em
exercício nesta ilha a reforma judicial decretada em 16 de Maio de 1832, tendo desde então até 1876, isto é,
enquanto funcionaram aqui as comarcas (primitivamente julgados) ocidental e oriental, vindo ao Funchal
os magistrados seguintes, muitos dos quais serviram nas duas comarcas:
Domingos Olavo Correia de Azevedo (1835),
José Pereira Leite Pita Ortigueira Negrão (1835),
Francisco Jerónimo Coelho de Sousa (1838),
Francisco Leite Pereira da Costa Bernardes (1846),
D. João Correia Portugal da Silveira (1847),
José Afonso Botelha (1849),
Antonio Magalhães Mexia Baião de Lança Salema (1852),
José Pereira Sanches de Castro (1855),
Augusto das Neves Sousa Pimenta (1861),
Caetano José Gomes Monteiro (1862),
Antonio Bernardo de Amorim de Guerra Quaresma (1863),
Francisco José Monteiro Tavares (1869),
Cassiano Sepulveda Teixeira (1869) e Francisco Antonio da Silva Seide.
A actual comarca do Funchal foi instalada a 16 de Novembro de 1876, assumindo as funções de juiz de
Tertuliano Ciriaco Alves de Araújo. Posse a 3 de Março de 1881.
Joaquim Simões Cantante. Posse a 12 de Fevereiro de 1893.
Fernando Augusto Crisóstomo de Gouveia. Posse a 29 de Março de 1899.
Francisco Nunes da Costa Torres. Posse a 27 de Novembro de 1919.
Arnaldo Fragateiro Pinho Branco. Posse a 27 de Março de 1922.
Albino Antonio de Almeida Matos, 1923.
Felix José da Costa Soto Maior, 1924.
Joaquim Crisóstomo da Silveira Júnior, 1925.
direito o referido Francisco Antonio da Silva Seide, antes disso juiz de direito da comarca ocidental. Depois
dele tem havido na comarca os seguintes juízes:
Manuel Celestino Emídio. Posse a 23 de Agosto de 1878.
Manuel José da Fonseca. Posse a 23 de Maio de 1887.
Manuel de Barros Nobre. Posse a 11 de Novembro de 1899.
Manuel Rufino da Graça. Posse a 9 de Março de 1905.
Manuel Borges de Sousa Teles. Posse a 22 de Agosto de 1911.
Domingos José Vieira Ribeiro. Posse a 18 de Fevereiro de 1918.
Como ficou dito no artigo Funchal(
comarca de
), á comarca da sede do distrito foi acrescentado mais um
juízo, passando a haver dois tribunais com os seus magistrados privativos e tendo desempenhado esses
cargos os
Drs. Joaquim Crisóstomo da Silveira Júnior (1925),
Albano de Gusmão Tavares do Canto Taveira (1929),
Pedro de Melo Coutinho de Albuquerque (1929)
Luis Afonso Viana de Lemos (1932),
Augusto Simões Cantante (1935),
Antonio Magalhães Barros Araújo Queirós, visconde de Cortegaça (1935),
Tomás Antonio Bandeira da Gama Pessanha Faria Coutinho Vilhegas do Casal (1938),
José Ferreira Machado (1939) e
José Pinto Magalhães (1940).
Vid.
o artigo Administração Judicial
(1-16 e segs.) e o livro «O Arquipelago da Madeira na
Legislação Portuguesa» pelo Pe. Fernando Augusto da Silva.
Juízes Eleitos
Havia-os nas freguesias, e desempenhavam funções análogas ás dos juízes pedâneos
do regimen absoluto. Foram criados pela Reforma Judiciária de 1837 e extintos pela lei de 16 de Abril de
1874. Havia juízes efectivos pela constituição de 1822.
Juízes de Fora
No artigo
Administração Judicial
, dissemos que em 1767 fora aplicado à Madeira o
decreto de 2 de Agosto de 1766, que criara os lugares de juiz de fora e corregedor nos Açores, passando estes
cargos a ser exercidos no arquipélago madeirense por dois magistrados, quando anteriormente àquela data
eram desempenhados por um só indivíduo. A aplicação do decreto de 2 de Agosto de 1766 tornou apenas
permanente o exercício dos dois cargos, que passaram também a ser definitivamente desempenhados por
dois magistrados.
São muito antigos entre nós os dois lugares de juiz de fora e de corregedor, mas não tinham carácter
permanente e por vezes eram acumulados pelo mesmo indivíduo. No arquivo da Câmara do Funchal, estão
registados muitos diplomas de nomeação dum e doutro lugar, sendo os mais antigos o de 1512, passado a
favor de Rui Pires, como juiz de fora, e o de 1466 a favor de Denis Anes de Aragão, como corregedor. E
seguidamente, embora com algumas interrupções no exercício do cargo, desempenharam as funções de juiz
de fora
Pedro Fernandes (1554),
Lourenço Correia (1558),
Pedro Anes (1566),
Pedro Barbosa (1567),
Lourenço da Cunha Macedo (1573),
Francisco de Sousa (1645),
Antonio de Sousa Galvão (1649),
Manuel de Sena Tenreiro (1657),
Antonio Freire Cardoso (1657),
Manuel Soares Monteiro (1662),
António Martins Machado (1681),
Manuel de Sequeira e Gouveia (1685),
Manuel Viegas (1689),
Francisco Gomes de Góis (1691),
Manuel de Sousa Teixeira (1695).
Nuno de Afonseca Homem (1698),
Antonio de Macedo (1702),
Vital Casado Rotier (1705),
Antonio da Costa Maciel (1709),
Antonio da Cunha Franco (1714),
João de Andrade Albuquerque (1717),
Feliciano Prestes de Gouveia (1722),
Sebastião Mendes de Carvalho (1730),
Manuel Vieira Cardoso (1733),
José Barquette de Oliveira (1739),
Miguel de Arriaga Brun Silveira (1747),
Luís Antonio de Sousa Tavares e Abreu (1763),
Antonio Felipe Bulhões (1766),
Francisco Alvares de Andrade (1770)
Bernardo José de Oliveira Perdigão (1779),
Antonio Rodrigues Veloso de Oliveira (1784),
José Maria Cardoso Soeiro (1790),
Antonio Felipe Ferreira Cabral (1798),
José Julio Henriques Gordilho (1802),
Manuel Caetano de Almeida Albuquerque (1808),
José Joaquim Nabuco de Araújo (1812),
Luis Ribeiro de Sousa Saraiva (1819),
Joaquim de Assis Saldanha (1821),
Antonio Joaquim de Carvalho (1823),
Manuel Ferreira Seabra da Mota (1826) e
Manuel Cirilo Esperança Freire (1828), que foi o ultimo e serviu até 14 de Junho de 1834.
O juiz de fora era o presidente nato da Câmara Municipal do Funchal e só exercia funções dentro do termo,
que era uma subdivisão da Comarca. Era substituído nos seus impedimentos pelo vereador mais velho, que
era chamado então juiz por bem da lei, e tinha aposentadoria paga pela Câmara. Tanto ele como o
corregedor deviam ser formados em leis.
Vid.
Administração Judicial.
Juízes dos Ofícios Mecânicos
Eram eleitos pelos grémios das classes operarias na Casa dos
Vinte e Quatro, devendo o Juiz do povo dar conhecimento á Câmara Municipal do resultado das eleições,
afim de esta lhes mandar passar as respectivas cartas. Além do juiz mais velho, havia ás vezes um segundo
juiz, ou juiz mais moço, tendo cada oficio, além destes funcionários, um escrivão e um mordomo da
bandeira. Os sapateiros elegiam um juiz para a obra preta e um para a obra branca, e era uso o escrivão do
oficio de ferreiro sê-lo também do oficio de serralheiro.
Sabemos terem existido no Funchal Juízes dos ofícios de pedreiro, carpinteiro, marceneiro, serralheiro,
ferreiro, sapateiro, boteiro, curtidor, barbeiro, moleiro, alfaiate, carpinteiro de machado, calafate e tanoeiro.
Juízes Ordinários
Havia-os no regímen absoluto, e pelas Ordenações Filipinas exerciam funções
durante um ano. Eram funcionários judiciais, e precederam os juízes de fora na presidência da Câmara
Municipal do Funchal. As demais câmaras do arquipélago foram presididas por eles até á implantação do
governo liberal na Madeira, em 1834.
A lei de 30 de Abril de 1835 acabou com os juízes ordinários, mas a Nova Reforma Judiciária de 1837
restabeleceu-os, vindo a ser extintos definitivamente pelo decreto de 20 de Julho de 1886. As suas
atribuições ficaram competindo aos Juízes de direito, em todos os julgados que eram cabeça de comarca ou
faziam parte da cidade ou vila onde houvesse cabeça de comarca, e aos juízes de paz em todos os demais
julgados.
Nos tempos do governo absoluto, havia cinco julgados na Madeira, cada qual com o seu juiz ordinário, a
saber: Machico, Santa Cruz, Ponta do Sol, Calheta e S. Vicente. No Funchal, cabeça da comarca, havia um
juiz de fora.
Juízes dos Órfãos
Havia um juiz dos órfãos no Funchal, outro na Calheta e um terceiro em S.
Vicente, os quais «tinham jurisdição em todos os feitos cíveis em que os órfãos eram autores ou réus, até a
sua emancipação». Já no tempo de D. Manuel, havia um juiz dos órfãos na Madeira, tendo sido Fernão de
Perada, nomeado em 1493, quem primeiro exerceu esse cargo nesta ilha.
Em 1835, passaram para os juízes de paz as atribuições que pelas antigas leis pertenciam aos juízes dos
órfãos, tendo no Funchal sido nomeada uma comissão para inventariar os cartórios dos órfãos, os quais
foram entregues ao juízo de fora, em virtude de alvará do Presidente da Província.
Os inventários dos órfãos, depois de haverem estado no arquivo da Câmara, passaram para os arquivos dos
juízes de paz, sendo os delegados dos Procuradores da Republica que presentemente têm as atribuições que
pertenceram aos antigos juízes.
Juízes de Paz
O decreto de 16 de Maio de 1832 criou um juiz de paz em cada uma das freguesias de que se
compusessem os julgados, devendo o mesmo juiz ser eleito pelo povo. Eram destinados os juízes de paz a
conciliar as partes, e de 1835 a 1840 desempenharam funções que pertenciam anteriormente aos juízes dos
órfãos.
O decreto de 29 de Março de 1890 determinou que os juízes de paz fossem de nomeação do Governo, e o de
5 de Junho de 1905 fixou a composição dos distritos de juízes de paz do Funchal, Ponta do Sol, Santa Cruz e
São Vicente.
Juízes Pedâneos
Havia-os na Madeira e também se chamavam juízes de vintena. Exerciam funções nas
aldeias afastadas de uma légua ou mais da sede do termo, e julgavam as questões de coimas, danos e acções
sobre bens moveis de pequeno valor.
No regime absoluto, a Comarca dividia-se em termos, e os termos em vintenas.
Havia juízes pedaneos na Ribeira Brava, Câmara de Lobos e Caniço, na época em que estes lugares
pertenciam ao município do Funchal e era a Câmara Municipal quem os nomeava.
Júlio da Silva Carvalho (Rua de)
Esta rua, que teve primitivamente o nome de João da Mata,
passou a denominar-se do Mosteiro Novo, quando ali se construiu um edifício destinado a um pequeno
mosteiro, mas que não chegou a ter essa aplicação. Também se chamou rua do Seminário por ter
funcionado na casa destinada ao mosteiro o seminário diocesano. Há poucos anos, foi-lhe dado o nome de
rua Julio da Silva Carvalho (V. este nome). Voltou a ter o nome de Rua do Seminário.
Junça
Nome vulgar do Cyperus longus, ciperaceafrequente na Madeira.
Junco
Entre as espécies do genero Juncus existentes na Madeira, avultam oJ. acutus , que serve para
gaiolas, e oJ. inflexus e oJ. effusus , cujos caules se utilizam para atilhos e vencelhos.
Junquilho
Os madeirenses chamam junquilhos a algumas espécies do género Narcissus, da família
das Amarilidaceas, ao passo que, no Porto Santo, é oCyperus laevigatus , da família das Ciperaceas, que
recebe aquele nome.
Junta Agrícola
Foi criada pelo decreto de 11 de Março de 1911. Este diploma legislativo que veio
então solucionar a chamada questão Hinton, a que no respectivo relatório se faz especial referência,
estabeleceu um novo regímen sacarino, que foi diversamente apreciado e deu lugar a controvertidas
opiniões, mas que incontestavelmente encerra princípios e fixa disposições de tal modo úteis e salutares,
que, uma vez observados, muito concorreriam para o engrandecimento e prosperidades de todo o
arquipélago madeirense. Nunca deve ser esquecido que esse decreto criou a Junta Agrícola e a correlativa
expropriação desses laboratórios de substancias tóxicas, que se chamam fabricas de aguardente.
A criação da Junta Agrícola, diz o lúcido relatório que precede o respectivo decreto, há-de contribuir na
mais larga medida para o desenvolvimento económico da Madeira, e assim decerto teria acontecido, se aos
trabalhos dessa corporação não tivesse prendido algumas vezes uma errada orientação. Num país
essencialmente agrícola e em que a maioria da população vive do plantio e cultura da terra, fácil será avaliar
os assinalados serviços que uma corporação de carácter técnico especial e que dispõe de importantíssimos
recursos poderia prestar á nossa agricultura se todas as disposições do aludido decreto tivessem sido
acatadas e integralmente cumpridas. Assim não aconteceu, porém, e lá se consumiram, antes da crise
calamitosa que atravessamos (1921), importâncias avultadíssimas, sem que se melhorassem as condições do
povo madeirense, pondo em execução certas medidas salutares apontadas no citado diploma.
O relatório do decreto de 11 de Março de 1911 refere-se à denominação de Ilha da Aguardente dada á
Madeira, em virtude da abundante produção deste, tóxico e do excessivo uso que dele se faz neste
arquipélago. Dessa denominação se tornou eco, dando-lhe foros de cidade, um conhecido político e
estadista que, numa conferencia publica, tão pouco gentilmente tratou os habitantes desta ilha chamando-
os ébrios e alcoólicos, depois de ter recebido aqui as mais altas distinções e as mais subidas demonstrações
de consideração e apreço, que foram até o ponto de se lhe conferir numa solene e aparatosa sessão da
Câmara do Funchal, os títulos e honrarias de cidadão funchalense, com a inauguração do seu retrato no
salão nobre dos Paços do Concelho.
O decreto, preconizando o alto princípio moralizador que hoje tanto preocupa os governos dos estados, de
combater enérgica e eficazmente o alcoolismo, consigna uma das mais proveitosas medidas adoptadas a
favor deste arquipélago – a expropriação das fabricas de aguardente. Importava isso ao bom nome da nossa
terra e ia principalmente realizar-se uma grande obra social e humanitária.
Já em outro lugar dissemos (1921) que na Madeira se vai notando um acentuado definhamento da raça. Na
estatura, na constituição orgânica, nas forças musculares, etc., observa-se uma decadência digna de registo.
O facto passa por ora despercebido ao grande publico, mas não assim aos médicos, e de modo especial aos
que têm de fazer a selecção dos mancebos destinados ao serviço militar.
Há, porém, um facto ainda mais eloquente e persuasivo–a assombrosa percentagem que á loucura vai
fornecendo a população madeirense, segundo o autorizado testemunho da ciência. E também considerável o
contingente que o alcoolismo fornece á tuberculose, sem contarmos ainda com os casos frequentes de
idiotia, epilepsia, convulsões e outras degenerescências mais ou menos comprovadas. Uma parte
importante dos habitantes desta ilha, que se entrega ao alcoolismo, traz já na célula a tendência imperiosa
para o vicio, que encontra terreno favorável para o seu desenvolvimento na facilidade de achar á venda o
terrível tóxico com que cinquenta fabricas inundam o mercado, embora vão elas ao mesmo tempo
envenenando, bestializando, tuberculizando e enlouquecendo a incauta população dum distrito.
A vista destas razões, sumariamente expostas, ressalta a conveniência e a necessidade dessa grande
providencia, que foi a expropriação das fabricas de aguardente. Todos, porém, sabem que essa medida do
maior alcance moral e social não chegou nunca a ser inteiramente adoptada. O que foi julgado
absolutamente indispensável para a população negra de Angola, com a proibição do fabrico e do tráfego
comercial da aguardente. foi considerado de somenos importância para os habitantes da raça branca deste
nosso arquipélago da Madeira!
A Junta Agrícola foi criada pelo artigo 26º. do decreto de 11 de Março de 1911, que textualmente
transcrevemos:
Art. 26º. É criada uma Junta Agrícola da Madeira que terá o especial encargo de gerir o fundo constituído
pelo imposto da fabricação de aguardente, devendo também constituir receita desta junta as multas
impostas por quaisquer infracções do presente decreto com força de lei e o que constar dos respectivos
regulamentos.
§ único. Este fundo será aplicado ao desenvolvimento económico da Madeira, devendo uma parte ser
reservada para a expropriação das fabricas de aguardente, para custear a propaganda no estrangeiro do
vinho Madeira, para prover ás despesas da fundação e manutenção de uma estação agrária que venha a
criar-se na ilha e para promover a reenxertia ou transformação das castas de videiras actualmente
exploradas, de modo que, num prazo indicado em regulamento, os vidonhos produtores sejam apenas os
que tradicionalmente compunham o tipo chamado de vinhas da Madeira».
A criação da Junta Agrícola da Madeira tinha, pois, como fins especiais e expressamente determinados: 1.° a
expropriação das fabricas de aguardente; 2.° a propaganda no estrangeiro a favor dos vinhos da Madeira;
3º. a fundação e manutenção duma estação agrária; 4.° a transformação pela reenxertia, das castas de
videiras actualmente existentes, em ordem a torna-las nos tipos tradicionais que produzem o chamado
vinho Madeira.
Como já dissemos, a expropriação das fabricas de aguardente não chegou a ser iniciada (1921), cumprindo-
nos acrescentar agora que a propaganda no estrangeiro a favor dos nossos vinhos não deu resultado algum
satisfatório por causa da maneira pouco pratica como foi executada, e que a propagação, por meio da
enxertia, das castas que produzem o tradicional vinho da Madeira não se fez na escala que seria para
desejar, apesar de todos verem nela o meio de restituir á ilha uma das suas mais antigas e valiosas fontes de
riqueza. O campo experimental da Bica da Cana deu poucos resultados práticos, mas manda a boa justiça
que se diga que dos viveiros de Louros e da Ribeira Brava, e em especial deste ultimo, saíram muitas plantas
úteis seleccionadas, e que a organização dos serviços destinados a combater os insectos e parasitas que
atacam os vegetais nada deixou a desejar, tendo constituído um excelente serviço prestado aos nossos
agricultores, pois lhes evitou prejuízos sem conto principalmente nas árvores frutíferas.
A importância demasiada que a Junta Agrícola ligou á indústria do turismo, fê-la esquecer por vezes os fins
para que especialmente tinha sido criada e consumir somas avultadas em estudos e trabalhos que só devia
empreender mais tarde.
No Porto do Moniz e no Paul da Serra, gastou-se sem proveito conhecido muito dinheiro, e a aquisição por
preços elevados de vários montados e extensos terrenos nas nossas serras, embora se possa justificar pela
necessidade de arborizar a zona montanhosa da ilha ou de aproveitar águas que estão correndo inutilmente
para o mar, não mereceu a aprovação da grande maioria dos habitantes da Madeira.
O frigorifico
(V. este nome)
, que era um estabelecimento susceptível de prestar bons serviços à ilha,
nunca chegou a funcionar por motivos que nos são desconhecidos, sendo por fim entregue à Câmara a rua
onde tinham sido levantadas as suas instalações.
É interessante verificar que o decreto de 15 de Maio de 1912, que aprovou o Regulamento para a execução
do decreto com força de lei de 11 de Março de 1911, estabeleceu novas disposições acerca dos fins da criação
da Junta Agrícola e do seu funcionamento, alterando a sua constituição orgânica e fundamental, que lhe
fora assinalada e conferida por uma lei. Impôs o citado decreto a esta corporação o encargo de proceder ao
povoamento florestal das serras e ao estabelecimento duma eficaz policia rural, e o de promover todos os
melhoramentos de viação, sanidade e outros que tendam a desenvolver a indústria do turismo na ilha,
sendo à sombra destas disposições que se realizaram alguns dos actos que atrás deixamos apontados.
Convém notar aqui que o regulamento de 15 de Maio de 1912 coloca em ultimo lugar a obrigação de
expropriar as fabricas de aguardente e que apenas consigna a decima parte dos rendimentos anuais da
Junta para fazer face a essa expropriação.
Pelo citado regulamento, a Junta Agrícola ficou assim constituída: o agrónomo distrital ou o director da
Estação Agraria, três representantes delegados das Câmaras Municipais, dois delegados da Junta Geral,
dois delegados da Associação Comercial, um delegado da Comissão de Viticultura e o regente silvícola ao
serviço da junta Geral.
O artigo 21.° do mesmo regulamento determinou que, para a fiscalização das fabricas de aguardente, seria
destacado do corpo de fiscalização dos impostos o seguinte pessoal: um chefe de distrito de 1ª. classe, um
chefe de distrito de 2ª. classe, dois chefes fiscais, trinta fiscais de 1ª. classe e noventa fiscais de 2ª. classe.
Para o bom e regular funcionamento da Junta Agrícola, existem três decretos datados de 28 de Dezembro
de 1912, sendo o primeiro destinado a aprovar o Regulamento Interno da Junta Agrícola, o segundo o
Regulamento para a expropriação das fabricas de aguardente e o terceiro o Regulamento para a cobrança do
imposto da aguardente.
O segundo regulamento destrói completamente a cláusula mais importante e mais vantajosa da lei que criou
a Junta Agrícola, que é a da expropriação das fabricas, pois que determina que só passados três anos depois
da vigência do regímen sacarino de 1911 e quando se reconheça que em qualquer região do arquipélago
madeirense desapareceu a cultura da cana, é que então se procederá á expropriação das fabricas e ainda
assim quando estas o requererem. E com um traço de pena dum simples regulamento anula-se inteiramente
as mais úteis e salutares disposições duma lei!
O decreto de 1 de Fevereiro de 1913 aprovou as Instruções para a propaganda dos produtos do solo
madeirense e o de 8 de Março do mesmo ano deu aprovação ao Regulamento do serviço rural e florestal.
Não foi por falta de regulamentos que a Junta Agrícola deixou de desempenhar cabalmente a sua missão
civilizada.
Esta corporação instalou-se no dia 22 de Agosto de 1912, e teve mais nove sessões neste ano. Reuniu-se 40
vezes no ano de 1913 e 29 no de 1914. As suas receitas relativas aos cinco anos económicos de 1910-1911 a
1914-1915, foram respectivamente em números redondos, de 25, 64, 155, 149 e 121 contos.
Por portaria de 27 de Fevereiro de 1915, foi o Dr. Fernando Maria Allen Urculu Vieira de Castro, juiz na
comarca de Santa Cruz, nomeado para proceder a uma sindicância aos actos da Junta Agrícola, cujos
trabalhos iniciou mas não chegou a concluir, tendo o Dr. Francisco Antunes de Mendonça, por portaria de
26 de Agosto do mesmo ano, sido encarregado de prosseguir a sindicância encetada e dado por terminadas
as suas investigações a 4 de Novembro de 1915, que é a data do seu relatório apresentado ao Governo.
Foram longos e minuciosos os trabalhos da sindicância, ocupando a sua publicação cem paginas do Diário
do Governo. O relatório da sindicância encerra-se com oito conclusões, na primeira das quais se afirma
«que todos os vogais da Junta Agrícola, mesmo os que já cessaram as suas funções, procederam com honra
e dignidade». Nas outras conclusões, citam-se algumas pequenas transgressões ás leis e regulamentos, que
em nada afectam a primeira conclusão.
O artigo 3.° da lei de 31 de Agosto de 1915 passou para a Junta Agrícola a administração, conservação e
reparação das levadas do Estado, e estabeleceu que o funcionamento da mesma Junta continuaria, sem
limitação de tempo, além do ano de 1918. Pelo artigo 5.° da mesma lei, ficou a Junta com competência para
aprovar o seu orçamento.
Em 2 de Setembro de 1915, apareceu um decreto permitindo á Junta Agrícola contratar com a Caixa Geral
dos Depósitos o empréstimo de 100:000$ para ser especialmente aplicado à construção de estradas e hotéis
de turismo, de conformidade com o preceituado no n.° 4 do artigo 3.° do citado regulamento de 15 de Maio
de 1912, e, em 11 de Fevereiro de 1916, foi apresentado ao Parlamento, não sendo, porém, aprovado, um
projecto de lei concedendo autonomia á mesma Junta e alargando os privilégios e regalias desta
Corporação.
O decreto de 2 de Maio de 1919, que modificou o regímen sacarino, extinguiu a Junta Agrícola, tendo o
decreto de 12 de Junho do mesmo ano mandado transitar o seu pessoal para a 9ª. região agrícola, a cargo da
Junta Geral do Distrito.
Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal
Esta corporação foi criada pelo
decreto de 13 de Agosto de 1913. O fim da sua criação e a esfera das suas atribuições estão consignados no
artigo 1.° da sua lei orgânica, e são os seguintes: «As obras de reparação indispensáveis no porto de abrigo,
na Pontinha, tanto do lado interno como do lado externo da enseada; instalação no mesmo molhe de
maquinismos de carga e descarga; ligação com a alfandega por meio duma linha férrea eléctrica; armazéns
no terminus da linha e bem assim prolongamento e melhoramento do cais da entrada da cidade; construção
dum cais para mercadorias em frente da alfândega; abertura duma avenida marginal entre o cais da entrada
da cidade e o extremo leste do Campo Almirante Reis; construção duma pequena doca entre o cais da
alfândega e a foz da Ribeira de Santa Luzia, com as devidas instalações para serviço de pequena cabotagem
da ilha; e, finalmente, todas as demais instalações complementares, como seja um edifício da alfândega a
construção dum posto marítimo de desinfecção, a dum mercado, praça do peixe, casa para capitania do
porto e serviço de saúde, e bem assim a conservação, exploração e aproveitamento de todas as instalações,
obras e serviços que vier a montar dentro dos limites das suas atribulações ».
A Junta Autónoma do Porto era constituída pelas seguintes entidades: presidente da Junta Geral,
presidente da Câmara do Funchal, presidente da Junta Agrícola, director das Obras Publicas do Distrito,
director da Alfândega, capitão do porto, presidente da Associação Comercial, um vogal especialmente
designado pelo Ministro do Fomento, um vogal eleito pelas casas bancárias, um vogal eleito pelas
associações de classe dos comerciantes por grosso e a retalho, e um vogal eleito pelas Câmaras dos
diferentes concelhos do distrito, sendo também membros desta corporação os deputados e senadores eleitos
pelo circulo do Funchal.
As receitas da Junta Autónoma vêm taxativamente expressas no art.° 11.° da sua lei orgânica e eram estas:
a) Um adicional de 3 por cento sobre os direitos de importação e sobre os impostos municipais cobrados
pela Alfândega do Funchal, exceptuados os géneros alimentícios; b) 6 por cento do rendimento anual do
imposto de produção da aguardente cobrado pela Junta Agrícola da Madeira; c) 50 por cento do aumento
que se verificar na cobrança dos impostos directos pagos pelos contribuintes do concelho do Funchal, que
sejam receita da Junta Geral do distrito, a partir do segundo semestre do ano económico em que a Junta se
instituir, em relação ao máximo atingido por essa cobrança em igual período dos três anos económicos
anteriores; d) 30 por cento do rendimento do imposto municipal sobre os tabacos nacionais e estrangeiros;
e) o rendimento da exploração comercial do porto do Funchal, venda de terrenos conquistados ao mar,
arrendamento de armazéns e dos mencionados terrenos ou doutros que o Governo ou quaisquer entidades
cedam á Junta.
Por portaria de 27 de Novembro de 1915, foi aprovado o regulamento interno da Junta Autónoma, que
consta de 25 artigos. Também tem a Junta um regimento interno da sua Secretaria.
O condutor Furtado de Mendonça, que esteve ao serviço da Junta, publicou em 1915 um opúsculo intitulado
Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal. Memória descritiva e justificativa das obras projectadas,
que contém os planos e projectos das obras a realizar no nosso porto, não tendo este trabalho merecido a
aprovação das estações superiores.
Posteriormente, formulou o engenheiro Francisco Soares Junior um novo projecto, que foi submetido á
apreciação da respectiva repartição técnica do Ministério do Fomento e que se afirma ser um estudo que
revela especiais conhecimentos do assunto. Foi publicado com o seguinte título:
Junta Autonoma das
Obras do Porto do Funchal. Novo projecto das obras do porto artificial do Funchal. Memoria descritiva e
justificativa.
(Lisboa, 1921, 19 págs.).
Anteriormente a esta Junta Autónoma, tinha sido nomeada, por portaria de 8 de Dezembro de 1911, uma
comissão dos melhoramentos do porto do Funchal, que a 29 de Abril de 1912 elaborou um parecer acerca
das obras a realizar. O membro da mesma comissão engenheiro Adriano Augusto Trigo apresentou um
importante trabalho, que foi publicado em opúsculo com o título de Breves Considerações sobre os
melhoramentos de que carece o porto do Funchal. Esta comissão não teve larga duração e, além dos
pareceres apresentados, não realizou outros trabalhos apreciáveis.
Como já ficou dito, a Junta Autónoma das Obras do Porto foi criada pelo Decreto de 13 de Agosto de 1913,
tendo os decretos de 27 de Novembro de 1915, de 2 de Julho de 1926, de 6 de Fevereiro de 1934 e de 5 de
Setembro de 1936 modificado a sua primitiva organização e regulado a maneira do seu funcionamento.
Concederam-se a este organismo mais largas atribuições e novas fontes de receita para poder satisfazer os
fins da sua criação.
Nos seus primeiros anos de existência, limitou-se a Junta Autónoma à arrecadação das suas receitas,
que serviram de base ao concurso aberto em Março de 1922, para a adjudicação duma empreitada, dando-se
assim inicio aos trabalhos anteriormente projectados. Ficou deserto este concurso, abrindo-se segundo, em
Janeiro de 1923, sendo adjudicatária desta construção a firma «Fumasil Company Limited», que então se
constituiu em Londres. Depois duma larga discussão na imprensa, representações dirigidas ao poder
central, recursos aos tribunais, parecer da Procuradoria Geral da Republica, etc., foi, em 1928, considerado
como rescindido o contrato realizado entre a Junta Autónoma e a «Fumasil Compainy», ficando á mesma
Junta a liberdade de abrir novo concurso para adjudicação daquelas obras.
Com a nomeação dum director técnico das obras a realizar no porto do Funchal, passou a Junta Autónoma
a ter uma mais fecunda actividade, que logo se manifestou com o reforço do quebra-mar que protege o
molhe existente entre o ilhéu e a Pontinha, construindo-se 239 blocos com o volume de 4.784, m3, no
período decorrido de Abril de 1930 a Março de 1931, que custaram a soma de 590.000 escudos. Impunha-se
a imediata realização deste melhoramento, porque o grande temporal de 15 de Dezembro de 1926 causara
graves danificações no molhe, pondo-o em risco de uma próxima e total destruição. Outro melhoramento
que as circunstancias locais mais imperiosamente exigiam era o prolongamento do cais da Entrada da
Cidade, abrindo-se concurso para a respectiva empreitada, que terminou a 30 de Outubro de 1930, sendo a
construção adjudicada á casa Nederlandsche Maatschappij Voor Havenwerken pela importância de
4.763.000 escudos. O acrescentamento do cais teria 80 metros de comprimento e 16,m4 de largura e seria
formado por cinco grandes blocos com o volume total de 3.337 metros cúbicos. O primeiro bloco foi
colocado no respectivo local a 25 de Junho de 1932 e o quinto e ultimo no mês de Janeiro de 1933. (Vid.
Cais
).
A principal fonte das receitas da Junta Autónoma é a arrecadação do imposto, cobrado na Alfândega do
Funchal, que recai sobre a importação do tabaco, de que damos uma súmula, referente aos anos decorridos
de 1923 a 1932:
1923............................ 24.930$79
1924............................ 24.542$72
1925............................ 2.147.068$71
1926............................ 2.847.403$55
1927............................ 3.086.744$47
1928............................ 2.966.987$57
1929............................ 2.838.127$89
1930............................ 3.486.740$16
1931............................ 3.836.731$01
1932............................ 3.864.564$28
O quadro do pessoal da Junta Autónoma das Obras do Porto é constituído por um engenheiro-director, um
chefe de contabilidade, um chefe de secretaria, um escriturário, um «encarregado» do Cais da Pontinha, um
apontador, um fiscal de armazéns e um contínuo.
Para uma mais completa noticia acerca desta matéria, leiam-se os artigos Cais, Molhe da Pontinha e
Porto do Funchal insertos neste Elucidário e ainda os seguintes escritos:
Breves considerações sôbre os
melhoramentos de que carece o porto do Funchal
pelo engenheiro Adriano Trigo, 1912;
Lei Organica da
Junta
, 1914;
Memória descritiva e justificativa das obras projectadas. . . »
pelo engenheiro Furtado de
Mendonça, 1915;
Lei Organica e Regulamento da Junta Autonoma
, 1917;
Novo Projecto das obras do
porto artificial do Funchal por Francisco Antonio Soares
, 1921;
Obras do Pôrto do Funchal
, publicado pela
Companhia das Obras do Porto, 1926;
Obras do Porto do Funchal, parecer de três professores da
Universidade
, 1926;
A Questão do Porto do Funchal, representação ao governo
, 1927;
Documentos
relativos á questâo do porto do Funchal
, 1928
; Construção do prolongamento do cais da Entrada da
Cidade
, pelo engenheiro Rodrigo Antonio Machado Guimarães, 1933;
Protecção do quebra-mar da
Pontinha
, pelo mesmo, 1931;
Os Portos Maritimos de Portugal e Ilhas Adjacentes
, vol. 5.°, por Adolfo
Loureiro, 1910, e
Dicionário Corografico do Arquipelago da Madeira
pelo padre Fernando Augusto da
Silva.
Junta do Desembargo do Paço
Foi criada na Madeira a 10 de Setembro de 1811 e uma das
suas atribuições era indicar os indivíduos da governança que deviam servir de membros do Senado. Pela
provisão que nomeava os vereadores, pagava a Câmara Municipal do Funchal ao secretario da Junta o
emolumento de 6$400 réis.
Junta Governativa do Bispado em 1869
Apesar desta diocese ter sido algumas vezes
governada por Juntas Governativas, em virtude da morte ou ausência dos respectivos prelados, uma houve
que, pela maneira como geriu os negócios do Bispado, deu muito que falar de si, tendo-se a imprensa desta
cidade e ainda da capital ocupado dos seus actos, que chegaram a merecer a formal condenação do
episcopado português e até da Santa Sé. Pela ausência do Bispo D. Patrício Xavier de Moura no ano de
1869, ficou esta diocese sendo administrada por uma Junta Governativa composta de três eclesiásticos, que,
afastando-se da observância das leis canónicas e das praxes em vigor, concitou a má vontade do clero e dos
fiéis, tendo sido censurado o seu procedimento pela nunciatura de Lisboa. O acto mais saliente e
escandaloso da sua administração foi o da circular de 26 de Janeiro de 1870, em que eram condenadas
varias praticas de piedade e religião, na mais diametral oposição com os ensinamentos da Igreja e com as
doutrinas dos seus mais abalizados doutores e teólogos. O distinto escritor e grande polemista católico
Sousa Monteiro ocupou-se do assunto no Bem Publico, e, em 1870, publicou-se em Lisboa um opúsculo
com o título Breves reflexões acerca da Circular de 26 de Janeiro de 1870 do presidente da Junta
Governativa do Bispado do Funchal.
Junta Governativa da Madeira em 1847
A revolta popular que em 1846 rebentara na
província do Minho e se alastrara rapidamente por outros pontos do país, ficou na nossa historia conhecida
pelo nome de revolução da Maria da Fonte. Depois da constituição dum governo provisório na cidade do
Porto, que teve a denominação de Junta Governativa do Porto, outras Juntas suas delegadas se organizaram
em diversas vilas e cidades com o fim de apoiar o movimento revolucionário que se propunha derrubar o
governo dos Cabrais e anular as grandes influencias de que gozava nas esferas do poder. Seguiu-se um
período verdadeiramente calamitoso de guerra civil, que prometia eternizar-se, a não haver-se dado a
intervenção de algumas potências estrangeiras.
A revolução teve seu eco na Madeira na madrugada de 29 de Abril de 1847, com o pronunciamento das
tropas da guarnição, que no antigo passeio publico aderiram solenemente à revolução e à Junta Governativa
do Porto. No pátio do hospital de Santa Isabel, pelas cinco horas da manhã daquele dia. se reuniram a
Câmara Municipal, vários funcionários, algumas pessoas de representação e bastantes populares, achando-
se postada a força armada a poucos metros de distancia, e proclamaram então os princípios da revolução e
aderiram á Junta do Porto, nomeando a Junta Governativa da Madeira, que ficou constituída por Luis de
Ornelas e Vasconcelos, presidente, Francisco Correia Heredia, vice-presidente, Diogo Berenguer, Luis
Agostinho de Figueiroa, Dr. José Julio Rodrigues e Antonio Correia Heredia, secretario. Tendo Luis de
Ornelas e Vasconcelos abandonado desde logo os trabalhos da Junta, assumiu a sua presidência, até á sua
dissolução, o morgado Francisco Correia Heredia.
Era então governador civil do distrito o benemérito conselheiro José Silvestre Ribeiro, que, não aderindo ao
movimento revolucionário, abandonou imediatamente o governo e se recolheu á Quinta do Pico de S. João e
depois à quinta do Deão, pondo-se ao abrigo da hospitalidade que lhe ofereceram dois súbditos ingleses ali
residentes.
A Junta Governativa da Madeira desenvolveu desde os primeiros momentos da sua constituição uma
pasmosa actividade, que parece ter excedido os trabalhos das suas congéneres, que se haviam organizado
em muitas terras de Portugal. Nomeou governador civil o professor do Liceu Manuel Joaquim da Costa
Andrade, que escusando-se pouco depois de assumir aquele cargo foi substituído pelo tenente-coronel
Manuel José Júlio Guerra, que também havia sido nomeado comandante militar da Madeira. O Dr. António
Ribeiro Pacheco Nunes, o Dr. Luís da Costa Pereira e o Dr. Juvenal Honório de Ornelas foram
respectivamente nomeados delegado do procurador régio, presidente da Câmara e delegado de saúde.
Foram demitidos muitos funcionários públicos e substituídos por indivíduos que tivessem aderido ao
movimento revolucionário ou aos princípios proclamados pela Junta do Porto. Houve acesso de postos para
alguns oficiais da guarnição e vários sargentos foram promovidos a alferes. A acção governativa da Junta da
Madeira fez sentir, por vezes, duma maneira verdadeiramente arbitraria em muitos ramos da administração
publica levantando protestos enérgicos dos povos, apesar dos poderes discricionarios de que a mesma Junta
se revestira. Segundo um documento da época, deixou completamente exaustos os cofres públicos do
distrito.
Como se protelasse a guerra civil, a Inglaterra, a Espanha e a França resolveram interferir nos negócios
internos do nosso país, pondo termo á anarquia que por toda a parte se alastrava. No dia 23 de Junho,
apareceu no porto do Funchal a fragata inglesa de guerra Thetis, impondo o seu comandante á Junta
Governativa da Madeira a sua imediata dissolução, o que esta fez no dia 14 de Julho de 1847, dirigindo por
essa ocasião uma proclamação a todos os habitantes deste arquipélago.
No dia 21 de Julho, ancoraram no nosso porto os navios de guerra inglesas Terrible e Recruit e a fragata
francesa Armide, tendo os respectivos comandantes, no dia 26 do mesmo mês, entregue o governo do
distrito ao conselheiro José Silvestre Ribeiro, revestindo o acto, que se realizou no palácio de S. Lourenço, a
maior solenidade e havendo por essa ocasião varias demonstrações de regozijo.
No dia 11 de Agosto, tendo já terminado o movimento revolucionário ancorou na baía do Funchal,
procedente da cidade do Porto, o vapor de guerra D. Luiz que conduzia a seu bordo o batalhão de Caçadores
n.° 6, sob o comando do tenente-coronel José Marques Salgueiral.
Acerca deste assunto, leia-se o opúsculo da autoria do tenente-coronel Alberto Artur Sarmento, intitulado
«Maria da Fonte na Madeira».
Junta da Justiça
Foi criada neste arquipélago pelo alvará régio de 26 de Outubro de 1803 e compunha-se
do Governador e Capitão General, do Corregedor da Comarca, do juiz de Fora e do Juiz ou Provedor dos
Resíduos e Capelas. Ignoramos qual fosse a extensão das suas atribuições, mas lemos algures que ela se
destinava a «conhecer os crimes cometidos na comarca e que das suas deliberações havia recurso para a
Casa da Suplicação, em Lisboa. O Governador e Capitão-General por motivos que desconhecemos,
informava em 1809 o governo da metrópole que convinha excluir da Junta da Justiça o Juiz dos Resíduos e
Capelas. E em 1824, queixava-se o Governador ás estações superiores dos excessos cometidos pela referida
Junta e propunha que se tornasse extensivo a este arquipélago o alvará régio de 15 de Outubro de 1810 que
criara nos Açores a Junta da Justiça Criminal. Não sabemos quando foi extinta, mas ainda funcionava entre
nós no ano de 1830.
Junta de Melhoramentos da Agricultura das Ilhas da Madeira e Porto
Santo
. Esta corporação foi criada pela carta regia de 20 de Julho de 1810. Diz o Dr. Rodrigues de Azevedo
que a sua criação foi inspirada pelas Instruções que o corregedor Dr. Veloso de Oliveira (V. este nome)
deixou exaradas na câmara da Calheta acerca da agricultura. Tinha por fim não somente proteger e
desenvolver em geral a indústria agrícola, mas ainda de modo particular promover a cultura dos baldios,
repartindo-os em aforamentos, e assim estender a área das terras aráveis, tornando produtivos tantos
terrenos que jaziam maninhos e estéreis. Esta providencia, que foi secundada pelo alvará régio de 18 de
Setembro de 1811, teve também em vista remediar alguns dos males que a terrível aluvião de 1803 causara á
agricultura madeirense.
Apesar das fundadas esperanças que a criação da Junta inspirou a muitos e dos males iminentes que ela
fora chamada a combater, o Governador e Capitão-General Luis Beltrão de Gouveia e Almeida só convocou
a primeira reunião desta corporação em princípios de Dezembro de 1813, isto é, três anos depois de haver
sido criada! Não sabemos que tempo funcionou e julgamos que foram nulos os serviços que prestou á
agricultura da Madeira.
Esta Junta foi extinta em 1821.
Junta da Real Fazenda da Ilha da Madeira
Havendo o Governador e Capitão-General
deste arquipélago João Antonio de Sá Pereira ponderado ao governo da metrópole a maneira pouco zelosa
como nesta ilha se arrecadavam varias receitas publicas, tendo-se até deixado de fazer a cobrança de
algumas delas, foi, por carta regia de 6 de Abril de 1775, criada a Junta da Real Fazenda da Ilha da Madeira,
que tinha por fim especial superintender na arrecadação de todos os impostos e contribuições.
Era composta do Governador, como presidente, dum Escrivão, do Tesoureiro, do Corregedor e do Juiz de
Fora.
A Junta da Real Fazenda veio substituir a antiga Provedoria da Fazenda e funcionou até 6 de Agosto de
1834, tendo desde então até 30 de Junho de 1835 sido administrados os negócios da fazenda por uma
comissão interina estabelecida pelo decreto de 23 de Junho de 1834, o qual extinguiu também a mesma
Junta.
No 1.° de Julho de 1835, passaram os negócios da fazenda para a gerência dum recebedor geral, sendo
Francisco Correia Heredia quem primeiro desempenhou este lugar no Funchal.
Juntas Gerais
O decreto de 16 de Maio de 1832 criou as Juntas Gerais de Província, que não
chegaram a funcionar neste arquipélago. Pela lei de 16 de Julho de 1835, estabeleceram-se as Juntas Gerais
de Distrito, afirmando um documento oficial de 1837 «que nesta Província uma só vez e
extraordinariamente se reuniu a Junta com fim determinado e mui circunscrito, podendo dizer-se com
verdade que vai hoje abrir-se a primeira sessão ordinária da Junta Geral deste distrito». Parece-nos que
aquela reunião única e extraordinária se realizou no ano de 1836, e a primeira sessão ordinária teve lugar no
dia 15 de Julho de 1837. Presidiu a esta sessão o Governador Civil António de Gamboa e estiveram presentes
os doze procuradores:
Aires de Ornelas e Vasconcelos,
Dr. Alexandre de Oliveira,
Antonio Ferreira Nogueira,
Francisco Ferreira de Abreu,
João Crisóstomo Ferreira Uzel,
José Joaquim Fernandes de Sousa,
Manuel Joaquim da Costa Andrade,
Manuel Joaquim da Trindade,
Patrício Malheiro de Melo,
Rufino de Carvalho Pereira,
Sebastião Joaquim Rodrigues Leal e Vicente de Paula Teixeira, sendo eleito presidente Aires de Ornelas e
Vasconcelos e secretario Francisco Ferreira de Abreu.
Teve dezoito reuniões, sendo a do encerramento a 25 de Agosto de 1837.
Os primeiros vogais da Junta Geral, em numero de treze, foram eleitos na casa da Câmara no dia 11 de
Outubro de 1835 pela forma determinada no artigo 10.° do decreto de 18 de Julho do mesmo ano. Os
códigos administrativos de 1836 e 1842 não alteraram o numero de procuradores à Junta, mas o código de
1878 elevou esse numero a 21, devendo os procuradores eleitos escolher na sua primeira sessão a Comissão
Distrital. A eleição directa das Juntas Gerais foi autorizada pelo código de 1878; o código de 1842
determinava que estas corporações administrativas fossem eleitas pelas Câmaras com os Conselhos
Municipais.
Os códigos administrativos de 1895 e 1896 sancionaram o disposto no decreto de 6 de Agosto de 1892
relativamente á extinção das Juntas Gerais, mas a Junta Geral do Funchal foi restabelecida pelo decreto de
8 de Agosto de 1901, que aplicou a este distrito a organização especial facultada aos distritos dos Açores
pelo decreto de 2 de Março de 1895, modificado pela lei de 12 de Junho de 1901. Pela extinção das Juntas
Gerais, ficou existindo na sede de cada distrito uma comissão Distrital. As Juntas Gerais, nos distritos
continentais, só foram restabelecidas pelo decreto de 13 de Outubro de 1910.
Segundo o disposto na lei de 7 de Agosto de 1913, a Junta Geral de regime autonomico compõe-se de
procuradores eleitos directamente, pelos Concelhos, sendo 7 por cada concelho de 1ª. ordem, 5 por cada
concelho de 2ª. e 3 por cada concelho de 3ª., e tem uma comissão executiva composta de três procuradores.
V.
Autonomia Administrativa, Organização Administrativa e Receitas e Despesas do
Distrito.
Juntas de Paróquia
O decreto de 18 de Julho de 1835 criou as Juntas de Paróquia no arquipélago
da Madeira. Chegaram a instalar-se em algumas freguesias, mas, num grande numero de paróquias, nunca
funcionaram. Não sabemos se essas corporações administrativas tiveram uma acção benéfica em algumas
das localidades em que foram eleitas. Julgamos que foi de todo inútil e estéril o seu funcionamento e não
temos encontrado vestígios da sua administração paroquial. Pode afirmar-se que tiveram curta duração e
que a sua acção foi inteiramente nula entre nós.
Depois da promulgação do Código Administrativo de 1886, que mantinha as antigas Juntas de Paróquia e
lhes concedia mais amplas faculdades, pretendeu-se, dando cumprimento à lei, instalar essas corporações
administrativas na Madeira.
As Juntas de Paróquia teriam sido instaladas e até desempenhado as suas funções administrativas, se a
mesquinha política de campanário não houvesse aproveitado o feliz ensejo para excitar antigos ódios e
exercer as mais condenáveis represálias. Levantou-se então uma aturada e tenaz oposição ao
funcionamento dessas corporações administrativas, que a breve trecho degenerou em grandes violências e
nos mais lamentáveis excessos.
Principalmente o receio de que as Juntas de Paróquia teriam que lançar impostos e não poderiam funcionar
sem usar desse recurso por não possuírem receitas próprias, excitou a indignação popular e logo se levantou
um geral clamor em toda a ilha contra as Juntas de Parreca ou simplesmente a Parreca, como o povo
chamava aquelas corporações administrativas.
Lavrou então rapidamente como um incêndio uma revolta em todo o distrito, que nem sempre se
manifestou na praça publica, mas que existia latente nos espíritos. Não temos conhecimento de outro
sucesso que entre nós produzisse uma tão intensa e geral indignação, a não ser talvez o da epidemia da
peste em 1907. Estarmos convencidos que, ainda hoje, se gente mal intencionada agitasse a questão da
Parreca como estandarte de revolta, conseguiria de novo pôr em movimento os espíritos e produzir talvez
graves perturbações de ordem publica (1921).
Por esse motivo, ninguém mais pensou nem pensa ainda em eleger as Juntas de Paróquia. São corporações
que, para nós, só existem nas paginas do Código Administrativo. É já passado o longo período de trinta anos
e outro lapso de tempo igual se passará, sem que elas representem uma verdadeira realidade para este
arquipélago. E manda a verdade dizer que elas não trariam benefícios aos povos. Se algumas câmaras
sertanejas e até das capitais de distrito têm feito o que nós sabemos.
A situação da Madeira era então bastante crítica. A cana de açúcar tinha desaparecido quasi
completamente, e os vinhedos produziam pouco e estavam também gravemente ameaçados. 0 afastamento
da navegação do nosso porto e os males de que enfermava todo o país ainda mais agravaram a situação
económica do arquipélago. 0 terreno não podia ser mais favorável para fazer germinar a indignação publica
com a ideia do lançamento de novos impostos. A instalação das Juntas de Paróquia, hábil mas
malevolamente explorada por politicantes sem escrúpulos, foi o rastilho do incêndio, que em breve se
alastrou por toda a parte.
Em muitas freguesias da Madeira, deram-se acontecimentos de muita gravidade, alterando-se por vezes a
ordem publica. Em algumas delas, esses acontecimentos revestiam um carácter de manifesta hostilidade
para com todos os que exerciam cargos de autoridade ou desempenhavam quaisquer funções publicas, sem
exclusão das pessoas mais gradas e mais consideradas que aí residiam. Foi uma época de verdadeiro terror,
vendo-se muitos obrigados a deixarem os seus domicílios e procurarem ao Funchal abrigo seguro contra os
desmandos do povo revoltado.
No concelho de Sant'Ana, e em especial na freguesia do Faial, a população amotinou-se e praticou muitos
desatinos, sendo vexados, maltratados e até espancados o pároco e algumas das pessoas mais respeitáveis
da localidade.
Na Ponta do Sol, o povo desceu à vila em atitude ameaçadora e teria de certo praticado os mais condenáveis
excessos se a força militar lhe não embargasse a passagem. Esta foi agredida e ameaçada de ser corrida
violentamente à pedrada, tendo que usar das carabinas, ficando mortos cinco populares e outros feridos.
Na freguesia do Caniço, os sucessos motivados pela suposta reunião da Junta de Paróquia atingiram
também proporções da maior gravidade, que tiveram as mais trágicas consequências. No dia 22 de
Novembro de 1887, os habitantes daquela freguesia, em numero considerável, invadiram a casa paroquial,
com o pretexto de que ali estava funcionando a Junta de Paróquia e, depois de uma busca minuciosa a toda
a habitação e a todas as dependências da igreja, que ocuparam inteiramente, bem como as vizinhanças
desta, ali permaneceram muitas horas em atitude ameaçadora e hostil, receando-se a todo o momento que
essa atitude se desencadeasse em tremenda tempestade.
Do Funchal, chegou, ao anoitecer, ás proximidades da igreja paroquial do Caniço uma força comandada
pelo capitão Luís Maria dos Reis, que pretendeu imediatamente fazer evacuar o templo, o que dificilmente
conseguiu, sendo então violentamente apedrejada a tropa e caindo morto um soldado vitimado por uma
grande pedra lançada do telhado da Igreja. A força armada, que usara de toda a prudência, vendo-se assim
atacada, defendeu-se e repeliu a agressão, caindo varados pelas balas quatro populares e ficando muitos
feridos, alguns deles mortalmente.
Do continente, vieram contingentes dos regimentos de caçadores n.° 5 e de infantaria n.° 16, comandados
pelo tenente-coronel Cibrão, a fim de auxiliar as forças militares aqui aquarteladas, os quais prestaram bons
serviços.
Os acontecimentos tiveram eco na imprensa do continente e nas altas regiões do poder. Os nossos
representantes em cortes e alguns madeirenses residentes em Lisboa fizeram sentir ao governo central que
os sucessos ocorridos na Madeira tinham principalmente a sua origem na angustiosa situação em que a ilha
se encontrava e que a revolta era, na sua essência, um protesto enérgico contra o abandono a que o
arquipélago estava votado por parte dos poderes públicos.
O governo adoptou imediatamente varias providencias e tomou depois algumas medidas de alcance com
respeito ás obras publicas, suspensão de direitos de cabotagem, etc..
Por decreto de 31 de Dezembro de 1887, nomeou o governo uma grande comissão presidida pelo coronel de
engenharia Manuel Raimundo Valadas e composta de varias entidades oficiais deste distrito e de alguns
proprietários e comerciantes, tendo como secretario o Dr. Gaspar Malheiro Pereira Peixoto, secretario-geral
do governo civil do Funchal.
O coronel Valadas mostrou o maior zelo no desempenho da espinhosa missão de que fora incumbido, e, no
desejo de bem se orientar e de produzir trabalho útil, ouviu todos os que a ele se dirigiram, tomou em
consideração os alvitres da imprensa, das corporações administrativas e ainda dos particulares, fez um
estudo detalhado das causas originarias da situação em que se encontrava o distrito, e, no seio da comissão,
que teve inúmeras reuniões, procurou, pela discussão e exame minucioso das questões, chegar a conclusões
praticas e definitivas acerca dos graves assuntos que a mesma comissão fora chamada a resolver.
O presidente da comissão escreveu e apresentou ao governo um extenso e elucidativo relatório, que se
afirma ter sido um trabalho valioso e que continha indicações preciosas acerca das causas da revolta que se
alastrou na Madeira e das providencias que conviria adoptar para debelar a crise de que enfermava o
distrito. O governo central foi instado para que esse relatório se publicasse, mas não o permitiu nunca,
consentindo apenas que os representantes da Madeira no parlamento o examinassem na secretaria do
Ministério do Reino, onde se encontrava. Disse-se então, e disso se fez eco a imprensa, que o relatório
continha referências a cousas e pessoas, que não convinha que fossem divulgadas.
O coronel Valadas e o contingente de 250 praças de infantaria chegaram ao Funchal a 11 de Janeiro de
1888.
Juratzka. (
J
.)
.E.:Muscorum frondosorum species novae (Bot. Zeit ., n.° 3, Janeiro de 1866).
V.
Kny.
Justiça (A)
Começou a sair a 27 de Março de 1858, tendo terminado a sua publicação a 26 de Junho de
1861 com o numero 166. Foi seu redactor Bernardo Francisco Lobato Machado.
Kalley (Dr. Roberto Reid)
Nasceu em Mont Floridan, próximo de Glasgow, na Escócia, a 6 de
Setembro de 1809, sendo filho de Roberto Kalley e de Joana R. Kalley e morreu na cidade de Edimburgo a
17 de Janeiro de 1888. Em 1832, concluiu a sua formatura em medicina por uma das universidades inglesas.
Aproximadamente seis anos depois, a 2 de Outubro de 1838, chegou o Dr. Kalley ao Funchal, onde, à parte
pequenos intervalos, residiu até o dia 9 de Agosto de 1846. Tornou-se célebre pelo proselitismo protestante
que largamente exerceu entre nós e pelas graves perturbações que trouxe ao seio da família madeirense. Era
homem de extraordinário talento e medico notabilíssimo, possuindo o raro predicado de subjugar as
multidões com a sua palavra sugestiva e eloquente, que era nele o principal segredo da eficácia da sua
propaganda. Seria sem dúvida um crente, mas era sobretudo um fanático. Dominava-o um feroz e odiento
sectarismo, e nunca teria arredado um passo na sua audaciosa e incansável propaganda, se o não
houvessem forçado a abandonar precipitadamente esta ilha.
Limitou-se, nos primeiros tempos, ao exercício gratuito da clínica, em que logo se tornou notável, à prática
da caridade para com os pobres e á fundação de escolas, o que, junto ás suas atraentes qualidades pessoais e
ao prestígio da sua palavra, fez criar em torno do seu nome uma auréola de simpatia, consideração e
respeito por parte de todas as classes sociais da nossa terra. A Câmara Municipal do Funchal dirigiu-lhe
publicamente um alevantado elogio pelos serviços prestados á instrução e pelos actos de filantropia
praticados para com os deserdados da fortuna, e o governo da metrópole isentou do pagamento de direitos
na alfândega desta cidade os medicamentos que importasse destinados ao tratamento dos pobres. O
benemérito transformou-se depois num feroz propagandista, reconhecendo-se claramente que nele o
proselitismo sobrelevava em tudo o desinteressado exercício da caridade. Isto mais se acentuou ainda
depois duma viagem que fez á Inglaterra, onde permaneceu de Junho a Setembro de 1845, afirmando-se
que as conferências que ali realizara com os dirigentes das sociedades bíblicas e com importantes
personagens interessadas na propaganda anti-catolica, lhe afervoraram em extremo o natural ardor sectário
e lhe incutiram maior coragem e audácia para a propagação das ideias protestantes.
No seu regresso, encetou o Dr. Kalley uma mais intensa propaganda. Os próprios doentes que ele atendia na
sua casa eram obrigados a escutar as suas praticas religiosas, embora manifestassem repugnância em o
fazer. Eram já então gerais os clamores contra o audaz propagandista, mas nem as advertências e ordens
emanadas das autoridades, nem as ameaças populares, que surdamente rugiam, entibiaram o fervor do
celebre medico escocês, que, com a casa cercada pela policia e ouvindo os insultos que lhe dirigiam,
continuava intemeratamente a propaganda dos seus ideais religiosos.
Os ultrajes dirigidos á religião católica concitaram contra o Dr. Kalley a geral animadversão dos povos da
Madeira. Veio para o meio de nós arrancar ao povo as crenças dos seus maiores e levar ao seio das famílias
as mais funestas dissenções. A reacção que naturalmente se fez a esse audaz proselitismo produziu graves
perturbações, tendo que intervir as autoridades locais para coibirem os desmandos dos propagandistas.
Deram então cenas bem lamentáveis, em que se cometeram excessos por parte de católicos e protestantes,
que inteiramente se teriam evitado, se o Dr. Kalley não houvesse iniciado a sua propaganda ou ao menos
não lhe imprimisse um carácter de tão acentuado fanatismo.
Como se tratava dum súbito britânico, procederam com ele com verdadeira moderação e prudência, e mais
de uma vez o medico protestante, perante as autoridades locais e outras entidades de alta categoria social,
fez a declaração formal de que ia pôr termo á evangelização do seu credo entre os madeirenses, limitando a
sua propaganda aos estrangeiros residentes na Madeira ou que aqui porventura aportassem. Faltou
inteiramente ás promessas feitas e os ânimos se foram exacerbando cada vez mais, tendo seu lamentável
epilogo nos tristes acontecimentos do dia 9 de Agosto de 1846.
O Dr. Roberto Kalley morava numa quinta, ao Vale Formoso, e ali se realizavam as reuniões dos seus
prosélitos. Há muito que a casa estava guardada pela policia, receando-se que as iras populares se
manifestassem em excessos condenáveis. No entretanto, o ardor apostólico do fanático propagandista não
tinha lazer. Também trabalhava com uma notável actividade como medico, atendendo gratuitamente os
doentes e distribuindo medicamentos e esmolas pelos pobres ao mesmo tempo que se afirmava qne operava
maravilhas na arte de curar.
A 9 de Agosto de 1846, em pleno dia, a casa do Dr. Kalley foi cercada por uma enorme multidão de
populares, sendo a policia impotente para a conter. Praticaram-se então excessos de toda a ordem.
Arrombaram as portas da residência e, invadindo-a de tropel, processaram todos os recantos em busca do
Dr. Kalley, que encontrou felizmente na fuga um abrigo seguro contra a fúria dos assaltantes. Refugiu-se em
casa dum seu compatriota e ali o cônsul inglês o aconselhou a que sem demora saísse da Madeira. Vestido
em trajos de mulher e conduzido numa rede á praia desta cidade, pôde embarcar para bordo dum navio
inglês e ausentar-se desta ilha, onde não tornou a voltar.
O Dr. Roberto Kalley dirigiu-se para o Illinois, nos Estados Unidos da América e chamou para junto de si
muitos dos madeirenses que tinham seguido as suas doutrinas. Outros, receosos de serem perseguidos, e
um numero ainda mais considerável levado apenas pelo espírito de aventura, emigraram e foram engrossar
as colónias portuguesas de Demerara, Trindade e dos Estados Unidos da América.
O governo português enviou à Madeira Antonio José de Avila, mais tarde duque de Avila e Bolama, a
sindicar daqueles acontecimentos, vindo acompanhado do novo governador civil, o conselheiro José
Silvestre Ribeiro.
O Dr. Kalley, por intermédio do seu governo, reclamou uma indemnização pelos prejuízos causados na
livraria e mobillario da sua casa, tendo o governo português satisfeito a importância de 1574 libras
esterlinas ou sejam cerca de sete contos de réis, em que foram computados esses prejuízos. Ignoramos
quando foi apresentada a reclamação, mas sabemos que só passados alguns anos depois dos acontecimentos
que a motivaram, é que o conselheiro José Silvestre Ribeiro, governador Civil deste distrito, informou
confidencialmente o governo da metrópole, a 25 de Julho de 1851 e em virtude de ordens superiores, acerca
do pedido de indemnização, opinando que ele devia ser atendido nos termos em que fora formulado (V.
Proselitismo Protestante).
Além dos inúmeros artigos que sôbre a Questão Kalley inseriram os jornais do tempo, publicaram-se
também os folhetos
Exposição de Factos
, por R. R. Kalley, Funchal, 1843, de que se fez 2ª. edição, em
Lisboa, em 1875,
An Account of the recent persecutions in Madeira, pelo Dr. Kalley
, Londres, 1844, e
Revista Histórica do proselitismo protestante exercido na ilha da Madeira pelo Dr. Roberto Reid Kalley,
medico escossez
, por Manuel de Sant'Ana e Vasconcelos, Funchal 1845 e
Perseguições dos Calvinistas da
Madeira
, por João Fernandes da Gama, S. Paulo (Brasil), 1896, de 218 pags..
A reclamação feita pelo Dr. Kalley por intermédio do seu governo, com o pedido de uma importante
indemnização, em virtude dos prejuízos causados na sua residência pelo povo amotinado, foi objecto de
varias discussões na imprensa local e do continente e excitou o maior interesse em todo o nosso país e ainda
no estrangeiro. 0 caso diplomático levou longo tempo a solucionar-se, pois que somente decorridos sete
anos após a lamentável ocorrência é que o governo português satisfez o pagamento da indemnização exigida
pelo dr. Roberto Kalley. Vários incidentes se deram e algumas notas diplomáticas se trocaram entre os
governos de Portugal e da Inglaterra, chegando-se finalmente a uma solução amigável. Era então ministro
dos Negócios Estrangeiros o ilustre madeirense Visconde de Atouguia, que expôs em um desenvolvido
relatório as causas da reclamação e desse importante documento são extraidas as interessantes informações
que se seguem:
«Havendo a Administração de 18 de Junho de 1849 expedido uma Portaria em 7 de Fevereiro de 1851 ao
Governador Civil do Funchal, para que procedesse a todas as averiguações sobre os prejuízos que o Dr.
Kalley representara haver-lhe causado um tumulto popular que houve na mesma cidade do Funchal,
satisfez aquelle Magistrado em 25 de Julho de 1851 com a sua informação.
A actual Administração, depois de um escrupuloso exame de todos os papeis relativos a esta reclamação do
Governo Britânico, e muito principalmente em presença da informação dada pelo supracitado Governador
Civil, (o conselheiro José Silvestre Ribeiro) não podia deixar de reconhecer o direito que o Dr. Kalley tinha a
uma indemnização pelos prejuízos que sofreu na ilha da Madeira, em consequência do mencionado tumulto
que tivera lugar em 9 de Agosto de 1846.
Não querendo, porém, a mesma Administração tomar sobre si a responsabilidade de arbitrar quantia
alguma por tal título, sem mandar proceder a novas indagações, ordenou confidencialmente, ao Governador
Civil que, respondendo a três quisitos que lhe enviara, desse ao mesmo tempo a sua opinião sobre a
reclamação de que se trata. Remettendo, pois aquelle Magistrado em 3 de Novembro de 1851, a resposta que
lhe fora exigida, acrescentou que, pelo que dizia respeito a sua opinião, se referia à ultima parte da sua
informação de 25 de Julho de 1851.
Nessa informação, observava o dito Governador Civil, depois de assegurar ao Governo, que tinha dado a
este objecto a mais séria attenção e empregado todos os meios possíveis para indagar a verdade com o
maior escrúpulo, individuação e imparcialidade, que na tumultuosa e desordenada scena do dia 9 de Agosto
de 1846, em que tinha vivido uma verdadeira pilagem na casa do Dr. Kalley, necessariamente se haviam de
estragar, quebrar, inutilisar e extraviar muitas cousas, além das que foram presa das chamas.
Nestas circunstancias, instado o Governo de Sua Magestade pelo de Sua Magestade Britanica para satisfazer
aquella indemnisação, e não querendo ser taxado de má fé, annuio a pagar a quantia reclamada de reis sete
contos oitenta quatro mil seiscentos trinta e um reis, equivalente a libras 1574,7 schillings e 3 pencis ao
cambio de reis de 4500 cada uma, em que se demonstrou haverem sido calculados os prejuízos aludidos, em
três prestações, que foram satisfeitas nas epochas convencionadas.
Secretaria d'Estado dos Negócios Estrangeiros em 20 de Junho de 1853.–Visconde de Athouguia.
Kampfer (Dr.)
(Dr.)Esteve na Madeira em 1841 e 1842. E.:Notizen über die Insel Madeira (Zeitschrift f.
die gesammte medizin , 1847).
Kerhallet (C. Ph. J.)
(C. Ph. J.) E.:Madère, les Iles Selvages et les Iles Canaries , Paris,1868 (Cartes et plans
de la marine , n.° 267). Colaborou neste trabalho A. le Gras.
Kirkpatrick (R.)
Naturalista do Museu Britanico que visitou a Madeira e Porto Santo, tendo feito na
última destas ilhas diferentes estudos zoológicos. Escreveu um pequeno trabalho intitulado
On Melia
Normani, a sponge with a siliseous and calcareous skeleton
(Londres, 1911). A curiosa esponja de que se
faz menção neste trabalho, foi encontrada pelo naturalista madeirense Adolfo C. de Noronha nos mares do
Porto Santo.
Kirkpatrick diz num dos seus trabalhos ter achado no Porto Santo o
Eozoon canadense
, o mais antigo fóssil
conhecido, mas tal descoberta carece de confirmação.
Kirwan
Publicou uns dados meteorológicos referentes ao Funchal, de que fez menção Bowdich nas
Excursions in Madeira (Londres 1825).
Knowler (
M
)
.
Distinto súbdito britânico, que visitou esta ilha no ano de 1845. Proferiu no Funchal, na
língua inglesa, uma série de seis conferências sôbre a poesia dramática, que causaram verdadeira sensação
pela eloquência, brilho da forma e aprofundado conhecimento do assunto. Afirma-se que foram publicadas
na Inglaterra, contendo várias referências à estada do autor na Madeira.
Kny (
Dr. Leopoldo
)
.Botânico alemão que herborizou na Madeira durante o ano de 1860. As
muscineas colhidas por ele e consideradas novas para a ciência, foram descritas pelo briologista A. Juratzka
(V. este nome). E.:Ueber die Flora Oceanischer Inseln (Zeitschr der Gesellsch. fur Erdkunde , 1867).
Koebel (W. H.)
(W. H.)
E.
Madeira old and new
; Londres, 1909.
A pág. 5 desta obra se lê o seguinte: convém advertir que as notas à obra de Frutuoso publicadas em 1873
por Álvaro Rodrigues de Azevedo, são imensamente úteis a todos quantos desejem estudar aquele velho
manuscrito. O Dr. Azevedo foi advogado na Madeira, um estudioso e um livre pensador, tendo esta ultima
circunstancia dado motivo a que caísse no desagrado do clero local. Os membros mais intransigentes desta
classe iniciaram uma campanha contra o seu modo de vida, prometendo-lhe depois da morte um funeral de
cão (a dog's funeral). Morto ele, porém, teve o clero a mais amarga das desilusões. Por documentos deixados
pelo Dr. Azevedo, viu-se que este obtivera uma bula papal que lhe garantia o maior número de cerimónias
fúnebres que estava no poder da Igreja conceder. Teve, portanto, todas essas cerimónias, mas o clero que
nelas tomou parte nada ganhou pelos seus serviços, visto tudo haver sido pago antecipadamente em Roma.
Será possível conceber-se uma mais viva manifestação de ironia póstuma?»
Não passa de uma simples patranha o que refere o Sr. Koebel com respeito à bula papal obtida pelo Dr.
Azevedo. Este distinto professor teve por sua morte as cerimónias fúnebres que costumam ser concedidas a
todos os católicos, e nada há que estranhar nisso, visto ele se haver reconciliado com a igreja nos últimos 10
ou 15 anos que teve de vida. O Dr. Azevedo foi sempre um homem grave e sério, e incapaz, portanto, de
preparar a tal "manifestação de ironia póstuma», que o Sr. Koebel lhe quis atribuir. Não gozaram do menor
crédito as afirmações deste súbdito britanico.
Krempelhuber
E.:Prodromus Lichenographiae insulae Maderae (Flora Ratisbonensi , pag 221-
224 e 230-235).
Krohn (Dr. Roland E.S.)
(Dr. Roland E.S.)
Médico inglês, mas pertencente a uma familia de origem russa, que
exerceu clínica na Madeira durante alguns anos. E
.: Die Hygiene auf Funchal in Madeira (Archiv für
Schiffs und Tropen-Hygiene
, vol. III, 1899) e
Führer durch Madeira
, Berlim, 1906, I vol.
Faleceu num sanatório da Suiça, vitimado pela tuberculose pulmonar, pelos anos de 1908.
Kulczynski (V.)
(V.)E:Arachnoidea opera R. E. Schmitz collecta in insulis Maderianis et in insulis
Selvages dictis (Cracovia, 1899).
Labaça
É o nome vulgar de várias Poligonaceas do género Rumex. Na Madeira, estas plantas
encontram-se nas ribeiras, nas margens dos caminhos etc..
Laboratório de Bacteriologia e Higiene
Foi criado pelo decreto de 17 de Maio de 1904, a
pedido da Junta Geral deste distrito, a cujo cargo ficaram a sua instalação e as despesas do seu
funcionamento. O seu pessoal compunha-se então de um médico-chefe, um preparador e um servente,
tendo as exigências do serviço obrigado a aumentar posteriormente o quadro desse pessoal.
O seu primeiro director foi o Dr. António Balbino do Rego, que os lamentáveis acontecimentos ocorridos no
Funchal em Janeiro de 1906 obrigaram a abandonar o exercício desse cargo, que desempenhara com muito
zelo e reconhecida competência. Passou a exercer, interinamente, o lugar de director o preparador Dr.
António Capelo.
Pelo decreto de 22 de Dezembro de 1939, foi remodelado o serviço deste Laboratório, que ficou com uma
secção de análises bacteriológicas e clínicas e outra de análises químicas e tecnológicas, sendo o seu pessoal
constituído por um director-médico bacteriologista, um químico analista, um preparador, um ajudante de
preparador e dois auxiliares de laboratório.
O distinto bacteriologista Dr. Vicente Henriques de Gouveia, já muito conhecido pelos seus notáveis
trabalhos de laboratório, foi contratado para director-médico no ano de 1931 e nomeado definitivamente
para este lugar a 5 de Novembro de 1940.
Lacticínios
No artigo «Indústria dos Lacticínios» (pag. 149), fizemos rápida referência aos decretos
que criaram a Junta Nacional dos Lacticínios da Madeira e estabeleceram as normas que deviam regular o
seu funcionamento. Era ocasião azada de dar uma notícia desenvolvida acerca da maneira como esse
organismo tem desempenhado as atribuições que aqueles decretos lhe impuseram, se o espaço e os
elementos de que agora podemos dispor nos permitissem fazê-lo. No entanto, seria cometer uma flagrante
injustiça se, ao menos, não deixássemos aqui consignados, embora passageiramente, os incontestáveis
benefícios que os citados créditos, por intermédio da mesma Junta, têm dispensado à economia de todo o
distrito. 0 assunto foi tratado com o mais ponderado critério, com profundo conhecimento de causa e com
grande amor à verdade nos valiosos e por muitos títulos interessantes «Boletins de Informação e
Publicidade» publicados pela Junta de Lacticínios da Madeira, que podem ser proveitosamente consultados
e para os quais chamamos a atenção dos nossos agricultores. (Vid. Gado e Manteiga).
Lafões (Duque de)
A rainha D. Maria I intitulando-se «governadora e perpetua administradora
do mestrado de cavalaria da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo» fez mercê em 1778 a seu tio D. João de
Bragança, duque de Lafões, da comenda das ilhas Terceira, Madeira e S. Miguel, da dita ordem, tendo a
Câmara Municipal do Funchal tomado conhecimento, dessa mercê, que foi mandada registar no livro
competente, em 15 de Maio de 1784.
Lagartixa (Lacerta Dugesii)
Pequeno réptil muito frequente na Madeira e que causa grandes
estragos nas uvas, tomates, etc.. Já existia na ilha antes do descobrimento, pois que a ele se refere Gaspar
Frutuoso nos seguintes termos: «nesta fresca ilha se não achou outro género de bichos senão humas
lagartixas pequenas tamanhas de hum dedo, que não fazem damno notável, nem são peçonhentas».
Frutuoso também assinalou as lagartixas na ilha do Porto Santo (V. Saudades, pag. 50) e o naturalista R. T.
Lowe encontrou entre os corpos calcarios da Piedade as maxilas dum pequeno vertebrado que o professor
Owen viu ser um réptil, não podendo porém declarar, por falta de materiais para comparação, se era
idêntico à lagartixa madeirense.
Lagoa
Constituindo a obstruída cratera dum vulcão, encontra-se na freguesia do Santo da Serra um
pequeno lugar, a que chamam a Lagoa, e que nos invernos mais prolongados se enche de água, formando
um pequeno lago, que mede uma superfície aproximada de seis mil metros quadrados. É um lugar pitoresco
e muito visitado em outros tempos.
Lagoa (Pico da)
Na serra do sítio do Poiso, fica o Pico da Lagoa, que atinge uma altitude de 1450
metros.
Lagostas
Designação dada ao Scyllarus latus e ao Palinurus vulgaris, crustáceos macruros que se
apanham nos baixos fundos, sendo este caracterizado pelas antenas longas e grossas, e aquele pelas antenas
foliáceas e curtas. A segunda espécie, chamada também lagostim ou lagostão, é menos comum que a
primeira, e apanhada como ela, ou de mergulho, ou acidentalmente, nas redes e outros aparelhos.
O Arctus ursus, rocegado por vezes nos mares do Funchal e Porto Santo, não é considerado comestível.
No «Diário de Notícias» do Funchal de 26 de Outubro de 1927, publicou Adolfo César de Noronha, um
desenvolvido e interessante artigo acerca destes crustáceos sob o título de «A Lagosta da Madeira».
Laje (Pico da)
Na serra do sítio do Poiso, fica o Pico da Laje, que atinge uma altitude de 1450 metros.
Laje (Porto de)
Fica este porto na costa da freguesia do Seixal, encontrando-se ali um pequeno
desembarcadouro.
Laje (Ribeira da)
Acha-se esta linha de água na freguesia do Faial e nela encabeça uma levada, que
rega alguns terrenos no concelho de Santa Cruz.
Lajedo (Pico do)
É uma elevação montanhosa situada na costa setentrional da freguesia do Caniçal.
Lamaceiros
São conhecidos por este nome vários sítios da Madeira, mas o mais digno de ser visitado
é o que fica na freguesia do Santo da Serra.
O sítio dos Lamaceiros, no Porto do Moniz, merece também ser visitado. Duns picos que lhe ficam
próximos, avista-se uma parte da Ribeira da Janela. Encontra-se ali uma capela da invocação de São Pedro,
muito danificada pelo terramoto de 1748 e pouco depois reconstruída, tendo sido há poucos anos
novamente restaurada.
Lamaceiros
Sítio muito pitoresco da freguesia do Santo da Serra, donde se disfrutam lindas vistas
sobre as paróquias do Porto da Cruz, Faial e Santana. Fica a três quilómetros de distancia da Igreja
Paroquial do Santo da Serra. Até este sítio correm, num aqueduto comum, as águas das levadas do Furado,
Juncal, Nova do Furado ou dos Accionistas e a da Serra do Faial, passando, ali, a primeira para conduto
próprio e a segunda para a freguesia do Porto da Cruz. As águas das outras duas levadas vão em conjunto
até o sítio do Lombo da Raiz (V. este nome).
Lambert (Conde de)
O general conde Alexandre Carlos de Lambert, ajudante de campo da
imperatriz da Rússia, passou alguns tempos na Madeira, tendo adquirido para sua residência a quinta das
Angústias, à Rua da Imperatriz D. Amélia.
Segundo se afirma, o conde de Lambert teve um grave conflito na Polónia com um general russo, cujo nome
ignoramos, acabando os dois por convencionar que aquele a quem coubesse em sorte deveria suicidar-se,
tomando uma poção venenosa. Tendo a sorte sido adversa ao general, imediatamente cumpriu aquilo a que
insensatamente se obrigara, retirando o conde pouco tempo depois para a Madeira imensamente
desgostoso com o desfecho do conflito em que se vira envolvido.
O conde de Lambert, que nasceu por 1816, estava na Madeira em 1863, tendo visitado Lisboa e Londres
neste ano, mas voltando à Madeira no mês de Setembro. Faleceu pelos anos de 1866.
Lambert (Quinta)
No artigo consagrado ao cemitério das Angústias, dissemos que Daniel da Costa
Quintal fundara em 1662, em terras do seu morgadio, a capela de Nossa Senhora das Angústias, que deu o
nome à rua que lhe passa próxima e ainda aos sítios das suas imediações. Não podemos agora precisar,
como também já notámos, se a capela de Nossa Senhora das Angústias, existente na quinta do mesmo nome
(Lambert), é a reconstrução da antiga ermida de igual invocação e se porventura era ali que ficaria situada a
propriedade de Daniel da Costa Quintal. Quer-nos parecer que sim. A quinta das Angústias quando passou
à posse de Nicolau Hemiterio de la Tuelière e depois a do conde de Lambert, sofreu grandes melhoramentos
na casa, na capela e terrenos adjacentes, tornando-se uma das mais aprazíveis e confortáveis vivendas do
Funchal, A rainha Adelaide de Inglaterra (V. este nome) residiu nesta quinta de 3 de Novembro de 1847 a 11
de Abril de 1848 e o duque de Leuchtenberg (V. este nome) também ali residiu de 27 de Agosto de 1849 a 23
de Abril de 1850. A imperatriz viúva do Brasil, D. Amélia (V. este nome), acompanhada de sua filha a
princesa D. Maria Amélia (V. este nome), estabeleceu ali residência a 28 de Agosto de 1852. A malograda
princesa faleceu nesta casa a 4 de Fevereiro de 1853. Três meses depois, a 6 de Maio, saiu da capela da
quinta o féretro que continha os despojos mortais da princesa e que era seguido pela imperatriz, realizando-
se o embarque no cais da Pontinha.
A quinta das Angústias foi comprada pelo Dr. Júlio Paulo de Freitas à condessa de Lambert, Luísa
Margarida de Loucosme Bredes, e seus filhos, pela quantia de 4:000 libras, em 19 de Agosto de 1903. Era
nesta quinta que ficava o conhecido mirante de D. Guiomar (V. este nome).
Lamedo (António José de Jesus)
Foi talvez o mais distinto funcionário que teve em tempos
antigos a Câmara Municipal do Funchal, apesar de haver desempenhado apenas o modesto cargo, agora
extinto, de porteiro e guarda-livros da mesma Câmara.
Ignoramos quando nasceu Lamedo e se era ou não natural desta ilha; o que sabemos é que «não só pelo seu
procedimento, verdade, inteligência e boa letra, mas pela experiência que tinha das letras antigas, que
poucas pessoas sabem ler», foi nomeado pela Câmara em 3 de Junho de 1765 para exercer o referido cargo
sendo essa nomeação confirmada por provisão regia de 17 de Agosto de 1766.
Lamedo nunca chegou a ter a propriedade do lugar de porteiro da Câmara Municipal do Funchal, a
princípio por ser vivo o antigo serventuario Pedro Luís Correia, e depois por outros motivos que nos são
desconhecidos, sendo essa a razão porque se encontram nos registos municipais diversas deliberações ou
diplomas reconduzindo-o no referido cargo, o qual desempenhou até Maio de 1797.
Em 1781, foi Lamedo nomeado repesador de trigo e farinha, cargo este que acumulou daí em diante com o
de porteiro da Câmara, sempre a contento das diferentes vereações com quem serviu. Serviu também
durante algum tempo de procurador do Senado no tribunal da Comarca.
O mais importante serviço prestado por António José de Jesus Lamedo ao Município, foi a organização do
índice, em dois tomos, dos diplomas que se encontram no Registo Geral da Câmara, tendo o primeiro tomo
284 e o segundo 81 folhas. Este valiosissimo trabalho que levou «três anos, dias úteis» a fazer, segundo
declara o seu autor, está no arquivo da Câmara e tem o seguinte título: Índese & dos Tombos da Camara
desta Cidade mandado copiar neste livro 1.°, e no 2.° pelos Senhores D.
or
Juis de Fora Bernardo José de
Oliveira Perdigão, e Vereadores Francisco de Ornelas de Brito Tristão Joaquim Neto, e o Procurador do
Conselho Manoel Jozé de Brito, e Misteres.
O Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo referindo-se ao trabalho de Lamedo, nas notas às Saudades, diz que
«ele é fundamental para o estudo da historia do archipelago da Madeira», sendo de facto o mesmo trabalho,
onde se encontram resumidos com clareza todos os documentos disseminados pelos livros de registo da
Câmara até o ano de 1794, um interessante e valiosissimo repositorio de informações imensamente úteis
sôbre a nossa história, administração e costumes. A maneira como foram coordenadas as matérias nada
deixa a desejar, revelando todo o trabalho um método, paciência e dedicação pouco vulgares.
António José de Jesus Lamedo faleceu repentinamente na freguesia da Sé, desta cidade, a 24 de Maio de
1797, tendo sido sepultado no extinto convento de S. Francisco. Foi casado com Antónia Rosa, que lhe
sobreviveu, e calculamos que teria cerca de 70 anos, na época do seu falecimento.
Lâmpada (A)
Saiu o 1.° numero a 21 de Novembro de 1872 e o 51.° a 3 de Janeiro de 1874.
Lampreia (Petromyson marinus)
Peixe ciclóstomo que aparece algumas vezes nos mares da
Madeira, mas ao qual os pescadores da ilha não dão denominação alguma. Além da forma vermiforme, não
tem barbatanas peitorais, nem ventrais, e é provido duma boca redonda e sem maxilas, com a qual forma
uma espécie de ventosa com que se prende a outras espécies.
A lampreia do mar costuma aparecer nos rios da Europa, durante a primavera.
Lampreia (Francisco Joaquim de Sá Camelo)
Nasceu no Funchal a 27 de Junho de 1829, era
filho do marechal João Lampreia e morreu em Lisboa a 17 de Dezembro de 1876, sendo deputado por
Moura e contando apenas 47 anos de idade. Era formado em medicina pela Universidade de Coimbra,
revelando-se sempre um estudante de excepcional e brilhante talento e manifestando, bem novo ainda, os
seus raros dotes oratórios, que mais tarde, no seio do Parlamento o tornaram um dos mais notáveis
oradores do seu tempo. Militou no partido progressista histórico e foi amigo íntimo do duque de Loulé,
chefe desse partido. Representou em cortes vários círculos do continente e foi também deputado pela
Madeira na sessão legislativa de 1865. Foi professor efectivo do liceu do Funchal e exerceu em Lisboa
diversas comissões de serviço público, em que sempre revelou as altas faculdades de seu espírito.
Completaremos este ligeiro artigo com as palavras cheias de verdade que a este madeirense consagra o
Diccionario Popular: Era formado em medicina pela Universidade de Coimbra, onde adquiriu a reputação
de orador brilhante e de talento excepcional. Era-o effectivamente, e se não pôde ostentar toda a grandeza
dos seus dotes intelectuais na scena política, se não mostrou tudo o que valia, foi porque a doença o veio
impossibilitar de desempenhar o papel para que fora talhado o seu grande espírito.
«Citam-se factos em que se manifestava a alteza do seu engenho e sobretudo a sua natural disposição
oratória. Quando fazia acto do 4.° ano médico, figurava entre os seus examinadores um lente distintissimo,
mas que já tomara o costume de não estudar as theses dos discípulos, de forma que, principiando a
argumentar, declarava sempre que a questão sustentada na these era evidentissima e que elle ia combatel-a
apenas por dever de examinador. Este sistema dava o seguinte resultado. Se o estudante sustentava bem a
these, o publico entendia que nada era mais fácil, se era batido, a glória do lente brilhava com todo o
esplendor da dificuldade vencida. Lampreia foi ao acto, e, ouvindo a observação do lente de que a these
sustentava uma doutrina evidente, irritou-se e respondeu logo:–Se ella é tão evidente como v. exa. suppõe,
defende-a v. exa. que eu passo a atacal-a.
«Desafiado por essa forma, o lente não pode recuar, e, na posição singular de adversário das suas próprias
theorias, Lampreia desenvolveu uma tal finura dialéctica, uma tal habilidade de argumentador e tanta
eloquência natural que a victoria pode dizer-se que lhe pertenceu.
«Tão brilhante talento, tão raras faculdades, mal poderam manifestar-se, porque a enfermidade os veio
paralysar. Uma doença de larynge inutilisou-lhe a eloquência; a sua voz enrouquecida e áspera mal se podia
ouvir e malograva-lhe todos os effeitos oratórios, mas o seu talento ainda assim podia tanto que muitas
vezes exercia prestigio na Câmara».
O conselheiro Lampreia foi incontestavelmente um dos mais distintos madeirenses do seculo passado.
Lampreia (João de Oliveira Sá Camelo)
Nasceu no Funchal por 1864 e é filho do distinto
madeirense Francisco Joaquim de Sá Camelo Lampreia (V. este nome). Frequentou o antigo Instituto
Comercial de Lisboa seguiu a carreira diplomática, sendo em 1883 nomeado adido às legações de Estocolmo
e Copenhague. Em 1890, partiu para Roma como secretário de embaixada e ali permaneceu alguns anos,
servindo várias vezes de encarregado de negócios. Depois de ter prestado serviço na legação de Madrid,
passou para o Rio de Janeiro em 1896, como primeiro secretário. Por decreto de 8 de Setembro de 1900, foi
nomeado enviado extraordinário e ministro plenipotenciário no Brasil, lugar que exerceu durante alguns
anos. Prestou ali relevantes serviços ao seu país, ao mesmo tempo que congregou em torno do seu nome as
mais acendradas simpatias não só da importante colónia portuguesa, mas ainda das mais altas
individualidades da Republica Brasileira. Com a implantação do novo regimen político, abandonou a
carreira diplomática, residindo na cidade do Rio de Janeiro entregue às labutas duma activa vida comercial.
Faleceu na cidade do Rio de Janeiro a 11 de Julho de 1943.
Landi (Conde Giulio de)
Quando a páginas 300 do 1.° vol. (2.a ed.) deste «Elucidário» nos
ocupámos do padre Manuel Constantino, era nosso intuito transcrever alguns trechos do artigo que
havíamos publicado em «0 Jornal», de 29 de Julho de 1934, subordinado ao título «Pela História da
Madeira–Notas Bibliográficas», e em que tínhamos dado a conhecer o plagiato que o referido Manuel
Constantino fizera do livro do conde Giulio de Landi, que, em tradução italiana, fora publicado por
Alemanio Fini no ano de 1574. Não foi transcrito, por mero lapso, o que se faz neste lugar, como
complemento do artigo respeitante ao padre Manuel Constantino:
«Certamente que, desde Barbosa Machado até a idade contemporânea, muitas vezes nasceria o desejo de
haver-se um conhecimento mais completo da Insulae Materiae historia. . . Era a única obra impressa que
exclusivamente se ocupava deste arquipélago, não existindo outros trabalhos publicados, além das poucas
páginas que se encontravam em alguns cronistas, como Zurara, Barros, Galvão e Damião de Góis. Parece
que o escrito de Constantino se tornara desde logo muito raro, devido talvez ao facto de ter sido dado à
estampa em Roma e ainda porventura a outras ignoradas circunstancias. Apenas sabemos de duas
referências, que mostram um conhecimento exacto do livro: a do anotador da Historia Insulana em 1866, e
a do Dr. Jordão de Freitas, em 1911.
Não deve, por isso, causar estranheza que o autor deste ligeiro artigo aconselhasse a compra, embora por
elevado preço, dum raríssimo exemplar aparecido em Viena de Austria, e houvesse sem demora promovido
a sua tradução em vernáculo, tendo também escrito a Advertência Preliminar e as copiosas notas que
acompanharam a publicação dessa tradução, feita nesta cidade no ano de 1930.
Qual não foi, porém, a nossa surpresa e a nossa decepção, quando há dois anos chegou ao nosso
conhecimento que existia uma obra impressa acerca da Madeira anterior à de Constantino, publicada na
cidade de Placência no ano de 1574, de que fora autor o conde Giulio Landi, subindo de ponto a nossa
surpresa até a indignação, ao sabermos que o escrito do doutor Manuel Constantino era uma copia servil,
um descarado plagiato, do trabalho de Landi, à parte umas ligeiras alterações!
Foi o nosso prezado amigo Dr. Jordão de Freitas, distinto cultor das ciências históricas, que nos fez essa
comunicação numa interessantissima carta então recebida e de que não fizemos a publicação integral, como
tencionávamos, por se haver lamentavelmente extraviado. Fora o caso de que o erudito director da
Biblioteca da Ajuda, a propósito da impressão da Insulae Materiae Historia, dera ao nosso ilustre amigo Sr.
Henrique Hinton noticia da existência desse escrito anterior ao de Constantino e de que apenas sabia o
título, o nome do autor e ano da publicação. Procedendo o Sr. Hinton em Londres, por interposta e
autorizada pessoa, a uma pesquisa na célebre biblioteca do British Museum, descobriu ali o rarissimo livro,
talvez exemplar único, de que logo fez extrair uma cópia fotográfica completa, que ofereceu à Biblioteca
Municipal do Funchal.
O Dr. Jordão de Freitas, ao publicar em 1911 um interessante opúsculo intitulado Quando foi descoberta a
Madegra?, examinara detidamente o exemplar da Insulae Materiae Historia, existente na Biblioteca
Nacional de Lisboa, e, ao ser-lhe facultada, há cerca de dois anos, a cópia fotográfica do trabalho do conde
Giulio Landi, reconheceu sem esforço que aquele escrito era um perfeito plagiato deste, fazendo até notar,
pelo cotejo a que então procedera, as pequenas diferenças que se encontram entre as duas obras, como logo
nos foi comunicado na carta a que acima fazemos referência.
O título da obra em questão e que serviu de texto para a cópia literal da Insulae Materiae Historia é, ipsis
verbis, o seguinte: «La descrittione de l'Isola de la Madera, gia scritta ne la lingua latina, dal molto Ill.
Signor conte Giulio Sandi, et hora tradotta dal latino ne la nostra materna lingua, dal reverendo A.
Alemanio Fini, ne la quale i contengono molto belle, e deletteuoli narrationi; e massimamente l'agricoltura
del Zucchero, e li costumi degli huomini di quel paese, e li nobili esercitii Cavalereschi; e particolarmente il
giuoco di Canne, & il tnodo di lottare, e la Caccia de li Tori à piedi, & à Cavallo, V'é posta anco la
Descrittione latina del primo autore di tutte le souradette cose, acciò possa il lettore leggere in quella lingua
che sia piu di gusto suo. In Placenza, appresso Francesco Conti. 1574»
Como se vê pelo contexto do título que fica transcrito, a obra foi originariamente redigida em latim pelo
conde Giulio Landi e traduzida para italiano pelo padre Almenio Fini, tendo sido publicada na cidade de
Placência em 1574, compreendendo a primitiva redacção na língua latina e a sua tradução na língua italiana.
O livro tem 95 páginas numeradas, além da da portada, sendo as primeiras doze preenchidas com uma
dedicatória de Almenio Fini e outra de Giulio Landi, escritas em língua italiana, dirigidas à princesa de
Placência e Parma. Segue-se o texto italiano, que se estende da pág. 13 a 54, continuando o latino até a pag.
95, que é a última do livro.
Como acima dizemos, causou-nos uma grande estranheza e também um grande desprazer, que um homem
da categoria moral, social e mental do doutor Manuel Constantino cometesse o plagiato, que temos de
atribuir-lhe à vista do confronto das obras que ficam apontadas. Chegámos até a supor que estávamos,
porventura, em frente dum intrincado problema bibliográfico, que talvez viesse a ser suficientemente
esclarecido com o aparecimento de novos elementos de investigação e de critica, até agora desconhecidos.
Langerhans (Dr. Paul)
Ocupou-se dos vermes da Madeira no Zeitschrift für wissenschaftliche
Zoologie (1879-84) e escreveu um pequeno livro intitulado Handbuch fur Madeira, (Berlin, 1884).
Lapa da Cadela (Furna da)
É uma furna que fica perto do pico Ruivo e onde as pessoas que
visitam este monte costumam passar a noite. É larga, mas pouco funda, de sorte que protege pouco aqueles
que a ela se recolhem, dos ventos e chuvas que vêm dos lados do Curral das Freiras. Da furna ao alto do
pico, gastam-se cerca de 20 minutos.
Nas suas imediações, mandou a Delegação de Turismo construir no ano de 1940 uma «pousada» para
abrigo e descanso dos que fazem a ascensão daquela eminência. Vid. Ruivo (Pico).
Lapa do Sol
Lugar pitoresco e de onde se descortinam vastos horizontes, situados nas proximidades
do monte Mendonho das serras de São Vicente.
Lapas
A Patella áspera, a P. caerulea a P. lusitanica e a P. vulgata são conhecidas pela designação geral
de lapas, sendo a primeira a lapa branca dos pescadores, a mais comum das quatro espécies, a segunda a
lapa preta, a terceira a lapa pé de burro e a quarta o concharéu
(V. este nome).
A lapa branca é a que
vive em maiores fundos; a lapa pé de barro encontra-se muitas vezes acima da linha da preia-mar e a lapa
preta, também chamada das mulheres, fica a descoberto logo que baixa a maré. Estas três espécies são
comuns à Madeira, Porto Santo e Desertas.
A Patella vulgata, que existiu outrora em todas as ilhas do arquipélago, somente se encontra hoje nas
Selvagens. Destas ilhas, vem todos os anos grande numero de lapas salgadas e em vinagre, pertencentes
àquela espécie e à Patella áspera.
Também são conhecidos pelo nome de lapas, diferentes insectos homópteros, da família dos coccídeos,
entre os quais mencionaremos os seguintes: o Diaspis Rosae, das roseiras; o Aspidiotus Lataniae, das
nespereiras, goiabeiras, pereiras, vinha, funcho e robinias; o Aspidiotus Hederae, das giestas, arruda, vinha
e taxónia; o Lecanium haemisphericum, das laranjeiras e anoneiras; o Lecanium nigrum, das anoneiras e
bananeiras; o Lecanium Oleae, das oliveiras e esparto; o Ceroplastis tenuitectus, das figueiras e anoneiras; o
Ceroplastis floridensis, das mangueiras e do buxo; o Asteroclanium variolosum, dos carvalhos; e o
Chrysomphalus dictyospermi, das palmeiras, laranjeiras, limoeiros, árvores do incenso, relva (Fluggea
japonica), etc..
O professor Cockerell que percorreu o arquipélago em 1920 e 1921, achou aqui trinta e tantas espécies de
coccídeos.
V.
Paoli (Guido).
La Pèrouse (João Franscisco Galaup de).
Navegador francês do século XVIII. Chegou à Madeira,
a bordo da Bússola, a 13 de Agosto de 1785, saindo para Canárias, a 16 do mesmo mês. Na companhia da
Bussola, vinha o Astrolabio, comandado pelo capitão de Langle, no qual havia embarcado também o ilustre
Monge, que não passou além de Tenerife. La Pérouse foi muito obsequiado no Funchal pelo negociante
inglês Johnston, de quem recebeu na ocasião da partida 100 garrafas de vinho malvasia, meio barril de
vinho seco e frutas em doce e aguardente, e jantou no dia 14 de Agosto em casa do português Monteiro,
encarregado dos negócios do consulado de França, tendo almoçado nesse mesmo dia na residência do
cônsul inglês Murray.
Lápides
Para o estudo que um dia venha porventura a fazer-se acerca da epigrafia madeirense, vamos
deixar mencionadas neste lugar várias inscrições lapidares, algumas delas já arquivadas na primeira edição
desta obra e outras com que fomos deparando nas nossas investigações através da história do nosso
arquipélago, concorrendo desta maneira com alguns elementos dispersos e ainda pouco conhecidos, que
poderão ser proveitosos para a elaboração desse interessante estudo. Pertencem todas a épocas
relativamente recentes e não oferecem particular interesse quanto à sua antiguidade, pois que a história da
Madeira principiou há cerca de quinhentos anos e os sucessos apontados só podem remontar até os meados
do século quinze. E, com respeito aos factos de que não se conhecem com inteira precisão as respectivas
datas, procuramos sempre indicar o ano aproximado em que esses factos tenham ocorrido.
João Gonçalves Zargo foi sepultado na capela-mor da igreja da Conceição de Cima (hoje Santa Clara) por
ele fundada, afirmando-se em alguns lugares, embora não haja prova do facto, que se fez a trasladação das
suas cinzas para o túmulo do seu genro Martim Mendes de Vasconcelos, o qual se encontra junto do coro da
mesma igreja. Deste assunto nos ocupámos com alguma largueza no artigo Zargo da primeira edição deste
Elucidário, sendo muito para estranhar que nessa igreja não se ache qualquer inscrição tumular referente
ao primeiro capitão-donatario do Funchal. Deve ter falecido pelos anos de 1467.
No ano de 1919, descobriu-se junto do altar-mor da referida igreja uma pedra sepulcral, em que se encontra
esta inscrição: Sepultura de João Gonçalves da Câmara, segundo capitão da Ilha. Por essa ocasião e no
mesmo local, deparou-se com outra laje tumular, que conserva estes dizeres: Sepultura de Simão Gonçalves
da Câmara.., 3.° capitão desta Ilha. Aqui jaz Simão Gonçalves da Câmara, conde da Calheta e quinto capitão
desta ilha.
Com relação ao túmulo de Martim Mendes de Vasconcelos, a que acima se faz alusão, lê-se a pág. 594 das
«Saudades da Terra» o seguinte: «... na igreja do convento de Santa Clara, à entrada, do lado direito, o
sarcofago desse Martim Mendes de Vasconcelos, com inscrição de letra gótica maiúscula, ilegível por gasta;
mas no pavimento adjacente, se vê uma grande lápide de mármore e nela o seguinte epitáfio: «Sepultura do
capitão Gaspar Mendes de Vasconcellos que mandou fazer para si e seus herdeiros por se tirar a primeira
campa que aqui se pôs como descendente do primeiro Martim Mendes de Vasconcellos que aqui jaz e
passou a esta ilha a casar com Elena Gliz da Câmara filha de João Gonçalves Zargo seu descobridor desta.
Foi feita na era de 1710».
Outro genro de João Gonçalves Zargo foi Diogo Cabral, que faleceu no ano de 1486 e teve sepultura na
Capela de Nossa Senhora da Estrela, por ele fundada na freguesia da Calheta em o sítio que ainda conserva
aquele nome. Há duas dezenas de anos que a lápide que cobria os despojos mortais de Diogo Cabral foi
removida para o cemitério paroquial, adaptando-a a uma sepultura qualquer, depois de se haver aspado o
brasão de armas e o epitáfio do genro de Zargo, o que tudo constitui umn abuso inqualificável.
Não muito distanciado desse local, no sítio da Serra de Água da freguesia do Arco da Calheta, existiu a
capela de Nossa Senlhora da Conceição, fundada por Gonçalo Fernandes na primeira metade do século XVI,
onde há aproximadamente dez anos foi encontrada uma lápide tumular bastante antiga com esta inscrição:
Sepultura de Gil y Enes pedreiro mestre ad Sé, que se encontra arrecadada no Museu Municipal desta
cidade. Segundo nos informa Henrique Henriques de Noronha, nas suas tão interessantes e acreditadas
Memorias, foi Gil Enes «o architecto de toda a obra» da Sé Catedral do Funchal.
É ocasião de nos referirmos a uma sepultura existente na nossa Catedral, que está situada junto da porta
lateral, lado norte, coberta com duas figuras de bronze, recortadas, e postas a par, lendo-se a respeito dela,
no opúsculo Laminas Sepulcrais de Bronze da autoria do distinto arqueólogo Pedro Vitorino, o seguinte:
«As figuras orçam por 0,90 de altura. Uma está mutilada. Assentam sobre lousa, possivelmente pedra azul
da Bélgica.. . A reduzidíssima série de lâminas sepulcrais do nosso pais, oferece-nos exemplares dos dois
tipos conhecidos: uma pedra onde a figura se fixa recortada numa lâmina metálica (Funchal). . . e uma folha
inteira de metal.. formada de diversas peças.»
Como diz Pedro Vitorino, essas sepulturas são muito raras no nosso país e por isso este espécime da Sé
Catedral, único existente na Madeira, deve merecer o mais cuidado apreço na sua conservação. Afirmou-se,
mas sem fundamento, que ali foram sepultados o flamengo João Esmeraldo, falecido em 1536, e sua
mulher.
No limiar superior do pórtico da capela de Santa Catarina, está gravada a data de 1425, que quererá
significar o ano do começo do povoamento madeirense e talvez da construção dessa ermida, embora se
possa conjecturar que aquela pedra não pertença à construção primitiva mas a uma reedificação posterior à
data indicada. Foi o primeiro templo levantado na Madeira e dele nos ocupámos em um desenvolvido artigo
publicado no «Jornal» de 27 de Outubro de 1942.
No Cemitério das Angústias, encontra-se uma pedra de mármore que se achava no antigo convento de São
Francisco e nela se lê este epitáfio: «Aqui Jás Lois Alvares da Costa q fundou esta casa na era de 1473 e seu
filho Francisco Alvares da Costa primeiro ouvidor e vedor da fazenda nestas ilhas da Madeira». Quando, no
ano de 1865, se demoliu a igreja do referido convento e se fez a remoção de muitas ossadas nela existentes
para o cemitério das Angústias, aquela lápide serviu para cobrir esses despojos mortais e na mesma pedra
se inscreveram estas palavras: «Jazigo dos ossos exumados do extinto convento e igreja de São Francisco (a
que a inscriçao primitiva se refere) trasladados a 2 de Maio de 1865».
Filipe Gentil de Limoges fundou em 1562 uma capela, dedicada a São Filipe na freguesia de Santa Maria
Maior, em o sítio que hoje conserva o nome dessa ermida. Nela se encontra uma lápide tumular, que tem
esta estranha inscrição: «Sepultura dos inocentes que tiranamente mataram na Achada desta cidade 1612».
A ama dos expostos dessa época recebia as crianças recém-nascidas e as matava e enterrava no sítio da
Achada, sendo as respectivas ossadas recolhidas alguns anos depois e depositadas no pavimento da referida
capela e ai se colocou aquela pedra sepulcral, como fica referido.
Há mais de trinta anos, ao fazerem-se umas escavações no quartel de infantaria n.° 25, antigo Colégio dos
Jesuítas, encontrou-se uma grande pedra de «cantaria» com dois e meio metros de comprimento, em que se
lia a seguinte inscrição latina: « Altissimus creavit medicinam de terra et vir prudens non abhorrebit illam»,
de que o tradutor Pereira de Figueiredo dá esta versão: «O Altíssimo é o que produziu da terra todos os
medicamentos e o homem prudente não lhes terá oposição». É o versículo 4.° do capítulo XXXVIII do livro
Eclesiástico, do Antigo Testamento, em que se faz o elogio da medicina e daqueles que exercem essa nobre e
benemérita profissão. Na igreja do mesmo Colégio de São João Evangelista, encontram-se várias capelas
que serviam de mausoléus aos seus instituidores e descendentes, com suas pedras tumulares e respectivas
inscrições, dando os nomes dos padroeiros e as datas da sua morte.
A antiga capela dos Varadouros, assim chamada em virtude do local em que se encontrava, foi demolida por
1682 e reedificada no ano de 1689, quando ali se construiu o conhecido Portão dos Varadouros, que ficou
sendo a entrada principal da cidade e por onde os bispos e os governadores faziam o seu solene e aparatoso
ingresso no Funchal. A capela fora reconstruída sobre o arco desse portão, que no cimo conservava uma
lápide com uma curiosa inscrição latina, transcrita a páginas 628 das anotações das «Saudades da Terra».
Pelo terceiro quartel do século XV, ter-se-ia construído uma pequena ermida na Lombada da Ponta do Sol,
que depois se chamou dos Esmeraldos, sendo no mesmo local edificada pelo flamengo João Esmeraldo a
capela do Santo Espírito e solenemente sagrada pelo bispo titular D. João no ano de 1508. Procedeu-se à
sua reedificação no primeiro quartel do século XVIII, vendo-se em uma das suas paredes interiores uma
placa de mármore com a inscrição. Esta Igreja foi consagrada por Dom João Lobo Bispo de Tanger aos 27
de Agosto de 1508, talvez a mesma que teria figurado na primitiva construção.
Nas frontarias das igrejas paroquiais de Santo António, Caniço e Estreito da Calheta, encontram-se três
inscrições lapidares com as datas de 1783, 1789 e 1791, respectivamente aos anos da construção desses
templos, todas redigidas na língua latina e com a indicação dos nomes dos seus oragos ou padroeiros. No
frontispício da paroquial da Tábua, lêem-se estas palavras: «Rei D. Pedro 1696».
Na capela de Nossa Senhora do Pópulo, da freguesia de Santo António, pertencente a residência que os
jesuítas ali possuiam, encontrava-se uma pedra de mármore, em que estavam insculpidos estes
interessantes dizeres: «Em memória dos gloriosos martires da Companhia de Jesus o P. Ignacio de Azevedo
e seus 39 companheiros que navegando para o Brazil no ano de 1579 aos 15 de Julho à vista da ilha da
Palma mereceram a do martírio pela fé de Cristo lançados ao mar pelos hereges e tendo estado nesta quinta
de Pico do Cardo vinham a este lugar com a sua cruz e nele faziam as suas devoções. Se erigiu esta para
maior glória de Deus Ano de 1745». Os factos a que esta lápide se refere vêm desenvolvidamente narrado a
páginas 125 e seguintes do livro «Paróquia de Santo António da Ilha da Madeira» da autoria do padre
Fernando Augusto da Silva.
A igreja de São Tiago Menor, actual paroquial da freguesia de Santa Maria Maior, conserva no seu
frontispício uma lápide, que tem uma inscrição em língua latina e na qual se consigna a doação feita em
1803 pela Câmara Municipal do Funchal ao Estado, para que o mesmo templo passasse a servir de igreja
paroquial, em virtude da grande aluvião do referido ano haver destruído a primitiva igreja, então situada
entre o Largo dos Lavradores e o fontanário conhecido pelo nome de Poço de Nossa Senhora do Calhau.
No vestíbulo do majestoso edifício do «Hospício da Princesa Dona Maria Amélia», depara-se com uma
pedra de mármore preto, em que se lê uma pormenorizada inscrição relativa à fundação e construção desse
excelente hospital de tuberculosos, que começou a funcionar no ano de 1862.
Todas as fortalezas e pontos de defesa marítima levantados na Madeira e particularmente nesta cidade
conservavam curiosas inscrições lapidares, de que as anotações do Dr. Alvaro de Azevedo ao livro de Gaspar
Frutuoso dão completa notícia.
Lapierre (Tenente)
Oficial de caçadores 6 que foi assassinado no quartel do Colégio pelos soldados
deste batalhão, no dia 31 de Julho de 1852. Segundo se afirma, era o comandante que os amotinados
pretendiam matar, mas como o tenente lhes fizesse frente, deu isto tempo a que um furriel fechasse a porta
por onde a soldadesca tinha de passar para alcançar o quarto do comandante, e a que este, prevenido do que
se passava, se pusesse em fuga.
Chamava-se Miguel Fernandes o referido furriel e foi por largos anos fiscal da praça de S. Pedro, tendo sido
condecorado pelo governo por haver livrado o seu comandante da sanha da soldadesca indisciplinada.
Os jornais da época não ousaram comentar os excessos do batalhão de caçadores 6, mas anos depois dizia
um periódico madeirense que esses excessos tinham sido promovidos por indivíduos da classe civil, com o
fim de expulsar da ilha o comandante, que pertencia ao partido regenerador.
Lapinha
É com este termo que na Madeira se designam os «presépios», que desde séculos tão
generalizados estão entre nós. Julgamo-lo uma palavra peculiar deste arquipélago. Deve ser o diminutivo de
«lapa» com o significado de furna, gruta ou cavidade aberta em um rochedo, por analogia ou semelhança
com o local do nascimento do Divino Redentor. É possível que em outros tempos conservassem essa
analogia ou semelhança, mas, ao presente e na generalidade, as «lapinhas» madeirenses são armadas sobre
uma mesa, tendo como centro uma pequena escada de poucos decímetros de altura, de três lanços
contíguos, e no topo da qual se coloca a imagem do Menino Jesus. Em todos os degraus da escada e em
torno dela estão dispostos os «pastores» e vários objectos de ornato, por vezes bem estranhos e sem
próxima afinidade com o resto do presépio. Em obediência às condições do meio, terão algumas
características próprias, como sejam as ornamentações com os ramos do arbusto «alegra-campo» e dos
fetos «cabrinhas», que lhes imprimem uma feição pitoresca e alegre. Terão uma certa originalidade os
chamados «pastores», isto é, pequenas figuras de barro de grosseiro fabrico local, que quasi sempre não
representam pastores ou zagais mas indivíduos das várias camadas sociais.
Ainda são muito vulgares as «lapinhas» com as chamadas «rochinhas», consistindo estas no simulacro de
um pequeno trecho de terreno muito acidentado, feito de «socas» de canavieira e que geralmente conserva
na base uma pequena «furna» representando o presépio em minúsculas figuras de barro.
Existiam, mas hoje são já muito raras, estas mesmas «rochas», talhadas em maiores proporções e em que se
viam igrejas, estradas, pequenas povoações etc., embora sem grande harmonia no conjunto, mas oferecendo
um certo e original pitoresco. Vid. «Natal».
Laranjal
Sítio povoado da freguesia de Santo António do Funchal. Marcos Braga, um dos mais antigos
povoadores da Madeira, teve ali terras de sesmaria, que seu neto Domingos Braga converteu em instituição
vincular, sendo actual representante desta casa o Dr. Remigio Barreto.
Laranjeira
Arvore da família das Rutaceas, originaria do Himalaia. O seu nome botânico é Citrus
Aurantium e as subespécies cultivadas na ilha são duas: a amara, conhecida pelo nome de laranjeira azeda,
e a sinensis conhecida pelo nome de laranjeira doce ou da China. As laranjas doces produzidas na Madeira
são inferiores quási sempre às que vêm de Portugal e de S. Miguel.
As folhas e flores de laranjeiras são usadas em infusão nas moléstias nervosas e nas digestões laboriosas.
A laranjeira azeda, a mais empregada em medicina, e pouco cultivada na Madeira, e os seus frutos, que se
vendiam outrora muito baratos, só podem ser comidos em doce.
As tangerinas ou laranjas tangerinas são produzidas pelo Citrus nobilis, espécie originária da China,
cultivada em muitos jardins do Funchal.
Laranjeira (Rua da)
Era a parte da actual rua do Carmo compreendida entre a igreja deste nome e a
ponte do Ribeirinho, junto da travessa do Rego.
Ficava na rua da Laranjeira a capela de Santo António, mandada demolir pela Câmara, cujo instituidor e
ano de construção se ignoram e que foi mandada demolir pela Câmara em 5 de Fevereiro de 1836.
Largo da Fonte
No sítio da Fonte, na freguesia do Monte, fica o chamado largo da Fonte, local que
tem um fontanário alpendrado e nele uma pequena imagem de Nossa Senhora do Monte. É marginado pela
estrada do Caminho de Ferro do Monte, encontrando-se ali uma estação do mesmo elevador, que tem o
nome de Estação da Fonte. É lugar bastante pitoresco e muito frequentado pelas pessoas que visitam a
encantadora estancia do Monte, especialmente desde que se deu maior amplidão ao local, o que se realizou
há poucos anos.
Largo dos Milagres
Sítio da vila de Machico, onde se encontra a Capela do Senhor dos Milagres,
destruída pela grande aluvião de 1803, que tinha o nome Capela de Cristo ou da Misericórdia, a que então
pertencia, sendo pouco depois reedificada. Vid. Cristo(Capela de)a pág. 332 do vol. 1.
Larica (Antonio Augusto)
Era filho de Fortunato Leandro Larica, nasceu no Funchal em 1831 e
tomou o grau de doutor em medicina na faculdade de Montpellier, em 1852. Foi por largos anos guarda-mor
da estação de saúde do Funchal e faleceu nesta cidade a 22 de Maio de 1903. E.: Apprécier les méthodes
opératoires de la fistule vésico-vaginale, thèse présentée et publiquement soutenue à la Faculté de Médecine
de Montpellier le 26 Avril 1852 (Montpellier, 1852).
Látego (O)
Publicou-se de 12 de Junho de 1889 a 8 de Março de 1891, dando cento e sessenta e quatro
números.
Latino Coelho (Rua)
A antiga rua Nova de Santa Maria, que comunica a praça ou largo dos
Lavradores com o largo das Torneiras.
Recebeu o nome de Latino Coelho, em sessão da Câmara Municipal do Funchal de 7 de Setembro de 1911,
mas é geralmente conhecida pelo seu antigo nome.
Latzel (Dr.)
E.: Beitrage zur Kenntnis der Myriapoden Fauna von Madeira, den Selvages und den
Canarischen Inseln (Jahrb. der Hamburgischen Wissenschaftlichen Anstalten, XII (1895).
Lauráceas
Várias razões aconselharam que aqui transcrevêssemos integralmente o interessante artigo
que acerca das «lauraceas» da Madeira publicou o co-autor deste Elucidário Carlos de Meneses no «Diário
da Madeira» de 22 de Maio de 1909. Ei-lo:
«A família das lauraceas que compreende cerca de 900 espécies na sua quási totalidade tropicaes e
distribuidas por 42 géneros, tem os representantes seguintes no archipelago da Madeira: vinhatico,
barbusano, til e loureiro.
O vinhatico (Persea indica), que também se encontra no estado espontâneo nos archipelagos das Canárias e
dos Açores, é uma das árvores florestaes mais úteis e interessantes da Madeira. As suas folhas são grandes,
coriáceas, oblongas ou oblongo-lanceoladas, de um verde claro ou avermelhadas, pubescente-sedosas
enquanto novas, glabras depois de adultas, as suas flores pequenas, de um branco esverdinhado,
tomentoso-pubescentes, dispostas em paniculas auxiliares de pedunculos comprimidos, e as suas bagas
ovoides ou oblongas, negras quando maduras.
A madeira d'esta espécie, que tem uma cor avermelhada, é muito apreciada na ilha; utilizam-na
principalmente na construcção de moveis, sendo difícil distinguil-a da do mogno com a qual offerece muito
notáveis semelhanças, se bem que lhe seja um pouco inferior em qualidade. Na mobília feita de mogno, as
ondulações são mais pronunciadas do que na que provém da madeira da espécie da nossa ilha.
O vinhatico, muito frequente outrora, vae-se tornando raro por causa da guerra sem tréguas que se lhe
move para o aproveitamento da sua preciosa madeira, que é vendida por preços elevados no mercado do
Funchal. Mattas extensas, que conhecemos no interior e na parte norte da ilha, foram destruidas
completamente por indivíduos sem escrúpulos e que nem se deram ao trabalho de semear novamente os
terrenos, para os não privar por largos annos do revestimento florestal que tão útil se torna num paiz
accidentado como é a Madeira.
Esta lauracea madeirense encontrava-se ainda em muitos valles e ravinas do norte e da parte central da
ilha, e é cultivada em várias quintas da Camacha e de Santo António da Serra. Vegeta mal no Funchal e em
todas as localidades da região meridional situadas abaixo de 150 ou 200 metros. Floresce desde agosto até
novembro e fructifica de outubro até abril. Prefere os sítios húmidos e pode atingir 25 metros, e até,
n'alguns casos, 30 e mesmo 32 metros de alto.
O vinhatico vive no estado sub-espontaneo n'alguns pontos de Portugal, onde é conhecido, segundo diz
Brotero, pelo nome de loureiro real. Sobre a introducção e a cultura desta árvore no continente do reino,
merece ser consultado um artigo publicado pelo reverendo padre Manoel Narcizo Martins, no vol. VI da
«Broteria» revista de sciencias naturaes do collegio de São Fiel.
A madeira do vinhatico, durante o século XVIII era exportada para a Inglaterra onde a conheciam pelo
nome de mogno da Madeira. Segundo o professor Piazzi Smith, os maiores navios da Invencível Armada,
destinada por Fillipe II a combater a Gran-Bretanha, foram construídos ou decorados interiormente de
madeira de vinhatico e de til proveniente da ilha, mas como os historiadores portuguezes, ae menos que nos
conste, nada digam a tal respeito, parece-nos que se não deve aceitar sem uma certa reserva a revelação do
referido professor.
A madeira a que os marceneiros do Funchal dão o nome de vinhatico do Brazil, provém do Eucalyptus
robusta, espécie cultivada n'alguns pontos da ilha.
O barbusano (Apollonias canariensis), peculiar dos archipelagos da Madeira e Canárias, é uma árvore de
folhas coriáceas, ovadas oblongas ou oblongo-lanceoladas, de um verde sensivelmente mais escuro que no
vinhatico, de flores de um branco esverdinhado, dispostas em paniculas mais curtas que as folhas, e de
fructos oblongos, negros. Nas folhas desta árvore encontra-se uma cecidia muito resaltada, produzida por
um eriophydio, e que foi descripta pelo distincto cecidologista o reverendo Joaquim da Silva Tavares, no
vol. II da «Broteria».
A madeira do barbusano, que é pesada e de um castanho ou cinzento escuro, é agora muito pouco utilisada
pelos marceneiros em razão de ser extremamente compacta e rija. D'ella se fazem nos campos excellentes
fusos, tendo também servido outrora para traves de habitações.
O barbusano encontra-se em vários pontos da costa norte da ilha, compreendidos entre o Seixal e a Boa
Ventura, em S. Gonsalo, no Curral das Freiras, na Levada do Bom Successo, etc., sendo a lauracea que
melhor se accommoda à região do littoral. Fructuoso menciona-o no Porto Santo, onde parece estar hoje
completamente extincto. É bastante cultivado nas quintas do Funchal e do Monte, onde chega a atingir 30 e
35 metros de alto, enquanto que fora d'essas localidades raras vezes passa além de 20 metros. Floresce
desde novembro até março e fructifica geralmente desde janeiro até abril.
O til (Oreodaphne foetens) distingue-se facilmente das outras lauraceas madeirenses em ter as bagas
envolvidas até certa altura (às vezes até meio) por uma espécie de cúpula formada pelo cálice accrescente.
Tem folhas ovadas, ovado-obiongas ou oblongas, glabras, mas com fascículos de pellos nas axillas das
nervuras da pagina inferior, e flores pequenas de um branco esverdinhado, dispostas em paniculas mais
longas ou mais curtas que as folhas.
Nos tis de certa edade, o cerne e o borne são muito bem delimitados, sendo este branco e aquelle negro. A
madeira, quando recentemente cortada, tem um cheiro forte e bastante desagradável que só desapparece
completamente passados annos. Esta madeira só tem hoje applicação na construção de moveis, mas quando
era mais frequente era também utilizada para vigamentos e solhos de edifícios. As velhas arcas onde nos
campos costumam guardar os trigos, são na maior parte feitas de til.
Os marceneiros madeirenses estabelecem distincção entre til branco e til preto, se bem que ambos
pertençam a uma mesma espécie botânica; a madeira branca de til é extrahida das árvores novas, a negra
das árvores velhas. Cremos que só depois dos 40 annos é que a parte interior do lenho da espécie de que
estamos falando começa a tomar uma cor negra bastante pronunciada.
O til preto é o unico que é verdadeiramente estimado pela marcenaria; o til branco tem muito menos valor,
se bem que também possa ter emprego em embutidos e na construcção d'alguus utensílios.
O til é uma espécie peculiar do grupo de Madeira e Canárias; na Madeira vive especialmente nos vales do
interior e do norte, onde se vae tornando raro, assim como o vinhatico, devido à grande procura que teem as
suas rnadeiras e ao alto preço por que estas são pagas no mercado. Pode attingir 35 metros, e mesmo um
pouco mais, mas o mais usual e não exceder 25 a 30 metros d'alto. Floresce desde Novembro até junho, e as
suas bagas, que são negras e ovoides ou oblongas, apparecem irregularmente durante uma grande parte do
anno. A folhagem do til pode servir como forragem.
O loureiro (Laurus canariensis) é das lauraceas madeirenses, a mais abundante e a que attinge maiores
altitudes. Nos pontos elevados da região montanhosas não excede em geral 10 a 12 metros d'alto, mas nos
vales e na região baixa da ilha pode attingir 25 a 30 metros. As suas folhas, que são ellipticas, ovadas,
oblongas ou lanceoladas, possuem um aroma agradável e característico, e as suas pequenas umbellas de
flores dum branco amarellado, dispostas em fascículos, são de ordinário mais curtas do que os peciolos.
Floresce pela mesma épocha do barbusano, e as suas bagas, que são ovoides e negras, raras vezes amarellas,
apparecem desde setembro até abril.
A madeira do loureiro, que é de cor clara, é inferior á das outras lauraceas madeirenses e pouco usada para
obras. 0 seu carvão é molle e menos procurado que o das urzes (Erica scoparia) e o das uveiras (Vaccinium
maderense).
As folhas do loureiro são usadas como adubo nas cosinhas, e das bagas extrahe-se um óleo que servia
outrora na iluminação das casas pobres dos campos. Para a extracção deste óleo cozem-se as bagas e
expremem-se depois dentro d'um sacco de panno em pequenos lagares de madeira; como o óleo é mais leve
do que o liquido restante, sobrenada, sendo tirado facilmente do recipiente em que a operação teve logar. A
luz que se obtém pela combustão do óleo de louro não produz mau cheiro, mas é fraca e faz muito fumo.
A árvore a que nos referimos acha-se hoje completamente extinta na ilha do Porto Santo onde também
existiu outr'ora.
Nos troncos dos velhos loureiros encontra-se a miúdo uma phytocecidia muito curiosa, produzida pelo
Exobasidium Lauri, fungo da família das Exobasideas. Esta phytocecidia, que pode attingir 20 centímetros
de comprido e se ramifica ordinariamente, é conhecida pelo nome de «madre de louro» e considerada na
Madeira como tendo propriedades emmenagogas.
O loureiro é uma espécie peculiar da Madeira e Canárias; a árvore açoreana, referida por Watson e por
Meissner a (Laurus canariensis, de Webb, é a Persia azorica, de Seubert. O pequeno loureiro de Portugal e
da região mediterranea (Laurus nobilis) avisinha-se bastante da árvore madeirense, que constitue hoje uma
espécie distincta d'elle, devido ao isolamento geographico e ás influencias climatericas, factores importantes
na separação das formas systematicas.
Além das quatro lauraceas indígenas que ficam mencionadas, existem na Madeira as essencias exóticas
seguintes: a abacate (Persea gratissima), o camphoreiro ( Cinnamomum Camphora) e a canneleira (C.
Zeilanicum). O camphoreiro e a abacate são muito frequentes produzindo esta fructos pyriformes, violaceos
ou verdes, muito apreciados tanto pelos nacionaes, como pelos estrangeiros que visitam a ilha.
Todas as lauraceas indígenas são de folhagem persistente, rebentam bem de touça, têem crescimento rápido
e larga duração e propagam-se perfeitamente de semente. As muitas qualidades que as recomendam levam-
nos a crer que ellas desempenharão um papel importante na rearborização das montanhas madeirenses,
hoje na maior parte desnudadas, se um dia vier a cuidar-se a sério na realização desse melhoramento em
que ha tantos annos se fala e que na verdade bem digno é das attenções daquelles que pelas funcções que
desempenham podem promover a prosperidade do districto.»
Lavadeira (Motacila boarula)
Ave da família motacilida, muito comum na Madeira, onde
frequenta as ribeiras, as ruas, os telhados das habitações, etc. etc., reconhecendo-se facilmente pela cor
amarela do peito e pelo movimento da cauda, que é um pouco longa.
A sua postura é de 4 a 5 ovos e fabrica o ninho nos telhados e escavações dos muros, com raizes, folhas de
gramineas, etc..
Conhecida também pela denominação de lavandeiral e no Porto da Cruz, chamam-lhe às vezes papa-
moscas.
A lavadeira de fora, gue passa o inverno na Madeira e é frequente no Porto Santo, é a Motacila alba.
Lavradores (Largo ou Praça dos)
Fica situado este largo na margem esquerda da ribeira de João
Gomes, no prolongamento das ruas da Infância e do Oudinot que nele desembocam. Dá também acesso á
rua do Hospital Velho. Neste largo, se realizava em todos os sábados uma feira destinada á venda de varas
de pinheiro e estacas de castanheiro, empregadas nas latadas conhecidas na Madeira pelo nome de
«corredores». Neste largo, fica a principal entrada do grande mercado da cidade conhecido pelo nome de
Mercado dos Lavradores, inaugurado no ano de 1939.
Lazareto
Em sessão da Câmara Municipal do Funchal de 1 de Julho de 1816 foi lida uma portaria do
Governador e Capitão-General, ordenando a construção dum lazareto à custa dos bens do Concelho, e, na
sessão de 11 do mesmo mês e ano, foi lido um oficio da mesma autoridade, lembrando que os meios precisos
para se levantar o referido estabelecimento poderiam ser obtidos por meio duma subscrição.
Apesar destas instruções e da Câmara em 8 de Julho de 1816 ter representado ao Príncipe Regente pedindo
o empréstimo da quantia precisa para a construção do lazareto, não foi esta obra levada a efeito,
determinando poucos tempos depois o Governador que os navios procedentes de portos suspeitos
ancorassem defronte da Praia Formosa, devendo os passageiros fazer quarentena na casa chamada da
Engenhoca, que ficava provavelmente naquele sítio ou nas suas imediações.
Em 2 de Dezembro de 1800, mandou a Câmara Municipal que dois navios que haviam chegado ao porto do
Funchal sem carta de saúde levantassem ferro dentro de 2 horas, e que os guardas que se achavam a bordo
fossem lançados na Praia Formosa e ai despidos e «mergulhados por mais de 6 vezes», ficando depois de
quarentena, com sentinela á vista, por espaço de 40 dias.
Em 1848, sendo governador civil da Madeira José Silvestre Ribeiro, foi estabelecido um lazareto na quinta
do Gorgulho, pertencente ao súbdito inglês Henrique Veitch, tendo o periódico O Madeirense, de 11 de
Novembro do mesmo ano, publicado o regulamento daquele estabelecimento.
Da Quinta do Gorgulho, passou o lazareto em 1851 para umas casas mandadas edificar pelo conselheiro
José Silvestre Ribeiro num terreno pertencente á Fazenda Nacional, á foz da Ribeira de Gonçalo Aires,
sendo neste mesmo terreno que foram levantados mais tarde os prédios do actual lazareto, cujas obras
principiaram no dia 22 de Abril de 1866 e acabaram em 1874. Em 1857, foi destruída por um incêndio um
das dependências do lazareto mandado construir por José Silvestre Ribeiro.
Na construção dos prédios da foz da Ribeira de Gonçalo Aires, foram postas de parte certas exigências
topograficas que deviam ser atendidas, não tendo os mesmos prédios sido aproveitados por tal motivo para
lazareto geral, embora esteja reconhecido que podem servir sem inconveniente para lazareto de observação.
Em 1874, vieram á Madeira, de mandado do Governo, os Drs. Craveiro e Pereira, para procederem ao
exame do edifício do lazareto, sendo curioso notar que as mesmas entidades que haviam concorrido para a
construção desse estabelecimento na foz da ribeira de Gonçalo Aires, foram as primeiras a declarar aqueles
médicos que ele não correspondia aos fins para que fora empreendido e executado.
O edifício do lazareto serviu em 1904 para o tratamento das pessoas atacadas de meningite cérebro-
espinhal, em 1905 para o das pessoas atacadas de peste bubónica, em 1907 para o dos variolosos e em 1910
e 1911 para o dos coléricos. Em 1897, pensou-se em estabelecer uma enfermaria para alienados no mesmo
edifício, e nesse mesmo ano tentou a Câmara Municipal do Funchal transferir para ali a cadeia da Comarca,
o que não pôde levar a efeito, em razão do Governo não ter atendido á petição que nesse sentido lhe fora
dirigida.
Em 1919, estiveram recolhidos no Lazareto 280 presos políticos, implicados na revolução monárquica que
houve neste mesmo ano em Portugal.
O Lazareto de Gonçalo Aires teve um director e um médico nomeados em 1889, e um fiscal nomeado em
1890. Estes empregados, que o Governo admitira em virtude do disposto no art. 59 do decreto com força de
lei de 3 de Dezembro de 1868, deixaram de prestar serviço no mesmo lazareto depois da publicação do
Regulamento de Saúde de 24 de Dezembro de 1901, que transformou esse estabelecimento em posto de
observação.
Lazareto (Caminho do)
Fica nas freguesias de Santa Maria Maior e S. Gonçalo e é prolongamento
da calçada do Socorro, limitando pelo lado norte os terrenos do lazareto de Gonçalo Aires. A travessa que
desemboca neste caminho, para leste do ribeiro do Pasto, é conhecida pelo nome de travessa do Lazareto.
Na margem do lado sul do Caminho do lazareto e sobranceiro ao mar, fica o cemitério israelita,
conservando na entrada uma inscrição em língua hebraica que significa «Habitação da Vida» e a data de
5.611, que corresponde ao ano de 1851 da nossa era.
Leal
É antigo apelido de família, principalmente no Porto da Cruz. Antonio de Almada casou com Isabel
Rodrigues Leal, desta freguesia, por meado do século XVI, e em 1684, Maria de Aguiar, viúva de Gonçalo de
Faria Leal, instituiu a capela de Nossa Senhora do Socorro no Estreito de Câmara de Lobos. Um membro
dessa família, por nome João Nepomuceno de Freitas Leal, fundou no ano de 1770 uma capela dedicada a S.
João Nepomuceno, no sítio do Lombo dos Leais, da referida freguesia do Porto da Cruz.
Leal (Conselheiro João Baptista de Freitas)
O conselheiro João Baptista Leal, que pertencia a
uma antiga e distinta família madeirense, nasceu no Funchal a 24 de Junho de 1837 e faleceu nesta cidade,
na idade de 82 anos, a 30 de Março de 1920, sendo filho do comendador Valentim de Freitas Leal e de D.
Augusta de Freitas Abreu Leal. Em 1864, concluiu a sua formatura em direito na Universidade de Coimbra.
Não se dedicou à carreira da advocacia, mas, por varias vezes, e sempre com distinção e verdadeiro amor à
justiça, exerceu o lugar de Juiz de direito substituto desta comarca. Desempenhou diversas comissões de
serviço publico, como membro do Conselho do Distrito, procurador á Junta Geral, presidente da Comissão
Administrativa do Asilo e da Sopa Económica, etc.. A sua dedicação pela causa católica e os serviços que
prestou à Igreja, levaram Leão XIII a agraciá-lo com a alta distinção de camareiro secreto de espada e capa
do Pontífice Romano. Foi um dos principais fundadores da Associação Católica desta cidade e da primeira
Conferencia de São Vicente de Paulo, que se estabeleceu entre nós.
Promoveu a publicação do antigo jornal a Verdade, cujo primeiro numero saiu a 23 de Janeiro de 1875 e do
qual foi durante muitos anos o principal redactor. De 1879 a 1888, publicou em sete fascículos, de cerca de
1400 páginas, a descrição duma viagem que fez por vários países da Europa, a que deu o título de
Recordações e Impressões de Viagem. Em 1894, publicou no Funchal um opúsculo de 136 paginas,
intitulado Devocionario das Almas do Purgatório, de que em 1901 fez uma nova edição, notavelmente
aumentada, de 281 pág.. Também publicou vários opúsculos, contendo alguns discursos que pronunciou
nas sessões solenes da Associação Católica desta cidade, na qualidade de presidente da mesma Associação.
aprimorado e fidalgo trato e de uma notável austeridade de caracter.
0 conselheiro Freitas Leal era um cavalheiro muito ilustrado e escritor correcto e elegante, do mais
Leal (Sebastião Frederico Rodrigues)
Este madeirense era formado em direito e seguiu a
carreira da magistratura, tendo sido delegado do procurador régio numa das comarcas do Funchal.
Representou a Madeira no parlamento na sessão legislativa de 1857 a 1858 e foi redactor do jornal 0
Funchalense, que se publicou nesta cidade de 1859 a 1861.
Na ilha Graciosa, publicou-se em 1866 um opúsculo com o título seguinte: Abusos d'autoridade praticados
na ilha Graciosa pelo juiz de direito Sebastião Rodrigues Leal, de 58 pag..
Ledo e Vinhatico
Sítio povoado da freguesia do Arco da Calheta. João Fernandes de Andrade, um
dos mais antigos povoadores desta paróquia, fundou no sítio do Ledo, uma capela da invocação de Nossa
Senhora do Lanço, que fez sede duma instituição vincular. Também ali existiu a capela de Nossa Senhora do
Desterro, edificada por Rafael Esteves, no terceiro quartel do século XVII. Funciona neste sítio uma escola
oficial de ensino elementar.
Legislação
No pequeno artigo da primeira edição desta obra, intitulado Legislação, deixámos dito que
daríamos no «Suplemento» uma noticia sumaria dos diplomas legislativos promulgados acerca deste
arquipélago, como um valioso subsidio para o estudo das providencias adoptadas pelos governos da
Metrópole na administração publica da Madeira, no longo período de cinco séculos. 0 «Suplemento», que
formaria o terceiro volume do «Elucidário Madeirense», não chegou a ser publicado e nesta nova edição
não pode ser suprida aquela falta pelo demasiado espaço que ocuparia a publicação de um resumo dessa
legislação. Ficou parcialmente sanada a referida deficiência com a publicação do livro «0 Arquipélago da
Madeira na Legislação Portuguesa», da autoria do padre Fernando Augusto da Silva, em que se encontra
um sumário desses diplomas legislativos do período decorrido de 1934 a 1939, acompanhado de um
desenvolvido índice remissivo e anotado, ocupando mais de uma centena de páginas do citado livro. A
fazer-se uma segunda edição dessa obra, deveria acrescentar-se um sumário da legislação promulgada
anteriormente ao período do constitucionalismo, de que as eruditas notas das «Saudades da Terra» nos
oferecem um abundante repertório, além de várias antigas colecções da legislação portuguesa, e em especial
os trabalhos de José Anastacio de Figueiredo e José Justino de Andrade e Silva.
Lei (A)
0 primeiro jornal com este título, que se publicou no Funchal, apareceu a 11 de Julho de 1861,
tendo dado vinte e sete números, sendo o último a 25 de Janeiro de 1862.
Dois outros periódicos com o mesmo título apareceram posteriormente nesta cidade, tendo dado o primeiro
cento e trinta números, desde 6 de Dezembro de 1873 a 20 de Junho de 1877, e o segundo noventa e sete
números, tendo sido publicado o primeiro número a 27 de Abril de 1879.
Leiria (Júlio Augusto)
Engenheiro militar natural do Continente e que desempenhou os cargos de
director das obras públicas do distrito do Funchal e de professor dos três primeiros anos de matemática no
nosso liceu. Publicou em 1871 um mapa da ilha da Madeira, a que já nos referimos neste Elucidário, e
escreveu em 1874 um opúsculo com o seguinte título: Duas palavras de Júlio Augusto Leiria em resposta ao
folheto intitulado «O Hospital de Santa Isabel da cidade do Funchal».
funcionário se deve o começo da sua construção.
Faleceu em Coimbra, no mês de Janeiro de 1878, contando cerca de 50 anos de idade.
Leitão
Nos tempos de Felipe I, veio para a Madeira o desembargador João Leitão, que foi capitão-mor
da Guerra e Governador Geral do arquipélago, mas ignoramos se dele procedem os Leitões que Manuel
Tomás, na Insulana, inclui entre as familias notáveis da Madeira. Pelo meado do século XIX, estabeleceu-se
no Funchal o negociante e banqueiro João José Rodrigues Leitão, oriundo do Continente, o qual deu origem
a um outro ramo da família Leitão. Vid. Cacongo (I-182).
Leitão (João)
Caindo Portugal sob o domínio espanhol, perderam os capitães-donatários da Madeira o
poderio e importância de que gozavam e passaram a ser quasi meramente honoríficos os privilégios e
Existe em Machico uma estrada que tem o nome do engenheiro Leiria, pois aos diligentes esforços deste
atribuições inerentes aos seus altos cargos, que em 1580 se achavam já bastante atenuados, como fica dito
no artigo Donatários.
O governo espanhol criou para a administração dos nossos domínios coloniais o lugar de governador geral,
que tinha altas atribuições e cuja acção governativa se estendia a todos os ramos da administração publica.
Apesar de D. Felipe ser proclamado rei de Portugal em Setembro de 1580, o primeiro governador geral do
arquipélago da Madeira nomeado pelo governo intruso só chegou ao Funchal muitos tempos depois daquela
proclamação. Foi escolhido para este cargo o desembargador João Leitão, homem de inteira confiança do
Governador do Reino, que vinha também encarregado de proceder a uma devassa acerca dos
acontecimentos políticos ocorridos nesta ilha por ocasião da proclamação de Felipe 2.°. As suas atribuições
compreendiam a administração da fazenda e o julgamento das causas crimes, além de toda a
superintendência em assuntos civis e militares, vendo-se duma provisão de aposentadoria registada no
tomo 2.° do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal, que foi enviado à Madeira em 5 de Janeiro de
1582.
Receando-se, em 1582, que a esquadra francesa, que protegia as pretensões de D. António, Prior do Crato,
pudesse invadir a Madeira, foi mandado a esta ilha D. Agostinho de Herrera, como general das armas,
continuando o desembargador João Leitão com a administração civil, e reassumindo em 1584 toda a
jurisdição civil e militar, quando D. Agostinho de Herrera deixou este arquipélago. João Leitão serviu até
1585, sucedendo-lhe no govêrno Tristão Vaz da Veiga.
Referentes a este assunto, ficaram impressas na «Adenda e Corrigenda» do segundo volume da 1ª. ed. desta
obra as seguintes palavras, que convém registar neste lugar:
«No ano corrente de 1924, publicou o Sr. Dr. Damião Peres, antigo reitor do nosso liceu e hoje professor da
Universidade do Porto, um pequeno opúsculo intitulado O desembargador João Leitão, primeiro
governador geral da Madeira, que exclusivamente se destina a demonstrar que o desembargador Leitão não
foi de direito mas apenas de facto governador geral deste arquipélago e que a sua vinda para a Madeira se
deu em 1582 e não em 1581, como se lê nas Saudades da Terra e no vol. 1.° deste Elucidário. Quanto à
rectificação daquela data, convém notar aqui que ela se acha feita há mais dum ano, a pág. 44 deste volume.
Com respeito à circunstancia de não ser conhecido o diploma da nomeação daquele magistrado para o cargo
de governador geral, não prova ela que não tivesse exercido interinamente e de facto esse lugar, como o Dr.
Damião Peres parece reconhecê-lo. Iria o govêrno de Madrid, ao estabelecer-se a dominação espanhola em
Portugal, deixar por largo tempo uma colónia importante como a Madeira sem ter nela um seu
representante oficial, que superintendesse nos diversos negócios da administração pública? Esse
representante foi João Leitão. E até o facto provado de «ter sido investido em uma multiplicidade de
atribuições e regalias», a que deve juntar-se a de estar encarregado de proceder a uma devassa de caracter
político, explicam suficientemente a não efectividade da sua nomeação para o desempenho daquele cargo».
(1921)
Leite Monteiro (Conselheiro José)
Não era madeirense o conselheiro José Leite Monteiro, mas
tinha pela terra onde passara a maior parte da sua existencia a tocante e carinhosa idolatria que o mais
estremecido filho pode nutrir pelas belezas do seu rincão natal. Todos os seus afectos, todas as suas
aspirações, todos os voos da sua inteligência se concentravam nos apertados limites desta pequena ilha.
Espírito eminentemente superior, vastíssima ilustração, jurisconsulto dos mais abalizados, com variadas e
notáveis aptidões em muitos ramos dos negócios públicos, podia ter legitimamente aspirado neste país às
mais invejáveis situações na política, no foro, nas letras, no professorado, se a sua natural modéstia, o amor
ao recolhimento e ao estudo, a inata repugnância pelas exterioridades aparatosas, o não desviassem
imperiosamente do exercício dos brilhantes e elevados cargos que em geral tanto seduzem e atraiem os
intelectuais. O conselheiro Leite Monteiro, noutro meio e dadas outras circunstancias, podia ter facilmente
alcançado uma posição de destaque e elaborado alguns trabalhos valiosos, que as condições mesologicas
madeirenses em que viveu não lhe permitiram produzir.
Nasceu na cidade do Porto a 27 de Setembro de 1841, sendo filho do Dr. Caetano José Gomes Monteiro, que
foi Juiz de direito duma das comarcas do Funchal, onde faleceu, e de D. Margarida Fernandes Leite
Monteiro.
Matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1859 e concluiu a formatura no ano
de 1864. Em 1863, publicou um folheto intitulado O Ultramontanismo na Instrução Pública em Portugal e,
em 1864, o livro Estudos de Patologia Social. Estes escritos são reveladores dum notável e precoce talento,
embora as doutrinas neles defendidas tivessem provocado as criticas mais acerbas. Em 1895, encetou a
publicação da obra Elementos de Direito Civil Português, de que apenas saiu o 1º. fascículo com 244
páginas.
É vastíssima a colaboração do Dr. José Leite na imprensa periódica funchalense, nomeadamente na
Lâmpada, no Oriente do Funchal, na Imprensa Livre e no Direito. Ficaram célebres muitos dos seus artigos
pela originalidade e beleza da forma, pela força da dialéctica e mais ainda talvez pelo ardor e veemência da
linguagem. Se tivesse feito jornalismo na capital, pode afirmar-se, sem exagero, que o seu nome andaria a
par do dos grandes jornalistas que foram Sampaio António Enes, Mariano de Carvallho e Emidio Navarro.
Como advogado, produziu trabalhos notabilíssimos, que grande pena é terem ficado sepultados nas estantes
dos cartórios. Que saibamos, apenas foram publicados dois ou três opúsculos sobre assuntos jurídicos, além
da obra que já fica citada.
Foi brilhantíssimo o concurso que fêz, por provas públicas, para professor de filosofia dos liceus. O Dr.
Teófilo Braga, admirador do Dr. Leite Monteiro, foi de Lisboa ao Porto assistir a esse concurso, em que um
dos concorrentes era o nosso distinto patrício o Dr. Manuel Joaquim Teixeira. Obteve a mais alta
classificação e foi em 1867 despachado professor do nosso liceu. Apesar das provas brilhantes prestadas
nesse concurso e da incontestável competência do dr. Leite Monteiro para a regência da cadeira de filosofia,
manda a verdade que se diga que lhe faltavam as qualidades dum verdadeiro pedagogo e que em geral os
seus alunos pouco aproveitavam com as lições do mestre.
Entre as comissões de serviço público que desempenhou, conta-se a de Governador Civil substituto, tendo
por várias vezes exercido a efectividade deste lugar e sendo para ele nomeado pelos decretos de 3 de
Fevereiro de 1902 e 26 de Março de 1906. Foi também membro do Conselho de Distrito e presidente da
Junta Geral e da Câmara Municipal do Funchal, tendo no exercício deste último cargo mostrado grande
interesse pelo desenvolvimento da biblioteca pública. Quási todas as obras estrangeiras relativas à Madeira
que ali existem, foram adquiridas durante a sua gerência, tendo pretendido também criar um museu
municipal.
Fez parte do antigo partido fusionista e entrou nas lutas políticas madeirenses de 1868, prestando mais
tarde notáveis serviços ao partido regenerador, principalmente como redactor do Direito. Era membro da
Associação de Direito Internacional de Berlim e a ele e ao falecido cónego Alfredo César de Oliveira se deve
a publicação da obra Flores da Madeira, em que foram reunidas muitas produções valiosas de poetas
madeirenses.
Faleceu a 10 de Março de 1920.
Leite Monteiro (Parque)
Principiou a ser construído em 1894 em terrenos comprados por
1:640$000 réis a João Baptista de Sousa, em virtude de deliberação tomada na sessão camarária de 2 de
Agosto daquele ano, e embora no que diz respeito a vegetação e ornamentos nada ofereça de extraordinário,
é no entretanto um local que se visita com prazer, já pela sua frescura e viçosidade já pelas perspectivas que
dele se desfrutam. A fonte chamada de Nossa Senhora e onde se vê uma pequena imagem da Virgem, é de
mármore e está situada no parque, existindo junto dela um amplo largo, onde vegetam os mais belos
platanos que conhecemos na ilha.
A antiga fonte de Nossa Senhora, muito mais engraçada e pitoresca do que a actual, foi destruída em 1896,
em virtude da queda dum grande castanheiro que lhe ficava sobranceiro, tendo as obras de assentamento da
nova fonte sido arrematadas em sessão camarária de 12 de Agosto de 1897.
No interior da fonte, encontra-se uma lâmina de metal amarelo, com uma inscrição em inglês, que diz o
seguinte: «Carlos Murray, cônsul geral de S. M. Britânica nas ilhas da Madeira e Porto Santo, fundador e
primeiro proprietário da quinta de Belo Monte, comprou no ano de 1776 a água desperdiçada desta fonte ao
morgado Henrique Felix de Freitas, pela quantia de 5:000 reis anuais, para ser paga por todo o sempre aos
herdeiros do dito morgado; e ordenou que se fizesse esta construção para melhor se juntarem as águas, se
reparar a fonte e se edificar o aqueduto e fonte na margem da estrada, tudo à sua custa, no ano do Senhor
de 1778».
A Câmara Municipal do Funchal, em sua sessão de 22 de Agosto de 1895, deu o nome do seu presidente, o
Dr. José Leite Monteiro, ao parque do Monte, mas a comissão administrativa municipal, nomeada após a
proclamação da Republica, anulou essa deliberação, em sessão de 27 de Outubro de 1910. Em 13 de
Fevereiro de 1913, sendo presidente da comissão administrativa municipal o Dr. Manuel Gregorio Pestana
Júnior, foi restabelecido o primitivo nome do parque, tendo sido esta resolução muito bem recebida pelo
público funchalense.
Leituga
Este nome serve para designar algumas Compostas que existem na Madeira, tais como a Tolpis
macrorhiza, a Crepis laciniata, a C. divaricata, o Sonchus pinnatus, etc.. Todas estas espécies são bastantes
leitosas.
Lemann (Dr. Carlos)
Botânico inglês que veio para a Madeira em 1837 e saiu desta ilha, com
destino a Londres, a 19 de Maio de 1838. As plantas por ele colhidas nesta ilha e nas Canárias, estão no
Jardim de Kew e na Universidade de Cambridge. V. Hooker.
Lemay (Gaston)
Ocupa-se da Madeira no seu livro intitulado A bord de la «Junon», voyage autour du
monde (Paris, 1879).
Leme (João da Câmara)
Nasceu no Funchal no ano de 1865 e desempenhou o cargo de porteiro do
Governo Civil. Publicou nesta cidade, em 1887, um volume de poesias, de 83 pag., com o título de Amor e
Pátria. Por ocasião do seu aparecimento, afirmou-se na imprensa que o opúsculo era um completo plagiato,
forrageado em diversos poetas portugueses e nomeadamente em Almeida Garrett.
Leme
É apelido de família muito antigo entre nós. Procede de António de Leme, que nesta ilha foi tronco
duma larga e distinta descendência.
Na tomada de Arzila e Tanger, distinguiram-se pela sua bravura e heroísmo os dois fidalgos flamengos
Martim de Leme e António de Leme, naturais da cidade de Bruges, na antiga Flandres, que por seu pai
Martim de Leme haviam sido mandados a combater às ordens do rei de Portugal fazendo-se acompanhar
dum certo numero de homens de guerra armados e equipados à sua custa. Na carta e brasão de armas de 2
de Novembro de 1471, passados por D. Afonso V a favor de António de Leme, que era então cavaleiro da
casa do príncipe D. João, se fez menção honrosa daquele facto e se lhe confere e ratifica o título de nobreza
que já tinha no seu país natal, dando-se-lhe por armas «em campo de ouro cinco melros de preto em aspa
sem pés nem bicos e por timbre um dos melros entre uma aspa de ouro».
António de Leme teve, entre outros filhos, Martim de Leme, que parece ter nascido, como seu pai, em
Flandres e que depois de servir em Portugal e exercer elevados cargos palatinos na sua pátria, passou à
Madeira pelos anos de 1483, trazendo para a Câmara do Funchal cartas de recomendação do infante D.
Fernando, mestre da ordem de Cristo, a que esta ilha então pertencia. Foram-lhe dadas terras de sesmaria
na paroquia de Santo António, que legou a seus herdeiros, e morreu no Funchal, sendo sepultado no
convento de S. Francisco. Martim de Leme casou com D. Maria Adão Ferreira, filha de Adão Gonçalves
Ferreira, o primeiro homem que nasceu nesta ilha, sendo este filho de Gonçalo Aires Ferreira companheiro
de Zarco no descobrimento da Madeira.
Foi ele, ou um seu filho do mesmo nome que construiu na referida freguesia a casa de habitação ainda hoje
chamada Quinta do Leme e também a capela anexa, a cuja construção o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo
fixa o ano de 1535. Consorciou-se António de Leme com D. Catarina de Barros, a qual constituiu um
morgado da terça dos seus bens, em terras que possuía na freguesia da Ponta do Sol. Viveram e faleceram
na residência da Quinta do Leme e foram sepultados, segundo vemos num antigo livro de linhagens, «na
capela-mor de Santo António do Campo» que é indubitavelmente a igreja paroquial daquela freguesia.
Destes nasceu Pedro de Leme, que foi o instituidor do morgado dos Lemes, na quinta do mesmo nome, com
a expressa obrigação de perpetuar-se o apelido de Leme no sucessor e administrador deste vínculo.
Por motivos que inteiramente desconhecemos e que hoje será talvez impossível descobrir-se, foram Pedro
de Leme e seu filho primogénito Cristovão de Leme presos e conduzidos a Lisboa, onde ambos faleceram no
cárcere, no mesmo ano e a curto intervalo, sendo o ultimo em Setembro de 1556. Estamos em frente dum
misterioso drama e talvez duma sangrenta tragédia, em que pai e filho arrojados ao fundo duma prisão por
algum nefando crime, aí fossem mortos por mão vingadora, com receio de que a comutação da pena ou o
perdão, como facilmente acontecia aos nobres, os restituísse ainda à liberdade.
D. Maria de Leme, filha de Pedro de Leme e que casou com Pedro Gomes Galdo, entrou imediatamente na
administração da casa que herdou de seus pais, tendo morrido sem deixar descendência. Seguiu-se um
largo pleito judicial, passando o morgadio da Quinta do Leme a Francisco de Moraes e sua mulher D. Maria
da Câmara, filha e genro de D. Leonor de Leme, irmã de D. Maria de Leme, ultima administradora do
vínculo. Foi imediata sucessora na posse do morgadio a filha daqueles, D. Felipa da Câmara, que casou com
António da Silva Barreto, o qual morreu em 1633, tendo deste consórcio nascido Manuel da Silva Camara,
que entrou logo na sucessão do morgadio, falecendo pouco depois no ano de 1634.
Foi herdeiro e imediato sucessor na administração desta casa vinculada, Inacio da Câmara Leme, tenente -
general na Madeira, cavaleiro da Ordem de Cristo e moço fidalgo da Casa Real, que gozou de bastante
prestígio e influencia nesta ilha. Foi ele que, por meados do século XVII, reedificou a casa e capela da
Quinta do Leme. Matrimoniou-se em 1647 com D. Isabel de Castelo Branco Bettencourt, nascendo deste
casamento, em 1649, o herdeiro da casa, Francisco da Câmara Leme, também como seu pai cavaleiro de
Cristo e moço fidalgo da Casa Real. Contraiu matrimónio com D. Francisca de Sá e Meneses e dele nasceu o
primogénito e sucessor, Pedro Julio da Câmara Leme a 25 de Julho de 1695, moço fidalgo e cavaleiro da
Casa Real como seu pai e avô, o qual se consorciou com D. Mariana de Meneses, filha de Pedro de
Bettencourt Henriques e de D. Mariana de Meneses.
Foi seu filho e sucessor no morgadio, Francisco Aurelio da Câmara Leme, que casou em 1731 com D.
Antónia Maria Acciaioli de Vasconcelos Betencourt. Teve os privilégios de cavaleiro de Cristo e moço fidalgo
que herdara de seus maiores. Foi ele que em 1748 procedeu à total reconstrução da capela de S. Felipe da
Quinta do Leme, que o terramoto daquele ano deixara em ruínas, como se pode ver no artigo já citado.
Entrou na posse imediata e administração do vínculo o filho destes, Francisco António da Câmara Leme,
que casou respectivamente com D. Anna Correia Accioli, D. Maria Luiza Correia Accioli, irmã de sua
primeira mulher, e D. Julia da Cunha, que era filha bastarda do conde da Cunha e que morreu de cólera em
Lisboa em 1832. Francisco António da Câmara Leme faleceu sem geração, passando por sua morte a
administração deste vínculo a seu sobrinho, João de Carvalhal Esmeraldo de Bettencourt de Sá Machado,
1º. conde de Carvalhal, ficando assim incorporado na grande casa Carvalhal, a mais rica e importante desta
ilha.
Acerca do título de Dom, de que usaram alguns membros desta família, lê-se na obra Resenha das Familias
Titulares e Grandes de Portugal, vol. 1.°, pag. 384, o seguinte: «Os Câmaras Lemes. . . da ilha da Madeira,
nunca tiveram Dom. O último representante desta família principiou, depois de certa época e
arbitrariamente, a anteceder o nome de baptismo com o Dom; a continuação do arbítrio passou aos
descendentes, e havendo-se mencionado sem a devida averiguação em várias mercês régias que lhes teem
sido feitas, ficou legalisado o Dom, fazendo assim S. M. duas mercês sem encargo para esta. Este facto dá-se
com mais pessoas».
Esta informação não contraria o que nos referiu um velho fidalgo madeirense, para explicar o emprego do
Dom, de que usaram os últimos membros da família Câmara Leme. Um deles, requerendo uma mercê
qualquer, fez preceder o seu nome de D para significar Diz, mas, ao ser concedida a graça pedida, o
funcionário que redigiu a carta régia tomou, por inadvertência, a abreviatura de dia por dom, escrevendo:
concedemos a Dom Fulana de tal etc.. E daqui veio, segundo se afirma, o uso ilegítimo do Dom com que se
pavonearam os últimos descentes dos Câmaras Lemes.
Lemos (D. Jorge de)
Antes do estabelecimento da diocese, esteve em 1508 nesta ilha o bispo D. João
Lobo (V. este nome), e depois da criação do bispado vieram à Madeira os prelados D. Duarte, no ano de
1516, e D. Ambrosio em 1538 (V. estes nomes), que aqui exerceram as funções episcopais em vez dos
respectivos bispos proprietários D. Diogo Pinheiro e D. Martinho de Portugal, que nunca visitaram as terras
da sua Jurisdição, bem como o terceiro bispo D. Fr. Gaspar do Casal. Foi o quarto prelado D. Fr. Jorge de
Lemos o primeiro que pessoalmente assumiu a direcção episcopal deste bispado, que administrou no
período decorrido de 1558 a 1569, tendo porém, residido apenas cinco anos nesta ilha.
Pertencia a nobres famílias e era filho de Francisco Velho e de D. Brites de Lemos. Professou no convento de
São Domingos, de Lisboa, e, entre os cargos que exerceu na sua ordem, conta-se o de professor de teologia.
Sendo já adiantado em anos, foi confirmado bispo do Funchal a 9 de Março de 1556 pelo papa Paulo IV,
tendo tomado posse do cargo no ano de 1558. Cinco anos depois, aumentou-se para o reino e em 1569
renunciou à mitra. Morreu passado pouco tempo e foi sepultado na igreja do convento onde professara.
Sendo o primeiro prelado diocesano que viera a este bispado, foi recebido com especiais demonstrações de
consideração e estima pelo clero e por todo o povo desta ilha. Havia mais de 130 anos que começara a
colonização, e, apesar das faculdades especiais de que gozava o delegado do vigário de Tomar e ainda de já
existir no Funchal uma comunidade religiosa franciscana de austera observância, é certo que alguns abusos
se introduziram na doutrina eclesiástica e no cumprimento das diversas leis canónicas. Tendo o prelado que
corrigir esses abusos e de reformar antigos e inveterados costumes, incorreu naturalmente no desagrado de
muitos, donde resultaram graves dificuldades e atritos, que soube no entretanto aplanar com o seu espírito
de justiça e com a irrepreensível conduta do seu proceder. «Foi, diz D. António Caetano de Sousa, de
condição áspera, que temperou sempre com a prudência; no trato magnífico e grande premiador dos
beneméritos».
Mereceu-lhe especiais atenções o serviço da Sé Catedral, solicitando e conseguindo que se criassem alguns
lugares novos, como o de sub-chantre, mestre de capela e moços do coro, o aumento dos vencimentos dos
cónegos e dignidades, a reforma da música e a criação dos curatos, desligando assim o deão do encargo do
serviço paroquial. No seu tempo se dividiu em duas paróquias a única freguesia que havia no Funchal, que
ficaram tendo suas sedes na Sé Catedral e em Santa Maria Maior. Pouco depois impetrou a criação da
freguesia de São Pedro, que não teve larga existência, pois foi extinta em 1579, sendo novamente restaurada
no ano de 1587. Empregou diligências para a criação do Seminário Diocesano, que somente alguns anos
mais tarde foi estabelecido nesta cidade (Seminário).
Em 1563, saiu D. Jorge de Lemos para o reino, onde exerceu o cargo de esmoler-mor do rei D. Sebastião. A
15 de Novembro de 1569, aceitou o papa a renuncia que D. Jorge fez deste bispado e nomeou para o
substituir D. Fernando de Távora, religioso da Ordem dos Pregadores.
Lemos (Coronel José António de Azevedo)
Comandante da expedição militar que veio à
Madeira em 1828, com o fim de submeter esta ilha ao governo miguelista. Tornou-se conhecido pelas graves
desinteligências que teve com o Governador e Capitão-General José Maria Monteiro, chegando a solicitar
do Governo a substituição desta autoridade por causa da sua incapacidade e de ter por habito ouvir apenas
«uma infame roda de indivíduos abomináveis por seus vícios e maus costumes». Em certa ocasião, insultou
o Governador no Palácio de S. Lourenço, não chegando a bater-lhe por se terem oposto a isso vários oficiais
que se achavam presentes.
O coronel Lemos permitiu às tropas do seu comando toda a casta de excessos contra os constitucionais,
tornando-se por isso pouco simpático à maioria da população funchalense.
Lencastre (Dr. Luis Adriano de Magalhães Meneses e)
Foi eleito par do reino pela Madeira
para a sessão legislativa de 1890 a 1892.
Lendas
O anotador das Saudades da Terra refere-se muito sumariamente ás lendas que no decorrer dos
tempos se foram formando entre os povos deste arquipélago, tratando apenas com largo desenvolvimento e
vasta erudição a conhecida lenda de Machim e Ana d'Arfet, de que nos ocuparemos no lugar respectivo
deste Elucidário. A lenda da Ilha Encoberta, que não é privativa desta região e em geral faz parte da crença
dos sebastianistas, apresenta entre nós o aspecto particular da mesma ilha ficar situada, se tal expressão
pode ser permitida, nas proximidades da Madeira e haver indivíduos que dizem tê-la distintamente avistado
em certas manhãs do dia de S. João. Além destas e dalgumas de caracter religioso, não se refere o Dr.
Azevedo a outras lendas que tivessem tido voga nesta ilha. Diz ele: «Abundam na ilha da Madeira lendas
religiosas, das quais estamos formando colecção; além das três mencionadas (a do Senhor dos Milagres, no
convento de S. Francisco, a de Fr. Pedro da Guarda, em Câmara de Lobos, e a da fundação do convento das
Mercês), já temos as seguintes: a de Nossa Senhora do Monte, a do Senhor dos Milagres, de Machico, a de
Santo António da Serra, a do Senhor Jesus, da Ponta Delgada, a de São Vicente, do ilhéu (na freguesia de
São Vicente), a de São Martinho e a de Nossa Senhora do Recolhimento das Órfãs. Reservamo-nos para as
publicar em volume separado». Este volume nunca foi publicado.
Além destas lendas ou narrativas populares, poucas conhecemos nesta ilha, mas iremos fazendo menção
daquelas que chegarem ao nosso conhecimento. Já no 1.° vol. pag. 44, sob o título de Capela das Almas
Pobres, nos referimos a uma delas.
Lenha
A madeira para queimar usada no Funchal e nas demais povoações importantes da ilha, provém
em geral do pinheiro marítimo, sendo os toros ou achas desta árvore vendidos muitas vezes aos centos ou às
talhas. Cada cento tem 1400 paus e cada talha 56 paus; ao cento de 100 paus chamam os lenheiros cento
pequeno.
A lenha encareceu imensamente durante a guerra, devido ao consumo que dela faziam os vapores costeiros
e as fábricas, e hoje custa um cento de lenha seis vezes mais do que em 1914, devido ainda às mesmas causas
e à valorização de todos os produtos da terra. Um cento de lenha regular que custava há dez anos 12 a 13
escudos, custa hoje entre 70 e 80 escudos. (1921)
Os habitantes dalgumas freguesias costumam ir à serra buscar lenha, sendo grandes as devastações que
fazem nas árvores para obterem o combustível de que necessitam para os usos domésticos.
Lentes
Foram lentes no estrangeiro, em universidades ou cursos superiores, os madeirenses Manuel
Constantino, António da Gama, Belchior de Teive, João António Monteiro, João da Silveira Caldeira,
Francisco Justino Gonçalves de Andrade e João Jacinto Gonçalves de Andrade, tendo alguns destes sido
também professores na Universidade de Coimbra.
Em escolas superiores nacionais, sabemos terem regido cadeiras os seguintes madeirenses:
Universidade de Coimbra: Luis Gonçalves da Câmara e António João de França Bettencourt, na Faculdade
de Teologia; Vitúrio Lopes Rocha, José Ferreira Pestana, Augusto de Arzila Fonseca e José Vicente Martins
Gonçalves, na Faculdade de Matemática; Jacinto António de Sousa, na Faculdade de Filosofia; e Nicolau
Francisco Xavier da Silva e Justino António de Freitas, na Faculdade de Direito.
Universidade de Lisboa: Francisco Luis Pereira de Sousa, José de Freitas Teixeira Espinola Castelo Branco,
José Joaquim de Freitas Abreu Rego, José Julio Rodrigues e Francisco Maria Henriques, na antiga Escola
Politécnica, hoje Faculdade de Ciências; Luis da Câmara Pestana, António Aurelio da Costa Ferreira e
Marck Athias na antiga Escola Medico-Cirurgica, hoje Faculdade de Medicina; Jaime Constantino de
Freitas Moniz, no antigo Curso Superior de Letras, hoje Faculdade de Letras; e Jaime Boaventura de
Azevedo, no antigo Instituto Superior de Agronomia, hoje Faculdade de Agronomia.
Universidade do Porto: Urbano Canuto Soares, na Faculdade de Letras.
Escola de Guerra: Manuel da Costa Dias.
Escola Naval: António Aluisio Jérvis de Atouguia e Alfredo Rodrigues Gaspar.
Escola Médica do Funchal: Luiz Henriques, António da Luz Pita, Juvenal Honorio de Ornelas, António
Alves da Silva, Conde de Canavial, João Augusto Teixeira, Mauricio Augusto Sequeira e Nuno Silvestre
Teixeira.
Lentilha (Lens culinaris)
Leguminosa-papilionada frequentemente cultivada no Porto Santo e que
aparece também no Caniçal. A lentilha cultivada no Caniço é a Vicia monanthos, a qual tem vagens 3-4-
espermicas, e não 2-espermicas, como acontece na lentilha do Porto Santo.
Lentilha de Água (Callitriche stagnalis)
Planta aquática, com os caules alongados e as folhas
pequenas as superiores aproximadas em roseta. É empregada às vezes na ilha como aperiente. V. Pastinha
de água.
Leopoldina (Arquiduquesa)
D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, casou pela primeira vez com a
arquiduquesa de Austria Leopoldina (1797-1826) e em segundas núpcias com D. Amelia, fundadora do
Hospício da Princesa D. Maria Amelia.
Pela manhã do dia 11 de Setembro de 1817, ancorou no porto do Funchal uma esquadra composta das naus
portuguesas D. João VI e D. Sebastião e da fragata austríaca Augusta, comandada pelo capitão de mar e
guerra Henrique de Sousa Prego. Destinava-se ao Rio de Janeiro e conduzia a seu bordo a princesa
Leopoldina, que ia contrair matrimónio com o príncipe real D. Pedro, depois imperador do Brasil e rei de
Portugal.
A comitiva da princesa era composta dos marqueses de Castelo Melhor, condes da Lousã, conde de Penafiel,
portugueses; príncipe de La Tour e Taxis, conde de Eltz, conde de Bellegarde, conde de Krassischs e o
embaixador da Austria no Brasil, austríacos, além de 11 criados.
Teve a princesa uma brilhante recepção desembarcando num improvisado cais de madeira feito na
Pontinha e indo hospedar-se no palácio de S. Lourenço.
No dia 12 de Setembro, jantou na Quinta do Palheiro do Ferreiro, a convite de João de Carvalhal, que ali
deu por essa ocasião uma esplêndida festa.
Visitou o Monte no dia 13, percorrendo algumas quintas e ali lanchou em casa do rico comerciante inglês
Roberto Page, que preparou à princesa uma bela recepção na quinta Belmonte.
O governador e capitão-general Florencio José de Melo e o bispo D. Joaquim de Meneses e Ataide foram
elogiados pelo governo do Rio de Janeiro, pela maneira como receberam a arquiduquesa e pelas
demonstrações de apreço e de regozijo que no Funchal se fizeram por ocasião da sua passagem nesta ilha.
O governador e capitão-general, com autorização da princesa, encarregou o major José Caetano César de
Freitas de a acompanhar ao Rio de Janeiro, como representante dos povos deste arquipélago, e de
apresentar as suas felicitações ao príncipe real D. Pedro por ocasião do seu consórcio.
No palacete dos condes da Calçada, na rampa de Santa Clara, existiu um quadro a óleo da princesa
Leopoldina, tendo num dos ângulos da tela os seguintes dizeres: Arquiduqueza Leopoldina, Princesa Real
do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, passeando na quinta do Palheiro Ferreiro em 12 de Setembro
de 1817.
Presentemente, este quadro é propriedade do Sr. Júlio Barros.
A arquiduquesa Leopoldina foi, como se sabe, mãe de D. Pedro II, imperador do Brasil, e de D. Maria II,
Rainha de Portugal.
Faleceu no Rio de Janeiro, a 11 de Dezembro de 1826.
Com título de «A Princesa do Reino - Unido Portugal Brasil na Ilha da Madeira em 1817», publicou o
distinto escritor tenente-coronel A. Artur Sarmento um interessante opúsculo, no ano de 1943, acerca da
visita dessa ilustre
princesa a esta ilha na sua passagem para a cidade do Rio de Janeiro.
Lesmas
Moluscos gasterópodos limacídeos que aparecem nos lugares húmidos ou umbrosos, nas
hortas, por entre as ervas, etc.. 0 Limax flavus vive muitas vezes perto das habitações, ao passo que o L.
gagetes aparece principalmente sob as pedras e o L. cinereus nas hortas. 0 Arion ater, de cor anegrada,
olivacea ou azul acinzentado, encontra-se nas vinhas e logares ervosos.
A Helix undata que vive ordinariamente sob as pedras e os cântaros, é conhecida às vezes pelo nome de
lesma, apesar de ser provida de concha.
Lessa (Padre António João de)
Nasceu este sacerdote na freguesia da Madalena do Mar a 1 de
Junho de 1774 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro a 12 de Abril de 1858. Saiu para o Brasil no ano de
1808, sendo já presbítero, e fixou residência na então nascente povoação de Cantagalo, que dentro de
poucos anos atingiu um grande desenvolvimento e se transformou na cidade do mesmo nome. 0 padre
Lessa dedicou-se à política, tendo concorrido bastante para a independência do Brasil. Foi deputado em
duas legislaturas e gozou do maior prestigio entre os políticos da sua época. Vários escritores brasileiros se
referem à sua acção persistente nos acontecimentos que precederam a independência e ainda nas lutas
políticas que se seguiram. Deixou impresso um livro intitulado Cartas de Cantagalo. No ano de 1929, o seu
sobrinho Clado Ribeiro de Lessa escreveu e fez publicar um volume de 160 páginas a que deu o título de
Esboço Biográfico do Padre António João de Lessa, e em que se descreve a vida agitada deste sacerdote
madeirense.
Leste
Os madeirenses dão o nome de leste ao vento que sopra do lado da Costa de Africa e é
acompanhado sempre de aumento considerável da temperatura e dum alto grau de secura atmosférica.
Quando ele se faz sentir, o sol fica embaciado e o céu apresenta-se completamente limpo de nuvens, o que
poucas vezes acontece noutras ocasiões. 0 leste começa geralmente por uma viração quente, à qual se segue
um vento forte e também quente que arrasta nuvens de poeira em terra e provoca grande agitação nas águas
do mar. Embora semelhante ao siroco, que sopra na região mediterrânea, é, ao contrário dele, um vento
seco, o que é devido a vir muito elevado e não poder receber a humidade da grande extensão de mar que
atravessa. Aves e insectos são arrastados algumas vezes pelo Leste até à Madeira, e tem-se visto em muitas
ocasiões depositar-se sôbre os moveis uma certa quantidade de poeira e de areia fina e impalpável,
proveniente talvez do Sara, parecendo a atmosfera tão densa quando tem em suspensão essas partículas,
como se existisse uma névoa a obscurecê-la. Diz James Y. Johnson que encontrou em certa ocasião nessas
poeiras seis diatomaceas e vários fragmentos de outras, todas elas pertencentes a espécies que vivem em
muitos países do mundo.
O Dr. Heberden viu em 1750 o termómetro à sombra marcar em ocasião de leste 22º. 7, 24°. 4 e 25°, o que
nada tem de extraordinário, e o Dr. Heineken que fez observações nesta ilha desde 1824 a 1826, não viu o
termómetro subir nunca durante o leste a mais de 29º. 4, embora soubesse que algumas vezes tinha ele
subido a 35º à sombra e a 54°. 4 ao sol, com o referido vento. 0 Dr. Mason em 1835 viu em ocasião de leste
subir o termómetro à sombra a 27°. 2 e ao sol a 58º. 8, enquanto que a mais alta temperatura à sombra
observada por Roberto White, também durante o leste, foi 25° em 23 de Fevereiro de 1850. Em épocas mais
recentes, as mais altas temperaturas à sombra registadas com o vento da costa de Africa foram 32°. 5 (Julho
de 1882), 33°. 5 e 35º. 6 (Agosto de 1902), 37°. 3 (Agosto de 1907), 35º. 0 (Julho de 1917), 37°. 0, 37°. 2 e
38º. 4 (Agosto de 1919) e 34º. 0 (Agosto de 1920). A temperatura máxima à sombra, em 3 de Dezembro de
1920, foi 26°. 6, e a mínima 14°. 9, tendo soprado nesse dia o vento este.
"Mac Euen, diz o Dr. Barral, encontrou em 17 de Fevereiro de 1849, durante o leste, 21° de diferença, entre o
termómetro seco e o termómetro húmido, o que dá 18 por cento de humidade relativa na atmosfera, e o
barão de Humboldt fala de 16 por cento como sendo a menor quantidade de vapor e a maior secura
observada nas regiões mais baixas da atmosfera, e isto em um vasto continente».
Embora o grau de secura assinalado por Mac Euen seja muito pouco frequente, é verdadeiramente
extraordinária a diferença que existe entre a humidade relativa normal e a que se nota quando sopra o leste,
e se indivíduos há que se não ressentem das condições atmosféricas provocadas por esse vento, mostrando
até maior actividade e vigor físico quando elas se dão, outros há em quem as mesmas condições produzem
incómodos sérios, os quais todavia não conduzem nunca a resultados fatais.
Quando sopra o leste, os moveis secam e por vezes estalam como se estivessem expostos ao fogo, e as
plantas murcham e perdem todo o seu brilho e frescura. Os animais, e especialmente as aves, parecem
sofrer com esse vento, que alguns têm comparado ao samiel; ao simoon, ao harmattan e a outros ventos
muitos quentes e secos que se fazem sentir no interior das regiões africanas.
Embora o vento a que nos referimos venha de ESE., no Funchal, sopra sempre do lado E., o que parece ser
devido a ele se curvar ou reflectir depois de haver batido nas montanhas. Quando o leste é fraco, só se faz
sentir na região alta da ilha, que é a parte que é sempre directamente atingida por ele, sendo os efeitos deste
vento pouco perceptíveis nos vales do interior e na costa setentrional, mesmo nas ocasiões em que ele sopra
com violência na região baixa meridional. Ocasiões há em que sopra o vento norte na Ponta de S. Lourenço
e o leste na cidade e noutras localidades, o que prova que este vento nem sempre é geral, muito embora se
faça sentir sempre na região alta da ilha, ao menos até 1.400 metros, quando sopra na região baixa.
O leste dura 1 a 5 dias, raras vezes mais, e é seguido geralmente de chuva. Anos há em que ele não aparece e
outros em que aparece mais duma vez. Quando sopra no inverno, perde uma parte dos seus caracteres
desagradáveis, e os naturais apenas o notam pela grande secura que provoca na atmosfera.
No tocante aos sítios em que bate o leste ao chegar à Madeira e á direcção que ele toma depois, há muitos
pontos obscuros e que no interesse da ciência conviria esclarecer, mas isto só se poderá conseguir quando se
montarem postos meteorológicos nas montanhas e na extremidade oriental da ilha, e se entregar a direcção
deles a indivíduos habeis e zelosos no cumprimento dos seus deveres. Na base do Pico de Teide, em
Tenerife, desde 1908 que existe um observatório meteorológico que muitos serviços tem prestado á ciência,
ao passo que entre nós se não dá um passo para tirar o devido proveito dum posto construído em 1895 nas
proximidades do Pico do Areeiro, mas que nunca foi dotado com o pessoal e os instrumentos necessários
para as observações!
Por ocasião do leste que houve no Funchal de 21 a 27 de Agosto de 1919, o vento não se fez sentir a princípio
para além da Ponta da Oliveira, e quando se manifestou um violento incêndio nos pinhais do Monte e de S.
Roque, observámos que o fumo, pela direcção que seguia, parecia impelido pelo vento de NE. Esse leste
tornou-se particularmente digno de atenção pela sua duração e pelos grandissimos prejuízos que causou ás
culturas, sendo de notar ainda que foi enquanto ele durou que se registou a mais alta temperatura á sombra
observada no Funchal desde que se fazem aqui observações meteorológicas. A humidade relativa desceu a
28 por cento ás 3 horas da tarde do dia 23 de Agosto, tendo na mesma ocasião o termómetro ao sol marcado
57°, temperatura esta que não pode ser considerada como máxima, visto a maior força solar, como dissemos
já quando falámos do clima, não se apresentar àquela hora, mas sim muito mais cedo. Vid. Clima (1-273).
Letter (A)
to His Grace the lord archbishop of Canterbury with reference to certain allegations and to
the position of the old congregation of the church of England in Madeira; Londres, 1856, folheto.
Leuchtenberg (Duque de)
No dia 23 de Agosto de 1849, ancorou no nosso porto a fragata da
marinha russa Kamtchatka, conduzindo a seu bordo o príncipe Maximiliano, duque de Leuchtenberg, irmão
do príncipe Augusto, primeiro marido de D. Maria II, e de D. Amelia, viúva de D. Pedro IV. O navio ficara
de quarentena e o príncipe só pode desembarcar no dia 27 de Agosto, tendo uma brilhante recepção
preparada pelo então governador civil, o benemérito conselheiro José Silvestre Ribeiro.
Percorreu o príncipe muitas freguesias da Madeira e visitou também o Porto Santo, sendo um entusiástico
admirador das belezas naturais do nosso arquipélago. Demorou-se nesta ilha até o dia 23 de Abril de 1850,
em que embarcou em direcção á Russia. Deixou entre nós as mais gratas recordações, não só pela extrema
lhaneza do seu trato como pelos sentimentos de caridade de que deu eloquentes provas em favor dos pobres
da nossa terra.
O duque de Leuchtenberg, que era filho do célebre príncipe Eugenio Napoleão e genro do imperador da
Rússia Nicolau I, viera á Madeira em procura de alívios aos seus padecimentos e, ao ausentar-se, declarou,
no meio de convulsivo choro, que aqui passara alguns dos dias mais felizes e mais tranquilos de toda a sua
vida.
A sua comitiva compunha-se do Príncipe Pierre Bagratin, conde de Ojarowski, capitão Pauchine, o
secretário Eugène Mussar, o médico Dr. S. Fischer e quinze criados.
Residiu na quinta das Angústias, onde anteriormente também residira a rainha Adelaide de Inglaterra, e
onde morreu em 1853 a princesa D. Maria Amelia. Visitou o Porto Santo no ano de 1850, indo aquela ilha
na fragata russa Palas.
Um filho do príncipe Maximiliano, o príncipe Nicolau Maximiliano, também duque de Leuchtenberg,
visitou a Madeira em 1886, tendo chegado ao porto do Funchal a 1 de Dezembro e desembarcado no dia
imediato. Foram-lhe prestadas as honras militares a que tinha direito, na qualidade de príncipe aparentado
com as casas reais de Portugal e da Rússia.
O príncipe Nicolau passou uma parte do ano de 1887 na Madeira, retirando para a Europa a 16 de Junho.
Levada de Santa Luzia
(Estrada da).
Estrada plana e extensa que limita pelo norte uma parte
da cidade do Funchal e se estende desde as proximidades da ribeira de Santa Luzia até á avenida de Pedro
José de Ornelas, junto da rocha da Pena. É ladeada pela levada do mesmo nome, que já existia em 1515 e é
uma das mais antigas da ilha.
De todo o caminho da Levada de Santa Luzia se desfrutam lindos panoramas, vendo-se ali excelentes
prédios e algumas quintas, entre as quais se destaca a da Palmeira, uma das mais belas dos arredores do
Funchal. É seu proprietário o benemérito industrial e súbdito britanico Henrique Hinton, que ali fez colocar
a janela da célebre casa em que Cristovão Colombo residiu no Funchal
(Vid. 1-289).
Levadas
I –
Sua origem
– Ao aportarem à Madeira os primitivos povoadores, logo reconheceram
a excelente benignidade do clima e a exuberante fertilidade do solo. Estas tão favoráveis disposições da
natureza, coroadas por uma encantadora paisagem, despertariam as mais animadoras esperanças para a
arriscada empresa que iam iniciar, mas também se aperceberiam sem esforço das grandes dificuldades que
importaria vencer para atingir-se o desejado fim de uma feliz e prospera colonização. Quais outros
predecessores de um lendário Robinson, abandonados em uma deserta e ignorada ilha, teriam que praticar
verdadeiros milagres de heroísmo nos árduos trabalhos do arroteamento das terras virgens e na construção
e instalação das suas primeiras e bem desconfortáveis moradias.
Logo se defrontaram com dois obstáculos, talvez julgados insuperáveis: a luxuriante e gigantesca vegetação,
que em cerrada floresta se estendia desde as orlas do oceano até os píncaros das montanhas, e o inverosímil
acidentado dos terrenos, que em ininterruptas ramificações das mais elevadas eminências se desdobravam
em picos alterosos e vales profundos por toda a superfície da ilha.
Com denodado esforço se entregaram as incipientes explorações agrícolas, desbastando os densos matagais
e preparando convenientemente as rústicas glebas destinadas a receber as primeiras culturas. Fácil seria
verificar que o aproveitamento das águas constituiria uma das suas maiores preocupações e canseiras, o que
permanentemente se têm transmitido de geração em geração, tomando os mais variados aspectos e
formando uma vasta rede de interesses económicos e sociais, que mereciam um aturado e desenvolvido
estudo, ainda infelizmente por elaborar.
Tentadas essas primeiras explorações, impôs-se sem demora um novo sistema de irrigação, que favorecesse
a nativa riqueza do solo inculto, extraindo-se dele os mais compensadores resultados.
Foram as condições especiais do meio e privativas desta região, que determinaram a construção dos
primeiros canais ou aquedutos, a que depois se chamaram Levadas e que ficaram constituindo o mais rico
elemento da agricultura madeirense. São de presumir os incalculáveis esforços empregados nesse primeiro
empreendimento e as dificuldades que surgiriam na sua realização, sobretudo quando os terrenos a irrigar
se achavam distanciados das origens das respectivas nascentes.
Em um excelente artigo publicado há anos e numa bem expressiva síntese, dá-se uma ideia muito exacta das
causas que justificavam essas então rudimentares construções, ao afirmar-se que «a agricultura tinha de ser
a base da economia da sociedade que iam constituir, mas também que ela só podia tomar grandes
proporções e oferecer largos interesses nas encostas, colinas e vales da beira-mar, onde a composição do
solo, a fertilidade do terreno, a suavidade da temperatura e o regímen brando dos ventos assegurariam
produções intensas e preciosas, com vantagens infindas para a população, para os donatários, para a Ordem
Militar de Cristo e para a coroa. Era ali que estava especialmente, a zona das melhores culturas– a da vinha
e a da cana de açúcar,–que já então foram iniciadas e que fizeram depois a celebridade, a fama e a riqueza
da Madeira, garantindo à metrópole, sem interrupção, avultados rendimentos, ainda nos períodos mais
críticos e adversos de Portugal.
Tais terrenos, porém, não podiam ser explorados com intensidade, constância e vantagem, sem que fossem
dotados com águas de irrigação, que regularmente humedecessem e fecundassem o solo, mantendo verdes e
cheias de seiva as plantações, fortalecendo-as e opulentando-as, não só durante o verão mas ainda em parte
da primavera e do Outono e em geral durante as estiagens, possíveis no próprio Inverno. Ao mesmo tempo
quasi todas as fontes e nascentes estavam nos pontos elevados, nas serras, correndo para os regatos e
ribeiras e por meio destas para o oceano. Desde logo surgiu a necessidade e o pensamento de interceptar,
em certas altitudes, o curso natural das águas, derivando-as para utilíssimos canais, construídos desde
grandes distancias, ao longo de rochedos escarpados, através de imensos obstáculos, apenas vencíveis por
uma tenacidade heróica, até ás regiões mais férteis e prometedoras. Tal é a instituição admirável e profícua
das levadas, factor primacial da agricultura e portanto de todas as condições económicas e financeiras da
ilha da Madeira.»
O gigantesco trabalho da construção das levadas, que durou séculos, as lutas sustentadas para a aquisição e
posse dos respectivos caudais, as sublevações populares que por tal motivo se deram várias vezes, a
organização das associações de «heréus» para a exploração e distribuição das águas, os frequentes pleitos
judiciais, as muitas leis que se promulgaram reguladoras deste assunto, as discussões provocadas no
parlamento, nas corporações administrativas, na imprensa e em comícios públicos dariam basta matéria
para um largo e interessante estudo, como acima deixámos dito.
II – Sua importância e necessidade.
– Tudo isso mostra a imperiosa necessidade das
nossas levadas e a capital importância que elas representam na economia do arquipélago. Iam-se
simultaneamente desbravando a densa vegetação florestal que cobria as lombas e encostas, preparando
diligentemente o trabalhoso amanho das terras aráveis e conduzindo com presteza os fartos mananciais que
fertilizariam as incipientes culturas agrícolas.
Como é sabido, a irrigação dos terrenos faz-se principalmente por meio das levadas. É certo que há terras de
cultivo deixadas apenas á contingência das chuvas, mas as chamadas culturas ricas, isto é, a vinha e a cana
de açúcar, e ainda mesmo a maior parte das verduras e hortaliças, são irrigadas pelas numerosas levadas
que se acham dispersas por toda a ilha. Não pode considerar-se um sistema de irrigação inteiramente
privativo desta região, mas é quasi único no nosso país e tem suas características próprias, que o distinguem
dos outros sistemas seus congéneres.
Em alguns países, os canais de irrigação constituem trabalhos de maior vulto somente quanto á sua
capacidade e volume de águas que conduzem, sendo quasi sempre praticados no próprio solo, e sem outras
obras de arte de mais avultada importância. Não são geralmente de grande extensão e destinam-se a
fertilizar terrenos por vezes vastos, mas de elevação pouco considerável. Não admira que alguns
funcionários técnicos de obras públicas vindos do continente, confessem que as descrições escritas acerca
da irrigação madeirense lhes não davam uma ideia segura da rede das nossas levadas e particularmente da
maneira como recebem e conduzem as águas, e ainda como se faz a distribuição destas pelas terras de
regadio.
Os aquedutos são uns estreitos e extensos canais abertos no solo e geralmente construídos de sólida
alvenaria, que não chegam em geral a atingir um metro de largura e cuja profundidade poucas vezes vai
além de 50 a 70 centímetros. Há levadas que têm algumas dezenas de quilómetros de extensão. Na
generalidade, partem de pontos elevados e centrais da ilha e encabeçam nas mais caudalosas ribeiras,
alimentando-se dos abundantes mananciais que correm abandonados nos leitos pedregosos das mesmas
ribeiras. Para isso, costeam, por vezes, elevadas e alcantiladas serras, atravessam aprumadas ravinas,
perfuram os montes num perigoso trabalho de longos anos e com o dispêndio de avultadíssimos capitais e
até de bastantes vidas, dando á terra o sangue que a fertiliza e ás plantas a seiva que as fazem
abundantemente produzir. Quem de perto conhecer o inverosimil acidentado dos nossos terrenos, o
caprichoso relevo das suas vertentes e a elevação das suas serranias de par com profundos vales e perigosos
despenhadeiros, avaliará facilmente o colossal esforço que representa essa gigantesca e utilíssima obra, que
sobremaneira honra o país que a empreendeu e executou.
Será para estranhar, e, sem um mais detido exame, parecerá á primeira vista que estes canais de irrigação,
tão dispendiosos e de tão difícil e penosa construção não ofereçam uma compensação remuneradora dos
capitais empregados, mas a verdade é que eles constituem o principal elemento da prosperidade da
agricultura madeirense, sobretudo das chamadas «culturas ricas», e como acima ficará ligeiramente
esboçado, um dos factores mais importantes das prosperidades de todo o arquipélago.
É uma verdade axiomática que uma parte considerável dos nossos terrenos aráveis têm fome de um
conveniente amanho e sede da água fertilizante que os torne fecundos e produtivos. É preciso arrancar
desse solo estéril e maninho a abundância e a riqueza que ele encerra no seu seio, é necessário transformar
essas campinas de aspecto desolador em leiras verdejantes de belos e óptimos frutos, é indispensável lavrar
e cultivar a terra ubérrima, dando trabalho e movimento a muitos braços paralisados por falta de uma útil e
adequada actividade, como já o temos repetido.
Em o relatório da «Junta Autónoma de Hidráulica Agrícola de Portugal» relativo ao ano de 1937, para
justificar a exploração das águas de regadio, afirma-se que ela é remédio para a absorção do excesso
demográfico, proporcionando-se trabalho a braços inactivos e melhorando-se portanto a situação
económica das populações rurais.
Se esse argumento se ajusta com verdade e com justiça as terras do continente português, tem então a mais
completa e absoluta aplicação com respeito às fertilíssimas glebas do arquipélago madeirense.
Quem compulsar os «Censos da População», cujos trabalhos se realizam de dez em dez anos, facilmente
verifica que é a Madeira a região do país que acusa uma maior densidade de população, fora dos intensos
aglomerados de habitantes das cidades de Lisboa e Porto. E essa maior densidade, sendo muito superior
comparada com a de quasi todas as terras do continente, torna-se então verdadeiramente desproporcional,
se especialmente a confrontarmos com um grande número dessas mesmas regiões continentais.
Para o comprovar, bastará dizer que apenas o distrito do Porto excede o do Funchal nessa densidade, tendo
aquele 304 habitantes por quilómetro quadrado ao passo que a Madeira tem 270, mas em compensação há
distritos como os de Beja, Évora, Portalegre, Bragança, e Castelo Branco, cuja densidade populacional é
respectivamente de 20, 21, 24, 27 e 36 habitantes por cada quilómetro quadrado. Fora o Porto, é o distrito
de Braga o que proporcionalmente conta mais densa população, pois atinge cerca de 140 habitantes por
quilómetro quadrado, ficando ainda num plano de inferioridade comparado com o do Funchal, que é de 270
como fica dito.
O censo da população referente ao ano de 1920 atribui à Madeira 179.000 habitantes e o de 1930, o número
de 211.000 ou seja um aumento de dezoito por cento em dez anos e o de 1940 dá-nos o número de 250.000.
Se o autorizado parecer da «Junta Autónoma de Hidráulica Agrícola» plenamente se justifica, com sobrada
razão poderá ser aplicado à Madeira, em que o aumento da população caminha num crescendo assustador.
A «importância e necessidade» das nossas levadas, isto é, a conservação e ampliação dos actuais aquedutos
e a exploração de novos mananciais, constituem o principal factor da agricultura madeirense, como
deixámos dito, e são portanto o elemento basilar e primordial de toda a economia do distrito. Com uma bela
e expressiva concisão e tendo com o nosso assunto uma íntima afinidade, lêem-se estas palavras no
relatório de um antigo e distinto agrónomo, como alvitres a realizar: . 1.° Trabalhos de Hidráulica Agrícola
que permitam o alargamento das culturas regadas; 2.° emparcelamento constante e progressivo da
propriedade agrária; 3.° trabalhos de arborização que permitam uma melhor regularização das quedas
fluviais; 4.° abertura de novas vias de comunicação servidas por transportes rápidos e económicos».
Felizmente que os problemas que de perto se relacionam com o que fica exposto, estão em via de uma
satisfatória solução com a promulgação dos decretos n.°s 33.158 e 33.159, de 21 de Outubro de 1943, aos
quais nos havemos de referir com mais largueza no prosseguimento deste pequeno estudo.
III – Os seus caudais –
É bastante variável o volume do caudal de cada levada, que geralmente
tem de subordinar-se à maior ou menor abundância dos mananciais ou nascentes que formam esses
mesmos caudais. Algumas levadas dão passagem a um manancial muito abundante, em quatro caudais,
indo simultaneamente irrigar os terrenos em quatro pontos afastados. Outras, de menor volume, repartem-
se apenas em dois ou três caudais, regando-os ao mesmo tempo em dois ou três lugares diferentes. E ainda
existem outros canais de irrigação, que constituem o maior número, destinados a fertilizar as terras com a
totalidade da sua água, por ser pouco volumoso o caudal que os alimenta. Quando principia o período das
regas, em que as águas são mais abundantes, permitem, por vezes, os mananciais das levadas ter ainda uma
maior divisão, o que dificilmente se pode conseguir nos meses de mais adiantada estiagem. A estas divisões,
se dá comummente o nome de ramais ou lanços da levada.
É também bastante variável, embora dentro de determinados limites, o volume do caudal destinado a
irrigar em cada ponto. Pelas medições realizadas em muitas levadas, as quais costumam ser feitas no
período da maior estiagem, vê-se que um fluxo contínuo de 12 litros de água por segundo constitui já um
pequeno caudal suficiente para a irrigação de certas culturas. Há levadas de volume ainda menor, mas são
em numero muito restrito. Cada um dos quatro ramais ou lanços da levada dos Piornais tem um fluxo
continuo de cerca de 30 litros por segundo, que é abundante e mais que suficiente para qualquer espécie de
cultura. Entre estes limites que, duma maneira aproximada, podemos considerar como máximo e mínimo,
se devem compreender as medições dos caudais que separadamente irrigam os terrenos em cada ponto.
Como já tem sido lembrado, interessante seria a organização de um quadro ou tabela com uma medição
aproximada das águas respeitantes a cada levada, mas nunca se realizou a tal respeito um trabalho
completo, e apenas parcialmente se fez esse pequeno estudo acerca das levadas do Estado. Em um
desenvolvido relatório elaborado por um distinto engenheiro no ano de 1911, lemos que as duas levadas do
Rabaçal, «a velha» e a «nova», tinham cada uma o fluxo médio de 80 litros por segundo no chamado
período da estiagem e que ambas elas se dividiam em três ramais distintos para o efeito da irrigação, o que
dava um fluxo médio de 26 litros para cada um desses seis lanços de levadas. Em uma medição a que se
proceda no ano de 1943, verificou-se que o fluxo, por segundo, da citada «levada velha» é de 65 litros e o da
«levada nova» é de 86. Diz-nos o referido relatório que as levadas de Santa Luzia, Hortas e Bom Sucesso,
tinham na referida época respectivamente a vazão de 15,31, 17,5 e 27,4 litros por segundo, podendo-se com
esses dados, embora incompletos, formar um juízo aproximado do volume de água que em geral alimenta as
nossas levadas.
Além dos prejuízos de carácter geral, como infiltração, evaporação, etc., sofrem os caudais das levadas uma
apreciável diminuição em seu volume com a falta de uma adequada arborização, particularmente nas
origens das respectivas nascentes, com o furtivo desvio de águas por meio de rombos praticados nas
paredes dos aquedutos, com a falta das frequentes e apropriadas reparações e principalmente com a abusiva
construção das chamadas «sacadas». Estas foram assim definidas, com inteira precisão, em um artigo da
revista «Portugal em Africa»: «consistem em pequenas paredes de pedra e torrões de argila, atravessadas
na corrente, fazendo derivar as águas para terrenos do leito das ribeiras, que não deviam ser cultivados, ou
para os das vertentes, que deviam estar sujeitos ao regimen da arborização. As levadas, que só mais abaixo
encabeçam com as ribeiras, ficam assim apenas com os escoamentos, muitas vezes pequeníssimos,
prejudicando-se enormemente a agricultura nas regiões fecundas da beira-mar.»
IV – O seu funcionamento –
Construídos os aquedutos desde as origens das nascentes e neles
captados os respectivos mananciais, logo se iniciam os trabalhos de irrigação, que muitas vezes se realizam
a grandes distancias dos locais em que encabeçam as levadas. O seu funcionamento regular subordina-se ao
chamado «giro», que é o espaço decorrido entre uma rega de qualquer terreno e a sua rega subsequente,
lapso este de dias que em regra nunca se altera e que se mantém com a mais rigorosa fiscalização. Quando
se diz que uma propriedade «tem uma hora de água no giro» de quinze dias, deve entender-se que essa
propriedade goza do direito de ser irrigada de quinze em quinze dias dentro do período normal da irrigação.
O «giro» nas levadas particulares é muito variável e chega a ser, embora raramente, de sessenta dias, mas a
regra mais comum medeia entre quinze e vinte dias. Há levadas que «andam em giro» todo o ano, mas as
suas águas nem sempre são aproveitadas, particularmente na quadra mais rigorosa do Inverno. Nas levadas
do Estado, têm os «giros» um prazo de tempo determinado, que se estende desde o dia um de Maio até o
ultimo dia do mês de Setembro.
Como está naturalmente indicado, esses «giros» são em geral realizados pelos proprietários das terras ou
seus «caseiros» e «meeiros» ou ainda por quaisquer trabalhadores por eles assalariados para esse fim. É
ocasião de nos referirmos aos «heréus», que era primitivamente o nome dos cultivadores das terras
irrigadas com as águas das levadas, mas que depois passou a significar com maior rigor, o próprio
proprietário, grande ou pequeno, dessas águas de regadio.
V – Sua administração –
As levadas particulares ou de heréus foram primitivamente
administradas por aqueles que as construíram e tinham sobre elas direitos de propriedade, passando depois
os proprietários, ou melhor os usufrutuários das águas, a nomearem um administrador que gerisse os
negócios das mesmas levadas e a que chamavam o Juiz da Levada. É certo que o Estado sempre se
considerou o único proprietário dos mananciais que alimentavam os diversos aquedutos e até por vezes, em
documentos oficiais, se afirmou que as próprias levadas pertenciam ao mesmo Estado, mas o que
praticamente se observou e constituía uma lei consuetudinaria em todo o arquipélago, era que os heréus se
tinham na conta de donos e senhores das levadas e de proprietários ou ao menos perpétuos usufrutuários
dos caudais que as alimentavam. Daqui resultou que a administração das levadas era feita pelos heréus, por
intermédio dos juízes por eles eleitos, embora houvesse de ser homologada ou ratificada essa escolha pelos
donatários, pelos governadores gerais, pelos governadores e capitães-generais ou pelos governadores civis.
Em muitos casos, mas não sempre, os governadores nomeavam os juízes e referendavam os alvarás de
nomeação, mas esses actos de interferência na administração das levadas representavam em geral a
observância duma mera formalidade, sendo na verdade a escolha previamente feita pelos respectivos
heréus. Com a promulgação do Código Civil, em 1868, desapareceu essa espécie de homologação e os
proprietários de águas e levadas passaram a administra-las por meio de comissões de gerência anual e
eleitas pela assembleia geral dos heréus. A lei de 26 de Julho de 1888 deu capacidade jurídica à reunião dos
heréus, ficando estes constituindo uma verdadeira associação com todos os privilégios que as leis lhe
garantem, tornando ainda mais independente a administração das mesmas levadas.
Há muito que desapareceu a antiga denominação de Juiz da Levada, que foi em outro tempo um cargo
disputado e geralmente exercido por pessoas qualificadas. Num documento oficial enviado ao governo da
metrópole em 1812 pelo corregedor da comarca António Rodrigues Veloso de Oliveira, se encontra, a
seguinte informação acerca dos Juízes das levadas, que merece ser transcrita: « . . .Levadas tem um juiz
eleito por pluralidade de votos dos heréus e confirmado por provisão da Junta da Fazenda em cada ano,
assim como um levadeiro. He do oficio do juiz mandar concertar a levada depois do inverno e pôla corrente
no primeiro de Abril. Alguns dos Juízes recebem o seu pagamento em água, além da sua antiga e respectiva
parte, outros repartem as despesas pelos hereos soldo a livra, e no caso de repugnância de pagamento
pedem um mandado executivo ao Juiz dos Direitos Reais para o reembolso das ditas despezas; outros
finalmente recobram as despesas e percebem um dia de água da levada pela sua administração, e este é o
costume comum e razoável».
É ocasião de nos referirmos, embora rapidamente, à associação que se organizou nesta cidade no ano de
1903 com o nome de Liga das Levadas, destinada a defender os direitos e interesses dos aquedutos que se
abastecem nos mananciais que correm na ribeira de Santa Luzia e formada principalmente pelas levadas de
D. Isabel, Moinhos e Santa Luzia. A esta associação prestou relevantes serviços o engenheiro civil Vitorino
José dos Santos, não só na direcção de todos os negócios em que a Liga teve de intervir, mas sobretudo na
organização dum importante arquivo em que se encontram valiosos elementos para o estudo detalhado das
águas e levadas desta ilha, tanto debaixo do ponto de vista histórico, como também nos seus aspectos
técnico e jurídico.
Dissolvida a «Liga das Levadas», ignoramos onde teria sido arrecadada essa valiosa e abundante colecção
de documentos, que, embora pertencentes a uma sociedade particular, muito conviria que fossem
incorporados no Arquivo Distrital do Funchal.
Quanto ás chamadas «Levadas do Estado» em que as despesas da sua construção, conservação e
funcionamento corriam por conta das receitas gerais do Estado, era a sua administração exercida pelas
antigas direcções das obras publicas deste distrito e posteriormente pela respectiva repartição técnica da
Junta Geral, que naturalmente estava indicada para o regular desempenho desse importante serviço.
Como adiante veremos, o decreto de 21 de Outubro de 1943 introduziu várias modificações no regime da
administração das levadas.
VI - Primeiras explorações –
As primitivas explorações agrícolas começaram nos litorais e não
podiam distanciar-se muito das linhas de água ou das nascentes que tinham de fertilizar os terrenos
arroteados. Essas explorações tiveram em breve que alargar grandemente a sua área, nascendo logo a
necessidade de conduzir as águas a maiores distancias por meio das levadas. As dificuldades e os obstáculos
a vencer foram sempre e ainda são verdadeiramente extraordinários e por vezes quási insuperáveis, mas no
longo período de cinco séculos não deixou nunca de trabalhar-se activamente na tiragem das levadas,
tendo-se ainda há poucos anos iniciado um novo e apreciável empreendimento nas serras da Ribeira da
Janela, que por imperiosos motivos houve de interromper-se.
A construção desses canais com as interessantes características que lhe são peculiares constituem uma
gloriosa tradição de trabalho, de tenacidade, de inteligência e de bom senso, que sobremaneira honra e
enobrece a terra que tal empreendimento concebeu e tão frutuosamente o realizou.
E agora, a mais de quatro séculos de distancia, é gratíssimo recordar a clarividência dos nossos
antepassados, que logo após o inicio do povoamento descobriram esse rico filão de ouro, que faria produzir,
prosperar e enriquecer a nossa indústria agrícola, como veio plenamente a realizar-se no largo decorrer dos
tempos.
E, desde meados do século XV até os fins do século XIX, manteve-se inalterável essa tradição, que o mesmo
é afirmar que a construção das levadas foi um trabalho contínuo e persistente, á parte quaisquer
circunstancias imperiosas que tivessem justificado uma possível interrupção.
Esse colossal esforço, como tantas vezes acontece nos grandes empreendimentos, teve, porém, uma
modesta origem e levou largos anos para atingir o seu pleno desenvolvimento, Como é fácil de conjecturar,
tiveram as primitivas levadas uma feição bastante rudimentar, não somente quanto a construção dos
aquedutos, sua extensão e forma de fazer-se a captação das águas, como ainda com respeito ao modo de
proceder-se a irrigação das glebas e á condução e distribuição das mesmas águas. O tempo, as condições do
meio, a experiência é que ensinariam a maneira prática de usar-se com o maior aproveitamento as
vantagens que oferecia esse novo processo de fertilizar as terras.
Interessante seria determinar com relativa precisão os lugares que começaram a ser beneficiados com o
inapreciável beneficio das levadas, o que hoje se torna quási impossível, conjecturando-se que nas margens
da ribeira de Santa Luzia se achavam os mais antigos tractos de terrenos que aproveitaram com o novo
sistema de irrigação. Não andará muito distanciado da verdade quem o mesmo supuser acerca das terras
que marginam as ribeiras de Machico e de Câmara de Lobos nos pontos que limitam o litoral.
VII – Levadas Antigas –
Em mais de um lugar deste ligeiro estudo, temos procurado acentuar a
importância e a necessidade das levadas, mostrando não somente a sua antiguidade, que remonta ao tempo
da primitiva colonização, mas principalmente evidenciando o prodigioso esforço empregado na construção
dos respectivos aquedutos. Em reforço dessa afirmativa e como pormenor histórico digno de registo,
transcreveremos alguns trechos da narrativa do padre Gaspar Frutuoso que interessa a este assunto:
«Perto da fonte onde nasce a agoa desta ribeira dos Soccorridos, se tirou a levada della para moer o engenho
de Luiz de Noronha; e dizem que do logar donde a começaram de tirar até donde se começão a regar os
canaviais ha bem quatro legoas, por se tirar de tão grande fundura da ribeira em voltas, que para chegar
acima á superficie da terra e começar a caminhar atravessando lombos, fazendas e grandes rochedos por
cima pela serra por onde vai esta levada, tem de alto mais de seiscentas braças; da qual altura, que he muito
ingreme, se tira a agoa em cale de páo em voltas, até se pôr na terra feita, e sem falta custou chegar pola em
tal logar passante de vinte mil cruzados, fora o muito mais que fez de custo levada dali quatro legoas, alem
de muitas mortes de homens que trabalhavam nela em cestos amarrados com cordas pendurados pela
rocha, como quem apanha urzela; porque he tão alcantilada e ingreme a rocha em muitas partes, que não se
faziam, nem se podiam fazer doutra maneira estancias para assentar as calles, sem passar por estes perigos.
Tem duzentos e outenta lanços por onde vai esta agoa, que postos enfiados hum diante do outro terão hum
quarto de legoa de comprido: são de taboado de til, que pela mayor parte tem cada taboa vinte palmos de
comprido, e dous e meyo de largo; e depois de assentadas estas cales na rocha, fazem o caminho por dentro
dellas os levadeiros, que continuamente tem cuidado de as remendar e concertar, alimpandoas tambem da
sugidade e pedras que acontece cahir nellas, e fazer outras cousas necessarias á levada, pelo que tem grossos
soldos, por terem officio de tão grande trabalho e tanto perigo.
«Nesta rocha está huma furna grande que serve de casa para os levadeiros, e para guardar nella munições
necessárias de enchadas, alviões, barras, picões e marrões, e outras ferramentas; e nella se metem cada ano
dez e doze pipas de vinho para os que trabalhão na levada e outras pessoas que a vão ajudar e reformar,
quando quebrão alguns lanços de cales; e he cousa monstruosa a quem vê isto com seus olhos a estranha e
aventureira invenção que se teve para se tirar dahi esta agoa».
Como atrás ficou referido, existiam já várias levadas no século XV, mas as mais importantes datam do
século XVI. Duma destas, que inteiramente desapareceu, fazem menção as Saudades da Terra nos seguintes
têrmos, que merecem ser transcritos:
Para se regarem canas de assucar nesta villa e para o Caniçal, se tirou huma levada d'agoa de tão longe, que
do logar onde nace até a villa serão quatro legoas e meya ou perto de cinco, na qual se gastaram mais de cem
mil cruzados, por vir de grandes serras e funduras; e dizem que na obra della se furaram dous picos de
pedra rija, por não haver outro remedio. Raphael Catanho, genoes, com o grande spirito que tem, como
quase todos os estrangeiros e principalmente os desta nação, foi o primeiro que começou a tirar esta agoa, e
depois El-Rey a mandou levar ao cabo: e, pelo muito custo que fazia, já se não usa». Doutra, existente nas
margens da Ribeira dos Socorridos, já acêrca dela extractámos das Saudades alguns interessantes periodos.
Num relatorio enviado ao Governo Central em 1813 pelo Governador do arquipelago, se diz que «ha levadas
que custaram a seus donos dez, vinte e trinta mil cruzados e que despendem seis a sete na sua conservação
anual».
VIII – Propriedade das Águas –
Muitas foram as providencias adoptadas pelos governos da
metrópole acerca das águas da Madeira, sobretudo assegurando o uso e aproveitamento delas às terras
cultivadas. É importante e avultada a colecção de diplomas legislativos sobre este assunto, que abrange não
somente as disposições respeitantes à posse e direito das águas, como também á sua divisão e distribuição,
administração das levadas, etc..
O mais antigo diploma que se conhece respeitante a levadas, é uma carta do infante D. Fernando, expedida
em 1461, em que se determinava que houvesse dois homens ajuramentados, encarregados de repartirem as
águas. Esta carta está registada a folhas 207 do tomo I do Arquivo da Câmara Municipal do Funchal,
encontrando-se a folhas 222 do mesmo tomo uma outra, datada de 1485, em que se mandava «soltar as
águas aos domingos a todos os hereos».
Como as antigas levadas tem origem na região superior da ilha, convinha garantir a posse das águas às
terras da zona baixa onde existem as chamadas culturas ricas, sendo por isso que desde remotos tempos
deparamos com uma legislação especial, destinada a evitar o desvio dessas águas para fins diversos
daqueles para que tinham sido destinadas. Já uma carta de D. João I, transcrita noutra do rei D. João II,
datada de 7 de Maio de 1493, se determinava que nas fontes, tornos e olhos de água nenhum particular
pudesse ter nem adquirir direito nem domínio por título algum, e disposição idêntica se encontra no citado
diploma de D. João II, e ainda noutro do mesmo monarca, datado de 8 do mesmo mês e ano.
Na carta de 8 de Maio de 1493, lê-se o seguinte: «... Portanto mandamos a vós capitães, etc... que vindo
perante vós algum morador ou vizinho da dita ilha (da Madeira) implorando vosso oficio de juiz que é fazer
justiça às partes de que nós somos muito encarregado, e algum poderoso lhe impedir e proibir por sua terça
passasse e corresse levada que já em algum tempo fosse e corresse e que por alguma causa e acontecimento,
negligencia ou por danificação da levada deixasse de correr, vós e os que no oficio vos sucederem, ouvireis
com sua razão a queixa, e logo, sem mais delongas nem espírito nem figura de juízo, mandareis por a dita
levada no antigo primeiro estado, passagem e corrente, mandando notificar a esse tal poderoso que assim
impedir a dita levada, ao qual não ouvireis nem consentireis nem admitireis a alegar razão de direito em seu
favor, porque de tudo o hemos por excluído até que com efeito a dita levada corra e passe para diante,
mandando com pena de quinhentos cruzados não proíba nem impeça por si nem por outro correr e passar a
dita levada, na qual pena o hemos logo por incorrido, e será aplicada metade para cativos e metade para a
parte, e se porventura acrescer em contumácia o mandareis prender e emprasareis que no dia certo da
partida do primeiro navio que dessa ilha vier a dois meses apareça pessoalmente nesta nossa corte, a dar a
razão que teve para não obedecer ao que vós outros lhe mandastes em nosso nome. A carta de mercê do rei
D. Manuel, de 9 de Fevereiro de 1502, confirmou os diplomas anteriores referentes a águas na ilha da
Madeira, e a provisão de D. José I, de 5 de Março de 1770, deu nova força à doutrina jurídica precedente,
nos termos seguintes: «Faço saber a vós corregedor da comarca da ilha da Madeira, que Leandro Pereira de
Couto e Andrade, capitão de infantaria do Porto do Paul dessa ilha, me representou por sua petição que,
administrando vários vínculos consistentes em bens de raiz, em alguns nasciam varias fontes de água, que
juntas com outras de diversas fontes corriam para os moinhos da Fajã da Ovelha, e nos dias santos se
aproveitavam desta água algumas pessoas, vendendo-as, por não lhes ser precisas para regarem suas terras,
do que resultava dano ao suplicante, por não se poder utilizar daquela respectiva quantidade de água nativa
nas suas terras, pedindo-me fosse servido mandar se desse posse ao suplicante das águas respectivas ás suas
fontes. E visto o mais que alegou, e informação que sobre este requerimento me enviastes: Hei por bem e
vos mando que na conformidade da provisão do senhor rei D. João II, de 1493, que por copia vos remeto,
façais executar a divisão e repartição das águas, sem atenção alguma ao nascimento que tiverem, em terras
particulares ou a qualquer posse ou costume em contrario, declarando por abusivas as vendas e
aforamentos que se fazem das que se congregam na levada que se refere, por se deverem repartir pelos
moradores á proporção das terras que cultivam...»
O alvará de 19 de Outubro de 1562 cometeu aos donatarios a superintendência das levadas, devendo eles
manda-las tirar e limpar, e distribuir as águas mediante certo preço, mas de forma que nesta distribuição se
desse a preferência ás pessoas que possuíssem canaviais ou engenhos.
Em 1563, segundo se lê nas notas ás Saudades da Terra, foram expedidos três alvarás: um, para que, sob a
presidência do vereador mais velho da Câmara do Funchal, os vizinhos das ribeiras procedessem
regularmente á limpeza e fortificação delas; outro para que fossem cumpridas as anteriores provisões da
limpeza anual das levadas; e outro, para que, na distribuição das águas, precedessem os canaviais, sendo o
preço delas taxado em cada capitania pelo respectivo capitão donatario com «hua pessoa honrada &
comforme a quantidade e proveyto que fezessem».
A lei de 12 de Novembro de 1841 declarou em vigor a legislação sôbre águas e arvoredos relativa á ilha da
Madeira, mas o Código Civil com as suas disposições nem sempre claras veio, não dizemos invalidar, mas
tornar discutíveis certas prerrogativas de que desfrutavam as levadas. Foi somente depois da publicação da
lei de 20 de Abril de 1914 que essas prerrogativas foram reconhecidas para as levadas que tinham direitos
adquiridos á data da publicação do Código Civil, acabando-se assim com a situação embaraçosa em que se
encontravam muitas das mesmas levadas, motivada pela interpretação que os tribunais superiores estavam
dando aos artigos 438, 444 e 450 do citado Código.
«0 regimen jurídico, diz o Dr. N. F. Jardim no n.° 4 da Revista de Direito, a que as águas de regadio estavam
sujeitas na ilha da Madeira anteriormente ao Código Civil, acomodando-se ás condições locais e inspirando-
se no previdente propósito de fomentar e garantir a instituição das Levadas, como factor principal do
desenvolvimento agrícola da região, afastou-se inteiramente do direito comum, negando aos proprietários
do solo todo o domínio e posse nas nascentes cujo fluxo afluísse por acção natural ás ribeiras donde as
levadas se alimentassem.
Este regimen sancionado pelo uso constante de séculos, e por diversos diplomas legislativos, tais como a
conhecida carta de mercê de D. João II, de 7 de Maio de 1493, foi expressamente declarado em vigor pelo
art. 3.° da lei de 12 de Novembro de 1841, e em vigor permaneceu até que entrou em execução o Código
Civil, segundo o disposto no art. 5.° da lei de 1 de Julho de 1867.
«São categóricos e precisos os termos em que se exprimia aquela Carta de Mercê:
«portanto hemos por bem e nos praz que particular algum tenha direito, domínio nem accão nas fontes,
olhos e tornos de água que em suas terras nasceram. . . »
«Segundo o mesmo regímen, nem o princípio que hoje se consigna no art. 444, nem as restricções que o §
único do art. 438 põe á prescrição, eram aplicáveis na Madeira ás nascentes existentes em prédios de
domínio particular, cujas águas tivessem curso natural para ribeiras donde derivassem levadas, pois que
nenhum direito se reconhecia aos donos daqueles terrenos sobre as tais nascentes, e bastava para conferir
ás levadas o uso exclusivo de tais águas, o simples facto de naturalmente e sem artifício elas escorrerem
para essas ribeiras.
«Em tais condições, é manifesto que as levadas da Madeira, á data em que começou a vigorar o Código Civil,
não tinham necessidade de outro título para justificar os seus direitos adquiridos sobre quaisquer das
nascentes a que se alude, além da sua ocupação e posse efectiva da corrente para cuja formação as águas
destas nascentes contribuíam. E á prescrição baseada naquela posse não podia opor-se com razão a falta de
obras de arte nos prédios de que as aguas provinham, visto que tais obras nem eram precisas para
encaminhar para a ribeira águas que naturalmente e sem artifício a esta vinham dar, nem o direito secular
até então vigente, exigia semelhante condição para garantir o direito das Levadas, como deixamos
ponderado.
«Todavia, desde que o Código entrou em vigor, e á sombra duma interpretação literal dos artigos 438 §
único e 444, começaram diversos donos de prédios onde existiam nascentes nas condições referidas a
arrogar-se a livre disposição das águas respectivas, negando-se a reconhecer os direitos e posses, quasi
sempre seculares das levadas, quando estas posses não fossem assinaladas por alguma obra de arte
naqueles prédios, cousas que em rarissimos casos sucedia, pelos motivos que apontámos.
«A luta assim travada entre o proprietário do local da nascente e a levada, que ao abrigo do regímen
anterior recebia e possuía a água, deu lugar a uma infinidade de pleitos, em que as levadas foram
geralmente vencedoras nos tribunais da ilha, mas vencidas na instância superior, onde, por menos completo
conhecimento das circunstancias locais e do regímen especial de que temos falado, se perfilhou, e no
decorrer do tempo se foi mais e mais acentuando, doutrina contraria ás levadas e á manutenção das suas
posses e direitos adquiridos desde longa data.
«Daí resultou multiplicarem-se em toda a ilha as obras destinadas a desviar das ribeiras, de que eram
tributarias, as águas dos prédios adjacentes, e a conduzi-las para outros pontos, em proveito exclusivo dos
donos desses prédios e obras, e em detrimento das levadas, para as quais deste modo se ia
progressivamente reduzindo o caudal de que se abasteciam, a ponto tal que, se as coisas assim
continuassem, cedo ficariam secas muitas ribeiras, extintas as levadas que delas se alimentavam e
esterilisados os terrenos que fertilizavam».
A lei de 20 de Abril de 1914 veio apenas dar parcialmente remédio a essa situação anormal, pois que não
assegurava às levadas, de modo incontroverso, a posse das nascentes que têm origem em propriedades
alheias e que desde séculos, por um legitimo direito consuetudinários, eram inteiramente usufruidas pelas
mesmas levadas.
Foi somente o decreto de 14 de Fevereiro de 1931 que veio solucionar da forma mais precisa e mais
completa esse tão grave e momentoso assunto, pondo termo a varias questões, por vezes irritantes e sempre
prejudiciais, que extraordinariamente afectavam a vida normal dos agricultores e proprietários das terras
cultivadas. Apesar da extensão desse decreto e do bem elaborado relatório que o precede, daremos dele
desenvolvida notícia em uma das páginas seguintes.
Devemos acrescentar, para esclarecimento das providencias adoptadas com respeito ao regímen das águas
nesta ilha, que o decreto de 14 de Setembro de 1889 tornou extensiva á Madeira a lei de 6 de Março de 1884
e que o regímen hidráulico aplicado ao Continente do Reino pela lei de 1 de Dezembro de 1892 podia
também estender-se ás Ilhas Adjacentes, quando o poder executivo assim o julgasse conveniente.
Os recentes decretos n.°s 33.158 e 33.159, de 21 de Outubro de 1943, contém algumas disposições acerca da
posse e uso dos mananciais destinados a alimentar as levadas, que devem merecer as atenções dos
interessados.
IX – Situação jurídica –
A lei de 20 de Abril de 1914, acima citada apenas veio dar parcialmente
remédio a essa situação anormal, pois que não assegurava às levadas, de modo incontroverso, a posse das
nascentes que têm origem em propriedades alheias e que desde séculos, por um legítimo direito
consuetudinários, eram inteiramente aproveitadas pelas mesmas levadas. No entretanto, merece ser
transcrita neste lugar: «Artigo 1.° São mantidas ás entidades jurídicas levadas da ilha da Madeira os direitos
por ellas adquiridos á data da publicação do Código Civil, sobre certas e determinadas águas que derivam
das nascentes existentes em prédios alheios.
Art. 2.° As águas, porém, que hajam sido exploradas nesses prédios, pelos seus respectivos donos, a partir
daquela data tendo-as aproveitado em seu uso exclusivo e sem opposição das levadas, durante dois annos
pelo menos, consideram-se parte integrante dos prédios - em que tiverem sido exploradas, podendo, por
isso os respectivos donos dispôr d'ellas livremente.
Art. 3.° Os donos dos prédios sujeitos ao encargo das águas para as levadas, podem, a contar da publicação
da presente lei, explorar nesses prédios novos mananciaes de água que ahi se encontrem, dispondo d'estes
livremente.
§ 1.° Os donos dos respectivos prédios não poderão, contudo, iniciar ou continuar ali trabalhos de pesquiza
de águas sem que requeiram sejam intimadas as entidades jurídicas– levadas–para, na segunda audiência
posterior á intimação, se proceder á nomeação de peritos, nos termos do artigo 235 .° e seguintes do Código
do Processo Civil, a fim de, em vistoria, serem medidas as águas da levada e ser assegurada a esta a
quantidade de água a que tem direito.
§ 2.° A medição, de que trata o § 1.° far-se-ha antes das primeiras chuvas de Setembro e em Janeiro.
Art. 4.° Fica assim interpretado, com referência ao objecto da presente lei, o disposto nos artigos 432.°,
444.° e 450.° do Código Civil, e revogada a legislação em contrário.
O Ministro da Justiça a faça imprimir, publicar e correr. Dada nos Paços do Governo da Republica, e
publicada em 20 de Abril de 1914. Manuel de Arriaga–Manuel Monteiro.
Foi somente o decreto de 14 de Fevereiro de 1931 que veio solucionar da forma mais precisa e mais
completa esse tão grave e momentoso assunto, pondo termo a várias questões, por vezes irritantes e sempre
prejudiciais, que afectavam a vida normal dos agricultores e proprietários das terras cultivadas. A sua
importância e o esclarecimento que presta ao nosso assunto, leva-nos a trasladá-lo na integra, apesar da sua
extensão e bem assim o lúcido relatório que o precede, embora a sua doutrina fique já exposta com certa
largueza nas páginas precedentes.
«A configuração orográfica da Madeira, nos seus traços gerais, consiste em uma cadeia de montanhas
orientada no sentido leste-oeste, cujas vertentes se estendem para o norte e para o sul, em pronunciado
declive até o oceano, sulcadas de ribeiras onde se juntam e correm todas as águas das chuvas e das
nascentes que nestas vertentes afloram, formando o conjunto duas zonas de condições climatéricas
diversas: a do litoral, onde a população e as culturas mais valiosas se concentram, e a zona superior,
somente adaptada na sua maior parte á vegetação florestal.
Destas circunstancias locais peculiares resultou para os primeiros povoadores da Madeira a necessidade de
derivarem das ribeiras, a montante dos terrenos por eles ocupados, e conduzirem até estes terrenos, em
aquedutos adequados, as águas indispensáveis para a fertilização deles e para usos domésticos.
Foi esta a origem das «Levadas da Madeira», e porque elas foram assim uma resultante das imutáveis
condições naturais da região, evidente é que a mesma necessidade que determinou a primitiva fundação
destas instituições impôs no decorrer do tempo, e exige na actualidade, a conservação delas, como elemento
essencial para assegurar a continuidade da vida económica local, que toda se prende com a prosperidade da
agricultura.
O reconhecimento claro desta verdade provocou da parte do Estado, ainda no início da povoação da
Madeira, e por diversas vezes, posteriormente, providencias de carácter legislativo e administrativo
destinadas a garantir ás levadas a integridade dos respectivos caudais, derivados, como ficou apontado, das
correntes dos numerosos regatos e ribeiras que são uma feição característica da região, e acrescidos ainda
dos fluxos das nascentes que directamente afluem aos aquedutos em diversos pontos do seu percurso.
Estas correntes, na época do estio e das irrigações, são formadas pelas águas de nascente e minadouros
existentes nos terrenos marginais dos regatos e ribeiras, onde cada levada tem a sua origem, ou madre, e
cujo declive, mais ou menos abrupto e rápido, dá livre curso a essas águas para o leito dos regatos e ribeiras
subjacentes, no seu desenvolvimento de montante para jusante, resultando da junção destes fluxos e das
águas que escorrem para os aquedutos, no seu percurso, os caudais que as levadas recolhem e distribuem
para as necessidades agrícolas e domésticas da zona cultivada que os mesmos aquedutos abastecem.
E, como, na enorme maioria dos casos, os terrenos onde brotam as nascentes são de domínio particular
alheio, os diplomas legislativos a que aludimos, no justo e previdente propósito de acautelar os grandes
interesses que da conservação das levadas da Madeira dependem, criaram um regime jurídico excepcional
para esta região, que assentou fundamentalmente na denegação aos proprietários do solo de qualquer
direito nas nascentes cujo fluxo aflui por acção natural ás ribeiras donde estas levadas se alimentam ou aos
respectivos aquedutos.
Assim o decretou, entre outros diplomas, a carta de mercê de D. João II, de 7 de Maio, nos seguintes
termos:
«Portanto hemos por bem e noz praz e mandamos que particular algum tenha direito nem acção nas fontes,
olhos e tornos de água que em suas terras nascerem. . »
Segundo este regime, cuja vigência foi afirmada no artigo 3.º da lei 12 de Novembro de 1841, e, mais
recentemente ainda, na lei de 26 de Julho de 1888, que atribuiu personalidade jurídica ás levadas da
Madeira, tinham estas assegurado o uso das águas a que nos vimos referindo, sem necessidade de outro
título que não fosse a ocupação e posse efectiva das correntes para cuja formação elas contribuíssem, e sem
que á prescrição baseada em tal posse pudesse opor-se a ausência de obras de arte nos prédios donde as
águas provinham, visto que nem eram precisas obras para encaminhar para as ribeiras águas que a estas
vinham dar naturalmente e sem artifício, nem semelhante condição era exigida pela lei.
Manteve-se através de quatro séculos a situação jurídica que deixamos esboçada, e que tam eficazmente
protegia as levadas, facilitando-lhes a repressão dos intentos espoliadores com que por vezes se procurava
desviar, do seu curso, para outros fins e destinos, a corrente de alguma das ribeiras ou o fluxo de qualquer
nascente tributaria, em detrimento do caudal das levadas de jusante.
Esta situação mudou com a promulgação do Código Civil. Por efeito de interpretações demasiadamente
literárias dos artigos 444.° e 438.°, parágrafo único, do mesmo Código e do artigo 5.º da lei de 1 de Julho de
1867, que o aprovou, surgiu a ideia de que o antigo regime das levadas da Madeira fora incluído na fórmula
revogativa daquele artigo 5.° e que á sombra da lei nova podiam os donos de prédios onde existissem
nascentes nas condições supra referidas dispor livremente das águas respectivas, sem embargo de qualquer
posse das levadas, quando nesses prédios não houvesse obras de arte que a assinalassem nos termos do
citado artigo 438.°, § único.
Estas ideias traduziram-se logo em factos, iniciando-se em muitos pontos da ilha obras destinadas a divertir
das ribeiras, de que eram tributárias, as águas dos prédios adjacentes, e por vezes as próprias correntes
destas ribeiras, em proveito exclusivo dos donos desses prédios, e em prejuízo das levadas para as quais
deste modo se ia reduzindo progressivamente o caudal.
Iniciou-se deste modo uma luta de interesses que deu lugar a inúmeros pleitos, nos quais as levadas foram
geralmente vencedoras perante os tribunais da Ilha, mas vencidas nas instâncias superiores, onde, por
menos completo conhecimento das circunstancias locais e do regime especial de que temos falado, se
resolveu em sentido oposto ao direito por elas invocado.
Nas circunstancias angustiosas que ameaçavam de extinção as levadas da Madeira, e de inteira subversão
toda a economia local, foram dirigidas aos Poderes Públicos representações solicitando instante mente a
adopção de providencias legislativas que remediassem o mal, e o remédio foi dado na lei de 20 de Abril de
1914, em cujo artigo 1.° se dispôs o seguinte:
São mantidos ás entidades jurídicas–levadas da Ilha da Madeira–os direitos por elas adquiridos, à data da
publicação do Código Civil, sobre certas e determinadas águas que derivam das nascentes existentes em
prédios alheios.
Evidentemente, os direitos adquiridos pelas levadas da Madeira à data da publicação do Código Civil, e
assim mantidos, são os que lhes eram reconhecidos na lei anterior, isto é, no regime especial cujos
princípios basilares apontamos, a saber:
1.º Pertenciam às levadas todas as águas que provêm das nascentes existentes nos prédios alheios,
marginais das ribeiras de onde as mesmas levadas se abastecem, e que, pela disposição natural do terreno,
vinham juntar-se nos leitos destas ribeiras e formar a corrente captada e aproveitada por aquelas, bem
como as águas que no prolongamento dos aquedutos para estes escorressem;
2.°A aquisição deste direito não dependia da existência de obras de arte nos prédios alheios donde as águas
provêm, bastando para titular o direito das levadas a essas águas o facto de virem por mera acção natural
juntar-se e integrar-se na corrente das referidas ribeiras e acharem-se, por assim dizer, automaticamente na
posse das levadas.
Tais são os direitos que a lei de 20 de Abril de 1914 expressamente manteve no artigo 1.°, e implicitamente
no artigo 4.°, onde se declaram interpretados nos termos das novas disposições os artigos 438.º 444.º e
450.° do Código Civil, pois que o efeito jurídico e lógico do disposto no artigo 4.°, com relação ás águas de
que no artigo 1.° se trata não pode ser outro, senão o de bem acentuar que a aquisição dos direitos
ressalvados no artigo 1.° se não subordinaria às restrições estabelecidas naqueles artigos do Código Civil,
mas havia de regular-se pelos princípios que vigoravam à data da sua publicação.
Nem de outra forma se compreenderia a ressalva, feita no artigo 1.º, pois que seria um flagrante contra-
senso sujeitar direitos adquiridos, que declaradamente se pretende salvaguardar, às exigências de uma lei
posterior à aquisição no tocante ao título e modo desta.
Graças à lei de 20 de Abril de 1914, ficou em grande parte conjurado o perigo que ameaçava tam gravemente
os grandes e multíplices interesses que andam ligados às levadas da Madeira.
O decreto-lei n.° 5.787, de 10 de Maio de 1919, porém, que precipitadamente substituiu um novo regime das
águas ao que fora estabelecido no Código Civil, veio novamente por em risco aqueles interesses.
Considerando pois que, a bem dos interesses da agricultura madeirense, convém reafirmar e manter os
direitos adquiridos pelas levadas, nos termos do regime secular à sombra do qual foram adquiridos; e
Atendendo à representação feita ao Governo pela Associação de Agricultura da Madeira;
Usando da faculdade que me confere o n.°
2.° do artigo 2.° do decreto n.° 12:740, de 26 de Novembro
de 1926, por fôrça do disposto no artigo 1.° do decreto n.° 15:331, de 9 de Abril de 1928, sob proposta dos
Ministros de todas as Repartições:
Hei por bem decretar, para valer como lei, o seguinte:
Artigo 1.° São mantidos às levadas da Ilha da Madeira os direitos por elas adquiridos à data da publicação
do Código Civil, e ressalvados no artigo 1.° da lei de 20 de Abril de 1914, sobre as águas de que se abastecem,
provenientes de nascentes em prédios alheios.
Art. 2.° A posse de qualquer levada em determinadas águas que nasçam em prédios alheios, e por mera
acção natural se encorporem na corrente de que ela se abastece ou no caudal do respectivo aqueduto em
qualquer ponto do seu percurso, é suficiente para estabelecer o direito da mesma levada a tais águas, sem
necessidade nem dependência de qualquer obra de arte naqueles prédios.
Art. 3.° Os donos dos terrenos marginais de qualquer corrente de onde se abasteçam as levadas, ou dos
respectivos aquedutos, que à data da publicação do Código Civil tivessem direito a regar esses terrenos com
águas derivadas dessa corrente ou das nascentes que afluam aos ditos aquedutos, posteriormente o hajam
adquirido por modo legitimo, não poderão sob qualquer pretexto desviar tais águas para além dos mesmos
terrenos marginais, com prejuízo do beneficio que ás levadas advém das escorras e sobejos das irrigações
neles feitos.
Art. 4.° As pesquisas e exploração de nascentes nos prédios a que se refere o artigo 1.° ficam subordinadas
ao que sôbre o assunto dispunham os artigos 2.° e 3.° da lei de 20 de Abril de 1914, com a modificação de
que a medição de que tratava o parágrafo único do artigo 3.° far-se-há antes das primeiras chuvas de outono
e no fim de Fevereiro, em dois anos sucessivos.
Art. 5.° Quando das obras e explorações nos prédios referidos resulte diminuição no volume da água que
qualquer levada receba das nascentes dos mesmos prédios, serão os donos de tais prédios obrigados a
restabelecer aquele volume.
Art: 6.° As levadas da Ilha da Madeira, além do direito à passagem dos seus aquedutos pelos prédios alheios
na forma da lei geral, terão também o direito de acesso a estes aquedutos, podendo o pessoal encarregado
da conservação, limpeza e desobstrução deles pelas respectivas administrações, ou pelos «hereos», nas
ocasiões em que respectivamente caiba a cada um o uso da água, transitar ao longo dos mesmos aquedutos
pelas veredas ou caminhos laterais, conforme o antigo costume, sempre que tais serviços necessários sejam
para se assegurar o livre curso de água.
Art. 7.° Nos direitos assim reconhecidos às levadas inclue-se o de fazerem no prédio onde exista alguma das
nascentes referidas no artigo 1.°, e onde o aproveitamento dela o exija, os encanamentos necessários para a
condução do fluxo respectivo, pelo modo que menos incómodo for para o dono do prédio, e sem prejuízo de
que fica estabelecido no artigo 4.°.
Art. 8.° Fica deste modo interpretado, com referência ao objecto da presente lei, os dispostos nos artigos
99.° e § único, 102.°, 105.° e 145.° do decreto-lei n.° 5:787-III, de 10 de Maio de 1919, e revogada a legislação
em contrário.
Determina-se portanto a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução do presente decreto com
força de lei pertencer o cumpram e façam cumprir e guardar tam inteiramente como nele se contém.
Os Ministros de todas as Repartições o façam imprimir, publicar e correr. Dado nos Paços do Governo da
República, em 14 de Fevereiro de 1931.–ANTÓNIO OSCAR DE FRAGOSO CARMONA».
Como adiante se verá, o Decreto de 21 de Outubro de 1943 interessa particularmente ao assunto deste
capítulo e estabelece algumas novas disposições acerca da propriedade das águas de regadio da
administração das levadas.
Interessa sobremaneira a este assunto o valioso trabalho jurídico do Dr. Guilherme Moreira intitulado Das
Aguas no Direito Civil Português e muito particularmente o largo capítulo n.° 21 dessa tão apreciada obra,
epigrafada Os direitos adquiridos sobre as aguas das nascentes e levadas na Ilha da Madeira, que é um
proficiente e consciencioso estudo, embora haja, porventura, de divergir-se de algumas das afirmações
daquele ilustre professor e abalizado jurisconsulto.
X – Adjudicação ou Venda das Levadas –
A ideia da concessão, adjudicação ou venda
das levadas do Estado a uma empresa particular, com a condição principal de se obrigarem os
adjudicatários á inteira conclusão da projectada rede desses canais de irrigação, surgiu na imprensa do
Funchal por 1882, não tendo, porém, encontrado eco no espírito publico e não aparecendo então nenhuma
empresa que tentasse obter essa concessão, apesar das vantagens que ela oferecia.
Em 1891, o engenheiro militar José de Ascensão Guimarães, associado com alguns proprietários
interessados na tiragem da levada do Coquim, pediu a concessão da exploração desse aqueduto, concluindo
a sua construção sem encargos para o Estado. Não teve deferimento este pedido, sendo desconhecidas as
condições em que ele foi feito.
Poucos anos depois, um grupo de lavradores e proprietários das freguesias do Caniço, São Gonçalo e Santa
Maria Maior, dirigiu uma representação ao Governo central pedindo a permissão de concluir a construção
da levada destinada a irrigar aquelas localidades, para o que dispunham da importância de quarenta contos
de réis, não sendo, porém, atendida a proposta que apresentaram.
Por 1893, o nosso patrício capitão Manuel Alexandre de Sousa pretendeu uma larga concessão das águas
desta ilha ainda não aproveitadas, destinando-as á agricultura e a usos domésticos e industriais, com a
faculdade de pesquisar e expropriar quaisquer nascentes e obrigando-se á conclusão das levadas dentro do
período de dez anos. Este pedido não teve seguimento.
Ao abrigo das disposições do decreto de 30 de Setembro de 1892, os engenheiros Carlos Roma Machado de
Faria e Maia e Anibal Augusto Trigo apresentaram em Junho de 1895 uma proposta ao Governo para a
conclusão e exploração das levadas do Estado, depois de terem procedido a um demorado estudo sobre o
assunto. «Obrigavam-se, diz um jornal do tempo, a concluir as levadas em construção no prazo de dois
anos. Cediam a favor do Estado o prémio de 10 p. c. sobre os capitais da primeira construção e instalação a
que se julgavam com direito, em virtude do art.° 1.° do citado decreto, e bem assim três quartas partes do
rendimento liquido excedente a 6 p. c. de todo o capital empregado na construção. Davam ao Governo a
faculdade de resgatar toda a concessão no fim de 15 anos, mediante a devida indemnização. Davam, por
último ao Governo a faculdade de estabelecer os preços da renda da água pela forma que julgasse mais
conveniente para a agricultura, obrigando-se ainda a não exceder o preço médio da hora de água em cada
concelho, preço que seria determinado em funções do giro e volume de água de cada levada. E como por
esta forma a receita não podia garantir o capital da empresa, os signatários dessa proposta pediam ao
governo lhes garantisse o juro de 6 por cento para todo o capital que se empregasse na conclusão das
levadas, devendo os orçamentos ser aprovados pelo Governo, e as obras fiscalizadas por agentes seus».
Também não obteve andamento esta proposta, apesar dos pareceres favoráveis que alcançou em todas as
estações oficiais por onde teve que transitar. Para isso concorreram a imprensa e a política partidária locais,
e talvez principalmente o requerimento do capitão Alexandre de Sousa, alegando os seus direitos de
prioridade com o pedido de concessão feito em 1893.
Requereram então os engenheiros Roma e Maia e Anibal Trigo que a concessão, a dar-se, se fizesse por
meio dum concurso publico. Promulgou o parlamento a lei de 21 de Maio de 1896, que consignava
expressamente o direito das levadas às águas que as alimentavam e autorizava o Governo a pôr em
concurso, segundo as bases anexas à mesma lei, a construção e exploração das levadas madeirenses. Esse
concurso foi aberto pelo decreto de 18 de Junho de 1896 com as bases e condições estabelecidas pela lei de
21 de Maio e com a observância das clausulas consignadas na portaria de 22 de Julho do mesmo ano. A 26
de Setembro de 1896, fez a adjudicação ao capitão Manuel Alexandre de Sousa, que oferecera o abatimento
de 70 p. c. sôbre a media final a que se referia o parágrafo único da base quarta, ao passo que os
engenheiros Roma e Maia e Anibal Trigo ofereceram apenas o abatimento de 21 p. c. Desde logo se afigurou
a muitos que o concessionário não poderia, em tais condições, observar todas as cláusulas do contrato. E
assim aconteceu. Tomou o adjudicatário conta da direcção das levadas, mas, passados quasi três anos, não
tendo procedido a quaisquer trabalhos de construção e vendo-se na impossibilidade de realizar as condições
do concurso, pediu e obteve a rescisão do contrato, passando novamente todos os serviços das levadas para
a Direcção das Obras Públicas do distrito a 22 de Junho de 1899. Um ano antes, tinha o visconde da Ribeira
Brava, deputado pela Madeira, apresentado no parlamento um projecto de lei para a venda das levadas, que
tem a data de 29 de Abril de 1898 e que chegou a ser aprovado na câmara dos deputados.
Ainda na vigência do contrato da concessão das levadas, se tinha o Governador Civil do distrito Dr. José
António de Almada, em oficio de 6 de Novembro de 1897, dirigido ao Governo, pedindo para este
arquipélago a aplicação do decreto de 1 de Dezembro de 1892, que criara um novo regímen hidráulico para
todo o país, e alvitrando a ideia da vinda a esta ilha dum técnico competente que emitisse parecer fundado e
consciencioso sôbre as vantagens ou desvantagens da aplicação dessa lei. Foi o ilustre engenheiro Adolfo
Loureiro encarregado de proceder a esses estudos, demorando-se alguns meses na Madeira e regressando
ao Reino em Abril de 1898. Foi de parecer que o decreto podia ter aplicação ao arquipélago madeirense,
depois de introduzidas algumas modificações, tendo em vista as especiais condições orograficas,
hidrograficas e climáticas desta ilha.
Em 1910, foi apresentado na Câmara dos Deputados um projecto de lei autorizando a venda das levadas e
aplicando o seu produto à conclusão das que estavam em construção e à tiragem de outras novas, mas esse
projecto ficou sepultado no seio das comissões.
No dia 11 de Fevereiro de 1916, os deputados visconde da Ribeira Brava, Dr. Carlos Olavo Correia de
Azevedo, capitão Américo Olavo Correia de Azevedo e capitão Manuel da Costa Dias apresentaram em
cortes três projectos de lei destinados a conceder a autonomia a Junta Agrícola, a reformar o chamado
contrato de colónia e a vender em hasta publica as levadas que o Estado possuía nesta ilha e que já então
estavam na posse da Junta Agrícola. Tal oposição se levantou na Madeira contra esses projectos, que não
chegaram a ser admitidos à discussão parlamentar.
XI–As Levadas Existentes–Existem na Madeira cerca de duzentas levadas, sendo muitas delas de pequena
importância e destinadas a irrigar limitados tractos de terreno. As de maior importância pertencem ao
Estado, destacando-se entre elas a do Rabaçal, que representa um trabalho gigantesco, e a chamada Levada
da Serra do Faial, que tem algumas dezenas de quilómetros de extensão. São também pertença do Estado as
levadas do Furado, Juncal, da Serra de S. Jorge, de S. Vicente e da Ribeira Brava.
Merecem especial referência, pelo seu valor e beneficio que prestam á agricultura, as levadas particulares
dos Piornais e de Santa Luzia, de todas as mais importantes, Nova do Curral e Castelejo, Madalena, Bom
Sucesso, D. Isabel, Moinhos, Hortas e outras, todas no concelho do Funchal,
Disseminadas por todas as freguesias da ilha existem inúmeras levadas, de maior ou menor importância,
conforme exigem as necessidades locais.
Em seguida, fazemos menção, discriminadas por freguesias, das levadas de que conseguimos obter noticia,
e acerca de algumas delas daremos conhecimento de diversos factos que interessam á sua historia.
Achadas da Cruz: Moinhos, Pereiras, Achada da Arruda, Terça, Lagos e Pico da Azeveda;
Gaula: Pico dos Eirós, Ribeira da Metade, Roda e Levadinha;
Machico: Nova, Rocha, Figueiras, Embarcadouro, Fonte da Velha e Alcanforados;
Madalena do Mar: Madre de Água, Palmeira, Banda de Além, Vargem, Nateiro e Passo;
Arco da Calheta: Rabaçal, Madre Grande e Paul;
Arco de São Jorge: Arco Pequeno;
Água de Pena: Juncal, Nova do Furado, Moinho da Serra, Nova e Lugarinho;
Boaventura: Lombo das Faias, Achada Grande, Levada Grande, Serrão, Lombo do Serrão e Barreira;
Calheta: Rabaçal, Raposo e Netos, Azenha e Levada Grande;
Camacha: Azenha, Pico do Arvoredo, Telha, Madre de Agua, Porto Novo, Ribeirinha e Salgados;
Câmara de Lobos: Nova, Braz Gil e Fontal Figueira;
Campanário: Roda e Madre de Água.
Canhas: Cruzes, Galego e Serra.
Caniço: Pico do Arvoredo, Baires, Azenha e Serra;
Curral das Freiras: Achada, Fonte Gordinho, Rocha e Rochão;
Estreito da Calheta: Rabaçal, Moinhos, Ribeiro do Farrobo, Nova e Ferreiros;
Estreito de Camara de Lobos: Estreito, Tis e Serra;
Faial: Cruzinha, Água de Alto e Queimadas;
Fajã da Ovelha: Rabaçal, Moinhos, Farrobo, Portela, Cova e Ribeira da Inês;
Paul do Mar: Rabaçal, Ribeira do Porto, Moinhos e Grande;
Ponta Delgada: Grande, Cabouco e Lombo;
Ponta do Pargo: Cabo, Lombada Velha, Ribeira da Vaca, Chiqueiro da Palha, Salão, Lombadinha,
Ponta do Sol: Lombada, Ribeira de São Tiago, Nova das Terças e Rateira, Ribeira do Alto e Serra;
Porto da Cruz: Furado e Castelejo;
Porto do Moniz: Moinhos, Serra, Lagoa, Santos, Poço Novo, Eira Velha, Morgado e Cabo do Calhau;
Prazeres: Rabaçal, Ribeira de Inês, Água do Povo e Ribeiro;
Monte: Cales, Pisão, Corujeira e Ribeira das Cales;
Amparo e Lombo;
Quinta Grande: Quinta Grande;
Ribeira Brava: Monte Medonho, Moinhos, Roda e Levadinha;
Ribeira da Janela: Nova, Lombo Gordo, Cedros, Baixo e Cima;
XII - Levadas do Estado –
Como se tem repetido, a captação desses benéficos e riquissimos
cursos de água com os importantes aquedutos que os conduzem, a que chamamos «levadas», foram da
Santana: Queimadas, Castanheira, Levadinha, Salto António, Velha e Cantinho;
Santa Cruz: Juncal, Nova do Furado, Roda, Levadinha, Morena, Moinhos e Almocreves;
Santa Luzia: Santa Luzia e Hortas;
Santo António: Curral e Castelejo, Madalena, Pico do Cardo, Lombo, Paredão, Negra e Serra;
Santa Maria Maior: Bom Sucesso, Palheiro do Ferreiro, Pico do Infante e Cabeço;
Santo da Serra: Juncal e Nova;
São Gonçalo: Farrobo, Hortelã e Represa do Pasto;
São Jorge: Velha, Nova e Asilo;
São Martinho: Piornais e Curral e Castalejo;
São Pedro: Moinhos e Ribeira de S. João;
São Roque: D. Isabel, Esperança, Santana e Laranjeira;
São Roque do Faial: Ribeiro Frio e Nova;
São Vicente: Ribeira Grande, Folhadal, Barros e Ribeira do Inferno;
Seixal: Chão da Ribeira, Serra de Água Farrobo;
Tabua: Monte Medonho, Vinháticos e Ribeira da Caixa.
iniciativa dos primitivos colonizadores, obra esta verdadeiramente notável que os seus herdeiros e
sucesssores souberam continuar sem interrupção e com a mais eficaz e deligente actividade no longo
período de quatro séculos. É certo que a acção do Estado se fez beneficamente sentir na inteira concessão
dos mananciais, no modo da sua administração e funcionamentos e ainda em diversos auxílios de ordem
material, que muito contribuíram para o progresso e desenvolvimento desse grande empreendimento, mas
a construção dos aquedutos com os penosos trabalhos que lhe estavam anexos eram realizados pelos
cultivadores das terras á custa do seu próprio esforço.
Breve se reconheceu que a iniciativa particular, era impotente para a realização de uma empresa de mais
larga envergadura de mais abundantes e benéficos resultados. Depois de prolongados anos de lutas, de
instantes solicitações e das mais acertadas informações ministradas pelas autoridades locais, conseguiu-se
finalmente que o governo da metrópole tomasse a resolução de aproveitar os ricos mananciais perdidos no
interior da ilha e procedesse à construção das grandes levadas que hoje fertilizam os terrenos de várias e
importantes freguesias.
Há pouco mais de um século que o governo central tomou o encargo da construção de algumas levadas, que
são presentemente os mais importantes e abundantes caudais de que se utiliza a nossa agricultura. Essas
levadas, dificilmente poderiam ser construídas por quaisquer empresas particulares, não só pela falta de
capitais, mas também de uma larga iniciativa por parte dos proprietários e lavradores. O Estado não tira das
receitas liquidas arrecadadas um rendimento compensador das avultadas quantias empregadas, mas a
valorização dos terrenos e o correlativo aumento do seu rendimento colectável, o crescimento da riqueza
pública, o progresso da indústria agrícola e das outras que com ela se relacionam, a abundância de produtos
destinados à alimentação pública, nomeadamente cereais e hortaliças, etc., justificam completamente o
empreendimento do governo na construção das levadas da Madeira.
Algumas das nossas levadas, tanto as do Estado como as particulares, pela sua grande importância e pelos
inapreciáveis benefícios que dispensam á agricultura madeirense, merecem que de modo particular nos
ocupemos delas, a começar pelas mais importantes de todas elas, as do Rabaçal, que constituem um factor
valioso na riqueza pública do vasto populoso concelho da Calheta.
São propriedade do Estado e por ele directamente conservadas e administradas as mencionadas levadas do
Rabaçal, e as da Serra do Faial, Juncal, da Serra de São Jorge, São Vicente e Ribeira Brava, da Ribeira do
Inferno, do Monte Medonho e do Furado.
XIII – Levada do Rabaçal –
O pitoresco lugar do Rabaçal fica situado no interior da ilha, em
uma altitude de mil metros acima do nível do mar. Dista cerca de 15 quilómetros da vila da Calheta a que se
acha ligado por uma boa estrada, construída há poucos anos. As águas aproveitadas no Rabaçal para a
alimentação das levadas como acima ficou dito são constituídas pelas fontes originárias da Ribeira da
Janela e várias correntes tributarias da mesma ribeira, que é o mais abundante curso de água de toda a ilha.
Estas fontes nascem no extremo ocidental do Paul da Serra, no centro dum circulo de montes de difícil e
longo acesso.
Certamente que desde os tempos primitivos da colonização devia aquela região ter atraído as atenções dos
primeiros povoadores, não só debaixo do ponto de vista das belezas naturais, mas ainda e principalmente
da riqueza daqueles ubérrimos caudais, que corriam inutilmente para o oceano. Não chegou até nós a
noticia de quaisquer tentativas que se houvessem feito nos primeiros quatro séculos, no sentido de serem
aproveitadas algumas daquelas águas.
Tem-se por vezes afirmado que datam do domínio filipino as primeiras tentativas feitas para o
aproveitamento das águas do Rabaçal para irrigação, mas não existe qualquer documento ou informação de
origem segura que inteiramente o confirme. Quando no ano de 1835, se iniciaram os trabalhos de
construção, encontraram-se evidentes vestígios de antigas explorações, que, segundo as mais acertadas
probabilidades, devem remontar-se ao terceiro quartel do século XVIII.
Com esta afirmativa, se relaciona muito de perto o seguinte interessante oficio do governador e capitão-
general da Madeira João António de Sá Pereira, barão de Alverca, dirigido ao sargento-mor e engenheiro
Francisco de Alencourt e datado de 8 de Outubro de 1768: –«Logo que Vm.
ce
receber esta partirá com o
ajudante-engenheiro Francisco Salustiano da Costa em direcção á vila da Calheta, onde deve procurar o Dr.
Francisco Cristovão de Ornelas e Vasconcelos e na ausência deste ao Juiz Ordinário da mesma vila, de quem
adquirirá saber qual é a pessoa a quem o Desembargador Corregedor deixou encarregado de instruir a vossa
mercê nas noticias donde nascem as agoas declaradas no papel incluso; e passando aos sítios dellas
examinará vossa mercê a qualidade e quantidade das nascentes; o modo mais fácil de se poderem
aproveitar as agoas, fazendo-as passar aos campos chamados da–Cumiada–, e ás freguesias dos Canhas,
Arco da Calheta, Estreito, Prazeres, Fajã da Ovelha, Ponta do Pargo, e chegar até á do Porto do Moniz, ou
até onde for possível.
«E sendo tudo assim examinado, levantará vossa mercê huma planta de todos aquelles sítios, indicando
nella as nascentes de agoas, a distancia a que he possível conduzil-as, e as vias por onde devem passar.
«E para que se conheça o interesse que pode haver no aproveitamento das ditas agoas, fará vossa mercê
hum arbítrio e orçamento da despeza que se poderá fazer, e da utilidade que poderá resultar de se
cultivarem as terras d'aquellas freguezias, regadas com semelhantes águas, regulado tudo conforme a
qualidade e producção das mesmas terras e preços dos fructos, e mais viveres desta ilha».
Com data de 31 do referido mês e ano, dirigiu o mesmo barão de Alverca uma larga exposição ao ministro e
secretario do Reino acerca dos inapreciáveis benefícios resultantes desse empreendimento, citando as
celebres cartas regias de D. João I, D. João II e D. Manuel, ás quais mais largamente nos havemos já
referido no decurso deste despretensioso estudo.
Há mais de um século (1835), dizia-se em um documento oficial que a levada do Rabaçal «terá sua origem
nas primeiras nascentes da Ribeira da Janela; circulará por uma grande covoada engrossando sempre até á
Rossada por espaço de 192 braças; daqui prossegue em 310 braças de sul-sudoeste e nor-nordeste; donde
correrá com mais 120 braças para oes-doroeste: daí no rumo sul-sudeste passará a outro grande recôncavo,
em cujo circulo se contam 432 braças até Ligarte. Então se encaminhará para o norte por espaço de 432
braças, saindo por les-sudeste a outra cavidade de 120 braças até o Pico Gordo, seguem-se mais 252 braças
pelo lombo da Aveira até o Pico do Cotum, onde romperá para a Calheta pelas Estrebarias e crescem mais
49 braças, o que tudo soma 1963 braças.»
José Maria da Fonseca orçou os trabalhos de construção da levada até o monte das Estrebarias em cerca de
20 contos de réis, importância muito avultada para aquela época. Já anteriormente, em 1819, o governador
e capitão general D. Sebastião Xavier Botelho, em oficio dirigido ao governo central, pedia com instância a
construção duma levada, propondo que «se fizesse um adiantamento da real fazenda, pagando-se depois
por uma prestação anual sobre os moradores das terras, que aquelas águas regarem, ficando-lhes depois
pertencendo de propriedade, conforme o plano que melhor convier».
Julgamos terem resultado infrutíferas todas essas diligências, porque em 1830, o capitão António Jacinto de
Faria Andrade de Bettencourt pediu ao governo da metrópole, sob certas condições, a propriedade das
águas do Rabaçal, para as explorar por conta própria e proceder á construção das respectivas levadas.
Parece que, em 1834, quando o governador e capitão general da Madeira D. Álvaro da Costa de Sousa
Macedo deixara o governo, tinha já, em virtude de ordens superiores recebidas anteriormente, ordenado o
começo dos trabalhos de exploração daquelas águas, mas que a incerteza dos tempos e os acontecimentos
políticos do país não deixaram talvez iniciar. Foi ao seu sucessor, o ilustre Luís da Silva Mousinho de
Albuquerque, que coube a glória de haver dado princípio aquelas gigantescas obras, talvez as mais
importantes que em toda a ilha se têm realizado.
Esses trabalhos começaram em 1835 e prosseguiram durante alguns anos, mas com bastante lentidão,
tendo sido interrompidos por 1844. Se devemos a Luís Mousinho o inicio da obra, a José Silvestre Ribeiro
devemos o notável incremento que ela tomou no período decorrido de 1847 a 1852. Pode afirmar-se sem
receio de contradita, que, se não foram os titânicos esforços empregados por Silvestre Ribeiro, não teriam
talvez tido prosseguimento as obras do Rabaçal ou só muito tardiamente se conseguiria o seu total
acabamento.
Ao tomar José Silvestre Ribeiro conta da administração do distrito em 1846, volveu sem demora as suas
atenções para aquela gigantesca obra, compreendendo as enormes vantagens que resultariam para a
agricultura do vasto concelho da Calheta com a conclusão desse grandioso empreendimento. Mas só em
1849, sendo deputado pela Madeira e alcançando do governo da Metrópole o subsidio anual de seis contos
de réis destinado aquelas obras até o seu completo acabamento, é que elas prosseguiram com notável
rapidez, tendo-se concluído o perfuramento do molete das Estrebarias a 5 de Novembro de 1850, que era a
parte mais arriscada e de mais difícil execução de todo o projecto. Com esse impulso que lhe imprimiu a
mão de Silvestre Ribeiro, lá foram os trabalhos prosseguindo pelos anos fora, com maior ou menor lentidão,
até que por 1890, ao acabar-se a levada nova, se deram as obras por definitivamente concluídas.
Devemos fixar aqui uma data imemorável na historia das obras do Rabaçal–a de 16 de Setembro de 1855–
em que as águas atravessando pela primeira vez o túnel das Estrebarias, passaram do norte para o sul da
ilha a fertilizar vastos terrenos que se achavam incultos.
Os primeiros trabalhos realizados no Rabaçal no ano de 1835 foram orientados pelo próprio governador
Luís Mousinho de Albuquerque, que era um distinto engenheiro e que no próprio local das obras procedeu a
diversos e importantes estudos. Dirigiu todos os trabalhos desde o seu começo até o ano de 1843 o
engenheiro Vicente de Paula Teixeira, que revelou sempre o maior zelo e dedicação por aquele
empreendimento e a ele prestou serviços muito assinalados, deixando o seu nome vinculado àquelas obras.
No período decorrido de 1843 a 1847, estiveram elas sob a direcção do tenente-coronel de engenheiros
Manuel José Júlio Guerra.
Foi em 1847 que o capitão de engenharia Tiberio Augusto Blanc foi encarregado de dirigir aqueles
trabalhos, sendo o mais valioso auxiliar que José Silvestre Ribeiro encontrou para dar-lhes o incremento
que eles tomaram nos anos de 1847 a 1851. É também um nome que anda intimamente ligado à história das
obras do Rabaçal e que não deve ficar em vergonhoso esquecimento. Outro nome que é preciso lembrar
nesta ocasião é o do brigadeiro António Rogerio Gromicho Couceiro, que foi director das obras publicas
deste distrito e depois benemérito governador civil da Madeira. Foi sob a sua direcção que pela primeira vez
as águas atravessaram a galeria subterrânea das Estrebarias, passando do norte ao sul da ilha.
No decurso das obras, cuja realização levou mais de meio século, sofreram elas várias modificações com
relação ao plano primitivo, conforme as circunstancias ocorrentes foram aconselhando. Para conduzi-las as
seu termo final, dispendeu-se a avultada soma de quasi 186 contos de réis, mas o grandioso
empreendimento aí está a atestar eloquentemente o que valem o zelo, a dedicação e o amor de alguns
homens pelas prosperidades e bem estar da nossa terra.
Como se sabe, são duas as levadas do Rabaçal - a Levada velha e a levada nova–regando a primeira as
freguesias dos Prazeres, Fajã da Ovelha, Ponta do Pargo e Paul do Mar, e a segunda as freguesias da
Calheta, Estreito da Calheta e Arco da Calheta. Cada uma delas tem na sua origem, no tempo da estiagem,
um fluxo continuo aproximado de 80 litros por segundo e dividem-se ambas em seis ramais para o efeito do
regadio, tendo no ano de 1906 distribuído 2580 horas de água.
As obras da levada velha, que só acabaram em 1860, custaram ao Estado a quantia de 69:369$420 réis; as
da levada nova que, como já dissemos, só ficaram definitivamente concluídas em 1890, importaram em
116:208$480 réis. Esta ultima levada é alimentada pelas águas das Vinte e Cinco Fontes e da Fonte do
Cedro, e o túnel onde as mesmas águas passam foi principiado em 1863 e acabado em 1877.
XIV - Levada da Serra –
A mais extensa das levadas do Estado e a mais importante de todas,
depois das do Rabaçal, é a chamada levada da Serra ou mais propriamente da Serra do Faial, por ter a sua
origem em vários mananciais que nascem nas serras daquela freguesia. Desde o seu ponto de partida até o
Lombo da Raiz, correm em comum as suas águas com as de outras levadas, mas deste ponto até ao sítio da
Choupana são conduzidas em aqueduto próprio, numa extensão não inferior a trinta quilómetros. Da
vereda que margina esta levada se descortinam variados e surpreendentes panoramas, através das
freguesias de Santa Maria Maior, Camacha e Santo da Serra, sendo passeio obrigado para muitas das
pessoas que desejam conhecer algumas das belezas naturais desta ilha.
Destina-se esta levada a fertilizar os terrenos do Caniço, São Gonçalo e Santa Maria Maior, sendo bastante
antigas as tentativas que se empregaram para abastecer aquelas freguesias de águas destinadas á irrigação.
Por iniciativa de alguns particulares, diz o citado trabalho do engenheiro Adriano Trigo, organizou-se no
ano de 1830 uma companhia por acções, denominada Sociedade da Nova Levada do Furado, com o fim de
aproveitar as águas que corriam perdidas na ribeira da Lage, situada na freguesia do Faial, e canaliza-las até
o Pico do Infante, para serem distribuídas por aquelas freguesias. Os estatutos desta sociedade, aprovados
em 21 de Março de 1840, davam-lhe direito de captar as referidas águas e de as conduzir até o Lombo da
Raiz pelo canal comum das levadas do Juncal e Furado, que o Estado já a esse tempo possuía. Dali até o
Pico do Infante, seriam as águas trazidas através dum novo aqueduto construído a expensas da mesma
sociedade. Por dificuldades financeiras e também por erros graves de nivelamento, a empresa não realizou o
fim que se propusera, tendo dispendido nos trabalhos executados cerca de quarenta e dois contos de réis,
quantia já avultada para aquela época. Apenas conseguiu, aproveitando os aquedutos das levadas do Furado
e do Juncal, conduzir algumas águas até ao concelho de Santa Cruz, que ficaram constituindo a chamada
Levada dos Accionistas.
Depois de muitas dificuldades, tomou o governo central a iniciativa de proceder á construção duma levada
que abastecesse de águas de irrigação as freguesias do Caniço, São Gonçalo e Santa Maria Maior. Iniciaram-
se os estudos e trabalhos preparatórios no ano de 1861, sendo verdadeiramente notáveis os esforços e
diligências que se empregaram para o frutuoso prosseguimento desses trabalhos. Foi a partir do ano de 1871
que as obras tomaram mais incremento, realizando-se a sua definitiva conclusão no ano de 1905. Nos dias
25, 26 e 27 de Setembro deste ano, começaram as águas a atravessar o extenso aqueduto, realizando-se no
último daqueles dias a inauguração oficial e solene daquele tão importante e notável melhoramento.
Para melhor esclarecimento do que fica referido, convém dizer que as águas desta importante levada
destinada a irrigação dos terrenos das freguesias do Caniço, São Gonçalo e Santa Maria Maior vem em
comum com as águas das levadas do Juncal e Nova do Furado até o sítio do Lombo da Raiz, na freguesia do
Santo da Serra, e que a partir deste ponto o manancial corre em aqueduto próprio até o seu terminus no alto
do Caminho do Meio.
XV – Outras Levadas do Estado –
Uma das levadas das mais antigas pertencentes ao Estado
foi adquirida por contrato celebrado no ano de 1822 entre o primeiro conde de Carvalhal e a Junta da Real
Fazenda, em virtude do qual ficaram reservados àquele titular nove dias de água de um dos ramais da
mesma levada, que hoje (1921) é desfrutada pelos herdeiros do general D. Luís da Câmara Leme, sobrinho
do referido Conde de Carvalhal. É alimentada com os mananciais que correm no Ribeiro Frio e destina-se à
irrigação da freguesia do Porto da Cruz. Tem 8 quilómetros e meio de extensão e termina no sítio dos
Lamaceiros, sendo aí apartadas as suas águas das levadas do Faial, Accionistas e Juncal, com as quais
correm em comum até esse local.
É este aqueduto alimentado pelos mananciais do Ribeiro Frio, tendo, por uma medição realizada por 1910,
um fluxo de 40 litros por segundo, e destina-se à irrigação, em dois ramais, da freguesia do Porto da Cruz.
A levada do Juncal é talvez tão antiga como a do Furado e foi construída a expensas do Estado desde as
primeiras explorações das suas nascentes. São estas tomadas na ribeira do Juncal e correm em comum com
as do Furado numa grande extensão, fazendo-se a separação delas na caixa divisória existente no sítio dos
Lamaceiros e seguindo dali até o sítio do Lombo da Raiz, donde são desviadas para a irrigação das
freguesias de Santo António da Serra, Água de Pena e Santa Cruz. Mede 15 quilómetros e meio de extensão
desde a sua origem até ao sítio do Lombo da Raiz, na freguesia do Santo da Serra. Tinha a levada do Juncal
o abundante fluxo de 92 litros por segundo, e era aplicada à irrigação em um só ramal, constituindo o mais
farto caudal de toda a ilha no uso das regas.
Outra levada pertencente ao Estado é a da Serra de São Jorge, que irriga as freguesias de São Jorge, Santana
e Faial e tem sua origem no sítio do Pé dos Poios, na serra da primeira destas freguesias. É de recente
construção e veio substituir a levada da Fajã dos Vinhaticos. Esta foi construída no período decorrido de
1860 a 1904, sendo abandonada neste ultimo ano e então substituída pela da Serra de São Jorge. É de 11
quilometros a sua extensão.
Esta levada, apesar do nome, pouco ou nada aproveitava à freguesia de São Jorge, porque a quási totalidade
do seu caudal se destinava a irrigação das freguesias de Santana e do Faial, mas, no ano de 1938, a Junta
Geral, utilizando algumas nascentes abandonadas, fez construir mais um «ramal» dessa levada, que fertiliza
os terrenos do chamado sítio da Ilha, beneficiando largamente toda aquela região.
E também pertença do Estado a levada de São Vicente e Ribeira Brava, destinada a irrigar estas freguesias.
A levada do Monte Medonho, que nasce neste sítio nas serras de São Vicente, fertilizava esta freguesia,
tendo sido em 1908 desviada do seu primitivo destino e aplicada á irrigação das freguesias da Ribeira Brava
e Tábua. Para substituir o caudal do Monte Medonho, se construiu um novo aqueduto, que tem o nome de
levada da Ribeira do Inferno, sendo assim chamada por ter origem na ribeira deste nome, e que abastece a
freguesia de São Vicente.
Em uma comunicação emanada da Junta Geral, lê-se que nos últimos três anos (1938-1940) se tem feito
muitos quilómetros de aquedutos novos especialmente nas freguesias do Caniço, São Gonçalo e Santa Maria
Maior e também se construiu um importante «ramal» que conduz água para a freguesia da Ponta do Pargo
e em uma extensão superior a dois mil metros.
Há aproximadamente 50 anos que se iniciou a construção da levada chamada do Coquim, que se destinava
a irrigar os terrenos das freguesias da Boaventura e Ponta Delgada, tendo-se dispendido nesses trabalhos
cerca de treze contos de réis e julgando-se então que com mais de dez contos se dariam por ultimadas todas
as obras. Seria um canal de dois a três quilómetros de extensão, mas de capital importância para os terrenos
fertilissimos da ultima daquelas freguesias. Os trabalhos ficaram inteiramente interrompidos cinco ou seis
anos depois de começados.
XVI – Levadas Particulares –
Como atrás ficou dito, já no ultimo quartel do século XV
existiam várias levadas, que conduziam abundantes mananciais, principalmente destinados a agricultura da
cana de açúcar. Pode, porém, afirmar-se que as mais antigas levadas são contemporâneas das primeiras
explorações agrícolas. As mais importantes dessas levadas, algumas das quais ainda existem, datam, porém,
do século XVI.
As primeiras explorações de águas e construção dos respectivos aquedutos foram empreendidas pelos
primitivos colonizadores á custa do próprio esforço e, através do tempo, a iniciativa particular teve sempre
uma acção muito importante na tiragem e conservação das levadas.
Uma das mais antigas e a mais importante das levadas particulares é a de Santa Luzia, assim chamada por
se alimentar das águas da ribeira deste nome. Existe registado no arquivo da Câmara do Funchal um alvará
régio de 1515, em que D. Manuel ordena que de futuro não fosse mudado o curso da mesma levada. Numa
comunicação dirigida em 1813 ao Governo da Metrópole pelo Capitão-General e Governador do
arquipélago, se encontram algumas notas descritivas desta levada, dizendo-se que ela tem sua origem numa
alta serrania que tem os nomes de Terreiro das Galinhas e Terreiro de Água, e dista duas léguas da cidade. A
estas fontes se juntaram depois a do ribeiro dos Frades e mais adiante a do Pisão, engrossando sobretudo o
caudal as abundantes nascentes dos Tornos, além de muitos outros mananciais que se precipitam na
mesma ribeira. Toda a água se dividia em duas partes, sendo uma destinada aos moinhos e a outra
constituía a Levada de Santa Luzia. No mesmo documento, se afirma que «no princípio do encanamento
recebe 250 polegadas quadradas de água e que a sua extensão desde aquele ponto até ao Socorro é de 2130
braças». O curioso documento do ano de 1515, a que acima se faz referência, é concebido nos seguintes
termos: «Nós El-Rei fazemos saber a vós bacharel Ruy Pires, juiz de fora por nós, com alçada em a nossa
cidade do Funchal e aos officiaes da câmara da dita cidade, que nós soubemos ora que uma levada que os
Balthazares e outros hereus teem na ribeira de Santa Luzia, a queriam levantar mais acima do que estava, o
que é em muito prejuízo e damno da dita cidade e da limpeza d'ella e contra a defeza que temos posta que
nunca em nenhum tempo na dita ribeira se fizesse innovação, mais do que havia a tempo que fizemos mercê
d'aguas da dita ribeira á dita cidade, e por que nós não havemos por bem que a dita levada se mude nem
faça n'ella nenhuma innovação, vos mandamos que tanto que este vos for apresentado, mandeis da nossa
parte aos ditos Balthazares e hereus a que pertence, que não bullam coisa alguma com a dita levada, nem a
mudem donde soia estar, sob pena de a perderem para nós, e nós juizes e officiaes consentindo-lho
havemos nós por condemnada em pena de cincoenta cruzados, e se na dita levada alguma mudança é feita,
logo a fazei tornar ao ponto e estado em que antigamente estava, e vós juiz fazei de tudo isto que assim
mandamos fazer um auto e trasladar este no livro da Câmara da dita cidade para em todo o tempo se saber
como isto assim mandamos e defendemos e avizamos-vos por nossa carta que n'isto fiqueis, e este alvará
ficará em vossa mão, e cumprio-o assim, feito em Almeirim aos vinte e dois dias do mez de fevereiro,
Damião Dias o fez de mil quinhentos e quinze, não faça duvida onde diz ditos e riscados annos por que o fiz
por verdade, o qual tanto que foi trasladado logo foi entregue e dado ao dito bacharel Ruy Pires juiz de fora
e o concertei com o próprio eu Affonso Eannes que o escrevi». (L.° 1.º do Registo Geral , fls 116, v.)
Acerca da ribeira de Santa Luzia e das levadas que ela alimenta e referente ao ano de 1866, encontramos
algures que ela tinha então o fluxo de 185 litros por segundo e abastecia as levadas de Santa Luzia, Moinhos
e Dona Isabel, cujas águas vinham em comum até o sítio da Fundoa de Cima, em S. Roque, onde tinha a sua
embocadura a última dessas levadas. Do sítio da Fundoa, as águas seguiam conjuntamente até á Ribeira das
Cales e aqui se dividiam em duas partes iguais e formavam as levadas dos Moinhos e de Santa Luzia. Nessa
época, a medição acusava 19,5 litros para a levada de Dona Isabel e 83 para cada uma das outras duas. Em
uma medição a que se procedeu no ano de 1901, vemos que o caudal comum das três levadas era de 153
litros por segundo, cabendo 63 á de Santa Luzia, 55 à dos Moinhos e 34 á de Dona Isabel. Depois da de
Santa Luzia, uma das mais importantes e antigas levadas particulares é a dos Piornais, que nasce na
margem esquerda da ribeira dos Socorridos e é destinada á irrigação das freguesias de São Martinho e São
Pedro. Vimos algures que a tiragem desta levada foi empreendida por Luís Doria Velosa, o qual morreu no
ano de 1546. Com referência a esta e ás levadas do Castelejo e da Ribeira dos Socorridos, se encontra
tombado no arquivo da Câmara desta cidade um diploma régio de 1562, em que D. Catarina mandava que
elas «se tirassem e limpassem» no tempo próprio á custa dos heréus e senhorios.
Em uma interessante «Memoria» publicada no «Diário de Notícias» do Funchal, de 4 de Dezembro de 1921,
lê-se que «a levada dos Piornais tem a sua origem nas vertentes que formam a Ribeira dos Socorridos e as
primeiras obras de arte encontram-se na freguesia do Curral das Freiras, sítio da Fajã dos Chiqueiros, entre
as Ribeiras do Cidrão e a do Gato, concelho de Câmara de Lobos, a quinze quilómetros da cidade do
Funchal, onde se dividem as águas em dois volumes iguais, entre esta Levada e a Nova do Curral e
Castelejos, em harmonia com o disposto na escritura de transacção entre as duas, de 13 de Fevereiro de
1896, do notário Alexandre Baptista Pereira. Segue, depois, o seu curso recolhendo várias nascentes numa e
noutra margem da Ribeira dos Socorridos, até que entra na sua madre ou açude, da margem esquerda da
dita ribeira, no sítio da Fajã do Poio, freguezia de Santo António, concelho do Funchal. A cerca de cinquenta
metros, no sítio do mesmo nome, está construída a caixa divisória da água, entre as Levadas Nova de
Câmara de Lobos e a dos Piornais, em conformidade com a escritura de 19 de Dezembro de 1898, do já
referido notário, em que a primeira recebe uma sétima parte da água e a segunda as seis sétimas partes
restantes».
Acerca dessas levadas, são bastante interessantes as informações que nos dá o ilustre comentador das
«Saudades da Terra», que vamos transcrever: «Nesse período (princípio do século XVI), as principais
levadas gerais ou comuns da ilha da Madeira, arterias por onde, desde então até agora, apesar de já
deturpada a instituição, circula abundante o sangue da sua vida agrícola, o precioso filtro da sua abastança e
constante rejuvenescimento. Já no anno de 1515 existia a levada de Sancta Luzia, suburbios ao norte do
Funchal; por um alvará desse anno (Arch. da Cam. do Funchal, tomo I fls. 116 v.) mandou D. Manoel que de
futuro ela não fosse mudada. Por outro, de 26 de septembro de 1562 (ib. idem, tombo velho, fls. 135),
determinou a rainha D. Catharina, regente em nome de D. Sebastião que as levadas da Ribeira dos
Soccorridos, dos Piornaes, e do Castellejo, a oeste do Funchal, se tirassem e limpassem no devido tempo, á
custa dos hereos e senhorios, sendo a despesa adiantada pelo cofre da alfândega, até a quantia de 120$000
reis: e por outro, de 19 de outubro do mesmo anno (liv. II do registo da Provedoria, fls. 185), generalisou
análoga disposição a todas as demais levadas, «bisto se perderem muytas canas daçuquar e deixarem de se
prantar outras por se nom tirarem e limparem as levadas em tempo», e commetteu aos donatarios a
superintendência dellas, tanto para esse fim, como para «tirar novas levadas ou muda-las, destribuir» as
águas mediante certo preço de «preferência as pessoas que tevessem canaviaes ou engenhos», e tomar
«conhecimento das demamdas sobre esso, decidimdoas, e dando apellaçom e agravo». E, finalmente, o
cardeal D. Henrique, regente em nome do mesmo D. Sebastião, mandou expedir três alvarás em 1563: um,
para que, sob a superintendência do vereador mais velho da Câmara do Funchal, os vizinhos das ribeiras
procedessem regularmente á limpeza e fortificação dellas; outro, para que fossem cumpridas as anteriores
provisões da limpeza anual das levadas; e outro, para que, na distribuição das águas, precedessem os
canaviaes, sendo o preço dellas taxado em cada capitania pelo respectivo capitão donatario, com «hua pesoa
honrrada, conforme a quantidade e o proveito que fezesem».
– Os dois primeiros alvarás estão registados no Arch. da Cam. do Funchal, tombo velho, fls. 117; e tomo II,
fls. 75; o terceiro consta ter sido, lançado no livro III da Provedoria, fls. 99».
Merece igualmente uma especial referência a levada chamada de D. Isabel, também conhecida pelo nome de
levada da Fundoa, que irriga vários terrenos das freguesias de S. Roque, São Pedro e Santa Luzia. Não se
sabe ao certo quem foi esta D. Isabel que lhe deu o nome, mas parece pertencer à família do morgado João
Paulo Esmeraldo, que há um século era o único proprietário da mesma levada. Tendo vários proprietários
realizado obras importantes nesta levada e aumentado consideravelmente o respectivo caudal, constituiu
uma associação de heréus, por escritura publica de 5 de Abril de 1825, pertencendo hoje este aqueduto a um
avultado numero de lavradores e proprietários.
A Levada do Bom Sucesso teve seu começo no ano de 1855 com pequeno caudal e um insuficiente aqueduto.
Foi pelos fins do século passado e nos primeiros anos do século actual que se construiu a «caixa geral»
dessa levada e se fez a aquisição do montado» dos Lourais. Por 1910 ou pouco depois, foram adquiridos
novos e importantes mananciais.
É bastante antiga a Levada dos Moinhos e tinha já um importante caudal no tempo dos primeiros
donatários, emprestando a força motriz para fazer mover as muitas azenhas que ao longo dela se
encontravam e que eram propriedade dos mesmos donatários e constituíam um dos seus melhores
rendimentos de que então gozavam.
Passaria por diversas fases o seu aproveitamento, encontrando-se acerca dela esta noticia relativa ao ano de
1855: «A água da Levada dos Moinhos destinada para a limpeza desta cidade e regas, em todos os dias que
ha direito a dispor delas, tem a distribuição que a comissão administrativa da mesma levada adotou e é a
seguinte: das seis horas da manhã até ás duas da tarde é aplicada á limpeza, de forma que todas as moradias
sejam limpas pelo menos duas vezes por semana, e os hospitais, quarteis e cadeias todos os dias possíveis.
Das duas horas da tarde até ás seis da manhã exclusivas, é aplicada a regas e distribuída por 153 hereus».
É ocasião oportuna de fazer uma rápida referência ás diversas questões que muitas vezes se levantaram
entre a Câmara Municipal do Funchal e a Comissão Administrativa da Levada de Santa Luzia, motivadas
pela necessidade de proceder-se ao abastecimento da cidade com boas águas potaveis, o que só podia
vantajosamente realizar-se com o manancial dos Tornos, que é uma das mais importantes nascentes que
alimentam a levada de Santa Luzia e dos Moinhos. De um caudal comum, a que pertencem os Tornos, se
bipartem os dois ramais que formam as referidas levadas, sendo a dos Moinhos propriedade da Câmara na
sua quasi totalidade. Para aproveitar-se o manancial dos Tornos, tinha o município que indemnizar a
«Levada de Santa Luzia», o que provocou largas discussões, vindo finalmente a realizar-se um acordo entre
aquelas duas entidades, no ano de 1912. A respectiva escritura encontra-se publicada integralmente no
«Diário de Noticias», do Funchal de 15, 16 e 17 de Julho de 1912.
Para servir de orientação e de base a esse acordo, nomeou a Câmara Municipal dois distintos engenheiros
com o fim de procederem ao estudo desse debatido assunto, os quais emitiram o seu autorizado parecer, do
qual vamos transcrever as conclusões a que chegaram:
«Sendo na estiagem o fluxo médio da levada de Santa Luzia de 63,l62 por 1", igual volume devia aproveitar
a Levada dos Moinhos, que partilha com aquella da água da ribeira n'uma caixa repartidora construída no
sítio das Calles, em volumes eguaes. Porém as medições realisadas na madre da Levada dos Moinhos
accusam um fluxo de 50,101 apenas por 1", o que denuncia uma perda importante de 13,124 ou 13,161
d'agua em fluxo contínuo, devida a infiltrações e evaporação, perda que provém exclusivamente da má
condução das águas desta levada no pequeno lanço existente a juzante da caixa repartidora e a montante da
sua entrada na canalização da cidade.
Admittindo, pois, para a Levada dos Moinhos o fluxo de 63,l62 por 1", e deduzido dele o de 39,120, (mais
do que é sufficiente para assegurar os differentes usos da Levada dos Moinhos no interior da cidade), vê-se
que ainda restará á Camara um volume importante d'agua ou seja um fluxo de 24,136 ou 24,142 por 1". Este
fluxo que deverá ser aproveitado fora da Levada dos Moinhos e a seu montante, servirá para farta
compensação da água a canalisar das nascentes dos Tornos, nascentes que acusaram apenas um fluxo de
17,124 por 1" em septembro de 1900, na mesma estiagem em que tiveram logar as medições a que nos
reportamos, das levadas referidas.
Do exposto se conclue, que ha margem para manter todos os serviços da Levada dos Moinhos no interior da
cidade, destinando uma parte importante do seu caudal para inteira compensação a fazer ás restantes
levadas derivadas da mesma ribeira, quando se faça a captação das nascentes dos Tornos. E esta
compensação em egualdade de volumes, será altamente favorável para estas ultimas levadas, pois
evidentemente o volume d'água das nascentes dos Tornos chega hoje bastante reduzido a essas levadas«
mercê das grandes e inevitáveis perdas por infiltração e evaporação no seu muito longo e caudaloso
percurso».
A par destas levadas muitos mananciais se foram aproveitando em toda a ilha com destino a irrigação,
sendo numerosos os aquedutos que se construíram para a condução e distribuição de águas. É certo que
muitas destas levadas são de um caudal pouco abundante e limitam-se a irrigar terrenos não muito
extensos, mas constituem sempre um apreciável factor de riqueza e de prosperidade para as localidades que
as possuem.
XXII – AS Aguas do Paul da Serra -
O planalto do Paul da Serra, único de certa extensão
que existe na Madeira, está situado a 1500 metros de altitude e mede cinco quilómetros e meio de
comprimento na direcção leste a oeste e pouco mais de três quilómetros na sua maior largura. A sua
importância relaciona-se de perto com os serviços de irrigação, porque muitos e dos mais abundantes
mananciais que alimentam as levadas têm ali a sua origem. Achamos por isso interessante deixar aqui
transcritas algumas das informações ministradas pela Junta Geral do Distrito, acerca de diversos trabalhos
que já nesse planalto se realizaram no sentido de serem parcialmente aproveitadas as águas pluviais que ali
caiem em grande abundância na quadra do inverno. Estas informações dizem respeito ao período decorrido
de 1938 a 1940.
«Região de chuvas e neves mais abundantes, constitue campo de infiltração donde derivam os maiores
caudais de água utilizados e utilizáveis para irrigação.
«Nele ou nas suas encostas teem origem as ribeiras mais caudalosas da Madeira- Ribeira da Janela, Ribeira
do Seixal, Ribeira do Inferno, Ribeira de São Vicente, Ribeira da Ponta do Sol e Ribeira da Madalena.
«Levadas mais importantes que dele derivam: Levada do Pico da Urze, que abastece abundantemente o
Arco da Calheta e que tem a sua origem a cerca de 1.350 m. de altitude: Levadas do Rabaçal (1.000 a 1.100),
que regam o concelho da Calheta (necessita mais água); Levada do Monte Medonho que abastece parte da
Ribeira Brava e Tabua; Levada do Caramujo, que irriga S. Vicente.
«As águas da Ribeira do Seixal são em abundancia, sendo aproveitadas quasi exclusivamente de dia. As
águas da Ribeira do Inferno não têm aplicação à irrigação.
«As águas das Ribeiras da Ponta do Sol e Madalena abastecem bem as respectivas localidades.
«Numa certa altitude tem a sua origem uma pequena levada particular, cuja água é utilizada nos Canhas.
«Há ainda diversas levadas particulares que tem a sua origem em altitudes mais baixas mas cujo caudal só
em pequena proporção dependerá das águas infiltradas no Paul.
«Do enorme volume de águas que caiem no Paul da Serra, apenas algumas se infiltram; a grande demasia
escoavam-se para as ribeiras.
«Promovendo a retenção de uma maior percentagem da água que cai no Paul da Serra, ou doutro das suas
«beiras», conseguir-se-á maior caudal de água para as nascentes. Este propósito levou a Junta Geral a
iniciar trabalhos experimentais no chamado «Campo Grande» do Paul da Serra, onde se construiu uma
barragem para retenção de águas que se escoam pelo Ribeiro do Alecrim para a Ribeira da Janela, nas quais
já gastou perto de 100 contos.
«Ultimamente, e com o intento de prosseguir a trabalhos de natureza semelhante, fez-se um
reconhecimento noutros pontos do planalto, verificando-se a existencia de alguns em que represas de custo
relativamente pequeno, mas de grande capacidade, se podem construir. Estão neste caso o Chão das Mesas
e os Ariais ou Campo Pequeno para onde se podem desviar as águas do Ribeiro do Lagedo que, de inverno
conduz enormes caudais de água para a Ribeira da Janela.
«Em consequência dos trabalhos já feitos, temos noticia que aumentou o volume dos olhos de água, ou
nascentes, em vários pontos sob a influencia das infiltrações do planalto. Esta informação é de molde a
encorajar-nos no prosseguimento das obras.
XVIII – Aguas do Porto Santo –
A vizinha ilha do Porto Santo, quando são prolongadas as
estiagens, o que acontece de quando em quando, sofre as consequências de uma verdadeira calamidade
publica, sendo muito para louvar a atitude da Junta Geral do Distrito da presidência do Dr. João Abel de
Freitas, que ali mandou proceder a importantes trabalhos de hidráulica agrícola com o fim de atenuar as
crises produzidas por essas estiagens e beneficiar consideravelmente a indústria agrícola de toda aquela
região. Foi julgada necessária a construção de uma grande vala que o referido presidente, em uma
entrevista concedida a um jornal, no ano de 1942 descreve nos termos que vamos reproduzir.
«A construção de uma vala para captação e distribuição de águas das chuvas a que se está procedendo, é
talvez a obra de maior alcance económico-social até hoje ali realizada não só pela sua oportunidade em
fornecer trabalho a centenas de braços, mas pela influencia que deverá ter no desenvolvimento agrícola da
região.
Esta vala tem, em primeiro lugar, a função de captar as águas que, por vezes em grandes caudais, escorrem
das encostas do Pico do Castelo, e que tanto dano têm causado nas encostas subjacentes; eliminada uma das
causas principais do descalabro em que esses terrenos se encontram, é possível que apareça o incentivo de
reconstrução das paredes e se faça a reconstituição dos terrenos desaparecidos.
Em segundo lugar, a água assim captada será transportada, na parte da vala considerada de distribuição,
através de terrenos de areias, nos sítios da Camacha, Eira Velha, Areias, etc., que constituem reservatório
natural de grande capacidade onde se infiltrará toda a água para ali canalizada; deste grande campo de
infiltração deriva água para quasi todas as nascentes e poços existentes.
Pretende-se assim fazer o aproveitamento de águas até aqui prejudiciais por duas formas: em primeiro
lugar e de uma forma directa, pela rega de terrenos subjacentes à vala, e em segundo lugar, pelo aumento de
águas subterrâneas e, consequentemente, do fluxo das nascentes. Daqui resultará também, justificação
económica de abertura de novos poços, e portanto, o alargamento dos terrenos de regadio.
Outra vantagem da construção desta vala, é ainda, a de constituir incentivo para a construção de poços ou
represas, nos lugares mais convenientes ao longo do seu percurso, em que sejam retidas as águas, para
futura irrigação, quando se verifique a existencia regular de excedentes de água, a justificar essa
construção».
XIX - Ainda as Levadas do Estado -
Como ampliação e mais completo esclarecimento do
que atrás deixámos dito, inserimos em seguida alguns dados estatísticos, que obsequiosamente nos foram
fornecidos pela repartição técnica das Obras Publicas da Junta Geral do Distrito, os quais encerram valiosas
e interessantes informações acerca das levadas do Estado nesta ilha, que muito importa registar, por não se
encontrarem publicados em qualquer documento oficial. É um relatório que sobremaneira honra a
repartição que o elaborou e que bastante nos apraz deixar arquivado nestas despretensiosas páginas do
«Elucidário Madeirense». De mais constitui ele uma elucidativa exposição dos trabalhos realizados, por
mandado daquela repartição no ano de 1943, na medição dos caudais e da extensão dos respectivos
aquedutos, o que há muitos anos não se realizava.
«A Levada Velha do Rabaçal tem sua origem nas Fontes do Risco, a 1045 metros de altitude. A extensão do
canal principal é de 24.000 metros incluindo o Furado Velho, que tem o cumprimento de 450 metros. O
fluxo é de 65 litros por segundo (3.900 penas), medição feita em Agosto de 1943. Rega nas freguesias dos
Prazeres, Paul do Mar, Fajã da Ovelha e Ponta do Pargo dividida em três ramais, dos quais o primeiro rega
na freguesia dos Prazeres com giros de 19 dias e 12 horas; o segundo, também com o mesmo período de
giros, rega no Paul do Mar e na Fajã da Ovelha; regando o terceiro ramal nas freguesias da Fajã da Ovelha e
na Ponta do Pargo, igualmente em giros de 19 dias e 12 horas.
A Levada Nova do Rabaçal tem origem na Ribeira dos Cedros á cota de 990 metros. São subsidiarias desta
levada as chamadas Vinte e Cinco Fontes, e as captações da Ribeira Grande ou do Risco. O caudal total
medido nas nascentes, em Agosto de 1943, é de 86 litros por segundo (5160 penas). Desde a origem até o
Furado Novo, a extensão do canal é de cerca de três quilómetros. O Furado Novo mede 800 metros, e à
saída do Furado Novo o canal tem a extensão de 7 quilómetros para Leste e 6 para Oeste. Esta levada assim
como a Levada Velha é também dividida em três partes com igual fluxo regando o primeiro terço nas
freguesias do Arco da Calheta e Calheta com giros de 18 dias e 12 horas; o segundo terço também com giros
de 18 dias e 12 horas rega na freguesia da Calheta; e o terceiro terço rega na freguesia do Estreito da Calheta
com giros de 19 dias e 12 horas. 0 total de horas em cada giro das Levadas do Rabaçal é o seguinte:
2 ramais X 18,5 dias X 24 horas = 888 horas, 4 ramais X 19,5 d. X 24 horas = 1872 horas, perfazendo 2.760
horas. Deste total de horas de agua, 2690 são arrendadas e as restantes constituem as chamadas «quebras».
A Levada do Caramujo ou da Ribeira do Inferno tem origem na Ribeira do Inferno, na base do Pico Ruivo
do Paul á cota de 1 185 metros. 0 comprimento do canal é de 6000 metros e o fluxo desta levada é 20 litros
por segundo (1200 penas).
A Levada do Lombo do Moiro ou do Monte Medonho tem origem nas Ribeiras do Folhadal, Pináculo e
Monte Trigo à cota de 1450 metros. A sua extensão é de cerca de 10 600 metros e o caudal é de 18 l. por seg.
(1080 penas). Rega nas freguesias da Ribeira Brava e Tabua com giros de 14 dias e 12 horas. As águas desta
levada eram aproveitadas na freguesia de São Vicente para onde seguem actualmente as da Levada do
Caramujo, a qual foi construída pelo Estado com o fim de ser trocada pela Levada do Lombo do Moiro,
ficando as obras de conservação e reparação da Levada do Caramujo a cargo do Estado. Na Ribeira Brava
estão arrendadas 926 horas e nas Tabua 410.
4 ramais X 14,5 d X 24 h.= 1392 h.
Arrendadas .............. 1336
Quebras ................. 56
A Levada da Serra de São Jorge tem origem no Caldeirão do Inferno a 920 metros de altitude, captando
também as águas do Caldeirão Verde. 0 caudal total é de 40 l. por seg. (2400 penas) e a extensão do canal
até a Venda Nova é de 11.000 metros. Do canal principal desta levada derivam três canais secundários, que
regam no sítio da Ilha da freguesia de São Jorge e nas freguesias de Santana e do Faial com giros de cerca de
14 dias. Estão arrendadas 788 horas e 15 minutos.
A Levada da Serra do Faial propriamente dita tem origem na Ribeira Seca na altitude de 1 100 metros,
recebendo também a água de uma levada chamada Levadinha de João Dias que mede cerca de 1000 metros,
a montante das captações da Ribeira Seca. Concorrem também para a formação do caudal da Levada da
Serra do Faial, as nascentes da Ribeira da Ametade, nascentes entre o Furado do Lapão e o Lombo Furão, o
Côrrego da Cabra, as nascentes da Rocha do Gavino, o Corrego da Choupana, nascentes das Feiteiras e
outras pequenas nascentes distribuídas ao longo do canal principal. 0 caudal total medido em todas as
nascentes no dia 16 de Setembro de 1943 acusou o montante de 80 l. por seg. (4.800 penas). 0
comprimento do caudal principal, desde a Ribeira Seca ao sítio da Choupana, na freguesia de Santa Maria
Maior, é de 54.000 metros. Das levadas do Estado é a que tem maior extensão. Esta levada é dividida em
quatro ramais, cujo giro é de 27 dias. 0 giro é dividido em meios giros de 13 dias e 12 horas, recebendo cada
regante, de cada vez, metade do tempo inscrito no cadastro.
4 ramais X 27 d. X 24 h. = 2.592 h.
Distribuição sem quebras.
A Levada do Juncal tem origem na Ribeira do Juncal e é conduzida juntamente com a da Serra do Faial até
o Lombo da Raiz na freguesia do Santo da Serra, numa extensão de 16.000 metros, onde novamente é
separada, indo regar nas freguesias do Santo da Serra, Santa Cruz e Água de Pena. Ao caudal da Levada do
Juncal, que na origem é de 76 l. por seg., junta-se a Levada dos Accionistas, que é uma levada particular e
que rega nas mesmas freguesias que a do Juncal e que tem origem na Ribeira das Lajes. Do Lombo da Raiz
em diante, as levadas do Juncal e dos Accionistas seguem juntas no canal secundário. Ao fazer-se a divisão
dos respectivos caudais, cabe um terço a Levada dos Accionistas, ficando a levada do Juncal com dois terços
do caudal. 0 período de giro da levada do Juncal é de 16 d. e 12 h., sendo a distribuição feita por dois ramais,
no total de 792 horas por giro, sem quebras.
A levada do Furado tem origem no Ribeiro Frio a 860 metros de altitude vindo também no canal principal
da Levada da Serra do Faial até aos Lamaceiros numa extensão de 8.500 metros, de onde segue para a
Portela de Machico Maiata e Porto da Cruz, sendo as regas feitas em giros de 16 a 18 dias. 0 caudal desta
levada é de 40 l. por seg. (2.400 penas). Desta levada estão arrendadas 579 horas e 15 minutos.
Os preços de arrendamento das levadas do Estado, por hora e por ano, são os seguintes:
Levadas do Rabaçal.....................Esc. 54$00
Levada do Monte Medonho................ « 24$00
Levada da Serra de São Jorge........... « 27$00
Levada da Serra do Faial............... « 72$00
Levada do Juncal...................... « 96$00
Levada do Furado....................... « 27$00
classificadas como potáveis rendem anualmente Esc. 3.410$00.
Os rendimentos das levadas do Estado nos últimos cinco anos, foram as seguintes:
1939........................Esc. 351.263$00
1940........................ « 364.283$00
1941........................ « 448.401$45
1942........................ « 461.318$55
1943........................ « 470.180$00
Tem a Junta Geral dedicado grande atenção à reparação das levadas a seu cargo em especial nos últimos
Pertence também à Junta Geral a nascente de água do Serralhal, na freguesia do Caniço, cujas águas
anos, pois pretende levar a cabo a grande obra de revestimento impermeável de todas aquelas que ainda se
encontram «em terra». É uma obra de grande vulto cujos efeitos já se fazem sentir a partir de 1941, pois a
diminuição das perdas por infiltração é já sensível em todas as levadas.
Para intensificar os trabalhos de reparação, deliberou a Junta Geral, em sua sessão de 15 de Novembro de
1940, lançar um adicional nas rendas das águas, contribuindo com verba igual ao montante do adicional,
além da verba que entendesse poder votar para as habituais reparações. Foi este adicional que motivou
parte do aumento no rendimento, a partir do ano de 1941. Foram gastas em reparações, nos últimos cinco
anos, as verbas seguintes:
1939........................Esc. 116.432$80
1940........................ « 113.933$60
1941........................ « 208.200$80
1942........................ « 201.725$15
1943........................ « 147.623$25
XX – A Construção das Novas Levadas –
Sendo, como todos sabem e aqui o temos
repetido, as levadas os mais valiosos elementos das prosperidades da nossa agricultura, causou a maior
satisfação a promulgação do decreto de 26 de Julho de 1939, que determinava a vinda á Madeira de uma
missão especial, encarregada de estudar as possibilidades técnicas e económicas nos aspectos hidro-
electricos e hidro-agrícolas em seu conjunto e ainda relacionados entre si. Não se fez esperar muito a vinda
dessa comissão técnica, composta de funcionários competentíssimos, que nos trabalhos a que sem demora
deram início revelaram o mais aprofundado conhecimento do assunto e manifestaram também o mais
acendrado zêlo na solução dos diversos problemas que com ele intimamente se relacionavam. E para tal
fim, essa missão percorreu uma parte considerável da ilha, realizou vários estudos in loco solicitou
informações e esclarecimento de diversas entidades oficiais, ouviu a opinião dos interessados por
intermédio das pessoas mais qualificadas do nosso meio etc., patenteando dêste modo o maior desejo de
produzir um trabalho útil, completo e consciencioso no desempenho do espinhoso cargo que lhe fora
cometido.
Pelos fins do ano de 1941, essa comissão deu por terminados os seus trabalhos de gabinete e os seus
desenvolvidos relatórios subiram às estações superiores, sendo um de caracter geral e três respeitantes a
cousas agrícolas, a matérias eléctricas e a assuntos de engenharia civil.
Do «Relatorio Geral», podemos apresentar o rápido sumário das diversas matérias nele contidas, sendo
assim permitido formar-se um juízo embora superficial e incompleto, da extensão e importância dos
trabalhos a que se procedeu.
Divide-se em quatro partes distintas: 1.ª Preliminares; 2.ª Condições Gerais; 3.ª Possibilidades de
Aproveitamentos e 4.ª Considerações Finais. A segunda parte subdivide-se nos seguintes capítulos: I
Orografia; II Esboço geológico; III Comunicações e distribuição da população; IV Clima; V Povoamento
Florestal; VI Regime de propriedade; VII Regime jurídico das águas; VIII Levadas; IX Agricultura e X
Indústrias da Ilha da Madeira.
O capítulo VIII é particularmente interessante e ocupa-se em primeiro lugar das Levadas Particulares e com
maior desenvolvimento das Levadas do Estado, subordinado a estes pontos: I Levadas do Rabaçal (Velha e
Nova); 2 Levadas do Caramujo e Lombo do Moiro; 3 Levadas da Serra de S. Jorge, Furado, Juncal e da
Serra do Faial; 4 Resultados económicos da exploração pelo Estado; 5 Administração das Levadas e 6
Tentativas para dar destino definitivo às Levadas do Estado.
No capítulo X respeitante às Indústrias trata-se: A Seu estado actual; B Possibilidades de desenvolvimento;
C Indústrias de transportes colectivos e D Produção e comercio de energia eléctrica.
A terceira parte – Possibilidades de Aproveitamentos – abrange os capítulos: A Ribeira de Machico (1.°
aproveitamento Caniçal); B Ribeiras de São Jorge, Faial e Tem-te-não-caias a) Plano geral, b) Ribeira de
São Jorge –2.° aproveitamento Santana e Faial; c) Ribeira de São Roque–3.° aproveitamento Porto da Cruz
d) Ribeiro Frio–4.° aproveitamento alto de Machico, e Ribeira do Juncal–5.° aproveitamento Santo da
Serra, Santa Cruz e Água de Pena, f) Ribeiras de São Jorge, Seca e Ametade–6.º aproveitamento Caniço, São
Gonçalo e Santa Maria Maior O Ribeiro Bonito–7.° aproveitamento São Jorge; D Ribeira do Porco–8.º
aproveitamento Arco de São Jorge e Boaventura; E Ribeira dos Moinhos–9.° aproveitamento Ponta
Delgada; E Ribeira Grande–10.° aproveitamento S. Vicente; G Ribeira da Ponta do Sol–11.°
aproveitamentos Tabua e Ponta do Sol; H Ribeiras de São Vicente, Inferno, Seixal e da Janela–12.° e 13 G
aproveitamentos Ribeira Brava, Câmara de Lobos, Serra de Água, Calheta e Ponta do Pargo; Ribeira dos
Cedros–14.° aproveitamento Porto do Moniz; J Ribeiro do Seixal–15.° aproveitamento Seixal; Ribeira de
Santa Luzia –16.° aproveitamento Santa Luzia; L Levada do Pico–17.º aproveitamento–Pico dos Eirozes; M
Ribeira da Janela–18.° aproveitamento–Porto Moniz; N Armazenamento, retenção e elevação de águas e
águas subterrâneas; O Resumo e Conclusões.
É possível e talvez provável que os planos esboçados nesses relatórios e que ficam transcritos venham a
sofrer modificações ao serem executados, mas supomos que nas suas linhas gerais não se afastarão muito
dos projectos concebidos. E como esses planos levam alguns anos para ser realizados, achamos conveniente
deixar aqui exarada esta rápida noticia acerca deles, como um interessante e apreciado esclarecimento.
Foi no «Diário do Governo» de 21 de Outubro de 1943 e datados deste dia que se publicaram os decretos
n.
os
3.158 e 33.159, que determinam a construção de uma vasta rede de canais de irrigação e fixam as
normas a adoptar para a realização de tão inapreciável melhoramento. Há muito que não era outorgada á
Madeira uma medida de tamanho alcance e que tão de perto vá aproveitar á economia geral do arquipélago.
Não podemos, por isso, subtrairmo-nos ao desejo de, transcrever os resumos que desses importantes
diplomas fizeram os jornais de Lisboa e do Funchal, deixando aqui arquivadas as disposições que mais
interessam a este assunto e que servirão de complemento ao que deixámos dito nos capítulos precedentes.
«Por se tratar de um vasto plano de trabalhos, que tem em vista conceder à Ilha da Madeira considerável
melhoria relativamente á sua economia agrícola e à sua produção industrial, e atendendo a que tanto os
estudos como a execução das obras exigem uma técnica bastante especializada, o Governo entendeu criar
um organismo autónomo, de carácter eventual, encarregado de administrar e dirigir a construção de obras
novas e a reparação das existentes. Este organismo será designado por «Comissão Administrativa dos
Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira» e dela fará parte um delegado da Junta Geral do Distrito
Autónomo do Funchal.
O valor da execução e administração das obras previstas está computado em 60.000 contos, assim
distribuídos:
Aproveitamentos hidráulicos – Obras de rega, 20.798 contos; centrais eléctricas, principais (3), 15.890
contos; e secundárias (2) 3.462 contos.
Redes eléctricas –De transporte e energia, 5.034 contos; e de distribuição geral, 1020 contos; imprevistos,
8.790 contos; e despesas gerais das obras, 5.000 contos.
As obras constantes do plano serão executadas no prazo de dez anos e distribuídas por duas fases, cada uma
com cinco anos de duração.
Na primeira, deverão realizar-se as obras seguintes:
Aproveitamentos hidro-agricolas-Machico e Caniçal; Ribeira Brava e Câmara de Lobos; e Ponta do Pargo e
Calheta.
Aproveitamentos hidro-electricos – Central da Serra de Água; Central da Calheta; linhas de transporte de
energia e subestação do Funchal.
Na segunda, deverão realizar-se as restantes obras previstas no relatório da missão técnica que serviu de
base á elaboração do diploma que trata do assunto.
As obras previstas, incluindo as despesas gerais de administração, serão custeadas em partes iguais, pelo
Estado e pela Junta Geral do Distrito do Funchal. O encargo anual será, portanto de 6.000 contos,
competindo a cada uma das entidades referidas a verba de 3.000 contos.
Permite-se à Junta Geral a faculdade de contrair um empréstimo, em duas séries, cada uma até 15000
contos, para poder suportar os encargos da execução do plano de aproveitamentos hidráulicos.
A comissão administrativa ficará habilitada a gerir os fundos que anualmente lhe forem consignados nos
orçamentos gerais do Estado e da Junta Geral do Distrito.
As obras serão executadas pela citada comissão, devendo adoptar-se, de modo geral, o regime de
empreitada. Fica também a seu cargo a elaboração dos projectos. Prevê-se ainda a autorização ministerial
para determinados estudos e fiscalização de obras poderem ser distribuídos a pessoal estranho à comissão,
em regime de prestação de serviço, quando não for possível efectivar esses trabalhos com o seu pessoal
técnico.
Com a execução das obras previstas, consegue-se a irrigação de uma área de terreno que se eleva a 3.111
hectares, isto é, cerca de 30% da actualmente regada, o que demonstra bem o grande valor que representam
para a economia da Madeira os novos aproveitamentos. É também permitida a assistência técnica e a
fiscalização do Estado nas obras de grande reparação e melhoramento dos aproveitamentos existentes, com
o objectivo de evitar alguns inconvenientes que se têm verificado na prática, sem contudo se abandonarem
as normas tradicionais da ilha.
Quanto aos aproveitamentos para a produção de energia, valiosos resultados se esperam da sua execução,
não só pela influencia que terão na importação de combustíveis, mas também pelo desenvolvimento que se
hão-de imprimir às indústrias e outras actividades económicas da Madeira. Para se ajuizar da importância
que os aproveitamentos hidro-electricos previstos terão para a economia da ilha, basta observar que a
potência permanente, de estiagem, de
tais aproveitamentos atinge cerca de 5.830 kw potência que excede, em muito, a actualmente ali instalada.
A resolução do importante problema, a que se acaba de fazer referência, está compreendida no vasto plano
de conjunto que o Governo se propôs realizar nas Ilhas Adjacentes.
Começou na Madeira a efectivação desse plano, com as obras de estradas, cuja construção se encontra em
franco andamento, está iniciado o plano de estradas nos distritos de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, e
vai agora naquela ilha proceder-se à execução das obras dos aproveitamentos hidráulicos, seguindo-se
assim, uma ordem que parece a mais conforme com os interesses nacionais.
A taxa de juro dos empréstimos que a Junta for autorizada a contrair não poderá ser superior a 4%, sendo
aqueles amortizáveis em vinte anos e em conta corrente durante o quinquénio da execução das obras de
cada fase.
larga experiência de
A comissão administrativa será constituída por uma individualidade com
administração pública, um delegado da Junta, um engenheiro civil de reconhecida competência em estudos
de construção de obras hidráulicas e um licenciado em direito com o curso complementar de ciências
politico-económicas ou em ciências económicas e financeiras, nomeados pelo Governo, servindo o primeiro
de presidente e o último de secretário.
A comissão terá como órgão executivo um director-delegado, que será o seu vogal engenheiro civil. Os
trabalhos da mesma serão fiscalizados por um engenheiro-inspector superior das Obras Públicas, o qual
informará o Governo do andamento das obras e terá autoridade para em nome deste, se opor a qualquer
resolução, quando o julgue conveniente.
O pessoal técnico, administrativo e menor, necessário aos serviços, será contratado ou assalariado, nos
termos das leis em vigor, sob proposta da comissão e aprovação ministerial.
O pessoal técnico, incluindo os membros da comissão, poderá concorrer aos logares dos quadros
permanentes dos serviços afins do Ministério das Obras Públicas e Comunicações nas mesmas condições
estabelecidas para os funcionários contratados dos quadros eventuais, no decreto-lei n.° 26.117, de 23 de
Novembro de 1935, e quando já pertencente aos quadros permanentes ou eventuais do referido Ministério,
é-lhe aplicável a doutrina do decreto-lei n.° 30.896, de 22 de Novembro de 1940, ficando-lhe assegurada a
contagem, para a promoção e reforma, do tempo em que nesta comissão de serviço permanecerem, como de
actividade nos respectivos quadros.
O Estado e a Junta Geral serão reembolsados das despesas efectuadas com as obras hidro-agrícolas por
meio de uma «taxa de beneficiação e rega».
Os projectos de aproveitamentos hidro-agricolas serão baseados no cadastro das propriedades beneficiadas,
constituído pela planta agrológica e parcelar na escala l /2.500, e pelo registo cadastral de todos os prédios
interessados nas obras, contendo, entre outros elementos, os rendimentos bruto e líquido actuais e os que
resultarão da execução da obra bem como os encargos ou ónus actuais e futuros, de cada prédio.
O cadastro, bem como o projecto dos estatutos da respectiva Associação de Regantes, serão postos à
reclamação dos interessados e patentes, durante 30 dias, em lugar público da freguesia a que pertencerem
os terrenos abrangidos pelas obras.
A comissão administrativa promoverá a aquisição ou expropriação dos terrenos e águas particulares e
quaisquer direitos, preexistentes ao aproveitamento a que houver lugar, e bem assim ajustará com os corpos
administrativos a aquisição por cedência gratuita, permuta ou compra dos terrenos que lhes pertençam e
que se tornem necessários á execução das obras aproveitadas.
Considera-se extinta a missão técnica criada pelo decreto-lei 29.718, de 26 de Junho de 1939, a qual fará
entrega á comissão administrativa dos aparelhos, utensílios e material por ela adquiridos, mediante
inventário.
A comissão administrativa efectivará, imediatamente a seguir á conclusão de obras, a constituição da
Associação de Regantes da respectiva levada, em harmonia com os estatutos aprovados, convocando os
regantes, por meio de éditos, para se reunirem e elegerem a direcção á qual serão entregues as obras e os
estatutos mediante competente auto. A este assunto se refere outro decreto também publicado no «Diário
do Governo».
As associações de regantes serão constituídas obrigatoriamente pelos proprietários, usufrutuários,
enfiteutas, fiduciários, colonos, arrendatários e parceiros dos terrenos beneficiados pelos respectivos
aproveitamentos hidro-agricolas.
A conservação e a exploração das obras, assim como as resoluções das associações de regantes, serão
fiscalizadas pela comissão administrativa e, depois desta extinta, pelos Serviços Hidráulicos a cargo da
Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal.
A taxa de beneficiação e rega, destinada ao reembolso das despesas efectuadas com as obras hidro-agrícolas,
consistirá numa anuidade fixa por hectare, calculada a uma taxa de juro não superior a 3 % e variável
conforme as possibilidades agrícolas e económicas das terras, a base de reembolso em 50 anos.
Esta anuidade constitue um ónus real sobre o prédio e a sua importância pode ser cobrada juntamente com
a contribuição predial rústica, constando, todavia de documento separado.
As despesas de exploração e conservação de cada aproveitamento hidro-agricola serão custeadas pelos
beneficiários, com o produto de uma taxa anual denominada «exploração e conservação», fixada
superiormente com função das obras a executar ou a prever, depois de ouvida a direcção da Associação dos
Regantes.
É obrigatória a utilização das águas de rega nos prédios incluídos definitivamente no cadastro, ficando a
Junta Geral ou a Associação, mediante aprovação do Governo, autorizadas a expropriar os prédios que os
não utilizarem, pelo valor que tinham antes das obras, acrescido da capitalização das anuidades já pagas.
Quando na área dominada pelas levadas que fazem parte do plano aprovado, houver prédios que não sejam
regados e outros que já o sejam, a distribuição será feita dando-se, em regra, preferência aos que ainda o
não sejam e cujos proprietários, rendeiros ou colonos não disponham de águas que, economicamente,
possam ser encaminhadas para esses prédios. Quando as águas de uma levada possam ser aproveitadas
simultaneamente para rega e para produção de energia eléctrica, esta utilização será feita de forma a não
prejudicar o regime de rega.
Concluídas as instalações hidro-electricas e respectiva rede geral, promover-se-á a exploração da venda de
energia, no regime de arrendamento, em toda a ilha ou por zonas, se outro não for definido pelo Governo,
tomando-se para base de licitação a renda progressiva a pagar ao Estado e á Junta Geral segundo os
escalões que vierem a ser fixados no caderno de encargos.
A competência atribuída ao Governo pelas disposições atrás mencionadas será exercida por intermédio do
Ministro das Obras Publicas e Comunicações».
Estão pois, em via de próxima realização a construção de algumas levadas que servirão de continuação ao
grandioso empreendimento iniciado há séculos e que constitui um dos mais importantes factores das
prosperidades deste distrito.
XXI – Terminologia Usual –
É de todos sabido e ficou bem acentuado nas páginas precedentes
que as «levadas» constituem o principal elemento da agricultura madeirense e um dos mais importantes
factores da economia de todo o nosso arquipélago. Ainda prestam outros valiosos serviços, como sejam o
fornecer a água para todos os usos domésticos a alguns milhares de indivíduos que vivem nos sítios
marginais das mesmas levadas, o emprestar a força motriz para o funcionamento de muitas azenhas e o
abastecer numeráveis lavadouros públicos com a água indispensável para poderem ser aproveitados
durante todo o ano. Assim acontece com o abundante caudal da levada dos Piornais em um percurso
superior a uma dezena de quilómetros.
É já quatro vezes secular e generalizado em todo o arquipélago o emprego de termos peculiares destinados a
designar as condições e meios de acção em uso no privativo sistema da irrigação madeirense. Embora sejam
muito conhecidos e cotidianamente empregados pelas populações rurais, não o são todavia para um
numero considerável de habitantes citadinos e de modo particular para as pessoas que apenas breve e
passageiramente visitam a Madeira. A estas, em especial, se destina a pequena «nomenclatura» ou
«terminologia» que aqui deixamos esboçada acerca dos nossos aquedutos ou canais de irrigação.
Levadas –
Apesar de já ficar dito, repetiremos que são estreitos canais abertos no solo e geralmente
construídos de sólida alvenaria, que não chegam a ter um metro de largura e cuja profundidade poucas
vezes vai além de cinquenta a setenta centímetros. Partem quási todas de pontos centrais da ilha,
encabeçando a maior parte delas nas torrentes que correm nos leitos das ribeiras, havendo algumas que
medem dezenas de quilómetros de comprimento.
Caudal ou volume» de água.
– É bastante variável o fluxo do caudal ou «volume» de água, que
corre em cada aqueduto, ainda mesmo que esse «volume» totalmente se destine à irrigação de um só lugar.
Mais variável porém se torna quando o «volume» comum que atravessa o canal se divide em duas, três ou
quatro partes, afim de proceder-se às regas em outros tantos lugares diferentes. O volume de cada linha de
água para a irrigação em um só ponto pode aproximadamente variar entre o fluxo continuo de 12 e 30 litros
por segundo ou sejam de 720 a 1800 penas. Há levadas de um caudal pouco abundante, que apenas
aproveitam a certas culturas, e há outras de mais volumoso caudal, que indistintamente podem servir para
todas as regas.
Madre da Levada – Dá-se esta designação aos locais da sua origem ou pontos de confluência com outros
aquedutos e também às paredes de alvenaria ou de barro que formam as mesmas levadas. Na Madeira,
designava-se, em outro tempo, por «madre de água» o ponto em que brotavam as nascentes ou «tornos» de
água.
Caixa da Levada – É o próprio aqueduto, abstraído do caudal que nele corre.
Mainel da Levada – São «mainéis» as paredes da levada e particularmente a parte que sobressai ao solo
adjacente.
Esplanada–É a estreita vereda que em geral acompanha contígua e paralelamente a levada em quasi toda a
sua extensão. É geralmente aproveitada como servidão e caminho para os moradores das vizinhanças.
Caixa Divisória – Há aquedutos que conduzem um caudal abundante, destinado a ser dividido em dois, três
e quatro «lanços» ou aquedutos secundários para a irrigação em diversos pontos, realizando-se a sua
rigorosa repartição em local apropriado para esse fim, que tem o nome de «Caixa Divisória».
Furados – Aos pequenos túneis ou estreitos caminhos subterrâneos destinados a passagem dos aquedutos,
dá-se na Madeira o nome de «Furados». Os mais importantes são o Furado Velho da Levada Velha do
Rabaçal, que mede 450 metros de extensão, e o Furado Novo da Levada Nova do Rabaçal, que tem 800
metros de comprimento, havendo outros de muito mais limitada extensão.
Lanço – Quando um caudal se reparte, afim de proceder-se à irrigação em diversos pontos aplica-se a cada
uma dessas divisões a designação de «lanço» ou «ramal», sendo este, por vezes, susceptível de subdivisões.
Adufas – Conservam este nome as pequenas «comportas», que se fazem nos mainéis ou paredes dos
aquedutos e destinadas a dar vasão às águas nos pontos em que se procede a irrigação.
Giro – Em sentido mais lato, entende-se por «giro» o período inteiro da irrigação que normalmente se
estende do mês de Abril ou Maio aos fins de Setembro. Em sentido mais restrito, chama-se «giro» ao tempo
decorrido entre a rega de um terreno e a sua rega subsequente, lapso este de dias, que geralmente não se
altera para cada levada. É porém, variável de uma para outra levada, mediando cada «giro» entre quinze e
trinta dias. Há casos em que o «giro» se divide, havendo «giro pequeno» e «giro grande».
Adopta-se a expressão «um ano de giro» para significar o direito que têm os cultivadores a irrigar as suas
terras durante todo o ano, isto é, durante o tempo normal das regas, em virtude de arrendamentos por eles
feitos às levadas do Estado ou ainda às levadas particulares.
Quando se diz que uma propriedade rústica «tem uma hora de água no giro de quinze dias», deve entender-
se que essa propriedade goza do direito de ser irrigada de quinze em quinze dias, durante o tempo de uma
hora dentro do período ordinário da irrigação.
Heréus –
«É, ao presente, diz-nos o ilustre comentador das Saudades no ano de 1873, nesta ilha da
Madeira, o proprietário de qualquer porção de água em uma levada, mas originariamente era o agricultor
ou colono que cultivava terras regadias». Embora o Dr. Azevedo nos informe que este termo foi usado, em
sentido análogo, no continente português, a verdade é que o não encontramos registado nos modernos
dicionários da língua, parecendo-nos que é hoje privativamente empregado neste arquipélago com o
significado que fica indicado.
Como atrás se disse e se vê por vários diplomas legislativos, existem na Madeira diversas associações de
«heréus», legalmente organizadas e formadas pelos proprietários de águas das levadas com administração
própria exercida por uma «Comissão» eleita pelos mesmos «heréus». As levadas mais importantes têm
cada qual a sua administração autónoma e independente das outras levadas. Em um documento oficial do
ano de 1485, encontra-se já o termo «heréu», com significação idêntica á que hoje lhe é atribuída.
Juiz da Levada –
O Estado considerou-se durante séculos o único proprietário das águas destinadas
ao uso comum dos cultivadores das terras, estando a cargo dos donatários, dos governadores gerais e dos
governadores e capitães-generais a direcção de todos os serviços respeitantes ás mesmas águas, que para
isso nomeavam um «Juiz», geralmente escolhido entre pessoas qualificadas do nosso meio social. Os
«heréus» foram-se a pouco e pouco libertando dessa tutela e adquirindo a propriedade das águas, passando
á nomeação de comissões administrativas, que uma lei tornou autónomas e com vida jurídica própria,
quando fossem observadas determinadas cláusulas. Desnecessário será dizer que este regime respeita
somente ás levadas particulares, pois as do Estado, que contam pouco mais de um século de existência, são
administradas pelas respectivas repartições de obras públicas.
Sacadas –
Dá-se comummente este nome às «paredes» de pedras e torrões de argila atravessadas nas
correntes, fazendo desviar furtivamente as águas para as terras marginais das mesmas correntes, antes de
entrarem nos aquedutos, diminuindo deste modo o caudal das levadas.
Terral –
Era conhecido este termo, e em alguns logares ainda o é, para designar a contribuição a
satisfazer por cada «heréu» e destinada ás despesas havidas na conservação das levadas e pagamento do
pessoal nelas empregado. O arrendatário da água, que não era «heréu» não pagava «terral», mas contribuía
com uma módica importância para o mesmo fim a que se chamava «a vigia».
No serviço das regas é muito usual o emprego destes termos: tornadouro para designar o local em que a
linha de água entra nos terrenos a irrigar ou nos «regos» cultivados; levadeiros se chamam os homens
encarregados da distribuição da água, para efeito das regas, nas diversas propriedades; e minadoiros são as
pequenas nascentes de água que afloram à superfície do solo.
Vigias –
Durante o período da irrigação, vários indivíduos percorrem permanentemente as margens das
levadas, afim de manter-se a livre passagem do caudal, desobstruindo o aqueduto de qualquer obstáculo
que prejudique essa passagem.
XXII – As Levadas e os Arvoredos –
Embora talvez hisperbolicamente, mas com um certo
pitoresco, se diz algures que «as árvores são as mães das levadas», para assim se exprimir a íntima
afinidade que existe entre a vegetação florestal e os mananciais que alimentam os aquedutos empregados na
irrigação madeirense. Essa próxima correlação constitui uma verdade elementarissima, que até os mais
modestos cultivadores de terras reconhecem, e consubstancia a evidente necessidade de promover-se e
manter-se um intenso repovoamento dos arvoredos, especialmente nas eminências das serranias e de modo
muito particular nas imediações das origens das respectivas nascentes. No entretanto, sempre que se
oferece oportunidade de tratar das «levadas», é ponto obrigado uma referência ao rico e inapreciavel
contingente que as florestas emprestam aos caudais, que formam as mesmas «levadas».
É de todos sabido que as eminências cobertas de arvoredo favorecem notavelmente a formação dos
nevoeiros, a condensação dos orvalhos e a queda das chuvas, podendo todo o revestimento florestal ser
considerado como um dos mais poderosos meios de atracção das águas pluviais que fertilizam uma região.
O fenómeno meteorológico é facilmente verificavel na Madeira, apesar da limitada área dos seus oitocentos
quilometros quadrados de superfície.
A necessária conservação das águas, a sua gradual infiltração através do solo e a sua regular distribuição
pelas vertentes e encostas deve-se em grande parte à benéfica existência dos arvoredos. Deste modo se vão
alimentando as fontes e nascentes e formando-se os abundantes e preciosos mananciais, pois, de outra
sorte, as águas das chuvas se transformariam em torrentes mais ou menos caudalosas, causando os maiores
estragos nos terrenos marginais e ainda se perderiam nos leitos pedregosos das ribeiras.
Com a distribuição mais ou menos regular e uniforme das águas pluviais, favorecida pela permanência dos
grandes maciços arbóreos, não somente se evita o frequente arrastamento de muitas terras aráveis, como
ficou dito, mas também se fixa e consolida a estabilidade de muitas glebas já cultivadas e de valiosa
produção agrícola, que as chuvas torrenciais, sem diques que as contivessem, destruiriam na sua impetuosa
passagem. É este certamente um inapreciável beneficio que, embora de uma maneira indirecta, as florestas
prestam á mais importante e generalizada indústria madeirense, além de prevenir e acautelar a ocorrência
de incalculaveis prejuízos.
A larga experiência dos anos vem insofismavelmente demonstrando que os caudais das levadas estão
diminuindo de volume na razão directa da destruição dos arvoredos. É certo que as favoráveis condições
climatéricas e a exploração de novas nascentes tem parcialmente corrigido essa perda lamentável, mas o
mal perdura e tende a agravar-se assustadoramente. Ninguém pode duvidar que, no decorrer do tempo e a
persistir o já tradicional vandalismo, as águas de regadio ficarão reduzidas a bem limitadas proporções,
afectando profundamente a indústria agrícola, de que vive setenta por cento da população madeirense, e
produzindo inevitavelmente um grande e talvez irremediável desequilibro em toda a economia do
arquipélago.
Não é, pois, uma impertinente insistência nem uma descabida redundância o vir alguém, embora pela
milionésima vez, tratar o «velho e relho» mas sempre novo e actual assunto da arborização das nossas
serras.
Vem de longe as enérgicas medidas de repressão emanadas do governo da metrópole e destinadas a
combater a destruição dos arvoredos desta ilha, datando de 1493 o alvará régio de D. João II, que é o mais
antigo de que há notícia e ao qual se seguiu a promulgação de outros diplomas legislativos, nomeadamente
o conhecido « Regimento das Madeiras», do ano de 1515, que já foi chamado o verdadeiro «Código Florestal
da Madeira». Em alguns desses alvarás, encontram-se disposições expressas acerca dos benefícios que as
matas prestam ás nascentes, acautelando-se a permanente conservação destas origens com o fim de serem
destinadas ao importante serviço da irrigação. Outras providencias se adoptaram no decorrer do tempo,
como foi o alvará régio de D. João IV de 12 de Janeiro de 1641, em que tão severamente se condena o
prejudicialissimo uso de «se acabarem cada vez mais as nossas serras, com contínuos e crescentes cortes de
arvoredos em detrimento da necessária condensação atmosférica, do regime das chuvas e
consequentemente dos caudais das levadas e das fontes.»
Não nos referimos á benéfica influencia que as matas exercem em diversos aspectos do clima, aos serviços
que prestam como combustível, como forragens e como materia prima para certas industrias e ainda a
outras prestimosas aplicações por ser objecto estranho ao particular assunto deste capítulo.
XXIII - Legislação e Bibliografia –
Para quem pretenda possuir uma notícia mais
circunstanciada acerca do assunto, tão importante para a nossa terra dos aquedutos e mananciais
empregados na irrigação, e de que apenas deixámos aqui traçado um ligeiro esboço, vamos fazer rápida
menção dos principais diplomas legislativos e dos mais conhecidos escritos, que de modo particular
interessam a esta matéria e que fornecem elementos muito apreciáveis para o seu estudo:
«Capítulo» do ano de 1451 do infante D. Fernando, grão mestre da Ordem de Cristo, registado a fls. 207 do
tomo 1.° do «Arq. da Cam. do Funchal, mandando nomear dois indivíduos encarregados da repartição das
águas de regadio; Cartas régias de 7 de Março e 8 de Maio de 1493, em que se consignam os direitos dos
cultivadores das terras ás nascentes destinadas á irrigação, achando-se integralmente transcritas a páginas
673 e seguintes das Saudades da Terra», Carta régia de 9 de Fevereiro de 1502, adoptando várias
providencias que facilitam a construção dos aquedutos («Saud. da Ter.» a pag. 688); Carta régia de 2 de
Fevereiro de 1515, em que se tomam algumas medidas acerca de diversas levadas com respeito ás nascentes
e distribuição das águas (Arq. da Cam. 1-116): Cartas régias de 26 de Setembro e 19 de Outubro de 1562, que
particularmente se ocupam das levadas da «Ribeira dos Socorridos» dos «Piornais» e do «Castelejo»,
(citadas a pag. 691 das «Saudades da Terra»); Três cartas régias do ano de 1563 , registadas no Arq. da Cam.
e indicadas nas Saud. a pag. 691, estabelecendo diversas providencias em reforço das medidas já adoptadas;
Cartas régias de 1644 e 1655, concedendo empréstimos para a realização de importantes melhoramentos
nas nascentes e aquedutos; Carta régia de 5 de Março de 1770, confirmando as antigas concessões feitas,
transcrita a pag. 711 das «Saudades da Terra»; Portaria de 13 de Julho de 1839 acerca da conclusão de uma
levada construída no sítio do Ribeiro Frio da freguesia do Paial; Decreto de 8 de Novembro de 1839
ordenando á Junta Geral a organização dos regulamentos para o serviço das levadas; Portaria de 1 de Março
de 1840 aprovando os estatutos da Sociedade da Nova Levada do Furado; Lei de 12 de Novembro de 1841
estabelecendo que não seja alterada a legislação especial das águas das levadas; Lei de 11 de Julho de 1849,
autorizando o Governo a concluir as obras da Levada do Rabaçal; Lei de 11 de Marco de 1884 regulando o
pagamento dos empréstimos para as obras das levadas; Lei de 26 de Julho de 1888, permitindo ás
associações de «heréus» adquirirem bens imobiliários e conferindo-lhes capacidade jurídica; Portaria de 30
de Maio de 1894 nomeando uma comissão para o estudo de um regimento para as florestas e águas da
Madeira; Decreto de 9 de Novembro de 1894 concedendo um subsidio para a construção da Levada do
Furado; Lei de 21 de Maio de 1896 autorizando o Governo a adjudicar a construção das levadas; Decreto de
18 de Junho de 1896, mandando abrir concurso para a adjudicação; Decretos de 13 de Novembro de 1903, 3
de Janeiro de 1905, 24 de Agosto do mesmo ano, 29 de Agosto de 1906 e 6 de Novembro do mesmo ano,
abrindo diversos créditos para a construção de novas levadas; Portaria de 14 de Novembro de 1910,
concedendo provisoriamente o aproveitamento das águas da Ribeira da Janela, que não sejam utilizadas
pelos proprietários marginais; Lei de 20 de Abril de 1914, mantendo às entidades jurídicas «Levadas da
Madeira» os direitos adquiridos sobre determinadas águas de nascentes existentes em prédios alheios;
Decreto de 31 de Julho de 1928 autorizando a venda das levadas; Decreto de 14 de Fevereiro de 1931,
mantendo as «Levadas» os direitos por elas adquiridos á data da publicação do Código Civil, ressalvados os
direitos da lei de 14 de Abril de 1914; Decreto de 26 de Junho de 1939, enviando á Madeira uma missão
técnica para o reconhecimento das possibilidades técnicas e económicas nos aspectos hidro-electricos e
hidro-agricolas em conjunto , e Decretos números 33.158 e 33.159, datados de 21 de Outubro de 1943, que
autorizam a construção de uma importante e vasta rede de canais de irrigação e fixam as normas a adoptar
para a realização desse inapreciável melhoramento.
De todos os diplomas legislativos que ficam citados, devem considerar-se como as bases fundamentais, que
constituem as verdadeiras leis orgânicas da vida das levadas, as cartas régias de 1493, 1515 e 1563 e os
decretos de 1841, 1888, 20 de Abril de 1914, 14 de Fevereiro de 1931 e 21 de Outubro de 1943, embora os
restantes encerrem elementos valiosos para os que quiserem adquirir um mais largo conhecimento deste
importante assunto.
Entre os escritos publicados acerca das levadas da Madeira, três superiormente se destacam pela sua
relativa extensão, inteira imparcialidade e reconhecida proficiência. Nenhum deles constitui um trabalho de
conjunto, pois que os seus autores, versando a matéria sob restritos pontos de vista, não pretenderam fazer
um estudo completo, mas somente expor o assunto de que singularmente pretendiam ocupar-se. No
entretanto, é certo que em todos esses escritos se encontram valiosos dados e informações, que são
indispensáveis para qualquer estudo que se pretenda elaborar. São eles: «Representação dirigida ao
Governo acerca das águas de irrigação na Madeira» pelos presidentes de diversas associações de heréus,
redigida pelo Dr. Quirino Avelino de Jesus e publicada no ano de 1897 em um opúsculo de 34 páginas;
«Plano Geral de distribuição das águas da Levada da Serra do Faial» pelo engenheiro Adriano Augusto
Trigo, um volume de 138 paginas, publicado em 1911; «das águas no Direito Civil Português» pelo Dr.
Guilherme Alves Moreira, publicado em 1920, onde se encontra um desenvolvido capítulo sob o número 21
e intitulado «Os direitos adquiridos sobre as águas e levadas na Madeira».
A concessão ou adjudicação das levadas, a aplicação do regímen hidráulico do Continente á Madeira e os
projectos da venda das mesmas levadas provocaram largas e acirradas discussões na imprensa do Funchal,
em que as paixões políticas, os interesses e os ódios não deixaram de ter um farto e deplorável quinhão. É
no entretanto indubitável que esses artigos, em numero aproximado de cem, fornecem elementos
apreciáveis para quem pretender fazer a historia circunstanciada das fases por que têm passado a gerência e
direcção das levadas madeirenses.
Pode consultar-se especialmente o Diario do Comercio de Agosto e Setembro de 1896, 0 Diario do Comercio
de Março, Abril, Agosto, Setembro e Outubro de 1897 e Abril de 1898, o Diário Popular de Julho, Agosto e
Novembro de 1897 e Abril, Maio e Julho de 1898,o Diário de Noticias de Maio de 1897 e Abril e Maio de
1898, e o Correio do Funchal de Janeiro e Fevereiro de 1897. Os numerosos artigos da imprensa
funchalense acerca do projecto da venda das levadas de 1916, e publicados nos meses de Fevereiro e Março
do mesmo ano, foram coligidos num volume de 196 páginas intitulado A Imprensa e os três projectos.
Além das obras e dos jornais citados, podemos mencionar sôbre levadas as seguintes publicações: Saudades
da Terra, do Dr. Gaspar Frutuoso e anotadas pelo Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo; Apontamentos para o
estado da crise agrícola no distrito do Funchal, pelo Dr. João da Câmara Leme Homem de Vasconcelos,
Funchal, 1879; levadas da Madeira. Relatório justificativo da proposta apresentada pelo Consultorio de
Engenharia e Architectura do Funchal no concurso para a adjudicação da Empresa de irrigação no
arquipelago da Madeira, por Carlos Roma Machado de Faria e Maia e Anibal Augusto Trigo, Lisboa, 1896;
As aguas e as levadas da Madeira, por Quirino Avelino de Jesus, artigo publicado no n.° 51 (Março de 1898)
da revista Portugal em Africa, que ocupa as pags. 81 a 127; e A Empreza das Levadas nas mãos de um
aventureiro... aggravo para a Relação de Lisboa em que é aggravado Manuel Alexandre de Sousa e
aggravante Anibal Augusto Trigo, Funchal, 1896, 41 pag..
Nas colunas de O Jornal e subordinado ao título genérico de «Problema Máximo», deixámos inserta uma
série de artigos, em que advogámos a necessidade da construção de mais algumas levadas, da conservação e
melhoria das existentes e da exploração de novas nascentes, afim de aumentar o volume dos respectivos
caudais.
Léveillê (Hector)
Distinto botânico francês nascido a 13 de Março de 1863 e falecido no Mans a 25 de
Novembro de 1918. Sôbre a flora madeirense escreveu os seguintes trabalhos: Les Onotheracées de Madère
(Le Monde des Plantes, Outubro, 1896); A propos de deux plantes de Madere (Idem, Outubro de 1897); e
Les Renonculacées, Geraniacées et Haloragées de Madere (Idem, Fevereiro, 1898).
Não visitou a Madeira, tendo-lhe sido fornecidos por um dos autores deste Elucidário os materiais precisos
para os estudos que fez sobre a flora desta ilha.
Liberal (0)
Publicaram-se quatro números deste jornal, sendo o primeiro a 23 de Dezembro de 1875.
Com o mesmo título, publicou-se outro jornal nesta cidade, desde 1 de Maio a 7 de Dezembro de 1913, tendo
saído 176 números.
Liberdade (A)
Saíram quatro números deste jornal, sendo o primeiro a 12 de Março de 1870 e o
último a 12 de Abril do mesmo ano.
Com o mesmo título se publicou outro periódico nesta cidade, de 20 de Novembro de 1878 a 5 de Fevereiro
de 1879, dando 59 números.
Liceu
A instrução secundaria esteve no nosso arquipélago principalmente confiada aos religiosos da
Companhia de Jesus até o ano de 1759, em que foram expulsos desta ilha. No seu Colégio, onde está hoje
aquartelado o regimento de infantaria n.° 27, ensinavam os jesuítas as humanidades nas chamadas Aulas do
Pátio, que eram uma dependência do mesmo Colégio, e ali dirigiam, além dum curso teológico, as
disciplinas de línguas portuguesa e latina, filosofia e retórica (V. jesuítas).
Em 1772, por Carta Regia de 6 de Novembro, estabeleceu o marquês de Pombal na Madeira três aulas de
latim, uma de grego, uma de retórica e outra de filosofia, suprindo deste modo a falta ocasionada pela
extinção do curso regido pelos jesuítas. Nos princípios do século XIX, foram criadas nesta cidade as aulas de
desenho e pintura, de aritmética e geometria, e mais tarde as de língua francesa e inglesa. Algumas destas
disciplinas funcionavam nas antigas Aulas do Pátio e as restantes em outros edifícios do Estado. Não
tinham estes estudos a conveniente organização cientifica e literária, nem a sua orientação obedecia a
métodos e programas de ensino definitivos, carecendo sobretudo duma direcção que lhes imprimisse
unidade e fizesse deles um curso sistemático e regular.
O decreto de 17 de Novembro de 1836 estabeleceu um liceu na capital de cada distrito do Continente e Ilhas
Adjacentes, onde seriam professadas dez cadeiras ou disciplinas, dando por terminado o exercício das aulas
que funcionavam antes dispersamente pelo país.
Ao governador deste arquipélago Antonio de Gamboa e Liz, foi ordenado que desse execução ao decreto e
promovesse a criação do liceu nesta cidade. O edifício escolhido foi o das antigas Aulas do Pátio, reunindo o
primeiro conselho dos professores e instalando-se o novo estabelecimento de instrução no dia 12 de
Setembro de 1837. A sua abertura, que revestiu grande solenidade, realizou-se a 10 de Outubro seguinte e
neste mesmo dia começou o regular funcionamento das aulas.
Os primeiros professores nomeados provisoriamente, que ali regeram cadeiras, foram o Dr. Manuel
Joaquim Moniz, que serviu de reitor interino, o Dr. João de Freitas e Almeida, Marceliano Ribeiro de
Mendonça e Alexandre Luis da Cunha, passando todos á efectividade por decreto de 17 de Setembro de
1838. Por decreto da mesma data, foi o Dr. Lourenço José Moniz nomeado professor proprietário e reitor
efectivo do nosso liceu. Francisco de Andrade começou a reger uma cadeira, como professor provisório, em
princípios do ano lectivo de 1838, sendo promovido á efectividade a 19 de Novembro do mesmo ano.
Foram sucessivamente nomeados professores efectivos o Dr. Luis da Costa Pereira (1850), José Camilo
Delanave (1854), Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo (1855), Dr. Joaquim Camelo Lampreia (1859), Dr.
Manuel José Vieira (1861), João Fortunato de Oliveira (1863), Dr. José Leite Monteiro (1867), Daniel
Simões Soares (1881), Dr. Mauricio Augusto Sequeira (1887), Padre Ricardo Augusto Sequeira (1887), etc..
Têm servido de reitores deste liceu o Dr. Manuel Joaquim Moniz (1837). Dr. Lourenço José Moniz (1838),
Marceliano Ribeiro de Mendonça (1850), Francisco de Andrade (1866), Dr. Nuno Silvestre Teixeira (1881),
cónego Manuel Esteves Fazenda, (1900), Dr. Nuno Silvestre Teixeira (1900), Dr. António Augusto Pereira
da Silva (1910), Anibal Sertorio dos Santos Pereira, Dr. Damião Peres, Dr. Joaquim Carlos de Sousa Dr.
Alberto Figueira Jardim, Dr. Antonio Luis Franco Dr. Angelo Augusto da Silva.
Entre os professores falecidos, foram considerados como verdadeiras notabilidades no ensino, não só pela
maneira brilhante como regeram as suas cadeiras, mas ainda pelos valiosos trabalhos que deram à luz
acerca das matérias que ali professaram, Francisco de Andrade com as suas gramáticas da língua pátria,
Marceliano Ribeiro com uma gramática latina e os seus estudos sobre filosofia, e o Dr. Alvaro de Azevedo
com um Livro sobre critica literária e um compêndio de leitura, filologia e redacção.
Entre os relatórios escritos pelos reitores, destacam-se os de Marceliano Ribeiro de Mendonça e do Dr.
Nuno Silvestre Teixeira, alguns dos quais se acham impressos, merecendo, porém, uma especial referência
os valiosos «Anuarios» saídos a lume nos últimos anos e elaborados pelo distinto reitor Dr. Ângelo Augusto
da Silva.
Cremos que as dez cadeiras ou disciplinas estabelecidas pelo decreto de 17 de Novembro de 1836 não foram
professadas no nosso liceu desde a sua criação, e que somente em anos imediatos é que a regência delas se
tornou efectiva. Não podemos acompanhar as diversas fases por que tem passado o ensino no liceu desta
cidade através das muitas reformas de instrução secundaria, porque isso exigiria um paciente trabalho de
investigação que a brevidade do tempo e a estreiteza desta obra não nos permitem realizar.
Como dissemos, foi o liceu instalado nas antigas Aulas do Pátio, que eram dependências do Colégio dos
Jesuítas e tinham acesso pela rua dos Ferreiros, permanecendo ali mais de 40 anos e sendo transferido em
Janeiro de 1881 para uma casa da mesma rua, que era um antigo solar dos morgados Vasconcelos de Couto
Cardoso e depois pertenceu aos barões de São Pedro, onde principiou a funcionar no dia 11 do mesmo mês e
ano. Em Janeiro de 1914, mudou as suas instalações para o antigo Paço Episcopal, à antiga rua do Bispo,
hoje Gomes Freire, onde actualmente (1921) se encontra, e em 1880 esteve algum tempo em umas
dependências do palácio de São Lourenço.
O opúsculo «Cem Anos de Vida Escolar» da autoria do professor J. R. Basto Machado publicado no ano de
1937, por ocasião de passar o primeiro centenário da criação do liceu do Funchal, encerra alguns dados que
interessam á historia deste estabelecimento de ensino.
Há muito que a imprensa local e todos os reitores que se têm sucedido na direcção do nosso liceu não
deixaram nunca de insistir na imperiosa necessidade da construção de um edifício destinado á instalação,
nas exigidas condições pedagógicas, daquele importante estabelecimento de ensino secundário. Depois de
ponderados estudos respeitantes á escolha do local mais apropriado a esse fim e à maneira de realizar essa
dispendiosa construção, resolveu a Junta Geral do Distrito tomar a iniciativa desse empreendimento de tão
notável alcance social e educativo, havendo para isso obtido do Governo Central a cessão do antigo hospital
militar desta cidade, o que foi autorizado pelo decreto de 5 de Setembro de 1936. Dentro de pouco tempo se
iniciaram os trabalhos da suntuosa construção, que prosseguiram rapidamente e sem interrupção e no mês
de Outubro de 1942 achavam-se instalados no novo edifício todos os serviços liceais e satisfeita uma das
grandes necessidades do nosso meio, havendo principiado o funcionamento das diversas aulas no dia 8 do
mês e ano referidos.
Licopodiáceas
Estas Criptogamicas Vasculares estão representadas na Madeira pelas duas espécies
seguintes: Lycopodium complanatum e L. Selago, servindo esta ultima, durante a época do Natal, para
ornamentar as lapinhas ou presépios.
Liebetruth (Dr.)
Botânico austríaco que colheu algas marinas na Madeira, em 1862.
Lignite
No Ribeiro do Meio, no vale de S. Jorge, a cerca de 300 metros acima do nível do mar,
conhecem-se há muitos anos dois veios ou depósitos de lignite impura, estando esta lignite associada a
diferentes camadas de tufo e argila, numa das quais foram encontradas em abundância folhas fósseis de
Dicotiledonias e de Fetos. Como sôbre os depósitos assenta uma espessa camada de basalto e de escórias,
com mais de 300 metros de alto, parece evidente que no local existiu uma vegetação terrestre abundante,
muito anterior ás formações vulcanicas que o cobrem.
A natureza dos tufos que acompanham a lignite e alguns dos aglomerados próximos, autorizam, diz Lyell, a
admitir que perto do local onde existem os depósitos houve outrora uma série de erupções, não sendo
impossível, portanto, que a mesma lignite e as folhas se tivessem acumulado numa cratera, e que a erosão
do vale as pusesse depois a descoberto.
Diz-se que a analise da lignite de S. Jorge acusou 60 por cento de carvão e 30 por cento de cinzas.
Esta lignite que durante largos anos estivera soterrada em virtude de desmoronamentos dos terrenos
superiores foi novamente posta a descoberto em 1917.
V. Jazigos de fôlhas e Fanerogâmicas.
Ligustro (Ligustrum japonicum)
Arvore da família das Oleaceas que se vê nalgumas ruas, praças
e jardins públicos e particulares. Tem folhas grandes, ovado-acuminadas e flores brancas, muito aromáticas
dispostas em panículas.
Lima (Dr José L. Avila e)
Foi eleito deputado por este arquipélago a 28 de Agosto de 1910. Não
chegou a reunir-se o parlamento por ter sido proclamada a Republica a 5 de Outubro do mesmo ano.
Lima e Cunha (Henrique de)
Nasceu no Barreiro a 15 de Março de 1843 e faleceu em S. Pedro de
Sintra a 17 de Outubro de 1915. Era oficial de artilharia, comandou, sendo capitão, a companhia n.° 3 de
artilharia de guarnição, foi professor de desenho no liceu do Funchal e desempenhou uma comissão na
Direcção das Obras Publicas do distrito. E.: Plano de melhoramentos para a ilha da Madeira, Lisboa, 1879,
folheto.
Limeira (Citrus medica, subsep. Lumia)
Pequena árvore da família das Rutaceas, pouco
cultivada na Madeira. Os seus frutos são conhecidos pelo nome de limas ou limões doces.
Limites da Cidade
A postura municipal de 30 de Dezembro de 1909, confirmada pela Comissão
Distrital em 3 de Agosto de 1911 estabeleceu que a parte urbana do Concelho do Funchal era o perímetro
formado pelos ângulos cujos vértices se apoiam nos pontos seguintes: 1.° Hotel Reid á Estrada
Monumental; 2.° Ponte Velha do Ribeiro Seco; 3.° Intersecção da R. do Arcebispo D. Aires com a Estrada da
Levada de Santa Luzia; 4.° Intersecção da dita Estrada com a Avenida de Pedro José de Ornelas; 5.°
Intersecção do Caminho do Palheiro do Ferreiro com o Caminho do Terço; e 6.° Foz da Ribeira de Gonçalo
Aires. A ligação do 3.° e 4.° vértices deve supor-se feita pela linha poligonal que segue todas as sinuosidades
da Estrada da Levada de Santa Luzia.
Os limites da cidade eram os seguintes, segundo o alvará de 5 de Outubro de 1863: ao sul as praias da baía
do Funchal; a leste, na freguesia de Santa Maria Maior, os sítios de Louros, Forca e Rochinha de Cima; ao
norte, na freguesia de Santa Luzia, os sítios do Vale Formoso, Calçada da Torrinha e Ponte do Deão; e a
oeste, na freguesia de S. Pedro, os sítios do Pico, S. João da Ribeira, Maravilhas, Ribeiro Seco e Ponte
Monumental.
Antes daquele alvará era a cidade limitada pela ermida de Santa Catarina, Ponte de S. Paulo, Castelo do
Pico, Beco dos Arrifes até o moinho de cima, igreja de Santa Luzia, Pena, Rochinha e Encruzilhada da Forca,
tendo estes limites sido fixados por uma comissão nomeada em sessão camarária de 19 de Dezembro de
1809.
A Cidade principiou a estender-se para os lados do Ribeiro Seco e do Caminho do Monte depois da aluvião
de 1803, em razão de terem ficado arruinados muitos prédios da cidade e haver falta de habitações para
muitas famílias.
A Câmara Municipal, em sua sessão ordinária de 17 de Outubro de 1927, resolveu dar á cidade uma área
excessivamente vasta, internando-a muito nas freguesias suburbanas e fixando os seus limites nos seguintes
termos, que aliás, não primam pela clareza; «Do mar em linha recta ao Caminho de ligação da Estrada
Nacional n.º 23 com o Caminho Velho de S. Gonçalo, Caminho da Igreja de S. Gonçalo, Caminho do
Palheiro Ferreiro, Caminho do Terço, Caminho da Levada do Bom Sucesso, em linha recta á Estrada da
Levada de Santa Luzia, daqui em linha recta ao Muro da Coelha (norte da Quinta Drolhe), Caminho da Água
de Mel, Álamos, Ponte da Ribeira Grande, Quinta do Leme, Pilar, Avista-Navios, Caminho de São Martinho
e do Amparo á Estrada Monumental e em linha recta até ao mar».
Com estes novos limites, fixados á área da cidade, passou ela a ter uma quasi duplicada superfície, tomando
proporções verdadeiramente exageradas. Segundo a deliberação camarária de 1909, faziam parte integrante
da cidade as freguesias da Sé e de Santa Luzia, a quasi totalidade da de São Pedro e ainda uma parte
considerável da de Santa Maria, sendo por isso chamadas freguesias urbanas. Pela nova divisão citadina de
1927, ficou a capital do distrito compreendendo a área estabelecida em 1909, acrescida da superfície que lhe
deram as freguesias suburbanas de São Martinho, Santo António, São Roque e São Gonçalo, sendo a
paróquia do Monte a única que não comparticipa do perímetro recentemente fixado aos limites da cidade. A
sua antiga área, que era computada em cerca de quinhentos hectares, deve actualmente atingir uma
superfície aproximada de 750. A verdade é que o alargamento demasiado da cidade não feriu as atenções da
população, que continua considerando como extremos do Funchal citadino os limites que lógica e
acertadamente lhe foram fixados no ano de 1909. O censo oficial da população relativo ao ano de 1920
atribui à cidade o número de 24.284 habitantes, estando hoje esse número muito aumentado, não só pelo
natural crescimento da população, nas ainda pelo alargamento que a cidade teve em 1927, como já fica
referido.
Limoeiro (Citrus medica subesp. Limonium)
Rutacea do Himalaia, muito cultivada na
Madeira. O sumo dos seus frutos serve para a preparação de limonadas e é útil em certas inflamações da
garganta. O limoeiro que produz os limões chamados de galinha, é a variedade acida da subespécie
Limonium.
Limoges
Apelido de família de origem francesa, hoje extinto na Madeira. Felipe Gentil de Limoges
instituiu o morgado e capela de S. Filipe, em Santa Maria Maior. V. São Filipe (Capelas de).
Limonite
Óxido de ferro anidro. Encontra-se em massas com o caracter de concreções, na Ponta de S.
Lourenço (ilha da Madeira).
Lindinger (Dr. Leonhard)
E.: Die Schildlause (Coccidae) Europas, Nordafrikas und Vorderasiens,
einschlisslich der Azoren, der Kanaren und Madeiras...; Stuttgart, 1912, 388 paginas.
Este trabalho assinala 18 espécies madeirenses encontradas sobre 34 espécies diferentes de plantas.
Lindman (Dr. Carlos)
Botânico sueco que visitou a Madeira em 1885. As algas colhidas por ele
nesta ilha, foram determinadas pelo professor Oscar Borge.
Língua Cervina
O feto que os madeirenses designam por este nome é o Elaphoglossum squamosum,
caracterizado pelas folhas alongadas e cobertas de escamas ferruginosas ou quási negras. Esta espécie vive
no Porto da Cruz, na Boa Ventura, nos Lamaceiros, etc., e é muito usada na Madeira como medicamento
béquico. O feto conhecido em Portugal pelo nome de língua cervina, é o Scolopendrium vulgare, espécie que
é também madeirense, mas bastante rara.
Língua de Vaca (Sonchus fruticosus)
Composta de 1 a 3 metros, frequente no Monte, na
Camacha e nas ravinas do interior. Tem folhas alongadas, com os lóbulos laterais largos e arredondados, e
capítulos grandes, amarelos, umbelados, formando pelo seu conjunto uma panícula. É conhecida também
pelo nome de serralha da rocha.
Linho (Linum usitatissimum)
Esta planta têxtil é cultivada em quasi todas as freguesias da
Madeira, ocupando uma área de uns 150 a 200 hectares. O linho em seguida á colheita, é passado pelos
dentes do ripanço, afim de perder a baganha, indo depois a curtir para dentro de tanques ou nas águas das
ribeiras, onde permanece por 8 a 10 dias. Decorrido este prazo, é posto a secar, depois do que é esmagado
com um malho. Afim de separar as fibras têxteis da parte lenhosa que a elas adere, vai o linho á gramadeira
e depois a tasquinhar, mas é somente no sedeiro, que é uma espécie de pente formado de dentes metálicos
fixos sôbre uma peça de madeira, que se desenreda e se pode tornar mais delgado o fio, fazendo-se ao
mesmo tempo a separação das estopas.
Tanto o linho como as estopas são fiados na roca, por mulheres, e o fio que deste modo se obtém é, depois
de ensarilhado, metido no forno ou em barrela, indo depois a corar ao sol. Dobado o fio depois de
branqueado pode passar finalmente aos pequenos teares que existem disseminados por vários pontos da
ilha e onde termina a série de operações a que o povo acertadamente costuma chamar os tormentos do
linho.
Os panos de linho fabricados na Madeira são de excelente qualidade e muito duráveis e é deles que se faz
uma boa parte da roupa branca de que usa a gente dos campos.
A linhaça (sementes do linho) é muito usada na medicina dos campos, mas a que se encontra nas boticas,
vem quasi tôda de fora da ilha.
A este assunto, interessa o livro «As pequenas Indústrias da Madeira» no capítulo O Linho na Madeira da
autoria do tenente-coronel Alberto Artur Sarmento.
Lippold (Dr.)
Botânico alemão que herborizou na Madeira em 1838. Escreveu no Gardner's
Magazine, de Outubro de 1838, uma noticia sôbre os jardins da casa do Dr. Renton, na ilha da Madeira.
Liquenes
O distinto liquenólogo espanhol o rev.° padre Longinos Navas aponta e descreve na sua
Sinopsis de las Liquenes de las Islas de Madera 203 espécies destas curiosas plantas celulares, constituídas,
como é sabido, pela associação duma alga com um fungo. O fungo aproveita da alga os princípios
hidrocarbonados; esta recebe daquele abrigo contra a dissecação, e uma certa quantidade de substancias
azotadas. Esta associação denomina-se simbiose.
Entre os líquenes madeirenses, citaremos os seguintes: Stiacta damaecornis, Pseudocyphellaria aurata,
Lobaria pulmonaria, Xanthoria parietina, Usnea florida, Nemaria fuciformis, N. rocella, N. fucoides,
Cenomyce pyxidata e diferentes Lecanora, Parmelia, Lecidia, etc.. As três especies que possuímos do genero
Nemaria, conhecidas pelo nome de urzelas, eram muito utilizadas outrora para a extracção duma substancia
vermelho-violacea que se obtinha pondo as plantas a fermentar com cal e urina. Os líquenes encontram-se
na casca das árvores, nas rochas e paredes, na terra, etc.. V. Krempelhuber, Stein, Stizenberger, Steiner,
Navas.
Lira
É apelido ainda hoje comum nalgumas freguesias desta ilha. Na Calheta, houve uma família nobre
deste apelido, á qual pertenceram o cónego Antonio Veloso de Lira e o padre Manuel de Lira (V. estes
nomes). Dizem alguns nobiliarios que provém de Teresa de Lira, mulher de D. Afonso de Aragão dos fins do
século XV, tendo o filho destes, por nome Lopo Dias, adoptado aquele apelido, que desde então se tem
mantido na ilha.
Lira (António Veloso de)
Foi um dos mais distintos madeirenses do século XVII. Pertencia a
uma antiga e nobre família da freguesia da Calheta e ali nasceu a 14 de Junho de 1616, sendo filho de
Manuel Dias de Lira e de D. Mecia Rosa de Couto. Feito nesta ilha o estudo das humanidades, matriculou-se
na célebre Universidade de Salamanca, que era então muito frequentada por portugueses. Estava prestes a
concluir ou teria já terminado o seu doutoramento em teologia, quando rebentou a revolução que sacudiu o
jugo castelhano e pôs no trono o duque de Bragança. Era considerável o número de compatriotas de Veloso
de Lira, quasi todos estudantes, que se encontravam naquela cidade espanhola, tendo ele contribuído mais
do que ninguém para que todos regressassem imediatamente à sua pátria, afim de se associarem ao
movimento de libertação e independência que logo se manifestou em todo o país. A este facto se refere
Camilo Castelo Branco no artigo Estudantes Portugueses em Salamanca, inserto no seu livro Coisas leves e
pesadas. António Veloso de Lira na obra Espelho de lusitanos faz uma ligeira referência a esse
acontecimento, dizendo que se encontravam então em Salamanca mais de quatrocentos portugueses.
Dedicou-se ao cultivo das letras e gozou no seu tempo da fama de homem de vasta ilustração. Publicou em
1643 um livro intitulado Espelho de Lusitanos em o cristal do psalmo 43, de que se fêz segunda edição no
ano de 1753. Como o padre Antonio Vieira e outros espíritos superiores, não pôde subtrair-se ao gosto
dominante da época e os seus escritos estão eivados desse detestável gongorismo, que então infestava a
literatura portuguesa e espanhola. Apesar dos seus defeitos, a obra é reveladora de uma inteligência
superior e de uma não vulgar ilustração, tendo Alexandre Herculano, ainda por meados do século passado,
feito dela largos estractos na revista 0 Panorama. Não sabemos que tivesse publicado outras obras, dizendo
Barbosa Machado que deixou os seguintes inéditos: Política Christiana, Zodiacus Ecclesiae, Stella Matutina
in medio nebulae, Domus Sapientiae, Philosophia muta, Glosa sobre os Evangelhos e Antiguidades da ilha
da Madeira.
Depois de uma longa permanência no Continente do Reino, fixou residência na Madeira sendo em 1670
nomeado cónego da nossa Sé e em 1689 elevado á dignidade de cónego magistral. Entre os cargos que
desempenhou entre nós destaca-se o de governador deste bispado. Morreu nesta cidade a 4 de Janeiro de
1691 e foi sepultado na capela-mor da Sé Catedral.
Lira (Padre Manuel de)
Este sacerdote madeirense esteve alguns tempos cativo em Argel, onde
prestou grandes serviços aos outros cativos que ali se encontravam, tratando-os e socorrendo-os com a mais
evangélica caridade. Pertencia a uma antiga família da Calheta, onde nasceu e onde veio a falecer na
primeira metade do século XVII. Era parente do cónego António Veloso de Lira (V. este nome).
Lírio
São conhecidas por este nome todas as Iridáceas do género Iris, cultivadas na Madeira. A Iris
biflora, oriunda de Portugal e facil de reconhecer pelas suas flores grandes, brancas ou roxas, é a mais
comum das plantas do mesmo género.
Os madeirenses dão também o nome de lírio à Reseda Luteola, planta da família das Resedaceas, muito
frequente na ilha. Esta planta encerra um princípio corante amarelo, que os madeirenses costumam utilizar
colhendo os exemplares em flor e deitando-os a ferver com o que querem tingir, sendo o objecto tingido
submetido finalmente a uma barrela de cinza.
O lírio deve ser colhido pouco tempo depois da floração e quando houver já algumas sementes maduras.
Lírio (Controlophus ovalis)
Peixe da família Escombrida, que se pesca a distancia da costa, tanto à
superfície, como a meia água. É espécie comestível, mas pouco apreciada.
Literatura
A literatura madeirense seguiu as fases da literatura continental, embora poucos escritores
deste arquipélago deixassem nome aureolado na historia literária do país.
É certo, porém, que logo no século do descobrimento apareceram alguns poetas de notável mérito, que
figuram no Cancioneiro de Garcia de Resende, chegando Teofilo Braga no seu livro Poetas Palacianos, a
considera-los como formando um grupo á parte, característico e distinto, a que deu o nome de Cyclo Poético
da Ilha da Madeira, de cuja classificação discorda o anotador das Saudades da Terra. No entretanto, afirma
o Dr. Alvaro de Azevedo que «nem por isso aquele muito notável grupo deixa de ser título bastante a que a
ilha da Madeira tenha quinhão honroso na historia ante-classica da literatura nacional, quinhão que o Sr.
Theophilo Braga lhe revindicou.» Os principais desses poetas que figuram no cancioneiro são Tristão
Teixeira, 2.º donatario de Machico, conhecido pelo nome de Tristão das Damas, João Gomes, o Trovador,
João Gonçalves da Câmara, 2.º donatario do Funchal, Rui de Sousa, João de Abreu, Manuel de Noronha,
filho do 2.° capitão donatario João Gonçalves e Rui Gomes. Não temos conhecimento de nenhum prosador
madeirense que tivesse vivido no século XV (Vid. Cancioneiro de Resende, 1-233).
Dos prosadores madeirenses do século XVI, faz Barbosa Machado, na Bibliotheca Lusitana, menção de
Afonso da Ilha, Luís Gonçalves da Câmara, Damião das Chagas, Tristão Gomes de Castro, Manuel Alvares,
Antonio da Gama e Sebastião de Morais (V. estes nomes). Deste período há a mencionar o poeta cego
Baltasar Dias (V. este nome).
No século XVII, figuram como escritores Luís de Morais, Antonio da Visitação, João Pinto da Vitoria,
Francisco de Santa Teresa, Antonio Veloso de Lira, Belchior de Teive, Gregorio Baptista, Remigio de
Assunção, Manuel Constantino, Francisco de Castro e Daniel da Costa (V. todos estes nomes). Pertence a
este período o poeta Manuel Tomás (V. este nome) que, embora não seja madeirense, escreveu o conhecido
poema A Insulana, que exclusivamente se ocupa de cousas desta ilha.
No século XVIII, mencionaremos os escritores Nicolau Francisco Xavier da Silva, Manuel Rodrigues,
Henrique Henriques de Noronha e Julião Fernandes da Silva (V. estes nomes). Neste período, distinguiram-
se como poetas Troilo Vasconcelos da Cunha, Francisco de Vasconcelos Coutinho, Francisco Alvares de
Nobrega e Francisco Manuel de Oliveira (V. estes nomes).
Na primeira metade do século XIX, devemos citar os nomes do Dr. Nicolau Caetano de Bettencourt Pita,
padre João Crisóstomo Espinola de Macedo, João António Monteiro, Joaquim José Ferreira de Freitas, José
Manuel da Veiga, Francisco Ferreira de Abreu, Justino Antonio de Freitas, Servulo Drumond de Meneses,
José Anselmo Correia Henriques, Marceliano Ribeiro de Mendonça, António Gil Gomes, Manuel de
Santana e Vasconcelos. Paulo Perestrelo da Câmara e Francisco de Andrade, como prosadores, e Manuel
Caetano Pimenta de Aguiar e Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, como poetas
(V. estes
nomes).
Citamos como escritores madeirenses do terceiro quartel do século passado José Antonio Monteiro
Teixeira, viscondessa das Nogueiras, Luis da Câmara Leme, Antonio Correia Heredia, Patrício Moniz, José
Vicente Barbosa du Bocage, Agostinho de Ornelas, Luis da Costa Pereira, Januario Justiniano de Nobrega,
João Augusto de Ornelas, João de Nobrega Soares, conego Alfredo César de Oliveira, visconde das
Nogueiras e Maximiliano Eugenio de Azevedo.
Do último quartel do século XIX, mencionaremos como autores madeirenses os nomes de Luís de Ornelas
Pinto Coelho, João Baptista de Freitas Leal, Alexandre José Sarsfield, D. Joana Castelo Branco, Padre José
Gonçalves de Aguiar, Padre Manuel Fernandes de Santana, Ciríaco de Brito e Nobrega, Carlos Azevedo de
Meneses, Antonio Feliciano Rodrigues e Francisco Antonio Ferreira.
Livramento
Sítio povoado da freguesia do Caniço. Tomou o nome duma capela, que ali existiu,
dedicada a Nossa Senhora do Livramento e que foi centro duma concorrida romagem, transferida hoje para
a Igreja Paroquial. Atribui-se a fundação desta capela a Sebastião de Oliveira por meados do século XVII,
que teve ali terras de sesmaria.
Livramento
Sítio povoado da freguesia do Monte. O nome provém-lhe da capela da invocação de N.
S. do Livramento, que ali se encontra, mandada construir por Inácio Ferreira Pinto, no ano de 1684, e
reedificada um século mais tarde por João José Bettencourt de Freitas, sendo de instituição vincular. No
mesmo sítio se acha uma capela consagrada ao Sagrado Coração de Jesus, construída há poucos anos pelo
padre Jorge de Faria e Castro.
Livramento
Sítio da freguesia da Ponta do Sol, em que se encontra uma capela dedicada a Nossa
Senhora do mesmo nome e mandada construir por Diogo Ferreira de Mesquita e sua mulher D. Isabel de
Meneses, no ano de 1656, sede dum morgadio por eles instituído, sendo descendentes do fidalgo alemão
Adriano Spranger, que por ali possuía terras de sesmaria.
Livramento
Sítio da freguesia de São Vicente. Acha-se nele uma capela, que tem a invocação de Nossa
Senhora do Livramento e que deu o nome a este lugar, havendo sido fundada pelo padre Manuel Gomes
Garcês no ano de 1683.
Lobato (João Carvalho)
Há anos, vários jornais norte-americanos referiram-se com grandes elogios
e certa largueza a este madeirense pelas suas descobertas especialmente no campo da mecânica e da
electricidade, tendo obtido por esses inventos algumas «patentes de invenção» em diversos países da
Europa. As últimas noticias que acerca dele alcançámos, foram publicadas no periódico madeirense «O
Jornal» de 26 de Fevereiro de 1932, que a seu respeito insere um desenvolvido e interessante artigo.
Lobato Machado (Bernardo Francisco)
Nasceu nesta ilha no ano de 1802 e faleceu no
Funchal a 20 de Fevereiro de 1878. Foi um hábil advogado «provisionista» e deixou alguns escritos, que ao
tempo gozaram de merecida reputação, especialmente um bem elaborado formulário acerca de varias
questões forenses. Tornou-se muito conhecido como jornalista pela violência com que atacava os seus
adversários e pela linguagem descomposta de que geralmente usava, vendo-se obrigado a homiziar-se para
escapar ás ameaças de prováveis represálias. Ainda há poucos anos se falava com frequência dos artigos da
mais acerba verrina que Lobato Machado publicara no jornal semanal A Vergasta, de que foi o redactor
principal. Foi assíduo colaborador dos jornais «Amigo do Povo», «Clamor Publico, e a Justiça".
Lobo (D. João)
Foi o primeiro bispo que veio a esta ilha. Havia mais de 80 anos que começara a
colonização do arquipélago e ainda nenhum prelado desempenhara as funções episcopais. O vigário de
Tomar ou antes o mestrado da Ordem de Cristo, a que a Madeira pertencia no espiritual, enviou em 1508 o
bispo D. João Lobo, que visitou todas as igrejas e principais capelas desta ilha. O bispado do Funchal foi
criado em 1514 e portanto D. João Lobo limitou a sua missão religiosa apenas ao exercício das funções
prelatícias, isto é crismar, ordenar os clérigos, benzer os paramentos e vasos liturgicos, consagrar os
templos, etc., não tendo qualquer interferência na administração dos negócios eclesiásticos, na observância
da disciplina canónica e na repressão dos abusos cometidos, o que somente competia ao bispo diocesano,
que não existia ainda, cabendo então esse encargo ao representante da Ordem de Cristo, que nesse tempo
era já Nuno Cão (V. I-243), freire da mesma Ordem. O primeiro templo sagrado (e poucos há que sejam
sagrados, mas sim apenas benzidos) nesta ilha foi a capela da Lombada do Esmeraldo, na freguesia da
Ponta do Sol, e ainda actualmente numa das paredes interiores do edifício se lê a seguinte inscrição: Esta
igreja foi consagrada por D. João Lobo, Bispo de Taiere, aos 27 de Agosto de 1508. Este prelado regressou a
Portugal depois de ter estado pouco mais de um ano nesta ilha. Foi depois da sua visita, que mais de perto
se reconheceu a necessidade da criação duma diocese neste arquipélago, que só veio a estabelecer-se no ano
de 1514, como acima fica dito. No excelente livro de Vieira Guimarães A Ordem de Cristo, publicado em
1901, lemos o seguinte: Já em 1508 para satisfazer os desejos destes reclamantes (a criação do bispado do
Funchal), o Vigário de Tomar lhes enviou o bispo de anel D. João Lobo, que foi esperada na ilha pelo mestre
Frei Nuno Cão, com toda a clerezia e lhe fizeram muitas festas».
Lobos Marinhos
Diz Frutuoso que João Gonçalves Zarco e seus companheiros encontraram no
local a que chamaram Câmara de Lobos «tantos lobos marinhos que era espanto; e não foi pequeno refresco
e passatempo para a gente, porque mataram muitos delles e tiveram na matança muito prazer e festa».
O que fizeram os descobridores repetiu-se inúmeras vezes mais tarde, o que deu em resultado
desaparecerem os lobos marinhos de Câmara de Lobos e talvez doutros pontos da ilha onde é possível que
existissem hoje esses animais só aparecem nas furnas marítimas da Deserta Grande, mas como os
pescadores os matam quando os encontram, é de crer que venham a desaparecer daquela ilha, como já
desapareceram da Madeira.
Na primavera de 1878, foram mortos na Deserta Grande oito lobos marinhos, e depois disso outros foram
destruídos ou capturados naquela ilha, sendo alguns deles expostos á curiosidade do público do Funchal.
No Museu Britânico, existem vários exemplares de lobo marinho, provenientes da Deserta Grande, um dos
quais com mais de metro e meio de comprido, e no museu do liceu do Funchal existiu um pequeno
exemplar da mesma espécie, capturado também naquela ilha e que chegou a viver alguns dias num lago do
Jardim Municipal. Encontra-se um exemplar no Museu Municipal.
O lobo marinho do arquipélago da Madeira é o Monachus albiventer, espécie mediterrânea que tem na
Deserta Grande o seu habitat mais meridional.
Lombada
Sítio povoado da freguesia de Santa Cruz. A antiga capela de São Pedro que ali existe, foi
construída por João Escorcio Drumond nos princípios do século XVI e ficava na margem da Ribeira da
Boaventura. Arrasada pela grande aluvião de 1803, procedeu-se pouco depois á sua reedificação em lugar
menos exposto à violência da corrente. Afirma-se que neste sítio erigiu D. Maria do Rosário de Arvelos, no
ano de 1670, uma capela da invocação de Nossa Senhora da Penha de França que há muito desapareceu.
Lombada dos Esmeraldos
Também é conhecida pela Lombada da Ponta do Sol por ficar
situada na freguesia deste nome. Deveria ter sido esta a sua primitiva denominação. Quando passou a
pertencer a João Esmeraldo e aos seus descendentes, como administradores do morgadio ali instituído, é
que tomou o nome da Lombada dos Esmeraldos. Para evitar escusadas repetições, remetemos o leitor para
o artigo consagrado a João Esmeraldo
(vol. 1, pag. 410)
, onde já demos notícia desenvolvida desta
grande propriedade, que era e ainda é a maior de toda, a ilha. Apenas acrescentaremos alguns pormenores
de que ali se não faça menção. O descobridor João Gonçalves Zarco logo nos primeiros tempos da
colonização reservou para si e seus filhos várias lombadas e extensos tratos de terreno, que quási todos se
transformaram em importantes e florescentes casas vinculadas. Rui Gonçalves da Câmara (Vid. vol. 1.°, pag.
206), segundo ou terceiro filho de Zarco, foi contemplado com a grande lombada que ia do mar à serra e se
extendia da ribeira da Caixa até á ribeira da Ponta do Sol. Ignoramos qne tempo esteve de posse desta
propriedade e que explorações agrícolas teria nela realizado. Ao contrario do que se diz no artigo dedicado a
João Esmeraldo, foi em 1473 que este comprou ou antes aforou a Rui Gonçalves da Câmara aquele vasto e
fertilissimo terreno pela importância de 600$000 réis e a renda vitalícia anual de 150$000 réis, isto é no
ano anterior àquele em que foi estabelecer-se nos Açores, pois as crónicas deste arquipélago dão como certa
a ida de Rui Gonçalves para a ilha de São Miguel no ano de 1474.
João Soares de Albergaria, 2.° capitão e donatario de S. Miguel, acompanhou á Madeira sua mulher que
aqui faleceu, dizendo o padre António Cordeiro na Historia Insulana que querendo ele agradecer a Rui
Gonçalves da Câmara «a grande hospedagem que lhe fizera», resolveu vender-lhe a sua donataria, e por
preço tão barato, acrescenta Gaspar Frutuoso, que a cedeu por oitocentos mil reis em dinheiro e quatro mil
arrobas de assucar» Afirma-se que a venda ou antes o aforamento da lombada da Ponta do Sol se destinou á
compra da donataria da ilha de São Miguel, o que parece muito provável.
Como já fica sumariamente exposto nos artigos citados, João Esmeraldo casou em primeiras e segundas
núpcias, e a favor dos dois filhos que houve dos dois matrimónios instituiu em 1522 o morgadio do Vale da
Bica, composto da metade oriental da Lombada, e o do Santo Espírito, compreendendo a metade ocidental
indo a linha divisória do Pico das Pedras, junto do Paul da Serra, pelo caminho do concelho abaixo até à
coroa do Pico da Amendoeira e dai até entestar no mar. Feitas estas partilhas, tiraram sortes e coube o
morgado do Vale da Bica a João Esmeraldo de Vasconcelos, filho do primeiro matrimónio, e o do Santo
Espírito ao filho do segundo matrimónio Cristovão Esmeraldo. Levantaram-se dúvidas acerca destas
partilhas e seguiram-se depois longas demandas que, com intervalos, se renovaram pelos anos fora,
perdurando por mais dum século esses pleitos judiciais, que pareciam intermináveis. Deram-se então
curiosos episódios e peripécias que o conselheiro Agostinho de Ornelas, ultimo administrador do morgadio
do Vale da Bica, sumariamente descreve num interessante artigo publicado no n.° 237 do jornal A Verdade,
de 16 de Outubro de 1897.
Ali construiu Esmeraldo uma capela dedicada ao Espírito Santo, a que também chamavam da Conceição,
que foi sagrada pelo bispo D. João Lobo no ano de 1508 e que ficou sendo a sede deste morgadio. O templo
actual é uma reedificação da primeira metade do século XVIII, sendo a capela mais vasta, mais elegante e
mais rica de toda a diocese. É digno de admiração e apreço o lambris de azulejos, que interiormente cobre o
roda-pés das paredes da capela, representando, em figuras simbólicas, os Dons e os Frutos do Espírito
Santo. Tem cinco altares e nela se encontram algumas imagens primorosamente esculturadas, Nas suas
imediações, se acha o vasto e arruinado solar, que era a mais aparatosa casa de campo da Madeira, tendo
sido reedificada pelos anos de 1679 pelo morgado Luís Esmeraldo de Atouguia. O último representante
desta instituição vincular foi o 2.° conde de Carvalhal, que ali estadeou o brilho e a magnificência com que
costumava revestir as suas deslumbrantes e aparatosas festas. Neste sítio, onde chamam o Passo, se
encontram um dos dois cemitérios paroquiais e as ruínas duma velha capela dedicada a Santo Amaro, cuja
construção se atribui também a João Esmeraldo. Vid. A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira pelo
padre Fernando A. Silva.
Lombada do Loreto
Sítio povoado da freguesia do Arco da Calheta, onde se encontra a antiga
capela de Nossa Senhora do Loreto, que é o centro duma concorrida romagem, afluindo ali muito povo de
várias freguesias distantes e principalmente das paróquias circunvizinhas. Esta capela, apesar de pequena,
tem um certo aparato arquitectónico e pena foi um que mal adaptado alpendre lhe prejudicasse a harmonia
do conjunto. A sua construção data dos primeiros anos do século XVI, tendo sido fundada por Pedro
Gonçalves da Câmara, neto de João Gonçalves Zargo, primeiro capitão-donatário do Funchal. Teve um
grande solar adjunto, havendo o fundador feito ali a sede do importante morgadio que instituiu. Outros dão
a capela e o vínculo instituídos por D. Joana de Eça, viúva do referido Pedro Gonçalves da Câmara,
camareira-mor da rainha D. Catarina e padroeira do convento da Esperança, em Lisboa, onde foi sepultada.
As freiras deste mosteiro possuíram muitas terras na freguesia do Arco da Calheta, que lhes foram legadas
por D. Joana de Eça. Nas ruínas da Igreja do Convento da Esperança, foi encontrada, no primeiro quartel
deste século, a sepultura da padroeira D. Joana de Eça.
Lombo das Adegas
Sítio povoada da freguesia da Ponta do Sol. Pedro Delgado, antigo povoador,
teve ali terras de sesmaria, que depois se converteram em uma instituição vincular. Provavelmente fundada
por esta família, existiu ali um pequeno oratório dedicado a Santo Antonio, que no ano de 1853 foi ampliado
e convertido em capela publica, sendo a terceira ermida dessa invocação que existe naquela paróquia.
Lombo dos Aguiares
Sítio povoado da freguesia de Santo António do Funchal. Foi Diogo Afonso
de Aguiar, genro de João Gonçalves Zargo, ou alguns dos seus mais próximos descendentes, os senhores
deste sítio, que tomou o nome dos seus proprietários.
Lombo da Apresentação
Sítio povoado da freguesia da Ribeira Brava. Tomou o nome da capela
de Nossa Senhora da Apresentação, que ali existiu, tendo anexo um grande solar que era a sede do
morgadio instituído em 1524 por João Mendes de Brito e sua mulher Isabel Fernandes Tavares, de que foi
último representante o visconde da Ribeira Brava.
Lombo do Atouguia
Sítio Povoado da freguesia da Calheta, tomando o nome do antigo povoador
Luís de Atouguia, que ali teve terras de sesmaria, onde instituiu um morgadio. Existiu neste sítio uma
capela da invocação de Nossa Senhora da Boa Morte, fundada por Francisco Homem de Couto, no ano de
1661, e ainda ali se encontra a capela de São Pedro de Alcantara, conhecida também em outro tempo por
São João Baptista, mandada edificar em 1783 por João Baptista Teixeira. Neste mesmo sítio, onde
chamavam a Vargem de Baixo, António Moniz de Meneses e sua mulher D. Catarina de Meneses, fizeram
construir, no ano de 1657, uma capela consagrada a Nossa Senhora da Piedade.
Lombo dos Canhas
Sítio povoado da freguesia dos Canhas. Existiu ali a capela de Nossa Senhora
da Anunciação ou da Incarnação, reedificada em 1696 por João Rodrigues da Câmara e sua mulher D.
Isabel César da Câmara, e que serviu por algum tempo de igreja paroquial.
Lombo de D. Isabel
Sítio da freguesia de Santo António do Funchal, que entesta com o sítio do
Vasco Gil e é atravessado pela estrada que conduz ao Curral das Freiras, ficando no seu cimo o lugar
conhecido pelo nome de Estrela.
Lombo do Doutor
Sítio povoado da freguesia da Calheta. Deu-lhe o nome o doutor Pedro
Berenguer de Lemilhana, que ali instituiu um morgadio. Era natural de Espanha e moço fidalgo da casa
real. Existiu neste sítio a capela de Jesus-Maria-José, fundada em 1708, por João de Andrade Berenguer
Neto, descendente do doutor Pedro Berenguer. Também houve neste sítio a capela de Santa Catarina,
construída por Rodrigo Enes no ano de 1505. Fica neste sítio o conhecido lugar do Vale da Bica.
Lombo da Estrela
Sítio povoado da freguesia da Calheta. Encontra-se neste sítio a capela de Nossa
Senhora do Bom Sucesso, edificada por Lourenço da Costa em 1683. Ficava neste sítio a antiga capela de
Nossa Senhora da Estrela, onde se instalou a sede da paróquia, por ocasião da sua criação, como deixámos
dito no artigo referente à freguesia da Calheta. Também existiu neste sítio uma capela de invocação de
Santa Quitéria, construída no ano de 1724, por João Homem de Abreu. Muitas vezes se tem projectado a
mudança da sede da vila da Calheta para este sítio.
Lombo Grande
Extensa lomba que da freguesia do Curral das Freiras se estende até o cume da serra
das Torrinhas, sendo cortada por uma estrada que se dirige á freguesia da Boa ventura. Antes de atingir-se a
cumeada das Torrinhas, bifurca-se a estrada, tomando um dos ramais a direcção do Pico Ruivo, que é o
caminho preferido para a ascensão daquela eminência.
Lombo da Igreja
Sítio povoado da freguesia do Estreito da Calheta. Costuma geralmente ser
dividido em dois sítios: Igreja Acima e Igreja Abaixo, conforme a sua situação relativa á Igreja Paroquial.
Fica neste sítio a capela de Nossa Senhora da Conceição, fundada por André de França e Andrade, pelos
anos de 1672, que foi sede dum dos maiores morgadios da Madeira e que teve como último administrador o
1.° conde da Calçada (1812-1906).
Lombo dos Leais
Sítio da freguesia do Porto da Cruz encorporado no sítio povoado do Folhadal.
Fica neste sítio a capela de São João Nepomuceno, fundada por João Nepomuceno de Freitas Leal, no ano
de 1770. Próximo da capela se encontra uma excelente casa de habitação, pertencente á antiga família Leal,
de que este sítio tomou o nome.
Lombo das Mercês
Sítio encorporado no sítio povoado das Florenças, na freguesia do Arco da
Calheta, que tomou o nome da capela da invocação de Nossa Senhora das Mercês, fundada em 1650 por
Gaspar Homem de El-Rei e sua mulher D. Isabel Florença, que era de instituição vincular. Também se
afirma que João Portes Homem construiu neste sítio, no ano de 1684, uma capela dedicada a Santa Maria
Madalena.
Lombo do Mouro
Sítio nos altos da serra da freguesia da Ribeira Brava, onde se encontra uma
pequena casa para abrigo dos viandantes e por onde deveria passar a projectada estrada destinada a ligar a
Encumeada de São Vicente com a freguesia do Porto do Moniz, através do Paul da Serra.
Lombo da Pereira
Fundado pelo Padre José Lino da Costa e inaugurado a 8 de Julho de 1922,
existe no sítio deste nome da freguesia do Santo da Serra, um orfanato destinado a albergar crianças pobres,
e que aí tem prestado excelentes serviços á infância desvalida.
Lombo da Raiz
Sítio da freguesia do Santo da Serra, onde se encontra uma pequena casa, que pode
servir de abrigo aos que por ali transitam, e onde também se faz a separação, para aqueduto próprio, das
águas da Levada da Serra, que irriga as freguesias do Caniço, São Gonçalo e Santa Maria Maior. Estas águas
vem em comum, até o Lombo da Raiz com as da Levada do Juncal destinada ás paróquias do Santo da
Serra, Água de Pena e Santa Cruz, e com as da Levada Nova do Furado, que fertiliza as terras da freguesia de
Santa Cruz.
Lombo dos Reis
Sítio povoado da freguesia do Estreito da Calheta, em que se encontra a capela dos
Reis Magos, fundada por Francisco Homem de Gouveia, pelos anos de 1529, que ali fez a sede do morgadio
que instituiu e que mais tarde foi encorporado na casa dos donatários da ilha do Porto Santo. Acha-se no
mesmo sítio a capela da invocação de Nossa Senhora do Livramento, edificada por D. Inácia Betencourt
Perestrelo, no ano de 1860.
Lombo do Salão
Sítio povoado da freguesia da Calheta. Com a invocação de Santo António dos
Milagres, encontra-se ali, onde chamam o Vale dos Amores, uma pequena capela, que é hoje (1921)
propriedade de Juvenal Raimundo de Vasconcelos. Também existiu neste sítio a Capela dos Santos Cosme e
Damião, fundada em 1681 pelo médico António de França Gomes. Ainda ali se encontra, no lugar conhecido
pelo nome de Cadeado, uma capela dedicada a São Francisco Xavier e construída, do ano de 1693, por
Manuel da Silva Pinheiro.
Lombo de São João
Sítio povoado da freguesia da Ponta do Sol. Nele se encontra a capela de S.
João, que deu o nome ao lugar.
Ignora-se o ano da sua primitiva construção e quem fosse o seu fundador. Era de instituição vincular e
pertenceu ao morgado Diogo Berenguer de França, que em 1871 foi agraciado com o título de visconde de
São João, tomado deste sítio.
Lombo de São João
Sítio povoado da freguesia da Ribeira Brava, que tomou o nome da capela, ali
existente, da invocação de São João Baptista. Ignora-se o ano da sua primeira construção, mas sabe-se que
foi reedificada em 1750 pelo alferes Tomé João Pimenta administrador do vinculo a que a mesma capela
pertencia.
Lombo das Têrças
Sítio povoado da freguesia da Ponta do Sol, onde se acha a capela de Nossa
Senhora do Monte, construída pelo povo em 1751 e acrescentada no ano de 1775, tendo sido objecto duma
grande profanação no mês de Junho de 1810. Existiu ali uma capela dedicada a São Caetano, construída em
1780 por António de Carvalhal Esmeraldo e Alencastre.
Lombrigueira (Chenopodium ambrosioides)
Quenopodiácea indigena, conhecida também
pelo nome de formigueira, muito frequente tanto na Madeira, como no Porto Santo. Tem folhas sinuado-
dentadas ou quasi inteiras, com cheiro forte e particular, as quais são um medicamento vermífugo muito
eficaz e que os madeirenses empregam ás vezes como emenagogo.
Lomelino
Este apelido de família foi introduzido na Madeira em 1476 por João Baptista Lomelino e
seu irmão Urbano Lomelino, ambos genoveses e descendentes dos marqueses Lomellini, que entravam no
número das vinte e oito familias que compunham o antigo senado de Génova. Vieram para esta ilha
recomendados pela infanta D. Beatriz, em carta escrita á Câmara do Funchal. Fez Urbano Lomelino assento
em Santa Cruz, onde adquiriu muitas terras e ali casou com Joana Lopes, de quem não teve descendência,
deixando os seus bens a seu sobrinho Jorge Lomelino, a favor de quem instituiu um morgadio que foi dos
mais importantes desta ilha. Como já dissemos a pág. 308 do 1.° volume, instituiu Urbano Lomelino o
convento dos Franciscanos da vila de Santa Cruz, que Jorge Lomelino concluiu, por ter aquele morrido em
1518, antes de terminadas as obras de construção.
(V. Convento da Nossa Senhora da Piedade,
pág. 308 do 1.° vol.).
Jorge Lomelino morreu a 9 de Dezembro de 1548 e foi depositado na igreja do
convento de Santa Cruz, de que era padroeiro. Na capela da Quinta das Cruzes, que foi pertença do
morgadio dos Lomelinos, encontra-se um carneiro de mármore contendo uma ossada, que se afirma ser de
Urbano Lomelino, o fundador daquela casa vinculada.
Armas de família: «um escudo partido, com um perfil negro um tanto arcado, e a parte de cima roxa e a de
baixo do dito escudo de oiro», segundo informa Henriques de Noronha.
A casa dos Lomelinos constituiu um dos mais ricos morgadios da Madeira e teve como ultimo representante
Nuno de Freitas Lomelino, falecido no Funchal a 12 de Janeiro de 1882.
Lomelino (Pedro Jose)
Nasceu na ilha do Porto Santo a 19 de Novembro de 1864, sendo filho de
Justiniano Lomelino de Serpa e de D. Fortunata Augusta de Castro. Frequentou o liceu do Funchal e
concluiu o curso da Escola Medica desta cidade no ano de 1887. Foi o primeiro director da escola distrital de
habilitação ao magistério primário, criada no Funchal no ano de 1900
(V. Escola Normal)
e nessa
qualidade publicou em 1902 o opúsculo–Relatório da Escola Distrital do Funchal. É actualmente (1921)
director da Escola Primaria Superior
(V. este nome)
e facultativo municipal. Tem exercido várias
comissões de serviço publico, entre as quais se conta a de Governador Civil substituto deste distrito para
que foi nomeado por decreto de 22 de Outubro de 1904, tomando posse a 24 do mesmo mês e ano.
Faleceu em viagem de Lisboa para a Madeira a 9 de Novembro de 1930.
Longevidade
Em 1911, havia em todo o distrito do Funchal 586 homens e 868 mulheres com mais de
80 anos, distribuídos do modo seguinte:
Varões Fêmeas
Funchal................. 142 273
Câmara de Lobos......... 75 111
Ponta do Sol............ 76 122
Calheta................. 67 111
Porto do Moniz.......... 22 29
S. Vicente.............. 37 31
Santana................. 41 32
Machico................. 33 57
Santa Cruz.............. 84 94
Porto Santo............. 9 8
Destes indivíduos, 385 varões e 578 fêmeas tinham de 80 a 85 anos: 126 varões e 177 fêmeas, de 85 anos; 56
varões e 76 fêmeas, de 90 a 95; 14 varões e 32 fêmeas, de 95 a 100; 5 varões e 3 fêmeas, de 100 a 105; e 2
femeas de mais de 105 anos. Em 1911, vivia na Achada dos Judeus em S. Vicente, uma mulher com 109
anos.
A proporção dos indivíduos de 80 a 100 ou mais anos, por 1000 habitantes, era a seguinte no referido ano
de 1911:
Funchal........................ 8,24
Câmara de Lobos................ 9,23
Ponta do Sol................... 9,84
Calheta........................ 8,88
Porto do Moniz.................11,62
S. Vicente..................... 7,96
Santana........................ 7,20
Machico........................ 6,46
Santa Cruz..................... 8,90
Porto Santa.................... 7,79
Em Março de 1920, morreu na Madeira um homem com 101 anos, em Setembro um outro com 106 anos, e
em Dezembro uma mulher 103.
O Dr. Mittermaier calculou em 35,16 anos a duração média da vida humana no Funchal, mas, segundo
alguns cálculos que fizemos há tempos, essa duração média eleva-se a 39,8. 0 Dr. Heberden que esteve na
Madeira no século XVIII calculou em 39 anos a duração média da vida humana em toda a ilha.
Sobre a longevidade no Continente e nas Ilhas Adjacentes, consulte-se o Censo da População n.° I de
Dezembro de 1911 (parte 4.ª); Lisboa, 1914.
Longman (William)
E.: Impressions of Madeira (with a map), 1875.
Lopes
«Diogo Lopes, da Estacada, diz o anotador das Saudades, foi um dos primeiros povoadores da
ilha da Madeira: morou em Câmara de Lobos, no sítio da Torre, e era sua sesmaria boa parte do terreno que
fica do Pico para o lado do Funchal até o Covão».
Lopes de Mendonça (António Pedro)
Este conhecido e distinto escritor chegou a esta ilha,
onde se demorou algum tempo, a 3 de Novembro de 1861.
Lopes Rocha (João Francisco)
Era filho de António Lopes Rocha e de D. Vitoria Maria Rocha e
nasceu na freguesia da Sé desta cidade a 18 de Julho de 1747. Concluíu a formatura em cânones na
Universidade de Coimbra em 1770 e no mesmo ano se ordenou de presbítero. Por carta régia de 30 de Julho
de 1775, foi apresentado pároco na freguesia de Santa Maria Maior e alguns anos mais tarde nomeado
cónego da nossa Sé Catedral, em cujo corpo capitular exerceu depois os cargos de arcediago e deão.
Desempenhou por mais duma vez as funções de governador do Bispado. Pela sua ilustração e grande
influencia, gozou entre nós do maior prestígio, sendo muito considerado por todas as classes sociais desta
terra. Teve lutas com o prelado diocesano D. José da Costa Torres, principalmente por ocasião da
perseguição movida ás sociedades secretas de que Lopes Rocha tinha sido membro (V. Maçonaria).
Escreveu então ao Ministro de Estado José Seabra da Silva uma extensa carta, queixando-se das
perseguições de que estava sendo vitima, que, independentemente da justiça que porventura lhe pudesse
assistir, é um documento que revela, por parte do seu autor, uma grande independência de carácter, uma
não invulgar ilustração e uma notável beleza e correcção da forma. Esta carta, escrita no ano de 1793, foi
publicada em Londres no Campeão Portuguez do mês de Julho de 1820, algum tempo depois da morte do
seu autor, ocupando cerca de quarenta paginas daquela revista.
O Dr. João Francisco Lopes Rocha faleceu nesta cidade a 8 de Maio de 1819, tendo 71 anos de idade.
Lopes Rocha (Dr. Vitúrio)
Nasceu nesta cidade a 5 de Setembro de 1752, sendo filho de Antonio
Lopes Rocha e irmão do deão Dr. João Francisco Lopes Rocha. Cursou na Universidade de Coimbra a
Faculdade de Matemática e nela tomou o grau de doutor, recebendo o capelo a 24 de Dezembro de 1777. Fez
concurso para lente e ali exerceu o magistério durante muitos anos. Sendo já jubilado e sócio da Academia
Real das Sciencias, requereu o lugar de prefeito das Escolas Publicas da Madeira, cargo que não sabemos se
chegou a desempenhar. Não conseguimos alcançar quaisquer outras informações a respeito deste
madeirense.
Lordelo (José da Fonseca e Gouveia, barão de)
Este chefe do distrito foi o segundo que entre
nós teve a denominação de Administrador Geral. O decreto da sua nomeação é de 28 de Abril de 1838 e
tomou posse do seu cargo a 14 de Setembro do mesmo ano, tendo chegado ao Funchal três dias antes. Foi
exonerado, a seu pedido, por decreto de 14 de Novembro de 1840.
O barão de Lordelo nasceu em 1792 e morreu a 30 de Janeiro de 1863, sendo agraciado com o baronato a 10
de Outubro de 1838.
Losna (Artemisia argentea)
Composta indígena, com os caules lenhosos, as folhas esbranquiçadas,
1-2-penatisectas, com os segmentos muitos estreitos, e os capítulos pequenos, formando panicula. É
cultivada nas hortas e jardins, e encontra-se espontânea na Ponta do Sol, Calheta e Porto Santo. Embora os
madeirenses só a usem como emenagogo, pode também ser útil como tónico e vermífugo.
Lotarias
A Santa Casa da Misericórdia desta cidade teve mais duma vez a faculdade de estabelecer uma
lotaria destinada a auxiliar as despesas com a sustentação desta casa de caridade. A primeira de que temos
conhecimento foi concedida pelo aviso régio de 5 de Abril de 1803, sendo de trinta contos de réis e dividida
em seis mil bilhetes ao preço de cinco mil réis cada um. Os trabalhos desta lotaria eram dirigidos pelo
corregedor da comarca, pelo juiz de fora e por mais três indivíduos nomeados pelo governador e capitão-
general. A extracção dela deveria realizar-se algumas vezes no ano, mas parece que não chegou nunca a
andar a roda.
Por diligências do provedor da Santa Casa, o ilustre madeirense Dr. João Francisco de Oliveira, foi feita
nova concessão à misericórdia do Funchal em 1823, devendo a receita que produzisse a lotaria ser aplicada
a consertos no Recolhimento das Órfãs e a transformar este estabelecimento numa casa de educação de
meninas decentes tanto da cidade como das vilas distantes.
Tendo a proposta do provedor sido apresentada ao Governo, com informação favorável do Governador,
obteve facilmente a Santa Casa da Misericórdia as licenças regias necessárias para a realização da referida
lotaria, determinando-se porém que o que esta produzisse seria aplicado em primeiro lugar ao pagamento
das dividas da mesma Santa Casa e depois aos reparos de que carecesse o citado recolhimento. Julgamos ter
tido pouca duração esta lotaria.
Por carta regia de 12 de Setembro de 1857, ainda outra concessão alcançou a Misericórdia, que lhe
aproveitou por alguns anos. O prémio grande da lotaria variava muito de valor, tendo sido de 400$000 réis,
500$000 réis, 600$000 réis, 800$000 réis e 1:000$000 réis.
Em Maio de 1865, havia 2.400 bilhetes e 488 prémios, sendo os três maiores de 800 e de 200 e de 100 mil
réis; e em Janeiro de 1868 era a lotaria de 1800 bilhetes, dos quais 600 premiados, havendo um premio de
400, outro de 100 e um terceiro de 50 mil réis. Cada bilhete custava 1000 réis e os prémios menores eram
de 1200 réis.
Nos princípios do século XIX, foram os reedificadores do Teatro Grande coadjuvados pelo governo com a
concessão duma lotaria anual, cujo prémio grande era de 3 contos de réis, e, na acta da sessão da Câmara
Municipal do Funchal de 12 de Janeiro de 1814, faz-se referência a «uma loteria que houve nesta cidade em
beneficio dos lazaros», mas nenhuma outra informação podemos colher acerca da mesma lotaria, que,
segundo parece, foi promovida pela Municipalidade com o fim de obter meios para melhorar as condições
daqueles doentes.
Loucas (Campo das)
Era conhecido outrora por esta designação ou pela de Campo de Challons, um
vasto terreno situado a leste da antiga praça Académica e compreendido hoje no campo do Almirante Réis.
As tropas aquarteladas no Funchal tinham ali frequentes vezes os seus exercícios militares.
Lounsbury (Prof. C. P.)
Naturalista que achou casualmente na Madeira nos jardins do hotel «Bela
Vista», um pequeno insecto de cerca de meio milímetro de comprido, que foi baptizado com o nome de
Prospatella Lounsburyi ou Aspidiotiphagus Lounsburyi, e que destrói o Chrysomphalus dictyospermi,
coccídeo que vive sôbre as laranjeiras, palmeiras, bananeiras, árvores de incenso, etc..
O pequeno insecto a que nos referimos, importado provavelmente da America, onde todavia não tem sido
encontrado, reproduz-se, ao que parece, por partenogénese e alimenta-se das larvas do Chrysomphalus,
coccídeo este que prejudica notavelmente as nossas laranjeiras e outras espécies úteis.
No vol. XI da Redia (1916), pag. 305, descreveram os professores Berlese e Paoli a Prospaltella, tendo o seu
trabalho o titulo de: Un endofago esotico efficace contra il Chrysomphalus dictyospermi, Morg.
V.
Lapas e Paoli.
Loup (Mademoiselle)
Com o pseudónimo de Mademoiselle Loup, publicou a empresa do Comercio
da Madeira, em Fevereiro de 1922, um opúsculo de 80 paginas com o título Bosquejos, devido á pena,
segundo então se afirmou, de uma escritora madeirense. Consta de varias crónicas e impressões publicadas
no mesmo jornal.
Loureiro (Adolfo)
Este distinto engenheiro veio à Madeira no ano de 1898, enviado pelo governo
central, afim de estudar a adaptação a este arquipélago do regímen hidráulico criado para o Continente do
Reino pelo decreto de 1 de Dezembro de 1892. Demorou-se alguns meses nesta ilha e apresentou ao
Governo num extenso relatório o resultado dos trabalhos a que procedeu. Fez em Lisboa, na Associação dos
Engenheiros Civis, uma interessante conferencia sobre o arquipélago madeirense, que se acha publicada
sob o título Breves Noticias sobre os archipelagos da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde e das Canárias. Na
sua vasta obra intitulada Os Portos Maritimos de Portugal, consagra o 5.° volume aos portos da Madeira. 0
5.° volume dos Atlas, que completa a obra, contém 16 estampas, todas referentes a este arquipelago.
O engenheiro Adolfo Loureiro morreu em Lisboa a 23 de Novembro de 1911.
Loureiro (Laurus canariensis)
Árvore de família das Lauráceas, de 6 a 20 metros, com as folhas
persistentes e aromáticas, as umbelas reunidas em fascículos axilares, de ordinário mais curtas que os
pecíolos, e as baga ovoides, negras, raras vezes amarelas. Produz madeira clara, inferior á das outras
Lauráceas madeirenses, e as suas folhas são usadas como adubo nas cozinhas.
Das bagas, extraía-se outrora um óleo que servia na iluminação das casas pobres dos campos e que se
preparava cozendo as bagas espremendo-as depois dentro dum saco de pano, em pequenos lagares de
madeira. Como o óleo é mais leve de que o resto do liquido sobrenadava, sendo tirado facilmente do
recipiente em que se fazia a operação.
O loureiro encontra-se na primeira, segunda e terceira zonas da Madeira, mas nesta ultima é uma árvore de
pequenas dimensões. Existiu outrora espontâneo no Porto Santo, onde se extinguiu, sendo porém cultivado
agora naquela ilha.
O alvará de 14 de Setembro de 1651 determinou que só o Conde de Vimioso, donatário de Machico, pudesse
vender e «fazer navegar para fora da ilha baga de loureiro e comprá-la aos particulares.
Vid.
Lauráceas e Madre de Deus.
Lourenço (João)
Descendia de nobre linhagem e foi companheiro de João Gonçalves Zarco na
descoberta e colonização desta ilha V. Afonso (João).
Louro-Cerejo (Prunus Laurocerasus)
Pequena árvore ou arbusto da família das Rosáceas,
cultivado na Camacha, Monte, Choupana, etc.. É originário da Persia e reconhece-se pelas suas folhas
grandes, obovado-elipticas, serradas, com cheiro a amêndoas amargo quando esmagadas entre os dedos. 0
oleo essencial e a água destilada de louro-cerejo contém acido prússico. 0 louro-cerejo é conhecido também
na Madeira pelo nome de louro inglês.
Louro
Régio
(Viburnum Tinus).Arbusto ou pequena árvore cultivado nas quintas e Jardins da
Madeira. É originário da Peninsula Hispânica e tem folhas coriáceas, de ordinario ovado-elipticas, e flores
brancas, dispostas e cimeiras corimbiformes.
Louros. Sítio povoado da freguesia de São Gonçalo
Existiu neste sítio uma
pequena capela, consagrada a Nossa Senhora da Incarnação e construída, no ano de 1656, por Diogo
Bernardes Branco. Encontra-se ali um Posto Agrário ou campo experimental agrícola, conhecido pelo nome
de Viveiro dos Louros, que é mantido pela Junta Geral do Distrito.
Lowe (Padre Ricardo Tomás)
Naturalista inglês nascido a 4 de Dezembro de 1802. Tendo vindo
para a Madeira em 1826, aqui se demorou até 1852, voltando depois a esta ilha em 1855, em 1860, em 1863,
em 1865, em 1867 e em 1871. Desejando visitar uma vez mais a Madeira, embarcou no vapor Libéria que
deixou o porto de Liverpool, com destino a esta ilha, a 11 de Abril de 1874, mas tendo o mesmo vapor
naufragado na baía de Biscaia, no segundo ou terceiro dia de viagem, aí encontrou Lowe a morte, assim
como sua esposa Catarina Maria, com quem havia casado em 1828.
Durante a sua longa residência na Madeira, reuniu Lowe materiais importantíssimos para o estudo da fauna
e da flora do arquipélago, tendo os relativos á flora, que felizmente para a sciencia haviam ficado em
Inglaterra, sido distribuídos depois da sua morte pelo Museu Britânico e Jardim de Kew. Existem
duplicados de muitas plantas da Madeira e Canárias, colhidas por Lowe, no Jardim Imperial de Petrogrado,
no herbário de Webb, em Florença, e no de De Candolle.
Em 1858, visitou Lowe as Canárias, onde voltou em 1861, e em 1864 e 1866 as ilhas de Cabo Verde. De 1834
a 1848, exerceu o cargo de capelão da igreja britânica na rua dos Aranhas no Funchal.
Era mestre em artes pela Universidade de Cambridge e sócio correspondente da Academia das Sciencias de
Lisboa e da Sociedade Zoológica de Londres, e depois de se ausentar para Inglaterra, em 1852, foi por algum
tempo capelão em Lea, condado de Lincoln.
No cemitério britânico, à rua do Dr. Vieira, existe uma modesta lápide encimada por uma cruz, onde se
pode ver uma inscrição destinada a comemorar alguns factos da vida de Ricardo Tomás Lowe, o estrangeiro
que maiores serviços scientíficos prestou à Madeira.
Entre os muitos trabalhos de R. T. Lowe, mencionaremos os seguintes A Synopsis of the Fishes of Madeira
(Trans. of the Zool. Soc., II, 3, 1837); Supplement to a Synopsis of the Fishes of Madeira (Idem, III, I, 1839);
A History of the Fishes of Madeira (Londres, 1843-1860, I vol.); Primitiae Faunae et Florae Maderae et
Portus Sancti (Trans. Cambridge Phil. Soc. IV, 1, 1830); Novitiae Florae Maderensis (Idem, VI, 3, 1838); A
Manual Flora of Madeira and the Adjacent Islands (Londres, 1868, vol. I e II. parte I); Florulae Salvagicae
Tentamen (Londres, 1869, I folh.); Catalogus Molluscorum Pneumatoram Insularum Maderensium
(Proceed. Zool. Soc. of London, 1854); e Protest against the ministration in Madeira of the rev. T. K.
Brown...., with an appendix (Funcha, 1848).
A propósito da questão travada entre Lowe e Brown por causa da violação verdadeira ou suposta das leis e
constituições da igreja inglesa na Madeira, publicou a English Review, do mês de Junho de 1848, um artigo
favorável ao primeiro daqueles autores.
Lucta (A)
Saíram dois jornais com este título, sendo o primeiro a 11 de Fevereiro de 1888 e terminando
a publicação a 1 de Julho de 1894, com o numero 319, e o segundo a 5 de Janeiro de 1896, dando 26
números, o ultimo dos quais a 28 de Junho do mesmo ano.
Lugar de Baixo
Sítio da freguesia da Ponta do Sol, que fica entre a vila e a freguesia da Tábua. É
uma das muitas fajâs que se formaram no litoral pela queda de terrenos que lhe ficavam sobranceiros. «O
Logar de Baixo é desde 1804, diz o anotador das Saudades, muito maior que dantes, porque nesse anno,
grande parte dos terrenos da Lombada, que lhe fica a cavalleiro, fendidos pelas tempestades dos anos
anteriores, cahiram para o lado do mar, e ali formaram uma campina extensa e productiva. O choque da
queda foi tal que o mar subiu do seu nível em toda a costa adjacente e sentiu-se o abalo tanto em terra como
no mar, á distancia de mais de dez quilómetros: o mar entrou muito a dentro na vila da Ponta do Sol».
O Lugar de Baixo fazia parte da grande propriedade da Lombada dos Esmeraldos
(V. este nome)
, mas
quando, por morte de João Esmeraldo, se procedeu a novas partilhas entre os seus dois filhos e a viúva
Águeda de Abreu, reservou esta para si o prédio do Lugar de Baixo como parte integrante do seu dote. É
possível que por sua morte revertesse ao morgadio do Santo Espírito, sendo certo que nele se incorporou
em época que ignoramos. Foi vendido em hasta publica pelo mesmo tempo em que o foi a Lombada, tendo
sido arrematada pelos comerciantes ingleses A. Criorgi & C.ª. Existe ali a capela de Santo António, com uma
bela casa anexa, de que nos ocuparemos noutro lugar desta obra.
Lugar de Baixo (Enseada e Porto do)
No sítio deste nome, há uma pequena enseada
entestando com uma praia, que lhe serve de porto, sendo algumas vezes preferível, ali o desembarque do
que no cais da Ponta do Sol e da Ribeira Brava. Neste porto desembarcou, no dia 25 de Outubro de 1858, o
infante D. Luis, depois rei de Portugal, por o estado do mar não permitir fazê-lo no cais da vila da Ponta do
Sol.
Luís (Infante D.)
O infante D. Luís, depois rei de Portugal, esteve pela primeira vez na Madeira no
ano de 1858. Foi o primeiro membro da família real portuguesa que visitou esta ilha. Na corveta Bartolomeu
Dias, de que era comandante, chegou ao nosso porto no dia 8 de Outubro daquele ano, acompanhado pelo
seu camarista conde de Linhares. Veio de conserva a canhoneira Sagres. O desembarque efectuou-se no
cais da Pontinha, no dia imediato, tendo a recepção revestido o maior luzimento e imponência. Durante os
vinte dias que D. Luís se demorou na Madeira, além dos mais festejos e demonstrações publicas de apreço e
simpatia que se fizeram em sua honra, realizaram-se esplêndidas festas de caracter particular, cuja
lembrança perdurou por largos anos na tradição local, pelo brilhantismo e extraordinário aparato que
revestiram. Entre essas festas, sobressaíram notavelmente a do Palheiro Ferreiro e a do jantar e baile no
palácio de São Pedro, oferecidos pelo conde de Carvalhal, que muito impressionaram o infante, o baile do
Club Funchalense, oferecido pela Câmara Municipal, e a recepção em casa do morgado das Cruzes, Nuno de
Freitas Lomelino. D. Luís visitou demoradamente o Asilo da Mendicidade, o Hospício da Princesa D. Maria
Amélia, o hospital de Santa Isabel, o hospital militar, o liceu e algumas repartições publicas.
No dia 25 de Outubro, dirigiu-se o príncipe com a sua comitiva á vila da Ponta do Sol, e após o desembarque
seguiu imediatamente para a formosa estancia do Rabaçal, regressando à tarde à mesma vila onde
pernoitou.
Na véspera da sua partida, deu o infante D. Luís recepção no palácio de São Lourenço e fez ali suas
despedidas, agradecendo a alocução que o Governador civil lhe dirigiu nesta ocasião e as extraordinárias
provas de consideração e simpatia que recebera dos habitantes desta ilha. Saiu para Lisboa no dia 27 de
Outubro de 1858.
Voltou D. Luís à Madeira em 1861, vindo, em nome de D. Pedro V, visitar a imperatriz de Austria Isabel e
acompanha-la por ocasião de sua saída desta ilha. Chegou ao Funchal a 17 de Abril daquele ano, e
acompanhou até Gibraltar, na corveta Bartolomeu Dias, a embarcação que conduzia a Imperatriz.
Luis Miranda (Caminho de)
Teve esta denominação, desde 19 de Janeiro do 1896 até 27 de
Outubro de 1910, o caminho entre a igreja paroquial de Santo António e a Ribeira. O comendador Luís de
Bettencourt Miranda nasceu no Funchal a 16 de Dezembro de 1856 e aqui faleceu a 17 de Julho de 1921,
tendo sido durante mais de 30 anos oficial e depois secretario da Câmara, lugares estes em que prestou
excelentes serviços ao Município.
Luisier (Padre Alphonse)
É natural da Suíça, pertence á Companhia de Jesus e foi durante alguns
anos professor no extinto Colégio de Campolide, em Lisboa. Tendo recebido em 1907 uma colecção de
muscíneas madeirenses, organizada por um dos autores deste Elucidario, e sendo-lhe enviada mais tarde a
excelente colecção briologica que pertencera a James Y. Johnson e é hoje propriedade do Museu do
Seminário, foram estes os materiais que principalmente lhe serviram para os seus estudos sôbre a briologia
madeirense, acerca da qual tem publicado os trabalhos seguintes, todos de muito valor: Note sur quelques
mousses nouvelles pour la flore de Madère (Bullet. Soc. Port. Sc. Nat, 1, 2, 1907), Deuxième note sur les
mousses de Madère (Ibid., II, I, 1908), Contribution à l'Etude des Muscinées de Madère (Broteria, vol. VIII
e IX, 1909 e 1910) e Les Mousses de Madère (Ibid., vol. XV, 1917 a 1922).
O professor A. Luisier não estuda sòmente as Muscíneas; tem-se consagrado também ao Estudo das
Fanerogamicas, existindo no volume XIX do Boletim da Sociedade Broteriana um trabalho seu sôbre as
plantas da região setubalense.
Tendo sido privado das suas colecções briologicas por ocasião da revolução de 1910, conseguiu rehaver mais
tarde uma parte delas, o que o habilitou a prosseguir nos seus valiosissimos estudos sôbre as Muscíneas do
arquipelago da Madeira.
Lula (Luligo Vulgaris)
Molusco cefalópodo que se apanha junto á costa, nas redes de arrasto e na
torneira, aparelho introduzido no arquipélago há cerca do 15 anos.
Também chamam lulas a outros cefalópodes, um dos quais é luminoso.
Lund (Dr. G.)
Medico inglês que exerceu clinica no Funchal e fez aqui observações meteorológicas em
1855 e 1856. E.: The climate of the Island of Madeira, Londres, 1854. Escreveu em 1853 um outro trabalho
sob o mesmo título e ocupou-se também da Madeira no Association Medical Journal, do mês de Setembro
de 1853.
Lúpulo (Humulus Lupulus)
Planta trepadora da família das Urticaceas, cultivada em S. Roque,
Santana, etc.. Tem folhas semelhantes ás da vinha, e as suas inflorescencias, dotadas dum sabor amargo
muito pronunciado, são usadas no fabrico da cerveja.
Luz
É apelido de família bastante antigo na Madeira. Em 1513, havia um Pedro da Luz, que era escrivão
da Misericórdia do Funchal.
Luz (A)
Publicaram-se setenta e seis números deste Jornal, de 21 de Maio de 1881 a 4 de Novembro de
1882.
Com o mesmo título, apareceu a 6 de Fevereiro de 1918 um outro jornal, que ainda se publica (1921).
Luz da Madrugada (A)
Saíram sete números, publicando-se o primeiro a 27 de Abril de 1902 e o
ultimo a 7 de Setembro do mesmo ano.
Lyell (Carlos)
Distinto geólogo inglês nascido em Kinordy, em 1797, e falecido em Londres, em 1875.
Esteve na Madeira durante dois meses do inverno de 1853 a 1854, tendo feito aqui diversas explorações
geológicas, acompanhado quasi sempre do geólogo alemão Hartung.
Lyell ocupa-se da geologia da Madeira no capítulo XLI dos seus Princípios de Geologia (1868) e no capítulo
XXIX do Manual de Geologia Elementar (1855). A paginas 325 dos Proceedings of the Geological Society,
do mês de Março de 1854, encontra-se um artigo intitulado On the Geology of some parts of Madeira, em
que aparecem resumidas as principais observações feitas pelo sabio geologo inglês nesta ilha.
Eça (João Fogaça de)
Sob o jugo castelhano foi governador geral da Madeira João Fogaça de Eça,
cuja nomeação data de 14 de Agosto de 1603.
Mac Euen (Carlos)
Americano, natural de Filadelfia, que fez observações meteorologicas na quinta
Hollway, desde Dezembro de 1848 a Maio de 1849. Estas observações andam reunidas à obra do Dr. Mason
sôbre o clima da Madeira, publicada em 1850.
Maçacota (Chenolea lanata)
Subarbusto esbranquiçado-lanuginoso e com as folhas superiores
reunidas geralmente em fascículos. Encontra-se na Ponta de S. Lourenço, no Porto Santo e na Selvagem
Pequena.
Maçarico
Os madeirenses conhecem por este nome oNumenius phaeopus e pelo de maçarico real oN.
arquatus . Estas especies que pertencem à família caradríida e subfamilia totanina, aparecem nas rochas
maritimas da Madeira.
Maçaroco (Echium nervosum)
Arbusto da
família das Borraginaceas,
frequente nas
proximidades do litoral, na costa sul da Madeira. Pode atingir 2 metros de alto, e tem flores azuis, dispostas
em panículas ovadas, geralmente densas. Produz madeira negra que era usada outrora para embutidos. O
Echium candicans
é um arbusto de 5 a 15 decimetros e que se distingue facilmente do
E. nervosum
pelas
suas paniculas alongadas e mais ou menos cilindricas.
Macaulay (Dr. James)
Distinto scientista inglês que passou na Madeira uma parte dos anos de
1839 e 1840, tendo escrito acêrca desta ilha um valioso trabalho intitulado
Notes on the Physical
Geography, Geology and Climate of the Island of Madeira
, o qual foi publicado no Edinburgh New
Philosophical Journal, de Outubro de 1840, pagina 1 a 39. James Macaulay foi o redactor do
Stranger
,
jornal escrito na lingua inglêsa e publicado no Funchal, de que saíu apenas o primeiro numero, em Janeiro
de 1840.
Macedo
Este apelido, diz o dr. Rodrigues de Azevedo, vem de Martim Gonçalves de Macedo, preclaro
defensor de D. João I, na batalha de Aljubarrota.
Macedo (D. Álvaro da Costa de Sousa)
Foi D. Álvaro da Costa de Sousa Macedo o último
governador e capitão-general deste arquipélago, e o ultimo representante que o govêrno absoluto teve entre
nós. Tomou posse do seu cargo a 1 de Abril de 1830 e saíu da Madeira a 13 de Julho de 1834.
D. Álvaro de Macedo não só não ofereceu a menor resistência à proclamação do governo constitucional
nesta ilha, mas acatou inteiramente a nova ordem de cousas e teria até continuado, se o desejasse, a ser o
governador da Madeira, segundo o convite que directamente lhe fizera o próprio monarca D. Pedro IV.
Embora se tivesse conservado á frente da governação desta província no período revolto das nossas lutas
civis, em que odios e dissenções profundas dividiram a família madeirense em dois bandos irreconciliáveis,
soube-se conduzir de modo a não acirrar essas divergências partidárias, mantendo-se, quanto lhe
permitiam as circunstancias, numa atitude de notável imparcialidade, que lhe granjearam a estima e a
consideração dos povos desta ilha.
Apesar do espírito de rectidão e justiça que o animava e das tendências conciliadoras que orientavam os
actos da sua administração, houve um momento em que se deixou arrastar pelas despóticas imposições da
politica partidária, e cedendo ás instancias dos seus correligionários e maus conselheiros, mandou demolir
até os seus fundamentos o Teatro Grande do Funchal, que era a segunda casa de espectáculos do país e que
tinha sido construído havia aproximadamente sessenta anos.
Este teatro, de que falaremos com mais largueza, levantava-se no largo que o povo ainda hoje chama da
Fortaleza e era de capacidade e proporções superiores a uma pequena terra de província como o Funchal,
tendo, além disso, no seu todo, um aspecto de grandeza e majestade que impressionava muito
agradavelmente os visitantes. Em algumas noites de espectáculos, os partidários das ideias constitucionais
aproveitavam a reunião do grande número de espectadores para expandirem os seus sentimentos liberais e
fazerem propaganda dos princípios que professavam, estendendo-se essa propaganda do palco à plateia,
apesar disso constituir um desacato às instituições.
A verdadeira causa da demolição foi essa. Um simples encerramento do teatro tinha-o salvo da sua
completa destruição, mas D. Álvaro de Macedo, alegando que aquela casa de espectáculos ficava contígua a
uma fortaleza, causando embaraços à defesa da cidade, e que igualmente afeava o local e a entrada para o
palácio dos governadores, tomou a medida radical de o fazer demolir, não deixando pedra sobre pedra.
D. Álvaro de Macedo tinha sido agraciado com o título de Conde da Madeira. Morreu em França poucos
anos depois de sair desta ilha. Era tio de D. Bernardo da Costa de Sousa Macedo, que, por duas vezes, serviu
de governador civil dêste distrito.
Macedo (D. Bernardo da Costa de Sousa)
Foi nomeado Governador Civil da Madeira por
decreto de 21 de Fevereiro de 1901 , tendo tomado posse a 9 de Maio do mesmo ano.
Por decreto de 6 de Junho de 1906, foi, pela segunda vez, nomeado Governador Civil do distrito, e tomou
posse do lugar a 23 do mesmo mês e ano.
Macedo (Padre dr. João Crisóstomo Espinola de)
Escassos dados possuímos para a
biografia deste madeirense. Era bacharel formado em teologia e foi capelão interino da igreja de S. Tiago
Menor e depois vigário na vila de Santa Cruz, tendo sido preso em 1811, por ordem do cabido da Sé, em
consequência duma queixa apresentada contra ele pelo juiz ordinário da mesma vila. Redigiu o segundo
jornal que entre nós se publicou, o Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei, que saiu a lume em
Fevereiro de 1823. Embora de ideias politicas diferentes das de José Agostinho de Macedo, foi no entretanto
um seu distinto discípulo na violência da linguagem e no descomposto da frase, cujos processos soube
imitar nos escritos que nos deixou. Entre eles, avulta um opúsculo impresso em Londres no ano de 1825,
que é raríssimo e tem o seguinte extravagante título: 0 Tramista Descoberto! Converça do cónego Francisco
B-r-o, da cidade do Funchal, com o seu moço Simão Caraça, que foi estudante e servio de economo, por
alguns anos, em hum beneficio da Igreja da Ponta do Sol da ilha da Madeira, ouvida pelo padre João
Vicente do O-v-a no pateo do mesmo cónego. . É um folheto de 98 paginas, crivado de erros tipográficos,
que principalmente se ocupa do governador da Madeira Sebastião Xavier Botelho, fazendo-se nele
referencias pouco lisonjeiras ao próprio autor, que se oculta no anonimato e deste modo se colocou mais ao
abrigo das suspeitas que sobre ele pudessem recair.
Seguiu as ideias proclamadas pela revolução do Porto e foi eleito deputado substituto por esta ilha em 1822,
mas, ao ser restaurado o absolutismo, enviou ao Juiz de fora o seu diploma de deputado «por não querer
guardar por mais tempo em seu poder um documento que considerava indecoroso».
Devido aos excessos de linguagem empregados nos seus escritos e ainda a outros motivos que
desconhecemos, concitou contra si a má vontade de elementos preponderantes no Funchal, que teve como,
epilogo um facto sensacional ocorrido no dia 9 de Fevereiro de 1822, que entre nós causou o maior
escândalo e que até teve grande retumbância no Continente do Reino. Alguns oficiais, cadetes e sargentos
do batalhão de artilharia da terra foram à residência do dr. Espinola de Macedo, que era na antiga rua da
Conceição, e dali o arrancaram violentamente, conduzindo-o ao Pelourinho, onde, em pleno dia e á vista de
muita gente, diz um escrito contemporâneo, «o esvergalharam, sendo macerado e ludibriado». Os autores
da agressão foram presos e julgados, sendo condenados a penas severas de prisão e degredo, valendo-lhes o
advento do governo absoluto, que os restituiu à liberdade.
Lê-se na acta da sessão da Camara Municipal do Funchal de 8 de Fevereiro de 1822 que o dr. Macedo,
vigario de Santa Cruz, era «um insultador publico em seus manuscritos e obras impressas, onde costumava
atacar os cidadãos honrados, as corporações legais e uteis e todas as autoridades constituidas»; todavia,
como advogado nos tribunais da ilha, deixou fama de orador e polemista notavel, e, como jornalista, foi dos
melhores do seu tempo.
Em 1823, foi o dr. Macedo condenado e deportado por crimes políticos para fora do Reino, saindo do
Funchal para Gibraltar no bergantim inglês Fanny, em Maio daquele ano.
Faleceu em 1828, em idade avançada.
Macela (Anthemis nobilis)
Composta muito cultivada. na Camacha e noutros pontos da Madeira.
A infusão dos seus capitulos é estimulante e tonica, podendo servir externamente para combater certas
inflamações dos olhos. Não é a forma typica, mas a variedade aurea que aparece na Madeira. A macela
usada na Madalena e na Fajã da Ovelha, é a
Achillea Ageratum
, planta pertencente também á familia das
Compostas.
Macelão (Achillea Millefolium)
Composta cultivada e subespontanea na Madeira. É conhecida
também pelo nome de feiteirinha, e tem propriedades idênticas ás da macela, sendo porém menos usada
pelo povo.
Maceta de Santa Cruz
Publicou-se na vila de Santa Cruz e deu apenas dois numeros, a 10 de
Novembro e a 24 de Dezembro de 1878.
Machado
Frutuoso faz referencia ao pico de Lopo Machado, sobre a ermida de Nossa Senhora das
Neves, mas diz o dr. Azevedo que o apelido Machado procede de João Machado de Miranda, natural de
Guimarães, que passou á Madeira a chamado de seu tio Bartolomeu Machado, por não ter herdeiros de sua
mulher D. Francisca Velosa, tendo ambos instituído um morgado de seus bens na descendência do dito
sobrinho.
Machado (Dr. Vicente Cândido)
Nasceu no Funchal a 3 de Outubro de 1855 e morreu nesta
cidade a 23 de Novembro de 1911. Concluiu a formatura na faculdade de medicina de Paris em 1880.
Regressando á Madeira, realizou com o melhor êxito no dia 2 de Outubro do mesmo ano uma melindrosa
operação cirúrgica na pessoa do falecido prelado D. Manuel Agostinho Barreto, o que logo lhe deu grande
nomeada como distinto medico e operador. Defendeu e publicou a tese E'ssai sur les oreillons sous-
maxillaires, e em polémica com o conde de Canavial publicou em 1884 o opusculo Resposta ao folheto do
dr. João da Camara Leme Homem de Vasconcellos. . .
Machico (Capitania de)
Em virtude de instruções recebidas do infante D. Henrique segundo
informa o Dr. Gaspar Frutuoso, procederam os descobridores João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, logo no
principio da colonização, à partilha das terras que deviam constituir a área das suas jurisdições, como ponto
de partida para a regular administração dos dominios que lhes foram confiados. Já nos artigos
Capitanias
(vol. Iº. pag. 244 e s.)
Donatários
(vol., pag. 373 e s.)
nos referimos à divisão
da ilha da Madeira em duas capitanias, com sedes no Funchal e em Machico, e à maneira como se fez a
delimitação delas, cabendo a primeira a Gonçalves Zarco e a segunda a Tristão Vaz. A pág. 456 e 457 das
Saudades, vem transcrita a carta da doação feita pelo infante D. Henrique a Tristão Vaz da capitania de
Machico, que tem a data de 8 de Maio de 1440. E a mais antiga das doações das três capitanias em que foi
dividido o arquipélago, devendo entender-se de todas estas doações que elas foram apenas a confirmação
solene e autentica das concessões anteriormente feitas.
A capitania de Machico estendia-se desde a Ponta da Oliveira até à Ponta de São Lourenço e desta a Ponta
do Tristão, compreendendo uma parte consideravel da costa-sul e toda a costa-norte da ilha. A sua área
correspondia aos actuais concelhos do Pôrto Moniz, São Vicente, Santana, Machico e quasi todo o de Santa
Cruz, com excepção duma parte da freguesia do Caniço.
A capitania de Machico tinha muito maior area e extensão do que a do Funchal, mas tôda a costa norte, que
dela fazia parte, era duma flagrante inferioridade pela sua situação, clima, natureza do solo, falta de praias e
desembarcadouros, dificuldade de comunicações, etc.. Como se há-de ver no artigo
Vila e Municipio de
Machico
, a sede desta capitania cresceu e desenvolveu-se rapidamente, chegando a afirmar-se que ela
ombreou com a do Funchal e até a excedeu em importancia e prosperidades. É proveitoso ler-se a tal
propósito as primeiras paginas do livro
A Filha de Tristão das Damas
e as notas insertas a pág. 254 e 255
da mesma novela. Não foi, porém de longa duração esse notável desenvolvimento inicial. As condições
especiais da sede da capitania do Funchal, no que diz respeito à sua admirável situação, à largueza do sitio
para o desenvolvimento duma populosa povoação, à amplidão do seu porto, à feracidade do solo, ao
pitoresco do logar, à amenidade do clima, etc., haviam de impor-se imperiosamente e a breve trecho teriam
que suplantar as outras localidades que se fossem criando, ainda sob os melhores auspícios de rápido
progresso e desenvolvimento. A capitania de Machico estacionou e decresceu depois em prosperidades,
devido também à importância que em breve adquiriu a povoação de Santa Cruz, logo feita vila no principio
do século XVI e que se tornou um grande centro industrial e comercial no fabrico e exportação do açúcar,
chegando a sua alfandega a ter um movimento muito maior do que o da sua vizinha e rival.
É ocasião de dizer que a administração dos donatários desta capitania, incluindo o primeiro, sempre deixou
muito a desejar. Ouçamos o dr. Álvaro de Azevedo, nos seguintes trechos, embora um pouco extensos, que
nos dão uma ideia segura do que foi essa administração da donatária de Machico passou, por sucessão, de
Tristão Vaz ao seu primogénito Tristão Vaz das Damas, assim cognominado «porque (diz Frutuoso) foi
muito cortezão, grande dizedor e ás damas fazia muitos motes»; delle são as tres canções colligidas no
Cancioneiro Geral, de Resende. ahi indicadas por «de Tristão Teixeira, Capitão de Machico»: a este
succedeu seu filho, tambem chamado Tristão Teixeira, e por sua morte herdou a donataria seu filho Diogo
Teixeira, quarto e ultimo donatario descendente de Tristão Vaz. Os governos destes quatro capitães foram
deploraveis e de constante conflito com o poder real, com elles severo. Tristão Vaz, por despota,
especialmente com Tristão Barradas, «o qual teve aferrolhado com huma braga moendo em hum moinho
farinha (
Saudades
pag. 116), foi pelo rei chamado a Lisboa e, por sentença, degradado para a ilha do
Principe, onde alguns annos esteve, até que, seguramente no reinado de D. Afonso V e por intercessão do
infante D. Henrique, foi restituído na capitania, vindo a fallecer por 1470. Tristão Teixeira das Damas, «por
capitulos que d'elle deram», também chamado foi pelo rei a Lisboa, onde por alguns annos andou, com
muito trabalho e dispendio, tratando do seu livramento e «tirando, finalmente, sua honra a limpo»; mas,
após elle o rei mandou o dr. Alvaro Fernandes, e, depois, Fernão de Perada, por corregedores, com alçada
em toda a ilha da Madeira. Tristão Teixeira, succedendo ao das Damas, parece que não tomou o titulo de
capitão donatario, mas simplesmente o de governador, qualidade em que tinha ficado superintendendo a
capitania na ausencia de seu pai, o que o apeava, nominalmente pelo menos, de um direito proprio a mero
delegado regio: e, alem d'sso, emquanto elle viveu, estiveram na ilha o bacharel Ruy Pires por juiz de fora e
ouvidor na capitania do Funchal, e, depois deste, o dr. Diogo Taveira por corregedor em ambas as
capitanias; assim vigiado houve-se Tristão Teixeira cordatamente. Seu filho e sucessor Diogo Teixeira,
porem, «foi homem imperfeito de juizo. .. e quasi mentecapto;.... governou tão mal», que «el-rey D. Manuel
e el-rey D. João III. . . lhe quizeram tirar a capitania, e sobre isso trouxe demanda. . . até o anno de 1536»,
no decurso da qual na mesma capitania estiveram por corregedores o dr. Francisco Diniz nove annos, e,
depois, o licenciado Antão Gonçalves, quasi tres annos; venceu Diogo Teixeira o pleito, pelo gue esteve na
posse da capitania até 1538; mas, por ultimo, D. João III lha tirou e as rendas della, mandando-o entregar á
guarda de João Simão de Sousa, que «em seu poder o teve até o anno de 1540», no qual o captivo morreu,
sem filho varão nem outro herdeiro, ficando porisso «a casa e herança á Coroa . {
Saudades
, pag. 117 a 119):
assim terminou a descendencia de Tristão Vaz. «Ainda no anno de 1541 fez D. João III mercê desta
capitania a Antonio da Silveira, capitão que foi de Diu, por serviço que lhe tinha feito»; este, mediante
licença regia, vendeu-a ao Conde de Vimioso, D. Affonso de Portugal; por falecimento deste, nella sucedeu
seu filho D. Francisco, e, por morte do ultimo vagou á coroa, mas nenhum d'estes a governou pessoalmente,
senão por ouvidores, havendo sempre corregedores superintendentes, com os quais esses ouvidores tiveram
conflictos mais ou menos graves».
No artigo
Donatarios (vol. 16 pag. 373 e s.)
, demos já a relação completa dos capitães donatários de
Machico até o ano de 1775, sendo a donatária para a maior parte deles um titulo meramente honorifico.
A criação da vila de Santa Cruz em 1515 e da de São Vicente em 1744, com os seus forais e isenções, não
cercearam propriamente a area da capitania de Machico, mas restringiram bastante a jurisdição dos seus
donatários ou dos seus ouvidores.
Houve ouvidores nesta capitania, que eram de nomeação do capitão donatário. O primeiro que exerceu este
cargo foi Manuel Homem da Câmara, nomeado a 4 de Junho de 1641. Tinha dois juízes ordinários de cujas
sentenças se apelava para o ouvidor. Havia também um Juiz dos órfãos, sendo este cargo criado a 25 de
Setembro de 1625 e nele provido Cristovão Moniz Barreto.
Segundo afirma Frutuoso, a capitania de Machico rendia para o seu donatário em 1590, isto é, há quasi três
seculos e meio, cerca de novecentos mil réis anuais.
Machico (Conde de)
Carlos Stuart, enviado extraordinário e ministro plenipotenciario de Inglaterra
em Lisboa, e membro do governo do Reino de Portugal durante a Guerra Peninsular, foi agraciado com o
titulo de conde de Machico por decreto de 22 de Novembro de 1825 e de marquês de Angra por decreto de 1
de Maio do ano seguinte. Teve geração, mas não nos consta que o título de conde de Machico se tivesse
perpetuado nos seus descendentes. Morreu em 1845.
Machico (Enseada, Porto e Cais de)
Afora as baías do Funchal, Pôrto Santo e Abra, é a enseada
de Machico a mais ampla e pitoresca do arquipélago. É orlada por um belo trecho de praia e por duas
estradas que lhe ficam sobranceiras, entestando directamente com um formosíssimo vale, que se alarga
pelas margens verdejantes da ribeira na extensão de alguns quilómetros. O centro da vila é ligado ao cais de
desembarque por uma formosa estrada arborizada, que oferece o mais agradável passeio nas tardes calmas
de estio. Aproximadamente no extremo sul da enseada, junto da capela de São Roque, construiu-se há
muitos anos um desembarcadouro, que foi de todo abandonado. No outro lado da baía, projectou-se a
construção dum cais, aproveitando-se uma restinga que ali existe, com uma estrada de ligação para o
interior da vila, realizando-se essas obras no período decorrido de 1870 a 1873. Considerado aquele
desembarcadouro como insuficiente, procedeu-se em 1905 á construção dum novo e mais amplo cais, que
sofreu modificações e melhoramentos no ano de 1907. Nos três pontos que limitam a entrada desta baía,
foram colocados três farolins nos fins do ano de 1931, que estão prestando excelente serviço aos numerosos
barcos de pesca, que demandam esta enseada durante a noite. Este pôrto é de relativa extensão mas de
pouco fundo, não sendo portanto permitido o acesso a embarcações de grande lotação. Sobranceiro ao local
do cais existiu um antigo forte, chamado do Desembarcadouro ou de São João Baptista, hoje desmantelado,
em cuja esplanada se improvisou em 1910 um hospital, por ocasião da epidemia colérica que assolou a
Madeira naquela época.
V. Desembarcadouro
Machico (Estação sanitária de)
Esta localidade, além das condições especiais que a tornam um
lugar preferido para passar a quadra estival, deve também ser considerada como uma excelente estação de
saúde. A amenidade dum clima fresco e temperado, a bela praia de banhos e as preconizadas aguas de São
Roque com as suas conhecidas virtudes terapêuticas, recomendam-na como a mais apreciável estancia
sanitária do arquipélago depois da do Porto Santo. São também motivos de atracção as belezas naturais do
formosíssimo vale, em que assenta a pitoresca vila, a facilidade de realizar pequenas excursões á linda
povoação de Santa Cruz e á encantadora freguesia do Santo da Serra, os passeios marítimos ao Caniçal, á
Prainha e á Ponta de São Lourenço, um hotel permanente e confortável, casas de aluguer e rápidas e
frequentes comunicações com a cidade do Funchal, etc. etc..
Machico (Freguesia de)
As mais antigas e gloriosas tradições que se referem ao descobrimento
desta ilha e á sua primitiva colonização acham-se indissoluvelmente ligadas ao nome do lugar, que depois
foi a freguesia, a vila e a sede da capitania de Machico. A historia da Madeira começa no instante mesmo em
que as caravelas comandadas por João Gonçalves Zargo e Tristão Vaz ferraram ancora na pitoresca e
encantadora baía desta localidade. Neste momento principia também a historia de Machico. Ao dobrarem o
promontório de São Lourenço, pouco antes baptizado com este nome, preparou-se aos olhos estáticos dos
navegadores uma pequena, mas formosa enseada, limitada por uma praia de calhaus rolados, que entestava
com um risonho vale apertado entre abruptas e alterosas montanhas. Tudo convidava a efectuar-se o
primeiro desembarque. Parece que os descobridores aqui aportaram por uma tépida e serena tarde de
Julho, quando ja o sol se avizinhava rapidamente do ocaso. Apesar da ansiedade que avassalava esses
espíritos, avidos da aventura e do desconhecido, não permitiram os capitães que nesse dia se pisasse pela
primeira vez a terra virgem desta longinqua e ignorada ilha. O desembarque realizou-se no dia imediato (V.
Descobrimento do arquipélago), descrevendo-o o historiador das ilhas nos seguintes termos:
«Tanto que amanhaceo ao outro dia, mandou o capitam hum batel a terra, de que deo cargo a Ruy Paes, que
fosse ver a disposição e sitio della, e lhe trouxesse recado do que achasse. O qual hindo, não pôde
desembarcar na praya, por causa do arvoredo que chegava ao mar, e páos que elle e a ribeira ali tinham
juntos. Daqui foi para a banda do Nacente desembarcar na rocha, onde estão pedras e baixos, que se pode
facilmente desembarcar nelles, por aparcelado que ande o mar; porque está resguardado com a rocha; e este
logar se chama hoje o Desembarcadouro, onde tambem desembarcaram os de Machim. Postos em terra,
acharam-na muito graciosa e saudosa de grandes arvoredos, e a logares prados, o que tudo se via tambem
dos navios. Foi Ruy Paes com os da companhia per antre o arvoredo e o mar, e, achando lenha cortada e
rasto de gente, foram por elle dar no tronco do páo grande onde Machim estivera, e acharam a meza e o
crucifixo, que os inglezes deixaram, e as sepulturas com as cruzes á cabeceira; do que ficaram espantados,
posto que tudo tinham ouvido ao seu piloto».
Se houvessemos de dar credito à amorosa lenda de Roberto Machim e Ana de Arfet, teriamos de admitir que
os descobridores, ao desembarcarem nas praias de Machico, encontraram as sepulturas dos dois infelizes
amantes, deparando nelas com o epitáfio que narrava a sua desgraçada aventura e onde se pedia que ali
fosse erguida uma capela da invocação de Cristo. O que, porém, parece averiguado é que no dia mesmo em
que os capitães da pequena frota realizaram o seu primeiro desembarque, fizeram logo erguer um
improvisado altar e ali celebrou o sacrificio da missa um dos religiosos franciscanos que Gonçalves Zargo
trouxera em sua companhia. Era uma ardente manifestação de fé, dando sem demora á Providencia a mais
rendida acção de graças pelo feliz e importante descobrimento que acabavam de realizar. Afirma-se que os
descobridores fizeram o voto de levantar uma igreja naquele local, e é esta a verdadeira origem da fundação
da capela de Cristo ou do Senhor dos Milagres (V.
Capela de Cristo
, pag. 332 do Iº. vol.).
Qual a verdadeira origem do nome desta localidade? Nada se sabe de positivo a tal respeito, apesar de
alguns homens de alta envergadura intelectual, como Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco, Álvaro
Rodrigues de Azevedo e J. I. de Brito Rebêlo, se terem ocupado com largueza do assunto. Ao tratarmos da
lenda de Machim, procuraremos condensar as opiniões dos que com mais reconhecida competência
versaram esta matéria, apresentando um resumido quadro das diversas hipóteses e conjecturas a que a
explicação do facto deu lugar.
Ninguém duvida que foi Machico um dos primeiros lugares povoados, formando-se ali desde logo um
importante nucleo de população, que rapidamente se desenvolveu, mas escasseiam-nos noticias
pormenorizadas acerca da sua mais antiga colonização e primitivos povoadores, e até se ignora o ano
preciso da criação da paroquia. Apenas se sabe que o descobridor Tristão Vaz, tendo escolhido este logar
como sede da sua capitania, ali fêz assentamento logo nos primeiros tempos da descoberta, dedicando-se
afanosamente ao povoamento e cultivo das suas terras. Diz Gaspar Frutuoso que alguns afirmam que o
primeiro donatário se estabeleceu em Machico com sua mulher e filhos, no mês de Maio de 1425. Foram
dados muitos terrenos de sesmaria a colonos e fidalgos vindos do continente tornando-se logo uma
povoação importante, que chegou a ombrear com o Funchal e até o excedeu, segundo se lê em alguns
antigos documentos.
O dr. Álvaro de Azevedo assinala o ano de 1430 para a criação das freguesias de Câmara de Lobos e Calheta,
e o de 1440 para as do Caniço e Ribeira Brava, fixando o ano de 1450 para a de Machico, o que é bastante
para estranhar, se atendermos a que êste lugar foi um dos primeiros povoados e dos que mais rapidamente
cresceram e prosperaram, tendo sido além disso a sede duma capitania e um centro muito importante da
primitiva colonização. Inclinamo-nos a crer que a paroquia de Machico teria sido criada por meados do
século XV, enquanto que as outras seriam apenas constituídas em capelanias curadas ou curatos autónomos
nos anos que ficam indicados. O lugar de Machico deveria ter tido um serviço religioso mais ou menos
regular desde a edificação da capela que ali fez Tristão Vaz logo no começo da povoação e arroteamento das
terras, sendo em 1450 que D. Frei Pedro Vaz, prior da Ordem de Cristo, enviou á Madeira Frei João Garcia
como primeiro vigario da paroquia de Machico, criada recentemente. Caso semelhante se deu no Funchal
com Frei Nuno Cão, mandado também pela Ordem de Cristo a paroquiar na sede da capitania e a
superintender nos serviços religiosos de toda a ilha. No artigo Freguesias, emitimos a opinião de que a
primeira paroquia criada na Madeira teve sua sede no Funchal, acrescentando agora que a fundação da de
Machico seria quasi coeva daquela, como aconteceu com as duas vilas que tiveram a sua criação na mesma
época.
A freguesia, como fica dito, foi criada por 1450 e alargava a sua jurisdição paroquial por tôda a area da
capitania, estabelecendo-se depois capelanias curadas, dependentes da igreja matriz, nos logares de Santa
Cruz. Pôrto do Moniz, S. Vicente, Ponta Delgada, São Jorge, Santana, Faial e Porto da Cruz. A de Santa Cruz
foi sem demora convertida em freguesia independente e as outras capelanias tornaram-se a pouco e pouco
paroquias autónomas. O rápido aumento da população na sede da capitania determinou a criação de novos
lugares eclesiásticos, sendo criada uma colegiada com seis beneficiarios anteriormente ao ano de 1572 e um
curato por alvará regio de 15 de Novembro de 1576.
Teve mais a igreja paroquial desta freguesia os lugares de pregador, criado por alvará de 4 de Agosto de
1590, de organista, criado por alvará de 27 de Novembro de 1594, e o de tesoureiro, cuja data de criação
desconhecemos.
No
Indice Geral do Registo da Antiga Provedoria
, faz-se menção dos seguintes diplomas respeitantes aos
cargos eclesiasticos desta freguesia: alvará regio de 11 de Fevereiro de 1560, fixado a côngrua do vigario em
12.300 réis anuais em dinheiro, 40 alqueires de trigo e um quarto de vinho; alvará de 18 de Junho de 1572,
elevando a 34.000 réis a totalidade da mesma côngrua; alvará de 8 de Maio de 1591. acrescentando mais
7.700 àquela importancia; alvará de 27 de Outubro de 1592 mudando êste vencimento para 24.000 réis em
dinheiro, dois moios de trigo e duas pipas de vinho; alvará de 18 de Junho de 1572, determinando que cada
beneficiado tivesse 12.0000réis anuais de côngrua; alvará de 8 de Maio de 1591, acrescentando um moio de
trigo e uma pipa de vinho aquele vencimento; e alvará de 5 de Novembro de 1741, comutando esta côngrua
em 6.000 réis em dinheiro, dois moios de trigo e uma pipa de vinho. Ao cura foi fixada a côngrua anual de
18.000 réis pelo alvará regio que criou êste logar.
Na área desta paroquia foram erigidas as capelas do Senhor dos Milagres, de que já nos ocupámos (vol. 1º.,
pag. 332), São Roque, Nossa Senhora do Rosario, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora das Preces, São
Cristóvão Nossa Senhora do Amparo, São José, Santo Antonio e Santana, ás quais nos referiremos mais de
espaço em outro logar desta obra.
Entre os factos que interessam á historia desta freguesia, merecem especial menção as aluviões de 1724 e
1803 (
V. Aluviões, vol. 1º
., pag. 54 e seguintes), o ataque da esquadra e tropas miguelistas a esta vila
(V. Ocupação da Madeira pelas tropas miguelistas)
e os morticinios ocorridos na igreja matriz
desta paroquia em Maio de 1870 (V.
Motins Populares
).
No artigo Geologia, já se fêz ligeira referencia ao canal de lava existente na margem esquerda da ribeira, nas
proximidades da quinta Santana, e a pag. 265 do vol. 1º. dêste
Elucidario
, transcrevemos a descrição que
dele fêz Hartung no seu livro
Geologische Beschreibung der Inseln Madeira und Porto Santo
. A cêrca dêste
canal, ou furna de Cavalum como é geralmente conhecido, corre uma lenda que o sr. tenente-coronel A.
Artur Sarmento aproveitou para um dos capítulos do seu livro Migalhas.
Sobranceira ao mar e no extremo oeste da baía fica a antiga capela de São Roque no sopé da qual nascem as
fontes conhecidas pelo nome do orago da mesma capela e que brotam da rocha quasi no mesmo nivel da
linha de agua do oceano. Têm estas aguas excelentes qualidades terapêuticas, sendo o seu uso
especialmente aconselhado em certas molestias do estomago. O depoimento de muitos doentes e o
testemunho dos medicos são provas irrefragaveis da sua eficacia. A respectiva Câmara Municipal mandou
proceder á analise quimica e bacteriologica destas aguas, vindo o seu resultado confirmar o juízo que das
mesmas aguas se formava. Atraiem elas a esta vila um numero considerável de pessoas na estação calmosa.
Por esse motivo e pela praia de banhos, vai-se transformando esta localidade numa concorrida estação
termal e balnear. Outro poderoso atractivo é a encantadora beleza do local e a completa ausência de calores,
o que, no seu conjunto, torna a vila de Machico um dos mais apetecidos lugares da Madeira para passar a
quadra estival.
Já no artigo
Fortificações
(a pág. 45), nos referimos aos fortes que defendiam esta localidade. 1mpõe-se
a demolição da pequena, velha e inutil fortaleza que defronta com o melhor passeio publico da vila, formado
por uma bela alameda de antigos e corpulentos plátanos.
Os principais sítios desta freguesia são: Vila, Pé da Ladeira, Pontinha, Estacada, Moinhos, Serra de Agua,
Azinhaga, Piquinho, Tôrre, Têrça, Fazenda, Moinho da Serra, (Caramanchão, Murtinhal, Landeiros, Marco,
Maroços, Ribeira Grande, Ribeira Seca, Poço do Gil, Paraíso, Graça, Banda de Além e Misericordia.
Há três escolas oficiais nesta freguesia (1921) sendo duas na sede da vila e outra no sitio do Caramanchão.
O censo da população de 1930 dá a esta freguesia 10.114 habitantes.
O filho mais ilustre de Machico é Francisco Alvares de Nobrega, conhecido pela antonomásia de Camões
Pequeno, que nasceu no sitio da Torre desta freguesia no dia 2 de Outubro de 1772 e do qual já nos
ocupámos neste
Elucidario
(vol. r, pag. 60). Também foi um distinto filho desta localidade o dr. José
António de Almada, nascido a 7 de Março de 1843 (vol. I, pag. 48).
Machico (Igreja Paroquial de)
Tem-se afirmado que a capela de Cristo
(V. vol. I, pag. 332)
,
hoje do Senhor dos Milagres, na vila de Machico, foi o primeiro templo edificado nesta ilha. Discordamos
desta afirmativa
(V. Santa Catarina, Capela de)
e até somos de opinião que ela nem foi a primeira
que se erigiu naquela freguesia. Tristão Vaz, ao fixar residência em Machico, fez sem demora construir uma
pequena capela, que depois acrescentou e melhorou, sendo nela instituída a sede da freguesia, quando foi
criada por meados do século XV.
A igreja actual, apesar de muito antiga, não parece ser o primitivo templo em que se estabeleceu o centro da
nova paroquia. É constante tradição que as colunas de mármore branco da bela porta lateral foram
oferecidas pelo rei D. Manuel. Tendo este morrido em 1521, pode conjecturar-se que a construção não será
de data muito anterior àquele ano. Um antigo manuscrito fixa essa edificação no ano de 1499. Diz-se algures
que os grossos suportes que reforçam as paredes exteriores parecem ser da construção primitiva.
Tem este templo sofrido através dos tempos importantes repairos e algumas modificações no interior e
especialmente nos altares, conservando, porém, nas suas linhas gerais, o tipo da primitiva edificação. Nos
anos de 1683, 1698 e 1713, realizaram-se nele notáveis reparações. devendo especializar-se as que se fizeram
na capela-mor depois do ano de 1698. O campanário foi demolido, por ameaçar iminente ruína, no ano de
1844, tendo sido reconstruído em 1853. Nesta torre, houve um antigo relogio anterior ao ano de 1609, que
deixou de funcionar em 1824.
O arco e as abóbadas das capelas do Santíssimo Sacramento e de S. João são em estilo ogival, sendo de
notável beleza e perfeição o tecto da primeira destas capelas. Os arcos da capela-mor e duma capela do lado
do evangelho são manuelinos.
Sobranceiro ao altar da capela do Santíssimo, encontra-se, pintado sobre tábuas, um quadro representando
a adoração dos Reis Magos, que é sem contestação uma notabilíssima obra de arte. Disse dele um antigo e
distinto professor da nossa Escola Industrial:
«Com o decorrer dos seculos, a notavel pintura tem sofrido as inclemencias da velhice, sendo deveras para
lamentar que não tenha podido ser conservada, como tantas outras obras primas de igual antiguidade.
Todavia, nela ainda se destaca o impecavel desenho das figuras e toda a pujança do colorido, todo o caracter
especial que essa tela manifesta e que tanto a aproxima das produções de Grão Vasco, o grande artista que
entre nós floresceu no começo do seculo XVI. É indubitavelmente a esse pintor, cujos quadros se admiram
na catedral de Vizeu, ou á escola que criou, que é devida a Adoração dos Magos de Machico. Atestam-no os
caracteristicos do desenho e da côr, e sobretudo a preocupação da factura, que mais se evidencia na
reprodução dos bordados a oiro, nas joias, nas ornamentações metalicas, tocadas com extrema minucia,
com extraordinaria verdade. Dentre as raras reliquias da pintura antiga que a Madeira possui, é esta sem
duvida a mais notavel. . .». Ainda há pouco, um dos mais distintos pintores portugueses classificou êste
quadro como uma bela obra de museu, aconselhando que sem demora se procedesse á sua restauração, sem
prejuizo da pintura original.
A capela do Santíssimo Sacramento, que encerra esta primorosa obra de arte, foi fundada por D. Branca
Teixeira, filha do primeiro capitão-donatario de Machico, que no seu testamento faz referencia á sua capela
dos Reis Magos, á qual legou avultados bens para a celebração de missa quotidiana. Diz Frutuoso que
Branca Teixeira morreu solteira e era comummente conhecida pela Mestra, pela virtude que tinha de curar.
A capela de São João teve por fundador o segundo capitão-donatario e era destinada a servir de jazigo aos
donatários desta capitania, tendo no cimo do arco as armas dos Teixeiras. Os altares ou capelas de São
Francisco Xavier e do Espírito Santo, com os seus encargos pios, tiveram como instituidores o cónego dr.
Manuel Pereira de Castro, antigo vigário de Machico, e Sebastião de Morais, para seus jazigos e sede do
morgadio que este ultimo estabeleceu.
Merece referencia especial um quadro das Almas, que se encontra no altar situado entre os arcos da capela-
mor e do Santíssimo Sacramento. É, sem duvida, uma obra de valor, que uma má restauração
sensivelmente estragou.
A tradição não só atribui a D. Manuel a oferta das colunas de mármore do portão lateral da igreja, como
também diz que o mesmo monarca ofereceu o orgão que ainda hoje se encontra no coro do mesmo templo.
Estando muito danificado, foi mandado reparar em 1857 pelo governador Antonio Rogerio Gromicho
Couceiro. Nele se lê a seguinte inscrição: Munificencia do Snr. Rei Dom Manuel. A pedido da Camara
Municipal mandado reparar pelo Exm° Snr. General Antonio Rogerio Gromicho Couceiro, governador civil
e militar da Madeira, 1857.
Machico (Origem do nome de)
No artigo consagrado à freguesia de Machico, dissemos que a
origem desta singular denominação não era ainda conhecida. Apesar das investigações feitas e das varias
hipóteses e conjecturas que se tem formulado para a cabal explicação dela, continua insolúvel o problema.
E, embora o ilustre anotador das Saudades afirme que o resolveu satisfatoriamente, é, porém, certo que a
sua autorizada opinião não foi acatada pelo distinto publicista e historiador Manuel Pinheiro Chagas, como
abaixo veremos.
Mas tem, na verdade alguma importancia historica a averiguação dêste ponto? A esta pergunta responde o
dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo nos seguintes têrmos: «...assumiu importancia desde gue, em 1868, o
inglez Henrique Major, na obra
The Life of Prince Henry of Portugal
, tomando a serio a falsa lenda do
suposto inglez Roberto Machim e graduando em argumento a falsa etimologia que de Machim deriva
Machico, tirou por conclusão que essa lenda foi um facto real, e que o seu Machim descobriu o archipelago
da Madeira muitos anos antes de Zarco e Tristão Vaz ahi aportarem nos fins do primeiro quartel do seculo
XV, opinião essa que o mesmo Major, autorisando-se com escritos sem valor historico, desenvolveu com
artificio e que de futuro pode ser invocada com fundamento a exigencias leoninas, com tanta mais
plausibilidade quanto é certo que o governo português e a Academia Real das Sciencias de Lisboa
cumularam de ingenuas honrarias o autor deste erudito mas retrahido livro da Life of Prince Henry, cujo
intuito não parece outro senão, engrandecendo as nossas legitimas glorias maritimas, avocar a bem da
Inglaterra a precedencia no efectivo descobrimento do archipelago da Madeira. Vale, pois, a pena deslindar
qual a origem do nome de Machico, contrapondo á inexactidão, propalada por Major, a probabilidade
historica».
Não podemos seguir em todos os detalhes o dr. Rodrigues de Azevedo na sua longa, erudita e por vezes
fastidiosa exposição acerca da origem deste nome. Desde que se prove, e o dr. Azevedo fê-lo da maneira
mais cabal e terminante, que o caso de Machim não passa duma pura e mera lenda, demonstrado fica
também que o nome de Machico não pode derivar do infortunado Roberto Machim, o desditoso amante da
malograda Ana de Arfet. A argumentação do dr. Azevedo acêrca desta origem, serve apenas para reforçar o
valor de sua cerrada dialectica ao provar a insubsistencia da lenda, mas não é uma nova prova da falsidade
da mesma lenda. De mais, a noticia do caso de Machim só nos aparece um seculo depois do descobrimento
do arquipelago madeirense, afastando até deste modo a simples probabilidade do nome de Machico poder
derivar de Machim.
O dr. Álvaro de Azevedo procura a origem da palavra Machico na corruptela de Monchique, nome duma
povoação do Algarve, sendo desta província naturais muitos dos primitivos povoadores desta ilha e com
todas as probabilidades alguns dos proprios tripulantes das caravelas de Zarco. Em virtude de noticias
fornecidas pelo ilustre algarvio Estácio da Veiga e por outras pessoas que visitaram o vale de Monchique,
parece que as condições orograficas e hidrograficas das duas localidades dão grandes traços de semelhança
entre Monchique e Machico, deduzindo o dr. Azevedo dessa circunstancia um argumento a favor da opinião
que sustenta. A estas afirmativas contrapõe Pinheiro Chagas as seguintes razões: «Em primeiro logar
Azurara, contemporaneo de alguns dos descobridores, escreve Machito, emquanto Cadamosto, que deveria,
na sua qualidade de estrangeiro, adulterar a palavra, é que escreve Monchrico, aproximando-a mais da
palavra portuguesa do que o proprio chronista português, o que é positivamente absurdo. Em segundo logar
não é menos absurdo que o nome duma terra algarvia fosse em tão pouco tempo adulterado pelos proprios
algarvios. Eles lhe puzeram o nome e eles o corromperam. A pronuncia ilhôa nada tem que ver com
semelhante adulteração, em primeiro logar porque os colonos ainda eram no tempo de Azurara dos
nascidos em Portugal, e ainda não tinham tido tempo de adquirir uma pronuncia especial, em segundo
logar porque Azurara não era escriptor madeirense, era escriptor continental, escreveu o nome como lh'o
diziam os navegadores algarvios, e, repetimos, não ha nada menos aceitavel do que a suposição de que os
homens nascidos em Monchique, depois de terem posto a uma terra descoberta por eles o nome da sua
patria, não o soubessem pronunciar vinte anos depois». Camilo Castelo Branco, sem admitir nem enjeitar a
hipótese do dr. Azevedo, diz que lhe parece que ela se avantaja a tôdas. O anotador de Gaspar Frutuoso
respondeu largamente á critica de Pinheiro Chagas, mas parece-nos que não refutou a argumentação do
ilustre historiador.
Dois anos depois da publicação das Saudades, diz E. A. Bettencourt no seu opusculo intitulado Memoria
sobre a descoberta das ilhas de Porto Santo e Madeira: «O nome de Machico dado a uma localidade da ilha
da Madeira tambem, a nosso ver, não pode servir de argumento em favor da estada de ingleses naquela ilha,
antes de lá terem chegado os portugueses. Notaremos em primeiro logar, sem contudo queremos fazer desta
a principal impugnação, que o nome de Machico tanto pode ser corrupção de Machim como diminuitivo de
Macho. A indole vulgar do idioma português não se oppõe a esta suposição. Azurara auxilia-a quando na
sua Chronica lhe chama Machito, e o proprio Melo quando o nomeia Machino. Pois assim como na Africa se
ficou chamando «Angra dos Cavalos» ao ponto onde em 1435 os descobridores lançaram dois cavalos para
neles irem explorar o interior do paiz; não poderia tambem o nome de Machico, machito ou machino ter
sido dado áquela localidade da Madeira por um igual motivo? Esta opinião é rejeitada por Pinheiro Chagas
e o dr. Azevedo.
Em 1879, o grande escritor Camilo Castelo Branco, no seu livro
Historia e Sentimentalismo
, inseriu um
artigo intitulado 24 Lenda de Machim em que apresenta uma nova origem da palavra Machico, dizendo que
ela se deve pronunciar Maquito e que deriva do termo italiano Macchia, que significa mata, brenha,
espinhal, etc.. Esta explicação do ilustre romancista provocou uma interessante polemica entre êle e
Pinheiro Chagas, que vem publicada na integra no já referido livro Historia e Sentimentalismo. O anotador
das Saudades também não abraça a opinião de Camilo.
Dezassete anos depois da polemica travada entre Pinheiro Chagas e Camilo Castelo Branco, trouxe a publico
o general Brito Rebêlo, em 1894, um interessante documento, que lança muita luz sôbre o assunto de que
nos vimos ocupando e a que já fizemos referencia no vol. X desta obra, a pag. 174. Se não é uma prova
decisiva, constitui sem duvida a mais aceitavel presunção até hoje apresentada acêrca da origem da palavra
Machico. O documento está concebido nos seguintes termos: a Carta porque o dicto senhor deu huas casas
que stam na rua nova de Lixboa que parte com casas do capitam moor e com Joham piriz canellas a
Machico mestre da sua barcha em que morasse em quâto fosse sua mercee etc.. em Alanquer X ij (12) dias
dabril de mjl e iiij xbij anos (1379).
Arch. da Torre do Tombo
, L.° 2.° de D. Fernando, fs. 42. «Deste
documento, acrescenta o general J. I. de Brito Rebelo, resulta o facto positivo da existencia em Portugal, no
anno de 1379 (1417), de um maritimo, de graduação importante, com o nome de Machico; e desde que se
encontra tal nome, está achada a origem daquelle com que foi designado certo ponto da ilha da Madeira.
Documentos desta natureza provam os factos com toda a evidencia. Parece-me, pois, que se pode
estabelecer a seguinte conjectura: O Machico de que falla o documento, ou algum seu descendente, foi á ilha
da Madeira na primeira ou em alguma das primeiras viagens; por velhice, doença ou outro acidente falleceu
em certo ponto da costa; os seus companheiros enterraram-no, assignalando o logar com uma cruz tosca de
pau. Seria esta a que se recolheu na primitiva egreja, quando se fundou, e a lenda figurou depois como
retirada da sepultura de Machim, e o sitio ficaria sendo designado pelo nome do primeiro que honrou com
os seus despojos a terra até ahi deshabitada. Passou-se, porém, o facto deste ou doutro modo; um
documento até hoje desconhecido vem levantar do olvido de quasi cinco séculos, o nome do ignorado
maritimo que, auxiliando a empreza a que se votava o infante D. Henrique, legou o seu nome a um local de
uma das mais formosas regiões descobertas por seu desvelo, e explicar a origem daquella designação. Fique,
pois o nome de Machico inscripto na lista dos primeiros descobridores. Ao citarmos, portanto, e exalçarmos
os nomes de Gonçalves Zarco e Perestrello, não esqueçamos jamais o do pobre Machico, que talvez fosse
quem os guiasse na sua audaz e feliz expedição».
É evidente que Brito Rebêlo levou muito longe as suas conclusões. Há aceitáveis probabilidades nas suas
conjecturas, mas a verdade é que, com o documento transcrito, não se pode demonstrar que o marinheiro
Machico, a quem D. Fernando I doou umas casas em Lisboa, tivesse tomado parte na expedição de João
Gonçalves Zarco. Prova-se a existencia do nome de Machico entre nós, o que constitui um novo argumento
contra a veracidade do caso de Roberto Machim, e mais confirma a narrativa de Azurara e outros antigos
cronistas acêrca do descobrimento deste arquipélago. É no entretanto muito valioso e interessante o
documento encontrado pelo general Brito Rebêlo no Arquivo da Tôrre do Tombo.
Machico (Vila e Município de)
«O vale de Machico, onde assenta a vila do mesmo nome, tem, diz
o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, uns cinco a seis quilometros de extensão, por dois a tres de largo,
decorre na direcção norte-sul, entre duas cordilheiras, uma por leste, que, vindo sobre a vila erguer o Pico
do Facho, depois se prolonga para o Caniçal, e, entrando pelo mar fora, forma a alterosa Ponta de São
Lourenço, no extremo pincaro da qual se ergue de ha anos, um bom farol de rotação, que desde além da ilha
do Porto Santo se avista; outra, que vem terminar no elevado planalto denominado a Queimada, a cavalleiro
do mar. Destas cordilheiras brotam e derivam abundantes e bellas aguas que lhe fertilisam o torrão de si
uberrimo, e, já escoando-se através do acidentade solo, já afluindo aos ribeiros menores, vem formar-lhe a
caudal ribeira, que, ao longo delle serpeia até á praia, onde desagua no Atlantico. Nestas condições o vale de
Machico é opulento em variadissima vegetação, desde as gramineas até os arvoredos frutiferos e não
frutiferos; pitoresco e amenissimo, deveria ser surpreendente quando, no estado de floresta virgem,
contemplado foi por Zarco e Tristão Vaz. O vasto porto e ampla enseada protegidos a leste pela Ponta de
São Lourenço, por oeste abrigados com a alterosa costa chamada do Sul, e, por isso, seguro com todos os
ventos excepto o deste quadrante, completam o panorama geral do sitio de Machico. A vila assenta na
extrema baixa do vale, á beira-mar, cortada longitudinalmente pela ribeira em duas partes ou bairros: para
o oeste, o antigo, a vila propriamente dita, com as casas da nobreza, com a igreja matriz, modestamente
manuelina, o paço do concelho, e, ao longo da praia, a encantadora alameda; para leste, a Banda de Além,
arrabalde de pobres maritimos, humildes habitações, estreitas e tortuosas viélas, mas brancas as casinhas e
em anfiteatro, porque já vão invadindo a encosta do convisinho Pico do Facho, e, marginal da Ribeira, para
o lado do mar, a pequena igreja de Christo, ou, mais exacto, da ordem de Christo, como ainda o estão
dizendo as cruzes desta milicia que lhe exornam o portico primitivo, templosinho este sem duvida o
primeiro levantado na ilha da Madeira; e entre estes dois bairros, os grossos muralhões, a dentro dos quais
corre a ribeira, mansa e limpida quasi sempre, torrencial e medonha nas invernias: tal é a vila, que,
engastada naquele quadro, lhe realça a beleza..... Todo este variado painel, contemplado do alto da
Queimada ou do Pico do Facho, que dominam o vale e as encostas, a ribeira e as culturas, a vila e os
casalejos, o porto e a enseada, o mar até onde vai confundir-se com o horizonte, a Ponta de São Lourenço a
azular-se com a atmosfera, a costa do sul pouco a pouco esvaecida na penumbra do occaso.. . é
majestosamente belo. . . »
Não se conhece a data da criação da vila de Machico. O primeiro e mais antigo livro do arquivo municipal,
em que talvez viesse registado o respectivo diploma, desapareceu há algumas dezenas de anos e não se tem
encontrado quaisquer referencias a êsse documento. Nos
Anais do Municipio
, redigidos há cerca de setenta
anos, afirma-se que «a criação da vila de Machico data da epocha em que foi criada a vila do Funchal», o
que parece provavel, se atendermos a que as duas localicades foram, nos tempos primitivos da colonização,
crescendo simultaneamente em
importancia, chegando-se a supor que Machico atingiu maior
desenvolvimento que a futura capital do arquipelago. O dr. Rodrigues de Azevedo aceita a opinião que as
duas vilas tivessem sido criadas pela mesma epoca.
Também se não conhece a data precisa da criação da vila do Funchal, conjecturando o anotador das
Saudades que essa criação data do ano de 1451
(V. Funchal (Criação da Vila e Município do)
vol.
II, pag. 59), devendo igualmente adoptar-se essa epoca aproximada como a da elevação de Machico á
categoria de vila.
O município de Machico correspondia em área e extensão á antiga capitania. Sofreu êle um profundo
cerceamento com a criação da vila e municipio de Santa Cruz no ano de 1515 e não menor mutilação sofreu
ainda com o estabelecimento do municipio e vila de São Vicente no ano de 1744.
Com a implantação do governo constitucional e a sua recente organização administrativa, de novo o
município de Machico ficou reduzido a mais acanhadas dimensões, quando em 1835 se criou o concelho de
Santana. Apesar dos protestos do Senado de Machico, manteve-se a criação do novo concelho, que ficou
constituído com as freguesias que actualmente o compõem e ainda com a paroquia do Pôrto da Cruz. Pelo
decreto de 19 de Outubro de 1852, foi esta freguesia desanexada do concelho de Santana e encorporada no
de Machico.
Em virtude do mesmo decreto, foram anexados ao concelho de Santa Cruz alguns sitios das freguesias de
Machico e Santo da Serra, o que provocou enérgicos protestos por parte da Camara Municipal de Machico e
de varias entidades oficiais e particulares em destaque neste concelho. Depois de vários incidentes e
peripécias, que pareciam intermináveis, fêz o secretario geral do distrito, António Lopes Barbosa de
Albuquerque, servindo de governador civil, reunir na Casa dos Romeiros do Santo da Serra, no dia 11 de
Setembro de 1862, representantes das camaras municipais de Machico e Santa Cruz, administradores do
concelho, diversos funcionarios publicos e outras pessoas de representação, e ali se assentou
definitivamente numa nova divisão concelhia e paroquial, que ficou sendo a actual, tendo dêste modo
terminado as reclamações e protestos que duma e doutra parte se levantaram.
Acerca das armas do município de Machico, lê-se nos já citados Anais, o seguinte: «Uma esfera em relevo,
qual a das armas de el-rei D. Manuel, quando duque de Beja e grão mestre da Ordem de Cristo, são as
armas da antiga vila de Machico, oferecidas pelo mesmo rei em 1499 ao senado da Camara. É tradição que o
cunho de prata com cabo de marfim que ainda existe na Camara, é o proprio com que el-rei enobrecera esta
vila».
D. Manuel I também ofereceu ao antigo senado de Machico um padrão de pesos de bronze, que, além das
armas reaes, tem gravada a seguinte inscrição: «Dom Emanuel o primeiro de Portugal, o muito alto e
excellentissimo rei, me mandou fazer, Anno de Nosso Senhor. J. H. P. O. D. 1499». O mesmo monarca
ofereceu igualmente alguns objectos de valor á igreja matriz desta vila, como em outro lugar veremos.
Interrogada a camara de Machico em 1780 acerca dos privilégios de que gozava, respondeu que o senado
desta vila desfrutava as mesmas regalias e isenções do senado da camara de Lisboa, e que era concebido nos
seguintes termos o tratamento que lhe competia: Ill.mo Senado da Camara da antiga e nobre villa de
Machico.
Depois do restabelecimento do governo constitucional, foi nomeada uma comissão administrativa da
câmara a 16 de Julho de 1834, sendo eleita a primeira vereação a 20 de Outubro do mesmo ano. O primeiro
administrador do concelho foi Alberto de Oliveira, nomeado a 4 de Outubro de 1835.
A vila de Machico foi sede duma Misericordia, à qual nos referiremos mais de espaço no artigo
Misericordias.
Teve alfandega, de que já nos ocupamos a pág. 43 e 44 do vol. I desta obra. Os municípios ou vilas de
Machico e Santa Cruz tiveram um foral comum, que vem transcrito a pág. 507 e seguintes das Saudades da
Terra e tem a data de 15 de Dezembro de 1515. Encerra dados interessantes para a historia da administração
publica nestes municípios.
Desde o ano de 1929, possui esta vila um belo edifício, em que se acham instaladas algumas repartições
concelhias e os diversos serviços camarários, tendo notavelmente contribuído para a construção destes
Paços do Concelho o general Antonio Teixeira de Aguiar, ilustre filho da freguesia de Machico.
Machim (Lenda de)
A poética e emocionante lenda de Machim, com os seus lances de tragedia, tem
sido cantada em prosa e verso por escritores nacionais e estrangeiros, comovendo a sensibilidade doentia
dos que acreditam ou facilmente se deixam impressionar por essas narrativas amorosas. Depois do trabalho
exaustivo do dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, aplicando ao caso de Machim toda a severidade da critica
histórica, a ninguém é licito admitir a possível realidade daquela encantadora mas fantastica invenção.
Desde o ano de 1563, em que António Galvão no seu Tratado dos Descobrimentos deu pela primeira vez
curso a esta lenda, até alguns escritores nossos contemporaneos, tem sido ela descrita com muitas
variantes, revestindo porém uma forma mais interessante e atraente na III Epanaphoro de D. Francisco
Manuel de Melo, sobretudo pela beleza da dicção e pitoresco da narrativa. A versão mais conhecida é, no
entretanto a de Gaspar Frutuoso, que essencialmente não difere da de D. Francisco de Melo. Vamos
transcrever a ingenua descrição do historiador das ilhas, para não cometermos a falta de omitir nestas
paginas a noticia da tão conhecida lenda de Roberto Machim e Ana de Arfet.
«No tempo d'El-Rey Duarte de Inglaterra houve um nobre inglez, afamado cavalleiro, a que chamavam de
alcunha o Machim, o qual, por ter altos pensamentos e ser tambem de honrosos feitos, andava de amores
com huma dama de alta linhage, a que chamavam Anna de Arfet. Proseguindo elle com extremo seus
amores, veyo ella tambem a amar muito a quem a amava, porque em fim o amor, se não for com amor, não
tem igual paga; e, como este (como as cousas odoriferas) se não póde encobrir aonde está encerrado, com
mostras e suspeitas que de si deram, foram descobertos os amantes, por se quererem ambos muito (que
ainda ás vezes a prohibição de huma cousa he causa de mayor desejo della, e he isca de mayor incendio o
querer alguem apagar o fogo amoroso, pois nossa natureza mais incita, e aspira ao que mais lhe he vedado).
Como os senhores de alguns campos regadios no tempo das grandes enchentes fazem ás agoas grandes
valos no principio donde vem para as lançar para outra differente parte, e os medicos para curar a pontada
de hum lado, mandam sangrar do contrario; assi os parentes, cuidando deitar agoa no fogo, e não alcatrão,
que arde nelle, como senhores do agro e medicos de sua amorosa infermidade, para devertir a corrente do
amor, que a alagava, e apartar o sangue da contraria pontada, como fazendo contrarios valados e sangrias,
com aprazimento d'El-Rey a casaram em Bristol com hum homem de alto estado. Machim foi disto mui
lastimado e ella mui descontente, e, não tendo nenhum meyo á paixão e dor destes extremos com que
ambos se viram, mostrando com lagrimas ardentes a lastima deste casamento, acordaram com grande
segredo fugirem para França, com quem Inglaterra então tinha grandes guerras. E falando-se Machim com
alguns agravados e parentes, a quem descobrio seu peito e todo o seu talento e thesouro (que tinha
encerrado onde estava seu coração e amor), deram-se as fees, e juraram de hirem todos com elle para
França. E para melhor pôrem em effeito esta partida, foram secretamente poucos a poucos ter a Bristol,
onde estavam certas náos de mercadores carregadas para Espanha, determinados a meterem-se em huma
dellas, e, por força, fazendo-se á vela, passarem-se a França, fazendo saber com todo secreto este seu acordo
a Anna de Harfet, para vir ter com eles, e fugirem. E, ordenado o dia que as náos estivessem despejadas da
gente principal, hum dia de festa, sendo o mestre e mercadores em terra, e estando Ana de Harfet avisada,
cavalgou o mais secretamente que houve em hum palafrem, e, levando um crucifixo e todas suas joyas de
preço, deo comsigo no logar ordenado, onde a estavam já esperando com hum batel. Meteo-se nelle com o
seu Machim, que com seus criados e amigos a recolheram, e levaram a huma das náos que tinham prestes, a
qual fizeram logo á vela; e, cortadas as amarras, recolheram o batel. Acertou, porem, de ventar huma
tormenta grande, revolvendo as ondas, como invejosas daquelle desenvolto amor, com que logo se
afastaram da terra; e, como anouteceo, havendo conselho que poderiam sahir as outras atraz ella porque
haviam de entender que passavam a França, desviaram-se desse caminbo, esperando de hir tomar as
derradeiras partes de França em Gasconha, ou Espanha. E, como o piloto e mestre ficaram em terra, e os
que hiam na náo não sabiam tomar a terra nem a altura della, achando vento prospero, correram para onde
os levava a ventura com todas as velas, por não os alcançarem; e em poucos dias se acharam em huma ponta
de huma terra brava, toda coberta de arvoredo até o mar, de que ficaram espantados e confuzos. Logo
detraz da ponta viram huma enseada grande, e metendo-se nela, deitaram ancora, lançaram batel fóra,
foram ver que terra era; e não podendo sahir com a quebrança do mar, foram-se a huma rocha, que entrava
no mar da banda do Nacente, onde sahiram bem á sua vontade, e dahi se foram á praya entre o arvoredo e o
mar, até darem em huma fermosa ribeira de boa agoa, que por entre o arvoredo sahia ao mar, não achando
animal nem bicho nenhum; porém acharam muitas aves, e viram o arvoredo tão grosso e espesso, que os
poz em espanto. Entre outras arvores, acharam junto ao mar huma mui grande e grossa, que da antiguidade
tinha hum ôco no pee, onde entravam como huma casa. Tornando com esta nova á náo, o Machim e os
companheiros, entendendo que era terra nova, pozeram em vontade de a pedirem aos Reys de Espanha.
Anna de Harfet, como hia enjoada e mareada do mar, rogou ao Machim que a levasse a terra a ver aquella
ribeira, e desmarear-se alguns dias do enjoo. Felo elle assi: mandou levar roupa e mantimento a terra, para
estar ali alguns dias de vagar, em quanto o tempo lho desse, levando comsigo alguns companheiros para
estarem em sua companhia na terra, e outros hiam e vinham á náo; mas, como a fortuna corre em alguem,
não lhe dá vagar de repouso. A terceira noute depois que chegaram, levantou-se um vento tão forte sobre a
terra, que a náo se desamarrou; os que dentro estavam deram á vela, sem poderem parar; seguiram por
onde o vento os levava, e em poucos dias, dizem, que foram dar á costa de Berberia, onde foram logo
captivos dos Mouros, e levados a Marrocos.
Quando amanheceo, e os que ficaram em terra não viram a não, quedaram-se mui tristes, dando-se logo por
perdidos e desesperados de mais poderem dali sahir. A dama de Machim de se ver ficar ali, pasmou e nunca
mais falou, e dahi a tres dias morreo. Machim, pelo muito que lhe queria, arrebentava; e, vendo-se
desterrado de sua patria, e seu amor morto, que era todo o conforto de seu desterro, não lhe lembravam já
saudades da terra; só as tinha insofriveis da sua Anna de Harfet, que diante de si tão prestes via feita em
terra. Com estas com que ficava, e com ardentes suspiros e lagrimas, a acompanhava ali; onde estavam
agasalhados, a mandou enterrar, e poz-lhe huma cruz de páo á cabeceira, e huma mesa ou campa de pedra
com o seu crucifixo sobre ella, e aos pés do crucifixo poz um letreiro em latim, em que contava todo o seu
tristissimo sucesso, e o que naquella viagem tão sem ventura lhe tinha acontecido, pedindo que, se em
algum tempo ali vivessem christãos, fizessem naquelle logar huma igreja da invocação de Christo. Acabado
o que, pedio aos companheiros que, com a roupa que tinham e aves que tomassem, se fossem aonde a
ventura os guiasse, pois ele a não tivera de lhe viver sua amiga; e que queria ali ficar e morrer onde matára
Anna de Harfet, e só com sua saudade acompanhando o corpo morto, pois ella o acompanhára vivendo. Os
companheiros movidos de piedade, lhe diceram todos que o não haviam de deixar, e que ali haviam de
morrer e ficar com elle. O Machim, que muito lhes agradeceo aquelle amor, e mais lhes agradecera sua
crueldade, se só o deixaram, de dor e paixão de sua amiga não durou mais de cinco dias. Os companheiros,
que não com pouca saudade de sua companhia o enterraram junto da sua Anna de Harfet, pozeram-lhe
outra cruz á cabeceira, e, deixando o mesmo crucifixo como Machim o pozera, e estas duas sepulturas
naquella terra herma por tristissimo espectaculo saudoso e amoroso, meteram-se no batel em que vieram
da náo (posto que outros querem que o fizessem do tronco da arvore, que grossa era e capaz de muitas
pessoas) e, hindo ter á costa de Berberia, foram lá captivos dos Mouros e levados a Marrocos, onde já
estavam tambem captivos os outros companheiros da náo, tão sem prazer e sem ventura. Estes breves,
momentaneos, e custosos gostos tem as grandes e compridas esperanças do mundo, cujo costume,
condição, e natureza sempre foi e será descarregar com mui pouco ou nada a quem pede muito».
O dr. Rodrigues de Azevedo, em algumas anotações das Saudades da Terra e num desenvolvido artivo do
Diccionario Universal Portuguez Illustrado, ocupa-se com a maior largueza dêste assunto, não sòmente
para mostrar a inteira falsidade das afirmativas dos que julgaram ver na lenda uma verdade historica, mas
ainda para revindicar para os portugueses a prioridade no descobrimento deste arquipelago. As afirmações
do escritor britanico Richard Henry Major na sua monumental obra sôbre o Infante D. Henrique, também
levaram o anotador das Saudades a êsse estudo, pois a reconhecida autoridade do sabio inglês podia induzir
em erros graves os que lessem o seu notavel livro acêrca dos nossos primeiros descobrimentos maritimos.
Quem quiser ter um conhecimento mais aprofundado dêste assunto há-de principalmente socorrer-se da
interessante e erudita dissertação do dr. Azevedo inserta na nota V das Saudaudes (pag. 340-429) e no
Dissionario Universal Illustrado Portuguez
(vol. da letra M, pag. 190), e também pode consultar a
Historia
de Portugal
(vol. II, pag. 230 e seguintes), de Pinheiro Chagas, onde se encontram elogiosas referencias ao
anotador das Saudades, «um sabio madeirense e um dos mais eruditos escritores que Portugal possui».
A mais brilhante narrativa da lenda ou romance de Roberto Machim e Ana de Arfet é a de Rebelo da Silva,
publicada no vol. IX do
Archivo Pittoresco
.
Maclaren (Duncan)
Esteve na Madeira de Outubro de 1844 até o verão de 1845 e escreveu um
pequeno trabalho intitulado A visit to Madeira and Tenerife. Lê-se neste trabalho que, de 1844 a 1845,
visitaram a Madeira 250 estrangeiros, incluindo neste numero os inválidos e os amigos e criados que os
acompanhavam, e que nos dois anos anteriores tinha o numero de visitantes orçado entre 300 e 400,
havendo por essa epoca cêrca de 300 inglêses com residencia na ilha.
Maçonaria
Segundo diz o dr. José de Arriaga na Historia da revolução portuguesa de 1820, foi a ilha
da Madeira uma das primeiras terras de Portugal em que a maçonaria encontrou mais favoravel
acolhimento. Em 1770, havia já uma loja maçonica na Madeira, da qual faziam parte Aires de Ornelas
Frasão, Francisco de Alincourt e Bartolomeu Andrieux, segundo se vê de um oficio dirigido pelo
Governador João Antonio de Sá Pereira ao marquês de Pombal em 3 de Dezembro desse ano, e em 14 de
Abril de 1792 queixava-se o Governador D. Diogo Forjaz Coutinho a Martinho de Melo e Castro de que o
francês João José de Orquiny tinha estabelecido uma loja masonica nesta ilha, pertencendo a maior parte
dos associados ás classes da nobreza e do clero.
Os referidos Frasão, Alincourt e Andrieux foram presos em 1770 como pedreiros livres, por ordem do
Governador, sendo o primeiro remetido para Lisboa, mas vê-se de um documento madeirense que o
Marquês de Pombal não só mandou soltar o segundo dêstes maçons, como o restituíu ao cargo que
desempenhava de sargento-mor engenheiro, o que faz crer que outro tanto sucedesse aos outros dois
presos.
Quanto ao francês Orquiny, era grão-comendador do Grande Oriente da França, e conseguiu ser nomeado
pelo govêrno de D. Maria I para estudar a flora madeirense e o seu valor terapeutico. Chegou á Madeira em
1789, mas do que ele cuidou desde logo foi de transplantar para esta ilha as instituições, maçonicas
francesas, o que conseguiu facilmente, não sendo igualmente feliz em Lisboa, para onde partiu em 1792,
pois que ai a policia descobriu os seus designios, prendeu-o nos carceres da Inquisição e expulsou-o depois
para o estrangeiro.
Os mações madeirenses sofreram em 1792 uma grande perseguição. Mal o bispo D. José da Costa Torres
teve conhecimento de que se havia constituído uma loja maçónica no Funchal, e que dela faziam parte o juiz
de fora, o corregedor, vários eclesiásticos, muitos filhos de casas nobres, homens de letras, etc., instou com
o inquisidor geral, diz o dr José de Arriaga, «para que este publicasse um edital contra os pedreiros livres e
convidando; os cidadãos da ilha a denunciar perante a inquisição todos aquelles que soubessem pertencer á
maldita seita, que tinha pacto com Satanaz e era excomungada. O edital não se fêz esperar e appareceu
naquelle anno. Houve panico geral, porque já uma grande parte da ilha pertencia á maçonaria, e o edital ia
com effeito causar graves perturbações no seio das familias e ser origem de acontecimentos desastrosos».
«Imediatamente se seguiram as prisões, continua o mesmo autor. O vigario geral, o juiz dos residuos e o
visitador do bispado foram demitidos dos seus logares e suspensos de pregar e confessar, podendo no
entanto dizer missa. Muitos vigarios foram presos em suas freguesias e mettidos em processo, outros foram
suspensos de pregar e confessar fóra da sua jurisdição; os capelães da Sé foram depostos das suas
capellanias, os curas dos seus curatos, e muitos ecclesiasticos suspensos de pregar e confessar em todo o
bispado, sendo notados de herezia e incursos na excomunhão».
Muitos mações, entre os quais diferentes oficiais militares e funcionários públicos, fugiram da Madeira por
essa ocasião, tendo alguns deles seguido para os Estados Unidos da America, acompanhados de suas
famílias, onde foram bem recebidos.
O Governo pôs termo, por considerá-la impolitica, á perseguição movida contra os mações, e em 23 de
Junho de 1792 chegou à ilha o perdão para todos os membros das sociedades secretas, devendo estes
abjurar das heresias de que eram acusados. O bispo recusou-se a reintegrar os sacerdotes por ele demitidos
ou suspensos, mas estes recorreram para a Coroa, que lhes deu provimento.
O poeta madeirense Francisco Alvares de Nobrega e o deão da Sé do Funchal, João Francisco Lopes Rocha,
padeceram bastante por ocasião da referida perseguição, tendo êste ultimo dirigido uma carta ao ministro
José de Seabra da Silva, datada de 16 de Outubro de 1793, em que amargamente se queixava do Bispo por
lhe manter a suspensão do exercicio de seus oficios sacerdotais e dos respectivos vencimentos, com
manifesta violação das leis portuguesas e das expressas determinações do govêrno da Rainha. Esta carta,
publicada muitos anos depois no tomo III do Campeão Portuguez em Londres, é documento importante
para o estudo das instituições maçonicas na Madeira.
O Bispo D. José da Costa Torres foi 4 anos depois da perseguição, em 22 de Tunho de 1796, transferido para
o bispado de Elvas, e, diz um manuscrito da época, citado pelo Dr. Azevedo, «sahiu (da ilha da Madeira) na
noite de 6 de Outubro de 1796, sem se despedir de pessoa alguma, nem do S. S.mo Sacramento: e thé gora
ignora-se o motivo deste affectado embarque de noite, e por portas travessas». D. Diogo Pereira Forjaz
Coutinho só deixou de ser capitão-general das ilhas da Madeira e Porto Santo quando faleceu em 30 de
Março de 1798.
Diz o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo no artigo Madeira, publicado no
Diccionario Universal Portuguez
,
que tudo faz crer que o impulso maçonico nesta ilha foi de origem francesa, e que, se o Marquês de Pombal,
e, depois, os ministros de D. Maria I não quiseram contrariá-lo abertamente, é porque viram nele o meio de
contrabalançar o absorvente predominio dos mercadores britanicos. Se foi êste, porém, o intento dos
aludidos ministros, êle malogrou-se, pois que a ocupação inglesa e a protecção concedida mais tarde por
varios individuos da mesma nacionalidade aos liberais madeirenses, criou entre estes o partido britânico,
que, como diz o mesmo erudito investigador, só pouco a pouco se desfez, por efeito da queda do govêrno de
D. Miguel, em 1834.
A maçonaria reorganizou-se enquanto a Madeira esteve ocupada por tropas britânicas (1801 a 1802 e 1807 a
1814), datando provavelmente dessa epoca a fundação da loja Unido, da qual saíram as lojas Constancia e
Fidelidade, estabelecidas durante o período liberal. Agostinho de Ornelas foi o primeiro veneravel dessa
loja, e tanto ela como as suas filiais parece que estiveram subordinadas ao Grande-Oriente de Lisboa, ou,
pelo menos, trabalbaram de acôrdo com êle, enquanto o pais se regeu por instituições liberais.
A alçada que o governo absoluto mandou á Madeira em 1823 dispersou os mações e condenou muitos deles
a degredo, mas já em 1825 havia aqui uma sociedade secreta denominada dos Jardineiros, organizada por
bacharéis e estudantes da Universidade. Vê-se de um antigo documento que em 1824 os mações se reuniam
em casa do inglês Gran, que era também pedreiro livre.
A constituição maçónica foi impressa na tipografia do Patriota Funchalense em Janeiro de 1823, e entre os
mações condenados pela alçada que veio à Madeira nesse ano, avultam o Dr. Nicolau Caetano Pita, redactor
daquele jornal, o Dr. Francisco de Assis Saldanha, juiz de fora, o Padre Gregorio Nazianzeno Medina e
Vasconcelos e o Padre Tomé João Pestana Homem de El-Rey, vigario do Campanario.
A maçonaria, diz o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo no
Diccionario Universal Portugues
, resurgiu robusta
em 1826, tendo á sua frente João do Carvalhal, mas os acontecimentos políticos de 1828, a alçada que neste
ano veiu á Madeira, a pronuncia de 216 e a prisão de 101 liberais e mações, os degredos e prisões a que estes
foram condenados, a emigração e o homisio dos não presos, o terror dos cadafalsos em que tantos
portugueses foram mortos e emfim os cinco anos de sanguinário despotismo do govêrno de D. Miguel,
dizimaram e dispersaram a maçonaria madeirense, assim como, por causas identicas, a do continente do
reino o havia sido.
«Quando em 5 de Junho de 1834 as instituições liberais foram estabelecidas na Madeira, poucos mações
aqui existiam; consta, porem, que ainda assim duas lojas se levantaram, mas já longe do antigo espírito de
unidade maçonica; não verdadeiras lojas, senão clubes facciosos, e que, por isso, em pouco foram
absorvidos pelos clubes partidarios propriamente ditos, prevalecendo a todos o celebre Club do Carmo,
onde suas armas estrearam os já agora falecidos caudilhos politicos madeirenses da geração anterior à que
principiou na vida militante pelos anos de 1846 e 1847».
Em 1843, não existia nenhuma loja maçonica na Madeira, e assim se mantiveram as cousas até 11 de Março
de 1872, em que alguns homens estranhos à politica, dirigidos pelo tenente-coronel reformado José Paulo
Vieira, instalaram no Funchal a loja capitular Liberdade, da qual foi primeiro venerável o dito tenente-
coronel.
A 16 de Abril de 1873 instalou-se no Funchal a loja Trabalho, a 23 de Maio de 1877 a loja União Liberal e a
13 de Abril de 1878 a loja Cinco de Junho, mas estas três lojas fundiram-se pouco depois de 1880, ficando
existindo desde então uma única loja com a denomição de Trabalho, que teve curta duração.
A maçonaria madeirense montou em 1872 uma tipografia, na qual publicou primeiro a
Madeira Liberal
e
depois o Oriente do Funchal, sendo esta folha continuação daquela, e se as lojas «não fossem abandonadas,
dizia em 1882, o Dr. Azevedo, abandonadas por quem tinha o imperioso dever de dar-lhes conselho,
direcção, força, seriam hoje gloria da Maçonaria Portuguesa».
Além da loja capitular Liberdade, de que falámos atrás, existem hoje (1921) no Funchal a loja Trabalho, o
Gremio 5 de Outubro, a Britannic Lodge e a loJa Patria Portuguesa, tendo a primeira destas associações
maçonicas sido fundada em Junho de 1901, a segunda em 13 de Outubro de 1911, a terceira em 29 de
Dezembro de 1913 e a última em 12 de Janeiro de 1916. A loja Revoluçao e Progresso, fundada em 1899,
durou apenas 6 ou 7 meses, e a loja Britanica, criada, segundo cremos, em Junho de 1908, foi substituída
pela Britannic Lodge, cujos obreiros são na quasi totalidade ingleses e obedecem ao Grande Oriente da
Inglaterra.
Tal é, em resumo, o que tem sido a maçonaria madeirense desde a fundação da primeira loja, nos fins do
terceiro quartel do século XVIII, até a actualidade (1921). Sendo os seus fins idênticos aos da maçonaria
portuguesa, um dos artigos do seu programa é pôr em obra os princípios avançados, e por isso teve de sofrer
grandes perseguições e vexames antes de conquistar as liberdades que de há muito desfruta na nossa ilha.
Madalena do Mar (Freguesia da)
Esta paróquia do litoral sudoeste da Madeira fica a Jusante
da freguesia dos Canhas, sendo limitada a leste pelo sitio dos Anjos, da mesma freguesia, e a oeste pela
paróquia do Arco da Calheta.
Conjectura-se que o seu primitivo nome tivesse sido Madalesia ou Santa Maria Madalena, a que mais tarde
se houvesse acrescentado a denominação de Mar, por ser banhada pelo oceano e mais ainda talvez para a
distinguir do sitio e capela de Santa Maria Madalena, da freguesia do Porto do Moniz, quando ali começou a
ser o centro duma conhecida e concorrida romagem. A hipótese não é inteiramente destituída de
fundamento e outros exemplos ha que a justificam. O nome pelo qual é hoje geralmente conhecida, ainda
nos documentos oficiais, é de Magdalena do Mar, embora o povo, nas suas tendências simplificadoras da
linguagem, lhe chame também Madalena.
A paróquia tirou sua origem dun)a fazenda povoada que ali houve desde os primeiros tempos da
colonização, com uma capela, cujo orago seria Santa Maria Madalena, segundo se vê algures, ahrmando-se
também que a primitiva ermida tinha a invocação de Santa Catarina. Acêrca desta origem, lê-se em vários
antigos nobiliários o que sumariamente se encontra nas notas das Saudades, concebido nos seguintes
termos: «... Henrique Allemão, personagem lendario dos primitivos tempos da colonização desta il ha da
Madeira. Del le se dizia que era principe polaco, e que perdida em 1444 a batalha de Varna por Uladislau IV
contra Amurato II fizera voto de peregrinar a terra e fóra armado cavalleiro de Santa Catharina do Monte
Sinai. Vindo à ilha da Madeira, João Gonsalves Zargo lhe deu, no sitio depois chamado a Magdalena do
Mar, largo terreno de sesmaria, por carta que foi confirmada pelo infante D. Heurique em 29 de Abril de
1457, e por D. Afonso V em 18 de Alaio do mesmo anno. Com effeito. Henrique Allemão ahi fundou grande
fazenda povoada, com capela da invocação de Santa Maria Magdalena, da qual veiu o nome ao logar. Casou
com Senhorinha Annes, e morreu desastradamente esmagado por uma quebrada que do Cabo Gyrão cahiu
sobre o barco em que elle hia da cidade do Funchal para a Magdalena. Sua mulher casou depois com João
Rodrigues de Freitas. Ainda agora ha, acima da villa da Ponta do Sol, a Fajã do Allemão, que o povo
corruptamente denomina do limâo».
Podemos, pois, considerar o polaco Henrique Alemão como o primitivo fundador desta povoação, sendo
também êle quem malldou erigir a primeira capela que ali se levantou. Senhorinha Aues, viúva de Henrique
Alemão, passou a segundas nupcias com João Rodrigues de Freitas fidalgo algarvio, tendo estes instituído
um morgadio, que teve sua sede na referida capela e de que actwalmente são representantes os viscondes de
Geraz do Lima. Um filho do instituidor, também por nome João Rodrigues de Freitas, declara no seu
testamento, feito em 1520, que foi o fundador da capela de Santa Maria Madalena, a qual é portanto de
construção anterior àquele ano. Devemos daqui inferir que Henrique Alemão edificou a ermida primitiva e
que João Rodrigues de Freitas a reconstruiu mais tarde ou fundou de novo a capela de Santa Maria
Madalena sendo então frequente darem-se como instituidores e fundadores de capelas e igrejas indivíduos
que apenas as reedificavam ou nelas faziam obras uotáveis de reparação.
Antes desta localidade ser paróquia autónoma, teve seus capelães privativos, sendo-lhes em 1538 concedido
o direito de poderem administrar os sacramentos aos moradores do lugar e em 1539 o de construirem uma
pia baplismal, a pedido do padroeiro da capela, que era então João Rodrigues, quejulgamos ser o seu
fundador ou um seu próximo descendente.
Esta freguesia foi desmembrada da da Ponta do Sol, sendo constituída paroquia independente pelo bispo D.
Jerónimo Barreto a 1 de Fevereiro de 1582, sendo seu primeiro pároco o padre João Leandro Afonso. 0
alvará régio de 22 de Setembro de 1587 fixou ao pároco o vencimento anual de 20.000 réis, que foi
acrescentado pelo alvará de 10 de Setembro do ano seguinte com meio moio de trigo e um quarto de vinho.
Dois anos depois, por alvará de 15 de Novembro, passou aquele ordenado a ser de 16 000 reis em dinheiro,
um moio de trigo e uma pipa de vinho, tendo um aumento de 3 000 réis anuais pelo alvará régio de g de
Dezembro de 1611. Temos conhecimento de outro alvará, datado de 28 de Julho de 1649, que fixou o
vencimento anual do pároco em 19.000 réis em dinheiro, um moio e meio de trigo e uma pipa e um quarto
de vinho.
No texto de Gaspar Frutuoso, escrito em 1590, encontram-se as seguintes referencias a esta freguesia: «. . .
Magdalena cousa tão singular e nobre pela ermida desta sancta que os moradores ali fizeram, onde se colhe
muito proveito de assucares». Noutro logar das Saudades se lê: «Meya legoa da Villa da Ponta do Sol ao
longo do mar, está a freguesia da Magdalena, de até trinta fogos. Tem um engenho que foi de hum Manuel
Dias, e boa fazenda de boas terras de canas, e muita agoa fresca. Ha nesta freguesia huma ermida de Nossa
Senhora dos Anjos, que, tirando ser pequena, he huma rica casa, com um retábulo pequeno, e fresco, e bem
ornado, junto da qual está uma fresca fonte debaixo de huns seixos, entre huns canaviais de assucar de mui
fermosas canas.»
(Vid. Anjos 1-71)
. Este sitio dos Anjos pertence hoje á freguesia dos Canhas e fez já
parte da paróquia da Ponta do Sol, ignorando nós se ele já porventura teria pertencido à freguesia da
Madalena, como afirma Gaspar Frutuoso.
Havia nesta freguesia a capela de Santa Quiteria, de que hoje apenas resta um montão de escombros. Foi
mandada construir pelo padre João da Silva Alves.
É de notável feracidade o solo desta localidade, que logo nos primeiros tempos da colonização sofreu uma
larga exploração agrícola. Cultivou-se a cana sacarina em larga escala, montando-se sem demora um
engenho para o fabrico de açúcar e tornando-se este lugar um importante centro produtor daquele género.
Ainda hoje são os seus terrenos muito férteis para as chamadas culturas ricas, sendo também notável a
produção da banana destinada à exportação.
Pelo censo de 1920, é de 1093 o numero de habitantes desta freguesia, dispersos pelos sítios do Passo,
Vargem, Lombo, Banda de Além, Palmeira, Torreão, Ribeira da Madalena, Moledos, Achada e Rua.
Tem uma escola oficial do sexo masculino, criada em 1882, e uma mixta, movel, que funciona desde o ano
de 1919 (1921).
As levadas da Ribeira da Madalena, do Nateiro e a Levada Nova irrigam esta freguesia.
Era natural da paroquia da Madalena do Mar o médico-cirurgião António Policarpo dos Passos Sousa, que
durante muitos anos exerceu o cargo de secretario da Câmara Municipal da Ponta do Sol. Segundo o
testemunho dos seus condiscípulos e contemporâneos, era um homem de extraordinário talento, que uma
morte prematura e outras circunstâncias especiais não permitiram manifestar-se com o brilho que muito
seria para desejar. Cultivou com distinção a poesia, deixando várias composições que no tempo foram muito
apreciadas.
Também era natural desta freguesia o padre António João de Lessa, que faleceu no Brasil onde se
distinguiu.
(Vid. este nome)
.
No litoral desta freguesia, desemboca a ribeira da Madalena, que nas alturas em que atravessa a freguesia
dos Canhas sofreu, na sua margem esquerda, um grande desmoronamento de terreno no ano de 1932, que
causou enormes prejuízos e obstruiu em grande parte o leito da mesma ribeira. Essa ocorrência contribuiu
em grande parte para que, no dia 30 de Dezembro de 1939, o caudal da ribeira, com as grandes invernias
que então caíram tomasse as mais assustadoras proporções e arrastasse na sua passagem algumas dezenas
de habitações, desse a morte a várias pessoas e causasse incalculáveis prejuízos, constituindo uma das
maiores calamidades provocadas pelas inundações nesta ilha.
Madeira (A)
Saíram quarenta e três números deste jornal, de 2 de Abril de 1857 a 30 de Janeiro de
1858, sendo seus redactores João de Sant'Ana e Vasconcelos e o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo.
Com o mesmo titulo, se publicou outro jornal, que deu vinte e três números, desde 16 de Junho a 22 de
Setembro de 1894.
A 30 de Abril de 1897, começou a publicar-se um jornal com igual titulo, que suspendeu a 13 de Dezembro
de 1899, tendo saído duzentos e cinquenta e nove números. Foram seus redactores Francisco Gomes de
Gouveia Júnior e padre Fernando A. Silva.
Madeira (Arquipélago da)
A importância deste arquipélago fica posta em conciso mas flagrante
relevo nas seguintes palavras, saídas da pena autorizada do dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, o erudito
anotador das Saudades da Terra: «Tem este arquipélago sido objecto de estudo de sábios naturalistas
estrangeiros e nacionais; é célebre, especialmente a ilha da Madeira, pela uberdade do solo, óptimos vinhos,
arrebatadora belleza da paisagem e salubridade do clima; é históricamente notável, por ser o primeiro dos
descobrimentos portugueses no século XV, e, depois, até o declinar do século XVI, metrópole secular e
eclesiástica dos nossos dominios ultramarinos, emporio da nossa navegação e commercio coloniais, pelo
que nos archivos madeirenses, especialmente no da Câmara Municipal do Funchal, no de Machico, no da
antiga e extinta Junta da Fazenda e no do Governo Civil do Funchal existem preciosos documentos e
noticias, que talvez em outra parte se não encontrem, para a história das instituições e governação das
nossas possessões de além-mar.»
O arquipélago da Madeira compõe-se das ilhas da Madeira
(Vid. Madeira (Ilha da), do Porto
Santo (Vid. este nome)
, do grupo das Desertas (1-357), compreendendo este a
Deserta Grande
(1-356), o Ilhéu Chão (1-269) e o Bugio (1 - 176).
Devido à distancia relativamente pequena a que êste arquipélago se acha do continente europeu e também
ao facto de ser tido como um grupo de «Ilhas Adjacentes» de um país do mesmo continente, não faltaram
geógrafos que consideraram a Madeira como fazendo parte da Europa, mas esta opinião não é hoje seguida
ou adoptada por gualquer autorizado escritor.
A sua posição geográfica tem sido objecto de algumas discordancias, tendo o dr. Alvaro Rodrigues de
Azevedo, depois de um estudo aprofundado do assunto e procedido ao confronto comparativo de várias
cartas, adoptado como mais seguras as seguintes coordenadas geográficas: o arquipélago demora entre os
paralelos 33° 7'50'' e 32° 22'20", de latitude norte, e entre os meridianos 16° 16'30'' e 17° 16' 38'' de
longitude oeste (Greenwich).
Fica este arquipélago situado entre a Europa Ocidental, que lhe defronta por nordeste, a costa marroquina
da Africa Ocidental, que lhe decorre de leste para sueste, o arquipélago dos Açores, por noroeste, e o das
Canárias pelo sul. O ponto mais próximo a que o arquipélago madeirense se acha da costa ocidental de
Marrocos é o Cabo Cantim, que tem sensivelmente a mesma latitude da Madeira e que fica equidistante
cerca de 60 milhas, das cidades de Mazagão, ao norte, e Mogadouro, ao sul. A distancia a que ele se
encontra do continente português é aproximadamente de 500 milhas e 350 do Cabo Cantim, na costa
ocidental africana.
A situação relativa das ilhas da Madeira, Pôrto Santo e o grupo das Desertas apresenta a forma dum
triangulo escaleno, cujo lado mais curto é o canal que se estende entre o Ilhéu de Fora, no extremo leste da
Madeira (Ponta de São Lourenço), e o Prego do Mar ou Ilhéu do Navio, próximo do Ilhéu Chão (Desertas); o
lado imediatamente mais longo é formado pelo canal (Travessa), que vai do citado Ilhéu de Fora (Ponta de
São Lourenço) até o Ilhéu de Baixo ou da Cal (Pôrto Santo); e o lado mais extenso é constituído pelo canal
que se prolonga desde o já referido Ilhéu de Baixo ou da Cal (Pôrto Santo) até o Prego do Mar ou Ilhéu Chão
(Desertas), tendo respectivamente cada canal 11, 27 e 32 milhas, que sào as distancias que a Madeira, o
Porto Santo e o grupo das Desertas guardam entre si.
Os pontos extremos dêste arquipélago são geralmente fixados da seguinte maneira: pelo norte a Rocha do
Nordeste ou Ilhéu de Fora (Pôrto Santo), pelo sul a Ponta da Agulha ou Ponta do Sul, na extremidade sul do
Bugio (Desertas), por leste o Ilhéu de Cima ou dos Dragoeiros (Pôrto Santo) e por oeste a Ponta do Pargo
(Madeira).
São divergentes os cálculos feitos acerca da superfície de todo o arquipélago e em especial de cada uma das
ilhas que o compõem. O dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, que versou este assunto com alguma largueza, no
notável artigo do
Dic. Univ. Port
. Il, diz que alguns autores computam em mais de mil quilómetros
quadrados a área global do arquipélago tendo-se posteriormente admitido que essa superficie se calculava
em torno de 800 quilómetros, e termina por afirmar que os cálculos mais recentes e que julga mais
aproximados da verdade dão a todo o arquipélago uma superfície de 560 quilómetros quadrados, tendo 500
quilómetros a ilha da Madeira, 50 a do Porto Santo e 10 o pequeno grupo das Desertas.
Em vários documentos de carácter oficial e ainda recentemente no «Censo da População», publicado no ano
de 1934 se diz que a superfície da ilha da Madeira é de 740,ka62 quilómetros quadrados e a do Porto Santo
de 42,k217.
O arquipélago da Madeira, afora as cidades de Lisboa e Porto, é a região do nosso país em que é maior a
densidade da população, dando o «Censo» já citado o numero de 270 habitantes por cada quilómetro
quadrado para a época actual. No artigo População, dar-se-á uma noticia desenvolvida, por concelhos e
freguesias, do movimento da população em todo o arquipélago. No entretanto, diremos aqui que o censo a
que se procedeu no ano de 1940 atribui o total de 251.798 habitantes ao nosso arquipélago, sendo 249.097 á
Madeira e 2.701 ao Porto Santo.
O arquipélago da Madeira e o pequeno grupo das Ilhas Selvagens
(V. Selvagens)
constituem o distrito
administrativo do Funchal, que tem por capital a cidade do mesmo nome. (V. os artigos respeitantes ao
distrito, comarca, concelho, cidade e diocese do Funchal, em que se dá sucinta noticia da organização dos
diversos serviços públicos, civis, religiosos e militares, que têm ali as suas sedes).
Em vista dos trabalhos realizados há poucos anos pela «Missão Hidrográfica das Ilhas Adjacentes», vê-se
que os dados referentes à superfície das ilhas deste arquipélago divergem parcialmente dos elementos até
agora conhecidos. As condições especiais em que foram executados esses trabalhos oferecem a mais inteira
confiança e por isso vamos deixar aqui arquivados alguns dos novos dados obtidos por essa «Missão
Hidrográfica», transcrevendo-os do primeiro volume da obra Ilhas de Zargo.
A Ilha da Madeira tem 728 quilómetros quadrados de superfície, a do Porto Santo 49, a Deserta Grande 10,
o Bugio 3 e o Ilhéu Chão 380 metros quadrados.
São da mesma procedência estas informações respeitantes ao perímetro da linha da costa marítima da
Madeira: Da Ponta do Barlavento à Ponta da Cruz 37.200 metros, da Ponta da Cruz à Ponta do Pargo 40
950, da Ponta do Pargo à Ponta do Tristão 7.575, da Ponta do Tristão a Ponta de São Jorge 32.400 e da
Ponta de São Jorge à Ponta do Barlavento 33.225, o que perfaz a totalidade de 151.350 metros. 0 perímetro
da costa da Ilha do Porto Santo é de 37.800 metros, da Deserta Grande de 26.700, do Bugio 17.000 e do
Ilhéu Chão 3.700.
O maior comprimento vem assim indicado: da Ponta de S. Lourenço à Ponta do Pargo, 57.000 metros, e da
Ponta de São Lourenço à Ponta do Tristão 52.650, sendo de 22.900 metros a largura entre as Pontas da
Cruz e de São Jorge. 0 Porto Santo mede 11.600 metros de comprimento e 5.000 de largura, a Deserta
Grande 11 000 de c. e 1.900 de l., o Bugio 7.500 de c. e 700 de l. e o Ilhéu Chão 1.600 de comprimento e 500
de largura.
Madeira (ilha da)
É a maior e a mais importante das ilhas do arquipélago. Fica situada entre 32°
52'8" e 32° 37'25" de latitude norte, e entre 16° 39'30'' e 17° 16'38" de longitude oeste (Greenwich). Dista
vinte e uma e meia milhas do Porto Santo (da Ponta de São Lourenço ao Ilhéu de Baixo ou da Cal) e onze
milhas das Desertas da Ponta de São Lourenço ao Ilhéu Chão). Do porto do Funchal ao ancoradouro da vila
do Porto Santo, vai a distancia de quarenta e meia milhas. Estende-se esta ilha de leste a oeste, e tem uma
«forma tirante a pentagono», que lhe é aproximadamente dada pelas pontas de São Lourenço, a leste, a de
Santa Cruz, ao sul, a do Pargo e a de Tristão, a oeste, e a de São Jorge, ao norte. 0 seu maior comprimento,
na direcção leste-oeste, tendo como limites extremos as pontas de São Lourenço e do Tristão, é de 67
quilometros, e a sua maior largura na direcção norte-sul, tendo como limites extremos as pontas de São
Jorge e da Cruz, é de 28 quilómetros. 0 perímetro da costa conjectura-se que seja aproximadamente de 157
quilómetros e a sua superfície de 500 quilómetros quadrados.
Uma cordilheira elevada, que corre de L. a W., estabelece a divisão da Madeira em duas costas, a meridional
e a setentrional, sendo nessa cordilheira, onde há eminências que vão desde 1000 a 1861 metros, que têm
origem as grandes ribeiras da ilha, as quais trazem de Inverno grandes volumes de agua que não poucas
vezes têm causado estragos no Funchal e noutros pontos do litoral. As vertentes da serrania central são em
geral mais abruptas para o lado norte do que para o do sul, havendo naquele lado apenas dois portos
sofríveis, o do Porto do Moniz e o do Porto da Cruz, enquanto que na costa meridional há varias enseadas e
baías, onde os navios e os barcos podem encontrar abrigo contra os ventos dominantes. Os principais
contrafortes da referida serrania são a Penha de Águia e o Cortado de Santana, na costa do norte, e a Ponta
do Pargo, o Cabo Girão e o Cabo Garajau, na costa do sul.
Os cumes mais altos da região central da Madeira são os picos Ruivo, das Torres, do Canário, do Areeiro, de
Santo António, Grande e das Torrinhas, os quais rodeiam o Curral das Freiras, vasta profundidade
considerada por alguns geólogos como uma cratera, e por outros com um vale de erosão, e as ribeiras mais
notáveis da ilha são a de Machico, a de Santa Cruz, a de S. Pedro a do Porto Novo, a de João Gomes, a de
Santa Luzia, a de S. João, a dos Socorridos, a de Câmara de Lobos, a Ribeira Brava, a da Ponta do Sol, a da
Madalena, a de S. Bartolomeu, a da Janela, a do Seixal, a de S. Vicente, a dos Moinhos, a de S. Jorge e a do
Faial.
Na enseada do Funchal fundeiam os navios em plena segurança com todos os ventos que não sejam os dos
quadrantes desde o S. W. até o S. E. pelo sul, e em volta dela está edificada na falda das montanhas, e em
anfiteatro, a cidade do mesmo nome, capital da ilha e de todo o arquipélago, conhecida desde remota data
pela amenidade do seu clima, pela beleza dos seus arrabaldes, pelas lindas quintas que a ornam e pela
polidez dos seus habitantes.
Tem a ilha da Madeira uma só cidade, que é a do Funchal; seis vilas, que são, começando pelo lado de leste,
as de Machico, Santa Cruz, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Calheta e S. Vicente.
Os pontos do interior da ilha mais dignos de ser visitados pelos soberbos panoramas que deles se
desfrutam, são o Rabaçal, o Monte Medonho, as Fontes da Ribeira do Inferno, a Cumeada de S. Vicente, o
Pico Ruivo, o Pico do Areeiro, a Boca dos Namorados, o Ribeiro Frio, a Ribeira de S. Jorge, Santana, o Pico
da Suna, etc., e no litoral há lugares que também merecem ser vistos, tais como a Piedade, a Ponta de S.
Lourenço, o Garajau, a Praia Formosa, o Fojo, o Cabo Girão, a Foz da Ribeira da Janela, a da Ribeira do
Inferno, a Ribeira de João Delgado, a ermida de S. Vicente, a Entroza, a Ponte de S. Jorge, a Rocha do Navio
e o Pôrto da Cruz. Em muitas ribeiras há belas quedas de agua e de todos os pontos elevados se admiram
vistas extensas e variadas, de uma beleza inexcedivel.
O Paul da Serra é a unica planície de uma certa extensão que aparece na Madeira, sendo porém um lugar
inóspito durante o inverno, devido à violência com que aí se desencadeiam as tempestades.
As estradas madeirenses são muitas vezes péssimas, e nalgumas o anglo de inclinação é tal que só com
grande esforço se pode transitar por elas. O viajante pode visitar quasi todos os pontos dos arrebaldes do
Funchal, servindo-se dos carros puxados por bois, mas para alcançar certos pontos do interior e subir ás
fragosas eminências que formam uma boa parte da ilha, necessário é recorrer ao cavalo ou a rede, sendo
êste ultimo meio de transporte o mais adequado a certo género de viagens. (1921).
O Funchal está ligado ao Terreiro da Luta, acima da igreja do Monte, por um elevador ou caminho de ferro
de cremalheira (1921), e a Machico e à Ribeira Brava vai-se hoje com bastante comodidade, visto as estradas
permitirem o transito de automóveis. A Cumeada de S. Vicente, ponto do interior donde se desfrutam vistas
surpreendentes tanto para o norte como para o sul da ilha, pode desde 1916 ser visitada em automóvel,
estando já começadas outras estradas destinadas a facilitar aos turistas o conhecimento das belezas naturais
da nossa terra.
Nos últimos anos têm as estradas tido um grande desenvolvimento como se verá no artigo «Viação».
A Madeira produz vinha, cana sacarina, cereais, batatas, semilhas, cebolas, varias cucurbitaceas e
leguminosas uteis, linho, sorgo, etc., e a sua flora é riquíssima, vendo-se nas quintas e jardins plantas de
quasi todas as regiões do globo, vegetando tão bem como no seu país natal. Além de todas as arvores de
fruto europeias, aparecem na ilha as anoneiras, as bananeiras, as goiabeiras, as papaias, os maracujás e
outras espécies originarias dos países quentes.
A foca ou lobo marinho e dois morcegos são os únicos mamíferos que parecem ser indigenas, mas as aves, e
principalmente os moluscos e insectos, acham-se representados na ilha por grande numero de especies. Os
mares madeirenses fornecem grande numero de especies de peixes, algumas delas de carne muito saborosa,
e a tartaruga não é rara, se bem que os seus ovos não tenham nunca sido achados na Madeira ou no Porto
Santo.
Não existem na ilha minas de metais e depósitos de enxofre, mas as pirites de ferro e o ferro especular têm
sido achados em pequenas quantidades perto da Ponta do Sol, e em Santo António e noutras localidades
encontram-se aguas mais ou menos ricas em carbonato de ferro. Em S. Vicente, encontra-se a pedra
calcarea e em S. Jorge existe um deposito de lignite bastante impura.
As chuvas são pouco abundantes na estação quente, e anos há em que não cai uma única gota de agua na
região baixa da Madeira durante os meses de Julho e Agosto. Para remediar esta falta, construíram-se
numerosos canais ou levadas
(V. êste nome)
que conduzem a varias localidades as aguas do interior,
sendo graças às irrigações, que se praticam aqui desde tempos antiquíssimos, que certas culturas se
mantêm não só durante o estio, mas noutras épocas em que as chuvas faltam ou são pouco copiosas. Há
levadas construídas pelo Estado, e levadas construídas por particulares, sendo estas em muito maior
numero do que aquelas.
A Madeira exporta os seus excelentes vinhos, obras de vimes, bordados, cebolas, manteiga, açúcar, etc., e
importa cereais, tecidos, azeite, petróleo, sal, géneros de mercearia etc.. Entre as industrias madeirenses,
são dignas de referencia especial a dos bordados, a do fabrico do açúcar e aguardente, a da manteiga, a das
conservas do atum, a dos tecidos de palha para chapéus de diferentes qualidades e a das obras de verga.
Os primeiros povoadores da Madeira foram os donatarios e as pessoas que os acompanharam. Refere
Frutuoso que, quando se tratou de povoar a ilha, o Rei «mandou dar os homecidas que houvesse pelas
cadêas do Reyno, dos quais João Gonçalves Zargo nao quiz levar nenhuns dos culpados por causa da fee, ou
treição, ou por ladrão; das outras culpas homisios levou todos os que houve, e foram delle bem tratados; e
da outra gente, os que por sua vontade queriam buscar vida e ventura, foram muitos, os mais delles do
Algarve».
Mas, se é certo que vieram de Portugal, e em especial do Algarve, as primeiras pessoas que colonizaram as
terras do arquipélago, não é menos certo que a este núcleo de povoadores se juntaram sucessivamente
variados elementos provenientes de outras partes. O comercio dos açucares e depois o dos vinhos atraíram
à Madeira numerosos estrangeiros, desejosos de fazer fortuna, ao mesmo tempo que muitos cativos mouros
e escravos negros e canários eram transportados para esta ilha afim de arrotearem as terras e serem
empregados noutros serviços.
Por 1486, havia na Madeira muitos estrangeiros que se tinham tornado cultivadores e fabricantes de açúcar,
pelo que foram por duas vezes mandados sair da ilha e depois readmitidos, e quando em 1590 Frutuoso
escreveu as Saudades da Terra, existiam no Funchal muitas famílias inglesas e flamengas, que exerciam o
seu negocio na rua dos Mercadores. A colónia flamenga, importante ainda nos princípios do século XVII,
desapareceu mais tarde ou fundiu-se com a população madeirense, ao passo que a colónia inglesa se
manteve e aumentou mesmo desde 1640, chegando a adquirir no século XIX verdadeira preponderância no
comercio da ilha.
0 domínio castelhano, que se dilatou por espaço de 60 anos, trouxe á Madeira grande numero de espanhóis,
e quando as tropas inglesas se retiraram desta ilha depois de a terem ocupado de 1801 a 1802 e de 1807 a
1814, deixaram estabelecidas aqui algumas famílias.
Do que fica dito, vê-se pois que a população da Madeira está muito longe de ser homogénea. Os
cruzamentos em diversas proporções e em diversas direcções realizados durante mais de 4 séculos
modificaram um tanto o tipo primitivo dominante, dando origem a desvios que se não harmonizam muitas
vezes com a situação geográfica da ilha.
É em ocasiões de arraiais e de procissões que melhor se observam os vestígios que deixaram na população
madeirense os vários elementos que se estabeleceram nesta ilha desde o meado do século XV. As peles
brancas, os cabelos loiros e os olhos azuis, próprios das raças do norte da Europa, não são raros entre as
mulheres, e pode-se dizer que 20 a 30 por cento das crianças são loiras até á idade de 6 a 8 anos. Os homens
são em regra mais ou menos morenos, mas observa-se algumas vezes entre eles o tipo loiro, se bem que com
muito menor frequência do que entre as mulheres.
0 tipo berbere caracterizado pela cor trigueira, especialmente no homem, pelo nariz um tanto curvo e pelos
cabelos negros e corredios, aparece já um tanto modificado nalguns pontos da costa de leste, sendo natural
que proceda principalmente dos antigos mouros que habitaram a ilha. «A cidade do Funchal, diz o dr.
Azevedo nas notas ás Saudades da Terra, teve a sua mouraria, e é tradição que na freguesia da Ponta do Sol
viveram muitos mouros».
É de crer que a vinda de muitas famílias castelhanas para a Madeira durante o domínio filipino influísse
algum tanto na propagação do tipo berbere na ilha; no entretanto não foi da Espanha, onde ele é comum,
mas de Marrocos, que primeiro nos veio êsse tipo, tão fácil de reconhecer ainda entre a população de certas
localidades madeirenses.
Nos livros paroquiais do século XVIII, encontram-se muitos termos de baptismos, casamentos e óbitos de
escravos negros, e, na narrativa da segunda viagem do capitão Cook, lê-se que havia na Madeira em 1772
um numero prodigioso de negros e de mulatos, uns livres, outros escravos. 0 dr. Azevedo, que escreveu em
1870 as notas às Saudades da Terra, diz que abundavam nessa epoca os mestiços da raça africana
«mormente no Curral das Freiras e no norte da ilha».
Certos indivíduos pertencentes principalmente ás classes baixas da sociedade, revelam ainda no
encarapinhado dos cabelos, na forma do nariz e na côr da esclerótica e as vezes da pele, as suas afinidades
com a raça etiopica, mas estas afinidades tendem a desaparecer mercê dos cruzamentos, podendo mesmo
afirmar-se que não existem já num grande numero de localidades da ilha.
Os habitantes dos campos da Madeira são em regra de constituição vigorosa e suportam sem se ressentir as
maiores fadigas. 0 temperamento sanguíneo é vulgar entre eles, ao passo que na cidade predomina o
temperamento bilioso-sangüineo, com um mixto mais ou menos pronunciado umas vezes de linfático,
outras de nervoso.
«Os grandes roubos e assassinios, diz o Dr. Barral são raros na Madeira; a mendicidade estudada,
organisada, imoral e caluniadora das grandes cidades ainda ali não existe; e um grande numero de
habitantes da ilha não chega a ter uma idea dos extraordinários crimes que se cometem hoje na Europa, em
plena civilisação».
O dr. Hans Sloane que visitou a Madeira nos princípios do século XVIII, conta que todos os negociantes
andavam armados e que nenhum deles ousava sair de noite com receio de ser ferido ou morto. Diz ainda o
mesmo médico que para fazer desaparecer um inimigo bastava dar uma pequena moeda a um negro, e que
em certa ocasião tratou de um sacerdote que fora ferido de noite por ter sido tornado por outra pessoa a
quem pretendiam matar.
Não sabemos se há exagero no que refere o dr. Sloane; o que sabemos é que os crimes de morte são hoje
raríssimos na Madeira e que a qualquer hora da noite se pode percorrer sem grande risco as ruas do
Funchal e subúrbios, apesar da policia ser insuficiente para velar pela segurança dos cidadãos. Todos os
escritores modernos fazem justiça ao povo da Madeira, considerando-o como um dos mais ordeiros e
generosos do mundo.
Num trabalho intitulado
Breve e verdadeira dlemonstraçâo dos principigos e progressos do governo que
João António de Sá Pereira fez na ilha da Madeira,
lê-se que havia desde antigos tempos o costume das
mulheres que estavam para contrair matrimónio fugirem das casas paternas para se unirem aos seus
namorados, e que no dia imediato «os futuros noivos se vestiam com aceio para irem a casa dos seus amigos
participar que F. tinha sahido da casa dos seus pais para casar.» Lê-se mais no referido trabalho que esta
pratica «era vulgar, com poucas excepções, entre a nobresa» e que quando se presumia que fulano queria
casar com fulana, se tratava quando seria a noite da fugida ou do furto».
O governador João António de Sá Pereira, o Pombal Madeirense, como lhe chama o Dr. Álvaro Rodrigues
de Azevedo, procurou por termo a estes e muitos outros abusos que se praticavam na ilha, e por isso ao
retirar-se para Lisboa, a 10 de Junho de 1777, se iluminaram muitas casas e foram queimados muitos fogos
de artificio, tendo êle assistido a todas estas manifestações de regozijo, em razão do navio em que devia
seguir viagem não ter podido por falta de vento sair imediatamente do pôrto do Funchal.
O velho habito, há muito desaparecido da ilha, das donzelas fugirem da casa paterna antes do dia do
casamento, mostra-nos que é erro supor que entre os nossos antepassados predominava sempre a
simplicidade de costumes. As práticas e usos condenáveis são de todos os tempos, e, se uma parte da
geração actual apresenta indícios claros de corrupção, é preciso convir todavia que certas praxes sociais são
hoje mais acatadas do que em tempos antigos.
A gente do povo na Madeira, bem inclinada quási sempre, vive hoje geralmente despreocupada e feliz. O
exercício de qualquer ramo de industria ou de comercio deixa actualmente lucros considerareis, e a elevação
dos salários e a valorização dos produtos da terra trouxeram ás classes operarias e aos agricultores uma
independência e bem estar que não usufruíam noutras epocas. Este estado de cousas não afectou porém de
modo sensível os costumes singelos das populações campesinas, cujas aspirações continuam a ser as
mesmas dos seus antepassados, e é somente na cidade e proximidades que se observam por vezes nas
classes trabalhadoras hábitos perdulários e uma certa tendência para o gozo, que certamente não existiam
ainda há bem poucos anos.
A ilha da Madeira é incontestavelmente uma das mais importantes colónias portuguesas. Notável pela
uberdade do seu solo, pelos seus óptimos vinhos, pela suavidade do seu clima e pelas belezas naturais de
que é dotada, ela é conhecida de há muito como um país privilegiado, graças às excelentes descrições que a
seu respeito têm publicado muitos estrangeiros.
Muito há, porém, a fazer ainda para que esta ilha se torne aquilo que pode e deve ser. Se a natureza foi
prodiga para com ela, revestindo-a de encantos que poderão ser igualados, mas não excedidos, nem sempre
tais encantos se patenteiam aos olhos do estrangeiro ávido de impressões, em consequência do atraso em
que se acha a nossa viação.
A construção de boas estradas onde possam transitar automóveis e destinadas a ligar o Funchal aos pontos
mais afamados pela sua beleza ou pelas soberbas paisagens que dele, se desfrutam, é uma necessidade que
se impões se quisermos tirar da vinda dos estrangeiros a esta ilha todo o proveito que ela é susceptível de
dar. Se amanhã os turistas puderem visitar tão comodamente o Rabaçal, o Fanal, o Paul da Serra, o Ribeiro
Frio e o Santo da Serra, como visitam hoje o Monte e outros pontos dos arredores da cidade, teremos
dotado a ilha com um grande melhoramento e assegurado aos seus habitantes um futuro cheio das mais
largas prosperidades (1921).
Neste artigo
Madeira
(da 1.ª ed.), estão sumariamente expostos alguns dados e informações de carácter
genérico, procurando-se, nos artigos subordinados ao mesmo título e que vão seguir-se, fornecer mais
circunstanciados elementos acerca de todos os assuntos que ficam indicados.
Tem por capital e centro de todo o seu movimento a cidade do Funchal, da qual já nos ocupámos com
alguma largueza a paginas 59-68 deste volume.
Madeira (Administração Pública na)
Além de outros artigos, vid. os seguintes:
Administração Civil
–Autonomia Administrativa, Autoridades Superiores, Capitanias Colonia,
Doações, Donatários, Governadores, Juntas Gerais, Ordem de Cristo, Organisação Administrativa,
Povoamento, Colonização, Representação em Côrtes, e Sesmaria
;
Administração Eclesiástica
–Arcebispado, Bispos e nome de cada prelado, Cabido, Colegiadas,
Constituições do Bispo, Conventos, Diocese, Freguesias, Jesuitas, Mosteiro Novo, Ordem de Cristo e
Ordem Seráfica
;
Administração Fiscal–Alfandegas, Contribuições, Junta da Fasenda, Organização Fiscal e Receitas e
Despesas;
Administração Judicial
–administração Judicial, Alçadas, Conservatórias do Registo Predial,
Donatários, Juizes, Organização Judicial e Policia;
Administração Militar
–Carreira de Tiro, Comandantes militares, Donatários, Fortificações,
Guarnição Militar, Guerra (Grande), Milicia, Ocupações, Organização Militar, Policia, Soldado
Desconhecido e Surprise
;
Administração Municipal
–Anais do Municipio, Camaras Municipais, Capitanias, Concelhos, Forais,
Municipios e Organização Administrativa
;
Administração Paroquial Freguesias, Juntas de Paroquia e Organização Administrativa.
Madeira (Antropologia)
Como se sabe, a «antropologia», em seu significado etimológico e no seu
sentido mais genérico, é o estudo do homem ou da humanidade, mas comummente toma-se este termo para
designar o estudo dos caracteres físicos do homem e das leis das suas principais variações. Aplicado esse
estudo particularmente a uma região, entram como factores essenciais as raças predominantes no primitivo
povoamento e as suas origens, o contacto com outros povos através do tempo, a situação geográfica, os
aspectos orográficos e hidrográficos, a paisagem, o clima, a produtividade do solo, as condições sociais e
económicas, os usos e costumes locais etc etc., além das variadas circunstancias de carácter psicológico,
etnologico e religioso estrictamente mesológicas, que são também de valioso e indispensável auxilio para
êsse estudo.
Um trabalho dessa natureza, que exige uma preparação especial e largo conhecimento do meio ambiente,
está inteiramente por fazer com respeito à Madeira, existindo no entretanto alguns elementos dispersos,
que podem ser vantajosamente aproveitados para esse fim, devendo mencionar-se como principais os
primeiros capítulos do segundo volume da apreciada obra «Ilhas de Zargo» e as informações dispersas nas
páginas das Saudades da Terra e nas suas eruditas anotações.
No decurso deste «Elucidário» e especialmente no artigo Madeira
(Ilha da)
, encontram-se disseminadas
varias notas não despiciendas para a elaboração desse estudo, e também nos artigos
Colonia (Contrato de),
Costumes Antigos, Crenças Populares, Escravos, Estrangeiros, Indumentária, Influências Etnológicas,
Instituiçoes Vinculares, Mouros, Povoameto, «Rambles in Madeira», Romarias
e
Vilâo
.
Madeira (As artes na)
Para êste assunto, encontram-se alguns elementos nos artigos Monumentos,
Museus, Musica, Teatros, Património Artístico e especialmente nos valiosos trabalhos do dr. Manuel de
Almeida Cayola Zagalo intitulados «Museu de Arte no Funchal» e «A Pintura dos Séculos XV e XVI da Ilha
da Madeira», «As Ilhas de Zargo» e o «Arquivo Historico da Madeira».
Madeira (Aspectos Hidrográficos: Baias, Enseadas, Portos e Praias da)
Como já
deixámos dito a páginas 116 deste volume, não sendo fácil estabelecer-se uma rigorosa diferença de
significado entre os termos «baía» e «enseada», ao referirmo-nos às reentrancias que se encontram ao
longo da costa maritima, consideramos como «baías» as do Funchal
(pág. 66 deste volume)
e Porto
Santo
(vid. este nome)
.
São estas as pequenas enseadas da Madeira: Abra, Machico. Garajau, Camara de Lôbos, Lugar de Baixo,
Santa Cruz, Reis Magos, e Porto do Moniz
(Vid. estes nomes)
.
Os portos da Madeira, segundo se lê em uma informação de caracter oficial, consideravam-se até há pouco
como bons o do Funchal (Vid.
Funchal (Baía do
) e Porto do Funchal) e o do sul da ilha do Porto Santo (Vid.
este nome), sendo tidos como sofriveis os da Abra, Machico, Santa Cruz, Camara de Lôbos, Ribeira Brava,
Ponta do Sol, Pôrto do Moniz e Porto da Cruz, e maus os do Caniçal, Porto Novo, Reis Magos, Oliveira,
Campanário, Lugar de Baixo, Madalena do Mar, Anjos, Fajã do Mar, Calheta, Jardim do Mar, Paul do Mar,
Pesqueiro, Seixal, Fajã da Areia, Ponta Delgada, Boaventura, São Jorge e Faial. Os portos das freguesias do
Porto do Moniz e Porto da Cruz são considerados como bons desembarcadouros, quando sopram os ventos
do quadrante sul, não sendo então permitido qualquer tráfego em toda a costa meridional da Madeira, o
que aliás sucede poucas vezes em cada ano. Nos últimos trinta anos, as condições dos portos destas
localidades melhoraram consideravelmente com a construção de pequenos cais e desembarcadouros e com
os trabalhos de acrescentamento e reparação realizados nos já existentes (V. cada um dos nomes acima
indicados).
A este assunto interessa bastante o artigo
Distâncias Marítimas
, inserto a páginas 367 do vol. I, que
apresenta uma tabela do numero de milhas a que os diversos portos da Madeira se encontram distanciados
uns dos outros.
Já disse alguém que na Madeira não havia praias, talvez pela circunstancia de não serem de areia e terem
uma limitada extensão. Com efeito as desta ilha, exceptuando a da Prainha no Caniçal, são formadas de
pequenas pedras ou calhaus rolados e de escuro basalto, tendo todas elas um aspecto sombrio e um piso
difícil e incomodo. Em compensação, possui a vizinha ilha do Porto Santo uma das mais belas e extensas
praias de todo o país. As principais praias da Madeira, algumas delas de extensão muito limitada, são as
seguintes: Prainha, Caniçal, Machico, Seixo, Santa Cruz, Porto Novo, Reis Magos, Funchal, Formosa (V.
estes nomes), Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Lugar de Baixo, Madalena do Mar, Calheta e Paul do Mar,
na costa meridional, e as do Porto do Moniz, São Vicente, Fajã da Areia, Ponta Delgada, São Jorge e Porto
da Cruz na costa setentrional. (Vid. estes nomes, sob a designação de «Portos» ou «Praias», e ainda o artigo
Portos).
Madeira (Aspectos Hidrograficos: Baixas e Ilhéus)
Vid. artigo Ilhéus
a pág. 138 e cada
um dos nomes ali mencionados.
Os recifes ou baixios que nas proximidades do litoral afloram a superfície do oceano ou que ainda na baixa-
mar se encontram a pequena profundidade são geralmente conhecidos na Madeira pelo nome de Baixas.
Merecem ser mencionadas a de Aguagem, situada ao sul do Ilhéu dos Desembarcadouros, próximo da Ponta
de São Lourenço, a de Atanásio, Badajeira, Barbeiros, Bispo, na costa marítima de Câmara de Lobos,
Carneiro, Cesto, nas proximidades do litoral do Jardim do Mar, Conceição, Cotrim, no Porto Santo, Furado
ou do Nariz, Galé, Galeão, Guincho, Junqueira, Larga, Leão, Marinheiros, Neta, Raiz, São Pedro, Três
Irmãs, Machico e Pôrto do Moniz (Vid. estes nomes).
Madeira (Aspectos Hidrograficos: Ribeiras)
Estes aquedutos naturais, que correm
geralmente nos leitos de profundos e apertados vales, são bastante numerosos nesta ilha e de caudais muito
abundantes na quadra invernosa. Nascem nas faldas da cordilheira central e vão lançar-se no oceano, tendo
algumas delas correntes subsidiárias, que lhes aumentam o volume e a rapidez do seu curso. «Todas, no
inverno, diz o ilustre anotador das Saudades, trazem água abundante, frequentemente torrencial: enchem
então, e, por vezes, transbordam, arrastando das montanhas milhares de toneladas de penedos mais ou
menos grossos, muitos tamanhos, que depois, só em pedaços podem ser removidos, e todos, rolando na
torrente uns de encontro aos outros, produzem no choque sinistro ruído, até que, obstruindo os leitos das
mesmas ribeiras, os tornam sobranceiros aos terrenos marginais, e estes, quando obstruídos, não ficam, são
arrastados pelas águas transviadas a muita distancia, mar dentro, desfeitos em lodo; no verão porém, os
veios de água tornam-se-lhes escassos, e chegam em algumas ribeiras a secar, em consequência dos desvios
já para regas marginais, já para as levadas, que, tomando aí as águas correntes, as transportam a fertilizar
remotas culturas em toda a superfície do litoral da ilha». Estas ribeiras transformam-se de quando em
quando em caudalosas correntes, que, saindo dos seus leitos e invadindo as margens que as ladeiam,
arrastam violentamente grandes extensões de terrenos cultivados, currais e até casas de habitação,
causando, por vezes, consideráveis prejuízos pessoais e materiais aos moradores das suas vizinhanças.
No artigo Ribeiras, daremos uma relação circunstanciada das ribeiras desta ilha com a designação dos
lugares da sua origem, foz e percurso, indicando também as suas torrentes tributárias e respectivos pontos
de confluência.
Vide Quedas de Água.
Madeira (Aspectos orográficos: Encostas, Planaltos e Vales)
O inverosímil acidentado do
solo madeirense e a caprichosa e variada configuração orográfica da sua forma merecia uma larga e
minuciosa descrição, que a falta de espaço e de seguros elementos não permite fazer, limitando-nos a uma
enumeração sumaria das principais elevações montanhosas e suas altitudes, das pontas, vertentes e
encostas, dos vales, planaltos, profundidades, etc., que se encontram espalhados nos 500 quilómetros
quadrados de superfície de toda esta ilha.
«É ela constituida, diz-se no já citado
Dicionário Universal Portuguez Ilustrado
, por uma elevada serrania
de mil e duzentos a mil e novecentos metros de altura, do dorso da qual sobre saem alguns picos e que vai
de leste a oeste desde a Ponta de São Lourenço até bifurcar-se afinal, prolongando-se para noroeste sobre o
Porto do Moniz a formar a Ponta do Tristão e lançando um ramal de menor vulto para sudoeste, cujo
extremo é a Ponta do Pargo: esta serrania longitudinal, descendo com suas faldas e alguns ramaes
secundários por norte, por oeste e por sul em toda a sua extensão até o mar, divide a ilha em três grandes
regiões, a saber: a do norte, desde a Ponta de São Lourenço, até à do Tristão; a de oeste, desde a do Tristão
até à do Pargo, que abrange o território adentro da mencionada bifurcação; e a do sul, que decorre desde a
Ponta do Pargo até á de S. Lourenço: mas, como a região de oeste pende para noroeste e já está em muito
sob a acção do quadrante do norte, os marítimos, e, com estes os Madeirenses em geral, só distinguem duas
regiões, uma, a que chamam Costa do Sul, que é a supra demarcada para este lado, e outra a Costa do Norte,
que compreende a do norte e a de oeste referidas» (Acerca destas costas», veja-se o que fica referido a pág.
324 do vol. I).
Como ficou dito, a cordilheira que, com altas eminências e sem solução de continuidade atravessa
longitudinalmente a Madeira de leste a oeste, estabelece bem distintamente as duas costas setentrional e
meridional, erguendo-se no dorso dessa cordilheira muitos picos de acentuada altura entre os quais se
destacam o Pico Ruivo, de todos o mais elevado, o do Cidrão, Torrinhas, Canário e Arieiro. Mencionaremos
os mais conhecidos, além dos que ficam citados: Pico do Castanho, Pico da Maia, Pico do Arco de São Jorge,
Pico das Torres, Pico da Neve, Pico do Poiso, Pico da Lagoa, Pico de Santo António, Pico do Arrebentão,
Pico do Infante, Pico Grande, Pico dos Bodes, Pico da Urze, Pico do Gato, Pico da Amendoeira, Pico
Queimado, Pico da Suna, etc.. Como ramificações dos montes e picos da cordilheira central, destacam-se
ainda muitas outras eminências, que por vezes se estendem até as regiões do litoral. Entre estas eminências
mencionaremos as do Pico dos Barcelos, Pico da Cruz, Pico do Cardo, Pico; dos Eirós, Pico do Facho, Pico
das Favas, Pico da Cruz, Pico da Relva, etc. (V. cada um dos nomes que ficam indicados).
Para maior esclarecimento, devemos chamar a atenção do leitor para a desenvolvida noticia que se encontra
a pág. 52 e ss. do vol. I, em que se faz menção das - «altitudes» de um numero avultado de elevações
montanhosas e de outros pontos dignos de serem especialmente conhecidos. A êste assunto, oferecem
particular interesse os dados fornecidos pela Missão Hidrográfica das Ilhas Adjacentes e que vêm insertos a
pág. 95 do vol. I da apreciada obra «Ilhas de Zargo».
A única extensão de terreno que no solo acidentadíssimo da Madeira merece o nome de planalto é o do Paul
da Serra
(V. este nome)
. No entretanto, chamam-se comummente planaltos as pouco extensas planicies
do Santo da Serra (V. Lagoa) na freguesia do mesmo nome, a Achada de Santana, na freguesia de Santana, e
a das Achadas, na freguesia das Achadas da Cruz.
As principais pontas ou saliências da costa marítima desta ilha são as seguintes: a de São Lourenço, a de
maior extensão, que tem várias pontas secundárias com os nomes de Furado Abra, Dedais, Rosto, etc.,
Ponta da Queimada, Ponta de Santa Catarina, Ponta do Guindaste, Ponta da Atalaia, Ponta da Oliveira,
Ponta do Garajau, Ponta da Cruz, Ponta da Agua, Ponta do Sol, Ponta da Galé, Ponta do Jardim, Ponta da
Fajã da Ovelha, Ponta do Pargo, Ponta do Tristão, Ponta do Porto do Moniz, Ponta Delgada, Ponta de São
Jorge, Ponta de Santana, Ponta do Cortado e Ponta de Larano (V. cada um destes nomes).
O solo montanhoso e acidentadíssimo desta ilha determina a formação de muitos vales, alguns de notável
profundidade, mas que em geral atingem uma extensão bastante limitada. Os principais são o do Funchal,
especialmente no sitio chamado o Val Formoso; o de Machico, que da praia da vila do mesmo nome se
estende entre as margens da respectiva ribeira; o do Jardim da Serra no extremo norte da freguesia do
Estreito de Câmara de Lobos; o de São Vicente, situado na bacia hidrográfica da ribeira do mesmo nome
incluindo a vila e suas imediações; o da Penha de Aguia, que torneja a rocha deste nome
(V. Penha de
Aguia)
, o da Metade, proximo do Ribeiro Frio; o da Ribeira da Janela, entre as margens da ribeira deste
nome.
(Vid. Vales).
Relacionam-se com este assunto os artigos
Fajãs e Quebradas.
Madeira (Calamidades Públicas)
Os seguintes artigos dão uma rápida notícia das maiores
calamidades que têm afligido este arquipélago:Aluviões, Cólera, Epidemias, Filoxera, Fome, Peste, Saque
dos Huguenotes Terramoto de 1748 .
Madeira (Clima da)
Vid
. Clima, Granizo, Inverno no Funchal, Leste e Postos Mfetereológicos
. No
artigo
Clima
estão indicados os autores de diversas publicações acerca do clima desta ilha, devendo aqui
mencionar-se o mais recente e o mais completo estudo sobre êste assunto, intitulado « Le Climat de
Madère» pelo almirante Hugo de Lacerda e editado em 1936 pela Junta Geral do Distrito e do qual se fêz
uma tradução na lingua inglêsa com o titulo de «The Climate of Madeira», publicada no ano de 1938.
Madeira (Colonização da)
Vid. Capitanias, Descobrimento, Habitações Primitivas,
Donatários, Povoamento e Colonização , além de outros artigos.
Madeira (Corografia da)
Vid. Madeira (Aspectos Hidrográficos), Madeira
(Aspectos Orográficos) e Corografia(1-316).
Madeira (Descobrimento da)
Vid.Descobrimento do Arquipélago .
Madeira (Epigrafia)
Vid.Lápides .
Madeira (Fauna da Madeira)
Vid.Fauna .
Madeira (Flora da)
Vid.Flora.
Madeira (Florestas da)
Vid.Arborização, Incêndios, Matas, Revestimento Florestal, ServiçosFlorestais.
Madeira (Freguesias da)
Vid.Freguesias, Organização Administrativa e os nomes de tôdas as
paroquias ali indicadas.
Madeira (Geodesia)
Vid.Geodesia, Cartas Geográficas ePlantas da Cidade .
Madeira (Geologia)
Vid.Geologia .
Madeira (Hidrografia da Madeira)
). Vid.Aspectos Hidrográficos .
Madeira (História da)
Existem muitos e valiosos elementos dispersos em várias obras impressas e
algumas inéditas, além da documentação registada nos arquivos públicos, que forneceriam os materiais
indispensáveis para a elaboração de um breve estudo histórico acerca do arquipélago madeirense, que, em
resumido quadro e numa síntese de conjunto, nos desse uma noticia das principais fases da sua já longa
vida activa de cinco séculos, desde o inicio do primitivo povoamento até à época que vai decorrendo. Em
pouco mais de uma centena de páginas, se traçaria esse interessante esboço, que está inteiramente por
fazer, sendo bastante para sentir que ainda não tivesse aparecido quem diligenciasse realizá-lo.
Deixámos já esboçado com mais largueza este assunto, no
artigo História Madeirense
, a pág. 124- 127 deste
volume, para o qual remetemos o leitor. Tem ainda uma próxima afinidade com esta matéria os artigos
Bibliografia
e
Elementos
para a História Madeirense, insertos a pág. 143 e 386 do vol. 1 desta obra, Madeira
na Torre do Tombo, além de muitos outros artigos.
Madeira (Indústrias da)
Dos artigos dispersos em toda esta obra acêrca das indústrias
madeirenses, damos uma resumida nota, que facilitará a procura dos elementos que mais de perto possam
interessar a cada uma dessas mesmas industrias. Além do artigo Industrias (a pág 145 e ss.) vejam-se os
seguintes:
Agrícola
(Indústria)
– Aguas, Colonia (contrato de), Filoxera, Gados, Junta Agricola, Levadas,
Mangra, Matas, Mildio, Prados, Região Agricola, Regimen Cerealifero, Sesmarias
e
Sociedade Agrícola;
Bordados
(Indústria dos)
– Vid
. Bordados e Industria dos Bordados;
Lacticínios
(Indústria dos)
– Vid.
Gados, Industria dos Lacticinios, Lacticinios
e
Manteiga,
Obra de Vimes (Indústria da)
– Vid. Camacha, Industria da Obra de Vimes e Vimieiro;
Pecuária (Indústria)
– Vid. Gados, Indústrsa Pecuária e Prados;
Pescatória (Indústria)
– Indústria Piscatória, Pescaria, Portos e Redes de Pesca;
Sacarina (Indústria)
– Vid. Açúcar, Alcool, Cana Sacarina, Companhia Fabril de Açúcar, Engenhos,
Industria Sacarina, Proteccionismo Sacarino e Questão Hinton;
Salinas (Indústria de)
– Vid. Salinas;
Vinícola (Indústria)
– Vid. Estufas, Industria Vinicola, Vinhas e Vinhos;
Industrias (Pequenas)
– Vid. Industrias e o livro Pequenas Industrias da Madeira da autoria do
tenente-coronel Alberto Artur Sarmento e que compreende os seguintes capítulos: Plantas Texteis, Linho,
Papel, Oleos Vegetais, Azeite de Loiro, Velho sabão, Tintas e Tinturarias, Amoreira e Bicho de Sêda, Barro e
Olarias, Mel, Cera e Mel, Arte, Doces e Embutidos.
Madeira (Instrução na)
(Instrução na)Vid.Academias, Aulas Secundárias, Cancioneiro de Garcia de Resende,
Instrução, Liceu, Literatura, Romanceiro eSeminário .
Madeira (Origem do nome de)
Falando da descoberta, diz Gaspar Frutuoso: «... á qual
chamaram da Madeira por causa do grande e espesso arvoredo de que era coberta...«. Infere-se desta
narrativa que foram os próprios descobridores que, à ilha desconhecida a que aportaram, deram o nome de
Madeira. Noutro logar diz o mesmo Frutuoso: «0 infante vendo as mostras e ouvindo a relação que da ilha
elles lhes deram, lhe poz o nome, que agora tem, de ilha da Madeira...» Deve, por certo, entender-se que o
infante D. Henrique se limitou a confirmar o nome com que os primitivos navegadores denominaram a
terra que tinham descoberto. Em outra passagem das Saudades se afirma expressamente que foi o
descobridor João Gonçalves Zargo que a esta ilha chamou Madeira: «a que o dito capitam poz nome da
Madeira». E ainda mais terminantemente o diz em outro logar da obra citada: «..lhe poz o nome assi o
felicissimo capitam primeiro della João Gonsalves Zargo, por causa do muito expesso e grande arvoredo de
que era coberta, e ser toda cheya de infinidade de madeira ».
Ao contrario do que sucedeu com outras ilhas e terras descobertas, nunca foram esta ilha e arquipelago
conhecidos por outro nome além daquele que primitivamente tiveram. É certo que o dr. Gaspar Frutuoso
afirma «que por ser assi mui fragosa dizem que seu nome era ou devia ser ilha das Pedras», mas desta
maneira enfatica de dizer do historiador das ilhas se conclui que ele não quisera asseverar ter tido esta ilha
aquêle nome. E além desta passageira referencia de Frutuoso, que não chega a ser uma afirmação, não se
conhece em quaisquer outros escritos antigos ou modernos aquela denominação para designar a ilha ou
arquipélago da Madeira.
Ouçamos uma pregunta de Pinheiro Chagas: «Era esse nome que mais naturalmente lhe ocorreria? Quando
o termo madeira designa especialmente os troncos de arvores já derrubados e preparados para usos
próprios, não era estranho que fosse esse nome que servisse imediatamente a Gonçalves Zarco para
designar a ilha, em vez de ilha do Arvoredo, ilha das Flores, ilha das Matas?»
Esta pregunta do ilustre historiador não invalida a simples e ingenua, mas verdadeira narrativa de Gaspar
Frutuoso.
Madeira (Orografia da)
Vid.Aspectos Orográficos .
Madeira (Levadas da)
Da sua origem, importância, funcionamento, historia e respectiva legislação,
dá-se desenvolvida notícia no artigo Levadas.
Madeira (Paisagem da)
São inumeráveis as composições em prosa e verso, tanto em vernáculo
como em línguas estrangeiras, que cantam e enaltecem as conhecidas e já proverbiais belezas da Madeira,
em que admiravelmente se salientam o maravilhoso acidentado das suas altas montanhas, o aprumo
inverosimil das suas ravinas e desfiladeiros, a profundidade dos seus vales, o relevo caprichoso do seu solo,
as diferentes tonalidades e matizes das suas ricas culturas agrícolas, a variedade e fragrancia das suas flores,
a eterna primavera do seu clima, os famosos vinhos, frutos e bordados, os típicos e interessantes costumes
regionais, a patriarcal hospitalidade dos habitantes, etc., etc.. Nem palidamente tentaremos descrever,
embora muito de relance, todo êsse conjunto de maravilhas com que a omnipotência divina dotou este
privilegiado torrão em que nascemos, limitando-nos a chamar a atenção do leitor para as brilhantíssimas
páginas que vários escritores consagraram a enaltecer essas tão surpreendentes belezas, esculpindo as suas
perduráveis impressões em trechos da mais bela e inimitável prosa. No «Dicionário Corográfico da
Madeira», deixámos arquivados, em uma dezena de páginas, muitos excertos desses brilhantes escritos, que
o limitado espaço não nos permite trasladar neste lugar.
Ocupando-nos da maravilhosa paisagem da Madeira, não queremos deixar de mencionar, embora em
passageira referencia, a alguns lugares que merecem ser em especial visitados em virtude dos
surpreendentes panoramas que deles extasiadamente se disfrutam. Lembraremos o Rabaçal, o Monte
Medonho, as Fontes da Ribeira do Inferno, a Cumeada de São Vicente, Pico dos Barcelos, Pico Ruivo, o Pico
do Arieiro, a Boca dos Namorados, o Ribeiro Frio, a Ribeira de São Jorge Santana, o Pico da Suna, Terreiro
da Luta, no interior da ilha, e também a Piedade, Ponta de São Lourenço, Garajau, a Praia Formosa, o Fojo,
o Cabo Girão, a foz da Ribeira da Janela, a da Ribeira do Inferno, a Ribeira de João Delgado, a ermida de S.
Vicente, a Entroza, a Ponta de S.Jorge, a Rocha do Navio e o Pôrto da Cruz, no litoral. Em muitas ribeiras há
belas quedas de água, e de todos os pontos elevados se admiram vistas extensas e variadas, de uma beleza
inexcedivel.
Madeira (População da)
Vid. População.
Madeira (Portos da)
Vid.
Aspectos Hidrográficos, Cais, Junta das Obras do Pôrto, Molhe da
Pontinha, Movimento do Pôrto, Navegação aérea, Naufrágios
, e o 5 ° vol. da importante obra do
engenheiro Adolfo Loureiro
Os Portos Maritimos de Portugal e Ilhas Adjacentes
, que se ocupa do
arquipélago da Madeira.
Madeira (Sistemas de Governo na)
Vid.Constituição de 1821, Mudanças de sistemas de
Governo, Proclamação do Govêrno Absoluto, Proclamação do Govêrno Constitucional, República
(Proclamaçdo da), Dominio Castelhano eRestauração de Portugal .
Madeira (Vilas da)
Pela ordem da sua criação, existem neste arquipélago as vilas de Machico e Porto
Santo (meados do século XV), Ponta do Sol (1501), Calheta (1502), Santa Cruz (1515), São Vicente (1744) e
Ribeira Brava (1928), que são sedes dos concelhos do mesmo nome. As povoações de Camara de Lobos,
Porto do Moniz e Santana, são também sedes dos respectivos concelhos, mas nunca foram elevados á
categoria de vilas.
Vid.
cada um dos nomes indicados.
Madeira e Afonso de Albuquerque (A)
Os medianamente versados na historia da
dominação portuguesa no oriente não ignoram que o grande Afonso de Albuquerque, por motivos de ordem
politica, económica e religiosa, concebera o arrojado plano de invadir o Egito, em que particularmente
entrava o desígnio de desviar dos seus verdadeiros leitos algumas das origens fluviais do rio Nilo,
empregando, porventura, para isso o processo de sucessivas e trabalhosas drenagens.
O que, porém, nem todos saberão é que Afonso de Albuquerque contava com os «cabouqueiros da Madeira»
para a realização dessa parte do seu audacioso e talvez irrealizavel projecto.
Convém lembrar aqui o que já em outro lugar deixámos dito acêrca da obra colossal da construção das
nossas levadas, que merece sempre ser pôsto no mais saliente e assinalado realce. Para essa arriscada e
penosa construção, foi, por vezes, preciso costear elevadas e alcantiladas serras, atravessar aprumadas
ravinas, perfurar os montes, num perigoso e titânico trabalho de longos anos e com o dispêndio de
avultados capitais e até de bastantes vidas, dando á terra o sangue que a fertiliza e ás plantas a seiva e a
vitalidade que as fazem abundantemente produzir.
Chegara a Portugal, chegara á India a fama dos tenazes e persistentes esforços empregados pelos primitivos
colonizadores madeirenses no arroteamento das terras virgens e particularmente na difícil e arriscada
construção dos aquedutos destinados á sua irrigação.
Não admira que o mais insigne governador da Índia se lembrasse dos «cabouqueiros da Madeira», como ele
chama, nas suas tão interessantes e instrutivas Cartas hoje publicadas em volumes, aos trabalhadores rurais
desta ilha, para levar á realização a ideia que concebera acerca da invasão do Egipto.
Não podendo, no momento em que escrevemos estas linhas, trasladar textualmente as palavras de Afonso
de Albuquerque, vamos transcrever da «História de Portugal» de Pinheiro Chagas (III - 322) os trechos que
interessam a este assunto e que inteiramente justificam a nossa afirmativa.
«O que é certissimo, e o que geralmente se ignora, é que este projecto, em breve esquecido, recebeu, para
assim dizermos, um principio de execução: o próprio filho do governador redactor dos Commentárros,
afirma que seu pai escrevera mais de uma vez ao rei D. Manuel, para lhe suplicar que mandasse ir para a
Abissinia algumas centenas desses camponezes da Madeira, que eram reputados os mais perseverantes
trabalhadores dessa época para o córte das serras, costumados, pela natureza do terreno da ilha, a
arrazarem montanhas e a aplanarem vales, afim de fazerem levadas com que mais fácilmente regassem as
suas canas de açúcar.»
Madeira e a«Ilha dos Amores» (A)
(A)
Os medianamente versados na obra camoniana não
ignoram que em volta do conhecido episódio da Ilha dos Amores» têm surgido muitas questões de caracter
crítico e literário, sendo bastante copiosa a bibliografia portuguesa que delas largamente se ocupa. Sem
falar nos autores mais antigos, bastará citar os contemporaneos Teófilo Braga, conde de Ficalho, Epifanio
Dias, José Maria Rodrigues, Ludovice de Meneses, e ainda outros, para se avaliar o interesse que esse
assunto haja despertado entre muitos comentadores dos «Lusiadas».
Um dos pontos, que tem sido mais amplamente discutido, é o da «localização» ou «situação geográfica»
da fantástica ilha, sendo êsse o que agora nos oferece particular interesse, em virtude da relação próxima ou
remota, que possa existir entre ele e a ilha da Madeira.
É certo que o maior número dos críticos e intérpretes consideram aquele episódio como um produto de
pura ficção poética, sem que Camões o houvesse determinadamente fixado em qualquer ponto do mundo
conhecido, quer tivesse apenas recorrido aos mais rasgados voos da sua ardente fantasia, quer buscasse
inspiração em alguns poemas de nomeada universal, como seriam a Odisseia de Homero, e o Orlando
Furioso de Ariosto, ou em várias lendas árabes e indianas, cujas narrativas se assemelham á descrição
camoniana. Não escasseiam, porém, escritores de reconhecida autoridade, que tem sustentado, não diremos
com argumentos absolutamente irrespondíveis mas decerto com presunções muito ponderosas e aceitáveis,
que Luís de Camões, na sua longa derrota à Africa, à India, à China e outros países orientais, houvesse
descoberto campo fértil de inspiração para a inventiva de seu episódio nas inúmeras ilhas, que os seus olhos
extasiados contemplaram na vastidão dos dois Oceanas.
Ambas as hipóteses se aventaram e ambas têm encontrado os seus fervorosos paladinos. «O poeta, diz um
notável comentador dos Lusiadas, por um gracioso esforço de imaginação, tomou uma ilha mitológica com
todos os seus caracteres e transporta-a das regiões do Mediterrâneo – pátria da velha poesia– para os mares
do oriente... A sua verdadeira situação geográfica é na fantasia do poeta e não está mal colocada». Alguns,
porém, também ilustres e considerados intérpretes, admitem que as ilhas de Angediva, Ceilão, Zanzibar,
Ascensão, Terceira, Madeira pudessem ser outros tantos estádios em que o glorioso poeta houvesse
«pousado» a sua incandescente fantasia e recebesse os primeiros motivos de inspiração para a traça da sua
sublime e ainda não excedida criação.
Na série dos últimos anos, era a Madeira que contava um maior e mais autorizado número de votos, se se
procedesse a uma espécie de plebiseito entre os que têm emitido opinião sobre este assunto.
Num folheto da nossa autoria, que tem o titulo de Camões e a Madeira, também nos ocupámos com alguma
largueza dêsse assunto, e acabamos (1938) de ler com especial agrado mais um trabalho versando a mesma
matéria, que vai sempre despertando a atenção de novos e fervorosos cultores.
Saiu há pouco da «Tipografia da Liga dos Combatentes da Grande Guerra», em Lisboa um pequeno
opúsculo intitulado Ilha dos Amores–Dados para a sua identificação, devido à pena do sr. Henrique Manuel
Terra Negra, que já tem publicado diversos estudos acerca da obra camoniana. Abre com a seguinte
dedicatória: Á Flôr do Oceano–Pérola do Atlântico - Ilha Maravilhosa.
Trata-se dum curioso trabalho de exegese literária que merece ser lido com o devido aprêço e que oferece
particular interesse aos estudiosos e aos cultores destes assuntos. É certo que não fomos encontrar nele,
nem poderiamos esperá-lo, a demonstração cabal de que Camões tinha em mente a fama de que a Madeira
já gozava no seu tempo, quando a sua imaginação arquitectou aquele maravilhoso episódio dos Lusíadas.
Não seria, porém, um demasiado arrôjo o supô-lo, se considerarmos atentamente nas expressões
laudatórias que o poeta deixou traçadas na estancia 5.ª do canto V do seu imortal poema. Tornou-se aqui
um grande panegerista desta ilha e foi sem duvida o percursor de todos quantos têm exalçado as suas
belezas naturais.
No opúsculo a que nos estamos referindo, vem citadas muitas passagens do poema, cujas interpretações
servem de base a várias hipóteses, presunções e conjecturas, mas que apesar de habilmente arquitectadas
não constituem argumentos comprovativos da tese que se pretende demonstrar. E algumas dessas
interpretações encerram afirmativas excessivamente arrojadas, como se vê do seguinte trecho, que nem se
aproxima duma aparente realidade:
«A flora da Ilha dos Amores é igual á da Madeira, porque ambas são a mesma ilha. Outro tanto diremos da
fauna, apesar de lá haver temidas gazelas (IX, 63, F) ou para ornar o estilo poético ou porque elas então
existiam na ilha. Em Portugal não há ursos (referimo-nos á espécie zoologica) mas havia-os antigamente. A
Madeira de 1498 faz diferença da ilha maravilhosa de nossos dias. É natural, já lá vão mais de 400 anos».
Há, porém, outras interpretações, que aplicadas aos textos camonianos, com outro rigor de critica e uma
mais demorada análise, poderiam conduzir a hipóteses e conjecturas de acertada verosimilhança e até
possivelmente á descoberta de verdades incontroversas. No entretanto, julgamos bastante felizes e até de
engenhosa arquitectura algumas dessas interpretações, que além de revelarem uma notável perspicácia de
espírito mostram ainda um aprofundado conhecimento da nossa Biblia Nacional.
Registamos com prazer as palavras finais deste interessante opúsculo, que fica integrado na já vasta
bibliografia madeirense:
«Ao terminarmos as presentes nótulas sobre o episódio fabuloso da Ilha dos Amores, que é (como todas as
fábulas) um misto de verdades e ficções, daqui saudamos e felicitamos jubilosamente a
Fresca e bela
Flôr do Oceano
ilha
namorada
aparelhada lá no meio
do reino de cristal liquido e manso,
de dões de Flora e Zefiro adornada;
Ilha maravilhosa da Madeira
que do muito arvoredo assim se chama,
formosa, alegre e deleitosa,
por quem a Deusa Cipria se esqueceu
de Cipro, Gnido, Pafos e Citera;
Insula
divina
Pérola
do Atlantico
que é
a ilha angelica pintada
por Camões
no epos da famosa gente nossa».
Madeira Liberal (A)
Começou a publicar-se a 24 de Julho e terminou a 26 de Novembro de 1872,
dando dezasseis números.
Saiu outro jornal com o mesmo título, dando cento e dezasseis números, desde 12 de Agosto de 1892 a 22 de
Outubro de 1893.
Madeira Magazine (The)
Revista publicada na língua inglesa, de que só saíram cinco números,
sendo o primeiro a 11 de Outubro e o último a 9 de Novembro de 1901.
Madeira nas Praças de Africa (A)
Nas «Saudades da Terra» em diversos artigos, crónicas e
em muitos nobiliários, encontram-se inúmeras referencias aos madeirenses que nas praças de Marrocos
notavelmente se distinguiram nas arremetidas contra os mouros, e de modo particular merecem honrosa
menção os prontos e valiosos socorros enviados desta ilha, quando as mesmas praças se achavam
ameaçadas e em perigo de serem destruídas pelos aguerridos partidários de Mafoma. Os donatários do
Funchal organizaram diversas expedições, algumas delas bem equipadas e abastecidas e sem encargos para
a metrópole, que prestaram á Pátria os mais assinalados serviços. Em alguns artigos dispersos desta obra e
especialmente no opúsculo «A Madeira e as Praças de Africa» da autoria do sr. coronel Alberto Artur
Sarmento, encontram-se diversas noticias que interessam a este assunto.
Madeira Realenga (A)
Os monarcas e os governos da metrópole, identificados no mesmo
pensamento, foram a pouco e pouco restringindo os primitivos e quasi discricionarios poderes dos
primeiros donatários dêste arquipélago até conseguirem uma grande centralização na administração
pública e na arrecadação das diversas tributações e impostos. Já nos artigos Doações (vol. 1, pag. 368) e
Donatários (VOl.-I, pag. 373 e 374), nos referimos com alguma largueza a este ponto, recordando que a
Carta Regia de 27 de Abril de 1497 (V. Saudades, pag. 479) foi um dos primeiros e principais golpes
vibrados nos privilegios e isenções dos antigos donatários. As capitanias, que eram quasi consideradas como
propriedade dos donatários, passaram gradualmente a ser pertença da coroa e verdadeiras colonias do
poder central. Não deve entender-se que a Madeira se tornou realenga no sentido de haver-se inteiramente
subtraído á acção governativa dos capitães-donatarios, mas que a sucessiva limitação dada aos poderes que
eles usufruíam cerceou de tal modo os seus privilégios e reduziu as suas prerrogativas que bem pode
afirmar-se, com o autor das Saudades, que o arquipélago passou á posse do Estado, quando antes era um
feudo e um senhorio de que quasi inteiramente desfrutavam os donatários.
Madeira na Torre do Tombo (A)
Ninguém ignora que o Arquivo Nacional da Tôrre do
Tombo é o mais rico e abundante repositório de documentos manuscritos e originais que existe no nosso
país, e, por isso também, a fonte mais segura e mais copiosa para os trabalhos de investigação histórica, que
se pretendam fazer relativos a Portugal continental e ainda aos seus antigos domínios ultramarinos da
Africa, da Ásia e da América.
O arquipélago da Madeira está largamente representado nesse arquivo, encontrando-se ali uma preciosa
documentação, que muito conviria tornar conhecida dos que especialmente consagram os seus labores ao
estudo das cousas históricas madeirenses. Não desconhecemos as dificuldades que esse empreendimento
acarretaria, não somente pela falta de catalogação para a grande maioria dos documentos arquivados na
Torre do Tombo, mas ainda pela avultada despesa a realizar com o pessoal devidamente habilitado, que
houvesse de proceder a essas penosas e demoradas investigações.
No entretanto, alguma cousa se poderia e deveria fazer. Sirva-nos de exemplo e de estímulo o arquipélago
açoreano. Quando em 1878 o ilustre micaelense dr. Ernesto do Canto iniciou a publicação do Archivo dos
Açores, logo encarregou o jornalista José Torres de realizar uma exploração, embora sumária, naquele vasto
arquivo, de que resultou o encontro de valiosos documentos, que foram insertos em vários volumes dessa
importante publicação. Semelhantemente se deveria fazer a respeito da Madeira, limitando-se os primeiros
trabalhos de investigação a uma pesquisa entre os documentos já catalogados e iniciando-se desde logo a
organização dum inventário, quanto possivel completo, da documentação que interessasse á história destas
ilhas. Realizado e publicado êsse inventário, ir-se-ia, a pouco e pouco e depois duma acurada selecção,
dando á estampa os manuscritos de mais útil e necessário aproveitamento, conforme as circunstancias de
ocasião o aconselhassem. Não faltaria, em Lisboa, ou mesmo na Madeira, uma pessoa de reconhecida
probidade e competencia, que fôsse encarregada dêsse arduo trabalho, mas faltará talvez uma corporação
administrativa ou uma entidade oficial que tome a iniciativa de realizar essa tão proveitosa e louvavel ideia.
Com grande aprazimento de espírito, vemos em alguns números do Arquivo Historico da Madeira
publicada uma relação de documentos, respeitantes a esta ilha e pertencentes á preciosa colecção do «Corpo
Chronologico» da Tôrre do Tombo, sendo de presumir que entre os oitenta e três mil documentos que
formam essa colectanea se achem ainda encorporados outros documentos, consultando-se para êsse fim os
doze volumes de Indice, que felizmente existem, do citado «Corpo Chronologico»,. Sabe-se também que nos
livros das Ilhas, dos Misticos, das Ementas, das Confirmações Gerais e especialmente nos livros e maços das
Chancelarias de todos os reis da segunda dinastia e ainda em outras colecções se encontra larga e valiosa
documentação referente a êste arquipélago.
Como acima deixámos dito, o trabalho de pesquisa a realizar nas colecções da Tôrre do Tombo respeitante à
Madeira deveria iniciar-se com um demorado exame nos catálogos e livros de inventários ali existentes e
particularmente nos seguintes, que vemos citados num pequeno estudo histórico e descritivo do referido
Arquivo:–«Funchal, Alfandega, Catalogo em verbetes; Cabido da Sé, Catalogo em verbetes: Convento de
Santa Clara e N. S. da Incarnação, Catalago em caderno; Relação dos livros existentes no arquivo da
Alfandega, Catalogo em caderno; Relação dos livros existentes no arquivo do Cabido da Sé, Catalogo em
caderno; Relação dos livros existentes na repartição de fazenda do distrito, Catalogo em caderno». No
mesmo estudo lemos também que na «Sala da Livraria» se encontram estes documentos: «Receita e
Despesa das Obras da Relação, Alfandega do Funchal, Azamor e Ormuz, 10 maços; Rendimento dos quintos
do açucar da ilha da Madeira, maço único; Rendimento das alfandegas do Algarve, Funchal e Marvão, maço
7; e Registo pertencente á Sé do Funchal, livro único». E ainda no já referido estudo se diz que na «Sala A-
Ministério do Reino» se encontram: «Alfandega do Funchal, 255 1ivros, Est. 18 e 19; Santa Clara, 16 maços,
Est. 74 e 128 livros, Est. 74; Incarnação. 46 livros, Est. 75; Cabido da Sé, 23 maços e 44 livros, Est. 74».
Entre os livros da Alfandega, a que acima se faz referencia, contam-se os da antiga Provedoria, que estava
adjunta àquela casa fiscal e nela exercia superintendência até o ano de 1775, em que foi extinta. Os diplomas
emanados do poder central, referentes á arrecadação de certas contribuições e impostos, criação de lugares
e nomeações dos que deviam exercê-los, construção e reparação dos edifícios, remodelação de varios
serviços públicos, etc., etc., eram dirigidos á Provedoria da Real Fazenda, que arquivava e registava êsses
diplomas e em parte lhes dava execução, sendo por isso os respectivos livros de registo de grande interêsse e
valor para a historia da nossa terra. Reconhece-se a importancia dêsses documentos com a leitura do
«Index da antiga Provedoria da Real Fazenda. . . ». volumoso in-folio existente nesta cidade, que foi há anos
parcialmente publicado no
Heraldo da Madeira
, em que se faz uma relação sumária metodicameute
exposta, dos diplomas registados em vinte e quatro volumes, que abrangem o largo período decorrido de
1566 a 1775. Esse índice deveria ser novamente reproduzido em qualquer jornal ou revista, pois que a
primeira impressão saiu eivada de muitas gralhas tipográficas, aproveitando-se essa oportunidade para
acompanhar a nova publicação com pequenas notas elucidativas do texto.
Com respeito aos livros pertencentes ao arquivo do Cabido da Sé do Funchal, a que acima também fizemos
referencia, foi-nos facultada uma longa e interessante relação da maior parte dêsses livros, actualmente
guardados na Tôrre do Tombo, que pela sua demasiada extensão não reproduzimos neste lugar. No
entretanto, mencionaremos os seguintes códices, por terem pertencido a um arquivo, que o ilustre anotador
das Saudades classificou de rico: «Ano de 1525 e seguintes–Livro I.° dos acordãos e resoluções do cabido da
Sé; 1538 e 1553 e seg.–Livro que trata da estada na Madeira do bispo visitado D. Ambrosio, enviado pelo
arcebispo do Funchal D. Martinho e dalgumas medidas tomados por este metropolita; 1586 e seg.–Livro do
Tombo; 1587 e seg. –Livro das Visitações; 1572–Livro do Compromisso; 1590–Livro do inventário da prata
e ornamentos; 1568–Livro da Receita e Despeza da Fábrica, etc.» Devem ser valiosos estes documentos
apontados na mesma relação: «Século XV em diante escritos em pergaminho e papel relativos às igrejas das
ilhas da Madeira e Porto Santo e bem assim à Sé Catedral do Funchal, Maços desde o n.° 1 a 23..
Pelo que deixamos dito e pelas transcrições que ficam feitas, vê-se que não seria muito dificil reunir uma
soma considerável de elementos para a organização duma relação ou catalogo dos documentos que
interessam à Madeira, aproveitando-se para isso os inventários e índices já existentes, além das outras
investigações a que conviria proceder oportunamente.
Haverá sessenta anos que o madeirense Roberto Augusto da Costa Campos, distinto funcionário da Torre
do Tombo, visitou os arquivos de algumas repartições publicas do Funchal, fazendo a recolha,
superiormente autorizado, de uns centenares de volumes, para serem encorporados no Arquivo Nacional,
onde actualmente se encontram, aguardando alguns pacientes investigadores, que tornem conhecidos esses
valiosos códices dos que tenham necessidade de os consultar.
Madeira na Universidade de Coimbra (A)
O infante D. Henrique, por carta de 22 de
Setembro de 1460, fêz doação à Universidade de Coimbra de «doze marcos de prata», que deveriam ser
pagos pelos dízimos que a Ordem de Cristo cobrava no arquipélago da Madeira e que especialmente se
destinavam ao lente de «prima» da faculdade de teologia, encontrando-se o respectivo diploma transcrito a
páginas 39 e seg. da «Memoria da Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra» pelo dr. Mota Veiga.
No testamento do Infante, vem consignada uma verba em que diz: «ordeno que o lente da cadeira de prima
aja em cada ano para sempre doze marcos de prata por a primeira renda dos dizimos que a Ordem de Cristo
ha na Ilha da Madeira.»
O distinto sacerdote micaelense Fr. António do Presépio, falecido no ano de 1931, extraiu do arquivo da
Universidade de Coimbra os nomes de todos os madeirenses e açoreanos, que frequentaram aquele
estabelecimento de ensino superior no largo período decorrido de 1578 a 1730. Com esses nomes organizou
alfabeticamente uma longa e interessante relação, que não só contém apreciáveis elementos para a biografia
de muitos filhos ilustres das Ilhas Adjacentes como também nos fornece uma valiosa informação acerca do
número relativamente avultado de estudantes naturais dos Açores e Madeira, que naquela época cursaram a
Universidade de Coimbra. Compõe-se essa relação de 589 nomes, pertencendo 276 à Madeira, 149 à Ilha de
S. Miguel, 108 à Terceira, 24 ao Faial, e os restantes 32 às outras ilhas açoreanas. Vê-se que
proporcionalmente a população foi muito mais elevado o número de alunos madeirenses que frequentaram
a Universidade, naquele período de tempo, do que os das diversas ilhas do arquipélago dos Açores.
Por ser demasiadamente extensa, não reproduzimos aqui essa relação de 276 nomes de estudantes,
referente ao período de 157 anos, mas fizemo-la publicar nos vol. I e II do «Arquivo Histórico da Madeira»
onde se encontra.
Vid. Doutores e Lentes.
Madeiras
O nome de Madeira dado a esta ilha pelos descobridores tira sua origem da rica e luxuriante
vegetação que a cobria em toda a sua superfície. O abundante e gigantesco arvoredo, que tanta admiração
excitou nos primeiros navegantes qne aqui aportaram, estendia-se em floresta cerrada desde as orlas do
oceano até os píncaros das mais elevadas montanhas. O povoamento e a colonização desta ilha impunham a
necessidade imperiosa de destruir parcialmente esses bastos e impenetraveis matagais, que somente um
incêndio poderia rapidamente reduzir ás indispensáveis proporções e permitir uma imediata exploração
agrícola.
(V. Incêndio Nas Matas, vol. II, pág. 140).
Parece que a destruição causada pelo fogo foi muito além do que seria para desejar porque o historiador
João de Barros afirmou por meados do século XVI que «os presentes sentem bem este dano por a falta que
teem de madeira e lenha, por que mais queimou aquele primeiro fogo do que então até agora podera
decepar força de braço e machado». Esta asserção de Barros, deve referir-se, segundo nos parece, aos
primeiros anos que se seguiram ao incêndio, porque os regimentos das madeiras desta ilha de 1515 e 1562
desmentem aquela afirmativa. A Madeira repovoou-se rapidamente de espécies florestais, e se o incêndio
lhe fez perder a primeira e nativa opulência do seu arvoredo, não pode duvidar-se de que a breve trecho se
cobriu duma extensa e abundante vegetação. Há muitos factos que o comprovam.
O comercio e a exportação de madeiras foram uma consequência lógica da abundância das espécies
arboreas que fartamente povoavam as montanhas. É de Gaspar Frutuoso o seguinte interessante trecho:–
«E havia tanta quantidade de madeira tão fermosa e rija, que levavam para muitas partes copias de taboas,
traves, mastros, que tudo se serrava com engenhos ou serras de agua, dos quais ainda hoje ha muitos da
banda do norte da mesma ilha; e neste tempo, pela muita madeira que dahi levavam para o Reyno, se
começara com ela a fazer navios de gavea e castello d'avante, porque dantes não os havia no Reyno, nem
tinham para onde navegar, nem havia mais navios que caravellas do Algarve, e barineis em Lisboa e Porto».
Esta superabundância de madeiras determinou um notável progresso na arquitectura naval e na construção
dos predios, segundo afirma o visconde de Santarém, citado por Pinheiro Chagas, como já vimos a paginas
141 deste volume do
Elucidário
.
Ainda acerca da abundância de arvores florestais e de algumas delas em especial, é interessante ler-se o
seguinte trecho do historiador das ilhas: «toda esta ilha he fragosissima, e povoada de alto e fresco
arvoredo; que, por ser tal, se perdem alguns caminhantes nos caminhos, e já aconteceo alguns nelle
perdidos morrerem. E não sómente ha pelo meyo e lombo da terra grandes e levantadas serranias, mas
tambem grandes e altas funduras cobertas de matos, e grossos páos, e arvoredo de til, que, quando o cerrão,
dentro do cerne he muito preto, e cheira mal. Deste páo se faz muito taboado para caixas de assucar, e
soalhado de casas, e madres, e delle he a mayor parte da lenha que se queima nos engenhos. Tambem ha
outro páo vermelho, que se chama vinhatego, de que se fazem as caixas para o serviço de casa, que são
muito boas; mas as feitas delle para o mar são muito mais prezadas. Outros páos ha de aderno, de que se faz
muita madeira para pipas para vinho e mel; mas para o mel são melhores que para o vinho, não porque a
calidade da madeira o faça ruim, mas porque he muito rija e seca, e não revê tanto o mel nella, como o
vinho, que o faz humedecer, e algumas vezes o deita pelo meyo do páo: o qual páo de aderno he tão rijo, que
se fende á cunha. Ha tambem muitos folhados que crecem muito direitos e grossos, de que se faz a armação
para as casas, e muitas vezes de hum só páo fazem tres e quatro pernas de asnas; mas não he tão rijo como o
desta ilha de S. Miguel; he brando de cortar quasi como o cedro, e delle se fazem os temões para servirem na
lavoura. Ha outro páo, azevinho, muito rijo, de que se fazem os cabos de machado: mas não he branco,
como o he o desta ilha. Tambem ha páos de louro, e nas faldras da serra, da banda do Sul, muita giesta, que
he mato baixo como urzes que dá flor amarella, de que gastão nos fornos, e della se colhe a verga, que
esburgão como vimes, de que se fazem cestos brancos mui galantes e frescos para serviço de meza, e offerta
de baptismos, e outras cousas, por serem muito alvos e limpos: e se vendem para muitas partes fóra da ilha
e do Reyno de Portugal, porque se fazem muitas invenções de cestos mui polidos e custosos, armando-se ás
vezes sobre hum, dez, e doze diversos, ficando todos juntos em huma peça só; e para se fazerem mais alvos
do que a verga he de sua natureza, ainda que muito branca, os defumão com enxofre. E ha tambem muita
madeira de barbuzano, de que pela mayor parte fazem os tanchões para as latadas, por ser páo muito rijo e
durar muito no chão. E não faltão muitas urzes, de que se faz o carvão para os ferreiros e fogareiros».
O nome que tem a freguesia da Serra de Agua e os varios outros sitios e lugares que conservam igual
denominação, dão-nos a conhecer que existiam dispersos nesta ilha muitos engenhos de serragem movidos
a agua ou simplesmente serras de agua, como se encontra escrito em diversos documentos antigos e ainda
nalguns diplomas legislativos.
O abundante arvoredo e os abusos que se cometiam no seu aproveitamento determinaram a promulgação
de varias medidas legislativas no sentido de acautelar a destruição da riqueza florestal que cobria as serras
desta ilha. O mais notável desses diplomas é o Regimento das Madeiras, de 27 de Agosto de 1562, que ocupa
oito paginas duma das notas das Saudades. Dele diz o dr. Alvaro de Azevedo que é um documento
importante para a historia agrícola da Madeira, constituindo a sua peculiar legislação florestal ainda agora
em grande parte vigente, e é fonte de posturas municipais em todos os concelhos desta ilha.
A flora lenhosa madeirense contém ainda hoje algumas essências que fornecem madeiras de aplicação
muito vantajosa na marcenaria. Da madeira do vinhatico e til, esta negra e aquela avermelhada, fabricam-se
lindos móveis, tendo a primeira grande semelhança com a do mogno; da do cedro, clara, leve e aromática,
excelentes caixas que, em regra, não são invadidas pelas traças; e das do maçaroco, fustete, seixo, piorno,
pau branco, azevinho, tintureira, etc., fazem-se embutidos de variadas cores para mesas, caixas, estojos e
outras pequenas obras. As madeiras da faia, barbuzano, loureiro, aderno, folhado, urze, ginjeira brava,
sanguinho, mocano, etc., também têm ou podem ter aplicação em varios trabalhos, mas é geralmente muito
limitado o seu emprêgo na marcenaria por serem agora quasi tôdas muito raras.
A este assunto prestam informações apreciáveis os artigos deste Elucidário intitulados
Arborização,
Incêndios, Regimen Florestal
e
Serviços Florestais
.
Madeirense (0)
Apareceram oitenta e sete números deste jornal, o primeiro a 30 de Janeiro de 1847
e o ultimo a 30 de Janeiro de 1849.
Com o mesmo titulo, publicou-se outro jornal na Madeira, de que saíram setenta e sete números, o primeiro
a 27 de Abril de 1918 e o ultimo a 23 de Janeiro de 1919.
Madeirenses em Angola
Apesar da sua grande
importância, não possuímos notícia
pormenorizada acêrca da colonia constituída por madeirenses no Lubango e planalto da Huíla e por isso
nos limitamos a transcrever as interessantes informações que nos dá o dr. Leandro de Mendonça, filho da
Madeira, no discurso que proferiu em Sá da Bandeira nos fins do ano de 1940, ao inaugurar-se ali um
padrão comemorativo da chegada dos primeiros madeirenses aquelas terras africanas. Depois de fazer o
mais alevantado elogio dos filhos desta ilha pela sua morigeração de costumes, amor ao trabalho e notaveis
aptidões para a colonização, disse o seguinte:
«Os primeiros madeirenses destinados à colonização do planalto da Huíla, em número de 222 indivíduos
dos dois sexos, deixaram o Funchal a bordo do navio de guerra «India», a 13 de Outubro de 1884 e
chegaram a Mossamedes a 18 de Novembro desse mesmo ano. Como a deficiência dos meios de transporte
não permitisse a vinda de todos os colonos ao mesmo tempo para o Planalto, foram estes divididos em dois
grupos. O primeiro chegou ao lugar dos Barracões no dia 25 de Dezembro de 1884 e o segundo a 18 de
Janeiro do ano seguinte, conforme se diz nos Relatórios do Director da Colónia, D. José da Camara Leme. A
19 de Janeiro dêste mesmo ano, foi oficialmente instalada a Colónia. Passados seis meses, chegaram mais
349 colonos, que embarcaram no Funchal no vapor de guerra «Africa». Dêstes 349 emigrantes, 44
reuniram-se a umas familias da Humpata, e deslocando-se para o vale de Chimpumpunhime, aí fundaram a
Colónia de S. Pedro da Chibia. Durante dois anos, enquanto não se completou a instalação destas duas
colónias, cessou a corrente de emigrantes, para recomeçar em 1888, ano em que se fixaram na Huila mais
10 colonos. Nos anos seguintes, em 1889 e 1890, vieram mais 704 emigrantes, perfazendo 1.281
madeirenses.
É a este punhado de emigrantes, pouco mais de mil, entre homens, mulheres e crianças, que
voluntariamente deixaram a Madeira, que se deve a transformação da mata virgem, que era antigamente o
Lubango, na ubérrima e progressiva cidade de Sá da Bandeira».
Madeirenses no Brasil
Já no artigo
Emigração
(1-391), nos referimos ao avultado numero de
emigrantes que nos séculos XVI e XVII saíram desta ilha para o Brasil, sendo ocasião de recordar o que em
muitos lugares se lê acerca da plantação da cana sacarina naquele país, ao afirmar-se que foram
madeirenses os que para ali levaram as primeiras plantas e também primeiramente iniciaram a cultura
desse rico vegetal, que depois tão largamente se generalizou e veio a constituir um dos grandes elementos
de prosperidade da nascente colónia.
Também se afirma que foi o Governador do Brasil, Martim Afonso de Sousa, que solicitou a ida desses
madeirenses e promoveu, por meio deles, o começo da plantação da cana sacarina.
As crises que afligiram a Madeira em diversas epocas determinaram a ida de grandes levas de emigrantes,
sendo interessante estas informações fornecidas por uma das anotações das «Saudades da Terra»: «Em
1676, a decadencia tinha neste arquipélago chegado a ponto que a emigração para o Brasil, até então mero
expediente ou especulação de particulares, passou a ser promovida como providencia governativa: nesse
ano foi expedida uma carta regia e outra em 1747, ambas registadas no arquivo da Câmara do Funchal,
determinando a primeira que, a expensas do estado, fossem transportadas para o Brasil trezentos até
quatrocentos casais, e a segunda, recomendando ao capitão-general que dispensasse ajuda e favor a essa
emigração.»
É sabido que, particularmente no período das guerras da Restauração, em que naquele país tão brilhante e
heroicamente se notabilizou a acção do madeirense João Fernandes Vieira
(vid. a pág. 18 do vol. II)
,
se deu uma grande emigração de madeirenses para o Brasil, favorecida pelo ilustre restaurador de
Pernambuco, e que um numero avultado de filhos da nossa terra altamente se distinguiram ao lado do seu
ilustre conterraneo, encontrando-se os nomes de muitos deles mencionados nas crónicas da epoca e em
diversos artigos e nobiliários e de alguns dos quais deixaremos registados os seus actos de bravura no artigo
Varões Ilustres.
Não somente nesse período de pugnas militares, mas ainda posteriormente e em varios ramos da actividade
humana, foram muitos os madeirenses que sobremaneira honraram o torrão natal pelo seu amor ao
trabalho, pela sua inteligência e pela sua iniciativa, chegando alguns a criar foros de cidadãos beneméritos e
merecendo as mais elogiosas referencias das pessoas mais qualificadas daquele país.
Com respeito ao século XIX, desejamos aqui fazer rapida menção dos madeirenses D. Mateus de Abreu
Pereira, e D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, bispos de São Paulo, doutores Francisco Justino
Gonçalves de Andrade e João Jacinto Gonçalves de Andrade, lentes da Universidade da mesma cidade, dr.
Patricio Moniz, grande orador sagrado, Caetano Alberto Soares, distinto Jurisconsulto, general Joaquim de
Oliveira Alvares, padre João Antonio de Lessa, deputado, João da Silva Caldeira, professor de química,
Francisco João Rossio, engenheiro militar, além de outros, dos quais deixámos algumas notas biográficas
dispersas nas páginas desta obra.
É sabido que uma das mais notaveis obras realizadas pelos portugueses em terras brasileiras foi a criação do
«Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro», que fundou uma rica e copiosa biblioteca, cujo catálogo, em
grande parte impresso, se compõe de alguns volumes. Foi um dos mais activos e prestimosos iniciadores
dessa fundação o madeirense Francisco Eduardo Alves Viana, negociante na cidade do Rio de Janeiro.
Madeirite
Vid. Hiperstenite.
Madre de Deus (Capelas da)
É um pequeno templo de típica edificação manuelina, que por isso oferece
particular interesse aos que o visitam e em especial por alguns detalhes da sua construção e que fica na
freguesia do Caniço, no sítio a que deu aquele nome. É uma construção do século XVI e afirma-se que foi
fundado por uma família Salvago, que ali teve terras de sesmaria. Nela se celebram ainda os actos do culto e
pertence (1921) aos herdeiros de João Maurício de Gouveia.
Existe com a mesma invocação uma capela na freguesia da Tabua, mais conhecida pelo nome de Mãe de
Deus. Ignoramos o ano da sua construção, mas sabemos que por meado do século XVIII foi totalmente
destruída pela violência da corrente da ribeira que lhe ficava próxima. Foi reconstruída por 1767 na outra
margem da ribeira, em sitio mais seguro, sendo vistoriada a 9 de Dezembro do mesmo ano, para o efeito da
celebração dos ofícios divinos. Um breve pontifício de 22 de Maio de 1781 concede indulgencia plenaria aos
que visitarem esta capela no primeiro domingo de Maio.
Inacio Uzadamor do Rêgo e sua mulher fizeram construir em 1705 na freguesia do Estreito de Camara de
Lobos, uma capela dedicada a Nossa Senhora da Madre de Deus e ao taumaturgo S. Antonio, sendo de 5 de
Dezembro daquele ano a licença para ser benzida.
Madre de Deus (Frei Francisco da)
Professou na Ordem Seráfica em 1613 e foi guardião do
convento franciscano da vila de Santa Cruz. Alguns o dão como madeirense, mas não há certeza de ter
nascido nesta ilha. Foi um homem de vasta erudição, tendo escrito um livro místico, que é notável pela
beleza da linguagem.
(Vid.
Bib. Lusit
. II-165).
Madre de Louro
Fitocecidea que aparece com frequência nos troncos dos velhos loureiros. Pode
atingir 20 centímetros de comprido e é produzida pelo
Exobasidium Lauri
, fungo da família das
Teleforaceas. Associada á aguardente, constitui um hemostatico muito usado na Madeira, sendo também
empregada como hemenagogo.
Madre-Silva
Nome vulgar da
Lonicera etrusca
, originaria da região mediterranea, e da
L. confusa
,
originaria da China e do Japão, plantas comuns na Madeira e pertencentes à família das Caprifoliaceas. A
primeira destas plantas está perfeitamente naturalizada na ilha; a segunda, só aparece nos jardins. A
L.
longiflora
é uma madre-silva de flores grandes, cultivada nalguns jardins do Funchal.
Madureira
Um dos primeiros povoadores da Madeira foi Manuel Madureira da Maia, que morou em
Gaula. João Rodrigues Madureira foi um esforçado cavaleiro madeirense que combateu em Africa nos
princípios do século XVI.
Magalhães (Dr. José Alfredo Mendes de)
Este conhecido politico, lente da Escola Medica do
Porto e antigo ministro e deputado, foi mandado à Madeira como alto comissário da Republica, por ocasião
da epidemia colerica que grassou neste arquipélago de Outubro de 1910 a Fevereiro de 1911.
Embora incumbido especialmente de tratar de assuntos relativos à saúde pública, o Dr. Magalhães levou
mais longe a sua acção como delegado do Governo, tendo conseguido por meio das medidas enérgicas que
pôs em pratica, restabelecer a ordem pública, que se achava um tanto alterada nesta ilha desde a
implantação do governo republicano. A sua proclamação de 27 de Dezembro, em que comunicava aos
madeirenses o propósito firme em que estava de fazer punir em processo sumario e com o maior rigor,
aqueles que tentassem alterar a ordem, foi recebida com gerais aplausos, e a prisão dum sargento apontado
como um dos principais causadores do desassossego que reinava na Madeira, acabou por tranquilizar os
ânimos dos que receavam que as novas instituições só trouxessem a anarquia á ilha.
O sargento a que nos referimos e que chegou a desempenhar um papel importante no Funchal nos
primeiros tempos da Republica, esteve preso e incomunicável na fortaleza de, S. Tiago, donde saiu para
Lisboa, sendo aí demitido do exercito em virtude do seu mau comportamento militar.
O dr. Magalhães fêz uma conferencia pública no Teatro do dr. Manuel de Arriaga, que agradou bastante, e
interessou-se pela criação dum Asilo Infantil de Artes e Ofícios.
Em retribuição dos serviços prestados pelo Dr. Alfredo de Magalhães, outorgou-lhe a Comissão
Administrativa da Câmara Municipal o diploma de cidadão benemérito do Funchal, tendo-lhe sido entregue
o mesmo diploma no salão nobre dos Paços do Concelho, no dia 25 de Fevereiro de 1911.
V. Cólera Mórbus em 1856 e 1910 e Junta Agrícola.
Magnolia (Magnolia grandiflora)
Árvore da América do Norte, muito cultivada nas quintas e
jardins do Funchal. Floresce em Maio e Junho.
Os madeirenses também dão o nome de magnolia ao
Osmanthus fragrans
, arbusto da familia das Oleaceas
originario do Japão e que produz pequenas flores brancas e odoriferas.
A carocha dos jardins da Camacha e doutras localidades pertence ao genero Magnolia e á família das
Magnoliaceas, sendo muito apreciada por causa do seu aroma.
Major (Richard Henry)
Escritor inglês contemporaneo, que morreu em Londres no mês de Junho
de 1901. Era membro da Real Sociedade de Geografia e encarregado da repartição dos mapas e cartas no
Museu Britânico. Tornou-se muito conhecida no nosso país a obra que publicou em 1868 com o título
The
Life of Prince Henry of Portugal
, que é um verdadeiro padrão levantado à memoria do infante D. Henrique
e que constitui também uma insuspeita homenagem prestada á odisseia marítima realizada pelos
portugueses no decurso do seculo XV. Henrique Major considera como verdade histórica a lenda de
Machim, refutando triunfantemente o dr. Alvaro de Azevedo as afirmativas do escritor inglês e dedicando a
êste assunto algumas das mais interessantes paginas das eruditas anotações das
Saudades da Terra
. A
irrefutável argumentação do dr. Rodrigues de Azevedo deixou o caso de Machim reduzido ás proporções
duma encantadora e poetica lenda, que não tem o mais ligeiro vislumbre de fundamento historico. Major
publicou um outro trabalho com o
título The Discoveries of Prince Henry the Navigator and their results
(Londres 1877), tendo a sua primeira obra sido traduzida na lingua portuguesa, por José Antonio Ferreira
Brandão.
Malacologia
V.Albers, Andrew, Caracóis, Castelo de Paiva, Cefalópodos, Conchas, Girard, Lowe,
Nobre, Polvo, Pota, Watson, Wollaston eCockerel , êste ultimo nome no Suplemento.
Malcolm
Burr. E.:(The Orthoptera of Madeira (The Entomologist's Record , vol. XXIV, nº. 2). Este
trabalho assinala vinte e nove ortópteros madeirenses.
Malfurada
Nome vulgar de varias espécies do genero Hypericum e daGlobularia salicina . Esta ultima
espécie pertence à família das Globulariaceas, e é um arbusto de folhas inteiras, glabras e lanceoladas, e de
corolas brancas ou azues e brancas. É frequente na Madeira.
V.
Hipericão.
Malheiro
Em princípios do século XVI, vivia na Madeira um Bartolomeu Malheiro, que cedeu um
terreno para a construção dum novo hospital (V.
Saudades
, pág. 645), mas a actual família Malheiro, de que
é representante no Funchal o dr. José Maria Malheiro (1921), ilustrado auditor administrativo do distrito,
procede de Paulo Malheiro de Melo, natural de Viana do Castelo e que se estabeleceu nesta ilha no século
XVIII. No primeiro quartel do século XIX. havia no Funchal a casa comercial de Paulo Malheiro de Melo &
Filhos, sendo a família Malheiro considerada como de origem nobre.
Malheiro de Melo (Patrício)
Nasceu no Funchal a 17 de Março de 1791 e faleceu na freguesia do
Caniço a 18 de Maio de 1942. Tomou parte activa no movimento de 28 de Janeiro de 1821, de que resultou
ser proclamada a Constituição na Madeira, e foi membro da primeira Câmara Constitucional do Funchal e
cônsul da Prússia. Pronunciado pela alçada que veio à Madeira em 1828, não chegou a ser prêso por se ter
ausentado para o estrangeiro, donde só regressou depois de restabelecido o governo constitucional no pais.
Malmequer
Nome vulgar doChrysanthemum segetum . Composta frequente na Madeira e Pôrto
Santo.
Malpica
V. Amor de burro.
Malva
Os madeirenses conhecem por este nome tanto as especies do genero Pelargonium, cultivadas
nos jardins, como as especies dos generos Lavatera e Malva, espontaneas ou subespontaneas no
arquipelago. 0
Pelargonium inquinans
é a mais comum das Geraniaceas introduzidas nos jardins; a
Lavatera cretica, a Malva silvestris e a M. parviflora são as Malvaceas dominantes na Madeira. Tôdas estas
Malvaceas são emolientes e empregam-se para combater as inflamações. A decocção das suas flores ou
fôlhas usa-se em gargarejos, banhos, colirios, etc.. Os habitantes do Pôrto Santo fabricam cordas com as
fibras que por meio de trituração conseguem extrair da Lavatera arborea, especie cultivada e naturalizada
naquela ilha.
Mamiferos
Vid.o artigoFauna e quem pretender possuir um mais largo conhecimento desta
materia consulte o opúsculoMamiferos do Arquipelago da Madeira da autoria do tenente-coronel Alberto
Artur Sarmento.
Mancão (Fulica atra)
Ave de arribação da família Ralida, que aparece ás vezes na Madeira. É
conhecida em Portugal pelos nomes de galeirão, franga real, nagera negra e galo.
Manchon (L.)
E.:A travers Madère, onze jours en hamac (Paris, 1888).
Mandon (G.)
Distinto botânico francês, muito conhecido pelas valiosíssimas colecções botânicas que
organizou tanto no arquipélago da Madeira como na Bolívia. Esteve nesta ilha de 1865 a 1866, tendo as suas
colecções servido de base a um trabalho de Cosson sobre a flora do arquipélago da Madeira.
V.
Cosson.
Mangas (Manuel Júlio Tôrres)
É filho do coronel Manuel Júlio Torres Mangas, que foi
governador civil e comandante militar da Madeira por ocasião do movimento revolucionário que se deu
nesta cidade na manhã de 29 de Abril de 1847, proclamando os princípios da Junta do Porto
(V.
Junta
Governativa).
De Manuel Júlio Torres Mangas, filho, apenas sabemos o que nos diz Brito Aranha no
vol. XVI do Diccionario Bibliographico. Nasceu no Funchal em 1835 e exerceu varios cargos publicos na
metrópole e no ultramar. Foi jornalista e colaborou no
Jornal do Porto, Verdade, Ecco Popular, Nacional,
Alemtejano
e
Jardim Literario
. Escreveu um opusculo intitulado Vida do Visconde de Almeida Garrett,
principe dos poetas no século XIX.
Mangerona (Majorana hortensis)
Labiada aromática, cultivada nalgumas hortas madeirenses,
unicamente para servir como adubo nas cozinhas. É originaria da América do Norte e da Ásia media, e é
conhecida também pelo nome de orégãos (V. este nome).
A Majarona paniculata, provavelmente simples variedade da M. Maiorca, também aparece nalgumas hortas
distinguindo-se facilmente da M. hortensis em não ter o lábio inferior do calice muito pequeno ou nulo.
Mangin (General)
0 general Carlos Maria Manuel Mangin, um dos defensores de Verdun, chegou ao
Funchal no cruzador Jules Michelet, a 26 de Novsmbro de 1921, pouco depois das 9 horas da manhã, tendo
sido cumprimentado a bordo pelo Governador Civil e Comandante Militar, e desembarcando pouco depois
das 10 horas e meia no cais da entrada da cidade, ao principio do qual se erguia um lindo arco de triunfo,
feito de buxo, tendo do lado sul as palavras Viva a França, nas extremidades a bandeira nacional e ao centro
um troféu formado de quatro bandeiras francesas e uma portuguesa.
Foi junto a este arco que o Governador Civil, Comandante Militar, Presidente da Câmara, oficialidade da
guarnição e outras entidades oficiais receberam o General, conduzindo-o ao palácio de S. Lourenço, onde se
demorou algum tempo, partindo todos em seguida para a Sé Catedral onde iam realizar-se exéquias solenes
em homenagem aos marinheiros franceses mortos por ocasião do torpedeamento da canhoneira Surprise,
no porto do Funchal.
Tanto junto do cais como à saída da fortaleza de S. Lourenço, foram prestadas honras militares ao general
por uma força de infantaria n.° 27, sob o comando dum capitão.
Em homenagem ao general Mangin houve no dia 26 um jantar no palácio de S. Lourenço, oferecido pelo
Governador Civil, e no dia 27 um lanche no Terreiro da Luta, oferecido pelo Comandante Militar. 0 general
fez varias digressões nos arredores do Funchal e visitou o Prelado Diocesano no dia 26, logo depois das
exéquias. A bordo do cruzador Jules Michelet, realizou-se no dia 27 um jantar de gala oferecido pelo general
e a que assistiram as autoridades e outras entidades oficiais.
O general encorporou-se no cortejo que acompanhou os restos mortais dos marinheiros da Surprise desde o
cemitério das Angustias até o cais da Pontinha, tendo vindo ao Funchal para assistir a essa trasladação para
bordo do cruzador Jules Michelet, que deixou o pôrto do Funchal, com destino á França no dia 28, pelas 7
horas e 30 minutos da noite.
V.
Surprise.
Mangra dos Carvalhos
Manchas brancas que aparecem sobre as folhas dos carvalhos e são
produzidas pelo
Oidium quercinum
, fungo da familia das Mucedinaceas. Foi observado pela primeira vez
em 1909, nos carvalhos do Monte. A propagação da espécie tem sido feita provavelmente por meio de
conidios transportados pelos ventos.
Mangra da Vinha
No dia 29 de Julho de 1853, chegou ao Funchal o agrónomo João de Andrade
Corvo, que depois foi um dos nossos mais distintos escritores e estadistas. Vinha comissionado pelo
Governo central para estudar detidamente a doença que atacara os vinhedos desta ilha e propor as
providencias que mais eficazmente pudessem debelar as calamidades que então nos assolavam.
As nossas vinhas tinham sido atacadas pelo
Oidium Tuckeri
, a que o povo dera o nome de mangra. Havia
poucos anos que essa doença aparecera na Europa e parece que pela primeira vez se constatou a sua
existência num jardim de Inglaterra no ano de 1845. Suspeitou-se que o seu aparecimento na Madeira
datasse de 1851, mas no ano de 1852 é que a doença se propagou e começou a produzir os seus terríveis
estragos. Em Fevereiro de 1851, esteve no Funchal um súbdito francês e, entre a colecção de plantas que
vendeu nesta cidade, encontravam-se algumas variedades de vinha, colhidas em França em localidades já
invadidas pela doença. Supõe um distinto agrónomo que esta tivesse sido a causa da invasão do Oidium
Tuckeri neste arquipélago.
Para nos dar uma ideia aproximada da violência da moléstia e das suas desgraçadas consequências bastará
dizer que a média da produção dos vinhos nos anos de 1849, 1850 e 1851 foi de cinquenta mil hectolitros e
que no primeiro ano da invasão geral da mangra, em 1852, foi de oito mil, tendo em 1853 baixado a três mil
e em 1854 apenas a seiscentos hectolitros. A diferença de 1851 para 1854 é aproximadamente de 80 para 1.
Foi enorme a crise económica produzida em todo o distrito. Não era próspero o estado da ilha, que nessa
época contava apenas com a remuneradora cultura da vinha. A cana sacarina cultivava-se em pequena
escala. A banana e outras frutas, e também as hortaliças não chegavam para a exportação. As industrias da
manteiga e dos bordados existiam em estado rudimentar e só mais tarde atingiram o desenvolvimento que
hoje têm entre nós.
A crise que sucedeu á doença dos vinhedos foi das mais graves que têm assolado este arquipélago. Uma das
consequências dela foi a emigração, que em alguns anos atingiu proporções assustadoras. A fome
estabeleceu arraiais entre nós, com todo o seu cortejo de horrores.
Para acudir a tantos males, mandou o Governo central proceder à construção e repairos de várias estradas,
empregando-se assim alguns centenares de braços, que não tinham ocupação. 0 Governador Civil do
distrito, por alvará de 22 de Novembro de 1852, nomeou uma grande comissão encarregada de promover
nalguns países estrangeiros uma subscrição e a aquisição de donativos, chegando a distribuir socorros no
valor de trinta e sete contos e empregando durante seis meses cerca de trezentos homens em cada dia na
estrada que liga o Funchal com a vila de Camara de Lobos.
João de Andrade Corvo demorou-se dois meses na Madeira e publicou em 1854 uma interessante memória
acerca dos estudos a que procedera neste arquipélago e que é um trabalho que ainda hoje merece ser lido
pelos estudiosos.
A mangra existe ainda nas vinhas do arquipélago e de há muito que se usa do enxofre para combatê-la.
Forma manchas a principio brancas e depois acinzentadas, que aparecem nas folhas, nos pampanos e nos
cachos da videira, e são produzidas pelo micélio e esporos (conídios) do fungo. O micélio vive à superfície
dos órgãos verdes da vinha e emite para dentro deles pequenos sugadores, por meio dos quais se nutre.
V.
Cinzeiro
Mangueira (Mangifera indica)
Pequena árvore da família das Anacardíaceas muito cultivada na
zona inferior da Madeira. É originaria da India, e os seus frutos grandes e amarelos ou avermelhados, são
dos melhores que a Madeira produz. As mangas aparecem desde Agosto até Outubro.
Manhã de Pascoa
Nome vulgar madeirense daEuphorbia pulcherrima , planta lenhosa da família
das Euforbiaceas, originaria do México. As folhas florais são grandes e vermelhas nesta eufórbia.
Manicas
As cavalas emquanto novas recebem esta denominação.
V.
Cavala.
Manicómios
No arquivo da Câmara desta cidade encontramos uma referencia ao pedido feito pelo
senado funchalense no ano de 1493 para a construção dum Tronco, nome com que então se designava a
casa destinada à detenção dos alienados. Julgamos que este pedido não obteve deferimento favorável por
parte do Governo da Metrópole ou do grão-mestrado da Ordem de Cristo, e ignoramos onde por ventura
ficaria o local em que seriam recolhidos os infelizes atacados de alienação mental, nomeadamente os pobres
e miseráveis, se é que teria existido uma casa com aplicação especial a êsse humanitário fim.
O Regimento do Hospital Civil desta cidade, elaborado no ano de 1816, que para a época era um excelente
trabalho e que é em extremo minucioso, descendo por vezes a detalhes e pormenores desnecessários, não
faz referencia alguma á hospitalização ou detenção dos loucos, o que nos leva a supor que eles não seriam
então ali recolhidos. O mesmo acontece com o Regimento de 1834. No Regulamento de 1844 é que pela
primeira vez encontramos a determinação expressa de haver «alguns quartos seguros para loucos, os quais
devem ser separados das outras enfermarias...». Até à construção do Manicómio Camara Pestana, eram os
pobres loucos internados numas dependências do hospital, tornando-se proverbial entre nós a
deshumanidade com que eram tratados pelos enfermeiros e serviçais do mesmo hospital.
O conselheiro José Silvestre Ribeiro que, na administração superior deste distrito, procurou acudir a todas
as necessidades públicas, oficiou à Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia, ponderando as
razões que aconselhavam a construção dum edifício apropriado à hospitalização dos alienados e
prometendo todo o seu apoio à realização desse importante melhoramento. Sucedeu com o estabelecimento
dum manicómio o que semelhantemente se deu com a remoção da antiga cadeia, com a construção do cais,
do molhe da Pontinha, do teatro e mercado de frutas e hortaliças, matérias forçadas da imprensa local,
especialmente em épocas eleitorais ou quando a escassez de assunto levava o jornalista a ferver mais uma
vez o chá do Tolentino.
O que, porém, durante muito tempo constituiu um importante melhoramento a realizar, passou a ser a
satisfação duma imperiosa e impreterível necessidade. A percentagem dos indivíduos atacados de alienação
mental foi-se tornando assustadora, sobretudo pelos motivos que deixámos sumariamente expostos no
artigo Junta Agrícola, ao nos referirmos à necessidade de reprimir o alcoolismo com a mais apertada
restrição da produção de aguardente. A imprensa tornou mais intensa a sua propaganda á vista da
fundamentada recusa da admissão dos alienados no nosso hospital, á repugnante aglomeração desses
desgraçados nos infectos calabouços do comissariado de policia e ao avultado numero deles que vagueavam
por essas ruas e estradas, despertando-se então no público um entranho sentimento de compaixão por
aquelas misérias humanas e ao mesmo tempo uma geral indignação pelo criminoso abandono a que os
poderes públicos votavam os alienados pobres e desprovidos dos indispensáveis recursos para o seu
internamento em casas de saúde apropriadas. A Madeira contribuía para a hospitalização oficial dos
alienados, mas no manicómio de Rilhafoles recusava-se a admissão de doentes enviados desta ilha, devido
certamente á falta das necessárias acomodações. Um distinto medico alienista que esteve de passagem nesta
cidade, verberando energicamente a desoladora situação dos pobres loucos, veio pôr em mais saliente
relevo a necessidade da fundação dum estabelecimento hospitalar destinado a albergar os indivíduos
privados da luz da razão.
Organizou-se então uma comissão, com o fim de levar á pratica essa tão altruísta como humanitária ideia,
que desde logo iniciou os seus trabalhos, sendo estes coroados do mais completo êxito. Foi o dr. António
Jardim de Oliveira um dos primeiros que entre nós sugeriu essa ideia e se tornou um dos seus mais
estrénuos defensores. A existência dum manicómio entre nós é hoje uma feliz realidade, e se este
estabelecimento não corresponde inteiramente ao seu fim, sobretudo pela falta de mais amplas
acomodações e de uma mais perfeita enfermagem, é sem dúvida uma casa de saúde que está prestando
relevantíssimos serviços e que veio preencher uma das mais urgentes e imperiosas necessidades que se
faziam sentir entre nós. (1921)
Morrendo o dr. Luís da Camara Pestana em Lisboa, no dia 15 de Novembro de 1899, logo surgiu nesta ilha e
entre a colónia madeirense da capital a ideia de erguer-se no Funchal um monumento destinado a
perpetuar a memoria do distinto bacteriologista e ilustre filho desta terra. Foi o Ateneu Comercial,
agremiação que há muito deixou de existir, que entre nós tomou a iniciativa de realizar aquela ideia,
delegando nos seus membros honorarios visconde de Cacongo, Luis de Freitas Branco, Henrique Vieira de
Castro, António Rodrigues Leitão e Nicásio de Azevedo Ramos plenos poderes para que a homenagem a
prestar ao abalizado homem de sciencia se traduzisse sem demora numa merecida e palpavel realidade.
Constituídos aqueles cavalheiros em comissão, de que o primeiro foi o presidente e o ultimo o secretario,
apresentou o visconde de Cacongo o alvitre da fundação dum estabelecimento destinado à hospitalização de
alienados, que seria também o monumento a erigir ao dr. Camara Pestana e que teria o nome deste nosso
ilustre conterraneo. A esta comissão foi agregada outra, que nesta cidade se organizara com o fim de
angariar donativos para os inundados dos Açores e que era composta do dr. António Jardim de Oliveira,
conde de Ribeiro Real dr. João Augusto Teixeira e conego Manuel Correia de Figueiredo, comissão que
tinha em seu poder cêrca de dois contos, passando esta importancia a servir de núcleo ou fundo da
comissão do Manicomio Camara Pestana.
Trabalhou esta comissão com todo o zelo e ardor, mas os madeirenses não souberam corresponder aos
diligentes esforços empregados obtendo-se apenas, por subscrição publica, cerca de oito contos de réis,
quantia mais que insuficiente para realizar a obra que se empreendera, não só quanto á construção do
edifício e instalação do hospital, mas principalmente quanto ao regular funcionamento do estabelecimento,
embora se tratasse do internamento dum reduzido numero de doentes.
Surgiram diversos alvitres com relação ao local em que deveria ser construído o edifício hospitalar,
tendo especiais preferências a cerca do extinto convento da Incarnação, mas, apesar das diligencias
empregadas, não se conseguiu do governo central a cedência dum tracto de terreno destinado àquela
construção. Também foi lembrada a sua instalação numa parte do hospital dos Lazaros e igualmente se
pensou numa das dependencias do edificio da Misericordia, reconhecendo-se depois que esses recintos não
se prestavam à regular acomodação dum manicómio, embora se procedesse ali ás indispensáveis e custosas
obras de adaptação. Resolveu por fim a comissão, depois de ouvidos os pareceres das autoridades
sanitárias, adquirir a quinta do Rochedo, situada na freguesia de São Gonçalo, efectivando-se a respectiva
compra a 28 de Março de 1904, pela importância de cinco contos.
Pouco depois fez a comissão oferta do edifício, e de alguns donativos que conservava em seu poder, à Junta
Geral do distrito, não somente pela impossibilidade em que se encontrava de acudir à sustentação do
hospital, mas ainda porque àquela corporação administrativa cumpria manter a hospitalização dos
alienados, em harmonia com o preceituado no decreto de 10 de Outubro de 1902. A Junta Geral aceitou e
agradeceu a doação feita, sendo esta deliberação confirmada pelo governo central a 10 de Maio de 1904.
Suscitaram-se duvidas e levantaram-se algumas dificuldades com relação á entrega do edifício da quinta do
Rochedo, em virtude das cláusulas impostas pela comissão doadora, vindo a realizar-se a cedência definitiva
no ano de 1907, mas tendo no entretanto a mesma Junta mantido o regular funcionamento do hospital.
No recinto da quinta Rochedo, fez a comissão fundadora construir um pavilhão para alojamento dos
doentes e adaptou ao mesmo fim a casa de moradia da mesma quinta, tendo ali instalado o estabelecimento
hospitalar que sustentou e manteve durante algum tempo.
A subscrição publica atingiu cerca de dez contos e quinhentos mil réis, incluindo nesta importância os juros
que se acumularam, os dois contos da comissão dos inundados e um legado de mil e quinhentos escudos de
D. Júlia Maria Torres da Costa. A estas quantias, deu a benemérita comissão o seguinte destino: compra da
quinta e respectiva contribuição 5.656$000, construção do primeiro pavilhão 3.393$00, roupas e
mobiliario 627$00, e aquisição do busto do dr. Camara Pestana 402$00.
A inauguração do novo estabelecimento hospitalar revestiu particular solenidade, sendo também nesta
ocasião inaugurado o busto em bronze do nosso ilustre e malogrado patricio, em cuja base se lê a seguinte
inscrição: Este Manicómio foi fundado por subscrição pública e é consagrado à memoria do illustre
bacteriologista madeirense Dr. Luis da Camara Pestana.
A comissão que tomou a iniciativa da fundação deste hospital era composta do visconde de Cacongo, dr.
António Jardim de Oliveira, Henrique Vieira de Castro, Nicásio de Azevedo Ramos, conde do Ribeiro Real,
conego Manuel Correia de Figueiredo, dr. João Augusto Teixeira, M. Nascimento de Ornelas, Sabino
Joaquim Rodrigues e António Rodrigues Leitão, mandando a justiça e a verdade dizer aqui que o visconde
de Cacongo, Henrique Vieira de Castro e Nicásio de Azevedo Ramos, respectivamente presidente, tesoureiro
e secretario, foram os membros da mesma comissão que maior zêlo e dedicação desenvolveram na
realização de tão altruísta e humanitário pensamento.
Em 1908, comprou a Junta Geral uns terrenos adjacentes à quinta e pertencentes ao capitão Candido
Gomes, e neles fez edificar em 1913 um novo pavilhão, havendo o numero crescido de alienados levado a
mesma corporação a construir um terceiro pavilhão no ano de 1915.
A inauguração do Manicomio realizou-se a 4 de Abril de 1906 e no mês de Maio seguinte foram os médicos -
cirurgiões José Joaquim Mendes e João José Maria de Oliveira nomeados respectivamente director e
enfermeiro-geral interinos do novo hospital. O seu actual director efectivo (1921) é o dr. João Francisco de
Almada, que tomou posse do cargo no mês de Julho de 1907.
O Regulamento do Manicomio Camara Pestana foi elaborado por uma comissão delegada da Junta Geral e
teve a plena aprovação da mesma Junta na sua sessão ordinária do mês de Novembro de 1906.
Em fins de Dezembro de 1919 e 1920, estavam ali internados respectivamente 54 e 54 alienados, sendo de
28:627$00 a despesa feita com a sustentação dos doentes no ano de 1920.
Em 21 de Maio 1924, foram removidos para a casa de saúde do Trapiche, estabelecida em princípios do
mesmo ano pelos beneméritos irmãos de S. João de Deus, 38 alienados do sexo masculino que se achavam
no manicomio Camara Pestana, continuando neste estabelecimento os doentes do sexo feminino, cujo
tratamento foi confiado a uma corporação religiosa.
Pelo que fica dito, vê-se que, a partir do ano de 1924, sofreram os serviços hospitalares de alienação mental
uma notável transformação, não somente pelo facto de serem os doentes do sexo masculino instalados na
Casa de Saúde do Trapiche e ficar o edifício do Manicomio Câmara Pestana unicamente reservado aos
enfermos do sexo feminino, mas ainda pela grande melhoria no tratamento dos internados, que se tornou
verdadeiramente modelar em ambas as instalações, não receando confrontos com os estabelecimentos
similares que se encontram no nosso país.
Do livro «Paróquia de Santo António da Ilha da Madeira», vão extractar-se algumas páginas acerca da
historia e funcionamento da Casa de Saúde de São João de Deus» estabelecida no sitio do Trapiche.
A ideia do estabelecimento dum hospital para alienados, nas casas do Trapiche, é anterior á fundação do
Manicomio Camara Pestana. Essa concepção partiu do bispo diocesano D. Manuel Agostinho Barreto, que
empregou os mais diligentes e aturados esforços para a sua realização, conseguindo que a proprietária
fizesse a cedência da quinta destinada aquele fim e insistindo junto dos irmãos de São João de Deus para
que estes tomassem a direcção do Manicomio a fundar. As suas diligencias não foram então coroadas de
bom êxito, tendo surgido graves dificuldades que não puderam ser vencidas. Convém ficar bem acentuado
que desejou ardentemente, e nesse sentido trabalhou com a maior dedicação e entusiasmo, dotar este
arquipélago com um hospital modelar de alienados, sendo êste mais um titulo de gloria a ennobrecer as
suas eminentes qualidades de benemérito e apostólico prelado.
Criou-se o Manicómio Câmara Pestana no ano de 1906 e D. Manuel Barreto continuou a julgar necessária a
fundação do Trapiche, prevendo que num futuro próximo se tornaria absolutamente indispensável mais
essa instituição hospitalar. Por essa época e talvez ainda antes dela, alguns irmãos de São João de Deus, que
por mais duma vez tinham vindo á Madeira fazer peditórios para as obras de hospitalização que mantinham
no Continente, reconheceram quanto seria util e frutuosa a sua acção nesta ilha, atendendo ao numero
considerável de doentes, que precisavam de ser internados nas condições exigidas pela sciencia e de
harmonia com os preceitos da verdadeira caridade cristã.
Por 1920, pensou-se na entrega da direcção do Manicomio Camara Pestana aos irmãos de São João de
Deus, levantando-se então uma grande celeuma na imprensa e nas sessões da Junta Geral. No entanto, vai
tomando corpo a antiga ideia da fundação do hospital no Trapiche. Presta-lhe o seu mais incondicional
apoio o prelado diocesano sr. D. António Manuel Pereira Ribeiro, e a dedicação e o desinteresse do dr. João
Francisco de Almada, conjugados com os bem orientados esforços dalguns irmãos de São João de Deus,
fazem o resto. A obra seria em breve uma palpavel realidade.
Em princípios do mês de Junho de 1922, os irmãos de São João de Deus ocupam as casas da quinta do
Trapiche. É uma instalação mais que rudimentar, em que as dificuldades surgem de todos os lados, pondo
em grande prova o espirito de abnegação e sacrifício dos pobres irmãos. A coragem não lhes falta e logo
recebem alguns poucos doentes, não alienados, desta freguesia. Estava iniciada a sua cruzada de bem fazer.
Os primeiros doentes privados da razão só foram ali internados em Outubro de 1923. 0 período decorrido
entre aquelas duas datas foi especialmente consagrado a realizar alguns peditorios por vários pontos da ilha
e à aquisição dos meios indispensáveis para a adaptação do edifício ao fim a que agora se destinava. Uma
parte considerável da casa solarenga encontrava-se em estado adiantado de ruína, sendo além disso difícil a
sua acomodação para nela se instalarem, em condições de segurança, indivíduos atacados de perturbações
mentais. Tiveram por isso os irmãos que lutar com grandes trabalhos e sacrifícios, para preparar
convenientemente o edifício e torná-lo apto para a recepção dos primeiros doentes. O seu numero foi
aumentando e desde logo se reconheceu os assinalados e nunca excedidos serviços que a nova instituição
vinha prestar.
Em Maio de 1924, agitou-se na Junta Geral a questão da transferência dos alienados do Manicomio Camara
Pestana para a Casa de Saúde do Trapiche, pondo-se em saliente relevo, no seio daquela corporação, não
somente a insuficiência da enfermagem, o acanhado das instalações e o tratamento brutal e deshumano
prestado aos doentes, mas ainda os escandalos de toda a ordem, que se davam no interior daquela Bastilha,
como então foi chamado á casa de alienados da Quinta do Rochedo. Impunha-se absolutamente a
transferência dos doentes para o hospital do Trapiche. O principal paladino desta ideia foi o dr. Domingos
Réis Costa, que, apoiado pelo presidente da Junta Geral dr Vasco Gonçalves Marques e por outros vogais,
advogou com o maior entusiasmo, tanto nas sessões dêste corpo administrativo como na imprensa local, o
imediato internamento dos doentes do Manicómio na Casa de Saúde dos Irmãos de São João de Deus. Esta
transferência deu-se no dia 21 de Maio de 1924, tendo sido transferidos 38 alienados do sexo masculino da
Quinta do Rochedo para a quinta do Trapiche. Estava realizada uma grande obra de humanidade.
A inauguração solene deste manicómio realizou-se no mês de Agosto de 1924 com a assistência do ilustre
prelado diocesano, provincial da ordem de São João de Deus e de outras pessoas de representação social.
Para a manutenção legal da Casa de Saúde do Trapiche, constituiu-se uma agremiação, com os seus
estatutos aprovados pela autoridade competente, denominada «Associação dos Irmãos de São João de
Deus». Dela foi director, desde o inicio da fundação hospitalar até o ano de 1928, o membro da Corporação
Manuel Maria Gonçalves, que, apesar da simplicidade do seu trato, desafectada modéstia e precaria saúde,
conseguiu orientar e levar a cabo aquela obra, que é uma instituição modelar da mais acendrada caridade
para com os doentes e ao mesmo tempo um calvário das mais heróicas virtudes por parte dos seus
beneméritos e inexcedíveis enfermeiros.
Despertou-se por toda a parte um vivo entusiasmo pelos relevantes serviços prestados pela nova casa de
alienados. Vão aparecendo esmolas e donativos, que ali acorrem levados pelas chamadas romagens. Grupos
muito numerosos de indivíduos de todas as idades, sexos e condições, formam grandes romarias, que vão
depor os seus óbulos de dinheiro, de géneros alimentícios e de objectos de uso domestico de toda a ordem
nas mãos dos dirigentes. Essas romarias tiveram seu inicio nesta paroquia e aqui prosseguiram por largo
tempo, sendo especialmente dignas de menção as dos sítios das Casas Próximas, Madalena, Preces, Três
Paus e Boliqueme que constituíam extensos cortejos dum atraente pitoresco, em que o espírito de bem-fazer
se casava admiravelmente com a mais interessante e tipica originalidade. Outras freguesias tomaram
também a iniciativa de idênticas romarias, com proporções ainda mais aparatosas entre as quais
sobressaíram as do Monte, São Roque, Câmara de Lobos e Estreito.
Dos muitos e importantes melhoramentos, realizados pelos irmãos de São João de Deus, é forçoso salientar
a construção da estrada para automóveis, que pôs a casa do Trapiche em rápida e directa comunicação com
o sitio do Boliqueme e portanto com a cidade, a ligação da mesma casa com a rede geral dos telefones, a
canalização de aguas e as obras preparatorias para a edificação de novos pavilhões, sem contar a adaptação
dos antigos edifícios para a instalação do hospital, como já deixámos acima referido.
O movimento de doentes neste estabelecimento hospitalar, desde a sua fundação, tem sido o seguinte,
referido a 31 de Dezembro de cada ano:
1923 em 31 de Dezembro existiam 2
1924 « « « « « 59
1925 « « « « « 79
1926 « « « « « 87
1927 « « « « « 88
1928 « « « « « 104
Tem esta Casa de Saúde, como todas as suas similares, um serviço especial de culto, de que é director o
capelão privativo do estabelecimento. Apesar da sua acção religiosa se destinar particularmente ao uso dos
doentes e da comunidade que ali trabalha, têm os sacerdotes irmãos de São João de Deus tomado parte nos
diversos actos do culto realizados nesta freguesia, sendo os mais excelentes e desinteressados auxiliares dos
respectivos párocos. Na sua capela administram prontamente os sacramentos aos fiéis que os procuram,
atendem os enfermos nos seus domicilios com os socorros espirituais, acompanham os mortos à sua ultima
jazida e prestam na Igreja Paroquial todos os serviços que lhe são solicitados. O primeiro capelão foi o padre
José Maria Antunes, que ali serviu desde Fevereiro de 1923 a Julho de 1925. No mês de Agosto do mesmo
ano, foi substituído pelo padre Lazaro Ribeiro, que é o actual capelão em serviço (1928).
A história desta modelar Casa de Saúde, desde a sua instalação até a actualidade, além do numero sempre
crescente dos seus internados e dos melhoramentos materiais que ali se vão progressivamente
introduzindo, consiste apenas nesta cousa simplicissima, mas admiravelmente bela e também
admiravelmente santa: sempre o mesmo espírito de coragem, de abnegação e de sacrifício por parte dos
incansáveis enfermeiros, sempre o tratamento mais assíduo e mais carinhoso para com os doentes, sempre
o mais desvelado cuidado pelo seu bem estar material, e isto, também sempre, sem uma fraqueza, sem um
desfalecimento, sem um desanimo, apesar das dificuldades, dos contra tempos e das lutas que é preciso
sustentar de quando em quando.
Os dados e informações, que ficam transcritos, não vão além do ano de 1928, mas são muito importantes e
merecem especial registo os progressos realizados naquela casa de saúde, nos últimos anos decorridos, dos
quais deixaremos aqui uma resumida noticia.
Além de outros melhoramentos, construíram-se dois grandes pavilhões para alojamento dos doentes, uma
ampla capela, casa para residência do pessoal e uma vacaria.
Nos dois pavilhões, o de S. José para os doentes calmos e o de S. João de Deus para doentes agitados, há
espaçosas salas de jantar, de recreio e de jogos, de banhos, dormitórios, quartos particulares, etc.. E tudo
obedece á higiene e aos últimos dados da ciencia psiquiátrica.
Junto dos pavilhões, existem pátios para recreio dos doentes artisticamente ajardinados, cobertos de
árvores da sombra; de onde se contempla um belo panorama sobre a cidade e grande parte dos seus
arredores.
O tratamento dos doentes progride continuamente. Podem os madeirenses orgulhar-se de ter hoje uma
Casa onde os nossas doentes mentais disfrutam juntamente com o carinho e a caridade cristã, das últimas
exigências da Psiquiatria.
Quem alguma vez tenha visitado o velho Manicómio Câmara Pestana com o seu apertado regime de
vigilância, medidas de repressão e isolamento, pasmará da vida desta Casa, outrora tida por impossível e
irrealizável.
Muitos doentes vivem como se tivessem saúde. Já não passam uma vida de repressão durante vinte, trinta e
mais anos. Muitos trabalham nas oficinas de sapataria, carpintaria, de cerralharia, nas diferentes
construções e reparações dos edifícios, no cultivo da horta, no cuidado dos animais domésticos, como vacas,
cabras, porcos, coelhos, galinhas. Eles é que fazem a limpeza nos refeitórios e dormitórios. O ajardinamento
dos pátios e dos jardins do estabelecimento está ao seu cuidado. E tudo fica tão perfeito como se fosse feito
por pessoas de excelente saúde.
Deste modo, os beneméritos irmãos de S. João de Deus conseguem distrair algumas centenas de homens
que de outro modo seriam a causa do seu proprio mal-estar.
Além disso, o distinto médico psiquiatra Anibal Augusto Faria e o ilustre clinico dr. William Clode visitam
três vezes semanalmente os doentes e empregam os últimos dados da ciencia alienista como o
electrochoque, etc.
A agremiação «Associação dos Irmãos de São João de Deus» instituída para a manutência legal desta Casa
de Saúde deixou de existir em 1940, porque foi concedida então personalidade jurídica à «Ordem
Hospitalária de S. João de Deus » devido á Concordata feita entre a Santa Sé e Portugal, continuando a ser
mantida pela Junta Geral deste Distrito.
O movimento hospitalar da «Casa de São João de Deus», do Trapiche, relativo ao numero de doentes, nos
últimos quinze anos, foi o seguinte:
1929 ............................. 118
1930 ............................. 122
1931 ............................. 143
1932 ............................. 152
1933 ............................. 162
1934 ............................. 167
1935 ............................. 175
1936 ............................. 168
1937 ............................. 180
1938 ............................. 186
1939 ............................. 189
1940 ............................. 194
1941 ............................. 215
1942 ............................. 238
1943 ............................. 239
Estes dados dizem respeito ao numero exacto de doentes existentes no hospital no dia 31 de Dezembro de
cada um dos anos referidos.
O serviço religioso, para uso privativo da comunidade e dos doentes, que o podiam e queriam aproveitar,
fazia-se na antiga capela da quinta e passou a realizar-se nas dependências de um dos «pavilhões» até o ano
de 1936, em que teve lugar a inauguração da nova igreja dedicada ao santo fundador da benemérita ordem
hospitaleira de São João de Deus, que embora particularmente se destine ao fim acima indicado, presta aos
moradores daquele lugar e dos sitios circunvizinhos os mais prestimosos serviços de toda a assistência
religiosa.
Do período decorrido de 1906, ano da fundação do «Manicomio Camara Pestana» até 1924, ano em que
ficou unicamente destinado ao tratamento dos doentes do sexo feminino, passando então todos os do sexo
masculino para a Casa de Saúde do Trapiche, já foi dada desenvolvida notícia nas primeiras colunas dêste
artigo acêrca dos «Manicomios».
Passado um ano, isto é, a partir de 9 de Maio de 1925, foi o «Manicomio Camara Pestana», da freguesia de
S. Gonçalo, entregue a direcção das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, que até ao presente
têm ali exercido os seus penosos e arduos trabalhos hospitalares com o maior zelo, acendrada dedicação e a
mais proficiente competência. Ao desempenho destes serviços, aplicamos, incondicionalmente o que acima
deixamos dito acerca da maneira como eles têm decorrido na «Casa de São João de Deus» do Trapiche na
freguesia de S. António.
O movimento da «Casa de Saúde Camara Pestana», exclusivamente destinado ao tratamento de indivíduos
do sexo feminino, fica bem expresso, no numero de doentes ali existente, no dia 31 de Dezembro de cada um
dos anos seguintes:
1926 ............................... 64
1927 ............................... 67
1928 ............................... 77
1929 ............................... 105
1930 ............................... 117
1931 ............................... 135
1932 ............................... 153
1933 ............................... 169
1934 ............................... 183
1935 ............................... 191
1936 ............................... 201
1937 ............................... 232
1938 ............................... 249
1939 ............................... 232
1940 ............................... 260
1941 ............................... 272
1942 ............................... 283
1943 ............................... 286
Manifestações de Regozijo
Além da musica e das iluminações, que são provavelmente de todos
os tempos, por outras formas costumavam manifestar outrora os madeirenses o seu regozijo em dias de
festas ou de feriado nacional. Refere Frutuoso que entre as festas que se realizaram no Funchal para
comemorar o nascimento do príncipe D. João, filho de D. João III, se correram «muitos touros grandes e
bravos», sendo o lugar das touradas um campo junto do adro da Sé, onde também se jogavam as canas e
havia outros divertimentos.
Em 9 de Dezembro de 1761, resolveu a Câmara Municipal do Funchal realizar alguns festejos pela noticia do
nascimento do príncipe, D. José, de harmonia com o que fora já deliberado em sessão de 29 de Outubro do
mesmo ano, em vista de um oficio do Governador e Capitão General, tendo consistido os mesmos festejos
no seguinte, segundo se lê no livro das actas das sessões da dita Camara: «Tres dias de luminarias publicas,
com todas as invenções de fogos conducentes e percizos ao mesmo festejo, e nas tardes dos três dias que se
andem assignar, na primeira haverá umas cavalladas, preparando-se o curro com asseio percizo e
competente para a mesma função, e na segunda correr-se-há um pato, em cuja tarde haverão alguns carros
de musica e outros festejos que encham a mesma tarde; e na terceira tarde haverá uma representação de
figuras a cavallo, em que representarão as quatro partes do mundo, e com ellas a ilha da Madeira e todas as
mais villas della, e alem d'este festejo haverá tambem argolinha».
O jogo ou divertimento da argolinha, em que o cavaleiro devia no rápido galope do seu cavalo enfiar com
uma lança uma ou mais argolas colocadas no campo, era muito do agrado dos madeirenses, tendo tido lugar
pela ultima vez no Funchal, há pouco mais de trinta anos.
Nos dias considerados de regozijo nacional, como eram os dos aniversários régios, havia nos tempos do
absolutismo beija-mão no palácio de S. Lourenço, sendo para êste fim exposto sob um docel, numa das salas
do mesmo palácio, o retrato do monarca reinante. A titulo de curiosidade, damos a seguir o texto dum aviso
dirigido em 1815 aos vereadores da Câmara Municipal do Funchal, em vésperas do aniversario da rainha D.
Maria I, para comparecerem na referida cerimonia:
«0 Ill.
mo
Dr. Juiz de Fora, Presidente, determina e avisa a V. Sª. que no domingo, 17 do corrente, logo depois
do Te-Deum, se ache V. Sª. na sala das vereações, para d'alli sahir com os mais senhores vereadores em
corpo formado da Camara ao palacio de S. Lourenço, onde o Ex.
mo
Governador e Capitão General deste
Estado dá um respeitavel beija-mão para celebrar o feliz anniversario da Serenissima Rainha Nossa
Senhora».
Era costume noutras epocas as festas de caracter oficial durarem três dias, tendo havido, por exemplo,
grandes iluminações no Funchal nos dias 4, 5 e 6 de Janeiro de 1803, por causa do nascimento dum infante;
nos dias 10, 11 e 12 de Fevereiro de 1807, por idêntico motivo; nos dias 7, 8 e 9 de Julho de 1815, por causa
duma solenidade religiosa em honra de S. Tiago Menor; nos dias 11, 12 e 13 de Outubro de 1823, por ter o
«rei de Espanha sido restituído à plenitude dos seus régios poderes»; em principios de 1826, por ter D. João
VI tomado o titulo de imperador do Brasil e rei de Portugal; nos dias 6, 7 e 8 de Agôsto do mesmo ano, pela
proclamação da nova constituíção; nos dias 12, 13 e 14 de Março de 1828, pela chegada de D. Miguel a
Lisboa; nos dias 7, 8 e 9 de Fevereiro de 1829, pelas melhoras do mesmo principe; e nos dias 11, 12 e 13 de
Dezembro de 1834 por causa do casamento da rainha D. Maria II com o principe Augusto, duque de
Leuchtenberg. Quando casou D. Maria II, suspendeu-se por tres dias o luto nacional que fôra decretado pelo
falecimento de D. Pedro, duque de Bragança:
O decreto de 19 de Novembro de 1825 determinou que nos tribunais e noutras repartições publicas se não
fizesse uso de cera nas iluminações, mas sim de azeite, encerrando-se as luzes em lanternas colocadas na
parte exterior das janelas, tendo sido nos festejos que se realizaram no Funchal por haver D. João VI
tomado o titulo de imperador e rei, que a Câmara Municipal se serviu pela primeira vez nos Paços do
Concelho do sistema de iluminação recomendado naquele diploma.
Os festejos que tiveram lugar no Funchal no dia 28 de Janeiro de 1822 para comemorar o primeiro
aniversário da proclamação da Constituição revestiram uma desusada imponência, segundo se vê da
descrição que deles fez o n.° 62 do Patriota Funchalense, e muitos outros houve que seriam dignos também
de menção, se nos propusessemos dar uma noticia de todas as manifestações de regozijo a que encontramos
referencias nos jornais e documentos antigos que compulsámos.
A falta de comparência das chamadas pessoas da governança nas cerimonias religiosas ou profanas
destinadas a solenizar os aniversários regios, era, nos tempos do absolutismo, punida com prisão na cadeia
publica ou numa fortaleza, sendo esta também a pena em que incorriam aquelas que sem motivo
justificado, deixavam de acompanhar a procissão de Corpus Christi. Os fidalgos e demais pessoas de
categoria da cidade deviam, em dias de gala, iluminar os seus predios e associar-se a outras demonstrações
de regozijo de caracter oficial que era uso fazerem-se.
Nos artigos Festas do Espírito Santo, Jogo de Canas, Natal, Procissões, Rambles in Madeira, Romarias, etc ,
encontrarão os leitores outros esclarecimentos com respeito a festas, distracções e manifestações de regozijo
dos madeirenses, quasi todas sem carácter oficial. Para concluir esta noticia, acrescentaremos apenas que o
costume de festejar com tiros, foguetes e outros fogos de artificio a transição do ano velho para o novo, na
noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, não é muito antigo, e que somente principiou a generalizar-se há
45 para 50 anos (1921), tendo sido o falecido negociante João José Rodrigues Leitão quem, segundo se
afirma, o estabeleceu na Madeira pelos anos de 1860 a 1865.
Manilha
A medição das aguas fazia-se outrora por manilhas, anéis e penas, contando cada manilha 16
anéis e cada anel oito penas.
A manilha, segundo se lê num oficio datado de 8 de Novembro de 1849 e publicado no vol. II da Epocha
Administrativa, era «um orificio com um palmo de circunferencia.»
A manilha é uma medida pouco usada hoje, mas as aguas potáveis continuam a ser vendidas às penas,
meias penas e quartos de pena, como na época em que não estava em vigor o sistema metrico decimal.
V.
Pena de água.
Manjericão
Labiada aromática e pertencente ao géneroOcimum, muito cultivada, principalmente em
vasos, no Funchal e nos campos.
Manso (D. Manuel Martins)
Foi D. Manuel Martins Manso o 24º. bispo do Funchal, tendo estado
á frente da administração desta diocese desde 16 de Novembro de 1850 a 13 de Junho de 1858.
Nasceu no concelho de Mogadouro a 21 de Novembro de 1793 e morreu na cidade da Guarda a 1 de
Dezembro de 1878.
No ano de 1819, concluiu a sua formatura em canones na Universidade de Coimbra e ordenou-se de
presbítero em 1822, tendo sido em 1824 nomeado vigário geral de Bragança, onde por varias vezes foi
vigário capitular governador da diocese.
Apresentado bispo do Funchal a 18 de Abril de 1849, foi confirmado pela Santa Sé a 28 de Maio de 1850,
recebendo a sagração episcopal a 8 de Outubro do mesmo ano.
Referindo-se a este prelado, diz o dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo: oculto e virtuoso, o bispo Martins
Manso foi o Bom pastor na diocese do Funchal e da mesma maneira procedeu na da Guarda, para onde foi
transferido em 1858». Durante os oito anos que presidiu aos destinos da igreja funchalense, mostrou-se
sempre muito zeloso no cumprimento das suas funções episcopais, deixando entre nós as mais honrosas
tradições. Ainda hoje são lembradas a prudência, mansidão e espírito evangélico com que dirigiu os
negócios deste bispado, captando a mais geral simpatia, pelo que foi muito sentida a sua partida para a
diocese da Guarda.
Manta (Buteo vulgaris)
Ave da família Falconida, que se encontra principalmente na região alta da
Madeira e que constrói os seus ninhos nas rochas, sobre os loureiros, etc..
Arrebata pequenas aves e é hoje menos frequente do que outrora, por ser muito perseguida pelos caçadores.
Os seus ovos são manchados.
Mantegazza (Paulo)
Há poucos anos e posteriormente a 1905, publicou-se em Lisboa uma
tradução, feita por Henrique Braga, da obra do ilustre escritor e psicólogo italiano Paulo Mantegazza,
intitulada
Uma pagina de Amor (Um dia na Madeira
), que é no seu conjunto um trabalho de pura ficção,
mas que encerra algumas interessantes paginas sobre a Madeira, que merecem ser lidas, especialmente pela
beleza da linguagem e pela originalidade do seu entrecho. A tradução é feita sobre a 24.ª edição italiana,
sendo, das obras que contenham referencias a este arquipélago, aquela que logrou maior numero de
edições, devido exclusivamente ao nome laureado do autor e á passional acção amorosa que se desenvolve
no decurso de toda a obra. Fecha o livro com uma pequena notícia sobre a Madeira e um capitulo com uma
resenha de varias obras que se ocupam desta ilha. Uma e outra oferecem algum interesse, apesar das
inexactidões que contêm.
Manteiga
Vid. Industria de Lacticíniosa pág. 149.
Manuel de Castro (Rampa e ponte de D.)
Deu o nome a esta via publica D. Manuel de
Portugal e Castro, que foi Governador e Capitão General deste arquipélago de 1823 a 1825. Mandou
construir a ponte e alargou uma estreita rampa que ali existia. Fica entre o extremo sul da rua Direita e a
rua 5 de Outubro, em frente da travessa dos Açougues, que comunica com a rua dos Tanoeiros.
Manz (Gustavo)
E.:Madeira, Ruck-und Ausblicke von einer Fruhjahrsreise (Westermanns
Illustrierte Deustsche Monatshefte Braunschweig , 1906).
Mãozinhas de Nossa Senhora
V.Alecrim de Nossa Senhora.
Maracotão
Fruto de um damasqueiro cultivado na Madeira.
Maracujá
As Passifloraceas a que os madeirenses dão êste nome são as seguintes:
Passiflora ligularis
,
do Peru;
P. edulis
, do Brasil;
Tacsonia mollissima
, de Quito; T.
Van Wolxemii
, de Nova Granada; e
T.
Parritae,
de Tolima. O género Passiflora distingue-se do genero Tassonia em ter o tubo do calice muito
curto. A primeira especie (maracuja amarelo ou ingles) e a segunda (maracujá roxo) são as mais apreciadas
na ilha. Diz-se que o sumo dos frutos da
P. edulis
é util no tratamento das molestias cancerosas.
Maravilhas (Impatiens Balsamina)
Planta anual da familia das Balsaminaceas, originaria da
India. É muito cultivada nos jardins da Madeira.
Maravilhas (Rua das)
Fica entre a rua da Cabouqueira e o começo do caminho de Santo António,
terminando num pequeno largo que tem igualmente o nome de Maravilhas. Existia e existe ainda neste
largo uma quinta chamada das Maravilhas, que tem êste nome por nela ter sido edificada uma capela
dedicada a Nossa Senhora das Maravilhas (V. êste nome).
March (João Howard)
No artigo Ingleses (pág. 164), fizemos já uma ligeira referencia a John
Howard March, dizendo que pertencia a nacionalidade inglesa, sendo certo que ele nasceu nos Estados
Unidos da América do Norte e era súbdito deste país. Foi um rico comerciante no Funchal, tendo algumas
vezes exercido o cargo de consul americano. Notabilizou-se entre nós pelos actos de grande benemerencia
que praticou, não somente socorrendo com extraordinária generosidade a pobreza desta terra e algumas das
casas de caridade, mas contribuindo também liberalmente para a realização de vários melhoramentos
públicos, sustentação de escolas, etc.. Apesar de professar a religião protestante, reedificou a igreja do Santo
da Serra e o vasto adro que a circunda. Em 1828, emprestou o dinheiro preciso para o pagamento das tropas
miguelistas que se haviam apoderado do Funchal, ao mesmo tempo que recolhia em sua casa muitos
constitucionais afim de protegê-los contra as perseguições dos absolutistas, e por ocasião da crise da fome
que assolou esta ilha nos anos de 1846 e 1847, prestou relevantes serviços e muito concorreu para o bom
êxito das subscrições que neste arquipélago e no estrangeiro se abriram a favor dos pobres da Madeira.
Por ser republicano, não podia nessa época o governo português agraciá-lo com qualquer dos graus das
ordens militares então existentes, e por isso mandou cunhar uma medalha de oiro especial, para galardoar
os relevantes serviços prestados por aquele súbdito norte-americano.
Marés
A pág. 378 do 1º. vol. da obra «Ilhas de Zargo», encontram-se as seguintes informações, que
tomamos a liberdade de transcrever textualmente:
«Sôbre o movimento das correntes das marés da Madeira, foram-nos fornecidas amàvelmente pela Missão
Hidrográfica das Ilhas Adjacentes estas seguras notas:
Durante a enchente, as aguas vêm dos quadrantes do S., durante a vazante, do quadrante de N. E..
As aguas da enchente dividem-se na costa S. da Madeira, correndo para W. e para a partir da zona da Ponta
do Sol à Ponta do Jardim do Mar. Desta Ponta até á Ponta do Pargo, as correntes marítimas desenvolvem-se
geralmente de N. W. junto da costa.
As correntes respectivas têm direcções paralelas ou ligeiramente inclinadas para a costa, sendo por vezes
bastante fortes ao largo (zona dos 500 ms. de fundo aproximadamente). Junto das pontas, tornam-se mais
fortes dando lugar por vezes a encontro de aguas como se observam na Ponta do Pargo e principalmente na
Ponta de S. Lourenço, onde as suas velocidades atingem cerca de 2 milhas em marés vivas.
As correntes de enchente fazem-se sentir principalmente na costa S., nas Pontas do Pargo e de S. Lourenço,
e também na costa N.W., na Ponta do Tristão e junto do Ilhéu Mole (Porto do Moniz).
As aguas de vazante produzem fortes correntes para S.S.W. na Ponta de S. Lourenço, para W. na Ponta de S.
Jorge e para S.W. no Ilhéu Mole e Ponta do Tristão. As águas correm quasi paralelamente à costa desde a
Ponta de S. Jorge para o Ilhéu Mole, isto é na costa norte; na costa N.E. as correntes são nulas ou muito
fracas, excepto nas profundidades da Ponta do Barlavento.
As correntes de vazante fazem-se sentir principalmente na costa N., sobretudo na Ponta de S. Lourenço e
Ilhéu Mole onde atingem, em marés vivas, velocidades de 1,5 milhas.
Em marés mortas, as correntes são em geral nulas ou muito fracas. Sobre estas correntes exercem influencia
os ventos predominantes e as situações barométricas do Atlântico Norte.
No Funchal, fazem-se sentir principalmente as correntes de enchente que têm direcções ligeiramente
inclinadas para a costa (E.N.E.) e atingem, em marés vivas, velocidades de cerca de 1,2 milhas, a cerca de
meia enchente. As correntes de vazante são em geral nulas ou muito fracas, correndo as aguas para E.N.E. e
outras vezes para W.
No Porto do Moniz, fazem-se sentir em marés vivas tanto as correntes de enchente com as de vazante, mas
principalmente durante a enchente produzem-se correntes de reversa e estoques de água no começo dentro
do porto, correndo as águas mais direitas durante a vazante, à velocidade de 1 milha.
No Porto da Cruz, as correntes são em geral bastante fracas ou nulas.
Na Ilha do Porto Santo, as correntes marítimas atingem maiores velocidades nas marés vivas, correndo dos
quadrantes S. durante a enchente, e do quadrante N.E. durante a vazante. Fazem-se sentir principalmente
na Ponta S. do Ilhéu de Cima onde as águas correm para N.E., em marés vivas, com a velocidade de 1 milha
durante a enchente, e com a de 1,5 durante a vazante. Na Ponta do Ilhéu de Baixo, durante a enchente,
correm para W. ou E. com a velocidade de 1 milha, em marés vivas, durante a vazante.
As marés são muito regulares, havendo diariamente dois preamares e dois baixamares. Os valores das
constantes harmónicas e não harmónicas são os dos quadros determinados pela Missão Hidrográfica das
Ilhas Adjacentes. Pela comparação entre os valores dos estabelecimentos do porto se obtêm as diferenças
entre as horas dos preamares e baixamares dos respectivos portos». Esses quadros vem insertos a pág. 380
e seg. das Ilhas de Zargo.
Desde 1939 que a «Junta Autonoma dos Portos do Arquipélago da Madeira» publica anualmente um
interessante opusculo intitulado Tabela das Marés no Porto do Funchal, em que desde o dia 1 de Janeiro até
31 de Dezembro se indicam com precisão, em determinadas horas, as alturas dos preamares e baixa-marés,
tomadas de manhã e à tarde dentro do pôrto do Funchal. Esses dados são precedidos das seguintes
advertencias:
«Esta tabela foi calculada pela Missão Hidrológica das Ilhas Adjacentes, a partir dos registos de 1937,
fornecidos pelo marégrafo da mesma Missão, instalado no Molhe da Pontinha. As alturas da tabela de
marés são referidas ao plano do zero hidrográfico, que fica situado 1 m, 40 abaixo do nível médio oceânico
(1937) e 4m,138 abaixo da marca do nível da Missão Hidrográfica das Ilhas Adjacentes existentes no bordo
superior do poço do seu marégrafo. – As horas são de tempo legal do Funchal (tempo médio de Greenwich
menos uma hora).
Os «elementos das marés» no porto do Funchal, ali indicados, são estes: unidade de altura 1.m06,
amplitude máxima observada 2.m58, amplitude média deduzida 1.m53, amplitude mínima observada
0.m55, desigualdade diria máxima em altura, 0.m25, e o «estabelecimento do porto» a 0. h32.m.
O estabelecimento do pôrto, ou a hora da maré cheia das aguas vivas, é no Funchal, segundo a carta
geográfica do general Antonio Pedro de Azevedo, às 12.h48m, sendo a elevação da maré de 2,m28».
Margaça
Nome vulgar da Anthemis mixta e da A. Cotula, plantas anuais pertencentes à familia das
Compostas. A primeira encontra-se nas ruas do Funchal, no Rabaçal, na Ponta do Pargo, etc.; a segunda, na
Ponta de S. Lourenço, no Porto Santo, etc..
Maria I (D.)
Revestiram grande aparato as manifestações de sentimento pela morte da rainha de
Portugal D. Maria I, tendo-se publicado a tal respeito, em Lisboa, um interessante opúsculo com o titulo de
«Relação do que se praticou na Cidade do Funchal, da ilha da Madeira, no dia 17 de Dezembro de 1816, em
que a Câmara fez celebrar as funebres ceremonias da Fracção dos Escudos e Reais Exequias pela alma da
Serenissima Rainha D. Maria I».
Maria Amélia (Princesa D.)
A princesa D. Maria Amélia foi o único fruto do consórcio de D.
Pedro IV com a imperatriz D. Amélia. Nasceu em Paris a 1 de Dezembro de 1831 e morreu no Funchal a 4 de
Fevereiro de 1853. Recebeu uma aprimorada educação em Portugal e no estrangeiro, e só interrompeu os
seus estudos quando em 1852 foi acometida pela doença que a vitimou. Falava diversas línguas e possuía
uma considerável copia de conhecimentos, que causavam verdadeira admiração ás pessoas que com ela
privavam. A uma viva inteligência e brilhantes dotes de espírito juntava a mais cativante bondade e os mais
atraentes predicados de coração.
Tinha a princesa uma fraca compleição e foi nos jardins do Palácio das Necessidades que um resfriamento
provocou os primeiros rebates da doença. Passada essa crise, aconselharam os médicos uma viagem à
Madeira, que se realizou no mês de Agosto de 1852, como já ficou sumariamente narrado no artigo Amélia
(Imperatriz D.) (vol. I, pag. 63), para onde remetemos o leitor.
A morte da princesa D. Maria Amélia nesta cidade determinou a criação do Hospício que tem o seu nome,
fundado pela sua desolada mãe a imperatriz D. Amelia.
Para evitar-se escusadas repetições, leiam-se os artigos (Amélia Imperatriz D.), Hospício da Princesa D.
Maria Amélia e Quinta Lambert, e quem quiser ter mais desenvolvida noticia da visita da imperatriz, morte
da princesa e fundação do Hospício, consulte o opúsculo visita de sua magestade a imperatriz do Brasil,
viuva, duqueza de Bragança, à ilha da Madeira, e fundação do Hospício da Serenissima Princesa D. Maria
Amélia, escrito por Januário Justiniano de Nobrega e publicado no Funchal em 1867, por Julio da Silva
Carvalho.
O escritor Mario de Almeida preparava em 1916 a publicação dum livro intitulado Lisboa antes da
Regeneração, de que um Jornal de Lisboa publicou um excerto do capitulo que tinha por titulo
Princesa D.
Maria Amélia – Os seus derradeiros momentos – O Paço das Angustia,
que é uma descrição interessante e
sentida da estada da malograda princesa nesta ilha. Esse belo trecho de prosa foi transcrito no Diário da
Madeira, de 15 de Setembro de 1916.
V.
Maximiliano (Fernando José).
Maria da Fonte
Vid.Junta Governativa da Madeira em 1847 , a pág. 202.
Marialva (Octávio)
V. Santos (Octávio).
Marmeleiro (Cydonia oblonga, subespecie maliformis)
Arbusto da familia das Rosaceas,
subfamilia das Pomoideas, originário, segundo parece, do sudoeste da Asia. É cultivado na Madeira, onde os
seus frutos são muito procurados para a preparação da marmelada. 0 sumo do marmelo é util das diarreias,
e a infusão das sementes pode ser usada contra a tosse.
Marmulano (Sideroxylon Marmulano)
Arbusto da familia das Sapotaceas, com suco leitoso,
fôlhas obovadas ou obovado-oblongas, coriaceas, grandes, e flores muito pequenas dispostas em fasciculos
axilares. Encontra-se no Pôrto do Moniz, na Ribeira da Janela, no Seixal, no Porto Santo, etc. Produz uma
madeira amarelada e as suas fôlhas constituem uma boa forragem.
Marques (Dr. Vasco Gonçalves)
Nasceu no Funchal a 29 de Agôsto de 1877, sendo filho do dr.
Joaquim Gonçalves Marques e de D. Maria Gonçalves Marques e é medico-cirurgião pela extinta Escola
Médico-cirúrgica desta cidade, tendo concluído o respectivo curso em 1897. Foi por algum tempo facultativo
no Seixal, passando depois para o Porto do Moniz, na qualidade de medico do partido da Câmara, e
conservando-se naquela localidade até 1904, ano em que foi nomeado secretario da policia de emigração no
Funchal, cargo que desempenhou até depois da implantação da Republica no nosso país.
Tendo-se filiado, sendo ainda bastante novo, no partido regenerador, prestou-lhe sempre os mais
assinalados serviços, quer nas lutas eleitorais que nos tempos da monarquia se empenharam no concelho do
Pôrto do Moniz, onde possuía grande influencia política, quer na imprensa do mesmo partido, e em especial
no Direito, onde durante alguns anos escreveu inúmeros artigos, em que revelou apreciados dotes de
jornalista.
Proclamada a Republica e dissolvidos os velhos partidos monárquicos, filiou-se o dr. Vasco Marques no
partido democrático, que tinha por chefe o dr. Afonso Costa, continuando a revelar sob o novo regímen as
suas altas faculdades mentais e a sua rija tempera de combatente. Redigiu o Liberal e o Democrata, e foi
administrador do concelho do Funchal em 1912 e 1913, tendo depois da morte do Visconde da Ribeira
Brava, sido eleito presidente da comissão distrital do referido partido. Em 1920, íngressou no partido
republicano da Reconstituição Nacional, onde desempenha agora cargo idêntico ao que tinha ultimamente
na comissão distrital do partido Republicano Português (1921).
Quatro vezes tem o dr. Vasco Marques sido eleito senador pela Madeira: em 13 de Junho de 1915, 11 de Maio
de 1919, 10 de Julho de 1921 e 29 de Janeiro de 1922. No seio da representação nacional, tem proferido
muitos discursos, advogando os interesses deste arquipélago.
Como presidente quer da Junta Geral, quer da comissão executiva desta corporação, muitos serviços tem
prestado à sua terra, devendo-se-lhe o grande incremento tomado pela viação distrital nos últimos anos, a
aquisição do edifício da Incarnação, onde esteve instalado o Seminário Episcopal, e da casa que serve de
asilo dos velhinhos, a construção dum novo pavilhão no manicómio Camara Pestana, etc., etc.. No plano de
melhoramentos que êle e a comissão executiva da Junta Geral delinearam e pretendiam levar a efeito,
vemos assinaladas a construção de varias estradas novas e as reparações de que carecem muitas das
existentes, a captação de aguas para irrigação, a rearborização das serras da Madeira, a construção dum
bairro moderno, etc., etc..
O dr. Vasco Marques prestou excelentes serviços no Porto Santo, por ocasião duma epidemia que se
manifestou naquela ilha, e no Porto do Moniz, onde, como dissemos, esteve por largos anos, deixou imensas
simpatias pela maneira como soube desempenhar as funções do seu cargo. Foi também durante alguns
tempos professor de alemão no liceu do Funchal e em 4 de Outubro de 1897 alistou-se no corpo de oficiais
medicos da reserva, tendo presentemente no exercito o posto de capitão miliciano (1921).
Marquês (Largo do)
Também é conhecido pelo nome de Moinhos. Nas suas imediações ficavam
varias azenhas, pertencentes aos marqueses de Castelo Melhor, que também deram o nome ao sitio, tendo
sido demolidas no ano de 1898. V. Moinhos.
Marquês de Pombal
No dia 20 de Janeiro de 1776, celebraram-se com a maior pompa cerimonias
religiosas na igreja do Colégio, em acção de graças por ter o marquês de Pombal escapado ao crime
planeado pelo genovês João Baptista Pele, que foi justiçado em Lisboa. Pregou Frei Inácio José de Varona
que, para agradar ao Marquês, representado na mesma cerimonia pelo seu parente o Governador Sá
Pereira, deu a entender no seu discurso que os jesuítas não deviam ter sido estranhos ao referido crime.
As despesas com as festas religiosas correram por conta da Real Junta da Fazenda da Ilha da Madeira.
Marracho (Lamna cornubica)
Esqualo da família Lamnida, que vive também nos mares de
Setubal, Buarcos e Sesimbra. Ataca o homem e destrói várias especies úteis, sendo por isso perseguido pelos
pescadores, sobretudo quando se aproxima da costa. Também é conhecido pelo nome de anequim.
É com o
bicheiro
(V. este nome)
que os pescadores costumam apanhar os marrachos, matando-os
depois á paulada ou por qualquer outro meio.
Marroios (Marrubium vulgare)
Labiada vivaz, comum no Porto Santo. Tem sido achada também
nas proximidades da capela da Piedade, na Ilha da Madeira, e nas três Desertas. As suas flores são brancas e
as suas fôlhas ovado-suborbiculares, rugosas, acinzentadas ou esbranquiçadas. A infusão de marroios é
usada como medicamento tónico, excitante e emenagogo.
Martins
Frutuoso faz referencia a Cristovão Martins de Grinão, por alcunha o Peru, e a Vasco Martins
Moniz, homens nobres que viviam no Funchal no seculo XV, e diz o dr. Azevedo que houve um espanhol
chamado Diogo Martins, a quem a rainha D. Catarina deu armas em 1560. Ao tempo em que os franceses
saquearam o Funchal, residiam aqui Cristovão Martins e o escrivão da fazenda João Martins, e entre os
indivíduos que assinaram o auto do voto em que S. Tiago Menor foi tomado por padroeiro da cidade,
aparece Fernão Martins, que ignoramos se pertencia á nobreza da ilha.
Martins (Agostinho)
Distinto musico madeirense nascido em 1841 e falecido no Funchal a 9 de Abril
de 1909. Foi discípulo do célebre violinista Agostinho Robio, quando contava apenas 10 anos de idade,
vindo a ser mais tarde um musico distintíssimo, que ombreava em conhecimentos e execução com os
melhores violinistas nacionais e estrangeiros.
Foi o fundador da Academia Marcos Portugal, da Sociedade de Concertos Funchalense e da filarmónica
Restauração de Portugal, e nos últimos anos da sua vida organizou o sexteto que tinha o seu nome e que
conquistou entre nós uma distinta reputação.
Martins (Dr. Frederico dos Santos)
É filho do abastado proprietário Manuel Martins, nasceu
nesta cidade a 1 de Novembro de 1869 e é bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra. Há
muitos anos que estabeleceu residência em Lisboa, onde exerce distintamente a advocacia. Representou a
Madeira em cortes nas sessões legislativas de 1902-1904 1904 e 1906. Em vários opúsculos, tem publicado
alguns dos seus trabalhos jurídicos na defesa de diversas causas civis e comerciais. É autor do notável
trabalho «Direito Comercial Maritimo», de que apenas se publicou a primeira parte em um volume de 383
páginas, no ano de 1932.
Martins (Dr. João Augusto)
Medico militar do quadro do Ultramar, já falecido. Era natural de
Cabo Verde e tinha o curso da Escola Medica de Lisboa. E.: A Madeira e o seu clima, Lisboa, 1901, de 10
páginas e Madeira, Cabo Verde e Guiné, Lisboa, 1891, de 271 páginas. Esta ultima obra recomenda-se pela
correcção, elegância e graça espontânea com que se acha escrita.
Martins (Dr. Manuel Augusto)
Nasceu nesta cidade a 1 de Março de 1867 e era bacharel formado
em direito pela Universidade de Coimbra e um dos mais antigos advogados do Funchal. Por telegrama do
Governo Provisório da Republica, de 5 de Outubro de 1910, foi nomeado Governador Civil da Madeira,
tendo no dia imediato tomado posse deste cargo, que lhe foi conferido por um empregado do secretariado
Governo Civil.
Por decreto de 17 de Fevereiro de 1919, foi de novo nomeado Governador Civil dêste distrito, assumindo o
cargo a 19 do mesmo mês e ano e deixando-o em Maio seguinte, por ter sido eleito deputado por Evora.
Foi durante o primeiro período da sua administração, como Governador Civil do Funchal, que se
manifestou nesta cidade a epidemia da colera-morbus, tendo então vindo à Madeira, como Alto Comissário
e representante do Governo Central, o dr. José Alfredo Mendes de Magalhães (V. este nome).
Em Julho de 1921, foi eleito senador por este arquipélago.
Teve uma larga colaboração na imprensa local, nomeadamente no jornal
O Povo
, de que foi redactor
principal durante alguns anos.
Faleceu no Funchal a 4 de Abril de 1936.
Mártires (Quarenta)
Acerca da passagem pela Madeira dos quarenta religiosos da Companhia de
Jesus, que no dia 15 de Julho de 1570 foram massacrados nas alturas do arquipélago das Canárias, veja-se o
artigo Azevedo (Beato Inácio de) a páginas 110 do vol. I e o livro
Paróquia de Santo António na Ilha da
Madeira
».
Martírio
Nome vulgar daPassiflora caerulea , especie da familia das Passifloraceas, oriunda da
América do Norte e muito cultivada na Madeira.
Martius (C. Fred. Phil. de)
Botânico alemão nascido em Erlangen, em 1794, e falecido em Munich,
em 1868. Tendo feito parte da expedição scientifica organizada em 1817, pelos governos austriaco e bávaro
para explorar o Brasil, visitou a Madeira nos fins do primeiro quartel do século XIX, mencionando nos seus
trabalhos diversas especies botanicas encontradas tanto no Funchal, como em Nossa Senhora do Monte.
Mascarenhas (D. Filipe de Alarcão e)
Sucedeu a Francisco da Costa Freire como Governador e
Capitão-General deste arquipélago, tendo sido nomeado a 13 de Agôsto de 1727 e havendo tomado posse a
27 de Setembro do mesmo ano.
Mascarenhas (D. Francisco de)
A sua nomeação para Governador e Capitão General da Madeira
data de 31 de Julho de 1665 e tomou posse do lugar a 28 de Novembro do mesmo ano. Teve grandes
dificuldades durante o seu governo e a 18 de Setembro de 1668 rebentou uma sedição popular, que o depôs
do seu cargo, o prendeu e depois o fêz embarcar violentamente, como mais largamente se verá no artigo
Motins Populares. Foi substituído interinamente pelo morgado Aires de Ornelas e Vasconcelos.
Era filho do conde de Santa Cruz e tinha servido com valor na guerra da Restauração. Morreu a 25 de
Fevereiro de 1699.
Mascarenhas (Manuel de Sousa)
Foi nomeado Governador e Capitão-General da Madeira a 27
de Fevereiro de 1645 e tomou posse a 11 de Abril do mesmo ano. Foi preso pelo seu sucessor Manuel Lôbo
da Silva, em virtude da ordem que trouxe do governo da metrópole, sendo Manuel de Sousa Mascarenhas
acusado de ter praticado graves abusos no exercício do cargo de Governador deste arquipélago.
Mason (J. A.)
Era doutor em medicina pela Universidade de Edimburgo, tendo começado, porém, os
seus estudos médicos em Paris. Visitou a Madeira em 1834, por causa duma afecção pulmonar de que
estava sofrendo, mas, como não alcançasse aqui as melhoras que esperava, mudou de clima, vindo a falecer
em Nice no ano imediato, com 27 anos de idade. E.:
A Treatise on the Climate and Meteorology of
Madeira
. Nesta obra, valiosa por muitas razões e que só em 1850 viu a luz da publicidade, pretendeu o seu
autor provar que o clima do Funchal era mais úmido que o de Londres e suas proximidades!
Mason (Nathaniel Haslope)
Botânico e comerciante inglês de objectos de historia natural que
visitou a Madeira em 1857 e organizou aqui varias colecções de fanerogamicas, fetos, madeiras, conchas,
coleopteros e coraliarios, que forneceu a diversos estabelecimentos scientificos europeus.
Massapez
Solo argiloso e duro, frequente na região cultivada da Madeira. Quando não é irrigado com
frequência, apresenta grandes fendas, o que não sucede noutros solos da ilha.
Masson (Francisco)
Este botânico inglês chegou à Madeira em Maio de 1776, e no ano seguinte
visitou os Açores, onde se conservou, segundo cremos, até Outubro de 1778. Depois de ter estado nas Índias
Ocidentais, na Inglaterra e em Portugal, voltou á Madeira, de onde saíu finalmente em 1785.
Foi Masson quem primeiro fez explorações botânicas regulares no arquipélago da Madeira e tornou
conhecidas varias espécies peculiares desta parte do território português. Enviou por varias vezes a José
Banks exemplares da flora do nosso arquipélago, tendo mandado também ao filho de Lineu algumas plantas
que êste descreveu e publicou.
No Museu Britânico, estão muitas das plantas remetidas a José Banks, existindo também ali um manuscrito
intitulado Massonii Flora Maderensis, que parece ser copia de outro que se extraviou, organizado por
Francisco Masson.
Acerca da estada de Masson na Madeira e dos trabalhos botânicos que aqui se realizou, deve ler-se o artigo
publicado no «Heraldo da Madeira», de 27 de Abril de 1915.
Mastruço
São conhecidos por êste nome na Madeira o
Lepidium virginicum
, o L
sativum
e o
Cronopus didymus
, plantas da familia das Cruciferas, sendo as duas primeiras subespontaneas e a ultima
indigena. O
Coronopus didymus
e o
Lepidium virginicum
, fáceis de reconhecer, êste pelos seus caules
erectos, pelas suas fôlhas superiores dentadas, e pelas silículas suborbiculares, e aquêle pelas suas fôlhas
muito recortadas e pelas suas silículas mais largas que compridas, reniformes, são muito comuns na
Madeira, ao passo que o L. sativum, de silículas largamente aladas, só existe em S. Roque. Tôdas estas
especies são antiscorbuticas e a última pode ser comida em salada. O suco das fôlhas do Cronopus didymus
é usado externamente no tratamento de certas molestias de pele.
Matadouro Municipal
O antigo matadouro municipal foi construído em 1851, Junto do Mercado
do Peixe (Praça de S. Pedro). Preenchia bem o fim a que era destinado e tinha agua em abundância para a
sua limpeza.
Há uma deliberação camarária do ano de 1495, mandando os carniceiros matar e esfolar o gado no Cabo do
Calhau, mas em 20 de Maio de 1791 resolveu a Câmara fazer um orçamento para a edificação dum
matadouro junto à casa da Almotaceria, tendo pedido ao Real Erário em 1795 o empréstimo de 400$000
réis para levar a efeito a mesma edificação. Em 9 de Setembro de 1825, foi o matadouro transferido por
ordem da municipalidade para as proximidades da ribeira de Santa Luzia, ficando os almotacés autorizados
a punir «os magarefes e esfoladores» que matassem gado fora do novo local que lhes fôra assinalado.
Já em 1446, havia no Funchal açougue e casa para a venda de carnes, e vê-se do livro das vereações do ano
de 1488 que a casa dos açougues ficava nessa época para os lados de Santa Catarina.
O matadouro de 1851 foi demolido e substituído pelo actual Matadouro Municipal, que data do ano de 1941,
e se acha situado na margem direita da Ribeira de João Gomes, no prolongamento do antigo Beco do
Cascalho, e é um moderno e amplo edifício, construído não somente com a vastidão necessária para a
inteira execução de todos os serviços que lhe são peculiares, como ainda em obediência aos mais rigorosos
preceitos da higiene.
Matas
As nossas principais matas são de loureiros, castanheiros e pinheiros. Os loureiros dominam nos
vales do interior da Madeira; os castanheiros formam importantes soutos abaixo de 750 ou 800 metros; e os
pinheiros, que sobem hoje até à altitude de 1200 metros, cobrem extensos tratos de terreno das vertentes
meridional e setentrional, constituindo uma das mais importantes riquezas da ilha.
Os tis, os vinhaticos, as barbuzanos, os paus-brancos, os adernos, os folhados, os azevinhos e outras
essencias indigenas tendem a desaparecer da arborização da Madeira, e as matas de urzes seculares que
conhecemos há 30 ou 40 anos na região superior da ilha, há muito que foram destruidas pelos lenheiros e
carvoeiros, sem que ninguém pensasse em pedir-lhes contas dos seus actos de vandalismo.
A Madeira, que na época do descobrimento constituía uma extensissima floresta a que foi necessário lançar
fogo para se proceder ao arroteamento das terras, tem hoje muito reduzida a sua área arborizada por
essências silvestres. Supomos que essa área não exceda 15:000 hectares, o que bem pouco é numa terra
acidentada como é a nossa, convindo portanto que se criem novos arvoredos, principalmente nas margens
das ribeiras e nas vertentes dos montes centrais, para que as suas raízes sustentem as terras e as torrentes
se não despenhem com violência, dando lugar a prejuízos incalculáveis. V. Arborização, Arvores e Arbustos,
Baldios e Madeiras.
Matos
Este apelido de família começa em Luís Fernandes de Matos Coutinho, que passou á ilha da
Madeira por 1580 e teve grande casa de comercio no Funchal, sendo neto de Pedro Vasques de Matos, que
se dizia descendente dos reis de Leão.
Mau Olhado
Ainda hoje é crença vulgar não só nos campos, mas também no Funchal, que há
indivíduos dotados do poder de causar doença por meio dos órgãos visuais. Se uma criança começa a
emmagrecer sem causa conhecida, ou se o porco, a vaca, a ovelha ou a cabra adoecem sem ser de moléstia
de fácil verificação, há sempre quem atribua esses males ao mau olhado, já que não é facil achar para eles
melhor explicação. A arvore que dá bons frutos pode deixar de dá-los em virtude de mau olhado, e até os
nossos alimentos não estão isentos dos sortilégios daqueles a quem o demónio concedeu o poder de fazer o
mal, sem que a justiça lhes possa exigir responsabilidades.
Ninguém, segundo os crentes, pode fugir do mau olhado, mas curá-lo é coisa fácil, e nem mesmo se exige a
presença do doente para que o tratamento dê bom resultado. Basta uma peça do vestuário da pessoa
atacada, ou outro qualquer objecto que tocasse nesta, para que a curandeira proceda ao tratamento, com
absoluta certeza de êxito.
Para verificar se uma pessoa está afectada de mau olhado, deita-se um pingo de azeite em agua; se o azeite
alastra, é porque há o mau olhado, se se conserva unido, é porque ele não existe.
Reconhecida a existência do mau olhado, repete-se a experiência tantas vezes quantas forem necessárias
para se conseguir que o azeite não alastre ao cair na agua. Logo que se alcança este resultado, está o doente
curado. 0 tratamento pode durar ás vezes oito dias, não devendo a agua que serve num dia, ser utilizada nas
experiências imediatas.
A curandeira profere as palavras seguintes, de cada vez que procede ao tratamento: Eu te curo em nome de
Deus e da Virgem Maria; se te deram (o mau olhado) no comer, ou no beber, ou no rir, ou no zombar, ou na
tua formosura, ou no teu andar, quem to deu nunca mais to torne a dar, e saia deste corpo e vá para o mar.
A crença no mau olhado é uma das poucas abusões que o progresso e a civilização não conseguiram destruir
ainda entre nós. Tão arraigada está ela no animo das pessoas simples dos nossos campos, que não há
conselhos nem advertências que as façam reconhecer o que há de ridículo e burlesco nos meios de que se
servem as curandeiras para anular os supostos malefícios causados por certas criaturas aos seus
semelhantes.
Os chifres que se vêm frequentes vezes sobre os chiqueiros, são colocados aí pelos donos dos suinos para
obstar a que estes sejam influenciados pelo mau olhado ou pelo ar mau! Nos barcos de pesca também se
guardam por vezes algumas pontas de boi para que o mau olhado não afugente o peixe, especialmente o
atum e espécies vizinhas.
Vid.
Medicina Campestre.
Maurice
E.:Découverte de l'ile de Madère (Musée des Familles , vol. IV, 1836, pág. 90).
Maximiliano (Imperador do México)
A 5 de Julho de 1852, chegou pela primeira vez à
Madeira o príncipe Fernando Maximiliano, que depois foi imperador do México. A sua curta demora nesta
ilha, ficou assinalada pela maneira generosa como contribuiu para a construção da Ponte Monumental e
pela valiosa dádiva que fez ao Asilo da Mendicidade e Órfãos do Funchal.
Casou em 1857 com a princesa Maria Carlota, filha de Leopoldo I, rei da Bélgica, e chegou à Madeira, com
sua esposa, a 6 de Dezembro de 1859, no vapor de guerra austríaco Elisabeth. O príncipe saiu desta ilha a 22
de Dezembro em viagem de estudo pela América do Sul, e a princesa passou o Inverno no Funchal,
aguardando o regresso de seu marido, que foi a 5 de Março de 1860. No dia 12 do mesmo mês e ano, saíram
os príncipes desta ilha em direcção à Áustria.
A 10 de Abril de 1864, aceitou o príncipe Fernando Maximiliano o encargo de ser imperador do México, e
como tal foi logo proclamado e reconhecido, tendo passado na Madeira, com sua esposa, em direcção aquele
país, a 28 daquele mês e ano na fragata austríaca Novara, que ia acompanhada pela fragata francesa
Themis. Foram prestadas aos imperadores as honras devidas á sua alta jerarquia, tendo a elas
correspondido gentilmente os ilustres viajantes, convidando para um jantar a bordo da Novara o bispo
diocesano D. Patricio Xavier de Moura, o Governador Civil conde de Farrobo, o conde de Carvalhal, o
consul Carlo de Bianchi, o dr. Luiz Pita, etc..
Sabe-se o desgraçado fim que teve o infortunado imperador. Não podendo sufocar as revoluções que se
sucediam no país e abandonado pelo governo francês, foi fuzilado a 16 de Junho de 1867. A imperatriz
enlouqueceu e não tornou a recuperar o uso da razão.
Todos reconhecem hoje que o imperador Maximiliano foi vitima da mais atroz injustiça. Avesso por índole
ás violências e a todas as medidas de excessivo rigor, sucumbiu talvez á falta de energia e de audacia de que
o acusavam alguns dos seus mais fiéis partidários.
Era um espírito muito culto, tendo publicado alguns volumes, que foram traduzidos na língua francesa.
Parece que esteve projectado o enlace matrimonial do príncipe Maximiliano com a princesa D. Maria
Amélia, filha de D. Pedro IV e da imperatriz D. Amélia, fundadora do hospício que tem o nome daquela
princesa.
A bela estatua de Nossa Senhora das Dores, que encima o altar da capela do Hospício da Princesa D. Maria
Amélia, foi oferta do Príncipe Fernando Maximiliano.
Maximiliano de Habsburgo
É irmão do falecido ex-imperador de Áustria e ex-rei da Hungria
Carlos de Habsburgo, e chegou á Madeira a 17 de Abril de 1922, no vapor inglês Kenilworth Castle, indo
hospedar-se no Monte, na casa de sua cunhada a ex-imperatriz Zita.
Saiu para Lisboa no vapor inglês Arcoma, a 26 de Abril de 1922, seguindo dali para Espanha.
Mayer (Carlos)
Vid. Hartung(pag. 114).
Mécia (Casa de Dona)
É conhecida pelo nome de «Casa de Dona Mécia» o antigo edificio do
Funchal, situado na Rua dos Aranhas, a que já fizemos referencia nesta obra (1-183), onde durante alguns
anos funcionou a Escola de Habilitação ao Magistério e onde anteriormente esteve instalado o templo
protestante da seita dos ritualistas. Não faltaram indivíduos que tivessem considerado essa casa como sede
das trágicas aventuras que o distinto escritor madeirense João Augusto de Ornelas, fantasiosamente
arquitectou no seu curioso romance
A mão de Sangue
, e que também houvessem prestado crédito à
interessante narrativa de Camilo Castelo Branco, inserta no seu livro
O Santo da Montanha
(cap. XXV-
XXXI), que encerra alguns proveitosos pormenores acerca da Madeira.
A «Casa de Dona Mécia», pela sua antiga e típica construção e certas características e particularidades que a
distinguem foi no mês de Setembro de 1940, em virtude de portaria publicada no «Diário do Govêrno»,
incluída na lista dos monumentos nacionais e imóveis de interêsse público, ficando portanto sob a acção
directa da repartição pública que superintende nesses serviços.
A Casa de Dona Mécia foi classificada como «imovel de interêsse público».
Vid.
Monumentos Nacionais.
Medalhas
Temos conhecimento das seguintes medalhas, destinadas a galardoar serviços prestados na
Madeira ou a comemorar acontecimentos dignos de serem transmitidos à posteridade:
Medalha do Monumento Constitucional. Era de prata, foi feita por Severiano Alberto de Freitas Ferraz e
tinha, segundo diz o n.° 62 do Patriota Funchalense, de 1 de Fevereiro de 1822, num dos lados «entre dois
ramos de oliveira, os respeitaveis nomes dos 13 herois benemeritos da patria, e por baixo o seguinte: foi
lançada a pedra fundamental deste monumento pelo governador D. Rodrigo António de Mello, a 28 de
Janeiro de 1822. Do outro lado, tinha a seguinte inscrição: A Camara do Funchal annuindo aos votos dos
cidadãos desta provincia, conveiu em que se erigisse este monumento allusivo á regeneração politica da
monarchia portuguesa, proclamada n'esta cidade a 28 de Janeiro de 1821. Em roda desta inscrição estavam
gravados os memoraveis dias 24 de Agosto, 15 de Setembro e 1 de Outubro de 1820, e 26 de Janeiro, 26 de
Fevereiro e 4 de Julho de 1821. Na serrilha da medalha estava gravado o seguinte: Viva a Constituição, viva
a Religião e viva a dynastia da Casa de Bragança.»
A medalha do monumento constitucional foi, no dia 1 de Setembro de 1823, por ordem das autoridades
absolutistas, amassada e depois pesada e vendida, dando o seu produto entrada no cofre do concelho.
Medalhas de Exposições. Refere o n.° 62 do Correio da Madeira que foram distribuídas 17 medalhas de
prata pelos indivíduos que apresentaram os produtos mais dignos de apreço na exposição de Industria
Madeirense que teve lugar nos dias 1 a 4 de Abril de 1850, e no n.° 102 do Funchalense se le que no dia 25
de Maio de 1861, teve lugar no palacio de S. Lourenço a distribuição de prémios aos expositores que se
tornaram dignos deles na exposição realizada nos dias 20 a 23 de Abril no mesmo palácio, sendo conferidos
12 premios de primeira classe, 18 de segunda e 20 menções honrosas. Não vimos medalha alguma da
exposição de 1850, mas vimos uma de segunda classe, da exposição de 1861, em que num dos lados se lê:,
1ª. Exposição da Sociedade Agricola do Funchal–1861», e no outro « Res non verba–Premio de 2ª. classe.»
Esta medalha, que é de prata e tem o diametro de 40 milimetros, apresenta várias guarnições em relêvo e
foi delineada e executada pelo falecido Vicente Gomes da Silva (V. este nome).
Medalha para galardoar os serviços de John March. V. March.
Medalha comemorativa da visita regia. Para comemorar a visita dos reis D. Carlos e D. Amelia ás Ilhas
Adjacentes, foi cunhada em Lisboa uma medalha especial, de que chegaram poucos exemplares á Madeira.
Tem numa das faces a efigie dos ex-monarcas.
Medalha comemorativa da defesa do Funchal. A lei n.º 1123, de 4 de Março de 1921, concedeu aos militares
que durante a guerra prestaram serviços no Funchal, o direito a usar a medalha comemorativa das
Campanhas do Exercito Português a que se refere o decreto nº. 5.086 de 3 de Janeiro de 1919, com a
legenda «Funchal-Defesa Maritima 1916- 1918.»
Medeiros
Este apelido de família parece estar quasi extinto na Madeira. Procedia de Rui Vaz de
Medeiros, um dos primeiros povoadores que vieram para esta ilha e que teve terras de sesmaria na Tábua.
Medicina Campestre
Os habitantes dos campos da Madeira possuem em geral um certo numero
de conhecimentos médicos. Rara é a camponesa que não sabe medicamentar-se quando afectada de certos
padecimentos uterinos, e rara é também aquela que não conhece um ou mais remédios de bom efeito no
tratamento de várias moléstias ligeiras que atacam com frequência as crianças e adultos. Há curandeiras
que sabem reduzir com perícia uma luxação, e mais duma pessoa culta tem tirado proveito dos conselhos e
indicações dessas mulheres, quasi sempre analfabetas, a algumas das quais se não pode negar uma certa
habilidade e experiência na arte de tratar um determinado numero de enfermidades.
Damos a seguir algumas informações sobre a maneira como certos padecimentos são tratados nos campos
da Madeira, muito ficando por dizer sobre o assunto, que bem digno é de ser estudado por quem, pela
especialidade de seus conhecimentos, esteja mais no caso do que nós, de ajuizar das vantagens ou
desvantagens do emprego de determinados agentes medicinais.
Areias.
A infusão de hipericão dá bom resultado no tratamento desta molestia, uma vez que o doente faça
pouco uso de carnes, vinho e aguardente.
Asma.
Para combater esta moléstia, usam dar aos doentes caldo de lesmas ou de excremento de pombos.
Bronquites, tosses e defluxos.
Tratam-se por meio de mel de abelhas e das infusões quentes de hera
terreste, salva, eucalipto, hissopo, marroios , verbasco, borragem , selvageira, sementes (frutos) de funcho e
de coentro. Os sinapismos no peito, as fricções com aguardente e o escalda-pés estão muito em uso nas
bronquites intensas, ao passo que os simples defluxos passam as mais das vezes sem o emprêgo de
medicamentos.
O agrião com açúcar e aquecido no forno é muito usado para combater as tosses.
Chagas, feridas, tumores, erisipelas e outras inflamações
. A tanchagem, a herva de Santa Maria, o amor de
burro e a erva gigante aplicam-se cozidos ou pisados nas inflamações externas, e igual aplicação tem o
meimendro, conhecido geralmente pelo nome de meiomento. O sangue extraído da crista dum galo cortada
de fresco, dizem ser util no tratamento das erisipelas, e também se diz que dá bom resultado a aplicação do
tremoço moído sôbre a parte do corpo onde existe a inflamação.
O suco do balsamo de canudo, o do inhame de lagartixa e o da formigueira, servem para curar as feridas, e
as fricções com as folhas pisadas dos engos são aconselhadas nas lesões causadas por feridas ou pancadas.
O unguento, denominado das Aires, útil em muitas inflamações, é confeccionado com azeite e folhas da erva
de Santa Maria e de tanchagem, pisadas.
O cozimento de malvas, de chá bravo, de amoricos ou agrimonia, de sabugueiro (flores), de diabelha e de
outras plantas, é muito usado em lavatorios, banhos, gargarejos, colirios, etc., e a infusão da macela, além
de muito util nas indisposições de estomago, é um medicamento eficaz nas inflamações de olhos. Os terçois
tratam-se aplicando sobre a parte inflamada o miolo de pão.
No tratamento dos panarícios, empregam os madeirenses os rebentos pisados de carvalho; e para facilitar a
supuração dos fleimões, usam das cataplasmas de linhaça, de semilha, de banana e de cenoura.
Desmaios ou sincopes.
Se provem de fraqueza ou de perturbações nas funções digestivas, é uso
dar a cheirar ao doente o vinagre ou uma bota de individuo que cuide pouco da limpeza dos pés; se provém
de causas mais graves, recorre-se aos sinapismos nas pernas e ao escalda-pés, enquanto não chega o
medico. No tempo em que havia sangradores na Madeira, praticava-se muitas vezes a sangria para fazer o
doente voltar a si. Há curandeiras que sabem aplicar convenientemente as ventosas nos casos de apoplexia.
Disenteria
. Para tratá-la, administra-se ao doente o chá de canela e de alfavaca de cobra, a limonada
Hemorroidas
. Tratam-se por meio da infusão da alfavaca de cobra, usada interna e externamente, e
Diabetes
. A infusão de folhas de jambeiro é aconselhada contra esta molestia, muito pouco frequente
nos campos. Na cidade, tem sido empregada com bom resultado a infusão das fôlhas do eucalipto (V. êste
nome).
de vinagre, o cozimento de arroz, etc., Um purgante faz em certos casos suspender as evacuações.
Epistaxe ou sangue pelo nariz
. Cessa muitas vezes introduzindo na venta por onde sai o sangue uma
pitada de sal fino, ou lavando o nariz com agua fria simples ou associada ao vinagre. A hemorragia também
pode desaparecer fazendo levantar o braço correspondente à venta doente e deixando o dedo indicador na
posição vertical.
nervosos; e por meio das ventosas, quando proveniente de molestia nos orgãos respiratorios. (V.
Asma
).
dos semicupios frios ou quentes.
Impigens e outras molestias cutâneas
. Os medicamentos usados para combater as molestias cutaneas
são: internamente, as infusões de molarinha, de amor perfeito, de azeda, de urtiga viva, de teijeira, de bôlsa
de pastor e de fôlhas de nogueira; e, externamente, o petroleo, a agua do mar e os sucos um tanto causticos
da celidonia e do trovisco. O uso do enxôfre sublimado vai-se generalizando, e para acalmar as comichões
dartrosas dá excelente resultado a agua bem quente lançada sôbre a parte do corpo afectada pela molestia.
A cinza e o cuspo são considerados uteis no tratamento das impigens, sendo uso fazer acompanhar a sua
aplicação das palavras seguintes: Impigem rabicha, que vieste aqui buscar? Cuspo da boca e cinza do lar
para te curar.
Falta de ar
. Combate-se com o chá de laranjeira ou de hortelã-pimenta, quando devida a padecimentos
A farinha torrada e umedecida com oleo da forja, é empregada externamente nos eczemas na cara, a que
Inflamações no figado
. Tratam-se pelos purgantes e pelas cataplasmas de urgebão. A infusão desta
Ictericia
. Trata-se pelo cozimento dos rizomas do morangueiro ou da grama, e chupando a cana
os madeirenses chamam cobro.
sacarina.
planta e a dos marroios também são usadas com bom resultado nas moléstias do figado.
Molestias do estomago.
A infusão de macela é o medicamento mais empregado para combater as
colicas, indigestões e outros padecimentos estomacais. Nos enfartamentos, aplica-se ás vezes a infusão de
erva-cidreira, e nas dores do estomago, a infusão de hortelã-pimenta. Uma chicara de chá preto é suficiente
nalguns casos para fazer desaparecer as perturbações das funções digestivas, provenientes da má qualidade
ou da quantidade dos alimentos.
Um copo de agua bem quente, bebido quando o estomago está vazio, diz-se ser muito util nas dispepsias
e dores de estomago, e as cataplasmas de linhaça são também úteis nestas dores, as quais podem também
desaparecer com a simples aplicação de um pano de baeta convenientemente aquecido ou duma fatia de pão
molhada em vinho quente.
Nevralgias
. Tratam-se, aplicando um pano de baeta quente ou um sinapismo no lugar da dor. A cebola
branca, assada nas brasas e aplicada bem quente, no lugar dorido dizem-nos que dá excelente resultado.
Padecimentos uterinos
. Com aguardente madre de louro, canela, botões de arruda, erva doce e dois a
três botões de cravo da India, prepara-se um medicamento muito usado internamente nos padecimentos
uterinos. A infusão de acelgas, alfavaca e amor de burro também é usada para o mesmo fim, assim como a
de losna e outras plantas emenagogas. O alecrim, a alfazema, a alfavaca, o amor de burro, o alecrim de
Nossa Senhora, etc., são usados em banhos ou lavatorios, e com a arruda e a alfazema ou o rosmaninho
pisados, um ovo batido e um pouco de farinha, faz-se um cataplasma que tem acção estimulante sôbre o
utero. Um meio calice de aguardente acalma as dores que acompanham muitas vezes a menstruação.
Queimaduras
. Tratam-se por meio de uma clara de ovo, da urina fresca, da nata do leite e do azeite com
uma pitada de sal fino.
Raquitismo
. As crianças que sofrem desta molestia são metidas em mosto dentro dos lagares em que se
espremem as uvas.
Retenção de urinas e outras afecções nas vias urinarias
. Os madeirenses combatem estas moléstias por
meio dos banhos mornos, das cataplasmas de linhaça e das infusões de sempre-noiva, amor de burro,
artemija, grama, barba de milho, pedunculos de cereja, lentilha de agua, hipericão, pessegueiro inglês, etc..
Reumatismo
. O enxôfre o petroleo aplicados externamente, a massagem, os sinapismos, as fricções com
aguardente, vinho morno ou alcool canforado, as lavagens com cozimento de alecrim ou de trombeteira e os
banhos de agua salgada, são de alguma vantagem no tratamento do reumatismo. Dizem-nos que algumas
pessoas se tem curado desta molestia usando do petroleo aplicado com uma pena de galinha.
A infusão de fôlhas de abacate está sendo usada internamente para combater o reumatismo, dizendo-se que
tem dado bons resultados no tratamento desta molestia as fricções ou fomentações com petroleo associado
a uma clara de ovo bem batida.
Vermes intestinais
. Se se trata da tenia ou solitaria, os medicamentos usados são as pevides de abobora (as
da abobora machado são as mais ficazes) e a decocção da casca da raiz da romeira; se se trata das ascáridas
ou das pequenas lombrigas que aparecem frequentes vezes no intestino das crianças, facilita-se-lhes a
expulsão por meio do chá ou das pastilhas de hortelã-pimenta. O alho pisado é usado ás vezes contra as
lombrigas.
Verrugas
. Fazem-se desaparecer com a aplicação do sal ou do suco amarelo e caustico da celidonia, planta
que é comum na Madeira. Supõe muita gente que para o sal produzir efeito, deverá ser lançado ao fogo
depois de se friccionar com êle a verruga.
Muito posteriormente a publicação (em 1921) desta noticia acêrca da medicina campestre neste
arquipélago, publicou o visconde do Pôrto da Cruz um opúsculo intitulado «A Flora Madeirense na
Medicina Popular».
Medicis (D. Cosme de)
Vivia no Funchal por meados do século XVIII, e era, segundo reza a
tradição, homem abastado. Tendo convidado em certa ocasião varios amigos para passar o dia numa furna
para leste do local onde está agora o lazareto, afim de se entregarem a varias diversões, encontraram todos
aí a morte em virtude do desabamento dos terrenos superiores, escapando apenas, por se achar arastado da
mesma furna, um negro que era criado de D. Cosme, o qual veio trazer à cidade a noticia da terrível
catástrofe que havia presenciado.
O local onde se deu a catástrofe, é conhecido dos marítimos pela designação de furna de D. Cosme.
De 1679 a 1684, frequentou a faculdade de teologia da Universidade de Coimbra o padre D. Zenóbio de
Medicis, filho de D. Cosme de Medicis. É de crer portanto que o desastre se desse muito antes dos meados
do século XVIII, pois que é pouco provável que nesta época fosse vivo ainda o dito D. Cosme de Medicis.
Medina
Este apelido de família é, segundo o dr. Alvaro R. de Azevedo, de origem espanhola, sendo
possível que aparecesse na ilha durante o dominio filipino. A familia Medina de Cabo Verde, é de origem
madeirense.
No ano de 1930, publicou o dr. João Cabral do Nascimento, o interessante opúsculo «Genealogia da Familia
Medina da Ilha da Madeira».
Medina (Frei Diogo de)
Era monge da ordem de S. Bento e distinto calígrafo, tendo escrito a maior
parte do tomo I do «Registo Geral da Camara Municipal do Funchal», onde aparecem documentos dos
séculos XV e XVI. Ignoramos se era madeirense, assim como quaisquer outras particularidades de sua vida.
Medina e Vasconcelos (Francisco de Paula)
O conhecido autor da
Zargueida
, que no seu
tempo gozou de grande nomeada como poeta, nasceu na freguesia da Sé desta cidade a 20 de Novembro de
1768, sendo filho de Teodoro Felix de Medina e Vasconcelos e de D. Ana Joaquina Rosa de Vasconcelos.
Morreu como desterrado político na ilha de São Tiago, do arquipélago de Cabo Verde, no ano de 1824,
tendo 56 anos de idade. Julgamos que é descendente deste nosso ilustre patrício, a distinta família Medina e
Vasconcelos, que existe naquele arquipélago. É também oriundo de Francisco de Paulo Medina o grande
poeta satirico madeirense Francisco Clementino de Sousa.
Não abundam elementos que nos habilitem a traçar com um certo desenvolvimento a biografia do poeta
Medina. Por algumas das poesias contidas no seu volume Poesias Lyricas, se conclui que tinha vinte anos
quando se matriculou na Universidade de Coimbra, o que deve ter acontecido no ano de 1788,
acrescentando que «no espaço só de dois invernos ouviu as doutas prelecções dos sabios que os arcanos
explicam das sciencias.» Diz o dr. Azevedo que tendo sido Medina «desde a mocidade sectario das ideias
dos philosophos do século XVIII, isso lhe originou, por 1790, o ser preso ano e meio em Coimbra, e, depois,
obrigado a sair da cidade, e expulso para sempre da Universidade.» A severidade dêste castigo parece
indicar que sôbre Medina pesavam acusações muito graves, mas que êle inteiramente repudia quando
afirma que foi hum falso crime nem por mim pensado. O poeta escreveu duas Epistolas, em verso ao reitor
da Universidade D. Francisco Rafael de Castro, sendo uma pouco depois da sua prisão e outra quando «já,
senhor, hão passado doze luas depois que choro entre tyranos ferros», cartas destinadas a implorar a
protecção do Prelado e a alcançar o seu libertamento, não se sabendo se o estro sentido de Medina
comoveria as entranhas do inflexivel magistrado, talvez pouco sensivel aos lamurientos rogos dum pobre e
desamparado estudante. É certo, porém, que poucos meses depois foi pôsto em liberdade, regressando à
terra natal pelos anos de 1792.
A dar credito aos versos de Medina, passou ele uma vida de amarguradas atribulações, tanto na Madeira
como no Continente do Reino, que teve um triste epílogo com o seu desterro para Cabo Verde. No período
decorrido de 1792 a 1823, fez algumas visitas a Portugal e não sabemos se ao estrangeiro, tendo uma vez
estado ausente da Madeira cerca de seis anos. Seria, por certo, durante essas mais ou menos prolongadas
demoras no Continente do Reino que publicou alguns dos seus volumes de versos, que saíram a lume em
Lisboa nos anos de 1797, 1805 e 1806.
Medina e Vasconcelos, que, no já citado dizer do dr. Álvaro de Azevedo, se manifestou desde a mocidade
sectário das ideais dos filósofos do século XVIII, foi também um acérrimo partidário da Constituição de
1821, sendo por isso envolvido nas redes da alçada que em 1823 veio a esta ilha (vol. I. pág. 32) proceder a
uma rigorosa e vexatória devassa acerca dos acontecimentos que se deram entre nós por ocasião da
proclamação do primeiro governo representativo que vigorou no nosso país. Os seis magistrados que
constituíam a alçada chegaram ao Funchal a 26 de Agosto de 1823 e proferiram a respectiva sentença a 24
de Outubro do mesmo ano. Nela se diz que Medina e Vasconcelos «esquecido dos deveres da honra e de fiel
vassalo, e dos vínculos que mais estreitamente o ligavam como funcionário publico, tivera o desacordado
arrojo de proferir em publico gravissimas injurias ofensivas do decoro, veneração e respeito devidos ao
Throno e ás reais pessoas de suas magestades, e tão graves que se julgam indignas de se escreverem neste
acordão». Na mesma sentença se afirma que estava filiado na Maçonaria e tomava parte nos seus trabalhos,
tendo notavelmente concorrido para a proclamação e estabelecimento do governo constitucional neste
arquipélago. Foi condenado «em oito anos de degredo para o Estado de Angola, com inhabilidade para os
oficios de Justiça ou Fazenda, e em cincoenta mil réis para o Fisco».
Medina e Vasconcelos morreu na capital do arquipélago de Cabo Verde no ano de 1824, isto é, pouco depois
de proferida a sentença que o desterrara para Angola, sendo-nos desconhecidos os motivos que
determinaram a alteração da pena quanto ao lugar em que deveria ser cumprida. Este nosso patrício exercia
no Funchal o lugar de tabelião de notas, quando foi processado pela alçada e desterrado para Cabo Verde.
Das obras poéticas publicadas por Francisco de Paula Medina e Vasconcelos, temos conhecimento das
seguintes:
Poesias Lyricas de Medina ..
Lisboa, 1797, de 245 pag.;
Sextinas Elegiacas ao sempre
memoravel estrago... na calamitosa aluvião do dia 9 de Outubro de 1803
, Lisboa 1805, de 24 pag
.;
Zargueida, Descobrimento da Madeira
, Lisboa, 1806, de 254 pag: e Georgeida, Londres, 1819, de XIV-215
pag.. Inocencio, no
Diccionario Bibliographico Portuguez
faz ainda menção destas composições poeticas:
Poesias lyricas
, Lisboa, 1793;
Noute triste a que deu logar a morte da Ex.
ma
Srª. D. Carlota Margarida
.
Lisboa, 1792;
Noites tristes de Fileno na ausencia de Marilia
, Lisboa, 1805; e
Elegia á deploravel morte do
grande e incomparável Manuel Maria Barbosa du Bocage
Lisboa, 1806.
Inocencio, num pequeno juizo crítico que faz das poesias de Medina, diz o seguinte: «como poeta lyrico
pertenceu à escola francesa; os seus versos são em geral sonoros e bem fabricados, e de certo não lhe faltava
naturalidade. Pretendeu embocar a tuba épica; mas vê-se que esta empreza era muito superior ao seu
talento, e por isso nos dois ensaios que n'aquelle genero compoz, não conseguiu elevar-se jamais além da
mediocridade. Ha comtudo, em um e outro, episodios que não deslustram a sua musa e que se podem ler
com gosto».
Das composições de Medina e Vasconcelos, foi a Zargueida a que lhe deu maior renome e ainda hoje é de
tôdas a mais conhecida. É um poema épico em oitava rima, moldado nas formas classicas da antiga epopeia.
Divide-se em dez cantos e contém mais de cinco mil versos. Trata do descobrimento da Madeira por João
Gonçalves Zargo, aproveitando o apelido do descobridor para titulo do poema. Contém uma série de
interessantes episodios com algumas felizes divagações poeticas, entre as quais avulta a lenda de Machim. E
somente no canto X, que se faz a descrição do descobrimento desta ilha. Precede o poema um soneto
dedicado a Bocage, a que este insigne poeta respondeu com outro soneto, que é sem duvida a mais bela
composição que êste volume encerra.
No «Arquivo Historico da Madeira» e no «Diário de Noticias» de 15 de Julho de 1928, encontram-se
algumas informações inéditas acerca do poeta Medina e Vasconcelos.
Medina e Vasconcelos (Cónego Dr. Gregório Nazianzeno)
Nasceu no Funchal no ano
de 1787 e faleceu nesta cidade a 23 de Abril de 1858. Era bacharel formado em leis pela Universidade de
Coimbra e cónego da Sé do Funchal, tendo exercido entre nós a advocacia com notável brilho.
Desempenhou vários cargos, como o de juiz da conservatória britânica, procurador á Junta Geral, vigário
geral do bispado, etc.. Foi um brilhante jornalista e deputado pela Madeira na sessão legislativa de 1837 a
1838. Gozou de grande prestigio e influencia pela sua não vulgar ilustração e notáveis qualidades de
carácter. Era irmão do poeta Medina e Vasconcelos, autor da
Zargueida
.
Medina e Vasconcelos (Sérvulo de Paula)
Era filho do poeta madeirense Francisco de Paula
Medina e Vasconcelos, nasceu no Funchal por 1822 e foi empregado civil para as ilhas de Cabo Verde, com o
governador D. José Miguel de Noronha, em 1845, falecendo ali por 1854. Publicou no Funchal, em 1845, um
drama intitulado Amor e Pátria, que foi representado nesta cidade no teatro Concordia, em Agosto de 1844,
foi redactor do
Beija-Flôr
e por 1851 foi em Cabo Verde redactor do
Boletim Official,
onde publicou o
romance
Um filho chorado
.
Medinas (Rua dos)
Servem-lhe de limites as ruas da Cadeia Velha e do Ribeirinho de Baixo.
Provém-lhe o nome de ali ter residido uma família de apelido Medina. Antes da aluvião de 1856, esta rua era
habitada por famílias dignas da maior consideração e respeito.
Medusa
A fragata francesa Medusa, muito conhecida pelo seu naufrágio no banco de Arguim, a 40
léguas da costa de Africa, e pelos incalculáveis sofrimentos a que estiveram sujeitos muitos dos seus
tripulantes e passageiros depois que abandonaram o navio, passou à vista da Madeira no dia 28 de Junho
de 1816, não chegando porém a comunicar com a terra. A fragata era comandada por Duroy de Chaumareys,
a cuja teimosia e incapacidade se deve a morte de mais de 150 pessoas que nela haviam embarcado em Aix,
com destino aos estabelecimentos franceses da costa ocidental de Africa. O naufrágio deu-se no dia 2 de
Julho de 1816.
Meia Légua
Para leste do Lazareto de Gonçalo Aires fica uma rocha a que os marítimos chamam
vulgarmente a Rocha da Meia Légua.
Meimendro (Hyosciamus albus, subespecie major)
Salanacea com as folhas inciso-lobadas
e as flores amarelas, afuniladas, com os filetes e a parte interna das corolas purpureo-escuros. Encontra-se
no litoral da Madeira e no Pôrto Santo. É planta venenosa, mas as suas fôlhas podem ser usadas
externamente no tratamento das ulceras. O oleo de meimendro tanto pode ser extraido desta especie, como
do Hyosciamus niger, Solanacea que se não encontra na Madeira. Nalgumas partes da ilha dão ao
meimendro o nome de meiomento.
Meireles
O primeiro que deste apelido achámos foi Joaquim Coelho de Meireles, que em 1812 era
tesoureiro da Câmara Municipal do Funchal.
Meireles (Visconde de)
Este distinto escritor e jornalista, que faleceu no ano de 1915, visitou varias
vezes esta ilha, por cujas belezas naturais e benignidade de clima tinha a mais devotada admiração. Foi no
ano de 1913, em que se demorou uma larga temporada nesta cidade, que advogou com brilho e valiosos
argumentos a ideia da reconstrução da casa onde viveu Cristovão Colombo, como já noutro logar referimos
(vol. 1, pág. 286 e s.). Também se ocupou do tríptico pintado em madeira, que existe na sacristia da igreja
paroquial de São Pedro, dando a conhecer aos madeirenses a bela descrição que lhe dedicou o distinto
escritor M. Teixeira Gomes, no seu livro
Cartas sem moral nenhuma
.
Mela
V. Doença das Semilhas.
Melancia (Citrullus vulgaris)
Cucurbitacea cultivada no Pôrto Santo, mas pouco conhecida na
Madeira. As melancias do Pôrto Santo são de boa qualidade, ainda que pequenas quasi sempre.
Melão (Cucumis Melo)
É principalmente na ilha do Porto Santo que se vê com frequência esta
Cucurbitacea. No tempo em que Manuel Tomás escreveu a Insulana, parece que havia abundância de
melões na Madeira, pois que os encontramos mencionados entre os muitos frutos que produzia então esta
ilha. E de crer que a ribeira dos Melões derive o seu nome de ter havido outrora nas suas margens ou
imediações grande abundancia de meloeiros.
Melim
É diz o dr. Alvaro de Azevedo, a forma portuguesa de Lomelini ou Lomelino, mas ao presente
constitui diverso apelido em famílias de ramo decadente, senão inteiramente estranhas aos Lomelinos.
Melo
Este apelido de família, diz o dr. Alvaro R. de Azevedo, veio ligar-se com o dos Camaras e dos
Noronhas pelo casamento de D. Felipa de Noronha, segunda filha de João Gonçalves da Câmara, segundo
donatário do Funchal, com Henrique Henriques, senhor das Alcáçovas, filho de D. Fernando Henriques e de
D. Branca de Mello.
Melo (D. António Jorge de)
Este Governador e Capitão-general do arquipélago foi nomeado para
este lugar a 13 de Março de 1689, tendo tomado posse a 27 de Abril do mesmo ano.
Melo (Professor Carlos de)
E.: Machico and the discovery of Madeira (The Scottish Geographical
Magazine , Abril. 1896).
Melo (Diogo de Azambuja de)
Este Governador-Geral da Madeira sob o domínio filipino, foi
nomeado a 23 de Maio de 1594 e tomou posse a 20 de Janeiro de 1595. Faleceu no Funchal, em 1600.
Melo (Florencio José Correia de)
Data de 12 de Outubro de 1814 a sua nomeação para
Governador e Capitão-General deste arquipélago, tendo chegado ao Funchal a 16 de Abril de 1815 e tomado
posse do seu lugar a 22 de Abril.
Chegou à Madeira poucos meses depois da saída das tropas inglesas desta ilha, que, durante o longo período
de 7 anos, levaram a maior indisciplina às forças da guarnição e uma grave desordem e perturbação a todos
os serviços públicos. Correia de Melo conseguiu quanto possível corrigir esses abusos e prestou excelentes
serviços na administração pública do arquipélago.
Durante o seu governo, passaram na Madeira o imperador Napoleão, a 23 de Agosto de 1815, em direcção
ao seu desterro de Santa Helena, e a princesa Leopoldina, a 11 de Setembro do mesmo ano, que se dirigia ao
Brasil a contrair matrimónio com o Principe Real D. Pedro e a quem Florencio de Melo fez uma brilhante
recepção (V.
Napoleão na Madeira
e
Princesa Leopoldina
).
Florencio José Correia de Melo fez pessoalmente entrega do governo da Madeira ao seu sucessor e saiu
desta ilha na segunda quinzena do mês de Maio de 1819.
Melo (D. Francisco Manuel de)
Já no artigo referente a Machim nos ocupámos deste ilustre
escritor, por ter sido êle que na sua terceira Epanaphora deu maior curso à poética e conhecida narrativa
que tem como protagonista aquele lendário personagem. Outras razões aconselham porém mais larga
referencia ao autor
da Carta de Guia de Casados e dos Apologos Dialogaes
, e porisso voltamos a tratar
dele.
Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do ilustre descobridor da Madeira, foi terceiro capitão da ilha de S.
Miguel, por compra que fizera a João Soares daquela importante donatária. O filho segundo de Rui
Gonçalves, por nome Antão Rodrigues da Camara, que casara com uma senhora nobre do reino, instituiu
uma grande casa vincular na ilha de S. Miguel, de que hoje é representante o conde da Silvã, e a esta distinta
familia pertence o grande escritor D. Francisco Manuel de Melo.
Acerca deste Antão Rodrigues da Camara, encontramos na Historia Insulana do padre Antonio Cordeiro, o
seguinte curioso episodio:
«. . . e sahiu tão grande cavalleiro, que em uma ocasião indo ele com muitos a cavallo cortejando a el-rei D.
Manuel, que a cavallo ia tambem pela corte de Lisboa, e sucedendo passar um indio por diante com um
elefante que levava a mostrar, todos os cavallos, até o do mesmo rei, se alteraram com tal vista e fugiram e
cahiram alguns cavalleiros, mas Antão Rodrigues de tal sorte governou o seu cavallo que, investindo ao
elefante fez que seu cavallo pozesse a boca sobre a anca do elefante e dando-lhe com o terçado uma leve
espadeirada se voltou para el-rei dizendo que nada era aquilo: e mandou el-rei logo o seu estribeiro mór que
tal cavallo comprasse a todo o preço a Antão Rodrigues, este logo o ofereceu, mas dado sim e por preço
algum não, e não vindo el-rei em tal nem querendo vendel-o Antão Rodrigues, voltou este com o cavallo
para a ilha donde o tinha levado, ensinado já para elle . . . »
D. Francisco Manuel de Melo refere-se à sua ascendencia, entroncando-a no descobridor da Madeira:
« . . . João Gonçalves Zarco, um varão famoso entre os nossos, por que não contando as casas mais antigas,
de que por incertas não fazem memoria, poucos homens havemos tido em Portugal de tão opulentas
descendencias, a quem devem sua varonia tres condes deste apelido, Calheta, Villa Franca e Athouguia. . . E
por casamentos procedem de João Gonçalves 21 titulos deste reino . . . E porque em suas cousas não parece
invalido meu testemunho, é razão que eu me conte em a propria lista de seus sucessores, não com menor
obrigação que alguns que tenho referido; pois, tirando os que possuem os morgados de suas varonias,. sou
eu quem gosa o maior morgado da familia dos Camaras, instituido por Antonio Rodrigues da Camara, que
foi materno avô do meu avô paterno e neto de João Gonsalves da Camara, filho do seu segundo filho Ruy
Gonsalves da Camara, senhor da ilha de S. Miguel. . . ».
Entre a larga e brilhante geração que, espalhada pelo Continente, Açores, Madeira e Brasil, procede do
grande navegador e descobridor da Madeira, não avulta decerto uma figura tão distinta como a de D.
Francisco Manuel de Melo, que, sendo o maior talento do seu tempo, segundo o testemunho dos seus
contemporâneos, foi também um notabilíssimo escritor, um guerreiro ilustre e um habil politico e
diplomata.
Nota o dr. Azevedo a propositada inexactidão de Melo, fazendo-se descendente de Zarco por varonia
legitima, quando é certo que Rui Gonçalves da Camara (V. vol. 1, pág. 206) não teve descendência do seu
único casamento com D. Maria Bettencourt.
Edgar Prestage na sua notável obra D. Francisco de Mello, ocupando-se do seu exílio para o Brasil, refere,
nos seguintes termos, a passagem do ilustre escritor por esta ilha:
«Sabado, 17 de Abril de 1655, partiu a armada de Lisboa com trinta e seis naus, e em quatro dias chegou á
Madeira onde tinha de receber os vinhos da Companhia. Ali vieram noticias de que uma armada ingleza
sahira ao mar com mais de quarenta galeões e doze mil homens com tenção de passar ao Brazil, e logo
houve duvidas, se, em vista desta circumstancia, se devia guardar o Regimento do Rei que ordenava
passasse o general ao Rio de Janeiro com os mais grossos galeões, dividindo o resto da armada em duas
esquadras destinadas, uma a Pernambuco e outra á Bahia. Chamados para um conselho os cabos maiores e
entre eles sem duvida, D. Francisco Manuel, houve diversidade nos pareceres, mas por fim ficou resolvido
que a armada seguisse a sua derrota para Cabo Verde e lá tomasse informações com respeito á frota ingleza.
«A estada na Madeira de quasi um mez devia ter sido agradável ao escriptor, porque lhe proporcionava
ocasião de ver as bellezas naturais da ilha, que decerto lhe mereceram particular interesse, não só por ter
sido occupada pelo seu ascendente João Gonçalves Zarco, que veio a ser capitão da ilha e fundador da
cidade do Funchal, mas porque um anno antes elle proprio historiava na 3ª. Epanaphora o suposto
descobrimento pelos amantes fugidos Roberto Machim e Anna de Arfet. Deixando a Madeira em 15 de
Maio, a armada descobriu a ilha da Palma em 19 e em 26 a de Cabo Verde....
Como já fica dito, D. Francisco Manuel de Melo ocupa-se do descobrimento da ilha da Madeira na terceira
parte das Epanaphoras que se tornou muito conhecida entre nós depois que o dr. Alvaro Rodrigues de
Azevedo fêz dela largos extractos numa das suas notas ás
Saudades da Terra
.
Essa narrativa, na sua linguagem florida e imaginosa, na inverosimilhança de muitos factos e episódios que
apresenta e até nas frequentes digressões de todo estranhas ao assunto, dá-nos a impressão nítida da
descrição duma dessas fantásticas aventuras amorosas de que vêm recheadas as novelas de cavalaria da
idade média. Logo ao primeiro lance de vista, e independentemente dum estudo crítico e demorado do
texto, se descobre que o ilustre escritor não historiou, mas fêz apenas uma obra de pura ficção romântica.
Guerreiro e poeta, homem do mundo e galanteador, imaginação fogosa e ardente, deixou-se incendiar pela
lava da sua fantasia e soube de tal maneira impressionar os espiritos dos que o lêem, que, passados dois
séculos e meio, a sua narrativa atrai ainda, senão crentes fervorosos, pelo menos almas impressionáveis que
nela encontram verdadeiras seduções e encantos. Vários prosadores e poetas foram achar ali fonte de
inspiração para algumas das suas mais belas composições literárias.
Não foi, porém, Melo que inventou a história de Machim, pois antes dele, a começar por António Galvão
(1563), vários escritores se referiram a ela. Quis dar-lhe foros de verdade historica, baseando a sua narrativa
num manuscrito, que afirmava possuir da lavra de Francisco Alcoforado, um dos companheiros de João
Gonçalves Zarco. O próprio dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, que com tão poucas complacencias trata D.
Francisco Manuel, admite a possibilidade de este ter sido iludido na sua boa fé no tocante à existência do
referido manuscrito, mas não há vislumbre de duvida que deu largas à sua ardente fantasia na narrativa que
nos deixou na sua terceira Epanaphora acerca da descoberta da Madeira.
Quanto á Relation Historique de la découverte de l'isle de Madère, publicada em Paris em 1674 e que no
prefacio da mesma se diz ser o proprio manuscrito do Alcoforado, não passa duma escandalosa fraude
literaria, como exuberantemente o demonstra o dr. Alvaro de Azevedo, não cabendo, porém, a Melo a
menor culpabilidade dela, pois que o ilustre escritor morreu em 1666 e a publicação da Relation fez-se no
ano de 1671.
É possivel que já no tempo de Melo se houvesse, embora vagamente, espalhado a noticia de que o
arquipélago da Madeira fora descoberto no século XIV, não sendo portanto Zarco e os seus companheiros os
que primeiramente tivessem aportado a estas plagas solitarias. Com o decorrer dos tempos, tem sido esta
afirmativa corroborada com argumentos de valor, sem que o facto venha diminuir a gloria de Zarco, como
navegador e como descobridor e primeiro colonizador da Madeira.
O dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo trouxe pela primeira vez a lume, em 1873, a ideia provável de se ter
pensado e talvez entabolado negociações para a cessão da Madeira á Inglaterra, como parte integrante do
dote de D. Catarina.
Diz o dr. Azevedo numa das anotações á obra de Gaspar Frutuoso:
«E a rainha regente D. Luiza, como a todo o custo lhe parecia barato conseguir este casamento para a
infanta, preparava em segredo o sacrificio de mais uma valiosa e cubiçada colonia portuguesa, se para isso
preciso fosse: o da ilha da Madeira... Deste facto não ha noticia nos historiadores do tempo, quer
portugueses, quer ingleses, nem mesmo nas memorias de Lord Clarendon, o qual trata largamente do
referido casamento, e até como chanceller que era de Carlos II, interveio eficazmente nas negociações
diplomáticas para ele. Tão cauta foi a rainha D. Luisa que assim soube esconder o seu projecto de ceder a
ilha da Madeira; mas, pelas provas que achámos, estamos convencidos de que realmente o houve.»
Em reforço da sua afirmativa, espraia-se em seguida o dr. Rodrigues de Azevedo em interessantíssimas
considerações que, se não constituem argumentos decisivos e razões inteiramente probatórias, são no
entretanto conjecturas e presunções de grande valor a favor do pensamento da cedência desta ilha, se a
Inglaterra tivesse exigido mais este sacrifício a Portugal. Não transcrevemos neste logar as sensatas
reflexões do dr. Azevedo pela sua demasiada extensão e por ser fácil encontrá-las a pág. 381 e seguintes das
Saudades da Terra
.
O mesmo ilustre anotador sustenta também, embora com argumentos de menos pêso, que D. Francisco
Manuel de Melo, na ideia daquela cedência, colaborou com a rainha D. Luísa de Gusmão, escrevendo a sua
Epanaphora e dando a Madeira como descoberta por ingleses para tornar mais viável e menos odiosa aos
portugueses a entrega dela à Inglaterra. É de justiça ouvir Edgar Prestage, o ilustrado biografo de D.
Francisco Manuel de Melo:
«. . . o anotador das Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso allega que D. Francisco, tendo recebido a lenda
do descobrimento da ilha pelos dois amantes inglezes Roberto Machim e Anna de Arfet, fez della um
romance com o fim de popularisar esta historia e tornar menos dura para o pundonor portuguez a entrega
da Madeira a Carlos II da Inglaterra, se isso fosse preciso. Ora no nosso entender, este argumento é um
pouco forçado, para não dizer phantastico, e o sr. A. R. de Azevedo para sustental-o, tem de carregar na
acusação, dizendo que a Epanaphora, que no livro impresso vem datada de Bellas em 1654, foi de proposito
antedatada, tendo sido escrita depois da volta de D. Francisco do Brazil. Mas esquece-se de ter previamente
afirmado que a Epanaphora demonstra, da parte do seu auctor, ignorancia da topographia da ilha,
circumstancia que era natural em 1654, mas que mal podia dar-se depois, visto que, como já contámos, D.
Francisco ficou lá um mez quando de caminho para o exilio.
«Foi pois a absoluta necessidade para Portugal de conseguir o auxilio militar e diplomatico da Inglaterra
que justificou a cessão de Tanger e Bombaim, além dum dote enorme, que nunca foi pago por inteiro, e a
mesma necessidade teria justificado a cessão da Madeira, se tivesse sido exigida. Se a rainha regente estava
prompta a cedel-a, como o argue o sr. Azevedo, não sabemos dizer, em vista do silencio dos historiadores,
mas de que D. Francisco de Mello fosse parceiro de D. Luiza de Gusmão na trama, não existe prova
nenhuma. Quanto a nós, é uma asserção gratuita, que não merece crédito. Estamos na opinião que o nosso
biographado realmente acreditava no primitivo descobrimento inglez, como tinham acreditado antes delle
historiadores de nomeada, embora phantasiasse nos pormenores da narrativa".
É este um ponto que será talvez hoje impossível esclarecer, mas que na verdade não tem uma importância
capital. O mesmo não se poderá dizer relativamente à suposta cedência da Madeira aos ingleses, porque isso
interessa bastante à historia madeirense e mais ainda á historia geral do nosso país. O dr. Álvaro Rodrigues
de Azevedo não deixou o assunto suficientemente esclarecido, estabelecendo apenas uma hipótese provável,
e o talentoso autor do opúsculo Um ponto de história pátria nada acrescentou de essencial às considerações
do anotador das
Saudades da Terra
.
Melo (Pantaleão de Sá e)
Foi nomeado Governador e Capitão-General da Madeira a 1 de Março de
1694 e tomou posse do seu cargo a 22 de Julho do mesmo ano.
Melo (D. Rodrigo António de)
A sua nomeação para Governador e Capitão-General do
arquipélago madeirense é de Junho de 1821, tendo tomado posse a 2 de Julho do mesmo ano. Foi demitido,
a seu pedido, por carta regia de 22 de Março de 1822, mas só deixou o governo depois da chegada e posse do
seu sucessor António Manuel de Noronha, a 22 de Abril de 1822. Foi êle que presidiu á cerimonia, a 28 de
Janeiro de 1822, do lançamento da primeira pedra do monumento da Constituição, que revestiu a maior
solenidade.
Melro Preto (Turdus merula)
Ave da família Turdida, indígena da Madeira e que faz os seus
ninhos sobre as arvores de pequeno porte, as bananeiras, etc. A postura tem lugar geralmente em Maio e
Junho. Tem sido achado no Porto Santo, mas não faz criação naquela ilha. São os indivíduos machos que se
recomendam pelo seu canto forte e agradável.
O melro preto apresenta algumas vezes manchas brancas.
Mendes
Martim Mendes de Vasconcelos, mandado por D. João I para na Madeira casar com Helena
Gonçalves da Câmara, filha de Zargo, foi um dos primeiros povoadores da ilha, tendo tido grandes
sesmarias em S. Martinho, junto à ribeira dos Socorridos, e no Estreito de Câmara de Lobos. Joane Mendes
de Brito foi outro antigo povoador, que teve sesmaria na freguesia do Campanário.
Mendes (Coelho)
Há perto de quarenta anos residiu no Funchal um açoreano de apelido Coelho
Mendes, que nesta cidade publicou, pelos anos de 1885, um volume de poesias, intitulado Flores Agrestes,
tendo também publicado um pequeno opúsculo numa polémica que sustentou com o cónego Aires Pacheco.
Com o titulo de Flores Agrestes, tinha já anteriormente João Fortunato de Oliveira publicado no Funchal
um volume de poesias no ano de 1860, e muitos anos depois, em 1903, publicou também Manuel Ribeiro
nesta cidade um pequeno volume de versos com o mesmo titulo.
Mendes dos Reis (José)
Em Maio de 1919, foi eleito deputado por este arquipélago.
Mendonça
Este apelido de família procede talvez de descendentes dos donatários do Porto Santo e de
Machico, visto Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatário daquela ilha, ter casado com Beatriz Furtado de
Mendonça e João Teixeira, terceiro filho de Tristão Vaz, haver casado com Filipa de Mendonça Furtado, de
quem houve Tristão de Mendonça.
Mendonça (António Teixeira de)
NaBibliotheca Lusitana , diz Barbosa Machado que António
Teixeira de Mendonça era natural da ilha da Madeira e que escreveu o Livro dasGeraçoens do Reino de
Portugal . Nada mais sabemos a seu respeito.
Meneses
Procede este apelido de família de Vasco Martins Moniz de Meneses, fidalgo da casa real, que
teve sesmaria no Caniço e grande casa na vila de Machico, tendo instituído morgado da sua terça por
testamento aprovado em 1498, e de Antonio Telo de Meneses ou António Teles, fundador da capela de
Santo António, na freguesia de Santa Maria Maior. Os Teles de Meneses vêm por bastardia dos condes de
Vila Pouca, segundo a opinião do falecido genealogista madeirense José Bettencourt da Camara.
Meneses (Aires de Saldanha de Sousa)
A 9 de Novembro de 1668, foi nomeado Governador e
Capitão-General da Madeira, tendo tomado posse de seu cargo a 10 de Abril de 1669. Foi, anos depois,
Governador e Capitão-General de Angola.
Meneses (Carlos Azevedo de)
Nos gloriosos anais das ciências, não figuram muitos nomes de
indivíduos que houvessem tido como berço a chamada «Perola do Oceano». Contando as ilhas açoreanas
um numero considerável de seus filhos que notavelmente se distinguiram em todos os ramos do saber
humano, não pôde a Madeira acompanhar sempre os seus irmãos insulares na cultura das mais
transcendentes manifestações do espírito.
Estas palavras não querem exprimir a afirmação de que a nossa terra não haja sido pátria de alguns
distintos cultores das ciências, das letras e das artes, que merecidamente devem ser rememorados e dos
quais nos temos tantas vezes ocupado com a maior admiração e apreço.
É o que, neste momento, ainda novamente vimos fazer, como o mais justificado preito de justiça e como o
mais sentido e penhorante reconhecimento, acerca do que foi o nosso distinto e dedicado companheiro na
elaboração das mil e tantas paginas deste «Elucidário Madeirense». Pertencendo à pena de Carlos Azevedo
de Meneses, na sua quasi inteira totalidade, a colaboração da parte cientifica desta obra, cumpre-nos pôr
em saliente relevo que é ele o autor dos artigos de maior valor e de mais alto mérito espalhados largamente
em todas estas páginas.
Carlos de Meneses era oriundo de antigas e distintas famílias madeirenses e nasceu no Funchal a 26 de
Agosto de 1863, sendo filho do abalizado médico dr. Antero Drumond de Meneses e de D. Elisa Azevedo de
Meneses, neto paterno do ilustre madeirense Servulo Drumund de Meneses (1-381) e materno do general e
engenheiro António Pedro de Azevedo (1-113) e sobrinho do distinto escritor e dramaturgo Maximiliano de
Azevedo (1-113).
Carlos Azevedo de Meneses, nas relações de intimidade que manteve com o falecido botânico João Maria
Moniz e por uma natural propensão de seu espírito, criou pelo estudo da botânica e especialmente da flora
madeirense uma paixão ardente, que somente a morte veio destruir, pois que não interrompera nunca os
seus trabalhos científicos, tendo ainda em 1928 publicado um interessante estudo na acreditada revista
Broteria, de que era um distinto e assíduo colaborador. Carlos de Meneses, pelos seus numerosos trabalhos
e pelos seus aprofundados estudos, era considerado como um abalizado botanico e contado no número dos
mais ilustres naturalistas portugueses. A sua obra, que é vasta, que é profunda e que é absolutamente
conscienciosa, despida portanto de todo o charlatanismo cientifico, foi sempre muito apreciada e elogiada
pelas mais altas capacidades naquela especialidade das ciências naturais, tendo sido por isso recebido no
seio de muitas sociedades cientificas e convidado a colaborar nas mais acreditadas revistas nacionais e
estrangeiras, em que era apenas permitida a colaboração de valiosos trabalhos botânicos.
Entre essas revistas, podemos fazer menção da
Broteria
,
Anais das Sciencias Naturais, Jornal das
Sciencias Matematicas
,
Fisicas e Naturais
,
Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Academie de
Geographie Botanique, Bulletin de Géographie Botanique
etc. etc.. Foi membro laureado da Academia
Internacional de Geografia Botanica de Man, socio efectivo da Sociedade Portuguesa de Sciencias Naturais
de Lisboa, associado provincial da Academia das Sciencias da mesma cidade, membro da Sociedade
Broteriana, de Coimbra e ainda de outras, de que não pudemos colher informações mais seguras.
Dos trabalhos científicos de Carlos Azevedo de Meneses, mencionaremos a
Flora do Arquipélago da
Madeira
, que constitui um trabalho de 282 páginas,
Fanerogamicas da Madeira e Porto Santo, Arvores e
Arbustos Madeirenses, As Gramineas do Arquipelago da Madeira, Madeira Ferens
, traduzido para o
inglês por Herbert Gilbert,
Contribuição para o estudo da Flora do Arquipelago da Madeira, Contribuição
para o estudo das Algas da Madeira, As Zonas botanicas da Madeira e Porto Santo, As Labiadas do
Arquipélago da Madeira, A Flora dos mais altos picos da Madeira
, e ainda outros muitos opúsculos
escritos na lingua francesa entre os quais se conta a
Notice sur les Phanérogames de Madère et Pôrto
Santo
, inumeros folhetos e separatas de estudos insertos em revistas da especialidade, não contando o
abundante numero de artigos disseminados por várias publicações cientificas.
Carlos de Meneses não limitou a sua actividade cientifica e literária apenas a elaboração dos seus escritos de
acentuada feição botânica, mas ocupou-se com certa largueza de outros assuntos das ciências naturais e
ainda particularmente de carácter histórico como o comprovam muitos artigos insertos no Elucidário
Madeirense e em diversos jornais do Funchal.
Completados os estudos secundários, frequentou durante alguns anos o Instituto Comercial de Lisboa, cujo
curso não chegou a concluir. Serviu como amanuense da secretaria da Câmara do Funchal e foi
posteriormente nomeado director da Biblioteca Municipal, lugar que desempenhou até à sua morte,
ocorrida a 1 de Maio de 1928.
Meneses (Inácio Espinola de Castro e)
Diz aBibliotheca Lusitana que era natural do Funchal e
que escreveu a obra intituladaNove Dialogos em Castelhano .
Meneses (D. João de)
Foi Governador Geral da Madeira, tendo tomado posse em Janeiro de 1634.
Distinguiu-se nas guerras da restauração e foi Governador do Porto.
Diz dele o dr. Rodrigues de Azevedo que era oculto mas firme inimigo do domínio dos Filipes, a ponto de
que, estando em Madrid ao tempo da revolução do 1.° de Dezembro de 1640, feita em Lisboa, fugiu para
esta cidade, quando foi preso em Burgos, conseguindo no fim de cinco anos escapar-se e pôr-se ao serviço
de D. João IV.
Morreu na Holanda em 1649.
Meneses (Jorge Martins de Sousa e)
Este Governador e Capitão-General da Madeira foi
nomeado a 1 de Junho de 1718 e tomou posse a 5 de Outubro seguinte. Distinguiu-se na Índia como militar
e deu grandes provas de valor na guerra da Sucessão. Morreu a 24 de Janeiro de 1728.
Meneses (Pedro Fagundes Bacelar de Antas e)
Este Governador e Capitão-General da Madeira foi
nomeado para este cargo a 4 de Março de 1807 e dele tomou posse a 5 de Agosto do mesmo ano.
Cinco meses depois da sua chegada ao Funchal, foi esta ilha pela segunda vez ocupada por tropas britânicas,
que aqui chegaram em fins de Dezembro de 1807 e só abandonaram a Madeira em Outubro de 1814
(V.
Ocupação da Madeira por tropas inglesas).
Em Maio de 1813, foi Pedro Fagundes atacado duma paralisia, impossibilitando-se de continuar à testa do
governo. Retirou-se para o Continente do Reino e faleceu em Lisboa a 1 de Novembro de 1813. Encontrava-
se ainda no Funchal quando chegou o seu sucessor Luís Beltrão de Gouveia a 7 de Agosto daquele ano.
Meneses e Lencastre (Dr. Luís Adriano de Magalhães)
Foi par do reino electivo pela
Madeira na sessão legislativa de 1890 a 1892.
Menezesia
Genero de Protomicetaceas (Fungos) dedicado pelo distinto micologo frances o rev. C.
Torrend a um dos autores dêste
Elucidário
, e que apenas compreende por enquanto uma unica espécie – a
Menezesia setulosa – achada em Setembro de 1913 na freguesia do Monte, nos ramos em decomposição da
Hedera Helix
. Foi publicado a pag. 175 do vol. XI da
Broteria
(secção botânica)
.
Menino Jesus Perdido
Assim era chamada uma festa anual de carácter privado, pois não era
autorizada por qualquer indicação litúrgica, que se celebrava, por vezes com aparato, no interior dos
conventos de religiosas e sem a interferência directa dos respectivos capelães, revestindo, no entretanto,
uma edificante forma de devoção e de piedade digna de especial apreço. No convento de Santa Clara desta
cidade, foi estabelecida por meados do século XVII pela piedosa monja Clara da Chaga, oferecendo interesse
o que acerca dessa festa e seus pormenores se encontra em «0 Jornal» de 6 de Janeiro de 1934. No livro
Ripas da Madeira
, encontram-se interessantes pormenores acerca das festas do «Menino de Jesus
Perdido», embora delineados com alguns traços de pura ficção.
Mentastro
Nome vulgar da
Cedronella triphylla
, da
Mentha aquatica
e da M.
rotundifolia
, plantas da
familia das Labiadas. Esta ultima especie, que se distingue pelo seu cheiro forte e desagradavel e pelas suas
fôlhas reticulado-rugosas, crenadas, encontra-se nos leitos das ribeiras e proximidades das levadas.
V.
Sandalos e Hortelã de burro.
Mercado e Capela de São Sebastião
O largo a que o povo vulgarmente chama do Chafariz,
tinha o nome de São Sebastião, havendo recebido há poucos anos da Câmara Municipal a nova
denominação de largo do Comercio. Antes da formação do largo com a área que hoje conserva, havia ali
uma estreita rua, que era o prolongamento da rua do Aljube e tinha também o nome de rua de São
Sebastião. Entre a rua de S. Francisco e o edifício da Misericórdia (V.
Jardim Pequeno
), existia um
fontanário a que comummente chamavam a Fonte, cujas bacias foram requisitadas pela Câmara em 1838
para serem utilizadas no actual chafariz do largo do Comercio, o qual foi construído em 1827.
O nome de São Sebastião provém da pequena capela desta invocação que ali existiu. Era das mais antigas
desta ilha, mas não a mais antiga de todas, como parece acreditar o ilustre anotador das Saudades. Já a este
ponto nos referimos no artigo Freguesias e dele mais de espaço nos ocuparemos no artigo consagrado á
capela de Santa Catarina.
Não sabemos se por haver sido uma das mais antigas capelas da Madeira ou por especial devoção que os
habitantes do Funchal consagrassem ao seu orago ou padroeiro, o certo é que os moradores da vila e depois
da cidade tiveram sempre pelo pequeno templo a mais profunda e respeitosa veneração. Passados, porém,
quatro séculos, apareceu na manhã de 22 de Janeiro de 1803 inesperadamente demolida a velha ermida,
que o Governador e Capitão-General D. José Manuel da Câmara mandara arrasar na noite anterior, a
ocultas dos habitantes desta cidade. Tinha o Governador ordenado à Câmara a demolição da capela, por ela
administrada, num curioso documento que trazia a data de 15 de Janeiro daquele ano e que foi pela
primeira vez publicado no Jornal a Flôr do Oceano, de 1840. 0 motivo ali alegado para o apeamento do
pequeno templo e de duas casas que lhe ficavam contiguas era o da construção dum mercado, com o
pretexto de não haver outro local que melhor se adaptasse àquele fim. Não querendo o senado assumir a
responsabilidade de uma medida tão violenta e que previamente sabia que iria excitar as iras populares, não
cumpriu a ordem do Governador, tendo este então sem perda de tempo mandado destruir a capela.
O espanto e a indignação foram gerais, mas as ameaças do Governador e as providencias que antecipada e
cautelosamente soube adoptar, puderam conjurar o mal e evitar a pratica das violências, que todos
esperavam. Apenas o prelado diocesano D. Luís Rodrigues Vilares protestou contra a demolição da capela
sem preceder autorização sua, mas a isto se limitou o estalar da tempestade que fundadamente se receava.
O povo, porém, não esqueceu a sua capela nem o desejo de a levantar de novo. São passados 19 anos. Há
grande movimento na cidade e reina um vivo entusiasmo entre os seus habitantes. Adere-se à revolução que
rebentara no Porto em Agosto de 1820 e pública e solenemente se proclamam os princípios liberais que ela
viera implantar no país. Embora o facto não tenha para nós uma cabal explicação, a verdade é que o povo,
ao acabar de manifestar-se entusiasticamente pelas ideias apostolizadas pela revolução do Porto, foi ao
largo de S. Sebastião já transformado num mercado, destruiu a obra de D. José Manuel da Câmara e para
ali carreou todos os materiais ainda existentes da antiga capela e outros que pôde haver à mão, e pediu a
imediata construção da ermida arrasada em Janeiro de 1803. Conta o dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo que
o então Governador e Capitão-General Sebastião Xavier Botelho, descendente da mais alta nobreza de
Portugal e distinto homem de letras, lá foi também conduzir um cesto com pedras para a reedificacão da
capela que um dos seus antecessores mandara demolir.
Diz um documento da época que a demolição das barracas do mercado de S. Sebastião começou às 4 horas
da tarde de 1 de Fevereiro de 1821 e que às 5 horas estava tudo por terra, tendo vindo a noite muita cantaria,
pedra e madeiras destinadas à capela. No dia 7 se começou a quebrar a pedra para a capela, «o que tudo se
fez com muito motim e alarido do povo, que metia medo a todos os ministros», e dentro de poucos dias se
executou a reconstrução, que todavia não chegou nunca a ser ultimada.
Em 21 de Fevereiro de 1826, pediu a Camara ao Governador e Capitão-General que mandasse «remover a
ermida de S. Sebastião. . . visto este edificio não passar dum pardieiro, que com muita indecência está
servindo de receptaculo de imundicies e obscenidade», e em 28 do mesmo mês e ano renovou o mesmo
pedidos acrescentando que a dita ermida devia ser transferida para outro lugar «mais do serviço de Deus e
de Sua Magestade Imperial e Real»,. Em Janeiro de 1827, já a ermida de S. Sebastião estava demolida.
Em Julho de 1827, existia já o chafariz do largo de S. Sebastião, mas só mais tarde foi dotado com o elegante
obelisco de mármore, donde jorram quatro bicas de agua, que se lança num tanque circular, também de
mármore, a que dá acesso uma escada igualmente de forma circular. É a construção mais aparatosa que em
fontanários possuímos nesta ilha.
O antigo mercado de verduras e hortaliças há muito que desapareceu, sendo o mesmo largo presentemente
(1921) o local da venda dum calçado característico da Madeira, muito usado pela gente do povo das
freguesias rurais e feito de pele de cabra, principalmente fabricado nas freguesias do concelho de Câmara de
Lobos.
Antes da destruição da capela em 1803, foram transferidas processionalmente dali para a igreja de S. Tiago,
as imagens de Nossa Senhora, Santo Elói e S. Sebastião, tendo tido lugar esta cerimónia no dia 20 de
Janeiro do mesmo ano, com acompanhamento do clero das freguesias da Sé, S. Pedro e Santa Maria Maior
do Calhau, da comunidade de S. Francisco, da nobreza e do povo, este representado pela Casa dos Vinte e
Quatro. Os trabalhos do nivelamento do solo e da construção das barracas duraram pouco tempo, tendo-se
realizado a inauguração do mercado no dia 18 de Junho de 1803.
Mercados
–
Mercado de S. João
. Foi inaugurado no dia 24 de Junho de 1823 e devia chamar-se
Mercado Constitucional de S. João, nome êste que não chegou a ser-lhe dado por ter chegado á Madeira a
noticia do restabelecimento do regimen absolutista, em virtude da revolução de 27 de Maio do mesmo ano.
Ficava no local onde se ergue hoje o teatro do «Dr. Manuel de Arriaga», tendo sido construído com dinheiro
emprestado por João de Carvalhal Esmeraldo, presidente da primeira Camara Constitucional.
Era conhecido em nossos dias pela denominação de «Feira Velha» e foi demolido em 1883, quando a
Municipalidade resolveu construir o referido teatro. Dentro do recinto do mercado, construiu-se em 1878 o
«Circo Funchalense», onde trabalharam algumas companhias.
O mercado chamado de S. João esteve para ser construído entre as ruas do Hospital Velho e Nova de Santa
Maria, num campo que ali existia, o qual chegou a ser vistoriado pela Camara e o tenente-coronel de
engenharia Feliciano António de Matos em 15 de Maio de 1821.
O terreno onde o mercado foi edificado pertencia aos frades de S. Francisco e foi aforado à Câmara em 24 de
Dezembro de 1822.
Parece que o mercado de S. João esteve encerrado ou deixou de servir o público durante algum tempo, pois
lemos algures que ele foi reaberto a 4 de Abril de 1846.
Mercado de D. Pedro V
As obras deste mercado começaram em Julho de 1876, tendo a Câmara para as
levar a efeito contraído quatro empréstimos, sendo um de 6 contos de réis, em 1876, dois de 10 contos de
réis cada um, em 19 de Junho e 7 de Novembro de 1878, e o ultimo de 34 contos de réis, dos quais apenas 4
foram destinados ao pagamento de folhas antigas do mesmo mercado. A importância do primeiro destes
empréstimos foi levantada pelos vereadores sob sua responsabilidade na casa bancária de João José
Rodrigues Leitão.
No sitio onde está (1921) o Mercado de D. Pedro V, aberto ao publico a 19 de Dezembro de 1880, houve
outrora uma oficina para a serragem de madeiras, e depois algumas barracas para a venda de frutas e
hortaliças. Foi Servulo Drumond de Meneses, quando vereador da Câmara em 1853, quem primeiro
lembrou a conveniência de se mandar edificar o mesmo mercado.
Mercado de São Pedro
– Vid. Praça do Peixe.
Mercado União
Foi construído em 1835 no local onde existiam as ruínas da igreja de Nossa Senhora
do Calhau, tendo a Câmara Municipal em 12 de Junho pedido licença ao Prefeito para demolir a torre e os
restos da mesma igreja, não obstante a carta regia de 10 de Março de 1805 tê-los mandado conservar. Para
dar maior extensão ao mercado adquiriu a Câmara dois prédios, um pertencente a Francisco João de Santa
Clara e Brito e outro à confraria do Santíssimo de Santa Maria Maior, os quais foram também mandados
demolir.
Embora o mercado já funcionasse em fins de 1835, só em princípios de 1839 é que foi fechado com uma
galeria de ferro, com três portas.
Em 10 de Novembro de 1910, resolveu a Câmara extinguir e demolir no fim do ano o mercado União, mas só
em 8 de Junho de 1911 é que se mandou abrir praça para as obras da referida demolição, as quais foram
arrematadas em 10 de Abril do mesmo ano.
Iam-se tornando muito acanhadas as instalações do Mercado de D. Pedro V, destinado especialmente à
venda de «verduras e hortaliças», e da Praça de S. Pedro, em que se fazia a venda de todo o peixe
consumido na cidade. Essas ponderosas circunstancias e ainda a
impreterível necessidade do
prolongamento da «Avenida do Mar» aconselhavam a edificação de novos mercados, em harmonia com o
movimento sempre crescente da população, com os mais modernos e rigorosos preceitos da higiene e com a
largueza e desafogo que importava imprimir a esses importantes serviços. Aventurou-se a Camara do
Funchal a essa empresa e fez levantar uma grandiosa construção, em que esses múltiplos serviços ficaram
funcionando em um só edifício, embora em diversas, vastas e independentes instalações, com todas as
condições exigidas pela mais perfeita organização desses mesmos serviços, chegando a afirmar-se que no
seu género era a primeira instalação de todo o país.
O local escolhido foi o de um vasto poligono enquadrado dentro dos limites do Largo dos Lavradores, Rua
de Santo António ou do Hospital Velho, Rua da Boa Viagem e Rua Nova de Santa Maria ou de Latino
Coelho, sendo a entrada principal aberta no antigo Largo dos Lavradores.
Como já ficou dito, apesar da diversidade dos serviços acumulados e que se faziam em dois diferentes
mercados, tudo ficou disposto e ordenado, em virtude da larga capacidade das instalações e da especial e
metódica organização que a tudo presidiu, de modo a não dar-se quaisquer perturbações e antagonismos
entre as variadas secções de carácter industrial e comercial, que ali exercem a sua actividade.
Mercês (Rua das)
Comunica as ruas dos Netos e de S. Pedro) com o largo do Marquês e a rua da
Saúde, e deriva o seu nome de ter existido nela o convento das Mercês, de que já falámos no 1.º vol. deste
Elucidário e cuja cerca se estendia até perto da capela das Almas, sendo então bastante estreita a travessa
das Capuchinhas.
A Câmara pensou em estabelecer a cadeia no convento das Mercês, cujos terrenos obtivera depois da
proclamação da República, mas tendo desistido dessa ideia resolveu em 22 de Abril de 1914 ceder ao
«Auxilio Maternal» os mesmos terrenos, recebendo em troca a parte do convento de Santa Clara cedida á
mesma instituição pelos decretos de 31 de Outubro de 1912 e 22 de Setembro de 1913.
O convento das Mercês começou a ser demolido em 1911 para a construção da cadeia tendo servido nesse
mesmo ano para alojamento de parte das tropas que vieram á Madeira para manter a ordem publica por
ocasião da epidemia colerica. É de 4 de Março de 1915 a comunicação que a comissão executiva da Camara
fêz ao Governo de que não utilizava o edifício do referido convento para construção da cadeia.
V.
Nossa Senhora das Mercês e Conventos.
Merens de Távora (Luís do Canto e Castro)
A 22 de Junho de 1892, tomou posse do cargo
de Governador Civil deste distrito, para que tinha sido nomeado por decreto de 9 do mesmo mês e ano.
Mero (Serranus fimbriatus)
Peixe da família Percida, semelhante à garoupa, mas maior, que se
pesca ordinariamente perto da costa. Vive em tocas e, embora não seja dos peixes mais finos, tem todavia
um sabor agradável.
Mesquita
Este apelido de família procede de Pedro Ferreira de Mesquita que em 1662 vivia na Ponta
do Sol e aí fundou a capela de Nossa Senhora dos Milagres, e de um tal António de Mesquita, natural de
Malhorca, que, por motivos que nos são desconhecidos, veio ter a esta ilha.
V. Esprânger.
Mesquita e Castro (Francisco Albuquerque de)
Por decreto de 1 de Maio de 1876, foi
nomeado Governador Civil deste distrito, tendo tomado posse a 10 de Junho do mesmo ano.
Mesteres
Os procuradores dos mesteres ou mesteres, como também eram chamados, eram os oficiais
mecânicos que faziam parte da chamada Casa dos Vinte e Quatro. Todos os anos, em Janeiro, o Juiz do
Povo apresentava à Câmara Municipal a pauta dos quatro procuradores dos mesteres que deviam tomar
parte nos trabalhos da vereação, os quais podiam ser rejeitados quando não tivessem seis anos pelo menos
de exercício na mesma Casa.
Em antigos tempos, assistiam os mesteres ás sessões camararias, sentados em cadeiras rasas, junto duma
mesa independente da dos vereadores, mas em 1803 permitiu-lhes o Juiz de Fora José Júlio Henriques
Gordilho que se sentassem à mesa das vereações, o que deu motivo a protestos do procurador do concelho
João da Câmara Leme, que considerou essa concessão aviltante para a sua qualidade de fidalgo.
Em 7 de Agosto de 1811, deliberou a Câmara que os mesteres voltassem a ocupar os seus antigos lugares,
mas, tendo eles interposto recurso dessa resolução, conseguiram que ela fosse anulada. Os representantes
dos ofícios mecânicos deixaram durante cerca dum ano de assistir ás reuniões camarárias, por se haverem
considerado agravados com a deliberação tomada a seu respeito pelos vereadores.
Os mesteres eram em antigos tempos mal vistos pelos vereadores, que chegavam muitas vezes a insultá-los
e humilhá-los, mas nos princípios do século XIX melhorou bastante a sua situação, devido às profundas
transformações sociais que se operaram no nosso país antes do movimento emancipador de 1820.
Os mesteres deixaram de fazer parte das vereações depois da proclamação dos princípios constitucionais na
Madeira, em 1834, tendo a Casa dos Vinte e Quatro de que eles eram representantes, sido extinta pelo
decreto de 7 de Maio do mesmo ano. A Câmara Constitucional, eleita em 3 de Novembro de 1822, não tinha
mesteres.
Metade (Vale da)
Este grande vale, visto do mirante mandado construir pela Direcção das Obras
Públicas, na levada do Juncal, constitui um dos mais vastos e majestosos panoramas do interior da
Madeira. Ao cimo do vale, avistam-se os picos Ruivo e das Torres, os mais elevados da ilha, e nas suas
alcantiladas margens, em muitos pontos vestidas de arvoredo, vegetam muitas das mais belas e raras
plantas da Madeira. O mirante da levada do Juncal fica a cerca de 15 quilómetros do Funchal.
Meteóro (O)
Saíram apenas dois números deste jornal: a 31 de Outubro e 14 de Novembro de 1856.
México (Imperatriz do)
A imperatriz Carlota esteve na Madeira, em companhia de seu esposo o
imperador Maximiliano, em Abril de 1864, quando se dirigia para o México a bordo da Novara, tendo
alguns anos antes passado uns tempos nesta ilha, onde chegou em Dezembro de 1859, acompanhada do
marido.
Segundo refere Cesar Cantu nos
Ultimos trinta anos
, a Imperatriz Carlota escreveu uma obra intitulada
Um
inverno na Madeira
.
V. Maximiliano (Imperador do México).
Miguéis (Alfredo Vital)
Nasceu nesta cidade a 28 de Abril de 1883. Começou a sua educação
artística na Escola Industrial do Funchal, e tendo-se matriculado na Academia Real de Belas Artes em 1889
ali completou o seu curso de pintura histórica com o ilustre pintor Columbano Bordalo Pinheiro no ano de
1911. Durante o curso, foi várias vezes premiado e obteve uma medalha na conclusão dele. Em 1914, fez
concurso para professor das Escolas Industriais, sendo em 1915 nomeado professor para a Escola Industrial
de Setúbal e em 1917 transferido para a Escola Industrial do Funchal.
Em 1912, obteve aprovação no concurso do Premio Valmor para pensionista no estrangeiro, seguindo nesse
ano para Madrid e fixando-se depois em Paris, onde permaneceu até 1914 no estudo e aperfeiçoamento da
sua arte.
Apresentou pela primeira vez os seus trabalhos na exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes, de
Lisboa, em 1910, e concorreu também às exposições dos anos de 1911, 1915, 1916, 1917 e 1919, obtendo ali os
prémios de menção honrosa, três terceiras medalhas e a segunda medalha no ano de 1916. Foi admitido na
exposição do Salon, de Paris, em 1913, 1914 e 1922. Realizou exposições dos seus trabalhos no Funchal e em
Setúbal, e foi um dos expositores na Primeira Exposição de pintura e Escultura, que se fez nesta cidade em
1922.
Os seus quadros
Jardim do Luxemburgo
(1915),
A Taça de Leite
(1916) e
a Torre de Jesus em Setubal
foram adquiridos pelo Estado para o Museu Nacional de Arte Contemporanea.
Faleceu no Funchal a 9 de Julho de 1943.
Miguel Bombarda (Campo de)
(Campo de) V. Barca (Campo da)(vol. I pág. 127).
Milagres (Capela dos)
Por este nome é também conhecida a Capela de Cristo, de que já nos
ocupámos nesteElucidário (vol. I, pág. 332).
Míldio
Esta moléstia, que ataca principalmente as folhas e os cachos das vinhas, só em 1912 é que
principiou a causar prejuízos sensíveis nos vinhedos madeirenses. As manchas brancas e pulverulentas que
a caracterizam, são devidas a um fungo da família das Peronosporaceas – a Plasmopara viticola, – cujos
ramos saiem pelos estomas da folha e formam conidios nas extremidades das suas ultimas ramificações. 0
micelio do fungo vive no interior dos orgãos verdes da parreira e é êle que directamente prejudica a planta.
A propagação do míldio faz-se não só por meio dos esporos (conidios), mas também por meio dos ovos ou
oósporos resultantes da fusão de duas celulas dissemelhantes. A calda bordelesa tem dado bom resultado no
tratamento preventivo do míldio.
Milhã
Nome vulgar da Setaria glauca, Gramínea frequente na Madeira.
Milho (Zea Mays)
Graminea originaria da América, cuja introdução na ilha é muito posterior á do
trigo, cevada e centeio. A papa da farinha de milho constitui a base de alimentaçao de dois terços da
população madeirense e o grão serve para sustento do gado e das aves. A panícula formada pelas flores
masculinas (bandeira do milho) e os caules e fôlhas da planta podem também ser dados aos gados, ao passo
que as brácteas que rodeiam a inflorescencia feminina costumam ser aproveitadas para encher colchões.
Esta inflorescencia ou espadice recebe o nome de maçaroca; as barbas do milho são os longos estiletes ou
filamentos que terminam o ovario.
A cultura do milho é antiga na Madeira, mas foi em 1847 que Laureano da Câmara Falcão, mais conhecido
pelo nome de morgado da Ilha (sitio da freguesia de S. Jorge), a desenvolveu nas freguesias de Santana e S.
Jorge, mandando vir para este fim do arquipélago dos Açores alguns agricultores que ensinaram aqui os
processos de cultura adoptados naquele arquipélago. Os resultados que ele tirou do seu empreendimento
foram bastante lisonjeiros, e para animar a cultura do milho entre nós, apareceu a lei de 22 de Julho de
1853, que isentou do pagamento dos dízimos o que fosse produzido na terra.
A produção do milho no arquipélago não vai além de 6.000 hectolitros, sendo necessário importar cerca de
11 milhões de hectolitros para satisfazer às exigências do consumo em todo o distrito (1921).
Milicia
Quando a Madeira foi descoberta e povoada, durava ainda, diz o dr. Azevedo, mas na transição já,
o período feudal da milícia dos povos «em que as armas eram privilégio de poucos, e sujeição de quási
todos». «Cada donatario, continua o mesmo autor, era na sua capitania, o caudilho, o capitão estavam
subordinados a este os fidalgos que delle haviam recebido as terras de sesmaria; e aos fidalgos, ou
senhorios, os povoadores inferiores, que, na paz, lhes eram colonos, quasi adscripticios, das terras, e na
hoste, obrigados homens de armas».
Ao período feudal, seguiu-se o período a que o dr. Azevedo chama monárquico, em que o rei, avocando a si
o direito de exigir serviço militar dos seus vassalos válidos, «rompeu com as preeminencias guerreiras dos
donatários e fidalgos deixando-lhes tão somente os encargos».
Tem a data de 25 de Março de 1500 o primeiro diploma em que o rei exige directamente esse serviço tanto
dos fidalgos, como do povo da Madeira, afim de o acompanharem numa expedição a Africa, mas tendo o
donatário João Gonçalves da Camara reclamado respeitosamente contra as ordens emanadas do poder
central, baseado em antigos direitos que não podiam ser postergados, apareceu no mesmo ano uma outra
carta revogando a anterior na parte em que se referia a esta ilha, e mandando que os moradores desta a não
deixassem «desacompanhada», para a poderem guardar e defender em caso de necessidade.
Contemporizava o monarca com o donatário por se não julgar talvez suficientemente forte para consolidar o
poder real nesta ilha, mas foi isso por pouco tempo, pois que a 12 de Maio de 1509 ordenava o rei, por carta
expedida de Évora que os fidalgos, cavaleiros escudeiros, homens bons e povo da cidade do Funchal se
fornecessem de armas e cavalos visto os seus serviços se poderem tornar necessários em qualquer ocasião.
Não se pode filiar neste diploma a criação da moderna milícia madeirense, pois que ele apenas mandava
armar o povo, sem lhe dar organização militar, mas podemos fazer datar da publicação dele a subordinação
ao poder real dos elementos com que esta ilha podia contribuir para a defesa do país.
As vigias, que eram feitas pelo povo em pequenas casas fortes, de propósito construídas para resistir ao mar
e evitar surpresas, foram no entender do dr. Álvaro de Azevedo, mais do que o preludio da milícia ao diante
conhecida pela denominação de ordenanças, pois que eram as ordenanças mesmas, com pequena diferença,
demarcando por isso a sua instituição o limite entre o periodo feudal e o monarquico na historia da milícia
madeirense.
As vigias tiveram regimento em 1567, dado por D. Sebastião, e muito antes, em 1515, existiam aqui
bombardeiros, aos quais foram então concedidos privilégios. Em 1532, foi nomeado para esta ilha um
anadel-mór de espingardeiros, que teve mais tarde autorização para poder nomear espingardeiros para as
vilas e lugares, e do alvará de 2 de Março de 1497 se vê que já antes desta data havia na Madeira casa de
armas, onde estas se fabricavam.
Segundo o regimento de 10 de Dezembro de 1570, as ordenanças estavam divididas em companhias,
agrupadas por capitanias-mores. Cada capitania mór, diz o dr. Azevedo, tinha um capitão mór, que era o
commandante; um sargento mór, seu immediato; e mais tarde, um ajudante. Cada capitania tinha um
capitão e um alferes, sem patente regia, um sargento, um meirinho, um escrivão e dez cabos de esquadra.
Os donatarios, ou os alcaides-móres nas terras que os tinham, eram capitães-mores natos; nas outras terras
eram eleitos em camara assim como a mais oficialidade o era, em todas as terras até que este privilegio da
eleição ficou, para as que não tinham donatario, reduzido pelo alvará de 18 de Outubro de 1701, a mera
informação, sendo o rei, ou os donatarios nas terras delles, quem dava as patentes, mas só aquelle podia
tirá-las».
Ignoramos se na Madeira existiram todas as entidades, que, segundo o regimento, deviam possuir as
companhias de ordenanças, mas há vários documentos donde se vê que houve aqui capitães e sargentos-
mores, assim como ajudantes dos capitães-mores. Já em 1575 deviam existir ordenanças na ilha, pois que
há um diploma dessa época concedendo melhoria de sôldo ao sargento-mor do Funchal. Pensa o dr.
Azevedo que as vigias a que atrás nos referimos vieram a fundir-se nas ordenanças.
As ordenanças constituíam nos princípios do século XIX um corpo de terceira linha, com as seguintes
capitanias-mores na Madeira: Funchal, Câmara de Lobos, Campanário, Ribeira Brava, Ponta do Sol,
Madalena, Calheta, Porto do Moniz S. Vicente, Ponta Delgada, Porto da Cruz, Machico, Santa Cruz e Caniço.
«Posteriormente ao dominio castelhano, diz o dr. Alvaro de Azevedo, teve a milicia portuguesa, até 1809,
quatro reformas ou renovações: 1ª. a de D. João IV, decretada em assento de cortes por 1641, com duas
especies de tropa, a de soldo e a auxiliar, ficando toda a mais gente nas ordenanças, as quais eram um como
viveiro de recrutas;–2ª. a de D. João V, instituida pelo alvará de 15 de Novembro de 1707, a que se deu o
nome de novas ordenanças; 3ª. a de D. José I, desenvolvida nos regulamentos (1763-1766) chamados do
Conde de Lippe, por ter sido essa reforma inspirada por este illustre general, então commandante das
tropas portuguesas; e 4ª., finalmente, a de 1806-1809».
Além das catorze capitanias-mores a que atrás nos referimos, tinha o arquipélago nos principios do século
XIX um batalhão de artilharia de primeira linha, com seis companhias e 727 homens, um batalhão de
artilharia auxiliar com quinze companhias e 2171 homens e três regimentos de milicias, que eram os da
Calheta, Funchal e S. Vicente, cada um deles com dez companhias e cêrca de 800 homens. Todas estas
forças, à excepção do batalhão de artilharia de primeira linha, eram milicianas, constituindo a artilharia
auxiliar e os três regimentos de milícias a segunda linha, e as ordenanças a terceira linha das tropas da
Madeira.
Das forças milicianas que existiam no arquipélago, só teve o Porto Santo um corpo de artilharia, com quatro
companhias, criado em 1805.
As ordenanças foram extintas por Filipe II, a pedido das cortes de Tomar, e restabelecidas em 1623, mas,
segundo parece, o diploma que as extinguiu não teve aplicação à Madeira, onde elas existiram até entrar em
vigor o decreto e carta de lei de 22 de Agosto de 1821, que novamente as dissolveu, assim como as milicias.
Restabelecidas umas e outras pela lei de 13 de Julho de 1823, só vieram a acabar definitivamente pelos
decretos de 14 e 20 de Julho de 1832, os quais só tiveram execução nesta ilha depois da proclamação do
govêrno liberal, em 1834.
Dum relatório apresentado ao Governo em 1754 pelo Capitão-General Manuel Saldanha de Albuquerque e
do que existe publicado sobre o papel que desempenharam as milícias por ocasião da tomada da Madeira
pelos miguelistas em 1828, se vê que estas tropas se não recomendavam naquelas epocas nem pela
disciplina nem pelo valor militar, os quais tanto distinguiram as milícias que no tempo dos donatários
foram em socorro das nossas praças de Africa ameaçadas pelos mouros e ainda aquelas que em antigos
tempos algumas vezes defenderam a ilha dos assaltos dos seus inimigos externos.
Apesar do aparato de organização que revestia as milícias dos séculos XVIII e XIX, só chegaram dessa
instituição, ás ilhas da Madeira e Porto Santo, diz o dr. Azevedo, «a caricatura e as prepotências, acabando
no enxame de senhores capitães, tenentes e alferes, cujas patentes ainda são, nas povoações rurais,
memorias vaidosas e pretextos respeitados de distinções e consideração».
No primeiro quartel do século XIX eram o capitão-mor e o sargento-mor, chefes principais das ordenanças,
nomeados em Câmara, sendo escolhidos «entre as pessoas da governança e da nobreza, abastadas em bens
e de sã cristandade». O morgado Luís Teixeira Doria foi o ultimo capitão-mor e o morgado Aires de Ornelas
Cisneiros o ultimo sargento-mor que houve na capitania do Funchal, tendo ambos sido nomeados em 1828.
Os capitães e sargentos-mores estavam isentos de exercer os cargos da governança, isto é, de ser vereadores,
almotacés, etc., etc..
Milne Edwards (Alphonse)
V.Expedições cientificas a pág. 428 do vol. 1 desteElucidário .
Mimos
Nome vulgar de todas as plantas da familia das Onoteraceas pertencentes ao genero Fuchsia. A
Fuchsia coccinea , originaria, ao que parece, do Brasil, está naturalizada no Monte, Camacha e outros pontos
da Madeira.
Mimoso (Vasco)
Este madeirense publicou no Funchal, em 1911, um opúsculo de 112 páginas
intitulado Esperança e Luz. É empregado da 9ª. Região Agrícola e nasceu a 27 de Dezembro de 1882.
Minerais
V.Aragonite, augite, calcedónia, ferro, gipso, jaspe, limonite, olivina, opala psilomelano ezeolito .
Minhoca (Lumbricus terrestris)
Anelídeo da ordem dos quetópodos, frequente na Madeira. Vive
na terra.
Ministros de Estado
Desde a revolução de 1820, foram ministros de Estado os seguintes
madeirenses:
João Francisco de Oliveira, António Aluisio Jérvis de Atouguia (visconde de Jérvis de Atouguia), João de
Oliveira (conde de Tojal) José Ferreira Pestana, Luis da Camara Leme, Jaime Constantino de Freitas
Moniz, José Vicente Barbosa du Bocage, Aires de Ornelas de Vasconcelos, António Aurelio da Costa
Ferreira, António Pereira Reis, Alfredo Rodrigues Gaspar, João Catanho de Meneses, Pedro Góis Pita,
Americo Olavo Correia de Azevedo, Manuel Gregorio Pestana Junior
e
Daniel Rodrigues de Sousa.
Vid
estes nomes.
Miranda
Este apelido de familia, diz o dr. Alvaro de Azevedo, procede de João Lourenço de Miranda,
um dos nobres companheiros de Zargo. Há outros Mirandas que vêm de João Machado de Miranda.
Miranda (Felisberto de Betencourt)
Desempenhou o cargo de amanuense da secretaria da
Camara, para o qual foi nomeado em 3 de Novembro de 1835, e faleceu com mais de 70 anos de idade, a 30
de Janeiro de 1889, estando a êsse tempo aposentado. Na biblioteca da Camara, existe um trabalho
manuscrito por êle organizado e que tem o seguinte titulo
: Apontamentos para a genealogia de diversas
familias da Madeira
, colleccionados de 1887 a 1888.
Mirantes
A surpreendente nunca assaz encarecida beleza da paisagem madeirense
(Vid. Paisagem
da Madeira)
, que maravilhosamente se desenrola em terrenos de tão acidentado e caprichoso relevo,
oferece com frequência muitos sítios e lugares, que convidam à estática contemplação dos mais dilatados e
encantadores horizontes. Nesses pontos privilegiados, logo lembra, sem o menor esforço, a necessidade da
construção de pequenos miradouros, que facultem aos visitantes um apreciado repauso e o prazer
espiritual, que a natureza pode ali prodigamente proporcionar-lhes. Alguns bancos confortáveis, arvores
que dêem sombra e ainda uma «pérgola» vestida de qualquer planta ornamental servirão de simples e
indispensável adôrno a êsses lugares. O Funchal possui alguns desses miradouros, como sejam o da
«Montanha», «Babosas», «Pico dos Barcelos», adros das igrejas do Monte, S. António, S. Martinho e S.
Gonçalo, «Largo António Nobre», «Largo das Cruzes», e ainda outros, mas nem todos oferecem o
indispensavel confôrto, que provoque uma atraente e demorada visita.
Espalhados por tôda a superficie da ilha, encontram-se muitos pontos sobranceiros a belos trechos de
encantadora paisagem, em que deveria proceder-se á construção desses miradouros, agora facilitada pela
abertura das novas estradas.
Em 27 de Julho de 1850, recomendou o Governador Civil José Silvestre Ribeiro ao director das Obras
Públicas Tibério Augusto Blanc, a construção dum mirante no sitio das Macelas, no concelho de Machico,
por causa da vista surpreendente que dai se desfruta, tendo tal mirante sido construído pouco depois e
estando ainda hoje de pé, como é sabido. Além da construção do mirante das Macelas, recomendava J.
Silvestre Ribeiro a construção dum mirante na Portela, no concelho de Machico e de outro na Eira do
Serrado, no concelho do Funchal.
Perto da Levada do Juncal e a cerca dum quarto de hora da casa de abrigo do Ribeiro Frio, existe um
mirante mandado construir pela Direcção das Obras Públicas, donde se desfrutam vistas majestosas sobre a
Ribeira da Metade.
Misericórdias
Parece que pouco tempo depois de iniciar-se a colonização desta ilha nasceu o
pensamento da fundação de um hospital entre nós. Foi o próprio descobridor João Gonçalves Zargo, que,
por escritura publica de 25 de Março de 1454, fez doação duns terrenos situados junto da capela de São
Paulo, para a edificação do novo estabelecimento hospitalar. A construção do edifício, que foi feita a custa
do povo, somente se realizou no ano de 1469. O hospital ali funcionou aproximadamente quinze anos,
sendo transferido para a freguesia de Santa Maria Maior pelos anos de 1484. A nova fundação levantou-se
num terreno pertencente a Álvaro Afonso, que o cedeu para este fim no ano de 1483, com a condição de
haver no hospital seis leitos para doentes pobres.
O rei D. Manuel, em virtude duma Bula que alcançara do papa Alexandre VI, permitindo a fundação dum
novo hospital nesta ilha, ordenou, por carta regia de 25 de Maio de 1507, a construção dum edifício
especialmente destinado a esse fim, sobre terras dum tal Bartolomeu Malheiro. Presume-se que o antigo
hospital se incorporou na nova fundação e que esta se levantou no mesmo sitio daquele, na rua que ainda
hoje conserva o nome de Hospital Velho. No entretanto, encontramos, num antigo livro de Provimentos da
Igreja Paroquial de N. Senhora do Calhau, os seguintes períodos, que bem claramente se referem a dois
hospitais, embora talvez estabelecidos em edifícios contíguos e como que formando uma só instalação: «O
Vigario e Beneficiados de N. S. do Calhau hajam e tenham por seus freguezes aquellas pessoas que se
recolherem no hospital velho como incuraveis, e morrendo. . . as acompanhem até á sepultura . . . , e o
mesmo guardarão com aquellas que morrerem no hospital novo. . .». Não é fácil determinar com inteira
precisão a época em que se ultimaram os trabalhos da nova edificação, mas não deve ter sido muito
posteriormente a 1515, pois que em carta regia de 4 de Junho deste ano, insistia D. Manuel pela conclusão
das obras, mandando-lhes aplicar o produto do imposto do vinho, até que inteiramente fossem acabadas.
Lemos num antigo nobiliário que o bacharel João Fernandes de Amil foi encarregado pelo monarca de
dirigir a fundação e construção do novo hospital.
Nada se sabe acerca do funcionamento deste estabelecimento nos primeiros tempos da sua existência,
especialmente com relação ao numero de doentes, ás suas rendas privativas, ao custeio das suas despesas, á
forma da sua administração, etc., pois que se não encontra qualquer noticia a tal respeito.
Gaspar Frutuoso, referindo-se ás novas instalações, diz, talvez exageradamente, o seguinte: «A Casa da
Misericordia he de ricas officinas, e de mais esmolas e obras de caridade, que n'ella se fazem pelos
provedores e irmãos, curando muitos enfermos e remediando muitos pobres e necessitados não somente da
mesma ilha, mas também aos que vem de diversas partes e navegações ter a ella, que é rica e abastada e
piedosa, escala e refugio de todos». Estas palavras foram escritas em 1590, e 45 anos antes, em
representação largamente fundamentada e dirigida ao monarca a 8 de Março de 1645 pelos Provedor e
Irmãos da Santa Casa, tinham estes reclamado contra a permanencia do hospital «no peor sitio da cidade»,
alegando a pequenez do edificio, a proximidade da ribeira, o acanhado da igreja, a falta de lugar para os
enterramentos e muitos outros inconvenientes de que resultavam «morrerem muitos enfermos ». No livro
de Provimentos, que acima deixamos citado, também a autoridade eclesiástica aconselhava a mudança do
hospital para outra casa, dizendo-se ali que as capelas do Espírito Santo e das Chagas, da igreja paroquial,
estão debaixo do sobrado ou pavimento da Santa Casa da Misericórdia, ouvindo-se no recinto do templo os
gritos e gemidos dos doentes, especialmente quando são sujeitos a alguma operação ou tratamento mais
doloroso.
Uma Provisão de D. João IV, de 20 de Abril de 1654, ordenava ao Juiz de Fora do Funchal se informasse da
petição do Provedor e Irmãos da Misericórdia e mandasse proceder ao orçamento das respectivas obras,
ouvindo para este fim o parecer dos oficiais da Câmara.
Já anteriormente, em 1612 e 1638, tinha a Misericórdia do Funchal dirigido suas petições à Filipe 2.° e
Filipe 3.°, solicitando autorização e auxilios para a construção do novo hospital, havendo aqueles monarcas
mandado proceder a diversas informações, sem que de tais diligencias resultasse o menor beneficio para a
Santa Casa.
A 9 de Novembro de 1682, expediu o Príncipe Regente, depois D. Pedro 2.°, uma provisão, concedendo a
esmola de 5.000 cruzados, mas as obras só começaram mais tarde.
Foi a 22 de Julho de 1685 que, na presença do Governador e Capitão-General da Madeira Pedro de Lima
Brandão, que servia de provedor da Santa Casa, se aforaram uns terrenos no Terreiro da Sé, como então se
chamava ao espaço hoje ocupado pelo largo da Sé, Avenida do dr. Arriaga e ruas adjacentes, para ali se
construir um amplo edifício, que satisfizesse ás exigências da Misericórdia do Funchal.
(V. Diário de
Notícias,
de 21 a 27 de Outubro de 1896).
Este terreno era em parte constituído por uma horta, pertencente ao capitão Luís de Atouguia da Costa, e
achava-se contíguo à sua casa de habitação. Pela escritura lavrada no referido dia 22 de Julho de 1685, ficou
a Santa Casa pagando o foro anual de 12$00 réis, pelo terreno do Terreiro da Sé.
Somente depois de 1686 é que ali começaram os trabalhos de edificação da nova casa da Misericórdia.
Numa vistoria que neste ano se realizou, a 3 de Abril, para a confecção dos respectivos projecto e
orçamento, verificou-se que as obras principais importariam em cerca de 8:000$000 réis, reconhecendo-se
depois serem precisos mais quarenta mil cruzados para o seu total acabamento. Parece que os seus
trabalhos foram prosseguindo com alguma lentidão, por falta de recursos, tendo D. Pedro 2.°, por alvará de
9 de Novembro de 1692, concedido 5.000 cruzados para as referidas obras, e um mandado do Conselho da
Fazenda, datado de 19 de Outubro de 1745, aplicou a elas mais 4.000 cruzados.
No entretanto, os enfermos foram dando entrada no novo edifício, ao passo que a construção ia
caminhando, embora lentamente, para a sua conclusão definitiva.
O hospital esteve instalado na freguesia de Santa Maria Maior até fins do século XVII ou princípios do
século XVIII, época em que se fez a mudança dos diversos serviços hospitalares para as casas em que
actualmente se encontram (1922). No vestíbulo do edifício, sobre as duas portas de entrada que dão acesso
ao interior do estabelecimento, encontram-se as seguintes inscrições, que bem claramente mostram a
lentidão com que as obras foram prosseguindo: Em 20 de Junho de 1788 se fez esta nova entrada, sendo
provedor O Ill.
mo
e Ex.
mo
Senhor Governador e Capitão-General D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho; e do lado
direito: Em 20 de Abril de 1807 se fez esta nova entrada para a enfermaria britânica, sendo provedor Pedro
Júlio da Câmara Leme, lendo-se também na porta da sala das sessões o seguinte: Esta nova entrada se fez
no ano de 1790, sendo provedor o ill.
mo
e ex.
mo
senhor D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho.
Com o decorrer dos tempos, vários melhoramentos e acrescentamentos se fizeram no edifício, como sejam a
igreja, o Recolhimento das Orfãs e a casa destinada ás enfermarias particulares, não nos sendo possível
determinar a época da sua construção. Na principio do século XIX, estabeleceu-se uma enfermaria
especialmente destinada aos súbditos ingleses, conhecida pelo nome de Enfermaria Britânica que deve ter
acabado antes de 1837, pois que neste ano começou nela a funcionar a nova Escola Médico-cirúrgica.
Daria um bom volume o que na imprensa desta cidade se disse acerca das péssimas condições higiénicas do
hospital, da má situação em que se encontra o respectivo edifício e da sua insuficiente capacidade para a
regular acomodação de todos os serviços hospitalares. Há não pequenos exageros nessas afirmativas, o que
não quer dizer que este estabelecimento satisfizesse inteiramente as modernas exigências da ciência. No
entretanto, pode afirmar-se que se encontrava em regulares condições higiénicas, segundo o autorizado
testemunho de algumas notabilidades medicas que o tinham visitado. E, com os grandes melhoramentos ali
introduzidos no ano de 1922, essas condições higiénicas aperfeiçoaram-se notavelmente e pouco mais se
poderia então conseguir em virtude das circunstancias ocorrentes.
O edifício é uma construção antiga, com três séculos de existência, que está situada na parte mais central e
baixa da cidade, mas que tem amplas, desafogadas e bem ventiladas enfermarias, e que para a época em que
foi erigido se podia considerar um dos melhores do país, sendo certo que ainda actualmente poucos o
excederão na capacidade das suas diversas dependências, se não for além de sessenta o número dos doentes
ali recolhidos (1922).
Temos, porém, a opinião de que o hospital deve ser removido para um local e edifício cujas condições
higiénicas obedeçam por completo aos modernos preceitos da ciência medica. Há muitas dezenas de anos
que na imprensa se advoga essa remoção, alegando-se os motivos que ficam acima sumariamente indicados.
O Lazareto, os Marmeleiros e os antigos Conventos da Incarnação e de Santa Clara foram apontados como
lugares de preferência para a instalação do hospital, depois de realizados os indispensáveis trabalhos de
adaptação. Entre os alvitres apresentados, eram considerados como melhores e que mais completamente
satisfaziam o fim desejado, os da construção de edifícios novos nas cercas da Incarnação e Santa Clara,
aproveitando apenas alguns dos materiais dos velhos e arruinados mosteiros. A opinião autorizada dos
médicos veio confirmar as predilecções do público pelo local em que se encontra o convento de Santa Clara.
Uma comissão composta dos drs. Nuno Silvestre Teixeira, Fortunato Pita, João Francisco de Almada, José
Joaquim de Freitas e José Joaquim Mendes emitiu o parecer, num largo e bem fundamentado relatório, de
que o novo edifício hospitalar se deveria construir no recinto do convento de Santa Clara, condenando as
construções do Lazareto e dos Marmeleiros como improprias para aquele fim. (
V.
O Diário do
Comercio
do mes de Janeiro de 1910).
O decreto de 31 de Outubro de 1912 fez cedência à Santa Casa da Misericórdia do extinto convento de Santa
Clara, com excepção da igreja e dos terrenos indispensáveis para o alargamento das ruas que confinam com
o mesmo convento, e ainda do terreno cedido à associação do Auxilio Maternal. O decreto de 22 de
Setembro de 1913 confirmou a cessão feita à Misericórdia pelo decreto de 31 de Outubro de 1912 para a
construção do hospital e introduziu algumas modificações com respeito a maneira de dividir os terrenos e
edifícios entre a Câmara Municipal, Auxilio Maternal e Santa Casa da Misericórdia. Tendo a direcção do
Auxilio Maternal proposto a Câmara Municipal a cedência dos terrenos que possuía no recinto do convento
e cerca de Santa Clara, mediante o cumprimento de certas cláusulas, resolveram aquelas entidades e a
Comissão Administrativa da Santa Casa reduzir a escritura publica as bases do acordo a que chegaram, o
que se realizou no dia 3 de Março de 1916.
Em Abril de 1922, a Comissão da Santa Casa representou ao governo central, pedindo a cedência dos
terrenos que a extinta Junta Agrícola possuía no sítio dos Louros, à estrada do Lazareto, para ali construir
os pavilhões e outras dependências destinadas à instalação dum hospital moderno e em conformidade com
as actuais exigências da higiene.
A Confraria da Misericórdia do Funchal foi estabelecida por carta regia de 1514, conforme um registo que
encontrámos no arquivo desta instituição, e, por outra carta regia de 18 de Setembro do mesmo ano, foi
anexado e entregue o hospital á referida Confraria, sob cuja superintendência e administração ficaram
todos os serviços hospitalares, «com tanto que sempre se provejam aos pobres e enfermos que ao dito
hospital vierem». A Confraria foi instalada na igreja paroquial de Santa Maria Maior, que era contigua ao
hospital, dizendo o anotador das Saudades que D. João III revogara essa concessão feita por D. Manuel,
acrescentando o seguinte: «presumimos que, desde então, esta ficou funccionando na capella dos Santos
Reis, proximo do hospital, a este doada no ano de 1514».
No decorrer dos tempos, foram conferidas a esta Confraria varias isenções e regalias, que muito
concorreram para o seu desenvolvimento e prosperidade. Assim, pela carta regia de 23 de Agosto de 1605 e
por outros diplomas posteriores, pode a Confraria usar de todos os privilégios concedidos à Misericórdia de
Lisboa, nos casos em que possa ter aplicação neste arquipélago a doutrina contida nos mesmos diplomas. 0
alvará regio de 8 de Junho de 1740 prorroga, por dez anos, o privilegio de poder cobrar a esmola dos
dízimos dos «cabritos, frangãos, ovos, leite, queijo, cordeiros e pombos» na jurisdição do Funchal e nas
vilas da Ponta do Sol e Calheta. Uma carta regia datada de 22 de Agosto de 1734, permite á mesma
Confraria ter um tabelionato privativo para todos os contratos que realizar. Os serviços religiosos da
Confraria e Hospital foram isentos da jurisdição do Prelado, por carta regia de 27 de Março de 1767, ficando
sob a imediata direcção do capelão-mor.
A Misericórdia do Funchal foi administrada pelo regímen de irmandades desde a sua fundação até 1834,
isto é, durante o longo periodo de 320 anos. Não temos conhecimento detalhado dessa administração, mas
pode afirmar-se que nesses três séculos se criou, desenvolveu e prosperou a nossa primeira instituição de
caridade e que os últimos 80 ou 90 anos de gerência das comissões administrativas não acrescentaram à
Santa Casa da Misericórdia novos elementos de engrandecimento e prosperidade, embora algumas dessas
comissões tivessem prestado relevantes e desinteressados serviços a este estabelecimento pio.
No período decorrido de 1514 a 1834, teve a Misericórdia do Funchal 300 provedores, alguns dos quais
assinalaram a sua gerência com medidas de grande alcance e da mais eficaz administração, sobressaindo
entre eles o bispo desta diocese D. Luís Figueiredo de Lemos, em fins do século XVI e princípios do século
XVII, o governador e capitão-general Francisco da Costa Freire, fundador do Recolhimento das Orfãs, no
segundo quartel do século XVIII, o governador e capitão-general D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho, no
ultimo quartel do mesmo século, e o bispo diocesano D. Joaquim de Meneses e Ataíde, no primeiro quartel
do século passado. Destes dois últimos provedores se encontram os seus retratos em grandes telas na sala
das sessões da Comissão Administrativa.
Os mais antigos compromissos desta Misericórdia foram moldados pelos Regimentos da de Lisboa, mas a
carta regia de Felipe 3º., de 22 de Março de 1631, aprovou um compromisso privativo para a nossa Santa
Casa, que vigorou por muitos anos e que era um documento proficientemente elaborado, tratando com
largueza de todos os assuntos que interessavam à vida da Santa Casa. Foi impresso no ano de 1943, como
simples elemento de documentação histórica, em um opúsculo de 46 páginas.
Ignoramos quando foi reformado esse compromisso de 1631, mas sabemos que o provedor D. Joaquim de
Meneses e Ataide elaborou em 1801 um novo Regimento, que foi confirmado por provisão regia de 19 de
Outubro de 1819. Este Regimento, que, para a epoca, se afirma ser um trabalho de alto valor, foi impresso
no ano de 1820 com o titulo de Regimento ou Regulamento do Hospital Real de Santa Isabel da Cidade do
Funchal, Ilha da Madeira, sendo provedor da mesma Santa Casa o excelentissimo e reverendissimo senhor
Bispo Vigario Apostolico D. Frei Joaquim de Menezes e Athaide.
Em 1906, foi restaurada a antiga Confraria da Misericórdia do Funchal, sendo o respectivo compromisso
aprovado por alvará do governador civil José Ribeiro da Cunha, datado de 30 de Abril do mesmo ano. A 17
de Maio seguinte se elegeu a Mesa Gerente, que era de eleição bienal, sendo primeiro provedor o cónego
António Homem de Gouveia. Poucos dias depois da implantação da República, contrariamente ao que se fez
com todas ou quasi todas as Misericórdias do país, dissolveu o governador civil do distrito a Confraria desta
cidade, nomeando uma Comissão Administrativa para gerir os negocios da Santa Casa.
Como acima dissemos, terminou no ano de 1834 o regímen das confrarias na administração da
Misericórdia, começando então a gerência das Comissões Administrativas nomeadas pelo chefe superior do
distrito, expondo essa administração aos azares das paixões partidárias e aos vaivéns da politica facciosa de
campanário, um dos maiores males da nossa terra.
Os acontecimentos políticos que se tinham dado no país e a ausencia desta ilha de muitos membros da
confraria, impediram que em Julho de 1834 se procedesse á eleição da respectiva mesa gerente. O Prefeito
desta Provincia Luís da Silva Mousinho de Albuquerque, por alvará de 16 de Agosto daquele ano, nomeou
uma comissão afim de examinar as contas da Santa Casa, estudar as causas da sua decadência durante o
período das nossas lutas civis e propor os meios de a combater. Conformando-se depois com os pareceres
da dita Comissão, determinou por alvará de 8 de Novembro de 1834, que, com carácter provisório e até que
o governo central tomasse uma resolução definitiva sobre o assunto, a Câmara Municipal do Funchal
nomeasse uma Comissão Administrativa de cinco membros para gerir os negócios da Santa Casa, a começar
no dia 1 de Janeiro de 1835, e que no principio de cada ano se renovasse a nomeação de três membros.
Também determinou que a Câmara Municipal propusesse seis pessoas idóneas, de entre as quais o Prefeito
escolheria três para constituírem uma comissão encarregada da liquidação das contas atrasadas da Santa
Casa e da cobrança de todas as dividas passivas, pertencentes ao mesmo estabelecimento.
«Reconhecendo-se haver
incompatibilidade entre a Commissão Administrativa e a Commissão
Liquidataria, lê-se no Compromisso publicado em 1906, foi esta dissolvida pelo Prefeito da provincia, por
alvará de 4 de Maio de 1835. Ficou então a Comissão Administrativa gerindo inteiramente os negocios da
Santa Casa por um novo Regimento, que tinha sido approvado e mandado pôr em execução pelo governador
Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque, por alvará de 8 de Novembro de 1834. Este Regimento foi
impresso em 1840 e por elle se administrou a Misericordia até o anno de 1843.
«Por portaria do Ministerio do Reino, de 9 de Agosto de 1838, foi declarado que a administração da Santa
Casa pertencia à Mesa Eleita em conformidade com o seu Compromisso (e que se o não tivesse se regulasse
pelo da Misericordia de Lisboa), não competindo essa administração a qualquer Commissão, a não ser que
houvesse sido dissolvida a Mesa, que então seria nomeada uma Commissão de caracter interino, até que
fosse eleita nova Mesa.
«Em vista de tão clara determinação, a Commissão Administrativa foi exonerada, a seu pedido, a 27 de
Outubro de 1838, tendo o Administrador Geral nomeado uma Commissão interina, que deveria gerir os
negocios da Santa Casa de harmonia com as disposições contidas no Regimento organisado em 1834 e
approvado a 8 de Novembro do mesmo anno.
«Em 19 de Outubro de 1839, o Administrador Geral ordenou a Commissão da Santa Casa que elaborasse
um projecto de Regulamento definitivo, que deveria ser submettido á approvação do governo central,
tendo-se a mesma Commissão desempenhado d'essa incumbencia, apresentando em 29 de Abril de 1839 as
bases d'um novo Regulamento. Por esta occasião manifestou a Commissão Administrativa o seu parecer
quanto á maneira de serem geridos os negocios da Misericordia, opinando pelo regimen das Commissões,
reconhecendo, porém, a necessidade da nomeação d'um empregado superior que tivesse a seu cargo a
fiscalisação immediata de todos os serviços da Santa Casa, sob a direcção da Commissão Administrativa.
Este projecto de Regulamento não recebeu approvação, mas serviu de base ao que foi enviado ao governo
pelo Administrador Geral em 3 de Janeiro de 1842 e que foi approvado provisoriamente por portaria de 13
de Fevereiro de 1843.
No anno de 1854 a Junta Geral do Districto representava ao governo pedindo o restabelecimento da antiga
Confraria, persuadida de que este regimen traria à Santa Casa uma nova era de prosperidades. Ouvida sobre
este assumpto a Commissão Administrativa, foi esta de opinião que não convinha a reorganisação da antiga
Confraria e que deveria subsistir o adoptado systema das Commissões Administrativas.
«Embora com caracter provisorio, estava estabelecido o regimen administrativo das Commissões nomeadas
pela auctoridade superior do districto, que vigorou até ao principio de 1906, sendo certo que outras
tentativas se fizeram para o restabelecimento da antiga Irmandade ou Confraria da Misericordia.
«Em virtude d'uma Portaria do Ministério do Reino de 23 de Abril de 1855, o governador civil do districto
nomeou uma comissão destinada a propor à Confraria da Misericordia do Funchal as alterações do
respectivo Compromisso, tendo por base as disposições contidas no Compromisso da Misericordia de
Lisboa, não sendo conhecidos os resultados dos trabalhos porventura realisados por essa commissão.
Apesar da administração e direcção dos negócios da Santa Casa da Misericórdia estarem absolutamente
entregues às Commissões Administrativas, foram no entretanto convocados em 1869 os membros da antiga
Confraria, que se reuniram em 15 de Dezembro do mesmo ano, afim de serem ouvidos ácerca da
conveniencia de serem ou não convertidos em inscrições da Junta de Credito Publico os bens possuidos pela
Misericórdia. Tratava-se de adoptar uma medida de grande importancia, não querendo a respectiva
Commissão, que sabia ser um corpo administrativo de caracter provisorio, arcar inteiramente com as
consequencias e com as graves responsabilidades de semilhante medida. N'esta reunião a que
compareceram 13 irmãos e faltaram 17, deu a Confraria o ultimo signal de sua existencia.
Em 1885 a Commissão Administrativa, em officio dirigido ao chefe superior do districto, reconhece a
necessidade da reorganisação da antiga Irmandade, tendo também em 1888 o respectivo governador civil
reconhecido egual necessidade.
«No referido anno, o chefe superior do districto, que era então o visconde de Cannavial, procedeu a um
minucioso estudo acerca da administração da Santa Casa, escrevendo sobre o assumpto uma interessante e
desenvolvida memoria. Em conformidade com esse estudo e no intuito de melhorar a situação da
Misericordia, elaborou um novo Regulamento, approvado por alvará de 10 de Março de 1888, que foi posto
em execução a 14 do mez e anno referidos. Por este Regulamento era creado o lugar de Director Geral, que
sob a immediata direcção da Commissão Administrativa superintendia em todos os serviços do hospital.
«Esse Regulamento só vigorou até 25 de Março, tendo sido apenas geridos por elle os negocios da Santa
Casa durante o curto periodo de onze dias.
«0 governador civil do districto, em 17 de Dezembro de 1901, approvou um novo Regulamento, que
começou a ser posto em execução a 2 de Janeiro do anno seguinte. Por elle se entregava o serviço interno do
hospital ás Irmãs Franciscanas de Maria, que deram entrada na Misericordia no alludido dia 2 de Janeiro. A
18 de Junho do mesmo anno, tendo sido suspensa a vigencia do Regulamento de 17 de Dezembro de 1901,
deixaram aquellas religiosas o serviço do hospital.
«A 13 de Março de 1894, dirigiram-se ao governador civil do districto 16 cidadãos, entre os quaes se
contavam os membros da Commissão Administrativa da Santa Casa d'então, pedindo que fosse approvado
um projecto de Compromisso, em virtude do qual se restabelecia a antiga confraria da misericordia e eram
entregues a irmãs hospitaleiras os serviços internos do hospital. O chefe do districto, não querendo resolver
o objecto da petição, fez a 21 de Março do anno referido, uma larga exposição do assumpto ao ministerio do
reino, tendo obtido uma resposta datada de 22 de Maio seguinte, em que se estabelece a doutrina da
possibilidade da reorganisação da antiga Confraria, sendo observadas certas formalidades legaes.
«Foi em virtude d'essa resposta do ministerio do reino que alguns annos depois, a 22 de Fevereiro de 1905,
o governador civil dirigiu um officio ao administrador do concelho do Funchal, ordenando que fossem
intimados os irmãos da antiga Confraria, para que, juntamente com os que fossem admittidos pela
Comissão Administrativa, se constituissem dentro do praso de 15 dias, sob pena de ser extincta a mesma
Confraria, em conformidade com o disposto no Codigo Administrativo vigente.
«Terminado o praso indicado no edital e não apparecendo á intimação feita nenhum dos antigos confrades,
que todos haviam já fallecido, foi presente à Commissão Administrativa em 11 de Março de 1905, um
requerimento de 28 cidadãos, solicitando a sua admissão na Confraria, sendo immediatamente deferido
aquelle pedido.
«Considerada extincta a Confraria e feita esta communicação ao ministerio do reino, baixou a Portaria de 8
de Fevereiro de 1906, que restabeleceu a Confraria da Misericordia do Funchal, dando por terminado o
regimen das Commissões Administrativas, que vigorou durante o periodo de 62 annos, de 1834 a 1906».
A administração dos negócios da Santa Casa tem tido sorte varia no longo período de quatro séculos, tendo
nós apenas conhecimento detalhado dela no período decorrido de 1812 a 1885 pelo estudo feito pelo Conde
de Canavial, a que acima nos referimos. Em fins de 1834, isto é pouco depois de terminadas as lutas civis,
possuía esta instituição o capital aproximado de oitenta contos de réis, que produzia o juro anual de quatro
contos de réis, acrescendo mais o rendimento de dois contos de réis de prédios rústicos e urbanos, o que
perfaz um rendimento total de cerca de seis contos de réis, sendo as despesas nos dois anos anteriores
superiores a dezassete contos e havendo dêste modo um deficit anual superior a dois contos de réis. Com
referencia à mesma época, tinha a Santa Casa uma divida superior a seis contos de réis e receitas por
arrecadar no valor de trinta contos. Dezoito anos depois, isto é em 1862, tinha piorado consideravelmente a
situação financeira deste estabelecimento pio. O seu capital baixara a 66 contos de réis e as dividas orçavam
por cinco contos, tendo receitas por arrecadar na importância de 54 contos. Em 1872, sofreu notável
melhoria a situação económica do hospital, havendo verdadeiro zêlo na administração dos anos anteriores,
conseguindo-se equilibrar as receitas com as despesas, que naquele ano orçaram por doze contos de réis.
Não temos elementos para nos referirmos pormenorizadamente à administração da Santa Casa em anos
mais recentes, mas não queremos deixar de mencionar as gerências de 1897 a 1900 e de 1906 a 1910, sob a
direcção do conselheiro Manuel José Vieira e conego Antonio Homem de Gouveia, em que foram os
negócios deste estabelecimento pio conduzidos com o mais escrupuloso zelo e com os mais proficuos
resultados.
Cometeriamos uma imperdoável lacuna, se não deixássemos aqui consignado o acto da mais alta
benemerencia praticado pelo banqueiro desta praça Henrique Vieira de Castro, oferecendo à Santa Casa a
avultada soma de quatrocentos contos com o fim de se fundar uma enfermaria exclusivamente destinada ao
tratamento de doenças cancerosas. Tendo aquele benemérito cavalheiro, lembrado, mas não imposto, a
conveniência de ser essa enfermaria servida por irmãs hospitaleiras portuguesas, tanto bastou para que a
respectiva comissão administrativa recusasse a oferta, privando-se assim o hospital de tão importante
donativo.
O mesmo cavalheiro assumiu a presidência da Comissão Administrativa da Santa Casa em Janeiro de 1922,
e logo abriu uma grande subscrição pública que rendeu mais de trezentos contos, tendo ele próprio iniciado
essa subscrição, concorrendo com a importância de 30 contos. Tem-se afanosamente dedicado à
administração do hospital, ao qual está prestando e prestará ainda por certo os mais relevantes e
assinalados serviços. (1922).
O que fica sumariamente exposto acerca da historia da Misericórdia do Funchal não vai além do ano de
1926, tendo, porém, a partir do ano imediato, surgido uma série de favoráveis circunstancias, que
permitiram realizar os mais importantes melhoramentos e conceder inapreciáveis prosperidades a essa
benemérita instituição, de que vamos dar uma rápida noticia.
A Mesa Gerente da Santa Casa encetou no ano de 1927 uma campanha tenaz, porfiosa e inteligentemente
orientada no sentido de obter do governo central a cessão do edifício do Sanatório dos Marmeleiros, com os
seus terrenos anexos, aguas e outras regalias, para a regular instalação dos diversos serviços hospitalares, o
que veio a alcançar-se pelo Decreto de 29 de Março de 1928, devendo assinalar-se esta data como uma das
mais memoráveis da historia da Misericórdia, por recordar o maior beneficio que ela tem recebido na sua já
longa existência de quatro séculos. Para a total conclusão do edifício, a sua conveniente adaptação aos fins a
que se destinava e a indispensável montagem de novos e urgentes serviços, teve a Mesa Gerente que
contrair um empréstimo de quinhentos contos de réis, tornando-se o nosso hospital um dos primeiros
estabelecimentos do seu género no nosso país, segundo o autorizado testemunho de distintos médicos que o
têm demoradamente visitado. No ano de 1931, fez-se, para o novo edifício dos Marmeleiros, a mudança de
todos os serviços hospitalares, que durante 240 anos estiveram instalados no antigo edifício de Santa Isabel,
o qual no ano de 1933 foi cedido à Junta Geral do distrito pela importância de mil e quinhentos contos de
réis.
Essa notabilíssima obra realizada a favor do nosso primeiro estabelecimento de caridade e que mui
sumariamente deixamos exposta, deve-se à Mesa Gerente da Misericórdia presidida pelo reverendissimo
Conego Manuel Francisco Camacho e de modo especial a êste ilustre membro do clero madeirense, que não
se poupou às mais árduas canseiras e aos mais aturados esforços para levar a bom termo um
empreendimento eriçado de tantas e tamanhas dificuldades. É um acto de inteira justiça deixar aqui
registados os nomes do general António Teixeira de Aguiar, dr. Carlos de Melo, dr. Oscar Baltazar
Gonçalves e dr. João Francisco de Almada pelos instantes e valiosos auxílios que dispensaram àquela Mesa
Gerente na consecução de tão notável melhoramento.
Outra data, e das mais memoráveis nos anais da Santa Casa, é a de 10 de Agosto de 1940, em que se
procedeu à solene inauguração de diversos melhoramentos, os mais importantes realizados no edifício dos
Marmeleiros, após a sua aquisição e adaptação aos serviços hospitalares. Uma notável ampliação da casa,
com a abertura de novas enfermarias, de espaçosas e bem apetrechadas salas de operações, a canalização de
aguas e de esgotos, uma melhor instalação para os trabalhos de secretaria e de administração e muitos
outros melhoramentos levados a efeito em diversas dependências do hospital, tornaram possível a admissão
de um maior numero de doentes e uma inapreciável melhoria na realização dos vários e complexos serviços
que ali se desempenham. Ao fazer menção desta obra, notável por muitos títulos, dois nomes acodem, sem
esforço, aos bicos da nossa pena–o do ilustre governador civil José Nosolini Pinto Osorio da Silva Leão e o
do provedor e distinto eclesiástico Padre Jacinto da Conceição Nunes, devendo-se ao primeiro a aquisição
dos meios indispensáveis para a consecução dêsse importante melhoramento e ao segundo o trabalho
inteligente e tenaz da sua iniciativa, da sua direcção e do seu completo acabamento.
Um apreciável beneficio concedido à Santa Casa foi o do despacho ministerial de 10 de Janeiro de 1939,
incumbindo à Junta Geral do Distrito e à Câmara Municipal a satisfação dos «deficits» anuais desse
estabelecimento pio, que no ano de 1942 excediam a avultadissima soma de seiscentos contos de réis.
Como acima se disse, o regime das Confrarias da Misericórdia somente perdurou na Madeira até o ano de
1834, ao contrario do que sucedera no continente português, em que esse regime continuou, até à
actualidade, sendo naquele ano nomeada uma Comissão Administrativa para o Funchal, que serviu até o
restabelecimento da antiga Confraria, tendo esta entrado em exercício no ano de 1906. Teve curta duração,
pois que foi extinta em 1910 e novamente restaurada no ano de 1927, continuando até o presente na
direcção de todos os serviços hospitalares com o mais a cendrado zelo e com um notável espírito de
abnegação e sacrifício.
Ao encerrar êste artigo, não podemos deixar de colocar na distinta galeria dos benfeitores da Santa Casa,
que acima ficam rapidamente mencionados, os nomes dos beneméritos cidadãos António de Carvalhal
Esmeraldo, bispo D. Luis Figueiredo de Lemos, governador e capitão-general D. Diogo Pereira Forjaz
Coutinho, conselheiro Manuel José Vieira e industrial Henrique Hinton, que aquela casa de caridade
prestaram também relevantes e desinteressados serviços.
Adjunto ao hospital encontrava-se o Recolhimento das Orfãs, de que nos ocuparemos na altura conveniente
desta obra, e anexo ao mesmo hospital funcionou durante 74 anos a Escola Medico-Cirurgica, a que já
largamente nos referimos (vol. I, pag. 401 e s.).
Os escritos impressos que possam interessar à historia da Misericordia do Funchal e de que temos
conhecimento, são os seguintes:
Regimento ou Regulamento do Hospital Real de Santa Isabel da cidade do
Funchal, Ilha da Madeira, sendo provedor da mesma Santa Casa o Excelentissimo e Reverendissimo
Senhor Bispo Vigario Apostolico D. Frei Joaquim de Menezes e Athaide. Ano de 1816
, Lisboa, 1820, de 60
pag.;
Regimento do Hospital Nacional e Real da cidade do Funchal, Provincia da Madeira. Ano de 1834
.
Funchal, 1840, de 16 pag;
Discurso de abertura pronunciado na Escola Medico-Cirurgica do Funchal no
dia 15 de Maio de 1867
pelo Dr. João da Camara Leme, Funchal, 1867, de 15 pag
.; Relatorio e Projecto de
Regulamento para a Escola Medico-Cirurgica do Funchal...
pelo Dr. João da Camara Leme, Funchal, 1868,
de 104-XX pag.;
A Questao entre o dr. João da Camara Leme... e o pharmaceutico Francisco Xavier de
Sousa...
Funchal 1868, de 55 pag., que saíu anonimo, mas que se atribui ao medico-cirurgião Francisco
Clementino de Sousa (V. este nome);
O dr. Antonio da Luz Pita, o pharmaceutico Francisco Xavier de
Sousa e o dr. João da Camara Leme na Escola Medico Cirurgica e na Delegação de saude
, pelo Dr. João
da Camara Leme, 1869, de 88 pag.;
Projecto de Regulamento para a Santa Casa da Misericordia e seu
hospital denominado de Santa Isabel, da cidade do Funchal, no anno de 1844
, Funchal, 1871, de 36 pag;
Saudades da Terra
, Funcha1, 1873 (de pag. 644-646);
0 Hospital de Santa Isabel da cidade do Funchal
visto à luz da hygiene
, por Acursio Garcia Ramos, Funchal, 1874, de 36 pag;
Ilha da Madeira
, por Acursio
Garcia Ramos, Lisboa, 2 vol., 1879 e 1880, (ocupa-se do hospital de Santa Isabel de pag. 49-117 do 1.° vol.
onde, se reproduz integralmente o folheto do dr. Ramos que fica citado);
Relatorio apresentado á nova
comissão Administrativa de Santa Casa da Misericordia do Funchal a 2 de Janeiro de 1901
, Funchal 1901,
de 22 pag;
Compromisso da Irmandade da Santa Casa da Misericordia do Funchal
, Funchal, 1906, de 27
pag., precedido duma breve noticia historica, por um dos redactores dêste Elucidario;
Regulamento interno
da Santa Casa da Misericordia do Funchal
, Funchal, 1907, de 24 pag.;
Boletim do Trabalho Industrial
, n.°
95,
Instituições de Beneficencia e Associações de Classe
, por Vitorino José dos Santos, Lisboa, 1914, de 84
pag., ocupando-se das Misericordias de pag. 14-21 e 34-37. Desde o ano de 1927, em que a Irmandade da
Misericordia reassumiu a direcção de todos os serviços de administração da Santa Casa do Funchal, têm
sido elaborados e publicados em opusculos diversos relatorios, que encerram importantes dados de
informação, nomeadamente o do ano de 1933, pela valiosa documentação que nele se encontra registada.
Fundaram-se também confrarias da Misericórdia, com seus estabelecimentos anexos, nas vilas da Calheta,
Machico, Santa Cruz e Porto Santo, as quais ainda existem, embora seja muito restrita a área da sua acção
beneficente.
A Misericórdia da Calheta: – A Misericórdia do Funchal pretendeu em 1815 incorporar nos seus bens os
prédios e foros pertencentes ás quatro referidas Misericórdias, com o fundamento de que os doentes pobres
daquelas localidades eram tratados no hospital da cidade, e neste sentido representou ao governo da
metrópole, não tendo, porém, a petição obtido despacho favorável, apesar da informação dada pelo
governador e capitão-general Florencio Correia de Melo. Os provedores das Misericórdias dos campos
reclamaram colectivamente contra a pretensão da Misericórdia do Funchal, alegando que, se aquelas
instituições não mantinham hospitais por falta de recursos e outras circunstancias de carácter local,
sustentavam no entretanto inválidos em casas apropriadas e praticavam outros actos de caridade, devendo
continuar a prestar os serviços que estavam prestando, com a sua vida própria e autonoma, como até àquela
epoca tinham feito. Desta reclamação, que foi atendida, destacamos os seguintes períodos, que interessam á
historia da Misericórdia da Calheta:
«Esta Casa da Misericordia foi erecta em 1535, por alvará real; de 7 de Outubro do mesmo anno era a Bulla
Pontificia; e no anno de 1569 se lhe concedeo por outro alvará o poder de arrecadar, suas rendas, fóros e
dividas executivamente como Fazenda Real, sendo seu Provedor o Juiz Executor. Tem compromisso datado
do anno de 1616, conservando-se nella, desde a sua instituição athé hoje, incuraveis pobres, a quem a
mesma Casa sustenta, veste e trata decentemente, segundo as possibilidades da sua renda. . . »
A fundação desta instituição pia deve-se a varias pessoas nobres e categorizadas daquela vila. Com o
decorrer dos tempos, chegou a um grau de prosperidade relativamente grande, em virtude dos legados e
doações que lhe foram feitos, sendo muito importantes os prazos foreiros de que era possuidora. Vieram
depois as administrações pouco zelosas dalgumas das suas irmandades, as diversas crises que assolaram
esta ilha, as nossas lutas civis, etc., o que tudo lhe determinou a decadência e a ruína, estando
presentemente reduzidos a proporções bem limitadas os recursos deste estabelecimento.
Teve edifício e capela próprios desde os tempos primitivos da criação da confraria e que ainda actualmente
existem, embora hajam sofrido algumas modificações no andar do tempo. Parece que nunca ali existiu
estabelecimento hospitalar, a não ser em época mais chegada da sua fundação, o que não podemos afirmar.
Além dos serviços religiosos privativos da irmandade, que se realizavam na respectiva capela, era a Casa da
Misericórdia destinada a albergar pessoas invalidas e incuráveis, principalmente recrutadas entre as mais
qualificadas famílias daquela vila, feridas pelo infortúnio ou pela pobreza.
Nos últimos anos, (1921) uma administração mais zelosa conseguiu restaurar todo o edifício, que oferecia
sinais de próxima ruína, e ali se acham agora recolhidas algumas pessoas pobres, que recebem um subsidio
para a sua sustentação. Possui alguns prédios e foros, que em 1913 renderam cerca de trezentos escudos.
Misericórdia de Machico
– É de fundação bastante antiga, mas ignora-se a época precisa da sua
criação, conjecturando-se que date do primeiro quartel do século XVI. É tradição que uma senhora deixara
aos pobres da vila de Machico um importante prédio e que este legado despertara a ideia da fundação da
Misericórdia, tendo servido de núcleo aos bens que depois veio a possuir.
A aluvião arrastou para o mar em 1803 a capela da Misericórdia e casa anexa, e com elas o respectivo
arquivo, escasseando-nos os elementos indispensáveis para traçar uma noticia histórica desta instituição.
Podemos no entretanto, por alguns dados que nos fornecem os Anais do Município, dizer que o seu
funcionamento era regulado pelo compromisso da Misericórdia de Lisboa. Parece que sempre deixou muito
a desejar a sua administração e que não foram grandes os benefícios que dispensou aos pobres, sendo certo
que chegou a ter, além do provedor e mesa rio, dois escrivães, dois arrecadadores, um gaveteiro, dois
procuradores dos pobres e dois informadores. Este aparato burocrático, embora talvez de exercício gratuito,
não obstou a que muitos foros e prédios se perdessem, sobretudo depois que os respectivos títulos foram
destruídos pela enchente do principio do século passado.
Primitivamente não teve hospital, mas apenas capela que servia de sede à irmandade e da qual jà nos
ocupamos com alguma largueza (vol. 1, pág. 332) e a ela nos referiremos novamente no artigo Capela de
Cristo. O beneficiado da Colegiada de Machico, padre Inacio Barbosa da Silva, por escritura publica de 20
de Maio de 1748, legou à Confraria umas casas que possuía no sitio da Banda de Além, para nelas ser
instalado um hospital e servir de edifício da Misericórdia, visto a mesma Confraria não ter uma construção
destinada a esse fim. Nada podemos informar com respeito ao funcionamento do hospital, dizendo os
citados Anais que aquelas casas passaram à posse da Confraria do Santíssimo Sacramento da freguesia do
Caniço, por motivo que se desconhece. Em 1856, arrendou a Misericórdia um prédio para a instalação dum
hospital, que desempenhou um importante papel na epidemia colerica e foi extinto por 1862.
Um dos mais zelosos provedores da Misericórdia de Machico foi o capitão Cristovão Esmeraldo, eleito para
aquele cargo em 1810. Além dos bons serviços que prestou na administração da irmandade, muito
concorreu para a reconstrução da capela, que a 9 de Outubro de 1803 fora destruída pela aluvião. Outro
provedor que não menos assinalados serviços despensou a esta instituição, foi o vigário daquela vila, padre
Manuel José da Paixão, que conseguiu extrair varias certidões de prédios e foros e fazer reverter à posse da
Misericórdia alguns bens jà então considerados perdidos.
A irmandade foi extinta em 1835, e por alvará do governador civil de 13 de Junho do mesmo ano, se
procedeu à nomeação duma comissão administrativa que ficou na gerência desta Misericórdia.
Possui ainda um prédio no sitio da Ribeira Seca, e tinha muitos foros impostos em diversos prédios nos
serrados do Isidoro, do Travesso e ainda outros sítios.
No
Boletim do Trabalho Industrial
acima citado, lemos que a receita desta Misericórdia no ano de 1909-
1910 foi de 151$40, que se juntou a um saldo de 79$51, tendo as despesas do mesmo ano importado nas
quantias de 37$75 para medico e remédios e 71$21 para dietas. Em 1913 a receita foi de 842$76, sendo
81$19 de saldo, 181$20 de rendas e 508$37 de renda dum pinhal. As despesas foram de 271$26, restando
um saldo para 1914 de 571$50. Os doentes são socorridos em suas próprias casas, porque a Misericórdia
não tem instalação ao presente para hospital, e quando a tivesse, não dispunha de recursos para a sua
manutenção.
Misericórdia de Santa Cruz
–
O Boletim do Trabalho Industrial
n.° 95, que já por mais duma
vez deixámos citado, insere uma muito interessante e quanto possível completa noticia acerca desta
Misericórdia, que vamos integralmente transcrever:
«Parece averiguado que esta instituição de beneficência se fundou em principio do século XVI, na vila de
Santa Cruz, tendo sido levantado o edifício próprio no ano de 1520. É, fora da cidade do Funchal, o
estabelecimento mais importante no seu género, e foi de sua origem talhado com amplas acomodações em
relação ao meio que servia.
Tendo sido cuidado e conservado, ainda hoje (1920) proporciona serviços de hospitalização a enfermos
pobres, em razoáveis condições de conforto, o que se não da em nenhum outro concelho rural do distrito.
Entre os provàveis instituidores deste Hospital, criado pela Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz,
citam-se como irmãos mesàrios de maior condição os nomes de Manuel da Costa Moniz, José Bettencourt
de Freitas, Diogo Lopes Fernandes, António Mendes Bettencourt, António Baptista Spínola e Marcos de
Aragão.
«0 edificio desta Misericórdia experimentou importantes trabalhos de reparação nos anos de 1759, 1786 e
1892, a expensas da caridade pública, sem o que jà teria desaparecido; e em 1908 foi de novo reparado por
ordem e conta do Estado.
Este edifício consta duma casa de dois pavimentos com uma grande capela e muitos compartimentos, como
sejam amplas enfermarias, sala para farmácia, alguns outros quartos, casas de banho, etc., e casas de
desinfecção e mortuària.
Dadas as dimensões e o estado do edifício, maiores e melhores serviços de hospitalização podia ele prestar,
se os seus rendimentos o permitissem. Estes, porém, são muito escassos e para muito pouco dão, se a
caridade pública os não acompanhar e vier regularmente ajudando.
Assim, os rendimentos próprios desta Misericórdia orçam por pouco mais de 200$ anuais, e é evidente que
este valor, não acrescido dos auxílios da beneficência publica, para muito pouco pode chegar, mormente
considerando-se nos maiores encargos que sempre resultam da conservação e exploração dum edifício de
amplas dimensões.
«Esta Misericórdia tem estatutos aprovados pelo Governo Civil do Funchal em 1889.
«Em 1910 a direcção e prestação de todos os serviços internos e de enfermaria no hospital desta
Misericórdia estavam a cargo das irmãs hospitaleiras franciscanas, que ali prestaram bons serviços, e que
foram as mesmas que improvisaram um hospital no Lazareto de Gonçalo Aires, na cidade do Funchal,
quando da última epidemia de variola que assolou a Madeira.
Tendo sido suprimido o serviço destas religiosas, continuou o Hospital da Misericórdia funcionando sob a
direcção duma mesa gerente eleita de entre os irmãos da Confraria de Santa Isabel, e com o concurso do
pessoal de enfermaria e farmácia que ficou sendo parcialmente o mesmo que existia, mas secularizado.
Os serviços de farmàcia passaram porém a ser dados de arrendamento, continuando no entanto o mesmo
pessoal manipulador empregado na Misericórdia.
«Em 1913 a receita desta Misericórdia foi de 1.034$68, incluindo um saldo de 640$ do ano anterior, sendo
a respectiva despesa de igual valor e onde se compreende a verba de 400$ gastos em reparos da capela do
Hospital.
O pessoal do estabelecimento compreende um médico com 36$, um escrituràrio com 36$ e duas
enfermeiras a 30$, tudo anualmente.
«0 movimento de doentes foi em 1913 de 14 doentes, 6 homens e 8 mulheres, dos quais melhoraram 9,
faleceram 3 e ficaram em tratamento 2.
«Do exposto se vê, que relativamente pequenos são os serviços que este hospital pode prestar ou a
respectiva Misericórdia, mas que dadas as recomendàveis condições da sua instalação, bem digno era de
protecção eficaz que
lhe permitisse aumentar a hospitalização e benefícios que proporciona,
correspondendo assim melhor às necessidades crescentes do meio que serve, que é hoje uma vila das mais
importantes do distrito, sede de concelho e de comarca.»
Misericórdia do Porto Santo
– Na vila do Porto Santo, existe uma capela com uma pequena
casa anexa, que tem o nome de Igreja da Misericórdia. Foi ali a sede duma antiga Confraria deste nome,
cuja data da instituição ignoramos. Embora um alvará régio de 9 de Abril de 1767 lhe tenha aprovado o
Compromisso, é, porém, certo que a sua criação é de época mais remota. Nunca teve hospital. Ignoramos os
serviços que prestava, e ao presente não dispensa aos pobres quaisquer socorros.
Missão Marquês de Pombal
Foi criada em 21 de Março de 1913 e os seus fins são os mesmos
da associação «O Vintém das Escolas», da qual é subordinada, estabelecida em Lisboa em 1901, por
iniciativa do falecido José de Moura Barata Feio Terenas.
Dos estatutos de «O Vintém das Escolas» se vê que esta instituição é destinada à propaganda da educação
liberal e civica, tendo por fins expressos difundir a instrução pelos filhos do povo, promover o
desenvolvimento e progresso moral e intelectual das classes trabalhadoras, auxiliar e socorrer a criança
provadamente pobre, promover a federação das escolas de ensino livre e estabelecer prémios aos
professores e alunos que deles se tornem dignos. Está ainda no programa da mesma instituição a fundação
de bolsas de trabalho, de escolas e bibliotecas populares e a pratica de conferencias e prelecções literarias e
scientificas.
A «Missão Marquês de Pombal» sustenta uma escola no Funchal, estabelecida à rua de Santa Maria, cuja
frequência é hoje (1921) de 40 alunos, mas que teve a principio uma frequência de 105 alunos de ambos os
sexos, e as suas receitas provêm das cotas dos sócios e de bailes, quermesses, etc., que se realizam de
tempos a tempos.
Mitten (William)
Briologista inglês que estudou as Muscineas colhidas por James Yate Johnson na
Madeira. O seu herbário foi adquirido pelo Jardim Botânico de Nova York, em 1906, segundo se lê numa
carta escrita pelo professor Cockerell ao zoologo madeirense A. C. de Noronha. E.:
Contributions to the
cryptogamic flora of the Atlantic Islands. (Linnean Society's Journ. Bot
., VIII).
V. Godman.
Mittermaier (Dr. Carlos)
Medico alemão que esteve no Funchal de 1852 a 1854 e fêz aqui valiosas
observações meteorológicas. E.:Madeira und seine Bedeutung als Heilungsort; Heidelberg, 1855.
Mocano
São conhecidos por este nome na Madeira – a
Visnea mocanera
, da familia das
Ternstroemiaceas, e o
Pittosporum coriaceum
, da familia das Pitosporaceas. A primeira espécie é arbustiva
ou arborescente, com as fôlhas peludas enquanto novas, principalmente nas margens e nervura media da
pagina inferior; a segunda é sempre arborea, com as folhas desprovidas de pêlos em todas as idades. Esta
espécie está quasi extinta nas montanhas da Madeira, mas é cultivada nas quintas do Monte e Camacha;
aquela pode ser achada nas rochas entre a Ribeira da Janela e a Ribeira do Inferno, sendo porém bastante
rara. A madeira da
Visnea mocanera
é de côr baça, puxando às vezes um pouco a vermelho, muito pesada e
dura; a
do Pittosporum coriaceum
é leve e amarelada ou acinzentada.
Moeda
A moeda que tinha curso na Madeira nos primeiros tempos da colonização, era idêntica à que
havia em Portugal, segundo se vê da carta de 26 de Setembro de 1433, pela qual o rei D. Duarte doou esta
ilha ao infante D. Henrique. Proibia-se nessa carta que o infante mandasse cunhar moeda, devendo a
moeda do reino ter curso na ilha.
Sabe-se por antigos documentos que o marco de prata e os reais eram moedas que circulavam na Madeira, e
que havia reais de prata e de cobre, aquêles mandados cunhar por D. João I. Estes últimos reais ou réis
tinham valor muito superior aos réis que duraram até nossos dias, e que ainda hoje servem muitas vezes de
unidade para o calculo dos valores.
No foral da cidade do Funchal e das vilas da Ponta do Sol e da Calheta, que tem a data de 6 de Agosto de
1515, fala-se de cruzados, de réis e de reais, e no regimento das madeiras de 27 d'Agôsto de 1562 e em
muitos outros documentos, também se alude à primeira destas moedas, a qual se tornou com o decorrer dos
tempos moeda nominal.
Os cruzados novos eram de ouro ou de prata, o cruzado velho era de ouro, e valia 400 réis. Ainda hoje é uso
na Madeira dar o nome de cruzado à importância de 40 centavos ou 400 réis, qualquer que seja a espécie de
moeda por que ela esteja representada.
Dos livros das vereações de 1550 se vê que já nessa epoca tinham curso na ilha os riales, os meios riales e os
quartos de riale, os primeiros com o valor de 36, os segundos com o de 18 e os últimos com o de 9,5 réis.
Todavia, mesmo durante o governo filipino, eram os réis e os cruzados que serviam de base à representação
dos valores.
Em 1643 corriam na Madeira as patacas, as meias patacas, os tostões, os meios tostões e as moedas de 120
réis e de 3 e 2 vinténs, mas não nos diz o documento, onde encontramos esta informação, se êste dinheiro
era todo espanhol, ou se entre êle havia algum português.
Por carta regia de 9 de Fevereiro de 1664, dirigida ao provedor Francisco de Andrade, foi permitido cunhar
moeda de ouro e prata na Madeira, e em 10 do mesmo mês e ano foi publicado o regimento para haver casa
de cunho de moeda nesta ilha, com juiz superintendente e os demais oficiais que fossem precisos. Ordenava
o regimento de 1640 que o dinheiro do reino tivesse curso na Madeira e em 1664 vieram instruções para a
Municipalidade nomear escrivão para a Casa da Moeda e fazer cunhar patacas e meias patacas.
Em 15 de Agosto de 1704, ordenou o capitão-general Duarte Sodré que os rialetes e meios rialetes, que nesta
ilha valiam respectivamente 75 e 37 e meio réis, passassem a valer 80 e 40 réis, e que as meias patacas e
riales de prata dobles (quartos de pataca) fossem recebidas aquelas pelo valor de 375 réis e estas pelo de 187
réis, isto quando tivessem o peso legal, que era de 7 oitavas e meia por pataca. Foi determinado ainda na
mesma ocasião que as patacas denominadas Marias e as meias patacas ou meias Marias; continuassem a ter
curso com o valor de 600 e 300 réis, aquelas quando tivessem 6 e estas 3 oitavas de peso.
Em 1700, recebeu o Governador uma carta regia em que se lhe ordenava que fizesse recolher o dinheiro
cerceado, vindo por essa ocasião 80:000 cruzados em moeda nova para ficarem na Madeira. O valor da
pataca de 7 oitavas e meia era então de 750 reis.
Nos fins do século XVIII e princípios do século XIX, havia na Madeira as patacas; as pesetas e as meias
pesetas espanholas, tendo as primeiras o valor de 1$000 réis, as segundas o de 200 réis e as ultimas o de
100 réis, e em 1819 eram estas mesmas moedas que circulavam ainda na ilha, segundo se lê numa obra
inglesa que nesse ano foi publicada em Londres. Nos alicerces dalguns edifícios do século XVIII têm sido
encontradas moedas de cobre francesas, do tempo de Luis XVI, o que parece indicar que elas circularam na
Madeira.
Em 27 de Julho de 1762, queixava-se o provedor da fazenda das dificuldades que havia em transferir
dinheiro para Lisboa, por ser estrangeiro o numeràrio em circulação, e em 1819 pediu o governador Botelho
que, para não ser prejudicado, se atendesse, ao serem-lhe pagos os seus vencimentos, à diferença de valor
que havia entre a moeda madeirense e a continental.
A introdução do dinheiro inglês e americano que por largos anos circulou na ilha, teve lugar muitos anos
depois da entrada do dinheiro de Castela; as moedas de ouro espanholas que até 1879 circularam na
Madeira, tinham o valor de 16$000, 8$000, 4$000 e 2$000 réis, e as de prata o de 1$000, 200, 100 e 50
réis.
As moedas de ouro americanas, que corriam na Madeira, eram a dupla águia, a águia, a meia águia e o
quarto de águia, que valiam respectivamente 20$000, 10$000, 5$000 e 2$500 réis, e as de prata eram a
pataca ou dólar (1$000 réis), meio dólar (500 réis), o dime (100 réis) e o meio dime (50 réis). Apareciam
também dólares ou patacas de ouro, mas esta moeda era pouco frequente.
A libra esterlina ou soberano e a meia libra ou meio soberano eram as moedas de ouro inglesas que tinham
curso na ilha, as primeiras com o valor de 4$800 e as segundas com o de 2$400 réis, sendo a moeda de
prata representada principalmente pelas meias coroas (600 réis) e pelos xelins (240 réis) e suas
subdivisões. A libra esterlina antes de ter o valor de 4.800 réis que lhe foi dado pelos decretos de 7 de
Dezembro de 1836 e 4 de Maio de 1842, teve o de 4:600 réis, em virtude do disposto no decreto de 10 de
Outubro de 1835.
Além do numeràrio que deixamos mencionado, tinham curso na Madeira as patacas bolivianas, chilenas,
columbianas, argentinas e mexicanas, todas com o valor de 1000 réis, e algumas outras moedas
estrangeiras. Em 1887, foi a Camara Municipal do Funchal obrigada a restituir a alguns negociantes a
importância de um imposto que eles haviam pago pela importacão de dinheiro estrangeiro em circulação na
ilha.
Juntamente com as moedas de ouro e prata estrangeiras que por largos anos tiveram curso na Madeira,
circulou uma outra moeda que não tinha curso em Portugal. Lê-se num artigo publicado por Alberto Artur
Sarmento no extinto Diario do Commercio «que a primeira moeda portuguesa cunhada exclusivamente
para as ilhas, é a PECUNIA INSULANA, de D. José I . . . Tem a data de 1750 e são três os valores em cobre:
10, 5, e 3 réis. Tem no anverso JOSEPHUS I. D. G. PORT. ET ALG. REX; dois II (Josephus I) ao centro,
sustentando a coroa, a data bi-partida aos lados 17-50, e por baixo o valor X, V ou III, conforme a moeda.
No reverso PECUNIA INSULANA e as cinco quinas ao centro, ladeadas de palmas e encimadas com a coroa
real. A moeda de 5 réis teve duas emissões, sendo a segunda em 1751».
Manuel B. Lopes Fernandes na Memoria das moedas correntes em Portugal desde os tempos dos romanos
até nossos dias (
Memorias da Ac. Real das Sciencias
, nova série, tomo II, parte I) declara que a pecunia
insulana, de D. José I, era destinada aos Açores; é, porém, certo que ela circulou também na Madeira,
mesmo depois de aparecer aqui a pecunia madeirensis. Dissemos a pág. 85 de vol. I do
Elucidário
(artigo
Armas), baseados na opinião do dr. Azevedo (V.
Saudades
, pág. 492), que nas moedas de cobre cunhadas
em 1750 aparecem cinco fôrmas de açucar ladeadas por canas, também de açucar, mas, segundo o mesmo
Lopes Fernandes, o que ai se vê, bem como nas moedas de 1751, são as quinas entre dois ramos de palmas, o
que nos parece mais exacto, se bem que os dois ramos possam facilmente ser tomados por canas de açúcar.
Nas moedas da primeira emissão, no valor de 12:000- cruzados, aparecem ainda as duas canas de açúcar
das antigas armas do Funchal, ao passo que nas emissões do século XIX se vê em vez das canas, um ramo de
vinha.
«D. Maria II, diz ainda Alberto Sarmento criou a moeda exclusiva da Madeira, a PECUNIA MADEIRENSIS,
e são igualmente três os valores –20, 10 e 5 réis. No anverso lê-se–MARIA II. D. G. PORT. ET ALG.
REGINA, tendo ao centro a coroa portuguesa. No reverso, PECUNIA MADEIRENSIS e o valor respectivo–
XX,X ou V, orlado de um ramo de videira. A moeda de vintém teve apenas uma emissão, em 1842. A de 10
réis, 3 emissões: em 1842, 1850 e 1852. A de 5 réis foi emitida em 1850, mas não chegou a circular na
Madeira, saindo da Casa da Moeda para a mão de interessados coleccionadores, tendo hoje alto valor
estimativo».
No tocante a moeda madeirense, há ainda a dizer que em 1919 emitiu O Asilo da Mendicidade e Orfãos
cédulas de 1 e de 2 centavos e em 1920 de 4 centavos, destinadas a facilitar os trocos, visto a moeda metálica
haver desaparecido do mercado, tendo porém tais cédulas circulado por pouco tempo, em razão duma parte
do comercio se negar a aceitá-las.
A lei de 2 de Maio de 1879 acabou com a circulação do dinheiro estrangeiro na Madeira e estabeleceu um
prazo para a troca da antiga moeda fraca por moeda portuguesa. A libra esterlina foi a única moeda
estrangeira que continuou a ter curso, descendo, porém, o seu valor de 4$800 a 4$500 réis.
No resumo que acabamos de apresentar das moedas que se conheceram na Madeira até a publicação da lei
de 1879, só mencionamos as espécies cuja existência nos pareceu bem averiguada, mas é de crer que no
século XV corressem aqui os ceitis, os escudos, os espadins e os reais brancos e pretos, e que nos séculos
imediatos chegassem até esta ilha várias outras moedas que circularam em Portugal, muito embora os
documentos que compulsámos nada digam a tal respeito.
Moinhos
Entre os privilégios concedidos aos donatários deste arquipélago, contava-se o de somente
poderem eles construir moinhos ou azenhas, concedendo, quando o entendiam, licença para outros o
fazerem, mediante uma tributação especial. Este privilegio constituía uma das mais abundantes fontes dos
rendimentos dos capitães-donatários, que eram avultadíssimos. No sitio ainda hoje chamado dos Moinhos e
pela margem direita da ribeira de Santa Luzia possuíam um numero considerável de azenhas, que chegaram
até nossos dias, muitas das quais os marqueses de Castelo Melhor, em época não muito afastada de nós,
davam de arrendamento a diversas pessoas. 0 largo dos Moinhos ou do Marquês conserva estes nomes, por
ali ter havido varias azenhas, que eram propriedade da casa Castelo Melhor, na qual foi encorporada a
instituição vincular dos donatários do Funchal.
Em carta ou instruções dirigidas pelo infante D. Henrique a João Gonçalves Zarco se diz: «... mandar a João
Afonso que correja outra mó e se faça um moinho de agoa segundo o de Tomar». Afirma-se que foi no
Caniço, fora do Funchal, o primeiro logar onde se construíu um moinho existindo ainda ali um sitio que tem
o nome de Azenha.
Vid. Levadas.
Moinhos
Sitio povoado da freg. do Caniço. 68 f. e 368 h. Neste sitio existem ainda as ruínas duma
capela da invocação de Nossa Senhora de Salvação, fundada em 1614 por Francisco Morais de Aguiar.
Moinhos (Ribeira dos)
Atravessa a freguesia da Boaventura, desembocando no oceano, a pequena
distancia da ribeira do Porco, na mesma freguesia.
Moinhos (Ribeira dos)
Fica na freguesia da Ponta do Pargo.
Moinhos (Rua dos)
Assim se denominava outrora a parte da rua das Mercês compreendida entre a
travessa das Capuchinhas e o largo do Marquês. Na parte superior da rua havia um moinho que foi
demolido há anos.
A rua dos Moinhos chamou-se primitivamente rua do Peso.
Molarinha (Fumaria muralis)
Planta anual da família das Fumariaceas, comum na Madeira e
Porto Santo. Tem corolas irregulares e esporoadas, rosadas, brancas ou purpurescentes, de ordinario
purpureo-escuras ou esverdinhadas no cimo. A infusão da molarinha ou herva-pombinha é usada nas
afecções cutaneas.
Mole (Ilhéu)
Pequeno ilhéu na costa da freguesia do Porto do Moniz.
Molhe da Pontinha
A empreitada do molhe da Pontinha foi arrematada pelos engenheiros
franceses Combemale, Michelon e Maury por contrato de 30 de Junho de 1885, e as obras duraram até
1889, sendo autorizada a sua recepção provisória por Portaria de 16 de Agosto de 1890. 0 projecto fora
elaborado pelo engenheiro Mariano Augusto de Faria e Maia, tendo sofrido porém algumas modificações,
umas propostas pelos referidos empreiteiros, outras impostas pela Junta Consultiva de Obras Publicas e
Minas.
A obra custou 447:256$855 reis; tendo, porém, uma grande parte dela sido destruída pelos temporais de 28
de Fevereiro de 1892, foi o Governo obrigado a despender na sua reconstrução, que terminou em 1895, a
importância de 90:000:000 réis. Reunindo estas duas verbas à de 2:502:960 réis, dispendida com a
fiscalização dos trabalhos, vê-se que as despesas com a construção do molhe da Pontinha se elevaram à
importante soma de 539:759:815 réis.
É curioso notar que já em 1823 se pensava em estabelecer um molhe no Funchal, tendo o Governador e
Capitão-General chegado a pedir a opinião da Câmara acerca do mesmo molhe, e que em 13 de Setembro do
ano imediato foi publicada uma carta regia em que se mandava que o brigadeiro Francisco António Raposo
passasse à ilha da Madeira, afim de fazer os estudos precisos para a construção dessa obra. Foi nos baixos
que ficam perto da fortaleza de S. Tiago que o referido brigadeiro pretendeu estabelecer um molhe e cais,
para o que se fez a considerável despesa de 37 contos em quebrar e talhar pedras, que pela maior parte se
deixaram perder.
Em sessão da Câmara Municipal do Funchal de 26 de Novembro de 1824, leu o Governador e Capitão-
General perante a mesma Câmara, a nobreza e o corpo de comercio nacional e estrangeiro, uma carta regia
referente ao cais e molhe no pôrto da cidade, pedindo o Juiz de Fora ao mesmo Governador que levasse ao
conhecimento de S. Majestade a gratidão dos madeirenses pelo beneficio que iam receber.
Pelo que respeita à muralha que liga o ilhéu da Pontinha à terra, foi começada em 1757, mas so se concluiu
muitos anos depois, tendo o plano e modelo da obra sido organizado pelo engenheiro Francisco Tossi
Columbino em virtude de uma carta regia expedida em 22 de Maio de 1756 ao Governador Manuel
Saldanha de Albuquerque, ordenando a construção de um porto de abrigo no Funchal. Um vendaval que se
fez sentir no nosso porto no dia 4 de Novembro de 1757, danificou bastante as obras da referida muralha, jà
então iniciadas.
Na obra do falecido Adolfo Loureiro
intitulada Os Portos Maritimos de Portugal e Ilhas Adjacentes
,
encontra-se uma noticia circunstanciada sôbre o actual molhe da Pontinha e os cais do Funchal.
V. Abra e Cais.
Mona (Pseudotriacis microdon)
Peixe da familia Mitsukurinida, que aparece nos mares da
Madeira e é conhecido em Portugal pelo nome de peixe carago.
Mónaco (Príncipe de)
O príncipe Alberto de Monaco, nascido em 1848 e falecido em Junho de
1922, visitou os mares da Madeira em 1879, 1888, 1901, 1904, 1911, 1912 e ainda noutros anos, quer a bordo
da Hirondelle, quer do Princesa Alice, tendo em todas estas ocasiões feito colheitas valiosas para o estudo
da hidrobiologia desta parte do Atlântico. Em Março de 1888, esteve na Deserta Grande, da qual trata no
seu livro La Carrière d'un navigateur, tendo o capitulo em que se refere àquela ilha sido traduzido pelo sr.
Alberto Sarmento e publicado no
Heraldo da Madeira
.
No
Boletim da Sociedade Zoologica de França
(1892), foi publicado um trabalho com o titulo de
Orthoptères provenant des voyages de S. A. le prince de Monaco dans les archipels de Madère et des
Açores
e no
Boletim do Instituto Oeeanografico de Monaco
(1914) encontra-se um trabalho de L. Gain,
intitulado Algues provenant des Campagnes de l'Hirondelle
II(1911-1912).
Monarchia (A)
Publicaram-se dez numeros, sendo o primeiro a 11 de Agosto e o ultimo a 24 de
Outubro de 1884.
Moncada (Dr. Francisco Xavier Cabral)
Representou a Madeira no parlamento legislatura de
1906 a 1907.
Mondragão
Este apelido de família, que supomos extinto na Madeira, veio de João Rodrigues
Mondragão, nobre biscainho que se estabeleceu na Madeira por 1500 e instituiu morgado na vila da
Calheta.
V
. Domínio castelhano.
Moniz
É apelido de família muito antigo entre nós. Dos primeiros povoadores vindos do continente, diz
o anotador das Saudades, estabeleceu-se nesta ilha Vasco Martins Moniz de Meneses, que teve sesmaria no
Caniço, sendo fidalgo da casa real e filho segundo de Henrique Moniz, alcaide-mor de Silves, e de sua
mulher D. Inês de Meneses, filha de Gonçalo Nunes Barreto, alcaide-mor de Faro, o qual teve grande casa
na vila de Machico, e, por testamento aprovado em 1489, instituiu morgado da sua terça, tendo morrido em
1510 na vila do Torrão. De Vasco Martins Moniz se ocupa largamente Nicolau Florentino (António Maria de
Freitas) no seu opúsculo A mulher de Colombo, enaltecendo-lhe os feitos e as qualidades, dizendo que na
vila de Machico, onde se instalara, se distinguira de quantos portugueses e estrangeiros ali viviam, por sua
generosidade, pela fidalguia de seu trato e pelo fausto principesco de sua casa, cujas comodidades e
atractivos não o enervaram, pelo contrario sempre que o rei e o país lhe reclamavam os serviços, ele deixava
a família para acudir com o seu braço e muitas vezes com a sua bolsa. Era filha de Vasco Moniz a mulher do
primeiro donatário do Porto Santo, Bartolomeu Perestrelo, por nome D. Isabel Moniz, tendo deste
consorcio nascido D. Felipa Moniz, mulher do grande navegador Cristovão Colombo. De todas estas
personagens se ocupa também com largueza o citado folheto de Nicolau Florentino.
Para a Madeira também veio Francisco Moniz, o Velho, natural do Algarve, que deu o nome à freguesia do
Porto Moniz ou antes Porto do Moniz, onde teve terras de sesmaria.
Não sabemos se a família Moniz, a que pertenceram os distintos madeirenses Lourenço José Moniz, João
Henriques Moniz, Patrício Moniz, Jaime Constantino de Freitas Moniz e João Maria Moniz (V. estes
nomes) é oriunda de Vasco Moniz ou de Francisco Moniz a que acima nos referimos.
Moniz (Francisco João)
Pertence à família Moniz, que tantos homens distintos deu à Madeira. Nas
primeiras eleições que se realizaram neste arquipélago para as Cortes Constituintes, que funcionaram de
1821 a 1822, depois de estabelecido o sistema representativo, foi Francisco João Moniz escolhido para
representar esta ilha em cortes e advogou com dedicação as questões que mais de perto interessavam à
Madeira.
Foi escriturário e depois contador da Junta da Real Fazenda embarcando para o Brasil em 1828 para fugir
às perseguições miguelistas.
Desempenhou o cargo de vice-consul português no Rio de Janeiro e foi um dos benfeitores da Beneficência
Portuguesa da mesma cidade.
Era pai do ilustre madeirense Patrício Moniz
(V. este nome)
e faleceu, segundo ouvimos a pessoa da sua
família, por 1848.
Moniz (Jaime Constantino de Freitas)
Foi um dos mais distintos filhos da Madeira no ultimo
século decorrido. Nasceu na freguesia da Sé desta cidade a 18 de Fevereiro de 1837, sendo filho de António
Caetano da Costa Moniz e de D. Eufemia de Freitas Moniz.
Terminados os preparatórios no Liceu do Funchal, matriculou-se na faculdade de direito da Universidade
de Coimbra, em 1857, e concluiu a formatura em 1862, obtendo os primeiros prémios em todos os anos de
seu curso.
Logo se dedicou à advocacia, mas foi curta, embora brilhantissima, a sua carreira através dos tribunais.
Neste período de sua vida, deu-se a lamentável tragedia, que emocionou o país inteiro, de ter o deputado
José Cardoso Vieira de Castro assassinado a sua própria mulher. 0 julgamento desta causa despertou um
interesse até então nunca observado entre nós. Jaime Moniz encarregara-se da defesa do seu desgraçado
amigo e antigo companheiro nas lides académicas. A causa foi das mais célebres que se julgaram em
Portugal, e a defesa ficou assinalada nos anais do foro português, como um dos mais brilhantes triunfos
oratórios da eloquência forense. 0 magistrado que representava a acusação dissera que Jaime Moniz era um
verdadeiro meteoro que surgira a brilhar intensamente no foro, ao que ele logo retorquiu–que era
realmente um meteoro, não pelo brilho com que fulgia, mas pela rapidez com que passava–aludindo deste
modo à sua curta carreira de advogado, que em breve e para sempre abandonou.
Dessa brilhante defesa se ocuparam com os mais alevantados louvores Pinheiro Chagas e Camilo Castelo
Branco, e os portugueses residentes no Rio de Janeiro enviaram uma coroa de ouro a Jaime Moniz, como
preito de homenagem ao autor daquele monumental discurso. Esta oração e todo o processo do julgamento
foram publicados num volume, de que se fez larga tiragem, que em breve se esgotou.
Jaime Moniz também, percorreu como em geral outros homens de mérito da sua época, os meandros
tortuosos da politica nacional, mas saíu incolume desse tremedal em que tantos chafurdam a própria
dignidade. Foi deputado pelo circulo de Castelo Branco nas três legislaturas decorridas de 1870 a 1874 e
pelo circulo de Goa na sessão legislativa de 1871 a 1875. Quando uma lei permitiu que os estabelecimentos e
corpos científicos elegessem um seu representante para a câmara dos pares, foi Jaime Moniz escolhido
unanimemente para desempenhar essa alta e honrosa missão. A estreia de Jaime Moniz no parlamento, em
1871, constituiu um verdadeiro acontecimento politico e logo conquistou os foros dum notável parlamentar.
Sempre que erguia a voz no seio da representação nacional, toda a câmara o escutava atentamente e os
aplausos saíam espontaneos, ainda das bancadas da oposição. Os assuntos que predilectamente versava, e
com indiscutível autoridade o fazia, diziam respeito à instrução pública e a questões coloniais.
Com a queda do marquez de Avila e Bolama, foi em 1871 Fontes Pereira de Melo chamado a organizar um
ministério da sua presidência, em que Jaime Moniz sobraçou a pasta da marinha, fazendo parte desse
ministério homens da envergadura de Rodrigues Sampaio, Barjona de Freitas e Andrade Corvo. Apesar de
não ser longa a sua permanência nos conselhos da coroa, o nosso ilustre patriciou deixou assinalada a sua
passagem no Ministério da Marinba e Ultramar, por medidas de grande alcance e ainda o seu nome é hoje
citado como um dos estadistas que no nosso país não descuraram as questões coloniais.
Abandonando o foro e a politica, Jaime Moniz consagrou todas as faculdades do seu espírito ao
professorado, aos trabalhos da Academia e aos múltiplos serviços da instrução publica. Em 1863, fêz
concurso para a cadeira de filosofia e historia universal do Curso Superior de Letras, publicando a tese
apresentada, que se intitula: Da natureza e extensão do progresso considerado como lei da humanidade e
applicação especial dessa lei às bellas artes. Como lente deste estabelecimento de ensino superior, foi dos
mais distintos, tendo como colegas no magistério professores da estatura de Viale, Pinheiro Chagas, Adolfo
Coelho e Teófilo Braga.
Era sócio efectivo da Academia das Ciencias de Lisboa e por muitos anos exerceu o lugar de secretario da
primeira Corporação cientifica e literaria do país, lugar que anteriormente tinha sido desempenhado por
Latino Coelho e Pinheiro Chagas. A sua acção no seio deste ilustre areópago salientou-se brilhantemente
não só nos relatórios e memorias que redigiu como na organização que deu a alguns dos serviços internos
da Academia, tomando além disso parte muito notavel em todos os seus mais importantes trabalhos.
Foi na antiga Junta Consultiva de Instrução Publica e depois no Conselho Superior de Instrução Pública a
que o conselheiro Jaime Constantino de Freitas Moniz presidiu por largos anos que a sua actividade mais
notavelmente se evidenciou, tendo uma verdadeira paixão por todos os assuntos que se relacionavam com a
instrução, a que consagrou uma parte considerável da sua existência. Escreveu muitos relatórios e
pareceres, redigiu propostas de lei, proferiu discursos, foi ao estrangeiro em comissões de serviço, deu nova
organização àqueles corpos consultivos, etc., criando um nome que, na historia da instrução nacional, ficará
aureolado por muitos títulos de benemerência.
Jaime Moniz foi também director geral da secretaria da Camara dos Deputados e publicou alguns relatórios
anuais acerca dos serviços dessa repartição.
Pertenceu a muitas sociedades literarias e cientificas tanto nacionais como estrangeiras, e depois da sua
morte foi, por proposta da Academia das Scienclas de Lisboa, dado o seu nome ao liceu do Funchal.
Morreu em Lisboa a 16 de Setembro de 1917
Moniz (João Cirilo)
Temos conhecimento deste madeirense pelas referencias que a seu respeito
encontramos nos tomos X e XI do
Diccionario Bibliographico
de Inocencio. Nasceu no Funchal a 28 de
Janeiro de 1818 e morreu em Nictheroy, Brasil, a 2 de Junho de 1871. Em 1809, acompanhou seu pai para o
Rio de Janeiro e ali seguiu um curso de piano e canto. Pertenceu a diversas sociedades e naquela cidade
fundou uma destinada a ministrar gratuitamente a instrução. Publicou um opúsculo intitulado Breve
compêndio de musica,.. dedicado a sua alteza a sereníssima princesa imperial D. Leopoldina. Parece que
deixou vários inéditos destinados ao estudo da musica, mas dos quais não temos conhecimento.
Moniz (D. João Henriques)
Nasceu nesta cidade no ultimo quartel do século XVIII e era próximo
parente do dr. Lourenço José Moniz, dr. Patricio Moniz e conselheiro Jaime Moniz, dos quais nos ocupamos
neste Elucidário. Formou-se em canones pela Universidade de Coimbra tendo-se ordenado de presbítero no
primeiro quartel do século passado.
Exercia nesta diocese as funções de promotor eclesiástico, quando foi envolvido na alçada que veio a esta
ilha em 1828, sendo no ano seguinte enviado prêso para Lisboa e dali deportado em 1830 para o
arquipélago de Cabo Verde. Residiu alguns anos na ilha Brava, onde desempenhou funções paroquiais e
onde prestou relevantes serviços à instrução, com a fundação de duas escolas.
Restabelecido o governo constitucional, não regressou à pátria, tendo sido em 1835 nomeado governador do
bispado de Cabo Verde. Em 1841, foi apresentado bispo daquela diocese, mas somente em 1844 é que veio a
Lisboa receber a sagração episcopal.
Teve um bem curto episcopado, pois chegou a Cabo Verde em Fevereiro de 1847 e morreu a 1 de Julho do
mesmo ano. Julgou-se então que as contrariedades e perseguições que sofreu mal desembarcou na ilha de
São Tiago, o arrastaram sem demora à sepultura. 0 cabido que era composto de um cónego preto e outro
mulato, não quis conferir-lhe a posse do bispado, e o Governador, pela falta da posse legal, não o
reconheceu como prelado e negou-se a abonar-lhe os respectivos honorários. No meio destas lutas e
amarguras, sucumbiu ao ataque duma febre perniciosa, sendo sepultado no cemitério da Praia, sem que lhe
fossem prestadas as honras civis e eclesiásticas a que tinha direito a sua elevada jerarquia. Não faltou quem
afirmasse que o prelado fora vitima dum assassinato causado por envenenamento, que então se atribuiu a
um seu próximo parente.
D. João Henriques Moniz tinha sido eleito senador substituto pela Madeira para a sessão legislativa de 1840
a 1842.
Moniz (João Maria)
Nasceu no Funchal a 23 de Julho de 1822 e era filho de José Inacio Moniz e de
D. Marciana Jardim Moniz. Em 1849, foi admitido como praticante na Repartição de Fazenda do Funchal,
tendo feito antes estudos secundários no liceu, e em 1860 foi nomeado aspirante da mesma repartição, onde
serviu até 27 de Junho de 1895, data em que se aposentou, possuindo então a categoria de oficial, que
alcançara a 22 de Agosto de 1883
Foi um distinto naturalista e entre 1848 e 1855 organizou um excelente herbario, parte do qual tendo sido
emprestado ao botanico Lowe, desapareceu por ocasião do naufrágio em que este sabio inglês perdeu a vida.
Novas explorações realizadas no arquipélago permitiram-lhe substituir por outros os exemplares perdidos e
descobrir varias espécies não assinaladas anteriormente.
Em 1856, criou Lowe o genero Monizia, que dedicou ao nosso distinto conterraneo, tendo feito acompanhar
a descrição que publicou do mesmo genero no Jornal Botanico de Booker, das palavras seguintes: «este
nome representa uma homenagem ao sr. João M. Moniz, um distinto botanico e feliz investigador da flora
nativa da Madeira, e um não menos zeloso horticultor, sempre activamente empenhado em introduzir
plantas raras ou novas na ilha e em promover o desenvolvimento dos conhecimentos agricolas e horticolas
entre os seus conterraneos».
Três especies botanicas relembram o nome de J. M. Moniz–o
Carex Moniziana
, o
Helichrysum Monizii
e a
Sçrophularia Moniziana
,– e dois moluscos e um insecto receberam também o seu nome, sendo êste o
Zargus Monizi
e aquêles o
Craspedopoma Monizianum
e a
Helix Moniziana
.
João Maria Moniz foi o primeiro botanico que indicou a existencia na Madeira da Visnea, Mocanera, arvore
que se supunha peculiar das Canarias, sendo êle também quem demonstrou por meio de exemplares
autenticos colhidos nesta ilha, que a Euphorbia Luthyris existente no herbario de Francisco Masson,
depositado no Museu Britanico, provinha daqui e não dos Açôres, com alguém chegara a supor.
Muitas plantas exoticas, abundantemente espalhadas agora pelas nossas quintas e jardins, foram
introduzidas pelo nosso biografado. Era numa propriedade no sitio do Destêrro, que êle as cultivava e
aclimava, para depois as distribuir pelos seus amigos e conhecidos.
João Maria Moniz era cavaleiro da Ordem de S. Tiago, associado provincial da Academia das Ciências de
Lisboa, socio correspondente da extinta Sociedade de Geografia do Pôrto e membro da antiga Sociedade
Agricola do Funchal, tendo sido o promotor duma exposição realizada no Funchal em 1854 e um dos
membros da comissão que levou a efeito a exposição agricola de 1861. Possuia um anel de brilhantes
oferecido pelo infante D. Luís, mais tarde rei de Portugal, e a imperatriz Isabel de Austria, e o principe
Maximiliano, depois imperador do Mexico, também lhe deram provas de muito aprêço por ocasião de
visitarem esta ilha.
Deixou por sua morte um valioso herbario, que foi adquirido pelo botanico inglês Murray e està agora em
Kew, uma magnifica colecção de conchas terrestres, que foi comprada pelo inglês Blandy, jà falecido, e uma
colecção de madeiras que se acha presentemente no arquivo da Camara Municipal do Funchal. Nos últimos
tempos da sua vida, procurava reunir as conchas-marinhas da Madeira afim de as submeter a exame do
inglês Watson, mas a morte surpreendeu-o antes de haver concluído êste trabalho.
J. M. Moniz era especialmente botanico e malacologo, mas conhecia a grande maioria dos peixes dos mares
da Madeira e não era estranho a entomologia. Uma pequena colecção de insectos que organizara, foi cedida
em sua vida ao distinto entomologista francês Fauvel.
Era dotado duma memoria prodigiosa e dum admirável espírito de observação, sendo porisso que raras
vezes deixava de indicar o nome duma planta jà por ele estudada, ainda mesmo decorridos muitos anos
depois de realizado êsse estudo. Se não conhecia, como Augusto de Candole, as plantas pelas cotilédones,
conhecia-as muitas vezes por um simples fragmento duma fôlha, como mais duma vez tivemos ocasião de
observar.
João Maria Moniz faleceu no Funchal a 10 de Julho de 1898. Trabalhou até o fim da sua vida e foi
incontestavelmente um dos bomens mais distintos da nossa terra, apesar de não ter deixado nenhum
trabalho que ateste o seu muito saber e o interesse que sempre consagrou ao estudo das ciências naturais.
Moniz (Dr. Lourenço José)
Foi um dos mais distintos madeirenses da primeira metade do século
XIX. Aliou a um brilhante talento uma notável austeridade de carácter. Ele e o dr. Luís Vicente de Afonseca,
que durante algumas dezenas de anos representaram a Madeira no seio do parlamento, foram os indivíduos
que com maior abnegação e desinteresse advogaram as necessidades deste arquipélago, não solicitando
para si empregos e não patrocinando pretensões escandalosas ou escuras negociatas, tendo sempre vivido
numa modesta mediania e morrido numa quàsi desamparada pobreza.
Nasceu o dr. Lourenço José Moniz na freguesia de Santa Maria Maior desta cidade a 10 de Agosto de 1789.
Reconhecendo nele seu tio paterno o padre Filipe Gomes Moniz, cura da Sé Catedral, uma viva e precoce
inteligência, tomou a seu cargo a educação do seu jovem sobrinho, que soube inteiramente corresponder às
esperanças que a seu respeito nutria o seu desvelado protector.
Concluídos no Funchal os estudos preparatórios, seguiu Lourenço Moniz para Inglaterra, afim de
matricular-se na faculdade de medicina da Universidade de Edimburgo, que gozava de reputação universal,
sendo então bastante considerados os médicos formados nesta escola e tidos como muito sabedores dos
assuntos da sua especialidade. Em Inglaterra, apesar de estrangeiro e de não conhecer profundamente a
língua do país, não desmereceu os créditos que alcançara na Madeira, chegando a obter alguns prémios em
varias cadeiras do seu curso universitario. A 1 de Agosto de 1815, defendeu a sua tese inaugural De Ictero
escrita na lingua latina e que foi publicada em Londres no mesmo ano.
Regressando à terra natal, entregou-se ao exercício da sua profissão com brilhante êxito, e em 1824 foi
nomeado professor duma cadeira de humanidades, que mais tarde também regeu no liceu, quando este se
estabeleceu em 1837, do qual foi um distinto professor e o seu primeiro reitor. Também, quando, em 1837,
se criou a nossa Escola Medica, foi Lourenço José Moniz nomeado seu professor e seu primeiro director,
cargos que não chegou a exercer por se tornarem incompatíveis com o lugar de deputado e outras comissões
de serviço que então desempenhava.
A sua austeridade de carácter, o seu reconhecido talento e a grande consideração de que gozava entre os
seus patrícios tinham-no naturalmente indicado para os altos cargos públicos, e assim, nas primeiras
eleições que se realizaram depois da promulgação da Carta Constitucional em 1826, foi o dr. Lourenço
Moniz eleito deputado pela Madeira, para as cortes que funcionaram de 1826 a 1828.
Dissolvidas as cortes e proclamado o governo absoluto, o dr. Moniz voltou à Madeira, mas em breve teve de
abandonar a pátria, receoso da perseguição que começava a mover-se contra os partidários das ideias
liberais. Embarcou para os Estados Unidos da América, onde se demorou alguns anos, regressando ao
Funchal depois do restabelecimento do governo constitucional.
Logo nas primeiras eleições, em 1834, foi eleito deputado por este arquipélago, e nas seguintes nove
legislaturas, que decorreram desde aquele ano até 1856, pouco antes da sua morte, representou sempre a
Madeira no parlamento, com excepção da sessão legislativa de 1842 a 1845. Nenhum madeirense logrou
representar a sua terra em cortes por tão largo período de tempo, o que prova eloquentemente a maneira
desinteressada como o fez e o muito que trabalhou pelas prosperidades e engrandecimento do seu torrão
natal.
O dr. Moniz gozou dos créditos dum distinto parlamentar, não só pelos discursos que proferiu, mas ainda
como membro de varias comissões, sendo relator de muitos projectos e pareceres, em que sempre revelou
uma notável competência. Presidiu, por vezes, à Câmara dos Deputados, e era muito considerado pelos mais
brilhantes parlamentares de todas as facções partidárias.
Exerceu importantes comissões de serviço publico, como juiz comissário das presas marítimas do Cabo da
Boa Esperança, em que junto das autoridades inglesas, honrou sobremaneira o nome português pela
maneira como se houve nessa difícil e arriscada missão.
Foi também governador civil de Coimbra, vogal do Conselho Ultramarino, membro de varias sociedades
cientificas e literárias, etc..
Morreu em Lisboa a 4 de Dezembro de 1857, tendo 68 anos de idade.
Nesta ilha, abriu-se uma subscrição publica para se levantar no cemitério do Alto de S.
João um mausoléu destinado a guardar os seus despojos mortais, e nele se lê o seguinte epitáfio: HONRA,
SCIENCIA, PATRIOTISMO.
Aqui jaz o Conselheiro Lourenço José Moniz, doutor em medicina e vogal do conselho ultramarino. Foi
deputado da nação, representando a Madeira, sua patria, por mais de vinte anos em sucessivas legislaturas.
Vice-presidente da camara electiva em 1841, commissario dos estudos no distrito do Funchal, reitor e
professor de rhetorica no liceu da mesma cidade, juiz commissario de presas maritimas no Cabo da Boa
Esperança gratuitamente muitas outras commissões de serviço publico. Nasceu na Ilha da Madeira a 10 de
Agosto de 1789. Viveu sempre modestamente e ao cabo de tão larga carreira morreu pobre em Lisboa a 6
Dezembro de 1857. Em testemunho da gratidão pela inteligencia e inexcedivel zelo com que advogou
sempre os interesses da Madeira e em homenagem às suas virtudes civicas e morais, bem como ao seu
elevado merito scientifico, lhe mandaram erigir este monumento os madeirenses.
Moniz (Dr. Patrício)
Foi sem duvida o Dr. Patrício Moniz a mais privilegiada inteligência da nossa
terra no século XIX. A pujança do seu talento, que se revelava eloquentemente numa notável cultura
filosófica, e a sua vastíssima ilustração que o tornava um verdadeiro sábio em toda a extensão do termo, não
desmentem em nada a nossa, talvez para muitos, arrojada afirmativa. Espírito eminentemente superior e
propenso às abstracções da mais alta filosofia, a que se entregara inteiramente, desprezando por sistema os
europeus duma superficial e mal cimentada ciência, passou no entretanto algumas vezes por uma mediana
ilustração aos olhos dos que só sabem julgar aparências e que costumam medir o valor intelectual dum
homem pelo desfilar interminável de datas, de nomes e de citações dos autores mais acreditados e mais em
voga.
Possuía aptidões e méritos notabilíssimos, que faziam a admiração e o assombro dos que mais de perto o
conheciam e melhor podiam apreciar toda a plenitude e grandeza das faculdades do seu espírito. O grande
público só de longe em longe, e sempre de modo imperfeito, conseguia avaliar o quilate daquele
formosissimo talento. Como as pérolas se escondem nos abismos do oceano e os diamantes nas entranhas
da terra, também a sua vastíssima inteligência se sepultava na mais profunda modéstia, no mais completo
desprendimento de si mesmo, que o tornavam simplesmente adorável e de um verdadeiro encanto para os
que com ele privavam intimamente. E, todavia, um homem de tamanha envergadura intelectual passou
quasi despercebido, não deixando à posteridade uma obra de vulto, que incontestavelmente poderiam ter
produzido as suas raras faculdades de erudito, de pensador e de filosofo. Deve em boa parte atribuir-se essa
lamentável circunstancia à volubilidade do seu temperamento e à sua vida sempre agitada durante a maior
vitalidade do seu espírito. No entretanto, quem compulsar os seus escritos reconhecerá sem esforço de
quanto a sua inteligência seria capaz, se causas diversas não tivessem obstado a elaboração de uma obra de
mais largo fôlego.
O Dr. Patrício Moniz foi um grande teólogo. Todos os ramos da vasta ciência teológica lhe eram familiares e
sobre todos eles discorria com notável proficiência. Ouvi-lo na cátedra de professor, o mesmo era que
extasiar-se à vista de tão profundos conhecimentos, de tão assombrosa erudição e também de tão
espontânea e persuasiva eloquência, parecendo que a teologia, ciência de si tão difícil e semeada de
escabrosidades, não tinha para ele segredos.
Se foi distintíssimo teólogo, não foi menos abalizado filosofo. E filosofo na acepção rigorosa e legitima deste
vocábulo, que não um simples amador ou mesmo cultor desvelado dos estudos filosóficos. O Dr. Patrício
Moniz escreveu um livro intitulado Theoria da Afirmação Pura, que não temos competência para apreciar
devidamente, mas que podemos sem receio asseverar que é um documento comprovativo das altas
faculdades do seu espírito. A obra terá imperfeições, está evidentemente semeada de muitas nebulosidades,
e antes parece escrita por um filosofo alemão, entregue às maiores abstracções filosóficas, do que por um
meridional que passou uma grande parte da sua existência num pais como o Brasil. É porém incontestàvel
que uma inteligência mediana seria impotente para produzir uma obra daquela natureza e embrenhar-se
assim em tão altas questões filosóficas.
Teve uma grande nomeada como orador, que foi na verdade distintíssimo, sendo principalmente a cidade
do Rio de Janeiro o campo dos seus triunfos oratórios. Os brasileiros ufanavam-se com justiça do seu
grande orador sagrado Mont'Alverne, que, depois do grande Vieira, alcançou lugar proeminente entre os
que têm pregado em língua portuguesa. A imprensa do Brasil foi unânime em proclamar o Dr. Patrício
Moniz como o verdadeiro sucessor de Mont'Alverne. A sua fama como orador sagrado atravessou o oceano e
ecoou no velho continente. Publicou alguns sermões e orações fúnebres, que são verdadeiros primores no
seu género, mas não era escrita a maior parte dos seus discursos. Meditado e estudado o assunto, deixava a
elocução aos voos do improviso. Era dotado de uma notável verbosidade e não raro a palavra se desprendia
dos seus lábios em catadupas de eloquência. Todavia não foi nem podia ser nunca um orador popular. A
vastidão do seu saber, as suas naturais tendências para as questões filosóficas, um certo prurido de versar
assuntos de si escabrosos e eriçados de dificuldades, afastavam-no irresistivelmente dos discursos que
comovem e arrebatam as massas populares desprezando por completo os aplausos, só procurava em geral
para objecto das suas peças oratórias os assuntos de mais íntima afinidade com as suas predilecções
filosóficas e teológicas. O Dr. Patrício Moniz foi um dos mais notáveis oradores sagrados do nosso pais e
incontestavelmente ninguém o excedia nas ciências teológicas e no conhecimento profundo que tinha de
todas as fontes de oratória sacra.
Geralmente os filósofos são pouco inclinados às obras de ficção e às expansões do sentimento. No
entretanto, Patrício Moniz cultivou as musas em verdes anos, adoptando como arcade romano o nome de
Cleomenes Messeide e escreveu dois volumes de versos, que publicou tendo 18 e 19 anos de idade. Mais
tarde, quando o estudo das ciências especulativas, a que se dedicara com todo o amor, lhe empolgara
completamente o espírito, deixou de ser discípulo de Apolo para seguir o trilho dos grandes filósofos. Viu-se
contudo que poderia ter alcançado lugar distinto no Parnaso, se houvesse continuado a dedilhar a lira.
Resta-nos dar alguns traços biográficos deste nosso ilustre patrício, que nasceu na freguesia de Santa Maria
Maior desta cidade no dia 2 de Abril de 1820 e era filho de Francisco João Moniz, empregado superior da
Junta da Fazenda e de D. Ana Foster Moniz. Em 1828, tendo apenas 8 anos de idade, foi para o Rio de
Janeiro com seu pai, o qual tendo sido eleito deputado pela Madeira para as cortes constituintes que
funcionaram de 1821 a 1822 e professando os princípios da revolução do Porto, viu-se violentado a sair do
país quando em 1828 D. Miguel se proclamou rei absoluto.
Patrício Moniz fez os seus estudos secundários na capital do Brasil, ao mesmo tempo que se dedicou ao
cultivo da poesia, publicando em 1838 o volume intitulado
meditações Noturnas
e em 1839 outro volume
de versos a que deu o título de
Composições poéticas offerecidas ao seu querido pai Francisco João Moniz
.
Pouco depois se dirigiu a Paris e ali se matriculou na faculdade de direito, em que tomou o grau de bacharel.
Em seguida, tomou a direcção de Roma e naquela capital cursou o afamado Colégio Romano ou
Universidade Pontifícia, doutorando-se na faculdade de teologia, depois de haver revelado o seu
extraordinário talento e ter alcançado varias distinções académicas. Tendo-se ordenado de presbítero em
Roma e havendo concluído todos os seus trabalhos universitários, regressou à cidade do Rio de Janeiro,
onde se entregou ao serviço da Igreja, à prédica, ao magistério, ao jornalismo e ao estudo, que não
abandonou nunca.
Como já dissemos, foi a capital do império o campo dos seus triunfos oratórios. No Recreio Literário
Português, fez notáveis e brilhantes conferencias, pelo que aquela agremiação mandou colocar nas suas
salas o retrato a óleo em tamanho natural do ilustre madeirense. Em muitas solenidades, em exéquias
fúnebres e outros actos públicos, pronunciou discursos que ficaram celebres. Apesar da sua larga carreira
oratória, poucos desses discursos foram publicados, devido à circunstancia, que já deixámos apontada, de
raramente escrever as orações que proferia.
O Dr. Patrício Moniz foi jornalista e polemista de rija tempera, afirmando brilhantemente as suas distintas
qualidades de escritor e erudito na Religião, na
Tribuna Catholica
, na Iris e noutros jornais, de que foi
redactor ou em que colaborou com maior ou menor assiduidade.
Exerceu o magistério com grande proficiência no Rio de Janeiro e no Funchal, tendo no seminário desta
cidade regido as cadeiras de teologia, filosofia, historia, eloquência e ainda outras disciplinas.
Foi o Dr. Patrício Moniz membro de diversas sociedades literárias e cientificas, nacionais e estrangeiras,
tendo sempre recusado todas as condecorações e títulos honoríficos com que por vezes o quiseram
distinguir.
folhetos, entre os quais se conta um intitulado
Reflexões sobre a carta do sr. Alexandre Herculano
.
Além das obras que ficam citadas, publicou cinco discursos em opúsculos avulsos e alguns outros
Em 1878 ou 1879, depois de ter sido durante algum tempo professor do seminário do Funchal, causando a
vastidão do seu saber verdadeiro assombro aos seus alunos, saíu para o Continente do Reino, onde
desempenhou varias funções eclesiásticas, até que foi nomeado pároco de Aveiras de Baixo, humilde
paróquia do patriarcado, que conta menos de mil habitantes. Ali viveu durante anos, numa situação muito
próxima da miséria e na mais completa obscuridade, talvez a maior ilustração do clero português da sua
época.
Era homem de uma grande austeridade de carácter, de uma viva e acrisolada fé religiosa e de uma
irrepreensível linha de conduta. Desprezando todo o fausto de ostentação, de um viver simples e modesto,
tudo o que lhe sobrava da sua parca sustentação era generosamente repartido pelos pobres. Tinha
excentricidades e maneiras muito suas de encarar as coisas e de apreciar os homens, que por vezes tocavam
as raias do ridículo, mas a que uma descativada simplicidade e uma ingenuidade sincera e despida de
artifícios tornavam sempre atraente e simpático.
Morreu em Lisboa a 28 de Fevereiro de 1898, tendo 78 anos de idade.
Monizia
Género da família das Umbeliferas, dedicado pelo naturalista inglês R. T. Lowe ao distinto
botânico madeirense João Maria Moniz. Foi publicado no vol. VIII, pág. 285, do
jornal Botânico de Hooker
,
e compreende uma única espécie–a Monizia edulis–achada em Junho de 1855 na Deserta Grande e
posteriormente nas Selvagens e no Curral das Freiras.
Monóculo (0).
Saíram nove números deste jornal, de 14 de Abril a 13 de Junho de 1889.
Montado do Barreiro
Vid.Barreiro (Montado do), I- 129.
Montalembert (Carlos Forbes de Tryon, conde de)
Este conhecido político e literato
francês, que foi um dos maiores oradores do seu tempo, esteve nesta ilha desde 26 de Janeiro a 4 de Março
de 1844, por motivo da saúde de sua esposa. Desembarcou no Funchal num dia de violento temporal, tendo
corrido grave risco a sua vida e a dos seus companheiros de viagem. Escreveu nesta cidade e publicou em
França uma extensa carta, que se tornou célebre dirigida à Sociedade Cambridge Camden.
Monte (Freguesia do)
V. Nossa Senhora do Monte (Freguesia de).
Monte Belo (Visconde de)
Faleceu no Funchal a 17 de Fevereiro de 1922.
V. Freitas da Silva (João de).
Monte Gordo e Boa Morte
Sítio povoado da freguesia da Ribeira Brava. Existiu ali uma capela
dedicada a Nossa Senhora da Boa Morte, que deu o nome ao lugar, construída por Francisco Fernandes e
Brásia Fernandes, em ano que se ignora.
Monte Medonho
Sítio da serra da freguesia de São Vicente onde tem origem a levada do Monte
Medonho, que irriga as freguesias da Ribeira Brava e da Tábua desde o ano de 1908, tendo anteriormente
fertilizado os terrenos da freguesia de São Vicente.
Monteiro
Este apelido de família provém, na Madeira, de Pedro Jorge Monteiro, que se estabeleceu no
Funchal em l763, onde veio desempenhar o oficio de administrador do tabaco. Era casado com D. Maria
Teresa de Gusmão.
Monteiro (Rua do)
É uma pequena rua que parte da rua da Cadeia Velha, em frente da embocadura
da rua dos Medinas, e termina na rua «31 de Janeiro», na margem esquerda da ribeira de Santa Luzia. É
quasi paralela à rua do Phelps. Ali residiram alguns membros da antiga família Monteiro, que deram o
nome à pequena rua.
Monteiro (Dr. João António)
Apenas sabemos de dois madeirenses que notavelmente se tivessem
distinguido na cultura das ciências naturais– José Vicente Barbosa du Bocage (vol. I, pag. 125) como
zoólogo e João António Monteiro como mineralogista – os quais nos deixaram varias obras, que abonam os
seus profundos conhecimentos nestes ramos do saber humano.
João António Monteiro, que vários autores estrangeiros chamam o sábio português, nasceu nesta cidade a
31 de Maio de 1769, sendo filho do rico negociante Pedro Jorge Monteiro e de D. Maria Teresa de Gusmão.
Recebeu no baptismo o nome de João António, em homenagem a seu padrinho João António de Sá Pereira,
então governador e capitão-general deste arquipélago, e que depois foi barão de Alverca.
São-nos completamente desconhecidas as circunstancias da sua vida até ao ano de 1791, em que recebeu na
Universidade de Coimbra o grau de doutor na faculdade de filosofia, sendo pouco depois ali admitido como
lente da cadeira de mineralogia. Tendo recebido o capelo em tão verdes anos e dando sempre em toda a sua
vida provas de um brilhantíssimo talento e do mais devotado amor ao trabalho, devemos acreditar que
houvesse sido um estudante distintíssimo desde os bancos das escolas primarias.
O Dr. João António Monteiro exerceu o magistério universitário com notável distinção, sendo o seu nome
colocado a par dos de José Bonifácio de Andrade e Silva e Manuel José Barjona, que, pela nova orientação
que deram ao ensino das ciências naturais e pela profundeza do seu saber, são considerados como
verdadeiros ornamentos do nosso primeiro estabelecimento de instrução.
Pouco tempo se demorou o Dr. Monteiro na carreira do magistério, desejoso de alargar no estrangeiro a
esfera dos seus conhecimentos, dedicando-se ali inteiramente a profundos estudos, que lhe granjearam uma
grande reputação em todos os centros científicos da Europa. Saiu do país em 1804, empreendendo uma
longa viagem cientifica por diversos países europeus, e não mais voltou a Portugal, por motivos que hoje de
todo se ignoram.
Por decreto de 11 de Maio de 1804, foi nomeado professor duma das cadeiras do laboratório químico de
Lisboa, há pouco criado, lugar que nos parece não chegou a exercer, e pouco depois comissionado pelo
nosso governo para fazer a viagem cientifica a que nos referimos, tendo-lhe a respectiva carta regia
garantido a antiguidade, ordenados e mais prerrogativas, como se estivesse na regência efectiva da sua
cadeira na Universidade.
Uma vez do estrangeiro, inteiramente se dedicou aos seus trabalhos científicos, de que são testemunho os
importantes escritos que deixou dispersos em muitas revistas e publicações, estrangeiras, que não chegaram
a ser reunidos em volumes, além de vários opúsculos avulsos.
Acerca do valor dos trabalhos do Dr. Monteiro e do seu merecimento cientifico, vamos transcrever alguns
períodos do que a seu respeito disse o Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho na sua Memoria histórica
da faculdade de philosophia da Universidade de Coimbra, publicada em 1872:
«Este sábio português honra a pátria pela vastidão dos seus conhecimentos, principalmente em
mineralogia. Principiando os seus trabalhos em Paris, onde publicou interessantes memorias, dirigiu-se
depois para a Alemanha a frequentar as lições do célebre Werner, em Freyberg. Aqui distinguiu-se por
importantes estudos scientificos em cristallographia e historia natural dos mineraes, a ponto de merecer
honrosas citações de celebres mineralogistas allemães e francezes.
«Hauy e Binet, em uma sessão da sociedade philomatica em Paris apresentaram um relatório muito
lisonjeiro acerca d'uma memória d'este illustre madeirense, a qual tinha por objecto a determinação directa
duma nova variedade da forma christalina do carbonato de cal e as notáveis propriedades que elle
manifesta.
«Hauy, no seu tratado de mineralogia e em muitas memórias, cita sempre com o maior louvor as
observações e os trabalhos do Dr. Monteiro. A memória sobre o «arsenico sulphurato vermelho» publicada
pelo eminente mineralogista francez nos Annaes do Museu de Historia Natural, é toda fundada em
comunicações do nosso sàbio compatriota.
A memória sobre muitas variedades novas do topasio, publicada pelo Dr. João Antonio Monteiro na
collecção da academia real das sciencias da Baviera, grangeou-lhe o diploma de sócio de tão ilustre
corporação scientifica.
«Schrauf, no seu tratado de mineralogia physica, Friedrich Mohs, nos seus princípios fundamentaes de
mineralogia, Haiduiger, no seu manual de mineralogia, e muitos outros dos mais respeitàveis e auctorisados
escriptores da Allemanha, alludem em termos honrosos aos trabalhos do Dr. Monteiro e do seu illustre
contemporâneo José Bonifacio d'Andrade e Silva».
Além dos trabalhos científicos que ficam citados, o
Diccionario Bibliographico
de Inocencio faz menção da
Memória sobre o fluato de cal do Vesuvio e duma tradução do celebre trabalho do Dr. Jenner sobre a
vacina, publicada em Lisboa em 1803, não contando com inúmeros escritos que deixou insertos nas
publicações privativas de muitas sociedades cientificas estrangeiras.
O Dr. João Antonio Monteiro, um dos mais ilustres filhos desta terra, morreu em Paris em 1834, contando
65 anos de idade.
Monteiro (José Maria)
(José Maria)
. – Foi o primeiro governador miguelista que administrou este arquipélago. A
sua nomeação é de 15 de Junho de 1828 e a 25 do mesmo mês apareceu no Funchal a fragata Príncipe Real,
que o conduzia, mas a cujo desembarque obstou o Governador e Capitão-General José Lúcio Travassos
Valdês. Como se verá no artigo Ocupação da Madeira pelas tropas Miguelistas, tomada esta ilha pelas forças
realistas, desembarcou José Maria Monteiro e tomou posse do seu cargo a 24 de Agosto de 1828.
Não foi longo o seu governo, mas ficou tristemente assinalado pelas prepotências que praticou e vexames
que fez sofrer aos habitantes do arquipélago. A ominosa alçada que no seu tempo veio a esta ilha e que era
presidida pelo desembargador Francisco António Maciel Monteiro, cometeu os maiores excessos e envolveu
na sua inquisitorial devassa centena de indivíduos, muitos dos quais foram presos e desterrados para fora
desta ilha, não sendo poucos os que seguiram para as nossas possessões ultramarinas. A emigração de
pessoas de todas as classes sociais que fugiram às perseguições foi muito avultada, principalmente para a
Inglaterra, Brasil e América do Norte. Foi exonerado um numero considerável de funcionários públicos,
sendo muitos presos e enviados para Lisboa.
(V. Alçadas).
José Maria Monteiro tornou-se celebre não só pelas perseguições que moveu aos liberais desta ilha, como
também pela sua falta de dignidade e de escrúpulos, tendo chegado em certa ocasião a apoderar-se de parte
do dinheiro destinado ao pagamento da tropa. Conta-se que nas visitas que fazia amiudadas vezes aos
domicílios dos malhados, acompanhado de quadrilheiros, se apoderava de tudo quanto via de algum valor,
distinguindo-se também nestas proezas dois filhos seus, a quem se atribuiu um grande roubo, praticado na
quinta do Palheiro, pertencente a João de Carvalhal.
José Maria Monteiro, que era capitão de mar e guerra e exercia um cargo palatino junto de D. Miguel, saiu
da Madeira em fins de Abril de 1830, jà depois de ter chegado o seu sucessor D. Álvaro da Costa de Sousa
Macedo. Para a sua biografia, veja-se o que dissemos a pág. 113 do vol. I e 95 do vol. II, quando falámos do
coronel José António de Azevedo Lemos e de Joaquim Melchior Gonçalves.
Monteiro (Dr. Luciano Afonso da Silva)
Este conhecido estadista e parlamentar foi deputado
por este arquipélago na sessão legislativa de 1895 a 1897.
Monteiro (Luís)
Nasceu no Funchal a 25 de Agosto de 1773, sendo filho de Pedro Jorge Monteiro e
de D. Maria Teresa de Gusmão e irmão do sábio mineralogista Dr. João António Monteiro
(V. este
nome).
Era comerciante de grosso trato em Lisboa, quando a 24 de Agosto de 1821 rebentou no Porto a revolução
que tinha por fim implantar no país o sistema representativo e que teve seu eco na capital a 15 de Setembro
do mesmo ano. Além da Junta Provisional do Porto, constituiu-se em Lisboa um governo provisório, que
teve curta duração e do qual fez parte Luís Monteiro, como representante do alto comercio lisbonense.
Falecido D. João VI, proclamou-se D. Pedro rei de Portugal e doou a Carta Constitucional, realizando-se em
seguida as eleições de deputados, sendo eleitos pela Madeira o Dr. Lourenço José Moniz, Manuel Caetano
Pimenta de Aguiar, o padre Caetano Alberto Soares e Luís Monteiro. Este ultimo pediu escusa do cargo para
que fora eleito, escusa que não foi aceita pela câmara, mas Luís Monteiro não tomou nunca assento no seio
da representação nacional.
Luís Monteiro desempenhou algumas comissões de serviço publico e em 1834 foi encarregado duma missão
junto da nossa legação em Londres.
Monteiro Teixeira (José António)
José António Monteiro Teixeira descendia duma antiga e
distinta família madeirense e nasceu no Funchal a 27 de Dezembro de 1795. Era filho do abastado
proprietário José António Teixeira e de sua esposa D. Ana dos Anjos Teixeira, que souberam dar-lhe uma
sólida e variada instrução, completada no decorrer dos anos pelo trato continuo com os livros, pelas longas
viagens e demorada permanência nos mais civilizados centros europeus e ainda pela íntima convivência que
manteve com alguns dos mais celebres escritores franceses seus contemporâneos.
Em 1808, apesar da incerteza dos tempos e do geral sobressalto dos espíritos, que as guerras peninsulares e
graves perturbações políticas levaram a toda a Europa, foi Monteiro Teixeira, com pouco mais de doze anos
de idade, mandado para um colégio da cidade de Pau, em França, que então gozava de reputação universal e
onde se encontravam alunos de vários países estrangeiros.
Ele mesmo nos conta, no seu vernaculíssimo francês, as lutas debatidas entre o mal entendido amor
paterno e os desejos veementes da mãe, mãe solicita e desvelada, que fazendo calar as ternuras do seu
coração maternal, queria acima de tudo dar a seus filhos a instrução que de modo algum podiam receber
nas escolas publicas ou particulares da capital da Madeira.
É interessante ouvir as suas próprias e eloquentes palavras, que a seguir traduzimos:
No entanto, mais apertado pela tenacidade desta abnegação maternal, meu pai deveria ceder. Mantendo-se
nos seus últimos redutos, quis tentar ainda um derradeiro esforço: vencer este coração de mãe pelo excesso
do seu próprio amor:–Queres, portanto, disse-lhe meu pai, um dia em que ela chorava pensando já nesta
separação, mandar os teus dois filhos para a França, para essa França que está em guerra com o mundo
inteiro (era em 1807), lança-los, como presa, a esse Napoleão que nada respeita nos seus transportes
tirânicos?! Pensa nas amarguras que a ti própria preparas, nas lágrimas que ainda terás que derramar!
Nunca mais os veras, tenho disso o pressentimento.
«A resposta não se fez esperar, e foi impetuosa: –Napoleão, disse ela, não é uma fera, e a inocência da
infância impõe respeito até às bestas mais ferozes. Por este lado, fico sossegada. E ainda que eu também
pressinta que não os verei mais (e dizendo isto o pranto de novo lhe orvalhava as faces), eu antes quero
nunca mais abraça-los, do que vê-los, là de cima, mal educados, sem instrução, viciosos e vadios, como a
maior parte dos filhos dos teus amigos, que os desonram pela sua ignorância e ma conduta. O coração duma
verdadeira mãe sabe sacrificar-se ao bem-estar dos filhos. Eu quero para José e para António uma educação
liberal e as lições da escola do mundo num país ilustrado como é a França.
«E partimos.
«O coração desta mãe ia ser submetido a rudes provas! ... Nada de noticias a nosso respeito! Apenas
conseguiram saber que tínhamos chegado a França.
«A guerra, cada vez mais encarniçada, tinha cortado todos os meios de comunicação com esta ilha.»
Desde a sua partida, dois longos anos se passaram sem que os dedicados pais tivessem noticias de seus
filhos, em virtude da grande agitação que lavrava em toda a Europa, ocasionada pelas guerras napoleónicas.
As invasões francesas em território português e a permanente hostilidade da França para com Portugal,
mais difíceis tornavam ainda as comunicações entre os dois países. É fácil avaliar as angústias sofridas por
aqueles corações de pais extremíssimos, a quem a morte havia arrebatado os outros filhos em plena
fluorescência da vida.
Foi nesse afamado colégio, onde permaneceu até 1814, que nele se despertou o gosto pelo estudo da língua
francesa, que chegou a conhecer profundamente, a ponto de a escrever com a máxima correcção e elegância,
segundo a própria afirmação de alguns notáveis escritores franceses. Foi também ali que bem cedo se
revelou nele o estro poético e ainda a sua acentuada tendência para a sátira, que mais tarde o tornava um
dos mais distintos discípulos de Juvenal e Tolentino.
Concluído o curso do colégio, demorou-se alguns anos em Paris, entregue a diversos estudos históricos e à
leitura dos clássicos franceses, cultivando ao mesmo tempo com aprimorado gosto as suas predilecções
literárias e de modo especial a poesia, em que predominavam a sátira e o epigrama. Nas demoradas visitas
que fazia à capital da França, travou relações de amizade com alguns dos mais ilustres literatos da época,
que apreciavam em extremo os primores inexcedíveis do seu trato e a impecável perfeição com que falava e
escrevia a língua francesa. Chateaubriand, que era homem orgulhoso e pouco acessível, Béranger, Méry e
especialmente Barthélemy, tiveram pelo nosso ilustre conterrâneo uma devotada admiração e a mais subida
estima, mantendo, sobretudo o ultimo, a mais íntima convivência com ele, durante longos anos. Também
em Londres, onde ia frequentes vezes, se relacionou de perto com alguns dos homens mais notáveis do
tempo, que igualmente tinham por Monteiro Teixeira a consideração devida às altas qualidades do seu
privilegiado espírito e à sua não vulgar ilustração. Tornaram-se muito conhecidas as relações de estreita
amizade que entreteve com o nosso grande poeta Castilho, que em muitos lugares da sua vastíssima obra se
refere a J. A. Monteiro Teixeira, não só com enternecido carinho mas ainda com a maior admiração pelos
dotes da sua inteligência culta e incontestáveis méritos como poeta e literato. O nosso sábio compatriota e
grande jurisconsulto Silvestre Pinheiro Ferreira e o distinto literato e publicista José Liberato Freire de
Carvalho, e muitos outros, foram também da intimidade de Monteiro Teixeira; e se homens desta
envergadura intelectual, tanto nacionais como estrangeiros, e ainda outros da mais alta categoria social
assim distinguiam o nosso ilustre patrício, e num tempo em que a aristocracia do sangue e do talento não
procurava nivelar-se com as mediocridades enfatuadas, podemos bem aquilatar dos méritos daquele a
quem eram dirigidas tais demonstrações de apreço, de estima e de admiração.
Monteiro Teixeira, depois de 14 anos de ausência nos principais centros europeus, regressou à terra natal,
entregando-se ao cultivo das letras e ao exercício das funções de cônsul de França nesta ilha. Recusou
sistematicamente todas as honrarias com que pretenderam distingui-lo, incluindo uma cadeira no
parlamento e apenas, para condescender com alguns amigos, aceitou o cargo de vereador da Câmara
Municipal do Funchal, numa época em que para semelhantes lugares só eram chamados homens de
comprovado valor ou de elevada cotação social.
Como representante da França, prestou àquele país serviços de tal maneira assinalados, que o governo
francês pretendeu por vezes agracia-lo com várias mercês e entre elas a Legião de Honra, que ele recusou
sempre aceitar, com o pretexto de que também as não aceitara do governo do seu país. Quando em 1840
passou na Madeira a fragata La Belle Poule, trazendo a seu bordo a missão francesa encarregada de
conduzir a França os restos mortais de Napoleão, que desde 1821 estavam sepultados em Santa Helena,
Monteiro Teixeira, cumulou de requintadas finezas e das mais cativantes amabilidades os membros dessa
missão, que tinha por chefe o príncipe de Joinville e da qual fazia parte o grande general Bertrand, o mais
fiel e dedicado amigo de Bonaparte, a quem acompanhou em todas as batalhas e seguiu até o exílio,
assistindo-lhe até aos derradeiros momentos. Querendo o governo francês dar ao nosso biografado uma
prova do seu reconhecimento pelos serviços prestados e do alto apreço em que tinha as suas qualidades
pessoais, mandou cunhar uma medalha de ouro especial, com que o agraciou, visto a sua formal recusa em
aceitar quaisquer condecorações ou mercês honorificas como atrás ficou dito.
Resta referir-nos a Monteiro Teixeira como poeta, o que faremos em breves palavras para não dar a este
artigo uma demasiada extensão. Cultivou especialmente o género epigramático, e nos volumes de poesia
escritos em língua portuguesa, quasi que não se encontram composições estranhas a esse género. Foi um
distinto discípulo de Nicolau Tolentino e muitos dos seus versos rivalizam com as melhores composições do
mestre. Estamos convencidos de que se houvera publicado os seus livros noutro meio que não a Madeira,
teria adquirido grande nomeada como poeta satírico e o seu nome não ficaria sepultado no quasi completo
esquecimento em que jaz.
Julgam alguns, e parece ser essa a própria opinião de Monteiro Teixeira, que as suas poesias escritas em
língua francesa são superiores no pensamento e na forma às que ele escreveu em vernáculo. Nelas se
encontram composições de diversos géneros e merecem especial menção algumas odes e epistolas, que
parece terem atingido uma notável perfeição, tanto na técnica métrica como na beleza dos conceitos.
Quanto à correcção da linguagem, a opinião autorizada de distintos escritores parisienses é que Monteiro
Teixeira escrevia num francês castiço e de uma rara elegância, que dificilmente poderia ser excedida e
mesmo atingida por um estrangeiro.
Em 1848 e 1849, publicou Monteiro Teixeira os dois volumes das
Obras Poeticas
, em 1861, o volume
Oeuvres Poétiques
, e, em 1871, o
Nouveau Récueil de poésies en français
, tendo também publicado alguns
opúsculos de versos. Havendo escrito um numero tão avultado de poesias, não nos consta que tivesse
deixado quaisquer composições em prosa, além dos preâmbulos dos seus livros.
Aí morreu no Funchal a 31 de Maio de 1876, contando 80 anos de idade.
Montepio
Assim se denominava um estabelecimento destinado a receber viúvas pobres e respeitáveis,
criado por João de Carvalhal em 1825 ou 1826. As casas do Monte Pio ficavam na parte oriental da rua dos
Netos.
Montepio Madeirense
Foi fundado em 1900 e os seus primeiros estatutos obtiveram aprovação
em 23 de Janeiro do mesmo ano. Rege-se hoje por estatutos aprovados por alvará de 17 de Janeiro de 1917,
tendo tido antes outros, aprovados por alvará de 31 de Maio de 1913.
Só podem ser sócios do montepio os indivíduos de 16 aos 55 anos, de bom comportamento moral e civil,
sendo-lhes permitido subscrever com o capital de 50 a 400 escudos.
O Montepio Madeirense tinha 1134 sócios em Outubro de 1921 e desde 1915 que possui o prédio em que se
acha instalado.
Montepio Marítimo Funchalense
Fundou-se por iniciativa dum empregado da Empresa
dos Cabrestantes do Funchal e tem estatutos aprovados por alvará de 24 de Dezembro de 1901. Os seus fins
principais são: socorrer os sócios em caso de doença temporária, promover a defesa dos associados quando
pronunciados em juízo e fazer os funerais aos sócios que falecerem. Podem dele fazer parte os indivíduos do
sexo masculino, empregados na vida marítima, que tenham mais de 12 anos e menos de 60, de bom
comportamento moral e civil.
Os socorros médicos são também facultados aos parentes próximos do sócio, quando vivam em companhia
dele.
Montluc (Pedro Beltrão de)
Comandante dos corsários que saquearam a cidade do Funchal no
ano de 1566 e que aqui faleceu em virtude duma ferida que recebeu num joelho.
V.
Saque dos Franceses.
Monumentos
Dos poucos monumentos públicos que existem entre nós, damos em seguida uma
resumida noticia.
Monumento à Constituição de 1821
– Este monumento, de que já falamos com alguma largueza
(I-302), nunca passou dos alicerces e foi demolido no dia 1 de Setembro de 1823, lavrando-se por essa
ocasião um auto donde consta terem sido achados nos alicerces da obra uma garrafa que continha sete
números do Patriota Funchalense, um manuscrito em que se fazia a historia do monumento e uma caixa de
pedra tendo dentro uma de prata, onde estava o auto descrevendo a cerimónia do lançamento da primeira
pedra do mesmo monumento e uma bolsa azul e branca, contendo algumas moedas de prata e uma medalha
do mesmo metal.
Monumento a Câmara Pestana
– No Jardim do Manicómio, em S. Gonçalo, vê-se sobre uma
coluna de mármore, o busto em bronze do distinto bacteriologista e grande mártir da ciência Luís da
Câmara Pestana, ao qual já nos referimos a pág. 332 deste volume. A erecção deste busto realizou-se em
1906.
A 15 de Novembro de 1913, os médicos do Funchal fizeram colocar na casa onde nasceu o Dr. Câmara
Pestana uma lapide comemorativa desse facto e à rua foi dado o nome do ilustre bacteriologista. (Vid. I-
219).
Monumento comemorativo do Bombardeamento do Funchal
– A pág. 71 e 160 do volume
I, demos já uma breve noticia acerca desse pequeno monumento erigido no antigo cemitério das Angústias.
Monumento ao Conde de Canavial
– já ficou referida (I-233) a homenagem prestada a este ilustre
madeirense.
Monumento aos Aviadore
s
– No Jardim Municipal, se lançou em 28 de Março de 1921 a primeira
pedra do monumento destinado a comemorar a travessia aérea de Lisboa ao Funchal, realizada pelos
ilustres aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral. A inauguração solene realizou-se a 11 de Maio do ano
de 1921. Vid.
Jardim Municipal
(II-182).
Monumento a João Fernandes Vieira
– Por iniciativa do Dr. Abel Capitolino Baptista, levantou-
se na antiga Praça da Constituição, hoje Avenida Arriaga, um modesto monumento a este ilustre
madeirense, realizando-se a sua inauguração no dia 11 de Maio de 1924. Passados nove anos, fez a mudança
desse busto e respectivo plinto para o Jardim Municipal, onde actualmente se encontra.
Monumento a Nossa Senhora da Paz
– A 1 de Novembro de 1923, se lançou a primeira pedra do
grandioso monumento erigido no Terreiro da Luta, à freguesia do Monte, em honra da Santíssima Virgem
sob a invocação de Nossa Senhora da Paz, que consta de uma primorosa imagem em mármore, assentada
em um plinto ladeado por artísticos baixos-relevos fundidos em bronze e alusivos à tradicional crença do
aparecimento da Virgem Santíssima naquele mesmo local. Anexo ao monumento, ergue-se uma pequena e
elegante ermida, em que frequentemente se celebra o santo sacrifício da missa e outros actos do culto. A
erecção deste monumento deve-se ao acendrado zelo e aturados esforços do padre José Marques Jardim,
que não se poupou aos maiores sacrifícios para que ele revestisse a imponência e o aspecto de grandeza que
o caracterizam, indo até o estrangeiro angariar donativos para conseguir a realização desta obra. A
inauguração solene, que revestiu o maior aparato e a que acorreram milhares de pessoas vindas de todos os
pontos da ilha, realizou-se sob a presidência do prelado diocesano a 14 de Agosto do ano de 1927.
Monumento ao Sagrado Coração de Jesus
– O conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos fez
levantar na Ponta do Garajau em uma pequena eminência sobranceira ao mar e no extremo-oeste das suas
terras da freguesia do Caniço, um monumento em louvor do Sagrado Coração de Jesus, que é uma bela e
majestosa estatua a atestar a religiosa piedade desse ilustre madeirense, membro de uma das mais antigas e
nobres famílias desta ilha. A inauguração e bênção da sagrada imagem revestiu a maior solenidade e
realizou-se no dia 30 de Outubro de 1927.
Monumento a João Gonçalves Zargo
– há muito que deveria ter sido prestada uma homenagem
ao primeiro capitão-donatario do Funchal, perpetuando-se condignamente entre nós a sua veneranda
memória. Embora não se possa hoje afirmar, como tantas vezes se tem feito, que ele houvesse sido o
descobridor do arquipélago, forçoso se torna reconhecer que ele foi o mais autorizado e fecundo
impulsionador da primitiva colonização madeirense, à qual ficou indissoluvelmente ligado o seu nome
prestigioso. Ergue-se o seu monumento na Avenida Arriaga, representado por uma majestosa estatua
fundida em bronze, da autoria do distinto escultor madeirense Francisco Franco, tendo-se realizado a sua
solene inauguração no dia 28 de Maio de 1934.
Monumento aos mortos da Grande Guerra
– A 11 de Novembro de 1935, na Praça do Marquês
de Pombal, lançou-se a primeira pedra de um pequeno monumento aos mortos da Grande Guerra.
Monumento ao Doutor Teles
– A 14 de Maio de 1939, inaugurou-se nos jardins do Asilo de
Mendicidade e Orfãos, com grande solenidade, um modesto mas significativo e bem merecido monumento
levantado à memória do Dr. Alexandre da Cunha Teles, que àquela casa de caridade e a vários serviços de
assistência dispensara os mais apreciáveis benefícios com o seu acrisolado zelo, natural desinteresse e uma
dedicação sem limites.
Vid.
Padrões demoráveis.
Monumentos Nacionais
– A Sé Catedral do Funchal era o único edifício considerado como
monumento nacional, apesar de haver outros edifícios que deveriam ser incluídos nesse numero. No
«Diario do Governo» de 24 de Setembro de 1940 e de 18 de Agosto de 1943, foram publicadas as relações
completas dos edifícios classificados como monumentos nacionais e como «imóveis de interesse publico»
existentes em todo o nosso pais. Com respeito a este distrito, ficaram considerados como monumentos
nacionais, além da Sé Catedral, o Palácio de S. Lourenço, Igreja e dependências do mosteiro de Santa Clara,
igreja de São Evangelista (Colégio) e Casa da Alfândega.
Como «imóveis de interesse publico» contam-se os seguintes edifícios:
Casas de Dona Mecia, dos Cônsules, dos Ornelas e Paço Episcopal e capela anexa, Capelas da Incarnação,
São Paulo, Nazaré e do Espírito Santo, e fortes de São João Baptista, Ilhéu e São Tiago, todos na cidade do
Funchal, Capela dos Reis Magos na freguesia do Estreito da Calheta, Igreja Paroquial, Capela dos Milagres e
de São Roque e fortes de Santo Amaro e de São João na freguesia de Machico, Igrejas Paroquiais das
freguesias da Ponta do Sol, Ribeira Brava e Santa Cruz e Capela da Madre de Deus na freguesia do Caniço.
Foram também considerados de interesse publico as seguintes obras de arte:
Pia baptismal do século XVI, em estilo mudéjar, existente na igreja de Ponta do Sol.
Escultura em madeira representando a Adoração dos Reis Magos, com treze figuras em alto relevo, século
XVI, existente na capela dos Reis Magos, no Estreito da Calheta.
Janela da Casa de Colombo, que se conserva num Jardim particular da cidade do Funchal, obra manuelina
recolhida quando a Câmara Municipal mandou demolir a propriedade do flamengo João Esmeraldo, onde
se diz ter habitado Colombo.
Pinturas sobre madeira:
Painel de Santiago, colocado no altar-mor da igreja do Socorro, do Funchal.
Tríptico da sacristia da mesma igreja.
Painel dos Apóstolos, da mesma sacristia, que se encontra colocado por debaixo do tríptico.
Três painéis (S. Paulo, S. Pedro e Santo André) que se conservam na sacristia da igreja de S. Pedro, do
Funchal.
Três painéis (Anunciação, Natividade, Santa Ana e S. Joaquim) da igreja nova de S. Martinho, do Funchal
(colocados numa capela do lado da epístola).
Painel (emblema de Cristo) da capela particular da Nossa Senhora da Consolação do Funchal.
Tríptico (Descida da Cruz) da igreja da Ribeira Brava, na parede lateral esquerda da capela-mor.
Painel (Adoração dos Magos) na parede lateral esquerda do corpo da mesma igreja.
Painel de Nossa Senhora do Amparo no altar do mesmo nome da Sé do Funchal.
Moquet
Viajante, provavelmente inglês, que visitou a Madeira em 1601. Escreveu sobre esta ilha um
trabalho que não vimos e cujo título nos é desconhecido.
Moradias de Zargo
Não é certamente essencial para a historia da Madeira a determinação segura
dos lugares em que João Gonçalves Zargo levantou as suas casas de moradia, e nem isso constitui um ponto
capital de investigação para a biografia do ilustre navegador e colonizador do nosso arquipélago. Não deixa,
no entretanto, de oferecer algum interesse o conhecer-se com inteira exactidão os sítios em que estabeleceu
residência e onde decorreram as três ou quatro dezenas de anos da sua longa permanência nesta ilha. Esses
lugares devem merecer aos poderes públicos, e especialmente às corporações administrativas que têm a sua
sede no Funchal, o respeito e a veneração que por toda a parte se costumam sempre tributar aos objectos e
às cousas que se acham intimamente ligados à vida dos homens ilustres. Determinar com absoluta precisão
os edifícios e os recintos que muito de perto se prendem com a sua existência é despertar nos madeirenses a
veneração devida à sua memória e estimular as generosas iniciativas, que tenham por fim perpetuar
condignamente, entre nós, essa mesma gloriosa e inolvidável memória.
Refere o historiador das ilhas: «. . . o capitão João Gonçalves Zargo... abrigando os navios aos ilhéus que no
cabo deste logar estão, por haver ali huma fermosa enseada, determinou de fazer em terra sua morada de
madeira, a qual logo fez pegada com o mar em um logar alto, onde depois a capitoa Constança Rodrigues
fundou uma igreja de Santa Catharina.» Foi este o primeiro assentamento de Zargo, e foi também o
primeiro templo erigido na Madeira a capela mandada construir pela mulher do navegador. A pequena e
primitiva ermida sofreu vàrias reconstruções e repairos no decorrer dos séculos, sendo a capela actual uma
construção dos meados ou fins do século XVII. É no entretanto o único edifício que, no Funchal,
verdadeiramente recorda o facto da descoberta. Como tal deverà ser religiosamente conservado. Na sua
pequenez, na sua modéstia e na sua pobreza, comemora o inicio das nossas brilhantes descobertas
marítimas, e para os madeirenses representa, além do descobrimento, o começo do povoamento e
colonização deste arquipélago. A capela conserva no limiar do pórtico a data de 1425, que representa o ano
da primitiva construção. Foi junto deste pequeno templo que João Goncalves Zargo teve durante alguns
anos a sua primeira morada, construída talvez dos ricos e odoríferos cedros que em matas cerradas
abundavam por toda a parte. Seria sem duvida uma mais que modesta e desconfortável habitação, edificada
num só pavimento e despida de todo o aparato arquitectónico, como o foram todas as primitivas habitações,
que entre nós se construíram. Lê-se algures que só mais tarde é que um indivíduo, por nome João Manuel,
levantou no Campo do Duque a primeira casa sobradada e construída de madeira de cedro lavrado, o que na
época causou uma não pequena admiração.
Do solitário retiro de Santa Catarina, pois que o primitivo e mais denso núcleo de população, com as suas
correlativas habitações, se formou na margem esquerda da ribeira mais oriental do Funchal, dirigiu Zarco
os trabalhos iniciais de colonização e lançou os fundamentos da futura vila, que rapidamente progrediu e
ainda em sua vida atingiu um extraordinário desenvolvimento. Sonharia ali com o progresso da capitania,
de que era donatário, e com o engrandecimento da casa que fundara, entrevendo num futuro próximo as
honras e os privilégios de que seriam cumulados os seus descendentes e sucessores. Teria talvez adivinhado
que o monarca o galardoaria com os timbres da nobreza e com o uso dum brazão de armas, vendo já os
pergaminhos dos seus netos esmaltados com a coroa de conde e de grandes do reino, como homenagem
tributada aos serviços prestados pelo avô. . .
Alguns anos depois, transferiu Zargo a sua residência para a margem esquerda da ribeira, no sopé do morro
que teve mais tarde o nome de Pico dos Frias e próximo da capela que ali edificara com a invocação de São
Paulo Afirma-se que foi esta a primeira casa de moradia construída de pedra, que se levantou no Funchal.
Nestas proximidades se erigiu o primeiro hospital, sobre terreno doado por Gonçalves Zargo no ano de
1454, e que ali funcionou durante alguns anos, até à sua mudança para a margem esquerda da ribeira de
João Gomes.
Não parece ter sido muito longa a permanência de João Gonçalves Zargo nas suas duas primitivas
moradias. O seu definitivo assentamento, onde passou a maior parte da sua existencia, foi nas próximas
imediações do local em que erigiu a igreja da Conceição de Cima. Diz um antigo manuscrito: «determinou
também fazer morada para si como fez em um alto que está sobre o vale do Funchal: logo defronte uma
igreja de Nossa Senhora da Conceição para seu jazigo e dos seus, a qual começaram a chamar Nossa
Senhora de Cima, por estar fundada em um toco de rocha ao pé de um pico». É neste templo, que depois
tomou o nome da igreja de Santa Clara, onde jazem os despojos mortais do ilustre navegador, e foi
certamente nas casas de moradia que edificou naquelas proximidades que ele terminou a sua carreira
mortal. Lê-se no já citado manuscrito:–«chegou a tanta velhice o grande Gonçalves Zargo, que em colos de
homens se fazia levar a pôr ao sol, com que muito se corroborava. De ali dispunha as coisas da sua
jurisdição, governando e administrando justiça com o seu entendimento inteiro, em que não experimentou
nunca a imbecilidade de homem decrépito».
A' vista de vários documentos que examinámos detidamente, chegámos pela primeira vez a averiguar que a
velha residência de Gonçalves Zargo corresponde à antiga casa solarenga dos morgados Lomelinos, que hoje
conserva o nome de Quinta das Cruzes, embora com o decorrer dos séculos tenha sofrido tão profundas
modificações que, presentemente, não restará ali cousa alguma da primitiva construção.
Parece que esta antiga e nobre moradia se conservou na posse dos seus descendentes, sendo certo que um
século depois da sua morte, pertencia a seu neto Pedro Gonçalves da Câmara, casado com D. Joana de Eça,
camareira-mor da rainha D. Catarina, estando em 1575 no usufruto e posse de um neto destes, também
chamado Pedro Gonçalves da Câmara, o qual por escritura publica de 16 de Setembro daquele ano, a
vendeu ao seu próximo parente Francisco Gonçalves da Câmara, neto de João Gonçalves Zargo. Era este
Francisco Gonçalves da Câmara, que governava a capitania do Funchal, na ausência de seu sobrinho João
Gonçalves da Câmara, sexto donatário, quando em 1566 foi esta cidade assaltada pelos corsários franceses,
que aqui deram um terrível saque e massacraram cerca de trezentas pessoas. Gaspar Frutuoso dizia em
1590 que Gonçalves da Câmara residiu nas imediações do convento de Santa Cruz «em uns paços grandes e
sumptuosos».
Esta vivenda passou à posse de uma filha de Francisco Gonçalves da Câmara, por nome D. Joana de
Noronha, e depois ao filho desta António de Carvalhal Esmeraldo, que a possuía no ano de 1624. Nos fins do
século XVII, pertencia a Francisco Esmeraldo Henriques, que ali fundou a capela de Nossa Senhora da
Piedade. Conserva no alto do pórtico a data de 1692, mas é de 1695 o ano da escritura de doação e nele é que
se iniciou ali o exercício do culto religioso. Nesta capela se encontra um carneiro de mármore, que se afirma
encerrar os despojos mortais de Urbano Lomelino, fundador do convento que ali existiu na vila de Santa
Cruz e um dos troncos da família Lomelino nesta ilha. Na instituição vincular deste importante morgadio se
incorporou, provavelmente por ligação matrimonial, a vivenda das Cruzes, em ano que não podemos
determinar, e nesta família se conservou até os nossos dias, passando hà poucos anos a ser propriedade dos
barões do Jardim do Mar.
É ocasião bem azada de fazermos uma especial referência ao montante de João Gonçalves Zargo, que
sempre se conservou nesta casa e que uma tradição constante, transmitida de geração em geração no seio
da família que o possuía, faz indubitavelmente pertencer ao ilustre colonizador. Como tal foi sempre
considerado, e a profunda veneração que ali se tributou em todo o tempo àquela relíquia, mais confirma
ainda a verdade da sua origem. É uma arma antiga, destinada a ser brandida com ambas as mãos e que não
prima pelo esmerado do fabrico. Não tem, por certo, valor intrínseco ou artístico, mas vale muito pelos seus
quinhentos e tantos anos de existência e mais que tudo por ter pertencido ao grande navegador que
colonizou este arquipélago. É talvez a espada que Gonçalves Zargo empunhou em Marrocos, nas suas
arremetidas contra os mouros, conquistando a fama de valente e arrojado cavaleiro. Essa relíquia
veneranda encontra-se nesta cidade nas mãos dum estrangeiro, que a conserva com o apreço que ela
verdadeiramente merece. Deveria no entanto estar na posse da Câmara Municipal desta cidade. A esta
corporação administrativa cumpre promover a sua aquisição e guarda-la religiosamente nos seus arquivos,
até que possa condignamente figurar no museu de arte e antiguidades que um dia se há-de forçosamente
fundar nesta cidade (1921).
O montante atribuído a João Gonçalves Zargo encontra-se hoje no Museu Municipal.
Morais
Este apelido de família procede de João de Morais, um dos primeiros povoadores da Madeira e
que viveu em Machico, em cujos campos teve sesmaria. Seu filho primogénito, Sebastião de Morais, o
Velho, justificou sua nobreza em 1508, segundo afirma o anotador das Saudades.
Morais (Padre Luís de)
Barbosa Machado diz que o Padre Luís de Morais, jesuíta, era natural desta
ilha e que faleceu no ano de 1622. Escreveua Pregaçam da Beatificação de São Francisco Xavier , que vem
inserta naRelação das Festas , publicada em 1621.
Morais (D. Sebastião de)
A primitiva colonização portuguesa, nas terras descobertas ou ocupadas
pela conquista andava a par da evangelização dos missionários católicos, que tanto contribuíram para a
consolidação do nosso domínio colonial e para o alargamento da nossa esfera de acção em países infiéis.
Tornou-se desde logo imperiosa a necessidade da criação de algumas dioceses nas terras longínquas do
oriente, e uma delas, nos confins do mundo, foi estabelecida no Japão, país que no século XVI, era apenas
conhecido na Europa através do mistério, da lenda e do terror.
O primeiro bispo nomeado para a nova diocese foi o madeirense Sebastião de Morais. Nascera no Funchal
em 1534 e entrando em 1550 no instituto da Companhia de Jesus, aí se distinguiu pelos seus talentos e
exemplar conduta, tendo exercido na sua ordem os mais elevados cargos, como o de provincial de Portugal e
visitador das províncias de Roma e de Milão.
Foi encarregado de acompanhar à Itália a princesa D. Maria, neta de D. Manuel, e neste país ocupou lugares
importantes por indicação do papa e do geral da sua ordem. A 19 de Fevereiro de 1587, foi por Sisto V
confirmado bispo de Funay, sede da primeira diocese criada no Japão, cargo que não chegou a
desempenhar, por ter morrido em Moçambique a 19 de Agosto de 1588, quando ia em viagem para o seu
bispado.
Escreveu a obra Vita e morte della Serenissima Maria di Portogallo Principessa di Parma e Piacensia,
publicada em 1578 em Bolonha e de que depois se fizeram edições em Roma e Madrid. Também publicou
um volume sobre questões teologicas.
Morangueiro (Fragaria vesca)
Rosacea espontânea e cultivada na Madeira. Os morangos
produzidos nas hortas são grandes e muito estimados; os das montanhas são pequenos mas saborosos. Os
rizomas estolhosos do morangueiro são usados em infusão contra icterícia.
Morávia (Valentim de)
Vid.
Fernandes (Valentim) (II-16).
Morcegos
Mamíferos da ordem dos quirópteros, de que se conhecem duas espécies no arquipélago: o
Vesperugo madeirensis
, da Madeira e Canárias, e o
V. maurus
, espécie europeia. Os morcegos são animais
insectivoros e que só aparecem durante a noite, passando os dias escondidos em lugares escuros, suspensos
pelos membros posteriores.
O
Vesperugo maurus
é animal maior e mais robusto que o
M. madeirensis
, como se vê dos exemplares que
existem no Museu do Seminàrio.
Moreão
São conhecidas por este nome a Muraena unicolor e oCynaphobranchus pinnatus . O segundo
destes peixes é o moreão de fundura, ou de natura, dos pescadores madeirenses.
Moreias
Peixes da família Murenida. Conhecem-se na Madeira a Muraena helena (moreia pintada),
manchada de amarelo, aM. anatina (moreia serpente), também com manchas amarelas, e aM. augusti
(moreia preta). A primeira destas espécies vive nos baixos fundos; a segunda e a terceira, junto da costa.
Morena (Porto ou Portinho da)
Pequeno porto a su-sudoeste da ilha do Porto Santo.
Moreno
Sítio povoado e pitoresco da freguesia de Santa Cruz, onde se encontra uma capela da
invocação de Nossa Senhora dos Remédios, fundada no ano de 1690 pelo cónego Manuel Ferreira Teixeira,
incorporada no morgadio dos Barretos, de Santa Cruz, e de que hoje é proprietário o Dr. Remigio Barreto.
Este sítio também é conhecido pelo nome de Vale do Moreno.
Morgado Esmeraldo (Estrada do)
Comunica a igreja de S. Martinho com o sítio do Pilar.
Pertencia ao morgadio Esmeraldo a quinta que fica na extremidade norte da estrada que tem o seu nome.
Morgados
V. Instituições Vinculares Capelas.
Moscas
São conhecidas por esta designação varias espécies de dípteros, a mais comum das quais é a
Musca domestica, insecto importuno que vive principalmente nas habitações e suas proximidades, mas que,
quando no estado de larva, se encontra nos monturos e em todos os lugares onde existem estrumes. A
mosca varejeira (Calliphora erythrocephala) também é comum, e as moscas verdes (Lucilia Caesar e L.
sericata) aparecem nas árvores, nos dejectos dos homens e animais etc.. É uma mosca do género
Hypoderma que, depondo os ovos sob a pele do gado bovino, provoca pelas suas larvas os tumores que
aparecem com uma certa frequência no mesmo gado, sendo as referidas larvas conhecidas na Madeira e
Porto Santo pela denominação de berros.
Mosquitos
Insectos da ordem dos dípteros, alguns deles muito abundantes. O mosquito que parece
ser mais comum na Madeira é o Culex longiareolatus que vive nas proximidades dos poços e tanques, onde
se criam as suas larvas. Frequenta às vezes os quartos de dormir, sendo o seu zumbido bastante incómodo.
O
Culex pipiens
tem sido assinalado no Porto Santo, mas não na Madeira.
A picada do
Culex longiareolatus
produz comichões e, às vezes, edema passageiro.
Mostarda
Duas cruciferas são conhecidas por este nome na Madeira: a
Brassica Sinapistrum
e a
B.
nigra
. É esta ultima espécie que produz as sementes com cuja farinha se preparam os sinapismos. A B.
nigra tem síliquas com as valvas I - nérveas: a B. Sinapistrum tem-nas com as valvas 3-5 nérveas. Ambas
estas espécies são espontâneas e frequentes na Madeira. A mostarda usada como condimento, é fornecida
principalmente pela Sinapis alba espécie muito rara na Madeira.
Mosteiro Novo
É o edifício do actual Seminàrio Diocesano. (1921). Diz o anotador das Saudades que
foi uma tentativa do padre Manuel Afonso Rocha e principiado por 1654, destinando-se a freiras, mas que
nunca chegou a ser concluído. Em um antigo manuscrito encontrámos mais algumas detalhadas referências
a esse projectado mosteiro, que vamos reproduzir.
A 17 de Dezembro de 1638, o cónego Manuel Afonso Rocha, encontrando-se retido no leito por doença
grave, chamou à sua presença um tabelião e solicitou também a comparência do prelado diocesano D.
Jerónimo Fernando, declarando que tinha dado começo a um mosteiro, composto de casas, oficinas, igreja e
coro, sob a invocação de S. José, destinado a religiosos ou religiosas, sob a cláusula da celebração de
algumas missas e ofícios, mas que não o tendo ainda concluído, entregava o seu governo e administração à
protecção do mesmo prelado e seus sucessores, pedindo-lhes somente o aplicassem ao dito fim ou a um
recolhimento para damas ou mulheres de qualidade, e que se isso não fosse possível, se desse o mosteiro
com sua igreja e casas a religiosos virtuosos mendicantes ou outros que ali fizessem mais serviço a Deus. O
pedido e as condições formuladas pelo cónego Rocha foram aceitos, mas escasseando as rendas, nunca se
deu ao edifício a aplicação que lhe destinara o seu instituído. Também julgamos que as obras projectadas
não chegaram a ser concluídas, pois nos parece que nunca ali existiu uma igreja e seu coro, mas apenas uma
pequena capela no interior da casa. Em 1647, autorizou o prelado diocesano que os sobrinhos do fundador,
o cónego António Espranger Rocha, seu irmão o padre Inacio Espranger e umas irmãs destes habitassem no
edifício, tendo depois da morte deles ocupado a casa um seu sobrinho, o cónego António Espranger, que
faleceu em 1691.
Alguns anos depois, por 1697, foi ali instalado o Seminário Diocesano, que até então funcionava junto do
Paço Episcopal. O terramoto de 1748, deixou muito danificada a casa do Mosteiro Novo, que teve de ser
abandonada, voltando a servir de Seminário, depois de convenientemente reparada, pelos anos de 1760. No
ano de 1788, foi o Seminário Diocesano transferido para o colégio dos Jesuítas, e dali regressou novamente
ao Mosteiro Novo em 1801, quando a Madeira foi ocupada pelas tropas inglesas. Ali permaneceu até o ano
de 1909, em que foi instalado no amplo edifício levantado na cerca do convento da Incarnação. Foi
suprimido o Seminário desta diocese pelo decreto de 20 de abril de 1911, mas continuou a funcionar, sem
carácter oficial, desde aquele ano, na antiga casa da rua do Mosteiro Novo. (1921).
V. Seminário Diocesano.
Mota Freitas (Carlos Elói)
Nasceu nesta cidade a 1 de Dezembro de 1894, tendo concluído o curso
da Escola Naval no ano de 1917. Fazia parte, como aspirante de marinha, da guarnição do caça-minas
Augusto Castilho, que comboiava o vapor São Miguel, em viagem da Madeira para os Açores, quando o
caça-minas foi traiçoeiramente atacado e metido a pique por um submarino alemão, no dia 14 de Outubro
de 1918, morrendo, entre outros, o seu bravo comandante e o nosso patrício Mota Freitas. A heróica
resistência do Augusto de Castilho pôs o vapor São Miguel ao abrigo da investida do submarino alemão,
salvando-se o vapor português e todos os seus tripulantes e passageiros. Quem quiser ter um mais largo
conhecimento dessa horrível tragédia, leia o interessante opúsculo 200 milhas a remos, escrito pelo tenente
Luís José Simões, testemunha presencial de todos aqueles acontecimentos. Foi vitima sobrevivente do
ataque do submarino alemão, o nosso patrício Samuel da Conceição Vieira, então aspirante de marinha.
O governo concedeu ao aspirante Mota e Freitas a Cruz de Guerra de 1ª. classe, e a Câmara Municipal do
Funchal, em sessão de 8 de Maio de 1919, resolveu dar o nome do mesmo aspirante à antiga travessa da
Sacristia em Santa Maria Maior.
Em Outubro de 1921, constituiu-se uma comissão que pretende levantar um modesto monumento ao
aspirante Mota e Freitas, tendo sido expostas pela mesma ocasião na Santa Casa da Misericórdia, as
insígnias da Cruz de Guerra, concedidas ao mesmo aspirante após a sua morte.
Mota Prego (João da)
Engenheiro-agrónomo que residiu por alguns tempos no Funchal. Escreveu
um valioso artigo sobre a agricultura, a indústria e o comercio da Madeira e Porto Santo, no vol. I, pág. 377
a 400, das
Notas sobre Portugal
, livro este que figurou na exposição nacional do Rio de Janeiro, em 1908.
Motins populares
Reconhecem todos que os povos deste arquipélago são de uma índole essencialmente
pacifica e ordeira. Entregues na sua grande maioria aos trabalhos agrícolas, que nesta região são muito
árduos e penosos pelas especiais condições dos terrenos, mourejam desde o primeiro alvorecer da manhã
até cairem as sombras da noite, geralmente despreocupados e alheios a tudo o que não seja a labuta
continua da sua laboriosa existência.
Quer se encontrem numa apertada mediocridade ou numa regular suficiência de haveres, decorre-lhes a
vida serena e remansosa, sem que o espírito de insubordinação ou de revolta venha perturbar a paz de que
tranquilamente desfrutam. Não và desta afirmativa concluir-se que o proverbial sossego que reina entre a
família madeirense não tenha sido por vezes alterado, vindo violentamente estadear-se na praça publica. Só
raras vezes, e sempre muito passageiramente, se tem presenciado o facto, e apenas quando alguns vis
especuladores, para fins inconfessáveis, tentam explorar a boa fé ou nimia credulidade de populações
eivadas pela ignorância, pelo erro e pela superstição.
1533.
Um dos mais antigos movimentos populares de que temos conhecimento é o alvoroço dos habitantes
da ilha do Porto Santo, que, no ano de 1533, fanatizados pelos pretensos profetas Fernão Bravo e Filipa
Nunes, praticaram excessos muito condenáveis, de que daremos mais desenvolvida noticia no artigo
Profetas, deste Elucidário.
1641.
Poucos dias depois da proclamação do governo de D. João IV nesta ilha (V.
Restauração da
Madeira
), ocorreram acontecimentos de bastante gravidade, com alteração da ordem pública, cujos
principais episódios encontramos narrados do seguinte modo num antigo manuscrito:
«No dia 25 de Janeiro de 1641, o povo em multidão dirigiu-se à Câmara e lançou fora o juiz Luiz Fernandes
de Oliveira, por ser castelhano; fez novo juiz, procurador do concelho, um vereador e almotacel, e de ali
passando à casa de Paio Rodrigues Paes da Cunha, escrivão da Câmara, suspenso por culpas, o fez entrar no
officio e lançou fora o serventuario Manuel Teixeira Pereira. Um Manuel da Ceia e um seu sobrinho, que por
indescripção fallavam do novo tributo, com muita dificuldade escapariam da morte e do furor do povo,a não
ser os esforços do governador, bispo e cabido, a quem respeitava o povo. Daqui passou o povo amotinado à
Alfândega, e lançou fora o provedor Manuel Vicente Cardoso e pôs em seu logar João Rodrigues de Teive,
que, morando em Nossa Senhora do Calhau, là o forão buscar, e querendo na passagem da Igreja evadir-se,
a população, sob pretexto de fazer oração, não lhe consentiu, e assim levado à Alfandega, foi aclamado
provedor pelo povo com a cominacão de, não aceitando, ser ali mesmo morto por ele. O porteiro, por que
tinha as portas fechadas, correu perigo de vida. Muito valeu nesta comoção popular o bom nome e
consideração que o povo tinha por D. Antonio Fernandes, sobrinho do Bispo, official da Câmara e sobretudo
o Prelado, que souberão com prudência calmar o povo e salvar a vida dos indivíduos apontados como
perseguidores de ele. O povo, logo que tomarão inventario dos bens do provedor, ficou socegado, e de todo
este acontecimento se fizerão autos e assentos necessàrios, como consta do L.° 4.°, fl. 202».
D. João IV mandou que se fizesse sindicância desses acontecimentos e que fossem castigados os indivíduos
que desrespeitaram o provedor Vicente Cardoso, não se sabendo, porém, se teria sido aplicada alguma
penalidade a esses indivíduos.
1668.
0 governador e capitão-general da Madeira D. Francisco de Mascarenhas, que tomou posse deste
cargo a 28 de Novembro de 1665, concitara contra si, por motivos ainda não bem averiguados, a ma vontade
do clero e principalmente da nobreza, do que resultou a lamentável sublevação popular que se deu no
Funchal no dia 18 de Setembro de 1668.
Afirma o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo que a revolta era capitaneada pelo deão Dr. Pedro Moreira e que
o clero tomara nela uma parte muito activa, mas da devassa a que procedeu o desembargador João de
Moura Coutinho, sindicante expressamente mandado a esta ilha pelo governo da metrópole, resultou a
condenação a degredo, acompanhada do pagamento de avultadas multas pecuniárias, de muitos fidalgos
madeirenses e de três escravos, não se encontrando no numero dos condenados um só eclesiástico,
incluindo o próprio Dr. Pedro Moreira.
Parece que o governador e capitão-general tratara com menos consideração o clero e a nobreza desta ilha,
cerceando-lhes muitas regalias, de que talvez indevidamente gozavam e a que se julgavam com indeclinável
direito, e dai resultou abrir-se um grave conflito, que teve as mais desastrosas consequências. D. Francisco
de Mascarenhas exorbitaria talvez das faculdades que a lei lhe conferia, seria duro no trato e nas relações
com os fidalgos e alguns membros da clerezia, teria mesmo um soberano desprezo pelas suas prerrogativas
e isenções, mas é fora de duvida que os promotores da sublevação procederam duma maneira inqualificável
e a posteridade não poderá absolve-los dos actos que praticaram, lançando mão da violência e autorizando
os excessos que então se cometeram nesta cidade.
No dia 18 de Setembro de 1668, dirigia-se o governador D. Francisco de Mascarenhas, acompanhado do juiz
de fora, para a casa de campo que os jesuítas tinham no sítio do Pico do Cardo, da freguesia de Santo
António, e que ainda hoje é conhecida pelo nome de Quinta dos Padres. Ao chegar ao sítio da Água de Mel,
onde ficava a casa solarenga dos morgados de Bettencourt e Sá Machado, sai-lhe ao encontro um grupo de
indivíduos armados, entre os quais vários membros daquela família, que agrediram violentamente o
governador e feriram com uma cutilada o juiz de fora.
D. Francisco de Mascarenhas foi lançado numa abjecta enxovia, na companhia dum mulato facínora, que já
em tempos servira de algoz. Dali o transportaram para a prisão da fortaleza do Pico, onde sofreu os maiores
insultos e vexames, por parte do seu carcereiro D. João Heredia e de outro fidalgo, que assim se
desagravaram ignobilmente das supostas ofensas recebidas. Meteram-no depois a bordo duma pequena
charrua, sempre com o mesmo cortejo de insultos até o embarque, a qual o lançou na Galiza.
Os amotinadores, soltando os presos e reunindo alguns populares, percorreram a cidade, praticando muitas
desordens e excessos, sem que a força militar, talvez conivente no movimento, tentasse pôr cobro a
tamanhos desmandos. Pormenor singular: à porta de casa, foi o vereador António Correia Henriques
enforcado em efígie, por baldadamente o terem procurado em todas as dependências da sua morada.
No entretanto, nomearam governador interino o morgado Aires de Ornelas de Vasconcelos, que não pensou
em castigar os culpados. Enviou ele a Lisboa o fidalgo Gaspar Berenguer a dar conhecimento ao governo da
metrópole dos acontecimentos aqui ocorridos, o qual ao regressar à Madeira foi recebido com grandes
demonstrações de regozijo, trazendo a noticia de que nas estações superiores se aprovara tudo quanto se
fizera durante a sublevação.
Algum tempo depois, aparece na Madeira o desembargador Dr. João de Moura Coutinho, encarregado de
proceder a uma rigorosa sindicância acerca daquelas gravíssimas ocorrências. Teve que lutar com graves
dificuldades: ameaças, suborno das testemunhas, tudo foi posto em acção. Partiu o desembargador, e meses
depois foi publicada a sentença. D. Gaspar de Sá, D. José de Sà, D. Francisco de Sà, Rui Dias de Aguiar,
João Machado e Albano Veloso, todos fidalgos, foram condenados a degredo perpetuo para Angola e ao
pagamento de alguns milhares de cruzados, cada um, para o autor D. Francisco de Mascarenhas e despesas
do processo, José Machado de Miranda e João Vieira Pita a cinco anos de degredo para Angola e três
escravos a açoites públicos e a servirem toda a vida nas galés.
Causou estranheza como pôde justificar-se o morgado Aires de Ornelas, não tendo sofrido pena alguma,
embora fosse processado, e como também o Dr. Pedro Moreira e outros sacerdotes não houvessem sido
envolvidos nas malhas da rigorosa devassa a que se procedeu.
Este curioso facto da historia madeirense, quanto às suas origens e responsabilidades, não está ainda
suficientemente esclarecido.
1755.
Neste ano, houve tumultos nas vilas da Calheta, Ponta do Sol e S. Vicente, por causa duma
pretendida concessão do Paul da Serra.
1821.
No artigo Constituição de 1821 (Vol. I, pág. 301), já demos uma noticia sumaria dos sucessos
ocorridos nesta cidade por ocasião de ser proclamada aquela Constituição. Veja-se também o artigo
Mercado e Capela de São Sebastião.
1829.
Houve em Outubro e Novembro deste ano alguns tumultos populares na cidade do Funchal,
provocados por oficiais e soldados de infantaria n.° 2 e 13, por causa do envenenamento dalgumas praças
deste ultimo regimento. Na sua exaltação, pretenderam os soldados entrar no Palácio do Governo, afim de
se apoderarem do ajudante de ordens José Joaquim Januário Lopes e o assassinarem.
1834.
Desde a revolução de 1820 até à implantação do governo constitucional em 1834, em que as lutas
políticas e a guerra civil trouxeram tão graves perturbações ao seio da família portuguesa, deram-se, por
vezes, nesta ilha vários distúrbios e algumas alterações da ordem pública, mas que não tiveram
consequências muito funestas, embora os espíritos andassem em extremo agitados e se esperassem os mais
graves acontecimentos. Apesar da proclamação do governo constitucional se ter feito nesta cidade no dia 5
de Junho de 1834, sem a mais ligeira perturbação da ordem, é certo que em varias freguesias o
descontentamento de muitos se exteriorizou por alguns actos de violência. O mais importante desses
acontecimentos foi o que se deu na Calheta, como já fica referido no artigo consagrado a esta freguesia (
V.
Vol. I
, pág. 190). Podemos acrescentar que sete indivíduos, além do padre Rodrigues Pestana, foram
condenados a degredo perpetuo para Angola.
1846.
Bem tristes sucessos se deram neste ano, motivados pela propaganda calvinista do Dr. Roberto
Kalley, como mais largamente se pode ver no artigo que neste volume consagramos àquele ilustre medico
escocês.
1847.
No artigo Junta Governativa da Madeira em 1847, já nos ocupámos com alguma largueza dos
acontecimentos ocorridos na Madeira, quando entre nós se repercutiram os ecos dos sucessos que no nosso
país se desenrolaram depois da revolução da Maria da Fonte.
1868.
Na nossa historia política, ficou conhecida pelo nome de Janeirinha a revolta popular que no mês de
Janeiro de 1868 se deu em Lisboa e no Porto, com o fim de protestar contra a lei de 10 de Junho de 1867,
que criara o imposto de consumo e que tão grande indignação causara em todo o país. Por tal motivo se
demitiu o ministério presidido por Joaquim António de Aguiar e do qual faziam parte homens da
envergadura de Martens Ferrão, Fontes Pereira de Melo, Andrade Corvo, Casal Ribeiro e Barjona de Freitas.
Contra ele açularam os adversários políticos todas as iras populares, agitando como estandarte de guerra a
famosa lei do consumo, que nunca chegou a vigorar. O nosso distinto patrício Jacinto de Sant'Ana e
Vasconcelos seguia a política do ministério e pertencia ao partido histórico, que nesse momento lutava
contra a grande corrente dos partidos da Janeirinha, apoiados pelo ministério que então subira ao poder e
que era presidido pelo Conde de Avila, depois duque de Avila e Bolama.
Eram conhecidos por fusionistas e populares os partidários das duas facções políticas. Na Madeira, por
motivos que não sabemos bem assinalar, era grande a animosidade existente entre aqueles grupos
partidários, quando no dia 8 de Março de 1868 ancorou no nosso porto o vapor português Bengo, que trazia
a seu bordo, entre outros passageiros, o nosso patrício Jacinto de Sant'Ana e Vasconcelos, depois visconde
das Nogueiras. Vinha visitar a sua ilustre família e tratar da sua candidatura a deputado por esta ilha, como
membro do partido histórico ou da fusão.
Dos acontecimentos ocorridos neste arquipélago no terceiro quartel do século passado, dois houve que
ficaram indelevelmente gravados na memória dos contemporâneos e que ainda se transmitiram aos
vindouros: a epidemia da cólera, em 1856, e o movimento da Pedrada, a 8 de Março de 1868. Este ultimo
facto observado a distancia e libertado das paixões ruins que lhe deram motivo, causa-nos hoje a maior
surpresa, por ver que uma simples questão de política eleitoral tivesse levado uma população aos excessos
mais lamentáveis, havendo vàrias mortes e impedindo-se violentamente o desembarque de Jacinto de
Sant'Ana.
E, todavia, este nosso patrício procedera sempre correctamente para com todos os madeirenses e nunca
concorrera para prejudicar moral ou materialmente a terra que lhe fora berço. E, até como representante
desta ilha no parlamento, em três legislaturas, advogou desinteressadamente e com o mais acrisolado zelo
as mais vitais questões deste arquipélago, sem que a sua atitude como deputado e como político pudesse
justificar ou explicar sequer a maneira estranha como foi aqui recebido no dia 8 de Março de 1868. Era
apenas de política adversa à que então gozava de maior predomínio e influencia nesta ilha e tivera a
coragem de apresentar o seu nome ao sufrágio popular, vindo pessoalmente advogar os interesses da sua
candidatura.
Era previamente conhecida a sua vinda à Madeira, e, quando na cidade começou a circular a noticia de que
a bordo dum vapor surto no porto se encontrava Sant'Ana e Vasconcelos, logo uma enorme afluência de
indivíduos, principalmente das classes populares, foi a pouco e pouco ocupando uma parte da praia e as
imediações da Alfândega, por onde, dentro de pouco tempo, se tornava impossível transitar. O objectivo da
multidão era impedir o desembarque de Jacinto de Sant'Ana, o que não oferecia a menor dificuldade, tendo
ao seu alcance um considerável número de projécteis de tão fàcil e pronto arremesso–as pedras.
Sant'Ana, que era um valente e fora o herói de tão arriscadas aventuras, tentou desembarcar, apesar da
atitude hostil da populaça, mas teve que ceder à vista do chuveiro de pedras que feria os ares e seguir
também o conselho prudente de algumas pessoas que o rodeavam. Dirigiu-se então para bordo do navio de
vela o Galgo, que fazia viagens entre Lisboa e Madeira, no transporte de carga. A vida de Sant'Ana e
Vasconcelos correu nesta ocasião iminente risco, tendo o antigo e importante negociante da nossa praça
João de Freitas Martins, mais conhecido pelo nome de Papinho, contribuído bastante para o pôr ao abrigo
da sanha feroz da populaça desenfreada.
A efervescência dos espíritos era jà grande, ainda mesmo antes da vinda de Sant'Ana e tinham ocorrido
pequenas perturbações da ordem publica, que eram prenuncio do que depois poderia vir a acontecer.
Excitados os ânimos com a sua chegada, romperam os populares em manifestas violências, chegando varias
pessoas a ficar feridas com a saraivada de pedras que loucamente se atirava de todos os lados. Teve que
intervir a força armada e, vendo-se esta desrespeitada pela multidão, lançou mão das carabinas e alguns
homens do povo caíram varados pelas balas. Era então governador civil o major de caçadores 12 e nosso
patrício D. João Frederico da Câmara Leme, que, apesar do prestigio e popularidade que gozava, não pôde
com a sua presença conter os amotinados, sendo absolutamente indispensável a interferência da força
publica para os conter e pôr termo aos desmandos que estavam praticando.
No meio da luta, houve a feliz lembrança de simular um incêndio na rua das Queimadas de Baixo,
comunicando-se fogo a uma enxerga de palha. Os sinos tocaram apressadamente a debate, e uma parte
considerável da multidão, que ocupava o pátio da Alfândega e as imediações deste edifício, acorreu ao local
do incêndio e pouco depois dispersavam os restantes, terminando assim o triste e lamentável episódio que
ficou conhecido pelo nome de motim ou levante da pedrada.
Jacinto de Sant'Ana e Vasconcelos seguiu para Lisboa, sendo pouco depois eleito deputado por outro
circulo. Na revolução de Setembro, publicou uma série de artigos subordinados ao título de Cartas ao conde
de Avila sobre matérias eleitorais da Ilha da Madeira, que não conhecemos, mnas que nos afirmam conter
dados sobremaneira interessantes para a historia dos acontecimentos de que as mesmas Cartas se ocupam.
1870.
No dia 1 de Maio deste ano, houve grandes tumultos na vila de Machico, por ocasião de se
realizarem ali as eleições de deputados, tendo que intervir a força armada. Os populares desrespeitaram o
destacamento militar, estanciando naquela vila, que, dentro da igreja paroquial, fez fogo sobre a multidão,
caindo mortos alguns indivíduos.
Também se deram outros distúrbios promovidos pelo partido popular, que, apesar de se achar na oposição,
era quem em 1870 dominava na ilha. 0 falecido Dr. Joaquim Ricardo da Trindade e Vasconcelos, fusionista,
ao desembarcar no Funchal, vindo de Machico, foi preso na Pontinha por indivíduos do povo e conduzido à
antiga praça da Constituição, onde seria assassinado, se não fora a intervenção do Dr. Álvaro Rodrigues de
Azevedo, uma das figuras mais prestigiosas do partido popular, e o enterro duma das vitimas dos tumultos
da referida vila serviu de pretexto a novas manifestações hostis ao governo, que as autoridades e a força
publica não procuraram evitar.
Os acontecimentos de Machico produziram grande sensação, não só na Madeira, mas ainda no Continente
do Reino, tendo sido o governo de então violentamente atacado no parlamento e na imprensa de Lisboa.
1884.
Vários tumultos populares se produziram no dia 29 de Junho de 1884 em algumas assembleias
eleitorais ou suas imediações. A alteração da ordem publica tomou maior vulto na freguesia da Ribeira
Brava, tendo as mais desgraçadas consequências com a morte de alguns populares, que caíram varados
pelas balas da força armada. Era candidato a deputado o Dr. Manuel de Arriaga que não conseguiu ser
eleito. A imprensa republicana do Funchal, e nomeadamente a de Lisboa, ocupou-se largamente do assunto,
que teve eco no seio da representação nacional. Na comarca da Ponta do Sol, promoveram-se vários
processos acerca das ocorrências dadas nas freguesias da Ribeira Brava e Ponta do Sol, tendo vindo a esta
ilha defender os seus correligionários envolvidos nesses processos, os Drs. Manuel de Arriaga e José de
Castro, que aqui se demoraram alguns tempos. Com o título de Victimas d'El-Rei, publicou o Dr. José de
Castro um opúsculo de 83 paginas, narrando os episódios e peripécias mais salientes desses processos. Os
morticínios da Ribeira Brava causaram a mais extraordinária sensação.
1887 e 1888.
Foi uma época bem calamitosa para este arquipélago o período de alguns meses dos anos
de 1887 e 1888, em que se deram graves perturbações da ordem publica, a pretexto da suposta organização
das Juntas de Paróquia, praticando-se as mais condenáveis violências e espalhando-se o sobressalto e o
terror por todas as freguesias desta ilha. Entre o povo, ficou esse movimento conhecido pelo nome de
Parreca. já dele nos ocupámos no artigo Juntas de Paróquia, para onde remetemos o leitor.
1894.
No dia 22 de Maio, por ocasião da chegada do vapor «Funchal», deram-se tumultos na Entrada da
Cidade, pretendendo o povo obstar ao desembarque dos passageiros vindos de Lisboa, por se afirmar que ali
grassava a epidemia da colera-morbus. Foi apedrejada a tropa e a policia, ficando também feridos alguns
dos passageiros que tentaram desembarcar no cais da entrada da Cidade.
1906.
Em fins de Novembro de 1905, apareceu um caso de doença suspeita na residência e numa pessoa
da família de Leopoldo Cabral, morador na rua dos Ferreiros desta cidade. A pessoa atacada e os restantes
membros da família foram sem demora removidos para o Lazareto de «Gonçalo Aires», transformado em
hospital de isolamento. Outros indivíduos ali foram recolhidos. Para evitar-se o alastramento da doença,
impunha-se por certo, um completo isolamento, mas que parece ter revestido um excessivo rigor, se é que
excessos pode haver na adopção de medidas desta natureza. Desde logo começaram a espalhar-se entre a
população os mais inverosímeis e inacreditáveis boatos, originados em boa parte no isolamento apertado
que se mantinha no Lazareto e na falta de noticias das pessoas ali internadas. A fantasia popular, auxiliada
por uma política facciosa e uma imprensa sem escrúpulos, deu largas ao mais lamentável desvairamento,
criando no seio do Lazareto toda a sorte de crimes, que iam desde as mais cruéis sevícias até ao simples e
puro assassinato! E de tal modo esses boatos se foram difundindo e essas fantasiosas invenções se
avolumaram no espírito publico, que, a breve trecho, era crença inabalável para a grande maioria dos povos
desta ilha que o hospital de isolamento se transformara num autentico e verdadeiro açougue da espécie
humana, que deixava a perder de vista as alcateias de bandidos que infestavam os desfiladeiros da serra
Morena, da Calabria e da Floresta Negra, de que nos falam com tanto horror umas mais que duvidosas
narrativas.
Foi sem duvida um erro grave, que todos depois reconheceram, o estabelecer-se uma absoluta
incomunicabilidade entre os que se encontravam naquele recinto e o resto da população. Corrigiu-se esse
erro, sem haver perigo de contagio, mas era tarde para o fazer e já se tornava impossível desfazer a funda
impressão que os boatos alarmantes tinham causado. A onda de indignação, que se conservara represada
durante alguns dias, galgou as barreiras que a continham e veio estadear-se violentamente na praça publica.
No dia 7 de Janeiro de 1906, pelas 11 horas da manhã uma massa enorme de populares, seguida de algumas
praças do regimento de infantaria n.° 27, tomou o caminho do Lazareto em atitude manifestamente hostil e
disposta a praticar os maiores excessos. Uma indesculpável imprevidência deixara abandonadas de
qualquer defesa as entradas do Lazareto, sendo fácil à populaça amotinada penetrar rapidamente naquele
recinto e cometer os maiores e mais lamentáveis vandalismos. Tudo quanto ali se encontrava foi
completamente destruído: moveis, trem de cozinha, farmácia, instrumentos cirúrgicos, roupas, maquinas,
víveres etc.. Nada escapou à fúria insana dos assaltantes. Os próprios edifícios sofreram importantes
danificações, ficando partidos todos os vidros das janelas, destruídas as portas e até os sôlhos mostram
grandes vestígios da sanha dos manifestantes.
Os indivíduos que se achavam de observação na zona de refúgio foram obrigados a abandona-la, invadindo
depois a multidão o hospital de cura, onde se encontravam cinco doentes estando alguns deles em via de
restabelecimento. Um carro, acompanhado de bastantes populares, conduziu os doentes aos seus
domicílios, soltando-se no trajecto os mais entusiásticos vivas. O grosso da multidão que, ao regressar à
cidade, se compunha aproximadamente de mil pessoas, tomou pela estrada do Conde de Carvalhal,
receando que a força armada saída do quartel de infantaria n.° 27 a pudesse surpreender no caminho.
Já dias antes, o Posto de Desinfecção Terrestre, ao Campo da Barca, tinha sido assaltado por um numeroso
grupo de populares, sendo repelido pela policia e por um contingente de forças de infantaria. Também no
Bom Sucesso e em outros sítios se deram vários distúrbios, que foram o prenuncio do ataque ao Lazareto.
No dia 10 de Janeiro, chegou ao Funchal o cruzador Dom Carlos, que trouxe aumentada a sua tripulação,
para auxiliar as forças militares aqui estacionadas, na manutenção da ordem publica.
Era director clínico do hospital de isolamento de «Gonçalo Aires» o Dr. António Balbino do Rego, que
exercia nesta cidade o cargo de director do Posto de Bacteriologia e Higiene. Foi contra ele que mais se
concitaram as iras da plebe, considerando-o como o autor ou principal responsável dos supostos crimes
praticados no Lazareto. É verdadeiramente inacreditável, por ausência de fundamento sério, o ódio que
entre nós se despertou contra o Dr. Balbino do Rego (V. este nome), sendo ainda hoje amaldiçoado o seu
nome como o de um grande flagelo que tivesse assolado esta ilha.
Sobre este assunto, publicaram-se, além de numerosos artigos na imprensa local, os folhetos A Tragédia do
Lazareto, Funchal, 1906, de 51 pag.; A Peste bubonica na Madeira e as suas consequências, apontamentos
por António Pedro Gomes, Lisboa, 1906, de que apenas se publicou um fascículo de 12 pag.; Um Ano
Depois, Porto, 1907, de 63 pág.; e na Ilha da Madeira, Porto, 1907, de 117 pag., sendo os dois últimos da
autoria do Dr. Antonio Balbino do Rego.
A lira popular deu largas expansões à fecundidade do seu estro, publicando-se inúmeros folhetos e avulsos,
em que a falta de inspiração corre parelhas com as incorrecções do metro, e onde também a linguagem
descomposta nada fica a dever à falta de bom senso e das mais elementares regras gramaticais. (V.
Poesia
Popular
).
1921.
Tendo resolvido os moageiros do Funchal em fins de Julho de 1921 elevar a 1820 o preço das
farinhas, do que devia resultar o pão passar de $80, preço por que estava sendo vendido, para 1$ o
quilograma, convocou um grupo de consumidores uma reunião no largo da Feira no dia 1 de Agosto, sendo
aí deliberado o encerramento dos estabelecimentos industriais e comerciais, como protesto pelo
encarecimento injustificado do referido género. De 1 a 3 de Agosto, todos os estabelecimentos fecharam,
com efeito, só abrindo de manhã, antes das 8 horas, para o público se abastecer, mas tendo-se unido aos
grevistas certos elementos desordeiros, resultou daí darem-se alguns desacatos e tumultos, sendo presos
pelo povo, no dia 3, dois moageiros, um dos quais veio do Monte até à cidade rodeado de muito povo, mas
protegido pela policia, o que não obstou a que fosse ferido na cabeça ao passar na rua de João Tavira, em
direcção à fortaleza de S. Lourenço, onde ficou detido.
No dia 2 de Agosto invadiu o povo a casa do presidente da Câmara, obrigando-o a acompanha-lo aos Paços
do Concelho para fixar o preço do pão, e varias tentativas se fizeram para prender o caixeiro duma casa
inglesa a quem se atribuía a principal responsabilidade do pretendido aumento do preço da farinha, o qual
para escapar à sanha popular esteve escondido a princípio na casa do seu patrão, saindo depois da ilha num
vapor estrangeiro.
A autoridade desinteressou-se a princípio do movimento popular, mas os acontecimentos do dia 3
obrigaram-na a modificar a sua atitude e a ordenar à policia e à guarda republicana que mantivessem a
ordem dentro da cidade. Tendo o Funchal começado a ser convenientemente patrulhado no dia 4 de Agosto,
jà neste dia abriram os estabelecimentos, não voltando a repetir-se os desacatos da véspera, dos quais só
ficaram vitimas aqueles que o povo, com razão ou sem ela, considerava como tendo responsabilidade na
extorsão que se lhe pretendia fazer.
O preço do pão não foi alterado em Agosto de 1921, mas em Fevereiro do ano imediato conseguia a fabrica
de moagem britânica que esse preço subisse temporariamente para 1 escudo, visto ter passado a vender a
farinha ao preço de 1$10 por quilograma.
Poucos dias antes dos motins a que acabamos de aludir, outros se deram, mas motivados pelas eleições de
deputados e senadores na assembleia de Câmara de Lobos, sendo feridos o capitão Américo Olavo e o Dr.
Manuel Augusto Martins, que tinham ido ali fiscalizar as operações eleitorais. Os motins deram-se no dia 11
de Julho, e foram provocados por indivíduos do Funchal, com o fim de inutilizar a votação em Câmara de
Lobos, onde a oposição contava com uma grande maioria.
1931.
Nos dias decorridos de 4 a 8 de Fevereiro de 1931, deram-se no Funchal perturbações da ordem
publica da maior gravidade motivadas pela promulgação de um decreto, que estabelecia um novo regime
cerealífero e restringia a livre importação de trigos e farinhas, criando-se assim um «manipólio» em um
ramo tão importante da alimentação publica. A execução do decreto foi suspensa, mas os amotinados
impunham a sua inteira revogação. No entretanto, graves desordens foram ocorrendo em diversos pontos e
durante cinco ou seis dias conservou-se inteiramente paralizado o comercio, e estiveram encerrados todos
os estabelecidos de venda, fechadas as repartições públicas e as escolas. No dia 6 de Fevereiro, os motins
revestiram uma alarmante gravidade com o violento assalto à fabrica de moagem dos Lavradores, a uma
importante casa de «atacados» na rua Cinco de Junho, a uma padaria na Ponte de São João e a um
estabelecimento comercial na rua da Alfândega, etc. etc., que ficaram inteiramente destruídos, sendo os
prejuízos causados de alguns milhares de contos de réis. Interveio a policia havendo morrido três populares
e sendo também vitima um dos membros daquela corporação. As forças de infantaria que saíram do quartel
para restabelecer a ordem, não quiseram ou não souberam fazê-lo, e a elas se ficou atribuindo, em boa
parte, a responsabilidade desses tão lamentáveis acontecimentos.
1936.
A execução de um novo decreto, que criou a Junta dos Lacticínios e regulou a distribuição e venda do
leite excitaram uma grande indignação nas populações rurais, provocando, nos dias 4 e 5 de Agosto de 1936,
as maiores perturbações da ordem publica em vários pontos da ilha, sendo necessária a intervenção da força
armada, e havendo morrido oito indivíduos das classes populares. De Lisboa, vieram dois navios de guerra,
conduzindo contingentes de tropas e membros de policia de investigação e procedeu-se a uma grande
devassa, sendo presos alguns centenares de indivíduos. Destes, seguiram cerca de cinquenta para Cabo
Verde, para serem ali julgados. Hoje todos reconhecem que o decreto que provocara essas lamentáveis
desordens continha disposições proveitosas para os criadores de gado e vendedores de leite.
Moura
Antonio de Moura Rolim, diz o Dr. Álvaro de Azevedo a pág. 527 das Saudades, vem mencionado
na pauta dos benfeitores da Misericórdia do Funchal, logo depois da instituição desta, lendo-se ainda na
mesma obra, a pág. 851, que João de Moura Rolim fundou a capela do Senhor, na primitiva igreja de Santa
Maria Maior, e lá tinha sua campa com este epitáfio: Sepultura de João de Moura Rolim Fundador desta
capela do SS.
mo
–727.
Moura (D. Patrício Xavier de)
Pinho Leal, no vol. XI do seu dicionário Portugal Antigo e
Moderno, diz, a pág. 872, falando de José Joaquim Januario Lapa, 1.° visconde de Vila Nova de Ourém, o
seguinte, que textualmente transcrevemos:
«Deu-se um facto notável entre o 1.° visconde de Villa Nova de Ourem e o padre Patrício de Moura e Brito,
natural de Setúbal. Quando aquelle titular, antes de o ser, residia em Villa Franca, estando a jogar o gamão
com o referido padre, que ali era prior, afirmava este que havia de dar um codilho ao Lapa, o qual por sua
parte afirmava o contrario, accrescentando que faria daquelle prior um bispo, se delle recebesse um codilho
e viesse algum dia a ser ministro, dando às suas palavras um tom de puro gracejo. O tempo correu, e Lapa,
da modesta posição que então ocupava como administrador das Lezírias do Tejo, passou a elevar-se na
escala social pelos seus méritos e pelos successos da política, e chegou a ser ministro de estado. O prior de
Villa Franca, seguindo-lhe, por assim dizer, os movimentos, e advertido por um feliz pressentimento, logo
que o visconde foi nomeado ministro, se lhe apresentou, dando-lhe os parabéns e reclamando o
cumprimento da promessa. O ministro, que a princípio se não lembrava da promessa, recordou-se
perfeitamente della, por fim, e deu ao prior de Villa Franca a mitra de Cabo Verde. Abençoado codilho!»
Este facto é confirmado pelo deão da Sé de Cabo Verde Francisco Ferreira da Silva, que, no seu livro Diocese
de Cabo Verde, acrescenta os seguintes interessantes pormenores.
«D. Frei Patrício Xavier de Moura era frade graciano, e quando freire fora nomeado por D. João VI cónego
da Bemposta e capellão particular da infanta D. Isabel Maria, depois de lhe ter ouvido a magnífica voz de
que era dotado. Sendo legitimista, retirou-se para a sua terra natal, exercendo o ministério do púlpito até
que foi mandado parochiar a freguesia de Vila Franca de Xira, onde travara conhecimento com o visconde
de Villa Franca Nova de Ourem, que lhe prometera fazel-o bispo quando fosse ministro, promessa que foi
cumprida. Na sua partida para Cabo Verde, fez-se acompanhar de D. João de Noronha, que tinha jà 70
annos, apresentado arcediago, e de três famulos-Fernandes de Aguiar, que, ha pouco falleceu em Cabo
Verde, legando uma fortuna de mais de 80:000$000 reis, José Silvestre Teixeira, que pouco tempo viveu, e
José Maria Pinto, que aos 18 annos fora provido no logar de cónego e que esteve até 1880 em Cabo Verde,
deixando um nome respeitável como professor. D. Patrício ainda que mais disposto para se cobrir do
capacete e desembainhar a espada do que para pôr a mitra e empunhar o báculo, foi um prelado
trabalhador e zeloso. Ao mesmo tempo que reprehendia em publico e com acrimonia o famulo que em
jantar de festa levantava um brinde sem ter pedido licença, como também mandava levantar o presbytero
que na sua presença se sentava sem a devida vénia, exaltava e galardoava generosamente os que cumpriam
com o seu dever e não tinham aquellas ousadias. Mal contido nas reprimendas, apenas viu o deão da Sé
uma vez, que nunca mais là voltou, em quanto este prelado esteve na diocese.» Estabeleceu a sua residência
na ilha do Fogo, mas fazia constantes visitas com bastante demora às ilhas Brava e São Tiago. Sustentou
lutas com o governador geral, principalmente por motivo da nomeação dos párocos encomendados, tendo o
governo da metrópole confirmado ao prelado o direito que a este assistia de fazer tais nomeações. Havendo
uma grande crise alimentícia no arquipélago, cedeu a favor dos famintos dezoito contos de réis de
rendimentos da mitra, que lhe pertenciam. Administrou o bispado de Cabo Verde cerca de dez anos, tendo,
por motivo de doença, pedido a sua apresentação na Sé do Funchal.
No mes de Julho de 1858, saiu desta diocese em direcção à Guarda, para onde fora transferido, o prelado D.
Manuel Martins Manso. A 20 de Abril do ano seguinte, era por Pio IX confirmada a transferência de D.
Patrício Xavier de Moura do bispado de Cabo Verde para a diocese do Funchal, tendo tomado posse do
cargo, por procuração, a 28 de Maio de 1859. A 26 do seguinte mes de Agosto chegou ao Funchal, tendo
feito a sua entrada solene na Sé Catedral a 18 do imediato mês de Setembro.
D. Patrício de Moura não teve um episcopado feliz. Os motivos apontados pelo deão Ferreira da Silva, a
interferência do prelado na política local, a especial predilecção e favores dispensados a alguns sacerdotes,
com prejuízo e desconsideração de outros, levantaram-lhe grandes dificuldades e criaram-lhe sérios atritos,
que nunca de todo se desvaneceram até a sua morte. Ainda não tinha decorrido um ano após a sua entrada
na diocese e jà saíra a lume um folheto de 70 paginas intitulado Chronica do Bispado do Funchal nos
primeiros seis meses de governo do Snr. D. Patrício Xavier de Moura, que é um verdadeiro libelo acusatório
contra a administração episcopal do prelado, estando redigido com manifesta parcialidade e até por vezes
com requisitada ma fé. Alguns membros turbulentos do cabido e certos elementos preponderantes da
política local fizeram ao bispo D. Patrício uma acintosa e encarniçada guerra, que ele valorosamente
sustentou, apesar dos seus velhos anos e conhecidos achaques.
D. Patrício Xavier de Moura foi um prelado zeloso não só pela integridade dos privilégios e regalias da
igreja, e especialmente pela observância da disciplina canónica, mas ainda pela propaganda da doutrina
católica, pela austeridade de vida do seu clero e pelo exacto cumprimento das leis eclesiásticas.
Numa das suas ausências desta ilha, nomeou o prelado a Junta Governativa do Bispado, a que já noutro
logar nos referimos e que, exorbitando das faculdades que lhe foram conferidas, provocou os reparos da
Santa Sé e a publicação do folheto Breves Reflexões acerca da circular de 26 de Janeiro de 1870 do
presidente da Junta Governativa do Bispado do Funchal aos parochos desta diocese.
Em 1870, pediu D. Patrício de Moura um coadjutor e futuro sucessor, sendo o deão Dr. Aires de Ornelas de
Vasconcelos nomeado bispo titular de Gerasa em Março de 1871, com sucessão na diocese do Funchal.
D. Patrício Xavier de Moura morreu a 19 de Setembro de 1872 na cidade de Lisboa, para onde se tinha
retirado alguns anos antes, tendo entregue ao seu sucessor D. Aires de Ornelas e Vasconcelos a
administração deste bispado.
Mourão Pita (Dr. César Augusto).
Nasceu na cidade de Lisboa a 21 de Março de 1837, sendo filho
de Miguel Pinto da Silva Mourão e de D. Joana Marques. Tinha apenas três meses de idade quando o
abalizado medico Dr. António da Luz Pita o adoptou como filho, na ocasião em que, acompanhado de seus
pais, passou no porto do Funchal em direcção à Africa. Formou-se em medicina na faculdade de
Montpellier, defendendo a tese Du Climat de Madère..., que publicou em 1859 num volume de 262 pág..
Sobre o mesmo assunto e com o título de Madère, Station Médicale fixe... publicou em Paris, em 1889, um
opúsculo de 101 pág.. Foi medico militar, alcançando o posto de cirurgião de brigada, e durante muitos anos
desempenhou o cargo de director clínico do Hospício da Princesa Dona Maria Amélia. Exerceu as funções
de agente consular de França nesta ilha, de procurador à Junta Geral e outras comissões de serviço publico.
Morreu no Funchal a 22 de Maio de 1906.
Com o título
Os Acontecimentos do Theatro do Príncipe Real. Historia completa do infame trama urdido. .
contra Joâo Radich
, publicou-se em Lisboa, no ano de 1870, um volume de 234 pág., em que largamente
figura o nome do Dr. César Mourão Pita.
Mouraria (Rua da)
Chama-se (1921) desde 8 de Março de 1917 rua do Dr. Sequeira, e comunica a
rua da Carreira, ou do Dr. Vieira, com o largo de S. Pedro. Fica nesta rua o palácio que pertenceu aos condes
do Carvalhal e onde se encontram instalados o Museu Municipal, o Arquivo Distrital da Madeira e a
Biblioteca Municipal do Funchal.
No nosso entender, o primitivo nome da rua não devia ser alterado, visto relembrar o ter havido no local um
bairro de mouros.
Há poucos anos, voltou a ter o primitivo nome.
Mouros
Já no artigo
Escravos
nos referimos aos mouros cativos empregados no arroteamento das terras
da Madeira. Como a designação geral de escravos compreendia os negros, mulatos, canários e mouros, é
hoje difícil determinar com precisão os factos ou circunstancias que digam respeito a qualquer daquelas
castas em especial. No entretanto, sabemos que foi grande o numero de mouros existentes neste
arquipélago nos primitivos tempos da colonização, tendo-se formado núcleos importantes dessa população,
nomeadamente no Funchal, Ponta do Sol, Curral das Freiras e Machico. Na primeira destas localidades
houve uma mouraria ou bairro de mouros, dando o publico ainda hoje a uma das ruas do Funchal o nome
de Mouraria.
O tenente-coronel Alberto Artur Sarmento publicou no n.° 1983 do antigo Heraldo da Madeira um
interessante artigo acerca dos mouros na Madeira, do qual transcrevemos os seguintes períodos:
«O mouro era mais trabalhador do que o escravo da Guiné e da Mina, por isso a preferência dos senhores
das terras em importal-o para as suas fazendas de cultivo. Este comercio escandaloso em que se entendiam
de cà os donatarios, e das praças d'Africa os governadores, que ordenavam razias, originou o clamor do
chefe dos mouros que lamenta em carta a D. Manoel, o que fazia Azambuja, apanhando a torto e a direito e
de todas as classes, para enviar de contracto aos capitães da Madeira. É o que se depara nos «Documentos
arabicos copiados dos originaes da Torre do Tombo,1790.»
«Os mouros formaram núcleos importantes, reunindo-se em grupo ou bairro à parte, como o attesta a
Mouraria, uma das ruas mais antigas do Funchal, e tiveram grande commercio nas villas, especialmente em
Ponta do Sol e Santa Cruz. N'esta ultima mostrava-se ainda ha annos um retábulo existente na igreja
parochial, onde figuravam escravos mouros usando um pequeno turbante afunilado, com uma ponta
cahida, de que derivaram a carapuça do villão e a toalhinha pendente da cabeça, antigos trajes
característicos da camponeza da Madeira.
«Dos mouros, a dolência dos cantares, mas a dança repisada é movimento de preto. Dos mouros as lengas-
lengas serranas, os populares: lengi lengi o nevoeiro corriqueiro, a formiga que o seu pé prende. Entre as
brumas, princezas encantadas, as historias de palàcios e riquezas enthesouradas, ladrões e varas de condão,
são influencias e assumptos do povo, migrados nesta corrente de longe subordinada.
«Dos mouros ainda o cuscuz, essa massa granulada de farinha de trigo, tão apreciada pelas classes pobres e
que só a comem nas ocasiões solemnes, com um naco de carne de porco, pelos baptisados e casamentos,
não faltando o ramo de segurelha e coentro que encima o prato e o aromatisa.
«Vae-te p'ra Argel é uma praga popular que relembra o saque e captiveiro em terras da moirama. Um
episódio do século XV é tratado por mão de artista, num dos capítulos da novella histórica . «A Filha de
Tristam das Damas», com um colorido flagrante dos tempos àureos do casquilho donatario de Machico.
«Essa raça inteligente e aventureira deu-nos um typo na historia, personalisado no mouro Barque, do Porto
Santo, que deitou por terra a falsa doutrina do propheta Fernão Bravo, e como na lenda «o rei vai nú,, todos
começaram a ver d'ahi em diante o embuste, e as justiças tomaram conta do embaidor que com artifícios
illudia um povo crédulo.»
Mousinho de Albuquerque. Vid
.
Albuquerque (Major Joaquim Mousinho de).
Movimento do Porto
No período decorrido de 1901 a 1943 entrou no porto do Funchal o número
de embarcações constantes da seguinte lista:
1901..................................... 1 168
1902..................................... 1 564
1903..................................... 1 394
1904..................................... 1 301
1905..................................... 1 318
1906..................................... 1 338
1907..................................... 1 408
1908..................................... 1 480
1909..................................... 1 594
1910..................................... 1 388
1911..................................... 976
1912..................................... 1 503
1913..................................... 1 369
1914..................................... 1 021
1915..................................... 646
1916..................................... 399
1917..................................... 154
1918..................................... 113
1919..................................... 385
1920..................................... 587
1921..................................... 557
1922..................................... 669
1923..................................... 771
1924..................................... 829
1925..................................... 838
1926..................................... 882
1927..................................... 918
1928..................................... 975
1929..................................... 1 068
1930..................................... 1 071
1931..................................... 938
1932..................................... 946
1933..................................... 1 141
1934..................................... 1 299
1935..................................... 1 290
1936..................................... 1 390
1937..................................... 1 488
1938..................................... 1 347
1939..................................... 1 051
1940..................................... 389
1941..................................... 234
1942..................................... 190
1943..................................... 187
Vid.
Cais, Junta Autónoma das Obras do Porto, Molhe da Pontinha, Marés e Porto
do Funchal.
Mudança de Sistemas de Governo
O sistema de governo absoluto, que durante sete séculos vigorou
em Portugal, foi derrubado pela revolução que rebentou no Porto a 24 de Agosto de 1820, arvorando o
sistema de governo representativo. No artigo Constituição de 1821, demos noticia desenvolvida do modo
como neste arquipélago se fez a proclamação desse novo sistema de governo.
A 3 de Junho de 1823, dirigiu D. João 6.° uma proclamação ao país, dissolvendo as cortes, abolindo a
Constituição de 1821 e restabelecendo o governo absoluto. No dia 17 do mesmo mês se realizou solenemente
na Madeira a proclamação do antigo sistema de governo, como já deixámos referido com alguma largueza
no artigo Alçadas (vol. I, pág. 31).
Falecendo D. João 6.° a 10 de Março de 1826 e tendo sido reconhecido rei o seu filho o príncipe D. Pedro,
outorgou este a 29 de Abril do mesmo ano uma Carta Constitucional e mandou imediatamente proceder à
convocação das cortes. Fez a proclamação da Carta na Madeira com grande brilho e entusiasmo nos dias 6,
7 e 8 de Agosto de 1826, sendo o ultimo destinado ao juramento da mesma Carta. As eleições realizaram-se
no dia 5 de Outubro seguinte, saindo eleitos deputados o Dr. Lourenço José Moniz, Manuel Caetano
Pimenta de Aguiar, padre Caetano Alberto Soares e Luís Monteiro.
O príncipe D. Miguel, regente do reino, dissolveu as cortes a 13 de Março de 1828 e proclamou-se depois rei
absoluto, em virtude da decisão dos Três Estados, que havia reunido a 3 de Maio do mesmo ano. Nos artigos
Ocupação da Madeira pelas tropas miguelistas e Proclamação do governo absoluto, daremos noticia mais
detalhada deste acontecimento, que entre nós se realizou com grande alvoroço no dia 24 de Agosto de 1828.
Terminada a guerra civil pela convenção de Évora-Monte, mandou D. Pedro, por decreto de 28 de Maio de
1834, convocar as assembleias eleitorais e restabeleceu o sistema de governo representativo. Ocupar-nos-
emos com largueza da maneira como neste arquipélago se solenizou esse facto, no artigo Proclamação do
Governo Constitucional.
No dia 4 de Outubro de 1910, rebentou em Lisboa uma revolução, que no dia imediato proclamou a
Republica. No dia 6 de Outubro, o dr. Manuel Augusto Martins tomou posse do cargo de governador civil
deste distrito, havendo por essa ocasião varias manifestações de regozijo.
Mulher (A)
Poucos números se publicaram deste jornal, sendo o primeiro a 4 de Março de 1883.
Município (Praça do)
Tem agora este nome o antigo largo do Colégio.
O adro da igreja de S. João Evangelista foi demolido, em parte, em princípios de 1836, para a construção do
largo do Colégio.
O seu amplo alargamento, o isolamento dos Paços do Concelho, desafrontando-os dos edifícios contíguos, a
construção do aparatoso fontanário e outros apreciáveis melhoramentos ali realizados datam dos anos de
1943 e 1944.
Municípios
Dos 11 municípios que existem no arquipélago da Madeira, 7 foram estabelecidos pelo
governo absoluto, 3 pelo governo constitucional e 1 pelo governo republicano, pertencendo ao primeiro
grupo os municípios do Funchal, Machico, Porto Santo, Ponta do Sol, Calheta, Santa Cruz e S. Vicente, ao
segundo os de Câmara de Lobos, Santana e Porto do Moniz, e ao terceiro apenas o da Ribeira Brava.
O município do Funchal existia já em 1450, pois que neste ano foi ordenado ao donatário que propusesse ao
senado os indivíduos dentre os quais devia ser tirado o alcaide e os municípios de Machico e Porto Santo é
de supor que fossem criados pela mesma época ou pouco depois, visto as suas vilas serem apontadas na
tradição como primitivas.
O município da Ponta do Sol foi estabelecido em 1501 e o da Calheta no ano de 1502 tendo para esse fim
sido retalhado o município do Funchal, que se estendia, no século XV, desde a Ponta do Tristão até à
Ribeira do Caniço, sendo limitado no interior pela serrania que corre desde esta ribeira até à mesma ponta.
O município de Machico, constituído pela parte restante da ilha, foi retalhado também em 1515, ano em que
ficou estabelecido o município de Santa Cruz. O município de S. Vicente só foi criado em 1743.
Os municípios de Câmara de Lobos, Santana e Porto do Moniz datam de 1835, tendo o prefeito da província
ordenado, no seu alvará de 10 de Agosto deste ano que os trabalhos para as eleições municipais, que se
deviam realizar em todo o arquipélago no dia 4 de Outubro, fossem no primeiro daqueles municípios
presididos por um vereador da câmara do Funchal, no segundo, por um vereador da câmara de Machico, e
no terceiro, por um vereador da câmara de S. Vicente. Os eleitores do conselho do Funchal elegeram por
essa ocasião 7 vereadores; os do Porto Santo, 3; e os dos restantes concelhos, 5.
Os municípios de Câmara de Lobos, Santa Cruz e Santana foram extintos pelo decreto de 10 de Dezembro
de 1867 e restabelecidos pouco depois; o município do Porto do Moniz foi extinto por este mesmo decreto,
que vigorou muito pouco tempo, e pelos decretos de 7 de Novembro de 1849 e 18 de Novembro de 1895,
achando-se jà restabelecido em 1855 e nos princípios do ano de 1898. 0 município da Ribeira Brava, o mais
moderno do arquipélago, foi criado pelo decreto de 16 de Agosto de 1914.
O referido decreto de 10 de Dezembro de 1867, que extinguiu os concelhos de Câmara de Lobos, Santana,
Santa Cruz e Porto do Moniz, dividiu o arquipélago em 6 concelhos, com 21 paróquias civis e 50 paróquias
eclesiásticas.
(V. Organização administrativa)
.
O estabelecimento do governo municipal no arquipélago nos séculos XV e XVI, foi providencia útil aos
povos, não obstante a feição pouco democrática das leis por que se regiam os antigos municípios. Sob esse
governo novo, o povo sentiu-se mais forte e feliz porque compreendeu que, acima da vontade e dos
caprichos dos donatários e dos fidalgos, estavam as leis que fixavam as liberdades e regalias individuais. Se
os vereadores não acatavam as leis do município ou vexavam o povo com os seus actos ou resoluções, havia
o direito de recorrer para o rei, o qual nos antigos tempos raras vezes deixava de atender as queixas dos seus
vassalos oprimidos.
É de supor que os donatários não vissem com bons olhos a instalação das corporações municipais, que
vinham esbulhà-los duma parte da jurisdição que exerciam à sombra de concessões perfeitamente legais,
mas, mais prudentes que os fidalgos do tempo de D. João II, não opuseram nenhuma resistência seria à
vontade regia, deixando assim executar-se uma medida que deve ser considerada como o primeiro passo
para o aniquilamento dos privilégios da alta nobreza e o engrandecimento do poder monárquico no
arquipélago.
Munzen und Medaillen der Insel Madeira
Com este título, apareceu um artigo no
Jornal alemãoBerliner Munzblatter (Janeiro de 1895), que se ocupa das medalhas e fichas da Madeira.
Muralhas das Ribeiras
De há muito que existem muralhas nas margens dalgumas ribeiras com o
fim de obstar a que as aguas corroiam as terras ou provoquem inundações nos povoados. Em 28 de Junho
de 1613, protestou a Câmara Municipal do Funchal contra vários actos do Governador D. Manuel Pereira
Coutinho, e em especial contra a forma como ele a contrariava na direcção das obras das ribeiras «com
manifesta violação das provisões reais», e os alvarás de 4 de Janeiro de 1660, 9 de Agosto de 1747 e 18 de
Julho de 1748 ordenaram respectivamente a construção de muros de abrigo nas ribeiras da Ribeira Brava,
Santa Cruz e Machico.
Estes muros foram construídos, mas não com a necessária segurança, segundo parece, pois que em 24 de
Julho de 1756 oficiava o Provedor da Fazenda a Diogo de Mendonça Corte Real acerca da necessidade de se
proceder à reedificação dos mesmos muros.
Em 30 de Maio de 1772, foi chamado à Câmara Municipal do Funchal o capitão de engenheiros Domingos
Rodrigues Martins afim de organizar o orçamento das obras de reedificação das muralhas das ribeiras, sem
o qual não podia a mesma Câmara requerer ao Monarca a execução desse melhoramento, e a Relação dos
Estragos causados pela Tempestade que houve na noite do dia 9 de Outubro de 1803 na ilha da Madeira,
publicada a pág. 723 das Saudades da Terra, alude à destruição pelas aguas de «altas e fortes muralhas,
feitas de pedra e cal pela margem oriental e ocidental das três ribeiras, para segurança da cidade», o que
mostra que alguma coisa se fez no referido ano de 1772, ou pouco depois, para garantir o Funchal contra o
perigo das inundações.
As actuais muralhas das ribeiras da cidade foram iniciadas ou muito melhoradas em 1804, sob a direcção do
brigadeiro Reinaldo Oudinot, o qual propôs também a execução de varias obras urgentes nas ribeiras de
Santa Cruz, Machico, Porto da Cruz, Calheta, Madalena, Ponta do Sol, Ribeira Brava e Tábua, parte das
quais foram levadas a efeito. Em 9 de Dezembro de 1804, comunicava o referido brigadeiro ao Visconde de
Anadia «que as chuvas tinham produzido grandes cheias nas ribeiras, pelas quais se mostrara a eficácia e a
solidez das obras já construídas tanto no Funchal, como em Machico, Santa Cruz, Ponta do Sol e nas
freguesias da Tábua e Madalena.»
Em 1806, foram demolidas varias casas nas margens das ribeiras de João Gomes e Santa Luzia, para a
edificação das novas muralhas, e vê-se duma informação prestada em 28 de Dezembro de 1814 a António de
Araújo e Azevedo que nessa data ainda faltava realizar algumas obras nessas ribeiras e na de S. João para a
cidade ficar completamente defendida das inundações.
Uma parte da muralha da ribeira de Machico foi levantada depois da aluvião de 1842, e em 1847 e 1848
construíram-se a muralha da ribeira de Santa Luzia, que fica junto da praça do peixe, e as muralhas da
ribeira de João Gomes, que ficam junto à foz e ao Campo da Barca, ignorando nós, porém, se tais obras
foram executadas então pela primeira vez. Em 1847, fizeram-se algumas arrumações de pedra na Ribeira
Brava, e obras mais sólidas se efectuaram ai, recentemente, com o fim de proteger a vila contra o perigo das
inundações.
Murças (Rua dos)
Algures se diz que esta denominação provém de terem noutro tempo residência
habitual nesta rua alguns cónegos da nossa Sé, que no exercício das funções cultuais usam as chamadas
murças, que é um distintivo privativo dos membros dos cabidos das catedrais. Estende-se desde a rua do
Sabão até à Avenida Gonçalves Zarco. Teve primitivamente parte dela o nome de Rua do Capitão (V. este
nome).
Murganho (Mus Musculus)
Pequeno mamífero roedor muito comum na Madeira, mas não
indígena. Multiplica-se com grande facilidade e nutre-se de tudo quanto encontra. Rói os soalhos e as
portas, e abre às vezes extensas galerias dentro das casas. V. Ratos.
Murrão da Cevada (Ustilago Hordei).
Ustilaginea que ataca e destrói o grão da cevada e cujos
esporos dão a este grão o aspecto carbonaceo. Aparece em S. Gonçalo e noutras partes da Madeira.
Murrão do Trigo (Tilletia laevis)
Ustilaginea que ataca e destrói os grãos do trigo. O aspecto
carbonaceo que estes adquirem é devido à presença de numerosos esporos do fungo. O murrão aparece com
frequência nos trigais madeirenses.
Murray (Carlos)
Foi cônsul inglês na Madeira, no século XVIII. Fez construir a antiga fonte da
Senhora, no Monte, que foi destruída pela queda dum grande castanheiro em 1896, e, apesar de
protestante, mandou edificar a casa da residência paroquial na mesma freguesia e parte da dos romeiros.
Auxiliou a realização de alguns melhoramentos públicos e contribuiu também generosamente para diversas
obras em favor das classes mais desprotegidas do Funchal.
Não deixa de oferecer algum interesse o dizer-se aqui que fez publicar à sua custa um curioso opúsculo
intitulado «Avisos interessantes à humanidade ou Colecção de alguns artigos concernentes à restauração da
vida dos afogados e outros casos de morte aparente...», traduzido da língua inglesa pelo poeta madeirense
Francisco Manuel de Oliveira e impresso em Lisboa no ano de 1788.
Vid.
Leite Monteiro (Parque).
Murray (Rev. P.)
Eclesiástico inglês que herborizou na Madeira em 1894 e visitou também Portugal e
as Canàrias. Faleceu a 29 de Outubro de 1908, estando os seus herbarios, entre os quais figurava o de J. M.
Moniz, depositados hoje no jardim de Kew e no Museu Britânico. E.:
Notes on species of Lotws and
Pedrosia
. (
Journ. of Botany
, 1897).
Murta (Myrtus communis, forma lusitanica)
Arbusto ou árvore da família das Mirtaceas,
espontâneo na Madeira. Encontra-se na Ribeira de João Gomes, no vale de Machico, etc., e é cultivado em
muitas quintas. Os ramos da murta são muito empregados na ornamentação das igrejas, por ocasião das
festas religiosas, e usam nos campos espalha-los nas ruas nos dias em que hà procissões. A madeira da
murta é de um cinzento avermelhado, dura e de boa qualidade.
Museu Arqueológico
A 26 de Janeiro de 1915, resolveu a Câmara Municipal do Funchal autorizar
a remoção para o convento de Santa Clara de vários objectos que lhe pertenciam, afim de dar princípio à
fundação dum museu arqueológico, susceptível de sofrer mais tarde grande desenvolvimento, tendo sido
transportados para aí depois desta deliberação, vários objectos dignos de apreço, que se achavam
esquecidos ou desprezados nos armazéns do Município e noutras partes. Entre os objectos removidos para o
convento, contam-se o escudo e a coroa, em mármore, do convento de S. Francisco, a roda do convento das
Mercês, uma inscrição da ponte de S. João, vários quadros do palácio episcopal, os paramentos da capela do
mesmo palácio, o escudo, em mármore, da antiga cadeia, o escudo e a coroa, em mármore, do arco dos
Varadonros, a inscrição latina, em basalto da terra, do mesmo arco, diferentes artigos do extinto hospital de
S. Lazaro, as medidas antigas da oficina das aferições, o retrato do cónego Viveiros, fundador do convento
da Incarnação, etc., etc..
A guerra acintosa que a comissão administrativa da Santa Casa da Misericórdia, presidida por Francisco
Gomes de Gouveia, moveu à instituição do museu arqueológico no edifício do extinto convento e a pouca
energia com que a Câmara fez valer os seus direitos à posse de certas dependências do mesmo edifício,
deram lugar a que aquele estabelecimento estacionasse logo nos seus princípios, deixando assim de prestar
os serviços que era licito esperar dele. Em Janeiro de 1916, ainda a Câmara Municipal resolveu representar
ao Governo, solicitando a concessão de todos os artigos pertencentes ao convento de Santa Clara e
possuindo algum valor histórico, afim de serem guardados no museu arqueológico, mas esta prova de
interesse por um estabelecimento que, quando devidamente montado, bem poderia proporcionar alimento
ao espírito de indagação das pessoas eruditas, foi a ultima de que temos conhecimento, não voltando depois
disso a falar-se em acondicionar devidamente inúmeros objectos de valor que se podem deteriorar ou levar
descaminho por se acharem votados ao mais completo abandono. (1921).
Museu de Arte
Vid . Património Artístico.
Museu de Ciências Naturais
É bastante antiga a ideia do estabelecimento de um Museu de
Ciências Naturais, tendo o benemérito governador civil José Silvestre Ribeiro lançado, há perto de um
século, as bases dessa criação, para o que facultou algumas salas do Palácio de São Lourenço e auxiliou
desveladamente com o seu prestigio e com os meios de que podia dispor para a sua definitiva instalação.
Com a saída do conselheiro Silvestre Ribeiro desta ilha, o Museu, que embora fosse insuficiente e de
acanhadas proporções, constituía já uma esperança, não tardou a desaparecer inteiramente.
A este assunto, presta um apreciável esclarecimento o que deixámos ligeiramente esboçado em um jornal
desta cidade, no ano de 1934, que parcialmente vamos transcrever.
«A Câmara Municipal do Funchal, na satisfação duma antiga e reconhecida necessidade, houve por bem
criar, nesta capital do distrito, um museu de produtos das ciências naturais de caracter estritamente
regional, seguindo a esteira da primitiva iniciativa do Governador Civil José Silvestre Ribeiro, que
infelizmente não logrou uma grande duração, e completando o belo empreendimento do padre Ernesto
Schmitz, com a instalação do Museu do Seminário, o qual tem sido objecto da maior admiração e apreço,
por parte de distintos naturalistas, que a eles muitas vezes se referiram em trabalhos da mais alta cotação
cientifica.
A superabundante riqueza da fauna madeirense tem atraído, desde longa data, as atenções de muitos
homens de ciência e despertado o aprofundado estudo dos principais ramos de zoologia, determinado o
aparecimento de algumas centenas de espécies bibliográficas, publicadas em vernáculo e em várias línguas
estrangeiras.
Esses factos e outros ponderosos motivos, que com facilidade podem ser aduzidos, plenamente justificavam
a criação dum museu de historia natural, cuja semente lançada à terra, por um benemérito governador e
ilustre homem de letras, germinou e frutificou passados oitenta anos, pujante de vida e com grande
aprazimento de espírito dos estudiosos e do publico em geral, devido à feliz e arrojada iniciativa da câmara
desta cidade, que para isso fez a aquisição dum belo e vasto edifício e custeou as despesas das primeiras
instalações. Esta utilíssima criação prossegue no seu notável desenvolvimento e vai sendo a pouco e pouco
enriquecida com raros e numerosos exemplares especialmente da fauna marítima e ornitologica, o que já
hoje constitui uma colecção preciosa, que deve ser atentamente visitada e apreciada, tendo merecido as
mais elogiosas referências de pessoas profundamente versadas nos estudos das ciencias-naturais.
É bom recordar que a Câmara do Funchal criou um Museu, que deveria ser principalmente constituído por
produtos da historia natural do arquipélago. Tudo o comprova. A larga campanha que então se fez na
imprensa local, as interessantes entrevistas dum distinto oficial do exército com as varias entidades oficiais
e as individualidades mais qualificadas do Funchal, a acção persistente e eficaz que varias pessoas
desenvolveram por ocasião dessa criação, demonstram eloquentemente a nossa afirmativa.
É natural esta pregunta: não deveria ter sido criado um museu de arte? Responde-se: o estabelecimento
fundado pela Câmara compreenderia varias secções destinadas à arte, à arqueologia, à etnografia etc.,
segundo o permitissem as acanhadas condições do meio.
O que, portanto, se impunha, para começar, era a organização duma modesta secção de arte, adjunta ao
Museu Regional de Ciências Naturais, que iria sendo aumentada e enriquecida conforme as circunstancias
ocorrentes o aconselhassem. Ainda seria consentido anexar a esse museu, outras secções julgadas
necessárias e condicionadas, pelas exigências locais e pelos recursos de que o município pudesse dispor.
Veio o decreto de 7 de Março de 1932, que se ocupa apenas de museus de arte, arqueologia, etc. e que nem
remotamente se refere a estabelecimentos da natureza do Funchal. Mas estaria a Câmara desta cidade
obrigada a adaptar as condições do seu museu as disposições do novo decreto? Sem duvida que poderia
voluntariamente fazê-lo, mas nada se encontra nesse diploma que a isso a compelisse. E como então não
existia nem existe ainda lei alguma que se oponha a que uma câmara municipal estabeleça um museu nas
condições em que funciona o do Funchal, entendemos que ela procede legalmente, mantendo o seu Museu
Regional no estado em que foi criado e em que actualmente se encontra. E haverá algum preceito legal, que
proíba a manutenção duma pequena secção de arte adjunta a um Museu de Ciências Naturais?
Seria bom, seria útil, seria necessário estabelecer-se entre nós um Museu exclusivamente destinado a
cousas de arte? Pessoa alguma medianamente culta do nosso meio social a isso se oporia, e quem pudesse
realizar essa louvável ideia teria o apoio e o aplauso incondicionais de toda a gente».
A 5 de Outubro de 1933 e adjunto à Biblioteca Municipal do Funchal, instalou-se no Palácio de São Pedro,
antiga casa solarenga dos condes de Carvalhal, o Museu de Ciências Naturais, com as secções suplementares
de arte, arqueologia, etnografia etc. considerado como a satisfação de uma necessidade cultural do nosso
meio e que as palavras acima transcritas inteiramente justificam.
A sua criação e instalação no belo edifício em que se encontra devem-se principalmente a Adolfo César de
Noronha, como se verá no artigo que ao diante dedicaremos a este distinto homem de ciência.
Museu do Liceu
No edifício do liceu há um pequeno museu para instrução dos alunos do
estabelecimento, onde se encontram além duma colecção conquiliologica e outra mineralógica, uma foca e
algumas aves, peixes e exemplares botânicos. Estes objectos de historia natural foram adquiridos em 1913 e
1914, graças aos esforços do major Alberto Artur Sarmento, distinto professor de ciências naturais, tendo
havido antes disso no liceu alguns exemplares zoológicos, cujo estado de conservação jà não era bom hà
cerca de 40 anos. (1921).
Museu Oceanográfico
Em 23 de Dezembro de 1920, resolveu a Câmara Municipal do Funchal
concorrer com 200 escudos para a instalação dum museu oceanográfico e com 50 escudos mensalmente
para o custeamento do mesmo museu. Ainda se chegaram a fazer algumas obras no edifício da Santa Casa
da Misericórdia para a instalação do projectado museu, as quais tiveram de ser abandonadas por se ter
reconhecido que com a exígua verba votada pela Câmara Municipal nada se podia fazer que interessasse à
ciência, sobretudo tratando-se da oceanografia. (1921).
(V. este nome).
Museu do Seminário
O chamado museu do Seminário, o único de incontestável valor cientifico
que existe no Funchal, foi criado em 1882 pelo sacerdote alemão padre Ernesto Schmitz, então professor
daquele estabelecimento de instrução. Esteve por largos anos anexo ao Seminário Episcopal, sendo de
recente data a sua transferência para a casa ao largo do Visconde do Ribeiro Real, junto da residência do
Prelado Diocesano, onde se acha presentemente (1921).
O museu do Seminário é de historia natural, e nele estão representados a fauna, a flora e os minerais do
arquipélago. Pelo que respeita à fauna, são dignas de menção as colecções ornitologicas, ictiologicas e
conquiliologicas, e ainda as de coraliarios e as de alguns grupos de insectos; e pelo que respeita à flora,
recomendam-se pela sua importância as colecções de muscineas e fanerogamicas, feitas pelo falecido James
Y. Johnson, as de líquenes e fungos feitas pelo padre Jaime de Gouveia Barreto e a de algas marinhas,
organizada pelo padre Ernesto Schmitz. A colecção de fanerogamicas tem sido muito melhorada nestes
últimos tempos, graças às pesquisas do jovem botânico madeirense José Gonçalves da Costa.
O padre Ernesto Schmitz, que tantos serviços prestou ao museu do Seminário, dirigiu-o até Junho de 1908,
sendo actual director do mesmo estabelecimento o padre Jaime Barreto, um distinto naturalista, que tem
sabido conservar e fazer progredir a obra iniciada pelo seu ilustre mestre (1921).
O museu de ciências naturais do Seminário Diocesano acha-se actualmente, instalado no edifício da
Incarnação, sob a proficiente direcção do cónego Jaime de Gouveia Barreto, professor e reitor do mesmo
Seminário.
Musgos
O trabalho do professor A. Luisier, intitulado
Les Mousses de Madère
, assinala 189 espécies de
Musgos no nosso Arquipelago, sendo algumas delas comuns, tais como o
Dicranum Scottianum
, o
Fissidens asplenioides
, o
F. serrulatus
, a
Weisia viridula
, o
Trichostomu
m,
brachydontium
, o
Glyphomitrium polyphyllum
, o G.
nigricans
, a
Funaria hygrometrica
, o
Haplodontium Notarisii
, o
Epipterygium Tozeri
, o
Bryum capillare
, o
Mnium undulatum
, a
Bartramia stricta
, o
Polytrichum
juniperinum
, o
Thamnium alopecurum
, o
Scleropodium illecebrum
, etc., etc..
V.
Cardot, Dixon, Geheeb, Juratzka, Luisier, Mitten, Schiffner e Winter.
Música
«A musica comum a toda a ilha da Madeira, dizia em 1869 o bem conhecido escritor russo
Platão de Vakcel, reduz-se a dois ou três géneros de trovas, acompanhadas de violas, rajões e machetes, dos
quais se tiram sempre as mesmas modulações, ora em acordes simples, ora em dobrados. Nos campos
existem algumas cantigas particulares a certas localidades e aplicadas, aos diversos géneros de trabalhos
campestres: algumas delas são de notável parecença com os cantos árabes, tendo não só a monotonia
destes, mas até os seus ornamentos, formados de sucessões de intervalos mais pequenos que os semi-
tonos».
Tendo tido outrora a cidade do Funchal a sua mouraria e sendo tradição que na Ponta do Sol viveram
muitos mouros, não é para estranhar que esses indivíduos, nos quais domina quasi sempre o sangue árabe,
deixassem em certas cantigas vestígios notáveis da sua estada na ilha, como os deixaram na antiga
indumentária e nos caracteres antropológicos duma parte da população madeirense. Os árabes, refere um
autor, não passam nunca dum tom a outro, qualquer que seja a distancia que os separe, subindo ou
descendo, sem percorrer todos os intervalos intermediários, observando-se estas glissades, nem sempre
agradáveis a um ouvido europeu, nalgumas musicas dos nossos campos, introduzidas provavelmente na
ilha durante o século XV.
«O povo madeirense, diz ainda Platão de Vakcel, tem muita inclinação para adoptar melodias estrangeiras,
vulgarizadas entre ele pelas bandas militares ou de artistas e os músicos ambulantes, inclinação que mostra
que o canto nacional dos madeirenses não tem essa originalidade vigorosa, própria ao carácter nacional do
povo, o qual possuindo tal musica, nunca poderia familiarizar-se com outra cujo cunho diferisse da sua. Um
camponês russo, por exemplo, não conservará nunca na memória melodia que não tenha o carácter
individual da sua própria musica.»
A facilidade com que o povo madeirense aprende o que houve tocar às filarmónicas, hoje muito
disseminadas na ilha, é extraordinária, não sendo raro ver rapazes ainda na puerícia, reproduzir, cantando
ou assoviando, trechos de musica duma relativa dificuldade. Estes trechos de musica são, porém, ou
esquecidos facilmente, ou substituídos por outros, ao passo que os cantos madeirenses se mantêm
inalteráveis, com o seu cunho e cadência mouriscos, tanto do agrado do povo da nossa terra. Os fados
importados de Portugal, são as únicas composições musicais desconhecidas de nossos antepassados, que os
madeirenses adoptaram e não podem já ser esquecidas, tanto são elas do agrado do nosso povo e falam à
sua imaginação.
O braguinha ou machete de braga, a requinta de braga, o rajão, a viola francesa, a viola de arame e a rabeca,
são os instrumentos mais vulgarizados agora na ilha e aqueles que figuram sempre nas romarias, tanto do
agrado dos madeirenses. Frutuoso referindo-se à peregrinação que ainda hoje é uso fazer-se à igreja do
Faial, diz que os romeiros fazem muitas festas de comedias, danças e musicas de muitos instrumentos de
violas, guitarras, frautas, rabis e gaitas de fole», mas estes dois últimos instrumentos são agora
desconhecidos na ilha, tendo origem mourisca os rabis ou arrabis de que fala o historiador das ilhas.
A flauta é hoje muito pouco conhecida nos nossos campos e, do mesmo modo que a rabeca, é sempre muito
mal tocada. As concertinas, que aparecem às vezes nas romarias, só merecem referência pela maneira
desastrada como são tocadas.
Pelo que respeita à musica sacra, diz Platão de Vakcel que a que se cantava em antigos tempos na Sé
Catedral, devia ser a melhor que então havia no reino». «Acha-se no cabido da Sé, acrescenta o mesmo
escritor, um livro de missas, impresso em Antuérpia no ano de 1639, da composição do célebre Duarte
Lobo, e decerto que não era este o único livro de musica que então ali haveria.
Conta Frutuoso que D. Jorge de Lemos, nomeado bispo do Funchal em 1558, trouxe comsigo um mestre de
capela, e que em seu tempo «lustrou muito a musica naquela terra, porque o bispo favorecia os cantores e
músicos, por ele ser muito de sentido.» Havia em Santa Cruz, na época em que foram escritas as Saudades,
«muitas mulatas, e mui bem tratadas, e de ricas vozes, que é signal da antiga nobresa de seus moradores.»
Lê-se ainda nas Saudades da Terra, que os cónegos Gaspar e Francisco Coelho, naturais da Ribeira Brava,
«foram estremados homens de ricas vozes», tendo sido o primeiro mestre da capela da Sé, e o segundo
mestre da capela real, na corte, e que Simão Gonçalves da Câmara, o magnífico, possuíu «uma capela de
muitos cantores e capelães, que competia com a de El-Rey», tendo sido nela mestre de capela Diogo de
Cabreira, castelhano muito dextro na arte de canto e de orgão, e tal que o próprio Rey lhe pedia para cantar
na sua capela.»
O cargo de mestre de capela só parece ter sido criado oficialmente em 1566, ao passo que o cargo de
organista ou tangedor de orgão já existia em 1554. Lê-se numa carta escrita pelo rei D. Manuel ao deão da
Sé Nuno Cão, que convinha que os cónegos e moços do coro soubessem «canto do organo para os domingos
e festas se officiar com as missas com canto do organo».
Em 1613, ofereceu Filipe II um orgão à Sé do Funchal, e nos tempos do bispo D. Jeronimo Fernando veio
para a mesma igreja um grande orgão, feito em Cordova pelo mestre João Manuel, tendo sido o padre
António Gonçalves, beneficiado de S. Pedro, quem o afinou e dirigiu a sua colocação no respectivo coro.
«Poucos são os nomes dos músicos madeirenses, diz Platão de Vakcel, que chegaram até nós. Na segunda
metade do século XVII, foi professor de musica no Funchal, o cónego Manuel Fernandes, cujo discípulo,
Francisco de Valhadolid, natural desta cidade, chegou a ser mestre de capella no seminàrio archiepiscopal
de Lisboa, onde falleceu em 1770. Possuía este um rico cartório de obras musicais e era compositor
afamado. Fez, por exemplo, uma musica dezasseis vozes. Pena é que nada delle chegasse a imprimir-se.
«Conhecemos os nomes dalguns mestres de capela da Sé do Funchal: padre Manuel de Almeida (1618-
1651); o seu successor, o padre Miguel Pereira, fallecido em 1682; António Pereira da Costa, compositor de
musica, de quem ha uns Concertos grossos para instrumentos de arco, publicados em Londres e o qual
morreu em 1770; seu successor Luiz Antonio; Antonio José de Vasconcellos que vivia em 1800; e João
Pedro Correia, fallecido em 1840, e de quem é discípulo o actual mestre de capela, o padre Manuel Joaquim
dos Passos, reitor do seminário e professor de cantochão neste estabelecimento.
«0 bispo Athaide, compositor de talento, trouxe comsigo para a Madeira, em 1812, muitos músicos e entre
elles José Joaquim de Oliveira Paixão (fallecido em 1833) e um discípulo de frei José Marques–João
Fradesso Belo (1792-1861). 0 primeiro era rabequista de mérito e mestre de musica no seminàrio, e o
ultimo, mestre da capela da Sé e também professor no seminário. Ambos escreveram muita musica sacra,
que revela mais conhecimento da arte de escrever que verdadeira inspiração».
Depois do padre Manuel Joaquim dos Passos, foram mestres da capela da Sé do Funchal– Eduardo Maria
Frutuoso da Silva, António de Melo e Francisco de Vila y Dalmau e o padre Manuel Joaquim de Paiva.
Eduardo Maria Frutuoso da Silva, que faleceu a 4 de Novembro de 1878, possuía uma das melhores vozes
que temos conhecido no Funchal e deixou algumas composições sacras de certo valor (1921).
Como autores de composições sacras, não devem também ser esquecidos frei Manuel Gaspar, o cónego
Liborio José Furtado, o padre Barros, da Silveira (falecido em 1864), o padre Francisco Drumond de
Vasconcelos (falecido em 1864), o padre José Maria de Faria e António de Melo, tendo este ultimo deixado
alguns trabalhos de valor, entre os quais se conta o Miserere e uma composição dedicada a Leão XIII (1921).
No segundo e terceiro quartéis do século XIX, conheciam-se no Funchal os seguintes compositores de
musica profana: Rafael Coelho Machado, que se ausentou para o Brasil em 1838; António Maria Frutuoso
da Silva (falecido em 1874), que dirigiu uma sociedade de concertos que existiu de 1840 a 1848; Duarte
Joaquim dos Santos, natural de Elvas e falecido no Funchal a 24 de Maio de 1855, com 54 anos, que
escreveu muitas peças para piano, impressas em Londres, e alguma musica de igreja, que ficou manuscrita;
Ricardo Porfirio da Fonseca, falecido em 1855, que compôs um salmo para a igreja anglicana, onde foi
organista, e deixou vàrias outras composições; e António José Bernes, falecido em Portugal por 1880, que
escreveu muita musica brilhante para piano. Acerca deste ultimo, dizia em 1869 Platão de Vakcel que era o
único compositor que merecia até certo ponto este nome na Madeira.
Ao tempo em que Vakcel visitou a ilha, recomendavam-se ainda pelo seu talento e conhecimentos
musicais–Cândido Drumond de Vasconcelos, insigne tocador de machete, Julio da Silva Carvalho,
violinista, Agostinho Martins, violinista, José Sarmento, pianista e organista, Artur Sarmento, concertista,
D. Maria Paula Rego, pianista e harpista, D. Carolina Dias de Almeida, cantora, e D. Júlia de França Neto,
pianista e cantora premiada no conservatório de Genebra, «glória musical da Madeira e um dos talentos
musicais que mais honram Portugal», como dizia em 1869 o mesmo Vakcel. Hà quem se lembre de ter
ouvido cantar D. Julia Neto nuns concertos a beneficio dos pobres, que se realizaram no palácio de S.
Lourenço em princípios do ano de 1866 e noutras festas realizadas anterior e posteriormente.
D. Julia de França Neto, conhecida já em 1855 como cantora muito distinta, faleceu no Funchal, a 14 de
Maio de 1903.
D. Amelia Augusta de Azevedo (V.
Fotografia
), que tirou o curso do conservatório de Lisboa e deu depois de
1885 alguns concertos em Lião (França), foi uma distinta tocadora de machete de braga, tendo-se feito ouvir
em muitas reuniões realizadas no Funchal desde 1860 até 1866, e Manuel Cabral, António José Barbosa,
Agostinho Martins, D. Virgínia Baptista e Diogo Sarsfield tocaram também com a maior correcção aquele
instrumento ou o machete rajão, tendo sido seus discípulos muitos dos actuais machetistas da nossa terra.
Entre os bons músicos de há cinquenta ou sessenta anos, não podem também ser esquecidos os violinistas
Nuno Rodrigues, Anselmo Serrão e Eduardo Gomes da Silva, (teve o 1º prémio do conservatório da Bélgica)
e o violoncelista e contrabaixo Miguéis, e, entre os modernos, lembra-nos assinalar aqui os nomes de Nuno
Graciliano Lino, violinista e pianista, Guilherme Honorato Lino e Antonio Rosa Caires, violoncelistas,
Alfredo Lino, pianista, William Carlton Wilbraham, violinista, Manuel Passos de Freitas, bandolinista,
Antonio Vieira de Castro, pianista, capitão Edmundo da Conceição Lomelino, pianista e autor duma valsa
intitulada Desalento, e D. Elisa Drumond Carregal, D. Maria Adelaide de Meneses, D. Floripes Gomes, D.
Elisa Gorjão Caires, D. Maria Amalia Colares Mendes Rocha de Gouveia, D. Maria da Conceição de Meneses
Santos Pereira, D. Angelina Pereira Freitas, D. Palmira Pereira, D. Leonor Ferraz Leça e D. Maria Helena
Portugal Azevedo Ramos, pianistas(1921).
Referindo-nos à musica profana na Madeira, não podemos deixar de mencionar o nome do major de
artilharia João dos Reis Gomes, o distinto autor da obra A Musica e o Teatro. Não é o major Reis Gomes um
musico na verdadeira accepção da palavra, pois que não nos consta que se tenha dedicado com desvelo ao
estudo de qualquer instrumento, mas é um teórico de alto valor, um filosofo da arte e um profundo
conhecedor das origens e da historia da musica.
O seu livro, fruto de mais de dez anos de observações e estudos conscienciosos, é não só um trabalho
filosófico, como também um repositório de informações variadas sobre as condições da arte musical, a
musica e a vida passional, a musica sinfónica e a arte, etc., etc..
A Musica e o Teatro
é um livro que honra não só quem o escreveu, mas também a Madeira, pois que é
uma prova bem evidente de que hà entre nós quem saiba tratar com proficiência as mais transcendentes
questões de arte e vulgarizar princípios científicos de que os próprios músicos andam as mais das vezes
alheados.
Depois que Platão de Vakcel escreveu o artigo a que por diferentes vezes nos temos referido, notabilizaram-
se na musica sacra, como cantores, primeiramente o cónego Augusto José de Faria e os padres António
Vieira, José Ferreira e Manuel Nunes, todos eles baixos, e António José Barbosa, tenor, e mais tarde Jacinto
Augusto Pereira Brasão, tenor, o padre José Bebiano da Paixão, o padre Eduardo Pereira e José Ferreira,
barítonos, e Abel da Silva Moniz, baixo, este ultimo falecido em 1921, contando apenas 46 anos de idade.
Fazem parte dos coros da capela da Sé e da Schola Cantorum, proficientemente dirigida pelo cónego Manuel
Mendes Teixeira, os melhores cantores de musica sacra que existem presentemente na ilha. (1921).
Existem actualmente 14 bandas de musica na ilha da Madeira, sendo 3 no Funchal, incluindo a banda de
infantaria n.° 27, 2 em Câmara de Lobos, 1 no Campanário, 2 na Ribeira Brava, 1 na Ponta do Sol, 1 no Paul
do Mar, 1 no Faial, 2 em Machico e 1 em Santa Cruz. Em 1869, conhecia-se em toda a ilha, além da banda do
batalhão de caçadores n.° 12, a Filarmónica dos Artistas Funchalenses, fundada em 18 de Fevereiro de 1850
(1921).
Há no Funchal vários grupos musicais, constituídos por curiosos, destacando-se entre eles o que é dirigido
pelo Dr. Manuel Passos de Freitas, advogado e musico distintíssimo. Este grupo, que teve ocasião de visitar
duas vezes o vizinho arquipélago das Canárias, onde conquistou merecidos aplausos, tem além do seu
regente, outros elementos de alto valor, de que muito se orgulha a nossa terra (1921).
Conhecem-se na musica profana alguns cantores madeirenses de certo mérito, mas a musica vocal tem na
ilha muito menos cultores do que a instrumental. Em 1921, constituiu-se no Funchal um orfeão sob a
direcção do Dr. Manuel Passos de Freitas, que já por diferentes vezes se apresentou brilhantemente no
teatro Dr. Manuel de Arriaga, e existem entre nós várias damas e cavalheiros possuidores de belas vozes,
entre os quais mencionaremos os seguintes, que o nosso publico tem tido ocasião de ouvir e aplaudir
nalguns concertos: D. Gabriela de Freitas Martins e D. Matilde Pestana, sopranos, João A. Fernandes,
barítono, Tristão da Câmara, tenor, Luis Pestana, barítono e tenente Carlos Silva, baixo. É madeirense o
distinto tenor Nuno Lomelino Silva, que possui o curso de canto no conservatório de Milão, em Itália, e a
que a imprensa italiana tem feito elogiosas referências, pondo em relevo os seus apreciáveis dotes artísticos
como cantor.
Houve já no Funchal uma escola de canto coral sustentada pela Câmara, mas que durou pouco tempo. Foi
inaugurada em 1885 e teve por professor o falecido Francisco de Vila y Dalmau.
Supunha-se outrora que o clima um tanto húmido da Madeira constitua um obstáculo ao aparecimento de
boas vozes, mas parece demonstrado hoje que a cultura vocal se pode fazer aqui como em qualquer outra
parte e que só faltavam boa vontade e bons dirigentes para melhorar as condições estéticas da voz e fazer
desenvolver entre os madeirenses certos dotes artísticos que todo o musico deve possuir. A maior parte dos
nossos cantores actuais tomaram lições com o professor Julio Câmara, que tem passado alguns tempos no
Funchal, e, a maneira como alguns deles se têm apresentado em publico, salienta as aptidões especiais dos
madeirenses para a musica e a possibilidade que há de criar entre nós uma pléiade de bons artistas, quando
se saibam aproveitar e orientar convenientemente os recursos vocais de muitos dos nossos conterrâneos
(1921).
Pelas valiosas informações que encerra e pela incontestada autoridade do ilustre professor Luís de Freitas
Branco, vamos transcrever alguns trechos da interessante palestra que ele proferiu ao microfone da
Emissora Nacional no dia 24 de Maio de 1937.
«Costumo falar apenas do meu oficio, e por isso V.
as
Ex.
as
não estranharão que eu escolha para tema da
minha palestra um assunto relativo à arte dos sons. «Músicos Madeirenses» se intitula a minha palestra e,
como V.
as
Ex.
as
vão ver, eles são mais numerosos do que se poderia julgar.
Começarei pelos primeiros tempos da ocupação da Ilha da Madeira:–Simão Gonçalves da Câmara, o
Magnífico», terceiro Capitão e Donatàrio da Madeira, que morreu em Matozinhos, concelho de Bouças, em
1530, quàsi na miséria, fora, nos seus tempos àureos, amador de música muito esclarecido, organizando no
Funchal uma opulenta capela com numerosíssimos capelães e cantores, rivalizando em qualidade e
quantidade com os da capela da Corte, que naquele tempo eram afamados. Foi mestre de capela no
Funchal, sob a administração de Simão Gonçalves, o notável compositor e organista Diogo de Cabreira.
O Bispo do Funchal D. Jorge de Lemos musico consumado, reorganizou ele próprio a capela da Sé do
Funchal, em 1558, dotando-a com todos os elementos necessários para o seu funcionamento. O cargo de
organista da Sé jà aparece em 1554, e o de mestre de capela surge pela primeira vez em 1566. Por esta época,
foi mestre da capela real na corte, o cónego Francisco Coelho, natural da Ribeira Brava.
No século XVII, encontramos dois músicos insignes na Ilha da Madeira; são eles os padres Manuel de
Almeida e Miguel Pereira. Em 1770, morre em Lisboa o madeirense cónego Manuel Fernandes, que ao
tempo exercia na corte as altas funções musicais de mestre de capela do Seminário arquiepiscopal, onde foi
professor do célebre musico espanhol Francisco Valladolid. É da mesma época o célebre mestre de capela da
Sé do Funchal, António Pereira da Costa cujos «concertos», para orquestra de arco, foram publicados em
Londres.
Recorda-me ouvir a pessoa de família mencionar o nome de José Fradesso Belo, que se notabilizou como
mestre de capela da Sé do Funchal e professor de música. Procurando informações sobre este musico
madeirense, consegui apurar que nasceu em 1792 e faleceu em 1861. Pode-se afirmar, de um modo geral,
que os mestres de capela da Sé acumularam esse cargo com o de professor de musica no Seminário do
Funchal.
Mencionarei agora os mais notáveis compositores madeirenses de música sacra no século XIX. Foram
eles:–Frei Manuel Gaspar, Cónego Libório Furtado, Padre Francisco Drumond de Vasconcelos e António
Melo. São mais modernos os seguintes autores - de música profana: -- Rafael Coelho Machado, Ricardo
Joaquim da Fonseca e José Bernes.
De 1840 a 1848, existiu no Funchal uma «Sociedade de Concertos», no género da que poucos anos antes
fora fundado em Lisboa por João Domingos Bomtempo.
A Sociedade de Concertos do Funchal foi criada e dirigida pelo notável músico António Frutuoso da Silva.
Em 1885, funcionou também uma escola de canto no Funchal. Alguns anos antes, um excelente violinista
austríaco, Ernest Machek, vivera, por motivos de saúde, no Funchal onde deu concertos e formou
discípulos, entre eles, os dois amadores João e Fidélio de Freitas Branco, o primeiro dos quais foi critico
musical nos jornais de Lisboa: «Vanguarda» e «Luta».
Do período contemporâneo, mencionarei, de entre profissionais e amadores, mais os seguintes músicos
madeirenses: Júlio da Silva Carvalho, José Sarmento, Artur Sarmento, D. Maria Paula Rego, D. Silvana de
Sant'Ana e Vasconcelos, D. Carolina de Almeida, D. Júlia de França Neto, D. Amélia Augusta de Azevedo,
Nuno Rodrigues, Gomes da Silva que alcançou um prémio num Conservatório da Bélgica, Nuno Graciliano
Lino, Guilherme Lino, Guilherme Wilbraham, Antonio Vieira de Castro, capitão Edmundo Lomelino, D.
Elvira Carregal, D. Amália Rocha de Gouveia, D. Conceição dos Santas Pereira e D. Palmira Lomelino
Pereira.
Alguns anos antes da Grande Guerra, o tenor Júlio Câmara, hoje professor de canto no Conservatório do
Porto, fundou e dirigiu no Funchal uma escola de canto. D. Angélique de Beer Lomelino, também dirigiu no
Funchal cursos particulares, de canto e piano, vindo mais tarde a ocupar o cargo de professora de piano do
Conservatório de Lisboa, cargo que exerceu até 1921.
Existem na Madeira numerosas bandas civis e vários «grupos» musicais, o mais célebre dos quais é o
«Septeto Passos de Freitas», dirigido pelo Dr. Manuel Passos de Freitas, vulto de destaque social e artístico
na Madeira.
Para terminar a série das celebridades musicais madeirenses da época contemporânea, mencionarei: Reis
Gomes, autor de notáveis obras de musicologia que estão publicadas, Francisco Jorge de Sousa Baía,
pianista e compositor, professor e director da Secção de Música do Conservatório de Lisboa, Alexandre de
Bettencourt, notàvel professor de violino do Conservatório de Lisboa, Matilde de Bettencourt, professora de
canto em Paris; Nuno Lomelino Silva, tenor de larga e aplaudida carreira no estrangeiro, e, finalmente, o
Maestro Pedro de Freitas Branco, antigo aluno do Liceu do Funchal, que os meus Ex.
mos
auditores da
Emissora Nacional devem conhecer perfeitamente.
Que os meus Ex.
mos
auditores da Madeira, a quem novamente saúdo, me perdoem a extensão da palestra,
pela satisfação e pelo orgulho que devem sentir ao verificar como são numerosos e notáveis os músicos
madeirenses».
Ao assunto deste artigo, fornecem elementos apreciáveis os dois trabalhos «Cantares e Tocares da Ilha e
trovas e Bailados da Ilha», do jornalista Carlos Santos.
Mutualismo
No artigo «Associado 4 de Setembro de 1862» (I-97) demos uma breve noticia acerca
das mais antigas diligências empregadas para a implantação dos princípios mutualistas entre nós, que tão
vagarosamente tem produzido os seus apreciados frutos, se exceptuarmos a associação que fica citada e que
é um admirável padrão a atestar a acção benéfica desses princípios. Sobre este assunto é digno de ler-se um
desenvolvido artigo publicado no numero do
Trabalho e União
de I de Setembro de 1917. Leia-se também o
opúsculo «Mutualismo» da autoria do Dr. Álvaro Reis Gomes.
Nabo (Brassica campestris, var. rapifera)
Crucifera muito cultivada nas hortas madeirenses
por causa das suas raízes alimentares. A Brassica Napus, var. esculenta, também é conhecida pelo nome de
nabo, mas é muito menos comum do que a B. campestris.
Nacional (0)
0 primeiro numero deste periódico apareceu a 1 de Novembro de 1918 e o último, o n.°
23, a 26 de Janeiro de 1919.
Nansen (F.)
V. Expedições cientificas, pág. 428 do vol. I deste Elucidário.
Não-me-deixes (Aster chinensis)
Composta muito cultivada nos jardins da Madeira e cujas
flores variam muito de cor.
Napoleão
O desastre de Waterloo levara Napoleão a abdicar e a deixar a terra da França. Apesar das
duvidas e hesitações que então agitavam o seu espírito, parece que tornara enfim a resolução definitiva de
dirigir-se aos Estados Unidos da América. A 16 de Julho de 1815, embarcou em Rochefort, tomando
voluntariamente lugar a bordo da nau da marinha britânica Bellerophon e acolhendo-se confiante e
resignado à fidalga e generosa hospitalidade inglesa. Ao chegar, a 24 de Julho, ás costas da Inglaterra,
reconheceu, desiludido, mas já tardiamente, o triste e cruel destino que o esperava-o exílio e a morte nos
ásperos e solitários rochedos de Santa Helena.
A 7 de Agosto, passou Napoleão da Bellerophon para a nau almirante Northumberland e nesse mesmo dia
tomou esta o rumo sul, acompanhada das fragatas Havannah, Ceylon e Bucephalus e dos brigues Peruviana,
Zephiro, Zenobia, Ferrol, Icarus e Redpole. A esquadra ia comandada por George Cockburn e conduzia o
regimento n.° 53 de infantaria inglesa, que ficaria de guarnição em Santa Helena. A comitiva do imperador
era composta do general Bertrand, esposa e filhos, conde de Las Casas e família, generais Montholon e
Gourgaud, um capitão de marinha, dois ajudantes e alguns criados.
No dia 22 de Agosto, avistaram o arquipélago da Madeira. Ao passarem entre o Porto Santo e as Desertas, o
medico da Northumberland fez notar ao conde de Las Casas os traços de semelhança que encontrava entre a
ultima daquelas ilhas e as rochas nuas e escalvadas de Santa Helena. Napoleão, na tolda da nau, olhava
absorto as ravinas escarpadas das Desertas, quando o conde se aproximou dele e lhe comunicou a
observação do médico de bordo. É possível que pela mente do imperador tivesse passado idêntico
pensamento, como também é provável que, ao ver a vegetação luxuriante da Madeira, recordasse o
contraste flagrante das belezas incomparáveis desta ilha e a benignidade do seu clima com a desoladora
aridez de Santa Helena e as condições climatéricos de tão inhóspitas regiões. Napoleão nada disse a Las
Casas, esboçando apenas um ligeiro sorriso e encolhendo desdenhosamente os ombros.
Pela noite de 22 de Agosto, surgiu a esquadra em frente do Funchal, mas parece que só fundeou no dia
imediato. Todos os navios deram fundo na nossa baía, com excepção da nau almirante Northumberland,
que singrava ao largo e a não grande distancia do porto. O navio que conduzia o imperador não devia tocar
em porto algum durante a sua derrota, nem permitir a seu bordo a entrada de qualquer pessoa estranha à
sua equipagem, segundo as rigorosas instruções do almirantado inglês.
O dia 23 de Agosto foi de um calor tão intenso como não havia memória entre os moradores desta ilha. Era
o conhecido leste, que desta vez vinha acompanhado dum violento temporal. O povo na sua supersticiosa
ingenuidade, atribuía o fenómeno atmosférico á passagem de Napoleão. O Atila, que assolara a Europa á
frente dos seus invencíveis exércitos, apesar de prisioneiro e despojado de todo o seu poderio e grandeza,
fizera ainda desencadear a rija ventania, que entre nós causara tantos prejuízos á agricultura e danificara
muitos edifícios e casas de habitação!
O mar agitara-se e foi difícil a comunicação com os navios da esquadra. Diz uma testemunha presencial que
o vento era forte, a vaga muito grossa e que por isso o imperador passara bastante incomodado.
Conseguiram no entretanto abastecer-se de mantimentos e refrescos, e entre as provisões recebidas
contavam-se «laranjas não maduras, maus pêssegos, peras sem gosto e uvas excelentes.»
Afirma-se que o cônsul inglês na Madeira, Henrique Veitch, soubera previamente da passagem de Napoleão
pela Madeira e logo tomara a resolução de empregar todas as diligências para conseguir vê-lo e falar-lhe.
Apesar do estado do mar e da distancia a que a Northumberland se achava da terra, conseguiu abordar o
navio e falar ao almirante Sir George Cockburn, de quem era amigo pessoal e a quem expôs o grande desejo
que nutria de saudar o vencedor de Austerlitz e de Marengo. Pretendeu o almirante dissuadir Veitch de
qualquer tentativa nesse sentido, com o pretexto de que Napoleão se tornara em extremo irascível e até
intratável, ainda mesmo para com as pessoas da sua própria comitiva.
Quis a boa fortuna do cônsul inglês que naquele momento aparecesse um dos ajudantes de Bonaparte, a
quem Veitch foi apresentado e a quem logo disse que desejava ardentemente dirigir as suas mais respeitosas
saudações a Sua Majestade Imperial. Era a primeira vez que a bordo da Northumberland se proferia o
tratamento de majestade dirigido ao imperador, pois que só era permitido trata-lo pelo simples nome de
general Bonaparte. Parece que foi este o talismã que quebrou o encantamento e levou Veitch à presença de
Napoleão. Recebeu afavelmente o representante da Inglaterra na Madeira e, ao oferecimento que este fizera
dos seus serviços, respondeu que lhe seria muito agradável a remessa de alguns livros e de frutas desta
formosa ilha. Henrique Veitch correspondeu gentilmente aos desejos de Napoleão, enviando-lhe uma
magnífica oferta de frutas, doces e vinhos velhos. Tendo o imperador enviado ao cônsul alguns napoleões
em ouros destinados ao pagamento do bote que conduzira os refrescos a bordo, conta a tradição que Veitch
os lançara na pedra angular da igreja anglicana na rua da Bela Vista, ao abrir-se o alicerce para a construção
daquele templo.
Pela tarde do dia 24 de Agosto de 1815, toda a esquadra se fez de vela e tomou o rumo do seu destino,
passando a 27 pelas Canárias, onde não fez porto, e a I de Setembro pelas alturas de Cabo Verde, tendo
fundeado em Santa Helena a 15 do mês de Outubro seguinte.
Napoleão nasceu a 15 de Agosto de 1769 e morreu na ilha do seu desterro a 4 de Maio de 1821.
É sobremaneira interessante o que se encontra no «Diário» de J. R. Glover, secretario do almirante Georges
Cockburn, comandante da nau Northumberland, que conduzia Napoleão para o exílio. Esse livro foi
publicado em Oxford, no ano de 1931, pelo coronel H. A. Newel e dele extraiu resumidamente algumas
páginas o distinto escritor madeirense padre J. Vieira Caetano, de que vamos transcrever os principais
trechos referentes ao nosso assunto.
«23 de AGOSTO.-O vento rodou para leste e tornou-se muito quente e desagradável. Ás duas horas foi
avistada a ilha do Porto Santo e pouco depois a da Madeira. Bonaparte nesse dia não passeou antes do
jantar.
A' refeição, apareceu pensativo e mal disposto. Fez algumas perguntas ao almirante relativas à Madeira,
quanto à sua extensão, há quanto tempo havia sido descoberta e por quem. Imediatamente depois do jantar,
foi para a popa e observou a Ilha, muito particularmente quando navegavamos ao longo da sua costa, até
que chegámos à baia do Funchal, quando era já escuro. Depois de jogar um pouco com Madame Montholon,
retirou-se para a sua «cabine», evidentemente abatido. Estas palavras são traduzidas do Diário quasi
literalmente.
Mostram-nos o vencedor de Marengo e Austerlitz, melancólico e abatido. Não é para admirar, em quem se
viu no zénite da glória e agora navegava para o exílio, passando dos esplendores de Paris e Versalhes para a
solidão da longínqua ilhota de S. Helena. A' vista da costa madeirense, Bonaparte (o secretário de bordo não
lhe dá outro tratamento) vai aprendendo a história e geografia da Madeira, que ignorava, como se vê pelas
perguntas que fez ao almirante de Sua Majestade Britanica.
24 de AGOSTO - «Ficámos na baía do Funchal muito afastados do porto. A tripulação foi a terra procurar
água e mantimentos e eu também fui buscar algumas frutas e vinhos.
Mr. Veitch, cônsul de Sua Majestade, visitou o navio, fazendo-lhe Bonaparte muitas perguntas a respeito da
Ilha, seus produtos, altura acima do nível do mar, população, etc..
Mr. Veitch jantou a bordo; depois do jantar, Bonaparte passeou com ele e com o almirante considerável
tempo, conversando sobre tópicos gerais, depois do que se retirou para a cama, sem passar pela mesa do
jogo».
Neste segundo dia, a fragata toma provisões, o cônsul inglês Mr. Veitch vai a bordo. Napoleão conversa e
continua a instruir-se sobre a Madeira, recolhendo ao leito, sem a partida de jogo.
Se foi neste dia que recebeu a visita da donzela funchalense, transmitida pela tradição, que deu origem ao
belo conto histórico do Sr. Major Reis Gomes, o «Anel do Imperador», não o diz o Secretário no diário de
bordo, nem a visita minorou o desanimo do exilado.
25 de AGOSTO - «Tivemos a continuação do violento e muito desagradável siroco, que começou ao
avistarmos a Madeira; e tal era a superstição dos habitantes que atribuíam este vento destruidor a
Bonaparte que se achava no porto; estavam muito apreensivos pelas suas colheitas que, já quási maduras,
seriam perdidas pela metade».
Continua o secretário Mr. Glover afirmando que devido a mar mau e tempo desagradável levaram o dia, até
a noite, a se fornecerem de mantimentos. Era já escuro quando se fizeram de vela para o sul.
Acerca de Bonaparte, acrescenta:
O calor do Leste, a desagradável natureza do vento, o balanço da nau que era muito considerável,
evidentemente afectaram o General. Ao jantar, comeu muito pouco e estava desanimado.
Nessa noite, jogou o Vinte e um cerca de meia hora somente e retirou para a cama».
Neste dia, retirou o navio da Madeira, que Napoleão viu pela primeira e última vez.
No Diário de bordo, não se faz alusão às moedas em oiro que o Imperador deixou na Madeira, em paga de
frutas e de alguns livros que pediu.
Mas o autor do «The English Church in Madeira», menciona-as e narra que foram depositadas pelo cônsul
Veitch, nos alicerces da igreja anglicana, quando foi lançada a primeira pedra do edifício. Viu isso
confirmado numa carta escrita a 5 de Janeiro de 1860 por Mrs. Minet, da família Cossart, a sua irmã Mrs.
Leacock.
Aquela diz que, sendo pequena, viu o cônsul Mr. Veitch, colocar algumas moedas de oiro, recebidas de
Napoleão, debaixo da primeira pedra, procedendo depois à aposição do selo.
Nessa tarde de 25 de Agosto, partiu o Imperador dos franceses do porto do Funchal, cujo panorama
surpreendente contemplou, para o retiro de Santa Helena, onde foi meditar a nulidade das grandezas do
mundo e exclamar como o eloquente orador da sua Pátria: Só Deus é grande!»
Interessa bastante a este assunto, o livro «O Anel do Imperador» da autoria do ilustre escritor e académico
João dos Reis Gomes.
São passados 19 anos. No dia 24 de Julho de 1840, fazem fundo no nosso porto as fragatas da marinha de
guerra francesa La bela Poule e Favorite, que conduziam a Santa Helena a missão que o governo de Luís
Felipe encarregara de transportar oficialmente, daquela ilha até Toulon e deste porto à cidade de Paris, os
restos mortais do imperador Napoleão I. Era chefe dessa missão o príncipe de Joinville (V. este nome), e
dela faziam parte alguns dos antigos servidores de Napoleão, contando-se entre eles o general Bertrand, que
fora companheiro de exílio do imperador e lhe assistira aos últimos momentos no retiro de Santa Helena.
O distinto madeirense Monteiro Teixeira
(V. este nome)
, que era cônsul da França no Funchal, ofereceu
ao príncipe de Joinville e à sua comitiva um esplêndido baile, a que assistiram as mais qualificadas pessoas
desta cidade. Foi nessa festa que uma gentil dama funchalense cantou com muita correcção e sentimento
uma poesia em língua francesa, dedicada ao general Bertrand, que tivera grande voga em toda a Europa, o
que profundamente sensibilizou o ilustre militar, não podendo ele ocultar a grande comoção que nesse
momento vivamente o agitou. Tirando dum dedo um precioso anel, que era uma oferta de Napoleão e a
mais querida relíquia que conservava do seu imperador, com ele presenteou a nossa distinta patrícia,
agradecendo deste modo a carinhosa e cativante homenagem que lhe fora prestada. Aquela senhora recusou
amavelmente a gentileza da oferta, principalmente por conhecer o apreço e a valia que ela teria para o
coração do general Bertrand.
Da comitiva do príncipe de Joinville, fazia parte Artur Bertrand, filho do general Bertrand, que nascera em
Santa Helena durante o exílio e que do próprio imperador Napoleão recebera as primeiras lições da sua
educação. Descreveu ele na mais eloquente e expressiva linguagem as cerimonias da exumação do cadáver
do imperador e do seu transporte para bordo dos navios franceses, que não pode ser lido sem uma
respeitosa e sentida comoção. Nessa descrição, faz-se referencia á passagem da Belle Poule e da Favorite
pelo porto do Funchal.
Napoleão (Príncipe Eugénio). Este príncipe, que morreu na Africa do Sul, na guerra que os ingleses
sustentaram contra os zulos, esteve no Funchal a 4 de Março de 1879, havendo desembarcado do vapor
inglês Danube, que se dirigia para o Cabo da Boa Esperança.
V. Eugénia (Imperatris).
Nascentes e Poentes no Funchal
Da publicação anual elaborada e editada pela «Junta Autónoma dos
Portos do Arquipélago da Madeira», transcrevemos a tabela do nascimento e do ocaso do sol no Funchal
relativa ao ano Corrente de 1944. Embora essa nota não constitua uma indicação de carácter permanente,
oferece no entretanto particular interesse, em virtude da grande aproximação que sempre conserva com a
realidade, podendo prestar um apreciável serviço as pessoas que a ela queiram recorrer. Quando não é fácil
obter-se um calculo formulado com toda a exactidão matemática, torna-se muitas vezes vantajoso alcançar-
se uma noção que, quanto possível, se aproxime da verdade.
Eis a tabela, a calcular de dez em dez dias:
Meses dias Nascimento Ocaso
h m h m
Janeiro 1 7.08 17.14
11 7.09 17.22
21 7.08 17.31
31 7.03 17.40
10 6.55 17.50
Fevereiro 20 6.48 17.57
1 6.35 18.06
Março 11 6.24 18.13
21 6.10 18.21
31 5.58 18.27
Abril
10 5.45 18.34
20 5.33 18.42
30 5.23 18.48
Maio 10 5.14 18.55
20 5.07 19.02
30 5.04 19.08
Junho 9 5.01 19.13
19 5.02 19.16
29 5.04 19.18
Julho 9 5.09 19.16
19 5.15 19.13
29 5.21 19.06
Agosto 8 5.28 18.58
18 5.35 18.48
28 5.40 18.37
Setembro 7 5.47 18.24
17 5.53 18.11
27 5.59 18.58
Outubro 7 6.06 17.45
17 6.12 17.33
27 6.20 17.22
Novembro 6 6.29 17.14
16 6.37 17.07
26 6.47 17.03
Dezembro 6 6.55 17.03
16 7.02 17.05
26 7.06 17.10
Nascimento (D. Frei João do)
Foi D. João do Nascimento um dos mais distintos prelados desta
diocese, durando o seu episcopado desde 5 de Setembro de 1741, dia em que chegou à Madeira, até 6 de
Novembro de 1753, dia em que faleceu na casa onde esteve instalado o liceu desta cidade, na rua do Bispo.
Nasceu em Lisboa e era filho de Inacio Mira e de D. Garcia Ferreira de Afonseca, ambos de ilustre linhagem
e senhores do morgadio da Torre da Giesteira, nos subúrbios de Montemór- o - Novo. Doutorou-se na
faculdade de canones na Universidade de Coimbra em 1711, e preparava-se para o concurso duma das
cadeiras daquele estabelecimento de ensino, quando em 1713 se sentiu atraído para a vida monastica e
entrou no seminário do Varatojo, onde professou na ordem serafica de S. Francisco.
Depois de alguns anos de vida religiosa e de se haver entregue ao apostolado das missões em muitas
províncias de Portugal, foi por D. João V nomeado bispo do Funchal, cargo que procurou recusar com
insistência, mas a que não pode subtrair-se pela imposição dos seus superiores hierárquicos. Foi nomeado a
7 de Novembro de 1740 e confirmado por Bento XIV a 5 de Janeiro de 1741, tendo recebido a sagração
episcopal a 5 de Maio do mesmo ano.
Durante os doze anos em que viveu nesta ilha, deu sempre provas duma grande austeridade de carácter e da
mais ilibada conduta, não só como chefe da igreja funchalense mas ainda como governador deste
arquipélago no período decorrido de 1747 a 1751.
Visitou pastoralmente todas as igrejas paroquiais, providenciando acerca de muitos pontos da disciplina
eclesiástica, introduziu notáveis reformas no seminário diocesano, criou alguns curatos e tomou outras
importantes medidas no desempenho das suas funções episcopais.
O seu nome ficou entre nós vinculado a uma obra notavel-a edificação do Paço Episcopal. Apesar de ser
uma construção pesada e despida de quaisquer primores arquitectónicos, era, no entretanto, para esta
pequena cidade e para a época em que foi levantada, um edifício de relativa importância e que não
deshonrava a alta hierarquia dos seus moradores. Foi construído no período decorrido de 1748 a 1751 e nele
se gastaram vinte contos de réis, quantia avultada para o tempo
(V. Paço Episcopal)
.
Empenhou-se notavelmente na construção da igreja paroquial de Nossa Senhora do Monte e a ele em boa
parte se deve o levantamento daquela igreja, sobretudo com a criação em todas as freguesias da ilha, da
Confraria dos Escravos de Nossa Senhora, cujas receitas foram exclusivamente aplicadas á edificação do
mesmo templo.
Era bispo e governador deste arquipélago, quando na noite de 31 de Março do 1748 se sentiu entre nós um
violento abalo de terra, que causou poucas vitimas, mas que produziu danos consideráveis na maior parte
dos edifícios públicos e particulares. Adoptou as providencias que de momento eram aconselhadas pelas
circunstancias ocorrentes e alcançou do governo da metrópole importantes créditos para reparar os
prejuízos causados pelo terremoto, principalmente em muitas igrejas, nalgumas fortalezas e nas casas da
Alfandega.
Morreu nesta cidade a 6 de Novembro de 1753 e jaz sepultado na capela-mor da Sé Catedral.
Nascimento (João Cabral do)
Nasceu no Funchal a 22 de Março de 1897 e é filho de João Crawford do
Nascimento e de D. Palmira Cabral do Nascimento. Cursou o liceu desta cidade e concluiu em 1922 a sua
formatura em direito na Universidade de Coimbra. Revelou desde novo uma decidida inclinação para as
letras, afirmando-se especialmente como poeta. Publicou em verso os opúsculos
As tres Princesas mortas
num Pa-Idovo em rulna»,
1916,
Além-Mar,
1917,
Hora de Noa,
1917. Tem colaborado em vários jornais e
revistas e foi redactor da
Restauraçãoo,
de Coimbra (1921).
Criado o Arquivo Distrital em 1931, foi o dr. Cabral do Nascimento nomeado seu primeiro director, e logo
fez publicar a revista «Arquivo Histórico da Madeira», de que tern sido o principal colaborador e da qual já
saíram seis volumes.
Além do que fica indicado, publicou, em verso, «Alguns Sonetos», 1924, «Descaminho», 1926, «Arrabalde»,
1928, e «Cancionelro», 1943, e, em prosa, os seguintes escritos, «Documentos para a histórla das Capitanias
da Madeira», 1930, «Genealogia da Familia Medina da Ilha da Madeira», 1930, e «Apontamentos de
História Insular», 1927.
Natal
As festas do Natal duram na Madeira desde o dia em que se comemora o nascimento de Jesus até
o dia de Reis, havendo durante este tempo muitos folguedos, descantes e outras manifestações de regozijo,
que poetizam esta bela quadra do ano. As refeições são melhoradas, e rara é a casa onde não aparecem a
carne-de-vinho-e-alhos e os bolos de mel, assim como outras iguarias que são desconhecidas durante o
resto do ano. Os templos enchem-se de povo por ocasião da missa do galo, em que a imagem do Deus-
Menino é muitas vezes dada a beijar, e para completar as festas e solenidades do Natal, há ainda os
presépios ou lapinhas, alguns deles verdadeiramente notáveis pela riqueza e variedade de seus adornos.
Não há muitos anos, era uso nalgumas freguesias da Madeira «pensar» a imagem do Deus-Menino na noite
do Natal, isto é levá-la e vesti-la sôbre um estrado colocado dentro da igreja, sendo este serviço prestado
sempre por uma rapariga, mas tal uso cremos que desapareceu, assim como um outro que consistia em
oferecer ao mesmo Deus-Menino na referida noite, varias produções da terra. Rapazes e raparigas, vestidos
com trajos antigos, conduziam piedosamente ao templo as suas ofertas, anunciando em seus cantares, por
vezes muito harmoniosos, a quem eram destinadas as mesmas ofertas.
O velho habito de consagrar todo o dia de Natal à vida e festas recatadas da familia tende a desaparecer, e as
ruas da cidade, desertas outrora naquele dia, apresentam-se hoje quasi tão movimentadas como na
primeira, segunda e terceira oitavas. É, no entretanto, durante estes três dias, que o povo continua a
santificar não obstante ter sido dispensado disso pela Igreja, que principalmente se realizam as visitas e os
cumprimentos de boas festas, os quais entre o povo rude são acompanhados quasi sempre de abundantes
libações, descantes e outros folguedos, que se estendem até horas mortas da noite. Desde a vespera do Natal
até á Epifania, estrugem por toda a parte as bombas e busca-pés, com grave risco não só dos transeuntes,
mas também daqueles que os atiram, muitos dos quais tem sido vitimas das suas loucuras e imprudências.
O habito não muito antigo, de despedir o ano velho e receber ao ano novo com toda a espécie de fogos de
artificio, é aquele que mais chama a atenção dos forasteiros, sendo na verdade um espectáculo imponente e
belo o que oferece a cidade do Funchal e seus subúrbios ao avizinhar-se a hora da meia noite do dia 31 de
Dezembro, quando por toda a parte se acendem os fósforos de cores e sobem aos ares os milhares de
foguetes e granadas com que os madeirenses festejam a passagem dum para outro ano, na esperança de que
aquele que principia lhes traga todas as venturas que lhes negou o que vai sumir-se na voragem dos tempos.
A noite de 31 de Dezembro é muito animada no Funchal, sendo a cidade percorrida por grandes ranchos
que se dirigem para vários pontos dos arredores, ao som de machetes e violas, para daí contemplarem os
festejos da meia noite.
É no dia 7 de Janeiro, após os Reis, que se desmancham as lapinhas e tudo volta à normalidade, mas
algumas pessoas conservam os presépios armados até o dia 15, festa de Santo Amaro, que é, na opinião de
alguns, quando devem ser dadas por findas as manifestações de regozijo do Natal, tanto do agrado do bom
povo madeirense. Vid. Lapinha.
Naufrágios
A baía do Funchal é abrigada de todos os ventos que não sejam os dos quadrantes desde o
sudoeste até o sudeste pelo sul. Os grandes temporais só se fazem sentir ali quando o vento sopra com
violência do lado meridional, vendo-se o mar formar então algumas vezes ondas alterosas que vêm
projectar-se com violência de encontro ás praias. Nessas ocasiões, deixa de haver segurança para os barcos
de vela dentro da baía, e se eles não conseguem fazer-se ao largo aos primeiros sinais da tormenta, correm o
risco de vir parar à costa e de serem aí despedaçados pelo mar. Entre as muitas tempestades que tem havido
no nosso porto, merecem ser mencionadas as seguintes, por causa dos seus efeitos desastrosos.
1757. Em fins de Outubro ou princípios de Novembro deste ano, houve um grande temporal que pôs em
risco alguns navios e causou estragos nas obras do porto do Funchal (ligação da Pontinha com a terra).
1802. Na noite de 30 de Agosto de 1802, pela 1 hora da manhã, houve uma medonha explosão a bordo dum
navio português ancorado no porto do Funchal e que se destinava ao Brasil. Morreram 32 pessoas, 4 das
quais eram madeirenses, tendo-se dito que a explosão fora provocada casualmente por um marinheiro, na
ocasião em que se achava no paiol do navio, afim de furtar pólvora para vender na cidade.
1804. Em 8 e 11 de Janeiro deste ano, houve fortes temporais, naufragando duas galeras inglesas.
1828. No dia 22 de Janeiro, deu à costa, em frente da Alfandega, o bergantim americano Calixto, que em
poucas horas foi inteiramente destruído pelo mar, e no dia 1 de Março naufragou na Praia Formosa a galera
inglesa Britannia, morrendo um tripulante.
1834. Deu-se neste ano o naufrágio da galera inglesa Greenwelle, em que morreram cinco tripulantes.
1836. Os grandes temporais do dia 18 de Outubro fizeram dar à costa próximo de Santa Catarina, a barca
portuguesa Maria Adelaide e o iate Conceição e Almas, morrendo um tripulante deste ultimo navio. Na
mesma ocasião, naufragou também ali um barco carregado de vinho, vindo do norte.
1842. Em 26 de Outubro deste, ano o mar arrojou á praia cinco navios, desaparecendo um outro, que não
tornou a ser visto.
1846. De 8 a 11 de Janeiro, houve grandes vendavais no porto do Funchal, que arruinaram as obras do cais,
e no dia 10 do mesmo mês deu á costa em S. Lazaro o patacho toscano Duque de Sussex.
1848. Em 10 de Dezembro, perderam-se o iate Senhor dos Passos e a escuna Eugenia, e no dia 31 os iates
Fevereiro I.° e Boa Fé, ambos portugueses, e os patachos Delfim e Levant, este americano e aquele
português. Por ocasião desta ultima tempestade, esteve quasi a dar à costa a corveta de guerra inglesa
Daphne.
1858. No dia 5 de Março deste ano, naufragou no porto do Funchal o bergantim inglês Reliance, em
consequência de um forte vendaval, e no dia 15 do mesmo mês teve a mesma sorte o patacho brasileiro
Liberato Terceiro, de que era mestre Thomás Whister.
1858. No dia 14 de Novembro, entrou no porto do Funchal, quasi a submergir-se, a galera portuguesa
Defensor, em viagem do Rio de Janeiro para um dos portos de Portugal, conduzindo a tripulação e alguns
passageiros, na totalidade de 23 indivíduos. A embarcação vinha de porto infeccionado e o mar estava
bastante revolto, sendo a muito custo que puderam desembarcar 16 pessoas, as quais foram isoladas no
antigo forte da Pontinha. As outras ficaram a bordo, recusando fazer o desembarque naquela ocasião, mas
durante a noite lançaram um escaler ao mar e pretenderam alcançar a terra, tendo morrido seis delas e
apenas uma pôde ser salva para além do forte de S. Tiago. A galera encalhou na foz da ribeira de Gonçalo
Aires, no dia 16 de Novembro.
1872. Um violento temporal que houve a 22 de Dezembro fez dar à costa para os lados do Lazareto o
patacho inglês Champion, morrendo o capitão e mais quatro tripulantes
1875. Na praia em frente da antiga Praça da Rainha, hoje Praça do Marquês de Pombal, encalhou no dia 2
de Fevereiro de 1875 o vapor inglês Soudan. O mar estava calmo, atribuindo-se o desastre à imperícia ou
descuido dos que dirigiram a manobra do ancoramento.
1876. Neste ano, houve dois grandes temporais na baía do Funchal, o primeiro a 13 de Maio e o segundo a 11
de Novembro. O primeiro fez dar à costa a escuna inglesa Orphey, o patacho português Barbosa 2.°, a
chalupa portuguesa Moura 7.° e os patachos americanos Maurice e Nellieclifford; o segundo fêz com que
tivessem o mesmo fim o barco alemão Fear-Not, o iate português Fontes Pereira de Melo e a escuna inglêsa
Theodosia. O Valente, pequeno vapor madeirense, foi arremessado sobre as rochas, por baixo da Quinta
Lambert, a mais de 15 de metros sobre o nível ordinario do mar, por ocasião das tempestades de Novembro,
e já no dia 3 de Janeiro uma tempestade menos violenta que as duas a que nos referimos tinha feito
naufragar a barca inglesa Patagonia, junto a Santa Catarina.
1881. A 6 de Janeiro dêste ano, veio ter à praia, impelido pelo vento sul, o iate português Aliança.
1884. A 26 de Novembro, o mar arrojou á praia a escuna Eulalia e o brigue italiano Torquato.
1892. Os temporais de 28 de Fevereiro causaram avarias no molhe da Pontinha.
1896. De 26 para 27 de Outubro deste ano, vieram a terra o brigue frances René Adrienne e o brigue
português Comercio, êste na Ribeira de S. Lazaro e aquêle na muralha da Pontinha.
Embora a baía do Funchal seja limitada pelo Cabo Garajau e pela Ponta da Cruz, que distam entre si um
pouco mais de 8 quilómetros, é para leste do Ilhéu, e em frente da cidade, que os navios costumam lançar
ferro, sendo o fundo constituído aí por areias basálticas e algum lôdo. A quantidade de pedras, areia e lodo
que as aguas das ribeiras arrastam todos os anos é considerável, do que tem resultado o mar da baía se
tornar menos profundo e as praias crescerem gradualmente. O pilar de Banger, que, na época em que foi
construido (1798) tinha a sua base banhada pelo mar, está hoje afastado dele, e a rua da Praia, os mercados
do peixe e da fruta e a Praça do Marquês de Pombal, estão edificados em lugares onde em épocas antigas
chegavam as aguas (1921).
Vamos agora dar uma noticia sucinta de outros naufrágios ocorridos em vários pontos dêste arquipélago:
Em Março de 1720, dirigia-se um barco de Machico para o Porto Santo, conduzindo oito indivíduos, o qual,
sendo surpreendido por um forte temporal, foi arrojado às costas das ilhas Canárias e ali puderam
desembarcar. Regressaram dois meses depois ao Porto Santo, quando ali todos os julgavam vitimas do
temporal.
Por 1730, naufragou naquela ilha, no sitio do Pedregal, onde chamam a rocha do Guilherme, um navio
sueco, que vinha da Índia e conduzia um importante carregamento, tendo perecido alguns tripulantes.
Alguns meses depois, veio ao local do sinistro um navio da mesma nacionalidade, que conseguiu salvar uma
parte considerável da carga, e entre esta vários objectos de alto valor e parece que também alguns caixotes
com dinheiro.
No principio do ano de 1768, afundou-se nas proximidades da ilha do Porto Santo a nau de guerra francesa
Balance, de que era comandante o barão de Arras, sendo os seus tripulantes, em numero de 239, tomados
por um navio francês que os conduziu ao porto do Funchal.
No ano de 1790, submergiu-se no boqueirão do ilhéu de Baixo, no Porto Santo, um barco de carreira,
carregado de vinho, que do norte da Madeira se dirigia ao Funchal e que impelido por uma grande
tempestade foi arrojado àquele local, morrendo toda a companha, com excepção dum homem que agarrado
a uma prancha de madeira pôde alcançar o ilhéu de Ferro.
Um grande sinistro que se deu na travessa do Porto Santo foi o ocorrido na noite de 11 de Janeiro de 1823,
em que nove pessoas perderam a vida, não se tendo nunca encontrado vestigio algum do barco ou das
vitimas deste naufrágio.
No dia 5 de Dezembro de 1850, saíra do Funchal com destino ao Porto Santo um barco pertencente a João
Rodrigues Rei e José Alexandre de Viveiros, que tinha como arrais o marítimo Justiniano Joaquim de Sousa
e que conduzia a seu bordo além dos seus proprietários, mais 13 passageiros e 12 homens de tripulação. Na
chamada Travessa, foi esta embarcação surpreendida por um rijo temporal, tendo então os donos dela e os
passageiros aconselhado e insistido para que os tripulantes demandassem o ilhéu de Cima ou o porto dos
Frades e não o porto da vila, pelo grave perigo a que estavam expostos por ocasião do desembarque. Não
foram infelizmente atendidos esses rogos e conselhos, e, ao tentarem desembarcar, tornou-se o mar mais
agitado com a violência do vento que soprava, e das 27 pessoas que o barco conduzia só se salvaram 12,
tendo 15 encontrado morte horrorosa no meio das alterosas vagas que violentamente se quebravam contra a
praia. Entre as vitimas, encontravam-se os donos do barco e algumas mulheres e crianças. A noticia deste
sinistro marítimo causou na ilha do Porto Santo e ainda na Madeira a mais profunda emoção.
Nesse tempo e em épocas anteriores, eram frequentes os naufrágios na travessia feita entre a Madeira e
Porto Santo, por nela serem empregados barcos chamados de boca aberta ou sem coberta, tendo o sinistro
de 6 de Dezembro de 1850 determinado a regulamentação daquele serviço marítimo, proibindo-se então
expressamente navegarem entre as duas
ilhas embarcações que não estivessem nas condições
indispensáveis para isso. A partir dessa época, tornaram-se raros os sinistros ocorridos na navegação entre
a Madeira e Porto Santo.
A escuna portuguesa Maravilha encalhou na praia daquela ilha a 7 de Abril de 1855, não havendo desastres
pessoais.
Ao noroeste daquela ilha, perdeu-se a 8 de Março de 1882 um vapor brasileiro, tendo morrido quatro
tripulantes.
Ás costas do Porto Santo, têm sido arrojadas em diversas épocas varias embarcações, umas abandonadas e
outras com as respectivas tripulações, como se pode ver nos Anais daquela ilha.
Na altura da Ponta de São Lourenço, submergiu-se em 1884 o vapor inglês Forerunner, morrendo 14
pessoas, como já dissemos a pág. 44 deste volume.
A duas léguas ao norte da mesma Ponta, naufragou no dia 23 de Fevereiro de 1838 um barco de pesca do
porto de Machico, tripulado por seis indivíduos, que todos perderam a vida.
A praia Formosa tem sido teatro de alguns naufrágios, dos quais podemos fazer menção dum, ocorrido no
dia 1 de Março de 1828, com a galera inglesa Britannia, morrendo um tripulante e ficando o navio
inteiramente destruído, e doutro que se deu a 18 de Outubro de 1875 com um barco costeiro, tendo perecido
cinco pessoas.
Maior numero de sinistros marítimos tem ocorrido nas imediações da chamada Ponta da Cruz, a pequena
distancia da Praia Formosa. No alto da rocha vê-se uma pequena cruz de ferro que tem sido varias vezes
substituída, como sinal e lembrança dos desastres e perdas de vidas que ali se têm dado. É costume piedoso
dos passageiros dos barcos costeiros que passam neste local descobrirem-se respeitosamente, e muitos
murmuram recolhidos uma fervorosa prece. Ali se submergiu a 12 de Março de 1901 um barco costeiro da
Ponta do Pargo, morrendo sete pessoas.
Nas alturas da Ponta do Pargo, naufragou no dia 31 de Março de 1850 um barco de pesca do porto do Paul
do Mar, morrendo alguns tripulantes.
Procedente do Pará e conduzindo carga para Lisboa, naufragou na praia da freguesia da Madalena do Mar,
no dia 31 de Janeiro de 1857, o brigue português Triunfo, de que era capitão Francisco António da Silva,
salvando-se todos os tripulantes.
Em frente do porto da freguesia do Porto da Cruz, a légua e meia da costa, sossobrou no dia 20 de Setembro
de 1858, em consequência de violento temporal, o bergantim francês Homs, de que era capitão F. Azemas, e
que se dirigia de Cette para a Martinica. Salvaram-se todos os tripulantes, que naquela freguesia foram
largamente socorridos pelo comendador Valentim de Freitas Leal, que era ali abastado proprietário.
Nos primeiros dias do mês de Dezembro de 1859, saíra de Cardiff a galera inglesa Flying Foame, que se
destinava à colónia britânica de Hong-Kong, na China. Um grande temporal arrastou-a até as alturas da
Madeira e arremessou-a violentamente contra os cachopos da costa, no sitio chamado Fajã do Manuel, na
freguesia do Porto Moniz. Das 21 pessoas que havia a bordo, morreram 15, e entre estas o capitão do navio
William Lidle e outros oficiais. Este navio, que conduzia um carregamento completo de carvão de pedra,
naufragou no dia 19 de Dezembro de 1859.
Na rocha do Ilhéu do Navio, nas costas da freguesia de Santana, naufragou, devido a um grande temporal,
no dia 24 de Dezembro de 1860, a galeota holandesa Alfa, que se dirigia de Inglaterra para a ilha de Haiti. A
tripulação, que se compunha de 7 indivíduos, foi salva.
A 18 de Agôsto de 1861, naufragou no Porto Novo, freguesia de Gaula, um barco costeiro com a perda de
sete vidas, entre passageiros e tripulantes.
O barco costeiro Bailão, do porto da Calheta, que no dia 3 de Setembro de 1872 se dirigia daquela vila para o
Funchal, afundou-se, tendo sucumbido três tripulantes.
Do porto dos Anjos, freguesia dos Canhas, saiu para o Funchal no dia 18 de Outubro de 1875 um barco
costeiro conduzindo carga e passageiros. Naufragou, não sabemos bem em que altura da viagem, tendo
perecido quatro homens e duas mulheres.
Na freguesia da Ponta Delgada, deu á costa a 9 de Dezembro de 1877 uma galera norueguesa, tendo morrido
dois tripulantes.
Do naufragio do iate Varuna, na freguesia das Achadas da Cruz, demos já uma sucinta noticia a pag. 13 do
vol. I desta obra.
A 12 de Março de 1901, naufragou em frente da Ponta da Cruz o barco costeiro «Brilhante Pargueiro» tendo
morrido oito passageiros.
Há muito que está projectada a iluminação das ilhas Desertas, dando ocasião a falta de faróis a que naquelas
paragens tenham ocorrido alguns naufrágios de embarcações de alto bordo, sobretudo quando é mais
intensa a cerração. Também ali se têm dado vários sinistros marítimos com barcos de pesca, que, acossados
pelo temporal, vão por vezes encontrar naquelas abruptas e desabrigadas costas a sua destruição e a perda
das vidas dos seus tripulantes.
Alguns navios abandonados têm sido arrojados ás costas daquelas ilhas.
O vapor inglês Lagos, que procedia de Liverpool com destino à Madeira, para onde conduzia alguns
passageiros, encalhou na Deserta Grande, no dia 17 de Janeiro de 1902, devido principalmente à grande
cerração que fazia.
Em 1788, naufragou nas costas da mesma ilha, em local que ignoramos, o corsário inglês Dart, e em 1804,
duas galeras da mesma nacionalidade foram arremessadas contra a costa, também em lugar de que não
alcançámos noticia.
Em muitos portos do estrangeiro, encontram-se pequenos padrões ou singelas inscrições lapidares, em que
se destacam os nomes das pessoas, que, por ocasião de naufrágios e tempestades marítimas, prestaram
relevantes serviços no salvamento dos seus semelhantes, em luta com os elementos em fúria.
O exemplo deveria ser imitado e já um jornal do Funchal (D. da Mad. de II-Dez.- 1926), pela pena de um
dos autores desta obra, lembrou a realização dessa ideia, deixando escrito as seguintes linhas.
Uma modesta lápide colocada em local próximo do mar e contendo os nomes de todos quantos se tornaram
merecedores do reconhecimento de nacionais e estrangeiros por serviços prestados em ocasião de
tempestades no porto do Funchal, seria um meio simples de mostrar que os madeirenses também sabem
fazer justiça àqueles que por actos que nobilitam conseguiram provar que conservavam integras as virtudes
da raça, mas enquanto isso não se faz, vamos nós procurar salvar dum completo olvido alguns daqueles
nomes, registando-os nas colunas deste jornal.
Há 40 para 50 anos, eram os indivíduos que a seguir mencionamos pelos seus nomes ou alcunhas, os mais
conhecidos pelo denodo e valentia com que se prestavam a arrostar com a fúria das ondas, sempre que
havia vidas a salvar em ocasião de naufrágios no porto do Funchal: António Maria de Gouveia, António da
Silva Cambé, Silvano Cardoso, Manuel Teixeira, Manuel Caramujo, João dos Passos (mudo), João Pereira (o
Marau),José de Sousa (o Patacho), Manuel Capitão, José (o Gato Fardão), Guilherme e Vitorino Pófia, os
dois Russos, o Tigela e Guilberme Albuquerque de França. Este ultimo madeirense, que foi cônsul do
Uruguai no Funchal e não pertencia, como se sabe, á classe marítima, não hesitava nunca em entrar em luta
com as vagas enfurecidas logo que os seus serviços eram reclamados em ocasião de temporais.
Em tempos mais antigos, tiveram grande nomeada no Funchal, por idêntico motivo, os seguintes
madeirenses: Henrique Crawford, a quem ficaram devendo a vida os náufragos da escuna inglesa Wave, que
deu á costa perto de S. Lazaro a 26 de Outubro de 1842; José Ferreira Ourela, Arsenio Pombo, João de
Freitas, João Vieira, António Silveira e Pedro Antonio. Todos estes indivíduos, à excepção do primeiro,
pertenciam á classe marítima e tiveram uma menção honrosa na acta da sessão da Real Sociedade
Humanitária do Porto, de 14 de Abril de 1858, onde também apareceram mencionados os nomes de
Domingos Teles de Meneses, Augusto César Bianchi, Alexandre Sheffield, Roberto Taylor, Gregorio Antunes
dos Santos, José Francisco da Silva e Cândido Augusto de Mesquita Spranger, pelos bons serviços prestados
por ocasião do naufrágio do bergantim Reliance.
Neste naufrágio prestou serviços relevantissimos o musico Amaro José, natural de Portugal, sendo por tal
motivo agraciado com a medalha de ouro de primeira classe, da referida Sociedade Humanitaria.
Navás (Padre Longinos)
Distinto liquenologo espanhol, pertencente á Companhia de Jesus, que
estudou os líquenes que lhe foram remetidos desta ilha pelo padre Jaime de Gouveia Barreto e por um dos
autores deste Elucidário. No trabalho que publicou, subordinado ao título Sinopsis de los Liquenes de las
islas de Madera (Broteria, vol. IX a XI, 1910-1913), indicam-se 203 espécies, algumas das quais
mencionadas apenas nos trabalhos doutros liquenologos.
V. Liquenes.
Navegação Aérea
Os primeiros aviadores que tentaram fazer a viagem entre Lisboa e Madeira
foram o capitão António Jacinto de Brito Pais e o tenente José Manuel Sarmento de Beires. Levantaram voo
no campo da aviação da Amadora a 18 de Outubro de 1920, pelas 10 horas da manhã, mas não chegaram
infelizmente a atingir a Madeira, porque o biplano de que se serviram para a viagem caiu ao mar, sendo
encontrado no dia 19, ao meio dia, pelo vapor inglês Gamboa River, da praça de Liverpool, que recolheu os
náufragos.
Mais felizes que os dois referidos aviadores foram o capitão de mar e guerra Gago Coutinho, o capitão
tenente Sacadura Cabral, o 1.° tenente Ortins Bettencourt e o mecânico francês Roger Soubiran, que, tendo
saído do Tejo no hidro-avião «F-3», pelas 9 horas e 25 minutos da manhã do dia 22 de Março de 1921,
alcançaram a baía do Funchal nesse mesmo dia, pouco depois das 5 horas da tarde.
Mal o aparelho chegou á nossa baía, foi logo rodeado por grande numero de barcos, sendo rebocado para o
molhe da Pontinha, onde ficou, por uma lancha a gasolina, conduzindo o Governador Civil e outras
autoridades da terra.
Depois dos primeiros cumprimentos oficiais, seguiram os quatro aviadores em automóveis para o palácio de
S. Lourenço, onde ficaram residindo, sendo saudados aí pelo Governador Civil, Capitão do Porto, Secretario
Geral e Comandante Militar, e agradecendo o capitão tenente Sacadura em seu nome e no dos seus
companheiros, as manifestações de apreço que lhes tinham sido dispensadas, tanto pelas autoridades como
pelo povo madeirense. Em seguida foi oferecida uma taça de champanhe aos aviadores, sendo erguidos
vários brindes, entre os quais um a Brito Pais e Sarmento Beires.
Na manhã de 28 de Março, fez o hidro-avião algumas evoluções na baía do Funchal, seguindo depois até ás
alturas do Paul do Mar, e pelas 5 horas da tarde do mesmo dia foi celebrada perante enorme assistência a
cerimónia do lançamento da primeira pedra do monumento que o banqueiro Henrique Vieira de Castro
mandou erigir no Jardim Municipal, em homenagem aos aviadores que primeiro realizaram o raid Lisboa-
Madeira.
A acta da cerimónia, depois de lida e assinada por varias entidades, foi encerrada num cofre de ferro,
juntamente com algumas moedas, sendo o mesmo cofre colocado no local destinado ao monumento.
A 30 de Março, ás 5 horas e 45 minutos da tarde, levantou voo novamente o hidro-avião para ir ao encontro
do vapor inglês Briton, que trazia a urna contendo os restos mortais do Soldado Desconhecido, e no dia 2 de
Abril, pela 1 hora e 40 minutos da tarde, seguiu em direcção ao Porto Santo, onde os aviadores contavam
aguardar tempo favorável para regressar a Lisboa.
Infelizmente, porém, não pôde esse regresso fazer-se no aparelho que os trouxera ao arquipélago, porque,
tendo-se ele incendiado sôbre a baía do Porto Santo, ao levantar voo com destino á capital, na manhã do dia
6, tiveram os aviadores de recolher a bordo do destroyer Guadiana, que se achava na mesma baia e no qual
seguiram viagem para Lisboa.
Segundo se disse, o desastre foi provocado pela ruptura duma das bombas de fumo do hidro-avião, não
tendo perecido os quatro arrojados aviadores por se haverem atirado rapidamente ao mar, onde foram logo
socorridos por alguns barcos de pesca, que os conduziram a bordo do Guadiana.
O aparelho ficou totalmente destruído, mas os seus tripulantes nada sofreram além do susto e do desgosto
causado pelo desastre que os veio privar de concluir a viagem aérea que se tinham proposto realizar.
Além das homenagens prestadas aos aviadores e de que já fizemos menção, houve em sua honra um lanche
e um jantar no «Monte Palace Hotel», aquele oferecido pela Associação Comercial do Funchal, um baile no
Casino Pavão, promovido pelo «Clube Sports da Madeira», passeios em automóvel a diversos pontos dos
arredores da cidade, um almoço na Quinta da Palmeira, oferecido pelo proprietário da mesma, etc., etc. . No
Porto Santo, um grupo de senhoras ofereceu aos aviadores vinho e doces, por ocasião da chegada do hidro-
avião àquela ilha.
O destroyer Guadiana, que chegara ao Funchal no dia 24 de Março, seguiu para o Porto Santo no dia 2 de
Abril, antes da partida do avião, afim de conduzir a gasolina para a viagem desde aquela ilha até Lisboa.
Tendo aquele navio voltado ao Funchal no dia 4, afim de tomar carvão e refrescos, seguiu novamente para o
Porto Santo no dia 5, onde, como já vimos, recebeu os aviadores após o desastre do dia 6.
O capitão de infantaria aviador Brito Pais e o tenente de engenharia aviador Sarmento Beires a que já nos
referimos, foram louvados na Ordem do Exército de Novembro de 1920 «pela magnífica prova de audácia
que deram, tentando um raid aéreo á ilha da Madeira e em que, se não conseguiram a realização do seu
objectivo, contudo bem alto afirmaram as raras qualidades de intrepidez e energia que classificam
aviadores, e praticaram um feito que extraordinário realce veio dar á aviação e honra e lustre ao exército.»
Se bem que os arrojados aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral não tocassem na Madeira por ocasião
do glorioso voo que realizaram entre Lisboa e o Rio de Janeiro, o seu heróico feito foi todavia
brilhantemente festejado aqui desde 17 a 20 de Junho de 1922. Ao saber-se no Funchal, um pouco antes das
4 horas da tarde do dia 17, que eles haviam chegado ao Rio de Janeiro, milhares de granadas e de foguetes
subiram aos ares, ao mesmo tempo que repicavam os sinos das igrejas e que fechavam quasi todos os
estabelecimentos comerciais e industriais para honrar os dois grandes heróis portugueses.
As iluminações foram verdadeiramente deslumbrantes durante quatro dias, não só nos estabelecimentos
públicos, mas também em muitas casas comerciais, tendo-se destacado pela sua beleza ou fino gosto as da
Câmara Municipal e as de varias casas e estabelecimentos nas ruas do Comercio, do Bettencourt, do
Capitão-Tenente Carvalho de Araújo, de João Tavira, do Dr. Vieira, da Alfândega, etc.. As avenidas do Dr.
Manuel de Arriaga e de Gonçalves Zarco conservaram-se iluminadas, tocando na primeira uma banda de
musica, e varias montras de estabelecimentos comerciais ostentavam ornamentações mais ou menos
alusivas ao feito dos dois gloriosos aviadores. Nalguns prédios viam-se pendões com a cruz de Cristo, que
acompanhara os antigos portugueses nas suas gloriosas navegações, e por toda a parte se exibiam retratos
de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, principalmente em bilhetes postais, que o publico funchalense
adquiria com entusiasmo.
No dia 19, houve um cortejo marítimo nocturno, seguido duma marche aux flambeaux que do Cais da
Pontinha se dirigiu a Santa Clara, onde está o tumulo do descobridor da ilha, tendo proferido aí brilhantes e
patrióticos discursos o dr. Juvenal de Araújo e o alferes Armando Correia, e no dia 20 houve uma sessão
solene, pelas 2 horas da tarde, no edifício da Câmara Municipal, discursando o Dr. Teixeira Jardim,
presidente da mesma Câmara, o citado Dr. Juvenal de Araújo e o estudante do liceu Gabriel Brasão Vieira.
Ao serem descobertos nessa sessão os retratos dos ilustres aviadores, ouviu-se na sala uma prolongada salva
de palmas.
Além dos festejos que ficam assinalados, houve ainda um Te-Deum na Sé Catedral, promovido pela
Juventude Católica do Funchal, e que terminou com uma oração do Dr. Gomes Jardim, um festival no
Teatro-Circo, em que foram distribuídos vários brindes ás crianças, discursando o Dr. Pestana Júnior, um
jantar de homenagem aos aviadores, oferecido pelo cônsul do Brasil ás autoridades do Funchal, um baile no
Casino Vitoria, etc., etc.. Em Santo António, na Ribeira Brava, em Machico, em Santa Cruz, em S. Vicente,
etc., também houve varias manifestações de regozijo para comemorar o glorioso feito dos dois aviadores
portugueses.
Gago Coutinho e Sacadura Cabral tiveram uma imponente recepção no Funchal ao regressarem á Europa no
vapor Porto, após a sua arrojada viagem aérea ao Brasil. Desembarcaram no cais da Pontinha ás 10 horas e
meia da manhã do dia 21 de Outubro de 1922, no meio das mais vivas e espontâneas manifestações de
entusiasmo, dirigindo-se em seguida para o palácio de S. Lourenço, acompanhados de varias entidades,
apresentando-lhes aí mais uma vez o Chefe do Distrito os seus cumprimentos de boas vindas. Estiveram
depois nos Paços do Concelho, onde receberam os diplomas que lhes foram conferidos de cidadãos
funchalenses, partindo em seguida para a Sé Catedral, onde assistiram a um solene Te-Deum, presidido
pelo Prelado Diocesano, que pronunciou uma excelente alocução patriótica.
Depois do Te-Deum, estiveram os dois heróicos aviadores no Monte, onde se realizou um almoço oferecido
pelo banqueiro Luis da Rocha Machado na sua quinta naquela localidade, e de tarde foi-lhes oferecido um
garden party no Reid's Palace Hotel, a que assistiram numerosas pessoas. A' noite, houve uma récita de
homenagem no Teatro-Circo, sendo exibido o film «Raid Lisboa-Rio de Janeiro».
Gago Coutinho e Sacadura Cabral almoçaram no dia 22 com o Governador Civil, tomaram chá ás 4 com o
cônsul inglês e jantaram á noite com o cônsul da Dinamarca, tendo também dado um passeio em automóvel
ao Caniço e assistido a uma recita de gala no teatro do «Dr. Manuel de Arriaga», em que discursou
brilhantemente o Dr. Juvenal de Araújo, respondendo-lhe o comandante Sacadura Cabral num caloroso
improviso que foi muito aplaudido.
No dia 23, almoçaram os distintos aviadores no hotel «Golden Gate», a convite do cônsul brasileiro, e de
tarde houve chá a bordo do vapor Porto, oferecido por eles ás autoridades e a outras pessoas do Funchal. A'
noite, assistiram os dois aviadores a um jantar de despedida oferecido pela comissão dos festejos, que
correu muito animado, sendo por fim tirada uma fotografia dos convivas, e pelas 10 horas e meia realizou-
se o embarque para bordo do Porto, achando-se no cais inúmeras pessoas para os ovacionar e lhes
apresentar as suas despedidas.
Enquanto Gago Coutinho e Sacadura Cabral estiveram na Madeira, houve brilhantes iluminações no cais,
na Avenida Gonçalves Zarco, na estrada da Pontinha, em todos os edifícios públicos e em muitas casas
particulares. O cais e entrada da cidade conservaram-se embandeirados, vendo-se aí muitos pendões com a
cruz de Cristo.
As festas patrióticas que se realizaram na Madeira de 17 a 20 de Junho e de 21 a 23 de Outubro de 1922,
foram verdadeiramente imponentes e a elas se associaram não só todos os nacionais, mas ainda alguns
estrangeiros que souberam compreender quanto tinha de arrojado e de emocionante o acto praticado pelos
dois distintos aviadores. Os madeirenses mostraram durante esses dias que também se orgulham com as
glórias imorredoiras de Portugal, e a grandiosidade das manifestações que aqui tiveram lugar, são prova
bem eloquente de que se não acham obliterados entre nós os sentimentos de patriotismo que elevaram o
nosso país ao grau de opulência que atingiu outrora. V. Praia, Sabão e S. Francisco (Ruas da) e Pontinha
(Caminho da).
Navegação Costeira
A lei de 27 de Julho de 1893, que autorizou o governo a subsidiar um serviço
regular de navegação a vapor entre Lisboa e as Ilhas Adjacentes, permitia que se auxiliasse também um
serviço do mesmo género entre as ilhas de cada um dos dois arquipélagos. Por contrato provisório de 30 de
Novembro do ano referido, celebrado entre o governo e a firma comercial Bensaúde &-C.ª. estabeleceram-
se carreiras regulares entre a Madeira e Porto Santo feitas pelo pequeno vapor «Falcão», da casa Blandy do
Funchal. Por fins de 1897, esta casa comercial iniciou um serviço de navegação costeira entre o Funchal e
diversos portos do sul e do norte da Madeira, que constituiu um dos mais assinalados benefícios prestados
ás principais povoações de toda a ilha.
Neale (Rev. J. M)
E.: On the Ecclesiology of Madeira, a paper read before the Cambridge Camden
Soc. (Abril 30, 1844).
Necrotério
O necrotério do cemitério das Angústias, onde se depositam os cadaveres das pessoas
pobres e sem família, encontrados pelos agentes da autoridade, foi mandado construir pela Câmara
Municipal em sessão de 11 de Outubro de 1900.
Nery (Travessa do)
Ficava na freguesia de Santa Maria e tomou o nome do cónego Vicente Nery da
Silva, que ali residiu. Foi alargada e é hoje uma rua que comunica a rua Bela de S. Tiago com a estrada do
Conde de Carvalhal, tendo o nome de Caminho do Acciaioly.
Nery da Silva (Cónego Vicente)
Nasceu no ultimo quartel do século XVIII e morreu nesta cidade
a 3 de Abril de 1860.
Ordenou-se de presbítero por 1815 e depois de exercer nesta ilha várias funções paroquiais, foi nomeado
cónego da Sé do Funchal. Era homem de extraordinário talento e de uma rara cultura intelectual,
predicados estes que notavelmente se revelaram como jornalista e autor de vários opúsculos, e também
como orador, professor e outros cargos que desempenhou.
Adquiriu uma extraordinária fama como orador sagrado, não só na Madeira mas ainda no Continente do
Reino, devido em boa parte à sua rara e avassaladora eloquência, e ainda principalmente á liberdade com
que do alto do púlpito verberava os desmandos dos governantes e os atropelos praticados pelas autoridades,
não poupando sequer os verdadeiros ou supostos excessos praticados pelos seus próprios superiores
hierárquicos. A tribuna sagrada servia-lhe, por vezes, de tablado político, em que feria os seus adversários
ou os que ele julgava serem os seus inimigos e perseguidores. Não raro acontecia que, a par de uma notável
beleza de linguagem e de trechos de uma arrebatadora eloquência, se descobriam nos seus discursos a
insinuação malévolo, a agressão hostil e até a ofensa e o insulto dirigidos a pessoas categorizadas, que se
encontravam no meio da assistência. Uma vez, na igreja do Carmo, atacou violentamente o governador José
Silvestre Ribeiro, estando ele presente e ao lado do Prelado Diocesano, e, em outra ocasião, na Sé Catedral,
foi, pela autoridade eclesiástica mandado descer do púlpito e suspenso do exercício da prédica, antes
mesmo de ter concluído o seu discurso. Afirmam os seus contemporâneos que estes excessos de linguagem
concitaram contra o cónego Nery a má vontade e por vezes a perseguição dos que eram atingidos por
aquelas verdadeiras diatribes, mas que o desassombro e a coragem com que falava, a eloquência tribunícia
com que trovejava no púlpito os seus ataques, as belezas e a forma conceituosa da dicção, atenuavam os
efeitos dos erros e desvarios do orador, que tinha muitos e ardentes defensores que lhe perdoavam as
inconvenientes manifestações da sua fogosa e agressiva eloquência.
Acerca dos seus escritos, diz o anotador das Saudades: «Escreveu pamphletos politico-ecclesiasticos, dos
quais temos presentes treze, sendo os mais notáveis os seguintes: Justificação do conego Nery. . . sobre o
sermão que fez na Sé, em quinta-feira santa (Funchal, 1859); Apontamentos para a história contemporânea
do Bispado do Funchal, I.ª, 2.ª, 3.ª, 4.ª e 5.ª epochas da elevação do Sr. cónego Sá, em seis diversas
publicações, impressas no Funchal, 1859; e, por ultimo, Os espectros de Catanea, cidade episcopal da
Sicilia, ou as visões que apparecerão no século 17 ao seu vigário capitular. Por um crente nos Espectros
(Funchal,1859).»
Possuímos os opúsculos citados pelo Dr. Rodrigues de Azevedo, não tendo conhecimento dos outros, que
devem ser rarissimos, e por eles se verifica facilmente que o panfletário estava a par do orador. O cónego
Nery foi contemporâneo de José Agostinho de Macedo e é de supor que a Besta Esfolada e a Tripa virada
tivessem exercido notável influencia no espírito do nosso conterrâneo. Custa a compreender como a pena
que escreveu o notável poema oriente e outras tantas maravilhas, tivesse também produzido aquelas
abomináveis verrinas. O mesmo se pode dizer, postas as diferentes circunstancias do meio, do cónego
Vicente Nery da Silva, homem de incontestável envergadura intelectual, mas que, deixando-se arrastar pelo
seu temperamento ardente e impetuoso, disse e escreveu cousas que não abonam muito as suas qualidades
de carácter, embora fosse um sacerdote austero, como lhe chama o Dr. Alvaro de Azevedo.
Vicente Nery foi um defensor entusiasta das ideias liberais e como tal perseguido pela alçada que veio a esta
ilha no ano de 1828, sendo preso e remetido para Lisboa, onde esteve algum tempo encerrado.
Nespereira (Eriobotrya japonica)
Árvore da família das Rosáceas, introduzida na Madeira em
1846 ou 1847 e hoje muito comum na região cultivada da ilha. Frutifica de Fevereiro até Junho e é oriunda
do Japão. Nalgumas localidades aparece ainda a Mespilus germanica, conhecida também pelo nome de
nespereira, cujos frutos carnudos e acerbos antes da colheita, se tornam ao sorvar açucarados e saborosos.
Neto
Este apelido de família procede de João Rodrigues Neto, que morou numa rua que mandou abrir
para transito da procissão do Corpo de Deus e que do seu apelido ficou chamada rua dos Netos. Teve
sesmaria em S. Martinho e era filho de Rodrigo Alvaro Neto, fidalgo de Salamanca.
Netos (Rua dos)
Estende-se desde a rua de S. Pedro até à Ponte Nova, sobre a ribeira de Santa Luzia, mas
antigamente tinha o seu términus na rua dos Ferreiros, hoje do Comercio, ficando compreendida na rua da
Ponte Nova a parte que é limitada do lado leste pela referida ribeira de Santa Luzia.
Deu o nome a esta via publica João Rodrigues Neto Calassa, que, vindo do continente, se estabeleceu nesta
ilha e aqui morreu em 1531, tendo residido na rua que tem o seu nome.
Neuville (Josefina)
Com o título de Memórias da minha vida. Recordações de minhas viagens,
publicou-se em Lisboa, no ano de 1864, uma obra em dois volumes, escrita por Josefina Neuville, que
causou grande sensação na época, produzindo até um verdadeiro e retumbante escândalo. Entre as
personagens que largamente figuram nessa obra, destaca-se o nome do nosso distinto patrício Jacinto de
Sant'Ana e Vasconcelos, 2.° visconde das Nogueiras.
Neve
Os madeirenses dão o nome de neve ao granizo que cai nas montanhas durante o inverno, mas a
neve em flocos também aparece na região alta da ilha, sendo conhecida do povo pela denominação de
folhelho. A neve não se observa nunca abaixo de 1200 ou 1300 metros, ao passo que o granizo desceu até
600 metros, podendo mesmo aparecer em menores altitudes embora isso não seja frequente.
A neve no nosso clima é pouco duradoura e derrete geralmente ao cabo dalgumas horas. É o granizo que
forma os extensos lençóis brancos que cobrem ás vezes as serras durante muitos dias.
Vid. Granizo.
Neves (Dr. Cassiano das)
Era advogado na cidade de Lamego, quando em 1877 publicou no Porto
um opúsculo intitulado A sepultura Eclesiástica e os Suicidas, que se ocupa da negação da sepultura no
cemitério das Angustias do Funchal, a um indivíduo que se suicidou nesta cidade a 4 de Março de 1877. É
uma defesa calorosa do prelado diocesano D. Manuel Agostinho Barreto. (V. vol. I, pág. 71 e 130).
Nichols (Thomas)
Este inglês que residia nas Canárias pelos anos de 1552 a 1561, escreveu uma
breve descrição da Madeira, que foi publicada no Astley's General Collection of Voyages and Travels, de
1745.
Nobiliários
Existem diversos trabalhos de investigação genealógica acerca das mais antigas e distintas
famílias madeirenses, mas não possuímos um estudo completo sobre este assunto, que é hoje largamente
cultivado por pacientes e diligentes investigadores, e que constituíssem duvida um factor valioso para a
historia duma região e ainda um elemento muito apreciável para a historia geral dum país.
Entre os madeirenses que mais distintamente se têm dedicado a estes estudos, tomando como objecto dos
seus trabalhos de investigação as famílias deste arquipélago, devemos citar Henrique Henriques de
Noronha, João Agostinho Pereira de Agrela e José Bettencourt da Camara. Passa o primeiro por ser um dos
nossos mais autorizados genealogistas. De José Bettencourt da Câmara, de quem também já nos ocupámos
(vol. I, pag. 204), devemos acrescentar que os seus mais valiosos escritos genealógicos, que preparava para
dar á estampa, se perderam lamentavelmente, devido a um imprevisto acidente, cuja responsabilidade não
cabe a pessoa alguma. Afirma-se que o mais desenvolvido e mais completo trabalho desta especialidade que
se elaborou entre nós foi o do segundo genealogista que deixamos citado (V. vol. I, pág. 20), dizendo o
Dicionário Popular «que escreveu uma collecção de memórias genealógicas que existem inéditas, em cinco
tomos, em poder dos seus herdeiros». Há pouco, soubemos com verdadeira satisfação que este valioso
manuscrito foi comprado pelo ilustre açoreano Ernesto do Canto e que por ele foi doado a biblioteca publica
da cidade de Ponta Delgada, onde presentemente se encontra. A publicação deste trabalho, depois de
convenientemente expurgado dos erros e lacunas que contém, e também devidamente actualizado e
enriquecido com varias notas elucidativas do texto, seria um excelente serviço prestado á historia deste
arquipélago e um auxiliar valioso para os que entre nós se entregam ao estudo de certas investigações
históricas.
Além do que se encontra nas paginas 514-533 e 846-851 das Saudades da Terra, no Attestado Genealogico
dos ascendentes de José Francisco de Sant'Anna de Vasconcellos Moniz de Bettencourt...(1857), que apenas
se ocupa duma família madeirense, e na Noticia das cousas da ilha da Madeira desde o seu segundo
descobrimento pelo Zargo, que no fim traz a descendência do descobridor e que foi publicada no antigo
Heraldo da Maderra, de Dezembro de 1905 a Janeiro de 1906, nada mais conhecemos impresso acerca da
genealogia madeirense.
Na
interessante obra Bibliographia Nobiliarchica Portugueza, de Eduardo Campos (Carcavelos),
encontram-se sumariamente descritos quasi todos os trabalhos genealógicos respeitantes a este arquipélago
de que temos noticia, e os de que o anotador das Saudades faz menção, sendo certo que dalguns deles não
tínhamos conhecimento e nem se encontram apontados nas anotações do Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo.
Vamos textualmente transcrever as indicações bibliográficas do trabalho de Eduardo Campos, como
subsidio para um pequeno estudo acerca deste assunto, o qual é possível que possa interessar a algum
curioso investigador das genealogias madeirenses e da historia da nossa terra:
«Antonio Bettencourt Perestrello de Noronha. Foi um dos principais fidalgos da cidade do Funchal. Viveu
no século XVII. Escreveu: Genealogia das familias da ilha da Madeira. Ms. in fol. Desta obra existe uma
copia na Bibl. Nac. de Lisboa (n.° 296 da secção dos Mss., Collecção Pombalina), tirada do original pelo
próprio autor. Ms. in fol. de 178 fs., com índice.
«Diogo da Fonseca Acciaioli. Pertencia à geração dos Acciaiolis, que no 1.º quartel do século XVI foram de
Florença para a ilha da Madeira, onde instituíram o morgado de N. Sr.ª da Natividade e donde mais tarde
passaram a diversas terras de Portugal. Nasceu em Castelo Branco, em data que não pude descobrir.
Escreveu sobre varias familias e designadamente sobre: Acciaiolis. Ms. in fol.
«Henriyue Henriques de Noronha .......... Escreveu: Nobiliario Genealogico das familias que passaram a
viver na ilha da Madeira desde o tempo do seu descobrimento, que foy no anno de 1420. Ms. in fols., em 3
vol., os quais foram possuidos pelo conde de Carvalhal. Desta obra existem, pelo menos, duas copias (Mss.
in fol.:) a da Câmara Municipal do Funchal, em 3 tomos, e a da Bibl. Nac. - de Lisboa (século XVIII), em 2
vol. de 280 e 283 fs., com índice, n.ºs 270 e 271 da secc. de Mss. Coll. Pombalina.
«Árvore dos Henriques. Ms. in fol., de 7 pag. inums. e 383 nums. A 1.ª pag., não num., contém, uma
portada com guerreiros, encimada pelos escudos das armas de D. Fernando Henriques e de D. Branca de
Mello, 1.ºs condes das Alcaçovas, com os seguintes dizeres: Horóscopo Genealogico da casa dos Henriques
Senhores das Alcaçovas. Na pag. immediata lê-se: Horoscopo Genealogico. Árvore da Casa de Henriques,
Senhor das Alcaçovas. Em Portugal. Escripto por Henrique Henriques de Noronha, 1710. Este precioso
autogr. enc. em carn.ª, com orla e cancellas douradas, pertence à livraria do conde das Alcaçovas.
«Non plus ultra da Nobreza. Fidalgos da Ilha da Madeira, etc., 1717. Ms. que pertenceu ao visconde de Torre
Bella, 4.° neto do auctor, e do qual existe uma copia, que foi possuida pelo linhagista João Carlos Feo
Cardoso de Castello Branco e Torres.
«Familia dos Freyres de Andrade, deduzida dos condes de Trava. Dedicada a Bernardino Freyre de
Andrade.
«Memórias seculares e eclesiásticas para a composição da historia da Diocese do Funchal, na ilha da
Madeira, distribuídas na forma do systema da Academia Real de Historia Portuguesa. Ms. in fol., de 255 fs.
e mais um Appendice de 34 fs. Passa por ser uma obra completa da historia madeirense, segundo se lê a
pag. 786 das Saudades da Terra.
«Ramo da família dos Mirandas. 1720. Ms. in fol., de 14 pag. Enc. Pertence á livraria do conde de Castro.
«Joâo Agostinho Pereira de Agrella e Câmara.
.....Escreveu: Genealogia da ilha da Madeira. Ms. in fol., o qual abrange quasi todas as antigas familias
madeirenses. Em 1873 existia na livraria de seu filho primogénito Pedro Agostinho de Agrella e Câmara.
«João Pedro de Freitas Drumond.......... Escreveu: Arvores de Costados de Familias da ilha da Madeira. Ms.
in fol., em 2 gros. vol. contendo 620 árvores. Aut. Ined. Pertence á livraria de Luiz Ferraz de Barcellos.
Desta obra existe pelo menos uma copia, a qual era possuida em 1873 pelo Dr. Gregorio Francisco
Perestrello da Camara, da ilha da Madeira.
«João Teixeira Soares de Sousa... . Natural dos Açores (1827-1882). Escreveu: Memórias históricas sobre os
capitães-donatarios dos Açores e Madeira.
«José Bettencourt da Câmara Escreveu: Famílias Madeirenses. Ms. in fol.
«José Julião de França e Vasconcellos. Bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra. Nasceu
em 1770 na freguesia da Boaventura e morreu em 1859 na cidade do Funchal. Escreveu: Nobiliario
Madeirense. Ms. in fol., possuído em 1873 pelos herdeiros do autor.»
Muitos livros de linhagens existiam entre nós, que em especial se ocupavam de algumas famílias e que eram
de uso privativo delas. Cremos que se perdeu a maior parte desses nobiliários, devido principalmente à
extinção de algumas dessas famílias e aos acontecimentos políticos de 1828 a 1834, que dispersaram os
donos e continuadores desses trabalhos genealógicos.
No cartório da família Ornelas, de que é hoje representante o conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos
(1921), existe um nobiliário da primeira metade do século XVIII, que tem por título Noticia breve mas
verídica das ilustríssimas famílias d'Ornellas, Cabraes, Carvalhal Esmeraldo e outras a elas ligadas, escrito
em dois volumes in fol.. Consta-nos que o conselheiro Aires de Ornelas tem já preparado para a impressão
um trabalho genealógico acerca da família Ornelas madeirense (1921).
Tem-se recentemente dedicado a aturados estudos genealógicos o padre Fernando de Meneses Vaz, vigário
da freguesia do Porto da Cruz, que prepara um trabalho para ser dado a estampa (1921).
Nobre (António)
Como tantos outros ilustres enfermos, mortalmente feridos por uma adiantada e
incurável tuberculose pulmonar, veio o poeta António Nobre (1867- 1900) procurar á Madeira um milagre,
que a excelente benignidade do clima já não podia fazer-lhe, tendo morrido poucos meses depois de deixar
esta ilha.
António Nobre residiu no Funchal, no período decorrido de 3 de Fevereiro de 1898 a 24 de Abril de 1899,
tendo também procurado o nosso privilegiado clima talvez como derradeiro salvatério para atenuar os
estragos da tuberculose pulmonar que mortalmente o minava, depois duma estada nas montanhas da Suíça
e de ter realizado uma viagem de cura marítima aos Estados Unidos da América.
O nosso distinto patrício Dr. Alfredo de Freitas Leal, falecido há poucos anos, no seu curioso livro «Coimbra
nos Noventas...», dá-nos algumas informações acerca da vinda de António Nobre, de quem foi particular
amigo, nos seguintes expressivos termos:
Na Madeira vou encontrar um velho amigo o grande poeta António Nobre... Lembrei-me então que na
primavera desse ano de 1897 nos tínhamos encontrado em Lisboa e que ele me tinha feito muitas perguntas
sobre as vantagens do clima da Madeira para os tuberculosos. E lembrei-me que, para o não desanimar, lhe
tinha contado casos de cura e do prolongamento da vida de tuberculosos que tinham fixado a residência na
Madeira. António Nobre veiu falar-me com uma tentativa de alegria e disse-me: Meu caro Leal, eu tinha a
impressão de que nunca mais o via. Segui o seu conselho e cá estou na sua ilha. Tenho gostado imenso de
toda a gente desta terra e de toda esta linda paisagem, mas parece-me que já vim tarde para a Madeira. Você
tinha razão, se eu estivesse nas condições daqueles que você me citou... Eu senti uma espécie de lágrima
interior que não deve aparecer nos olhos. . . e fomos conversar para a «Casa Havanesa»..., enquanto eu
pressentia que nunca mais o via...»
Aconteceu a Antonio Nobre o que inúmeras vezes se tem repetido com outros tantos doentes, que, num
estado adiantado das mais graves enfermidades, querem encontrar na benignidade do nosso clima o
milagre duma completa ressurreição. Ao regressar a Portugal, triste e desalentado, soltou este amargurado
queixume: «Venho pior do que fui. Clima péssimo. Morno e húmido, justamente o contrário do que convém
à minha doença».
Para esses pobres e desesperançados doentes, também os médicos sofrem as consequências dum
melindroso estado mórbido, que por vezes procura vingar-se da crueldade do destino com as mais acerbas e
descabidas censuras. O poeta teve como seu médico assistente na Madeira o Dr. Vicente Cândido Machado,
um distinto clínico e um primoroso cavalheiro, que não pôde escapar-se inteiramente às criticas amargas do
seu ilustre cliente, angustiado pelas insuportáveis agruras da doença e porventura desiludido da falaz
esperança que para sempre lhe fugira... Poderia então ter escrito a desoladora quadra:
Vários poetas vieram à Madeira
Pela fama que tem (a ares do Mar)
Uns p'ra breve voltarem à lareira,
Outros, ai deles! para cá ficar.
António Nobre nos quinze meses incompletos em que viveu no Funchal, residiu no antigo «Royal Hotel»,
hoje «Hotel Savoy», na «Pensão Almeida», hoje «Atlantic Hotel»,e numa casa do sítio do Boliqueme na
freguesia de Santo Antonio. Teria porventura residido também na antiga «Pensão Scheffield», a que ele se
refere numa carta escrita em Lisboa nas vésperas de partir para a Madeira, ou ainda na «Quinta da
Saudade», onde foi escrito o soneto «Sestança» com a data de 29 de Julho de 1898 e inserto a pág. 33 do
livro «Despedidas».
Na estação calmosa do ano de 1899, passou uma temporada na freguesia de Santo António, habitando uma
pequena casa no sítio do Boliqueme, que ainda ali existe sem apreciável modificação dos tempos em que
teve como morador o ilustre e desditoso poeta.
Nessa época frequentava assiduamente uma casa situada nas imediações da Quinta do Trapiche, em que
temporariamente residiu uma família ilustre pelas virtudes e pelo sangue e com a qual manteve relações de
respeitosa e afectuosa estima, tendo deixado esculpida no caule duma árvore do jardim dessa casa a frase
«Sede de imensa luz como a dos pára-raios», que ali se conservou durante alguns anos, como mais
largamente deixámos já dito no livro «Paróquia de Santo António» publicado no ano de 1929.
O abalizado homem de ciência e professor da Universidade do Porto Dr. Augusto de Nobre, que tem pela
memória do irmão, o ilustre autor do «Só», o mais fervoroso culto, visitou comovidamente aquela modesta
casa no mês de Setembro de 1927, acompanhado por Adolfo de Noronha e por quem traça estas
desataviadas linhas, e ali conheceu o «homem de rede», que esteve ao serviço do poeta, e soube então que
ainda existia a velha criada, que acompanhara o doente durante as semanas em que ali residira. A esta
antiga serviçal, em atenção à sua extrema pobreza, estabeleceu mensalmente um subsidio pecuniário que
por morte dela transmitiu a uma sua filha e que inalteravelmente se tem mantido até ao presente nos
quatorze anos já decorridos.
Como é sabido, António Nobre apenas publicou em vida a sua principal obra «O Só», editada em Paris no
ano de 1892, tendo saído póstumos os volumes «Despedidas» em 1898 e «Primeiros Versos» em 1921. Na
segunda edição das «Despedidas», encontram-se quinze poesias escritas na Madeira nos anos de 1897 e
1899, sendo onze sonetos e mais quatro pequenas composições poéticas.
Na sessão da Câmara Municipal do Funchal de 24 de Outubro de 1927, sob proposta do vereador Manuel
Nunes Farinha, actual director da alfândega de Luanda, foi deliberado que ao largo adjunto à Ponte
Monumental e nas imediações do Hotel Atlântico, onde residiu o poeta, fosse dado o nome de António
Nobre.
No mencionado Largo conhecido pelo nome de Jardim do Ribeiro Seco, fez a Câmara Municipal do
Funchal, no dia 28 de Dezembro de 1941, a inauguração solene de um busto do ilustre poeta, tendo por essa
ocasião proferido um primoroso discurso, que se acha publicado, o distinto professor e escritor Feliciano
Soares.
Vamos seguidamente transcrever, pelo interesse que oferece ao nosso assunto, alguns trechos de um belo
artigo que o ilustre escritor Dr. Luís Vieira de Castro publicou em «0 Jornal» de 7 de Julho de 1936.
«..... Nas cartas Inéditas a que me refiro, há seis escritas da Madeira, desde 25 de Maio de 1898 a 8 de Abril
de 1899-um pouco menos de um ano antes da morte do autor do Só.
Em Janeiro de 1898, António Nobre declara-se «ancioso por deixar Lisboa». O médico manda-o seguir para
o Funchal. Uma preocupação detém a família; o custo da vida na Madeira. A isto responde Antonio Nobre:
quanto à vida cara da Madeira, chega a ser um crime os boatos que se espalham por toda a parte... Vive-se
no Funchal, como na Foz, como aqui; há hotéis, pensões para todos os preços». E este pormenor,
sobremaneira importante para um doente: os médicos, baratos. Em reforço da sua opinião, cita um
testemunho autorizado: «ainda ontem estive com o Dr. Athias, natural de lá, e que foi meu contemporâneo
em Paris-e deu-me as melhores informações. É cara para os ingleses e para quem compra prendas ou leva
uma vida de luxo».
A 13 de Janeiro, António Nobre anuncia a seu irmão o propósito de vir habitar uma excelente pensão -
«numa quinta dos arredores da cidade do Funchal, pertencente a D. Carolina Scheffield». Isto - no caso de
não ir dar consigo às Canárias, onde há quem entenda que deve de preferência residir.
Mas já em Maio está António Nobre na Madeira, e até com o projecto de visitar a Guiana Inglesa, a bordo do
veleiro Felisberta - de saudosa memória. É uma viagem de três meses, que custa 100.000 réis e durante a
qual, nas longas calmarias, no alto mar, os passageiros fazem «arrear o escaler e vão pescar e remar para o
largo»... Segundo António Nobre, «os naturais da Ilha, que caíam doentes, era assim que se curavam».
Enquanto não embarcava para Georgetown, António Nobre referia a seu irmão as coisas mais notáveis da
ilha... Assim, conta-lhe um dia: «Há na Madeira uma espécie de aranhas, de nome tarantulas, muito
curiosas, que escrevem o nome delas na teia que fazem». Além das tarantulas, havia as meninas da Ilha...
«Quando cheguei de Portugal, dias depois vieram aqui quazi todas as madeirenses, mascaradas, para me
conhecerem». E, na mesma carta, remata assim assim as suas reflexões «Esta terra é muito curioza e
divertida pela gente de cá-meninas cuja única existencia consiste em afternoon-teas, lawn-tennis e pescar
algum noivo que lhes apareça». Que romântico, era este António Nobre!
As meninas da Ilha eram, aliás, gentilissimas com o Poeta. Ele próprio o conta: «as senhoras do Funchal
teem sido muito amáveis para comigo; mandam-me beeftea, custard, vinho velho, geleia, etc». Que mais
podia ambicionar o elegante e triste solitário?...
A António Nobre, no seu desespero de doente, o que mais o afligia era o clima. «A Madeira é péssima para o
meu temperamento». Queixava-se de todos: «Só agora o Dr. Machado o reconheceu, depois de me enganar
durante ano e meio». noutra carta, diz ainda: «Mal cheguei à ilha, adoeci. E de então para cá, sempre
doente». A revolta cresce, à medida que o mal se agrava: «os médicos, aqui, conhecem a inutilidade deste
clima, mas cinicamente ocultam-ma, para fazer boa clínica. O meu medico tem sido e continua a ser a
minha perdição».
Finalmente, António Nobre regressa a Lisboa, porque «na Madeira é que ele não crê nada». Pobre poeta! O
que lhe resta de vida é um mixto de sofrimento e de desesperança. Em Março de 900, escreve do Seixo:
«continuo mal e não posso mais estar aqui». Já nada era capaz de curar as suas misérias! «Os ares são
fortes demais. Morro, se continuo». O fim da vida avizinhava-se rapidamente-e nem ao menos, nas dores da
agonia, podia contar com a geleia e o vinho velho das meninas da Ilha...»
Nobre (Dr. Augusto)
Este abalizado homem de ciência é irmão do poeta António Nobre e nasceu no
Porto em 1865 e ali exerceu por largos anos o professorado universitário. Tem uma vasta e valiosa obra
cientifica, havendo enriquecido a bibliografia madeirense, com alguns notáveis trabalhos, dos quais
mencionaremos «Moluscos Testaceos marinhos do Arquipélago da Madeira», «Moluscos Terrestres
Fluviais e das Águas Salobras do Arquipélago da Madeira» e «O Globicephalus nos Mares da Madeira».
Nobre da Veiga (Coronel Álvaro)
Foi nomeado Governador Civil do distrito do Funchal, por
decreto de 13 de Fevereiro de 1922, tomando posse do lugar a 30 de Março do seguinte, partindo pouco
depois para Lisboa. Antes de ser Governador Civil, foi por algum tempo Comandante Militar da Madeira.
Nóbrega
Procede de Simão de Nóbrega, que fundou a capela de Santa Quitéria, em Santo António. No
tempo do quinto capitão-donatario, Simão Gonçalves da Câmara, vivia na Madeira um Gaspar de Nóbrega,
que foi ouvidor e lugar-tenente do mesmo donatario, sendo possível que desse origem a outro ramo da
mesma família.
Nóbrega (Januário Justiniano de)
Nasceu nesta cidade a 25 de Fevereiro de 1824 e morreu a 29 de Julho
de 1866. Era sobrinho do distinto poeta Francisco Alvares de Nóbrega, conhecido pelo antonomásia de
Camões Pequeno e de quem já nos ocupámos neste Elucidário (vol. 1, pag. 53).
Januário de Nóbrega foi nomeado amanuense da Administração do Concelho a 30 de Junho de 1837 e 3.º
escrivão da mesma Administração a 8 de Janeiro de 1857, tendo gozado no seu tempo de grande nomeada
como jornalista e revelado uma grande aptidão para as letras tanto na prosa como no verso. Acerca dos seus
trabalhos literários, transcrevemos o que diz o anotador das Saudades: Collaborou nos mesmos periódicos
que o Dr. António da Luz Pitta, assim como no Funchalense e Campo Neutro e nelles, no Estudo, e em
outros publicou muitas poesias. Tinha prompta a collecção das inéditas e não inéditas para as dar ao prelo,
mas destruiu-as poucos dias antes de finar-se. Escreveu uma obra historico-estatistica do archipelago da
Madeira de cujo borrão possuímos fragmentos, dados por sua família, a qual nos affirma que o autographo
em limpo está no poder do Sr. José Silvestre Ribeiro. Sahiu posthuma a sua seguinte obra: Visita de Sua
Magestade a Imperatriz do Brasil, viúva, Duqueza de Bragança, á ilha da Madeira, e fundaçâo do Hospício
da Serenissima Princesa D. Maria Amelia (Madeira, 1867). Era dotado de não vulgar talento e veia poética, a
ponto de que, sem mais estudos que instrucção primaria, foi dos melhores jornalistas do seu tempo, e
estimado poeta. Nos últimos tempos da vida, toldou-se-lhe a lucidez natural do espírito: e suspeito de
suicida, morreu da queda de uma rocha á beira mar em 28 de Julho de 1866.»
Publicou-se em 1860, no Funchal, a primeira parte dum livro intitulado Flores Agrestes, Poesias de João F.
de Oliveira e Januario J. de Nobrega, não tendo nunca aparecido a segunda parte desta obra, que era
constituída certamente pela colecção de poesias a que se refere o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo e que o
seu autor destruiu, quando foi assaltado por um ataque de alienação mental que o levou ao suicídio.
Nóbrega (João António de )
Há um
sé
culo foi grande a emigração de madeirenses para a
Guiana Inglesa, tendo muitos fixado a sua residência na cidade de Georgetown. Entre eles, contava-se João
António de Nóbrega, natural da freguesia do Monte, que naquela cidade tomou a iniciativa da fundação da
primeira igreja cat61ica que ali se levantou e que foi dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. Deixou o seu
nome vinculado a esse grande empreendimento, merecendo os maiores aplausos de toda a colónia
portuguesa existente naquela possessão britânica. João António de N6brega faleceu em Georgetown, a 20
de Março de 1912.
Nóbrega de Quintal (Luís de Ornelas)
Nasceu na Madeira a 18 de Junho de 1894, frequentou
o liceu do Funchal, cujo curso concluiu, e seguindo depois para a capital, foi aí redactor da Republica,
tendo-se filiado no partido evolucionista. Foi eleito deputado pela Índia em 1919 e no mesmo ano foi
nomeado chefe da 3.ª repartição da Direcção Geral da Administração Civil do Ministério das Colonias,
tendo sido antes 2.º oficial da mesma Direcção. Foi por algum tempo governador do distrito de Quanza do
Sul, para onde partiu em 1921.
Nogueira (Juglans regia)
Árvore da família das Juglandaceas, muito cultivada na Madeira. É
originaria da Europa austro-oriental e da Ásia, e produz frutos a princípio verdes e depois negros, com o
caroço (noz) sulcado. A amêndoa é a parte comestível destes frutos, e dela se extrai nalguns países um óleo
secativo, usado nas artes e na economia domestica. A madeira da nogueira é muito procurada para certas
obras de luxo, e a casca da árvore fornece uma tintura castanho-escura. A infusão das folhas e da parte
externa dos frutos (epicarpo e parte do mesocarpo) emprega-se internamente para purificar o sangue.
Nogueiras (Visconde das)
Jacinto de Sant'Ana e Vasconcelos Moniz de Betencourt, 2.° visconde
das Nogueiras, era filho de Jacinto de Sant'Ana e Vasconcelos Moniz de Betencourt, 1.° visconde das
Nogueiras, e de D. Matilde Isabel de Sant'Ana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt, a distinta escritora
viscondessa das Nogueiras, de quem nos ocuparemos neste Elucidário. Tornou-se muito conhecido, e ainda
o é entre nós, por ter sido o principal protagonista dos graves acontecimentos que se deram na praia desta
cidade no dia 8 de Março de 1868, a que já nos referimos com alguma largueza no artigo Motins populares,
e no Continente do Reino mais conhecido se tornou entre os seus contemporâneos, pelos actos de coragem e
valentia que praticou, sendo o herói de aventurosas façanhas, que no tempo tiveram estrondosa
retumbância. Eram da época e seus companheiros de estúrdia o marquês de Niza, o diplomata Soto Maior e
outros. Ramalho Ortigão nas Fartas, Bulhão Pato nas suas Memórias, Augusto Forjaz no Livres das Feras,
Luis Palmeirim e ainda outros autores, fazem largas referências a Sant'Ana e Vasconcelos.
No entretanto, poucos talvez sabem nesta ilha que Jacinto de Sant'Ana teve um lugar proeminente na
política como brilhante jornalista e distinto parlamentar, que foi um inspirado e apreciado poeta, que, como
funcionário superior do Ministério da Fazenda, publicou três notabilíssimos trabalhos sobre questões
económicas e que, como diplomata, representou Portugal nos Estados Unidos da América, ocupando um
lugar de destaque entre os ministros estrangeiros acreditados em Washington.
Jacinto de Sant'Ana nasceu no Funchal em 1824. Depois de cursar o liceu desta cidade, foi, muito novo
ainda, para o Rio de Janeiro, onde se demorou alguns anos. Ali se entregou á vida comercial e também
cultivava as letras, tendo em 1848 publicado naquela cidade a tradução dum romance francês com o título
de Talismans. Começou por essa época a ser conhecido pela sua vida de boémio e pela valentia do seu braço.
Por 1850, regressou à pátria e matriculou-se na faculdade de matemática da Universidade de Coimbra,
entregando-se, segundo parece, mais activamente á política do que ao estudo. Nesse mesmo ano, publicou o
opúsculo O Grito do Povo, que era uma objurgatória contra o governo dos Cabrais e que teve grande
nomeada em todo o país. Quando o marechal Saldanha levantou em 1851 o estandarte da revolta, foi
Sant'Ana um dos estudantes da Universidade que mais se entusiasmaram, por esse movimento e que mais
contribuíram para que os regimentos que tinham acompanhado a Coimbra el-rei D. Fernando passassem
para o duque de Saldanha.
Triunfando a revolução, abandonou o seu curso e lançou-se abertamente na política, combatendo
energicamente no jornalismo, ao mesmo tempo, que, diz-se algures, «se mostrava um intrépido pugilista,
dando brado na vida fácil de Lisboa pelas suas diabruras de varredor de ajuntamentos. Lutou por muito
tempo no resto da sua vida Sant'Ana e Vasconcelos com essas tradições e essas recordações da, mocidade,
embora ele tivesse passado a ser um dos homens mais sérios, mais graves e mais prudentes da sua geração,
dominando o seu temperamento para que não parecesse que entrava com os seus antigos hábitos de lutador
nas discussões políticas.»
Entre as varias comissões e cargos públicos que desempenhou, contam-se os de secretario geral dos
distritos de Aveiro e Faial, oficial e chefe da repartição no Ministério da Fazenda, e cônsul da carreira,
deputado e ministro de Portugal nos Estados Unidos da América. Dedicou-se ao estudo de assuntos
financeiros e económicos, publicando em 1863 um importante relatório sôbre o imposto de consumo, e em
1870 outro estudo sobre a mesma matéria, num volume de 247 paginas, que no tempo foi considerado um
trabalho de alto valor.
Foi deputado pelos círculos de Viseu, ilha do Pico e outros, tomando no parlamento parte activa em muitas
discussões, revelando-se um orador distinto e versando com muita proficiência os assuntos de que se
ocupava.
Na imprensa, revelou-se também um brilhante jornalista e sustentou ataques e polémicas que se tornaram
celebres, sendo por vezes violento e rude nas discussões, o que aliás era consequência natural do seu
ardente e irrequieto temperamento. Colaborou largamente no Português e na Revolução de Setembro. Foi
uma dessas discussões que provocou um duelo entre, Sant'Ana e o nosso Primeiro jornalista Rodrigues de
Sampaio, tendo este, que não jogava às armas, ferido o seu adversário, que era um grande espadachim e um
exímio atirador.
Além dos escritos que ficam citados, publicou Jacinto de Sant'Ana um volume de versos intitulado Pátria e
Amor, que tem um largo prólogo de Latino Coelho. Merece referência especial a série de artigos que
escreveu na Revolução de Setembro, sob o título de Cartas ao conde de Avila sobre materias eleitorais da
ilha da Madeira, artigos que causaram a maior sensação.
Em 1875 foi agraciado com o título de visconde das Nogueiras e pouco depois partiu para os Estados
Unidos, como ministro de Portugal, e ali viveu cerca de 12 anos, não voltando mais ao seu país. Em
Washington, conquistou um nome prestigioso, sendo considerado como um distinto e hábil diplomata. Aí
morreu a 24 de Janeiro de 1888 e ali jaz sepultado.
Encontrarão os nossos leitores interesse em conhecer algumas das aventuras de Sant'Ana e Vasconcelos, e
por isso vamos socorrer-nos do que a tal respeito se acha publicado por Bulhão Pato nas Memórias e
Augusto Forjaz no Livres das Féras.
O autor da Paquita atribui-lhe em Paris, nada menos que sete duelos, um deles com um mestre de armas,
em que «Sant'Ana ficou muito ferido e o mestre de armas ás portas da morte.»
Ao cabo de seis annos de um turbilhão de aventuras, continua o mesmo autor, a lenidade paterna cançou-
se, e o pae mandou-o para o Rio de Janeiro, n'um cavallinho de pau, que, segundo o pensar do tempo, era
remédio efficaz. Já podia dizer d'elle, como o conde de Mirabeau do grande orador: «Meu filho-o furacão!»
«O que Jacintho de Vasconcellos fez no Rio de Janeiro, foi extraordinário!
Uma vez, n'um café, a braços com os capoeiras, depois de arrojar botijas e garrafas como balas rasas, e fazer
bancos ás hastilhas, foi-se ás mesas de pedra e jogou com ellas aos inimigos! O dono do café, ainda ha
poucos annos, mostrava as pedras quebradas aos freguezes, que chegavam de Portugal.
«De outra vez-e essa foi a ultima no Brazil-Sant'Ana assistia a uma corrida de toiros. Um cabra tirou das
mãos de um rapaz portuguez uma farpa com a nossa bandeira, arremessou-a ao chão e pisou-a por desfeita.
Sant'Anna saltou á arena, estoirou o mulato com um pontapé, e varreu a praça! Veiu policia; desbaratou a
policia! Saindo da praça, caiu sobre elle um troço de cavallaria: Sant'Ana, ainda de forcado nas unhas,
atirou-se á cavallaria! O comandante tirou uma pistola dos coldres, e disse-lhe que desfechava. Sant,Ana
respondeu:
»Isso não pega fogo!
«E não pegou! Veiu mais tropa, mais cavallaria. Sant'Anna foi, finalmente, preso, e mandado sair, no
terceiro canto da sua Odysseia! O primeiro passara-se em Coimbra; o segundo em Paris; o terceiro nas
terras de Santa Cruz! O quarto ia dar-se em Lisboa.
«Este homem, que varria feiras, era um elegante de primorosa educação, de talento e de espírito animado!
«....Em Junho de 1851 Sant'Anna e Vasconcellos foi nomeado secretario geral da Horta, e no anno seguinte
transferido para Aveiro.
«Antes de partir, uma noite era no verão e Sant'Anna andava n'um período de heróica pacatez-fomos ao
Martinho tomar neve. Reunimo-nos em volta de uma mesa, Mendes Leal, A. Pedro Lopes de Mendonça,
José Maria d'Andrade Ferreira, Luiz de Vasconcellos, auctor de um drama, intitulado a Cruz, que teve êxito
em D. Maria II, Antonio Correia Heredia e eu. Restam ainda de pé os dois últimos; os outros caíram todos.
«A pouco trecho entrou a porta um capitão de navios, muito conhecido, n'esse tempo na roda da Baixa, com
um homem alto, espadaúdo e forte na sua companhia. Era um allemão. O marítimo apanhara, no Rio de
Janeiro, um revez de Sant'Anna e ficou com a espinha na garganta, mas approximou-se muito
amavelmente, e apresentou-lhe o allemão, que fallava o francez com facilidade. Sant'Anna recebeu-o com a
polidez que lhe era peculiar. Eu, porém, notei-lhe o que quer que fosse de contrafeito. Com o seu olho de
lynce percebeu que o embarcadiço, que era atravessado, lhe trazia o outro como cão de fila. Trocadas poucas
palavras, Jacintho despediu-se, e ia a sair, quando, subitamente, o allemão lhe jogou a garra à gola do
fraque, rasgando-lha! Sant'Anna e Vasconcellos deu um passo atraz, e atirou-lhe um murro: o homem caiu
redondo! Levantou-se, com a face grandemente entumecida, e arremetteu bravio. Outro murro, e o colosso
em terra. Ergueu-se ainda, e voltou á carga... Então, Sant'Anna, num ímpeto de furor, agarrou-o, e
arremeçou com elle por cima da mesa, que ficava debaixo do espelho grande! Dessa vez o agressor perdeu
os sentidos. Voltando a si, saiu, a cambalear, pelo braço do marítimo.
«Sant'Anna sentou-se offegante, com o nariz afilado, o bigode crespo, e os olhos faiscando. Antonio
Heredia, que desde infancia conhecia o seu patrício, amigo e parente, ainda assim pasmou daquele acto de
força taurina!
«Depois de entrar na política, Sant'Anna teve dois duellos. Um com um francez chamado Clavel, á espada, e
outro com A. Rodrigues Sampaio, á pistola. Sampaio foi o primeiro a atirar; acertou-lhe, e por um ai que
Sant'Anna não ficou no campo.
«Rodrigues Sampaio, muita vez, disse diante de mim:
«-Se a minha bala dá um nadinha mais dentro, Sant'Anna era um homem morto, e eu ficava toda a minha
vida com uma sombra no coração.»
No volume Livres das Feras, de Augusto Forjaz, lê-se o seguinte:
«Outro episódio em que tomou parte deu-se no mez de Dezembro de 1859 O commissario régio do theatro
de S. Carlos, D. Pedro Brito do Rio, escripturára as duas cantoras rivaes Marcellina Lotti della Santa e
Fortunata Tedesco de Franco. Uma noite, annunciando-se a opera Lucrécia Bórgia, as duas damas
declararam-se doentes propositadamente. Formaram-se partidos, conseguindo Tedesco captar para si o
maior numero dos frequentadores do theatro e quasi toda a imprensa de Lisboa. Sant'Anna e Vasconcellos
tomou a defeza de Lotti na Revolução de Setembro. Na noite de 19 reappareceu Tedesco; a grande maioria
fez-lhe uma ovação, premeditando receber hostilmente a dama contrária. D. Pedro do Rio e sua esposa, D.
Maria Krus, estavam numa frisa com Sant'Anna e Vasconcellos, o qual pachorrentamente, desceu á plateia.
Aproximando-se do grupo dos manifestantes, pediu-lhes que desistissem da planeada manifestação hostil.
Apenas quatro recalcitráram, allegando liberdade de tacões. Então, Sant'Anna e Vasconcellos advertiu-os
com a maior cortezia: - Os senhores dizem que estão no seu direito pateando. Deve ser assim. Mas os
senhores manifestam-se com os pés e eu costumo manifestar-me com os braços. Portanto, usem da sua
liberdade, e, no primeiro intervallo, ajustaremos contas entre pés e mãos.
«Marcelina Lotti della Santa não foi patéada.
«Publicava-se também por aquella épocha em Lisboa um jornal satyrico intitulado O Asmodeu, não
poupando referências desagradáveis a D. Pedro do Rio, homem honrado, e, portanto incapaz de dobrar-se
aos caprichos dos artistas e de certo publico. Alguns espectadores da plateia manifestavam-se favoráveis ou
adversários dos artistas conforme retribuiam, mais ou menos generosamente, os seus applausos.
Chamavam a esta exigência d'um publico especial a molhadura, não conseguindo o commissário régio evita-
la. O redactor do Asmodeu, Marciano de Azevedo, tomou o partido dos exigentes, gabando-se de que não
havia cão de fila que lhe mettêsse medo. Sant'Anna e Vasconcellos tomou a phráse para si, relacionando-a
com a manifestação gorada contra Marcellina Lotti. Procurando Marciano de Azevedo na plateia, exigiu-lhe
explicações. No meio do tumulto, o redactor do Asmodeu escapulio-se para o palco, indo fechar-se no
camarim da dançarina Emilia Bellina, muitíssimo feia e que diziam ser sua amante. Sant'Anna arrombou a
porta com um murro, mas, surgindo-lhe pela frente aquela mulher de aspecto temeroso, desatou a rir,
acrescentando que Marciano de Azevedo já estava bem castigado nas suas relações com semelhante
estafermo....»
«A sua carreira consular e diplomática foi notável, devendo-lhe o Paiz não pouco interesse e muitos
benefícios, principalmente em todos os assumptos que se relacionam com a expansão commercial. Creio
existirem nos archivos dos ministérios dos negócios estrangeiros e das finanças alguns relatórios inéditos
que bem mereciam ter sido publicádos, desde que serviram de base a alguns tratados e convenções... Mas,
sendo, como é, exacto, que os que mais fazem menos apreciados são, a obra patriótica de Sant'Anna e
Vasconcellos passou desconhecida, para o que muito concorreu também o seu affastamento do nosso meio
político.
«Tão prolongada ausência motivara o esquecimento. A sua bella figura athlética apagara-se pela demorada
permanência no estrangeiro. Quando, um dia voltou occasionalmente, nenhum dos novos reconheceu o
poeta brilhante, o jornalista incisivo, o orador distinto, que desde 1851 a 1872 attrahira as attenções pelo seu
talento, pela sua elegância, pelo seu humorismo e pelos episódios da sua valentia. Jacintho Augusto
Sant'Ana e Vasconcellos, commendador da Ordem de Cristo e da de Carlos 3.º de Hespanha, fidalgo da Casa
Real e segundo visconde das Nogueiras desde 2 de Julho de 1875, veio encontrar na paz do túmulo os seus
antigos companheiros e melhores amigos. Branquejavam-lhe os cabellos; o tronco começava a vergar-se. Os
centros da sua antiga convivência tinham desapparecido, dando-lhe a impressão de ser um extranho, a
quem os revézes da Fortuna mais experimentavam. Uma noite, em Janeiro, sahindo do theatro de D. Maria
2.ª, viu-se só. Para elle, que tantos amigos e inimigos conhecera, dedicando-se aos primeiros e intimidando
os segundos, aquele isolamento causou-lhe calafrios. Entrou no botequim do Rocio, ao tempo na ex-loja
Mattos Moreira, no prédio que faz esquina para o largo de Camões. Sentou-se, pedindo que lhe servissem
chá e torradas. Na mesa fronteira, dois estroinas da épocha, rapazes desempenados e brigões soltaram uma
gargalhada. Para elles, emborcando copos de cognac, aquele velho bebendo chá e comendo torradas foi
motivo de troça. Sant'Ana e Vasconcellos sorrio-se. Depois, bateu as palmas, ordenando ao criado:-Traga
mais dois chás e mais duas torradas. A hilaridade dos rapazes augmentou. Que magnífico pacóvio tinham
encontrado naquele burguês! Quando o creado cumpriu a ordem, voltando com a bandeja, Sant'Anna e
Vasconcellos mandou, em voz bem alta, que fosse coloca-la na meza dos impertinentes supostos elegantes.
Na sala, à cunha, fez-se silêncio, prevendo-se um conflicto imminente, tanto mais que os dois jovens
athletas, chasqueando o inoffensivo creado, tinham arredado com desprezo a bandeja. Sant'Ana e
Vasconcellos, levantando-se, approximou-se. A sua voz reteniu como clarim de guerra:-Os senhores riram-
se por eu tomar chá, sendo um velho. Agora vou rir-me dos senhores que o não tomaram ainda, sendo uns
criançólas. Chamo-me Sant'Anna e Vasconcellos. Portanto, quer queiram, quer não queiram, teem de
engolir essa chásada. E, sob o seu olhar ameaçador, os dois obedeceram resignados».
Nogueiras (Viscondessa das)
D. Matilde Isabel de Sant'Ana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt,
viscondessa das Nogueiras, além de ter sido uma das mais respeitáveis damas madeirenses pelas suas
eminentes virtudes e inapreciáveis dotes de coração, foi também um gentilíssimo espírito, um peregrino e
privilegiado talento, que, noutro meio que não a Madeira, haveria certamente conquistado um nome ilustre
na historia literária do nosso país.
Era filha de José Joaquim de Vasconcelos e de D. Francisca Emilia Teles de Meneses, ambos pertencentes
ás mais distintas famílias madeirenses, e nasceu nesta cidade a 14 de Março de 1805.
Revelando precoce talento e notável inclinação para o estudo, fácil foi ministrar-lhe uma esmerada
educação, enriquecida no decorrer dos anos por um constante amor ao trabalho, que só abandonou quando
a pertinaz doença e o peso acabrunhador dos anos de todo lho não consentiram.
Cedo encetou o seu trato com as letras, que sempre constituiu um dos maiores enlevos do seu espírito,
sendo os seus primeiros trabalhos literários já reveladores duma grande inteligência e duma notável aptidão
para diversos géneros de literatura. Prestou culto condigno ás musas, escrevendo inspirados versos,
sobretudo na sua mocidade, consagrando-se depois inteiramente ao cultivo da prosa, em que se revelou
uma escritora de raros méritos.
Além de muitos artigos e poesias publicados em diversos jornais, escreveu o romance Soldado de
Aljubarrota, e a obra didáctica dialogo entre uma avó e sua neta, que viram a luz da publicidade em Lisboa,
merecendo este ultimo livro ser aprovado pelo Conselho Superior de Instrução Publica, para uso das escolas
oficiais. Também lhe pertence a Nota ao mês de Maio, que acompanha a tradução dos Fastos de Ovidio,
feita pelo visconde de Castilho.
A viscondessa das Nogueiras conhecia profundamente as línguas inglesa e francesa e desta ultima verteu
para o nosso idioma algumas obras, das quais foram publicadas a Genoveva, de Lamartine e as Castelãs de
Roussilon e a Vida de Santa Monica, de Bougaud.
Empreendeu a versão francesa do conhecido romance histórico de Alexandre Herculano, Eurico o
Presbítero, que foi publicada em Paris, em 1888, por iniciativa do príncipe Nicolau de Oldenburgo, que
tivera ocasião de ler o respectivo manuscrito e achara excelente a tradução.
Outras obras publicaria e de que não temos conhecimento, constando-nos que deixou inéditos alguns
trabalhos literários de valor, não contando com os escritos que ficaram dispersos em varias publicações
periódicas.
A ilustre senhora não abandonou nunca o estudo e até quasi ao fim da sua longa existência eram as suas
predilecções literárias o mais caro entretenimento do seu esclarecido espírito. A tradução da Vida de Santa
Mónica, talvez o seu ultimo trabalho literário, foi feita em idade bastante avançada, quando já a poucos é
permitido entregar-se aos exgotantes labores intelectuais. Sofrendo por vezes algumas enfermidades que a
obrigavam a uma inacção forçada, soube aproveitar o tempo, dedicando-se á composição e tradução dos
seus livros, encontrando assim no trabalho do espírito alívios aos seus padecimentos físicos.
O seu bondosissimo coração foi muitas vezes angustiado por bem cruéis amarguras, não sendo, por certo, a
menor delas a causada pelos tumultuarios acontecimentos ocorridos nesta cidade no dia 8 de Março de
1868, em que ia sendo vitima seu filho, Jacinto de Sant'Ana e Vasconcelos, depois visconde das Nogueiras,
de quem já nos ocupámos. Uma política facciosa e intolerante excitou os ânimos e levou uma multidão
exaltada aos mais
lamentáveis excessos, obrigando aquele nosso distinto patrício a recolher
precipitadamente á embarcação que o trouxera da capital, quando se aproximava do local do desembarque,
não sem correr grave risco a sua existência e com a perda da vida de alguns populares. Foram horas de
terrível angustia para uma parte considerável da população desta cidade, que ainda muitos contemporâneos
desses acontecimentos conservam bem vivas na memória. A viscondessa das Nogueiras, que tinha pelo filho
uma verdadeira adoração, experimentou esse rude golpe e, depois o de ver sucumbir o esposo, que não pôde
resistir aos embates de tamanho desgosto.
O grande poeta Bulhão Pato, ocupando-se nas suas Memorias, de Jacinto Sant'Ana, refere-se á viscondessa
das Nogueiras, nos seguintes termos:
«Conheci a mãe de Sant'Ana, a senhora viscondessa das Nogueiras, D. Matilde, quando eu tinha vinte anos,
durante meses que passei na Madeira, com um amigo de infância o Conde de Carvalhal.
«Estava ela então na força da vida. Educação, carácter, beleza de rosto e graça de figura, distinção em tudo,
e um talento superior, faziam desta senhora um dos entes mais encantadores que tenho conhecido»!
«Compunha versos, admiráveis de mimo e sentimento. Escrevia prosa adorável. Num meio mais largo teria
sido uma escritora de primeira ordem.
Sant'Ana adorava a mãe, e aquele homem destemido, impetuoso, quantas vezes o vi, chorando como uma
criança, ao ler as cartas dela, que depois guardava em cofre sagrado, com o fanatismo do mais acrisolado
amor.»
A ilustre senhora sobreviveu um ano ao filho, que morreu ministro de Portugal em Washington, mas a
piedade de suas netas ocultou-lhe a fatal noticia, falecendo sem dela ter tido conhecimento, aos 23 de
Dezembro de 1888, na provecta idade de 83 anos.
Nola (António da)
Este navegador genovês esteve na Madeira em 1460, segundo se lê na relação das
viagens de Diogo Gomes. «Depois, diz Gomes, vimos uma das ilhas Canárias chamada Palma, e daí fomos á
ilha da Madeira. Como estava ancioso por voltar a Portugal, saí e fui arrojado por um vento contrario para
os Açores, mas António de Nola deixou-se ficar na Madeira, e, servindo-se dum vento mais favorável,
chegou a Portugal antes de mim.»
Nomes de Ruas
Em 19 de Junho de 1890, resolveu a Câmara, por proposta do vereador Dr. José
Joaquim de Freitas, dar ás ruas que de futuro viessem a abrir-se os nomes de vários filhos ilustres desta
terra, mas esta deliberação, apesar de bastante sensata, poucas vezes tem sido acatada, como facilmente se
verifica percorrendo a cidade e lendo os nomes com que foram baptizadas ou crismadas modernamente
diferentes vias publicas.
Para que o nome dum cidadão já falecido possa figurar na esquina duma rua, exige-se, entendemos nós,
mais alguma coisa do que as simpatias dos vereadores pela memória do mesmo cidadão, pois que é preciso
também que este enquanto vivo prestasse alguns serviços ao país ou à sua terra, sem o que tal homenagem
se torna ridícula tanto para o homenageado como para quem a presta.
O Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, o erudito anotador das Saudades da Terra, o homem que pelos seus
trabalhos históricos tão digno se tornou do reconhecimento dos madeirenses, não tem o nome em nenhuma
rua desta cidade, apesar de; em sessão da Câmara Municipal de 27 de Janeiro de 1898, ter declarado o
presidente desta corporação desejar conferenciar com os seus colegas sobre a homenagem que a
Municipalidade devia prestar àquele sábio professor, e tantos filhos ilustres desta terra, tais como Baltasar
Dias, João António Monteiro, Nicolau Bettencourt Pita, Francisco de Paula Medina e Vasconcelos,
Marceliano Ribeiro de Mendonça, Francisco de Andrade Justino António de Freitas, José Ferreira Pestana,
Jaime Moniz, etc., etc., estão também esquecidos por efeito da ignorância ou da falta de espírito e de justiça
das corporações administrativas!
Não é de aconselhar que se anule tudo quanto digno de critica ou de irrisão tem sido feito nos últimos trinta
ou quarenta anos com respeito a denominação de ruas, para não aumentar a confusão que já hoje existe no
tocante a este assunto (1921), mas entendemos ser da maior conveniência que de ora avante se cumpra o
que foi resolvido em sessão camarária de 19 de Junho de 1890, sempre que se abra ou inaugure alguma rua
ou via publica.
As câmaras municipais devem usar com a maior circunspecção do direito que lhes é concedido de baptizar
ou crismar as ruas e caminhos do Concelho, não só para não dar uma ideia pouco lisonjeira da sua
inteligência e do seu critério, mas também para evitar prejuízos aos seus munícipes, a muitos dos quais
temos ouvido amargas queixas contra a substituição abusiva de antigos nomes dados a vias publicas por
outros que nenhuma razão há para serem adoptados ou perpetuados (1921).
Norborough
Esteve na Madeira em 1669 e ocupa-se desta ilha na Voyage to the Straits of Magellan..
Norça (Tamus edulis)
Dioscoriacea volúvel indígena, cultivada nas Achadas da Cruz e no Porto do
Moniz, por causa dos seus tubérculos alimentares. No estado espontâneo só tem sido achada no Garajau.
Frutuoso menciona-a no Porto Santo, onde está agora perfeitamente extinta. Tem flores dióicas, purpúreas,
e folhas cordiformes, acuminadas, com 9 nervuras.
Norman (Dr. Alfred Merle)
Distinto zoólogo inglês já falecido, que visitou a Madeira em 1897 e
1908. 0 naturalista inglês Kirkpatrick (V. este nome) dedicou-lhe a Merlia Normani, curiosa esponja
encontrada pelo naturalista madeirense A. C. de Noronha, nos mares do Porto Santo. E.: The Land Isopoda
of Madeira (1899) e The Polyzoa of Madeira and Neighbouring Islands (Linnean's Society's Journ.-Zool.,
XXX, 1909).
Norman (Capitão Francisco N.)
Botânico inglês que herborizou na Madeira em 1860 e a quem
Lowe dedicou o género Normania, incluído mais tarde no género Solanum.
Noronha
Há três ramos desta família na Madeira: um procedente de D. João e D. Garcia de Noronha,
filhos de D. Garcia Henriques (V. Henriques); outro de D. Maria de Noronha, que foi casada com João
Gonçalves da Câmara, segundo capitão-donatario do Funchal; e um terceiro que descende de D. Luísa
Agostinha de Noronha, filha de Manuel Freire de Noronha. Cremos que o segundo ramo é o mais nobre.
Manuel de Noronha, filho dos referidos João Gonçalves da Câmara e de D. Maria de Noronha, teve de
sesmaria o terreno que depois foi a Quinta dos Padres da Companhia.
Noronha (Adolfo César de)
Nasceu no Funchal a 9 de Setembro de 1873, é filho de Augusto de
Nóbrega Noronha e de D. Adelaide da Silva de Noronha e frequentou o liceu do Funchal e algumas cadeiras
das antigas Escola Politécnica de Lisboa e Academia Politécnica do Porto. A 11 de Dezembro de 1914, foi
nomeado bibliotecário da Biblioteca Municipal do Funchal.
Fez observações meteorológicas na ilha do Porto Santo de 1900 a 1902, tendo também realizado ali por essa
época e posteriormente diversos estudos de historia natural.
Em 1904, remeteu ao dr. Openheim, paleontólogo alemão, vários corais fosseis do arquipélago, e pouco
depois mandava ao Dr. Bohm as conchas fosseis das Selvagens, tendo sido devidamente estudadas estas
colecções, com grande proveito para a ciência. O paleontólo sérvio Joksimowitsch foi também contemplado
com uma bela colecção de fósseis colhidos no Porto Santo, tendo num excelente estudo que publicou acerca
dela, mencionado 106 formas distintas, entre espécies e variedades.
Adolfo de Noronha tem-se consagrado também ao estudo da ictiologia, da ornitologia, da malacologia e da
carcinologia do arquipélago, devendo-se-lhe ainda varias observações sobre a geologia do Porto Santo e da
Selvagem Grande, que foram aproveitadas pelo Dr. Gagel nos seus trabalhos sôbre aquelas ilhas. A
interessante Merlia Normani, a que já nos referimos a pág. 413 do vol. I deste Elucidário, foi colhida por ele
nos mares do Porto Santo, provindo também dali muitos dos briozoarios que enviou ao Dr. Norman e foram
por este assinalados num trabalho publicado no Jornal da Sociedade Lineana.
Escreveu um folheto que tem por título Carta aberta ao Ex.m° Sr. Governador Civil do Funchal (Lisboa,
1911) e é autor dos interessantes artigos intitulados Braguinha, Canais de lava, Carcinologia, Charamba e
Conchas, publicados no 1.° vol. deste Elucidário, bem como da grande maioria das noticias que se
encontram até pág. 341 do mesmo volume, sobre os peixes e as aves do arquipélago.
Relembram o nome de Adolfo de Noronha as espécies e variedades seguintes: Schizoporella Noronhai;
briozoário abissal, Pecten Noronhai e Spondylus Noronhai, conchas fósseis, e Echium candicans var.
Noronhae, borraginacea do interior da Madeira. A Merlia Normani, quando se supunha ser um coral, teve o
nome de Noronha scalariformis.
Adolfo de Noronha foi nomeado director da Biblioteca Municipal do Funchal no ano de 1928 e sem demora
começou a agitar a ideia da criação de um «Museu de Ciências Naturais», de que foi o mais extrénuo e
perseverante paladino, tanto na imprensa como junto dos que para essa realização poderiam contribuir com
o seu prestigio e com a sua influencia. A essa ideia teve sempre associada a da aquisição de um edifício
apropriado para a instalação da Biblioteca Municipal e do Museu anexo de ciências, com secções de arte,
arqueologia, etnologia, etc. Autorizado pela Câmara Municipal, permaneceu alguns meses em Lisboa a
tratar da emissão de um selo postal destinado a custear a despesa com aquelas projectadas instalações, o
que veio a conseguir-se inteiramente, estando aquela repartição pública instalada em um belo e amplo
edifício conhecido pelo nome de Palácio de São Pedro, que era a antiga casa solarenga dos condes de
Carvalhal. É incontestável que a Adolfo de Noronha se deve principalmente a execução desse importante
melhoramento.
Ao deixar o exercício das suas funções publicas, foi-lhe prestada pela Câmara uma justa homenagem, a que
se associaram diversas entidades oficiais, com o descerramento de uma inscrição lapidar instalada em uma
das salas do Museu.
É de inteira justiça reproduzir as palavras, que deixámos exaradas nas colunas da imprensa diária do
Funchal, por ocasião de ser tributada essa tão merecida prova de consideração e alto apreço.
O Sr. Adolfo César de Noronha, apesar dos incontestáveis méritos que tão notavelmente o distinguem, é
ainda um desconhecido para muitos madeirenses, em virtude da recatada modéstia em que tem procurado
ocultar-se e que uma pertinaz doença tornou mais acentuada nos últimos anos. Se assim não fora, teria
produzido uma importante e apreciada obra, especialmente acerca de vários ramos de zoologia madeirense,
para o que lhe sobram o mais aprofundado conhecimento do assunto, um entranhado amor ao estudo e ás
pesquisas de carácter cientifico e uma fácil e elegante dicção na exposição das matérias que tivesse de
versar.
O Sr. Adolfo de Noronha publicou diversos opúsculos e algumas dezenas de artigos, que absolutamente
primam pela clareza com que é apresentado o assunto e pela profundeza de conhecimentos que revelam,
manifestando-se nestes ao mesmo tempo uma notável aptidão para a mais acessível divulgação cientifica.
Os que proximamente conhecem os estudos a que o Sr. Noronha se dedicou e têm apreciado os seus valiosos
escritos são unânimes em afirmar a requintada probidade cientifica que caracteriza todos os seus trabalhos,
em que sempre põe o mais apurado escrúpulo e a mais conscienciosa aplicação.
Não é para admirar que tivéssemos ouvido a um ilustre professor universitário e um dos nossos mais
abalizados homens de ciência, com especial referência ao Sr. Adolfo C. de Noronha, estas bem merecidas
palavras: «possui todos os requisitos para ocupar com distinção uma cátedra em qualquer universidade do
país..
É bastante para sentir que imperiosas circunstancias da vida não tivessem permitido que o distinto homem
de ciência pudesse estadear em fecundos e proveitosos trabalhos toda a vastidão do seu saber e os
primorosos dotes da sua privilegiada inteligência.
E a sobredourar esses inapreciaveis dotes de espírito e de aprofundada cultura cientifica destacam-se
superiormente as mais lídimas qualidades de carácter, tão sobejamente conhecidas no meio social
madeirense.
Noronha (António Manuel de)
É de 26 de Março de 1822 a carta regia que o nomeou Governador
e Capitão-General da Madeira, tendo tomado posse a 22 de Abril do mesmo ano. Pediu a sua demissão,
alegando falta de saúde, a 4 de Fevereiro de 1823. Era governador deste arquipélago quando D. João VI
dissolveu as cortes e derrogou a Constituição, proclamando-se rei absoluto. Foi substituído por D. Manuel
de Portugal e Castro.
Em 1852 foi agraciado com o título de visconde de Santa Cruz, freguesia e vila desta ilha.
Noronha (Henrique Henriques de)
V. Henriques de Noronha ( Henrique).
Noronha (João Rodrigues de)
Era filho do 3.º capitão-donatário do Funchal, Simão Gonçalves da
Câmara, e irmão de D. Manuel de Noronha, bispo de Lamego, de quem nos ocupámos neste Elucidário.
Deve ter nascido no ultimo quartel do século XV. As crónicas que tratam das nossas cousas da Índia, falam
de João Rodrigues de Noronha com o mais alevantado elogio pelos actos de heroísmo que ali praticou. Diz
dele o autor das Saudades: ......foi capitam de Ormuz na Índia em tempo do governador D. Duarte de
Menezes, seu cunhado, que foi no ano de 1521:e antes que entrasse na fortaleza o foi do mar da costa de Dio,
e serviu bem a El-Rey até ser capitam de Ormuz, onde prendeu o tyrano Raesxarafo, e o teve a bom recado
na fortaleza até chegar o Viso-Rey seu cunhado D. Duarte de Menezes.»
Noronha (D. Manuel de)
Simão de Noronha, filho segundo do capitão donatario João Gonçalves
da Câmara, e de D. Maria de Noronha, e neto do descobridor João Gonçalves Zargo, quando herdou a
capitania do Funchal por morte de seu irmão mais velho, passou a chamar-se Simão Gonçalves da Câmara e
foi o terceiro donatário desta capitania, do qual nos ocupámos já com alguma largueza a pag. 20; e seg. do
vol. I desta obra. Deste terceiro capitão-donatario e de sua primeira mulher D. Joana Valente foi filho
Manuel de Noronha, que deve ter nascido na antiga vila do Funchal no ultimo quartel do século XV.
Nada sabemos da sua biografia até o momento em que o vemos elevado à categoria de prelado e
desempenhando já importantes e honrosos cargos.
Parece que indo a Roma, numa missão de que fora encarregado pelo monarca, aí recebeu a investidura
prelaticia e foi nomeado para exercer um importante cargo no Vaticano. Não é de crer que o grande Leão X,
e num tempo em que tantos prelados brilharam por talentos e virtudes, chamasse para junto de si um
estrangeiro, se nele não reconhecesse méritos e qualidades que o salientassem entre os seus
contemporâneos. Afirma um seu biógrafo que D. Manuel de Noronha chegou a ser núncio, cargo então das
maiores responsabilidades pelo papel político que tinha a desempenhar nas cortes em que representasse o
pontífice romano, mas ignoramos em que capital da Europa exerceu esse lugar e quaisquer, circunstancias
acerca da maneira como se houve em tão difícil e melindrosa missão.
Sabemos que, pela morte do papa ou por qualquer outro motivo, abandonou a capital do orbe católico e
fixou sua residência em Portugal, sendo em 1547 nomeado bispo de Lamego, que então era tida como uma
das primeiras Sés do reino. Os cronistas daquele bispado são unânimes em considerar D. Manuel de
Noronha como um dos seus mais distintos prelados, vinculando o seu nome a obras de vulto, como a da
construção de vários templos e em especial a da capela de S. Nicolau; no claustro da Sé, deixando-lhe
importantes rendas para a manutenção do culto diário, com a obrigação anexa da sustentação de um colégio
para oito aspirantes á vida eclesiástica. Dotou a cidade com vários melhoramentos, sobressaindo o do
encanamento de águas potáveis.
Reformou muitos pontos da disciplina eclesiástica e reuniu um concilio diocesano.
Morreu a 23 de Setembro de 1569 e jaz sepultado na capela de S. Nicolau, que ele fundou e onde se lê o
epitáfio seguinte:- Aqui jaz D. Manuel de Noronha, bispo que foi de Lamego, filho de Simão Gonçalves da
Câmara, capitão da Ilha da Madeira, e de D. Joana Valente, sua mulher, falecida a 23 de Setembro de 1569.
Norte da Ilha
Pela designação de «Norte da Ilha» é geralmente conhecida a costa setentrional da
Madeira, que se estende desde a Ponta do Tristão até à Ponta de São Lourenço, isto é, desde a freguesia das
Achadas da Cruz até à freguesia do Porto da Cruz, compreendendo todas as paróquias dos concelhos do
Porto do Moniz, São Vicente e Santana e ainda a freguesia do Porto da Cruz do concelho de Machico.
Vid.
Costa do Norte.
Norton de Matos (General)
O general Norton de Matos, Alto Comissário da República em
Angola, esteve de passagem no Funchal, no dia 3 de Abril de 1921, a bordo do Moçambique, tendo sido
cumprimentado a bordo pelo Governador Civil, Comandante Militar, Secretario Geral, etc.. Após o
desembarque, encorporou-se no cortejo do Soldado Desconhecido, tendo ido depois em comboio especial ao
Terreiro da Luta, onde lhe foi oferecido um almoço pelo deputado capitão Americo Olavo de Azevedo, em
que tomaram parte também o Governador Civil e outras pessoas.
O regresso fez-se em carros do Monte, tendo o industrial Henrique Hinton oferecido na sua residência um
chá a todos os convivas e realizando-se o embarque cerca das quatro horas e meia, sendo prestadas por essa
ocasião ao general Norton de Matos honras militares por uma força de infantaria, sob o comando dum
capitão (1921).
Nossa Senhora da Ajuda (Capela de)
Quasi à margem da estrada que conduz da Ponte
Monumental á vila de Câmara de Lobos, se encontra a capela de Nossa Senhora da Ajuda, construída por
Fernão Favila, na fazenda que possuía em São Martinho, instituindo nela a sede dum morgadio. Este
Fernão Favila era fidalgo da casa real e combateu valorosamente em Africa, estabelecendo-se depois nesta
ilha, onde casou com Beatriz Pires. Afirmam, porém, outros linhagistas que foi Antonio Favila, filho de
Fernão Favila, o instituïdor do morgado dos Piornais, com sede na capela da Ajuda, onde jaz sepultado,
tendo falecido no mes de Outubro de 1545. O conselheiro Manuel José Vieira, sendo proprietário desta
capela, procedeu nela a importantes restaurações em 1876, havendo sido benzida a 16 de Agosto do referido
ano.
Em 1916, publicou o proprietário desta capela, Manuel José de Perestrelo Favila Vieira um opúsculo de 15
páginas, intitulado A Interdição da capela de N. S. da Ajuda na freguesia de São Martinho. Antecedentes e
exposição de factos. que se ocupa do interdito lançado na mesma capela pelo prelado diocesano D. António
Manuel Pereira Ribeiro, pelo facto de ser recusada a visita do mesmo prelado a esta capela, por ocasião da
visitação canónica que fez á freguesia de São Martinho no ano de 1916. Alguns meses depois, foi levantado o
interdito, sendo a capela restituída ao serviço do culto.
Nossa Senhora da Alegria (Capela de)
Na freguesia de São Roque, no sítio conhecido pelo
nome de Alegria, fica a quinta deste nome, com casa e capela da invocação de Nossa Senhora da Alegria,
pertencentes á família dos condes de Torre Bela. Foi esta capela fundada em 1609 por Francisco de Abreu.
Celebra-se ali anualmente uma festa, que é muito concorrida pelos povos das circunvizinhanças.
Nossa Senhora do Amparo (Capelas de)
No sítio dos Álamos da freguesia de Santo
António, se levanta a capela de Nossa Senhora do Amparo, que se acha em regular estado de conservação,
celebrando-se ali de quando em quando o Santo Sacrifício da Missa. O local em que se encontra a capela fica
na partilha desta freguesia e da de S. Roque, no sítio conhecido pelo nome de Água de Mel, que era
denominação comum a um vasto terreno pertencente a ambas as paróquias. Na parte deste sítio,
compreendida nos limites de Santo António, erguiam-se a capela, grande casa de habitação e outras
dependências, que constituíam a sede da antiga instituição vincular chamada de Água de Mel.
O anotador das Saudades da Terra, fixa o ano de 1698 como o da fundação desta capela, mas inclinamo-nos
a acreditar que ela é muito mais antiga e talvez mesmo coeva da instituição do morgado, que data do ultimo
quartel do século XV. No entretanto, é certo que Bartolomeu de Sá Machado, administrador deste vinculo, a
fez edificar ou, talvez melhor, reconstruir no ano referido de 1698.
(V. Bettencourt, I-139).
D. Luísa de Mendonça, viúva de José de Seixas, fez edificar no ano de 1712 uma capela dedicada a Nossa
Senhora do Amparo, na freguesia de São Martinho, a qual pertence aos herdeiros dos morgados Sauvayres,
e na freguesia da Ponta do Pargo existe também uma capela com a mesma denominação, que deu o nome ao
sítio onde está edificada. É muito concorrida a festividade que ali se celebra todos os anos. Dedicada a
Nossa Senhora do Amparo, fundou ainda Francisco Dias Franco uma capela na freguesia de Machico no ano
de 1692.
Nossa Senhora das Angústias (Capela de)
Na freguesia de São Pedro, no sítio a que deu o
nome, edificou Diogo da Costa de Quintal, no ano de 1662, uma capela consagrada a Nossa Senhora das
Angústias. Há ali a quinta de Nossa Senhora das Angústias, mais conhecida pelo nome de quinta Lambert,
que tem uma capela desta invocação, que talvez seja a reconstrução da antiga capela existente naquele sítio.
Nesta quinta, residiu a princesa D. Maria Amélia, que ali morreu a 4 de Fevereiro de 1853.
Nossa Senhora dos Anjos (Capela de)
«Ha nesta freguesia (a Madalena), diz Frutuoso,
huma ermida de Nossa Senhora dos Anjos, que, tirando ser pequena, he huma rica casa, com um retábulo
pequeno e fresco, e bem ornado, junto do qual está huma fresca fonte debaixo de huns seixos, entre huns
canaviais de assucar de mui fermosas canas. . O Dr. Álvaro de Azevedo dá esta capela como fundada em
1508 por Martim Afonso e sua mulher Isabel Afonso, que ali instituíram um morgadio a favor de seu filho
Diogo Martins de Canha, chamado o Cavaleiro. Diz, porém, o anotador da História Insulana que a capela
dos Anjos foi mandada construir em 1474 pela infanta D. Beatriz, como tutora de seu filho, o grão-mestre da
Ordem de Cristo, a que este arquipélago pertencia no espiritual. A imagem que se venera nesta capela era de
grande devoção dos fieis, consagrando-lhe Frei Agostinho de Santa Maria um capítulo no vol. X do seu
Santuário Mariano. O sítio onde fica a capela, que tem o nome de Anjos, é notável pela fertilidade do seu
solo, pertencendo hoje á freguesia dos Canhas, mas em tempos fez parte da freguesia da Ponta do Sol. Esta
capela foi restaurada pela sua então proprietária D. Júlia de França Neto no ano de 1892 e consagrada ao
uso do culto a 10 de Dezembro do mesmo ano.
Nossa Senhora da Anunciação (Capela de)
Vid. Lombo dos Canhas, (pág. 279). Nela
esteve instalada a sede da paróquia depois de haver estado na capela de São Tiago.
Nossa Senhora da Apresentação (Capela de)
O sítio da freguesia da Ribeira Brava, hoje
conhecido pelo nome de Lombo da Apresentação, tomou este nome da capela que ali se erguia e que tinha a
invocação de nossa Senhora da Apresentação. Foi fundada por Isabel Fernandes Tavares, no ano de 1524
nas terras vinculadas que ali possuía. Esta capela encorporou-se depois na casa da família Heredia. Junto
da ermida levantava-se uma sumptuosa residência de que já nem restam vestígios.
Nossa Senhora de Belém (Capela de)
Na freguesia de Câmara de Lobos, havia a capela, hoje
extinta, de Nossa Senhora de Belém, que ficava no sítio deste nome. Foi fundada em 1649 por Gaspar
Vasconcelos Henriques e sua mulher D. Bernardina de Carvalho, sendo de 9 de Fevereiro do mesmo ano a
escritura em que fizeram a dotação desta capela. Caindo em ruínas, foi reedificada em 1758 por D. Francisco
Inacio Telo de Meneses, descendente dos fundadores. A nova capela foi construída a pequena distancia da
antiga e junto da casa de residência, com a qual comunicava interiormente.
No sítio da Referta, no Porto da Cruz, existia uma capela com a invocação de Nossa Senhora de Belém, que
depois passou a chamar-se de Nossa Senhora do Socorro. V. N. Senhora do Socorro (Capelas de).
Nossa Senhora da Boa Hora (Capelas de)
A capela de Nossa Senhora da Boa Hora fica no
sítio da Torre, da freguesia de Câmara de Lobos e é propriedade da condessa de Torre Bela (1921). Foi
fundada pelo morgado António Correia Bettencourt Berenguer. Tinha capelão privativo. Com a mesma
denominação, «por cima desta cidade», se levantava uma capela, construída em 1726 pelo capitão António
de Carvalho Drumond e sua mulher D. Inacia Micaela Henriques, tendo a escritura de dotação a data de 22
de Maio de 1726.
No sítio da Fajã, da freguesia do Arco da Calheta, se erigiu uma capela consagrada a N. S. da Boa Hora, de
que apenas restam algumas ruínas.
Nossa Senhora da Boa Morte (Capela de)
Existe na freguesia de Câmara de Lobos uma
capela com a invocagao de Nossa Senhora da Boa Morte, que ha anos se acha fechada ao serviço do culto.
Com a mesma denominagao houve uma capela na fregeusia da Ribeira Brava, fundada por Francisco
Fernandes e Brasia Fernandes, em ano que ignoramos, e na freguesia da Ca-lheta, no sitio do Atouguia,
houve também uma capela consagrada a N. S. da Boa Morte, que encontramos mencionada algures com o
nome de N. S. da Piedade. Desta ultima capela, cuja construgao data do ano de 1661, tendo sido seu
fundador Francisco Homem de Couto, nem restam hoje vestigios, mas ainda se chama da Boa Morte o sitio
onde ela foi edificada.
Na freguesia da Ponta do Pargo instituiu Custódio Nunes da Costa uma capela dedicada a N. S. da Boa
Morte, no ano de 1666.
Nossa Senhora da Boa Nova (Capela de)
No sítio deste nome, da freguesia de São Gonçalo,
se encontra a capela de Nossa Senhora da Boa Nova, que foi fundada em 1701 por Eusébio da Silva Barros.
Nossa Senhora da Boa Viagem (Capelas de)
No sítio da Carne Azeda da freguesia de
Santa Luzia, fundaram uma capela desta invocação Manuel Pestana Teixeira e sua mulher Francisca Xavier
da Conceição no ano de 1711, sendo vistoriada, para o efeito da celebração dos actos do culto, a 28 de Junho
do mesmo ano.
Na freguesia de Santa Maria Maior, na rua que ainda hoje conserva o nome de Boa Viagem, se erguia uma
capela da mesma invocação, fundada por Bento da Veiga. Ignoramos a data da sua fundação, mas sabemos
que era construção muito antiga. Algures lemos que era um edifício de interessante e característica
construção, e bem assim uma casa que lhe ficava contígua. Afirma-se que nesta casa se instalou a primeira
alfândega e depois o primeiro açougue do concelho. A capela profanada que hoje se encontra na rua da Boa
Viagem, não é a capela desta invocação a que aqui nos referimos.
Nossa Senhora do Bom Despacho (Capela de).
Existe esta capela na freguesia do Campanário,
fundada no ano de 1672 pelo morgado Jerónimo de Atouguia Bettencourt e sua mulher D. Catarina
Espranger, tendo a escritura de dotação a data de 27 de Junho daquele ano. Em 1762, foi reedificada pelo
padre Francisco Nicolau de Brito, pertencendo então a capela a um irmão deste sacerdote. Pertence hoje a
Feliciano de Brito Correia, representante desta família (1921).
Nossa Senhora do Bom Sucesso (Capelas de)
No extremo limite da freguesia de Câmara
de Lobos e Estreito de Câmara de Lobos, para os lados de oeste, no sítio de Garachico, se encontra a capela
de Nossa Senhora do Bom Sucesso, que é considerada como pertencendo à ultima destas paróquias. Dava-
se a singularidade de ter esta capela o seu altar levantado dentro dos limites duma daquelas freguesias e a
porta abrir-se sobre terrenos da outra paróquia limítrofe, Parece que em tempos mais afastados de nós se
suscitaram duvidas acerca da freguesia a que deveria pertencer a capela, tendo-se até dado conflitos de
jurisdição entre os respectivos párocos. Foi construída nos princípios do século XVII por Manuel João
Ferreira e especialmente destinada a nela celebrar missa seu filho o padre Francisco Luís Ferreira. Foi há
anos acrescentada pelos moradores do lugar.
Existe também uma capela consagrada a Nossa Senhora do Bom Sucesso, no sítio do Lombo da Estrela; da
freguesia da Calheta, fundada em 1683 por Lourenço da Costa, e na freguesia de Santa Maria Maior, á
margem da estrada conhecida pelo nome de Caminho do Meio, se encontra uma outra capela da mesma
invocação, que pertence á Câmara Municipal do Funchal, bem como a casa que lhe fica anexa, onde se acha
instalada uma escola oficial. Desconhecemos o nome do fundador desta ultima capela e o ano em que foi
adquirida pela Câmara do Funchal.
Nossa Senhora das Brotas (Capela de)
Vid.1-174.
Nossa Senhora do Calhau (Igreja de)
Foi conhecida esta igreja por várias denominações.
Chamava-se-lhe Conceição de Baixo, para a distinguir da capela que Zarco edificara no local onde depois se
levantou o convento de Santa Clara, e que era conhecida pelo nome de Conceição de Cima; também se lhe
chamou Santa Maria Maior, em contraposição á pequena igreja de Conceição de Cima, que era de mais
acanhadas dimensões; e teve finalmente o nome de Nossa Senhora do Calhau, que foi o que mais perdurou,
por estar situada não longe da praia e num lugar a que comummente chamavam o calhau. E a tal propósito
diz o Dr. G. Frutuoso: «Feita pousada neste logar (Santa Catarina), em que agasalhou sua mulher e filhos,
entendeo o capitam Zargo em fazer huma igreja que fosse princípio e fundamento da villa do Funchal; e por
estar segura e bem assentada, a mandou ordenar á beira do mar no cabo do valle do Funchal, ao longo da
primeira ribeira deste prado, onde fazia o mar continuo á corrente da ribeira huma abra de muitos calhaos e
seixos miudos, lavados da continuação das ondas delle, que nella batiam; e por esta razão houve nome esta
primeira igreja do Funchal vulgarmente Nossa Senhora do Calhao, sendo seu orago a Natividade da Virgem
...»
A sua construção começou por 1438, quando já então se havia constituído um importante núcleo de
população para além da margem esquerda da ribeira, que depois teve o nome de João Gomes. Uma grande
aluvião que assolou a cidade no ano de 1611, destruiu em boa parte a igreja e o hospital que lhe ficava anexo,
sendo então projectada a construção dum novo templo em local mais abrigado e seguro. Parece que esta
edificação se não fez desde logo, pois diz uma nota das Saudades que a igreja foi reconstruída entre os anos
de 1664 e 1688.
Outra enchente ocorrida em 1707, causou varias danificações na nova igreja e destruiu uma parte
considerável do adro, havendo-se então realizado obras importantes na muralha que punha o templo ao
abrigo da corrente impetuosa da ribeira. Isto não obstou a que a grande cheia de 1803 fizesse abater a
igreja, deixando-lhe apenas de pé uma parte da capela-mor. A provisão de 10 de Março de 1805 determinou
que se conservassem cuidadosamente estas ruínas no mesmo estado em que as deixara a aluvião, como
lembrança, para os vindouros, do acontecimento que mais funesto fôra para os habitantes desta ilha. Não
aconteceu, porém, assim, porque trinta e dois anos depois, isto é no mês de Dezembro de 1835, mandou a
Câmara do Funchal demolir a parte que restava ainda da velha e histórica igreja, para ali se edificar um
mercado de frutas e hortaliças, que teve o nome de Mercado União e cuja construção se realizou no ano de
1835.
Não é exacta a afirmativa do Dr. Gaspar Frutuoso quando diz que a igreja do Calhau foi a primeira edificada
no Funchal. Segundo o anotador das Saudades, foi a capela de São Sebastião a primeira que aqui se
levantou, afirmando outros que o direito de prioridade pertence á capela de Santa Catarina (V. este nome),
construída de madeira junto à moradia de João Gonçalves Zargo, compartilhando nós desta opinião, por
julgarmos ser a que mais se aproxima da verdade histórica.
A aluvião de 1803 arrastando para o mar a igreja de N. S. do Calhau, destruiu conjuntamente o arquivo
paroquial, que era importante e continha documentos de valor.
A sede da paróquia passou em fins do ano de 1803 para a igreja de Santiago, que era propriedade da
Câmara Municipal. Vid. Santiago (Igreja de).
Convém aqui advertir que a igreja de Nossa Senhora do Calhau ficava situada na margem esquerda da
ribeira de João Gomes, entre as embocaduras das actuais rua de Santa Maria e rua Nova de Santa Maria ou
de Latino Coelho. No local onde se erguia a igreja foi construído, como já fica referido, um mercado de
frutas e hortaliças, que há poucos anos se demoliu para o alargamento da rua que margina a mesma ribeira.
(V. Mercados).
Também notaremos que o antigo hospital, ou uma das suas dependências, ficava contíguo a esta igreja,
como claramente se demonstra com o que se acha exarado num livro de provimentos do respectivo arquivo
paroquial, único que escapou da aluvião de 1803, lendo-se ali que no recinto da igreja, com grave
perturbação dos fiéis, se ouviam os gritos dos doentes, sobretudo por ocasião das operações ou dos
curativos mais dolorosos.
Nossa Senhora da Cadeira (Capela de)
Com este nome existiu uma capela no sítio da
Cadeirinha, que ficava dentro dos actuais limites da freguesia da Quinta Grande e que teria outra invocação
esquecida pelo tempo.
Também houve na mesma paróquia uma ermida consagrada a Nossa Senhora, que tinha o nome de capela
da Porta da Quinta.
Nossa Senhora da Candelária (Capela de)
Com esta invocação e no sítio que tem este
nome existe na freguesia da Tábua uma capela, atribuindo-se a sua antiga construção a um dos primitivos
povoadores de apelido Medeiros, havendo sido reconstruída em ano que ignoramos. Foi centro de uma
antiga romagem.
Nossa Senhora do Carmo (Capela de)
O mercador Domingos Rodrigues, natural de
Guimarães, construiu em 1658, na quinta que possuía na freguesia do Campanário, a capela de Nossa
Senhora do Carmo.
Nossa Senhora do Carmo (Igreja de)
Esta igreja, que deu o nome á rua em que fica situada,
foi construída por meado do século XVII. Doou o terreno para a sua construção e casas anexas o capitão
Roque Acciaioly de Vasconcelos, sendo a capela-mor feita a expensas do prior da Ordem Terceira do Carmo,
Pedro Gonçalves Brandão, e o corpo do edifício á custa dos irmãos da mesma Ordem. Começou a ser
edificada no ano de 1656 e só foi dada por concluída em 1660.
A Ordem Terceira do Carmo foi estabelecida nesta cidade pelo padre Luís do Rosário de Vila Nova, que o
provincial mandou para esse fim a esta ilha, e teve sua sede na igreja do convento da Incarnação, e ali
permaneceu até á construção da nova igreja.
A igreja do Carmo teve anexo um pequeno hospício ou albergaria, fundado por Henrique Henriques de
Noronha. Ali estiveram alguns religiosos carmelitas, mas desconhecemos quaisquer outras circunstancias
que digam respeito à existência e duração deste hospício.
Nas paredes laterais da capela-mor desta igreja encontram-se dois belos mausoléus, os únicos de algum
valor artístico, que existem nos templos desta ilha.
Desta invocação existiu uma capela na freguesia do Campanário, que era de instituição vincular e que foi
edificada em 1658 por Domingos Rodrigues.
Nossa Senhora da Conceição (Capelas de)
Existiu na freguesia do Monte uma capela
dedicada a Nossa Senhora da Conceição, que foi fundada por Tristão de França Bettencourt em ano que
ignoramos, e no largo das Babosas da mesma freguesia, se construiu em 1906 uma capela que também tem
o mesmo orago. Foi fundada com o fim de comemorar as festas jubilares que se celebraram na Madeira para
solenizar o quinquagésimo aniversário da definição do dogma da Imaculada Conceição. A parte principal
destes festejos consistiu num imponente e brilhante cortejo religioso, que saindo da Sé Catedral se dirigiu
ao largo da Fonte, freguesia do Monte onde se celebrou uma missa campal, tendo por essa ocasião o prelado
D. Manuel Agostinho Barreto proferido um dos seus mais vibrantes e entusiásticos discursos. Nasceu então
a ideia da edificação da Capela-Monumento, que se realizou dois anos depois, havendo o bispo diocesano
nomeado previamente a comissão encarregada de angariar os indispensáveis donativos e de dirigir a
respectiva construção. O comendador João Bernardino Gomes, vice-presidente da comissão, ofereceu o
terreno para a edificação do gracioso templo e a imagem da Virgem que figura no seu altar, tendo havido
outras generosas ofertas para o ornato e decoração da capela. Cumpre prestar homenagem à justiça,
consignando aqui que foi o comendador Luís de Bettencourt Miranda quem mais notavelmente concorreu
para a construção da Capela-Monumento. Aos seus diligentes e perseverantes esforços se deve não somente
a conclusão de todos os trabalhos, mas ainda o aformoseamento do local, que se tornou um sítio em
extremo pitoresco e ponto obrigado de visita para todos os que se dirigem á encantadora e paradisíaca
estancia do Monte. O opúsculo Nossa Senhora do Monte, do padre Joaquim Plácido Pereira, insere uma
desenvolvida noticia acerca das festas jubilares e fundação desta capela.
Existe na freguesia de Câmara de Lobos, e a pequena distancia da igreja paroquial, a capela de Nossa
Senhora da Conceição, que é muito antiga e se presume ter sido construída pelo povo. No decorrer dos
tempos, tem sofrido varias reparações e ainda há cerca de doze anos se fizeram ali obras importantes para a
sua conservação e decoração interior. Esta capela, que não é de dimensões muito acanhadas, está a cargo da
classe piscatória, que nela mantém e sustenta o exercício do culto.
Na rua da Carreira, desta cidade, entre as ruas do Conde de Canavial e da Alegria, se encontra a capela de
Nossa Senhora da Conceição, que foi fundada em 1770 pelo capitão Luís Bettencourt de Albuquerque e
Freitas, junto da sua casa de moradia, tendo sido benzida a 7 de Dezembro do ano referido, e na freguesia de
São Pedro, em lugar que ignoramos, fundaram Rui Dias de Aguiar e sua mulher Leonor de Ornelas de
Andrade, no ano de 1662, uma capela da mesma invocação, que tinha escritura de dotação de 11 de
Dezembro do mesmo ano.
Na propriedade que possuía na freguesia de São Roque, fundou o cónego António Lopes de Andrade, no ano
de 1700, uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, tendo a respectiva escritura de dotação a data
de 8 de Julho do mesmo ano, e Diogo Afonso de Aguiar fundou em 1688 uma capela na freguesia da Tabua,
dedicada também á mesma Senhora, que fez erigir muito próximo do litoral. Foi reconstruída em 1910 por
José da Silva Novita, tendo sido benzida pelo prelado D. Manuel Agostinho Barreto, a 31 de Julho do
mesmo ano.
A capela de Nossa Senhora da Conceição, que existe na freguesia do Estreito da Calheta, era sede dum
importante morgadio, que abrangia uma das mais vastas propriedades desta ilha e que há poucos anos foi
vendida ás parcelas pelo seu ultimo possuidor, tendo sido também alienadas a capela e a casa solarenga que
ficam anexas. Foi fundada por André de França e Andrade, pelos anos de 1672.
É de bem recente data a construção da capela de N. S. da Conceição, que fica no sítio das Amoreiras, da
freguesia do Arco da Calheta. Foi benzida a 27 de Dezembro de 1911 e fundada pelo pároco José Marcelino
de Freitas, com donativos dos fiéis.
Na margem e próximo da foz da ribeira da Serra de Água, na freguesia do Arco da Calheta, levantou
Gonçalo Fernandes uma capela consagrada á mesma Senhora, e nela fez a sede dum morgadio, com a
obrigação da celebração de missa quotidiana e da recitação dum responso em cada dia sobre a sua sepultura
«enquanto o mundo durar», segundo a respectiva verba testamentaria.
A respeito deste Gonçalo Fernandes dizem vários linhagistas o que resumidamente se encontra nunca nota
ás Saudades, nos seguintes termos: «Feita a paz do Sr. D. Affonso V e recolhida a Excellente Senhora ao
mosteiro, foi mandado para a Ilha com proibição de sair della. Todos os annos o Rey lhe mandava hum
navio com todo o recheio preciso para a sua casa; era tractado com muita attenção, a não se souberam seus
paes. Na sua capella poz por armas as quinas portuguezas em aspa, e sobre a sepultura fez gravar hum
menino com o rosto sobre a mão esquerda, o cotovelo sobre uma caveira, e apontando com a direita para a
seguinte inscrição tirada do livro da Sapiência: Sic et nos nati continuo desivimus esse. Conta-se que fizera
pintar em outra parte huma mulla atirando couces á fortuna».
A capela do Arco da Calheta, segundo vemos num manuscrito do princípio do século passado, «foi obra
primorosa», dizendo o nobiliario de H. H. de Noronha que o fundador a ornou «com muito luzimento e
boas pinturas.»
Gonçalo Fernandes morreu a 15 de Junho de 1539 e jaz sepultado nesta capela, como dito fica. Foi sucessor
do morgadio seu filho primogénito Pedro Gonçalves de Andrade Esta casa vinculada passou aos Freitas da
Madalena, de que foi ultimo representante o morgado Nuno de Freitas de Lomelino.
Há ainda a citar, com a invocação de N. S. da Conceição, uma capela na freguesia de Santa Cruz fundada
pelos anos de 1600 por Bartolomeu Telo Moniz de Meneses, e uma outra na freguesia da Ponta Delgada,
reconstruída no ano de 1754 por Nuno de Freitas da Silva, ignorando-se o ano da sua primitiva edificação.
Na freguesia da Ribeira Brava, no sítio da Conceição existe uma capela com a mesma invocação, de que não
temos outra noticia.
No sítio da Fajã dos Padres, no litoral da freguesia do Campanário, existiu uma pequena capela dedicada a
nossa Senhora da Conceição, que pertencia aos jesuítas e que os corsários argelinos destruíram no ano de
1626.
Com igual invocação, fez o visconde de Cacongo edificar uma capela na sua quinta da Choupana, freguesia
de Santa Maria Maior, no ano de 1930, que foi benzida a 12 de Outubro do ano referido.
Ainda com essa invocação fundou o capitão José Sotero e Silva uma capela no sítio da igreja, na freguesia do
Monte, que o seu actual proprietário José de Freitas Belmonte, fez concluir e aplicar ao serviço do culto.
Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu (Capela de)
(Capela de)
. A fortaleza de Nossa Senhora da
Conceição do Ilhéu teve sua capela que foi mandada construir pela alvará régio de 9 de Novembro de 1682.
Foi seu primeiro capelão o padre José de Andrade, nomeado por alvará de 31 de Julho de 1692. Entre estas
duas datas se deve contar a da edificação da capela. que tinha o orago de Nossa Senhora da Conceição.
Nossa Senhora da Consolação (Capelas de)
Álvaro de Ornelas, que notavelmente se
distinguiu como navegador, e a quem os seus contemporâneos chamaram o Grande, teve vastas terras de
sesmaria na freguesia do Caniço, que se estendiam desde o ribeiro do Garajau até a ribeira do Porto Novo e
iam do mar á serra. Foi nelas que em 1499 instituiu um morgadio, cuja administração se transmitiu sempre
de pai a filho e de que é actualmente representante o conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos (1921). O
instituidor estabeleceu como cláusula que esta casa vinculada «só podesse ser empenhada para resgatar o
administrador que em serviço de Deus e do rei fosse captivo dos infieis.» Foi por 1591 que em terras deste
morgadio fundou Aires de Ornelas de Vasconcelos a capela de Nossa Senhora da Consolação, que ainda
existe e que é propriedade da família do fundador. Tornou-se a sede desta instituição vincular com a sua
casa solarenga anexa, para onde o governador e capitão-general Sá Pereira desterrou em 1774 o morgado
Agostinho António de Ornelas, que pouco depois ali faleceu a 5 de Agosto do mesmo ano, e foi sepultado na
referida capela, lendo-se esta inscrição no mármore do seu jazigo: Sepultura de Agostinho António de
Ornellas e Vasconcellos, moço fidalgo da Casa real, nono senhor deste morgado. 1718 a 1774. Esta capela
fica no sítio ainda hoje chamado da Quinta, tomando este nome do solar anexo á mesma capela e a que já
acima nos referimos.
A margem da estrada que ladeia a levada de Santa Luzia e quasi no ponto de intersecção dessa estrada com
o caminho da Torrinha, se levanta a capela de Nossa Senhora da Consolação, onde, na quadra do verão, se
celebram com grande brilho e muita afluência de povo as novenas e respectiva festividade. Ignoramos o ano
da sua construção, mas presumimos que data dos fins do século XVI. Era de acanhadas dimensões e no ano
de 1861 se procedeu á sua conveniente reconstrução e acrescentamento, tendo sido benzida no mês de Julho
do referido ano. O frontal do altar, que é um antigo e excelente mosaico, pertenceu á igreja do convento de
São Francisco. Fazia esta capela parte da freguesia do Monte, antes da criação da paróquia de Santa Luzia,
em cuja área fica hoje situada.
Mais comummente conhecida pelo nome de capela do Foro, por ficar no sítio deste nome, é a capela de
Nossa Senhora da Consolação da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, que foi vinculada e cujo ano de
construção ignoramos. Realiza-se ali a festa e um concorrido arraial do povo das circunvizinhanças no
primeiro de Novembro de cada ano. O Dr. Álvaro de Azevedo diz haver existido no sitio do Foro uma capela
consagrada a Santiago, que não sabemos se será a mesma que deixamos mencionada ou outra distinta dela.
Nas proximidades da igreja paroquial da freguesia do Arco da Calheta ficava a capela de Nossa Senhora da
Consolação, que foi fundada por Isabel de Abreu, nos princípios do século XVI.
Nossa Senhora do descanso (Capela de)
Com esta invocação, existiu uma capela na
freguesia de Santa Luzia, na propriedade conhecida ainda hoje pela denominação de quinta do Descanso.
Pertenceu ao morgadio de Tristão Bettencourt da Câmara, mas ignoramos a época em que foi construída.
Nossa Senhora do Desterro (Capela de)
No sítio que tem hoje este nome e com igual
invocação, fundou o cónego Jorge Furtado de Sousa, no primeiro quartel do século XVII, uma capela, de
que é actual proprietário o distinto madeirense Dr. Juvenal Henriques de Araújo. É frequentemente visitada
por pessoas de diversos pontos da ilha e no ano de 1942 foi publicada a respeito dela uma interessante
monografia histórica.
Raul Esteves, no sítio do Ledo da freguesia do Arco da Calheta e no ultimo quartel do século XVII, fez
edificar uma capela dedicada a Nossa Senhora do Desterro, de que apenas restam algumas ruínas.
Também existiu uma capela da mesma invocação no sítio da Ribeira Grande, freguesia de Machico, fundada
no ano de 1661 pelo capitão Manuel Telo de Meneses.
Nossa Senhora das Dores
Os cemitérios paroquiais das freguesias de Santa Cruz e de Câmara
de Lobos e o das Angústias, no Funchal (hoje encerrado), tem suas capelas para o privativo serviço religioso
dos mesmos, todas com a invocação de Nossa Senhora das Dores, havendo sido construídas a primeira no
ultimo quartel do século XIX e a última no ano de 1844.
É também dedicada a Nossa Senhora das Dores a capela do Hospício da Princesa Dona Maria Amélia
destinada ao serviço dos doentes ali internados, sendo a primorosa imagem oferecida pelo desventurado
príncipe Maximiliano, depois imperador do México e ai barbaramente fusilado no ano de 1867.
Nossa Senhora da Esperança (Capela de)
O padre Manuel de Nóbrega fundou no sítio do
Vale Formoso, da freguesia de Santa Luzia, uma capela com a invocação de Nossa Senhora da Esperança, no
ano de 1744, tendo a escritura de dotação a data de 11 de Dezembro do mesmo ano. Foi demolida há muitos
anos.
Havia com a mesma invocação uma capela na freguesia de São Roque, que era bastante antiga e foi centro
de uma antiga romagem. O tenente-coronel A. Artur Sarmento publicou em opúsculo uma desenvolvida
noticia histórica acerca desta capela.
Nossa Senhora da Estrela (Capela de)
«E logo ahi em outra lombada da mesma filha
(Beatriz Gonçalves), em hum logar alto de boa vista do mar e da terra, traçou de sua mão o mesmo capitão
(Zarco) huma igreja de Nossa Senhora da Estrela, e dice que esta igreja havia de deixar muito encomendada
a seus filhos, porque havia muito tempo que desejava edificala em logar de seu gosto.» Eis aí fica a origem
da fundação desta capela, como a descreve Gaspar Frutuoso. Foi Diogo Cabral
(V. Cabral),
casado com
D. Beatriz Gonçalves da Câmara, filha de João Gonçalves Zargo, que cumpriu os votos do descobridor,
mandadas construir esta capela, que foi a cabeça do morgadio por ele instituído. Morreu Diogo Cabral a 15
de Dezembro de 1486, e foi sepultado na capela de que fora o fundador. Quando esta se encontrava já em
adiantado estado de ruína, foi a lápide sepulcral que cobria os despojos mortais de Diogo Cabral removida
há algumas dezenas de anos para o cemitério paroquial e colocada sobre uma sepultura qualquer, tendo-se
por essa ocasião aspado na lágea tumular o epitáfio e brasões de armas de Cabral, ou então foi ali posta
invertidamente, ocultando-se a inscrição à vista do visitante mas a ossada do instituidor lá continuou entre
os escombros da capela, e dessas ruínas nem hoje se encontram vestígios.
Na capela da Estrela, que não era de pequenas dimensões, se instalou a paróquia por ocasião da sua criação
e ali esteve durante bastantes anos. Encontramos algures que esta capela foi construída no ano de 1479 e
reedificada em 1560 por Rui de Sousa, bisneto do fundador Diogo Cabral.
Por um antigo livro de Provimentos da igreja de Nossa Senhora do Calhau, que escapou á aluvião de 1803,
sabemos que em 1632 existia naquela paróquia a capela de Nossa Senhora da Estrela, ignorando qual fosse
o local em que ela se levantava.
Nossa Senhora da Fátima
No sítio do Pico do Galo, freguesia de Câmara de Lobos, fundou o
padre António de Abreu Vieira, com donativos colhidos na paróquia, uma capela desta invocação, que foi
benzida a 11 de Outubro de 1931.
Nossa Senhora da Fé (Capelas de)
Ficava na freguesia de São Martinho uma capela com esta
invocação, fundada por Manuel Gonçalves Lisboa no ano de 1668. Deu o nome ao sítio em que foi edificada.
No sítio do Mirante da Terra do Baptista, na freguesia do Porto da Cruz fundou o morgado Diogo Dias de
Ornelas e Vasconcellos uma capela da mesma invocação, sendo de 25 de Novembro de 1825 a data da
escritura de dotação e de 11 de Agosto de 1826 a vistoria para a licença de nela se poderem celebrar os actos
do culto. Já não existe.
Nossa Senhora da Glória (Capela de)
Henrique de Bettencourt fundou esta capela em 1599
na freguesia do Campanário. Em 1823 era seu administrador o morgado Luís Correia. Foi há poucos anos
restaurada pela condessa de Torre Bela, a quem pertence (1921).
Nossa Senhora da Graça (Capelas de)
Era a capela de N. S. da Graça uma das mais antigas
do Porto Santo. No princípio do século passado, sob os auspícios de Manuel Inácio de Avelar Brotero,
governador daquela ilha, se procedeu à sua reconstrução, em vista do estado de ruína em que ela se
encontrava, mas não chegou nunca a concluir-se. Não seria de acanhadas dimensões e afirma-se que era a
reprodução minúscula dum celebre santuário de Itália. Oferecia a singularidade de interiormente ter a
forma octogonal. Ainda restam as paredes, em parte desmanteladas pela acção do tempo e pelo vandalismo
dos homens.
Na vila de Machico se encontra uma capela dedicada a Nossa Senhora da Graça, da qual apenas sabemos
que é bastante antiga e que foi reconstruída pela respectiva confraria no ano de 1750.
Com a mesma invocação, existiu uma capela na freguesia de Santa Cruz, erigida em 1520 por Pedro Alvares
de Almada.
Na freguesia da Sé «sita junto ao Ribeirinho desta cidade», edificou o chantre Domingos de Andrade e
Alvarenga no ano de 1699, uma capela com a invocação de Nossa Senhora da Graça.
Nossa Senhora da Incarnação (Capela de)
No sítio dos Louros, da freguesia de São
Gonçalo, segundo afirma o anotador das Saudades, houve uma capela desta invocação, tendo sido fundada
por Diogo Bernardes Branco, no ano de 1656.
No sul da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, na partilha da paróquia de Câmara de Lobos, se
encontra a capela de Nossa Senhora da Incarnação, que tem sobre o pórtico a data de 1671, que deve ser a
da sua construção. Pertenceu ao morgado João José de Ornelas Cabral e é hoje propriedade de D. Maria
Teresa Figueira.
Vid.
Convento da Incarnação (1-306).
Nossa Senhora de Jesus (Capela de)
Com o orago de Nossa Senhora de Jesus, a primeira
capela que temos encontrado, diz o Dr. Álvaro de Azevedo, é a que fundou João Bettencourt de Atouguia na
freguesia de São Martinho, no ano de 1656.
Nossa Senhora do Livramento (Capelas de)
Levantava-se na freguesia do Caniço uma
capela dedicada a Nossa Senhora do Livramento, no sítio que ainda hoje conserva este nome. Foi objecto
duma antiga e concorrida romagem, que ainda actualmente se faz á igreja paroquial, desde o tempo em que
se demoliu a capela, da qual nem hoje restam vestígios. Parece ter sido construída por meados do século
XVII, atribuindo-se a sua fundação a Sebastião de Oliveira, que possuía terras naquele sítio.
Com a mesma invocação, conhecemos ainda uma capela na freguesia da Ponta do Sol, outra na freguesia do
Monte, outra na freguesia do Estreito da Calheta e uma quarta na freguesia de S. Vicente.
A primeira destas capelas foi mandada construir por Diogo Ferreira de Mesquita e sua mulher D. Isabel de
Meneses, em 1656, sendo dotada por escritura de 14 de Setembro do mesmo ano; a segunda foi edificada
por Inácio Ferreira Pinto, em 1684, e reconstruída um século depois por João José Bettencourt de Freitas,
realizando-se a vistoria para nela se poderem realizar os actos do culto a 5 de Julho de 1784; a terceira, que
é de recente fundação, foi mandada construir por D. Inacia Bettencourt Perestrelo no ano de 1858, sendo de
11 de Setembro do mesmo ano a escritura de dotação e de 17 de Abril de 1860 a vistoria canónica; e a ultima
foi erigida em 1685 pelo padre Manue1 Gomes Garcês.
A capela de Nossa Senhora do Livramento da freguesia do Estreito da Calheta, é hoje (1921) propriedade de
Francisco Bettencourt Pimenta e está situada no Lombo dos Reis.
Nossa Senhora do Loreto (Capela de)
Acerca desta capela se lê num antigo livro do
arquivo paroquial da freguesia do Arco da Calheta o seguinte trecho: «esta ermida é magnífica por sua
architectura e fabrico, foi feita nos princípios desta freguesia... foi seu primeiro fundador homem ilustre da
notabilissima família dos Câmaras, como mostra o escudo das suas armas no alto da porta principal. . .
nesta capela está a cabeça dum morgado que administraram muitos anos os priores da Esperança de
Lisboa... e são todas as fazendas que divide o Ribeiro do Ledo para a banda de leste. . . . ». Henrique
Henriques de Noronha dá mais os seguintes esclarecimentos: «Pedro Gonsalves da Câmara, filho 3.° do
segundo donatario João Gonsalves da Câmara casou com D. Joana de Eça, que foi dama da rainha D.
Catharina, mulher de D. João 3.°. . . reedificou o mosteiro da Esperança, em Portugal e fez a ermida de
Nossa Senhora do Loreto, no Arco da Calheta, aonde teve nobres casas, de que se não vê hoje mais que
ruínas: vê-se o seu retrato naquela ermida». Deixou D. Joana de Sá esta capela e as terras que lhe ficavam
anexas ás freiras do convento da Esperança, de Lisboa, que, por seu turno as venderam a Francisco Luís de
Vasconcelos Bettencourt, instituindo este ali a sede dum morgadio.
Lemos algures que foi construída no ano de 1510.
Nossa Senhora da Luz
Foi tomada para padroeira dos estudos na Madeira nos fins do terceiro ou
princípios do ultimo quartel do século XVIII, e por isso lhe faziam os estudantes uma festa anual que durou,
segundo cremos, até 1855. Havia por essa ocasião outeiro, a que concorriam os poetas da ilha.
Em Setembro de 1880, verificou-se na igreja do Colégio a referida festa, que havia 25 anos se não realizava,
mas sem que para ela concorressem os alunos do liceu, que eram noutras épocas os seus principais
promotores.
Nossa Senhora da Madre de Deus (Capelas de)
Vid. Madre de Deusa pág. 326.
Nossa Senhora Mãe dos Homens
No Caminho do Meio, freguesia de Santa Maria Maior, existe uma
capela com esta invocação, que é propriedade do Visconde de Cacongo.
Nossa Senhora das Maravilhas (Capela de)
Na quinta das Maravilhas, no largo do
mesmo nome, fundaram em 1657 uma capela desta invocação, Diogo Bettencourt Correia e sua mulher D.
Catarina da Silva, tendo escritura de dotação de 18 de Agosto do mesmo ano. Foi reconstruída em 1736 por
D. Mariana da Silva, havendo sido vistoriada para nela se poder celebrar missa, a 20 de Novembro do ano
referido. Já não existe.
Com igual invocação, existiu uma capela no sítio do Passo da freguesia da Madalena do Mar.
Gaspar Betencourt de Andrade instituiu outra em 1658 na freguesia de S. Pedro.
Nossa Senhora das Mercês (Capela de)
O capitão Gaspar Homem de El-Rei e sua mulher
D. Isabel Florença fundaram na freguesia do Arco da Calheta, no ano de 1650, uma capela dedicada a Nossa
Senhora das Mercês que ficava no sítio chamado das Florenças.
Nossa Senhora dos Milagres (Capelas de)
Brás de Freitas da Silva construiu na freguesia
do Monte, em terras do seu morgadio e no ano de 1661, uma capela consagrada á invocação de Nossa
Senhora dos Milagres, e o anotador das Saudades faz menção duma capela do mesmo orago, fundada em
1662 por Pedro Ferreira de Mesquita, na freguesia da Ponta do Sol.
Nossa Senhora do Monserrate (Capela de)
Nas proximidades do antigo pelourinho da
vila da Calheta se levantava a capela de Nossa Senhora do Monserrate, que desde há muito não existe.
Nossa Senhora do Monte (Capela de)
Os moradores dos sítios do Lombo das Adegas e
Terças, da freguesia da Ponta do Sol, pediram licença no ano de 1750 para construir uma capela, alegando a
distancia a que moravam da igreja paroquial e o desejo que tinham de edificar um pequeno santuário
destinado a guardar a veneranda imagem de Nossa Senhora do Monte, e prestar-lhe culto, que se achava
num pequeno oratório coberto de colmo e sem a decência devida à mesma imagem. Teve escritura de
dotação celebrada a 7 de Julho de 1750, sendo concedida licença para a respectiva benção a 15 de Setembro
de 1751. Vinte e quatro anos depois foi acrescentada, procedendo-se à sua nova bênção a 10 de Junho de
1775.
Na noite de 1 de Junho de 1810, forçaram as portas da capela e dali retiraram a imagem de Nossa Senhora,
que colocaram a certa distancia, despojando a mesma imagem de todas as jóias que a ornavam, o que
causou o maior sentimento de pesar em toda a população. Foi conduzida para a igreja paroquial e, depois de
vários actos de desagravo, conduzida processionalmente e com a maior solenidade para a mesma capela, a 6
de Agosto de 1810.
Nossa Senhora do Monte (Freguesia de)
Embora seja este o seu histórico e verdadeiro
nome e desta maneira se ache escrito nos documentos oficiais, a começar pelos que se guardam no
respectivo arquivo paroquial, é, porém, certo que se tornou mais geralmente conhecida pela denominação
de freguesia do Monte, em atenção às tendências simplificadoras da linguagem popular, que procura
sempre seguir a lei do menor esforço.
Apesar do nome que conserva, não fica situada no cume ou nas vertentes dum isolado monte, mas demora a
meia encosta das elevadas montanhas que circuítam os arredores da cidade. O importante núcleo de
população, que, logo nos primeiros tempos, se constituiu no Funchal junto das margens do oceano, foi-se
gradualmente estendendo e alargando pelas lombas e outeiros circunvizinhos, procurando por vezes lugares
invios e quasi inacessíveis. Não tardaria que o desbravamento dos arvoredos e matagais, e o correlativo
arroteamento das terras, alcançasse as alturas desta freguesia ao menos nos limites que a confinavam com o
primitivo Funchal. Os casais iriam lentamente avançando pela escalada da abrupta serrania, e lá mais no
alto se encontrava já a pequena e devota ermida de Nossa Senhora do Monte, que emprestou o nome ao
sítio e depois á futura freguesia.
A origem desta paróquia vem da fazenda povoada que ali tinha Adão Gonçalves Ferreira, o primeiro homem
que nasceu nesta ilha e que era filho de Gonçalo Aires Ferreira (V. pág. 21), o mais distinto companheiro de
Zargo na descoberta do arquipélago. Como geralmente acontecia, era uma pequena capela o centro em
torno do qual se agrupavam os primeiros povoadores, tendo Adão Ferreira levantado ali pelos anos de 1470
uma modesta ermida, que parece ter tido o nome primitivo de Nossa Senhora da Incarnação, passando
depois a chamar-se Nossa Senhora do Monte, devido certamente ás condições orograficas do local, que bem
justificavam a nova e apropriada denominação. Outros afirmam que a milagrosa aparição da imagem da
Santissima Virgem, que logo começaram a chamar Nossa Senhora do Monte, é que deu origem a que a
capela tomasse este nome, que se transmitiu ao sítio e mais tarde a toda a paróquia.
A lenda dessa aparição miraculosa vem narrada, nos seguintes termos, no verso das gravuras que
representam a pequenina e veneranda imagem: «Ha mais de 300 anos, no Terreiro da Luta, cerca de 1
quilómetro acima da igreja de N.ª S.ª do Monte, uma Menina, de tarde, brincou com certa pastorinha, e
deu-lhe merenda. Esta cheia de jubilo, refere o facto á sua família, que lhe dão deu credito, por lhe parecer
impossível que naquela mata erma e tão arredada da povoação aparecesse uma Menina. Na tarde seguinte
reiterou-se o facto e a pastorinha o recontou. No dia imediato, à hora indicada pela pastorinha, o pai desta,
ocultamente, foi observar a scena, e viu sobre uma pedra uma pequena Imagern de Maria Santissima, e á
frente desta a inocente pastorinha, que a seu pai inopinadamente aparecido, afirmava ser aquela Imagem a
Menina de quem lhe falava. O pastor, admirado, não ousou tocar a imagem, e participou o facto á
autoridade que mandou coloca-la na capela da Incarnação, próxima da actual igreja de «N.ª S.ª do Monte»,
nome que desde então foi dado aquela veneranda Imagem.» Esta narrativa não difere essencialmente duma
descrição manuscrita, que possuímos, do meado do século XVIII, a qual por sua vez se baseava numa
ininterrupta tradição oral. Nessa descrição se encontra o seguinte interessante pormenor: «No dia seguinte
amanheceu a S.ª fora da Hermida, na fonte a ella vezinha sobre hua pedra naqual sevem ainda hoje alguns
caracteres antigos que mal se percebem. . . » Esta pedra preciosissima, diz o padre Joaquim Plácido Pereira,
ficou soterrada no fundo do Ribeiro de Nossa Senhora, quando a Câmara Municipal do Funchal mandou
ampliar o Largo da Fonte, em 1896.
A capela fundada por Adão Gonçalves Ferreira foi a sede da paróquia, quando esta teve a sua criação por
alvará régio de 7 de Março de 1565. As acanhadas dimensões do pequeno templo obrigaram talvez ao
acrescentamento dele pouco depois da criação da freguesia, tendo também, no ano de 1688 o Conselho da
Fazenda autorizado a despesa de 900$000 réis para a construção duma nova igreja, o que parece se não
realizou, por isso que em 1739, isto é 50 anos depois, se mandaram dar de arrematação, por 6.742$000 réis,
as obras da edificação dum novo templo.
De tudo parece concluir-se que a primitiva ermida sofreu algumas transformações no decorrer dos tempos,
mas que perdurou até o ano de 1741, em que foi inteiramente demolida, tendo-se no dia 10 de Junho deste
ano realizado o lançamento da primeira pedra. A nova construção foi dada por concluída no ano de 1747,
dispendendo-se nela a importância de 3.454$292 réis proveniente de vários donativos e esmolas dos fiéis,
além da mencionada quantia de 6.742$000 réis, concedida pelo erário publico. Continuaram, porém, as
obras de ornamentação e da construção de varias dependências da igreja e das casas que lhe ficam anexas.
Um ano depois, o terremoto de 1 de Abril de 1748 (V. Tremores de terra), que tantos prejuízos causou nesta
ilha, deixou bastante danificada a nova igreja, que exigia importantes e imediatas reparações. Sem demora
se iniciaram os respectivos trabalhos, que, no entretanto, prosseguiram com lentidão, levando alguns anos o
seu total e definitivo acabamento. Aproveitou-se o ensejo para corrigir quanto possível alguns graves erros
cometidos na construção começada no ano de 1741, o que tornou mais avultado o custeio das reparações
que ali se fizeram. Segundo uma nota lançada num dos livros do arquivo paroquial, o dispêndio total das
obras, incluindo o templo com o seu adro e escadarias, muralhas, as casas anexas e vários ornamentos e
alfaias, foi de 200:445$500 réis, quantia, sem duvida, bastante considerável para a época. Para acudir a
essas avultadas despesas, fizeram-se peditórios em toda a ilha, tendo também contribuído muito para elas a
Confraria dos Escravos de Nossa Senhora do Monte, instituída em 1750 pelo bispo D. Frei João do
Nascimento, que em breve se estabeleceu em todas as paróquias, despertando grande devoção entre os fiéis
e cujas receitas foram na sua quasi totalidade aplicadas aquele fim.
A igreja do Monte, que foi sagrada pelo bispo D. Frei Joaquim de Meneses e Ataide a 20 de Dezembro de
1818, não apresenta na sua arquitectura, nos seus ornatos e decorações, quadros, pinturas ou trabalhos de
talha em madeira, uma obra artística de notável valor ou de aprimorada factura, que chame a atenção dos
visitantes, ou mais ainda dos entendidos em cousas de arte, mas é sem duvida um dos mais bem
proporcionados templos desta diocese, que, pelos seus traços arquitectónicos, algumas decorações internas,
vários quadros e belezas de conjunto, merece ser visitado. Como a aprazível e encantadora estancia do
Monte tem sido sempre visitada pelas mais altas personagens que passam nesta ilha, a respectiva igreja tem
igualmente merecido a visita de muitas dessas personagens, contando-se entre elas as duas imperatrizes do
Brasil-Leopoldina e Amelia-imperatriz da Austria, Isabel, infante D. Luis, depois rei de Portugal os reis D.
Carlos e D. Amelia, etc.. Nesta igreja se encontra a sepultura provisória do imperador da Austria, Carlos,
que faleceu nesta freguesia a 1 de Abril de 1922 e do qual nos ocuparemos em outro lugar desta obra.
Gaspar Frutuoso, que escreveu as Saudades no ano de 1590, não se refere ao culto tão generalizado em toda
a ilha, prestado a Nossa Senhora do Monte, fazendo no entretanto menção dum facto miraculoso
(Saudades, pág. 250), sucedido por ocasião do terrível saque que os huguenotes deram no Funchal, no dia 3
de Outubro de 1566. É, porém, muito antiga a devoção consagrada em todo o arquipélago á Senhora do
Monte, e desde o segundo quartel do século XVII que, no respectivo arquivo paroquial, se encontram
muitas referências a esse culto e se fazem narrações de sucessos extraordinários atribuídos à intercessão da
Santíssima Virgem, por intermédio da piedosa imagem que ali se venera. Contudo, parece certo que depois
da instituição da Confraria dos Escravos de Nossa Senhora do Monte, por meados do século XVIII, é que se
tornou mais intenso e mais se generalizou por todas as freguesias da Madeira esse culto, começando então
as peregrinações e romagens ao respectivo templo a ser de maior afluência de fiéis, que pelos anos fora têm
sempre crescido e consideravelmente aumentado, constituindo hoje a mais concorrida romaria de toda a
ilha e contando-se por dezenas de milhares os indivíduos que por ali estacionam nos dias 14 e 15 de Agosto
de cada ano.
Depois da aluvião de 9 de Outubro de 1803 (vol. I, pág. 54 e ss.), o bispo diocesano, cabido, clero e fiéis
colocaram a ilha, e especialmente a cidade, sob a protecção de Nossa Senhora do Monte, o que foi
confirmado por Rescrito Apostólico de Pio VII, de 21 de Julho de 1804, sendo então instituída a festa do
Patrocínio de Nossa Senhora do Monte, celebrada a 9 de Outubro de cada ano, com procissão solene que da
Catedral se dirigia á igreja paroquial de Santa Maria Maior. O nove de Outubro foi em outro tempo dia
santo de preceito, precedido de vigília própria com jejum.
A capela fundada por Adão Gonçalves Ferreira, teve seu capelão privativo, e já em 1565 quando nela se
estabeleceu a sede da paróquia, ali se exerciam há muito as funções cultuais. O primeiro pároco que teve
esta freguesia foi Bento Fernandes, seguindo-se-lhe neste cargo os padres António de Amorim, Sebastião de
Amorim, Pedro Nunes de Afonseca, Pedro Nunes Furtado, Pedro Noronha de Mendonça, Inácio Espinola de
Castro e Meneses, etc.. Ao primeiro pároco foi arbitrado o ordenado anual de 12 000 réis, que, por alvará
régio de 1 de Março de 1577, foi acrescentado com dois mil réis e um moio de trigo, tendo então a freguesia
58 fogos, ou sejam menos de 300 habitantes. O alvará régio de 9 de Junho de 1581 elevou a côngrua a
25.000 réis anuais e o de 27 de Abril de 1591 fixou esse vencimento em 16.000 réis em dinheiro, um moio
de trigo e uma pipa de vinho. Não conhecemos a data da criação do curato desta freguesia, mas julgamos
que deve ter sido na segunda metade do século XVIII.
Lembrou-se alguém de chamar a esta freguesia a Sintra Madeirense, tendo o antigo e distinto jornalista
João Augusto de Ornelas tornado conhecido esse nome pela vulgarização que dele fez nos seus escritos. Já
hoje é com tal denominação citada em varias obras nacionais e estrangeiras. Sem querer negar ou justificar
a razão do gracioso nome, não pode pôr-se em duvida que esta paróquia é das mais belas e encantadoras da
Madeira, não somente pela sua pujante vegetação, surpreendentes panoramas, pitoresco e amenidade do
lugar, situação admirável e sobranceira à cidade, mas também pela frescura do sítio, limpidez e pureza das
suas águas, os seus belos passeios, o seu formoso parque, os seus excelentes hotéis, o ascensor, o
restaurante Esplanade, e ainda igualmente as suas numerosas quintas e casas de campo, que por toda a
parte se encontram, sendo esse conjunto de tão apreciáveis circunstancias que torna o Monte o arrabalde
opulento e nobre do Funchal, a estancia preferida para a quadra estival, um verdadeiro e apetecido éden
para os favorecidos da fortuna (1921).
Entre essas quintas, destaca-se a conhecida Quinta do Monte, que é uma das mais belas e ricas da Madeira,
pela sua sumptuosa casa de habitação, opulenta e artisticamente mobilada, magníficos jardins, matas,
hortas e pomares, donde se desfrutam vastos e surpreendentes panoramas. Foi construída pelo súbdito
inglês James David Gordon no segundo quartel do século passado, passando depois á posse de Leland
Cossart, e sendo hoje propriedade de Luís da Rocha Machado. (
V. Almanach do Diário da
Madeira
, de 1915, pág. 6). Ali residiu alguns meses e ali faleceu em Abril de 1922, o imperador Carlos de
Austria. - O cônsul inglês Charles Murray edificou por meados do século XVIII a quinta do Belo Monte. Em
1817, era seu proprietário Roberto Page, que ali recebeu a imperatriz do Brasil, Leopoldina. Passou mais
tarde á casa da Calçada, pertencendo hoje ao capitão Francisco W. Frasão Sardinha (1921). -A quinta do
Pico da Pedra foi há poucos anos construída pelo banqueiro Luís da Rocha Machado para sua residência
(1921).
Apenas nos referimos especialmente a estas quintas, porque teríamos que ir longe, se pretendêssemos
ocupar-nos das outras vivendas de verão, algumas das quais são excelentes e confortáveis casas de campo,
que se encontram dispersas nesta freguesia.
Um dos elementos de prosperidade e engrandecimento da freguesia do Monte, foi a construção do elevador,
que atrai ali a maior parte dos estrangeiros em transito pelo nosso porto e que são muitos milhares em cada
ano. O caminho de ferro, desde o Pombal até ao Terreiro da Luta, tem aproximadamente quatro
quilómetros de extensão, e já dele nos ocupámos a pag. 221 do 1.° volume desta obra(1921).
A freguesia do Monte é hoje servida por uma estrada de propriedade particular, destinada a automóveis, o
que bastante concorre para a maior afluência de forasteiros àquela localidade. Foi construída há poucos
anos, ficando num dos extremos da estrada da Levada de Santa Luzia e no prolongamento da Avenida
Pedro José de Ornelas.
Não pode deixar de merecer-nos uma especial referência o característico meio de locomoção empregado em
conduzir os visitantes que do Monte regressam à cidade. São uns pequenos carros de vimes, imitando os
trenós russos, que resvalam vertiginosamente pela declivosa ladeira, impelidos por indivíduos longamente
adestrados neste serviço e que a ele quasi se dedicam exclusivamente. São inúmeras as referências que a
este típico meio de condução se encontram em muitas obras nacionais e estrangeiras. Apesar do perigo que
ele naturalmente oferece, são raros os desastres ocorridos, devido à extrema perícia dos condutores (vol. I,
pág. 252).
Seria aqui notada a falta duma referência especial ao Terreiro da Luta e seu restaurante, ao parque Leite
Monteiro, á Capela-Monumento e á Fonte da Senhora, se noutros lugares desta obra não nos ocupássemos
particularmente destes pontos, que bastante interessam à historia desta freguesia.
(V. Terreiro da
Luta, Parque Leite Monteiro e Capela-Monumento)
.
O rev.° padre José Marques Jardim, actual pároco da freguesia do Monte, lida no louvável empenho de
levantar um monumento à Virgem Santissima, nas proximidades do Terreiro da Luta, isto é, onde a tradição
local afirma que se deu a aparição miraculosa de Nossa Senhora, tendo para esse fim realizado uma viagem
á América do Norte com o intuito de angariar alguns donativos para a construção da grande estátua, que
fará parte do mesmo monumento (1921). Vid. Monumentos.
Alguns dos pontos em que aqui tocámos, foram mais largamente versados pelo Rev. padre Joaquim Plácido
Pereira no seu primoroso opúsculo Nossa Senhora do Monte, Padroeira da Ilha da Madeira, que é uma
interessante monografia acerca daquela freguesia.
Nossa Senhora da Natividade (Capela de)
No sítio do Faial, da freguesia de Santa Maria
Maior, na quinta que tem aquele nome, se encontra a capela de Nossa Senhora da Natividade, ou do Faial,
como é mais vulgarmente conhecida. Foi construída nas terras do vinculo instituído por Simão Acciaioly,
que faleceu em 1544. Edificou esta capela Zenobio Acciaioly, seu filho e sucessor na administração do
morgadio.
Nossa Senhora da Nazaré (Capelas de)
Há uma capela com este nome, na freguesia do Arco
da Calheta, que foi a sede dum morgadio instituído pelas duas irmãs Antonia de Cristo e Leonarda do Horto
na pessoa de seu sobrinho Francisco Friz de Barros Maciel. Foi este que edificou a capela pelo terceiro ou
ultimo quartel do século XVII. Para ela fez trasladar em 1694 os restos mortais de seu tio o padre Inacio
Barbosa da Silva, que era irmão das instituidoras do vinculo e que tinha sido um dos proprietários do prédio
em que a capela se levantara. Tendo caído em grande ruína, foi esta capela reedificada em 1830 por Antonio
João Barbosa de Matos e Câmara, descendente dos fundadores.
Existe com a mesma denominação uma capela na freguesia de Câmara de Lobos, fundada em 1757 por
Maria do Rosário Henriques, viúva de Pedro Bernardes Cardeiro. A respeito desta ou outra possuidora
desta capela, dá o Dr. Alvaro de Azevedo a seguinte curiosa informação:
«É tradição entre os pescadores de Câmara de Lobos que no princípio deste século a morgada da Nazareth,
armada de espadim, se collocava no alto onde é a capella; chamava os barcos de pesca que vinham entrando
no porto; e, por privilegio ou abuso, delles tomava o peixe que queria e o pagava como lhe parecia.»
Existe ainda na freguesia de São Martinho, no sítio chamado da Nazaré, uma capela dedicada a esta
invocação, que foi fundada por Martim Vaz no ano de 1627.
Nossa Senhora das Neves (Capela de)
(Capela de)
. Referindo-se a esta capela, diz Frutuoso: «... está
huma igreja de Nossa Senhora das Neves, á vista do Funchal, sobre huma ponta que se chama o Garajao,
huma legoa antes de chegar á cidade.» É muito antiga e das poucas capelas do século XVI que ainda restam
de pé, embora tenha sofrido algumas modificações no decorrer dos tempos. Foi fundada por João Afonso
Mealheiro e sua mulher Catarina de Sá. Falando dele, diz o Dr. Rodrigues de Azevedo: « . . . foi um dos
primeiros povoadores da ilha da Madeira, e teve sesmaria na Ribeira-Secca, de S. Gonçallo, até o Caniço.
Sua mulher Catharina de Sá, ou Pires, fez o morgado das Neves, e o deixou a seu sobrinho, o almoxarife
João Cabral; mas por parte da fazenda real foi o mesmo morgado vendido, para pagamento de alcance;
comprou-o Lopo Machado de Goes, e de novo o instituiu seu filho Bartholomeu Machado».
Lemos algures que em 1692 passou esta capela à posse de D. Guiomar Castelo Branco, filha de Gaspar Vilela
e casada com Antonio Correia. No último quartel do século XIX, o comerciante inglês João Blandy fez
compra desta capela e terras adjacentes a entestarem com a magnífica propriedade do Palheiro Ferreiro,
também adquirida pelo mesmo comerciante. João Blandy fez importantes reparos na capela e alargou o
respectivo adro.
A capela das Neves deu o nome ao sítio, foi a sede dum curato e nela se instalou a paróquia de São Gonçalo,
por ocasião da sua criação.
A pág. 80 das Saudades da Terra, conta o ingénuo Gaspar Frutuoso a luta que nas proximidades desta
capela teve um clérigo com o diabo, que tentou lançar ao mar o eclesiástico das alturas da rocha do Garajau.
Nossa Senhora da Paz (Capela de)
Foi fundada em 1621 pelo presbítero Jerónimo da Silva e
ficava situada na freguesia de Santa Maria Maior.
Vid.
Monumentos e Terreiro da Luta.
Nossa Senhora da Pena (Capela de)
Em terreno pertencente então á freguesia do Monte, se
erigiu em 1657 a capela desta invocação, que teve por fundadores a Duarte Mendes de Miranda e sua
mulher D. Beatriz de Vasconcelos, dotando-a por escritura publica de 20 de Setembro do mesmo ano. O
terramoto de 1748 deixou a capela muito arruinada, tendo sido logo reconstruída por António José
Espinola, neto dos fundadores, que a mudou para local mais apropriado, nas imediações da primitiva
construção.
Nossa Senhora da Penha de França (Capela de)
Na rua da Penha de França, desta
cidade, fica situada a capela deste nome. Foi fundada em 1622 por António Dantas, tendo sido reedificada
no ano de 1712. Tornou-se o centro duma concorrida romagem, acorrendo ali romeiros de diversos pontos
da ilha. Tinha anexa uma casa destinada a recolher os que vinham das freguesias mais distantes cumprir os
seus votos á Senhora da Penha. No ano de 1755 se fizeram nela importantes repairos, à custa dos donativos
dos fiéis. Por 1818, foi encorporada nos bens nacionais e dada ao bispo diocesano, tendo sido então a casa
dos romeiros transformada em residência de verão dos prelados desta diocese. Nesse tempo era ainda o
sítio considerado como um subúrbio da cidade. Deixou algum tempo de pertencer à mitra, por motivos que
desconhecemos; em 1838 passou de novo á posse dos prelados. Anos depois fizeram-se ali repairos por
conta do estado, o que provocou uma interpelação e discussão no seio do parlamento. A capela da Penha
tinha capelão privativo, e durante muitos anos foi o seu culto sustentado pela casa Carvalhal.
Alguns dos prelados têm tido ali residência temporária, e o bispo D. Manuel Agostinho Barreto fez da
pequena casa a sua habitação permanente, atraindo-o o aprazível do local, a sua situação sobranceira ao
mar e ainda por ficar afastada do centro e ruídos da cidade. Estava ali residindo o prelado D. José da Costa
Torres, quando, a 6 de Outubro de 1796, viu a casa cercada de tropas e foi obrigado a embarcar
imediatamente «sem se despedir, diz um manuscrito do tempo, de pessoa alguma, nem do SS. Sacramento;
e thé agora ignora-se o motivo deste affectado embarque de noite e por portas travessas».
De 27 de Novembro de 1840 a 9 de Janeiro de 1841, residiu nesta casa o nosso grande poeta Castilho (V.
Castilho), que veio então a esta ilha acompanhar o seu irmão o cónego Augusto Frederico de Castilho, que
ali sucumbiu a 30 de Dezembro e jaz sepultado no cemitério das Angústias. Castilho no elogio histórico do
irmão, proferido no conservatório real de Lisboa, referiu-se á sua estada na Madeira e em especial á casa
contígua á capela, nos seguintes termos: «... vivenda em um formoso arrabalde da cidade e residência
parochial de Nossa Senhora da Penha de França; casa humilde, alegre e solitária como a do nosso monte, e
não só visinha do seu templo, mas abraçada com elle, talhada como de molde para ambas as saudes: para a
do corpo pelo lavado dos ares, pela tranquilidade do sítio e pela vizinhança do mar, que banha os pés do seu
modesto jardim e quasi chega a espelhar as suas bananeiras; para a do espírito por todas estas mesmas
circunstancias de formosura e grandiosidade da creação e pelo culto da Virgem...»
O prelado D. Manuel Agostinho Barreto, que ali viveu mais de trinta anos, deixou como ultima disposição
testamentaria, que os seus restos mortais fossem « trasladados em pequena urna para o adro da capella da
Penha, em frente e junto da porta principal, cobrindo-os uma singela lápide onde se gravará o seu uome,
com as datas do nascimento e óbito, tendo no alto uma cruz e em baixo as letras P. N. A. M. para implorar
dos fiéis que passarem ao menos um piedoso Requiem aeternam.»
Na freguesia do Monte construiu Luís Gonçalves Mercador, em 1620, uma capela dedicada a Nossa Senhora
da Penha de França, e no sítio da Fazenda, da freguesia do Faial, se edificou no ano de 1685 uma capela com
a mesma invocação. Oferece esta ultima capela a singularidade de ser cavada e construída num solitário
bloco de cantaria mole. As paredes, o tecto, o pavimento, o altar, o pórtico, tudo foi talhado na enorme
pedra, tornando uma só peça. Foi fundada por António Teixeira, 5.° neto do descobridor Tristão Vaz, sendo
a escritura da dotação de 13 de Agosto de 1685.
Num interessante artigo publicado no Correio da Madeira de 22 de Setembro de 1922 e que julgamos
pertencer á autoria do padre Fernando de Meneses Vaz, encontram-se alguns curiosos pormenores acerca
desta capela, entre os quais avulta o de ter sido primitivamente destinada a servir de pequena mesquita a
vários escravos mouros. Dá o autor do artigo a capela como fundada por Irvão Teixeira no primeiro quartel
do século XVI, sendo certo que a data que deixamos apontada foi colhida num documento oficial que se
encontra arquivado na Câmara Eclesiástica da Diocese.
Na quinta chamada dos Ferreiros, na freguesia da Calheta, mandou o medico Manuel Fernandes Gomes
erigir uma capela dedicada á Senhora da Penha de França, no ano de 1682, dotando-a por escritura publica
de 15 de Junho do mesmo ano.
No ano de 1670 fundou Maria do Rosário Arvelos uma capela com a mesma invocação na freguesia de Santa
Cruz.
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (
Capela de).No ano de 1244 fez Francisco de
Freitas Correia edificar uma capela desta invocação no sítio da Queimada da freguesia de Água de Pena.
Nossa Senhora da Piedade (Capelas de)
Uma capela desta invocação se encontra na
freguesia do Caniçal, no alto duma escarpada rocha sobranceira ao mar. Quem dobra a ponta de São
Lourenço, defronta logo com a pequena ermida a alvejar no cimo do alcantilado monte. Em outro tempo,
teve adjunta uma casa destinada a recolher os devotos que ali iam em romarias. Lemos algures constar da
tradição que a edificação desta capela é o fruto do voto de marinheiros que, vendo o seu navio prestes a
despedaçar-se contra os fraguedos da costa, prometeram erigir na cumiada do monte uma pequena ermida
dedicada à Santíssima Virgem. Também a dão como fundada por Garcia Moniz, primeiro administrador do
morgadio do Caniçal, ou por algum dos seus sucessores. Há muitos anos pertencia à casa vinculada de São
Gil, que tinha o seu solar na Calçada na freguesia de Santa Cruz.
Todos os anos se dirige a esta capela um original préstito religioso, de que já falámos no artigo consagrado á
freguesia do Caniçal.
O padre Manuel Gonçalves Henriques construiu em 1800, junto da casa da sua residência, no sítio da
Caldeira, da freguesia de Câmara de Lobos, uma capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade, que dotou,
segundo as leis canónicas, pela escritura publica de 3 de Abril do ano referido. E hoje (1921) propriedade do
padre António Rodrigues Diniz Henriques.
Outra capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade se levantava no sítio chamado da Vargem de Baixo, da
freguesia da Calheta, a qual foi construída em 1657 pelo capitão António Moniz de Meneses e sua mulher D.
Catarina de Meneses, e na área do morgadio do Vale da Bica, na Lombada dos Esmeraldos
(V. este
nome)
, na freguesia da Ponta do Sol, onde chamam o Jangão, se construiu uma pequena capela com a
mesma invocação, em ano que não podemos precisar. Em 1777, o administrador daquele vínculo, Francisco
de Ornelas e Vasconcelos, acrescentou e melhorou a capela, sendo a 3 de Agosto daquele ano concedida
autorização para ser novamente benzida. A 12 de Outubro de 1879, o arcebispo de Goa, D. Aires de Ornelas
e Vasconcelos, benzeu de novo a mesma capela e nela celebrou missa, depois dos repairos a que ali mandou
proceder seu irmão, o par do reino Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, 15.° administrador do referido
morgadio do Vale da Bica.
O pequeno largo formado pela rua da Carreira (Dr. Vieira), e a rua das Pretas (Câmara Pestana), ainda hoje
é conhecido pelo nome de Largo da Igrejinha. Proveio esta denominação de ali ter existido uma capela ou
pequena igreja, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, que em 1613 fora mandada construir por Domingos
Rodrigues Garcês, sendo demolida pela Camara Municipal em 1836.
Numa das notas das Saudades da Terra se faz menção da capela de Nossa Senhora da Piedade, que existiu
na freguesia de São Gonçalo, e que foi construída em 1722, por João Rodrigues Oliva, e na freguesia do
Monte fundou D. Escolástica Lomelino de Vasconcelos, viúva de João de Freitas da Silva, uma capela da
mesma invocação, no ano de 1728. A respectiva escritura de dotação e auto de vistoria têm a data de 6 e 25
de Junho do referido ano.
Francisco Álvaro Homem erigiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade, na freguesia do Estreito
da Calheta, pelos anos de 1641, mas há muito que não existe.
Na quinta das Cruzes com porta para o largo que tem o mesmo nome, se encontra a capela de Nossa
Senhora da Piedade, fundada por Francisco Esmeraldo Henriques, que era o proprietário da mesma quinta.
No pórtico tem gravada a data de 1692, mas a respectiva escritura de dotação é de 25 de Maio de 1695, e a
14 de Junho deste ano foi a capela vistoriada para o efeito da celebração dos ofícios divinos. Nela se
encontra actualmente (1921) um carneiro, que se afirma encerrar os despojos mortais de Urbano Lomelino
(V. Lomelino), fundador do convento de Nossa Senhora da Piedade (V. este nome) da vila de Santa Cruz.
No sítio do Paço, da freguesia de São Vicente, o padre Manuel de Andrade fez erigir no ano de 1784, uma
capela consagrada a Nossa Senhora da Piedade, sendo a escritura de dotação de 16 de Dezembro do mesmo
ano, e na freguesia do Jardim do Mar existe também uma capela, com a mesma invocação, que foi fundada
no ano de 1736 pelo morgado João de Couto Cardoso, junto das casas de sua residência. Um seu sucessor,
Francisco João de Vasconcelos Couto Cardoso, a fez reedificar em 1825, pelo adiantado estado de ruína em
que se encontrava, dando lhe maiores proporções e mudando-a para as imediações da antiga ermida. Tem
servido de igreja paroquial. É seu actual proprietário (1921) Francisco João de Vasconcelos, directo
representante do seu fundador e restaurador.
Uma capela da mesma invocação existiu na freguesia do Porto da Cruz, que era pertença do morgadio
instituído por António Teixeira, conhecido pela alcunha do Rei Pequeno (V. Teixeira). Era das mais antigas
da capitania de Machico e já no primeiro quartel do século XVI se achava bastante arruinada. Um dos
sucessores na administração desta capela, Manuel de Carvalho Valdavesso, a fez reconstruir em 1734, sendo
concedida licença para a bênção dela a 8 de Setembro do mesmo ano. Em 1814, sendo seu administrador
Tristão Teixeira de Vasconcelos Saavedra, foi ela encerrada, em virtude do estado de ruína em que se
encontrava, sendo as respectivas alfaias recolhidas à igreja paroquial, onde se vê ainda o velho retábulo que
figurava no altar da referida capela.
Nossa Senhora do Pilar (Capela de)
No caminho e sítio do Pilar, da freguesia de São
Martinho, se encontra a quinta e capela daquela denominação, que foi fundada no ano de 1676 por Gonçalo
de Freitas Drumond. É hoje propriedade do Dr. Romano de Santa Clara Gomes (1921).
Nossa Senhora do Pópulo (Capela de)
(Capela de)
Fica na freguesia de Santo Antonio. A invocação desta
capela é de Nossa Senhora do Pópulo, mas ninguém a conhece por este nome, sendo comummente
chamada do Pico do Cardo ou da Quinta dos Padres. Esta denominação provém de ficar naquele sítio e na
residência que ali possuíam os jesuítas. Ignoramos o ano da sua fundação, mas presumimos que não seja
anterior ao primeiro quartel do século XVIII. Os jesuítas adquiriram esta propriedade entre os anos de 1635
e 1714 e ali construíram a casa e capela que, em 1770, juntamente com os terrenos adjacentes, foram
vendidas em hasta publica por sete contos de réis. Esta pequena capela, que tem a forma hexagonal e fica
quasi contígua à casa de residência. Está em bom estado de conservação e nela se celebram os ofícios
divinos.
Nos artigos referentes ao beato Inácio de Azevedo, Jesuítas e capela do Pópulo, públicados na revista
Parochia de Santo António do Funchal, se encontra mais larga noticia acerca dos assuntos tocados neste
pequeno artigo.
Nossa Senhora dos Prazeres (Capelas de)
Em terreno da freguesia do Monte, que depois
passou a pertencer á paróquia de Santa Luzia, fundou Tristão Gomes de Castro em 1611, uma capela com a
invocação de Nossa Senhora dos Prazeres.
Com igual invocação, houve uma capela na freguesia de Santa Maria Maior, que era vinculada e em 1610
tinha por administrador João Gomes de Castro. Ignoramos o ano da sua fundação.
Nossa Senhora das Preces (Capelas de)
No altar da capela das Preces da freguesia de Santo
António, se lê a data de 1708, que é provavelmente a da sua construção. Julgamos que esta capela era de
instituição vincular, sendo em 1770 seu administrador o capitão Rodrigo da Costa e em 1796 o morgado
Joaquim Manuel de França. A capela e a casa anexa foram reconstruídas em 1856 pela sua então
proprietária D. Joana de Albuquerque e França, que ali faleceu a 12 de Fevereiro de 1884. Esta capela deu o
nome ao sítio em que foi erigida.
O padre Francisco de Canha e Mendonça fez construir, na freguesia de Câmara de lobos, a capela de Nossa
Senhora das Preces, no sítio que depois tomou este nome. Data a sua fundação do ano de 1683. Ainda
existe, mas conserva-se fechada ao exercício do culto.
Na freguesia de Machico se encontra uma capela dedicada também a Nossa Senhora das Preces, cuja data
de construção ignoramos e que foi reedificada por António Tiago da Silva, no ano de 1884.
Nossa Senhora da Quietação (Capela de)
No sítio dos Alecrins, da freguesia de Santo António, ficava a
capela de Nossa Senhora da Quietação, de que hoje nem restam vestígios. Era mais conhecida pelo nome de
capela dos Alecrins, e até, numa referência a ela feita no ano de 1680, se lhe chamava igreja dos Alecrins,
apesar das suas acanhadas dimensões. A denominação pouco vulgar de Quietaçâo provém da circunstancia
de ter a capela como orago o mistério que representa o sossego e a tranquilidade que, no retiro da casa de
Nazaré, gozava a Santíssima Virgem em companhia do Menino Jesus e do patriarca S. José.
Foram Lourenço de Matos Coutinho e sua mulher D. Mariana de Ornelas de Vasconcelos que no ano de
1670 fundaram esta capela, em cumprimento dum voto que haviam feito à Santíssima Virgem, na quinta
que possuíam no sítio dos Alecrins e que tinham herdado de seu pai e sogro, o morgado Bento de Matos
Coutinho, o qual por sua vez a houvera, por compra, de Simão Gonçalves da Câmara e Jorge da Câmara
Esmeraldo. Foi nesta quinta e capela que em 1677 o seu fundador instituiu o morgadio dos Alecrins. Deste
morgadio é hoje representante o Dr. Rui Bettencourt da Câmara (1921).
Nossa Senhora dos Remédios (Capela de)
Na freguesia de Santa Cruz, no sítio do Moreno,
se encontra uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Remédios. Foi edificada pelo vigário Manuel Ferreira
Teixeira em 1690 e não no ano de 1610, como diz o anotador das Saudades.
Nossa Senhora dos Remédios e Amparo (Capela de)
Anexa à casa solarenga dos
viscondes de São João, na rua das Maravilhas, fundou o seu actual proprietário, Dr. Rui Bettencourt da
Câmara, uma capela desta invocação, que foi benzida a 1 de Janeiro de 1940.
Nossa Senhora do Rosário (Capelas de)
Na freguesia do Campanário foi fundada uma
capela desta invocação em 1748 pelo morgado António Leandro da Câmara Leme. A escritura de dotação é
de 18 de Julho de 1734, mas só foi vistoriada catorze anos depois, para nela se poderem celebrar os actos do
culto.
Na margem direita da ribeira de Santa Luzia, no lugar onde chamam a Fundoa e dentro da área da freguesia
de São Roque, se encontra uma capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário, que foi construída por João da
Paz de Castro no ano de 1668, e com a mesma invocação erigiu Matias de Mendonça e Vasconcelos uma
capela na freguesia de Machico, no ano de 1660.
Na freguesia de Santa Cruz existiu uma capela com o orago de Nossa Senhora do Rosário, mas nada
sabemos acerca do seu fundador e ano de sua construção.
Não é de pequenas dimensões a capela de Nossa Senhora do Rosário que existe no sítio da Vargem, da
freguesia de São Vicente. A capela primitiva, que foi instituída por José Caldeira, tem sofrido varias
modificações e acrescentamentos. O cura da paróquia reside habitualmente nas proximidades desta capela e
ali exerce as funções do culto religioso.
Houve uma capela da mesma invocação na freguesia de São Jorge, que foi fundada no ultimo quartel do
século XVII pelo padre Matias Jorge Jardim, e ficava no sítio da Ilha.
Nossa Senhora da Salvação (Capelas de)
No sítio dos Moinhos da freguesia do Caniço, e
sobre terras da família Figueiroa de Albuquerque, se encontram ainda as ruínas da capela de Nossa Senhora
da Salvação, que, lemos algures, ter sido fundada em 1614 por Francisco Morais de Aguiar.
Com o mesmo nome havia no Funchal, «em um quintal de suas casas em que vivem ás fontes», uma capela
construída por João de Bettencourt Henriques e sua mulher D. Antonia de Castelbranco.
Nossa Senhora da Saúde (Capela de)
Na rua da Saúde, da freguesia de São Pedro, próximo do largo do
Marquês, se encontra ainda, embora não aberta ao exercício do culto, a capela desta invocação, que foi
fundada pelo Dr. Pedro Cardoso Valdavesso e sua mulher D. Maria Gondim em 1659, sendo de 4 de Janeiro
deste ano a data da escritura da dotação.
Nossa Senhora da Saúde do Monte Olivete (Capela de)
Diz uma nota das Saudades
da Terra que esta capela, situada na freguesia de Santa Maria Maior, fora edificada no morgadio instituído
por Pedro Lopes de Vasconcelos no ano de 1675. Já não existe e desconhecemos o lugar em que ficava
situada.
Nossa Senhora do Socorro (Capelas de)
Em adiantado estado de ruína e aplicada a usos
profanos, se encontra no sítio da Azenha, da freguesia do Caniço, e junto duma casa de campo de antigos
morgados, a capela de Nossa Senhora do Socorro, ignorando-se o nome do seu fundador e o ano da sua
construção.
Diz uma nota das Saudades que houve com esta invocação uma capela na freguesia do Estreito de Câmara
de Lobos, fundada em 1684 por Maria de Aguiar, viúva de Gonçalo de Faria Leal.
Existiu na freguesia dos Canhas, no sítio do Socorro, instituída por João Fernandes Linhares, em 1665, e na
freguesia do Porto da Cruz existe com este orago uma ermida, que primitivamente teve o nome de Nossa
Senhora de Belém. Não sabemos quem fosse o seu fundador, mas pertencia ao morgadio instituído pelo
capitão Manuel Telo Moniz de Meneses, da casa da Lagoa da mesma freguesia, que depois se chamou o
morgadio Torresão. Foi edificada por 1713 e acha-se em regular estado de conservação, sendo propriedade
de D. Cristina de Campos Pinto Soares, residente em Lisboa (1921).
Nossa Senhora do Terço (Capela de)
Junto à igreja paroquial da freguesia de Machico,
construiu o povo em 1770 uma capela dedicada a Nossa Senhora do Terço.
Nossa Senhora do Vale (Capela de)
No sítio do Vale Formoso da freguesia de Santa Luzia,
fundou António Vogado uma capela no ano de 1726, a que deu a invocação de Nossa Senhora do Vale e que
dotou por escritura publica de 4 de Junho do dito ano.
Nossa Senhora dos Varadouros (Capela de)
Varadouros se chamava na praia do Funchal
ao ponto principal do embarque e desembarque de passageiros e mercadorias e ao local particularmente
destinado a serem varados os barcos de pequena lotação. Esse pedaço da praia devia aproximadamente
corresponder ao espaço ocupado pelos actuais cabrestantes, desde a linha de água até à rua que hoje lhes
fica a montante. Nestas proximidades se erguia a pequena capela de Nossa Senhora que julgamos ter tido
como orago a Assunção da Virgem, tomando o nome de Varadouros pela situação que ocupava. Depois das
capelas de Santa Catarina, São Sebastião e São Paulo, era das mais antigas do Funchal.
A construção, que muitos contemporâneos ainda conheceram e que foi demolida em Abril de 1911, não era a
edificação primitiva. Esta levantava-se naquele local, mas directamente no solo e não sobre o arco em que
mais tarde foi construída. Quando se pretendeu abrir na cortina de defesa da cidade a principal porta e
entrada dela, tornou-se necessária a demolição da antiga ermida, projectando se então a construção do
aparatoso portão e capela, que ficaram formando um só corpo e cuja edificação foi quasi simultaneamente
feita. Para isso se abateu a capela pelos anos de 1682, procedendo-se á sua reconstrução no ano de 1689, e
pela mesma época se edificaram o arco e portão anexos, que ficaram sendo a entrada principal da cidade.
Esta obra deve-se a D. Lourenço de Almada, que foi Governador e Capitão-General da Madeira de 1688 a
1690.
Diz a tal respeito o Dr. Alvaro de Azevedo: «... tendo mandado rasgar nas antigas muralhas e architecturar,
com a elegância do tempo e do género, o portão dos Varadouros, que ficou sendo a principal entrada do
Funchal, foi posta em memória e honra delle a seguinte inscripção latina, sobre o mesmo portão:
PERFECTA HAEC VARII PRAEFECTI MOENIA FRUSTRA + PRAETERITO CUPIUNT TEMPORE
QUISQUE SUO SED DOMINO LAURENTO EA EST SERVATA VOLUPTAS DALMADA QUI ISTUD FINE
CORONAT OPUS + ANNO 1689».
Esta inscrição que significa - Cada um dos antecedentes governadores de balde se esforçou por concluir
estas muralhas; ao Senhor Lourenço de Almada estava reservada a satisfação da sua conclusão-foi
trasladada, com pequenas variantes no n.° 5 do Jornal a Justiça, de 1858.
Este portão devia ter sido cuidadosamente respeitado e bem assim a capela adjunta, se a câmara do Funchal
do tempo possuísse a verdadeira noção do que seja a conservação de obras antigas desta natureza. 0 que
haveria a fazer era desafronta-los dos casebres que os rodeavam, e isolar o portão e capela no meio do largo,
tornando mais amplo, alegre e arejado aquele local. 0 portão, se não constituía uma obra monumental, era
sem sombra de duvida uma interessante e característica construção da época, a que não faltava uma certa
imponência arquitectónica e que tinha sido objecto de admiração de muitos nacionais e estrangeiros,
verdadeiramente conhecedores de assuntos arqueológicos.
Por este arco e portão, faziam os governadores e prelados a sua entrada solene na cidade, que revestia
sempre um extraordinário luzimento com a presença do elemento oficial, todas as tropas da guarnição, as
pessoas mais gradas da terra, o clero, fidalgos, cavaleiros e muito povo.
Por ocasião da demolição da capela, fez-se a remoção do respectivo altar para uma das sacristias da Sé
Catedral e ali se conserva ainda. Sôbre a porta desta sacristia, se afixou um letreiro em língua inglesa, dando
a capela dos Varadouros como a primeira construída no Funchal, o que é um erro manifesto, devendo
admitir-se que, nem o próprio altar que ali se guarda, pertenceu á capela primitiva.
Nossa Senhora da Vida (Capelas de)
Manuel Valente fundou em 1679, na freguesia de São
Pedro, uma capela consagrada a Nossa Senhora da Vida, que não sabemos onde ficava.
Numa pequena eminência sobranceira ao mar se ergue uma capela da mesma invocação, que foi fundada
por Inês Teixeira, em ano que ignoramos. Fica no sítio da Fajã do Mar.
Nossa Senhora das Virtudes (Capela de)
No sítio e quinta das Virtudes, da freguesia de
São Martinho, construiu Francisco de Vasconcelos Bettencourt, no ano de 1661, uma capela com a
invocação de Nossa Senhora das Virtudes.
Nossa Senhora da Vitória (Capela de)
Na estrada literal que do Funchal conduz a Câmara
de Lobos e na margem esquerda da ribeira dos Socorridos, se encontra a capela de Nossa Senhora da
Vitória, que fica no extremo da freguesia de São Martinho. O anotador das
Saudades,
assinala
o
ano de
1594 como o da sua construção e diz ter sido fundada por Francisco de Bettencourt nas terras do morgadio
que ali instituiu. Foi reconstruída em ano que não podemos determinar, e há aproximadamente quarenta
anos que se procedeu ao seu
acres
centamento e nela se fizeram notáveis obras de reparação.
Nossa Senhora das Vitórias (Capela de)
Existiu na freguesia de Machico uma ca-pela
consagrada a Nossa Senhora das Vitórias e construída em 1749.
Nosso Senhor Jesus Cristo (Capela de)
Com esta invocação, fundou Gil Anes, no século XV,
uma capela na freguesia de Santa Cruz, que depois foi sede dum morgadio instituído por um dos seus
ascendentes.
Notários
O serviço do notariado ou do tabelionato neste arquipélago deveria certamente ter seguido as
fases do do Continente do Reino, á parte quaisquer modificações que as circunstancias locais
aconselhassem. Não deixa no entretanto de ser interessante notar neste lugar que no Funchal havia em 1579
nada menos que 21 tabeliães do judicial, 8 de notas e 6 inquiridores, o que era verdadeiramente
extraordinário para uma população que, em toda a ilha, orçava então por vinte e cinco mil habitantes.
Ouçamos Frutuoso: «E, porque no Funchal, cidade que seus avós (do 5.º capitão-donatario) fundaram,
havia vinte e hum tabeliães do judicial e outo das notas e seis enqueridores, houve El-Rey D. Henrique por
bem, no ano de 1579, por certos respeitos que a isso o moveram e por mais serviço de Deos, reduzilos em
dez escrivães do judicial, e quatro notários e três enqueredores que agora servem (em 1590)....»
Convém advertir que nas sedes das outras capitanias e nas vilas, já então criadas, de Machico, Santa Cruz,
Ponta do Sol, Calheta e Porto Santo, também existiam oficiais de justiça com iguais atribuições aos do
Funchal. Na jurisdição do Funchal, reduziu o cardeal D. Henrique de 35 a 17 o numero de escrivaes!
Noticioso (O)
Saiu o primeiro numero a 22 de Outubro de 1862 e o ultimo a 22 de Janeiro de 1866.
Publicaram-se 152 números. Foi seu principal redactor Augusto César de Freitas.
Nova de Santa Maria (Rua)
Sensivelmente paralela à rua de Santa Maria e a pouca distancia
desta, fica a rua Nova de Santa Maria, que foi aberta pouco depois da aluvião de 1803, existindo então ali
apenas um pequeno beco. Entre as embocaduras destas duas ruas, ficava situada a igreja de Nossa Senhora
do Calhau, ou de Santa Maria, que deu o nome ás mesmas ruas. Estende-se desde a margem da ribeira de
João Gomes até ao largo das Bicas ou Torneiras, que é o começo da rua Bela de S. Tiago. Tem hoje o nome
de Latino Coelho.
Nova Aldeia ou Aldeia da Rainha
Povoação fundada por alvará régio de 18 de Dezembro de
1768 na freguesia do Santo da Serra e constituída por vários casais da ilha do Porto Santo, que para ali se
transferiram e aos quais o governo da metrópole concedeu diversas regalias, não tendo porém uma larga
existência esta nova povoação.
Novara (Fragata)
Este navio de guerra da marinha austríaca realizou uma viagem de
circunnavegação nos anos de 1857 a 1859, tendo estado fundeado no nosso porto durante alguns dias. É
muito apreciada a descrição desta viagem, tendo Latino Coelho traduzido e publicado na Revista
Contemporânea a parte dessa descrição que se ocupa desta ilha, que é muito interessante e digna de ser
lida. Foi reproduzida no n.° 2279 e seguintes do extinto Diário do Commercio, desta cidade.
Novelos (Hydrangea hortensis)
Planta da família das Saxifragaceas, muito cultivada no Monte,
Santana, Camacha e em diversas outras localidades da ilha. Tem flores azuis ou rosadas, geralmente
estéreis, dispostas em corimbos amplos.
Novidades (As)
Com este título publicou-se no Funchal um periódico, que deu o primeiro numero a
26 de Julho de 1866.
Outro Jornal que aqui se publicou com o mesmo título, apareceu a 18 de Novembro de 1881 e deu vinte e
seis números, o ultimo dos quais a 24 de Dezembro de 1882.
Novos (Os)
O primeiro numero deste jornal apareceu no dia 1.° de Maio de 1920, e o decimo, que
supomos ser o ultimo, em Novembro do mesmo ano. Era redigido por alunos do liceu do Funchal, e veio
substituir a Gente Nova.
Nozelha
Nome vulgar da Monizia edulis e do Bunium brevifolium, plantas indígenas da família das
Umbeliferas, a primeira das quais é conhecida também pela designação de cenoura da rocha (V. este nome).
Numismática
V.
Medalhas e Moeda.
Núncio
Em 25 de Julho de 1808, chegou casualmente à Madeira, vindo de Londres, o enviado de S.
Santidade em Lisboa, o qual desembarcou na Pontinha, dirigindo-se em seguida á Catedral, onde ouviu a
missa das 10 horas. Depois de ter visitado a igreja, meteu-se numa cadeirinha e seguiu para o paço
episcopal. Deixou a ilha no dia 28, tendo durante a sua curta residência aqui, conferido ordens menores a
alguns estudantes, visto não estar o bispo no Funchal, e dado ao deão os poderes necessários para conceder
algumas dispensas para casamentos. A sua saída salvaram todas as fortalezas da cidade.
Nunes
O primeiro indivíduo deste apelido de que fazem menção as crónicas madeirenses chamava-se
Fernão Nunes, e residiu em Gaula, tendo casado com Helena de Góis, filha de Lançarote Teixeira, quarto
filho de Tristão Vaz, primeiro donatario de Machico.
No primeiro quartel do século XVI, vivia no Porto Santo um Bartolomeu Nunes, que foi pai do falso profeta
Fernão Nunes, de que falaremos noutro lugar deste Elucidário.
Nunes (Fernão e Filipa)
(Fernão e Filipa)
V.
Profetas.
Nunes (Filipe José)
Nasceu na freguesia do Monte em 1824 e faleceu nesta cidade pelos anos de
1890. Foi durante muitos anos cura da freguesia da Sé e gozava a mercê de cónego honorário. Possuía uma
cultura pouco vulgar e distinguiu-se como jornalista, especialmente no periódico «O Popular», mantendo
acirradas lutas na imprensa, em que por vezes os excessos de linguagem faziam lembrar as diatribes de José
Agostinho de Macedo. Tinha pronta para ser publicada uma colecção de discursos sacros à data do seu
falecimento, que não chegou a ser impressa.
Nunes (Padre Manuel)
Nasceu na freguesia do Paul do Mar no ano de 1848 e morreu na freguesia
de São Gonçalo, onde era pároco, a 28 de Dezembro de 1892. Foi um dos nossos mais distintos oradores
sagrados, sendo notáveis os seus discursos pela elegância da forma e correcção da linguagem. Cultivou com
brilho a poesia, principalmente o género satírico, em que se tornou muito conhecido entre nós, tendo
composições que ombreiam com as do nosso Nicolau Tolentino.
Nunes da Mata (José)
Esteve na Madeira em 1920 e publicou em Lisboa, em 1921, um folheto de
24 pág., intitulado Navegação aérea entre Portugal e a ilha da Madeira.
Obras Públicas Distritais
Durante séculos não tiveram os melhoramentos mandados realizar pelo Governo da metrópole, como
foram a construção da Sé Catedral e de diversas igrejas, as fortificações militares, alguns edifícios públicos, as estradas e ainda
outros, uma repartição central que neles superintendesse e os orientasse convenientemente, não somente sob o ponto de vista da
sua administração mas também com respeito à direcção técnica das diversas obras a executar. Esse serviço corria por intermédio de
várias repartições públicas, como a secretaria do Governo superior do arquipélago, os chefes militares locais, a provedoria da
fazenda e os municípios, sendo enviados de Lisboa engenheiros ou técnicos destinados a dirigir os trabalhos de maior vulto.
Foi somente no ano de 1852 que se criou no Funchal uma repartição com o nome de «Direcção das Obras Públicas Distritais»
encarregada de dirigir e administrar todos esses trabalhos, concedendo o Governo central uma verba anual, sempre muito limitada
e variável de ano para ano, apesar das constantes solicitações que eram feitas desta ilha. Essa repartição tinha à sua frente um
engenheiro e possuía o indispensável pessoal, sendo muitas vezes dirigida por funcionários que deixaram o seu nome ligado a
importantes melhoramentos públicos, como foram os engenheiros major Tibério Blanc, capitães Júlio Augusto de Leiria e Henrique
de Lima e Cunha e ainda outros.
Perdurou essa situação até o ano de 1901, em que foi concedida a este distrito a autonomia administrativa, transitando para a
repartição das obras públicas da Junta Geral todos os serviços que corriam por aquela repartição, que então foi extinta.
Observações Fenológicas
A pág. 15 do volume II desta obra e sob o titulo «Fenologia», faz-se menção de alguns artigos
referentes a este assunto, devidos à pena do distinto botânico Carlos Azevedo de Meneses, dos quais se transcreve um deles,
publicado na antiga revista Portugal Agrícola, que foi julgado util para ficar trasladado nestas paginas.
«O pouco que se sabe ácerca da phenologia da Madeira deve-se ás observações do dr. Heer, realizadas em 1850 e 1851, e ás que
desde 1902 vimos fazendo n'esta ilha. As observações referentes ao periodo decorrido desde septembro de 1902 a principios d'abril
de 1805 foram publicadas n'uma revista botanica franceza hoje limita-se a nossa tarefa a apresentar os dados colhidos
posteriormente a esta ultima data, isto com o fim de lançar mais alguma luz sobre o comportamento phenologico de varias
essencias introduzidas na ilha e que se desenvolvem bem sob o nosso clima.
Das quatro espécies mencionadas nas Instruções de Hoffmann–Inne, somente o carvalho (
Quercus pedunculata
) é frequente no
Funchal e arredores, distinguindo-se de todas as outras essências que temos tido ensejo de observar, pela precocidade
verdadeiramente extraordinaria da sua folheação.
Dos muitos carvalhos plantados na margem esquerda da ribeira de S. João, dois desabrolharam a 3 de dezembro de 1905; a 23 do
mesmo mez, dois terços d'esses carvalhos tinham folhas novas, achando-se muitos d'elles já regularmente folheados. Em fins de
janeiro do anno seguinte todos os exemplares cultivados no Funchal tinham folhas, mas somente se tornaram completamente
verdes na primeira quinzena de março.
As primeiras folhas amarellas vimol-as a 16 de setembro. As folhas, depois de amarellas, persistem nas arvores e só cahem muito
tarde, quando a folheação vae já adiantada.
Na freguesia do Monte, que fica na altitude de 600 metros, a folheação dos carvalhos só principiou a 15 de janeiro, isto é, 43 dias
mais tarde que no Funchal.
Do castanheiro da India (A
Esculus Hippocastanum
), também mencionado nas Instrucções de Hoffmann–Ihne, só pudemos
observar dois individuos plantados no Funchal. O descoramento das folhas manifestou-se a 03 de setembro e as primeiras folhas
novas appareceram a 12 de março. As flôres começaram a apparecer nos primeiros oito dias d'abril.
No
Platanus occidentalis
, na
Vitis vinifera
e na M
. Labrusca
o descoramento das folhas manifestou-se respectivamente a 14, 15 e 21
de setembro, tendo logar o desabrolhamento a 24, 22 e 20 de fevereiro do corrente anno. A folheação dos platanos começou na
freguezia do Monte a 6 de março, isto é, 12 dias mais tarde que no Funchal.
As folhas dos platanos tambem se conservavam por largo tempo nas arvores depois de amarellecerem, mas cahem sempre antes do
inicio da nova folheação.
Na
Robinia Pseudo
acacia o descoramento das folhas começou a 15 d'outubro, na Tilia argentea a 18 do mesmo mez e na
Ficus
Carica
a 2 de novembro; a folheação d'estas mesmas arvores começou respectivamente a 27 de janeiro, 12 de março e 24 de janeiro.
Todas estas observações se referem ao Funchal; no Monte o desabrolhamento das especies mencionadas deu-se a 19 de fevereiro, 19
de março e entre 21 e 25 de fevereiro.
Nas anoneiras (
Anona cherimolia
) do Funchal, as primeiras folhas amarellas appareceram a 14 de fevereiro do corrente anno e as
primeiras folhas novas a 9 d'abril. Nos castanheiros do Monte deu-se o desabrolhamento a 20 de abril e nas nogueiras entre 30 de
abril e 5 de maio.
Não nos foi possível colher dados precisos acerca da época do descoramento das folhas das arvores nos arredores do Funchal, mas
mais d'uma vez temos notado que esse descoramento é tanto mais tardio quanto mais elevado é o ponto onde estão as mesmas
arvores.
Do que fica enunciado, vê-se, pois, que a duração do repouso vegetativo no período a que se referem as nossas últimas observações
foi de 163 dias para o platano, de 160 para a vinha, de 152 para a vinha Labrusca, de 170 para o castanheiro da India, de 78 para o
carvalho, de 104 para a robinia, de 145 para a tilia, de 83 para a figueira e de 54 para a anoneira. No periodo decorrido desde 1903 a
1905, achamos os seguintes numeros medios representativos do repouso hibernal das mesmas especies: platano 168 dias, vinha
162, vinha Labrusca 156, castanheiro da India 192, carvalho 123, robinia 112, tilia 166, figueira 125 e anoneira 50.
Segundo as notas phenologicas publicadas pelo sr. Adolpho Frederico Moller no Boletim da Sociedade Broteriana, a duração média
do repouso vegetativo em Coimbra, no periodo decorrido desde os fins de 1903 a principios de 1905, foi de 140 dias para o platano,
de 154 para a vinha, de 136 para o castanheiro da India, de 154 para o carvalho, de 146 para a robinia e de 156 para a tilia. Cotejando
estes números com alguns dos anteriores, chega-se á conclusão que a robinia e o carvalho repousam em Coimbra mais tempo que
no Funchal, ao passo que nas outras espécies se dá o caso inverso.
Poderá causar surpresa à primeira vista que certas essências na latitude da Madeira tenham um repouso mais prolongado e por
consequência períodos mais curtos de actividade vegetativa do que em países mais setentrionais, mas o caso, além de nada oferecer
de anormal, explica-se facilmente, como vamos ver.
Em primeiro lugar, a distribuição das águas meteóricas não se faz em Coimbra do mesmo modo que no Funchal; enquanto naquela
cidade se registam em média, durante os meses de verão, 79 milímetros de chuva, no Funchal registam-se apenas 16,9. A
quantidade média da chuva acusada pelo udometro do observatório de Coimbra no mes de Julho é de 19,4 e no mes de Agosto de
15,3 milímetros, enquanto no Funchal é ela respectivamente de 1,1 e 2,4 milímetros. Naquela cidade do continente há durante os
meses de verão 21,5 dias de chuva, no Funchal, apenas 4,2.
Sendo portanto, as estiagens prolongadas durante a estação mais quente do ano uma das características do clima do Funchal e
devendo resultar dali uma suspensão antecipada na actividade vital das plantas, é claro que o descuramento das folhas se deve dar
entre nós primeiro do que em Coimbra, e tanto mais cedo quanto mais sensíveis forem as arvores á acção da seca.
Eis indicada uma das causas dos longos períodos de repouso assinalados na Madeira; a outra causa está na particularidade que
oferecem certas árvores cultivadas entre nós de só principiarem a desabrochar depois de haverem recebido uma soma de
temperatura bastante superior á que as faz entrar em vegetação nos países donde são originarias.
Mas não é em todas as essências que se observa este desabrolhamento tardio, no qual A. de Candolle queria ver uma adaptação das
árvores ao clima, e A. Grisebach uma sobrevivência de hábitos inveterados na espécie. O carvalho, por exemplo, parece constituir
uma excepção à regra, excepção tanto mais para surpreender quanto é certo que ela se dá também nas altitudes médias da ilha.
Convêm advertir no entretanto que se o desabrolhamento do carvalho começa extraordinariamente cedo na Madeira, a folheação
geral só se completa depois de decorrido um prazo bastante longo, como mostrámos no principio deste artigo. Parece indicar isto
uma certa tendência na espécie, motivada por hábitos hereditários, para resistir á influencia das temperaturas normais de
folheação.
Do mês de Setembro em diante é frequente aparecerem tanto nos troncos dos carvalhos como nas varas da vinha, muitos renovos
antecipados. Como estes renovos não são acompanhados do intumescimento geral dos gomos, é preciso não os tomar pelo inicio da
nova folheação.
Confrontando os dados colhidos desde 1903 a 1905 com os provenientes das nossas observações de 1905 a 1906, nota-se que neste
ultimo período muitas arvores desabrolharam no Funchal consideravelmente mais cedo, sendo a antecipação maior no carvalho
que nas outras espécies. Como a humidade é um dos factores da periodicidade e as precipitações atmosféricas foram
abundantíssimas nos últimos meses de 1905, ao contrario do que sucederá nos anos anteriores, é de presumir que esta fosse a causa
das mesmas arvores entrarem mais cedo em vegetação.»
A revista botânica a que acima se faz referencia é o «Bulletin de l'Academie Intern. de Geogr. Botanique du Mans» nº 189 e 190 de
1905.
Oceanografia
O mar é um vasto meio biológico, onde se encontram as mais variadas formas, tanto vegetais como animais. Se as
plantas superiores são quase todas terrestres, nas plantas inferiores inúmeras há que nascem, vivem e morrem no seio das aguas
oceânicas. O reino animal tem também numerosos representantes nas aguas-marinas, fornecendo uma boa parte da alimentação do
homem, assim como um variado número de organismos que, embora sem importância na economia humana, desafiam a
curiosidade dos observadores científicos.
O estudo da oceanografia está ainda muito atrasado na Madeira; no entretanto, temos já alguns valiosos trabalhos descritivos ou de
classificação sobre vários grupos de organismos que habitam o mar, os quais, embora não satisfaçam sempre às exigências da
hidrobiologia moderna, são todavia muito uteis para o conhecimento da composição faunística e floristica das nossas aguas.
Nos artigos
Algas, Carcinologia, Conchas, Peixes, Estrelas, Ouriços do Mar, Vermes
, etc., etc., alguns dados se encontram sobre as
produções animais e vegetais de nossos mares, mas os resultados obtidos até agora, principalmente por meio das pescas e
dragagens realizadas, se bem que representem um grande passo no caminho da investigação dos organismos que vivem no nosso
meio marinho, pouca luz vêm lançar sobre certos pontos de oceanografia que muito preocupam as atenções dos sábios modernos. O
plancton, ou o conjunto dos vegetais e animais que flutuam passivamente no seio das aguas, sendo portanto o joguete das correntes
e das condições físicas e químicas do meio em que vivem, está muito imperfeitamente estudado, e o mesmo se pode dizer acerca de
certos grupos benthonicos, ou que exercem a sua actividade junto do fundo dos mares. O estudo dos factores ecológicos, tais como a
temperatura, a salinidade, os gases dissolvidos, a pressão, o movimento das aguas nos nossos mares, etc., esta quasi por fazer, e
sobre os organismos do plancton ou planctontes, que desempenham papel preponderante pela sua abundância, só existem
publicadas algumas ligeiras noticias sobre os Copépodos e as Diatomáceas madeirenses. Nada se sabe, que nos conste, sobre os
Dinoflagelados, e, sobre os Cistoflagelados, apenas se conhece a
Noctiluca miliaris
, elemento muito frequente nas nossas aguas e
que provoca de noite fenómenos de fosforescência.
Tem-se falado muito, ultimamente (1921), no estabelecimento dum museu oceanográfico no Funchal, mas para que tal instituição, a
ser levada a efeito, se torne verdadeiramente útil, preciso se torna que ao estudo dos organismos das nossas aguas se dê uma
latitude maior do que a que tem tido até hoje. Não basta que nos armários desse museu figurem os peixes, os crustáceos, as
conchas, os antozoarios, os equinodermes e ainda outros grupos capazes pelas suas dimensões de chamar a atenção dos leigos em
ciências naturais; é preciso que aí tenham cabimento também as bacteriaceas, os flagelados, as clorofíceas, os foraminíferos, os
ciliados, os radiolários, os tunicados e outros grupos de plantas e de animais que caracterizam as aguas oceânicas e entram em
muitos casos no dominio do plancton. A instalação de aquários destinados a reproduzir as condições do meio marinho seria muito
vantajosa, pois permitiria a realização de observações difíceis de levar a efeito por outra forma.
O equipamento das expedições destinadas ao estudo da fauna e dos factores ecológicos das grandes profundidades é, sem duvida,
muito dispendioso por causa do navio, dos aparelhos e dos homens que é preciso utilizar, mas se as nossas aspirações forem mais
modestas e quisermos estudar apenas a composição faunística e floristica das aguas da baía do Funchal ou das proximidades da
nossa costa, basta-nos neste caso recorrer aos aparelhos de pesca dos pescadores, ás redes de Muller, aperfeiçoadas para a colheita
dos planctontes a varias profundidades, ás redes de malha larga e aos frascos de boca larga para os macroplanctontes, e às dragas
para a colheita dos organismos em contacto com o fundo.
Um barco, que não precisa ser muito grande, e alguns frascos com os líquidos fixador e conservador, completam os materiais
exigidos para as pequenas explorações oceanográficas.
Se aqueles que possuem embarcações e se dedicam aos desportos náuticos empregassem uma parte do tempo que passam
embarcados na colheita dos organismos marinhos, muito se adiantariam os nossos conhecimentos oceanográficos locais que, como
dissemos, são ainda muito limitados. É o plancton que mais particularmente requerer as atenções dos amigos das ciências naturais,
e, se o estudo dos microrganismos que o constituem oferece ás vezes dificuldades, é preciso não esquecer que muitas delas podem
ser vencidas com algum esforço e trabalho, e outras recorrendo ao esclarecido conselho dos especialistas, os quais não recusam em
geral o seu auxilio aos principiantes que revelam zelo e amor pelas pesquisas a que eles também se consagram.
Pela próxima afinidade que têm com o assunto deste artigo, transcrevemos da valiosa obra do engenheiro Adolfo Loureiro «Os
Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes» (V-21) os seguintes períodos:
«Sabe-se que a Madeira está situada na região das grandes correntes oceânicas, que se manifestam na parte liquida do nosso
planeta. Logo de principio, e desde a descoberta da Madeira, principiou a notar-se que os navios que desta ilha seguiam na direcção
das Canarias eram insensivelmente levados do N. para W. A corrente que se estabelecia para SSW era de 12 a 16 milhas por dia, e
atribuía-se á acção do vento. A costa N. da Madeira, e especialmente ao Porto da Cruz, trazia as vezes o mar frutos desconhecidos,
que se supunha virem de W. A temperatura que se encontrava nas aguas parecia seguir leis e fenómenos persistentes. Fazendo
parte dos habitantes da Madeira nautas e conhecedores do mar, estes factos não lhes passaram desapercebidos, e crê-se mesmo que
Cristovam Colombo foi por eles levado a conjecturar que para os lados do ocidente haveria terras donde provinham aquelas
amostras de frutos.
A temperatura das águas e a sua distribuição á superfície, os seus movimentos periódicos e condições seguindo uma lei que parecia
constante, deveriam passar a ser objecto de estudos oceanográficos muito interessantes, que infelizmente não se fizeram nunca.
Reconheceu-se, também, que as condições de profundidade deste mar eram excepcionais, e, começando a ser muito grande junto
da costa, aumentava rapidamente na direcção dos Açores sendo de 1.650 braças a 2.675.
Para o N. da Madeira, era a 120 milhas da costa de 1.650 braças. Entre a Madeira e as Canárias chegava a 2.298 braças. E entre a
Madeira e a costa de África, bem como entre a Madeira e as Canárias, a 2.400 braças, sendo já a curta distancia da ilha de 2.225.
Sobre os movimentos diários marítimos das aguas, ou sobre as marés, não estão estes fenómenos devidamente estudados e
registados. Nas cartas, por exemplo, do engenheiro Azevedo, confirmadas por diversos oficiais de marinha ingleses, menciona-se
que o estabelecimento do porto no Funchal é às 12h.48m., e a elevação da maré de 2m,28.»
Ocupação da Madeira por Tropas Inglesas
Os medianamente versados em cousas históricas madeirenses sabem que foi esta
ilha duas vezes ocupada por tropas inglesas, sendo a primeira de Julho de 1801 a Janeiro de 1802 e a segunda de Dezembro de 1807
a Outubro de 1814.
Ninguém ignora que a aliança inglesa nos lançou nos azares das guerras napoleónicas, sem que da nossa comparticipação nas
campanhas contra a França adviesse a mais insignificante vantagem para o nosso país, que nem sequer teve representação no
Congresso de Viena, ao tratar-se das condições da paz. Entre os vexames que então sofremos, conta-se o da primeira ocupação da
Madeira, feita a titulo de protecção e de defesa, mas que de facto correspondeu a uma verdadeira conquista, como claramente se vê
dos documentos da época e que não deixam a menor duvida acerca dos desígnios que presidiram a essa ocupação.
Na manhã do dia 24 de Julho de 1801, surgiu no porto do Funchal uma esquadrilha inglesa composta da nau de linha Argo, da
fragata Carrysfort, do bergantim Falcon e de mais cinco navios transportes, sendo comandada pelo comodoro Bowen e trazendo a
seu bordo cerca de 3.500 soldados e oficiais, que vinham sob o comando do coronel Henry Cliton. Desembarcaram imediatamente
alguns oficiais e depois duma rápida conferencia com o cônsul inglês José Pringle, logo este se dirigiu ao Governador e Capitão-
General D. José Manuel da Câmara, comunicando-lhe as ordens que recebera dos comandantes das forças britânicas, cuja vinda à
Madeira tinha o único intuito de a proteger e defender dum suposto assalto dos navios franceses.
A surpresa do Governador não podia ser maior. Não só achava desnecessária a chegada da esquadra e a permanência das tropas
entre nós, como ainda desconhecia por completo a sua vinda, causando o facto a maior indignação em toda a ilha. D. José Manuel
da Câmara acatou no entretanto as ordens transmitidas pelo cônsul inglês, pois se convenceu de que a menor resistência da sua
parte implicaria o imediato bombardeamento da cidade. Tudo isso se deduz claramente da exposição feita por D. José Manuel ao
Governo central.
Não foi menor a surpresa do Governo do Príncipe Regente. Deu este ao nosso representante em Londres as necessárias instruções
para protestar energicamente junto do Governo inglês contra a ocupação da Madeira, exigindo a imediata retirada das tropas,
sobretudo depois que Napoleão tomara uma atitude mais benévola a respeito dos negócios de Portugal.
Enquanto decorriam vagarosamente as negociações em Londres, foi o coronel Cliton procurando uma mais apropriada e
confortável acomodação para as suas tropas, que ao principio se espalharam pelas diversas fortalezas e depois ocuparam o colégio
dos Jesuítas, então servindo de seminário diocesano, e ainda algumas casas particulares, donde foram desalojados os seus
proprietários e moradores. Não se esqueceu de interferir abusivamente no governo e administração locais, vexando os habitantes
desta ilha com medidas violentas, em que revelava a verdadeira tirania dos dominadores intrusos.
Depois de assinados os preliminares da paz de Amiens, a 1 de Outubro de 1801, o nosso representante em Londres novamente e
com mais energia insistiu pela evacuação das forças inglesas da Madeira, mas só no começo do ano de 1802 é que o Governo
britânico ordenou ao coronel Cliton a sua retirada desta ilha, realizando-se o embarque das tropas a 25 de Janeiro de 1802.
Sete anos depois, foi esta ilha novamente ocupada por tropas britânicas, sendo desta vez mais completo e mais absoluto o domínio
que aqui exerceram os ocupadores. Não pode restar dúvida de que a Inglaterra procedeu á posse definitiva do arquipélago sendo
bastante para admirar como a nossa hábil diplomacia conseguiu com os esforços empregados em Londres e noutros centros
europeus, restituir a Madeira á posse dos portugueses.
No dia 24 de Dezembro de 1807, ancorou no porto do Funchal uma esquadra inglesa, composta de quatro naus, quatro fragatas e
dezasseis navios transportes, sob o comando do almirante Samuel Hood, conduzindo dois regimentos de infantaria de mil soldados
cada um e duas companhias de artilharia, vindo as tropas comandadas pelo major-general Guilherme Carr Beresford.
Efectuado o desembarque das forças militares, logo o general britânico se apressou a comunicar ao governador e capitão-general da
Madeira, Pedro Fagundes Bacelar de Antas e Meneses, que fizesse a imediata entrega deste arquipélago, ao que o mesmo
governador prontamente acedeu, na impossibilidade de qualquer resistência, tratando-se sem demora da capitulação, que no seu
primeiro artigo consignava a cláusula de que «a ilha da Madeira e suas dependências serão entregues aos comandantes das forças
de sua majestade britânica para serem conservadas e governadas por sua dita majestade com os mesmos direitos, privilégios e
jurisdições com que até agora as gozou a coroa de Portugal.» Este auto de capitulação, que se compõe de 7 artigos, foi assinado no
dia 26 de Dezembro por Pedro Fagundes e Beresford, tendo este ultimo no dia 30 do mesmo mês dirigido uma proclamação aos
habitantes desta ilha, que vem transcrita nas Saudades da Terra e que é por muitos títulos um documento interessantíssimo.
A ocupação foi desta vez mais completa e absoluta do que a primeira, e causou no Rio de Janeiro, para onde a corte se havia
transferido pouco antes, e na nossa legação em Londres, uma grande e dolorosa surpresa, tratando-se logo pelos meios
diplomáticos de obter uma possível reparação dos males que á Madeira causara aquela ocupação. Domingos António de Sousa
Coutinho, depois conde do Funchal e nosso representante em Londres, homem de talento e de energia, empregou os mais diligentes
esforços para a reentrega desta ilha e, depois duma luta porfiosa, conseguiu que toda a administração civil voltasse a ser exercida
pelo Governo português e que o major-general Beresford ficasse com a superintendência em todos os assuntos militares ou que com
eles directamente se relacionassem.
O governador Pedro Fagundes retomou o seu cargo de governador em fins de Abril de 1808 e ocupou de novo o palácio de S.
Lourenço, de que havia sido despojado, mas de facto continuou a ocupação inglesa, embora atenuada pelas negociações
diplomáticas realizadas pelo distinto representante de Portugal em Londres e consignadas na convenção de 16 de Março de 1808.
A 17 de Agosto de 1808, saiu para Lisboa, comandada por Beresford, metade das tropas inglesas aqui estacionadas, isto é um
batalhão de infantaria e uma companhia de artilharia, vindo o coronel Mead comandar as forças britânicas que continuaram a
permanecer no Funchal. Em Julho de 1812, foi o coronel Mead substituído pelo major-general Gordon, que aqui permaneceu no
comando das forças britânicas até que estas saíram da Madeira no dia 3 de Outubro de 1814.
Durante estes sete anos de ocupação estrangeira, deram-se vários conflitos entre as autoridades superiores do arquipélago e os
comandantes das forças inglesas, determinados pela invasão que estes faziam das atribuições que exclusivamente pertenciam aos
governadores e capitães-generais. Entre esses conflitos, destaca-se o que foi provocado pela manifesta violação do nosso direito de
soberania, em que o general Bereford fêz enforcar nos limites do nosso território um soldado inglês que matara um seu
compatriota.
Ainda depois de terminada a guerra europeia, continuaram na Madeira as tropas inglesas, contra a letra expressa dos tratados e das
promessas solenemente feitas ao nosso embaixador em Londres, até que á força de reiteradas instancias do Governo português,
embarcaram elas no Funchal, no dia 3 de Outubro de 1814, com destino a Inglaterra, sob o comando do major general Gordon,
como acima fica referido.
Como devida homenagem à memória deste ilustre diplomata, foi dado o seu nome a uma das novas ruas da cidade do Funchal.
Vid. Funchal (Marques do).
Ocupação da Madeira pelas Tropas Miguelistas
Como se sabe, D. Miguel, regente do reino, dissolveu as cortes e reuniu os
três estados a 3 de Maio de 1828, proclamando-se rei absoluto. A 12 do mesmo mês, chegou á Madeira a noticia distes
acontecimentos e logo o governador e capitão-general José Lucio Travassos Valdês se preparou para a resistência e para conservar-
se fiel aos princípios consignados na Carta Constitucional, doada por D. Pedro IV.
No dia 25 de Junho de 1828, apareceu em frente do nosso porto a fragata portuguesa Príncipe Real, trazendo o novo governador
miguelista José Maria Monteiro e um corregedor para esta comarca, munidos de poderes discricionários. A bordo da fragata
achava-se o vice-almirante Prego, que se dirigia para os Açores como governador e capitão-general daquelas ilhas.
José Lucio Travassos Valdês enviou um emissário ao comandante do navio de guerra miguelista, dando-lhe conhecimento do
estado dos espíritos neste arquipélago e da resistência que oporia ao desembarque do novo governador, e intimidando-lhe ao
mesmo tempo a saída imediata das aguas da Madeira.
No dia 27 desapareceu a fragata, mas no dia 28 surgiram na nossa baía uma corveta e um brigue, do Governo usurpador, e, pela
comunicação feita ao cônsul inglês Henrique Veitch, se soube que os absolutistas estavam no propósito de manter o bloqueio em
todo o arquipélago, contra o que o cônsul imediatamente protestou em nome do seu Governo.
A atitude enérgica e resoluta do governador e capitão-general Travassos Valdês obstou ao desembarque das forças miguelistas,
tendo a esquadra abandonado as aguas da Madeira, sem ter realizado os intuitos de conquista que animavam o seu comandante.
A 16 de Agosto de 1828, apareceu de novo em frente da baía do Funchal a esquadra realista, que se compunha de uma nau, duas
fragatas, duas corvetas, dois brigues e duas charruas. Vinha comandada pelo vice-almirante Henrique da Fonseca Prego e trazia a
seu bordo, além das equipagens, cerca de mil homens comandados pelo coronel José António de Azevedo e Lemos.
Ao alvorecer do dia 22 de Agosto, tomava a esquadra o rumo da baía de Machico, e às 11 horas da manhã o brigue Infante D.
Sebastião rompia o fogo contra o forte do Ancoradouro, e em seguida contra a bataria do Amparo, que ofereceram uma fraca e
pouco demorada resistência, tendo as respectivas guarnições fugido desordenadamente quasi aos primeiros tiros dados pela
esquadra inimiga. Realizou-se em seguida o desembarque das tropas miguelistas «sem a menor resistência e com toda a
comodidade», segundo o insuspeito testemunho dum contemporâneo dos acontecimentos.
José Lucio Travassos Valdês, que era sem duvida um bravo e tinha qualidades de estratégico, de que deu tão eloquentes provas nas
campanhas da liberdade, tinha preparado a defesa da Madeira, mas dispunha de fracos elementos para isso, não só pelo numero e
aptidões dos oficiais mas ainda pelos mal disciplinados e bisonhos soldados milicianos que compunham a guarnição do
arquipélago. É certo que poucos dias antes tinham vindo de Inglaterra alguns oficiais nossos compatriotas, mas chegaram já tarde e
só se podia contar com o seu valor e competência militar, o que não bastava para a organização duma defesa que tinha de ser
enérgica e talvez demorada, em atenção ao numero e qualidade dos atacantes. Travassos Valdês organizou alguns núcleos de
resistência desde Machico até ao Funchal, especialmente no Seixo, em Santa Cruz, no Porto Novo e Palheiro do Ferreiro, que
tinham como comandante o tenente-coronel Schwalback. No Seixo, estavam 200 homens comandados pelo capitão Brito, que, ao
aproximar-se o inimigo foi o primeiro a fugir, seguindo-lhe o exemplo toda a força militar que ali se encontrava. Schwalback, á vista
destes sucessivos desastres e reconhecendo a inutilidade da resistência que preparara em Santa Cruz, resolveu concentrar as suas
forças no forte do Pôrto Novo que estava bem artilhado, e aí, dominando as íngremes ladeiras que o inimigo forçosamente teria que
subir, poderia causar grandes perdas nas tropas realistas e obrigá-las até a retroceder.
Quando Schwalback ordenava naquele excelente ponto estratégico os elementos de resistência que tinha á sua disposição e de
outros que vinham chegando do Funchal, deu-se uma explosão nas munições, de que resultou ficar gravemente ferido aquele oficial
e outras praças da guarnição. Os soldados abandonaram então o forte em precipitada fuga e Schwalback dificilmente conseguiu
reunir alguns homens que o conduzissem ao Funchal.
Travassos Valdês saindo da cidade em reforço da guarnição do Porto Novo, encontrou Schwalbach na estrada do Caniço, ferido e
em direcção ao Funchal, e pôde então reconhecer que tudo estava perdido, sendo inútil qualquer resistência e restando apenas
poupar a vida aos seus soldados e subtrair a população ás represálias das tropas miguelistas.
O governador e capitão-general José Lúcio Travassos Valdês, que tanto se distinguiu nas lutas da liberdade e também na politica,
com o nome de Conde de Bonfim, acolheu-se á protecção da Inglaterra, refugiando-se a bordo da corveta de guerra Alligator
(V.
este nome, vol. I, pag. 46
) na tarde do dia 22 de Agosto, e seguindo poucos dias depois para Londres com outros emigrados.
As tropas realistas, pela manhã do dia 23 de Agosto, saíram de Santa Cruz em direcção ao Funchal, não encontrando a mais
pequena resistência, e entraram na cidade na tarde daquele mesmo dia.
José Maria Monteiro
(V. êste nome, vol. II, pag. 390)
, o novo governador miguelista, desembarcou no dia 24 de Agosto e nesse
dia tomou posse do seu novo cargo.
Ocupação do Porto Santo pelas Tropas Constitucionais
A 4 de Abril de 1832, foi o Porto Santo ocupado por uma força
constitucional de 60 praças de artilharia, chegada da ilha Terceira no brigue de guerra Conde de Vila Flor e escuna de guerra
Terceira. Comandava a mesma força o capitão Bento José de Oliveira, o qual fêz imediatamente aclamar na ilha a rainha D. Maria
II.
No dia 7 do mesmo mês, chegou ao Porto Santo a fragata D. Maria II, que voltava do bloqueio da Madeira, e que trazia a seu bordo
o almirante Sertorio, o futuro prefeito Luís da Silva Mousinho de Albuquerque, o deão da Sé do Funchal, Januário Vicente
Camacho, e outros constitucionais, tendo a ocupação durado até 5 de Maio, em que a referida força e as demais pessoas que haviam
desembarcado na ilha partiram com destino aos Açores.
Além da força de 60 praças já mencionada, embarcaram 104 voluntários que haviam fugido da ilha da Madeira para se alistarem no
exercito constitucional.
Enquanto a expedição se conservou no Porto Santo, foram aprisionados alguns navios, cuja carga serviu para o abastecimento dos
habitantes, que padeciam já alguma fome, tanto porque a produção da ilha no ano anterior havia sido escassa, como pela
impossibilidade de virem mantimentos da Madeira, por causa do bloqueio.
Reinou o maior sossego no Porto Santo enquanto durou a ocupação, em virtude da disciplina das tropas e da vigilância exercida por
Mousinho de Albuquerque e oficiais sob as suas ordens.
A 29 de Maio, depois da partida das tropas constitucionais, chegou ao Porto Santo o iate Bomfim, vindo da Madeira e trazendo a
seu bordo o juiz de fora Esperança Freire, o inspector do Trem José Joaquim de Amorim, o engenheiro Pegado e um destacamento
de 30 soldados de caçadores 7 e infantaria 8, comandado pelo alferes António Pedro de Azevedo, procedendo-se imediatamente á
aclamação de D. Miguel e regressando todos á Madeira na noite do mesmo dia.
D. Maria II foi novamente aclamada na ilha do Porto Santo, a 7 de Junho de 1834.
Oldenburgo (Principe de)
O príncipe Nicolau Frederico Augusto de Oldenburgo, tenente-general do exercito russo, esteve na
Madeira durante cerca de dois anos (1884-1885), tendo-se tornado muito conhecido entre nós pela vida de fausto e grandeza que
ostentava, pelas festas deslumbrantes que se realizavam na sua residência e ainda pelos actos de filantropia que frequentemente
praticava.
Foi ele que fez publicar em Paris a tradução francesa do romance de Herculano
– Eurico, o Presbytero
– feita pela viscondessa das
Nogueiras.
O príncipe de Oldenburgo residiu na quinta «Vigia» e tinha ao seu serviço dois cossacos, excelentes cavaleiros, que sempre que
saiam a passeio eram olhados com curiosidade pelos habitantes do Funchal.
Faleceu em Genebra, em Janeiro de 1886.
Oliveira
Em diversas épocas, estabeleceram-se nesta ilha alguns indivíduos que usaram este apelido, sendo os troncos de varias
famílias que se espalharam por muitas freguesias do arquipélago. Por meados do século XVIII, veio para o Funchal onde se
estabeleceu como negociante de vinhos, Domingos de Oliveira Alvares, que foi o tronco duma numerosa e distinta família, que entre
os seus membros conta o conselheiro João Francisco de Oliveira, Joaquim de Oliveira Alvares e conde do Tojal, dos quais nos
ocupamos neste Elucidário. De Domingos de Oliveira houve um neto, nascido em 1806 na Inglaterra, por nome Benjamim de
Oliveira, que naquele país exerceu elevados cargos. Numa noticia biográfica que temos presente se diz que ele foi membro do
parlamento britânico, das Sociedades Real e dos Antiquários de Londres, do Conselho do Colégio Real de Química e das Sociedades
de Botânica, de Zoologia e de Horticultura da mesma cidade, vice-presidente da Sociedade Arqueológica de Inglaterra, director do
Instituto Britânico das Belas-Artes e dos Pintores Ingleses, membro de quase todas as sociedades filantrópicas de Londres, etc., etc..
Benjamim de Oliveira foi varias vezes encarregado pelo Governo do seu país de desempenhar diversas missões importantes junto
de alguns governos da Europa. Publicou algumas obras.
De Pedro de Brito Oliveira Pestana, que veio para a Madeira com seu irmão João Mendes de Brito, por 1470, procedem também
muitos dos indivíduos com o apelido de família Oliveira que existem na Madeira. Tinham ambos foro de fidalgo, segundo diz o dr.
Azevedo nas notas ás Saudades.
Oliveira (Olea europaea)
Arbusto ou pequena arvore sempre verde, de folhas lanceolado-lineares (
var. madeirensis
) ou oblongas,
obovadas, ovais ou arredondadas
(var. buxifolia
), que aparece no litoral da Madeira, no Porto Santo e no Ilhéu Chão. Produz uma
madeira amarelada, com veios escuros, e pequenos frutos que não são aproveitados por serem pouco carnudos. É conhecido
também pelo nome de zambujeiro.
Umas oliveiras que vimos há anos no Porto Santo e cujos frutos eram aproveitados, embora fossem menos saborosos que os do
Continente, procediam provavelmente de estacas importadas de Portugal e não de exemplares oriundos da ilha.(1921)
Oliveira (Cónego Alfredo Cesar de)
Este ilustre madeirense, que era filho de Augusto César de Oliveira, nasceu na vila de Santa
Cruz a 22 de Maio de 1840.
Tendo cursado o Liceu e o Seminário desta cidade, ordenou-se de presbítero a 30 de Agosto de 1863. Exerceu funções paroquiais
nas freguesias de São Roque e de Santa Maria Maior, e, por carta regia de 15 de Fevereiro de 1867, foi apresentado num canonicato
da Sé do Funchal. Desempenhou também os cargos eclesiásticos de vigário geral, membro e presidente da Junta Governativa do
bispado e de substituto do governador da diocese. Em 1880, foi transferido para a Sé arquiepiscopal de Évora e nesta cidade residiu
até a época da sua morte.
O cónego Alfredo César de Oliveira como orador sagrado, como escritor, poeta e jornalista, como politico e parlamentar e como
cidadão no desempenho de diversos e importantes cargos públicos, revelou sempre a superioridade da sua inteligência, mostrando
a maleabilidade do seu talento, que podia, em assuntos diametralmente opostos e sem alguma afinidade entre si, ocupar-se de
variadas e complexas questões, o que só é permitido a espíritos de eleição e privilegiadamente dotados pela natureza.
A feição mais característica do seu espírito e que nele se salientou com maior brilho, foi a de orador sagrado, politico e jornalista.
Em todas estas exteriorizações da sua inteligência mostrou o seu incontestável valor e as raras aptidões que possuía.
Desde muito novo se consagrou á carreira oratória da tribuna evangélica, estreando-se na sua vila natal, com o mais auspicioso
êxito, sendo ainda simples diácono, na festividade que ali se realizou para solenizar o consórcio de el-rei D. Luís com D. Maria Pia.
Daí em diante foram grandes os seus triunfos oratórios, gozando entre nós da fama dum consumado pregador, sendo
verdadeiramente notáveis alguns dos discursos que pronunciou na Sé Catedral e em outras igrejas desta diocese. Nos púlpitos da
capital confirmou os créditos que ali o precederam de distinto orador sagrado, proferindo alguns sermões nas igrejas da Madalena,
Incarnação e capela da Saúde, que lhe mereceram as mais elogiosas referências da imprensa de Lisboa. Projectou a publicação das
suas orações sagradas, mas apenas sabemos que publicou dois sermões em folhetos avulsos e outro num jornal desta cidade.
O cónego Alfredo foi um hábil e destro jornalista, que á facilidade e elegância da dicção reunia uma cerrada dialéctica, que o
tornavam um argumentador de pulso e um adversário para temer, sendo um lutador incansável que não recuava nunca, ainda no
mais aceso do combate. Entrou em memoráveis campanhas jornalísticas, em que o fogo das paixões fazia por vezes exceder os
contendores em demasias de linguagem, mas de que o nosso distinto patrício não conservava rancores, esquecendo facilmente os
agravos recebidos. Manejava com rara habilidade as armas da ironia e do ridículo e, alvejando o adversário, ora em prosa ora em
verso, saía quase sempre vencedor nestas lutas muitas vezes estéreis da pena, de que o facciosismo politico, as vaidades e os
interesses pessoais são os principais estímulos.
Colaborou mais ou menos assiduamente na Imprensa Livre, na
Revista Semanal
, na
Aurora do Domingo
e na
Crença
, de Lisboa, e
ainda noutros jornais, e foi o fundador e principal redactor do periódico a Lâmpada, que se publicou no Funchal em 1872. Em 1876,
empreendeu entre nós a publicação do primeiro jornal diário, iniciativa que a muitos se afigurou então uma empresa irrealizável ou
de muito pouca duração, mas que superou todos os obstáculos e ainda hoje existe com vida prometedora – o
Diário de Noticias
, do
Funchal. Na cidade de Évora também fundou as
Noticias do Alentejo
, primeiro jornal diário que ali se publicou (Vid. I-359).
Foi também um inspirado poeta, escrevendo varias poesias líricas que andam dispersas por diversos jornais. Cultivou também o
género satírico, mostrando-se por vezes um digno discípulo de Nicolau Tolentino.
O cónego Alfredo e o conselheiro José Leite Monteiro, querendo salvar do esquecimento muitas produções poéticas de
incontestável valor de alguns poetas madeirenses, que permaneciam inéditas ou espalhadas nos jornais, empreenderam a
publicação das Flores da Madeira, de que saíram dois volumes, merecendo esta colecção alevantados elogios ao insigne escritor
Teófilo Braga, numa carta publicada em 1872 num jornal desta cidade.
Além de inúmeros artigos, escreveu os romances Uma noite num hotel, que foi publicado na
Revista Semanal
, e
Os Mistérios do
Funchal
, no
Diário de Noticias
.
O cónego Alfredo César de Oliveira foi um politico apaixonado. Com um lugar de destaque na tribuna da imprensa e dispondo da
influencia de muitos amigos e colegas espalhados em todo o distrito, exerceu entre nós uma notável preponderância partidária, que
logo o indicou para cargos de eleição e confiança politica, tendo sido procurador á Junta Geral e vogal do Conselho de Distrito.
A sua influencia e ilustração tinham-no naturalmente indicado para representar em cortes os seus patrícios, sendo a 13 de Outubro
de 1878 eleito deputado pela oposição, pelo circulo da Ponta de Sol, para a legislatura de 1879, e novamente eleito pelo mesmo
circulo a 19 de Outubro desse ano, para a legislatura de 1880 a 1881. A 6 de Março de 1887 foi de novo eleito deputado pela
Madeira, mas desistiu da sua candidatura a favor do seu intimo amigo e nosso distinto patrício Henrique de Sant'Ana e
Vasconcelos, que tinha sido o candidato mais votado depois dos quatro deputados eleitos.
O cónego Alfredo corroborou no parlamento os créditos de que gozava como orador sagrado. Mostrou-se um parlamentar distinto,
revelando apreciáveis dotes de tribuno, sobretudo na discussão que sustentou com o notável publicista Rodrigues de Freitas.
Defendeu sempre com grande fervor os interesses dos seus patrícios, devendo especializar-se o seu discurso e projecto de lei acerca
da arborização das serras da Madeira. Foi presidente das comissões administrativas da Misericórdia e do Asilo da Mendicidade do
Funchal e exerceu ainda outras comissões de serviço público.
Em Évora, recusou desempenhar os lugares de governador civil e de deputado com que os seus amigos e correligionários quiseram
por vezes distingui-lo.
Faleceu na capital do Alentejo, onde gozava do maior prestigio e da mais acendrada estima, no dia 19 de Abril de 1908.
Oliveira (Dr. António Rodrigues de)
Era natural de Portugal, mas residiu muitos anos nesta ilha no desempenho de varias
comissões de serviço público. Veio despachado corregedor, tomando posse do cargo a 4 de Outubro de 1790. Exerceu depois os
lugares de inspector dos tabacos e saboarias, e de conservador da conservatória britânica. Desempenhou também o cargo de
inspector da agricultura, e, como tal, deixou exaradas umas instruções na câmara da Calheta, sobre coisas agrícolas, que eram para
a época um trabalho de valor e que ainda hoje podem ser lidas com interesse. Em varias obras e documentos encontram-se
elogiosas referências a essas instruções.
Oliveira (Benjamim de)
V. Oliveira.
Oliveira (D. Francisco Júlio de)
Foi nomeado bispo do Funchal em 1723, mas não chegou a tomar posse do cargo por ter sido
transferido para outra diocese.
Oliveira (Francisco Manuel de)
Gozou no seu tempo de certa nomeada como poeta, sendo hoje um nome inteiramente esquecido.
Inocêncio classificou-o como poeta de segunda ordem, dizendo que as suas composições não eram de todo más, e que se lhe devia a
obrigação de tornar conhecidas em Portugal as primeiras amostras de um género até então de todo ignorado. Refere-se o autor do
Dicionário Bibliográfico Português
, á tradução que fez Oliveira, valendo-se do texto inglês, de varias poesias escritas nalgumas
línguas orientais da Índia.
Francisco Manuel de Oliveira nasceu nesta ilha no segundo quartel do século XVIII e morreu pouco antes de 1819.
Quando em 1772 se criou nesta cidade a aula pública de filosofia, foi Francisco Manuel de Oliveira provido desta cadeira, que regeu
muitos anos, tendo sido jubilado por portaria de 3 de Abril de 1799. Julgamos que também foi professor do Seminário Diocesano,
por isso que ali proferiu um discurso na abertura das aulas no ano de 1786. Não conhecemos outras circunstâncias da sua vida.
Inocêncio da Silva dá a seguinte relação das obras publicadas por Oliveira
: Escolha de Poesias Orientaes. . . seguidas de outras
varias rimas
, Lisboa, 1793, de 61-138 pag
.; Colleção Poetica
, tomo II, Lisboa, 1794, de 173 pág., sendo a continuação do volume
antecedente;
Oração... na inauguração do Seminário do Funchal
, Lisboa, 1787, de 40 pág
.; Ensaio poetico sobre a harmonia do
mundo...
Lisboa, 1805, de 120 pág.; Princípios elementares da língua Inglesa. . . Lisboa, 1809, de 255 pág.; e a tradução dos
Avisos
interessantes á humanidade
... Lisboa, 1788.
A uma filha de Francisco Manuel de Oliveira, foi concedida nos tempos do governador Botelho uma subvenção igual a um terço do
ordenado que recebia o pai, em razão dos serviços deste e da miséria a que ela se achava reduzida.
Oliveira (João Fortunato de)
Nasceu nesta cidade a 26 de Março de 1828 e aqui faleceu a 6 de Abril de 1878. Residiu durante
alguns anos no estrangeiro e especialmente em Inglaterra, onde se aperfeiçoou no conhecimento das línguas francesa e inglesa, de
que em 1863 foi nomeado professor no liceu do Funchal, e ali regeu essas cadeiras até a sua morte. Teve colaboração em prosa e
verso nalguns jornais desta cidade. Com o titulo de Flores Agrestes publicou-se um volume de poesias, no Funchal, em 1860, que é
a primeira parte da obra e que contém as composições poéticas de João Fortunato de Oliveira, não chegando a ver a luz da
publicidade a segunda parte, que deveria conter as poesias de Januário Justiniano de Nóbrega (Ver este nome).
Oliveira (Dr. João Francisco de)
Nasceu no Funchal a 9 de Março de 1761, sendo filho de Domingos de Oliveira Alvares e de D.
Lourença Rosa Justiniana de Oliveira, abastados proprietários nesta cidade.
Matriculou-se na faculdade de medicina da Universidade de Coimbra e ali devera ter sido um estudante laureado, porque não
somente recebeu o grau de bacharel formado como também tomou capelo e foi depois nomeado lente substituto da mesma
faculdade. 0 seu doutoramento realizou-se a 3 de Julho de 1785, sendo em 1787 encarregado da substituição de uma das cadeiras da
Universidade, mas parece que não chegou a entrar no exercício do professorado, segundo afirma o dr. Serra Mirabeau, na
Memoria
Histórica e Comemorativa da Faculdade de Medicina
, desconhecendo-se os motivos que levaram o dr. Oliveira a abandonar a
carreira universitária.
Regressou à Madeira e depois de alguma permanência nesta cidade, fixou residência na capital do reino e ali iniciou o exercício da
clínica, em que desde logo se revelou um médico abalizado, contando em breve com uma selecta e numerosa clientela. A fama que
adquiriu como clínico indigitou-o para médico do Paço Real, numa época em que cargos desta natureza só eram desempenhados
por membros da nobreza ou por indivíduos que tivessem alcançado grande notoriedade no exercício da medicina. Foi depois
nomeado fisico-mor ou cirurgião em chefe do exército, e no desempenho deste importante lugar escreveu um regulamento dos
hospitais militares, que na época era tido como um trabalho de grande valor.
João Francisco de Oliveira gozou da maior consideração no Paço e teve a particular estima de D. João VI, então Príncipe Regente,
que lhe dispensou várias mercês. Ele e sua esposa a princesa D. Carlota Joaquina, serviram de padrinhos a alguns dos filhos do dr.
Oliveira, o que então constituía uma graça, que os monarcas a poucos concediam.
Foram essas relações de amizade e por certo os favores recebidos que levaram o dr. Oliveira a simular o rapto de D. Eugenia de
Meneses, dama da princesa D. Carlota Joaquina, para colocar o soberano ao abrigo das suspeitas da esposa e dum escândalo na
corte. Embarcou, clandestinamente em Caxias em direcção a Cádis, e depois de deixar aí D. Eugenia de Meneses em seguro asilo,
dirigiu-se aos Estados Unidos da América, onde permaneceu alguns anos. 0 sucesso escandaloso, que só o Príncipe Regente
conhecia, revestiu as proporções dum grande crime, de que os tribunais superiores logo tomaram conta, sendo João Francisco de
Oliveira condenado á morte, e D. Eugenia de Meneses, que pertencia á mais alta nobreza do reino, privada de todas as honras e
mercês inerentes á sua hierarquia, expulsa da corte e inibida de participar de quaisquer bens ou privilégios pertencentes à sua
família. Quem quiser ter mais desenvolvido conhecimento deste episodio, a que João Francisco de Oliveira se prestou para salvar a
honra do soberano e que só tem explicação nos costumes da época, consulte a larga exposição que, com os respectivos documentos,
dele faz o escritor Alberto Pimentel na sua interessantíssima obra
A ultima Côrte do Absolutismo em Portugal
.
O dr. Oliveira durante os anos que esteve na América do Norte, exerceu ali a clínica com extraordinário sucesso, segundo afirma o
geógrafo italiano Adriano Balbi no seu Ensaio Estatístico do Reino de Portugal, que acrescenta ser ele tão distinto médico como
hábil cirurgião. E a propósito diremos que, numa carta escrita por um contemporâneo de Oliveira, se lhe chama o maior medico
português dos últimos cinquenta anos, o que, à parte o que porventura possa haver de hiperbólico nessa afirmativa, é prova dos
seus raros méritos como clínico distintíssimo que foi.
Quando a corte de Portugal já estava transferida para o Rio de Janeiro, ali se apresentou João Francisco de Oliveira a D. João VI,
que não só o acolheu benignamente mas ainda ordenou a revisão do processo, sendo Oliveira absolvido pela Mesa do Desembargo
do Paço, em Abril de 1820, dos crimes de que fora acusado.
Em seguida, foi João Francisco de Oliveira nomeado ministro plenipotenciário em Inglaterra, e no desempenho deste cargo se
houve com notável distinção, granjeando as boas graças da corte inglesa e prestando relevantes serviços ao seu país.
Parece que outro tanto não aconteceu em Paris, onde também o conselheiro Oliveira foi representante de Portugal, vendo-se ali
envolvido num processo, por se afirmar que tomara parte numa conspiração que tinha por fim o destronamento de Luís XVIII. A
acusação nunca se provou e parece destituída de todo o fundamento, sendo muito interessante ler a longa exposição que sôbre o
assunto escreveu o dr. Oliveira, justificando-se da imputação que lhe fora feita e que vem publicada no 2.º vol. do Arquivo da
Marinha e Ultramar.
O dr. João Francisco de Oliveira foi chamado aos conselhos da coroa em 1823, fazendo parte do efémero ministério que se
organizou depois da Vila-Francada e que apenas durou de 31 de Maio a 3 de Julho de 1823.
Foi eleito deputado pela Madeira para a legislatura de 1822 a 1823, advogando com o maior interesse as necessidades deste
arquipélago no seio da representação nacional, tornando-se notável o discurso que proferiu na sessão de 5 de Fevereiro de 1823, em
que propôs a adopção de importantes medidas para combater a crise por que passavam o comercio e a agricultura madeirenses.
Entre os alvitres que apresentou, todos do maior alcance, contam-se o da criação dum Banco no Funchal, destinado a prestar
auxilio aos comerciantes e lavradores, a organização duma companhia para a exportação de vinhos e a importação de géneros, a
construção dum cais em frente da alfandega, que se estendesse até onde houvesse 25 pés de profundidade, etc..
O conselheiro João Francisco de Oliveira ao deixar a embaixada de Paris, recolheu-se ao Funchal com sua mulher e filhos e aqui se
dedicou exclusivamente ao estudo, á administração da sua casa e á direcção dos negócios da Santa Casa da Misericórdia desta
cidade, de que foi alguns anos provedor e á qual prestou serviços muito relevantes, conservando-se ainda hoje o seu retrato na sala
das sessões da Mesa Gerente daquele estabelecimento de caridade. Foi por essa época que o conselheiro Oliveira criou, adjunta ao
hospital de Santa Isabel, uma aula de cirurgia, de cuja regência gratuita ele próprio se encarregou, propondo então ao Governo
central o plano do estabelecimento duma escola medica, que obteve aprovação superior, mas que nunca chegou a ter inteira
execução.
Pouco antes da sua morte, fixou novamente residencia em Lisboa e ali veio a falecer a 26 de Dezembro de 1829.
Em Abril de 1803, doou o príncipe Regente ao dr. Oliveira uns vastos terrenos em São Jorge e a quinta Sant'Ana da freguesia do
Monte, que pertenceram a Pantalião Fernandes e que tinham sido incorporados nos Reais Proprios ou na Fazenda Nacional, como
hoje se diz. Herdou estas e outras propriedades seu filho o dr. Alexandre de Oliveira que no meado do século passado construiu a
casa da quinta de S. Jorge, legando as propriedades daquela freguesia e a casa de residência do Funchal a sua irmã D. Maria
Leopoldina de Oliveira, nascida nos Estados Unidos da América quando ali residia o conselheiro Oliveira. Foi o saudoso e eminente
bispo do Funchal D. Manuel Agostinho Barreto o herdeiro universal de D. Maria de Oliveira, aplicando exclusivamente todo o
produto da venda dessa herança à construção do grande edifício do Seminário da Incarnação, que não chegou inteiramente a
completar-se e onde se acham instaladas (1921) as repartições da Junta Geral do Distrito. D. Maria Leopoldina de Oliveira faleceu
no Funchal a 3 de Fevereiro de 1902.
Consta-nos que o distinto escritor e homem de ciência dr. Eduardo Burnay trabalha num estudo histórico sobre João Francisco de
Oliveira, para o qual tem colhido muitos e valiosos documentos, alguns deles encontrados nesta ilha e fornecidos por um dos
autores deste Elucidário (1921).
Acerca do verdadeiro ou simulado rapto de que acima se fala, tem-se publicado vários artigos em jornais e revistas, merecendo ler-
se o que se encontra no volume IV do «Arquivo Histórico da Madeira» e no opúsculo «A Rua da Junqueira», por Artur Lamas e
publicado em 1922.
Oliveira (João Nepomuceno de)
Nasceu no Funchal em 1783 e morreu no ano de 1846, sendo filho do escritor madeirense
Francisco Manuel de Oliveira. Publicou um pequeno livro de versos e a versão portuguesa de duas novelas trasladadas da língua
francesa, segundo nos informa o Arquivo Histórico da Madeira».
Oliveira (Ponta da)
Na costa marítima da freguesia do Caniço há uma saliência ou ponta que tem o nome de Oliveira. Quando os
descobridores João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz procederam á delimitação das suas capitanias, fez-se a divisão territorial delas
por meio duma linha aproximadamente recta, que partindo da ponta da Oliveira se estendia até á ponta do Tristão, ficando estes
pontos considerados como os extremos das suas donatárias. No extremo sueste se plantou, como marco divisório, uma estaca de
oliveira, que se afirma ter sido mandada vir do continente expressamente para aquele fim, pelo infante D. Henrique. Deste facto
provém ter aquela saliência de terra o nome de ponta da Oliveira.
Oliveira (Porto e cais da)
Na Ponta da Oliveira, freguesia do Caniço, existe um pequeno cais, construído no ano de 1909 e ligado á
estrada central (Igreja) por um ramal, que mede 1800 metros de extensão.
Oliveira Paixão (José Joaquim de)
Era natural de Portugal, mas residiu durante muitos anos nesta cidade, para onde veio como
violeta do teatro grande do Funchal, mandado demolir em 1832 pelo governador D. Álvaro de Sousa de Macedo. Oliveira Paixão foi
um distinto compositor de musica sacra e ainda há poucos anos se executavam nas igrejas desta diocese muitas das suas
composições musicais.
Olivina
Silicato de magnésio e de ferro; sistema ortorrômbico. Encontra-se em grãos e pequenos cristais irregulares, de côr verde
amarelada, transparentes e de brilho vitroso, nos basaltos da Madeira.
Omboni (Tito)
E.:Viaggi nell Africa Occidentale, da Milano Stabilimento di Civelli (1846). Há nesta obra, que é dedicada á
rainha D. Maria II, varias referencias á ilha da Madeira.
Omnès (Dr. Charles)
Este médico da marinha francesa ocupou-se do clima da Madeira no seu trabalho intituladoStations
sanitaires de l'Atlantique occidental (Montpellier, 1888).
Onda (A)
Deu o primeiro numero a 12 de Setembro e o ultimo a 15 de Dezembro de 1871, tendo saído doze números. Era um jornal
de instrução e recreio, redigido por João de Nóbrega Soares.
Opala comum
Sílica hidratada. A variedade de aspecto resinoso, meio translucida, e a variedade vermelha (jaspe opala)
encontram-se na ilha do Porto Santo.
Openheim (Dr.)
Paleontólogo alemão que estudou vários corais fósseis do Porto Santo, encontrados pelo naturalista madeirense
Adolfo de Noronha.
Operário (O)
Este periódico que se intitulava órgão das classes trabalhadoras, deu o primeiro numero a 31 de Janeiro de 1920 e
suspendeu, em Junho de 1922.
Ordem (A)
Deu o primeiro numero a 5 de Janeiro de 1852 e o ultimo a 1 de Setembro de 1860. Teve duas series: a primeira de
duzentos e trinta e cinco e a segunda de cento e noventa e oito números. Publicava-se aos sábados.
Ordem de Cristo
A ordem dos Templários havendo prestado os mais assinalados serviços na formação e consolidação da
nacionalidade portuguesa e ainda depois nas lutas que foi necessário sustentar com os mouros e castelhanos, transmitiu á sua
sucessora o mesmo entusiástico ardor e a mesma heróica abnegação na defesa da pátria, encontrando sempre nela os monarcas o
seu melhor e mais poderoso auxiliar para o alargamento dos nossos domínios e engrandecimento e prosperidade do nosso país.
Foi o infante D. Henrique o primeiro príncipe português que assumiu o mestrado da Ordem de Cristo, afirmando-se que procurara
nesse poderoso organismo o principal ponto de apoio para a realização da grandiosa empresa que concebera. Diogo Lopes de Sousa,
seu antecessor no mestrado da Ordem, tinha deixado esta num elevado grau de prosperidade e rodeada do maior prestigio e
influencia, o que notavelmente se ajustava aos projectos que o infante tentaria levar a cabo.
Era uma ordem rica e poderosa. Os seus membros cheios de fé e de audácia, desejosos do alargamento e do triunfo dos seus ideais
religiosos, ávidos de aventuras e atraídos irresistivelmente para o mistério e para o desconhecido, não podiam mais conter-se nos
apertados limites das fronteiras continentais. Foram a Ceuta em 1415, numa primeira e frutuosa tentativa, e iriam depois aos
confins do universo.
O infante D. Henrique não poderia encontrar em outra parte mais activos e dedicados colaboradores. Não há dúvida de que os
recursos materiais de que dispunha a Ordem e a falange aguerrida e heróica dos seus membros, todos vinculados por votos
religiosos, constituíram o principal factor na realização da sua obra gigantesca.
O infante, e sobretudo os membros mais graduados da Ordem, não esqueceram os serviços prestados, exigindo a supremacia
espiritual e religiosa nos novos domínios conquistados aos mares e aos continentes. Os monarcas fizeram diversas doações á Ordem
de Cristo, concedendo-lhe a superintendência nos serviços religiosos, que ela exercia especialmente por meio dos sacerdotes que
contava entre os seus membros.
É de 26 de Setembro de 1433 a Carta Regia em que D. Duarte doou no espiritual o arquipélago da Madeira «pera todo sempre» á
Ordem de Cristo. No artigo Doações (vol. I, pág. 368) já tratámos, embora sumariamente, deste assunto e para lá remetemos o
leitor, podendo ali ver-se como aquela Ordem perdeu a breve trecho o seu predomínio e as regalias de que gozava, principalmente
por causa da incorporação do mestrado da mesma Ordem na Coroa (C. R. de 27 de Abril de 1497) e pela criação da diocese do
Funchal (Bula de 12 de Junho de 1514).
Não é hoje fácil determinar com precisão até onde chegavam neste arquipélago os privilégios e regalias usufruídos por essa Ordem.
Além da superintendência nas coisas de carácter espiritual e religioso, cobrava determinados impostos e impunha a tributação de
certas rendas, de que apenas temos um conhecimento vago, escasseando-nos elementos para uma apreciação segura e detalhada
sobre o assunto.
Quanto ao espiritual, procurou sempre a direcção religiosa da Ordem que especialmente residia no vigário de Tomar, manter a sua
supremacia neste arquipélago, enviando sacerdotes que aqui exercessem as funções eclesiásticas e superintendessem em todos os
serviços religiosos.
Diz o padre António Cordeiro «que João Gonçalves Zargo, logo que fundou a Villa do Funchal, e viu não tinha ainda sacerdotes
seculares com jurisdição paroquial, escreveu ao Infante D. Henrique, pedindo que lh'os mandasse, e o Infante, como mestre da
Ordem de Christo, ordenou a D. Frei Pedro Vaz, Prior então de Tomar, que provesse aquella falta; e o dito Prior remeteo logo á
Madeira hum sacerdote com o titulo de vigario e outros com titulo de beneficiados; e da mesma sorte proveu com outros
semilhantes a Villa de Machico». João Garcia, vigario de Machico, era cavaleiro de Cristo e veio para esta ilha por mandado da sua
Ordem, superintendendo nos serviços religiosos da capitania de Machico, no segundo quartel do século XV, ignorando-se o nome
do eclesiastico que então teria a direcção das cousas eclesiasticas na capitania do Funchal. Nuno Cao, que era membro graduado da
Ordem, veio para esta ilha no ultimo quartel do século XV, dirigir superiormente os negocios religiosos na capitania do Funchal e
talvez em todo o arquipélago, tendo sido o primeiro deão da nossa Sé, no ano de 1514. No ano de 1508, mandou a Ordem de Cristo a
esta ilha o bispo D. João Lôbo, de quem já nos ocupámos a pag. 277 do 2.° Volume desta obra. Em 1514 é criada esta diocese, que foi
provida em D. Diogo Pinheiro, vigario de Tomar, perdendo assim a Ordem de Cristo neste arquipélago a supremacia espiritual de
que gozava.
Já noutro lugar (vol. I, pág. 225) demos uma desenvolvida noticia acerca do Campo do Duque, que pertenceu ao grão-mestrado da
Ordem de Cristo e que conservou aquele nome pelo facto dos seus grãos-mestres terem sido o duque de Viseu D. Henrique, o duque
D. Fernando, os duques de Viseu D. João e D. Diogo, e o duque de Beja D. Manuel, depois rei.
Eram estes duques e grãos-mestres que pelos seus representantes exerciam neste arquipélago os direitos pertencentes á Ordem e
parece que para si próprios arrecadavam os diversos impostos que eram usufruto da mesma Ordem. Possuíam o Campo do Duque e
nele fizeram diversas concessões para a construção do curral do concelho, das casas da Câmara e da Sé Catedral, não se sabendo se
seriam possuidores de quaisquer outros terrenos. Foi a Ordem que promoveu a criação da alfandega desta cidade, especialmente
destinada á arrecadação dos direitos que recaíam sobre a exportação do açúcar, tendo sido a infanta D. Beatriz, como tutora de seu
filho menor D. Diogo, grão-mestre, que mandou a esta ilha Luís de Atouguia proceder ao estabelecimento daqueles serviços
alfandegários.
Como já dissemos, não podemos determinar precisamente a extensão dos privilégios temporais de que a Ordem usufruía neste
arquipélago, mas parece que não eram muito reduzidos, a avaliar pela relação das comendas que o dr. Rodrigues de Azevedo
transcreve das Definições e Estatutos da Ordem, numa das notas das Saudades:
«A Commenda dos dizimos dos pescados e meunças da Capitania de Machico, e Ilha do Porto Santo.
Quarenta moyos de pão, convem a saber, vinte de trigo, e vinte de cevada, que se dão com o Habito, na Ilha do Porto Santo.
A Comenda dos dízimos de todas as rendas do pão da Ilha da Madeira, e das dos Açores.
A Comenda dos dízimos dos pescados, e meunças da Capitania de Machico, e Ilha do Porto Santo, em trinta e cinco mil reis no ano
de 1555.
A Comenda de quarenta moios de pão meado da Ilha do Porto Santo, em sessenta e quatro mil reis no ano de 1545.
A Comenda dos dízimos, que rendem as moendas de pão da Ilha da Madeira, e Ilhas dos Açores, em cento e quarenta mil reis no
ano de 1600.»
Quando o grão-mestre D. Manuel, duque de Beja, sucedeu na coroa a D. João II, ficaram pertencendo ao monarca os principais
direitos e privilégios de que gozava a poderosa Ordem nesta ilha, consumando-se deste modo uma obra já iniciada pelos reis seus
antecessores. A Ordem de Cristo não foi inteiramente despojada dalguns dos tributos que aqui arrecadava, mas, tornado realengo
este arquipélago, reduziram-se a proporções muito limitadas os direitos e isenções de que gozava.
Ordem Seráfica
Numa antiga crónica desta Ordem se diz que foi ela que espiritualmente descobriu este arquipélago, por isso que
alguns dos seus membros, que acompanharam os descobridores, começaram a desempenhar funções religiosas no dia mesmo em
que se efectuou o primeiro desembarque em Machico, erguendo ali um improvisado altar e celebrando o santo sacrifício da missa,
que se afirma ter sido no dia da Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, que a Igreja Católica celebra no dia dois de Julho. Não
há razões para contestar esta afirmativa, sendo certo que nos tempos primitivos do povoamento e colonização desta ilha, foram os
religiosos franciscanos que aqui exerceram todas as funções do seu ministério. Nas capelas de Santa Catarina, São Paulo, S.
Sebastião e Conceição de Cima, desempenharam eles todo o serviço paroquial religioso, certamente até a época em que os
sacerdotes enviados pela Ordem de Cristo, a que o arquipélago pertencia no espiritual, tomaram a direcção desse mesmo serviço.
Nuno Cão veio para esta ilha, por mandado da Ordem de Cristo, no ultimo quartel do século XV, munido das atribuições de
superintender em todos os serviços religiosos, e já anteriormente, por meado do mesmo século, enviara o padre João Garcia a
assumir a direcção da freguesia de Machico e respectiva capitania. Já anteriormente a estes, como fica dito no artigo Ordem de
Cristo, outros eclesiásticos seculares foram enviados para este arquipélago, afim de exercer funções religiosas e, especialmente,
paroquiais.
Os franciscanos continuaram, porém, nesta ilha, chegando o seu número a ser considerável, pois lemos numa antiga crónica
seráfica «que acudiram tantos frades de Espanha, castelhanos, galegos e biscainhos, que bem podem encher de conventos toda a
ilha.» Estes religiosos vieram atraídos pela solidão do lugar e pelo isolamento em que podiam aqui viver, procurando sítios
afastados dos centros da população e entregando-se á vida do ermo, como os antigos cenobitas nos desertos do Egipto. Parece,
porém, que não foi longa a sua permanência nesta ilha.
A ordem seráfica continuou entre nós, formando comunidades regulares e fundando vários conventos. Por 1430, veio a esta ilha
Frei Rogério, que parece ter constituído a primeira comunidade regular franciscana, sendo provavelmente junto da capela de S.
João da Ribeira que se formou o primeiro núcleo dessa comunidade. Enforcou-se ali um dos religiosos e parece que os restantes
confrades abandonaram o lugar.
Por 1476, chegaram ao Funchal alguns franciscanos dirigidos por Frei Rodrigo da Arruda, que reorganizaram a comunidade de S.
João, como mais largamente fica exposto no artigo Convento de S. Francisco (vol. I, pág. 312), para onde remetemos o leitor.
Fundaram-se vários conventos desta ordem, tanto de religiosos como de religiosas, de que já demos noticia a pág. 306-314 do 1.°
volume desta obra.
Ordenanças
Foram estabelecidas na Madeira no terceiro quartel do século XVI, vindo a constituir mais tarde um corpo de
terceira linha, como ficou dito no artigoMilicia , a pág. 363 e ss. do vol. II.
Ordens Religiosas
As ordens religiosas que se estabeleceram neste arquipélago foram a ordem seráfica ou franciscana, como
mais largamente se pode ver nos artigos Ordem Seráfica e Conventos, a ordem dos Jesuítas, a que consagrámos artigo especial
intitulado Jesuítas, e a ordem dos Carmelitas, que esteve no hospício adjunto á igreja do Carmo e da qual nada sabemos, além do
que deixámos dito no artigo consagrado á mesma igreja.
Orelha de Boi
Nome vulgar daSilene venosa , Cariofilácea que não é rara na Madeira e Porto Santo.
Orelha de Cabra
V.Tanchagem .
Orelha de Rato
Nome vulgar da Elatinodes spuria, planta glandulosa da família das Escrofulariáceas, com caules prostrados e
flores pequenas, esporoadas, amarelas, com o lábio superior purpúreo. Vive na região inferior da Madeira.
Orfãs (Recolhimento das)
Foi fundado em 1725 pelo Governador e Capitão-General Francisco da Costa Freire, com o produto de
esmolas, tendo sido inaugurado com 4 órfãs, que tiveram logo uma regente, uma porteira e uma criada. Mais tarde elevou-se a 6 o
numero das recolhidas, tendo com o tempo sido recebidas também no estabelecimento outras senhoras, entre as quais algumas
viúvas e outras casadas, todas mediante a promessa do pagamento de pensões nunca inferiores a 30$00 réis anuais, as quais nem
sempre eram pagas.
O estabelecimento regeu-se por largo tempo pelo chamado Compromisso de Lisboa, que entre varias disposições, só permitia a
admissão de órfãs de 15 a 20 anos, além do possível número de senhoras nas condições já referidas; mas as próprias órfãs teriam de
sair chegadas á maioridade, para darem lugares para novas admissões, persistindo deste modo função deste recolhimento.»
Em 1849, foi organizado um regimento próprio para o recolhimento, com oito artigos mas que não chegou a ter execução.
O conselheiro José Silvestre Ribeiro tentou transformar o Recolhimento das Órfãs numa casa pia independente, mas tal
pensamento não vingou, apesar de ter encontrado um acolhimento favorável da parte de muita gente.
O Recolhimento das Órfãs, também chamado Orfanato ou Recolhimento de Santa Isabel, acha-se instalado numa casa contígua ao
antigo Hospital, estando a cargo da Comissão da Misericórdia o abono dos subsídios que recebem as recolhidas. O número destas é
actualmente (1921) de 16, havendo também uma regente, uma porteira e uma servente. A regente recebe 18 escudos mensais, a
porteira, 15 e a servente, 5; quanto ás recolhidas, uma recebe 12$50 e outra 10$00, tendo as restantes subsídios variáveis entre
7$50 e 5$00 mensais. A comissão despende actualmente 140 escudos mensais com os subsídios ás 19 pessoas que residem no
recolhimento (1921).
As despesas com o Recolhimento das Órfãs regularam por 631$42 em 1909-1910 e por 716$67 em 1913.
Em 1913, existiam ali 2 órfãs e 24 senhoras, recebendo aquelas 3 a 6 escudos mensais, segundo as circunstancias, para seu sustento
e também dietas de carnes e leites. As recolhidas subsidiadas recebiam uma média mensal de 3$50, tendo duas delas a categoria de
porteira e rodeira, pelo que recebiam mais a gratificação, também mensal, de 1$. Uma das órfãs era regente do Recolhimento,
percebendo por isso $15 diários, além do mencionado subsidio.
A designação de Órfãs desapareceu da folha dos subsídios, só figurando ali agora 16 recolhidas, além da regente, da porteira e da
servente (1921).
Orfeão Madeirense
Apresentou-se pela primeira vez em publico, no teatro do «Dr. Manuel de Arriaga», nos dias 7 e 8 de Julho
de 1921. É seu regente o distinto musico e advogado o dr. Manuel dos Passos Freitas (1921).
Esteve nas Canárias em Maio de 1922, tendo sido ali muito aplaudido.
Organização Administrativa
A província da Madeira constitui um só distrito administrativo - distrito administrativo do
Funchal – que se divide em 11 concelhos: concelho do Funchal, de Câmara de Lobos, da Ribeira Brava, da Ponta do Sol, da Calheta,
do Porto do Moniz, de S. Vicente, de Santana, de Machico e de Santa Cruz, na ilha da Madeira, e concelho do Porto Santo, na ilha
deste nome. As ilhas Desertas e Selvagens fazem parte do concelho do Funchal.
Na relação seguinte vão indicadas as freguesias em que se subdividem os concelhos do arquipélago:
Concelho do Funchal: Sé, Santa Maria Maior, S. Pedro, Santa Luzia, S. Gonçalo, Monte, S. Roque, Santo António e S. Martinho.
Concelho de Câmara de Lobos: Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos, Quinta Grande e Curral das Freiras.
Concelho da Ribeira Brava: Ribeira Brava, Campanário, Serra de Agua e Tábua.
Concelho da Ponta do Sol: Ponta do Sol, Canhas e Madalena.
Concelho da Calheta: Calheta, Arco da Calheta, Estreito da Calheta, Prazeres, Paul, Jardim do Mar, Fajã da Ovelha e Ponta do
Pargo.
Concelho do Porto do Moniz: Porto do Moniz, Achadas da Cruz, Ribeira da Janela e Seixal.
Concelho de S. Vicente: S. Vicente, Ponta Delgada e Boaventura.
Concelho de Santana: Santana, S. Jorge, Arco de S. Jorge, Faial e S. Roque do Faial.
Concelho de Machico: Machico, Agua de Pena (parte), Caniçal, Santo António da Serra (parte) e Porto da Cruz.
Concelho de Santa Cruz: Santa Cruz, Agua de Pena (parte), Gaula, Caniço, Camacha e Santo António da Serra (parte).
Concelho do Porto Santo: Porto Santo.
Pela organização administrativa que começou a vigorar na Madeira em 1835, havia 10 concelhos, constituídos do modo seguinte:
Concelho do Funchal: Tinha a mesma organização da actualidade.
Concelho de Câmara de Lobos: freguesias de Câmara de Lobos, Quinta Grande, Campanário, Estreito de Câmara de Lobos e Curral
das Freiras.
Concelho da Ponta do Sol: freguesias da Ponta do Sol, Tábua, Ribeira Brava, Serra de Agua, Canhas e Madalena.
Concelho da Calheta: freguesias da Calheta, Arco da Calheta, Estreito da Calheta, Jardim do Mar, Prazeres, Paul e Fajã da Ovelha.
Concelho do Porto do Moniz: freguesias do Porto do Moniz, Achadas da Cruz, Ribeira da Janela, Seixal e Ponta do Pargo.
Concelho de S. Vicente: freguesias de S. Vicente, Ponta Delgada e Boaventura.
Concelho de Santana: freguesias de Santana, S. Roque do Faial, Faial, Porto da Cruz, S. Jorge e Arco de S. Jorge.
Concelho de Machico: freguesias de Machico, Caniçal, Agua de Pena e Santo António da Serra.
Concelho de Santa Cruz: freguesias de Santa Cruz, Gaula, Caniço e Camacha.
Concelho do Porto Santo: freguesia do Porto Santo.
Dos 10 concelhos que ficam mencionados, só os do Funchal, S. Vicente e Porto Santo têm hoje a mesma extensão que tinham em
1835. Há muito que uma parte das freguesias de Agua de Pena e Santo António da Serra passou para o concelho de Santa Cruz, em
virtude da autorização concedida ao Governo pela lei de 29 de Maio de 1843 para alterar a divisão territorial dos concelhos e desde
1852 que a freguesia do Porto da Cruz, que primitivamente fez parte do concelho de Santana, se acha incorporada no concelho de
Machico, de harmonia com o disposto no decreto de 19 de Outubro do mesmo ano. O concelho do Porto do Moniz perdeu a
freguesia da Ponta do Pargo, anexada definitivamente ao concelho da Calheta pela lei de 26 de Junho de 1871, e os concelhos de
Câmara de Lobos e da Ponta do Sol tiveram de ceder, aquele a freguesia do Campanário, e este as freguesias da Ribeira Brava, da
Tábua e da Serra de Agua por ocasião de ser estabelecido o concelho da Ribeira Brava, em 16 de Agosto de 1914.
Pelos decretos de 7 de Novembro de 1849 e de 10 de Dezembro de 1867, que extinguiram o concelho do Porto do Moniz, ficaram as
freguesias do Porto do Moniz, do Seixal e da Ribeira da Janela incorporadas no concelho de S. Vicente, e a da Ponta do Pargo no da
Calheta, e quando o mesmo concelho foi de novo extinto pelo decreto de 18 de Novembro de 1895, passaram todas as freguesias que
dele faziam parte para o concelho de S. Vicente, á excepção da das Achadas da Cruz, que foi incorporada no concelho da Calheta, ao
qual pertencia já, como se viu, a freguesia da Ponta do Pargo.
O mencionado decreto de 10 de Dezembro de 1867 extinguiu também os concelhos de Câmara de Lobos, Santa Cruz e Santana,
anexando as freguesias do Campanário, Quinta Grande, Câmara de Lobos, Estreito, Curral, Caniço e Camacha ao concelho do
Funchal; as freguesias de Santa Cruz, Gaula, Agua de Pena, Santo António da Serra, Faial, S. Roque do Faial e Santana ao concelho
de Machico, e as freguesias de S. Jorge e Arco de S. Jorge ao concelho de S. Vicente.
Segundo a classificação estabelecida pelo Ministério do Interior em Novembro de 1920, o concelho do Funchal é de 1.ª ordem, os
concelhos de Câmara de Lobos, da Calheta e da Ponta do Sol, de 2.ª, e todos os restantes concelhos, de 3.ª. A lei de 26 de Agosto de
1922 alterou o que ficou dito a pág. 219 do vol. I deste Elucidário, tendo os concelhos de 1.ª ordem, segundo esse diploma, 20
vereadores efectivos, os de 2.ª, 16 e os de 3.ª, 12. As comissões executivas são constituídas respectivamente por 7, 5 e 3 vereadores.
V. Autonomia administrativa, Câmaras Municipais, Comissão distrital, Concelhos, Governadores e capitães-
generais, Governadores civis, Juntas Gerais e Municípios.
Organização Fiscal
Na cidade do Funchal há a Direcção de Finanças, que se compõe de duas repartições: a Repartição Distrital
de Finanças e a repartição da Fiscalização de Impostos (antiga Inspecção de Impostos). Esta ultima Repartição, outrora autónoma,
depende hoje, como a Repartição Distrital, do Director de Finanças.
O distrito do Funchal é de 1.ª classe, devendo por isso o Director de Finanças ter a categoria de chefe de serviços. O Director de
Finanças teve já as denominações de Inspector de Fazenda, Delegado do Tesouro e Inspector de Finanças.
Em cada concelho há uma repartição de finanças concelhia e uma secção da fiscalização de impostos. O concelho do Funchal é de
1.ª classe, o da Calheta de 2.ª, os da Ponta do Sol e Santa Cruz de 3.ª, e os restantes de 4.ª, classe.
A Alfandega do Funchal, que depende hoje directamente da Direcção Geral das Alfandegas, foi por algum tempo uma simples
delegação da Alfandega de Ponta Delgada (Açores) e depois uma delegação da Alfandega de Lisboa, tendo sido o decreto de 21 de
Abril de 1892 que lhe concedeu a autonomia de que goza. O decreto de 29 de Dezembro de 1887, que dividiu o país em três
circunscrições – a de Lisboa, a do Porto e a de Ponta Delgada – fazendo do Funchal uma delegação desta ultima circunscrição, foi
recebido com geral desagrado nesta cidade, tendo talvez por este motivo vigorado por pouco tempo.
O decreto n.° 4560, de 8 de Julho de 1918, estabeleceu postos de despacho no Porto Santo, em Câmara de Lobos e em Machico, mas
esta disposição não teve ainda execução.
A Alfandega do Funchal tem a companhia n.° 1 da Guarda Fiscal, com as seguintes secções: Funchal, Machico e Porto Santo. Os
postos fiscais do Cais do Lazareto, do Cais da Alfandega, da Ponta da Cruz, da Praça de S. Pedro, da Ribeira Brava, de Câmara de
Lobos, da Ponta do Sol, da Calheta, do Paul, do Pôrto Moniz, de S. Vicente e da Ajuda, pertencem á secção do Funchal; os de
Machico, Reis Magos, Santa Cruz e Porto da Cruz, á secção de Machico; e o do Porto Santo, á secção do Porto Santo.
V. Alfândegas e Junta da Real Fazenda
Organização Judicial
Nos tempos do absolutismo todo o arquipélago da Madeira constituía uma só comarca, cuja cabeça era o
Funchal, com um corregedor e um juiz de fora, ambos de nomeação regia, estando a mesma comarca dividida em cinco julgados,
cada qual com o seu juiz ordinário, a saber: Machico, Santa Cruz, Ponta do Sol, Calheta. e S. Vicente. Havia mais um juiz dos
resíduos e três Juízes dos órfãos, um no Funchal, outro na Calheta e o terceiro em S. Vicente, superintendendo a todas estas
magistraturas a Junta de Justiça (V. este nome) que decidia, lemos algures, todas as causas-crimes a que correspondesse uma pena
não superior a dez anos de deportação, e de cujas resoluções havia recurso para os tribunais superiores do Reino, com sede em
Lisboa.
A 15 de Outubro de 1835, terminou o antigo regime judicial, sendo instalados dois julgados, com sede no Funchal, cada qual com o
seu juiz de direito, e em 1838 passaram estes julgados a denominar-se comarcas – a oriental e a ocidental – ficando a primeira com
quatro e a segunda com cinco julgados, e presidindo a cada um destes julgados um juiz ordinário. A comarca oriental estendia-se
desde a freguesia da Sé até a do Arco de S. Jorge, abrangendo também a ilha do Porto Santo, a comarca ocidental ia desde a
freguesia de S. Pedro até a da Ponta Delgada e Boaventura, que entes ta com a do Arco de S. Jorge. A 27 de Maio de 1838 teve lugar
a eleição dos juízes ordinários para os julgados novamente criados, constando do jornal madeirense a Chronica, do ano de 1838, a
maneira como as freguesias foram distribuídas pelos mesmos julgados.
O decreto de 12 de Novembro de 1875 estabeleceu quatro comarcas no Funchal, sendo a seguinte a actual organização dos julgados
de paz das mesmas comarcas:
Comarca do Funchal. Tem nove julgados: o de S. Pedro, com as freguesias de S. Pedro e S. Roque; o da Sé, com as freguesias da Sé,
Santa Luzia e Monte; o de Santa Maria Maior, com as freguesias de Santa Maria Maior e S. Gonçalo; o do Campanário com as
freguesias de Campanário e Quinta Grande; e os de S. Martinho, Santo António, Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos e
Porto Santo, com as freguesias destes nomes.
Comarca da Ponta do Sol. Tem cinco julgados: o da Ponta do Sol, com as freguesias da Ponta do Sol, Canhas e Madalena do Mar; o
da Ribeira Brava, com as freguesias da Ribeira Brava, Tábua e Serra de Agua; o da Calheta, com as freguesias da Calheta e Arco da
Calheta; o do Estreito da Calheta, com as freguesias do Estreito da Calheta, Jardim do Mar e Prazeres; e o da Ponta do Pargo, com
as freguesias da Ponta do Pargo, Fajã da Ovelha, Paul do Mar e Achadas da Cruz.
Comarca de S. Vicente. Tem cinco julgados: o de S. Vicente, com a freguesia deste nome; o do Porto do Moniz, com as freguesias do
Seixal, Ribeira da Janela e Porto do Moniz; o da Ponta Delgada, com as freguesias da Ponta Delgada e Boaventura; o de S. Jorge,
com as freguesias de S. Jorge e Arco de S. Jorge; e o de Santana, com as freguesias de Santana, Faial e S. Roque do Faial.
Comarcas de Santa Cruz. Tem quatro julgados: o do Caniço, com as freguesias do Caniço e Camacha; o de Machico, com as
freguesias de Machico, Caniçal, Agua de Pena (parte) e Santo António da Serra (parte); o do Porto da Cruz, com a freguesia deste
nome; e o de Santa Cruz com as freguesias de Santa Cruz, Gaula, Agua de Pena (parte) e Santo António da Serra (parte).
Os antigos juízes ordinários que exerciam funções nos julgados, foram extintos pelo decreto de 29 de Julho de 1886.
A organização judicial que fica acima referida, foi profundamente alterada com a extinção da Comarca de S. Vicente pelo decreto de
9 de Junho de 1927. Foi criado um julgado Municipal abrangendo as três freguesias do concelho no ano de 1931.
V. Administração Judicial, Juízes de Direito, Juízes Ordinários e Juízes de Paz.
Organização Militar
O arquipélago da Madeira era, pela organização militar de 31 de Outubro de 1844, um Comando autónomo,
governado por um coronel.
Ao ser proclamada a constituição em 1834, teve a Madeira um prefeito e governador militar, que foi o ilustre Luís da Silva
Mousinho de Albuquerque, o qual tomou posse no lugar a 6 de Agosto e o deixou a 3O de Setembro de 1835, passando desde então
até 8 de Novembro do mesmo ano a servir somente de governador militar.
Em 1836 foi criada a 9.ª Divisão Militar, na ilha da Madeira, tendo sido seu comandante o brigadeiro, depois marechal, Antonio de
Padua da Costa, antes disso governador militar, o qual tomou posse do lugar a 3O de Janeiro de 1837, conservando-o até 12 de
Setembro de 1838. Voltou a comandar a 9 a Divisão a 23 de Setembro de 1847, ocupando o lugar até a mesma ser extinta por
decreto de 20 de Dezembro de 1849. No intervalo compreendido entre os dois governos do marechal Padua, foi a Divisão
comandada interinamente por simples coronéis.
Depois do referido decreto, ficou sendo o arquipélago da Madeira um simples Comando Militar, mas em Fevereiro de 1861 foi
restabelecida a Divisão, que durou até 1868, tendo tido como comandantes, primeiramente, o brigadeiro José Julio do Amaral e
depois o coronel Jacinto Augusto Camacho, êste ultimo interinamente.
Antes da organização militar de 31 de Outubro de 1884, a que atrás nos referimos, constituía o arquipélago uma Subdivisão
subalterna da I.ª Divisão, tendo esta o seu quartel general em Lisboa.
Vid. Madeira (Administração Militar) II- 312.
Órgão de Santa Clara
Subordinado a esta epígrafe, publicou o «Diário de Noticias» do Funchal de 22 de Novembro de 1924 um
pequeno artigo, que então despertou particular interesse, não sofrendo qualquer contestação no que dizia respeito á afirmativa de
carácter histórico que nele se apresentava. Vamos transcrevê-lo integralmente, indicando os artigos Convento de Santa Clara e
Filhos e Genros de Zarco, que oferecem a este assunto alguns proveitosos esclarecimentos.
«O velho órgão do extinto convento de Santa Clara, que há anos se achava desmantelado, foi mandado reparar, encarregando-se
desse trabalho os conhecidos e distintos músicos srs. César R. Nascimento e Guilherme H. Lino, que acabam de terminar essa
missão.
E já amanhã o antiquíssimo instrumento será ouvido na festa de Santa Cecília, padroeira dos músicos, que um grupo de devotos
manda celebrar naquela igreja.
Os srs. César Nascimento e Guilherme Lino procederam a pesquisas no interior do órgão, verificando ter este sido mandado
construir pelos filhos de João Gonçalves Zarco, que o ofereceram ao referido convento, no reinado de D. Manuel, em 1498, setenta e
nove anos depois de seu pai ter descoberto a Madeira.
Tem, pois, este instrumento 426 anos e é considerado uma relíquia pela sua antiguidade.
Por este motivo, os reparadores, artistas conscienciosos, interessaram-se muito pelo seu conserto, não obstante terem estado
resolvidos a desistirem de levá-lo a cabo, em vista do órgão se achar muito estragado, podendo mesmo dizer-se, quase inutilizado.
Depois dum trabalho em que tiveram que empregar, a par duma grande paciência, os seus vastos conhecimentos artísticos,
conseguiram levar a obra a bom termo, conservando ao velho órgão todas as principais peças, com o fim de não ser reduzido o valor
que lhe dá a sua antiguidade.
Os orifícios feito pelo caruncho foram habilmente embutidos, tendo o conserto, que terminou há dias, sido iniciado em Outubro de
1923.
Este órgão foi há anos posto em praça, conjuntamente com outros bens de congregações, sendo arrematado pelo sr. dr. Romano
Santa Clara Gomes, que o conservou durante muito tempo numa dependência daquele extinto convento.
No ano findo ofereceu-o á confraria de Santa Clara, afim de ser reparado e emprega-lo no serviço religioso daquele templo.
Foi então que o sr. Raimundo de Freitas digno conservador daquele templo, encarregou os srs. Cesar Nascimento e Guilherme Lino
de procederem á sua reparação.
Os mesmos artistas repararam no ano findo, o órgão da igreja paroquial de Machico, oferta do rei D. Manuel, feita em 1499, e que
também se achava quase inutilizado, ficando um belo instrumento e tendo também grande valor pois conta 425 anos.
Como se sabe, a igreja de Santa Clara, que em 12 de Dezembro de 1917 foi atingida por uma granada do submarino que bombardeou
o Funchal sofrendo grandes estragos, é considerada monumento nacional, estando a sua conservação a cargo da Câmara
Municipal.»
Oriente do Funchal
Publicaram-se dezasseis números deste jornal maçónico, sendo o primeiro a 8 de Fevereiro e o último a 10
de Junho de 1873.
Origem da Ilha da Madeira
Assim se denomina um folheto de 10 pág., publicado nesta cidade por Miguel Manuel de Ornelas e
Vasconcelos, em 1897. Pelo «argumento», que a seguir transcrevemos, se pode ajuizar do merecimento da obr
a:
«Em Setembro Bacho e Ceres divinal
Juntando-se ao mundo dão colheita.
Contar-te. vou o que vi na serra do Faial,
O que inflammou meu estro, peito e veia
Tão pobre, tão miserrima em cabedal,
Ella que do saber poderia ser forte e cheia,
Cahotica vem rouca, destemperada,
Tocar na lira rude e desafinada.»
Miguel de Ornelas, que desempenhou o cargo de solicitador na comarca do Funchal, faleceu nesta cidade a 3 de Outubro de 1889.
Ornelas
O primeiro deste apelido na ilha da Madeira, diz o distinto anotador das Saudades, foi Álvaro de Ornelas, filho único de
Lopo Esteves de Ornelas, chefe desta antiga e nobre família, que é das principais desta ilha: era da casa do infante D. Henrique, por
cuja ordem andou nos descobrimentos promovidos pelo mesmo infante: foi dos primeiros povoadores da ilha, e teve de sesmaria no
Caniço os terrenos desde a Ponta do Garajau para cima até á ribeira do Caniço, do mar à serra, onde depois seu filho Álvaro de
Ornellas Saavedra instituíu o morgado chamado do Caniço. – Constança de Mendonça de Vasconcellos, primeira mulher deste
Álvaro de Ornellas Saavedra, ou, segundo outros, Ayres de Ornellas e Vasconcellos, fez o morgado de Nossa Senhora da Consolação,
também no Caniço, em 1591.»
(Vid. «Obras de D. Aires de Ornelas», 1881).
Ornelas (Barão de)
António Evaristo de Ornelas, barão de Ornelas, nasceu no Funchal por 1830 e tomou o grau de doutor em
medicina na faculdade de Paris, em 1854. A sua tese para o doutoramento tem o seguinte titulo:
Anatomie pathologique et
traitement des polypes fibreux de la base du crâne, dits mesopharyngiens
(Paris, 1854). Por 1886, repetiu os exames na escola
médico-cirúrgica do Porto, tendo a tese que então defendeu, o seguinte titulo: Da Dilatação do Estômago.
O barão de Ornelas exerceu a sua profissão em Paris, onde teve uma larga clientela e onde faleceu nos princípios do século XX.
Ornelas (João Augusto de)
É hoje um nome injustamente esquecido, mas que gozou de merecida nomeada, não só na Madeira
mas também no Continente do Reino. A sua obra literária é vastíssima, não tanto pela dúzia de volumes que publicou, como pela
colaboração que deixou dispersa por vários jornais, nomeadamente no antigo e conhecido periódico O Direito, de que foi durante
algumas dezenas de anos o principal e mais assiduo redactor.
João Augusto de Ornelas adquiriu na sua juventude uma terrível enfermidade, que lhe tirou todo o movimento aos membros
locomotores passando a maior parte da sua existência preso á sua banca de trabalho, que só abandonou pouco tempo antes de ser
assaltado pela morte. Tendo uma grande dificuldade de movimentar a pena sobre o papel, aproveitava a visita de muitas pessoas
que o procuravam, para fazer o ditado dos seus romances, dos seus contos, dos seus folhetins, das correspondências que enviava
para alguns jornais do Continente e principalmente dos inúmeros artigos que destinava ao seu jornal.
Foi um trabalhador incansável. Nem a paralisia que lhe tolhia os movimentos, nem as angustiosas privações porque tão
frequentemente passou, nem as torturas que sofreu no seio do lar domestico nem as rudes lutas que sustentou na imprensa e nem
ainda as campanhas de difamação que contra ele levantaram, lhe entibiaram o animo ou lhe enfraqueceram a vontade, trabalhando
activa e corajosamente num combate sem tréguas, numa guerra encarniçada contra a adversidade até que a morte o prostrou na
arena, na idade ainda pujante dos 53 anos.
Os seus inimigos e adversários não raro lhe faziam uma acusação grave – a versatilidade do seu carácter. A acusação não era de
todo infundada, mas encontra fácil explicação e até em boa parte se justifica com as circunstancias que rodearam a sua atribulada
existência e o colocaram numa apertada situação, de que a poucos seria dado triunfar.
Segundo a própria declaração de João Augusto de Ornelas, feita no Direito de 24 de Agosto de 1863 nasceu ele na freguesia do
Estreito de Câmara de Lobos a 26 de Junho de 1833. Começou por ser aprendiz de tipógrafo, tendo depois cursado algumas aulas
no liceu desta cidade. Estreou-se com algumas produções literárias no Estudo e no Baratíssimo, e colaborou em outros jornais.
Tomou a direcção do Direito, onde durante mais de vinte anos se entregou activamente à vida do jornalismo.
Cultivou com grande êxito o romance, tendo publicada varias novelas, que foram muito apreciadas e receberam alevantados elogios
de alguns dos nossos mais ilustres literatos. Faremos menção das seguintes:
A Arrependida
, Funchal, 1871, de 190 pág., com uma
carta de José Vieira de Castro e uma introdução de Júlio César Machado;
Maria
, Lisboa, 1873, de 200 pág., com um prólogo de
António Augusto Teixeira de Vasconcelos;
A Mão de Sangue
, Lisboa, 1874, de 266 pág., com uma introdução de Camilo Castelo
Branco;
24 Justiça de Deus
, Funchal, 1876, de 199 pág., com uma carta critica de Manuel Pinheiro Chagas; a Victima dum
Lazarista, Porto, 1879 de 266 pág., e
O Engeitado
, Porto, 1886 com uma introdução de Manuel Pinheiro Chagas.
Publicou outros romances em folhetins do Direito, alguns dos quais preparava para dar á estampa em volumes separados. Também
publicou os opúsculos –
A coroa de oiro ou a honra e a justiça; o que foi e o que é José Cardoso Vieira de Castro
, Funchal 1871, de
XXXVIII-23 pág., e A
Madeira e as Canárias
, Funchal 1884 de 28 pág..
João Augusto de Ornelas era cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e desempenhou os cargos de
procurador à Junta Geral do Distrito e de vogal da comissão administrativa do Asilo de Mendicidade. Faleceu no Funchal, a 11 de
Julho de 1886.
Ornelas (Juvenal Honório de)
Doutor em medicina pela escola de Paris. Nasceu nesta ilha e aqui faleceu, na idade de 67 anos a
20 de Outubro de 1873. Foi professor da extinta escola medica do Funchal. E.:
Dissertation sur le traitement des pertes de sang qui
peuvent suivre l'accouchement, par la compression de l'aorte abdominale exercée sur le ventre, la position convenable du corts et
l'usage du seigle ergoté et des fortifiants
(tese); Paris, 1834.
Ornelas de Vasconcelos (Agostinho de)
Foi o conselheiro Agostinho de Ornelas de Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura um
verdadeiro representante da velha e legitima fidalguia portuguesa, esmaltada e enriquecida com todos os apreciáveis requisitos da
moderna civilização. Embora cioso dos seus títulos de nobreza e fidalgas tradições da sua família ilustre, não deixou de ser um
espírito eminentemente liberal uma inteligência aberta a todas as manifestações do progresso e um apaixonado cultor das ciências e
das letras.
São provas eloquentes destas afirmativas o sistemático desdém com que sempre desprezou títulos e honrarias, contentando-se com
os pergaminhos herdados dos seus maiores e com as distinções inerentes aos altos cargos que desempenhou, e o afadigoso
empenho com que, dia a dia opulentava a sua profunda cultura intelectual, seguindo diligentemente todas as descobertas,
inovações e progressos realizados nos diversos ramos do saber humano.
O nosso biografado nasceu na freguesia da Sé desta cidade, a 14 de Março de 1836, e pertencia a uma das mais distintas famílias da
Madeira, contando entre os seus ascendentes alguns vultos notáveis, que deixaram nome lustre na historia do nosso país. Foram
seus pais o morgado Aires de Ornelas de Vasconcelos, que entre nós exerceu o cargo de governador civil, e sua esposa D. Augusta
Correia Vasques de Olival.
Concluindo com notável distinção o curso secundário no liceu do Funchal , matriculou-se na faculdade de direito na Universidade
de Coimbra, em 1852, havendo-se formado em 1857, depois duma brilhante carreira académica.
Atraído pelas fascinações da diplomacia, iniciou esta carreira aparatosa mal concluiu o seu curso universitário, sendo, por decreto
de 18 de Novembro de 1857, nomeado segundo adido à legação de Washington, tomando posse do lugar em Junho do ano seguinte
e ali permanecendo até o mês de Fevereiro de 1859. Aproveitou os seus ócios de jovem diplomata, percorrendo uma parte
considerável do país e visitando os seus estabelecimentos e instituições mais notáveis, do que resta um documento na importante
memoria que escreveu acerca da penitenciária de Filadélfia, que vem inserta na obra Reforma das cadeias em Portugal, devida à
pena do dr. António Aires de Gouveia, arcebispo de Calcedónia.
Transferido para a corte de Berlim, ali se demorou até o ano de 1862, tendo algumas vezes servido de encarregado de negocios, na
ausência do respectivo embaixador.
Em 1862, foi promovido a primeiro adido e colocado no Rio de Janeiro e depois em S. Petersburgo, não chegando a ocupar estes
lugares, por motivo de doença, sendo a 26 de Abril de 1865 nomeado secretario de legação para Viena de Austria, e, em seguida,
transferido para Londres, onde permaneceu até Dezembro de 1867.
Passando á disponibilidade, esteve alguns anos afastado da carreira diplomática, a que voltou por decreto de 27 de Setembro de
1886, que o nomeou ministro plenipotenciário para Madrid, lugar que não chegou a exercer, sendo, por decreto de 30 do mesmo
mes e ano, transferido para o cargo de director da direcção politica no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e pelo decreto de 17 de
Novembro de 1891, nomeado director geral dos negócios políticos e diplomáticos no mesmo ministério, de que pediu a demissão,
dizendo o respectivo decreto que servira com muito zelo e muita inteligência.
Por decreto de 6 de Setembro de 1894 foi nomeado ministro plenipotenciário para a Rússia, tomando posse deste lugar a 10 de
Novembro do mesmo ano, e ali se conservou quase até a data do seu falecimento.
Como diplomata, desempenhou algumas importantes e espinhosas comissões de serviço, que lhe mereceram especiais elogios e
varias mercês honorificas, devendo mencionar-se os trabalhos da convenção relativa à contenda de Moura, pelo que foi agraciado
com a grã-cruz de Carlos 3.°, de Espanha. Em 1900 foi um dos representantes do nosso país na célebre conferência da Haia.
Na sua longa carreira como funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, deu sempre provas eloquentes da robustez da sua
inteligência, da sua grande ilustração e das raras qualidades de diplomata que o distinguiam e o tornavam um verdadeiro homem
de estado, sendo por isso considerado como um dos mais acreditados membros do corpo diplomático português.
Também trilhou as tortuosas veredas da política portuguesa. Saiu, porém, incólume e sem mancha desse tremedal, em que tantos
chafurdam a pureza das suas convicções e até a própria dignidade. Foi eleito deputado pela Madeira para as legislaturas de 1868 a
1869, 1869 a 1870, 1870 a 1871 e 1871 a 1874, sendo por carta regia de 16 de Maio deste ultimo ano nomeado par do reino.
Distinguiu-se em ambas as câmaras como parlamentar de grandes méritos, assinalando-se sempre nos seus discursos pela mais
perfeita urbanidade, de par com uma notável correcção de forma. Não era, sem dúvida, um tribuno que arrebatasse os ouvintes em
catadupas de eloquência, mas um orador fluente, correcto e conhecedor dos assuntos que discutia, sendo a sua palavra sempre
escutada com a maior atenção por toda a câmara. Entre os discursos que proferiu em ambas as casas do parlamento, alguns se
contam como notáveis, devendo especializar-se os que pronunciou acerca do padroado da Índia e missões ultramarinas.
Foi, como dissemos, um apaixonado cultor das ciências e das letras, sendo na verdade o seu mais constante empenho enriquecer o
seu espírito com novos conhecimentos, hauridos quotidianamente em largos estudos e demoradas leituras. Tendo uma brilhante
inteligência, servida por uma assombrosa memoria, possuía uma não vulgar erudição sobre todos os ramos do saber humano, para
o que não pouco contribuía o conhecimento de varias línguas em que era versado, incluindo a própria língua latina.
Deu-nos, como literato, provas incontestáveis do seu valor nos escritos que deixou, mostrando que poderia ter alcançado um nome
honroso na história do seu país, se de todo se houvera dedicado á carreira das letras.
A obra prima de Goethe, a famosa tragédia o Fausto, era pouco menos do que desconhecida entre nós. O conselheiro Agostinho de
Ornelas abalançara-se á arriscada empresa de trasladar em vernáculo o mais admirável produto da literatura alemã. Árduo e difícil
trabalho era esse para o nosso ilustre biografado, que, não sendo um poeta, quis traduzir em verso português a obra genial do maior
poeta da Alemanha. A versão ressentiu-se dessa circunstância, e força é confessar que a forma poética nem sempre saiu isenta de
imperfeições. Muitas vezes essas imperfeições obedecem ao desejo, elevado até ao mais apurado escrúpulo, de traduzir fielmente o
pensamento de Goethe, embora com evidente sacrifício da forma. A tradução de António Feliciano de Castilho, que apareceu mais
tarde, é sem duvida correctíssima e ornada de verdadeiras galas poéticas, mas feita sobre uma imperfeita versão francesa e com os
arrojos e liberdades do seu estro de primorosíssimo poeta, distancia-se com alguma frequência do original alemão, parecendo, ás
vezes, antes uma paráfrase do que uma verdadeira tradução. Não faltam críticos que prefiram a versão do conselheiro Ornelas á de
Castilho, por ser feita sobre o original alemão e com um inexcedível escrúpulo de fidelidade. E' sem duvida, e apesar dos seus
defeitos, um trabalho de valor, que muito abona os seus méritos literários.
Em 1884, publicou-se no Porto um grosso volume intitulado Obras de D. Ayres de Ornelas de Vasconcellos, que contém os diversos
escritos do antigo e inolvidável bispo desta diocese, que era irmão do conselheiro Agostinho de Ornelas. Esses belos escritos vêm
precedidos de uma larga e primorosa biografia do ilustre prelado, que ocupa perto de 200 páginas do livro, e que, no dizer dum
distinto escritor e abalizado lente da Universidade, foi escrita com pena de ouro. Traçou essa biografia, verdadeiro modelo de
linguagem e que tem um acentuado sabor clássico, o conselheiro Agostinho de Ornelas.
Em 1892, por ocasião do centenário de Colombo, publicou uma interessante Memoria sobre a residência de Cristóvão Colombo na
Ilha da Madeira, que foi incluída no volume Memorias, que a Academia Real das Ciências de Lisboa fez publicar para celebrar
aquele centenário.
Por todos esses títulos, foi eleito membro daquela Academia, tendo sido um dos sócios por ela nomeados para organizar a
publicação das citadas Memorias.
Era também membro de outras sociedades científicas e literárias, tanto nacionais como estrangeiras.
Desempenhou distintamente diversas comissões de serviço publico de alta importância, como a de representar Portugal nas festas
do centenário de Colombo em Madrid, e de delegado do nosso país na celebre conferencia da Haia, realizada em 1898.
Tinha, entre outras, as seguintes condecorações: as grã-cruzes de Carlos 3.°, de Espanha, de S. Gregório Magno, de Roma, da Coroa
e de S. Estanislau, da Prússia, grande oficial da Legião de Honra, comendador e cavaleiro de S. Tiago, comendador da ordem de
Alberto o Valoroso, da Saxónia, da Aguia Vermelha, da Prússia, da Imperial Ordem da Rosa, do Brasil, etc..
Morreu a 6 de Setembro de 1901 em Niedervalluf, Alemanha, quando exercia o importante cargo de ministro plenipotenciário de
Portugal na Rússia.
Ornelas de Vasconcelos (Ayres de)
Em virtude da sedição popular que depôs e prendeu o governador Francisco de
Mascarenhas
(V. este nome)
, «foi Ayres de Ornellas eleito pela nobreza e pelo povo para governador e capitão-general, a 18 de
Setembro de 1668. Neste elevado cargo o confirmou o príncipe regente D. Pedro e nele permaneceu até á posse do seu sucessor
Ayres de Saldanha, no ano seguinte de 1669.
Foi o sétimo avo dos distintos madeirenses o arcebispo D. Aires de Ornelas e o par do reino Agostinho de Ornelas.
Ornelas de Vasconcelos (D. Aires de)
D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, que pertencia a uma das mais antigas e nobres
famílias desta ilha, nasceu no Funchal a 18 de Setembro de 1837, sendo filho do morgado Aires de Ornelas de Vasconcelas e de D.
Augusta Correia Vasques de Olival.
Tendo cursado nesta cidade as aulas secundárias, em que fora um aluno distintíssimo, matriculou-se em 1854 na faculdade de
teologia da Universidade de Coimbra e ali concluiu a formatura em 1859, obtendo o primeiro premio em todos os anos do seu curso.
Em 1860, defendeu conclusões magnas, tendo recebido o capelo e o grau de doutor a 29 de Julho do mesmo ano. A sua dissertação
inaugural intitula-se De Christianae Religionis Origine, escrita na língua latina e que foi publicada em volume. Convidado para
lente da sua faculdade, resolveu seguir a carreira universitária, mas desistiu depois desse intento, por motivos que desconhecemos.
Regressando á Madeira já ordenado de presbítero, foi sucessivamente nomeado professor do Seminário, cónego, examinador
sinodal, deão, vigário geral e presidente da junta governativa do bispado. No desempenho de todos estes cargos se mostrou sempre
de uma irrepreensível conduta e de uma encantadora simplicidade, e especialmente como professor revelou profundos
conhecimentos das ciências teológicas, o que, a par da maneira como tratava os alunos, fazia de cada discípulo um admirador e um
amigo.
Ao voltar de uma visita que fizera a Roma, depois de assistir ás sessões do concilio do Vaticano, foi pelo prelado desta diocese D.
Patrício Xavier de Moura, proposto para seu coadjutor e futuro sucessor, sendo confirmado bispo titular de Gerasa no consistorio
de 6 de Março de 1871 e tendo recebido a sagração episcopal em Lisboa, a 7 de Maio do mesmo ano.
Assumiu a direcção interina desta diocese a 17 de Maio de 1871, a qual só definitivamente começou a governar a 27 de Outubro de
1872, depois do falecimento do bispo efectivo. Durou apenas três anos o seu episcopado, que não foi isento de graves dificuldades,
em boa parte criadas por alguns membros turbulentos do corpo capitular da Catedral. Apesar da sua grande austeridade de
carácter, do seu zelo pela observância da disciplina eclesiástica, das mais rectas intenções que o animavam no exercício do cargo e
ainda do seu raríssimo talento e profunda ilustração, não conseguiu, na sua terra natal, mostrar o que valiam todos esses invejáveis
predicados como nas longínquas regiões do Industão, onde tão brilhantemente manifestou as suas notáveis qualidades de intrépido
apostolo, de espírito reformador, de homem de acção, de uma inteligência cultíssima, impondo-se ao respeito e admiração de
milhões de indivíduos espalhados pelas vastas dioceses de que era o metropolita.
Por carta régia de 23 de Julho de 1874, foi D. Aires de Ornelas apresentado arcebispo de Goa e Primás do Oriente, havendo sido
confirmado pelo papa Pio IX no consistório de 19 de Novembro do referido ano. Saiu da Madeira a 25 de Janeiro de 1875, tendo a
mais imponente e afectuosa despedida de que há memoria entre nós. A 27 de Dezembro do mesmo ano, chegou a Goa, assumindo a
direcção da sua vasta arquidiocese.
Longe iríamos se quiséssemos entrar em detalhes acerca da sua administração episcopal no Oriente. Pouco mais de três anos durou
o seu episcopado e em tão curto lapso de tempo impossível seria desenvolver maior actividade e maior zelo no exercício do seu
árduo apostolado. A reforma do Seminário, a administração das fabricas das igrejas, as dissensões religiosas entre as diversas castas
indianas, a direcção de vários estabelecimentos pios, a observância da disciplina eclesiástica, o ressurgimento do espírito religioso,
etc. etc., mereceram-lhe os seus especiais cuidados e a essas múltiplas questões consagrou o melhor do seu acendrado zelo e da sua
dedicação sem limites. O seu Governo na arquidiocese goense assinalou-se de modo particular pela visita pastoral que realizou a tão
remotas regiões do padroado português no Oriente e pela exposição do corpo de São Francisco Xavier, o grande apóstolo das
Índias. Essa visita, feita através de países estrangeiros e por meio de povos tão heterogéneos em religiões, usos e costumes, foi um
triunfo para o arcebispo, e, mais ainda, concorreu notavelmente para consolidar o prestígio do nome português nas vastas regiões
que êle percorreu.
A exposição de S. Francisco Xavier foi um acontecimento para toda a Índia. À velha cidade de Goa, tão solitária e tão abandonada,
acorreram milhares e milhares de forasteiros vindos de países muito distantes, que deram á capital do antigo império português no
Oriente um movimento e uma animação que ela nunca presenciara. Foi nessa ocasião que o arcebispo recebeu vários bispos, seus
sufragâneos, e vigários apostólicos, e os reuniu em sínodo provincial, revelando então a esses membros do alto clero, alguns deles
de alta envergadura intelectual, os dotes da sua inteligência e da sua ilustração, para o que muito concorreu o seu conhecimento da
ciência teológica e das línguas latina, francesa e inglesa, que escrevia e falava correctamente.
Os escritos do ilustre arcebispo–pastorais, sermões, discursos e relatórios mostram o pastor cheio de zelo e abnegação pelo seu
rebanho e são também modelo da mais vernácula e castiça linguagem, com um acentuado sabor clássico, cuja leitura instrui e
seduz.
Foi no seu afanoso apostolado da Índia e especialmente nas suas penosas e fatigantes visitas pastorais, que contraiu a grave doença
que o obrigou a deixar a sua arquidiocese. Regressou á terra natal, onde chegou a 22 de Maio de 1879, tendo talvez tido a mais
afectuosa e entusiástica recepção que nesta ilha se haja preparado aos seus visitantes. Depois de alguns meses de repouso, seguiu
para França a consultar especialistas sobre o mal que o atormentava e que pouco a pouco se foi agravando, até que a 28 de
Novembro de 1880 faleceu em Lisboa, em casa de seu irmão o ilustre madeirense, conselheiro Agostinho de Ornelas de
Vasconcelos.
Os seus restos mortais foram trasladados no ano de 1903 para a capela de S. António da Sé Catedral, antigo jazigo da família
Ornelas.
(V. Obras de D. Aires de Ornelas e Vasconcelos, Porto, 1881, de 358 paginas).
Ornelas de Vasconcelos (Aires de)
Nasceu na freguesia da Camacha a 5 de Março de 1866 e é filho do conselheiro Agostinho de
Ornelas de Vasconcelos
(V. este nome)
e de D. Maria Joaquina Saldanha da Gama. Pela ascendência paterna pertence a uma das
mais antigas e distintas famílias madeirenses e pela linha materna é neto dos condes da Ponte. Estudou os preparatórios no Colégio
de Campolide e tendo cursado a Escola Politécnica e a Escola do Exercito, foi despachado alferes em 1889, fazendo parte da arma
do Estado Maior.
Desde logo se dedicou ao estudo de assuntos militares, começando a colaborar activamente em revistas da especialidade e fundando
em 1893 a Revista do Exercito e da Armada, de que foi um dos mais assíduos redactores.
Aires de Ornelas seguiu para a África Oriental em 1895, revelando-se aí um distintíssimo militar e alcançando sem demora um
grande renome em todo o país. Tomou parte na campanha contra o Gungunhana e na preparação das colunas de Marracuene e
Inhambane, sendo porém nos combates de Coolela e Marracuene, em que verdadeiramente afirmou a sua coragem, a sua
competência e o seu inexcedível sangue frio, que mais consolidou a reputação de que já gozava de ser um dos oficiais que mais se
distinguiram nas nossas guerras da África. Mousinho de Albuquerque, que foi o grande herói das nossas campanhas africanas na
segunda metade do século XIX, não queria outro chefe de estado maior senão Aires de Ornelas, dizendo no relatório das campanhas
de 1896-1897 que «na sua arma era ele o oficial mais completo que tinha conhecido, possuindo todas as qualidades de oficial de
cavalaria de campanha e de oficial de estado maior.
Consagrou-se especialmente ao estudo dos assuntos coloniais, a que a sua permanência em África, a administração que fez no
distrito de Lourenço Marques e as diversas comissões militares e diplomáticas que desempenhou, deram a maior autoridade, sendo
considerado no nosso país como um dos homens públicos que mais larga e profundamente conhecia as nossas questões
ultramarinas, sobretudo nas suas relações com as outras potencias coloniais. Os seus conhecimentos nesta especialidade revelaram-
se principalmente nos estudos publicados em diversas revistas, na direcção do Jornal das Colónias, nos capítulos Marraquene e
Coolela do livro Campanha das tropas portuguesas em Lourenço Marques e Inhambane, no estudo intitulado As raças e línguas
indígenas de Moçambique, e em algumas conferencias realizadas na Sociedade de Geografia e na Liga Naval.
Aires de Ornelas representou o Governo português no Congresso Militar que se reuniu em Madrid por ocasião do centenário de
Colombo, e, mais tarde, fêz parte, como delegado técnico, da celebre conferencia da Haia. Foi também escolhido para, juntamente
com o almirante Hermenegildo Capelo e o capitão de fragata Ernesto de Vasconcelos, formarem a comissão técnica que foi discutir
com os ingleses a questão dos limites de Barotze, submetida á arbitragem do rei de Itália. Tomou Aires de Ornelas uma parte muito
activa nesta missão e especialmente na colaboração na memoria histórica justificativa dos direitos de Portugal.
Quando o conselheiro João Franco foi em 1906 encarregado de constituir ministério, deixando em todo o país as gloriosas tradições
que ainda perduram, escolheu o capitão Aires de Ornelas para gerir a pasta da marinha e ultramar. Foi como titular desta pasta que
em 1907 acompanhou o príncipe real D. Luís Felipe numa viagem ás nossas colónias ultramarinas da África ocidental e oriental.
Com a implantação da Republica, o conselheiro Aires de Ornelas pediu a sua demissão de oficial do exercito e abandonou o país,
tendo residido algum tempo no estrangeiro.
Regressando á pátria, tomou parte activa na organização e direcção da política monárquica, e é hoje o lugar-tenente de D. Manuel II
no nosso país (1921). Envolvido nos acontecimentos políticos das tentativas de restauração monárquica, foi preso e durante longos
meses passou encarcerado na Penitenciaria e na fortaleza de S. Julião da Barra.
Teve uma vasta colaboração em muitos jornais e revistas, havendo sido durante alguns anos o director do Diário Nacional. Além
dos escritos que ficam citados, temos conhecimento de que publicou: Mousinho de Albuquerque e a sua acção em Moçambique, A
Expansão de Portugal, Politica Marítima Nacional, A Marinha Portuguesa, As doutrinas politicas de Charles Maurras, Um Anno de
Guerra, de 285 pág., Segundo Anno de Guerra, de 305 paginas, etc..
Foi deputado pela Madeira na sessão legislativa de 1918 e foi também eleito deputado por um dos círculos do Continente, em
Janeiro de 1922.
Faleceu em Lisboa a 14 de Dezembro de 1930, sendo os seus restos mortais trasladados para o cemitério das Angustias do Funchal
no ano de 1934.
Ornelas de Vasconcelos (Daniel de)
Era formado em leis pela Universidade de Coimbra e exerceu a advocacia no Funchal, com
grande brilho e proficiência.
Na legislatura de 1838 a 1840, tendo-se dado uma vaga de senador efectivo pela Madeira, foi o dr. Daniel de Ornelas eleito para êsse
lugar, em Abril de 1839.
Foi depois elevado ao paria to e agraciado com o título de barão de São Pedro.
Como par do reino, tornou-se celebre o projecto que apresentou no parlamento no dia 15 de Fevereiro de 1850, abolindo todos os
morgados, vínculos e capelas anexas, deste arquipélago. Este projecto de lei foi muito mal recebido na Madeira e mais de trinta
representantes de antigas casas vinculadas dirigiram uma representação ás Câmaras, mostrando quanto ele era inconveniente e
prejudicial aos interesses desta ilha.
Morreu em Lisboa a 23 de Fevereiro de 1878.
Orografia
Vid. Madeira (Aspectos Orográficos da), II, 314
. Para este assunto, oferecem também algum interesse os
artigos:
Achada, Calhau, Costa do Norte, Costa do Sul, Costas, Encumeada, Fajã, Geologia, Massapez, Quebradas, Salão
e
«Dicionário Coreográfico do Arquipélago da Madeira» pelo Pe. Fernando A. Silva.
Ornitologia
V.Aves, Harcourt, Jardim e Schmitz .
Orquídeas
Das quatro orquídeas indígenas que se conhecem na Madeira, uma só – a Orchis foliosa – é planta verdadeiramente
ornamental. Não floresce no Funchal, mas nas ravinas do interior produz pequenas flores purpúreas e inodoras, reunidas em
espigas ás vezes alongadas. Dos tubérculos palmados desta orquídea pode extrair-se o salepo, e é esta a razão porque nalguns
pontos da ilha ela se vai tornando rara. Alguns estrangeiros que visitaram há anos a nossa ilha, levaram para o seu país todos os
tuberculos da Orchis foliosa que conseguiram colher no Ribeiro Frio!
Orquigny (João José de)
Médico e naturalista francês que veio á Madeira em 1789, encarregado pelo Governo de D. Maria I de
estudar a flora da ilha e o seu valor terapêutico. Embora residisse aqui por alguns anos, foram nulos, segundo parece, os serviços
prestados por ele à ciência.
V. Maçonaria.
Orthoptères
provenant des voyages de S. A. Le Prince de Monaco dans les archipels de Madère et des Açores (Bull. de la Soc.
Zool. de France , 1892, pag. 46 a 49,.
Orvalho
É o vapor de agua que se depõe em pequeníssimas gotas sobre a terra e as plantas em virtude do resfriamento produzido
pela irradiação nocturna. Observa-se no Funchal em certas manhãs claras e frias de inverno, ficando as ruas ás vezes tão molhadas
como se sobre elas acabasse de cair uma chuva miúda, mas é na região montanhosa e particularmente nos vales do interior da ilha,
que o orvalho é mais abundante e sensível. Apesar do que escreveu Mason no seu
Tratado sobre o clima e meteorologia da
Madeira
(V. vol. I, pág. 276 e ss.)
, podemos afirmar, sem receio de desmentido, que a quantidade de orvalho que se deposita no
Funchal só é notável em muitos poucos dias do ano.
Os madeirenses chamam sereno ao orvalho, reservando este último nome para designar a chuva miúda. O sereno é desconhecido
no Funchal.
(Vid. Clima, I-273).
Osborne (John)
E:Guide to the Madeiras, Azores, British and Foreign West Indias, Mexico and Northern South Amerira . A 2.ª
edição desta obra foi publicada em Londres, em 1844.
Osga (Tarentola mauritanica var. angustimentalis)
Pequeno réptil da família Geconida, que não existe na Madeira, mas que se
encontra nas Selvagens. É pardo e tem a cauda curta.
Oudinot (Reinaldo)
Depois da grande aluvião que assolou a Madeira a 9 de Outubro de 1803, mandou o Governo da Metrópole a
esta ilha o brigadeiro Reinaldo Oudinot, afim de superintender nos trabalhos de obras publicas a que então se procedeu e
especialmente na construção e reparação das muralhas das três ribeiras que atravessam a cidade. Chegou ao Funchal a 19 de
Fevereiro de 1804 e aqui faleceu a 11 de Fevereiro de 1807. Prestou excelentes serviços não somente pela grande actividade que
desenvolveu nos trabalhos que dirigiu, mas ainda pela provada competência que revelou no exercício da comissão que veio
desempenhar entre nós.
Enviou em 9 de Setembro de 1805, ao visconde de Anadia, um desenvolvido mapa da cidade do Funchal e da sua baía, e principiou
a carta geral da Madeira, que foi concluída por Paulo Dias de Almeida.
Escreveu umas Instruções de que existiu uma copia que desapareceu, no arquivo da Câmara Municipal do Funchal. Em 1837, foram
fornecidas pela mesma Câmara ás Juntas de Paroquia do Concelho, copias das mesmas Instruções.
Em recompensa dos serviços prestados pelo brigadeiro Oudinot á Madeira, foi concedida á sua viúva D. Vicencia do Carmo
Oudinot, a capela instituída por Felipe de Barros na Ribeira Brava.
Oudinot (Rua do)
Este nome representa uma homenagem prestada pela Câmara do Funchal ao brigadeiro Oudinot, que pelos
seus serviços á Madeira, bem digno se tornou da gratidão dos habitantes desta ilha.
A rua do Oudinot comunica a praça dos Lavradores com o larguinho de S. João, tendo existido outrora um pouco abaixo dela, uma
ponte sôbre a ribeira de João Gomes, que supomos ter-se abatido ou haver sido demolida nos fins do segundo quartel do século
XIX. Dá acesso ao largo dos Lavradores, onde foi construído o novo Mercado.
Ouregãos (Origanum virens)
Labiada indígena, muito frequente na Madeira. Tem cheiro e sabor agradáveis, e flores reunidas em
espigas, com as bracteas verde pálidas, maiores que os cálices. É usada nas cozinhas e pode substituir a mangerona
(V. este
nome).
Ouriços do Mar
Cerca de dez espécies destes equinodermes têm sido assinaladas na Madeira, duas das quais – o Echinus lividus
e o E. brevispinosus – vivem em abundância nos charcos perto da costa, não sendo aproveitados porém como alimento. O Diadema
europaeum, purpureo- escuro e guarnecido de espinhos longos, e o pequeno Echinocyamus pusillus aparecem também nalgumas
localidades.
V. Equinodermes e Estrelas do Mar.
Outeiro
Sitio povoado da freguesia dos Canhas. Existiu ali uma capela com as invocações de Nossa Senhora e Santana, erigida em
1733 por Manuel Rodrigues de Canha.
José Francisco Cabral de Noronha e sua mulher D. Maria Trindade de Noronha fizeram há poucos anos construir neste sitio uma
capela dedicada ao Sagrado Coração de Jesus.
Outeiros
Houve-os no Funchal no século XVIII, como claramente se vê da Colecção poética do professor Francisco Manuel de
Oliveira, em que há uma ode e dois sonetos feitos para outeiros em honra da Senhora da Luz, protectora dos estudos nesta ilha.
Ouvimos a algumas pessoas antigas que era uso em certas ocasiões reunirem-se no convento de Santa Clara os poetas da terra, afim
de glosarem os motes dados pelas freiras, algumas das quais cultivavam as musas.
Outorga da Carta
A notícia de ter D. Pedro IV outorgado uma carta constitucional á Monarquia Portuguesa no dia 29 de Abril de
1826 chegou á Madeira a 12 de Julho do mesmo ano.
No dia 14, á noite, estando reunidos em casa de Manuel José da Silveira vários cidadãos afim de festejarem a restauração da
monarquia constitucional, foi o prédio invadido por um piquete do regimento de infantaria 7, que atacou de baioneta calada os
circunstantes, não obstante entre estes se achar o governador e seus ajudantes de ordens. Na refrega ficou ferido o major Adão e o
celebre António Manuel Rodrigues, o Aninhas, constitucional exaltado e um dos homens mais robustos do seu tempo, mas por fim
foram os soldados compelidos a retirar diante da resistência oferecida pelos constitucionais, que se serviram das cadeiras, mesas e
de tudo quanto havia dentro de casa, para se defender dos seus agressores.
Ordenara o Ministro da Justiça que os prelados fizessem pastorais e mandassem que os párocos explicassem ao povo a Carta
Constitucional, mas esta ordem não foi acatada pelo Bispo do Funchal, segundo refere o Defensor da Liberdade, sendo certo que
três anos antes havia ele sido pródigo em instruções aos seus subordinados para falarem contra os princípios liberais.
Tendo os soldados de infantaria 7 continuado a insultar e provocar os constitucionais resolveu a Câmara Municipal em sua sessão
de 22 de Agosto de 1826, solicitar da Infanta Regente a transferência do regimento, e em 5 de Outubro do mesmo ano pedir ao
Governador que o mesmo regimento não continuasse a fornecer rondas para a policia da cidade e que as praças não saíssem do seu
quartel depois das 7 horas da noite.
Em 23 de Novembro de 1826, resolveu a Câmara agradecer á Infanta Regente o haver atendido o seu pedido relativo á saída do
regimento, sendo somente depois da retirada das tropas que os constitucionais puderam entregar-se, sem risco de provocações, a
manifestações publicas de regozijo pela queda do regímen absolutista.
Apesar da presença do regimento de infantaria n.º 7 na Madeira, houve nos dias 6, 7 e 8 de Agosto vários festejos pela outorga da
Carta Constitucional.
Vid. Proclamação do Governo Constitucional.
Ouvidores
Eram juízes nomeados pelos donatários e em muitos casos seus lugares-tenentes. Recebiam o juramento dos
vereadores, na ausência dos donatários, e exerciam funções judiciais e policiais, podendo capturar os indivíduos acusados de
qualquer crime. Para evitar os excessos de jurisdição dos donatários e seus ouvidores, já no século XV havia corregedores na
Madeira, encarregados de fazer inquéritos judiciais e de punir os juízes que prevaricavam. Os bispos também tiveram ouvidores,
tendo o prelado D. Luís de Figueiredo criado duas ouvidorias na Madeira e uma na ilha do Porto Santo. Os ouvidores dos
donatários tinham aposentadoria paga pela Câmara Municipal.
Ovington (John)
Clérigo e viajante inglês, que foi capelão de Jaime II. No livro que publicou intitulado
A voyage to Suratt in the
year 1689
(Londres 1696), ocupa-se da Madeira, acerca da qual dá informações que seriam curiosas, se entre elas se não
encontrassem varias mentiras mais ou menos grosseiras. A título de curiosidade, damos a seguir a tradução da narração que ele faz
dum «contratempo» que teve a gente do navio, antes de deixar o porto do Funchal.
«Tendo faltado á chamada alguns dos nossos marinheiros supusemos que tivessem caído em poder dos jesuítas, os quais, zelosos
por alargar a sua fé, aproveitam todos os ensejos para converter os estrangeiros. Enviou-se uma carta ao Governador pedindo a
restituição dos nossos homens, mas ele parece que não tinha autoridade sobre aquela ordem.
«Resolveu então o nosso comandante fazer um desembarque na praia, acompanhado de 14 homens armados, afim de substituir por
pescadores os marinheiros de que necessitava.
Um feliz acaso deparou-lhe, porem, um barquinho que trazia ao Funchal um abade e um vigário, os quais com grande surpresa sua
se viram aprisionados pela tripulação do nosso escaler.
«Fizemos com que imediatamente eles escrevessem ao governador, narrando-lhe as circunstancias em que se achavam, ao mesmo
tempo que era enviada uma nota ao nosso cônsul afim de a transmitir á autoridade, exigindo-lhe a permuta dos prisioneiros.
«A questão ia-se azedando porque a noticia da prisão dos padres punha em risco os comerciantes ingleses, estabelecidos no
Funchal, mas felizmente tudo se harmonizou, recuperando nós os nossos marinheiros e sendo os padres enviados para terra, onde
foram recebidos com grande regozijo da população».
Se a prisão dos tripulantes do navio britânico se deu realmente, como conta Ovington, o mais provável é que ela fosse devida não a
zelo dos jesuítas pela conversão dos estrangeiros, mas a zelo dos ingleses pelo culto ao deus Baco, do que poderia resultar a
intervenção do alcaide, a cargo de quem estava nessa época a direcção dos serviços da manutenção da ordem na cidade.
Ovinos
Como ampliação e melhor esclarecimento do que fica exposto no artigo
Gados
(II-70 e ss.), transcrevemos um artigo do
distinto engenheiro agrícola Torres Baptista, que encerra alguns pormenores interessantes e que particularmente se refere ás lãs e
suas qualidades produzidas pelos ovinos da Madeira.
«Na Madeira encontramos pastos ácidos e no Porto Santo pastos básicos.
Os pastos provenientes da desagregação das rochas ácidas são próprios para a produção de leite porque as fêmeas encontram nos
alimentos produtos próprios para aquele fim.
Daqui o ter-se criado por adaptação ao meio uma raça especial de gado bovino tão característica, cuja selecção deveria (se o não
merece já) merecer a atenção das instâncias competentes oficiais.
No Porto Santo, a desagregação dos calcareos, rochas fortemente alcalinas não próprias para a produção do leite, dá-nos animais
com uma constituição óssea bastante forte e portanto apta e resistente para o trabalho.
Mas não é do gado bovino que desejo falar mas doutro gado de que quase se não fala na Madeira: No gado ovino.
Possui a ilha da Madeira cerca de 16.000 arietinos que vivem parte em regímen de pastagem em rebanho e parte em regímen de
estabulação ou de pastagem à corda.
A ilha do Porto Santo possui cerca de 600 cabeças cuja vida é em rebanho como já tive ocasião de ver. Todos nós sabemos que o
gado lanígero pode ser aproveitado para: a função de produzir carne; a função de produzir leite; a função de produzir lã.
Na escolha destas funções é que está a resolução económica do problema.
Vejamos qual se me afigura que deve ser:
Para a função de produção de carne em detrimento das outras duas não me parece que se deva ir porque sendo as ilhas abundantes
em carne proveniente do gado bovino e sendo este de estatura muito reduzida, que não impõe como sucede muitas vezes na
metrópole o sacrifício dum animal menor em virtude do pequeno consumo, não se torna muito necessária.
Também como estas funções se não excluem pode obter-se a função carne sem detrimento ao aproveitamento da lã ou do leite:
Portanto julgo, que orientando neste sentido, não se melhoraria as raças na orientação económica precisa.
Posta esta função de parte resta-nos as outras duas:
Para o Porto Santo não há que hesitar: a constituição geológica do terreno, o método de criação em pastagem diz-nos que é para
função de produção de lã que se deve ir.
Mas a Madeira?
Diversos factores há a considerar e que devem ser bastante ponderados.
A constituição geológica dos terrenos dá-nos pastos próprios para a produção de leite, o sistema de criação em recintos fechados ou
a corda dá-nos produtos de lã bastante ordinários.
Além disso existe na ilha a indústria dos lacticínios que se limita à produção de manteiga.
Qual o aproveitamento dos leites desnatados?
Não conheço a fabricação de queijo magro embora me digam que existe na ilha, também não conheço na ilha a indústria da caseína.
Consome a Madeira bastante manteiga de vaca e ainda exporta muito mais.
O não aproveitamento dos leites desnatados é um desperdício que a meu ver representa grande valor.
Ora o leite da ovelha é mais rico em gorduras do que o de vaca, e sendo aproveitado e junto ao leite de vaca desnatado, daria não um
queijo magro mas um queijo bom para consumo de todas as classes sociais e para exportação.
Quanto à função lã da ovelha da Madeira para os animais que não vivam em rebanho, as lãs, embora melhorem, serão sempre
inferiores.
Devemos ter em atenção que as partes altas da ilha quase desabitadas e inaproveitadas se prestam para as pastagens, e em virtude
da grande altitude, até se poderia fazer uma pequena transumancia o que traria grandes vantagens.
Poder-se-iam constituir no verão, após as tosquias, rebanhos comunais por freguesias que aproveitassem aquelas pastagens
durante a época calmos a com vantagem para todos, e até para a saúde dos animais e aproveitamento de sementais.
Postas estas sugestões e dado o caso de que as lãs deste arquipélago são da qualidade mais ordinária que existe, urge melhorá-la
com sangue vindo de fora.
Mas devemos ir para a produção da lã ou para a produção do leite?
Qual será mais económico e mais conveniente?
Para o Porto Santo, o merino e entre os carneiros desta raça o «Fonte Boa», para não recorrermos a sangue de raças estrangeiras,
satisfaz plenamente visto que só há que ter em vista a melhoria em lã.
Para a Madeira se quizermos ir para a lã, o indicado para o Porto Santo para as ovelhas brancas, ou o preto alentejano para as
pretas, visto que no mundo não há melhor em preto do que o que possuímos; se quisermos ir para a produção do leite, aconselho o
Larssac francês ou para não sairmos do nosso pais, e não vejo necessidade disso, a ovelha saloia dos arredores de Lisboa que
satisfaz plenamente.
Agora me dirão a que motivo.
Satisfaço-lhes a curiosidade: por ter constatado que a lã da Madeira é tão ordinária que nem mesmo numa época de crise os
industriais a querem, e só serve, assim como está, para a colchoaria, produção de tapetes e de mantas ordinárias e artigos
grosseiros, sem que em compensação as restantes funções económicas dos ovinos sejam aproveitadas.
Mas uma sugestão é muitas vezes adoptada e eu não desejo que a melhoria se faça em beneficio da função lã, pois uma vez
conseguida os interesses económicos podem mais tarde dizer-nos, que não era esta orientação que se devia seguir, mas sim a do
leite.
O inverso se poderá dar para o caso da função do leite.
As indústrias derivadas dos produtos destas funções são nulas na Madeira porque não há indústria de lanifícios e o fabrico de
queijo é reduzidíssimo.
Urge portanto melhorar as raças num sentido ou noutro, afim de que, a Madeira amanhã possua boa matéria-prima para que as
suas industrias se forem tentadas se possam firmar no futuro nos mercados externos pois mão de obra tem ela, e, até demais.
Vid. Pastagens e Pecuária.
Pacheco
Este apelido de família procede de Antão Pacheco e do comendador Gomes Pacheco, indivíduos que vieram para a
Madeira por meados do século XV. Pedro Pacheco, filho de Gomes Pacheco, justificou a sua nobreza em 1535.
Pacheco (Cónego António Aires)
É cónego da Sé de Lisboa e considerado como um dos mais distintos oradores sagrados
portugueses. Nasceu a 15 de Setembro de 1854 e é natural de Vilarouco, no distrito de Viseu. Veio para a Madeira em 1877, na
companhia do falecido prelado D. Manuel Agostinho Barreto, e no Seminário desta cidade frequentou o curso teológico, tendo-se
ordenado de presbítero no ano de 1881. Foi durante alguns anos professor e reitor do Seminário Diocesano, tendo sido no ano de
1888 apresentado cónego na nossa Sé Catedral e alguns anos depois transferido para a Sé Patriarcal de Lisboa.
Como redactor do jornal
A Verdade
, que dirigiu durante alguns anos, revelou-se um brilhante e vigoroso jornalista, assinalando-se
sobretudo nos seus escritos como um hábil polemista. Refutando o folheto
0 Sudário Negro
, publicou em 1882 um opúsculo de 54
pág, intitulado O Sudário Negro no banco dos réus. Em 1890, fez a Câmara Municipal do Funchal publicar a oração fúnebre que o
cónego Aires Pacheco proferiu na Sé Catedral por ocasião das exéquias do rei D. Luís I.
Saiu da Madeira no ano de 1890.
Paço Episcopal
Quando o Papa Leão X, pela bula
Pro excellenti preeminentia
, de 14 de Junho de 1514, criou a diocese do
Funchal, já o magnifico templo que hoje serve de Catedral estava quase concluído, tendo a sua construção começado no fim do
século XV ou nos primeiros anos do seculo XVI. 0 mesmo não sucedera com o paço episcopal.
0 primeiro prelado do Funchal que residiu entre nós foi D. Jorge de Lemos, que não sabemos que casas de moradia teria ocupado
nesta cidade. D. Jerónimo Barreto foi o segundo bispo que veio a esta ilha e, segundo Frutuoso, teve sua habitação na rua Direita,
«nuns aposentos muito ricos, com seus frescos jardins»(vol. I, pag. 365).
Chegando em 1586 á Madeira D. Luís Figueiredo de Lemos, sétimo prelado Funchalense e terceiro que viera pessoalmente
administrar o seu bispado, foi estabelecer a sua moradia á rua das Pretas, numas casas particulares, que depois pertenceram ao
alferes-mor desta ilha Tristão Gomes de Castro, onde se afirma que já os seus antecessores tinham tido a sua residência habitual.
Foi este prelado, um dos mais ilustres desta diocese e que a governou de 1586 a 1608, que construiu o antigo paço dos bispos e
também o primitivo edifício do seminário, que lhe ficava anexo. Deles restam alguns aposentos, a capela episcopal e uma espécie de
claustro, construção característica das velhas residências conventuais, que hoje constituem dependências do actual palácio da rua
do Bispo. A capela, que deixou de ser aplicada ao serviço do culto depois da construção do novo paço episcopal, era dedicada a S.
Luís de Tolosa e ali foi sepultado o seu fundador, que faleceu nesta cidade a 26 de Novembro de 1608. O prelado desta diocese, D.
Manuel Agostinho Barreto, em vista do estado de completo abandono em que se encontrava esta velha capela, fêz dali trasladar, em
1903, para a Sé Catedral, os restos mortais de D. Luís Figueiredo de Lemos, que jazem logo á entrada do templo, cobertos com a
mesma lousa tumular de mármore branco que se via na primitiva sepultura.
O bispo D. Frei António Teles da Silva (1675-1682) ampliou o primitivo paço, e o prelado D. José de Sousa de Castelo Branco (1698-
1721) incorporou nele o seminário, que lhe ficava anexo, pela mudança deste para a rua do Mosteiro Novo.
O terramoto que se sentiu na Madeira na noite de 31 de Março para 1 de Abril de 1748 causou consideráveis estragos por toda a ilha,
em muitos edifícios públicos e particulares, ficando também bastante arruinado o antigo palácio dos bispos e o seminário adjunto.
Era então bispo do Funchal D. João do Nascimento, que dirigiu o Governo desta diocese de 1741 a 1753, revelando-se um prelado
eminente que deixou assinalada a sua passagem nesta ilha por varias obras notáveis, tanto no desempenho das suas funções
episcopais como no exercício interino durante alguns anos do lugar de governador e capitão-general deste arquipélago.
A ele se deve a construção do paço episcopal, onde hoje (1921) se encontra instalado o liceu. Tendo que abandonar a antiga
residência dos bispos, pelo estado de ruína em que a deixara o terramoto, empreendeu sem demora a construção dum novo palácio,
que projectou levantar nas imediações da Sé Catedral. As insuperáveis dificuldades que surgiram na aquisição dum novo local,
obrigaram-no a aproveitar o do arruinado paço, que foi inteiramente demolido, com excepção da parte que ainda hoje se conserva
de pé. Ali fêz erguer, desde os fundamentos, o novo paço episcopal, que apesar de ser uma construção pesada e despida de
quaisquer primores arquitecturais, é, no entanto, para esta pequena cidade e para a época da sua construção, um edifício de relativa
importancia, que em nada desonrava a hierarquia dos seus moradores.
O novo paço foi construído no período decorrido de 1748 a 1751. O seu fundador gastou nele cerca de dez contos de réis,
contribuindo também o erário publico com quantia aproximadamente igual, tendo sido o custo total da obra de vinte contos de réis,
importância esta que dispendida há 170 anos representa hoje uma soma avultada. (1921)
D. João do Nascimento para levar esta obra a seu termo, teve que lutar com gravíssimas dificuldades, que a sua inquebrantável
tenacidade soube dominar e vencer.
Pouco tempo gozou da sua obra, pois veio a morrer a 26 de Novembro de 1753 e jaz sepultado na Sé Catedral desta cidade.
Tendo falecido o prelado D. Manuel Agostinho Barreto em 1911, passou o Paço Episcopal á posse da Fazenda Nacional e ali se
instalou o liceu desta cidade, no mês de Janeiro de 1914.
Quando em 1915 o actual prelado desta diocese veio assumir a direcção do bispado, encontrou preparada uma casa destinada a
residência episcopal, que os católicos alugaram e mobilaram, e dela fizeram entrega ao chefe da igreja funchalense. Essa casa fica
situada na rua dos Netos, fazendo esquina com a rua dos Ferreiros, ao lado direito de quem sobe esta rua. Pouco tempo permaneceu
ali a residência do prelado diocesano, pois que, pela aquisição, por doação e herança, duma excelente casa de habitação no largo do
Ribeiro Real, ficou esta definitivamente transformada em Paço Episcopal e ali reside actualmente o prelado e nas dependências do
prédio se acham instaladas as repartições eclesiásticas.
O destino a dar ao antigo Paço Episcopal ficou regulado pelos decretos de 5 de Julho e 6 de Agosto de 1913, de 9 de Março e 24 de
Agosto de 1922.
Paços do Concelho
O palácio da rua do Comercio, outrora dos Ferreiros, onde estão instaladas a Câmara Municipal, a
Administração do Concelho, a Policia, a Conservatória, etc. (1921), pertenceu á casa vinculada do Conde de Carvalhal e é um dos
mais vastos edifícios da ilha. Foi edificado no ano de 1758 e havia nele benfeitorias, que fizeram parte dos bens livres do morgado
João Agostinho Figueiroa de França e Albuquerque.
A parte do mesmo palácio que pertencia ao Conde de Carvalhal foi cedida por este á firma comercial Freitas & Macedo para
pagamento de dívidas, e as demais partes, de que eram possuidores Afonso de Freitas Albuquerque, o Conde da Calçada, Francisco
Roque de Albuquerque, o dr. Luís Vicente de Afonseca e outros, adquiriu-as a mesma firma por meio de compras feitas em
diferentes épocas.
A Câmara tomou de arrendamento o dito palácio, ao Conde de Carvalhal em 1868, comprando-o em 4 de Agosto de 1883 a Freitas
& Macedo por 25 contos, pagos em obrigações da Companhia Geral de Credito Predial Português, que, reduzidas á cotação oficial,
produziram a quantia de 22:423$900 réis. Antes disso, podia a mesma Câmara ter adquirido o edifício por 12 contos, mas não
soube aproveitar o ensejo que se lhe oferecia de realizar um negócio bastante proveitoso para o Município.
No edifício actual dos Paços do Concelho, estiveram acomodados outrora a casa comercial inglêsa Blackburns & Comp.ª e mais
tarde o cônsul britânico George Stoddart. O conde de Carvalhal tinha a sua residência no Palácio de S. Pedro.
Antes da aquisição do magnifico edifício em frente do largo do Município ou do Colégio, esteve a Câmara em vários pontos do
Funchal, tendo o primeiro prédio que ela possuiu, mas que não foi o primeiro em que fez as suas reuniões, sido construído em
virtude duma ordem do duque D. Manuel, datada de 1486, determinando que se fizesse «praça, câmara, paço dos tabeliães &
picota» no campo chamado do Duque, que era o terreno onde está a Catedral e largos e ruas anexos. Já em 1470 aparecera uma
carta do infante D. Fernando, dirigida ao donatario João Gonçalves da Câmara, pedindo-lhe que se encarregasse «de fazer a casa da
camara & ho corral do concelho) do dinheiro das penas do juiz houuidor & delle Joam Gonçalves», tendo o mesmo infante
mandado dar terras junto á igreja grande para essa construção, que foi orçada em 213:096 réis.
Até 1784, estiveram os Paços do Concelho no prédio levantado ao Campo do Duque, mas nesse ano passou a Câmara a fazer as suas
reuniões na Casa da Saude, á Entrada da Cidade, visto aquele prédio se achar em muito mau estado de conservação. O prédio do
Campo do Duque ficava no local ocupado hoje (1921) pela casa n.° 61 á rua do capitão-tenente Carvalho de Araújo, outrora do
Aljube, e as suas ruínas avaliadas em 432:000 réis, foram arrematadas pelo dr. Antonio José Monteiro por 432:250 réis, em 30 de
Março de 1805.
Em 1796, alugou a Camara, por 500:000 réis anuais um prédio pertencente a Fernando José Correia Brandão, mas só o ocupou até
10 de Março de 1798, visto os seus diminutos rendimentos lhe não permitirem pagar renda tão elevada, passando-se novamente
para a casa da Saúde, onde realizou a sua primeira sessão em 31 do mesmo mês e ano.
Em 7 de Janeiro de 1797, reunida a Câmara com a nobreza e o povo nos Paços do Concelho, foi resolvido por unanimidade solicitar
do Governo um subsidio que permitisse á mesma Câmara levantar um prédio onde instalar os diferentes serviços a seu cargo, sendo
lembrado que esse prédio poderia ser edificado na rua do Cotife, que era a parte da actual rua da Sé, compreendida entre as ruas do
Sabão e dos Capelistas. Como a representação da Câmara ficasse sem resposta, não pode ser levada a efeito a referida construção.
A 13 de Novembro de 1802, realizou a Câmara a sua primeira sessão na casa ao largo da Sé, que em nossos dias serviu de cadeia da
Comarca, e em 30 de Junho de 1803 tomou posse da mesma casa, tendo-a havido de «arrematação à Junta da Real Fazenda, a qual
a executara ao casal de D. Guiomar Madalena Acciaioly, por dividas á Fazenda Nacional.» Em 20 de Dezembro de 1813, propôs um
dos mesteres que se vendesse a casa do largo da Sé para se aplicar o produto da venda á construção de novos Paços do Concelho e
duma nova cadeia, mas tal proposta foi rejeitada pelos restantes membros da Câmara.
Como em 1824 se fizessem diferentes obras aos Paços do Concelho para aí ser instalada a cadeia, esteve a Municipalidade por
algum tempo numa casa de aluguer, voltando porém ao prédio do largo da Sé em 29 de Abril de 1825, por se acharem já concluídas
as mesmas obras. Em 1837, deixou a Câmara de novo o mesmo prédio «por causa do danoso cheiro das prisões, onde havia 180
presos», tendo-se instalado primeiro na casa da Saúde e depois num prédio pertencente ao dr. Daniel de Ornelas, do qual resolveu
sair em sessão de 16 de Maio, de 1838 para ir ocupar uma casa no largo do Pelourinho, no local onde está hoje (1921) a fabrica de
moagens que pertenceu à firma comercial Viúva de Romano Gomes & Filhos.
Tendo a aluvião de 24 de Outubro de 1842 causado vários estragos no prédio do largo do Pelourinho, passou-se a Câmara em 1843
para o edifício do Asilo, no sitio das Angustias, demorando-se porém aí apenas dois anos e voltando em 1845 á casa do largo da Sé.
Em Julho de 1846, resolveu a Camara mais uma vez ocupar o edifício das Angustias, mas, em princípios de 1848, mudou para um
prédio na rua da Alfandega, depois de ter resolvido em sessão de 2 de Dezembro de 1847 entregar o referido edifício á comissão
administrativa do Asilo.
O último edifício que serviu de Paços do Concelho, antes do actual, ficava na rua do Esmeraldo, em frente da rua de Cristovão
Colombo, tendo-o tomado a Câmara de arrendamento em sessão de 2 de Agosto de 1862.
A Câmara Municipal pretendeu há cerca de 80 anos levantar no sitio onde se erguia então o convento de S. Francisco e está hoje o
Jardim Municipal, um edifício destinado á acomodação dos tribunais judiciais, paços do Município, administração e recebedoria do
concelho, tendo aberto em 1864 um concurso para o projecto e orçamento do mesmo edifício, em que se estabeleceu que o projecto
classificado em primeiro lugar seria premiado com 240$000 réis insulanos (50 libras) e o imediato com a quantia de 72$000 réis
insulanos (15 libras), devendo a classificação ser feita por uma comissão composta dos juízes de direito e delegados das duas
comarcas que então havia na ilha, dos dois engenheiros directores das obras publicas e militares do distrito e do presidente da
Câmara.
O projecto julgado mais apropriado e conveniente foi o apresentado por Samuel Sloan & A. Hulton, de Filadelfia, e o imediato o de
Frutuoso Abel Maria dos Santos, de Lisboa, tendo a Câmara mandado publicar nos jornais da terra o resultado do concurso, em 2
de Março de 1865. Em 19 de Abril do mesmo ano, mandou a Câmara demolir a parte do convento de S. Francisco que se achava de
pé, e em 11 de Março de 1866, estando já concluídos os trabalhos necessários para o começo da construção, teve lugar a cerimonia
do lançamento da primeira pedra do edifício, assistindo a esse acto além da Câmara, o Bispo, o Governador Civil e Militar e todas as
autoridades e pessoas distintas da terra.
As obras dos Paços do Concelho, na rua de S. Francisco, foram orçadas em 40 contos, mas nunca passaram dos alicerces, e estes
mesmos foram demolidos quando se fêz o Jardim Municipal (V.
Convento de S. Francisco do Funchal
, vol. I, pag. 312) O edifício
devia ter rés-do-chão e primeiro andar, aquele para os tribunais judiciais e suas dependências, e este para a municipalidade,
administração e recebedoria do concelho.
O arquivo da Câmara foi transferido em 1807 para uma casa em Santa Luzia, pertencente a D. Ana Cecília, mulher de Agostinho
Pedro Pereira, e em 1811 para a freguesia do Monte, donde só voltou em 1818, tendo sido estas mudanças motivadas por haver
receios de algum desembarque de inimigos no Funchal. Em 1824, esteve o mesmo arquivo por alguns meses na residência do
escrivão da Câmara, por estar em obras o edifício dos Paços do Concelho.
Todas as municipalidades do arquipélago, á excepção das de S. Vicente e da Ribeira Brava, possuem edifícios seus, mas só as de
Santa Cruz e do Porto Santo ocupam, ao que parece, os prédios primitivos, mais ou menos acrescentados ou melhorados. Os
primitivos paços do concelho de Machico foram demolidos recentemente, estando a câmara construindo um outro edifício no
mesmo local (1921) e os da Calheta, que ficavam junto da praia, foram destruídos pelo mar, antes de 1871, desaparecendo nessa
ocasião o arquivo municipal. A antiga casa da Câmara da Ponta do Sol destruída por um incêndio, e o mesmo aconteceu a de
Câmara de Lobos, não nos sendo possível, porém, precisar os anos em que estes sinistros tiveram lugar.
Padroeiro e «Os Lusiadas» (O)
E para sentir que o nosso maior poeta, ao traçar as paginas gloriosas dos «Lusiadas», caísse no
erro, por mero lapso ou equivoco, de confundir São Tiago Maior, o conhecido apostolo das Espanhas e ali tão profundamente
venerado, com São Tiago Menor, que apostolizou as regiões da Palestina e é o principal patrono da Diocese do Funchal.
Na Est. 9 do Cant. V dos «Lusiadas», lê-se:
Áquela ilha aportamos, que tomou
O nome do guerreiro Sanctiago
Santo que aos espanhoes tanto ajudou
A fazerem nos Mouros bravo estrago!
Ao fazerem nos Mouros bravo estrago!referindo-se deste modo á Ilha de São Tiago, a principal do arquipélago de Cabo Verde,
descoberta a um de Maio do ano de 1460. É evidente o equivoco de Camões, pois que essa ilha e bem assim a de Maio, do mesmo
arquipélago, foram encontradas pelos portugueses no dia de São Tiago Menor, isto é no primeiro do mês de Maio, e os versos
transcritos dizem respeito a São Tiago Maior, que a Igreja soleniza no dia 25 do mês de Julho. O nome, posto àquela ilha pelos seus
descobridores, foi determinado pela circunstância do seu encontro se ter verificado no dia um de Maio, dedicado ao apóstolo São
Tiago Menor, como acima ficou referido.
Se não fora o equivoco do genial poeta, poderia encontrar-se, na citada passagem dos «Lusiadas», uma elogiosa referencia ao
principal padroeiro da nossa Diocese e não ao grande apostolo, que evangelizou as antigas terras de Espanha.
Padroeiros
Sob o ponto de vista estritamente religioso, têm todas as dioceses os seus padroeiros especiais, não podendo a do
Funchal haver fugido a esse louvável costume ou antes obrigatório preceito, adoptado em toda a parte e sempre com a observância
de fervorosos cultos em determinados dias do ano. É sabido que esta Diocese tem como primeiro e principal padroeiro o apóstolo
São Tiago Menor e como padroeiros menores São Sebastião e São Roque; e que, desde o ano de 1803, foi a cidade do Funchal e seus
arredores solenemente consagrada ao Patrocínio de Nossa Senhora do Monte. Os calendários eclesiásticos publicados anualmente
para uso privativo das diversas igrejas e capelas fazem menção dos dois referidos padroeiros nos dias 20 de Janeiro e 16 de Agosto
de cada ano.
Desde séculos que o primeiro de Maio é solenemente festejado nesta ilha e, de modo especial, nesta cidade. Ainda o operariado não
tinha consagrado esse dia a comemorar a reivindicação dos seus direitos e ainda a Câmara Municipal do Funchal não deliberara
adoptar o dia primeiro de Maio como o do seu feriado anual concelhio, e já a festa do apostolo São Tiago Menor, que a Igreja
celebra a um desse mês, tinha entre nós uma comemoração solene, que consistia em guardar como santificado aquele dia, em
celebrar na igreja que é sede da paroquia de Santa Maria Maior a festa do seu orago e principalmente na brilhante procissão que,
vindo da Sé Catedral, se dirigia àquele templo.
Estas comemorações festivas tinham sua origem nos votos solenes feitos pelos nossos maiores e que as gerações que a eles
sucederam souberam sempre cumprir com o mais religioso empenho durante o longo período de quase quatro séculos.
Presentemente, resume-se essa antiga e tradicional comemoração na festa que no primeiro de Maio se realiza na Sé Catedral e na
pequena procissão que se faz em torno do mesmo templo (1921).
Diz Gaspar Frutuoso que «no ano de 1521, quando El-Rey D. Manoel faleceo, havia no Funchal grande mortandade de peste, de que
Deus nos livre; e porque havia annos que ela andava na cidade, o Capitam Simam Gonçalves e a Camara elegeram por sortes por
Padroeiro da mesma cidade ao Apostolo Santiago Menor, no cabo da qual lhe fizeram uma boa casa onde foram em procissão.» Este
acontecimento é mais pormenorizadamente narrado no auto do voto de 1523, onde se lê: «.... aos onze dias do mees de Junho de
mill & quinhetos & hymte e huu sendo esta cidade posta em muyta tempestade & tribulaçom de peste & fome & outros muytos
trabalhos se acordou em Camara pelos ofiçiaaes della que emtam eram Pero joam correa bereador & Biçemte glz. & Pero alvarez
juizes & bacharell joham de sousa prouedor & misteeres de tomarem huu roll dos samtos a sabeer o nome de Jhu nosso sennor & da
uirgem nosa Sennora Sam joham bautista e os doze apostollos cada huu per seu nome os lançarom em huu barrete & tirada sorte
por huu minimo per nome Joham de edade de sete annos & pomdose todos primeyra mente em jiolhos & oraçom prometendo de
fazeer hua casa aa homrra daquelle samto que sahise & per sorte sahio o bem auemturado apostollo samtyago menor aa homrra do
quall loguo no dito dia se festejou polla çidade & aos bymte & huu dias de Julho lhe começarom a sua casa himdo a çidade e o dito
cabido em procisom solene descalçados & o Meestre schola gonçallo martim com o retabulo da imagem do bem auemturado
apostolo & deo a primeyra enchadada no cunhall da capella da bamda do abamgelho a quall casa se edificou em hua terra que
antonio spindola deo para a dita casa...»
No ano de 1523, a 24 de Janeiro, se fez a renovação do voto, com toda a solenidade, na Sé Catedral, comparecendo ali o capitão-
donatario, Simão Gonçalves da Câmara, o Senado com seus vereadores, diversas entidades oficiais, todo o cabido e muito povo, e
tomaram todos o compromisso solene, em nome dos habitantes deste concelho, de «pera sempre em cada huu anno dos do mumdo
uenerarem e festejarem a festa do dito glorioso samto apostollo que he o primeyro dia de mayo ao qual faram proçisom solene a
quall sahiraa da see da dita çidade solenemente e iram aa dita casa do bem auemturado samto onde lhe faram besperas solenes e
asy outro tamto se faraa o oytauo dia com misa solene e proçisom as quaees procisões se faram como a propria do sennor corpus
christi e aos ditos cidadões mays aproube de mamdar pintar o dito samto na camara na bamdeyra e sello da çidade asy como se traz
sam Biçemte na bamdeyra da çidade de lixboa e os sobreditos uotarom esto nas mãos do dito deam pera todo comprirem per si e
per seus suçesores e em testemunho e fee da uerdade dello asynarom aqui...»
Da obra Alma Instruida, do padre Manuel Fernandes, transcreve o anotador das Saudades os seguintes períodos: «E logo
reconhecerão a protecção do Santo nesta occasião; porém mais longamente a conhecerão no anno de 1538, quando então grassava
huma peste terrivel: na occasião da procissão, o Guarda Mor da Saude, que então era homem de grande representação, no meio da
Ermida do Sancto diz em alta voz: «Senhor, até aqui guardei esta Cidade com pude; não posso mais aqui tendes a vara, sêde vós o
Guarda da Saude» E largou imediatamente a vara, e se deo por desobrigado de guardar a Cidade: e desde este momento, todos os
feridos melhorarão, e não se deo mais caso algum de peste. Do que vem o costume da Câmara, logo que entra na igreja do Socorro,
largar as varas nos degraus do altar-mor.»
A 22 de Junho de 1632, se lavrou solenemente perante o senado funchalense um novo auto, destinado a patentear e a confirmar o
agradecimento dos madeirenses ao seu padroeiro São Tiago Menor e onde se lêem as seguintes palavras, depois de uma referencia á
peste de 1538:
«Nunca mais nesta ilha houve o dito mal (peste), antes he verdade que vindo a esta ilha muitas vezes alguns navios com homens
feridos deste mal a quem se dava degredo nas prayas fóra desta cidade, em as quais algumas vezes morreram alguns do dito mal,
nunca entrou nem se pegou o dito na gente da terra. E miraculosamente nos ha Deos N. S. defendido por muitas vezes e em muitas
ocasiões de ser acomettidos de inimigos, como foi em tempo das alterações deste reino vindo a esta ilha muitas armadas de que
tivemos particulares avisos de S. M. Catholica e algumas delas chegaram à vista do Porto Santo, e todas foram miraculosamente
desviadas com temporaes e outros successos não esperados.»
No mesmo auto se trata do assalto que os mouros deram em 1617 ao Porto Santo, «apossando-se da ilha e levando captiva toda a
gente della», sendo considerado como um milagre do santo o não terem vindo aquêles piratas á Madeira, e se alude também ao
facto, tido igualmente por milagroso, de, durante o oitavario de S. Tiago ou antes ou depois dele, nunca deixar de «entrar nesta ilha
algum navio de pão». «No anno de 1632, diz o auto, estando em tanto aperto a terra, com poucas novidades. . . , entrou por
particular mercê de Deus, por intermedio do glorioso santo (que assim o devem crêr), no oitavario da sua festa, no porto desta
cidade das partes do norte donde menos o esperavamos! passante de 1000 moios de pão, por conta feita, os quais vieram conjurar o
perigo que a todos ameaçava de vir a sentir-se a fome na Madeira.
Consta ainda do mesmo auto que para mostrar o agradecimento dos madeirenses pela protecção tantas vezes concedida pelo
padroeiro S. Tiago Menor se resolveu pedir «ao illustrissimo e reverendissimo bispo D. Jeronymo Fernando, que ao presente é
governador e capitão-general. . . quizesse consagrar a igreja do mesmo padroeiro.»
Vid.
S. Tiago (Igreja de
).
Cumpre-nos deixar aqui consignado que a Câmara do Funchal tomou no ano de 1942 a resolução de fazer reviver as tradicionais
homenagens prestadas ao glorioso padroeiro e a elas se associar festivamente, mandando também publicar em opúsculo os antigos
votos feitos pelo senado funchalense em épocas passadas. Transferiu o seu feriado municipal para o dia 21 de Agosto e determinou
que o primeiro dia do mês de Maio fôsse especialmente consagrado a tributar as devidas homenagens ao padroeiro da cidade. Esta
deliberação foi bem recebida por toda a população e honra sobremaneira a corporação que a tomou.
Tendo a aluvião de 9 de Outubro de 1803 causado muitas mortes e enormes estragos materiais na Madeira, o que sobremaneira
alarmou o nosso povo, reuniram-se no dia 13 de Novembro do mesmo ano, no coro da Sé Catedral, o bispo D. Luís Rodrigues
Vilares e o cabido e mais clerezia, afim de implorar a protecção divina para esta ilha, sendo resolvido «de unanime acôrdo, lê-se
num termo lavrado por essa ocasião, celebrar uma festividade muito solene no dia 9 do mês de Outubro de cada ano em honra do
patrocínio da Virgem Santíssima, Mãe de Deus e dos pecadores, tomando-a por protectora e especial advogada perante Nosso
Senhor Jesus Cristo, seu unigenito filho, para alcançar dele em primeiro logar um perdão geral de todas as nossas culpas, e em
segundo, a suspensão do castigo com que justamente nos queria punir, para que esta cidade se não torne a ver em outra crise tão
lastimosa, rezando-se nesse mesmo dia com rito de prima classe do patrocínio da mesma Santíssima Virgem e fazendo-se uma
procissão muito solene, com assistência do mesmo Exm° Snr. Bispo, Cabido e mais clerezia secular e regular, assim como se
costuma praticar na festa e solenidade do nosso amabilíssimo e devotíssimo padroeiro, o S. Thiago Menor, para o que se deverão
impetrar as necessárias licenças do Príncipe Regente, Nosso Senhor, e Breves da Santa Sé Apostólica, saindo a procissão desta
igreja catedral para a capela-mor da predita igreja de Nossa Senhora do Calhau, arrojada por terra, caso que se conserve para
memoria desta fatal calamidade, e não existindo, á igreja nova que se construir, aonde se irão cantar vésperas solenes com
assistência do Cabido e Clero, e se celebrará missa no dito dia 9, com sermão, no qual se fará memoria desta espantosa noite, para
que fique sempre na lembrança dos povos e gerações futuras da sorte com que fomos punidos, e o poderoso valimento da Virgem
Santíssima, á qual nos acolhemos para não sofrermos segundo castigo e sermos preservados de iguais calamidades.»
A procissão a que se refere o termo que em parte deixamos transcrito e que foi publicado na íntegra no n.° 159 do
Correio da
Madeira
, de 8 de Outubro de 1922, ainda hoje se realiza, mas somente em volta da Sé Catedral (1921).
Ainda por causa da mesma procissão, teve lugar no dia 11 de Novembro do referido ano de 1803 uma reunião da nobreza e povo no
edifício da Câmara Municipal afim de se tomar conhecimento dum oficio do Prelado diocesano, dirigido ao Juiz de Fora em 9 do
mesmo mês, «sobre o pretendido voto que quer se faça de uma procissão anual e festividade do patrocínio de Nossa Senhora pelo
dia 9 de Outubro de cada ano, para merecer a protecção da Mãe de Deus todo o povo desta colónia, para que não chegue a
experimentar a repetição do castigo que sofreu com a cheia e aluvião do dito dia 9...», sendo decidido por unanimidade de votos que
a nobreza e povo se conformasse com a intenção do Prelado, ficando porém suspensa esta deliberação até o Príncipe Regente se
pronunciar ácerca dela». Depois da aluvião de 9 de Outubro de 1803 (vol. I, pag. 54), o bispo diocesano, cabido, clero e fiéis
colocaram a ilha, e especialmente a cidade, sob a protecção de Nossa Senhora do Monte, o que foi confirmado por Rescrito
Apostolico de Pio VII, de 21 de Julho de 1804, sendo então instituída a festa do Patrocinio de Nossa Senhora do Monte, celebrada a
9 de Outubro de cada ano, com procissão solene que da Catedral se dirigia á igreja paroquial de Santa Maria Maior. O nove de
Outubro foi em outro tempo dia santo de preceito, precedido de vigilia propria com jejum.
Padrões Memoráveis
Tendo próxima afinidade com os artigos
Monumentos, Monumentos Nacionais, Moradias de Zargo
e
Patrimonio Artistico
, deixamos neste lugar umas rápidas notas acerca dos lugares e edifícios que devem ser considerados como
Padrões Memoráveis e que oferecem particular interesse á história do nosso arquipélago.
Madeira
. Tem-se dito e várias vezes o havemos repetido que a Madeira é o grande padrão imorredouro, que verdadeiramente
marca o auspicioso inicio dessa portentosa odisseia desenvolvida através dos oceanos e continentes desconhecidos.
Antes dos portugueses demandarem estas ignoradas e misteriosas ilhas, tinham realizado empreendimentos arrojados, mas quase
inteiramente infrutíferos, e somente depois deste maravilhoso encontro é que descobriram os Açores, Cabo Verde, S. Tomé e
Príncipe, o Cabo da Boa Esperança, a India, o Brasil e essa infinidade de ilhas dispersas na vastidão do Atlântico e do Pacífico.
A «descoberta» ou «reconhecimento» deste arquipélago não representa apenas uma notavel expansão territorial dos nossos
domínios como nação, mas assinala a nossa primeira grande conquista como navegadores e futuros dominadores dos mares: Para
uma nação, cujo principal papel na historia da humanidade foi o das descobertas e empresas marítimas, não podem deixar de
merecer o mais devotado interesse e a mais sentida veneração os lugares em que começaram a desenvolver-se esses gloriosos
empreendimentos e de modo especial a acção eminentemente civilizadora que eles representavam.
Machico
. Esta localidade ocupa um lugar assinalado na historia do arquipélago madeirense. Ao seu nome andam indissoluvelmente
ligados o auspicioso descobrimento, o primeiro desembarque e o começo do povoamento destas longínquas e ignoradas paragens.
Pode afirmar-se, sem uma exagerada hipérbole, que a grande expansão colonial e a obra notável da colonização dos portugueses
teve ali o seu inicial ponto de partida. É, por isso, bastante para lamentar, que, no local chamado o Desembarcadouro, não se tenha
ainda levantado um padrão comemorativo, que recorde a contemporâneos e a vindouros os sucessos gloriosos, que há mais de cinco
séculos começaram a desenrolar-se nesse sitio memorável.
Refere-nos Gaspar Frutuoso, na sua pitoresca linguagem, que os descobridores, ou antes primeiros povoadores, foram
«desembarcar na rocha, onde estão pedras e baixos, que se pode facilmente desembarcar neles, por aparcelado que ande o mar,
porque está resguardado com a rocha: e este logar se chama hoje (1590) o Desembarcadouro, onde também desembarcaram os de
Machim. . . ».
Embora não se possa dar crédito á tão conhecida e celebrada lenda, muitas e ponderosas razões persuadem que ali se teria realizado
o desembarque dos mais antigos colonizadores desta ilha, dando-se ao local o nome de «Desembarcadouro», que a tradição
conservou e os cronistas arquivaram. Recorda a descoberta, o primeiro desembarque e o começo do povoamento, como acima ficou
dito, que são outros tantos títulos a aconselhar e a impor o dever de uma significativa comemoração há muito sugerida e advogada,
mas a que tem faltado uma feliz oportunidade para a sua imperiosa realização.
Uma singela coluna, encimada por um qualquer emblema ou troféu patriótico e assentada sobre um modesto plinto a erguer-se do
seio da rocha viva seria já um pequeno mas expressivo monumento a perpetuar a memoria desses acontecimentos e porventura a
relembrá-los a tantos e tantos que certamente os desconhecem.
Existem no Funchal três edifícios, que devem ser considerados por todos os madeirenses como verdadeiros «padrões memoraveis»,
e olhados como mais profundo respeito e acrisolado culto: A capela de Santa Catarina, a igreja de Santa Clara e a Quinta das Cruzes.
Capela de Santa Catarina
– Esta pequena e modesta ermida construída por D. Constança de Almeida, mulher de João Gonçalves
Zargo, foi o primeiro templo que se levantou nesta ilha e junto dela teve o primeiro capitão-donatario a sua primitiva moradia, e de
ali dirigiu os rudes e porfiosos trabalhos da incipiente colonização madeirense, que rapidamente se desenvolveu e em breve se
criaram as primeiras vilas nas sedes das três capitanias, sendo a do Funchal a que adquiriu maior importância.
Santa Clara
. Para sua ultima jazida e dos seus sucessores no Governo da donataria, fêz João Gonçalves Zargo edificar a capela de
Nossa Senhora da Conceição, que ficou conhecida pelo nome de Conceição de Cima e que, ao ser fundado o convento anexo, passou
a ter a invocação de Santa Clara, que ainda actualmente conserva. Ampliada e depois inteiramente reconstruída na segunda metade
do século XVII, nada ali restará da primitiva edificação, mas encerra dentro dos seus muros as venerandas cinzas do seu fundador,
que foi o primeiro capitão donatário do Funchal. Tem de ser considerada como o nosso mais precioso e reverenciado «padrão
memorável», despertando a todos a mais respeitosa e sentida veneração.
Quinta das Cruzes
. Nas mais proximas imediações desta igreja, tivera Gonçalves Zargo a sua ultima moradia e ali terminara a sua
longa e afanosa existencia: é a solarenga habitação da Quinta das Cruzes, que se tornou também um «padrão» digno de igual e
merecida veneração.
Capela dos Milagres
–Fora da cidade, existe ainda uma antiga e também veneranda capela, que, pelo local em que foi erguida e por
diversos factos que a ela se acham intimamente ligados, constitui de igual modo um «memoravel padrão», merecedor do mais alto
e considerado aprêço: a capela do Senhor dos Milagres da vila de Machico, da qual já por vezes nos temos ocupado.
Page (Roberto)
Este súbdito inglês que tão simpatico se tornou aos madeirenses pelos actos de filantropia e generosidade que
praticou, já em 1804 se achava na Madeira onde teve, juntamente com José Phelps, uma casa de negocio de vinhos, que ainda
existia em 1840. Retirou, segundo cremos, para Inglaterra, pelo meado do século XIX, quando muitas casas inglêsas liquidaram em
virtude da penosa situação que trouxe à ilha a devastação dos seus vinhedos pelo oidium tuckery, tendo falecido aí, passados anos.
Entre muitas outras cousas, sabemos que fêz o seguinte, em beneficio da ilha e dos seus habitantes, como tivemos já ocasião de
dizer num artigo publicado em Janeiro de 1904, num jornal desta cidade:
Reparo na capela dos Milagres de Machico, dando-lhe um belo quadro para a capela-mor e concorrendo com dinheiro para obras
que ali se realizaram.
Contribuição em dinheiro, a pedido do então capitão-general e governador da Madeira, Pedro Fagundes Bacelar, para o resgate dos
marinheiros portugueses presos em Argel.
Colocação dum sinal de ferro na baixa chamada o Carneiro, a oeste do Funchal, para evitar a perda dos barcos costeiros, havendo
antes, perecido ali muitos indivíduos.
Uma ponte de pau no Ribeiro Frio.
Uma ponte nova, no Monte.
Uma casa de telha, na Ribeira das Cales, para abrigo dos viandantes.
Uma ponte grande na dita ribeira, que era perigosíssima em tempo de inverno.
Uma casa de telha na ribeira dos Boieiros, nas serras do Porto da Cruz, para abrigo dos viandantes.
Reparação de muitos caminhos públicos, nas serras.
Acabamento da ponte e estrada da ribeira dos Frades, em Câmara de Lobos, obra considerada de grande necessidade.
Uma ponte de pedra na ribeira do Engenho, na estrada geral a oeste do Funchal, que fora destruída pela aluvião de 1803.
Uma ponte de pau sobre um terrível despenhadeiro, próximo da Praia Formosa.
Importantes repairos no caminho de S. Martinho.
Grandes repairos nas ruas da Laranjeira e Mosteiro Novo, obra muito precisa e util.
Contribuição para a nova fonte da rua dos Ferreiros.
Contribuição para a nova fonte da ribeira de Nossa Senhora do Calhau.
Contribuição de 700$00 réis para o teatro grande do Funchal.
Contribuição para uma ponte na vila de Santa Cruz.
Uma casa junto do convento de S. Francisco, para o recolhimento dos pobres.
Contribuição para a igreja de S. Sebastião, desta cidade.
Reparos pela segunda vez, na ponte da rua dos Ferreiros.
Reparos, por duas vezes, na ponte do Torreão, de cima.
Uma boa casa de telha nas serras do Paul, para abrigo dos viandantes.
Reparos e calcetamento da rua que vai das Cruzes a S. Paulo.
Uma ponte de madeira na Levada de Santa Luzia.
Empréstimo dum conto de réis para o acabamento da escola Lancasteriana.
1oo cobertores para a Santa Casa da Misericórdia.
Seis camilhas de ferro para a mesma Santa Casa .
Donativo de 300$000 réis para a construção da ponte da ribeira dos Socorridos.
Um donativo avultado aos habitantes do Porto Santo, por ocasião da grande estiagem que ali houve em 1822.
Promoveu uma subscrição, e concorreu para ela generosamente, em favor dos presos da cadeia do Funchal.
Não é pouco o que aí fica mencionado, feito em favor dos habitantes desta ilha. Mas há mais.
Uma fonte publica no caminho do Monte.
Uma dita na fonte da Telha.
Outra fonte no caminho do Monte.
Quatro descansadores e assentos no dito caminho.
Uma ponte nova na ribeira das Cales.
Seis tarimbas para a cadeia do Funchal.
No ano de 1816, fez sustentar o preço dos vinhos da Madeira, contra um monopólio que se organizara, e em virtude da sua atitude
enérgica e probidade nunca desmentida, os habitantes desta ilha lucraram muitas dezenas de contos de réis. Foi tão manifesto e
importante este beneficio, que a câmara do Funchal lhe dirigiu um oficio de sincero e afectuoso agradecimento.
Tais actos de benemerência não podiam passar despercebidos aos governantes, e Roberto Page foi duas vezes agraciado por D. João
VI. As condecorações e outras graças régias tinham, nesse tempo, ainda muito valor e não andavam malbaratados como hoje. Não
se alcançava um habito de Cristo ou uma comenda da Conceição por motivos futeis ou por serviços inconfessáveis, como
actualmente sucede com tanta frequência.
Há 90 e 100 anos não acontecia assim. Roberto Page foi agraciado com o grau de cavaleiro da Tôrre e Espada e depois feito
comendador da mesma ordem. Se ainda hoje os graus dela são dos poucos que têm alguma cotação no mercado social, podemos
ajuizar que naguela época eram tidos em grande conta e só concedidos a quem realmente se tornava merecedor de semelhante
graça.
É bastante para estranhar que Roberto Page, que tantas e tão assinaladas provas deu da nobreza do seu carácter e da sua simpatia
pelos portugueses, se prestasse, movido talvez por um mal entendido patriotismo, a figurar de descobridor das famosas «reliquias
da cruz de Machim» a que se refere o dr. Azevedo a pág. 417 das Saudades da Terra. Tais «reliquas», depositadas na igreja matriz de
Maçónico e que ninguém até o presente tomou a sério, acham-se num quadro ou moldura de madeira, com vidro na face exterior,
lendo-se no rotulo que as acompanha terem sido achadas em 1814, na capela do Senhor dos Milagres da mesma vila.
Paiol
O paiol militar foi construído em 1825, tendo as respectivas obras sido orçadas em 5:358$000 réis, no ano de 1819. Tem
sobre a porta as armas reais, e por baixo delas a era de 1825.
Antes da construção do actual paiol, era a pólvora armazenada na fortaleza de S. João do Pico.
O caminho do Paiol foi muito melhorado em 1815, tendo as obras sido feitas directamente pela Câmara.
Pais (Rui)
Foi um dos companheiros de João Gonçalves Zargo no descobrimento deste arquipélago. Diz Gaspar Frutuoso,
referindo-se ao primeiro desembarque realizado em Machico, «que tanto que amanheceo ao outro dia mandou o capitam hum batel
a terra, de que deo cargo a Ruy Paes, que fosse ver a desposição e sitio della...»
Paisagens
Vid.Madeira (Paisagem da ).
Paiva (João de)
João de Paiva de Faria Leite Brandão foi nomeado Governador Civil deste distrito por decreto de 22 de Fevereiro
de 1908, havendo tomado posse do lugar a 9 de Março do mesmo ano
Paixão (Madre Brites da)
É um nome quase inteiramente esquecido, sobretudo depois da extinção das ordens monásticas e mais
ainda depois de se ter fechado o convento das Mercês desta cidade, onde ela foi religiosa e onde morreu em cheiro de santidade.
Pela tradição conservada neste mosteiro e por alguns escritos encontrados no seu arquivo, se constata o grau eminente de perfeição
moral que atingiu esta religiosa, atribuindo-se-lhe vários actos miraculosos, especialmente depois da sua morte e por meio da sua
intercessão. A sua sepultura foi sempre objecto duma especial veneração, e era frequentemente visitada por muitas pessoas, que ali
iam solicitar de Deus graças especiais pelo eficaz intermédio desta humilde religiosa.
A madre Brites da Paixão era filha natural de Aires de Ornelas de Vasconcelos, 6. morgado do Caniço, e professou no convento das
Mercês no ano de 1673 ou 1674.
Possuímos um interessante manuscrito da autoria do padre António Gomes Neto em que se narram muitos factos miraculosos
atribuídos á religiosa madre Brites da Paixão.
Paixão (Madre Virgínia da)
Aureolada com a fama das mais excelsas virtudes cristãs, faleceu a 17 de Janeiro de 1929, no sitio do
Lombo dos Aguiares da freguesia de Santo António, a madre Virginia da Paixão, que fôra uma das ultimas religiosas professas do
antigo convento de Nossa Senhora das Mercês e que ao ser demolida essa casa monástica se recolhera á modesta casa dos seus
parentes no sitio referido, onde havia nascido no terceiro quartel do século passado. Ainda em vida e particularmente depois da sua
morte se teceram em volta do seu nome as mais laudatórias referencias, que iam ao ponto de a considerar uma verdadeira
predestinada, a quem o céu concedera dotes privilegiados na prática das mais heróicas virtudes. Desta religiosa se ocupou com
alguma largueza «O Jornal» de 17 de Janeiro de 1941 e de 16 de Janeiro de 1944.
Paiz (O)
Publicaram-se quarenta e um números deste jornal, desde 5 de Janeiro de 1865 a 30 de Julho de 1866, sendo Augusto
César de Freitas o seu principal redactor.
Palácio de S. Lourenço
Frutuoso, referindo-se á fortaleza de S. Lourenço, a pág. 84 das Saudades da Terra, diz o seguinte: «e
assi como tem dentro agua, não lhe faltam atafonas, fornos e celleiros para recolher os mantimentos, e ricos aposentos onde o
capitam pousa, adornados com seu jardim e frescura».
Vê-se, pois, que em 1590, época em que foram escritas as Saudades, a autoridade superior do arquipélago, que era então Tristão
Vaz da Veiga, capitão-mor da guerra e governador geral, residia em S. Lourenço, e, se lermos a descrição que faz o mesmo Frutuoso
do saque dado na cidade do Funchal por corsários franceses em 1566, vê-se também que já neste ano havia na fortaleza salas e
outras acomodações.
Diz o dr. Azevedo que a fortaleza de S. Lourenço só desde os fins do século XVIII é denominada palácio, por ser a residência das
autoridades superiores militar e civil do arquipélago, devendo acrescentar-se que as casas do mesmo edifício sofreram modificações
mais ou menos notáveis em diferentes épocas.
Em 1689, executaram-se obras nas casas de S. Lourenço, que importaram em 1:007$000 réis, como se vê dum mandado do
Conselho da Fazenda, datado de 8 de Novembro do mesmo ano, e em 14 de Maio de 1699 houve um incendio nas mesmas casas,
sendo os prejuízos reparados com dinheiro da fortificação, levantado sob a responsabilidade do capitão-general e do provedor.
Lemos em duas obras inglesas relativas á Madeira que o palácio de S. Lourenço sofreu grandes alterações, sendo em parte
reconstruído, durante a ocupação do general Beresford, em 1808, o que, a ser certo, não obstou a que doze anos mais tarde o
governador Botelho reclamasse diversas obras para o mesmo palácio, algumas de muita urgência.
O edifício, em 1820, tinha «quatro salas em frente a um corredor que terminava no baluarte a oeste da ilha», havendo na segunda
destas salas uma escada descoberta que ia dar a um pátio com 176 palmos de comprido e 86 de largo, no qual se entrava pela porta
da fortaleza.
Examinando a vista do palácio de S. Lourenço, que acompanha a Descripção da ilha da Madeira feita em 1817 por Paulo Dias de
Almeida, nota-se que na parte do edifício que olha para o mar, só havia então janelas de sacada do lado oeste, duas das quais na
extremidade ocidental da parte menos saliente do edifício, sendo as janelas restantes idênticas ás da actual residência dos
comandantes militares. Foi nos fins do terceiro quartel do século XIX, que a residência dos governadores civis sofreu grandes
alterações interior e exteriormente, construindo se novas janelas de sacada e alteando-se os tectos das salas do lado do mar. Cremos
que as obras ficaram concluídas em 1873 ou 1874, não tendo a residência dos comandantes militares sido também melhorada,
devido a obstáculos criados pelo coronel Macedo e Couto, então governador militar da Madeira.
Numa das salas da parte do palácio de S. Lourenço ocupada pela autoridade civil, via-se antes da proclamação da Republica uma
colecção de retratos de antigos governadores, figurando entre eles o de João Gonçalves Zargo.
Fazia parte do edifício do palácio de S. Lourenço a capela que existiu no Funchal, consagrada ao mesmo santo, a qual cremos que
desapareceu no terceiro quartel do século XIX.
Teve a capela seus capelães privativos, sendo o primeiro de que achamos noticia o padre José da Costa de Lima, nomeado em 1641,
o qual recebia de ordenado «o que montasse uma praça de soldado».
«Nos dias de gala fazia-se o serviço domestico pela capela, tapando-se o altar com uma cortina».
Lê-se num documento do primeiro quartel do seculo XIX que na residência dos governadores houve sempre uma sala propria
armada de seda carmezim, com docel, e debaixo dele a Real Efigie dos Senhores Reis de Portugal, onde nos dias solenes concorriam
a nobreza, clero e autoridades a render, na augusta presença daquelas reaes efigies, o tributo da sua fiel vassalagem».
O decreto n.° 29.742, de 12 de Julho de 1939, concedeu um subsidio á Junta Geral do Distrito para proceder a diversos trabalhos de
reparação e adaptação em diversas dependências do Palácio de São Lourenço, que desde há muito se tornava necessário realizar.
Palanquim
Parece-nos que o palanquim, que foi muito usado entre nós, consistia na adaptação ás circunstâncias locais do
palanquim que na India e na China servia para a condução de pessoas categorizadas. O subdito americano John A. Dix, que esteve
na Madeira em 1842, descreve o palanquim nestes termos: «Muitos invalidos, que não podem passear a pé, nem teem forças para
andar a cavalo, teem como único recurso, e só recomendavel pela necessidade, um palanquim, um pranchão em forma de sapato,
cercado por uma gradinha de 6 polegadas de altura e com um recosto. O comprimento é o suficiente para uma pessoa se sentar e
estender as pernas. É usualmente atapetado, com coxins, com um pano a cobrir o pau em que está suspenso, ás vezes em forma de
pavilhão oriental, revelando bom gosto no seu acabamento, e riqueza na ornamentação. Isto é o que se pode chamar o corpo da
carruagem, suspenso numa verga presa a um pau de 12 pés de comprido e 4 polegadas de diametro, de modo que, em movimento,
está a pouca distancia do chão.
«É conduzido por dois homens, ao ombro, arrimando-se a um cajado que, ás vezes, para aliviarem o ombro, atravessam no outro
como alavanca, participando do peso os dois ombros. É admirável a facilidade e rapidez com que viajam com este peso entre si,
subindo as mais ingremes ladeiras sem afrouxarem o passo e descendo-as sem escorregarem. Por vezes usam uma maca em lugar
de palanquim, o que é mais geral nas montanhas, e não só é mais leve, mas, por ser suspensa mais ao curto, é conduzida mais
facilmente em terreno mau, onde o palanquim seria inútil. Para invalidos, ambos estes modos de transporte são miseráveis
substitutos dos trens de rodas. O palanquim tem, contudo, uma vantagem sobre as carruagens é que não há perigo de ser cuspido
dele e quebrar os ossos, como sucede tantas vezes nos mais modernos veículos. Condução mais segura do que o palanquim não a
pode haver.»
Há muito que o palanquim desapareceu entre nós. Haverá 40 anos que servia apenas para conduzir ás igrejas os anjinhos que
figuravam nas procissões da quaresma. Já por essa época não era aplicado ao transporte de pessoas adultas, mas no primeiro
quartel do século XIX usavam dele as senhoras que saíam a passeio ou a fazer visitas, podendo esquivar-se ás vistas do publico,
fazendo correr as cortinas do sobre céu que havia sobre o varal em que pegavam os dois condutores.
Palco (O)
Publicaram-se poucos números, sendo o primeiro a 11 de Novembro de 1883.
Palha-Carga
Nome vulgar da
Festuca Donax
, Graminea de 5 a 15 decimetros, com folhas largas e espiguetas reunidas em
paniculas amplas, frouxas e ás vezes curvadas. Esta planta é frequente nas ravinas do interior da Madeira. O
Brachypodium
silvaticum
, com as espiguetas grandes, reunidas em espiga um pouco inclinada, também é conhecido pelo nome de palha-carga em
varios pontos da ilha.
Palheiro do Ferreiro (Quinta do)
É a mais linda, a mais sumptuosa e a mais vasta quinta da Madeira. Situada no alto de
elevadas montanhas, dali se desfrutam os mais surpreendentes e amplos panoramas, especialmente do sitio que tem o nome de
Balancal. As suas matas, os seus pomares, os seus jardins, as suas terras de cultivo, as suas pastagens, os seus lagos, os seus
passeios, as casas de habitação, as abegoarias e armazéns de lavoura, na sua vastidão e no seu esmerado cuidado de conservação,
dão àquela estancia as proporções duma opulenta e principesca morada e duma grandiosa e imensa herdade.
A quinta do Palheiro de Ferreiro é obra do 1.° conde de Carvalhal, que pelos princípios do século passado ali iniciou a plantação de
muitas centenas de arvores e fez construir uma pequena casa, que era apenas um rendez-vous de chasse. Edificou depois uma
residência de campo, os jardins, os passeios, a capela, as casas de lavoura e fêz conduzir do alto das serras e de grandes distancias
abundantes aguas destinadas a fertilizar os terrenos da quinta.
Lê-se num antigo manuscrito que em 5 de Janeiro de 1891 foi a propriedade do Palheiro visitada pelo governador D. José Manuel
da Câmara, que assistiu ao «assentamento das soleiras da porta do passeio», e quando em 1817 passou na Madeira a imperatriz
Leopoldina (vol. II, pág 232), primeira mulher de D. Pedro IV, já a quinta do Palheiro causou admiração á princesa e sua comitiva,
tendo por essa ocasião João de Carvalhal oferecido uma esplêndida festa em honra da ilustre e regia visitante.
O segundo conde de Carvalhal recebeu com grande brilho e aparato, na quinta do Palheiro, o infante D. Luís, depois rei de Portugal,
quando em 1858 visitou esta ilha (II-286).
Há uns trinta anos (1921) que esta propriedade passou a posse do súbdito britânico João Blandy, que em 1901 ofereceu ali uma
brilhante festa aos reis de Portugal D. Carlos e D. Maria Amélia.
Em varias obras nacionais e estrangeiras se encontram muitas referencias á Quinta do Palheiro, limitando-nos nós a reproduzir a
seguinte descrição, feita por um inglês que a visitou a 13 de Janeiro de 1826: «Um dos melhores sitios a visitar nos arredores do
Funchal é o Palheiro, uma quinta, ou antes um parque pertencente ao sr. João de Carvalhal, o mais rico fidalgo da ilha e
provavelmente o mais rico súbdito, ao menos em propriedade territorial, do rei de Portugal. Visitámos hoje esse sitio. Em lugar
elevado, um pouco para leste do Funchal, conseguiu o sr João de Carvalhal obter uma grande extensão de terreno relativamente
plano, que fez cortar por caminhos e passeios e onde plantou carvalhos e abetos. Tudo está disposto e organizado ali como num
parque inglês, o que tira ao local a grandeza e a feição selvagem que os estrangeiros tanto admiram no cenario da Madeira. No
entretanto, compreende-se que um madeirense gostasse de transportar para a ilha aquilo que ali não existe. Devido á altitude, a
temperatura no Palheiro é mais baixa do que no Funchal, e a beleza da quinta estou certo que aumentará quando as arvores
adquirirem maior desenvolvimento. A casa é modesta tanto no tamanho como na arquitectura, mas elegante e confortavel, e os
jardins que a cercam estão ricamente vestidos de flores. As camelias constituem o seu principal ornamento, tendo os exemplares 6 a
8 pés de alto e produzindo flores brancas ou carmezins, que rivalizam na forma e na côr com as rosas, mas que não têm o belo
perfume destas».
Palheiros
São conhecidos por esta designação duas rochas que existem na proximidade da Selvagem Grande. Alguns marítimos
dão a uma delas o nome de Palheiro de Dentro, e á outra o de Palheiro de Fora.
Palmeira (Quinta da)
Tem acesso para a Estrada da Levada de Santa Luzia e Caminho da Torrinha, a conhecida Quinta da
Palmeira, que é uma das mais belas e sumptuosas vivendas do Funchal, em que reside o seu proprietário e benemérito industrial
Henrique Hinton. Ao nos ocuparmos com alguma largueza da estada de Cristovão Colombo na Madeira, (I-286 e ss.) fizemos
referencia á casa em que ele habitou na rua do Esmeraldo e á célebre janela que pertenceu a esse edifício, hoje artística e
devotadamente colocada no jardim da Quinta Palmeira e que ali se conserva com a maior veneração e apreço por parte do seu
actual proprietário.
Palmeiras
A família das Palmeiras está representada na Madeira por varias espécies, nenhuma das quais e indígena. As mais
generalizadas actualmente são a Phoenix dactylifera, originaria da Africa boreal, e a Ph. Jubae, originaria das Canarias, esta com
fôlhas de um verde escuro, aproximadas, aquela com fôlhas dum verde acinzentado, de ordinario um tanto afastadas. As tamaras da
palmeira de Canarias são mais pequenas do que as da palmeira do Deserto e os seus caroços não são alongados, como sucede
naquela especie. A
Ph. jubae
é cultivada no jardim municipal e nas quintas a leste e a oeste do Funchal; a
Ph dactylifera
aparece em
muitas localidades da zona inferior da Madeira, e também no Porto Santo. Os frutos da palmeira do deserto só depois de caírem é
que atingem nesta ultima ilha um perfeito estado de maturação. Além das duas referidas palmeiras, encontram-se na Madeira o
Trachycarpus excelsus
, a
pritchardia filifera
, a
Latania borbonica
, a
Seaforthia elegans
, etc., etc..
Palmela (Duque de)
O duque de Palmela, D. Pedro de Sousa Holstein, visitou a Madeira em Novembro de 1820, por ocasião da
viagem que fêz ao Brasil, sendo muito obsequiado nesta ilha pelo governador Sebastião Xavier Botelho, que deu um baile em honra
do ilustre diplomata, a que assistiram mais de duzentas pessoas.
Durante o pouco tempo que se demorou no Funchal, diz êle numa carta que aqui escreveu, «foram tantas as visitas, os negocios, os
passeios, etc.,... que me falta o tempo para tudo.» Esteve na Quinta do Palheiro Ferreiro, pertencente «ao mais rico proprietario da
ilha e talvez de Portugal» onde achou «um parque á inglêsa, no melhor genero».
O duque de Palmela visitou de novo a Madeira, em Outubro de 1847, desta vez para acompanhar a espôsa, que se achava afectada
duma grave enfermidade pulmonar, de que não conseguiu melhorar nesta ilha.
A 27 de Janeiro de 1848 achava-se o duque ainda na Madeira, mas pouco depois partia para Lisboa, em companhia da espôsa, cujo
estado havia piorado bastante. «Numa maca afofada de coxins e almofadas, diz D. Maria Amalia Vaz de Carvalho na Vida do Duque
de Palmella, a conduziram marinheiros, da sua casa da ilha ao barco que a trazia, e desse barco para a casa do Rato onde expirou.
Ao lado da maca, a pé, o mais perto della possivel, vinham devagarinho o duque e a filha mais nova, a unica solteira que
acompanhara para a Madeira a mãe extremosa. Seguiam-se atraz, tambem a pé, os outros filhos, os parentes mais proximos, os
amigos mais intimos.»
Dezoito meses incompletos sobreviveu o duque de Palmela a sua mulher, tendo falecido na sua casa ao Rato, a 12 de Abril de 1850.
Trinta anos antes, escrevera êle á duquesa, então na flor da mocidade e formosissima, mandando-lhe dentro da carta um ramo de
murta, «como protesto, diz D. Maria Amalia Vaz de Carvalho, contra essa flora dos tropicos, cuja violencia de côr e de perfume o
opprimia sem lhe fallar ao coração.»
Pampilho
Nome vulgar doChrysanthemum pinnatifidum e doC. dissectum , Compostas Tubulifloras arbustivas, espontaneas na
Madeira. A primeira especie é frequente no norte e no interior da ilha; a segunda só aparece na Ponta do Pargo e no Cabo Girão.
Panasco
Dão este nome na ilha do Porto Santo aoBromus madritensis , Graminea ali frequente e que aparece também na zona
inferior da Madeira.
Paoli (Dr. Guido)
É inspector das doenças das plantas e director do Observatorio Regional de Fitopatologia da Liguria, e esteve no
Funchal desde 6 a 17 de Março de 1922, comissionado pelo governo italiano, afim de estudar e colher o
Aspidiotiphagus
lounsburyi
; pequeno himenóptero que é parasita do
Chrysomphalus dictyospermi
; lapa ou cochonila que vive sobre varias especies
vegetais e tem causado grandes devastações nos laranjais da Italia. E.: Un modo di difendere le piante contro gli assalti della
formica dell' Argentina (
La Costa Azurra Agricola–Floreale
II n.° 6, 1922);
La Bianca-Rossa degli agrumi e l'introduzione del suo
parassita
(
Agricoltura Ligure
, n.° 6, ser.3, anno I, 1922
); il parassita della bianca - rossa degli agrumi e la sua introduzione in
Italia
(
il Coltivatore
, n.° 15, 1922
)
;
Isolator, per difendere le piante contro la formica dell' Argentina
(
Redia
, XV, 1922 ); e
Una
missione nell' isola di Madera. .
. (
Nuovo Annali del
Ministero per l'Agricoltura
, II, 3, 1922).
Em todas estas publicações se refere o dr. Paoli ao que viu e estudou durante a sua curta permanencia no Funchal.
Papaia
(
Carica Papaya
). Passifloracea lenhosa da América do Sul, com tronco geralmente simples e folhas muito grandes, com 7
a 9 segmentos mais ou menos recortados. Os seus frutos são, ora sésseis, ora longamente pedunculados, encontrando-se estes
últimos nos indivíduos que produzem as flores masculinas, os quais apresentam sempre ou quasi sempre na Madeira, um certo
numero de flores providas de pistilos. O fruto da papaia come-se cru ou cozido, mas tem sabor pouco agradável. O tronco fornece
por incisão um suco que misturado com agua tem a propriedade de, em poucos minutos, tornar tenras as carnes duras. Pode
conseguir-se este mesmo resultado envolvendo as carnes nas folhas da árvore.
Papel Selado
O sr. Alberto Artur Sarmento num curioso artigo sôbre o papel selado da nossa ilha, publicado no Heraldo da
Madeira de 1 de Abril de 1911, diz que o primeiro papel de que aqui se fêz uso era de fino linho, «tem a data 1661 ao alto e no meio
da pagina, e logo abaixo–sello quarto de dez reis–ao lado esquerdo o sello circular gravado em madeira, com as armas portuguesas,
e ao redor sello III (sello III?) de dez reis, anno de 1661. Só tinha papel sellado a primeira folha de cada escriptura.
«O sello terceiro de quarenta reis, com a designação ao alto da pagina, tem o cunho circular formado de 14 arcos de circulo. Este
papel foi sobrecarregado com novo sello sobre a margem direita, com o formato de uma moeda, e n'algum se vê a rubrica do
provedor e a nova data em que foi aproveitado.
«Em 1664, o sello quarto de dez reis é hexagonal, tendo quatro florões externos e o sello da nova data na margem direita é uma
esphera armilar com as armas portuguezas, tendo a era no supporte e a rubrica do provedor feita ao alto e no meio da pagina.
No papel sellado em 1665 com o sello circular, a nova data é collocada ao lado da antiga e a rubrica é posta por baixo do sello.
«Até 1840 o papel sellado não differe do usado em Portugal, havendo então uma sobrecarga em preto sob a margem direita O. L.
GOV. C. DE FUNCHAL.
«O papel tem a marca de agua–Louzãa– a data e–Credito publico–na margem inferior.
«Os sellos em relevo, em branco, no alto da folha, teem ao centro as armas, á esquerda o valor em algarismos romanos e a moderna
numeração á direita.
«O escudo é marginado por palmas, n'outros valores por tropheus de bandeiras e escripto em relevo «Thesouro Publico.»
«Ha uma variedade d'este papel que tem quatro sellos em relevo, sendo o do meio um monogramma com as iniciais C. P.
entrelaçadas, e escripto por debaixo–Credito Publico. O sello circullar–Thesouro publico–fica estampado na margem esquerda.
«O ultimo papel sellado especial tem a sobrecarga–Madeira–a tinta encarnada. O papel tem em marca de agua as armas
portuguezas–imposto do sello–Louzãa–e as differentes datas. Os typos são: papel branco e azulado, e as sobrecargas na margem
esquerda.
O papel azulado é riscado com 25 e 30 linhas, sendo a emissão final, com 30 linhas a azul. A sobrecarga–Madeira–approxima-se do
sello no alto da pagina.
«Estas sobrecargas que foram determinadas por causa da differença da moeda, continuaram até muitos annos depois.»
Acrescenta o sr. Sarmento que o papel selado usado na Madeira, veio sempre do Continente e que a fs. 167 v.° do tomo VI do
«Registo Geral da Camara Municipal do Funchal» se encontra uma carta mandando rubricar «o papel sellado que sobeje de um
anno para outro, afim de ser aproveitado e ter livre curso n'este archipelago».
Papinho (Erithacus rubecula)
) Ave turtídea indigena, que cria desde Maio até Junho. Chega a por sete ovos, que variam muito no
tamanho e na cor. O seu canto é harmonioso.
Papoulas
As mais frequentes na Madeira são o
Papaver Rhoeas
e o
P. somniferum
, este de flores brancas e aquêle de flores
vermelhas. Pisando as capsulas do
P. somniferum
ou fazendo-lhes incisões superficiais, obtém-se um suco conhecido pelo nome de
ópio, o qual constitui um dos mais preciosos remedios da medicina. A morfina é o principio mais activo do ópio. As capsulas da
papoula branca são empregadas em decocção como medicamento anódino; as petalas da papoila vermelha são calmantes, peitorais
e sudorificas. A extracção do ópio nunca foi tentada na Madeira.
Paquete (O)
O 1.º numero publicou-se a 7 de Fevereiro de 1874 e o 84.° a 14 de Junho de 1876.
Pardal (Petronia petronia)
Ave da família Fringilida vulgar na Madeira e Porto Santo e que se alimenta de sementes e de insectos.
Se por um lado causa estragos nas searas, pela grande quantidade de grãos que come, por outro deve ser tida como um auxiliar do
lavrador, pela grande abundância de insectos nocivos que destrói, principalmente quando tem de alimentar os filhos ainda nos
ninhos. Existiram outrora posturas municipais tendentes a destruir esta espécie, sendo bastante curiosa a da Câmara Municipal do
Porto Santo, que obrigava cada chefe de família a apresentar 25 cabeças de pardal durante todo o mes de Junho de cada ano.
Nidifica de Fevereiro a Junho, de ordinário nos buracos das paredes ou debaixo das telhas das casas, sendo os seus ninhos mal
acabados e tendo no interior lã, pêlos de boi, cabelo e sobretudo penas de galinha. Os ovos, em numero de 5 ou 6 para cada postura,
variam muito na côr, e no desenho, havendo-os esbranquiçados, pardacentos ou amarelados.
Pardal de Fora (Alauda arvensis)
É a calhandra e laverca de Portugal. Aparece na Madeira, sendo porém ave de arribação.
Paredes
Sitio povoado da freguesia do Arco da Calheta. A capela de Nossa Senhora da Nazaré, que ali se encontra, foi erigida no
ultimo quartel do século XVII por Francisco de Barros Maciel, tendo sido inteiramente reconstruída no ano de 1830 por António
João Barbosa de Matos e Camara, descendente do fundador. É de instituição vincular, de que foi primeiro administrador o referido
Francisco de Barros Maciel.
Pares do Reino
No regimen constitucional, foram membros da Camara dos Pares os madeirenses Antonio Aluisio Jervis de
Atouguia (visconde de Atouguia), João de Oliveira (conde de Tojal), José Ferreira Pestana, Daniel de Ornelas de Vasconcelos,
Januario Vicente Camacho, Luis da Camara Leme, Agostinho de Ornelas de Vasconcelos, José Vicente Barbosa du Bocage e Aires de
Ornelas de Vasconcelos.
Enquanto vigorou a lei de 24 de Julho de 1885, o colegio eleitoral do Funchal elegia dois pares, tendo sido então membros da
camara alta, o visconde de Vila Mendo, Antonio C. Heredia, Pedro Gonçalves de Freitas, Tomás Nunes de Serra e Moura, etc..
O madeirense Jaime Moniz foi par do reino eleito pelos estabelecimentos científicos.
Pargo (Pagrus pagrus)
Peixe da familia Esparida, grupo pagrina, vulgar nas aguas do arquipelago. Habita as zonas litorais e
percorre tôda a costa de fundos, preferindo porém os de natureza rochosa. A sua criação faz-se junto á costa e tem grande valor
culinario. Pescam-no de dia e de noite com diversos aparelhos, como a brigueira, gorazeira, agulheira, cana e rêde.
Parkinson (Sydney)
Pintor e desenhador inglês que acompanhou o capitão Cook na sua primeira viagem á roda do mundo.
Desenhou 22 plantas madeirenses durante os poucos dias que esteve na Madeira, estando no Museu Britânico os seus desenhos,
alguns dos quais foram gravados, não chegando, porém, a ter publicidade.
Parma (Duquesa de)
A infanta D. Maria Antónia, filha de D. Miguel I e viúva do principe Roberto de Bourbon, duque de Parma,
esteve na Madeira de 7 de Abril a 22 de Maio de 1922, tendo vindo visitar sua filha a ex-imperatriz Zita. Acompanharam-na seus
filhos os príncipes Xisto, Xavier e Renato e a princesa Isabel, tendo os três primeiros saído para Lisboa a 12 de Abril de 1922.
Parochia de Santo Antonio do Funchal
Publicação quinzenal, saindo o 1.° numero a 8 de Março de 1914 e o ultimo a 22 de
Janeiro de 1916. Foi o primeiro jornal que se publicou na Madeira, destinado somente a uma freguesia.
Parque Leite Monteiro
Vid.Leite Monteiro (Parque ).
Partidista
É o comerciante que compra o vinho ao agricultor e o prepara por conta propria, vendendo-o, quando se lhe depara
ocasião azada, ao comercio exportador.
Partidos Políticos
Nos tempos do absolutimo, só havia na Madeira os partidos liberal e conservador, tendo dado aquele as
primeiras mostras da sua existência logo depois da revolução francesa. A organização das sociedades secretas, outrora sem o
carácter anti-religioso que modernamente se lhe tem querido imprimir, foi o sinal precursor do grande movimento que havia de
implantar mais tarde as instituições liberais na nossa ilha.
Os liberais madeirenses passaram a chamar-se também constitucionais, depois que aderiram á constituição da monarquia
portuguesa votada e jurada em Lisboa em 1821, e os absolutistas ou conservadores tomaram a denominação de miguelistas, depois
que o infante D. Miguel, ao regressar de Viena de Áustria a Lisboa, foi acolhido nesta ultima capital por uma turba ignóbil que o
excitou a proclamar-se rei absoluto.
Na Madeira, como em Portugal, eram os absolutistas e miguelistas alcunhados de corcundas pelos constitucionais, recebendo estes
daqueles o epíteto de malhados por serem malhadas as mulas que puxavam a carruagem em que vinha D. Miguel, quando deu a
queda que por algum tempo o pôs em perigo de vida.
Ao terminarem em 1834 as lutas civis, havia em Portugal dois partidos liberais, que eram o partido cartista, constituído pela
entourage de D. Pedro e o partido da oposição, que combatendo os erros e dissipações daquele proclamava todavia o seu amor pela
liberdade e a sua dedicação á carta constitucional. Faziam parte do primeiro destes partidos os madeirenses João de Oliveira,
depois conde de Tojal, José Ferreira Pestana, Lourenço José Moniz, Sérvulo Drumond de Meneses, Luís Vicente de Afonseca, etc., e
do segundo, António Aluisio Jervis de Atouguia e os membros do antigo club do Carmo, que figuraram mais tarde no partido
setembrista, mas apesar das divergencias politicas que existiam na ilha, dizia em 24 de Março de 1838 o jornal a Chronica que os
madeirenses tinham até então «marchado unidos e obedientes aos princípios da legalidade», não constando, com efeito, que a
revolução de Setembro de 1836 tivesse dado motivo a quaisquer hostilidades dignas de nota entre cartistas e setembristas. A Flor do
Oceano, aparecida em 1834, era órgão do partido cartista madeirense.
A Constituição de 1838 foi jurada solenemente nesta ilha a 6 de Maio do mesmo ano, e vigorou até á restauração da Carta de 10 de
Fevereiro de 1842.
Foram, segundo cremos, as violências e os extremos de despotismo de Costa Cabral que deram motivo a que, depois da
proclamação da Constituição, se manifestassem pela primeira vez entre nós os ódios e paixões politicas que tanto haviam de fazer
conhecida mais tarde a nossa terra. Em 1844, apareceu no Funchal o Tribunal Secreto, publicação irregular e clandestina destinada
a verberar os actos inconstitucionais do cabralismo, estando a esse tempo bem extremados já na nossa ilha os campos políticos e
não sendo o partido avançado aquele que menos provas dava de sua vitalidade.
Faziam parte então do partido cartista ou cabralista o dr. Lourenço José Moniz, o dr. Luis Vicente de Afonseca, Sérvulo Drumond
de Meneses. etc.. e do partido progressista ou setembrista o dr. João de Freitas e Almeida, Francisco Correia Heredia, Luís de
Ornelas e Vasconcelos, Luís Agostinho de Figueiroa, etc., tendo os tres ultimos desempenhado um papel importante na politica
local, após o pronunciamento de 29 de Abril de 1847 e a instalação da Junta Governativa (V. este nome) que teve a administração
do arquipelago até 14 de Julho do mesmo ano. Foi esta Junta sustentada na imprensa pelos periodicos O Independente e O
Madeirense, os quais foram precedidos pelo Ecco da Revolução, que apareceu em 1846, após a insurreição patuleia contra a politica
de Costa Cabral.
A convenção de Gramido e a dissolução da Junta Governativa não trouxeram a paz à Madeira, e nas eleições de 1847, 1848 e 1851
cometeram-se as maiores violências, segundo se lê no periódico O Progressista, que começou a publicar-se em 28 de Agosto de 1851
e era órgão do partido liberal.
A regeneração de 1851 teve por timbre conciliar os partidos, visto ter ido buscar aos cartistas e aos progressistas os homens que
então constituíram o governo, mas o partido cabralista, embora reduzido, continuou a dar provas de vitalidade, sobretudo enquanto
governou o distrito o conselheiro José Silvestre Ribeiro. Nas eleições realizadas naquele ano, ainda a Madeira mandou ao
parlamento dois deputados cabralistas, o que é uma prova de que tinha aqui admiradores a politica do conde de Tomar, e na
imprensa teve esta politica dois órgãos – O Archivista e depois A Ordem – de que foram redactores os bem conhecidos cabralistas
dr. Antonio da Luz Pita e Sêrvulo de Meneses.
Muitos politicos da nossa terra aderiram ao partido regenerador de 1851, contando-se entre êles Jervis de Atouguia, que fez parte
do ministério presidido pelo duque de Saldanha, Jacinto de Santana, depois visconde das Nogueiras, Luís de Freitas Branco, Diogo
Berenguer, antigo cabralista, Luís da Costa Pereira, etc., enquanto outros, tais como Antonio Correia Heredia, dr. Juvenal Honorio
de Ornelas, Pedro José de Ornelas, etc. se filiavam no partido progressista histórico, que teve como chefe o marquês, depois duque
de Loulé.
Embora se leia num antigo jornal que de 1860 a 1868 nunca a Madeira teve uma representação parlamentar que fosse a fiel e
espontanea manifestação do voto popular, é certo todavia que algumas vezes se viu as oposições vencerem o governo, tendo ficado
celebre a eleição de 1860 por nela haver o dr. Afonseca obtido maior votação do que o conde de Carvalhal, candidato histórico, não
obstante este titular ser homem de grande prestigio e influencia politica, e contar além disso com o apoio das autoridades locais.
Em 1865, o partido histórico, menos uma pequena facção, fundiu-se com o partido regenerador, nascendo desta união o partido
fusionisfa, em que ingressaram muitos madeirenses que militavam anteriormente quer num, quer noutro daqueles grupos políticos,
e pouco depois, em 1868, teve lugar a manifestação politica conhecida pelo nome de janeirinha, de que resultou o aparecimento
dum novo partido, denominado popular, fruto da fusão de elementos heterogeneos e cuja divisa, segundo apregoava a imprensa
que lhe era afecta, era a economia e a moralidade na administração dos rendimentos do Estado.
As lutas que se deram na Madeira entre o partido fusionista e o popular ficaram celebres pelas violencias que se praticaram e pelas
vergonhosas cenas de que a ilha foi teatro durante cerca de ano e meio. Os principais vultos da politica fusionista madeirense eram
o dr. Luís de Freitas Branco, o dr. Antonio Gonçalves de Freitas, Jacinto de Santana e Vasconcelos, João de Santana e Vasconcelos e
Silvano de Freitas Branco, do antigo partido regenerador, Antonio Correia Heredia, o dr. Francisco Joaquim Lampreia, o dr. João
da Camara Leme, o conego Alfredo Cesar de Oliveira, Pedro José de Ornelas, o dr. Manuel José Vieira, o dr. José Leite Monteiro e
João José Vieira, do antigo partido historico, e o dr. Joaquim Ricardo da Trindade e Vasconcelos, antigo conservador ou talvez
legitimista; ao passo que no partido popular militavam D. João da Camara Leme, que serviu por largo tempo de governador civil, o
dr. Agostinho de Ornelas e Vasconcelos, o conego Felipe José Nunes, o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, Januario Justiniano de
Nobrega e Nuno Dias de Vasconcelos, antigos regeneradores, Joaquim Coelho de Meireles, outrora miguelista, e os antigos
conservadores cabralistas dr. Antonio da Luz Pita, dr. Luís Vicente de Afonseca, Caetano Velosa Castelo Branco, primeiro deputado
popular pelo circulo do Funchal, e o morgado Diogo Berenguer, sendo em casa deste ultimo que se reuniam as comissões do
partido. A Razão, o Popular e o Direito eram os orgãos do partido popular na Madeira, enquanto que o Correio do Funchal,
substituído mais tarde pela Fusão, a Voz do Povo e a Imprensa Livre pugnavam pela politica contraria.
A chamada aos conselhos da coroa do ministério presidido pelo bispo de Viseu, não acabou com o predomínio do partido popular, o
causador dos motins do dia 8 de Março de 1868 (V. Motins na Madeira), visto esse partido, e dum modo particular o dr. Alvaro de
Azevedo, haver patrocinado a politica chamada reformista, e, quando em Maio de 1870 se deu a sedição militar dirigida por
Saldanha, também a política da ilha não sofreu modificações notáveis, visto o mesmo partido haver resolvido apoiar o Governo que
então subiu ao poder, em substituição do ministério progressista historico, demitido dias antes. D. João da Camara Leme que
deixara de ser governador civil do distrito durante os governos do Conde de Avila, bispo de Vizeu e duque de Loulé, voltou a ocupar
esse cargo no ministério presidido pelo duque de Saldanha.
É curioso notar que, não obstante se achar no poder um ministerio histórico, ao realizarem-se as eleições do dia I de Maio de 1870,
não foi o partido que apoiava o governo na Madeira, mas a oposição, que triunfou na maior parte das assembleias eleitorais. Os
individuos mortos pelas tropas no templo de Machico eram eleitores do partido popular, mas foram populares que no cais da
Pontinha prenderam o falecido dr. Ricardo da Trindade e Vasconcelos ao regressar daquela vila e o conduziram ao passeio publico
do Funchal, onde pretenderam assassiná-lo, o que mostra que eles se achavam senhores da situação e tinham liberdade para
cometer os maiores desatinos. Foi a falta de energia do visconde de Andaluz, então governador civil, e a complacencia de que usou
para com a oposição, chegando a conservar autoridades que abertamente o hostilizavam, que foram causa da anarquia e da
desordem de que foi teatro a Madeira no mês de Maio de 1870.
Em 1858, afirmava a Reforma que, depois que a regeneração congregara elementos de todas as cores politicas, a politica
individualista começara a perder terreno na nossa terra; mas, volvidos alguns anos, não poderia o mesmo jornal, se então existisse,
emitir opinião tão optimista, principalmente se quisesse referir-se á politica que predominou entre nós no periodo agitado que vai
de 1868 a 1870. Não foram os interesses da terra, mas os de determinados individuos, que motivaram as lutas que se feriram então
e ficaram celebres pelas violencias que praticaram os dois partidos que se digladiavam na ilha.
A chamada aos conselhos da coroa, em fins de 1871, dum ministerio regenerador presidido por Antonio Maria Fontes Pereira de
Melo, parecia que devia acalmar os animos, mas tendo o novo governo conservado na administração superior do distrito o
governador D. João da Camara Leme, foi este acto mal visto pelas oposições, que resolveram hostilizar essa autoridade por todos os
meios ao seu alcance. Aos pasquins, ás perseguições, ao apedrejamento de predios e ás mortes de 1868 e 1870, sucedeu o regimen
das bombas que mãos misteriosas colocavam á noite em varios pontos da cidade e que rebentavam com grande estrondo,
produzindo ás vezes estragos materiais.
Com a constituição dum ministerio retintamente regenerador, voltaram ao seio deste partido não só os regeneradores que haviam
tomado parte na fusão de 1865, mas também muitos daqueles que se tinham filiado no partido popular. João de Santana e
Vasconcelos foi o chefe local da politica regeneradora, dirigida antes de 1862 pelo dr. Luís de Freitas Branco.
Em 7 de Setembro de 1876, organizou-se em Lisboa, com elementos historicos e reformistas, o moderno partido progressista, do
qual foi eleito chefe o conselheiro Anselmo José Braamcamp, tendo sido o dr. João da Camara Leme, mais tarde visconde e depois
conde de Canavial, o primeiro dirigente desse partido na Madeira. Aderiram á nova politica os antigos historicos madeirenses que
tinham feito parte do partido fusionista, á excepção do dr. Manuel José Vieira, João José Vieira e dr. José Leite Monteiro, que
durante algum tempo não manifestaram simpatias partidarias, mas que em 1882 se filiaram no partido constituinte, conjuntamente
com João de Sales Caldeira, Augusto Bianchi, dr. José Antonio de Almada, dr. Nuno Ferreira Jardim, etc.. O Direito foi orgão deste
partido na Madeira.
Desorganizado o partido constituinte, transitaram o dr. Manuel José Vieira, João José Vieira e dr. José Antonio de Almada para o
partido progressista, do qual o ultimo foi eleito chefe local em 1885, enquanto o dr. José Leite Monteiro se mantinha no seu posto,
tendo sido dos ultimos a abandonar a politica infeliz do conselheiro José Dias Ferreira.
Tendo falecido em 1887 o general Fontes Pereira de Melo, quasi todos os regeneradores madeirenses aceitaram a chefia de Antonio
de Serpa Pimentel, filiando-se apenas na chamada esquerda dinastica, fundada por Barjona de Freitas, o dr. Luís Antonio
Gonçalves de Freitas, a esse tempo residente em Lisboa, e poucos politicos mais.
Em 1901, deu-se uma cisão no partido regenerador local, motivada pela circunstancia do conselheiro José Ribeiro da Cunha ter sido
encarregado de vir à Madeira receber os monarcas D. Carlos e D. Amelia, o que representava um agravo feito ao governador civil D.
Bernardo da Costa de Macedo, havendo por essa ocasião algumas manifestações populares no Funchal, promovidas por varios
regeneradores amigos do mesmo Ribeiro da Cunha é a que não foram estranhos os progressistas, com o fim de desprestigiar as
autoridades. Os membros graduados do partido regenerador que então se afastaram da politica partidaria foram, entre outros, o
conselheiro Silvano de Freitas Branco, o dr. João Augusto Teixeira, o dr. Romano Santa Clara Gomes, o dr. Julio Paulo de Freitas e
o engenheiro Vitorino José dos Santos, tendo assumido a chefia do mesmo partido na Madeira o conselheiro José Leite Monteiro.
Os progressistas, que tinham sido os aliados da facção regeneradora que apoiava o governador Ribeiro da Cunha, tornaram-se
depois os seus mais encarniçados inimigos, estando ainda bem presentes na memoria dos madeirenses as varias peripécias que se
deram durante a luta que se travou entre aquêles dois grupos politicos, especialmente durante o periodo eleitoral. Por quasi tôda a
parte se zombou da liberdade da urna, e em Machico sofreram os progressistas os maiores vexames por terem ousado fiscalizar o
acto eleitoral que ali se realizava. 0 Diario Popular e o Correio da Tarde, jornais progressistas, e o Direito, o Rebate e o Debate,
jornais regeneradores, fornecem informações valiosas, embora por vezes apaixonadas, para a historia de um dos mais calamitosos
periodos da vida politica da Madeira.
Os principais vultos do partido progressista local eram nessa época o conselheiro Manuel José Vieira, chefe do partido na Madeira,
o capitão João Augusto Pereira, o conego Manuel Esteves Fazenda, o dr. Pedro José Lomelino, o conselheiro João Baptista Leal e
João José Vieira, ao passo que no partido regenerador militavam ao lado do conselheiro Leite Monteiro, varios jovens politicos
conhecidos pelas suas aspirações liberais, entre os quais se destacavam o dr. Vasco Gonçalves Marques, o dr. José Joaquim
Mendes, o dr. Antonio Capelo, António Luís Nunes Vieira, João Octavio da Costa Cabedo, etc., etc..
A criação do grupo denominado henriquista e a dissidencia entre os conselheiros Luciano de Castro e Alpoim nenhuma influencia
exerceram na politica madeirense, se bem que o visconde da Ribeira Brava acompanhasse o segundo destes chefes politicos, mas a
subida ao poder, em 1907, dum governo presidido pelo conselheiro João Franco, deu lugar a que imediatamente se constituisse na
ilha um bem organizado grupo destinado a favorecer a politica daquele estadista, grupo de que faziam parte, entre outros, Luís
Gomes da Conceição, dr. Julio Paulo de Freitas, padre Fernando Augusto da Silva, dr. Romano Santa Clara Gomes, dr. Alberto
Figueira Jardim, engenheiro Vitorino José dos Santos, dr. Fernando Tolentino da Costa, etc., etc.. A morte tragica do rei D. Carlos,
a 1 de Fevereiro de 1908, não permitiu aos franquistas da terra executar o seu programa de administração, visto o conselheiro João
Franco ter deixado as cadeiras do poder logo após aquêle acontecimento.
O partido nacionalista, constituido em 1903, também teve muitos adeptos na Madeira, principalmente entre o clero, havendo o
conego Antonio H. de Gouveia, eleito a principio pelos progressistas, advogado no parlamento os interesses desse partido, que teve
como seu orgão na imprensa O Jornal, aparecido em 1906. 0 dr. Quirino A. de Jesus, há muito residente em Lisboa, fêz parte, mas
por pouco tempo, do partido nacionalista.
Proclamada a Republica no dia 5 de Outubro de 1910, aderiu a ela desde logo a Madeira, desaparecendo a partir de então os
partidos monarquicos, mas não as ideas
Monarquicas, se bem que poucos ousassem manifestá-las nos dias que se seguiram á implantação do novo regimen. Os desacatos
que se deram na Madeira em 1826, em 1828 e em 1834, com a mudança de instituições, não se repetiram felizmente em 1910, e,
apesar dos esforços de certos díscolos, só no regimento de infantaria n.° 27 e nalguns serviços civis se deram varios factos anormais,
que felizmente não ultrapassaram certos limites. Não foi demitido nenhum funcionario público e a propriedade foi respeitada,
apesar da ocasião ser favoravel para a pratica de muitos atentados.
A principio, os republicanos madeirenses constituíram um só partido, no seio do qual parecia não haver divergencias notaveis, mas
este estado de coisas foi pouco duradouro, e ao realizarem-se as primeiras eleições de deputados em Maio de 1911, já os partidarios
do novo regimen estavam divididos, tendo-se praticado por essa ocasião varias irregularidades e vexames, contra os quais protestou
o candidato a deputado Francisco Correia Heredia, visconde da Ribeira Brava, na assembleia de apuramento. As traficancias
eleitorais que deslustraram o nosso noviciado republicano, apenas diferiram das do tempo da monarquia pela inabilidade com que
foram praticadas.
Em 1911 constituíram-se em Portugal os grupos politicos denominados democratico, evolucionista e unionista, dirigidos
respectivamente pelos drs. Afonso Costa, Antonio José de Almeida e Brito Camacho, tendo ingressado pouco a pouco no primeiro
varios elementos valiosos da nossa ilha, saídos dos antigos partidos monarquicos ou que até aí se haviam conservado estranhos á
politica, declarando-se partidarios do segundo grupo os republicanos anteriores a 5 de Outubro e que tinham como chefe local o dr.
Manuel Augusto Martins, e aderindo ao terceiro grupo apenas um pequeno numero de politicos, quasi todos republicanos de
recente data. Em Fevereiro de 1913, entraram os democraticos, como membros duma facção politica, na administração das
corporações administrativas do distrito, e, tendo eleito para presidente da sua comissão distrital o falecido visconde da Ribeira
Brava e para vicepresidente o dr. Vasco Gonçalves Marques, constituíram dentro em pouco o mais forte e disciplinado partido da
ilha.
Tendo-se desligado do partido democratico, também chamado partido republicano portugues, o dr. Alvaro de Castro, afim de
constituir o partido que denominou de reconstituição nacional, resolveu a grande maioria dos democraticos da terra seguir aquêle
politico e ingressar no novo partido republicano. A reunião politica em que isto foi resolvido, teve lugar na quinta do Jasmineiro no
dia 30 de Maio de 1920 e foi presidida por Azevedo Ramos, tendo sido eleitos presidente da comissão distrital do novo partido o dr.
Vasco Gonçalves Marques, e presidente da comissão municipal o dr. Fernando Tolentino da Costa. Foram eleitas comissões
paroquiais para o concelho do Funchal e nomeados individuos para organizar o partido nos diferentes concelhos.
O grupo politico democratico ficou bastante enfraquecido com as defecções a que acabamos de referir-nos, mas em Dezembro de
1921 alistaram-se nas suas fileiras tanto os republicanos independentes, como os membros do partido republicano liberal (antigo
unionista), tendo tempos antes, em Julho de 1921, visitado a Madeira o capitão Manuel da Costa Dias com o fim de reorganizar o
mesmo grupo, que, todavia, não mais voltou a adquirir a importancia e a vitalidade que manifestara primitivamente.
Quanto aos antigos evolucionistas, grupo sem grande importancia politica, estão desde a queda do sidonismo mais ou menos
ligados aos ex-democraticos que se filiaram no partido da reconstituição nacional. Em 8 de Julho de 1920, resolveram os
evolucionistas manter-se unidos até que ficasse claramente definida a politica portuguesa, sendo, por este motivo e ainda por causa
de incompatibilidades com antigos unionistas, que êles não entraram na constituição das comissões politicas locais do partido
liberal, não obstante a fusão de unionistas, evolucionistas e centristas, que se dera tempos antes em Portugal.
Após a derrota dos monarquicos em Monsanto, os partidos republicanos que durante o sidonismo se haviam abstido de manifestar-
se na Madeira, entenderam-se e constituíram uma comissão para dirigir a politica da ilha, mas pouco depois afastavam-se os
unionistas, sendo os democraticos e evolucionistas que fizeram as eleições politicas e mais tarde as eleições administrativas da ilha.
Como os unionistas se coligassem com os monarquicos após o afastamento a que acabamos de referir-nos, deu isso causa a que
aquele grupo se incompatibilizasse por algum tempo com os outros grupos republicanos existentes na ilha, como acima ficou dito.
Durante o governo do dr. Sidonio Pais, foram os monarquicos que principalmente dominaram na Madeira, tendo o governador
Pinto Feio substituído por individuos afectos ao antigo regimen, os republicanos que o secretario geral, servindo de governador,
nomeara para as comissões administrativas da Junta Geral e da Camara Municipal.
Nas eleições de 10 de Julho de 1921, apresentaram-se ao sufragio popular dois candidatos do partido presidencialista e um do
partido popular, mas a pequena votação que obtiveram, revela a falta de organização que os seus partidos tinham na Madeira. Por
essa ocasião, também o partido catolico madeirense não conseguiu fazer eleger o seu candidato, sendo mais feliz nas eleições de 29
de Janeiro de 1922, em que conseguiu enviar ao parlamento um deputado. Em 22 de Fevereiro de 1919, noticiava o Trabalho e
União ter acabado de organizar-se definitivamente o partido trabalhista madeirense, constituído por operarios e outros elementos,
mas tal partido não procurou ainda, que nos conste, intervir directamente na vida politica da ilha (1921).
Em Janeiro de 1922, elegeu o integralismo lusitano uma comissão regional na Madeira, da qual foi nomeado presidente o dr. Rui
Bettencourt da Camara e vice-presidente o dr. Abel Capitolino Batista, e em Agosto do mesmo ano tiveram lugar no Funchal as
eleições da Juventude Monarquica Conservadora, sendo eleito presidente honorario da mesma o visconde de Cacongo, presidente
da assembleia geral, Cesar Barbeito, e presidente da direcção o dr. Nuno Porto. 0 partido republicano foi organizado na Madeira em
1882, por ocasião da eleição do dr. Manuel de Arriaga para nosso representante em côrtes, mas ao ser proclamada a Republica em
1910, estava muito enfraquecido nesta ilha.
Os reconstituintes da Madeira resolveram filiar-se no partido republicano nacionalista, numa reunião presidida por Nicasio de
Azevedo Ramos e que teve lugar no Casino Vitoria, a 29 de Abril de 1923. Quando em Dezembro do mesmo ano o dr. Alvaro de
Castro abandonou o partido nacionalista, foi acompanhado pelos madeirenses capitão Americo Olavo de Azevedo e dr. Carlos Olavo
de Azevedo, mantendo-se quasi todos os restantes parlamentares e politicos da nossa terra que em 29 de Abril se haviam filiado
naquele partido fiéis aos principios que tinham resolvido defender.
Em 21 de Dezembro de 1923, reuniu a comissão distrital do partido radical da Madeira, assistindo ã reunião o senador Cesar
Procopio de Freitas, não tendo o mesmo partido antes disso dado provas claras da sua existencia entre nós.
Eis, muito ligeiramente esboçados, os principais factos da historia politica da Madeira desde os ultimos tempos do governo absoluto
até a actualidade (1922). Reconhecemos, mais do que ninguém, a insuficiencia de nossas informações, mas obrigados a tratar de
todos os assuntos referentes á ilha, para nos não desviarmos do programa que traçámos para o nosso trabalho, vemo-nos obrigados
em muitos casos a transformar o nosso resumo numa simples resenha. Quem compulsar as colecções de jornais da nossa ilha,
encontrará aí noticias mais ou menos circunstanciadas sôbre os acontecimentos politicos de que tratamos muito superficialmente,
sendo essa a melhor fonte a que se pode recorrer, já que nenhuma obra existe publicada sôbre a especialidade (1921).
Passada da Novilha
Sitio na serra do Faial, onde o antigo regente silvícola Julio Carlos Etur estabeleceu um pequeno viveiro de
essencias florestais indigenas. A Camara do Funchal arrendou por 6:000 réis anuais o terreno destinado ao viveiro, não chegando
este a dar resultados, em virtude da transferencia para o Continente do dito regente silvicola.
Passos
Os «passos» da paixão eram oratorios que se viam em varios pontos da cidade e em que se representavam alguns dos
tormentos do Redentor. Os «passos» que em nossos dias havia no Funchal ficavam nos seguintes locais: lado norte do Jardim
Pequeno, (hoje avenida do Dr. Manuel de Arriaga), rua do Aljube (hoje do capitão-tenente Carvalho de Araújo), largo do Pelourinho
e rua de Santa Maria.
A procissão dos Passos fazia uma paragem junto de cada um dos referidos passos da paixão de Cristo (1921).
Lemos algures que o governador D. José Manuel da Camara mandou fazer um passo de Jesus Cristo no beco de Jacinto Acciaioly.
Passos (António Romão dos)
Nasceu na Ribeira Brava a 28 de Fevereiro de 1866, mas foi em tenra idade para Portugal, onde
frequentou estudos secundarios e o Instituto Geral de Agricultura. É há muitos anos agronomo da Companhia Geral de Credito
Predial Português. Publicou o Elogio do Conselheiro João Inacio Ferreira Lapa, proferido na sessâo solene de 20 de Maio de 1905
na Sociedade de Sciencias Agronomicas de Portugal, e consta-nos ter também dado a lume uma biografia do sabio botanico e
agronomo D. Antonio Xavier Pereira Coutinho (1921).
Passos (Francisco Carregal da Silva)
Nasceu por 1878, é filho de Manuel Antonio da Silva Passos e de D. Maria Teresa Bastos
Carregal da Silva Passos, e desempenhou o cargo de consul português em Dakar. Tinha o curso de regente agricola e uma larga
colaboração em muitos jornais e revistas de Lisboa, havendo escrito dois folhetos com os titulos de a Tagante e O Escalpello.
Faleceu em Lisboa, a 1 de Outubro de 1931.
Passos (Heitor Eugenio de Magalhães)
Era inspector do circulo escolar do Funchal quando a 11 de Maio de 1919 foi eleito senador
pela Madeira.
Passos Freitas (Humberto de)
Nasceu no Funchal e escreveu «The Ornithological Expedition to the Delta of the Danube» e
«Vinte e um dias em bote», 1923, que é a descrição de um passeio maritimo em volta da Madeira. Passos Freitas favoreceu
audaciosamente a fuga de varios deportados politicos que se achavam presos no Lazareto de Gonçalo Aires, como ficou referido a
pag. 350 do vol. I deste Elucidario.
Passos de Freitas (Dr. Manuel)
Nasceu na Calheta a 3 de Março de 1872 e formou-se em direito na Universidade de Coimbra em
1896. É secretario aposentado da Junta Geral do Distrito e um musico muito distinto, sendo o director do grupo musical que tem o
seu nome e o ensaiador do orfeão madeirense, que por diferentes vezes o publico funchalense tem tido ocasião de apreciar no teatro
do Dr. Manuel de Arriaga.
Passos Sousa (António Policarpo dos)
Nasceu na freguesia da Madalena do Mar a 26 de Janeiro de 1836 e morreu na vila da
Ponta do Sol a 26 de Maio de 1875. Era medico cirurgião pela Escola do Funchal e secretario da administração do concelho da
Ponta do Sol. Segundo o testemunho dos seus contemporaneos, possuía Policarpo dos Passos Sousa um prodigioso talento, que o
infortunio não deixou manifestar-se com a pujança e brilhantismo que muito seria para desejar. Colaborou em alguns jornais e foi
considerado no seu tempo como um inspirado poeta, tendo muita voga as suas composições em verso. Vem uma composição sua no
1.º vol. das Flores da Madeira.
Pastagens
O decreto de 23 de Julho de 1913, regulando o serviço da pastagem de gados nas serras da Madeira, contém
disposições que deveriam ser rigorosamente observadas, embora se torne necessario ampliar a acção dessas determinações legais e
torná-las mais eficazes e de mais facil execução.
Estabelece-se no artigo primeiro deste decreto que «só é permitida a pastagem de gado suíno e caprino em terrenos pertencentes
aos donos dos mesmos gados e que estejam completamente vedados por forma a impedir a saída desses gados para terrenos de
outros proprietarios».
Essas disposições são frequentemente transgredidas com grave prejuízo para os arvoredos e especialmente para as plantas novas e
em pleno desenvolvimento.
Vid. os artigos Arborização, Gados, industria Pecuária, Levadas, Pecuária e Prados.
Pastel (Isatis praecox)
Crucífera anual glauca, com as fôlhas interiores pecioladas oblongas, as superiores sésseis sagitadas; flores
amarelas pequenas, reunidas em corimbo; silículas pendentes, indistintamente aladas. Das fôlhas desta planta extrai-se um
principio corante azul, susceptivel de substituir o índigo e que foi muito utilizado outrora pelos tintureiros madeirenses. A Madeira
exportava antigamente algum pastel para Portugal, como se vê dumas notas que João Gonçalves Zargo recebeu do infante D.
Henrique, em que este dizia: «seja-vos em lembramento de mandardes o pastel que se correja, e dizei a João Affonso que mande
algum se está corregido.. Correger o pastel era provavelmente secá-lo simplesmente ao sol, ou então esmagar as suas fôlhas deixar a
massa assim obtida perder a agua e reduzir a mesma massa a bolas, depois de a haver deixado sofrer durante 8 a 12 dias um começo
de fermentação. O pastel não é só útil á tinturaria; é também forragem apreciada pelo gado vacum e lanigero. Em Camara de Lôbos
utilizam o seu suco no tratamento de borbulhas e outras afecções na pele.
Pastinha-de-Água (Lemna gibba)
Planta da familia das Lemnaceas, frequente nas ribeiras, charcos e tanques da Madeira. Tem
pequenas frondes providas duma só raiz e é conhecida também pelo nome de lentilha-de-agua. (V. este nome).
Pato Marreco
O pato conhecido por este nome na Madeira é a Anas boschas, ave domestica muito frequente na Madeira e Porto
Santo, mas que tanto arriba por vezes ao arquipélago, pertencendo neste caso ao grupo dos patos bravos. A sua carne é muito
apreciada, mas os seus ovos são menos saborosos que os da galinha.
V. Patos bravos.
Patos Bravos
Sob esta designação, conhecem-se na Madeira e Porto Santo alguns palmipedes que aqui arribam, de preferencia
no inverno e mais ou menos regularmente. São êles: anas boscas,Mareca penelope ,Nettion crecca ,Dafila acuta ,Marmaronettaangustirostris ,Nyroca ferina eOedemia nigra .
Patria (A)
O primeiro numero publicou-se a 2 de Abril de 1862 e o decimo terceiro, que foi o ultimo, a 2 de Julho do mesmo ano.
Saiu outro jornal com o mesmo nome de 25 de Abril de 1906 a 26 de Maio de 1907, dando trinta e sete numeros.
Património Artístico
Em varias obras estrangeiras que se ocupam da Madeira, nos livros «Cartas Sem Moral Nenhuma» de
Teixeira Gomes e «Ilha da Madeira» do marquês de Jácome Correia e em diversas publicações periodicas do Funchal, encontram-se
algumas referencias encomiásticas a certas obras de arte, existentes em algumas igrejas desta ilha e especialmente representadas
por pinturas de superior factura artistica sôbre motivos de caracter puramente religioso. Essas referencias, porém, feitas
geralmente em passageiras descrições e nem sempre emitidas com perfeito conhecimento do assunto, não impressionaram o
grande público e sòmente despertaram as atenções de um restrito numero das pessoas mais cultas do nosso meio social. Foi
sòmente em 1933 e nos anos seguintes que o distinto conservador do Museu de Arte Antiga, de Lisboa, dr. Manuel de Almeida
Cayola Zagalo, em varios relatorios, em uma comunicação feita no Congresso Nacional de Turismo, em interessantes artigos no
«Arquivo Historico da Madeira» e sobretudo no valioso trabalho «A Pintura dos Séculos XV e XVI da Ilha da Madeira», nos revelou
com o mais profundo conhecimento de causa, com a mais devotada admiração e com o mais desinteressado carinho a existencia de
um rico patrimonio, tanto pelo numero como pela superioridade artística, que caracteriza essas preciosidades dignas de figurarem
em um bem apetrechado Museu. O ultimo trabalho citado é um aturado e proficientissimo estudo historico e descritivo, que se fica
devendo ao zêlo e à competencia de Cayola Zagalo e que de modo particular merece a gratidão de todos os madeirenses, que prezam
o bom nome do seu torrão natal.
«... Deve-se registar e divulgar, diz-nos Cayola Zagalo, é que a revelação do Patrimonio Artistico da Madeira, adentro do Patrimonio
Nacional forma umas das suas nobres parcelas.... Igual abundancia se verifica em não menos belas peças de ourivesaria escultura,
ceramica, tapeçaria e mobiliario... A preponderancia das escolas de Bruges e Antuerpia e da escola portuguesa manifesta-se de tal
forma, que só posso indicar uma excepção:–o quadrinho de S. Jerónimo, de presumivel proveniencia holandesa, pertencente ao
Paço Episcopal do Funchal. Gérard David, Jean Provost, Jean Gossart e outros mestres por identificar, mas de mérito equivalente,
são os autores dos formosos retábulos flamengos da Ilha; alguns dos painéis cuja filiação artística é por enquanto ignorada, são
executados no estilo dos grandes pintores tais como Van der Weyden, Hans Memling, Quentin Metsys, etc.. A justificação da
existencia de tão avultada percentagem de quadros, oriundos da Flandres e do Brabante, aliada á de múltiplos exemplares de
similar origem, na sua maior parte perdidos, entre os quais esculturas, móveis, tapeçarias, e a maioria das campas mortuarias
revestidas de laminas de bronze, baseia-se quasi exclusivamente na cultura sacarina...»
Motivos de sobra existem para a criação de um Museu de Pintura no Funchal, sendo de presumir que em breve se proceda à sua
instalação. No entretanto, criou-se um pequeno Museu de arte sacra em uma das dependencias da Sé Catedral, dando-se dele e do
museu projectado uma mais desenvolvida noticia no prosseguimento deste artigo.
Interessante seria seguir «pari passu» todo o trabalho de investigação realizado por Cayola Zagalo e o seu estudo crítico e descritivo
de um tão avultado numero de quadros de superior pintura artística dispersos por toda a ilha e deixar deles, neste lugar, uma
rápida menção se o espaço, o tempo e a competência de que dispomos o permitissem fazê-lo. Vamos, pois, limitar-nos a uma
sumária comemoração dos quadros que em reproduções fotograficas se encontram no primoroso livro «A Pintura dos Seculos XV e
XVI da Ilha da Madeira ., acima citado:
Sé Catedral: «Retábulo do Altar-Mor» pintado sôbre madeira com quinze compartimentos, Escola Portuguesa, principios do seculo
XVI; quatro quadros no altar de Santo Antonio e vários quadros no altar do Bom Jesus.
No Museu de Arte Sacra, em uma das salas capitulares: «Nossa Senhora do Amparo», de Jean Grossart, 1526, obra notavel; triptico
representando os apostolos «S. Pedro», «S. Paulo» e «Santo André», Escola Neerlandesa, século XVI; «S. Nicolau», Escola
Portuguesa século XVI (2.° quartel); «Descida da Cruz», Escola Portuguesa; «Santiago Maior», séculos XV-XVI; «Santa Maria
Madalena», Escola Neerlandesa seculo XVI; «Calvario», meados do seculo XVI; «S. Bernardino de Sena e São Luís», meados do
século XVI, Escola Portuguesa; «Deposição», primeira metade do século XVI.
Na Igreja do Recolhimento do Bom Jesus: «Anunciação», principios do século XVI, Escola Neerlandeza.
Igreja Nova de São Martinho: «N. S. da Incarnação», «Natividade» e «S. Joaquim», tríptico, primeiro têrço do século XVI, Escola
Neerlandeza.
Igreja do Socorro: «Santiago», «S. Filipe» e os «doadores», triptico, primeira metade do século XVI, Escola Portuguesa;
«Apostolos», representando seis apostolos, 1.° têrço do século XVI, Escola Portuguesa.
Capela da Consolação (Levada de Santa Luzia): «Monografia de Jesus e Anjos», principios do século XVI.
Paço Episcopal: «S. Jeronimo», 1.ª metade do século XVI, Escola Neerlandesa e «Santana e São Joaquim», primeira metade do
século XVI, Escola Neerlandesa.
Convento de Santa Clara: «Dois Anjos adorando a Cruz», primeira metade do século XVI, Escola Portuguesa; «Nascimento de S.
João Baptista», segunda metade do século XVI, Escola Portuguesa; «Aparição de Cristo à Virgem», primeira metade do século XVI,
Escola Portuguesa; «Aparição de Cristo a Maria Madalena», 1.ª metade do século XVI, Escola Portuguesa; e «Ecce Homo».
Igreja de São João Evangelista (Colégio): «Aparição de Cristo a São Pedro», 2.ª metade do século XVI, Escola Portuguesa.
Capela do Corpo Santo: «S. Pedro Gonçalves Telmo», «Santo Antonio», «Nossa Senhora» , «S. Pedro», «Um Rei e uma Santa», «S.
Vicente», «S. Paulo», «S. Lourenço» e ainda outros, todos dos meados do século XVI, Escola Portuguesa.
Igreja Paroquial da Ribeira Brava: «Descida da Cruz», «Maria Madalena» e «José de Arimateia», tríptico dos principios do século
XVI; «Adoração dos Magos», 1.º têrço do século XVI; e «Natividade», Escola Neerlandesa.
Igreja Paroquial da Ponta do Sol: «Santa Maria Del Populo», «Santa Barbara» e «Santa Catarina de Alexandria», tríptico do 1.º
têrço do século XVI.
Igreja Paroquial de Sâo Brás do Arco da Calheta: «S. Brás e os Doadores», 2.° quartel do século XVI, Escola Portuguesa;
«Apresentação do Menino no Templo» 2.° quartel do século XVI, e ainda outros quadros.
Igreja do Espirito Santo (Calheta): «O Anjo e a Virgem», «Santo Antonio» e «S. Francisco», tríptico, cujos quadros são classificados
de «valiosissimos», primeiro têrço do século XVI, Escola Neerlandesa.
Capela da Madre de Deus (Caniço): Retabulo representando «Santiago Maior», «São João Baptista», «Santa Catarina de
Alexandria» e «Santo Antonio», posterior a 1536, Escola Portuguesa.
Capela dos Reis Magos (Estreito da Calheta): «Adoração dos Reis Magos» e «Veronica».
Igreja Paroquial da Vila de Santa Cruz: Seis quadros que guarnecem a capela-mor, representando a «Anunciação», a «Natividade»,
a «Adoração dos Magos», o «Calvario», a «Descida da Cruz» e a «Ressurreição», 1.ª metade do século XVI, Escola Portuguesa.
Igreja Paroquial da Vila de Machico: «Adoração dos Reis Magos», principio do século XVI, classificado como esplendido retabulo
que tem sido objecto da maior admiração por parte de abalizados criticos de arte, e ainda «Cristo e os Apostolos», 2.° quartel do
século XVI, Escola Portuguesa.
No artigo «Monumentos Nacionais» (II-394), fez-se menção dos edifícios e obras de arte existentes neste arquipélago e
classificados como «monumentos nacionais» e como «imoveis de interesse publico», á maioria dos quais se faz referencia na
relação que acima fica exposta.
A revelação da existencia de todo esse abundante e precioso patrimonio artístico criou um ambiente favoravel á organização e
instalação de um pequeno, mas interessante e valioso museu de arte sacra, devido particularmente ás diligencias do governador
José Nosolini e incondicional apoio do prelado diocesano, havendo-se aproveitado para esse fim duas salas do corpo capitular da Sé
Catedral e contiguas a este templo, desde há muito classificado como monumento nacional, e cuja inauguração solene se realizou no
dia 6 de Outubro de 1940.
Queremos ainda deixar aqui acentuado que a obra de Cayola Zagalo se ocupa com relativo desenvolvimento dos quadros que ficam
enumerados, não somente sob o aspecto do seu valor artístico e das mais salientes caracteristicas que os distinguem, mas também
da sua historia, da sua conservação e da imperiosa necessidade da criação de um Museu de Pintura, constituindo um valioso e
interessantissimo estudo do rico e abundante patrimonio que se encontra espalhado em muitas localidades do nosso arquipélago,
como já acima ficou ligeiramente referido.
Acerca deste importante assunto e ainda de outros interessantes especimenes de diversas modalidades artisticas, le-se com proveito
os elementos de informação recolhidos nas paginas do segundo volume da apreciada obra «Ilhas de Zargo» da autoria do padre
Eduardo Clemente Nunes Pereira.
Patriota
Número único de jornal publicado a 14 de Fevereiro de 1890.
Patriota Funchalense
Das terras mais importantes do nosso país, não foi o Funchal a derradeira em que pela primeira vez saíu a
lume uma publicação periódica. Quando em 1830 apareceu na ilha Terceira o primeiro jornal açoreano, já anteriormente a essa
epoca tinham visto a luz da publicidade oito jornais madeirenses. O mesmo se deu com respeito ás outras localidades, fora de
Lisboa, Porto e Coimbra. Havendo os portugueses iniciado neste arquipélago o seu grande movimento colonizador, que sem
demora se alargou até os confins do universo, pareceria também natural que a mais poderosa alavanca da moderna civilização fôsse
aqui primeiramente introduzida do que nas restantes terras descobertas ou conquistadas. E assim veio a suceder.
Um grande acontecimento político ocorrido no continente português, que teve sua repercussão em todos os dominios insulares e
ultramarinos, foi a causa próxima da publicação do mais antigo jornal da Madeira, que tomou o nome de Patriota Funchalense. O
avanço das chamadas ideias liberais, que determinou a Revolução do Porto e a consequente Constituição de 1822, fêz-se logo sentir
nesta ilha, mas somente alguns meses depois dos acontecimentos que se deram na capital do norte é que no Funchal se verificou a
proclamação solene dos principios politicos, que vieram implantar o sistema representativo em Portugal. A 28 de Janeiro de 1831,
realizou-se a consagração oficial desses principios, tendo o facto sido comemorado, no dia do aniversádo do ano seguinte, com o
lançamento da primeira pedra dum monumento erguido á Constituição, em frente do adro da Sé Catedral, havendo essa
comemoração revestido uma extraordinária e notável imponencia.
Era então um dos mais fervorosos adeptos daquelas ideias o dr. Nicolau Caetano Betencourt Pita, médico abalizado e distinto
madeirense, que no nosso meio social gozava de grande prestigio e larga influencia, postos entusiasticamente ao serviço duma
causa, que êle julgava ser das mais proveitosas para o engrandecimento e prosperidade da nação. Para a propaganda dos novos
principios politicos e consolidação do sistema governativo que se iniciara, empreendeu êle a publicaçao duma fôlha periódica, tendo
para isso que lutar com dificuldades quasi insuperaveis, que a sua tenacidade e dedicação sem limites souberam inteiramente
vencer e dominar. Dirão muitos e talvez com alguma razão que a natureza dessa causa não era merecedora de tão grandes
sacrificios, mas a sinceridade das suas convicções bastará para o absolver das atitudes porventura exageradas, que nessa conjuntura
tivesse tomado.
Comprada em Lisboa uma Imprensa, como então se dizia, que era uma modesta oficina tipográfica, veio para a Madeira,
acompanhada pelo tipógrafo e impressor Alexandre Gervásio Ferreira, que durante dois anos, aproximadamente, dirigiu a
composição e impressão do Patriota Funchalense, sendo substituído, a partir do n.° 179, pelo tipógrafo Inácio S. de Abreu. A
oficina, administração e redacção instalaram-se numa casa à rua dos Ferreiros, que tinha o número 7 de policia e que ficaria situada
em local não muito afastado da antiga redacção do «O Jornal» (1921).
No dia 2 de Julho de 1821, considerado como o do aniversário do descobrimento da Madeira, apareceu o primeiro número do
Patriota Funchalense, que era uma publicação bi-semanal, saindo regularmente ás quartas-feiras e sábados. Tinha quatro páginas
de composição, mas muitos numeros eram acompanhados de «aditamentos», de duas e por vezes de quatro páginas. Era de
pequeno formato, não excedendo a composição tipográfica 23 por 16 centimetros. Publicaram-se 214 números, sendo o último a 16
de Agosto de 1823.
Acerca do plano das materias versadas no jornal e da sua distribuição pelos assinantes, lê-se no seu primeiro número esta curiosa
informação: «O plano do Patriota Funchalense é o seguinte: Será publicada esta fôlha duas vezes na semana (quartas e sabados),
conterá as noticias mais interessantes das Gazetas Nacionais e Estrangeiras–Reflexões sobre a Economia interna, e Relações
externas da Madeira–Politica–Variedades–Entrada e sahida de navios, Preços correntes, etc. Os senhores assinantes e os que o
quizerem ser, mandarão nos mencionados dias da tarde pela folha».
Em todos os números e no alto da primeira página destacavam-se as armas reais, tendo como legenda estes versos de Almeida
Garrett:
Ergo tardia voz, mas ergo-a livre,
Ante vós, ante os Ceus, ante o Uníverso,
Se os Ceus, se o Mundo minha voz ouvirem
O grande escritor, rendendo graças pela homenagem que lhe fôra prestada, dirigiu uma interessante carta ao redactor do Patriota
Funchalense, que termina por estas inflamadas e hiperbólicas palavras: «Recebei, Senhor, os meus agradecimentos, como Poeta
não, como Cidadão sim – Tanto me preso, e honro desta qualidade, quanto menoscabo aquela, quando desta desligada.»
A pag. 142 e seg. do volume I desta obra, deixámos os principais traços biográficos do dr. Nicolau Caetano Bettencourt Pita
fundador do Patriota Funchalense.
Pau Branco (Notelaea excelsa)
Arvore da familia das Oleaceas, com fôlhas persistentes, coriaceas, glabras e inteiras, flores
brancas, reunidas em racimos curtos, axilares ou extra-axilares, solitarios ou geminados, e frutos elipticos, a principio vermelhos,
depois violaceos. Encontra-se nas serras de S. Vicente, da Boaventura do Porto do Moniz, etc., mas está quasi extinta na ilha.
Produz madeira branca ou puxando um pouco a côr de rosa, muito dura, pesada e susceptivel de bom pulido, que ainda hoje é
usada para parafusos de lagares e quilhas de embarcações.
Pau do Sebastião
Fica além do Ribeiro Frio, no caminho de Santana. Do alto da ladeira que ai existe, desfrutam-se soberbos
panoramas, especialmente para os lados da ribeira da Metade e do pico do Areeiro.
Paul do Mar
Já em outro lugar notámos que Gaspar Frutuoso fazendo, em 1590, a descrição sumaria das freguesias e lugares
mais importantes da costa sudoeste da Madeira, se refere ás localidades do Jardim do Mar e Paul do Mar, dando-lhes apenas a
denominação de Jardim e de Paul, ignorando nós se assim seriam conhecidas nos tempos primitivos da colonização e sem talvez a
acrescentada designação de Mar, que hoje e desde há muito conservam. Também não sabemos se os lugares do Paul da Serra e do
Jardim da Serra tiveram estas denominações para os distinguir daquelas localidades, sendo umas banhadas pelo oceano e as outras
situadas no interior da ilha.
Desconhecemos a origem do nome de Paul por que é conhecida esta freguesia, se o relacionarmos com a significação que
comummente lhe dão os dicionaristas. Uma parte consideravel dela é constituída por uma fajã bastante plana, a que se ajustaria a
designação de Paul, se por ali tivessem existido terras alagadiças, que as aguas vindas das altas rochas circunvizinhas ou mesmo do
mar por algum ponto mais baixo da praia, transformassem numa especie de brejo ou pantano e a que os antigos povoadores dessem
o nome de Paul. É também possivel que alguns traços de semelhança orografica ou hidrográfica com qualquer localidade do
Continente justificassem aquela denominação, o que hoje será talvez impossivel averiguar. O deão Gonçalves de Andrade acha,
porém, a denominação muito ajustada á topografia do lugar, pois diz que êle «forma como um valle debaixo de altas rochas, junto
ao mar, d'onde lhe vem o nome». Não sabemos como é que estas circunstâncias justificam a designação de Paul dada àquele lugar.
Os terrenos que constituem as actuais paroquias do Paul do Mar, Jardim do Mar e Prazeres pertenceram á freguesia do Estreito da
Calheta. A primeira a desmembrar-se foi a do Paul do Mar, criada pelo alvará regio de 28 de Dezembro de 1676, compreendendo
então a futura freguesia do Jardim do Mar. Foi depois criado o curato dos Prazeres, como filial do Paul do Mar.
Um dos mais antigos povoadores desta freguesia foi João Anes de Couto Cardoso, que aqui teve muitas terras de sesmaria e no
Jardim do Mar. Dizem varios nobiliarios que êle fundou a capela de Santo Amaro, que depois serviu de sede da paroquia e nela jaz
sepultado. Foi um filho deste, por nome Francisco de Couto Cardoso e falecido em Maio de 1542, que instituíu um morgadio com
sede nesta freguesia. Outro membro desta familia fundou também uma casa vinculada na vizinha localidade do Jardim do Mar.
O Paul do Mar, com as freguesias de Machico e Camara de Lôbos, constituem os três mais importantes centros piscatorios do
arquipélago. No Paul há alguns centos de individuos que se dedicam ás labutas da pesca. Foi ali montada há poucos anos uma
fábrica de conservas de peixe, que é um importante estabelecimento industrial. As salinas que se estabeleceram nesta localidade
não produziram os resultados esperados, como tem acontecido com varias tentativas feitas em outros pontos desta ilha. A safra no
Paul foi sempre escassa e há bastantes anos que as salinas foram abandonadas.
Produz esta freguesia os generos agricolas comuns a tôda a ilha e especialmente se cultiva nela a cana e a vinha. Foi afamada a
malvasia produzida nesta localidade, que não era inferior em qualidade á conhecida malvasia da Fajã dos Padres.
Tem duas escolas, uma para cada sexo, sendo a do sexo feminino criada em 1912.
A sua população é de 1 586 habitantes, segundo o censo de 1911.
Os seus principais sitios são: Ribeira das Galinhas, Serrado da Cruz, Alagoa, Igreja e Quebrada.
Tem-se afirmado que muitos terrenos, sobranceiros a alguns dos mais importantes sitios desta localidade, se encontram na
iminencia de despenhar-se, o que determinaria o soterramento de inumeros casais, com a morte inevitavel de centenares de
individuos, dando-se então desgraçadamente uma das mais horrorosas tragédias da história madeirense.
Tomou a Junta Geral do Distrito a louvavel iniciativa de fazer construir nesta localidade um bairro piscatorio, tendo sido já
edificado um bloco de casas especialmente destinadas aos individuos empregados na pesca e havendo-se feito a respectiva
inauguração no mês de Julho de 1944.
Paul da Serra
Esta planicie, a única duma certa extensão que existe na Madeira, está situada a 1500 metros acima do nivel do
mar e mede de leste a oeste cêrca de 5 e meio quilometros de comprido, sendo a sua maior largura de um pouco mais de 3
quilometros. Faz parte dos concelhos da Ribeira Brava, Ponta do Sol, Calheta e S. Vicente, entre os quais se acha encravada, e é
lugar ermo e muito visitado pelos temporais durante a maior parte do ano. As urzes e as uveiras são os unicos arbustos indigenas
que formam ali alguns maciços, sendo o resto da vegetação constituído pelo Pteridum aquilinum (feiteira), Agrostis castellana,
Hypericum linarifolium e Thymus caespititius (alecrim da serra), este ultimo abundantissimo, mas dificil de encontrar noutras
regiões.
O Paul da Serra é susceptivel de ser utilizado, como dizia Bowdich em 1823, tendo a extinta Junta Agricola ensaiado ali com bons
resultados a cultura do trigo, das semilhas, dos nabos e das cenoiras. Se se criarem maciços de especies arboreas, que sirvam de
abrigo contra os ventos, é possivel que aquela região venha a produzir ainda em abundancia muitos produtos necessarios á
alimentação do homem.
No sítio dos Estanquinhos, na altitude de 1450 metros, existe uma casa para abrigo dos viandantes; a casa de abrigo a que
chamavam de Meio Paul, mandada construir pelo inglês Roberto Page nos fins do primeiro quartel do século XIX, há muito que
desapareceu devido á acção do tempo. Ficava esta ultima casa situada no Campo Grande, ponto quasi inteiramente despido de
vegetação e o mais inospito da planicie do Paul da Serra.
O Paul da Serra é muito visitado na epoca da tosquia do gado lanigero, dando-se ás vezes aí grandes desordens, motivadas em geral
pelas copiosas libações a que se entregam as pessoas que aí acodem para assistir a essa operação, que se prolonga às vezes por mais
de três dias.
O Paul da Serra é, segundo se afirma, uma das poucas localidades das serras da Madeira que se acham ainda na posse do Estado.
É «logradouro comum» e muito aproveitado pelos habitantes das freguesias circunvizinhas para a apanha de lenhas destinadas a
combustivel e especialmente de ervas e matos para a engorda dos gados e como matéria-prima. É lugar muito inospito e bastante
exposto aos temporais, tornando-se quási impossivel o cultivo dos terrenos, como acima ficou dito, a não ser que fôssem
largamente protegidos por fortes sebes de denso arvoredo, que resistisse aos vendavais que ali frequentemente se desencadeiam.
Serve de pastagem a muitos rebanhos de gado lanígero. Tôdas as freguesias circunvizinhas estão em comunicação com este
planalto, por meio de estradas, por algumas das quais, embora más, transitam carros de rodas, de tracção animal, destinados ao
transporte das lenhas, ervas e matos.
A antiga Junta Agricola projectou a construção duma estrada que atravessaria o planalto do Paul na sua maior extensão, tendo
como pontos extremos a Encumeada de São Vicente e o Porto da freguesia do Porto do Moniz e medindo cêrca de 38 quilómetros
de comprimento. Os lanços desta estrada seriam: o da Encumeada ao sitio do lombo do Mouro, numa extensão de 4200 metros,
outro, deste ponto ao Pico da Urze, num percurso de 8300 metros, um terceiro trôço do Pico da Urze até aos Lamaceiros (Porto do
Moniz,, com o comprimento de 23 quilometros, e o ultimo dos Lamaceiros ao Porto de mar, medido 3000 metros. Esta estrada foi
iniciada no ano de 1914, nos seus pontos extremos, mas poucos quilómetros dela ficaram construídos.
Vid. Bica da Cana, Estanquinhos, Lombo do Mouro e Rabaçal.
Pavia (Padre Teodoro)
No ano de 1705, publicou-se em Tortona, Italia, o livro «Il Primo Scuoprimento dell'isola di Madera fatto
da Roberto Macico inglese...», traduzido do português e muito acrescentado pelo padre Teodoro de Pavia. E um volume de 190
paginas, dividido em dois capitulos, sendo o primeiro, que deu o titulo ao livro, a tradução literal da célebre terceira «Epanafora»
de D. Francisco Manuel de Melo, publicada pela primeira vez em 1660 e de que posteriormente se fizeram outras edições. Como é
sabido, foi devido a esta narrativa de D. Francisco de Melo, que a lendaria aventura de Roberto Machim se tornou muito conhecida
e chegou a alcançar certos foros de verdade historica entre alguns escritores de mais facil credulidade.
O segundo capitulo do livro do Padre Pavia tem para os madeirenses maior interesse, em virtude das noticias que nos transmite
relativas á segunda metade do século XVII e princípios do século seguinte, ao passo que o primeiro é a versão de uma obra muito
conhecida e largamente comentada, especialmente nas eruditas anotações das «Saudades da Terra».
Pecuaria
Constituindo a agricultura nesta ilha, com algumas das importantes industrias dela derivadas, a fonte mais importante
da economia publica, importa que a acção principal de «governantes e governados» seja orientada no sentido de proteger-se quanto
possivel essa tão generalizada industria, contribuindo todos deste modo para as maiores prosperidades da população do
arquipélago madeirense. Tendo com este assunto a mais intima afinidade, três valiosos «elementos», além de outros de subalterna
importancia, se oferecem logo á nossa especial consideração as Águas, as Florestas e os Gados.
Do primeiro nos ocupamos com largueza no artigo
Levadas
(II-235-269), em que salientámos a sua importancia, a sua necessidade
e os beneficios que tem prestado, estando todos esperançados que as providencias adoptadas pelos decretos de 21 de Outubro de
1943 («Aproveitamentos Hidraulicos da Madeira) venham completar de maneira mais satisfatoria os relevantes serviços já
dispensados no longo periodo de alguns séculos.
O segundo e valioso «elemento» a considerar é o da conservaçâo e desenvolvimento das Florestas, tornando-se indispensavel a
promulgação de um diploma legislativo, em que fiquem insofismavelmente demarcados os limites dos «baldios» pertencentes a
particulares, ãs camaras e ao Estado (depois de se proceder a um rigoroso estudo), em que se estabeleçam com bem definida
precisão as atribuições das entidades que superintenderem nesses serviços e em que finalmente se promova a criação de uma
«Circunscrição Florestal», á qual se facultará execução de todos os preceitos legais que sôbre o assunto tenham sido ou venham a
ser publicados.
O terceiro «elemento», que é de capital importancia e merece a mais desvelada protecção, é o problema pecuário, que sòmente ha
poucos anos começou a chamar as cuidadas atenções das estações oficiais e a despertar no público um particular interesse, até
então desconhecido entre nós.
Deve-se esse movimento inicial aos valiosos estudos realizados pela Intendencia de Pecuaria deste distrito, que, àcêrca de tão
momentoso assunto, elaborou um vasto e substancioso relatorio, indicando os meios mais adequados a adoptar no nosso meio,
afim de se alcançarem os resultados mais proveitosos para a industria agricola da nossa terra.
A selecção e aperfeiçoamento das raças, a criação e tratamento dos gados, a sua instalação higienica, a assistencia veterinaria, as
forragens, a produção de leite, a protecção mutuária e ainda muitos outros interessantes aspectos desta utilissima materia são
tratados nesse relatorio com grande clareza, com o indispensável desenvolvimento e com a mais notavel proficiencia, que
sobremaneira honra o distinto funcionario que o concebeu e redigiu.
Muito seria para desejar que se fizesse uma edição popular desse valioso documento, destinada a ser espalhada pelos nossos
campos e aldeias.
Ao referir-nos, embora rapidamente a este assunto, seria cometer uma flagrante e imperdoavel injustiça não fazer menção dos
excelentes trabalhos insertos em alguns numeros do «Boletim de Informação e Publicidade», publicado pela Junta Nacional dos
Lacticinios da Madeira e dirigido pelo distinto engenheiro Luis Pedro Baptista, trabalhos que particularmente interessam às
relações da agricultura com a pecuaria através da importante industria dos lacticinios.
Os artigos deste «Elucidário»,
Gados, Industria dos Lacticinios, Lacticínios e Pastagens
oferecem a este assunto alguns elementos
aproveitaveis.
Pé de Pau
Gaspar Frutuoso dá este nome a um corsário francês que esteve no Porto do Funchal nos tempos do donatario Simão
Gonçalves da Camara, conde da Calheta. Desembarcaram dos galeões do corsário, que eram em numero de sete, duzentos
franceses, que compraram mantimentos na cidade e venderam muitas cousas que tinham, trazendo a Jaques Soria por seu capitam
para os castigar, se se desmandassem.» Os navios estiveram oito dias no nosso Porto, e durante esse tempo «o capitam Simão
Gonçalves da Camara vigiava e mandáva vigiar a cidade de noute com suas estancias, sem embargo da amizade e paz que o corsario
lhe prometera».
Peacock (G)
Doutor em teologia, deão de Ely e professor de astronomia na Universidade de Cambridge. E.:On the Agriculture
and Tenure of land in Madeira . Este trabalho costuma andar anexo á obra do dr. Mason sobre o clima da Madeira.
Pedra de Ferida
O jaspe (V. este nome) tem esta designação no Porto Santo por ser utilizado às vezes naquela ilha no tratamento
de feridas. Usam-no depois de reduzido a pó.
Pedra Mole
Tufo amarelado que aparece em varias partes da Madeira. Quando reduzido a pó, é muito leve, sendo porisso
facilmente arrastado pelas chuvas. Associado ao saibro, constitui, diz Bowdich, um solo excelente para a vinha.
O peso especifico da pedra mole é, segundo o mesmo autor, 1,95.
Pedro Jose de Ornelas (Avenida de)
É o antigo caminho da Pena, e estende-se desde a antiga rua das Hortas, hoje do Alferes
Veiga Pestana, até á Levada de Santa Luzia.
Pedro José de Ornelas foi presidente da Camara Municipal do Funchal e faleceu a 12 de Janeiro de 1878, com 59 anos de idade.
Pedroso (João António)
Era natural da freguesia do Santissimo nome de Jesus, de Odivelas, e filho de Francisco Antonio Pedroso
e de Inacia Joaquina. Achando-se na Madeira em 1823, foi por motivos politicos deportado para o Porto Santo, onde conseguiu ser
nomeado mais tarde escrivão da Camara Municipal. Introduziu naquela ilha a tamargueira, essencia que se propagou ali com
facilidade e presta aos habitantes grandes serviços, e foi um grande amigo do botanico inglês Lowe, que lhe dedicou o seu genero
Pedrosia, que os botanicos modernos incluem no antigo genero Lotus. Colaborou nalguns jornais madeirenses e faleceu no Porto
Santo, com 68 anos, a 29 de Março de 1869.
Pegador (Echeneis remora)
Peixe escombrida, raro nos nossos mares. É provido na região dorsal dum largo disco, cortado de
laminas transversais, o qual funcionando como ventosa, lhe permite fixar-se ao ventre dos tubarões, às tartarugas, ao costado dos
navios, etc. . É também conhecido pela denominação de chupa-sangue.
Peixe-Agulha (Xiphias gladius)
Grande peixe da familia Xifiida, de vez em quando pescado nos mares vizinhos da Madeira. As
suas dimensões vão até 4 metros de comprimento. A robusta musculatura e a conformação particular do queixo superior, alongado
em forma de esporão, fazem dele um temivel inimigo, ainda mesmo dos mais poderosos habitantes do mar. Os pescadores
madeirenses têm corrido o risco de se perder quando um peixe-agulha lhes atravessa o costado da embarcação com a sua terrivel
arma de ataque. A carne é branca e de sabor muito aceitavel, lembrando a do atum. V. Agulha.
Peixe-Cão (Crenilabus caninus)
Peixe da familia Labrida, pouco frequente nas aguas do arquipélago. É, pela sua côr dum
vermelho brilhante, uma linda especie; o sabor, porém, não lhe iguala a beleza das escamas. Prefere os fundos de rocha,
deslocando-se ao longo da costa, e é pescado até 150 braças pouco mais ou menos.
Peixe-Carneiro (Scorpaena scrofa)
Peixe da familia Triglida, frequente nos mares da Madeira. Varia muito na côr e tem uma
cabeça de forma estranha, que torna esta especie distinta de tôdas as outras que vêm ao mercado. O cranio é eriçado de
prolongamentos espinhosos, entre os quais alguns há que exsudam um veneno segregado por glandulas especiais alojadas na
cabeça. A picada duma destas espinhas pode ter consequencias graves.
O peixe-carneiro tem habitos sedentarios e habita os fundos rochosos. A carne é branca e um tanto dura, mas de sabor agradavel.
Peixe-Cavalo
Em Camara de Lôbos dá-se este nome ao Alepidosaurus ferox, peixe escopelida, conhecido também pela
designação de peixe-agua.
Peixe-Cravo (Lampris luna)
Peixe da familia Escombrida, raro na vizinhança da Madeira, embora alguns autores o assinalem
como comum. É, pelo seu brilhante colorido, uma das mais belas especies do Atlantico e tem o corpo comprimido, podendo atingir
pouco mais de um metro. É pescado entre 75 e 200 braças, geralmente com a linha do atum. Durante o dia conserva-se ao largo,
mas de noite aproxima-se um tanto da costa.
Peixe-Espada
V.Espada branca e Espada preta .
Peixe-Galo (Zeus faber)
Peixe escombrida que aparece ás vezes no mercado do Funchal.
Tem sabor pouco delicado e pescam-no de ordinario com a briqueira ou a gorazeira.
Peixe-Lagarto
Os madeirenses dão este nome ás duas especies seguintes:Saurus lacerta eSaurus griseus . A primeira destas
especies é também conhecida pela denominação de lagarto-do-mar, e a segunda pela de lagarto-de-rôlo.
Peixe-Porco (Balistes capriscus)
Peixe escleroderma que se encontra entre a costa e uma profundidade de cêrca de 30 braças. É
pescado à linha, com a briqueira ou com a agulheira. No Porto Santo é chamado peixe-burro, sendo a denominação de peixe-porco
aplicada ali ao Orthagoriscus mola, da familia Gimnodonte.
Peixe-Rato (Alopecias vulpes)
Pertence á familia Mitsukurinida e é um dos maiores esqualos viajantes que de vez em quando
aparecem nos mares do arquipélago. Pode atingir 5 metros de comprimento e pescam-no entre duas aguas, em geral longe da costa.
Diz-se que é inofensivo para o homem.
Peixe-Rei (Coris giofredi)
Peixe da familia Labrida, que vive junto a costa e se alimenta de pequenos moluscos, crustaceos e
outros mariscos. O sabor é agradavel, embora a carne seja um pouco mole, o que caracteriza tôdas as especies da mesma familia. É
pescado com a cana, o peneiro ou a briqueira.
Peixe-Verde (Julis pavo)
Peixe da familia Labrida, comum ao longo da costa e que prefere os sitios rochosos cobertos de algas,
onde pode encontrar pequenos moluscos, ouriços, crustaceos e outros pequenos animais de carapaça dura que êle despedaça com a
forte dentadura de que se acha armado. A sua carne é um tanto mole, mas de sabor não desagradavel. É conhecido também velo
nome de cagão.
Peixes
Cêrca de 250 especies de peixes têm sido colhidas nos mares da Madeira, sendo muitas delas notaveis pelo brilho das suas
cores ou pela singularidade da sua forma ou estrutura. Nas publicações de Lowe e de Johnson (V. estes nomes), encontram-se
assinaladas as referidas especies, e no presente trabalho mencionamos também algumas delas, tais como o alfonsim, a agulha, as
abroteas, os atuns, a bicuda, o bodião, a boga, o boqueirão, a cavala, as castanhetas, o congro, os chicharros, o cherne, a dourada, a
espada, o gaiado, a garoupa, o goraz, a moreia, o pargo, o peixe-carneiro, o peixe-agulha, o peixe-galo, o peixe-verde, o requeime, a
salema, o salmonete, o sargo, a tainha, a urjamanta, etc..
Os unicos peixes de agua doce que vivem na Madeira são o eiró (V. este nome) e o Cyprinus auratus, mas este ultimo não se
encontra fora dos tanques da região cultivada da ilha.
Subordinado ao titulo «Os Peixes dos Mares da Madeira», publicaram os distintos homens de ciência Adolfo Cesar de Noronha e
tenente coronel Alberto Artur Sarmento, no ano de 1934, um largo e substancioso estudo, que há-de ser proveitosamente
consultado por todos quantos queiram conhecer este interessante assunto, sob qualquer ponto de vista em que êle possa ser
considerado.
Vid. Indústria Piscatória e Pescas
.
Pelourinho
D. Manuel, sendo duque de Vizeu, mandou em 1486 fazer «praça, camara, paço dos taballiães & picota no seu
campo», então chamado do duque, que era o terreno onde estão o largo e a igreja da Sé, a antiga praça da Constituição, a antiga rua
do Aljube e o largo do Comercio ou do Chafariz. Ignoramos se a picota chegou a ser levantada no referido campo, como o foi a casa
da Camara, mas se ai esteve, foi por pouco tempo, e enquanto se não construiu o pelourinho de jaspe «na fermosa praça cercada de
boas casas sobradadas», ao qual se refere Frutuoso a pag. 85 das Saudades da Terra.
O pelourinho existiu no Funchal durante três seculos e meio, sendo mandado demolir em sessão camararia de 3 de Novembro de
1835, por «ser um emblema dos tempos feudais e não estar em harmonia com os costumes actuais, mandando-se guardar as pedras
que se tirarem.»
O pelourinho foi, com efeito, demolido, mas a coluna de pedra que dele fazia parte desapareceu, e o soco da mesma foi parar, não
sabemos como, a uma propriedade no sitio da Pena, que pertenceu ao morgado Pedro José de Ornelas, antigo presidente da
Camara.
Os presos açoutados ou expostos no pelourinho eram atados pela cintura, e era no mesmo pelourinho que se afixavam as ordens
escritas e os editais tanto do Governo como da Camara Municipal. Nos principios do seculo XVII, foi enforcado em efigie, no
pelourinho do Funchal, um tal Francisco Rodrigues Jardim, de origem plebeia, por ter raptado D. Maria de Ornelas, senhora
pertencente a uma das mais nobres familias madeirenses, e lemos num antigo manuscrito que em 28 de Março de 1808 recebeu um
prêto seis açoutes no mesmo local, estando com as costas nuas, percorrendo depois as ruas da cidade, acompanhado da justiça e
duma escolta de soldados.
Na Calheta, na Ponta do Sol, em S. Vicente e no Porto Santo também houve pelourinhos, como se vê das denominações que
conservam os locais onde êles se erguiam, em Santa Cruz parece que o pelourinho ficava junto da igreja matriz, e em Machico, no
largo perto da igreja paroquial, onde existe uma fonte e se vendem agora hortaliças.
Pena (A)
Numero unico dum jornal que, em homenagem ao conselheiro dr. José Leite Monteiro, se publicou em Maio de 1908.
Pena (Caminho da)
Denominação antiga da Avenida de Pedro José de Ornelas e suas imediações. Provém este nome da antiga
capela de Nossa Senhora da Pena, que ali existiu (Vid II-462).
Pena de Agua
É a quantidade de agua precisa para encher um litro ou cêrca de três quartilhos no espaço dum minuto. As aguas
potaveis vendem-se às penas, meias penas e quartos de pena.
V. Manilha.
Pencas
É conhecida por este nome na ilha do Porto Santo a variedade feracissima da Cynara Cardunculus. As partes centrais das
fôlhas desta Composta são comidas cruas pelos habitantes daquela ilha, depois de limpas dos espinhos. Esta planta existe também
no Caniçal e Piedade, onde é conhecida pelo nome de cardo-da-gente.
Penedo do Saco
Rochedo perto da Ponta do Furado, na Ponta de S. Lourenco, de cujo cume escalvado se descortinam as praias
circunvizinhas.
Peneiro
Aparelho de pesca formado dum circulo de ferro a que está ligada uma rêde de arame ou de fio em forma de saco pouco
fundo. Sôbre o circulo, cruzam-se dois fios de arame, onde se enfia a isca. Um cabo destinado a manobrar o aparelho vem atar-se ao
arco de ferro por três pernadas mais delgadas e uma pequena vara de madeira.
Penela (Jacinto do Carmo Sá)
É oficial de fazenda da armada, tendo presentemente o Posto de capitão de mar e guerra, e nasceu
no Funchal a 7 de Dezembro de 1856. É socio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa e antes de se alistar na marinha
de guerra foi empregado na repartição de fazenda do distrito do Funchal. E.:
O Incendio da Escola
Naval (Anais do Club Militar
Naval, 1916) e
Noticia cronologica sobre a Academia das Guardas Marinhas e a Escola Naval
(1921).
Penfold (Jane Wallas)
E.:
Madeira-flowers, fruits and ferns–a selection of the botanical productions of that Islands, foreign
and indigenous, drawn and coloured from nature
; Londres, 1845.
Em 1803, residia no Funchal o negociante inglês Guilherme Penfold e em 1813 havia aqui a casa Penfold & Veitch, sendo de crer
que Jane Penfold fôsse parente daquele negociante, que teve residencia na quinta da Achada.
Penha de Aguia
Eminencia com a forma de uma piramide truncada, que se ergue á beira-mar, entre o Porto da Cruz e o Faial, no
norte da Madeira. É cultivada na parte superior, e o seu ponto culminante está a 580 metros acima do nivel do mar. Só é acessivel
pelo lado de terra, e a vereda que conduz ao alto não é má, apesar de bastante ingreme.
Penha de França (Bataria da)
Ficava nas proximidades da capela do mesmo nome, e foi cedida definitivamente á Camara por
escritura assinada em Abril de 1902. Era, segundo parece, fortificação mandada levantar no tempo do dominio filipino. Esteve
ocupada pelas tropas britanicas e algures se diz que nas suas proximidades se deu a execução capital de um soldado inglês, o que já
referimos a pag. 427 do vol. I desta obra, cometendo-se então um grave atentado contra a soberania do nosso país, apesar dos
protestos das autoridades locais.
Penteada
Sitio da freguesia de Santo Antonio.
Penteado
V.Deserta Grande .
Penumbra Literaria (A)
Publicaram-se oito numeros deste jornal, sendo o primeiro a 1 de Maio e o ultimo a 31 de Agosto de
1877.
Pepineiro (Cucumis sativus)
Cucurbitacea muito cultivada na Madeira. Os seus frutos constituem um alimento refrigerante e
servem para preparar uma pomada que é util no tratamento das feridas.
O pepineiro é semeado em Março e Abril, e nalgumas partes desde Janeiro até Maio. As sementeiras fazem-se em mantas ou
caseiras, e quando as plantas adquirem um certo tamanho, constroem-se caniçadas ou outros quaisquer esteios para que os caules
não rastejem no solo.
Pepinela
Os madeirenses dão este nome ao Sechium edule, planta da familia das Cucurbitaceas a que em Portugal chamam
chuchu ou caiota. Esta ultima designação era muito usada outrora na Madeira, mas hoje está abandonada, tendo mesmo sido
esquecida pelo povo.
Algumas pessoas alheias a estudos botanicos costumam dar o nome de pimpinela á nossa pepinela, quando é certo que não existem
relações algumas entre as duas plantas. A pimpinela de Portugal é uma rosacea (
Sanguisorba minor
) que já vimos cultivada na
Madeira, mas que não se vulgarizou, havendo também um genero de umbeliferas denominado Pimpinella, no qual entram a herva
doce e outras especies.
A pepinela é oriunda da America Central e produz frutos obovados ou obovado-claviformes, verdes ou brancos, com uma unica
semente. A propagação da planta faz-se pelos frutos inteiros, que se metem em covachos nos meses de Janeiro e Fevereiro, umas
vezes deitados, outras com o grêlo para baixo, devendo-se neste ultimo caso vergar o mesmo grelo para que uma parte dele fique
fora da terra.
A pepinela pode viver em certos casos mais de 10 anos, e de ordinario frutifica pouco no primeiro ano. Os seus frutos aparecem no
outono e principios do inverno, sendo os de côr verde os mais saborosos e os brancos os mais proprios para doce.
A pepinela já existia na Madeira nos principios do século XIX, sendo os seus frutos conhecidos então de muita gente pelo nome
estravagante de pepinos nelas, do qual derivou, segundo parece, a palavra pepinela.
Pera-Melão
Solanacea introduzida na Madeira com o nome deSolanum guatemalense , mas que talvez deva ser referida ao S.
muricatum . Produz frutos oblongos e amarelos, cujo sabor se aproxima um tanto do do melão.
Perado (Ilex Perado)
Arbusto de 1 metro a 2m,50, com fôlhas espêssas, mucronadas ou espinulosas no cimo, geralmente
espinuloso-serradas nas margens; pedunculos 1-floros, raras vezes 2-3-floros. É especie rara e que só aparece no Ribeiro Frio, nas
serras de S. Vicente, do Seixal e da Boa Ventura. A madeira desta Aquifoliacea é branca, leve e susceptivel de bom pulido,
empregando-se em embutidos e noutras pequenas obras de marcenaria, depois de fervida em duas ou três aguas para perder tôda a
seiva. Pode tomar a côr azulada se for mergalhada em urina ou qualquer solução amoniacal.
Perdigão (Dr. Jacinto António)
Exercia entre nós o cargo de secretario geral do distrito, quando foi, por decreto de 1 de Julho de
1863, nomeado Governador Civil efectivo, lugar que já antes desempenhara interinamente. Tomou posse a 17 do mês e ano
referidos.
Entre os relatorios que escreveu como Governador Civil, destaca-se o que apresentou á Junta Geral na sessão ordinaria de 1864,
que é um trabalho deveras notavel e que ainda hoje pode ser lido com proveito.
Jacinto Perdigão foi um distinto jurisconsulto, tendo publicado algumas obras de valor.
Perdiz
A perdiz da Madeira é a Caccabis rufa, da familia Fasianida; a do P6rto Santo, é a Caccabis petrosa, da mesma familia. A
primeira habita nas encostas maritimas e no interior, onde se encontram ninhos com 17, 19 e 21 ovos; a segunda é especie
introduzida em 1900, mas que se multiplicou rapidamente no Porto Santo.
A perdiz madeirense é especie que hoje se pode considerar rara (1921).
Peregrinações Madeirenses
Sob a denominação de «Peregrinações Madeirenses», realizaram-se nos anos de 1923 e 1926 duas
excursões em que tomaram parte alguns centenares de pessoas deste arquipélago, visitando os mais celebres santuarios,
monumentos e museus que se encontram em diversos países da Europa. Acêrca da primeira, publicou o padre Jacinto da C. Nunes,
uma interessante descrição em duas dezenas de artigos, insertos na revista
A Esperança
, dos anos de 1924 e 1925, e da segunda, o
conhecido escritor João dos Reis Gomes publicou um desenvolvido relato sob o titulo «Através da França, Suíça e Itália», que é um
primoroso e instrutivo livro de viagens.
Pereira
Por 1460 veio para a Madeira Rui Mendes Pereira, o Tacâo, de alcunha, que casou nesta ilha duas vezes, segundo diz o dr.
Azevedo. Dele procedem muitas das pessoas que usam do apelido de familia Pereira, na nossa ilha. É apelido muito generalizado e
procedente de diversas origens.
No n ° 33 do jornal
a Informaçâo
, de 13 de Agosto de 1931 (Funchal), encontra-se um interessante artigo intitulado «Os Pereiras de
D. Nuno Alvares», em que se pretende provar que o grande Condestavel Nuno Alvares Pereira, hoje beatificado pela Igreja Catolica,
teve larga parentela nesta ilha espalhada em diversas freguesias, merecendo menção especial esta curiosa referencia: «vemos assim
que os Pereiras do Condestavel se misturaram abundantemente na gente da Madeira. No labirinto das ligações genealogicas, o
sangue de Nuno Alvares avulta em quasi toda a população, não só nas familias nobres, mas até naquelas do povo, pois umas e
outras na lenta evolução social se foram amalgamando.»
Pode afirmar-se que este fenomeno se verificou intensamente na Madeira com tôdas as familias, de origem nobre e plebeia vindas
do continente português.
Pereira (César Atanásio da Silva)
Nasceu no Funchal a 5 de Julho de 1864, sendo filho de José Marceliano Pereira e de D. Maria
de Jesus da Silva e frequentou a Escola Politecnica e a Escola do Exercito, sendo despachado 2.° tenente de artilharia a 8 de Janeiro
de 1891. Serviu no regimento de artilharia n.° 2, na companhia n.° 3 de artilharia de guarnição e no regimento de artilharia n.° 4,
sendo requisitado em 1896 para uma comissão de serviço no Ultramar. Tendo partido para Lourenço Marques, chegou aí a 15 de
Janeiro de 1897, oferecendo-se pouco depois para fazer parte da expedição militar organizada na Beira com o fim de castigar o
Cambuenga. Entrou no combate de Gorongoza, em que se revelou um distinto e valente militar, tendo tido porém a infelicidade de
ser atingido por uma bala que lhe fracturou a maxila inferior, ferimento este de que só se restabeleceu em Lisboa, depois de
operado no hospital de S. José. Tendo voltado á Africa em 1889, depois de haver servido novamente em artilharia n.° 4, foi ali
secretario da circunscrição de Manica, vindo a falecer em Macequece, em consequencia duma biliosa, a 27 de Maio de 1901.
Era cavaleiro da ordem da Tôrre e Espada e possuía a medalha militar de prata de serviços distintos no Ultramar.
Pereira (Duarte Sodré)
Data de 15 de Novembro de 1703 a sua nomeação para Governador e Capitão-General da Madeira, tendo
tomado posse do cargo a 20 de Abril de 1704.
Pereira (Padre Eduardo Clemente Nunes)
Nasceu na freguesia de Camara de Lôbos a 23 de Novembro de 1887 e ordenou-se de
presbitero no Continente da República no ano de 1913. Foi professor do liceu do Funchal e tem colaborado em diversos jornais
desta cidade. São da sua autoria:
Delenda est Carthago, discurso
, 1913, de 37 pag;
Golpes, colecção de poesias
, 1914, de 151 pag.;
Manual de Nossa Senhora do Carmo e Santa Thereza
, tradução, de 323 pag.;
Como se Vence
, 1 vol. e
Ilhas de Zargo
, 2 volumes.
Pereira (João António de Sá)
Foi governador e capitão general deste arquipélago no periodo decorrido de 1677 a 1766. 0
comentador das
Saudades da Terra
chama-o o «reformador por excelencia», ficando também conhecido pelo nome de «Pombal
madeirense», quer pelo motivo de haver sido nomeado para este cargo pelo marquês de Pombal, quer ainda pelas reformas que
realizou em muitos serviços públicos durante o governo desse estadista. Entre os serviços que prestou destaca-se o de ter ido
pessoalmente á ilha do Porto Santo pôr em execução o celebre alvará régio dos «Quintos e oitavos», que na época causou a maior
sensação.
Pereira (Joâo Augusto)
Nasceu na vila da Ribeira Brava a 26 de Maio de 1857, sendo filho de Antonio de Sousa da Silva Pereira e
de D. Luísa da Conceição Pereira, e frequentou o liceu do Funchal e as antigas Escolas Politecnica e do Exército, tendo sido
despachado 2.° tenente de artilharia a 7 de Janeiro de 1885. Serviu em Vendas Novas onde foi também professor da Escola Pratica
de Artilharia, tendo passado daí para o Funchal, onde prestou serviço como subalterno e mais tarde, depois de despachado capitão,
como comandante da companhia n.° 3 de artilharia de guarnição. Foi também comandante do material de guerra na ilha da
Madeira, tendo-se revelado em todos os serviços e comissões militares que desempenhou, um oficial muito inteligente, brioso e
disciplinador.
João Augusto Pereira representou a Madeira em côrtes nas legislaturas de 1900, 1902-1904, 1904, 1905-1906, 1900-1907 e 1908-
1910, tendo sido êle quem, na sua estreia politica em 1900 na Camara dos Deputados, chamou a atenção do governo para a
necessidade da conclusão das levadas de irrigação da nossa ilha. O seu discurso mereceu referencias elogiosas do então ministro das
Obras Publicas, o falecido conselheiro Elvino de Brito.
Na mesma sessão legisiativa tomou parte activa na discussão do projecto por êle apresentado e assinado por outros deputados,
relativo à transformação dos serviços das mencionadas levadas, tendo sido êle também quem apresentou em, 1900 o primeiro
projecto de lei pedindo a autonomia administrativa para a Madeira, que não chegou a ser votado pelo facto do governo ter caido
nessa ocasião.
Ao deputado João Augusto Pereira se deve a autorização concedida á Camara Municipal do Funchal para contrair com a Caixa Geral
dos Depositos um emprestimo de 400 contos para as despesas com as obras de canalização de esgotos e aguas potaveis do Funchal,
serviço este relevantissimo, mas de que algumas vereações não souberam tirar o devido proveito, e a êle se deve também o
estabelecimento da rêde telefonica no Funchal, a conservação da divisão comarca do arquipélago, ainda em vigor, que alguém tinha
vontade de alterar, etc., etc..
Dos muitos discursos do deputado João Augusto Pereira, só foi publicado nesta cidade o que êle proferiu na sessão de 17 de Março
de 1903 sôbre o estado anárquico do distrito do Funchal.
Foi professor provisorio do liceu do Funchal e um dos redactores do antigo
Diario Popular
e do
Diario da Madeira
, tendo ocupado
um lugar eminente na imprensa madeirense, entre os jornalistas do seu tempo. O extinto partido progressista, em que sempre
militou, ficou-lhe devendo assinalados serviços, tendo sido um dos mais valiosos cooperadores de seu sogro, o falecido conselheiro
Manuel José Vieira, que, por largos anos, foi entre nós o chefe do mesmo partido.
João Augusto Pereira abandonou a politica depois da proclamação da Republica no nosso país, tendo sido durante os ultimos
quinze anos do regimen monarquico um dos homens que gozaram de maior influencia e prestigio neste distrito, e que defenderam
com mais desinteresse as necessidades do arquipélago.
Faleceu nesta cidade a 22 de Junho de 1915, sendo então major de artilharia, reformado.
Pereira (Padre Joaquim Placido)
Nasceu na freguesia do Seixal a 10 de Dezembro de 1885 e ordenou-se de presbítero em 1909.
Tem exercido funções eclesiasticas em varias freguesias da diocese. Além da sua colaboração em alguns jornais, publicou em Lisboa
o livro intituladoNossa Senhora do Monte, Padroeira da Ilha da Madeira .
Pereira (D. Mateus de Abreu)
Temos encontrado varias referencias a este ilustre prelado como sendo natural da Madeira, onde se
diz haver nascido a 8 de Agosto de 1756. Desconhecemos quaisquer circunstancias pessoais da sua vida, até que o vemos em 1794
apresentado bispo na diocese de São Paulo, no Brasil, sendo confirmado por Bula de Pio VI, de 17 de Junho de 1795 e tendo tomado
posse do bispado a 31 de Maio de 1797. Foi um prelado que prestou assinalados serviços á sua diocese, dizendo Candido Mendes de
Almada, na sua obra Direito Civil Eclesiastico Brasileiro, que êle concorreu muito para a indepedencia do Brasil. Publicaram-se dois
discursos, proferidos por ocasião das solenidades que se realizaram para festejar o aniversário da sagração deste prelado, sendo um
deles do grande orador Monte Alverne.
Faleceu na cidade de São Paulo a 5 de Março de 1824 e foi sepultado na respectiva Sé Catedral.
Pereira (Pyrus communis, sebesp. sativa)
Rosacea-Pomoidea europeia, muito cultivada na Madeira, e que aparece também na
ilha do Porto Santo. Os seus frutos são muito variaveis tanto na forma como no sabor; os mais conhecidos são os que costumam ser
designados pelos nomes seguintes: peras-bergamotas, caniças, condes, flamengas, francesas, carvalhais, de S. João, marmelas,
formigas, brancas e saramanhas. Estas duas ultimas peras e as caniças são as mais procuradas para doce. No Porto Santo só existe a
pêra-caniça.
Pereira Reis (António)
Nasceu no Funchal a 27 de Abril de 1866 e formou-se em direito na Universidade de Coimbra em 1892,
tendo feito antes o curso teologico no Seminario Episcopal do Funchal. Tem exercido a profissão de advogado em Lisboa, onde é
bastante conhecido, e colaborou no antigo jornal O Tempo e noutros periodicos da capital. Fêz parte do antigo partido constituinte
e mais tarde do henriquista, filiando-se no partido democratico depois da implantação da republica em Portugal. No ministerio que
se constituíu em Março de 1916, logo depois da declaração de guerra da Alemanha, foi-lhe confiada a pasta do interior, a qual
deixou nos fins de Maio do mesmo ano. Tem publicado alguns dos seus trabalhos jurídicos.
Pereira Ribeiro (D. António Manuel)
É o actual e 28.° prelado desta diocese, de que tem tido a administração episcopal desde o
ano de 1915.
Nasceu na freguesia de Friande, distrito de Braga, a 16 de Fevereiro de 1879, sendo filho de Duarte Pereira Dias Ribeiro e de D.
Deolinda Rosa da Silva Pereira Ribeiro. Cursou o antigo colegio de São Fiel e terminou a sua formatura na faculdade de teologia da
Universidade de Coimbra no ano de 1901, ordenando-se de presbitero no mês de Outubro do mesmo ano.
Foi professor do liceu de Viana do Castelo e vice-reitor do Seminario de Bragança. Apresentado num canonicato da Sé do Funchal,
tomou posse deste cargo em Junho de 1905. Nesta cidade exerceu o professorado no Seminario Diocesano e foi redactor do antigo
periodico O Jornal.
Tendo falecido o bispo diocesano D. Manuel Agostinho Barreto, a 26 de Junho de 1911, foi logo o conego Pereira Ribeiro eleito pelo
cabido vigario capitular deste bispado, cargo que exerceu até á sua elevação ao episcopado.
Foi nomeado pela Santa Sé prelado desta diocese a 2 de Outubro de 1914, rccebendo a sagração episcopal na cidade de Viana do
Castelo, a 7 de Fevereiro de 1915. Chegou ao Funchal a 7 de Março do mesmo ano e tomou posse do lugar e fêz sua entrada solene
na Sé Catedral, no dia 14 do referido mês de Março.
Pereira da Silva (Padre José)
Nasceu no Porto a 19 de Março de 1874, entrou para a congregação dos Lazaristas em 1890 e
recebeu ordens de presbitero em 1898, vindo neste mesmo ano para a Madeira, onde foi professor e finalmente vice-reitor do
Seminario. Partiu para Hamburgo e daí para Paris a 21 de Outubro de 1910, falecendo nesta ultima cidade a 14 de Junho de 1922. E:
Á memoria de Leâo
XIII;
oraçâo funebre pronunciada na Sé Catedral a 12 de Novembro de 1903
; Funchal, 34 pag..
Pereira da Silva (Manuel)
Nasceu na Madeira a 5 de Setembro de 1862 e é oficial de infantaria, tendo durante algum tempo feito
serviço na extinta guarda municipal. Possui o grau de cavaleiro da Legião de Honra, de França. Publicou a sua alocução intitulada A
preparaçao para a guerra e uma outra pronunciada na cerimonia da apresentação da bandeira nacional aos recrutas dos regimentos
de infantaria 12 e 34, do comando militar da Guarda (1921).
Pereira de Sousa (Francisco Luis)
Nasceu no Funchal a 28 de Setembro de 1870 e é filho do distinto escritor madeirense
Francisco Clementino de Sousa. Tendo-se alistado no exército a 3 de Novembro de 1888, foi despachado alferes de engenharia a 25
de Outubro de 1894, depois de haver cursado com muita distinção as antigas escolas Politecnica e do Exercito. Foi professor da 3.ª
secção (ciencias naturais) da Faculdade de Ciencias da Universidade de Lisboa e membro da Sociedade de Mineralogia de França e
doutras agremiações cientificas. Consagrou-se especialmente a estudos geologicos, mineralogicos e sismologicos, sendo nestes
ultimos a maior autoridade do nosso país. As suas investigações sôbre os efeitos do terremoto de 1755 são verdadeiramente notaveis
não só sob o ponto de vista cientifico, mas também sob o ponto de vista historico. E.:
Subsidios para o estudo dos calcareos do
distrito de Lisboa
(1897);
Elementos de geographia physica da Europa
(1901);
Estudo Geologico do polygono de Tancos
(1902);
Idêa geral dos calcareos empregados nas construçôes de Lisboa
(1904);
Os calcareos do distrito de Leiria (1905); Os calcareos
mais empregados em Portugal (
1908);
Effeitos do terremoto de 1755 nas construções de Lisboa
(1909);
Alguns trechos do
relatorio do engenheiro Rego Lima sobre a sua missão ás minas de Cassinga em 1898
(1911);
Le Raz de marée du grand
tremblement de terre em 1755, en Portugal
(Paris, 1911
); Ideia geral dos effeitos do megasismo de 1755 em Portugal (
914);
0
Megasismo do 1.° de Novembro de 1755 em Portugal–distrito de Faro
(1915);
O Terremoto do 1.° de Novembro de 1755 em
Portugal e um estudo demografico–dos distritos de Faro, Beja e Evora
(1919).
Faleceu em Lisboa a 25 de Setembro de 1931.
Pereiro (Pyrus Marus subesp. hortensis)
Rosacea-Pomoidea
europeia, de ordinario arbustiva, muito cultivada na Madeira. A
macieira é uma das muitas variedades hortenses desta especie, distinguindo-se facilmente do pereiro pelos seus pomos achatados e
providos duma massa mais fina e de sabor mais agradavel. As melhores maçãs vêm da Camacha, de Santo Antonio da Serra e
doutras localidades altamente situadas da ilha, ao passo que os peros se encontram por tôda a parte, sendo alguns deles bastante
saborosos depois de maduros. O pêro-vime, o pêro-estopa, o pêro-doce, a maçã-barral, a maçã-reineta, a maçã-cara-de-cama e a
maçã-pino-de-ouro, são as variedades mais conhecidas na Madeira.
Outrora preparava-se com o sumo ou mosto dos peros ou das maçãs muito vinho que era vendido aos consumidores como vinho de
uvas; hoje é proibida a vinificação desses frutos, mas pode fabricar-se com êles a cidra, bebida agradavel e de que se faz largo
consumo em muitos paises.
Peres (Damião)
Nasceu em Lisboa a 8 de Julho de 1889. Foi durante alguns anos professor e reitor do liceu do Funchal e é
actualmente lente da Faculdade de Letras do Porto. Além dos trabalhos que publicou sôbre D. Joao I e Portugal e o Schisma, deu á
luz da publicidade no Funchal, em 1914, um opusculo intitulado A Madeira sob os donatarios, que interessa bastante á historia
deste arquipélago no periodo decorrido até o comêço do dominio filipino nesta ilha (Vid. II-100).
É autor de importantes estudos historicos entre os quais sobressai a sua Historia de Portugal.
Perestrelo
É um apelido de familia muito antigo entre nós, pois que procede de Bartolomeu Perestrelo, o primeiro donatario e
povoador do Porto Santo. Este era filho de Filipone ou Felipe Perestrelo, que os nobiliarios dão como vindo para Portugal nos fins
do seculo XIV, sendo natural de Placencia, na Lombardia, e filho de Gabriel Perestrelo, fidalgo de linhagem, cujos privilegios foram
reconhecidos no nosso país. É assim descrito o escudo desta familia: «escudo partido em pala; na primeira, em campo de oiro, um
leão de púrpura armado de vermelho; na segunda, em campo de prata, uma banda azul, carregada de três estrêlas de oito pontas
entre seis tosas de vermelho de três em três em pala; timbre o leão do escudo, com uma estrela na espadua».
Perestrelo (Bartolomeu)
É o conhecido primeiro donatario e povoador da ilha do Porto Santo. Têm alguns autores cometido o o
grave de considerarem Bartolomeu Perestrelo como navegador e até como descobridor daquela ilha, sendo talvez levados a isso pela
circunstância de haver sido o seu primeiro capitão-donatario, cargo este que às vezes andava anexo ao facto da descoberta.
Era fidalgo da casa do infante D. João, irmão de D. Henrique, quando este o investiu na donataria do Porto Santo e encarregou do
povoamento e colonização desta ilha.
A carta do infante D. Henrique fazendo a doação da ilha do Porto Santo é de 1 de Novembro de 1446, isto é aproximadamente vinte
anos depois de começar a colonização do arquipélago. Devemos supor que Perestrelo se tivesse estabelecido no Porto Santo com
todos os privilegios e regalias concedidos aos donatarios, e que a mesma carta fôsse apenas a confirmação leal e autentica desses
privilegios. O mesmo devemos acreditar relativamente ás outras duas capitanias da Madeira. Na carta de doação, diz o infante D.
Henrique «Eu dou carreguo a Bertholomeu perestrello, fidalgo de minha casa da minha ylha de porto santo para que elle dito
Bertholomeu perestrello ha mantenha por mim em Justiça & direyto & morrendo elle a mim praz que seu filho primeyro ou algum
se tal for tenha este carreguo pela guisa suso dita y asy de decemdente em decemdente por linha dereyta... tenha. . . jurisdiçom. .. do
ciuell & crime resalbando morte ou talhamento de membro. . . ». Nesta carta se faz menção de diversos direitos, regalias e isenções
concedidos ao primeiro donatario, incluindo a arrecadação de varias contribuições e impostos. A capitania do Porto Santo esteve na
posse e superintendencia dos descendentes de Bartolomeu Perestrela até o tempo em que o dominio filipino, com a nomeação dos
governadores gerais, reduziu os donatarios do arquipélago a uma situação muito subalterna e quasi meramente honorifica,
continuando, porém, a cobrar importantes rendas pelos primitivos privilegios que lhes tinham sido concedidos. Quando Portugal
caíu sob o jugo castelhano, era Diogo Perestrelo Bisforte o 6.° capitão donatario da ilha do Porto Santo.
A capitania do Porto Santo nunca chegou a atingir um grau elevado de prosperidade. A exiguidade do meio, o abandono a que foi
votada pela metropole desde os tempos primitivos da colonização, os frequentes assaltos dos piratas, a má administração de alguns
donatarios e governadores, a enfatuada prosápia de muitos dos seus habitantes, que desdenhavam o trabalho por serem
descendentes de antigos fidalgos, a indolencia dos seus moradores, determinada pelas condições climatéricas e ainda por outras
causas, tudo isso concorreu notavelmente para o pequeno desenvolvimento desta donataria.
No seu opusculo A Mulher de Colombo, ocupa-se o escritor Antonio Maria de Freitas (Nicolau Florentino) com alguma largueza do
primeiro capitão-donatario do Porto Santo, e desse escrito vamos transcrever alguns periodos, que julgamos em extremo
interessantes.
«O desengano que o moço Bartholomeu recebeu, visitando os seus futuros dominios, foi o mesmo em que cairam muitos outros,
tanto nas ilhas como no continente, afferindo a largueza da munificencia régia apenas pela decantada extensão do territorio, pelas
noticias imaginosas da sua fertilidade e pelo nome pomposo do senhorio. Só conheciam o valor do que haviam impetrado, quando
os encargos, a que se comprometteram, ascendendo a verba muito superior ao rendimento local, obrigavam-nos a declinar a
exploração por parcelas o troco de rendas insignificantes, ou a relaxal-as ao abandono, de que ainda recentemente se encontravam
copiosos vestigios por muitos pontos do paiz..
«Levado pela suggestão das apregoadas bondades da ilha descoberta, Bartholomeu não soube o que pediu, talvez ao contrario de
Zarco e de Tristão, cuja segunda viagem mais racionalmente se explica pelo proposito de proseguirem na empreza começada,
depois de deitar os colonos em Porto Santo, ou pelo menos, sondarem e reconhecerem aquellas paragens do Atlantico, do que de se
enterrarem n'uma ilha, cuja área e condições geologicas, embora apreciadas de relance, não os deveriam ter seduzido...
«Bartholomeu não tardou a conhecer, que a imaginação o traira e que déra excessivas largas á sua credulidade. O confronto de
Porto Santo e da nova ilha encontrada por Zarco e Tristão, incomparavelmente Superior á primeira, pelo seu aspecto attrahente e
pela promettedora valentia da vegetação, acabou de o desanimar.
«Voltou pois ao reino, mais provavelmente depois do encontro da Madeira. A causa d'esta retirada e simultaneamente da partida
dos dois outros companheiros para a segunda ilha, é attribuida a uma praga damninha de coelhos, que se desenvolveu na ilha, por
n'ella soltarem uma coelha com crias, havidas durante a viagem. No anno seguinte, se é que mediou um anno entre a ida e a volta de
Bartholomeu, já matarom muy muytos, nom fasendo porem mingua para os estragos, que esmoreciam os colonos, inutilisando-lhes
os trabalhos agricolas.
Este extraordinario poder de procreação, diante do qual a zoologia se curva impotente para explical-o, a nós, profano na sciencia,
não nos causa maior assombro. Os nossos antepassados tinham uma ingenuidade de crêr, sem vêr nem discutir, o que, sob o ponto
de vista da hygiene espiritual, é simplesmente para causar inveja n'estes tempos atribulados de malicia e de suspeição...
«Porto Santo, com a visinhança da Madeira que começou a prosperar a olhos vistos, tornou-se mais attrahente e acompanhado,
encontrando á mão muitos recursos, que as suas ingratas condições locaes não proporcionavam desde logo. Nem mesmo pelo
decorrer do tempo as transformações e correctivos, por que passaram os dominios de Bartholomeu, graças a um insano trabalho,
que o fez baquear bem cedo, e a sacrificios pecuniarios pouco mais do que inuteis, nunca a ilha se extremou por uma linha de
autonomia, economica e ethnographica, que provasse os seus sufficientes progressos materiaes e moraes; quanto mais nos
primeiros annos da sua colonisação...
«Por um dos documentos, sobre que estamos a trabalhar, conclue-se que D. Margarida Martins, mulher de Perestrello, pouco viveu
alem de 1431. O ultimo vestigio, que possuimos, da vida desta senhora é uma carta de D. João I, de 8 de Junho d'esse anno, dando a
ella e a seu marido umas casas de foro na Rua Nova, junto á Porta da Herva.
«Deste casamento não houve filhos, que nos conste, passando Bartholomeu a segundas nupcias com D. Brites Furtado de
Mendonça, da bem conhecida familia d'este appelido, que tambem occupa um logar distincto na historia do archipelago.
«Do segundo matrimonio conhecem-se tres filhas, todas casadas com homens importantes. A primeira D. Catharina Furtado de
Mendonça, foi mulher de Mem Rodrigues de Vasconcellos, commendador do Seixo; a segunda, D. Fillipa de Mendonça Furtado,
desposou-se com João Teixeira, filho terceiro de Tristão Vaz, primeiro capitão donatario da jurisdição de Machico; a terceira, D.
Izeu Perestrello, ligou os seus destinos a Pedro Correa da Cunha, capitão donatario da Ilha Graciosa. «Enviuvando segunda vez,
Bartholomeu Perestrello, que ainda estava um homem relativamente novo, passou a terceiras nupcias com D. Isabel Moniz, filha de
Vasco Martins Moniz, que a esse tempo vivia em Machico, com toda a sua grande casa, como se viu quando tratámos dos Monizes.
«Esta nova alliança, a mais distincta e directamente vinculada ao nosso fito historico, revela de certa fórma a importancia moral de
Bartholomeu e a confiança que inspiravam a seriedade do seu trato e o seu amor ao trabalho. Só quem conhece particularmente
pela velha papelada a fidalguia orgulhosa dos Monizes, disputada em allianças pelas melhores casas da Madeira e do continente, é
que póde avaliar a segurança convicta com que traçâmos esta nota biographica. . .
«Para nobilitar Bartholomeu Perestrello, inventou-se que elle veio de Hespanha para Portugal em 1428 com a mulher de D. Duarte
e logo abaixo que elle foi companheiro de Zargo e de Tristão no descobrimento de Porto Santo em 1418 (!), quando o que ha de mais
seguro a respeito da sua nobreza é a justificação feita por seu pae Filiippone Palestrello em 1399. Para glorifical-o como homem do
mar chega-se até a phantasiar manuscriptos que deixou e conselhos que deu a seu genro Christovão Colombo, estando provado que
elle nunca conheceu o homem com quem havia de casar a sua filhinha Filippa que ficou orphã de pae aos 5 annos de edade...
«Ao donatario de Porto Santo não pertence empunhar a palma de haver descoberto a sua ilha; mas assenta-lhe legitimamente na
cabeça o resplendor de martyr do trabalho, uma das consagrações sociaes mais valiosas de todos os tempos.
«A morte veiu colhêl-o no seu posto, por volta de 1457, tendo elle pouco mais de 50 annos de edade e deixando a familia em
precarias condições economicas, pois que a sua capitania absorvera-lhe tudo desde os dotes de suas mulheres e beneficios, que por
diversas vias alcançou, á propria saude, sem que a tanto capital ali enterrado correspondesse um rendimentO soffrivel para a
manutenção da viuva e de seus dois filhos Bartholomeu e Filippa, orphãos de pae ainda em bem tenra edade.
Fallceu Bartholomeu Perestrello na villa da Baleira, da ilha do Porto Santo, e pelo que se apura de elementos mais fidedignos parece
que ficou sepultado na egreja parochial de Nossa Senhora da Piedade.»
Para maior complemento deste artigo, leia-se o que no 1.° vol. desta obra, a pag. 117 e seguintes se encontra com respeito á vila
Baleira e Município do Porto Santo.
Perestrelo (Bartolomeu)
) Teve, como seu pai, este nome, o segundo donatario do Porto Santo. Casou com Guiomar Teixeira, filha
de Tristão Vaz primeiro donatario de Machico.
V. Donatários.
Perestrelo (Bartolomeu)
Era filho do precedente e foi terceiro donatario do Porto Santo. Casou com Aldonça Delgado filha de
Garcia Rodrigues da Camara, a qual ele matou para se consorciar com D. Solanda, irmã de Tristão Teixeira das Damas.
Por causa dèste crime esteve homiziado, mas por fim «alcançou perdão das partes e se foi livrar ao Reyno.»
Faleceu no Algarve, na idade de 60 anos.
Um filho deste Bartolomeu Perestrelo, de nome Garcia Perestrelo, também matou a mulher sendo por este motivo degolado.
V. Donatarios
.
Pérolas
Na Madeira têm sido achadas pequenas pérolas naHaliotis tuberculata . Em 1909, foi encontrada uma perola cinzenta do
tamanho de uma ervilha, na concha de leque (Pina rudis ).
Perreymond (Charles)
Literato francês falecido no Funchal a 4 de Junho de 1854. Tinha em preparação um livro sobre a Madeira
que a morte lhe não permitiu concluir.
Perrixil (Crithmum maritimum)
Umbelifera glauca e com as fôlhas carnudas e 2-3-penatisectas abundante na costa norte da
Madeira; também tem sido encontrada na Ponta de S. Lourenço, entre o Gorgulho e a Praia Formosa e na ilha do Porto Santo.
Come-se em salada, mas é pouco usada no arquipélago.
Perry
Segundo diz o dr. Azevedo a pag. 529 das Saudades, o apelido de familia Perry procede do inglês Perry, que era mercador no
Funchal, em 1650.
Pesca
No artigo
Industria Piscatória
(II-151 e ss.) dedicámos já a este assunto algumas paginas desta obra e para elas remetemos
o leitor, chamando também a atenção para os pequenos artigos em que se faz a descrição dos diversos aparelhos empregados nesta
industria. Queremos, porém, como uma bela e autorizada síntese desta interessante materia, deixar aqui registado um primoroso
artigo do distinto naturalista Adolfo Cesar de Noronha, publicado no
Diario de Noticias
de 1 de Julho de 1932.
«0 arquipélago da Madeira, como grupo de ilhas essencialmente oceanicas–formadas pela acção ingente dos vulcões submarinos –
não apresenta na periferia dos seus componentes as extensas e planas sapatas submersas que de ordinario se observam ao redor
dos continentes.
O solo submarino imediato é bastante atormentado no relevo e para alem da sonda das 100 braças, que na ilha principal ora apenas
dista meia milha da costa, como se observa a-la-mar da Ponta do Garajau, ora se afasta quando muito 3 ou 4 milhas, como se
verifica ao largo do Porto da Cruz e Ponta do Pargo o fundo caminha rapido para os pélagos de 2000 braças e mais que se
escancaram entre as Canarias e a Madeira, ou entre esta e o continente de Portugal.
Com águas profundas e solo marinho escabroso, o pescador destas ilhas tem de preferir os aparelhos flutuantes de anzol, usando
mais raramente os que exigem o contacto com o fundo do oceano.
Assim, os arrastões a vapor, esses modernos aparelhos de pesca intensiva que á metropole fornecem grande massa de alimento
piscatorio, estão, pela natureza e altura dos fundos, excluídos destas acidentadas regiões insulares.
A maneira dos oceanógrafos, também este pescador rude e embrutecido pelo alcool traçou no mar diferentes zonas batimétricas
para seu uso, numa convenção baseada nos factos observados, que se não afasta, antes coincide com o que a ciencia há já
estabelecido. É um fenómeno interessante do mundo mental popular que bem merece incluir-se no estudo da Sabedoria-do-Povo.
O limite natural da plataforma insular, definida pelos hidrografos a cerca de 100 braças é conhecido dos pescadores pela designação
de bairil ou bairilho, talvez transformação de beiril, que por sua vez parece derivar de beira. Também lhe chamam alguns o sarrilho
do baixo, ou simplesmente o baixo.
Para além desta beira, dizem eles que o mar abica, querendo exprimir que o fundo descai mais rapidamente, e dando ao termo um
significado muito madeirense, pois abicar, entre o povo, corresponde a arremessar de alto, cair repentinamente.
Já na profundeza, e para além da aba do bairil, é de uso distinguirem tres zonas: alto, a altura e o altio.
Em conjunto estas zonas correspondem á parte superior da região abissal dos oceanógrafos que alguns demarcam a partir das 200
braças, avaliando-se aqui as alturas em linhas – a unidade batimétrica do pescador, correspondente a 23 braças pouco mais ou
menos.
O alto pode ser definido desde cerca de 10 linhas ou 230 braças até á fundura de 15 linhas pouco mais ou menos. A altura desde esta
sonda até umas 25 linhas ou 650 braças, profundidade maxima a que o aparelho é levado a tocar o fundo. Finalmente, o altio é a
região que daí se estende indefinidamente, mar fóra, aquela a que também chamam o golfo e em que a linha de pesca atinge muitas
vezes a profundeza de 850 braças e mesmo mais, ficando, contudo, normalmente sempre distante do fundo.
«Na meseta submarina, bem assim a-la-mar da orla, já no grande pendor, pescam-se até aí por 200 braças, as especies geralmente
chamadas costeiras, que, ou são sedentarias e neste caso constituem grande parte do chamado peixe bom; ou são nómadas,
deslocando-se da costa para o alto mar, viajando por toda a parte sem profundarem muito, e merecendo por isso o nome de
costeiras-pelagicas. Estas, por seu turno, umas vezes são simplesmente erraticas; outras vezes de arribação, viajantes de longo curso
um tanto incertos na passagem, como os atuns, que vêm não se sabe donde e vão não se sabe para onde.
Na zona mais profunda são finalmente colhidas as especies abissais, algumas delas de largo rendimento, como o peixe espada preto,
e que não sendo de arribação, fornecem aos mercados um produto certo com que o consumidor pode contar em todo o ano.
Se exceptuarmos o grupo dos esqualos – ou tubarões no sentido mais lato do termo– quasi sempre especies da mais inferior
qualidade que colocamos na terceira categoria, pode dizer-se que o peixe de sabor mais delicado é, na generalidade, constituido
pelos habitantes sedentarios da zona costeira e abissal, ao passo que o de segunda qualidade é representado quasi sempre pelas
especies acentuadamente nómadas, de mais ou menos largos deslocamentos.
A familia mais numerosa em especies e uma das mais numerosas em individuos é a da cavala e atum, sendo também a mais
importante pelo valor economico, embora não entre na primeira categoria quanto ao sabor. Caracteristicamente viajante, este
grupo, representado por 15 especies comestiveis, a maior das quais é o atum rabilho, atravessa indiferentemente as zonas pelágica e
costeira, conforme o impelem as necessidades biologicas de ocasião determinadas pelas correntes, temperatura, plancton, etc..
Segue-se em rendimento a familia dos triquiurideos, com o peixe espada branco, muito acidental nas suas passagens, e o abundante
espada preto, notavel e fiel amigo dos pobres, amigo de todo o ano, arrancado á grande profundeza, mas esta familia só é
representada por cinco especies de valor comercial, pois todas as outras nela incluidas, sendo raras e abissais, quasi só possuem
interesse cientifico.
Mais numerosa do que esta em especies é a estimada familia do pargo, grupo sedentário que nestes mares conta onze membros
seguindo-se-lhe a da garoupa, toda ela apreciada e tambem sedentaria, que contém seis, dos quais dois, o cherne e o robaldo – não
confundir este com o robalo do continente – podem ser considerados abissais.
Com umas seis especies, todas elas viageiras adentro das cercanias, e de certa importancia economica, aparece a familia do
chicharro, menos apreciada: e, com quatro cada uma, apresenta-se a do requême – que não é o requeime, mas sim um dos
cantarilhos dos pescadores de Portugal – e a pescada, especie muito rara nas aguas madeirenses, sendo estas duas familias
consideradas como das mais finas pelo consenso geral dos consumidores.
A do alfonsim – ou imperador do continente saborosa familia da zona profunda, conta apenas três especies e é nela que se inclue o
mais delicado peixe do mercado de Lisboa e mais gostoso de quantos conhecemos, o quási desprezado olho-de-vidro que por ironia
da sorte, até um nome obsceno recebeu das desbocadas varinas da Ribeira Nova!
Este bericidio, tal é o seu nome de familia, não é de todo extranho aos mares da Madeira, mas a sua grande raridade relega-o para o
campo dos valores cientificos que a ictiologia se preza de haver frequentemente rebuscado nesta zona profunda do Atlantico.
Outras familias de peixes osseos tem representação nestes mares, mas por serem de menor importancia abstemo-nos de lhes fazer
referencia especial.
Os esqualos, ou tubarões, representam certo valor. Por serem peixe de somenos qualidade, consomem-no na maior parte as classes
pobres, depois de salgado e seco ao sol, sendo enviado em grande quantidade para o norte da Madeira, onde é comprado como
substituto do bacalhau.
Os figados de quasi todos os peixes deste grupo – por isso chamados peixes de azeite – produzem oleo, usado sobretudo para
alumiar a propria pesca; e a pele de um deles, a da gata – que se não deve confundir, com a gata de Portugal, antes é identica ao que
ali chamam carocho – é utilizada por marceneiros e carpinteiros na lixagem de madeiras, tal qual fazem no continente.
Entre os mariscos avultam as lapas, colhidas principalmente nas ilhas Desertas pelos pescadores da aldeia do Caniçal; e de vez em
quando aparece no mercado um certo caramujo e um determinado caranguejo–crustaceo cosmopolita, de quasi todos os mares,
mas que parece não habitar as costas de Portugal. Também se vende a lagosta e o lagostim, que não são identicos aos seus
homónimos do continente português.
A estes invertebrados comestiveis ha que juntar alguns moluscos sem a casca, como o pôlvo, o chôco, a lula e a pêta, esta ultima
propria do verão e outono e disputada pelos pescadores a alto preço quando já escasseia pelo fim da estação, por isso que é de todas
as iscas a preferida naquela época para a captura do rendoso espada preto.
E, para fecharmos esta rapida enumeração, mencionaremos dois animais de ordem superior – duas especies de tartaruga, uma das
quais é comestivel, mas não constitue pesca organizada, sendo simplesmente apanhada ao acaso».
«A aparelhagem da pesca não é das mais variadas, predominando aqui o aparelho de anzol, como o pedem as condições fisicas do
meio.
Numa sucinta classificação distribuiremos estes aparelhos em três grupos:
De anzol, de rede e covos ou nassas.
Os primeiros, ou tem haste e linha, ou são simplesmente formados de linhas.
Entre os de haste e linha ha-os com um só anzol, como o salto do atum, a vara do gaiado e a cana de pescar; ou com maior ou menor
numero de anzois, e esses são a briqueira e a cherriola.
Entre os aparelhos de anzol, feitos sómente de linhas, há também que distinguir os que são providos de um só anzol, assim a
agulheira e a linha do atum; e os que apresentam muitos anzois e neste caso estão a gorazeira, o espinhel e o aparelho das espadas.
Os de rede reduzem-se a algumas redes de arrastar–tipo de xávega–que de vez em quando funcionam na grande praia da ilha do
Porto Santo e em três ou quatro recantos espraiados da costa sul da Madeira, e ainda algumas redes de atravessar, no geral sem
tresmalho, havendo no entanto um sensivel numero de redes-de-fole, aparelhos em forma de funil, usados na pesca ao lume da
agua, de determinadas especies de pequena dimensão. Ao lado destes há também o peneiro.
Na categoria dos covos existem três tipos, diferentes na forma e no material de construção, que podem ser a cana fendida, a ripa de
pinho o junco ou o vime.
Pouco ha evolucionado a industria da pesca desde o ultimo inquerito oficial a que se procedeu na Madeira ha 42 anos.
Como facto de maior vulto, embora efémero, convém registar o lançamento de uma armação de atum na grande baía da ilha do
Porto Santo.
Experiencia tentada pelo industrial J. A. Judice Fialho durante três anos consecutivos, desde 1910 a 1912, e estabelecida em
conexão com uma fabrica de conserva na ilha da Madeira, teria trazido avultados beneficios à industria pesqueira, se ao mar do
arquipélago se pudessem adaptar aparelhos daquela natureza.
A fabrica, inaugurada em 1909, ficou. A armação, porém, teve de voltar ao Algarve, donde viéra á custa de grande dispendio.
Nos ultimos vinte e cinco anos, um humilde utensilio, consistindo numa lampada a petroleo ou a oleo de peixe, com poder
iluminante muito superior ao das antigas lanternas, veio modificar os usos estabelecidos, com notavel vantagem para a indústria.
O atum que á Madeira arriba no verão, especialmente o atum albacora, (que não é a albacora dos algarvios) é agora, mercê daquela
lampada, colhido á linha durante a noite pelos pescadores do altio, enquanto se ocupam da pesca do peixe-espada.
Ao mesmo tempo, a pesca da ruama – assim chamam ao conjunto da cavala e chicharro quando reunidos em cardume ou ruma –
que dantes so era feita nas aguas litorais com a rede-fole e a velha lanterna, fazem-na agora alguns pescadores, no alto mar, á flôr
da agua como sempre, mas na região do espada preta e mesmo para além. Deslocam-se para longe porque a colheita é por vezes
compensadora, graças ao uso do moderno candieiro de luz forte, embora muito primitivo no aspecto.
É afinal uma autêntica pesca ao candeio, em que o arpão é substituido por uma linha ou uma rêde.
A produção da pesca do espada tem-se intensificado nestes ultimos anos, e para tal aumento, no verão, contribue indirectamente
este candeio que, sobretudo pelas noites sem luar, atrai a pêta–a isca preferida–á superficie do oceano.
Dias ha em que só ao mercado do Funchal afluem dois a três mil espadas, e não há muito esse número excedeu quatro mil, o que
equivale a um peso de 7 a 8 toneladas.
Nas embarcações usadas, bem pequenas quasi sempre, ha, tambem, que registar um pequeno progresso.
Introduziu-se nalguns barcos o motor a gasolina, mas essas embarcações são na maior parte, como todas as de vela, de boca aberta,
isto é, sem coberta corrida, apenas com uma pequena tolda a vante e outra a ré a que chamam leitos.
Com tais barcos, se os naufragios não são mais frequentes é que os mares desta zona são bem mansos e os tufões deveras raros!
«No momento em que escrevemos abarrotam mercados com atum patudo e funciona a conservaria.
É a época da passagem desta especie, em larga escala, quando as correntes e o plancton a trazem às imediações do arquipélago.
Se este atum, á mistura com o atum voador arriba numeroso às águas da Madeira, desde a primavera ao inicio do verão, bem vai o
ano para o pescador, que tira desta arribada o melhor dos seus proventos.
Mas ai deles se passam as bichas – as bôcas-de-panela – esse inimigo fidagal dos atuns que os fere, mata, destroça e põe em
debandada, quando não lhes faz apertado cerco!
Chegaram as bôcas-de-panela! É o brado de desolação que muitas vezes temos ouvido ao pescador cansado, desiludido e faminto ao
varar na praia o pequeno barco ao fim de um dia de canseiras, quando não de tremendos perigos!
Entao, vê ele todas as esperanças cairem por terra, sobretudo se o tigre do oceano, em vez de limitar-se a atravessar estes mares,
persiste no ataque ao atum que passa, como se tem observado em certos anos.
E neste caso é a miséria em inumeros lares de Machico e Paul do Mar, para não falar dos portos de pesca de menor importancia,
nem tão pouco de Camara de Lobos, que esse a mais importante de todos, quando lhe falta o atum, vai á grande profundeza buscar
compensação, dedicando-se áquela sua especialidade de todo o ano, que é o peixe espada preto.
O boca-de-panela ainda não foi identificado. Tudo leva a crêr, porém, que se trata não de um peixe, mas de um mamifero–o
famoso e o feroz cetáceo que infelizmente o pescador do Algarve bem conhece pelo nome de roaz de bandeira.
Afigura-se-nos que um dos meios de dar caça e afugentar tão nocivo animal seria o emprego de armas de fogo e explosivos. Só o
Estado, porém, e nenhuma outra entidade, se poderia encarregar da tarefa, dispondo as coisas do modo mais eficiente e menos
dispendioso. E esta protecção deve-a o Estado ao pobre pescador, não no interesse proprio e imediato, mas tambem no de toda a
comunidade.
De modo geral podemos dizer que, graças à pesca mais intensiva e a certo aperfeiçoamento nos processos, a produção tem
aumentado nestes ultimos anos.
É de notar, porém, que algumas especies litorais dia a dia se tornam mais raras, tendendo para o desaparecimento.
Á bomba explosiva e á abusiva e criminosa redução da malha de certas redes e peneiros se deve este mal, que, se não atinge o peixe
de arribação nem o da grande profundeza, largamente incide nas especies nativas da baixura.
Remediar esse mal é tarefa quasi impossivel. A lei tudo previu, mas a sua aplicação é impraticavel.
O pescador furtivo lançador de explosivos, expõe-se a uma auto-condenação, arriscando-se a perder a vida, ou pelo menos um olho,
os braços, as mãos, como tantas vezes tem sucedido!»
No ano de 1937 foram criadas as «Casas dos Pescadores», que tão relevantes serviços vêm prestando á classe piscatoria, tendo o
decreto de 20 de Agosto do mesmo ano estabelecido as bases do seu funcionamento. Não se fêz esperar muito a fundação de uma
dessas «Casas» na Madeira, devido ás diligencias do então capitão do Porto do Funchal Artur Barbosa Carmona, a qual começou a
funcionar no ano de 1939, tendo postos de socorros nos mais importantes centros piscatorios. Em Machico foi adquirida uma casa
propria para esse fim, cuja inauguração solene se fez a 17 de Julho de 1943. As «Casas dos Pescadores» prestam socorros de
assistencia medica, subsidios aos inválidos e suas familias, manutenção de escola, abrigo para asilados etc., conforme as
circunstancias o forem permitindo.
Na freguesia do Paul do Mar, como já ficou referido, fêz a Junta Geral do Distrito construir dez blocos com cinquenta casas de
habitação destinadas aos membros mais pobres desta classe.
É bastante importante a industria da pesca exercida na Madeira, havendo desembarcado, nos quinze portos em que existe
fiscalização alfandegaria, 2725 contos de réis de diversas especies de peixe no ano de 1941, 3614 contos em 1942 e 4800 contos em
1943, sendo a maior abundancia nos portos do Funchal, Camara de Lobos e Machico.
Vid. Portos de Pesca.
Pescada (Merluccius merluccius)
Peixe gadida que aparece pouco no mercado do Funchal. É de sabor delicado e colhido á
gorazeira ou á cherriola, desde 200 a 400 braças.
Pescadores (Casa dos)
Vid.Pesca .
Peso
Medida que serve para determinar o pêso das cebolas. O pêso corresponde a 52 quilogramas, no Funchal, e a 50
quilogramas, no Caniço.
Pessegueiro (Prunus Persica)
Arvore da familia das Rosaceas, subfamilia das Prunoideas, bastante cultivada na Madeira. É
originaria da China e do Afeganistão, e produz frutos saborosissimos, glabros ou revestidos de pubescencia. Os primeiros
caracterizam a varidade laevis, e são conhecidos pelo nome de pessegos calvos, podendo ter os caroços facilmente separaveis do
sarcocarpo (pessegos calvos molares) ou fortemente aderentes ao sarcocarpo. Nos pessegos revestidos de pubescencia, os caroços
são também, ora muito, ora pouco aderentes ao sarcocarpo, recebendo os primeiros o nome de pessegos burros ou durazios, e os
segundos o de pessegos molares. O pericarpo destes frutos pode ser amarelo ou branco. Os melhores pessegos da Madeira são
produzidos em Santana, na Calheta, no Arco da Calheta e na Fajã da Ovelha; os produzidos no Funchal são em geral de má
qualidade e muitos atacados pelas larvas de varios Dípteros. Os pessegos amadurecem desde Julho até Setembro.
Pessegueiro Inglês (Lippia citriodora)
Arbusto do Chili, muito frequente nos jardins do Funchal e que também é conhecido pelo
nome de verbena. Pertence á familia das Verbenaceas e tem fôlhas lanceoladas, asperas e muito aromaticas. A infusão destas fôlhas
goza de propriedades diüreticas.
Pestana (Dr. Eduardo Antonino)
Nasceu em Camara de Lôbos a 8 de Setembro de 1892 e formou-se em letras em 1918 e em
direito em 1920, na Universidade de Lisboa, tendo também o curso da Escola Normal Superior, que concluíu em 1919. Foi professor
no liceu de Pedro Nunes, em Lisboa, e há tempos que reside no Funchal, onde exerce a advocacia e é professor no liceu de Jaime
Moniz. Enquanto esteve em Portugal colaborou na revista Voz da Juventude, onde escreveu uma serie de trinta artigos sôbre
sincretismo, no Economista Português, na Ordem, etc., e depois de regressar ao Funchal tem publicado muitos artigos no Diario de
Noticias e no Comercio da Madeira. E: A Egreja catolica e os operarios, conferencia feita no «Circulo Catolico dos Operarios», em
Lisboa; Sciencia da Linguagem, conferencia feita na «Academia de Estudos Livres» em Lisboa; e O Estudo do Latim, tese
apresentada na Escola Normal Superior. Prepara um estudo sôbre o folclore madeirense (1921).
Pestana (Joaquim)
Nasceu na freguesia de Camara de Lôbos a 24 de Dezembro de 1840 e foi um distinto poeta, estando os seus
versos disseminados por alguns periodicos do Funchal e da cidade de Ponta Delgada, e pelos anuarios
Novo Almanach de
Lembranças Luso-Brasileiro
,
Almanach das Senhoras
,
Almanach Madeirense
e
Almanach de Lembranças Madeirense
. Deixou
manuscrito um livro intitulado
Espinhos e Flores
, onde se diz que estão reünidas muitas das suas poesias publicadas em varios
almanaques e jornais.
Faleceu na freguesia de Camara de Lôbos a 6 de Fevereiro de 1909, tendo o Novo Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, de que
êle fôra o colaborador durante 38 anos, publicado o retrato do desditoso lirico madeirense, assim como uma pequena noticia a seu
respeito.
Pestana (Luis da Camara)
V.Camara Pestana (Luis da ).
Pestana Junior (João)
Era filho de João Pestana e nasceu na freguesia da Ponta do Pargo nos ultimos anos do século passado.
Cursava a faculdade de direito da Universidade de Coimbra, quando a morte prematuramente o surpreendeu a 21 de Outubro de
1918. Colaborou nalguns jornais desta cidade e nomeadamente no
Diario da Madeira
. Os seus primeiros versos eram reveladores
duma auspiciosa e decidida vocação para o cultivo da poesia. Publicou em Coimbra um volume de versos intitulado
Nevoas de
Lagrimas
.
Pestana Junior (Dr. Manuel Gregório)
) Nasceu na ilha do Porto Santo a 16 de Agosto de 1886 e é filho de Manuel Gregorio
Pestana e de D. Carolina dos Ramos Pestana. É bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra e exerce a advocacia nas
comarcas desta ilha. Tem exercido entre nós varias comissões de serviço público. Representou a Madeira nas primeiras
constituintes que funcionaram de 1911 a 1915 e na sessão legislativa de 1915 a 1917. É vasta a sua colaboração em diversos jornais e
publicou os folhetos
O Problema Sacarino
e
Reconhecimento do Arquipelago da Madeira
(1921).
Foi ministro das Finanças e em 1928 publicou o interessante e erudito estudo historico intitulado D. Cristobal Colom ou Symam
Palha.
Pestana dos Reis (Manuel)
Nasceu na Madeira a 1 de Abril de 1894 e é bacharel formado em direito pela Universidade de
Lisboa, tendo começado porém os seus estudos jurídicos na Universidade de Coimbra. Frequentou o seminario do Funchal antes de
se matricular na faculdade de direito. Como estudante, cultivou com amor a poesia, publicando em 1913 um auspicioso volume de
versos intitulado
Canções de Tristes
. Neste se faz referencia á proxima aparição dos volumes
A avosinha
e
Canções da Ilha
, que nos
parece não terem sido publicados. Tem tido larga colaboração em varios jornais de Coimbra e do Funchal (1921).
Peste
O flagelo da peste que em antigos tempos repetidas vezes salteava Portugal, também se fêz sentir com grande intensidade na
Madeira no primeiro e no segundo quartel do seculo XVI. Frutuoso, o historiador das ilhas, refere-se a êle nos termos seguintes:
«No ano de 1521, quando El-Rey D. Manuel faleceu, havia no Funchal grande mortandade de peste, de que Deus nos livre; e porque
bavia annos que ella andava na cidade, o Capitão Simão Gonçalves e a Camara elegeram por sortes por Padroeiro da mesma cidade
ao Apostolo Santiago Menor, ao cabo da qual lhe fizeram uma boa casa, onde foram em procissão. E porque, sem embargo disso a
peste não cessava, no anno do Senhor de 1538 inspirou Deus em todos, como em hum coração a vontade, que não houvesse
Guardas Mores, nem Menores, e na mesma procissão que se fez por seu dia o primeiro de Mayo, lançaram pregão que todos os
feridos deste mal, e os sãos fossem juntamente misturados a sua casa, onde lhe offereceram no altar as varas dos Guardas, as quaes
hoje ahi estão por memoria; e quando tornaram, vieram os feridos todos sãos; e daquelle dia até hoje pelos merecimentos do
Bemaventurado Santiago, não houve mais peste na ilha da Madeira, bemdito seja o Senhor! Pelo que, se faz em lembrança desta
mercê muita festa a este Santo por seu dia, como que fora Corpo de Deus.»
Do que diz Frutuoso a pag. 221 das Saudades da Terra, se vê que a peste que assolou a cidade do Funchal não atingiu a vila de
Machico, visto que aí estiveram o bispo D. Ambrosio e dois visitadores até o dia de S. Tiago, no mês de Maio, em que «passado o
perigo do mal contagioso, vieram os mesmos visitadores á cidade e executaram em toda a ilha seu officio, não com aquele mimo em
que o bispado estava criado, antes com muito rigor e aspereza ...»
O bispo D. Ambrosio voltou a Portugal apenas cumpriu na Madeira a missão de que fôra encarregado; quanto aos dois visitadores
foram menos felizes, pois que, tendo escapado á peste, vieram a morrer num naufragio na costa de Sines, quando também
retiravam para o reino, depois de terem cometido na ilha as maiores violencias para desfazer «os calos que os vicios tinham feito
nas almas dos delinquentes», como diz o dr. Gaspar Frutuoso.
Peste Bubónica
Já a pag. 404 do vol. II, no artigo Motins populares, nos referimos aos casos de peste bubonica que se
manifestaram ao Funchal no mês de Novembro de 1905 e aos factos anormais que se lhes seguiram, motivados pela convicção em
que estava o povo, não só de que aquela molestia não existia na ilha, mas de que os doentes internados no Lazareto eram
assassinados pelo dr. Balbino do Rêgo e o pessoal enfermeiro, com o consentimento das autoridades locais. Ao que então dissemos,
só temos a acrescentar agora que os exames bacteriologicos realizados em Lisboa confirmaram plenamente a afirmativa do dr.
António Balbino do Rêgo acêrca da existencia da peste bubonica na Madeira, só havendo a estranhar o misterio em que se procurou
envolver tudo quanto se passava dentro do Lazareto, o que deu ensejo a que corressem na cidade e fora dela as noticias
disparatadas e fantasiosas a que no citado artigo fizemos referencia. Se se fornecessem esclarecimentos completos e precisos a
tôdas as pessoas que procuravam informações sôbre o estado dos doentes internados no estabelecimento, é de supor que se não
tivessem dado os acontecimentos do dia 7 de Janeiro de 1906, dos quais no entretanto, não resultaram para a saúde publica os
prejuízos que muitos vaticinavam.
Disse-se que o povo matara a peste, e, de facto, depois do referido dia 7 de Janeiro nenhum caso novo daquela molestia foi
registado no Funchal, apesar dos doentes terem andado nos braços dos seus libertadores e de aos seus domicilios terem acudido
muitas dezenas de pessoas para os verem e lhes falarem.
Foi a politica regeneradora, no intuito de preparar o terreno para uma futura vitoria eleitoral, quem mais concorreu para fazer crer
ao povo que se praticavam no Lazareto os mais nefandos crimes, mas o que se apurou depois dos acontecimentos a que nos
referimos, é que os doentes foram sempre ali bem tratados, tanto pelo director como pelo pessoal enfermeiro, queixando-se apenas
do rigor dos isolamentos e do incomodo que lhes causavam os preceitos higienicos que eram forçados a cumprir.
V. Doenças, Motins populares e Rêgo (Dr. António Balbino do).
Peto (Tetraptures belone)
Peixe que aparece muitas vezes no mercado e cuja carne, semelhante á do atum, é saborosa.
Phelps (José)
Homem de negocio inglês, que veio para a Madeira nos fins do século XVIII. Estabeleceu á sua custa uma escola
pelo sistema de Lancaster e concorreu bastante para a fundação da Associação Funchalense do Ensino Mutuo, da qual foi eleito
tesoureiro. Retirou para Inglaterra nos principios do terceiro quartel do século XIX e aí faleceu depois de 1863. V. Escola
Lancasteriana, Page e Phelps (Rua do).
Phelps (Rua do)
Comunica a rua do Bettencourt com a do Carmo, hoje de Costa Ferreira, e foi aberta em 1856, a expensas do
negociante inglês José Phelps, que teve residencia no grande predio onde estiveram acomodadas a casa comercial de Krohn
Brothers & C.ª e depois a Junta Geral (1921).
Em 1788, havia na Madeira a casa comercial de Phelps & C.ª e em 1804 a de Phelps, Page & C.ª. Em Fevereiro de 1920, estiveram
no Funchal três descendentes do ramo feminino da familia Phelps, e pela mesma época foi vendido a Sardinha & C.ª e a Joaquim
José da Silva Vieira o predio que pertencera a José Phelps.
Piazzi Smyth (C.)
(C.) E.:Madeira Meteorologic ; Edinburgh, 1882, I vol..
Piccone (A)
)E.:Crociera del «Corsaro» alle Isola Madera e Canarie del Capitano Enrico d'Albertis ; Génova, 1884.
Picken (Andrew)
E.:Madeira illustrated, with a description of the Island ; Londres 1842. Esta obra contém 9 magnificas
estampas, representando diversos pontos da ilha, e é precedida duma descrição feita por James Macaulay, em virtude de
esclarecimentos fornecidos por Cirilo W. Page e José Phelps.
Pico (Castelo de S. João do)
«0 castello de S. João, do Pico, diz o Dr. Azevedo, é a noroeste da cidade do Funchal, sobranceiro a
ella e ao porto, na eminencia do Pico dos Frias. Este ponto e o da Pena já eram indicados no regimento de D. Sebastião, como
feichos das muralhas para defeza terrestre; mas a edificação filippina foi talvez talhada para defeza maritima também. Dois dos
manuscriptos que possuimos da historia deste archipelago referem que o castelo do Pico fora principiado pelo governador-geral D.
Francisco Henriques: ora este tomou posse do governo em 28 de Outubro de 1622 e falleceu em 23 de Julho de 1624; uma lapide
que está na praça d'armas, commemora o governador-geral Luiz de Miranda Henriques Pinto como o edificador do resto da obra; e
este, conforme aquelles manuscriptos, entrou no Governo em 6 de Junho de 1636, e deixou-o em outro igual dia de 1640; é portanto
claro que o castelo de S. João, do Pico, foi construido entre 1622 e 1640».
No alto da porta exterior que fecha o terreno adjacente à fortaleza, lê-se a era 1632, e sabe-se que foi tenente da mesma fortaleza,
por carta de 4 de Dezembro de 1655, o espanhol Benedicto Catalão, que por 30 anos pertencera ao presidio castelhano nesta ilha.
Dissemos a pag: 184 do 1.° vol. desta obra que a Camara Municipal não chegou a aproveitar-se da concessão da fortaleza do Pico,
que obtivera do Governo pelo tempo de 10 anos, para a instalação provisoria da cadeia da comarca, mas o que deixámos de dizer é
que muitos anos antes, em 1821, foram os presos transferidos para a mesma fortaleza, conservando-se aí até serem ultimadas as
obras de adaptação a cadeia da parte inferior do edifício, hoje demolido, do largo da Sé, que pertenceu ao casal de D. Guiomar
Madalena Acciaioly.
V. Paços do Concelho, Cadeia e Fortificações
.
Pico (Fortaleza do)
«A fortaleza do Pico, na ilha do Porto Santo, era, diz o dr. Azevedo nas notas ás
Saudades da Terra
, mais um
refugio que uma praça». Gaspar Frutuoso tratando em 1590 do Pico do Castelo, não diz que nele houvesse castelo, mas que lhe
davam este nome por ser de si mesmo «forte e defensavel.» As fortificações que ali existiram e estão hoje destruídas, foram
levantadas durante o governo filipino «após a terrivel carnificina e pilhagem, diz o sr. A. A. Sarmento, efectuadas pelos mouros em
1617».
Há trinta e tantos anos havia ainda no alto do pico restos das antigas fortificações e uma cisterna destinada a abastecer de água
aqueles que aí se refugiavam por ocasião das investidas dos piratas. (1921).
A fortaleza do Pico do Castelo teve condestavel no tempo de Felipe II e em 1805 mandou o governador Manuel Inacio de Avelar
Brotero buscar lá a telha que cobria ainda as edificações, para a aproveitar no consêrto do quartel da vila e da sua residencia.
Pico dos Barcelos
Como já ficou referido (I.127), é esta elevação montanhosa, situada na freguesia de Santo Antonio, lugar
preferido de visita para os forasteiros, em virtude do surpreendente panorama que ali se desenrola sobre todo o anfiteatro do
Funchal. Como padrão das festas centenarias comemorativas da Independencia e da Restauração de Portugal, fêz a sociedade
«Juventude Antoniana» da referida paroquia, levantar neste local um interessante cruzeiro, que foi solenemente inaugurado no ano
de 1941 e que se tornou mais um motivo de atracção à visita desse sitio, ligado ao centro da cidade por uma excelente e concorrida
estrada.
Picos
Os mais notaveis ou conhecidos da ilha da Madeira são os seguintes:
Metros
Pico das Aboboras............................................ 1.453
Pico do Arco de S. Jorge................................... 837
Pico do Areeiro............................................ ... 1.796
Pico do Arrebentão, no Monte........................ 1.171
Pico dos Bodes, na Beira do Curral................. 1.135
Pico dos Bodes, perto da Ribeira da Janela... 1.302
Pico do Canario....................................... 1.661
Pico do Cardo......................................... 438
Pico do Castanho...................................... 627
Pico do Cidrão........................................ 1.676
Pico da Cruz, em S. Martinho.......................... 263
Pico da Cruz, no concelho de Camara de Lôbos.......... 936
Pico do Facho, em Machico............................. 329
Pico das Favas........................................ 420
Pico dos Ferreiros de Fora............................ 1.405
Pico da Fonte da Bica................................. 1.565
Pico da Fonte do Norte................................ 1.546
Pico Gordo, no concelho da Calheta.................... 1.199
Pico Grande........................................... 1.643
Pico da Lagoa, perto do Poiso......................... 1.451
Pico da Maia, no concelho de Machico.................. 765
Pico do Poiso......................................... 1.393
Pico do Poço da Neve.................................. 1.478
Pico Ruivo, em Santana................................ 1.950
Pico Ruivo do Paul.................................... 1.626
Pico de Santo Antonio, perto do Curral................ 1.739
Pico de S. João, no Funchal........................... 158
Pico da Silva, acima da Choupana...................... 1.183
Pico da Suna.......................................... 1.041
Pico dos Tanquinhos................................... 1.588
Pico dos Terreiros de Fora............................ 1.405
Pico das Tôrres, cêrca de............................. 1.830
Pico das Torrinhas.................................... 1.823
Pico da Urze.......................................... 1.406
Na ilha do Porto Santo são conhecidas as altitudes dos seguintes picos:
Metros
Pico de Ana Ferreira................................278
Pico Branco............................................. 423
Pico do Calhau da Malhada.................... 182
Pico do Castelo........................................ 441
Pico do Facho.......................................... 507
Pico do Facho da Malhada...................... 265
Pico da Gandaia ou da Atalala................ 492
Pico de Juliana..................................... …455
Vid. cada um destes nomes e Altitudes.
Piedade
Com o nome de Monte Gordo ou da Piedade, existe uma elevação sobranceira ao mar, na freguesia do Caniçal,
destacando-se no alto a capela de Nossa Senhora da Piedade, que é avistada a grande distancia pelos navios que demandam a costa.
Afirma-se que foi fundada no século XVI por Garcia Moniz, primeiro administrador do morgado do Caniçal, passando a sua posse
para a casa vinculada de São Gil, que tinha o seu solar no sitio da Calçada, na freguesia de Santa Cruz.
Piedade
Sitio povoado da freguesia do Jardim do Mar, onde se encontra a capela de Nossa Senhora da Piedade com solar adjunto,
pertença da casa vinculada dos Coutos Cardosos. Foi instituída em 1730 pelo morgado João do Couto Cardoso e reedificada pelo
seu sucessor Francisco João de Vasconcelos de Couto Cardoso no ano de 1825.
Pimenta de Aguiar (Manuel Caetano)
) V.Aguiar (Manuel Caetano Pimenta de ).
Pimenta de Aguiar (Rua)
É a via publica que comunica a rua da Carreira ou do Dr. Vieira, com a rua das Cruzes ou de João
Joaquim de Freitas, tendo recebido o nome por que é conhecida e que representa uma homenagem ao poeta Manuel Caetano
Pimenta de Aguiar, em sessão camararia de 24 de Outubro de 1895.
O poeta madeirense Manuel Caetano Pimenta de Aguiar teve residencia em frente da rua da Bela Vista, no predio que pertence hoje
aos herdeiros do conselheiro Manuel José Vieira (1921).
Pimenteira (Capsicum frutescens)
Arbusto da familia das Solanaceas e originario, ao que parece, da America, muito cultivado na
Madeira. Os seus frutos ovado-oblongos ou ovado-conicos, vermelhos, são excitantes e usam-se como tempêro nas cozinhas. O
Capsicum baccatum, de frutos pequenos e globosos, aparece nalgumas hortas do Funchal e é conhecido na ilha pelo nome de
malagueta. As sementes negras e redondas a que os madeirenses chamam pimenta de fora, provêm do Piper migrum, arbusto
trepador da familia das Piperaceas, desconhecido na Madeira, mas frequente na India. China, Java, Bornéu, etc..
Pimenteira da India (Schinus Molle)
Arvore do Perú, com os ramos pendentes e as fôlhas compostas, com grande numero de
foliolos estreitos e de cheiro apimentado quando esmagados entre os dedos. Nas quintas e jardins do Funchal aparecem individuos
masculinos e femininos do Schinus molle, os quais florescem quasi todo o ano.
Pina
Gaspar Frutuoso a pag. 50 dasSaudades da Terra , cita os Pinas entre a gente fidalga e nobre que povoou a Madeira.
Pinheirinho (Equisetum maximum)
Equisetacea facil de reconhecer pelos seus caules brancos, pelas, suas bainhas com 20 a 40
dentes e pelos ramos dos seus caules estereis verticilados (20 a 40 em cada verticilo). Encontra-se nos lugares úmidos em S.
Vicente, S. Roque, etc. A infusão desta criptogamica goza de propriedades diureticas.
Pinheiro (D. Diogo)
Na propria Bula da criação desta diocese Pro excellenti preeminentia, de 12 de Junho de 1514 (vol. 1.°, pág.
363), se faz a nomeação de D. Diogo Pinheiro para primeiro bispo do Funchal. Pertencendo este arquipélago à Ordem de Cristo e
sendo D. Diogo Pinheiro um dos mais graduados membros dela, donde exercia o elevado cargo de D. Prior e Vigario de Tomar, que
era a sede da Ordem, estava indicado para ocupar o novo solio episcopal que se instituira dentro daquele poderoso organismo e na
área da sua jurisdição espiritual, que se estendia até aos confins do oriente.
O primeiro prelado funchalense nunca veio ao seu bispado e certamente que ao ser investido no novo cargo não pensara em
atravessar o oceano e apascentar pessoalmente o seu rebanho. O grande prestigio e influencia de que gozava na côrte e os lugares de
conselheiro de estado e de desembargador do Paço que desempenhava, não lhe permitiram assumir directamente o governo
episcopal da nova diocese.
Não descurou, porém, a administração do seu bispado. Pouco mais dum ano depois da criação deste, mandou a esta ilha o prelado
D. Duarte (vol. I, pag. 382), que aqui exerceu tôdas as funções episcopais e sagrou a nossa Sé Catedral no ano de 1516. Outros
visitadores enviou a esta diocese, encarregados de vigiar pela disciplina canonica e de superintender nos diversos serviços
eclesiasticos. Faleceu em 1526 tendo governado 12 anos este bispado.
D. Diogo Pinheiro pertencia a nobres e distintas familias, sendo filho do dr. Pedro Esteves Marques e de D. Isabel Pinheiro. Foi D.
Prior de Guimarães conselheiro de D. Manuel e desempenhou os cargos que já ficam mencionados. Alexandre Herculano põe em
relêvo as suas qualidades de caracter tendo a coragem de condenar publicamente a perseguição movida aos judeus e de os defender
com a fôrça da autoridade e do prestigio de que gozava. Mais notavel foi ainda a sua atitude perante a condenação do duque de
Bragança D. Fernando, justiçado em 1483, por ter conspirado contra a vida de D. João 2.º Sustentou na côrte que o duque era
vitima duma grande injustiça e escreveu o Manifesto da innocencia do duque de Bragança D. Fernando II, que vem inserto nas
Provas da Historia Genealogica, de D. Antonio Caetano de Sousa.
Morreu D. Diogo Pinheiro em Tomar, no ano de 1526, sendo ali sepultado e «hoje jaz, diz Vieira Guimarães na notavel obra Ordem
de Christo, em soberbo e lindo tumulo na capella-mór da egreja de Santa Maria dos Olivaes».
Pinheiros
Os primeiros que se cultivaram na Madeira foram os pinheiros mansos (
Pinus Pinea
); os pinheiros bravos (
Pinus
Pinaster
) parece que foram introduzidos no ultimo quartel do século XVIII, sendo para estranhar que só tão tarde começasse a ser
cultivada na ilha uma essencia tão util ao homem.
Em 19 de Setembro de 1807, dizia-se em sessão da Camara Municipal do Funchal terem dado da America alguns moios de pinhão,
mas sem ser indicada a especie a que este pertencia, e em 29 de Agosto de 1812 resolvia a mesma corporação mandar vir quatro
moios de semente de pinheiro das melhores qualidades de Portugal.
Em 26 de Outubro de 1821, propôs ã Camara o mester Severiano Ferraz que se encomendassem 100 alqueires de semente de
pinheiro bravo e 100 de pinheiro manso para sementeiras na ilha, e em 15 de Março de 1822 resolvia a mesma Camara tornar
publico por editais que tinha um moio de pinhões bravos para repartir pelos lavradores, e que estava á espera de dois moios de
pinhões mansos para terem o mesmo destino. Em 18 de Setembro de 1823, afixaram-se editais comunicando ao publico a chegada a
esta cidade duma porção de pinhões destinados a serem distribuidos pelos agricultores.
A 12 de Janeiro de 1830, foi autorizado o tesoureiro do concelho a mandar vir dois moios de pinhão para sementeiras nos lugares
convenientes tendo em sessões de 17 de Janeiro de 1837 e 20 de Setembro de 1839 mostrado a Camara mais uma vez o interesse
que lhe merecia a arborização das serras e baldios concelhios.
Durante a administração do conselheiro José Silvestre Ribeiro vieram para a Madeira grandes porções de penisco, que ele fêz
distribuir pelas Camaras Municipais e proprietarios rurais, sendo a partir de então que a cultura do pinheiro bravo principiou a
tomar grande incremento na ilha. A cultura desta especie ocupa agora uma area que supomos não ser inferior a 2.000 hectares,
enquanto a do pinheiro manso está hoje abandonada ou quasi abandonada (1921).
O corte dos pinheiros maritimos realiza-se em geral aos 12 e 15 anos, mas aos 6 anos já os caules delgados destas arvores são
aproveitados para apoio dos feijoeiros e aos 8 para construção de latadas ou corredores. Como os pinheiros são semeados em geral
muito juntos, precisam duma limpeza ao fim dalguns anos, sendo as varas que então são cortadas vendidas aos agricultores para os
referidos fins.
A operação da gemagem ou resinagem não nos consta que fôsse nunca praticada no arquipélago, ao menos para fins industriais.
É uso semear o penisco desde Janeiro até Março, sendo preferidos os dois ultimos meses para as sementeiras nos terrenos elevados,
para que os pinheiros ao nascer não sejam prejudicados pelo granizo que muitas vezes aparece durante os meses de inverno. Com o
penisco, costumam muitos cultivadores semear o trigo, a cevada, o centeio ou a giesta, os quais servem de abrigo aos pinheiros
novos, tanto contra os raios do sol como contra os ventos, a chuva e o granizo, que podem quebrá-los ou desarreigá-los.
Além do Pinus Pinaster ou pinheiro bravo, e do P. Pinea ou pinheiro manso existem na Madeira o Pinus halepensis e o P.
canariensis, tendo esta ultima especie sido introduzida de Tenerife em 1837.
O pinheiro bravo existe no Porto Santo, em terrenos não calcareos, ao passo que nos terrenos calcareos cultiva-se hoje ali com bom
resultado o Pinus halepensis.
Pintainho (Puffinus obscurus)
Ave da familia Pufinida, vizinha do boieiro, do qual se distingue pela sua menor estatura e em ter
os pés azulado-acinzentados, em vez de cor de carne. Vive em tôdas as ilhas do arquipélago, sendo comum nas Desertas, e é
conhecido também pelo nome de pintelho, por causa dum grito particular que se lhe ouve durante o vôo. Ausenta-se muitas vezes
durante a estação quente e costuma depor nas fendas das rochas um só ovo branco, de ordinario sôbre o solo nu.
Pintarroxo (Acanthias cannabina)
Ave da familia Fringilida que vive no arquipelago madeirense. Forma grandes bandos durante
o inverno e a sua postura consta de 4 a 6 ovos dum branco levemente azulado, com manchas avermelhadas. Os seus ninhos são
formados de raizes sêcas e revestidos na parte interna de pelos de animais e cabelos.
Pintassilgo (Carduelis carduelis)
Ave da familia Fringilida que nidifica na Madeira, mas que não tem sido achada nas outras ilhas
do arquipélago. A sua postura consta de 4 ou 5 ovos dum branco levemente azulado ou esverdinhado, com pintas côr de tijolo. O
ninho compõe-se de raizes delgadas no exterior e lã e outros materiais macios no interior.
Pinto
Procede este apelido de familia de Lopo Fernandes Pinto e de Gonçalo Pinto Alcoforado, ambos de nobre ascendencia. O
primeiro veio habitar na Madeira por meado do século XV e faleceu em 1500; o segundo passou a viver nesta ilha por 1500 e fêz
assento em Machico onde faleceu. Lopo Fernandes Pinto teve terras de sesmaria em Santana e em S. Jorge.
Pinto (Acácio Augusto Correia)
Foi nomeado Governador Civil do distrito do Funchal por decreto de 14 de Novembro de 1921,
tomando posse do lugar no dia 23. Retirou para Lisboa a 20 de Fevereiro de 1922.
Pinto (Dr. Deâo João Joaquim)
Nasceu na freguesia do Porto Moniz a 4 de Março de 1851. Era bacharel formado em teologia pela
Universidade de Coimbra, concluindo a formatura em 1879 e neste mesmo ano se ordenou de presbítero. Exercia o professorado no
Seminario Arquiepiscopal de Evora, quando em 1888 foi apresentado num canonicato da Sé do Funchal sendo depois elevado ao
cargo de deão da mesma Sé. Entre nós, foi professor e vice-reitor do Seminario, vigario-geral e algumas vezes governador do
bispado tendo desempenhado outras comissões de serviço, como presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa, etc..
Era homem de larga ilustração e duma grande aplicação ao estudo, sendo especialmente versado em materias teologicas, de que foi
um distinto professor. Aos dotes de inteligencia, aliava uma grande austeridade de caracter, que o impunham á consideração e
estima dos seus conterraneos.
Foi redactor do jornal
a Verdade
e
publicou Documentos para o subsídio ao estudo do direito civil ecelesiastico portugues
, 1894, 2
vol. de 379 e 537 pag. e
Evangelho de S. Mateus
, 1901, de 136 pag.
Morreu nesta cidade a 11 de Fevereiro de 1919.
Pinto Coelho (Frederico)
Era filho de Joaquim Pinto Coelho e de D. Maria Carlota de Ornelas Linhares Pinto Coelho, e nasceu no
Funchal a 28 de Maio de 1851.
Foi amanuense da Administração do Concelho do Funchal e secretario da Administração do Concelho de Evora, tendo depois de se
aposentar neste ultimo cargo voltado á Madeira, onde desempenhou por algum tempo o cargo de administrador do concelho de
Camara de Lobos. Foi redactor e colaborador de diversos jornais madeirenses, e em 1881 publicou no Funchal um opusculo de 40
pag. intitulado Sudario Negro, que é uma diatribe contra o prelado D. Manuel Agostinho Barreto. A êle respondeu o padre Antonio
Aires Pacheco com o folheto O Sudario Negro no banco dos réus.
Faleceu no Funchal a 2 de Janeiro de 1916.
Pinto Coelho (Jacinto)
Nasceu no Funchal a 7 de Outubro de 1847 e é irmão do precedente. Foi por largos anos professor
particular de instrução primária e em 18 de Dezembro de 1884 foi nomeado aspirante temporario da Alfandega do Funchal, tendo
presentemente nesta casa fiscal a categoria de sub-inspector. Tem colaborado em grande número de jornais da terra, e
modernamente no Diario de Noticias, recomendando-se os seus artigos pela correcção e elegancia com que sempre são escritos
(1921).
Pinto Coelho (Luis de Ornelas)
Na freguesia de São Pedro desta cidade, nasceu Luís de Ornelas Pinto Coelho a 21 de Fevereiro de
1843, sendo filho de Joaquim Pinto Coelho e de D. Maria Carlota de Ornelas Pinto Coelho. Julgamos que não possuía diploma
algum literario, ainda mesmo o da instrução primaria, mas soube suprir com um perseverante amor á leitura e ao estudo aquela
deficiencia, chegando a ter entre nós uma verdadeira supremacia no campo literario e jornalistico. Teve uma vasta colaboração em
muitos jornais madeirenses, nomeadamente no Diario de Noticias, podendo afirmar-se que neste periodico, como seu redactor, no
periodo de algumas dezenas de anos, publicou muitos e muitos centenares de artigos, que dariam uma duzia de grossos volumes.
Raramente enviava para o jornal qualquer escrito que não fôsse o artigo de fundo ou de polemica, tendo a sua prosa uma forma
elegante e correcta, que despertava especial agrado. Sustentou rijas pugnas na imprensa, em que, como sempre acontecia então
entre nós, as demasias de linguagem não eram raras entre as duas partes contendedoras.
Luís Pinto Coelho teve entre nós o primado da poesia. Embora dum lirismo um pouco antiquado e talvez fora da sua epoca, é certo
que ninguém o excedeu na cadência harmoniosa do verso e na beleza impecavel da forma. Era sem contestação um inspirado e
distinto poeta. Coligiu algumas das suas composições poeticas, publicando os volumes Harpa Madeirense, 1896, Folhas Dispersas,
1899, e o folheto em verso, a Reacção e o Progresso.
Esteve no Brasil ao tempo da guerra do Paraguay, tendo publicado diversas poesias no Diário do Grão Pará, e no Funchal
desempenhou por largos anos o lugar de chefe do corpo da Policia Civil. A rua de João Joaquim de Freitas teve, antes de receber
esta denominação, a de Luís de Ornelas Pinto Coelho.
Morreu nesta cidade a 17 de Março de 1920.
Pinto Correia (Armando Eduardo)
Nasceu no Estreito de Câmara de Lôbos a 3 de Setembro de 1897, sendo filho de Guilherme
Pinto Correia e de D. Inacia Augusta de Seixas Alves Correia. Freqüentou as Faculdades de Ciencias de Lisboa e Coimbra, e depois a
Escola de Guerra, sendo actualmente tenente da companhia de metralhadoras do regimento de infantaria n.° 27. Foi mobilizado
para o C. E. P. e passou alguns tempos nas trincheiras de Kadingham, onde se achava um batalhão inglês, sendo louvado
superiormente pelo serviço que prestou ai (1921).
Desde 1911, tem colaborado em varios jornais do Funchal, Ponta Delgada, Coimbra e Lisboa, distinguindo-se sempre pela elegancia
e colorido da sua prosa. Foi director da Vida Academica (1913), redactor principal do Jornal de Coimbra (1916) e publicou em 1921
o opúsculo Um Poeta em frangalhos.
Dedicando-se á vida colonial, residiu alguns anos na nossa provincia ultramarina de Timor no exercicio de funções públicas e ali
prestou relevantes serviços, que foram muito apreciados nas estações superiores da metropole. Publicou dois primorosos livros: O
Gentio de Timor e Timor de lés a lés. Encontrando-se há pouco tempo na provincia de Moçambique, faleceu em Quelimane a 29 de
Janeiro de 1943.
Pinto Feio (Dr. Carlos José Baeta)
Foi nomeado Governador Civil deste distrito por decreto de 18 de Dezembro de 1917, tomando
posse do lugar a 5 de Fevereiro do ano imediato.
Pintos (Rua dos)
Teve outrora esta denominação a parte da actual rua da Carreira ou do dr. Vieira compreendida entre o largo da
Igrejinha e a rua de S. Francisco.
Piorno
Duas são as especies conhecidas por este nome na Madeira: a Genista maderensis e a G. virgata. A primeira é um arbusto
ou pequena arvore de 1m,50 a 5 metros, com as fôlhas 3-foliadas e os folíolos pequenos, assetinado-pubescentes, raras vezes
subglabros na pagina superior; a segunda é um arbusto que pode atingir 2m,50 de alto, com as fôlhas muito pequenas, afoliadas,
assetinado-pubescentes e esbranquiçadas. Estas duas Leguminosas, pertencentes ambas á subfamilia das Papilionadas, têm flores
amarelas, dispostas em racimos. A G. maderensis aparece nalgumas ravinas do interior e entre S. Vicente e S. Jorge; a G. virgata é
freqüente nos arredores do Funchal, na Ribeira de Santa Luzia, no Jardiní da Serras etc.. A madeira desta especie, usada
exclusivamente para embutidos, é pesada, dura e compacta, a principio dum branco amarelado, depois dum castanho avermelhado;
a daquela, perfeitatnente desconhecida dos marceneiros é branca ou dum branco amarelado. A
Genista maderensis
, usada ás vezes
para a nutrição dos animais domesticos, é, contrariamente ao que supôs Masferrer y Arquimbau, uma especie perfeitamente
distinta da «gacia» de Canarias (
Cytisus stenopetalus
}.
Pipa
A pipa denominada de embarque, por ser aquela de que se faz uso na exportação dos nossos vinhos, contém 418 litros, e a
pipa denominada carreteira, 500 litros. O decreto n.° 5492 de 2 de Maio de 1919 fixou em 55 litros a quantidade de alcool
necessario ao tratamento duma pipa de vinho, de 500 litros.
Pires
Em 1566, vivia no Funchal um tal Gonçalo Pires, que exercia o emprêgo de escrivão dos contos e em 1471 tinham aqui
residencia Diogo Pires e Francisco Pires, sendo possivel que fôssem estes três individuos que trouxessem o apelido de familia Pires
para a Madeira.
Pires (António Augusto da Silva)
Foi nomeado Governador Civil do distrito do Funchal por decreto de 9 de Junho de 1921,
tomando posse do lugar no dia 19. Saiu para Lisboa a 18 de Julho do mesmo ano.
Pita (Dr. António de Luz)
Foi o dr. Antonio da Luz Pita talvez o mais abalizado clinico que tivesse nascido em terras madeirenses.
No seu tempo, ninguém entre nós lhe contestava a supremacia intelectual em assuntos de medicina e cirurgia, e não sabemos que,
antes ou depois dele, outro medico mostrasse mais comprovada competencia no exercicio da clinica. Poderá talvez citar-se o dr.
João Francisco de Oliveira, médico de D. João VI, o dr. Julião Fernandes da Silva, autor da
Carta Critica sôbre o Metodo Curativo
dos Medicos Funchalenses
e ainda o conde de Canavial, que deixaram fama de clínicos abalizados, mas não temos razões para
acreditar que se tivessem avantajado ao dr. Antonio da Luz Pita, ainda mesmo com relação ás épocas em que viveram,
especialmente por êle haver sido ao mesmo tempo um grande medico e um habilissimo cirurgião.
Oriundo de familia humilde, nasceu o dr. Antonio da Luz Pita na vila da Ponta do Sol a 2 de Setembro de 1802. Concluídos nesta
cidade os estudos secundarios, dirigiu-se a Montpellier e ali tomou o grau de bacharel em letras em 1826, o de bacharel em ciencias
fisicas em 1827 e o doutoramento em medicina em 1830. No ano seguinte, recebeu o grau de doutor em cirurgia na faculdade de
Paris.
Tendo contraído matrimonio em Montpellier com uma senhora das mais distintas familias daquela cidade, pretendeu em 1833
regressar á patria acompanhado de sua espôsa, quando ao tocar em Gibraltar se convenceu dos graves perigos a que se expunha,
entrando num país, onde a guerra civil estava então no seu periodo mais agudo. Demorou-se em Gibraltar até a convenção de
Evora-Monte e aí exerceu com exito a clínica, tendo, contra a opinião dos médicos inglêses, classificado de colera-morbus uma
doença suspeita que ali aparecera, cujo diagnostico se confirmou depois plenamente. Prestou por essa ocasião relevantes serviços, o
que levou o governo britanico a conceder-lhe o diploma de cidadão de 1.ª classe, com o direito de residencia em Gibraltar, o que
então constituia a mais alta distinção com que ali se podia agraciar um estrangeiro.
Na Madeira exerceu os lugares de delegado de saúde e de lente da nossa Escola Medica, em que brilhantemente revelou as altas
qualidades do seu espirito. Na qualidade de professor e director do nosso primeiro estabelecimento de instrução, teve que sustentar
uma prolongada luta com o dr. João da Camara Leme. Depois Conde do Canavial, homem de caracter e de raros meritos, mas de
temperamento violento e conflituoso, que em varios opusculos atacou duramente o dr. Antonio da Luz Pita, como lente da Escola e
tambem como delegado de saude do distrito.
O dr. Luz Pita, que entre nós gozava de grande prestigio e influencia, representou a Madeira no parlamento nas sessões legislativas
de 1851 a 1852 e de 1853 a 1858, advogando com desinteressada abnegação as prosperidades e o engrandecimento da sua terra.
Era deputado e achava-se em Lisboa, quando ali constou que no Funchal começara a grassar a terrivel epidemia da colera-morbus.
Solicitando do governo central os mais imediatos e urgentes socorros, partiu sem demora para a Madeira, no vapor de guerra
«Mindelo», a ocupar o seu lugar de delegado de saúde, acompanhado de alguns medicos e enfermeiros, sendo tambem o portador
de uma grande copia de medicamentos, de muitas roupas, leitos, enxergas, etc., além do crédito extraordinario de seis contos de
reis, destinado a ocorrer as primeiras despesas com a montagem dos serviços clinicos e hospitalares. Nele encontrou Gromicho
Couceiro o seu mais valioso e eficaz auxiliar, andando o nome do dr. Luz Pita intimamente ligado á memoria de aquele benemérito
e nunca esquecido governador. Em tão calamitosa epoca, prestou os mais assinalados serviços como clinico, como chefe dos
serviços de saude, como homem de grande prestigio e influencia e ainda pelos prontos socorros que alcançou do governo da
metropole. No meio dessa campanha humanitaria em que andava empenhado e inteiramente absorvido, veio feri-lo um
tremendissimo golpe–a morte da esposa, D. Angela Delmas, vitimada pela epidemia.
No artigo
Hospicio da Princesa D. Maria Amelia
(vol. II, pag. 128) pusemos em relevo os serviços que o dr Antonio da Luz Pita
prestou á imperatriz D. Amelia na fundação daquela casa de caridade, na montagem do hospital e sua direcção clinica e ainda como
representante nesta ilha da augusta e ilustre fundadora. Para la remetemos o leitor, evitando deste modo escusadas e enfadonhas
repetições.
Como politico, sustentou lutas na imprensa com os seus adversarios, sendo director e colaborador de alguns jornais, como o
Archivista
,
a Ordem
e
a Razão
. Publicou os seguintes opusculos:
Proposições sobre a vacina, tese inaugural defendida na faculdade de Montpellier Vantagens da reunião imediata por meio da
sutura depois das operações cirurgicas, tese inaugural sustentada na faculdade de Paris; Excisão do colo do utero, operação feita
em Lisboa em 1848
;
Lições feitas na Escola Medica do Funchal sobre a colera-morbus
;
e Relatorio Historico e estatisco sobre a
invasão, desenvolvimento e mortalidade da epidemia colerica na Madeira
.
Escreveu varios relatorios sobre o serviço clinico do hospicio da Princesa D. Maria Amelia, alguns dos quais foram publicados, e
tambem uma
Nota sobre uma modificação do estetoscopio
, lida na academia de medicina de Paris, que não sabemos se viu a luz da
publicidade.
Foi um dos membros fundadores da Sociedade das Ciencias Medicas de Lisboa e pertenceu a varias sociedades cientificas do
estrangeiro. Além dos cargos de lente e director da nossa Escola Medica e de delegado de saude, desempenhou entre nós as funções
de presidente da Camara Municipal do Funchal e de membro da Junta Geral.
Tinha a carta de conselho e varias mercês nacionais e estrangeiras.
Morreu nesta cidade a 23 de Fevereiro de 1870.
Pita (Dr. Nicolau Caetano de Bettencourt)
V.Bettencourt Pita (Dr. Nicolau C .).
Pita (Dr. Pedro Góis)
Nasceu no Funchal a 26 de Maio de 1891 e e filho de Antonio Felix Pita e de D. Maria da Conceição Góis Pita.
É bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra e depois de ter exercido a advocacia na Ponta do Sol e nesta cidade,
onde também teve o cargo de notário, foi nomeado conservador do registo predial duma das comarcas de Lisboa, e ali se consagra
igualmente a vida do foro. Como deputado, representou a Madeira no Parlamento nas legislaturas de 1919-1921 e 1921 e foi
novamente eleito deputado por este arquipelago em Janeiro de 1922.
É oficial das ordens de S. Tiago e de Cristo, tem colaboração em diversos jornais e foi nesta cidade um dos fundadores e redactores
da
Revista de Direito
. Publicou no Funchal um folheto intitulado
A Expropriação do Montado do Barreiro. . . e em Coimbra o
volume Pratica d'Advocacia
, prefaciado pelo dr. José Alberto dos Reis (1921).
Foi ministro do Comercio e do Trabalho, é sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e tem publicado diversos trabalhos
jurídicos e literários, entre os quais podemos enumerar os seguintes:
Estudos de Direito
,
Na Vida do Fôro
,
Comentarios ao Codigo
do Registo Predial, Novo Codigo do Registo Predial Anotado
,
O Direito na Pratica
,
O Contrato de Colonia
na
Madeira
,
A
Demencia e Gente que passa
.
Pitangueira (Eugenia brasiliana)
Pequena arvore originaria do Brasil muito cultivada no Funchal. Pertence á familia das
Mirtaceas e produz frutos deprimidos e sulcados, de sabor acídulo.
Pitão
Grande
. V.Selvagens .
Pitão Pequeno
V.Selvagens .
Piteira (Agave Americana)
Amarilidacea cultivada e subespontanea na Madeira. As suas folhas longas e carnosas, ás vezes
amarelas nas margens, mergulhadas em agua por alguns dias e batidas depois, dão uma fibra bastante rija que é empregada no
fabrico de cordas.
Planaltos
Os planaltos ou planicies situadas em elevações montanhosas não podem ser muitos e de grande superficie, em virtude
da área relativamente pequena desta ilha e do inverosimil acidentado dos terrenos que a constituem em quasi tôda a sua extensão.
Do
Diccionario Universal Portuguez Ilustrado
transcrevemos: «Quatro planaltos principais tem esta ilha: o de Santo Antonio da
Serra, ou, vulgarmente, do Santo da Serra, no qual ha uma lagôa, no concelho de Machico; o da Achada de Santa Ana, no concelho
d'este nome; o do Paul da Serra, ou, simplesmente, o Paul, que é o mais amplo, nos limites dos concelhos de S. Vicente, da Ponta do
Sol e do Porto Moniz; por ultimo, o planalto das Achadas da Cruz; ou, méramente as Achadas, no concelho do Porto do Moniz, que
é o de menores dimensões: a lagôa parece uma cratera extinta; mede 66 metros de diametro e 40 de profundidade. Ha lindissimas
vargens no concelho».
Plantas da Cidade
Na
Funchal Bay
publicada pelo Capitão Vidal em 1843, aparece o plano do Funchal nessa época, e o mapa da
Madeira, de William Johnston, publicado em 1775, tem anexo uma planta, em pequena escala, da cidade, levantada pelo Capitão
Skinner. O primeiro destes trabalhos serviu de base a tôdas as cartas do Funchal, publicadas posteriormente em diversas obras
estrangeiras relativas à Madeira.
Em 2 de Abril de 1893, mandou a Camara abrir concurso de 60 dias para a arrematação dos trabalhos do levantamento da planta da
cidade, tendo estes trabalhos sido adjudicados ao Consultorio de Engenharia, do qual faziam parte os engenheiros Carlos Roma
Machado de Faria e Maia e Adriano Augusto Trigo. A planta ficou concluída em 1895, e custou ao Município cêrca de 9 contos de
réis, importancia esta que acabou de ser paga a 16 de Maio do mesmo ano.
As pranchetas da planta da cidade acham-se guardadas num cofre de ferro, adquirido pela Camara para tal fim.
Em 6 de Setembro de 1897 resolveu a Camara adquirir por 700$000 réis uma redução da referida planta, feita pelo engenheiro C.
Roma e Maia, sendo uma copia dessa redução enviada pouco depois aos engenheiros da Direcção das Obras Publicas do Distrito,
encarregados então dos estudos da canalização de aguas e esgotos da cidade, e ficando o original arquivado na repartição municipal
competente.
Depois disso, outras copias foram tiradas da referida planta reduzida, tendo uma delas, ou o respectivo original, servido de base ao
Guia Panoramico da Madeira
, publicado há anos pelo dr. Luís Rodrigues Gaspar e Francisco Bento de Gouveia, e á
Planta da
cidade de Funchal contendo todos os melhoramentos realisados até 1911
, elaborada pelos engenheiros Adriano A. Trigo e Anibal A.
Trigo
V. Cartas geográficas.
Plátano
O plátano cultivado na Madeira é o
Platanus orientalis
, e não o
P. Occidentalis
, como erradamente tem dito todos os
botanicos que se tem ocupado da nossa flora. É uma arvore que pode atingir 35 metros de alto, com flores monóicas, as
estaminadas e as pistiladas em ramos distintos e reünidas em capitulos globosos. A madeira do platano é clara e ondeada; quando
bem sêca é excelentemente acomodada á marcenaria. Não nos consta que tenham sido observadas na Madeira as irritações de olhos
a que se referem alguns autores, provocadas pelos pêlos das fôlhas novas do plátano.
O plátano prospera não só no Funchal e arrabaldes, onde já existia nos fins do século XVII, mas também nas ravinas do interior; no
alto das serras, porém, desenvolve-se mal, parecendo ressentir-se dos ventos fortes que sopram ai amiudadas vezes.
Poço (Largo do)
É o largo junto do campo do Almirante Reis, onde desemboca a rua de Santa Maria. Tem um chafariz, com um
certo aparato arquitectonico, que é abastecido actualmente com águas dos Tornos, mas que antes de 1911 só fornecia aguas
subterraneas, que eram extraidas do subsolo por meio duma bomba. A curta distancia ficava a antiga igreja de Nossa Senhora do
Calhau.
Poço Novo (Rua do )
(
Rua do
). Denominação antiga da rua que hoje se chama dos Tanoeiros «Desta rua dos Mercadores, diz Frutuoso,
alem da rua Direita, se vê outra não tão comprida, e de outras logeas de menos tracto, como é fructa, panno de linho e cousas de
fancaria que vem de fora, no cabo da qual está um poço, pelo que se chama rua do Poço Novo».
Poços da Neve
São grandes cavidades abertas pelo homem no solo de alguns pontos da montanha, e que eram destinadas a
receber granizo que cai durante o inverno nas partes levadas da ilha.
Os poços da neve estão hoje abandonados, mas eram êles que forneciam durante o verão gelo necessario para o fabrico dos
sorvetes, antes de serem introduzidos na Madeira os aparelhos por meio dos quais se obtém artificialmente a congelação da água.
Nas proximidades do Pico do Areeiro e Serra de S. Roque, encontram-se alguns poços da neve, uns muito arruinados, outros em
bom estado de conservação.
Poejos (Mentha pulegium)
Labiada indigena, freqüente na Madeira e no Porto Santo. Emprega-se em infusão como expectorante
e emenagogo.
Poemas
sobre a Madeira
. São inumeras as composições em verso que cantam e enaltecem as belezas da paisagem da Madeira, o
maravilhoso acidentado e o relêvo caprichoso do seu solo, a incomparavel benignidade do seu clima, a variedade, o encanto e a
fragrancia das suas flores, etc. tornando-se de todo impossivel reüni-las e mesmo ainda fazer de entre elas uma selecção das que
mais avultem pela alteza do conceito ou pelo aprimorado da forma. Queremos apenas referir-nos aos poemas que exclusivamente se
ocupam deste arquipélago e que são os seguintes:
Insulana
, de Manuel Tomás. . . , Anvers, 1635;
Zargueida
. . ., por Francisco de
Paulo Medina e Vasconcelos, Lisboa, 1806;
The Ocean Flower...,
by T. M. Hugues, Londres, 1845; e
Auto da Lenda
, por J. Brito
Camara, 1943. Em outros lugares deste Elucidário se encontram referencias a estes três poemas, um dos quais escrito na lingua
inglêsa, e alguns dados biográficos respeitantes aos seus autores.
Poesia Popular
Não é do folclore madeirense que pretendemos ocupar-nos neste lugar, esperando que no Suplemento desta obra
possamos dizer alguma cousa acêrca deste interessante assunto! Socorrendo-nos para isso dos estudos a que entre nós tem
procedido o dr. Eduardo Antonino Pestana. Também não queremos agora referir-nos ás narrativas em verso, de que o dr. Alvaro
Rodrigues de Azevedo fez larga colheita, publicando a preciosa colecção que se chama
Romanceiro do Archipelago da Madeira
. É,
nesta ocasião, muito restrito o ponto de vista em que nõs colocamos para a elaboração deste pequeno artigo.
Quando um acontecimento extraordinario apaixona a alma popular e a leva a exteriorizar rüidosamente os sentimentos que a
dominam, logo se manifesta o espontaneo e rude estro do povo, e então liras ingenuas aparecem a cantar, em alambicadas endechas
ou a verberar em rubras canções de indignação, os sucessos que provocaram essa paixão e as circunstancias que lhe deram vulto e
relêvo na mente encandescida das multidões. Mais duma vez se tem observado este facto entre nós, mas duma maneira
verdadeiramente notavel se manifestou êle por ocasião da chamada Peste do Lazareto, a que já aludimos a pag. 224 do II volume e
77 deste volume. A poesia popular simples, ingenua e incorrecta, mas espontanea, veemente e apaixonada, expandiu-se
profusamente em muitas composições, que, em pequenos opúsculos e fôlhas avulsas, eram compradas e avidamente lidas por
individuos de tôdas as classes sociais. A febre da inspiração poetica, incendiou muitas imaginações e foi verdadeiramente
assombrosa a fecundidade dessas produções em verso, não podendo os prelos dar saída á multidão das poesias que então se
escreveram.
Damos a nota dalgumas dessas composições, que obsequiosamente nos foi oferecida
: Farça do Lazareto
, de 13 pag.,
Sonho dum
Machiqueiro
, de 9 pag.,
Auto da Peste
, de 16 pag.,
O dr. Rego no Inferno
, de 8 pag.,
O Dedo da Providencia
, de 8 pag.,
A Peste no
Funchal
(versos do Feiticeiro), de 7 pag.,
A Peste Balbinica
,
A Peste no Funchal
,
A Panelinha da Peste
e um medroso,
Os Primos do
dr. Rego
,
O dr. Rego enforcado
,
Confissões do dr. Rego
,
Os Pestilenciais
no Funchal
,
A Despedida
,
Canção da Peste
,
Má Peste dê
nos Pestes
,
Farças e
Farçantes
, 1.ª 2.ª 3.ª e 4.ª partes,
O Bicho desapareceu
,
Viva o dia 7 de Janeiro de 1906
, 0
Ultimo Suspiro
,
Assalto ao Lazareto
,
A Peste no Funchal no dia 7 de Janeiro de 1906
,
Partida,
etc. etc..
Como geralmente acontece, o povo arrastado e ludibriado por vis especuladores, cometeu nesta triste conjuntura os mais
lamentaveis excessos, que bem eloqüentemente se manifestaram nas produções que ficam apontadas, em que os desmandos da
linguagem andam a par dos excessos praticados.
Os folhetos em prosa também tiveram larga voga e as campanhas na imprensa periodica, com raras e honrosas excepções,
acompanharam em quantidade e qualidade essas demasias da exaltada lira popular.
Poiso
A cêrca de 10 quilómetros de distancia da cidade e aproximadamente a sete da Igreja Paroquial do Monte, mas dentro dos
limites da freguesia da Camacha, levanta-se a melhor casa de abrigo das nossas serras, que tem o nome de Casa do Poiso, por se
achar no conhecido sitio do mesmo nome. É um lugar muito transitado, pois, a estrada que o atravessa põe em comunicação o
Funchal com várias freguesias do norte da Madeira. Sendo um lugar bastante desabrigado e exposto a freqüentes vendavais,
mandou o benemerito governador civil José Silvestre Ribeiro edificar neste local, no ano de 1850, uma casa de abrigo para os
viandantes, que tem prestado os mais assinalados serviços e livrado de morte inevitavel a muitas das pessoas que por ali
transitaram. A antiga estrada que atravessava este lugar, pondo-o em comunicação com o encantador e muito freqüentado sitio do
Ribeiro Frio e várias freguesias do norte, foi notavelmente melhorada, havendo-se estabelecido carreiras regulares de automovel
entre o Funchal, o Poiso e o Ribeiro Frio. Existe também uma estrada, já transitada por automoveis, entre o Poiso e a aprazivel
estancia do Santo da Serra, crendo-se que dentro de pouco tempo se possa atingir a freguesia de Santana. A Casa de Abrigo do Poiso
está provida com uma Cabine Telefónica. Acêrca dos excelentes serviços que ela presta, e da sua fundação, deixámos já uma
desenvolvida noticia a pag. 195 do vol. I desta obra.
Oferece particular interesse a este assunto o artigo que um dos autores do Elucidário Madeirense, publicou no Diário da Madeira, e
que vamos transcrever:
«Quem nunca atravessou as serras da Madeira, durante a estação invernosa, não pode fazer ideia de quanto o frio é alli intenso em
certos dias e de quão grande é a violencia com que n'essa região se desencadeiam os temporaes.
A temperatura, que na cidade do Funchal raras vezes desce abaixo de 7 graus, póde, nas serras, ser, em alguns casos, de 2 e 3 graus
abaixo de zero, e se o posto do Areeiro, para vergonha nossa, não estivesse votado ao mais completo abandono, estamos
convencidos de que seria frequente registarem-se alli velocidades para os ventos de 60 e 70 kilometros por hora, as quaes
rarissimas, vezes são observadas na região baixa da ilha.
Não é só o granizo que cahe a miudo nas serras da Madeira, durante a estação invernosa; também a neve em floco se observa nas
altas regiões algumas vezes, sendo então o frio intensissimo e dificil de supportar.
Na serra do Poiso, um dos pontos da montanha mais frios e mais açoutados pelos temporaes, muitas foram as pessoas que
morreram n'outras epochas por falta de abrigo e de soccorros, e caso identico se daria ainda hoje se o benemerito conselheiro José
Silvestre Ribeiro, quando governador civil do districto, não tivesse procurado remediar tamanho mal, mandando construir n'essa
serra, um pouco além da fonte das Moças, uma casa destinada a recolher os viandantes em todas as estações do anno e a qualquer
hora do dia ou da noite.
A casa de abrigo denominada do Poiso foi edificada em 1851, e desde então tem ella estado sempre aberta ao público que por ahi
transita e que encontra n'esse edifício um abrigo seguro contra o frio e as tempestades da montanha.
N'um officio datado de 6 de outubro de 1851 recommendava o fallecido conselheiro José Silvestre Ribeiro á camara municipal do
Funchal que se entendesse immediatamente e sem perda de um momento com a camara de Sant'Anna sobre as quotas com que
cada uma deveria contribuir para a sustentação a dar a um homem e familia que residisse na mesma casa e se encarregasse de
prestar aos viajantes o auxilio e soccorros de que estes carecessem.
Recommendava ainda o mesmo governador, no referido officio, que a escolha de quem tivesse que morar na casa a que alludimos e
ter as incumbencias que ficaram mencionadas, fosse feita com o maior escrupulo, afim de sómente ser collocada alli pessoa ou
familia de reconhecida probidade e capaz de compenetrar-se dos deveres que lhe assistiam em logar tão ermo e distante dos
povoados.
Não sabemos quem foi o primeiro guarda que teve a casa d'abrigo do Poiso; o que sabemos é que o penultimo que alli esteve foi
demittido pelo seu desmazelo e pouco cuidado com a limpeza, passando desde então o edifício a ficar sob a superintendencia do sr.
Caminata que n'elle introduziu ou vae introduzir alguns melhoramentos de reconhecido interesse para o publico (1921).
Além do rez-do-chão, onde se acham os quartos do guarda, a taberna e uma grande cosinha, tem a casa um primeiro andar com tres
divisões, sendo a do lado sul bastante espaçosa. Na cosinha existem algumas tarimbas destinadas á gente rude dos campos; o
primeiro andar serve geralmente para as pessoas d'uma certa cathegoria que queiram pernoitar no edifício.
Segundo os regulamentos, o guarda deve ter sempre pão, vinho, aguardente e café para fornecer aos viandantes. Tambem é
obrigado a ter um depósito de lenha e a prestar a todos os necessitados o socorro possivel.
As obras da primitiva casa do Poiso foram arrematadas pela quantia de 1.442$950 réis, mas posteriormente outras verbas se teem
consumido em melhoramentos e accrescentamentos no edifício. Tal qual elle se acha hoje, preenche perfeitamente o fim a que é
destinado, podendo mesmo servir para estação de polícia florestal, se houvesse empenho em pôr termo aos abusos dos lenheiros e
carvoeiros que devastam as nossas serras» (1921).
Polícia
A direcção dos serviços de segurança pública no Funchal esteve durante séculos a cargo do alcaide, funcionario que no
tempo das capitanias era proposto pelo donatario, mas nomeado pelo senado. Para coadjuvar o alcaide nos serviços e diligencias
que era obrigado a executar, havia a principio um certo numero de homens nomeados pelo donatario, os quais, segundo um
diploma de 1450, deviam «ser de bom viver». Nos fins do século XV, nomeava a Camara para cada bairro da povoação um certo
numero de oficiais, denominados quadrilheiros, a quem competia manter a ordem e defender a propriedade dos vizinhos.
Apesar de existirem todos estes funcionarios policiais, parece que a segurança pública não estava garantida no Funchal, pois que
em 1489, permitiu o capitão-donatario que os «mercadores e homens de bem» que tivessem armadura de «cabeço e lança»,
pudessem usar de espada e punhal, estendendo pouco depois esta permissão a todos os casados que possuíssem casa, mas sómente
até o «sino se correr». Em viagem, era licito aos casados trazerem espada e punhal.
Segundo o foral de 6 de Agosto de 1515, constituíam receita da alcaidaria–a carceragem dos presos e as multas pagas pelos
jogadores de cartas, pelos excomungados, pelos desordeiros, pelos freqüentadores de lupanares e por todos os individuos
encontrados nas ruas, com armas ou sem elas, depois do «sino se correr».
O «sino de correr» estava nos Paços do Concelho, à Rua do Aljube, e quando êle tocava á noite, saíam os quadrilheiros para
rondarem os seus bairros ou quadrilhas. Em Machico havia também «sino de correr», o qual estava colocado ao lado do edifício dos
Paços do Concelho.
Em tempo algum foi a policia urbana tão desrespeitada, ou melhor, tão impotente para reprimir os excessos dos salteadores e
desordeiros, como nos tempos do governo filipino.
Como se viu quando tratámos do dominio castelhano, as ruas da cidade eram então ensangüentadas a miúdo pelas rixas
particulares, tendo vindo três alçadas á Madeira para o fim de punir os criminosos e restabelecer a ordem na ilha.
O inglês Sloane que visitou a Madeira em 1687 viu que os homens de negocio traziam uma longa espada sob a capa e uma aguda
faca ou punhal na algibeira, o que parece significar que ainda nessa epoca se contava pouco com a policia urbana para a defesa da
vida e da propriedade dos cidadãos, e Ovington que esteve nesta ilha em 1689 também observou que muitos dos habitantes
andavam armados.
O governador e capitão-general João Antonio de Sá Pereira mostrou, enquanto governou a Madeira, o maior zêlo e actividade na
repressão dos abusos que praticavam os fidalgos e plebeus; no entanto, a segurança pública parece que só começou a ser conhecida
na ilha depois que o governo constitucional se estabeleceu sôbre bases solidas em todo o país.
A 20 de Maio de 1812, resolveu a Camara pedir ao Capitão-General que estabelecesse rondas militares nocturnas «afim de
acabarem os roubos que se fazem não só nos logares sagrados, armazens e escritorios, mas até nas casas de habitação», e em 13 de
Janeiro de 1814 deliberou oficiar á mesma autoridade para pôr á sua disposição em cada noite 80 homens das ordenanças, a fim
«de se pôr em execução o sistema das quadrilhas novamente ordenado». Em 19 de Novembro de 1796, determinou a Camara que os
quadrilheiros trouxessem um signal para serem conhecidos.
Em 1826, era a cidade patrulhada por praças de infantaria n.° 7, mas depois da outorga da carta passaram as mesmas fôrças a ser
um elemento de desordem, visto o mesmo regimento ser absolutista, o que levou a Camara a solicitar do Governador a suspensão
das referidas rondas e que não fôsse permitida aos soldados a saída do quartel depois das 7 horas da tarde.
De 1828 a 1830, isto é, enquanto governou a Madeira o tristemente celebre José Maria Monteiro, por alcunha o Baeta, sofreram os
liberais as maiores perseguições; bastava a acusação de malhado feita a um individuo, para este ser logo barbaramente espancado
pela plebe miguelista, sem que lhe valessem os agentes da autoridade.
Os quadrilheiros eram então um elemento de desordem, e instigados pelo governador, que os acompanhava muitas vezes nas
rondas noturnas, praticavam os maiores desatinos, prendendo e espancando todos os constitucionais que ousavam sair á rua. Em
1830, havia também quadrilheiros em Camara de Lôbos.
O último alcaide do Funchal foi nomeado em 1832, tendo este cargo existido portanto enquanto durou o governo absoluto. A
Camara do Funchal nomeava também alcaides para o Caniço, Camara de Lôbos e Ribeira Brava, os quais desempenhavam funções
policiais nessas localidades.
Em 1834, após a proclamação dos principios liberais na Madeira, criou o prefeito os lugares de comissarios dos provedores do
concelho e de cabos de policia nas paroquias, ficando a direcção dos serviços policiais a cargo do Provedor, e anos depois
estabelecia-se um corpo de 26 guardas ou oficiais de diligencias na cidade, subordinado ao Administrador do Concelho, para o
serviço da segurança publica.
Em 1838, reclamava a Chronica que fôsse extensiva á Madeira a lei de 22 de Fevereiro desse ano que criara as guardas municipais
nas cabeças de distrito, mas acrescentava que o sossêgo era então completo no Funchal, apesar de só existirem aqui as rondas da
Administração do Concelho. Os lugares de cabos de polícia eram muito procurados nessa época por individuos de tôdas as classes,
porisso que os respectivos serventuarios estavam isentos por lei de servir nas guardas nacionais.
Em 14 de Junho de 1856, deu o Governador Civil nova organização á policia, deixando 3 oficiais de diligencias junto do
Administrador do Concelho, e colocando os outros 23 sob as ordens de um oficial da tropa de linha, que teve a denominação de
chefe de policia. Além do chefe, havia um sub-chefe, ficando a fôrça á disposição do Governador Civil, mas devendo satisfazer as
requisições do Administrador do Concelho.
O primeiro chefe militar da policia foi o major Ascenso Elminio de Bettencourt, e o segundo, o tenente Jaime Florindo Pereira,
sendo habito deste ultimo chamar guarda municipal ao trôço de 23 homens cujo comando lhe estava confiado, embora não
estivesse autorizado para isso pelos regulamentos policiais. Em 1857, estava a policia instalada no edifício do extinto convento de S.
Francisco, sendo seu comandante o referido tenente Jaime F. Pereira.
Pouco depois sofreu a polícia nova organização passando a ter um director ou chefe, oficiais e soldados, e ficando todo o corpo
subordinado de novo ao Administrador do Concelho. Por esta nova organização, deixou de haver na policia um oficial da tropa de
linha, assumindo a chefia do corpo o antigo sub-chefe Antonio José de Sá, o qual fora já director da policia antes da reforma de
1856. Apesar da designação de soldados dada aos polícias, deve-se advertir que estes homens não obedeciam ás autoridades
militares.
Em 3 de Agosto de 1864, foi Pedro de Alcantara Góis nomeado oficial de diligencias da Administração do Concelho e director da
policia, continuando a desempenhar este ultimo cargo depois que passou a amanuense da mesma Administração, em 2 de Outubro
de 1865. A carta de lei de 2 de Julho de 1867 criou o lugar de comissario da policia civil do Funchal, mas só em 1877 foi o mesmo
Alcantara Góis encarregado de exercê-lo, em atenção aos serviços já prestados na direcção do corpo de segurança publica da cidade.
Em 21 de Dezembro de 1876 e 7 de Dezembro de 1894, foram dadas novas organizações àpolicia do Funchal, tendo estabelecido o
regulamento desta ultima data que o Administrador do Concelho fôsse também Comissario de Policia logo que vagasse este ultimo
lugar. Ficaram existindo pelo mesmo regulamento 2 chefes, 1 escrivão, 4 cabos e 50 guardas distribuídos por 2 esquadras, cada uma
delas comandada por um chefe.
A lei de 12 de Junho de 1901 restabeleceu os cargos de Comissarios de Policia nos distritos com organização especial, e o decreto de
27 de Abril de 1918, que supomos não ter chegado a ter execução no Funchal, pôs á frente de cada distrito um comissario geral com
superintendencia em todos os serviços policiais. Pelo que respeita ao quadro do demais pessoal do comissariado, está constituido
ainda hoje pela maneira estabelecida no regulamento de 7 de Dezembro de 1894, subsistindo também a divisão do corpo de policia
Civil em duas esquadras (1921).
Embora alguma coisa se tenha adiantado desde 1834 até hoje no sentido de estabelecer a segurança pública no Funchal, é fora de
dúvida que a nossa cidade está ainda muito longe de poder ser considerada como regularmente policiada. Se se não cometem agora
os atentados graves que em epocas mais ou menos remotas desonravam as ruas do Funchal, cometem-se irregularidades e
desatinos sem numero que a policia, pouco numerosa e negligente como é quasi sempre, não pode ou não quer reprimir (1921).
Supôs-se que a vinda para a Madeira duma fôrça da Guarda Republicana (V. este nome) seria de grande vantagem, mas os
constantes conflitos provocados por praças da mesma guarda e as muitas prepotencias por elas praticadas, vieram mostrar que não
era esse o meio de estabelecer a ordem e a segurança nesta ilha. Depois de haver estado afastada durante algum tempo do serviço
policial na cidade, foi finalmente mandada retirar da ilha a Guarda Republicana que para aqui viera em 1919, partindo para Lisboa
nas viagens do vapor San Miguel, de Abril e Maio de 1922.
Para estabelecer no Funchal a ordem e a disciplina que devem existir em tôdas as terras civilizadas, torna-se indispensavel
aumentar o corpo de policia civil do distrito, como se disse em sessão da Junta Geral de 22 de Dezembro de 1921, e só admitir nele
individuos robustos, inteligentes e de bons costumes. Não é com 50 homens, alguns deles quasi inutilizados, que se pode policiar
uma cidade grande e populosa como é a nossa, sobretudo numa epoca de desrespeito e de decomposição social como aquela que
atravessamos (1921).
Desde o dia 18 de Novembro de 1934, acham-se os diversos serviços da policia instalados no seu edifício á rua da Carreira.
Vid. Comissário da Policia.
Polícia de Emigração
A polícia repressiva da emigração clandestina foi criada por decreto de 11 de Maio de 1904, constando o
seu pessoal de 1 comissario, 1 secretario e 6 agentes, pagos pela Junta Geral, de harmonia com a deliberação tomada por esta
corporação em 23 de Abril do mesmo ano.
Policia Florestal
Está a cargo dos guardas campestres nomeados e pagos pelas Camaras Municipais e de um corpo de policia
especial de guardas de policia rural e florestal, criado pela extinta Junta Agricola, nos têrmos do regulamento de 8 de Março de
1913. Este corpo deve ter, quando completo, 3 chefes de guardas, 5 guardas a cavalo e 25 guardas a pé, sob a direcção do regente
silvicola distrital.
Do Regimento das Madeiras, de 1562, e doutros antigos diplomas, ve-se que a guarda e conservação das matas estava entregue
então aos juizes e vereadores, aos meirinhos da serra e aos ouvidores das duas jurisdições da ilha, cumprindo a estes ultimos, no
mes de Janeiro de cada ano, proceder a devassas para se descobrirem os autores de quaisquer prejuizos causados às arvores.
Tendo sido extinta a Junta Agricola, ficou provisoriamente a cargo da Estação Agricola da 9.ª Região o serviço da policia rural e
florestal, nos termos do artigo 33 do decreto de 3 de Abril de 1922 (1922).
Polvo (Octopus vulgaris)
Molusco cefalópode que aparece nos sitios rochosos da zona costeira desta ilha. É pescado por acaso a
linha ou em covo, e durante o verão é colhido á mão pelos rapazes, que mergulham para este fim, tendo o cuidado de «virar-lhe o
capelo» para não serem incomodados pelos tentaculos do animal. O capelo e o saco onde se acha o sifão respiratorio, de modo que
uma vez revirado, fica o polvo reduzido á mais completa impotencia. Como tôdas as especies do litoral, tem o polvo sido vitima do
uso das bombas de dinamite e clorato de potassa, sendo porisso muito menos frequente hoje que outrora.
Segundo informações que nos foram dadas pelo sr. Adolfo de Noronha, entre a Madeira e Tenerife foi achado em Novembro de
1861, pelo aviso frances L'Alecton um polvo gigantesco de 5 a 6 metros de comprido, afora os oito enormes braços, que se verificou
pertencer ao genero Architeutis contando-se tambem entre as mais raras especies de cefalópodes que tem sido achadas na Madeira
o Argonaufa argo cuja concha delicada e elegantemente modelada em forma de voluta, serve a femea para nela abrigar os ovos.
Deposita-os nessa especie de berço flutuante e coloca-se em cima como que a chocá-los, ate o momento em que se dá a eclosão.
Pombo (Columba palumbus)
Ave columbida que habita nas montanhas da Madeira. Constrói os seus ninhos sob as árvores,
criando dois filhos de cada ninhada. É talvez a mais rara das especies de pombos que nidificam na Madeira, sendo conhecida
tambem pelas denominações de pombo branco e pombo claro por causa da sua cor.
Há uma variedade que se distingue em ter a plumagem e a cor dos pés mais escuras que no tipo da especie.
Pombo Bravo (Columba livia)
Ave columbida que aparece nas rochas da beira-mar e nas ravinas de toda a ilha. Tem habitos
sociaveis, formando durante a criação pequenos grupos que se estabelecem nas rochas inacessiveis do litoral. O seu ninho é
grosseiro e a postura, que consta de dois ovos duma cor branca levemente azulada, pode ter lugar duas vezes no ano.
É conhecida tambéem pelos nomes da rocha, de pombinho e de pombo domestico, recebendo esta ultima designação somente
quando criado nos pombais que abundam por toda a ilha.
Pombo Torcaz (Columba trocaz)
) Ave da familia Columbida que vive principalmente nos vales do interior da Madeira. É facil de
reconhecer pelo círculo prateado que apresenta no pescoço e pelo comprimento do dedo médio dos pés. O seu principal alimento
consiste em bagas de loureiro, gramineas, agriões, etc. Nidifica de Fevereiro a Junho, e aparece às vezes à venda no mercado do
Funchal. A sua carne é de excelente qualidade. O pombo torcaz é conhecido também pelas denominações de pombo escuro da serra
e pombo preto, por causa da cor da sua plumagem.
Pommer – Esc
(
Kalharina ). E.:Madeira die Wald - Insel . Berlim, 1902, folheto.
Ponson By
Este distinto malacologo inglês especialista no generoHelix esteve na Madeira de 1908 para 1909, e ainda noutras
ocasiões que não podemos precisar.
Ponta da Atalaia
No sitio da Atalaia, freguesia do Caniço, e sensivelmente equidistante das pontas da Oliveira e do Guindaste,
fica a saliencia de costa ou ponta chamada da Atalaia. Fica sobranceira a um pequeno Porto do mesmo nome.
Ponta da Cruz
Vid.Cruz (Ponta da ).
Ponta Delgada (Freguesia da )
(
Freguesia da
). Não é facil acertar com a verdadeira origem do nome desta freguesia. Uma pessoa ilustrada que
ali residiu alguns anos e que procedeu a serias pesquisas informa-nos que aquela denominação procede de Antonia Delgada viúva
do capitão Antonio Gonçalves de Castro e falecida a 8 de Outubro de 1606. A esta afirmativa, temos a contrapor a existencia de
varios alvarás regios do século XVI, sendo o mais antigo de 1552, registados nos livros da antiga Provedoria, em que se fazem
referencias directas á freguesia da Ponta Delgada. Também Gaspar Frutuoso lhe dá em 1590 o nome de Ponta Delgada, dizendo que
é «assim chamada por ser ali hum passo muito perigoso, que se passa por cima de dous páos, que atravessam de uma rocha a outra,
e em tanta altura fica o mar por baixo que se perde a vista dos olhos» Nào é também por certo, uma explicação muito satisfatoria o
chamar-se Ponta Delgada a uma passagem apertada e perigosa, sobranceira ao mar.
A este lugar se chamou nos tempos primitivos da colonização Senhor Jesus, por motivo da capela desta invocação que ali existia, e
ainda deste modo foi conhecido depois da criação da paroquia, mas é indubitavel que desde meados do século XVI se generalizou o
nome de Ponta Delgada, por que se tornou depois conhecido.
Manuel Afonso de Sanha foi um dos mais antigos povoadores desta ilha e em 1469 obteve vastas terras de sesmaria, que se
estendiam desde a Ponta Delgada até á Ribeira das Vacas. Fundou a capela do Senhor Bom Jesus, que foi o centro duma fazenda
povoada, formando esta o nucleo primitivo de habitantes que constituíram a futura paroquia.
A freguesia da Ponta Delgada deve ter sido criada por fins do segundo quartel do seculo XVI, ao menos como curato autonomo, e é
uma das mais antigas da costa-norte desta ilha. Teve como sede a capela do Senhor Bom Jesus, cujo ano de construção se ignora,
mas que não deve ser muito posterior aos primeiros anos do século XVI, pois o seu fundador é dado como falecido em 1507. Sofreu
alguns repairos e modificações no ano de 1636 e foi notavelmente acrescentada por 1700. Nos principios do século XIX, passou por
novas reparações, ficando um dos mais belos templos da diocese, merecendo especial menção a capela-mor, a capela do Santissimo
Sacramento e a sacristia. A 12 de Julho de 1908, foi esta igreja completamente destruida por um violento incendio, que a reduziu a
um montão de escombros. Devido principalmente aos diligentes esforços e á dedicação sem limites do pároco de então, o padre
Casimiro Augusto de Freitas e Abreu, se procedeu á reconstrução do templo em 1910 sendo solenemente sagrado no ano de 1919.
Na noite de 30 de Dezembro de 1847 se cometeu nesta igreja um importante roubo de grande número de objectos de prata que
causou muita sensação em tôda a ilha. Foram descobertos os autores do roubo, sendo restituídos a maior parte dos objectos
roubados.
O curato da Ponta Delgada talvez dependente da freguesia de Machico, só foi definitivarnente erecto em paroquia pelo ano de 1577,
sendo seu primeiro vigario o padre Antonio Lopes seguindo-se-lhe no exercicio das funções paroquiais os padres Belchior de Insola,
Rodrigo Afonso. Aleixo, Gil, etc. O alvará de 3 de Fevereiro de 1552 acrescentou 2$000 réis anuais á congrua do cura que era então
de 6$000 réis por ano e 1 marco de prata. Ao vigario, por alvará regio de 28 de Fevereiro de 1577, foi elevado o seu vencimento a
20$000 réis anuais e depois a 25$000 réis, por alvará de 2 de Junho de 1581 tendo-lhe o alvará de 12 de Dezembro de 1588 fixado
o mesmo ordenado em 16$000 réis por ano e mais um moio de trigo e uma pipa de vinho.
A area desta freguesia compreendia os terrenos que ao presente a constituem e ainda a actual paroquia de Boaventura, sendo por
alvará regio de 4 de Fevereiro de 1733 criado um curato, que teve sua sede na capela de Santa Quiteria, na referida freguesia da
Boaventura, como mais largamente se pode ver no artigo que a ela consagramos, a pag. 154 do I.º volume desta obra.
A capela do Senhor Bom Jesus foi centro duma antiga romagem, que ainda hoje é das mais concorridas de tôda a ilha. Há noticia de
que já se realizava em 1577, sendo, portanto, a romaria de mais remota epoca que se faz entre nós. A romagem do Senhor Jesus da
Ponta Delgada, de Nossa Senhora do Monte e do Senhor dos Milagres, de Machico, são as mais antigas, as mais concorridas e as
mais caracteristicas desta diocese.
Tem esta freguesia a capela dos Reis Magos que era da casa Carvalhal, e houve a de Santo Antonio, no sitio do Pico, e outra no sitio
dos Ladrilhos, das quais nos ocuparemos em outro lugar desta obra.
Foi antigo morador desta freguesia e nela morreu a 15 de Julho de 1598, Antonio de Carvalhal, do qual diz Gaspar Frutuoso:
«homem tão cavalleiro como esforçado por sua pessoa, nobre, e magnifico por sua condição e grande virtude, com a qual por sua
magnificencia tem adquirido tanta fama, e ganhado tanto nome com as vontades dos homens, que por isso lhe obedecem; e se for
necessario dar um brado, ajuntará quinhentos homens da banda do Norte a seu serviço, para qualquer feito de guerra, como já lhe
aconteceo, ou para qualquer outro; e não sem rasão, porque sua casa he hospital e acolheita de todo o pobre, hospedagem dos
caminhantes, e refugio finalmente de necessitados. Assi despende sua fazenda toda (que muita possuhe desta banda) nestas obras,
que em sua casa se gastão em cada anno trinta moyos de trigo, fóra outros muitos que empresta, e com elle soccorre a quem tem
necessidade, que todos recolhe de sua lavoura». E a seguir narra pormenorizadamente o historiador das ilhas muitas façanhas e
episodios de fôrça e valentia praticados por Antonio de Carvalhal, como se pode ler a pag. 101 e 102 das Saudades da Terra.
Chamou-se em outro tempo á freguesia da Ponta Delgada a côrte do norte, por haver nela muitas casas de antigas e nobres familias,
que ali residiam ou ali passavam uma parte consideravel do ano. Existiu nela a sede de alguns morgadios. Manuel Afonso de Sanha,
instituíu os vinculos do Ribeiro do Pêso e da Ribeira do Inferno.
Mais duma vez se tem aventado a ideia de transferir para esta paroquia a capital do concelho e comarca, que tem suas sedes em S.
Vicente. Varios magistrados judiciais ponderaram já ao governo central a necessidade e conveniencia desta mudança.
As principais culturas agricolas são a vinha e a cana de açucar, havendo dois engenhos para o fabrico de aguardente. A principal
levada destinada á irrigação desta paróquia é a chamada levada Grande, que encabeça na ribeira dos Moinhos e atravessa parte da
freguesia da Boaventura.
Tem esta freguesia duas escolas primarias oficiais, uma para cada sexo, estação telegrafica aberta em Outubro de 1905, e é sede
dum partido medico, que compreende também a paróquia da Boaventura (1921).
O movimento do seu Porto é relativamente importante, aproveitando a esta e ás freguesias da Boaventura e Arco de S. Jorge. É ali o
terminus das viagens que os vapores costeiros, partindo do Funchal, fazem alternadamente, por leste e oeste para o norte da ilha.
Nas serras desta freguesia há o encantador sitio chamado o Topo, donde se descortinam largos e surpreendentes horizontes.
São naturais desta paroquia o visconde de Gonçalves de Freitas e os conselheiros Antonio Gonçalves de Freitas e Francisco Antonio
de Abreu (V. estes nomes).
Ponta Delgada (Ponta e Portos de)
Nesta freguesia, há uma saliencia da costa maritima que tem o nome de Ponta Delgada. Nas
suas mais proximas imediações, ficam um pequeno Porto e uma limitada praia, que servem esta paróquia e as da Boaventura e Arco
de São Jorge. Por 1908, construíu-se ali uma curta rampa, que dá acesso a pequena praia, afim de facilitar o transporte de
mercadorias. Há também uma praia pouco extensa, no sitio chamado Passo da Areia.
Ponta do Garajau
Vid.Garajau (Cabo do ).
Ponta do Girão
É mais conhecida pelo nome do Cabo Girão.
Vid. Girão (Cabo).
Ponta de Larano
No sitio de Larano, na freguesia do Porto da Cruz, tem o nome de Ponta de Larano a saliencia da costa
maritima ali existente.
Ponta da Oliveira
Vid.Oliveira (Ponta da )
Ponta do Pargo (Farol da)
No alto da saliencia da costa maritima, conhecida pelo nome de Ponta do Pargo e onde chamam a
Vigia, levanta-se o edifício do farol, cuja existencia era de há muito reclamada, mas que sómente teve uma concreta realidade no
ano de 1922, em que aquela costa começou a ser iluminada. Algures se lê que este farol «emite três sucessivos fachos de luz branca
da potencia de 5,500 carcélas, cada um de 0,5 de segundo, a espaços de 3,5 segundos».
Ponta do Pargo (Ponta da)
O ponto mais extremo do litoral oeste da Madeira é constituído por uma acidentada saliencia, que
tem o nome de Ponta do Pargo. Essa saliencia da costa maritima e as suas mais proximas imediações formam uma parte
consideravel daquela freguesia, sendo ali que se encontra o farol, a que se faz acima referencia.
Ponta do Pargo (Freguesia da)
É a freguesia do extremo oeste da costa sul desta ilha. Fica situada no alto de rochas sobranceiras
ao mar, formando em parte uma pitoresca planicie, sem grandes acidentações do terreno, a não ser na região montanhosa que a
limita principalmente pelo norte.
A origem do seu nome di-lo bem claramente Gaspar Frutuoso: « Da Calheta passou o capitam abaixo até a derradeira ponta sobre o
mar, donde parece que não ha mais terra; e estando aqui, lhe trouxeram os do batel de Tristam e do batel de Alvaro Afonso hum
peixe, que parecia pargo, de maravilhosa grandura, e o mayor que até aquelle tempo tinham visto; por razão do qual peixe ficou
nome áquella Ponta a do Pargo. Desta Ponta do Pargo vira a terra para o Norte até outra ponta, que distará desta huns dizem duas,
outros tres, legoas. . . »
Além da Ponta do Pargo, prosseguindo na direcção do norte, encontra-se a Ponta do Tristão, que, como se sabe, constituíu um dos
limites da divisão das duas capitanias do Funchal e Machico, que teve como outro limite a Ponta da Oliveira.
Os terrenos que formam ao presente a freguesia da Ponta do Pargo pertenceram primitivamente á paróquia da Fajã da Ovelha e
desta foram desmembrados quando aquela se instituiu em freguesia autonoma. Não se conhece o ano preciso da sua criação, mas
deve ser anterior a 1560, por isso que o alvará régio de 4 de Março deste ano acrescenta um moio de trigo e um quarto de vinho á
côngrua do paroco, que era então de 11$000 réis anuais. O alvará de 1 de Março de 1577 fixou ao pároco o vencimento anual de
20$000 réis e o de 9 de Junho de 1581 elevou-o a 25$000 réis também anuais.
Foi a capela de São Pedro, de cujo instituidor e ano de construção não temos noticia, que serviu de sede nova paróquia. Passou por
acrescentamentos e reedificações em anos que não podemos precisar. Foi ordenada a sua reconstrução por mandado do Conselho
da Fazenda de 20 de Julho de 1620, sendo as respectivas obras orçadas na importancia de 2.231$606 réis, ignorando-se a
reedificação se realizou imediatamente, o que nem sempre acontecia. No ano de 1851, fizeram-se obras importantes de reparação
neste templo, dispendendo-se cêrca de 1 700$000 réis. Informam-nos de que a igreja paroquial, nas suas construções e
reconstruções, ocupou três lugares diferentes, mas sempre no mesmo sitio do Salão. Primeiramente esteve onde chamam o Pé do
Pico, depois na Achada da Igreja e finalmente no lugar em que actualmente se encontra.
Foram Pedro de Couto Cardoso, André Nogueira e Duarte Mascarenhas Jaques os primeiros sacerdotes que exerceram funções
paroquiais nesta freguesia. Nela foi criado um curato nos fins do século XVIII.
Existem nesta paróquia as capelas de Nossa Senhora do Amparo e de Nossa Senhora da Boa Morte, a que já noutro lugar nos
referimos.
Tem duas escolas primárias oficiais, sendo uma do sexo masculino, criada em 1850, e outra do sexo feminino, criada em 1910. É
justo lembrar aqui os serviços prestados a esta freguesia e ainda a outras freguesias vizinhas pela professora particular D. Maria
Amelia de Sousa, que, num periodo aproximado de setenta anos, ministrou a instrução primaria a muitos individuos de ambos os
sexos, com muita proficiencia e a maior dedicação, merecendo que o seu nome se perpetue na memoria dos filhos desta paroquia.
Houve três casas vinculadas com sede nesta freguesia, sendo os ultimos representantes João Alves Espinola e Freitas, Francisco
Freire de França e Almeida e Manuel de Ponte de Gouveia.
É importante a indústria da engorda do gado vacum e a da produção de leite destinado ao fabrico da manteiga. As culturas agricolas
são as mesmas das outras freguesias, com excepção da cana de açucar, merecendo especial menção o vinho sercial produzido nesta
região, que sempre foi considerado como de superior qualidade.
A agricultura é beneficiada pelas levadas dos Moinhos, Cabo, Lombada da Velha, Ribeira da Vaca, Serrado, Serra, Ribeiro Velho,
Lombadinha, Amparo e Lombo, além da do Rabaçal, que também fertiliza uma parte desta freguesia.As costas maritimas da Ponta
do Pargo e Achadas da Cruz eram paragens em extremo perigosas para a navegação, impondo-se a necessidade do estabelecimento
dum farol na primeira daquelas freguesias, por constituir o ponto mais saliente das mesmas costas e ficar situado numa altitude em
que a luz da lanterna facilmente se projectaria até a algumas milhas de distancia.
Há já alguns anos que foi construído o edifício destinado á instalação do farol, devido á iniciativa da Junta Geral do distrito, que
custeou tôdas as despesas de edificação, tendo o farol começado a funcionar em 5 de Junho de 1922. Há também na freguesia uma
estação telegrafo-postal e semaforica.
Esta paroquia pertenceu ao concelho do Porto Moniz desde que este foi instalado, em 1835, até o ano de 1849,em que foi suprimido,
passando então a fazer parte do concelho da Calheta. Restaurado o concelho do Porto Moniz em 1855, nele foi de novo encorporada
a freguesia da Ponta do Pargo. A lei de 26 de Junho de 1871 desanexou-a do concelho do Porto do Moniz e reintegrou-a no concelho
da Calheta, a que hoje pertence.
Sitios principais: Cabo, Lombada Velha, Ribeira das Vacas, Serrado, Salão, Corujeira de Dentro, Corujeira de Fora, Lombadinha,
Amparo e Lombo.
A população da paróquia, segundo o censo de 1911, é de 2546 habitantes.
Ponta de São Lourenço
Fica na extremidade leste da Madeira, e, segundo Frutuoso, recebeu o nome por que é conhecida por se
chamar S. Lourenço o navio em que vinha o capitão João Gonçalves Zarco, quando a ilha foi descoberta.
«A Ponta de S. Lourenço, diz Mousinho de Albuquerque, que se estende por perto de 3 milhas ao mar na direcção W. para E. com
muita pequena largura, é composta de uma sucessão de restos de montes, que parecem haver sido destruidos pela maior parte: e
logo que começa a ser mais estreita, pouco depois de passada a povoação do Caniçal, apresenta geralmente os restos de camadas,
que mergulham para o S. ou SW., e que da parte do norte se acham subita e verticalmente cortadas, formando o corte escarpas
quasi verticais sobre o mar.»
Durante o estio, é a Ponta de S. Lourenço arida e triste porque os ardores do sol bem cedo requeimam a vegetação que reveste os
terrenos; mas, durante a primeira parte da primavera, quando os pequenos vales e as colinas se apresentam ornados em varios
pontos dum luxuriante tapete de verdura, por entre o qual avultam diferentes especies que se não encontram em nenhum ponto
mais da ilha, muda muito o aspecto desse lugar, ao qual a vida da natureza imprime atractivos que alegram e deleitam o visitante.
O Ilhéu de Fora, onde está o farol, é considerado como fazendo parte da Ponta, embora esteja separado da terra vizinha por um
canal ou boqueirão com cêrca de 85 braças de largo A 3 a 4 de fundo. A oeste, ficam o Ilhéu dos Desembarcadouros e o de
Agostinho, seguindo-se-lhes a baía da Abra, onde há um cais (V. este nome), e depois o sitio da Piedade, com uma praia de areia
calcarea, a unica neste genero que existe na ilha. Sôbre um montículo junto da praia, ergue-se a pequena capela de Nossa Senhora
da Piedade (V. este nome).
Todo o terreno da Ponta é agora perfeitamente desarborizado, mas, perto da praia de que acabamos de falar, existem muitos corpos
calcareos que a serem, como tudo leva a crer, restos petrificados de vegetais lenhosos, atestam que já naquele sitio houve em épocas
bastante remotas algumas matas. (V. Corpos calcáreos).
No sítio da Piedade encontram-se muitas conchas terrestres pertencentes a especies da região alta, poucas das quais aparecem vivas
naquela localidade. Este facto bastante curioso, não teve ainda uma explicação satisfatoria.
Nalguns pontos da Ponta de S. Lourenço criam-se alguns gados, e o Ilhéu dos Desembarcadouros e as terras da Abra são afamados
pela grande quantidade de plantas forraginosas que produzem. O melhor feno da Ilha vem da Ponta de S. Lourenço.
Há grande falta de nascentes em tôda a Ponta, mas as chuvas são abundantes ali desde o outono até a primavera. As terras
poderiam produzir cereais, se o gado não destruisse as culturas.
Oferecem particular interesse a este assunto os artigos
Agostinho
(Ilhéu do),
Desembarcadoiro
(Ilhéu do)
Farois e Corpos
Calcáreos da Piedade
.
Ponta do Sol (Freguesia da)
O autor das Saudades, fazendo a descrição sumaria da primeira exploração realizada pelos
descobridores através da costa sul desta ilha, diz que João Gonçalves Zarco, metendo-se nos batéis na Ribeira Brava, «chegou a
uma ponta que se faz abaixo huma legoa, e entra muito no mar; e, porque na rocha que está sobre a ponta se enxerga de longe e se
vê claro huma vea redonda na mesma rocha com huns rayos que parece sol, deolhe nome o capitam a Ponta do Sol...» Em outra
passagem da mesma obra se lê que «...Ponta do Sol se chama assi, por ter uma ponta ao Occidente da villa que tem o parecer...
aonde tambem dá o Sol primeiro que na villa quando nace». Eis a explicação que o cronista apresenta para justificar a origem do
nome desta localidade e que na verdade parece plausivel, não havendo razões de pêso que inteiramente a contrariem. Ignoramos se
outros lugares com identica denominação, como uma localidade que existe na ilha de Santo Antão, Cabo Verde, tirariam a origem
do seu nome de circunstancias semelhantes ás que ficaram registadas pelo dr. Gaspar Frutuoso.
João Agostinho de Freitas, um inteligente e paciente investigador das cousas do seu rincão natal, não se afasta sensivelmente da
opinião de Frutuoso, dizendo que o nome «derivou de um braço ou restinga de rocha viva que por avançar pelo mar dentro se
chama ponta, de uma saliencia com viezes ou fendas concentricas, em forma de resplendor, como é costume figurar o Sol, a qual
existia na face do rochedo do Passo que fica vertical ao Fojo, junto á dita ponta». E acrescenta: «este rochedo fica ao sueste da villa
e não ao occidente, como talvez por erro do copista se diz no manuscripto do Dr. Frutuoso, que se acha na livraria da Camara do
Funchal».
A Ponta do Sol começou a ser colonizada aproximadamente por 1440. Um dos seus mais antigos povoadores foi Rodrigues Enes, o
Coxo, obtendo ali vastos terrenos, estabeleceu uma importante fazenda povoada, que foi a origem e o primitivo nucleo da futura
freguesia. Diz-se algures que os terrenos começados a arrotear por Rodrigo Enes e que lhe foram concedidos em sesmaria, ficavam
a oeste da ribeira e se estendiam da orla do oceano até ao Arrebentão, junto ao Paul da Serra.
Conjectura-se que tivesse feito assentamento neste lugar pelos anos de 1450. Não se sabe o ano da sua morte, mas conhecem-se
algumas das suas disposições testamentarias, feitas a 8 de Abril de 1486, nesta localidade, perante o tabelião do Funchal, João
Tavira, e entre elas se encontra a seguinte: «manda que da renda da sua terça lhe façam uma capella em a egreja da Ponta do Sol da
parte da mam direita excontra o mar, e será feita como a de Clara Esteves, que é em a egreja de Santa Maria Maior do Funchal, e
será da invocação do Espirito Santo e será posta em ella uma imagem do dito Senhor, e vestimenta de sêda e calix de prata de um
marco». Segundo um distinto investigador, que por muitos anos residiu na freguesia da Ponta do Sol e ali faleceu, a capela
conhecida pelo nome de Capela do coxo é a de Nossa Senhora do Patrocinio e ali, junto do altar e sob o respectivo madeiramento do
soalho, se encontra a sepultura de Rodrigo Enes. Seria interessante verificar se a epigrafia do tumulo de Rodrigo Enes confirma
estas indicações, pois se afirma que êle expressamente determinara no seu testamento que na inscrição sepulcral se fizesse especial
menção de ser êle o fundador do lugar da Ponta do Sol. Conviria mesmo pôr a descoberto o tumulo daquele que tem o seu nome tão
estreitamente ligado á primitiva historia desta localidade, prestando-se qualquer outra condigna homenagem á sua memoria. É á
municipalidade da Ponta do Sol que corre o indeclinavel dever de tributar esse merecido preito á memoria do fundador desta
freguesia.
Não se conhece a data da criação desta paróquia. Conjecturamos que seria no terceiro quartel do seculo XV. É das mais antigas
desta diocese.
O diploma mais antigo que acêrca desta freguesia temos encontrado citado é o alvará regio de 28 de Agosto de 1559, pelo qual se
fixa ao pároco a côngrua de 10$300 réis anuais em dinheiro e um moio de trigo e uma pipa de vinho. Os alvarás de 23 de Julho de
1566, de 13 de Março de 1572 e de 27 de Novembro de 1598 elevaram respectivamente o vencimento anual do vigario a 13$300,
26$000 e 29$000 réis, além do moio de trigo e da pipa de vinho.
Tinha esta freguesia uma colegiada (V. Colegiadas) composta de quatro beneficiados, além do curato, que foi criado pelo alvará
regio de 26 de Agosto de 1589.
A capela de Nossa Senhora da Luz, onde se instalou a sede da paróquia, é de construção anterior á criação desta, ignorando-se o ano
em que foi edificada e o nome do seu fundador. Tem sofrido varias modificações e parece que foi quasi inteiramente reconstruida e
acrescentada no primeiro quartel do século XVIII, segundo se lê nuns Apontamentos que o Dr. Tomé Vieira Barreto deixou
exarados num dos livros da igreja paroquial, quando ali foi pároco.
Nesta igreja se venera a imagem de Nossa Senhora da Luz, que é o seu orago, cujo culto especial esteve em tempo muito
generalizado nesta e ainda em muitas outras freguesias. Fr. Agostinho de Santa Maria, no tomo X da sua conhecida obra Santuario
Mariano, consagra um capítulo ao culto que então se prestava àquela veneranda imagem. O padre Miguel Francisco Velosa, vigario
desta igreja paroquial, impetrou e obteve da Santa Sé um breve, datado de 30 de Julho de 1805, pelo qual se concede a graça de
indulgencia plenaria, por ocasião da festa do orago, das suas novenas e respectivo oitavario, isto é, desde o dia 30 de Agosto até o
dia 15 do mês de Setembro de cada ano, a tôdas as pessoas que devidamente preparadas visitarem a igreja paroquial desta
freguesia.
Teve esta freguesia muitas capelas, das quais daremos resumida noticia em outros lugares desta obra.
A freguesia da Ponta do Sol, pelo seu rapido e largo desenvolvimento, atraíu um numero consideravel de individuos, vindos do
continente do reino e ainda do estrangeiro, que ali obtiveram muitas terras de sesmaria, sendo alguns deles o tronco de importantes
casas vinculadas que tiveram sua sede nesta localidade e subsistiram até os nossos dias... Entre esses individuos, citaremos Rodrigo
Enes Furtado, de quem já falámos acima, de nobre linhagem e que teve nesta freguesia larga descendencia; Rui Gonçalves da
Camara, de quem já nos ocupámos (Vol. I pag. 206 e II, pag. 278); D. João Henriques, a cuja familia pertence o padre Leão
Henriques, havendo ainda hoje um sitio com o nome de Pomar de D. João, que lhe pertencia; Pedro Delgado, que teve sesmaria no
Lombo das Adegas; Rodrigo Anes Coelho, da familia de Rodrigo Enes Furtado, que parece ter tido terras no Lombo de São João;
Diogo Ferreira de Mesquita, que fundou a capela do Livramento, e ainda outros. Dentre os estrangeiros, podemos lembrar os
nomes de João Esmeraldo, de quem já nos ocupámos com alguma largueza, Antonio de Lemes, de origem flamenga, cujos
descendentes deram o nome ao sitio dos Lemes, um individuo de apelido Schomberg e outros.
Varios morgadios existiram dentro dos limites desta freguesia, devendo mencionar-se o do Espirito Santo e Vale da Bica, de que já
nos ocupámos no artigo Lombada dos Esmeraldos, o da Fajã do Furtado, instituido por um descendente de Rodrigo Enes, o Coxo, o
dos Lemes, por Antonio Leme, no sitio que tem o seu nome, o dos Anjos, com sede na capela desta invocação e criado por Martim
Afonso, e um instituído por Diogo Ferreira Mesquita e outro por Ambrosio Berenguer em 1601.
Dos filhos mais distintos da Ponta do Sol, citaremos os nomes do padre Leão Henriques, dr. Antonio da Luz Pita, dr. João Augusto
Teixeira, conego Feliciano João Teixeira e dr. Nuno Silvestre Teixeira, dos quais em outro lugar nos ocuparemos.
Injustiça seria não recordar aqui o nome de João Agostinho de Freitas, que foi um paciente e distinto investigador da historia desta
freguesia, tendo deixado alguns manuscritos de valor. Com o titulo de Resumo da Hera Patriotica, escreveu uma monografia da
Ponta do Sol, que por diligencia dum dos redactores deste Elucidário foi publicada nos n.°s 335 a 340 no Jornal Brado do Oeste.
Nasceu em 1827 e faleceu no ano de 1906. Também não queremos esquecer o nome de Nuno de Freitas Pestana, que, como
advogado provisionista e nos lugares que desempenhou, revelou não vulgar talento e ilustração.
Uma obra notavel que tem esta freguesia é o seu cais de desembarque, mandado construir pela respectiva camara municipal no ano
de 1848. No ano imediato, não estando ainda concluida toda a obra, comunicou o chefe do distrito José Silvestre Ribeiro ao governo
central o empreendimento realizado pela Camara, pondo em relêvo o serviço que ela prestara a esta localidade. Não consta que
nenhuma municipalidade se tenha ali abalançado a realizar qualquer outro melhoramento de vulto.
O infante D. Luís, depois rei de Portugal, visitou esta freguesia no dia 25 de Outubro de 1858, dirigindo-se á pitoresca estancia do
Rabaçal e regressando a esta vila no dia imediato. Tanto á chegada como na volta do Rabaçal, almoçou, bem como a comitiva, na
residencia do considerado pontassolense Nuno de Freitas Pestana. Desembarcou e embarcou no Lugar de Baixo, por o mau estado
do mar não o permitir fazer no cais da vila.
«A Ponta do Sol como freguesia, diz João Agostinho de Freitas, estendia-se por todo o territorio desde a ribeira da Tabúa, a leste,
até á ribeira da Magdalena, a oeste. Depois, não se sabe a epoca precisa, mas supõe-se que seria pelos anos de 1510 ou ainda alguns
anos mais tarde, sendo criadas as paroquias da Magdalena e dos Canhas, a oeste, e a da Tabúa, a leste, ficou o territorio da Ponta do
Sol reduzido a uns tantos kilometros de costa, isto é, desde a foz da ribeira do Alto, limite dos Canhas, até á foz da ribeira da Caixa,
limite da Tabúa».
Os principais sitios desta freguesia são: Vila, Ribeira da Ponta do Sol, Lombo das Terças, Lemes, Lombo das Adegas, Pomar de D.
João, Lombo de S. João, Fregueses Novos, Ribeira da Lombada, Lombada, Entre Caminhos, Jangão e Lugar de Baixo.
O censo da população de 1920 dá a esta Freguesia 6.190 habitantes.
No livro
Na Madeira-Offerendas
, de D. Mariana Xavier da Silva, publicado em Lisboa no ano de 1884, encontram-se as narrativas
O Rapazinho da Lombada
,
A Virgem das Dôres
e
Ponta do Sol
, que interessam á historia e costumes desta freguesia.
V. os artigos
Isabel de Abreu, João Esmeraldo, Lombada dos Esmeraldos e Lugar de Baixo
, além dos consagrados ás
capelas e aos pontassolenses mais distintos.
Ponta do Sol (Ponta, Porto e Cais da)
A saliencia da costa maritima conhecida por esta denominação fica em parte situada no
extremo leste da vila do mesmo nome. Lemos algures que tal nome provém da circunstância avistar-se o sol daquele ponto, em todo
o ano, desde que nasce até que se oculta no horizonte.
Nas suas mais próximas imediações, fica o pequeno porto, em frente da vila e em parte limitado por uma praia de curta extensão e
por uma pequena ponta, em que assenta o cais, que dá acesso directo ao centro da mesma vila. Sendo esta a sede do concelho e da
comarca e servindo o porto a esta localidade e a outras povoações vizinhas, tem este Porto um movimento de passageiros e de carga
relativamente grande, estando em freqüentes comunicações, por meio de vapores costeiros, com a cidade do Funchal e com
algumas freguesias da costa-oeste da Madeira. O cais, que é obra de certo aparato arquitectonico, foi mandado construir pela
Camara Municipal daquele concelho, nos anos de 1848 a 1850. Alguns estudos se fizeram para o prolongamento deste cais,
aproveitando-se os cachopos que se encontram no local, e em 1880 foi elaborado um projecto e plano de obras, que nunca
chegaram a realizar-se. O primeiro nome dado a este cais foi de Duque de Leuchtenberg, residente na Madeira no tempo da sua
construção.
Ponta do Sol (Vila e Município da)
Nos tempos primitivos da colonização madeirense, foi a Ponta do Sol um dos mais activos
centros da indústria agricola, especialmente com a cultura da cana de açucar e com os correlativos produtos da industria sacarina.
Muitos sesmeiros vindos do Continente se estabeleceram nesta localidade, um grande numero de escravos mouros e negros
trabalhavam no amanho das terras, construíram-se muitos engenhos para o fabrico do açucar, o que tudo concorria para o
engrandecimento e prosperidades deste lugar. Afirma Frutuoso que João Esmeraldo (V. este nome), tinha na sua propriedade da
Lombada cêrca de oitenta escravos, e que chegou a fabricar vinte mil arrobas de açucar por ano, o que nos parece exagerado.
Crescendo em importancia e população, e sendo o centro de outras pequenas povoações que se foram criando nos seus arredores,
era natural que constituísse uma vila e Município com o seu foral privativo, em que lhe fossem outorgadas as regalias e isenções de
que os povos eram então muito ciosos. Assim o entendeu o governo da metropole e, diz o monarca na respectiva carta régia, nós de
nosso proprio moto sem no êlles requererê nem outros em seos nomes hemos por bem & fazemos do dito logar da ponta do soll
billa... Este diploma tem a data de 2 de Dezembro de 1501 e acha-se registado no tomo 1.° do «Registo Geral da Camara do
Funchal» a fls. 67. A copia que existe na secretaria da Camara da Ponta do Sol e que foi extraída do registo da Camara do Funchal,
contém varias incorrecções, segundo afirma o anotador das Saudades. O respectivo foral, que é comum aos Municípios do Funchal
e da Calheta, tem a data de 6 de Agosto de 1515 e vem transcrito a pag. 494 e seguintes das Saudades da Terra.
O novo Município foi desmembrado do do Funchal e estendia a sua area e jurisdição desde a ribeira da Ponta do Sol até a ponta do
Tristão. A Lombada dos Esmeraldos pertencia ao Município do Funchal, embora sob o ponto de vista eclesiastico dependesse da
igreja paroquial de Nossa Senhora da Luz, sendo somente em 1835, por alvará do Prefeito, datado de 24 de Janeiro e registado no
Arquivo da Camara do Funchal, que foi encorporada no concelho da Ponta do Sol.
Com a criação do Município da Calheta, em ano que se não pode determinar com precisão, mas que não foi além de 1502, ficou o
Município da Ponta do Sol limitado a metade da freguesia do mesmo nome, aos Canhas e á Madalena, que nessa época não eram
ainda paroquias autonomas, e ao sitio do Pinheiro, que faz parte agora da freguesia do Arco da Calheta.
Assim se manteve a area deste Município, até que em 1835, com a criação e reorganização dos concelhos, foi constituido o concelho
da Ponta do Sol com as freguesias da Ponta do Sol, Madalena do Mar, Canhas, Tabua, Ribeira Brava e Serra de Agua.
Criado o concelho da Ribeira Brava, no ano de 1914, foram as freguesias da Tabua e Serra de Agua desmembradas do concelho da
Ponta do Sol e incorporadas no novo concelho.
É tradição que ao ser o lugar da Ponta do Sol elevado á categoria de vila, lhe ofereceu o rei D. Manuel um padrão de pesos e uma
chancela com as armas do Município. Compunham-se estas de um rosto, como é costume representar o sol, tendo em tôrno a
seguinte legenda: Benedictus Dominus Deus Israel quia visitavit et fecit redemptionem. O padrão de pesos é de bronze e pesa 64
arrateis, tendo gravado em volta: Me madou fazere Dom Emânuel rei de Portugal Ano de 1499. Num documento oficial dirigido ao
govèrno central em 1853, se diz que este padrão é, no seu genero, uma peça arqueologica de valor.
É a vila da Ponta do Sol sede da comarca do mesmo nome, que abrange os concelhos da Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta. Esta
comarca, como as de Santa Cruz e São Vicente, foi criada pelo decreto de 12 de Novembro de 1875. Instalou-se no dia 28 de Abril de
1876, sendo seu primeiro juiz e primeiro delegado os drs. Martinho da Rocha Guimarães Camões e Antonio Augusto Ribeiro de
Campos, que tomaram posse dos seus cargos no dia e por ocasião da instalação da comarca.
Ponta do Tristão
Fica na freguesia do Porto do Moniz e a curta distância de Santa Maria Madalena. Dum lado e outro dela,
existem algumas praias de grossos calhaus, que são péssimos desembarcadoiros.
A ponta do Tristão constituíu um dos limites da divisão das duas capitanias do Funchal e de Machico, como já dissemos noutro
lugar (1-244).
Tanto a ponta como a vizinha ribeira do Tristão, que separa a freguesia do Porto Moniz da das Achadas, só muito recentemente
foram exploradas sob o ponto de vista botanico, tendo sido achados aí pelo naturalista J. Gonçalves da Costa–a
Beta vulgaris
var.
maritima
, a Ononis Costae, o
Carex pendula
, o
Carex elata
, o
Allium vineale
, o
Polypodium drepanum
, etc. etc..
Pontas
As principais pontas são: a de S. Lourenço no concelho de Machico, na qual há diversas pontas secundarias, tais como a do
Furado, a da Abra, a dos Dedais, a do Rosto, etc.; a da Queimada, no mesmo concelho; a de Santa Catarina, a do Guindaste, a da
Atalaia e a da Oliveira, no concelho de Santa Cruz; a da Cruz, no concelho do Funchal; a de Agua, no concelho de Camara de Lôbos;
a do Sol, no concelho da Ponta do Sol; a da Galé e a do Pargo, no concelho da Calheta; a do Tristão, no concelho do Porto do Moniz;
a Delgada, no concelho de S. Vicente; e a de S. Jorge, de Santana e do Cortado, no concelho de Santana (Vid. estes nomes).
As principais pontas da ilha do Porto Santo são: a do Incão, a dos Frades, a Branca, a da Cruz, a dos Varadouros, a do Furado e a da
Calheta. (Vid.
Porto Santo
).
Nas Desertas há a assinalar: a ponta da Agulha, no Bugio, e a do Boqueirão, do Pedregal, do Norte e da Rocha Negra, na Deserta
Grande (V.
Desertas e Cabos
).
Ponte Nova (Rua da)
A actual rua deste nome comunica a margem esquerda da ribeira de Santa Luzia com a Calçada da
Incarnação, mas a antiga estendia-se até a rua dos Ferreiros, abrangendo, portanto, uma parte da actual rua dos Netos. Esta parte
da rua foi aberta em 1833.
As obras da chamada Ponte Nova, sobre a Ribeira de Santa Luzia foram arrematadas por 890$00 réis, em sessão camararia de 25
de Maio de 1768.
Pontes (Padre Armando Augusto de)
Nasceu no Funchal a 18 de Maio de 1836 e morreu na freguesia de Machico a 3 de
Novembro de 1897. Cursou o liceu e o seminario desta cidade, e ordenou-se de presbitero a 16 de Setembro de 1860. Exerceu
funções eclesiasticas em diversas paroquias desta diocese especialmente na freguesia de Machico, onde foi pároco durante muitos
anos. Era homem bastante inteligente e de vasta ilustração, sendo igualmente um sacerdote modelar e de uma impecavel
austeridade de caracter.
Teve uma larga colaboração em alguns periodicos e nomeadamente no antigo Jornal Verdade. Publicou os opúsculos
O Domingo, a
Fé
, Funchal, 1895, de 55 pag
., Excursões na Madeira
, Funchal, 891, de 106 pag. e
Um monumento Histórico,
Funchal, 1886, de 27
pag..
Pontinha (Sitio, Estrada, Ilhéus e Molhe da)
Por vezes tem parecido estranha a denominação de Pontinha dada á saliencia da
costa maritima, que em parte serve de limite ao nosso pequeno porto de abrigo. O local era primitivamente conhecido pelo nome de
Ilhéus, por terem ali existido dois isolados rochedos banhados pelo mar, abrangendo esta denominação as mais próximas
imediações do sitio referido. Ainda hoje a rua dos Ilhéus, que fica nas suas circunvizinhanças, recorda o nome primitivo.
O minusculo ilhéu, que estava situado mais proximo do litoral, ficou ligado á terra nos principios do terceiro quartel do século
XVIII, por meio de fortes muralhas, que entestavam com as paredes de um reduto fortificado ali existente. O outro ilhéu, que ainda
bem distintamente se encontra nesse local, teve a sua definitiva ligação com o primeiro ilhéu e com a costa no ano de 1889, ao
concluir-se o muralhão, que constitui a parte mais importante do molhe da Pontinha.
O ilustre comentador das
Saudades da Terra
, embora um pouco forçadamente, apresenta esta explicação do nome de Pontinha,
dado àquele trecho da costa maritima: «Desses dois ilheus, o mais ao mar e ainda agora (em 1873) insulado nas aguas como dantes,
pelo que conserva o nome de Ilhéu; o outro desde muitos tempos ligado ao litoral da ilha por fortes paredões, tem, por isso, a
denominação de Pontinha».
Este nome, que tem predominado no decorrer do tempo, é de uso bastante antigo e pode remontar-se aos meados do século XVI.
As mais seguras probalidades persuadem que aproximadamente por 1425 se teria iniciado a colonização da Madeira. O
historiador das ilhas, ao descrever a primeira exploração realizada ao longo da costa máritima e referindo-se particularmente á
chegada dos primitivos povoadores ao sitio que depois se chamou Funchal, diz-nos que êles «por ser já tarde, se foram abrigar aos
Ilheus, que no cabo dele (o vale do Funchal) estão». É a mais remota referencia que se conhece feita aos Ilhéus da Pontinha. O sítio
e as suas proximidades do litoral tomariam desde então a denominação de Ilhéus, prevalecendo posteriormente o de Pontinha,
como acima fica referido.
Nas imediações deste sitio fundou Antonio Dantas, no ano de 1622, a capela de Nossa Senhora da Penha de França, a qual estão
ligados alguns factos que interessam bastante á historia da Madeira (Vid.
Penha de França
). E ainda nas mesmas imediações e
tomando o nome dessa capela, se construíu uma fortaleza, no segundo quartel do século XVII e reedificada em 1712, que serviu de
aquartelamento a uns destacamentos de tropas inglêsas no ano de 1801, quando ocuparam esta ilha.
No ilhéu mais distanciado da costa, construiu-se no ano de 1654 a «Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu», onde em
1682 se edificou uma pequena capela dessa invocação, que teve seu capelão privativo desde o ano de 1692. Em 1866, foi ali colocado
um minúsculo farol de luz vermelha, que geralmente e por ironia se chamava a braza do Ilhéu, e que foi substituido no ano de 1931
por um farol, em condições normais. Ainda há poucos anos estacionava permanentemente nesta praça um destacamento da
Companhia de Artilharia aquartelada na Fortaleza de São Tiago, que particularmente se destinava a corresponder ás «salvas» dos
navios de guerra entrados no nosso Porto. Funcionava aí uma estação semafórica.
A ligação do ilhéu da Pontinha, situado mais próximo do litoral, com a costa fronteira fêz se no periodo decorrido de 1757 a 1762,
por meio de sólidas muralhas, como se disse, conjecturando-se que essas obras se realizaram por ocasião da construção do pequeno
forte de São José, que ali existiu, ou um pouco anteriormente a essa construção.
Essa ligação e a escada talhada por essa época na rocha viva constituía já um pequeno cais para desembarque, que foi muito
aproveitado, quando o estado do mar não permitia fazê-lo na praia.
No volume I.º do «Archivo da Marinha e Ultramar», publicado em 1907, vêm citados muitos documentos relativos ás obras que
deveriam realizar-se no Porto do Funchal, fazendo-se referencia aos projectos apresentados pelo engenheiro Francisco Tossi
Colombina e aos trabalhos já iniciados sob a sua direcção, que então despertaram particular interesse e que abrangiam alguns
melhoramentos na Pontinha.
Quando, por meados do século XVIII, se fêz a ligação de um dos ilhéus com o litoral, como ficou dito, ter-se-ia construído uma
escada praticada na rocha ou um pequeno cais de desembarque, que em 1850 foi bastante melhorado, havendo-se concluído a
construção de um cais em condições mais vantajosas no ano de 1878 e que por ocasião da edificação do molhe recebeu ainda
notaveis melhoramentos.
Os trabalhos ali realizados, desde os meados do século XVIII até o ano de 1878, não ofereciam garantias de segurança e de
comodidade nos desembarques, tornando-se varias vezes indispensavel construirem-se cais improvisados de madeira, quando
imperiosas circunstancias de ocasião a isso obrigavam.
Pelos anos de 1872, projectou-se a construção da aprazivel «Estrada da Pontinha» que principalmente depois da conclusão das
obras do pequeno Porto de abrigo presta ao publico os mais apreciaveis serviços, que ainda maiores serão á medida que forem
melhorando as condições do mesmo Porto. Os trabalhos não se iniciaram desde logo e foi morosa a sua construção, que sòmente foi
dada por concluída em 1895, alguns anos ainda posteriormente á do Molhe da Pontinha. Muito contribuiu para o aformoseamento
da baía, facilitando também as comunicações da parte mais movimentada da cidade com os bairros do oeste do Funchal. No alto da
aprumada escarpa sobranceira a esta estrada, encontram-se algumas das melhores «quintas» da Madeira, que gozam de uma
invejosa situação relativa á vista do Porto e de todo o anfiteatro do Funchal.
Estende-se o Caminho da Pontinha desde a parte oeste do cais da Entrada da Cidade até o molhe, e recebeu em sessão de 6 de Julho
de 1922 o nome de rua Sacadura Cabral (V. Navegação aérea).
O caminho da Pontinha já se chamou também Avenida do Dr. José António de Almada e de Francisco Ferrer, sendo portanto uma
das vias públicas que mais crismadas tem sido pelas nossas municipalidades. Esteve para ser aberto nos principios do século XIX,
mas só veio a construir-se muito mais tarde, entre 1873 e 1875, quando era director das Obras Publicas o falecido engenheiro Julio
Augusto Leiria.
Nos artigos
Cais
,
Ilhéu
e
Molhe da Pontinha
, encontram-se outros pormenores que interessam a este assunto e para êles
remetemos o leitor.
População
No artigo
Povoamento e Colonização
, daremos rapida noticia acèrca da forma como se realizou entre nós o
desenvolvimento da população, ao se iniciarem os arduos trabalhos da primitiva colonização madeirense.
São bem escassos os elementos que nos deixaram as antigas crónicas a respeito desse povoamento no que particularmente se refere
ao numero, posição social, qualidades pessoais e terras de origem dos primeiros colonizadores.
Vagamente se sabe que entre êles se contavam individuos de nobre ascendencia, outros das classes populares, mecanicos e
cultivadores das terras, e também alguns criminosos que cumpriam suas penas nas prisões, informando-nos Gaspar Frutuoso que
João Gonçalves Zargo «recusara trazer os culpados por causa da fé, ou traição, ou por ladrão».
Não se sabe o número aproximado desses individuos e também se desconhece a proporção em que as diversas camadas sociais
entrariam na formação dessas primeiras levas de povoadores. Com fundamento se conjectura que não seriam poucos, crescendo
breve e rápidamente esse número com a vinda freqüente de outros colonos e especialmente com a grande legião de escravos mouros
e negros, tornada logo uma avultada multidão. Assim o exigiam os largos e penosos trabalhos do arroteamento das glebas virgens,
estimulados os activos cultivadores pela exuberante fertilidade do solo e pela excelente benignidade do clima.
Foi na segunda metade do século XV que o povoamento tomou um mais largo incremento, tanto de povoadores vindos do
continente português e de inúmeros escravos africanos, como ainda de muitos estrangeiros de vários países europeus, alguns dos
quais oriundos de antiga familia, que vinham procurar nesta nova terra da promissão o que a própria átria não poderia dar-lhes.
Seria de bastante interesse a organização duma estatistica da população deste arquipélago desde os tempos primitivos da sua
colonização até ao presente, mas poucos elementos possuímos para um trabalho completo desta natureza, sobretudo com relação
ao século XV e
á primeira metade do século XVI. A partir dos meados do século XVI, não seria então impossivel a organização
dessa estatistica, com resultados muito aproximados da verdade, aproveitando-se os arquivos das igrejas paroquiais, pois em tôdas
ou quasi tôdas se encontra o lançamento regular dos assentos dos baptismos, casamentos e obitos nelas ocorridos desde o terceiro
quartel daquele século. Não é muito dificil esse estudo acêrca de cada freguesia e facil depois seria realizá-lo com respeito a todo o
arquipélago. Á parte as epidemias ou outras calamidades públicas, mantinha-se geralmente nessas epocas uma proporção uniforme
entre o numero de habitantes duma certa localidade e o numero de nascimentos e obitos nela ocorridos, sendo deste modo possivel
organizar-se uma estatística regular da população.
Azurara conta que «ao tempo da feitura» havia na Madeira «C L moradores», «afora outras gentes que hi avya, assy como
mercadores, e homees e molheres solteiros, e mancebos».
Quanto ao Porto Santo, diz o anotador das Saudades que em 1529 tinha aquela ilha mais de 800 habitantes, e afirma Frutuoso que
em 1590 havia ali uns 400 fogos, em que portanto habitavam cêrca de 1600 habitantes. Acêrca desta afirmativa de Frutuoso, diz o
dr. Alvaro de Azevedo: «comquanto pareça haver nisto exageração, por constar dos Annais da Ilha do Porto Santo que em 1850 a
população era de 1799 pessoas, isto é uns 450 fogos, e do censo feito em 1864 que os fogos eram 363 com 1425 habitantes, cremos
ser exacto o dito de Frutuoso; a ilha do Porto Santo só progrediu nos primeiros cento e cincoenta anos desde o descobrimento;
depois, a escassez dos seus meios naturais de produção, as amiudadas invasões dos corsarios, e o abandono em que a deixaram os
donatarios, os seus mais opulentos moradores, e até os governos, salvo o marquês de Pombal, a condemnaram ao estado decadente
em que até agora tem jazido.»
A população atribuída á Madeira e Porto Santo em diferentes épocas, consta do mapa seguinte, aproveitando-se os elementos
fornecidos pelo estudo Madeira do «Dicionario Portuguez Ilustrado», por artigos dispersos em diversos jornais e pelos ultimos
censos da população.
Anos Habitantes
1500........................................... 16 000
1572........................................... 19 172
1580........................................... 21 800
1590........................................... 29 548
1614........................................... 28 345
1679........................................... 40 000
1750........................................... 59 143
1754........................................... 51 143
1767........................................... 64 624
1779........................................... 70 000
1781........................................... 70 443
1794........................................... 83 115
1797........................................... 97 390
1805........................................... 84 364
1813........................................... 92 382
1818........................................... 96 297
1819........................................... 96 752
1825...........................................102 000
1835...........................................113 828
1839...........................................114 147
1843...........................................117 372
1849...........................................108 274
1851...........................................110 340
1854...........................................107 088
1858........................................... 98 620
1864...........................................110 349
1871...........................................116 706
1878...........................................130 473
1890...........................................132 088
1900...........................................148 263
1911...........................................167 783
1920
1930 1940
21 990 23 996
1920...........................................179 002
1930...........................................211 601
1940...........................................249 771
A população dos onze concelhos do arquipélago, segundo os dados fornecidos pelos três ultimos recenseamentos é a seguinte:
Funchal........... 51 996 68 630 87 140
Camara de Lôbos... 17 535 21 806 24 500
Ribeira Brava..... 14 149 16 394 19 382
Ponta do Sol...... 11 519 13 290 14 911
Calheta........... 19 760
Porto do Moniz.... 4 552 5 062 8 170
9 684 11 549
S. Vicente........ 9 146
Santana........... 9 778
10 908 14 074
17 936 19 749
Machico........... 17 286
24 852 26 076
Santa Cruz........ 21 038
Porto Santo....... 2 243
2 490 2 701
O movimento populacional das cinqüenta freguesias em que está dividido o distrito e relativo ao mesmo periodo de tempo,
conforme os dados estatísticos já conhecidos, é o seguinte:
1920
Sé................
S. Pedro..........
Santa Maria Maior.
Santa Luzia....... 5 667 7 484 9 617
2 767 3 127 3 888
8 212 10 594 13 220
7 592 10 147 12 833
1930 1941
4 085 5 397 7 467
8 749 11 116 11 692
481
S. Martinho....... 6 198 9 439 11 631
Santo Antonio..... 9 915 11 688 13 567
S. Roque.......... 3 241 4 104 5 576
Na Sra do Monte...
S. Gonçalo........ 4 319 6 023 9 341
Camara de Lôbos...
Curral das Freiras 1 476 1 919 2 168
Estreito de Camara
de Lobos.......... 6 248 7 294 8 575
Quinta Grande..... 1 062 1 485 1 615
Campanario........ 4 048 4 852 5 856
Ribeira Brava..... 5 830 6 959 8 346
Serra de Agua..... 1 783 1 867 2 097
Tabua.............
2 488 2 665 3 083
Ponta do Sol...... 6 190 7 153 7 789
Canhas............ | 5 329 6 037 1 386
Madalena do Mar... |
Arco da Calheta... 4 951 5 765 5 824
Calheta........... 3 894 4 380 5 067
Estreito da Calheta|
Jardim do Mar......| 4 343 4 925
Prazeres...........|
Paul do Mar........ 1 483 1 723 2 143
Fajã da Ovelha..... 2 562 2 459 2 581
Ponta do Pargo..... 2 527 2 708 3 054
Achadas da Cruz.... 430
Porto do Moniz..... 2 410
Ribeira da Janela..
Seixal.............
1 141 1 148 1 319
500 528
2 812 3 412
571 748 911
824 996
S. Vicente......... 5 426 5 444 6 383
Ponta Delgada...... 1 521 1 792 2 033
Boaventura......... 2 199 2 427 3 133
Arco de S. Jorge... 651 667 870
S. Jorge........... 2 240
2 522 3 441
Santana............ 3 123 3 424 4 517
3 235 3 809
Faial.............. 2 844
S. Roque do Faial..
920 1 062 1 410
Porto da Cruz...... 5 814 4 388 4 944
Caniçal............ 657
Machico............ 8 619 9 884 10 820
Santo da Serra..... 2 301 2 378 3 111
Agua de Pena....... 1 242 1 416 1 613
Santa Cruz......... 7 472 8 856 8 511
Gaula.............. 3 335 3 629 3 753
Camacha............ 3 965 4 530 5 066
Caniço............. 4 899 6 265 7 011
A população da cidade do Funchal é assim computada, nos seguintes anos:
Anos
1864......... 17 677
1878......... 19 752
1890......... 18 778
1909......... 20 844
1910......... 24 687
1920......... 24 238
1930......... 31 352
A pletora populacional que actualmente se observa na Madeira não é um fenomeno exclusivo dos nossos dias. Em diversas épocas
Habitantes
tem-se verificado esse excesso de população, que conjugado com outras graves circunstancias ocasionais determina o aparecimento
de temerosas crises, provocando o forçado recurso da emigração. Seria útil e interessante a elaboraçao de um pormenorizado
trabalho, em que fôssem estudadas as causas dessas crises, os meios adoptados para as combater e os efeitos salutares que deles
resultaram. Não pode duvidar-se que essas voluntarias expatriações, apesar dos inconvenientes que as acompanham, são
geralmente de benéficas conseqüencias, devendo especializar-se a que em larga escala se fez para a Guiana Inglêsa em meados do
século passado, traduzindo-se em apreciaveis elementos de prosperidade para esta ilha. Vid. Emigração.
Oferece particular interesse a noticia que nos fornece o «Archivo da Marinha e Ultramar» referente ao ano de 1762, dando-nos a
informação de que o então governador e capitão-general José Correia de Sá, em comunicação feita ao governo da Metropole a 23 de
Julho desse ano, participava a «partida para Lisboa de diferentes individuos, que pelo excesso da população não logravam
encontrar meios de subsistencia».
É a simples menção de um facto, que através do tempo e com maior ou menor intensidade se vem verificando entre nós. O mal
agrava-se dia a dia e reveste as mais assustadoras proporções, tendo despertado na imprensa local uma bem orientada campanha,
que deve provocar as mais atentas preocupações de «governantes e governados».
Vid.
Popular (O)
Iniciou a sua publicação a 19 Fevereiro de 1869 e terminou a 12 de Setembro do mesmo ano, saindo 29 numeros.
Com o mesmo titulo se publicou outro periodico nos anos de 1874 a 1877, tendo saído o primeiro numero a 16 de Março de 1874.
Portas da Cidade
O Funchal, como tôdas cidades antigas, teve as suas portas, que fechavam a horas prèviamente marcadas pelas
autoridades e que só se abriam ao toque da alvorada. Em algumas cidades eram essas portas defendidas por certas fortificações
destinadas a impedir a entrada de quaisquer assaltantes inimigos. Não sabemos se as portas desta cidade, a não ser as que ficavam
junto das fortalezas, teriam alguns elementos de defesa militar.
Nos principios do século XIX tinha a nossa cidade dezasseis portas e em 1836 só existiam onze. Algumas foram demolidas no
periodo decorrido de 1836 a 1839, não restando hoje nenhuma delas, a não ser a da Alfandega e talvez uma abertura que ainda
existe na cortina da cidade, situada nas proximidades da fortaleza de São Tiago.
As portas que ainda estavam de pé no ano de 1836, constam da seguinte relação, mais completa do que a que publicamos a pag. 322
do volume I.º desta obra:
As duas portas que ficavam entre a fortaleza de São Tiago e o chamado Forte Novo e o Pelourinho, sendo a do lado oriental aquela a
que já fizemos referência;
O portão de Nossa Senhora do Calhau, situado entre o Forte Novo e o Pelourinho, na embocadura da rua da Boa Viagem, que foi
demolido em 1836 quando se principiou a construção da praça Academica;
O portão dos Varadouros, demolido em 1911 e que veio substituir o que foi apeado quando ali se edificou o arco e a capela do
mesmo nome (V. pag. 467 do volume II), continuando a ser uma das portas da cidade;
O portão do extremo-sul da rua do Sabão, demolido em 1836;
O portão do forte da Alfandega;
O portão da Saúde, situado entre a Casa da Saúde (V. Entrada da Cidade) e a fortaleza de São Lourenço, abatido em 1839, quando
se procedeu á construção da Entrada da Cidade, hoje Avenida João Gonçalves Zargo;
O portão de São Lazaro, que ficava no alto da rua dos Aranhas e que também tinha este nome, demolido em 1904;
O portão de São Paulo, junto á capela do mesmo nome, demolido em 1839:
O portão da Carreira, situado abaixo do cemiterio britanico e que foi construido no ano de 1865;
O portão do Pico, que se encontrava entre a capela de São Paulo e a rua de Bela Vista, igualmente demolido em 1865.
Das outras cinco portas existentes no principio do século passado, não há noticia segura acêrca dos lugares em que se encontravam.
Vê-se, dum livro existente no arquivo da Camara Municipal, que em 1597 havia as seguintes portas para o lado do mar: a da rua do
Peixe, a dos Varadouros, a da rua do Sabão e a da Fortaleza. Não podemos precisar o local onde existiu a primeira destas portas,
mas há fortes razões para crer que ela ficasse perto da actual praça de S. Pedro e fôsse a mesma que Frutuoso coloca perto dos
açougues.
No regimento das obras de fortificação, dado por D. Sebastião, alude-se á abertura de duas portas para o lado do mar, entre a
fortaleza e a igreja de Nossa Senhora do Calhau, e nas Saudades da Terra refere-se Frutuoso a três portas que existiam na muralha,
ao longo da ribeira de João Gomes, e bem assim a três outras que ficavam para o lado sul, sendo uma junto da dita igreja de Nossa
Senhora do Calhau, outra mais no meio da cidade, perto dos açougues, e a terceira, «a mais principal aos Varadouros».
Vid.
Cortina
e
Entrada da Cidade
.
Porto de Abrigo
V.Molhe da Pontinha .
Porto da Cruz (Freguesia do)
) Saindo do sul desta ilha em direcção ao norte e dobrando a Ponta de S. Lourenço, depara-se-nos a
primeira das freguesias que constituem aquela acidentada costa. É o Porto da Cruz. Provém-lhe o nome de terem os primeiros
exploradores deste lugar arvorado uma cruz na pequena enseada que lhe serve de Porto.
As primeiras terras arroteadas na costa do norte foram as do Porto da Cruz e Faial. É de supor que alguns dos mais proximos
descendentes do primeiro donatario Tristão Vaz tivessem terras de sesmaria nesta freguesia e aqui se entregassem a explorações
agrícolas. Entre os antigos povoadores, contam-se Antonio de Abreu, Fernão Nunes, Simão Teixeira, Baltasar da Mata, Francisco
Velosa, João Dias, Antonio Teixeira de Mendonça, Antonio Leal, quasi todos de nobre ascendencia.
O alvará régio de 26 de Setembro de 1577 cometeu ao prelado diocesano D. Jeronimo Barreto a faculdade de erigir esta nova
paróquia, e pelo mesmo diploma se estabelece ao paroco a côngrua de 20$000 réis anuais, tendo o alvará de 15 de Novembro de
1591 fixado esse vencimento de 19$000 réis em dinheiro e uma e meia pipa de vinho e um e meio moio de trigo.
É provavel que anteriormente á criação da paróquia, como aconteceu em quasi tôdas as freguesias desta ilha, houvesse alguma
capela com capelão privativo, que ali exercesse as funções eclesiasticas. É possivel que isso se tivesse dado na propria capela de
Nossa Senhora da Piedade, onde foi estabelecida a sede da freguesia, talvez na dependencia canonica do paroco do Faial. Desta
capela já demos breve noticia a paginas 465 do volume II.
Parece que a primitiva padroeira da paróquia seria Nossa Senhora da Piedade, invocação do pequeno templo que primeiro serviu de
igreja paroquial, tendo-se-lhe depois dado como orago o misterio da Vera Cruz, segundo consta do respectivo arquivo. Na escritura
de doação do terreno para a nova igreja, chama-se a esta de Nossa Senhora da Gloria, e, finalmente, depois da erecção do novo
templo, foi este consagrado a Nossa Senhora de Guadalupe, orago que perdurou e ainda hoje conserva.
Poucos anos permaneceu a sede da paroquia na capela da Piedade. D. Guiomar Lomelino, residente nesta freguesia, doou em 1580
ao paroco Nicolau de Abreu o terreno indispensavel para a edificação da nova igreja, presbiterio e passal adjunto. Não sabemos
quando terminou a construção do templo e quando nele se começaram a exercer os actos do culto. Sofreu varias modificações no
decorrer dos tempos, e por 1637 e 1688 se realizaram nele importantes reparações. 0 alvará regio de 30 de Outubro de 1748
autorizou o pagamento da importancia de réis 2 450$000 para as obras dum novo templo, que ficou de acanhadas proporções para
a população da freguesia. A capela do Santissimo Sacramento foi construída em 1763 por mandado de Manuel Caldeira da Silva,
como administrador do vinculo instituído por Marcelino de Moura e em cumprimento do voto que este fizera, sendo esta capela
pertença do mesmo vínculo. Por 1820, projectou-se a construção duma nova igreja paroquial, orçada em vinte e seis contos de réis,
tentativa essa que não passou dum simples projecto.
Um Breve Pontificio de 21 de Abril de 1795 concede indulgencia plenaria aos que visitarem esta igreja, e outro Breve de 15 de Agosto
de 1781 a graça de privilégio especial ao altar do Senhor Jesus em tôdas as segundas-feiras.
O primeiro vigario foi o padre Nicolau de Oliveira, que, por mais de quarenta anos, esteve na direcção desta paroquia, seguindo-se-
lhe os padres Rui Gomes de Ornelas, Manuel Fernandes Braga, Francisco Fernandes, Pedro Ferreira, Inacio Alvaro de Carvalho,
Cristovão Moniz de Meneses, etc..
Em uns interessantes artigos que acêrca desta paroquia foram publicados no Correio da Madeira, encontramos as seguintes linhas
com respeito á criação do curato: «Crescendo sempre o movimento paroquial depois de 1700, a requerimento do padre Caetano
Alberto de Araújo, e por alvará de D. Maria I, com data de 31 de Julho de 1797, foi criado o curato desta freguesia, com a obrigação
de residencia nas imediações da Capela de S. João Nepomuceno, no Lombo dos Leais, percebendo o cura a côngrua anual de moio
e meio de trigo e pipa e meia de vinho. Este curato foi causa de dissenções entre o vigario e os donos da capela, estando esta
interdicta por algum tempo, por essa razão».
No vol. I.° do Archivo da Marinha e Ultramar, vêm citados alguns documentos pelos quais se vê que em 1818 varios paroquianos
desta freguesia e em especial os moradores do sitio de Folhadal, pediram ao governo da Metropole a criação dum curato com sede
na capela de São João Nepomuceno ou, talvez melhor, a mudança dessa sede para a referida capela, que seria então na igreja
paroquial. O bispo D. Joaquim de Meneses e Ataíde informou desfavoravelmente a petição dos requerentes.
Tiveram sede nesta localidade diversas instituições vinculares, dalgumas das quais damos uma breve resenha: a casa vinculada dos
Baptistas, instituída nos fins do século XV pelo genovês Micer Baptista e de que foi ultimo representante João Bettencourt Baptista
falecido há poucos anos (1921); o morgadio da Referta, que foi estabelecido por Manuel Telo Moniz de Meneses, falecido em 1713,
de que foi ultimo administrador Manuel Raimundo Telo Moniz Torresão e de que hoje é representante sua neta D. Cristina de
Campos Soares (1921); o vinculo instituído pelo padre Cristovão Moniz de Meneses, de que foi ultimo representante o morgado
Antonio Caetano de Aragão; e os morgadios instituídos pelo capitão Braz Moniz Telo de Meneses e pelo capitão Inacio de Carvalho
Favila.
Existiu nesta freguesia a antiga e distinta familia Leal, que constituíu uma das mais opulentas casas do norte da ilha e que tem hoje
como representante o dr. Alfredo de Freitas Leal (1921). Foi membro desta familia o comendador Valentim de Freitas Leal, que
entre outros cargos exerceu o de governador civil deste distrito e que recusou o titulo de visconde do Porto da Cruz, titulo de que há
alguns anos usa um seu bisneto. Nasceu em 1790 e faleceu no ano de 1879.
Filho do comendador Valentim, foi o conselheiro João Baptista de Freitas Leal, de quem já neste volume nos ocupamos. O primeiro
desta distinta ascendencia que consta ter feito assentamento nesta freguesia foi Antonio Leal, falecido em 1582. 0 seu quinto neto
João José Nepomuceno de Freitas Leal fundou a capela do Lombo dos Leais.
Um filho ilustre do Porto da Cruz foi O padre dr. Caetano Alberto Soares, a quem consagraremos artigo especial na altura
competente desta obra.
Os principais sitios são: Casas Proximas, Serrado, Fajã e Palmeira, Ribeira Tem-te-não-caias, Lombo dos Leais, Cruz da Guarda,
Maiata, Larano, Achada, Achadinha, Referta, Massapês e Terra do Baptista. Da Portela e do Lombo dos Leais, descortinam-se
vastos e surpreendentes panoramas entre esta e a freguesia do Faial, e sobranceira ao mar, numa altura de perto de 600 metros,
eleva-se a conhecida rocha da Penha de Aguia de cujas eminencias se estendem também largos e belos horizontes.
É esta paroquia sede dum partido medico, tem duas escolas, uma para cada sexo, uma estação telegrafica, criada pelo decreto de 17
de Agosto de 1888, e conta 4.284 habitantes pelo ultimo censo publicado (1921).
O Porto da Cruz pertenceu á capitania de Machico desde a sua criação, passando em 1835 a fazer parte do concelho de Santana. Foi
desmembrado deste concelho em virtude do decreto de 19 de Outubro dc 1852 e anexado ao concelho de Machico, ao qual ainda
pertence.
Porto da Cruz (Ilhéu, Porto e Ribeira de)
Proximo da costa maritima desta freguesia, existe um ilhéu, que defronta com um
pequeno Porto, sendo conhecido pelo nome de Furna o lugar de desembarque. O ilhéu e o Porto conservam o nome de Porto da
Cruz e bem assim a ribeira, que desemboca a certa distancia desse local.
Porto do Funchal
É a baía do Funchal a mais ampla do arquipélago e tem como limites a Ponta do Garajau, a leste e a Ponta da
Cruz, a oeste. Desenvolve-se numa curvatura e reentrancia sensivelmente regulares entre aquelas duas pontas, achando-se ao
abrigo dos ventos de todos os quadrantes, com excepção do vento que sopra de SSE a SSW pelo S. A sua amplidão permite fazer
dela um vasto ancoradouro, mas as comunicações com a terra só podem estabelecer-se com relativa facilidade nos pontos mais
acessiveis da costa maritima, que se estendem desde o Ilhéu da Pontinha, a oeste, até ás proximidades da fortaleza de São Tiago, a
leste, afastados um do outro cêrca de dois mil metros. Dentro destes limites se realiza todo o tráfego e movimento do Porto, sendo
este limitado por uma praia de calhaus rolados, de grande fundo e livre de restingas ou cachopos, que possam dificultar o seu
acesso. A preamar ou o estabelecimento do Porto, segundo a carta geografica da Madeira do general A. P. de Azevedo, é ás 12h e
48m, sendo a elevação da maré de 2m,28, afirmando porém, o engenheiro Mariano F. Faria e Maia que as amplitudes das marés
chegam a 2m,80. Com respeito ao Porto do Funchal e marés do litoral da Madeira, diz o ilustre engenheiro Adolfo Loureiro «que
pouco se conhece acêrca das influencias lunares no fenomeno das marés vivas e mortas, propagação, velocidade e direcção que
nelas se observam, altura e fôrça da vaga conforme o rumo do vento, o seu impulso, duração, etc.. A temperatura das aguas e a sua
distribuição á superficie, os seus movimentos periodicos e condições, seguindo uma lei que parecia constante, deveriam passar a ser
objecto de estudos oceanograficos muito interessantes, que infelizmente não se fizeram nunca».
É de 520 milhas a distancia a que se encontram os portos de Lisboa e do Funchal, ficando este ultimo aproximadamente afastado
350 milhas do Cabo Cantim (V. este nome), 1220 de Plymouth, 1330 de Southampton e 1430 de Liverpool.
É de verdadeiro interesse e reconhecida utilidade apresentar-se aqui uma nota circunstanciada do movimento do Porto do Funchal
nos ultimos anos, não só para aquilatar-se do desenvolvimento comercial e turistico verificado entre nós, mas ainda para servir de
elementos de estudo acêrca dos melhoramentos que num futuro proximo tenham ainda, porventura, de realizar-se dentro dos
limites do nosso Porto de abrigo.
No artigo
Movimento do Porto
(II-409), encontra-se uma informação desse movimento relativa ao periodo decorrido de 1901 a
1943, que serve de complemento ao que deixámos exposto.
Convém advertir que o notavel decrescimento que se nota no movimento do Porto do Funchal, no periodo decorrido desde o ano de
1914 foi devido á grande conflagração europeia, que afastou da Madeira um numero consideravel de embarcações, indo
gradualmente aumentando, até que no ano de 1937 chegou a ser de 1438 embarcações. Com a recente guerra mundial, ainda se
tornou maior esse decrescimento sendo de 389,234,190 e 187 o numero de navios entrados nos anos de 1940 a 1943.
Extraídas do acreditado periodico «Jornal do Comercio e das Colonias» e da pena do dr. C. Dias de Carvalho são as interessantes e
valiosas informações que em seguida apresentamos acêrca do Porto do Funchal.
«Os portos das Ilhas Adjacentes classificam-se, segundo o grau de importancia, pela seguinte ordem: Funchal, Ponta Delgada,
Horta e Angra. Antes, porém, convém darmos uma ideia do seu movimento em conjunto.
As mercadorias carregadas e descarregadas nesses portos, em 1936, sobem a cêrca de 251 mil toneladas com um valor de 132 mil
contos aproximadamente.
Ao Porto do Funchal compete a quasi totalidade deste movimento, com 88,63 % da tonelagem e 82,76 % do valor global; segue-se-
lhe o de Ponta Delgada, respectivamente, com 6,97 % da tonelagem e 11,52 % do valor; vem depois o da Horta, com uma tonelagem
de 4,21 % e Angra com 3,56 % do valor e finalmente, Angra com 0,19 % da tonelagem total e Horta com 2,16 % do valor.
Vista assim de uma maneira rápida a posição que ocupa cada um destes portos relativamente às quantidades de produtos
movimentados nos seus cais, passemos a uma análise mais detalhada em relação a cada um deles.
Dissemos já que este Porto é o mais importante das Ilhas Adjacentes e vem ocupar o quarto lugar da escala geral dos portos do
Continente e Ilhas, logo a seguir ao de Setubal.
O seu movimento foi superior ao de Leixões, e, quanto a tonelagem importada, o Porto do Funchal coloca-se em uma situação
superior ao proprio Porto de Setubal.
As mercadorias importadas e exportadas por aquele Porto da Ilha da Madeira atingiram no ano de 1943 222.258 toneladas, com um
valor de 109.203.000$00.
Vejamos o que nos dizem os numeros relativos ao comércio de importação e de exportação.
Importaçao. O total das importações efectuadas pelo Porto do Funchal, em 1936, sobe a 95.096 toneladas, cujo valor monta a
58.652 contos. Seguidamente, fazemos uma discriminação destas quantidades e valores, segundo as diferentes rubricas pautais:
Animais vivos – A importação resume-se a toneladas com um valor de 28 contos.
Matérias-primas – A esta classe pertence a maior tonelagem, tendo sido importadas de diversos produtos 73.963 toneladas,
elevando-se o seu valor a 16.665 contos.
Fios e tecidos – Destas mercadorias, descarregaram-se no Porto do Funchal 565 toneladas mas, com um valor de 17.096 contos, isto
é, a classe a que compete o valor mais alto na importação.
Substancias alimentícias – Os produtos pertencentes a esta classe figuram em segundo lugar no que respeita á quantidade – 19.216
toneladas – e em terceiro quanto ao valor –
14.664 contos.
Máquinas, aparelhos, etc. – A importação destes utensilios é já menor, figurando apenas 410 toneladas com um valor de 5.400
contos.
Manufacturas diversas -É também relativamente pequena a quantidade de artefactos importados – 891 toneladas –,cujo valor se
eleva a 4.790 contos. Precisamos, no entanto, de ter em conta a extensão da Ilha e as necessidades da sua população, a fim de não
apoucarmos estes valores.
Em resumo: os produtos que na importação mais movimentaram o Porto do Funchal (em tonelagem, é claro) acham-se incluidos
nas classes a seguir indicadas, pela sua ordem de importancia: 1.°) materias-primas; 2.°) substancias alimenticias; 3.°)
manufacturas diversas; 4.°) fios e tecidos; 5.°) maquinas, aparelhos, etc., e 6.° animais vivos.
Quanto aos valores a ordem é já outra, como fàcilmente se poderá verificar pelos numeros já citados.
Exportação – Examinemos agora o movimento comercial de exportação relativo a 1936, o qual se traduz pela saída de 127.162
toneladas de produtos avaliados em 50.551 contos.
Obedecendo ao criterio seguido para a importação, vamos igualmente fazer a apreciação deste movimento, tendo em vista a
classificação pautal das mercadorias.
Matérias-primas – A exportação dos artigos incluídos nesta classe movimentou a maior tonelagem do Porto do Funchal, elevando-
se a 118.649 toneladas. O valor destas exportações foi de 10.469 contos.
Fios e tecidos – Por esta rubrica se classificam os interessantes bordados da Ilha da Madeira, de fama mundial, não sendo para
estranhar que a maior verba compita a esta classe, na exportação, que se eleva a 25.004 contos, relativos a 238.000 quilos de
produtos.
Substancias alimentícias – Figuram em segundo lugar na exportação, os produtos alimentares, tanto em quantidade – 8.207
toneladas, como em valor – 14.891 contos. Nestes produtos estão incluidos os célebres vinhos da Madeira, bananas, etc..
Quanto ás duas restantes classes: máquinas, aparelhos, etc., e manufacturas diversas, a tonelagem exportada correspondente a cada
uma delas foi de 3 e 65 toneladas, e os valores de 24 e 163 contos.
A este assunto oferecem particular interesse, pelas detalhadas informações que encerram, os artigos
Cais, Funchal (Praia do),
Junta Autónoma das Obras do Porto, Madeira (Aspectos hydrográficos), Marés, Movimento do Porto,
Naufragios, Navegaçâo Aérea e Pontinha
, para os quais chamamos a atenção dos consulentes.
Porto do Moniz (Freguesia do)
É uma das mais antigas freguesias do norte da Madeira. Não se sabe a epoca precisa em que
começou a sua primitiva colonização, mas não deve ter sido muito posteriormente ao principio do terceiro quartel do seculo XV.
Francisco Moniz, o Velho, é dado como um dos seus mais antigos povoadores, devendo, porém, entender-se que foi êle um dos
primeiros que ali teve terras de sesmaria e o primeiro que neste lugar constituíu um nucleo importante de moradores com a fazenda
povoada que estabeleceu e com a capela adjunta que fundou. Em tôrno duma e outra, se foi adensando a população e se formou em
breve uma nova paroquia. Foi o que geralmente aconteceu por tôda a ilha.
A esta localidade se chamou primeiramente a Ponta do Tristão, que então abrangia os terrenos que correspondem ás actuais
freguesias do Seixal, Ribeira da Janela, Porto Moniz, Achadas da Cruz, e talvez ainda uma parte da Ponta do Pargo. Fundada a
capela de Nosssa Senhora da Conceição, teve então o nome da mesma capela com o acrescentamento da Ponta do Tristão,
afirmando o erudito anotador das Saudades ser assim denominada esta freguesia na carta regia de 12 de Março de 1574. Diz ainda o
dr. Alvaro de Azevedo que, na carta de 1 de Março de 1577, ja lhe é dado o nome de Porto do Moniz, que foi o que prevaleceu e
perdurou.
Francisco Moniz era de ascendencia nobre e natural do Algarve, dizendo alguns linhagistas que casara nesta ilha com Filipa da
Camara, filha de Garcia Rodrigues da Camara, que era filho natural do descobridor João Gonçalves Zarco. Como dissemos no artigo
consagrado á freguesia das Achadas da Cruz, possuia Garcia da Camara muitas terras de sesmaria na Ponta do Tristão, doadas por
seu pai, não repugnando conjecturar que Francisco Moniz tivesse, por herança, compartilhado do dominio dessas terras. Ignora-se
a epoca aproximada em que Francisco Moniz houvesse feito o seu primeiro assentamento nesta localidade, assinalando-lhe
primeiramente o dr. Rodrigues de Azevedo o ano de 1535 como o da sua morte e depois o de 1533.
Francisco Moniz erigiu a capela de Nossa Senhora da Conceição não longe do mar, dando o nome do seu apelido ao porto que ficava
proximo, que depois se estendeu às suas imediações e mais tarde aos terrenos circunvizinhos.
Ignora-se o ano da criação desta paróquia, sendo a carta régia de 11 de Março de 1574 o diploma mais antigo que acerca dela
encontramos citado. Por exemplos analogos, supomos que não seria muito anterior a esta epoca o estabelecimento desta povoação
como paroquia autonoma, havendo por certo ali um capelão privativo para desempenhar as funções do culto, como geralmente
acontecia nos grandes povoados que tinham capela anexa.
As cartas regias de 1 de Março de 1577, de 9 de Junho de 1581, 17 de Julho de 1588 e 20 de Fevereiro de 1593 acrescentaram
sucessivamente o vencimento do paroco, que o alvará de 15 de Outubro de 1650 fixou em 20$000 réis-anuais em dinheiro, um
moio de trigo e uma pipa de vinho.
Tendo Francisco Moniz morrido em 1533 ou 1535, é anterior a esta data a fundação da Capela de Nossa Senhora da Conceição de
que êle foi instituïdor, mas ignora-se o ano da sua construção. Passou esta capela por algumas modificações, tendo sido demolida
depois que foi edificada a nova igreja em sítio diferente daquela. Diz-se algures e constava da tradição local que esta mudança
obedeceu ao pensamento de pôr o templo mais ao abrigo dos assaltos dos corsários, que por vezes infestavam aquelas paragens.
Começou a nova construção em 1660 mas somente no ano de 1668 é que foi dada por inteiramente concluída. É de simples
arquitectura e despida de quaisquer obras de arte, notando-se, porém, que a capela do Santissimo Sacramento, de construção
posterior, é de bom gôsto artístico e contrasta com as outras ornamentações do templo. Deve-se esta capela ao capitão Manuel
Rodrigues Ferreira Ferro, que faleceu em 1717 e nela foi sepultado na qualidade de seu fundador.
Das capelas desta paróquia nos ocuparemos em outro lugar. No entretanto, diremos aqui que no sitio mais comummente conhecido
pela abreviatura da Santa, se encontra a capela de Santa Maria Madalena, que não é de acanhadas dimensões e que é o centro duma
concorrida romagem, que se realiza no mês de Julho de cada ano. Quando a freguesia tem provido o seu curato, reside
habitualmente o cura nas imediações desta capela e nela exerce as funções cultuais. Além do cemitério do sitio da Vila, existe outro
cemitério nas proximidades desta capela.
Gaspar Frutuoso referindo-se em 1590 á freguesia de que estamos tratando, diz o seguinte: «Do Seixal a meya legoa está a
Magdalena, que he freguesia de trinta fogos, que tem muitas criações de pão e muitas agoas. Está esta freguesia pela terra dentro
perto de meya legoa na Ponta do Tristão...» Estas poucas palavras encerram varias inexactidões. Não é freguesia da Magdalena,
mas do Porto do Moniz, sendo aquela denominação respeitante a um sitio que tem uma antiga capela da invocação de Santa Maria
Madalena. O Porto do Moniz não se acha apenas á distancia de meia legua do Seixal e nem fica meia legua pela terra dentro na
Ponta do Tristão, para quem se encontra no lado do Seixal, segundo a descrição feita pelo autor. Pelos alvarás regios que regulavam
a côngrua dos parocos, vê-se que o Porto Moniz não podia ter apenas trinta fogos naquela epoca, mas aproximadamente cem ou
ainda mais. Em 1611, isto é vinte e um anos depois tinha já as Achadas da Cruz cêrca de vinte fogos.
Dissemos acima constar da tradição que o lugar destinado á edificação da igreja paroquial foi escolhido em atenção á circunstancia
de a colocar mais ao abrigo dos assaltos dos corsarios, o que não repugna acreditar. Os mouros das costas de Marrocos assaltaram
por vezes a ilha do Porto Santo e algumas povoações do litoral madeirense, sendo de presumir que o Porto do Moniz não escapasse
á rapina dos corsarios, por ser uma das localidades da Madeira que para êles mais proximo ficava do seu ponto de partida, embora
não tenhamos noticias seguras destes assaltos dos piratas marroquinos. Lemos algures (1921) que no alto da vila, no lugar chamado
a Pedra Mole, se podem ainda hoje observar os restos de furnas cavadas na argila, onde consta que as pessoas mais abonadas da
terra escondiam as suas alfaias e objectos de valor, quando os corsarios se aproximavam da costa. Para impedir estas incursões e
afastar os navios de corso, construíu-se nesta freguesia uma fortaleza, que era a melhor da costa do norte, segundo afirma o
anotador das Saududes. Foi o capitão Manuel Rodrigues Ferreira Ferro, a que já fizemos referencia, que custeou tôdas as despesas
com a construção deste forte, tendo apenas o Estado contribuído com as peças e mais apetrechos do seu artilhamento. Tinha o
nome de São João Baptista e consta-nos que, numa das repartições militares instaladas no Palacio de São Lourenço, se encontra a
lapide que contém a inscrição referente á época e ao fundador desta pequena fortaleza.
O capitão Manuel Ferreira Ferro instituíu um morgadio que teve sua sede nesta freguesia. Pelos factos que acêrca dele ficam
referidos, foi um verdadeiro benemerito desta localidade e não sabemos se ao menos alguma das ruas da povoação conservará o seu
nome, recordando, aos contemporaneos e aos vindouros os actos de benemerencia que praticou.
Tem esta freguesia os sitios da Vila, Lamaceiros, Junqueira, Levada Grande, Batalhão, Ribeirinho, Pico Alto, Santa, Fazenda e
Pombais, onde vivem 3.412 habitantes.
Porto do Moniz (Muncipio do)
Como já fizemos notar relativamente ao Município de Camara de Lôbos, nunca o Porto de Moniz
foi vila, mas apenas a sede do concelho que ali se instalou no ano de 1835. Pretenderam por vezes os povos da localidade e
freguesias limitrofes que o lugar do Porto Moniz fosse elevado á categoria de vila, mas essas diligencias não passaram de tentativas
infrutiferas.
O Porto do Moniz, como tôdas as localidades do norte da ilha, pertencia á vila e Município de Machico. Ouando em 1743 se criou o
Município e vila de São Vicente, começou então a fazer parte integrante do novo Município. Em 1817, o engenheiro e inspector dos
serviços de obras públicas Paulo Dias d'Almeida fazia sentir ao governo da Metropole a necessidade da criação do Município do
Porto do Moniz, e o governador e capitão-general D. Manuel de Portugal e Castro informava favoravelmente, em oficio dirigido ás
estações superiores a 10 de Abril de 1825, a petição que os povos haviam feito naquele sentido, que era apenas a satisfação de
antigas aspiraçoes, já em outras ocasiões manifestadas. O novo Município ficaria composto, segundo o pedido então feito, das
freguesias do Seixal, Ribeira da Janela, Porto Moniz e Ponta do Pargo, tendo como limites a ribeira de João Delgado, do mar até ao
alto do Paul da Serra, na freguesia do Seixal, e a ribeira dos Marinheiros até a serra da Fonte do Bispo, na freguesia da Ponta do
Pargo.
Somente com a implantação do governo constitucional e com a divisão concelhia a que se procedeu neste distrito é que se criou o
concelho do Porto Moniz, com sede na freguesia do mesmo nome e que ficou então composto desta e das paroquias do Seixal,
Ribeira da Janela, Achadas da Cruz e Ponta do Pargo.
Este concelho foi criado no ano de 1835, realizando-se a sua instalação no dia 31 de Outubro do mesmo ano, sendo seu primeiro
administrador o capitão Tomás João Perestrelo da Camara e primeiro presidente da Comissão Administrativa da Camara Municipal
o capitão de marinha Teodoro Moniz de Bettencourt.
Tem sido extinto e varias vezes restaurado o concelho do Porto Moniz. Foi suprimido em 1849 e restaurado poucos anos depois.
Pelo decreto de 10 de Dezembro de 1867 foram extintos os concelhos de Camara de Lôbos, Santana e Porto Moniz, sendo
restabelecidos passado pouco tempo. O decreto de 18 de Novembro de 1895 de novo suprimiu este concelho, que foi restaurado pelo
decreto de 13 de Janeiro de 1898, realizando-se a sua reinstalação a 13 de Fevereiro do mesmo ano.
A freguesia da Ponta do Pargo foi desmembrada do concelho do Porto Moniz e anexada ao da Calheta por decreto de 20 de Junho
de 1871.
Porto do Moniz (Porto do)
Goza este Porto da celebridade de ser um dos melhores deste arquipélago e é incontestavelmente o
mais seguro e abrigado de tôda a costa norte da Madeira. Tem-se chegado a afirmar que é sempre ali possivel o embarque e
desembarque com o tempo de todos os quadrantes. A verdade é que, embora se torne freqüentemente facil a comunicação com a
terra, é também todavia certo que, por vezes, há verdadeira impossibilidade de demandar o interior do Porto, sendo muito
arriscada e perigosa a entrada ali. A costa maritima que se estende da Ponta do Tristão até além do ilhéu do Porto Moniz é, em
especial na quadra invernosa, acossada por freqüentes temporais e o mar apresenta-se ali não raramente em estado bastante
revolto e agitado.
Está este porto situado a NW, quasi na parte extrema W desta ilha. Conquanto seja muito obrigado, não deixa de estar exposto aos
ventos de NW. Quando na costa sul sopram os ventos que tornam impossivel o movimento e o tráfego nos portos, muitas
embarcações costeiras e ainda navios de alto bordo, procuram ali um abrigo mais seguro.
Devido á relativa segurança e facilidade de desembarque que oferece este Porto, não faltou já quem pretendesse transformar a
freguesia do Porto do Moniz, com o seu natural desembarcadouro, numa pequena cidade e Porto de escala, quando os ventos
sopram do SSE a SSW e o Porto do Funchal e os demais do sul da ilha ficam ás vezes defesos ao acesso das embarcações.
Em 1914, encarregou a Junta Agricola o tenente de marinha Francisco de Aragão e Melo de proceder a diversos estudos
hidrograficos no Porto do Moniz, cujos resultados não chegaram nunca a ser bem conhecidos. Apenas no relatorio da sindicancia
que o dr. Francisco Antonio de Mendonça fêz aos actos da Junta Agricola, encontramos as seguintes palavras:
«Principiados que foram os estudos, surgiram dificuldades de varia especie, principalmente na fixação do zero hidrografico, que o
capricho das ondas arrancou algumas vezes, tendo-se de trabalhar noites inteiras para não eternizar o andamento dos estudos. As
observações solares, o sestante, a bordo de pequenas embarcações, assim como as respectivas sondagens, com o auxílio de pessoal
inexperiente, também foi trabalho extenuante e moroso. Estabelecida a triangulação da terra com os ilhéus que circundam aquele
porto, levantou-se a planta da baia, que junto acompanha estas linhas».
Há ali um desembarcadouro natural, mas que exige importantes trabalhos de arte para satisfazer inteiramente o seu fim. Por 1901,
mandou a respectiva Camara Municipal proceder a alguns indispensaveis trabalhos, e em 1909 a Junta Geral fêz construír uma
escada de acesso ao ramal do cais existente, o que tudo melhorou as condições naturais do local. Pelo ano de 1916 se realizaram ali
obras de maior vulto, construindo-se um cais, que presta bons serviços a esta localidade.
Porto Novo
Lugarejo na foz da ribeira do mesmo nome e fazendo parte da freguesia de Gaula, que é ponto de escala dos vapores
que fazem carreiras para a costa de leste da ilha. Existe ali um desembarcadouro mandado construir pela Junta Geral, cujas obras
ficaram concluídas em 1908.
V.
Ocupação da Madeira pelas tropas miguelistas
.
Porto Santo (Descobrimento e origem do nome)
Sendo o descobrimento do nosso arquipélago o grande padrão imorredouro que
verdadeiramente assinala o comêço auspicioso da maravilhosa odisseia realizada pelos portugueses através dos mares
desconhecidos, não pode de modo especial deixar de memorar-se que foi a pequena ilha do Porto Santo a primeira estancia
maritima a que aportaram esses ousados navegadores, constituindo o glorioso marco inicial de um dos mais notaveis
acontecimentos de tôda a história do nosso país. Bastaria esta circunstância para ser considerada como primogenita e filha dilecta
de Portugal e merecer da Metropole a mais activa e valiosa protecção, o que na realidade nem sempre tem acontecido. Acêrca do
seu descobrimento, tem inteira aplicação o que ficou referida com alguma largueza a pág. 351-356 do vol. I deste Elucidário, ao
tratar-se do descobrimento do arquipélago.
O doutor Gaspar Frutuoso e outros cronistas, seguindo a descrição que João de Barros faz na sua Asia, Década I, atribuem a origem
do nome do Porto Santo ao facto de terem ali encontrado os primeiros descobridores abrigo seguro á violenta tempestade que os
acossara. Transcrevemos as palavras de Barros: «... Porque ante que chegassem á costa de Africa, saltou com elles tamanho
temporal com força de ventos contrarios á sua viagem, que perderam a esperança das vidas: por o nauio ser tam pequeno, & o màr
tam grosso que os comia, correndo a aruore seca á vontade delle. E como os marinheiros naquelle tempo nam erã costumados a se
engolfar tanto no peguo do már, & toda a sua nauegaçam era per singraduras sempre a vista de terra, & segundo lhes parecia erã
mni afastados da costa deste Reino: andauam todos tam toruádos, & fóra do seu juyzo pello temor lhe ter tomado a mayor parte
delle, que nam sabiam julgar em que paragem eram. Mas aprouue á piadade de Deos, que o tempo cessou, & posto que os ventos
lhe fizeram perder a viagem que leuauam segudo o regimento do Infante, nam os desuiou de sua boa fortuna: descobrindo a Ilha a
que agora chamamos Porto sancto, o qual nome lhe elles entam poseram porque os segurou do pirigo que nos dias da fortuna
passaram. . . »
É esta a opinião comummente aceita, havendo apenas divergencias quanto ao tempo em que o facto se deu e quanto aos
navegadores que foram arrojados ao Porto daquela ilha.
Porto Santo (Ilha do)
A ilha do Porto Santo, que, segundo diz Frutuoso, foi assim nominada por ter sido nela que Gonçalves
Zarco e Tristão Vaz se salvaram duma violenta tempestade, como já ficou referido, que os havia feito perder «a esperança das
vidas», é uma das cinco ilhas do arquipélago e mede 11,4 quilometros de comprido por 7 de largo, sendo a sua superficie calculada
em cêrca de 50 quilometros. Está situada, com os ilhéus extremos, entrc 32° 59' 40" e 33º 7' 50" latitude norte, e entre 16° 16' 30" e
16° 24' 35" longitude oeste de Greenwich, sendo a sua capital a vila Baleira, ou do Porto Santo, situada ao fundo duma vasta e
formosa baía, abrigada dos ventos de SE a NW pelo W (1921).
O Porto Santo é muito mais plano do que a Madeira, e o seu ponto culminante, o Pico do Facho, está apenas a 507 metros acima do
nivel do mar.
Possui o Porto Santo a maior praia que existe no arquipélago. Esta praia que tem cerca de 10 quilometros de comprimento e é
formada de areia calcarea, tem pequeno declive, não subindo as marés ali mais de 2m,13. Não existindo nela por enquanto cais
algum (1921), têm as pessoas que querem desembarcar na ilha, de ser levadas ás costas de homens desde os barcos até lugar enxuto.
O Porto Santo é muito sujeito a estiagens e pobre em aguas. As principais fontes que ali existem são as seguintes: a da Areia, no
norte, a do Tanque, que fornece agua para algumas culturas da vila, a da Fontinha (V. este nome), conhecida em todo o arquipélago
por causa das suas propriedades medicinais, a das Voltas e a das Enguias. As aguas da fonte da Areia são tão boas como as melhores
da Madeira; as das outras fontes contém em geral alguns sais que as tornam desagradaveis ao paladar das pessoas que visitam a
ilha. (Vid. Porto Santo (Aguas do) e Estação Sanitária).
O Porto Santo constitui um só concelho com uma unica freguesia, a de Nossa Senhora da Piedade, e faz parte hoje da comarca do
Funchal. Teve donatarios (V. Porto Santo (Capitania)) até o reinado de D. José I, e depois os seguintes governadores: Nicolau
Bettencourt Perestrelo, no reinado de D. Maria I; Manuel da Camara Perestrelo de Noronha (1785); Manuel Ferreira Nobre (1797);
João Baptista Rofe (1800); Joaquim Bernardino Bianchordi (1804); Manuel Inacio de Avelar Brotero (1805); João de Alvelo Leiria
(1815); Joaquim de Freitas Aragão (1822); Cosme Damião da Cunha Fidié (1824); José Crisóstomo de Freitas e Sousa (1829);
Francisco Ladislau Correia (1830); João Pinto Carneiro (1837) e José Caetano Peixoto (1848). O governador Leiria não chegou a vir
á ilha e o governador Peixoto só residiu nela durante três dias.
Tanto na vila como fora dela, vêem-se muitos casebres toscos e cobertos de barro, em que se abrigam ás vezes numerosas pessoas.
Apesar de pouco confortaveis, observa-se nesses casebres uma certa higiene, o que, junto aos bons ares da ilha, faz com que a
população seja em geral bastante robusta.
A vila não tem edifícios alguns notaveis, mas as suas casas são em regra de boa aparencia. No largo do Pelourinho, que é
ajardinado, está o edifício dos Paços do Concelho, perto do qual se vê a igreja paroquial.
Existem ainda na vila a capela da Misericordia e a de Santa Catarina, estando junto desta o cemiterio, um dos mais antigos do
arquipélago, pois foi aberto em 1838, no dia do Corpo de Deus.
Os dragoeiros e zimbreiros que revestiam o Porto Santo ao tempo do descobrimento, acham-se agora completamente extintos. As
unicas especies arbustiveis indigenas dignam de atenção, e que ainda podem ser encontradas ali, são o espinheiro, o marmulano, a
urze durazia e a oliveira.
A tamargueira, introduzida em 1834 por João Antonio Pedroso, é freqüente no Porto Santo, e a palmeira, o pinheiro maritimo, a
arvore do paraiso, o álamo e o mióporo, aparecem nalgumas partes da ilha. Se se aproveitasse devidamente esta ultima especie,
seria facil arborizar em pouco tempo uma boa parte do Porto Santo. No Pico do Castelo e proximidades, há alguns maciços de
arvoredo criados nos ultimos 20 anos pelo regente silvícola Antonio Schiappa de Azevedo (1921).
Produz a ilha vinha, trigo, cevada, centeio, lentilhas, favas, aboboras, melões, melancias, semilhas, batatas, alhos, e algumas couves,
cebolas, milho e cana de açucar. Também existem ali muitas figueiras e amoreiras e algumas pereiras, romeiras, amendoeiras e
tabaibeiras. Vid. Porto Santo (Vegetação do).
Das numerosas sondagens realizadas por Vidal nos mares do Porto Santo, parece depreender-se que a ilha foi em remotas épocas
mais vasta do que é hoje, e nalguns pontos do seu territorio encontram-se sinais evidentes de levantamentos provocados por acções
vulcanicas. Diz Cockerell que os mais antigos depositos de fósseis são miocénicos e marinos podendo-se encontrar na ponta da
Calheta conchas e corais misturados com uma rocha vulcanica negra, que parece provir duma zona mais baixa. Entre os picos do
Castelo e do Facho encontram-se traquites esbranquiçado-acinzentadas e no alto desta ultima eminencia há um dique bastante
curioso.
Para a irrigação das terras do Porto Santo existem varios poços abertos por particulares de onde a agua é extraída por meio de
noras. Sem este recurso, estariam talvez maninhos muitos terrenos que agora dão boas colheitas, visto a falta de chuvas se fazer
sentir freqüentes vezes naquela ilha.
O Porto Santo, cuja população é de 2:701 habitantes (1940), é uma terra interessante e curiosa sob varios pontos de vista,
encontrando-se nela certos usos e costumes desconhecidos na Madeira, ao menos actualmente. Se se estabelecessem carreiras
amiüdadas de vapores para aquela ilha e se o visitante encontrasse ali as comodidades e confortos exigidos pela civilização
moderna, é de crer que a terra do arquipélago onde primeiro aportaram Zarco e Tristão Vaz, hoje quasi desconhecida, viesse a
tornar-se em determinadas épocas o ponto de reünião de madeirenses e de estrangeiros, desejosos, quer de experimentar os efeitos
curativos das aguas da Fontinha das molestias do estomago, quer de aproveitar os magnificos recursos que a mesma terra oferece
como estação balnear. Em 1919 foi o Porto Santo dotado com o importante melhoramento de uma Estação Rádio-Telegráfica,
inaugurado a 17 de Março desse ano, quebrando-se o isolamento em que essa ilha vivia, especialmente na época de inverno.
Porto Santo (Orografia)
) Esta ilha, considerada relativamente á sua pequena área, é de aspecto montanhoso e formada por
terrenos bastante acidentados, tendo o Pico do Castelo, do qual já demos noticia a pág. 259 do volume I desta obra, uma elevação de
440 metros acima do mar.
As principais eminencias que se encontram na cordilheira da ilha são as seguintes, conhecidas pelo nome genérico de picos: Ninho
do Guincho, Branco (423.m), Concelho, Maçaricos, de Baixo, Juliana (455 m), Facho (509.m), Atalaia ou Gandaia (492.m), Castelo,
Monte Vidio, Ana Ferreira, Facho da Malhada (265.m), e Calhau da Malhada (182.m).
Apesar do acentuado relêvo da sua superficie, destacam-se duas pequenas planicies, que devem ser mencionadas: a da Vila e a das
Areias.
As principais pontas ou saliencias da costa maritima são as da Cruz ou Santa Cruz, Ninho do Guincho, Branca ou de Nordeste,
Frades, Incão, Calheta, Malhada, Furado, Varadouros e Fonte da Areia.
Porto Santo (Hidrografia)
Sob esta designação, daremos uma breve noticia dos cais, enseadas, portos, praias, baixas, ilhéus e
ribeiras desta ilha. Na costa meridional do Porto Santo e em quási todo o comprimento da ilha, fica a baia do mesmo nome, que tem
por limites o Ilhéu de Cima ou do Farol, a leste, e o Ilhéu de Baixo ou da Cal, a oeste, medindo, entre estes dois pontos, cêrca de
quatro milhas maritimas. Forma um Porto de relativa amplidão e oferece fácil ancoradouro a navios de tôdas as lotações. Esta baía
é limitada na sua maior extensão por uma formosissima praia de fina areia amarela, livre de quaisquer cachopos ou penedias, de
bastante largura e tendo aproximadamente nove quilómetros de comprimento, que é sem duvida uma das mais belas praias de todo
o nosso país. Duma inclinação suave, banhada por um mar sempre bonançoso e de uma pureza de cristal e sem brejos ou águas
estagnadas, oferece esta praia todos os requisitos exigidos para uma excelente estação balnear. O Porto da vila do Porto Santo está
hoje servido com uma ponte-cais, que tem prestado bom serviço no movimento dos passageiros que ali desembarcam.
Além desta ampla baía limitada pela excelente e espaçosa praia, existem uns pequenos portos com suas exíguas praias, que servem,
embora raramente, de desembarcadouro, dos quais mencionaremos os seguintes: o dos Barreiros, situado a nor-nordeste, o das
(Cagarras, a lés-nordeste, o dos Frades, a leste, o da Morena ou Portinho da Morena, a su-sudoeste, o Porto Novo, a su-sudoeste, o
dos Porcos, a oés-sudoeste, o da Fonte da Areia, a noroeste, o do Zimbralinho, a leste.
Entre essas praias, são mais conhecidas as Serra de Dentro e a do Zimbralinho, que ficam nos sitios que conservam esses nomes.
A única praia levantada conhecida no arquipélago da Madeira, está na ilha do Porto Santo. O levantamento parece ter-se dado num
periodo geologico moderno, existindo nos terrenos grande numero de conchas marinas, umas pertencentes a especies que vivem
ainda no arquipelago, outras a especies que se não encontram na nossa região, mas que vivem noutros países.
Nas proximidades da Fontinha e no Campo de Baixo, encontram-se numerosos vestigios da existencia da praia levantada, a qual é
possivel que ocupe muito maior area do que a que lhe tem sido atribuída até o presente. O sr. Adolfo de Noronha que tem feito
numerosos estudos sôbre a mesma praia, tenciona publicar uma noticia sôbre as especies de conchas marinhas que ai têm sido
observadas (1921).
Sobre a praia levantada, existem hoje espessas camadas de terra ou de areias, sendo preciso proceder a grandes escavações para pô-
la a descoberto. A praia estende-se muito pela terra dentro, tendo sido encontrados indicios dela a mais de 300 metros de distancia
da orla maritima do Porto Santo.
Nas proximidades da costa maritima da ilha do Porto Santo, encontram-se vários baixios conhecidos pelos nomes de Rocha do
Pescador, a nordeste e fronteiro á Ponta Branca, a do Meio ou Rocha de São Lourenço, ao norte do Pescador, o do Cotrim ou Ilhéu
Redondo, adjacente á Ponta dos Frades, o da Galé, proximo da Ponta do Incão, o do Penedo do Sono, não muito distanciado do
Ilhéu de Cima, e mais afastado do litoral, a cêrca de cinco milhas da costa, existe um baixio, a que comummente se chama Baixa de
Nordeste.
Adjacentes à ilha do Porto Santo e muito proximo da sua costa, ficam situados o «Ilhéu de Baixo» ou da Cal e o «Ilhéu de Cima» ou
do Farol, que são os ilhéus de maior superficie e mais importantes de todo o arquipélago e dos quais já se deu noticia a pág. 116 e
272 do volume I e no artigo Faróis. Deve ainda fazer-se menção dos pequenos ilhéus de «Fora» ou da «Rocha Nordeste», da «Fonte
da Areia» e o de «Ferro». Comparadas com as extensas e caudalosas ribeiras da Madeira, não merecem esse nome os pequenos
côrregos que atravessam a vizinha ilha do Porto Santo, dos quais o mais importante é a chamada Ribeira da Vila, que se conserva
sêca a maior parte do ano e que traz um pequeno caudal na época invernosa, indo lançar-se no Oceano no sitio da Vila. Mencionam-
se ainda os pequenos ribeiros do Pedregal de Fora, Pedregal de Dentro e Perregil, ao norte, os da Serra de Fora e da Serra de
Dentro, a leste, de Santo António, Fontinha, Cochino e Salgado, ao sul, e o Ribeiro Fundo, a oeste.
Vid.
Porto Santo (Capitania do)
Como se sabe constituíu a ilha do Porto Santo uma das três capitanias em que foi dividido este
arquipélago (V. vol. 1, pág. 244). A carta de doação ao seu primeiro donatario Bartolomeu Perestrelo é de 1 de Novembro de 1446 e
vem transcrita a pag. 457 das Saudades da Terra. Nela se diz: «Eu dou carreguo a Bertholameu perestrello, fidalgo de minha casa da
minha ylha de porto samto pera que elle dito Bertholameu perestrello ha mamtenha por mim em Justiça & dereyto & morrendo ele
a mim praz que seu filho primeyro ou algum se tall for tenha este carreguo pella guisa suso dita & asy de decemdemte em
decemdemte per linha dereyta & semdo em tal ydade ho dito seu filho que nom posa reger Eu ou meus erdeyros poremos hy quem
reja atee que seja em ydade pera reger & me praz que elle tenha em esta sobre dita ylha a Jurdiçom por mim & em meu nome do
ciuell & crime resalbamdo morte ou talhamento de membro que desto benha per ante mim apellaçom porem sem embargo da dita
Jurdiçom a mim praz que hos meus mamdados & correyçom seja y compridos como cousa propria minha» Nesta carta se faz
menção de diversos direitos, regalias e isenções concedidas ao primeiro donatario, incluindo a arrecadação de varias contribuíqões
e impostos.
A capitania do Porto Santo esteve na posse e superintendencia dos descendentes de Bartolomeu Perestrelo até o tempo em que o
dominio filipino, com a nomeação dos governadores gerais, reduziu os donatarios do arquipélago a uma situação muito subalterna
e quasi meramente honorifica, continuando, porém, a cobrar importantes rendas pelos primitivos privilegios que lhes tinham sido
concedidos.
A Bartolomeu Perestrelo (Vid. Perestrelo), sucedeu na donataria seu filho, do mesmo nome, que dela foi despojado, durante a sua
menoridade, pela venda que da capitania fêz sua mãe a Pedro Correia, cunhado do segundo Bartolomeu Perestrelo. A este, em
virtude de pleito e recurso levado perante a coroa, foi-lhe restituída a donataria, com todos os seus direitos e regalias (1437),
sucedendo-lhe seu filho Bartolomeu Perestrelo (1529), que matou sua espôsa Aldonça Delgado, para casar com sua prima Solanda
Teixeira. Garcia Perestrelo, filho do terceiro Bartolomeu, matou, como seu pai e ainda em vida deste, sua mulher, tendo porisso
sido condenado á morte e degolado, contando a ascendencia dos Perestrelos deste arquipélago com estes dois qualificados
assassinos. Herdou a capitania Diogo Soares Perestrelo (1545), neto do terceiro Bartolomeu Perestrelo, sucedendo-lhe seu filho
Diogo Perestrelo (1576). Foi este donatario um esforçado cavaleiro, e durante o tempo em que residiu na sua ilha, nunca os
corsarios a assaltaram, como em outras ocasiões aconteceu, porque êle, apesar dos fracos elementos de defesa de que dispunha,
conseguia com a sua energia e pasmosa actividade conter a distancia os assaltantes. Pode bem afirmar-se que este foi
verdadeiramente o ultimo donatario do Porto Santo, pois que, com a dominação castelhana e com a nomeação dos governadores
gerais em 1581, ficou a cargo destes a superintendencia de todo o arquipélago, como já dissemos. Depois da restauração, em 1653,
fêz D. João IV mercê da capitania do Porto Santo a Vitorino Bettencourt Perestrelo, que é considerado como setimo donatario,
embora com notavel cerceamento nos direitos e privilegios de que gozavam os antigos capitães-donatarios. A este se seguiram
Diogo Perestrelo, Estevão Bettencourt Perestrelo, Vitorino Bettencourt Perestrelo e Estevão Bettencourt Perestrelo.
Aos donatarios sucederam os governadores, sendo o primeiro nomeado, segundo os Anais daquela ilha, Nicolau Bettencourt
Perestrelo. No artigo Ilha do Porto Santo, damos uma relação de todos os governadores que houve ali até 1848, tendo sido José
Caetano Peixoto o ultimo que exerceu esse cargo na mesma ilha.
A capitania do Porto Santo progrediu lentamente e nunca chegou a atingir um notavel grau de prosperidade. Diz o dr. Alvaro de
Azevedo que ela progrediu nos primeiros cento e cinqüenta anos, devendo entender-se por essas palavras que ela se foi
gradualmente desenvolvendo desde a primitiva colonização até meado do século XVI, mas esse progresso nunca foi grande, devido
ás causas que já noutro lugar ficam assinaladas, sendo as principais os freqüentes assaltos dos piratas, as estiagens, as ausencias,
por vezes longas, dos respectivos donatarios, as prosapias avoengas de muitos de seus moradores que os afastavam da industria
agricola, o abandono que um grande numero de antigos sesmeiros fêz das suas terras, estabelecendo residencia no Funchal e alguns
em Lisboa, etc.. Tôdas estas causas de decadencia determinaram a promulgação da celebre lei de 13 de Outubro de 1770, conhecida
pela lei dos Quintos e Oitavos, de que em outro artigo damos desenvolvida noticia.
Vid. Baleira (Vila), Donatários, Capitanias e Perestrelo (Bartolomeu).
Porto Santo (Freguesia do)
A ilha do Porto Santo, em virtude da sua pequena área e da sua reduzida população, sempre
constituíu apenas uma freguesia, que teve o nome, que ainda hoje conserva, de Nossa Senhora da Piedade, que é o orago da sua
igreja paroquial. Apesar de Frutuoso afirmar em 1590 que o orago e nome da freguesia era o Salvador, a verdade é que já em
documentos anteriores áquela data se diz que esse orago era Nossa Senhora da Piedade e julgamos nunca ter sido outro.
Assim como nas sedes das capitanias do Funchal e de Machico as freguesias sòmente foram criadas alguns anos depois do ínicio da
colonização, do mesmo modo e com sobrada razão deveria ter acontecido na ilha do Porto Santo. Certamente que um capelão teria
ali exercido as funções eclesiasticas e paroquiais até que a ilha fosse constituída em freguesia autonoma.
Não se conhece o ano da sua criação, mas deve ser aproximadamente contemporanea das primeiras paroquias que se estabeleceram
na Madeira.
O diploma mais antigo que encontramos citado no
Indice Geral da antiga Provedoria da Real Fazenda
é o alvará régio de 3 de
Janeiro de 1529, arbitrando ao pároco o vencimento anual de 11.000 réis em dinheiro, quatro moios de trigo e duas pipas de vinho.
Já nesta época estava criada a colegiada que, além do pároco, tinha um cura e quatro beneficiados. O curato foi criado pelo alvará
régio de 27 de Agosto de 1589, com o ordenado de 20 000 réis anuais.
O primeiro vigario desta freguesia de que existe noticia foi o padre Nuno Vaz, que parece ter começado a paroquiar no ano de 1572.
Seguidamente foram ali párocos João Cordovil de Couto, Manuel Calaça, Jeronimo Vieira, padre Siebra, dr. Manuel Lopes da Silva,
dr Inacio Manuel da Silva, dr. Estevão Lomelino de Vasconcelos, Domingos Ferreira de Agrela e Baltasar de Andrade, que
paroquiou até ao fim do século XVII.
Julgamos que a sede da paroquia se instalou na capela de Nossa Senhora da Piedade, que já ali existia antes da criação da freguesia.
Teve varias reparações e acrescentamentos, havendo sido totalmente reconstruída pelos anos de 1667. Nada resta da primitiva
edificação além da capela chamada da Morgada, que pertenceu a uma antiga familia Baião. Conserva ela o seu arco em ogiva, que,
tendo as pedras que o formavam algum tanto danificadas foi há poucos anos rebocado com um revestimento de cimento! Nenhuma
igreja da diocese sofreu nunca tantas profanações e ultrajes como esta, com os assaltos que os corsarios deram por vezes àquela
ilha. Não existindo ali quaisquer elementos de defesa, os habitantes só cuidavam de refugiar-se no Pico do Castelo e em outros
lugares seguros, quando pressentiam a aproximação dos piratas, deixando a estes campo livre para exercerem a sua obra de
destruição e de pilhagem. Em 1617, foi o Porto Santo invadido por corsarios argelinos e a igreja matriz saqueada e incendiada, e o
mesmo também sucedeu no ano de 1667, procedendo-se em seguida á reconstrução do templo. Nos anos de 1556, 1690 e 1708, não
foram mouros, mas navios franceses armados em corso, que assaltaram aquela ilha e ali se entregaram a um completo saque, sendo
também a igreja paroquial objecto da furia dos assaltantes. É conveniente lembrar que naquelas epocas eram os navios franceses
protegidos por altas personagens e há até quem afirme que pelos proprios reis da França, navios que freqüentemente percorriam os
mares, armados em piratas, praticando impunemente os maiores crimes, com a chacina e o roubo ás povoações indefesas. Assim
sucedeu com a invasão dos franceses á Madeira em 1556 como em seu lugar veremos.
Além da igreja paroquial, tem esta freguesia as capelas da Misericordia, Santa Catarina, Espirito Santo e São Pedro, de que em
outro lugar damos resumida noticia.
Os principais sitios do Porto Santo são: Vila, Casinhas e Pico, Serra de Fora, Serra de Dentro, Pedregal e Esmoitadas, Camacha,
Farrobo, Areias, Tanque, Matas e Lombas, Fontinha, Pedras Pretas, Campo de Baixo, Campo de Cima e Ponta.
Porto Santo (Vila e Muncipio)
A vila do Porto Santo é também conhecida pelo nome de Baleira e dela já demos noticia a pag. 117
do 1.° vol. desta obra, para onde remetemos o leitor. Sendo sede duma capitania, tinham os seus donatarios os poderes quasi
discricionarios que lhe conferiam as cartas de doação, mas sendo também a sede dum Município, dispensava este aos povos, por
meio dos respectivos forais, certas regalias e privilegios que atenuavam as atribuïções dos capitães-donatarios. Na carta de doação
concedida a Bartolomeu Perestrelo a 1 de Novembro de 1446, como donatario do Porto Santo; faz-se expressa referencia ao foral
que havia de ser dado á futura vila, que foi criada poucos anos depois daquela data, mas não temos encontrado vestigios desse foral,
que geralmente acompanhava o estabelecimento dos novos Municípios. Deve no entretanto supor-se que seria moldado em bases
identicas ao das outras vilas e Municípios deste arquipélago.
Em 1834, foi o Porto Santo considerado como uma provedoria para o efeito da sua administração, sendo João de Santana de
Vasconcelos o primeiro provedor, nomeado por alvará do prefeito da provincia, de 9 de Agosto daquele ano. Com a reforma
administrativa de 1835, passou a ilha do Porto Santo a constituir um concelho, sendo primeiro administrador João José de
Alencastre, nomeado a 25 de Novembro do mesmo ano.
Porto Santo (Populaçâo, Superficie e Situaçâo Geográfica da ilha do)
Afirma Gaspar Frutuoso que em 1590 havia na ilha do
Porto Santo uns 400 fogos, em que portanto habitavam cerca de 1.600 habitantes. Acercca desta afirmativa de Frutuoso, diz o dr.
Alvaro de Azevedo: «comquanto pareça haver nisto exageração, por constar dos Annais da Ilha do Porto Santo que em 1850 a
população era de 1799 pessoas, isto é uns 450 fogos, e do censo feito em 1864 que os fogos eram 363 com 1425 habitantes, cremos
ser exacto o dito de Frutuoso; a ilha do Porto Santo só progrediu nos primeiros cento e cincoenta anos desde o descobrimento.»
Anos Habitantes
1529....................... 820
1590....................... 1 600
1789....................... 1 870
1791....................... 1 094
1835....................... 1 618
Em diversas fontes, foram colhidos os seguintes dados da sua população:
1839....................... 1 614
1843....................... 1 669
1849....................... 1 810
1850....................... 1 886
1864....................... 1 425
1871....................... 1 664
1878....................... 1 748
1890....................... 1 952
1900....................... 2 311
1911(Censo)................ 2 182
1920(Censo)................ 2 243
1930(Censo)................ 2 490
1940(Censo)................ 2 701
São, divergentes os dados apresentados para calcular-se a superficie do arquipélago, tendo o dr. Alvaro de Azevedo fixado o numero
de 500 quilometros para a Madeira, 50 para o Porto Santo e 10 para as Desertas. O «Censo da População» relativo ao ano de 1930
diz que a superficie da ilha da Madeira é de 740Km2,62 quilometros quadrados e a do Porto Santo de 42Km2,17. Lê-se nas «Ilhas
de Zargo» (I-59) que estudos de caracter oficial realizados nos anos de 1937 a 1938 atribuem à Madeira a superfície de 728Km2 e
48Km2,8 á ilha do Porto Santo.
São igualmente discordantes os calculos conhecidos acêrca da sua situação geográfica. O ilustre comentador das Saudades da Terra
apresenta alguns deles, dando preferencia aos da carta geo-hidrográfica do general Antonio Pedro de Azevedo, que é o seguinte:
33°3'30" de latitude norte e 7°45'27', de longitude oeste de Lisboa.
Porto Santo (Estaçâo sanitaria do)
De há muito que é preconizada a vizinha ilha do Porto, Santo como uma excelente estação de
saúde para a cura de certas doenças, não sendo maior o numero de forasteiros madeirenses que a procuram, por falta de hotéis e de
apropriadas habitações, e também ainda pela ausencia completa de confôrto, rapidez e segurança que oferecem as embarcaçoes
empregadas no transporte dos passageiros. Ninguém há que o desconheça na Madeira. O dr. Nuno Silvestre Teixeira, que era lente
da nossa Escola Medica, que foi delegado de saúde do distrito e que foi um distinto cultor das ciencias medicas pelos seus estudos e
primorosos escritos, tendo além disso permanecido longas temporadas naquela ilha, afirma que uma temporada no Porto Santo é
de efeitos muito mais beneficos e salutares que a mesma temporada de aguas minero-medicinais tomadas nas respectivas estações
de origem.
Merecem ficar aqui arquivadas as palavras do dr. Nuno Teixeira, que constituem, a nosso ver, um estudo completo sôbre o assunto.
A ilha do Porto Santo, diz o referido medico, como estação de saúde, é unica, porque reúne predicados, condições sanitárias, que em
parte nenhuma, que saibamos, se encontram reünidas e em tão excelente grau como naquela ilha, pois que permitem usar
simultaneamente a thalassoterapia ou banhos do mar, numa praia que não tem rival lá fora, em nenhum país; uvas, que se não
conhecem melhores, e aguas minerais, que não receiam confrontos com as melhores de Portugal e do estrangeiro. Qual é,
preguntamos nós, a estação sanitária do mundo que oferece os recursos hígidos, salutares, que caracterizam o Porto Santo, onde o
valetudinário encontra ao mesmo tempo os banhos do mar, as uvas e as aguas minerais? Não conhecemos nenhuma senão o Porto
Santo e só o Porto Santo Lá fora, as praias estão longe das termas, e os banhos do mar não se podem usar juntamente com as águas
minerais. Tratamento pelas uvas, parece-nos que se não pratica em nenhuma localidade do nosso país, e no estrangeiro esse
tratamento ou ampeloterapia é isolado e não se emprega simultaneamente com os banhos do mar e as águas minerais. Só o Porto
Santo, portanto, oferece os três grandes agentes modificadores da economia–mar, uvas, aguas minerais, de que se pode fazer
aplicação ao mesmo tempo, se fôr necessario e em condições inexcediveis de pureza e acção curativa.
«Praia de banhos, o Porto Santo tem a melhor que se conhece, muito apreciada e até admirada pelos estrangeiros. São três leguas
de areia estreme, amarelada, côr de oiro, sem interposição de penedos, que formem poças, onde se tomem os banhos, como em
algumas praias de Portugal.
«A agua do mar é purissima, sem detritos que a conspurquem, porque na baía não desemboca canos de esgoto nem de fabricas
industriais. O fundo é de restinga, muito elevado, até uma grande distância do quebra-mar, podendo o banhista que não sabe nadar
afastar-se muito da praia, sem deixar de tomar pé o que a torna muito propria para senhoras. É uma praia em que se dispensa o
banheiro, porque não há correntes que possam arrastar para o alto mar, as pessoas que tomam banho e não sabem nadar, como
tem sucedido por vezes nas praias do continente.
«Tôdas estas excelencias e primores da praia do Porto Santo culminam na uniformidade do fundo da baía, sempre plano, sempre
igual, sem depressões ou covas em que se possa submergir de repente o banhista inexperto, impelido ainda para o fundo pelo
vértice da ressaca, que é um perigo para todas as praias, mas que não existe na do Porto Santo.
«É portanto uma praia ideal, que reúne tôdas as perfeições possiveis, e não conhecemos nenhuma lá fora que se lhe possa
comparar. Noutro tempo era aproveitada por algumas familias inglêsas residentes nesta cidade, que iam de proposito ao Porto
Santo, com as suas barracas, para tomarem banho na esplendida praia, que é também o clube ou assembleia onde se reunem, á
noite, as familias que passam o verão naquela ilha, conversando, cantando, tocando e fazendo jogos.
«Tratámos da praia, vejamos agora as uvas. Conhecemos um cavalheiro, que vivia em Paris com a sua familia, e com o qual tivemos
mui boas relações de amizade. Contava oitenta e três anos quando lhe fomos apresentado, e estava mui bem disposto para a idade
que tinha, apesar dos seus achaques, comuns a todos os velhos. Vivia em Paris, como disse, e com os primeiros calores do verão,
perdia completamente a vontade de comer, não tinha apetite para nada, senão para uvas. Mas em Paris, as uvas não aparecem no
mercado senão em Setembro, e a pessoa de que falámos não podia esperar até tão tarde, porque perdia o apetite logo no comêço de
julho. Vinha, pois, alimentar-se ao Porto Santo, como êle dizia; era quem primeiro começava a comer uvas e a ultima pessoa que
acabava, e, como as vindimas naquele tempo se prolongavam até o fim de Setembro, comia portanto uvas desde meados de Julho
até o fim de Setembro, isto é, dois meses e meio. Comia só uvas, pois que não lhe apetecia nenhum outro alimento. Desde o
primeiro ano que o conhecemos, vinha todos os anos ao Porto Santo comer uvas enquanto viveu. Dizia a tôda a gente que, logo que
começou com o seu regime das uvas, gozava muito mais saúde, viu desaparecer todos os seus incomodos habituais e assegurava que
as uvas lhe tinham prolongado a vida e melhorado muito a saúde; morreu com noventa e quatro anos de idade.
«Vejamos agora as águas minerais do Porto Santo. São factos banais, por muito vulgares, as melhoras que sentem com o uso das
águas do Porto Santo as pessoas que sofrem de dispepsias, sobretudo se as aguas são tomadas lá mesmo na ilha, na sua origem.
Queremos referir um facto do nosso conhecimento, que é extraordinario, singularissimo, e que prova a acção quasi milagrosa da
água do Porto Santo. Houve aqui um rapaz, nosso contemporaneo no liceu desta cidade, muito talentoso e um dos poetas mais
distintos do seu tempo, especialmente no genero humoristico, sendo as suas gazetilhas engraçadissimas e muito apreciadas nesta
cidade. Infelizmente, morreu ainda novo, de tuberculose pulmonar, de que esteve doente durante alguns anos Era empregado
superior do extinto Banco Comercial da Madeira, e, como era doente, acompanhava todos os anos ao Porto Santo o director e
fundador daquele banco, o importante proprietario e benquisto cidadão, João de Sales Caldeira. O rapaz de que falamos, como
todos os tuberculosos, era um dispéptico, mas com uma tal susceptibilidade e intolerancia do estomago que tudo lhe fazia mal. Não
tomava senão liquidos, o estomago não aceitava nenhum alimento que precisasse de ser mastigado, porque era logo vomitado e
provocava diarreia. Os caldos haviam de ser coados; um simples grão de arroz, um pequeno filamento de aletria, bastava para dar
origem a uma indigestão. Pois este pobre rapaz, que aqui na Madeira era um verdadeiro martirio para a senhora o alimentar, como
lhe ouvimos dizer por mais de uma vez, e cujo estomago não tolerava senão caldos coados, no Porto Santo comia tudo: sopa de
couve, melões, melancias, uvas, etc., e nada lhe fazia mal. É um facto o que afirmamos porque o presenceámos muitas vezes. É
possivel que aquela extraordinaria tolerancia do estomago fôsse o resultado de varios factores–descanso, clima, meio atmosferico,
mas as aguas, de certo, seriam o mais importante.
«Em conclusão: banhos do mar, uvas e aguas minerais – tais são o tríplice titulo que recomenda o Porto Santo como estação
sanitaria, a qual, por certo, não é excedida e nem sequer igualada por nenhuma outra».
Porto Santo (Flora e Fauna do)
A flora e fauna desta ilha oferecem algumas características peculiares, das quais se faz menção
especial ao serem versadas essas materias nos artigos respeitantes à Madeira.
Vid. Coelho do Porto Santo(I-282)
Porto Santo (Vegetação do)
São da autoria do distinto botanico e co-autor desta obra Carlos de Meneses os trechos que vão ler-se
àcêrca da vegetação do Porto Santo, extraídos de um belo estudo publicado no «Diario Popular» do Funchal de 1 e 2 de Abril de
1908, por serem julgados de particular interesse para os habitantes dessa ilha.
«A phyiloxera, que appareceu pela primeira vez na Madeira em 1872, só muito posteriormente, se manifestou egualmente no Porto
Santo, mas apezar de ser recente a sua introducção, consideraveis são já os estragos que tem causado. As cepas mais atacadas, teem
sido as dos terrenos argillosos, mas n'alguns pontos, embora poucos, onde o solo é arenoso, tambem as vinhas teem sido invadidas
por esse insecto. Segundo nos informam, as cepas do littoral desappareceram quasi todas, só existindo hoje alli duas faixas
cultivadas de vinha, uma no Espirito Santo e outra na Ponta.
Como os terrenos baixos do Porto Santo são na sua quasi totalidade de natureza calcarea, talvez conviesse ensaiar ahi a vitis
monticola, e mais particularmente a V. Berlandieri, especies americanas que poderiam ser enxertadas com as castas de vinha agora
cultivadas. A não se cuidar a serio da introducção de cepas resistentes e adequadas aos terrenos, grandes devastações poderá soffrer
ainda a viticultura porto santense, pois a experiencia tem mostrado que as areias nem sempre constituem um dique á invasão da
terrivel phylloxera.
As figueiras e amoreiras são as unicas arvores de fructo abundantes no Porto Santo; a amendoeira, o pecegueiro, a romeira, a
tabaibeira, a oliveira, a pereira e o pereiro embora também appareçam alli cultivados, são todos mais ou menos raros. As peras
chamadas caniças, as unicas que vimos n'aquella ilha, são excellentes, e as azeitonas provenientes das oliveiras da villa, se bem que
inferiores ás de Portugal, podem aproveitar-se para o consumo.
É de crer que as oliveiras que existem nos quintaes da villa do Porto Santo fossem importadas do continente, visto differirem tanto
na forma das folhas, como no tamanho dos fructos, das variedades madeirensis e buxifolia da Olea europea que vivem no estado
espontaneo no archipelago. Esta ultima variedade apparece nas rochas do Pico de Ana Ferreira na referida ilha, onde não passa de
um simples arbusto.
Os zimbreiros (
Juniperus phoenicea
) e dragoeiros (
Dracoena Draco
), que revestiam o Porto Santo ao tempo da descoberta, acham-
se agora completamente extinctos. As unicas especies arbustivas indigenas dignas de menção, e que ainda se encontram alli, são o
espinheiro (Lycium Europoeum), o marmulano (
Sideroxylon Marmulano
), o buxo da rocha (
Catha Dryandri
), a urze (Erica
scuparia) e a oliveira a que atraz nos referimos.
Afóra as arvores de fructo já mencionadas, sómente existem na ilha mais as seguintes especies lenhosas extranhas á terra, a
tamargueira (
Tamarix Gallica
), introduzida em 1834 por João Antonio Pedroso e que é agora bastante commum, o alamo (
Populus
alba
) que é tambem frequente, o pinheiro (
Pinus Pinaster
) cultivado em muito pequena escala nas Enguias e no Curral do Canario,
a arvore do paraiso (
Eloeagnus angustifolia
), a palmeira
(Phoenix dactylifera
), o
Myoporum acuminatum
e a
Nicotiana glauca
.
Estas duas ultimas especies, que se vão tornando frequentes, foram introduzidas pelo fallecido botanico João Maria Moniz.
Dois exemplares do pinheiro de Alepo ou de Jerusalem que vimos cultivados no Porto Santo, foram abatidos ha já alguns annos.
Esta especie deveria accomodar-se nos terrenos calcareos do norte da ilha que não podem ser utilizados pela agricultura.
Entre plantas indigenas, naturalizadas e cultivadas em grande, contam-se no Porto Santo 325 especies, sendo 317 phanerogamicas e
8 cryptogamicas vasculares. As familias com mais larga representação na ilha são as Leguminosas com 40 especies, as Compostas e
as Gramineas com 38 cada uma, as Cruciferas com 15, as Umbeliferas e Caryophyllaceas com 13 e as Labiadas e Chenopodiaceas
com 11. Duas unicas especies parecem ser peculiares da ilha: o Cheiranthus arbuscula e a Pedrosia porto-sanctana.
Das muitas especies forraginosas que existem no Porto Santo, citaremos apenas, por serem abundantes, as seguintes: a serralha
(
Lonchus oleracens
), a leituga (
Crepis divaricata
), varios trevos, dois M
elilotus
, a azeda (
Scorpiurus sulcata
), o balanco (
Avena
fatua
e
A. barbata
), a
Briza maxima
, a
B. minor
e o azevem (
Lolium perenne
). Duas especies de Mesembrianthemum (
M.
crystallinum
e
M. nodiflorum
produzem a soda, e da
Lavatera arborea
extrahe-se uma fibra textil que é utilisada no fabrico de
cordas. A papoila branca que fornece o opio, é muito frequente entre as searas».
Porto Santo (As Aguas do)
Quando são prolongadas as estiagens, o que acontece de quando em quando, sofre esta ilha as
consequencias de uma verdadeira calamidade publica, sendo muito para louvar a atitude da Junta Geral do Distrito da presidencia
do dr. João Abel de Freitas, que ali mandou proceder a importantes trabalhos de hidraulica agricola com o fim de atenuar as crises
produzidas por essas estiagens e beneficiar consideravelmente a industria agricola de tôda aquela região. Foi julgada necessária a
construção de uma grande «vala», que o referido presidente, em uma entrevista concedida a um jornal, no ano de 1942, descreve
nos termos que vamos reproduzir.
«A construção de uma vala para captação e distribuição de aguas das chuvas a que se está procedendo, é talvez a obra de maior
alcance económico-social até hoje ali realizada, não só pela sua oportunidade em fornecer trabalho a centenas de braços, mas pela
influencia que deverá ter no desenvolvimento agricola da região.
Esta vala tem, em primeiro lugar, a função de captar as águas que, por vezes em grandes caudais, escorrem das encostas do Pico do
Castelo, e que tanto dano têm causado nas encostas subjacentes; eliminada uma das causas principais do descalabro em que esses
terrenos se encontram, é possivel que apareça o incentivo de reconstrução das paredes e se faça a reconstituïção dos terrenos
desaparecidos.
Em segundo lugar, a agua assim captada, será transportada na parte da vala considerada de distribuïção através de terrenos de
areias, nos sitios da Camacha, Eira Velha, Areias, etc., que constituem reservatorio natural de grande capacidade, onde se infiltrará
tôda a agua para ali canalizada; deste grande campo de infiltração deriva agua para quási tôdas as nascentes e poços existentes.
Pretende-se assim fazer o aproveitamento de águas até aqui prejudiciais, por duas formas: em primeiro lugar e de uma forma
directa pela rega de terrenos subjacentes à vala, e em segundo lugar, pelo aumento de águas subterraneas e, conseqüentemente, do
fluxo das nascentes. Daqui resultará, também, justificação economica de abertura de novos poços, e, portanto o alargamento dos
terrenos de regadio.
Outra vantagem da construção desta vala é ainda, a de constituir incentivo para a construção de poços ou reprêsas, nos lugares mais
convenientes ao longo do seu percurso, em que sejam retidas as águas para futura irrigação quando se verifique a existencia regular
de excedentis de agua a justificar essa construção».
Porto Santo (Desenvolvimento, decadência e crises)
Quintos e Oitavos
. Nos tempos primitivos da colonização desenvolveu-se e progrediu a povoação e depois vila do Porto Santo, mas,
pouco mais de um século decorrido, começou a entrar em manifesta decadencia que se tem mantido através do tempo e que de
quando em quando se assoberba com o aparecimento de temerosas crises devidas especialmente ás prolongadas estiagens que ali se
dão com relativa freqüencia.
Essa primeira prosperidade não foi longa nem digna de maior nota e para a sua quasi imediata ruína, especialmente a partir dos
fins do século XVI contribuiram além da grave causa apontada, os freqüentes assaltos dos piratas, a ausencia dos donatarios, as
prosápias avoengas de muitos dos habitantes abandonando o cultivo das terras, as condições climaticas que então conduziam a um
forçado ócio e ainda outras circunstancias de caracter local, que hoje não são bem conhecidas.
Diz-nos o dr. Alvaro de Azevedo que «a obscura historia daquela ilha se cifra simplesmente no esquecimento a que foi sempre
votada pelos governos. Só no tempo do Marquês de Pombal, que teve como seu representante neste arquipélago o energico
governador e capitão general João Antonio de Sá Pereira, é que a metrópole descobriu que aquela ilha era uma possessão
portuguesa.
O Porto Santo tinha chegado a um tal estado de decadencia, que ameaçava despovoar-se. Diversas causas concorriam para isso,
sendo as principais o contrato de colonia agravado com freqüentes estiagens, e a estulta prosápia de muitos dos seus moradores,
que se dedignavam entregar-se aos trabalhos da lavoura ou ás artes e oficios. Os senhores mais abastados das terras levavam vida
ociosa no Funchal ou em Lisboa e recebiam a demidia dos produtos das suas propriedades, deixando os colonos na mais deploravel
situação, que era muito proxima da miseria. Um luxo que estava na mais flagrante contradição com as tristes circunstâncias da ilha,
lavrava entre os seus habitantes que em grande número julgavam descender de ilustres avoengos.
O alvará régio de 13 de Outubro de 1770 veio pôr cobro a muitos desses abusos, embora não cortasse o mal pela raiz. No entretanto,
só o pulso de ferro do Marquês e do seu representante nesta ilha, a que o anotador das Saudades chama o Pombal madeirense
seriam capazes de fazer executar um decreto com disposições tão draconianas e que decerto levantaria energicos protestos da parte
dos que foram tão profundamente lesados por êle.
O primeiro paragrafo desse diploma verdadeiramente pombalino e que é de todos o mais violento, estabelece que as «terras se
devem encabeçar nos actuais lavradores delas e suas familias para ficarem possuindo o util dominio das mesmas terras. . . ficando
perpetuada nas mesmas familias com o encargo de pagarem as melhores os quintos da sua produção e as de segunda qualidade os
oitavos, sem que estas pensões se possam alterar . . . ». Por esta disposição do alvará, os senhorios não só não podiam alienar as
suas terras, como apenas recebiam delas um simples fôro, acrescendo que de metade do produto das propriedades passavam a
receber a quinta ou oitava parte, conforme a qualidade delas. Daqui vem chamar-se a este alvará régio a lei dos «quintos e oitavos»,
que beneficiou os moradores do Porto ganto, mas espoliou os proprietarios dos seus direitos seculares, a não ser que êles quisessern
residir na ilha e dirigirem por si mesmos as explorações agricolas das suas terras. Por este primeiro parágrafo, ficam os moradores
isentos do pagamento dos dízimos que pertenciam ao Estado, pelo espaço de dez anos.
No segundo parágrafo se estabelece que os lugares de juízes, vereadores, procuradores do concelho e outros cargos de justiça ou de
fazenda, que eram desempenhados por pessoas de condição, só pudessem ser exercidos por individuos que «fizessem lavoura»
Determina o terceiro parágrafo, que o governador mande escolher, «entre os filhos dos referidos vadios que não fizerem lavoura",
seis para aprenderem o oficio de sapateiro, outros tantos para alfaiate, dois para oleiro, quatro para carpinteiro, quatro para
pedreiro e dois para ferreiro.
Outras disposições interessantes contém o célebre diploma, que por brevidade omitimos, diploma que vem transcrito nas Saudades
da Terra, a pag. 713 e seguintes. É este o célebre diploma legislativo, que ficou conhecido pelo nome de «Lei dos Quintos e Oitavos»,
e que na época produziu a maior sensação e foi objecto dos mais controvertidos comentarios, apesar de ser promulgado no governo
autoritario do Marquês de Pombal.
O alvará de 13 de Outubro de 1770 ordenava que o governador e capitão-general, acompanhado de outras entidades oficiais, fôsse
pessoalmente ao Porto Santo dar-lhe inteira execução, para o que João Antonio de Sá Pereira se fêz acompanhar do corregedor dr.
Francisco Moreira de Matos, do provedor da fazenda Domingos Afonso Barroso, do engenheiro tenente Francisco Salustiano da
Costa e Sá e do secretario do governo José Anastacio da Costa, e chegou àquela ilha a 28 de Maio de 1771, tendo-se ali demorado
com os outros funcionarios do Estado até o dia 20 do mês de Junho seguinte.
Enquanto o corregedor da comarca, o provedor da fazenda real e o ajudante de engenharia se encarregavam de fazer o
encabeçamento das terras, descriminando as que deviam pagar os «quintos» ou «oitavos» da sua produção, o governador com o
seu secretario tratava de pôr em execução as outras disposições do alvará, deixando um regulamento destinado principalmente á
agricultura, em que nomeava um inspector dela na pessoa do capitão Pedro Teles de Meneses, natural do Porto Santo e ali morador
com o vencimento anual de quatrocentos mil réis.
Sá Pereira fêz reünir a camara, as autoridades, os funcionarios publicos e muitas pessoas do povo e aí se procedeu à publicação
solene do alvará de 13 de Outubro e se deu por iniciada a sua execução e observancia.
Vinte anos depois, o governador e capitão-general D. Diogo Pereira de Forjaz Coutinho foi de visita àquela ilha examinar a maneira
como estava sendo executado o celebre alvará de 1770, que, com o decorrer dos anos, veio a cair em desuso nas suas principais
disposicões.
As crises, que de vez em quando surgem nessa ilha, especialmente determinadas por largas estiagens, como acima ficou dito, são
uma visão aterradora para os seus habitantes, vivendo sempre na perspectiva do espectro da fome com todos os horrores que a
acompanham.
Porto Santo (Saques na ilha do)
A pequena ilha do Porto Santo, isolada e sem defesa, foi varias vezes assaltada e saqueada por
corsarios e piratas, que embora não pudessem encontrar ali rica e abundante prêsa, contavam ao menos com a mais completa
impunidade e com a fuga precipitada dos habitantes para os cumes dos montes, deixando assim o campo livre á rapacidade dos
assaltantes. Era a coroa do Pico do Castelo, de dificil acesso e cuja escalada se podia sem grande custo impedir aos que tentassem
fasê-la, que principalmente servia de refugio aos pobres moradores da vizinha ilha, pondo-se ali ao abrigo da ferocidade dos piratas.
O escarpado monte só teve uma defesa regular com suas peças e ameias nos principios do século XVIII, contando os habitantes, em
épocas anteriores, apenas com as vertentes abruptas do pico, em que simples calhaus, rolando livremente pelas encostas eram
suficientes para obstar qualquer assalto. O forte da vila a que se deu o nome de S. José em homenagem ao rei D. José I, foi
construído no tempo do Marquês de Pombal. Anteriormente a esta época, não sabemos com que elementos de defesa contava o
Porto Santo na contingencia dum ataque, mas bem fracos e inuteis seriam êles, pois não consta de qualquer resistencia feita aos
diversos assaltos dos piratas (V.
Preston
).
O mais remoto saque de que há noticia foi o que ali fizeram os piratas franceses a 2 de Outubro de 1566, e no dia seguinte
desembarcaram no Funchal, dando á cidade o terrivel assalto de que com tanto horror falam as cronicas madeirenses.
No ano de 1617, assaltaram os marroquinos o Porto Santo, saqueando a vila e, entre outros prejuízos, causaram o da completa
destruïção dos arquivos da camara e da igreja paroquial. 0 mesmo se deu no ano de 1667.
A 11 de Dezembro de 1690, dois corsarios franceses «invadiram, diz uma testemunha ocular, esta ilha e a saquearam,
principalmente a igreja, que de tudo ficou roubada, de ornamentos, pratas e livros... sem que podesse fazer outra coisa, senão o
vigario o dr. Estevão de Vasconcelos consumir o Santissimo Sacramento. . . e só com a ambula na mão se recolheu ao Pico do
Castelo. . . » Não se conhecem outros pormenores deste assalto.
Em Janeiro de 1708, sofreu aquela ilha novo saque dos piratas franceses, que, além da pilhagem a que se entregaram, incendiaram
a igreja paroquial e algumas casas da vila.
Conta Rebêlo da Silva na sua Historia de Portugal, que no ano de 1641 esteve quasi bloqueado o Porto Santo por uma esquadra de
doze velas otomanas, mas que os habitantes ao terem conhecimento da revolução do 1.° de Dezembro de 1640, «saudaram a nova
com repetidas salvas de artilharia e mosquetaria, e que os turcos espantados com o ruído e ignorando a causa, julgaram prudente
ceder e desapareceram».
É certo que os piratas argelinos por diversas ocasiões, principalmente no decorrer do século XVII, assaltaram a vizinha ilha do
Porto Santo e a saquearam, mas não podemos precisar os anos em que esses assaltos se deram pois não temos acêrca deles
encontrado quaisquer noticias pormenorizadas.
Porto Santo (Aspectos demográficos do)
De uma interessante conferencia proferida pelo rev.° padre Eduardo Pereira e publicada
no «Diario de Noticias» do Funchal de 22 e 23 de Julho de 1941, são extraidos os seguintes trechos.
«A vida social do Porto Santo é também elemento de interesse, curiosidade e estudo pelo contraste flagrante que oferece com a da
Madeira. 0 povo isolou-se sempre dentro da Ilha e dentro da sua étnica, costumes e tradições.
É uma terra típica e original na constituição geológica e demográfica do Arquipélago. 0 povo, provindo directamente de duas raças,
lusa e árabe, mostra em tudo suas influencias e atavismo.
É português em máscaras bem vincadas e fortes de colonizadores de quinhentos; é árabe em traços atávicos de pronunciado
mauritanismo. Denunciaram-se os primeiros por pruridos de casta e atributos morais; os segundos, por caracteres físicos e índoles
de mistura. É, todavia, na sua informação moral mais vincadamente português, patenteando Ilha e habitantes tanta afinidade física
e politica com o continente lusitano que facilmente se diria serem mais de lá que de cá. A própria educação daquele povo é outra
faceta original de apreciável relevo psicológico.
A maneira de viver, de sentir, trato social, concepções de higiene, atributos de cortesia e solidariedade, linguagem, família,
autoridade paterna, casamento, pergaminhos, moral, alimentação, diversões, música, regime agrícola, tudo, tudo diferença a
população porto santense da população da Madeira. Por desconfiança árabe, não se dá nem se abre o povo ao primeiro contacto
com ninguém, seja de dentro ou de fora, venha donde vier. Primeiro conhece, depois estuda, para então estimar com franqueza e
afectividade de português. Sua afeição é tardia, mas duradoura. Não se proponha ninguém enganá-lo, porque desse dolo será o
primeiro a tirar engano. Invulgarmente inteligente e perspicaz, não se deixa conhecer de estranhos sem primeiro os conhecer. É,
todavia, duma urbanidade cativante e sem igual entre as nossas populações».
Porto Santo (Profetas e Nobres do)
No artigo Profetas, encontrar-se-á uma desenvolvida noticia acêrca deste curioso episodio da
vida porto-santense e sobre a «alcunha» pela qual são conhecidos os habitantes daquela ilha.
O alvará régio de 6 de Novembro de 1522 passado a favor do donatário Bartolomeu Perestrelo, concede que «a mulher e noras dele
se possam chamar e chamem de dom segundo nossa ordenação…». De privilégio, passou a manifesto abuso e foram inúmeros os
que os cometeram.
Porto Santo (Conde do)
O estadista e diplomata António Saldanha da Gama, que casou com uma senhora madeirense, filha e
herdeira do antigo morgado José de Brito Heredia, foi agraciado com o titulo de conde do Porto do Santo, por decreto de 26 de
Outubro de 1823, titulo que não teve sucessão.
Portos da Madeira
Dos portos do arquipélago, consideravam-se até há pouco como bons o do Funchal e do sul da ilha do Porto
Santo, sendo tidos como sofríveis os da Abra, Machico, Santa Cruz, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Porto do Moniz e
Porto da Cruz, e maus os do Caniçal, Porto Novo, Reis Magos, Oliveira, Campanário, Lugar de Baixo, Madalena do Mar, Anjos, Fajã
do Mar, Calheta, Jardim do Mar, Paul do Mar, Pesqueiro, Seixal, Fajã da Areia, Ponta Delgada, Boaventura, São Jorge e Faial. Os
portos das freguesias do Porto do Moniz e Porto da Cruz são considerados como bons desembarcadouros, quando sopram os ventos
do quadrante sul, não sendo então permitido qualquer tráfego em toda a costa meridional da Madeira, o que aliás sucede poucas
vezes em cada ano. Nos últimos trinta anos, as condições dos portos destas localidades melhoraram consideravelmente com a
construção de pequenos cais e desembarcadouros e com os trabalhos de acrescentamento e reparação realizados nos já existentes.
No mês de Setembro de 1944, o engenheiro Henrique Schreck, director técnico da Junta Autónoma dos Portos do Arquipélago da
Madeira, ao abrigo das medidas tomadas pelo governo central acerca dos trabalhos a realizar nos diversos portos do Continente e
Ilhas, apresentou à Junta Geral deste distrito um bem elaborado relatório respeitante ás diversas obras que devem ser brevemente
executadas aos portos do nosso arquipélago.
Quem quiser possuir um conhecimento circunstanciado acerca dos portos da Madeira, e especialmente do do Funchal, leia o 5.º
volume da importante obra «Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes» da autoria do ilustre engenheiro Adolfo Loureiro.
Vid. Porto do Funchal
e cada um dos nomes que ficam acima indicados.
Portos de Pesca
Vão abaixo mencionados os portos de pesca deste arquipélago, que são os principais e nos quais se exerce a
fiscalização alfandegaria e se faz a cobrança do imposto, que recai sobre o peixe que neles dá entrada. Há outros pequenos portos,
onde também se exerce essa industria, mas em proporções muito limitadas e por vezes com carácter transitório.
Como atrás ficou dito, é relativamente importante a indústria da pesca neste arquipélago, pois que nela se ocupam, como profissão
única, cerca de dois mil indivíduos, além dos que a ela se entregam apenas transitoriamente e em determinadas épocas do ano.
Vivem, pois, exclusivamente dependentes dela alguns milhares de pessoas, sendo para lamentar que não exista uma organização de
ordem industrial e comercial, que proteja eficazmente os operários dessa utilíssima industria e os ponha ao abrigo da desenfreada
ganância de vis e desumanos especuladores. Também é bastante para sentir que se não tenha criado um organismo de feição
mutualista, destinado a acudir à doença, a inabilidade e invalidez dos pobres e desprotegidos pescadores.
Na apreciada obra
Estatística das Pescas Marítimas no Continente e Ilhas Adjacentes
no ano de 1931 . . » encontram-se alguns
interessantes dados respeitantes ao nosso arquipélago, que queremos deixar arquivados e que constam do mapa seguinte:
Embarcações De motor mecânico
De vela ou remos
Tonelag. das De motor mecânico
- -
embarcações De vela ou remos 1141 1024 1130 1096 1002
1931 1930 1929 1928 1927
21
24
508 519
231 205
- -
-
490 481 446
-
7
10 26
1452 1390 1340 1725 1401
12 26
Numero de Maiores
pescadores Menores
Útil e interessante seria apresentar uma nota circunstanciada de carácter estatístico relativamente à época que vai decorrendo e de
modo particular referente a cada porto de pesca, mas não sabemos se a tal respeito existem dados seguros, sendo no entretanto
proveitosas as informações que aqui deixamos consignadas acerca de anos anteriores.
Nos 15 portos de pesca de todo o arquipélago, em que se exerce a fiscalização da Alfandega, o peso e o valor do peixe desembarcado
no ano de 1941 foram os seguintes, conforme os dados oficiais que nos foram obsequiosamente fornecidos:
Quilos Escudos
Funchal.............. 1 060 258 1 106 871
Ponta da Cruz........ 230 214
Câmara de Lobos...... 512 491 769 674
Ribeira Brava........ 46 860 52 597
Ponta do Sol......... 46 451 63 610
Calheta.............. 78 315 93 392
Paul do Mar.......... 92 026 106 756
Porto Moniz.......... 155 358 144 030
S. Vicente........... 15 000 19 234
Ponta Delgada........ 14 244 16 432
Porto da Cruz........ 20 938 12 515
Machico.............. 185 381 220 871
Santa Cruz........... 56 803 67 336
Reis Magos........... 18 976 23 085
Porto Santo.......... 30 872 23 798
Neste ano foi iniciada a pesca do cachalote que anteriormente não existia, dizendo-se na nota referida que «a especie de cetaceos-
baleias» rendeu 125 312 kilos e 110.827 escudos no Porto do Porto do Moniz e 2.386 kilos e 10 000 escudos no porto da freguesia do
Porto da Cruz. Nos números respeitantes ao Porto do Moniz, estão incluídos 19 kilos de «ambar» no valor de 47.735$00.
Relativamente ao ano de 1942:
Quilos Escudos
Funchal............... 977 902 1 411 660
Ponta da Cruz......... 2 210 2 002
Camara de Lôbos....... 606 199 1 200 961
Ribeira Brava......... 52 978 75 241
Ponta do Sol.......... 65 723 108 524
Calheta............... 73 096 116 065
Paul do Mar........... 74 645 110 063
Porto Moniz........... 174 849 143 350
São Vicente........... 6 286 14 096
Ponta Delgada......... 2 196 4 012
Porto da Cruz......... 6 499 8 836
Machico............... 148 451 210 723
Santa Cruz............ 60 179 87 260
Reis Magos............ 121 280 93 115
Porto Santo........... 40 615 28 519
Deve notar-se que, nos números referentes aos portos do Porto Moniz e dos Reis Magos, estão respectivamente incluídos 72 e 31
cacholotes, além de um no Porto da Cruz, sendo já considerável a pesca de cetáceos que se vai realizando nos mares deste
arquipélago.
Eis o que se encontra registado relativamente ao ano de 1943:
Quilos Escudos
Funchal................ 686 769 1 327 572
Ponta da Cruz.......... 190 90
Câmara de Lobos........ 899 532 2 103 716
Ribeira Brava.......... 73 609 145 107
Ponta do Sol........... 77 857 160 474
Calheta................ 97 103 191 260
Paul do Mar............ 81 652 183 120
Porto do Moniz......... 74 934 67 444
São Vicente............ 6 392 35 519
Ponta Delgada.......... 3 253 4 928
Porto da Cruz.......... 5 241 8 945
Machico................ 96 877 205 629
Santa Cruz............. 53 447 101 119
Reis Magos............. 304 507 204 581
Porto Santo............ 61 978 69 306
Nos Portos do Porto do Moniz e dos Reis Magos contam-se, nos números que ficam referidos, respectivamente 21 e 102
cachalotes e um no porto de São Vicente.
Segundo informações ministradas pelo abalizado ictiólogo Adolfo Noronha, a espécie de peixe que mais abundantemente se pesca
na Madeira é a espada preta, chegando muitas vezes a aparecer, só no mercado da cidade, três e quatro mil espadas em cada dia,
sendo largamente consumido por todas as camadas sociais. Conforme as mesmas informações, há anos que o atum, «que vem não
se sabe donde e vai não se sabe para onde» é, em certas épocas pescado abundantemente nos nossos mares sendo uma das pescas
mais lucrativas para os pescadores.
No artigo Pesca e Indústria Piscatória encontram-se outras informações, que muito interessam a este assunto.
Portugal
Saíram poucos números deste jornal, sendo o primeiro a 11 de Janeiro de 1891.
Portugal (D. Afonso de)
Foi primeiro conde de Vimioso e esteve na batalha de Alcácer Quibir, onde caiu prisioneiro. No ano de
1549 comprou a António da Silveira, com autorização do rei D. João III, a capitania de Machico, da qual foi 6.º donatário. Morreu
em África, cativo dos moiros, tendo sobrevivido porém, a seu filho D. Francisco de Portugal
V.
Vimioso (Condes de
).
Portugal (D. Francisco de)
Esteve, com seu pai, na batalha de Alcacer-Quibir, em que foi ferido e feito prisioneiro. Tendo
conseguido voltar á pátria, seguiu o partido do Prior do Crato, ao qual prestou relevantes serviços, vindo a morrer gloriosamente na
famosa batalha naval de Vila Franca do Campo, a 26 de Julho de 1582. Foi 7.º donatário de Machico e 2.° Conde de Vimioso, pela
razão de só muitos tempos depois do desastre de Alcacer-Quibir se ter sabido que D. Afonso de Portugal não morrera na batalha e
estava prisioneiro dos moiros em Africa. A capitania de Machico foi dada por Filipe II a Tristão Vaz da Veiga, ainda em vida do 2.°
Conde de Vimioso.
V.
Vimioso (Condes de
).
Portugal (D. Martinho de)
Foi o segundo prelado desta diocese e o primeiro e único arcebispo do Funchal. Embora por bastardia
pertenceu a uma das mais antigas e nobre famílias do reino, sendo próximo parente do monarca D. João III, de quem foi valido e
conselheiro. Nasceu em Évora no ultimo quartel do século XV e morreu em Lisboa a 15 de Novembro de 1547.
Não sabemos se foi devido ás suas relações pessoais e parentesco com a casa real ou aos meritos proprios que porventura possuisse
que exerceu os mais altos cargos e desempenhou importantes missões diplomáticas, como representante de D. João III, em Roma, e
núncio e embaixador do papa, em Lisboa, além de ter sido bispo de Viseu e haver ocupado outros elevados cargos na corte. Foi um
dos diplomatas que D. João III encarregou de negociar em Roma o estabelecimento do tribunal da inquisição, referindo-se
Alexandre Herculano largamente a este prelado na sua obra Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal. O grande
historiador, que neste trabalho se mostrou duma grande parcialidade, como hoje geralmente todos reconhecem, faz de D. Martinho
de Portugal o pior conceito, chegando a dizer dele que «era um homem sem moral e sem crenças, para quem a religião não passava
dum instrumento politico.
O arcebispado do Funchal foi estabelecido em 1533 e extinto em 1551. Os motivos que determinaram esta criação, as datas das
Bulas que o instituíram e as circunstâncias que se deram nessa criação, ficaram sumariamente expostos no artigo Arcebispado (Vol.
I, pag. 77) para onde remetemos o leitor.
D. Martinho de Portugal, ocupado no desempenho de outros cargos, nunca visitou a sua arquidiocese. Enviou a esta llha D.
Ambrosio Brandão, bispo titular de Rociona, que aqui se demorou aproximadamente um ano, de 1538 a 1539, no exercício das suas
funções episcopais. Enviou também os visitadores Jordão Jorge e Álvaro Dias, que se ocuparam da observância da disciplina
canonica.
Portugal e Castro (D. Manuel de)
V.Castro (D. Manuel de Portugal e ).
Posto Antropométrico
Sendo representante do Ministério Público no Funchal o dr. Joaquim Crisóstomo da Silveira, foi
instalado no tribunal da Comarca um Posto antropométrico, que ainda existia em 1915, pois que nesse ano, a 22 de Julho, resolveu
a Câmara Municipal contemplá-lo com diversos artigos de mobiliário de que ele necessitava.
Posto de Desinfecção do Campo da Barca
Foi construído em 1904, e o terreno que ocupa foi cedido gratuitamente pela
Câmara Municipal á Junta Geral, em 12 de Março de 1903 e 23 de Março de 1911.
O Posto de desinfecção do Campo da Barca foi aberto a 29 de Novembro de 1905 e o quadro do seu pessoal, constituído por um
medico-director, um administrador, um maquinista, um chefe de desinfectadores, dois desinfectadores e um servente, foi aprovado
por decreto de 23 de Maio de 1904.
As desinfecções domiciliárias têm sido especialmente feitas no concelho do Funchal, incluindo as freguesias suburbanas; no
entanto, o pessoal de desinfecção vai a freguesias de outros concelhos, quando requisitados os seus serviços, proceder a
desinfecções em domicílios onde ocorreram óbitos com doenças de carácter contagioso.
No numero das desinfecções domiciliarias estão incluídos os hospitais e casas de caridade, bancos, escolas, casas de penhores,
hotéis, cadeia civil, calabouços policiais e outros edifícios públicos.
É director do Posto de Desinfecção Pública, desde a sua inauguração, o distinto médico sr. dr. Carlos Leite Monteiro. É
Administrador do mesmo estabelecimento público o sr. J. Cruz Baptista Santos, que exerce este lugar desde 3 de Novembro de
1919, sendo nomeado para substituir, por motivo de aposentação, o distinto homem de ciência e jornalista sr. dr. Manuel Sardinha,
que ocupava as respectivas funções desde a inauguração do referido Posto (1921).
É-nos grato registar, os serviços que o Posto de Desinfecção Pública, fundado por iniciativa do saudoso conselheiro Dr. José Leite
Monteiro, então presidente da Junta Geral do distrito, tem prestado á população madeirense, nomeadamente por ocasião de
epidemias manifestadas nesta ilha.
Todas as despesas com a manutenção do aludido Posto estão a cargo da Junta Geral do distrito, devendo este serviço, pela sua
utilidade pública, figurar entre as obras de assistência mantidas pela mesma Junta, como sejam: Casas de Saúde do Trapiche e do
Dr. Câmara Pestana, Asilo dos Velhinhos, subsídios a menores e indigentes, etc..
Posto Marítimo de Desinfecção
Desde 1901 que existe na Pontinha um pequeno posto marítimo de desinfecção. As
importâncias provenientes das desinfecções, depois de deduzidas as despesas com a compra dos desinfectantes, constituem receita
da Junta Geral, estando a cargo desta corporação o pagamento do aluguer da casa onde funciona o posto. O pessoal do posto,
constituído por um fiscal e um guarda, é pago pelo Governo (1921).
Posto Médico Municipal
Começou a funcionar no dia 10 de Abril de 1889, e foi criado pela Câmara Municipal da presidência do
falecido visconde do Ribeiro Real.
O aparelho de raios X que existe no posto médico, foi adquirido pela Câmara em 1922, tendo ali havido outro que se inutilizou.
Vid.
Serviços Sanitários
.
Posto Meteorológico do Areeiro
Vid.Areeiro (I-84).
Postos Meteorológicos
O posto meteorológico do Funchal, estabelecido na fortaleza de S. Lourenço, começou a funcionar em
Janeiro de 1865, sob a direcção do falecido engenheiro militar Antonio Pedro de Azevedo. Está na altitude de 21m,2, é subordinado
ao Observatório do Infante D. Luís, com o qual se corresponde telegraficamente todos os dias, e nele se fazem observações ás 6 e 9
horas da manhã, ás 3 e 5 horas da tarde e ás 9 horas da noite, sendo facultativa esta ultima observação (1921).
Antes de entrar em vigor este horário, faziam-se observações ás 7 e 9 horas da manhã, ao meio dia, ás 3 horas da tarde e às 9 horas
da noite.
Em 1901, foi construído um quarto para arquivo do posto, e, em 1913, um terraço sôbre o mesmo posto, ao qual dá acesso uma
escada exterior. Estes dois melhoramentos foram executados por indicação do 1.° ajudante, o coronel Eduardo Agostinho Pereira,
falecido a 22 de Setembro de 1918.
Existem no Posto meteorológico do Funchal um barógrafo, um psicrógrafo, um anemógrafo, um barómetro de Adie, um
psicrómetro de Augusto, termometros de maxima e mínima, um evaporímetro, um udómetro, etc.. O posto costuma fornecer
diariamente á imprensa um boletim com indicações acerca da direcção do vento, estado do céu, pressão, temperatura e quantidade
de chuva caída durante 24 horas (1921).
Nas proximidades do Pico do Areeiro e na altitude de 1700 metros acima do nível do mar, foi construída em 1895 uma casa de
madeira destinada a servir de posto meteorológico e de residência dos observadores, mas este estabelecimento, que custou ao
Estado cerca de 5 contos de réis, nunca chegou a funcionar, devido á indiferença com que os governos e as corporações
administrativas olham em geral os serviços de carácter cientifico.
A referida casa, que estava a cargo da Direcção das Obras Publicas, foi entregue á Junta Agrícola da Madeira a 13 de Agosto de 1913
para aí instalar um posto meteorológico, passando á posse da Junta Geral do Distrito quando foi extinta aquela corporação. É de 19
de Abril de 1913 o despacho ministerial que autorizou a entrega á Junta Agrícola do edifício do Areeiro.
A torre onde estava o compartimento destinado aos instrumentos meteorológicos, e á qual se subia por uma escada colocada
exteriormente, foi derrubada pelos grandes vendavais de 25 e 26 de Fevereiro de 1920.
O que fica exposto é a transcrição textual do que se encontra a pág. 326 do vol. II da primeira edição deste Elucidário, a que agora
podemos acrescentar as seguintes valiosas informações, que nos foram obsequiosamente fornecidas pelo actual director do Posto
Meteorológico do Funchal, Antonio Feliciano de Castilho, ampliando-se desta maneira os antigos elementos já conhecidos.
«O antigo Posto tem hoje a categoria de Observatório Meteorológico, ainda instalado no Palacio de S. Lourenço, mas em vesperas
de ser transferido para edifício proprio. Foi notàvelmente ampliado no seu equipamento e nas suas funções. É chefiado por um
primeiro-ajudante do Observatorio do Infante D. Luis, e tem a superintendencia técnica de tôdas as outras estações e postos do
Arquipélago. O actual chefe do Observatório é o primeiro-ajudante Antonio Feliciano Pinto Pacheco de Novais Barreto e Castilho.
A sua aparelhagem é hoje constituída por um barómetro de Adie, um barografo, um psicrometro, um higrografo, um termografo,
um udometro e um udografo, um termometro de maxima e outro de minima, um termometro ordinário e outro de maxima de
temperatura ao Sol, um anemógrafo, um heliógrafo, dois solarigrafos, um solarimetro e um evaporimetro.
As observações são feitas, ás 6, 12 e 17 horas para a determinação de temperaturas, umidades, ventos, pressões, insolação, estado do
tempo, etc..
Areeiro
:
Nas proximidades do Pico do Areeiro e na altitude de 1610 metros, está instalada a estação meteorológica do Areeiro.
Neste local, houve já uma casa mandada construir em 1895, para servir de posto e residência ao pessoal encarregado do serviço,
mas por motivos de diversa ordem nunca chegou a funcionar (Vid.
Areeiro
). Em Novembro de 1936, começou ali funcionando um
Posto termo-udometrico que fornecia elementos sobre chuva e temperaturas. Em Dezembro de 1939, foi este posto ampliado,
passando a ter os seguintes aparelhos: Um barometro, um barografo, um psicrometro, um termometro de maxima e outro mínima,
um udometro, um catavento, um anemometro. O horario das observações era às 9 e 15 horas, colhendo elementos sobre pressões,
temperaturas, umidade, vento; chuva, visibilidade e evolução do tempo. Em Janeiro de 1942, passou a ter as observações às 6, 12 e
Além da estação do Funchal, temos ainda mais as seguintes:
17 horas. Esta estação, devido à sua importancia, está em vesperas de ser instalada em edifício proprio, passando a fazer parte do
serviço internacional.
Encumiada de S. Vicente, Santana, Lugar de Baixo, e Sanatorio do Monte
: Estas estações, montadas, respectivamente,
em Junho de 1941, Janeiro de 1942, Junho de 1941, e Junho de 1941, fazem três observações por dia, ás 6, 12 e 17 horas, colhendo os
seguintes elementos: temperaturas, humidade, chuva, visibilidade, evaporação, direcção e velocidade do vento. Para isso, estão
equipadas com termómetros de máxima e minima, psicrometro, termohigrografo, udómetro, evaporometro e catavento. No
Sanatorio do Monte, existe ainda um heliografo que fornece elementos sôbre insolação. Tanto a estação da Encumiada como a de
Santana já funcionavam como postos termo-udometricos desde Dezembro de 1938.
Porto Santo
: Esta estação instalada na ilha do mesmo nome junto á estação radio-telegráfica, foi montada em Julho de 1941 pelo
então encarregado de posto do Funchal, Manuel Melquíades Alarques, ficando a fazer duas observações, ás 9 e 15 horas. Está
apetrechada com os mesmos aparelhos e fornece os mesmos elementos das anteriores. O horario das observações é como o das
restantes, ás, 6, 12 e 17 horas.
Existem ainda os postos Termo-udometricos da Madalena do Mar, Queimadas, Ribeira Brava e Santo da Serra todos montados de
Novembro de 1936 a Dezembro de 1938.
Além destes, temos os postos udometricos do Caramujo, Machico, Montado do Pereiro, Ponta do Pargo, Porto do Moniz, Rabaçal,
Ribeiro Frio, Santa Cruz, Santo António, Canhas, Bica da Cana, Paul da Serra e S. Vicente. Destes postos, o mais antigo é o de Santa
Cruz, montado em Novembro de 1936 e o mais moderno é o de S. Vicente montado em Maio de 1945.
Todos os elementos dos serviços meteorológicos da Madeira são publicados mensalmente no resumo mensal do Observatório
Central Meteorológico do Infante D. Luís de Lisboa, na informação meteorológica do Jornal das Frutas da Madeira e no Boletim
Mensal do Funchal. Anualmente, todos estes elementos vêm publicados nos Anais do Observatório Central. O Observatório do
Funchal publica diariamente um boletim donde constam as informações das estações do Funchal, Arieiro, Sanatorio, Santana,
Lugar de Baixo e Porto Santo, e do posto do Santo da Serra.
Todas estas estações e postos fazem parte do Serviço Nacional de Clima a cargo do Observatório Central Meteorológico de Lisboa,
anexo á Faculdade de Ciências, de que é Director desde 1937 o sr. Doutor Herculano Amorim Ferreira, professor catedrático da
mesma Faculdade.
Deve-se o actual estado dos Serviços Meteorológicos da Madeira, ao grande impulso dado ao Serviço Nacional de Clima pelo actual
Director do Observatório Central que se deslocou á Madeira em Junho de 1938 exclusivamente para estudar as necessidades deste
Serviço. Com o mesmo fim, esteve também no Funchal, em Julho de 1941, o sr. Doutor Amaro Monteiro, Chefe dos Serviços de
Clima do Observatório Central. Muitas destas estações estão montadas com material comprado pela Junta Geral do Distrito, da
ilustre presidência do sr. Doutor João Abel de Freitas, e estão a cargo do pessoal dos Serviços de Agricultura, repartição que é
superiormente dirigida pelo sr. Eng.° Agronomo Maurilio Ferraz e Silva. Também a Delegação da Junta Nacional das Frutas, então
dirigida pelo sr. Eng.° Agronomo Antonio Teixeira de Sousa, montou alguns dos primeiros postos termo-udometricos que depois
foram entregues á Direcção de Agricultura.
De notar é ainda a actuação desinteressada e valiosíssima dos srs. Doutor João d'Almada, já falecido, e Vice-Almirante Hugo C. de
Lacerda Castelo Branco.»
Posturas
Como é sabido, têm as Câmaras Municipais o direito de estabelecer dentro da área dos seus concelhos determinados
preceitos legais de carácter local em harmonia com as leis gerais do país, preceitos que devem ser rigorosamente observados e cuja
transgressão implica a imposição de diversas penalidades. Neste arquipélago e anteriormente ao ano de 1834 não raro acontecia
que esses códigos privativos de leis ou Posturas Municipais colidiam com alguns decretos emanados do poder central, levando as
autoridades superiores a intervir energicamente e a coagir as vereações concelhias ao inteiro cumprimento desses decretos.
Todas as Câmaras deste arquipélago e em diversas épocas estabeleceram e fizeram observar muitas «posturas», sendo algumas
delas publicadas pela imprensa.
Numa tentativa de «codificação», temos noticia de que nos anos de 1841, 1842, 1856, 1890, 1897 e 1900, respectivamente, as
Câmaras Municipais de Santana, Calheta, Machico, Porto do Moniz, São Vicente e Ponta do Sol, fizeram imprimir em opúsculos as
suas posturas, então vigentes, o que representa uma acertada medida para a boa administração municipal.
No ano de 1912, fez a Câmara Municipal do Funchal publicar em volume de 245 paginas o Código de Posturas do Município do
Funchal, que é uma colecção das posturas que nesse tempo vigoravam e que na sua grande maioria ainda vigoram, sendo a mais
antiga referente ao ano de 1881. É um excelente trabalho de codificação, especialmente coordenado pelo secretário da Câmara, Luís
Betencourt Miranda.
Pota (Ommastrephes sagittatus)
Molusco cafalópode que habita os fundos além de 350 braças, mas que no verão aparece muitas
vezes á flor do oceano, sobretudo nos meses de Agosto e Setembro. Há exemplares que chegam a pesar mais de 10 quilogramas.
O sabor deste molusco quando novo, lembra o da lula e o do polvo. A pota é uma isca valiosa e muito procurada para a pesca do
atum, da espada e de outras espécies.
Poupa (Upupa epops)
Ave da família Upupida que visita a Madeira e que se diz ter feito parte outrora da fauna indígena da ilha.
Povo (O)
Começou a publicar-se a 1 de Janeiro de 1883 e suspendeu a 4 de Fevereiro de 1888 dando 260 números.
Outro periódico com o mesmo titulo iniciou a sua publicação a 31 de Janeiro de 1907 e suspendeu a 30 de Setembro de 1917, dando
1248 números. Publicava-se semanalmente, mas de 15 de Dezembro de 1910 a fins de Outubro de 1913 foi jornal diário.
Povoamento e Colonização
No artigo
Descobrimento do Arquipélago
, dedicámos algumas páginas ao debatido problema do
primeiro encontro ou «reconhecimento» destas afastadas ilhas, que aguarda ainda uma segura e definitiva solução no que
particularmente se refere á época em que se realizou esse auspicioso acontecimento, aos arrojados navegadores que o
empreenderam e ás circunstancias ocasionais que o acompanharam.
O que parece indubitável é que, reconhecida a veracidade do sucesso e assinalada a posição geográfica desse inesperado encontro,
não teria decorrido largo tempo para uma activa exploração e um imediato povoamento, embora sejam pormenorizadamente
ignoradas as primeiras e frutuosas tentativas empregadas para esse fim.
Apesar da densissima vegetação florestal que inteiramente cobria o solo madeirense e do inverosímil acidentado das suas vertentes
e encostas, procederam sem demora os primitivos povoadores a uma rápida exploração através do litoral e efectuaram alguns
desembarques nos pontos de mais fácil acesso, como indispensável preparação do movimento colonizador que iria desde logo
iniciar-se.
Muitas elevações montanhosas, lombas e alcantis, vales e despenhadeiros, ribeiras, portos e saliências da costa marítima,
receberam então o seu baptismo, ficando os seus nomes para sempre inscritos na toponímia madeirense. E assim os vocábulos
Seixo, Oliveira, Garajau, Cruz, Formosa, Socorridos, Espirito Santo, Girão, Vera-Cruz, etc., etc., convertidos em nomes próprios,
passaram a designar cousas e lugares, que através de cinco séculos ainda ao presente inalteravelmente se conservam.
Com o extraordinário desenvolvimento das diversas industrias e com os prestimosos meios de acção de que hoje largamente
dispomos, mal podemos calcular o que seria a colonização de uma ilha ignorada e perdida na vastidão do oceano, a quinhentas
milhas de distancia do Continente e que apenas na quadra estival mantinha comunicações com a metrópole, lendo-se em um antigo
manuscrito «que el-rei e o infante D. Henrique tinham noticias da Madeira de ano a ano pelo verão porque naqueles princípios se
não navegava no inverno».
Os antigos povoadores, além do valor inato da raça e do seu afincado amor ao trabalho, contavam apenas com a excelente
amenidade do clima e com a ubérrima fertilidade do solo. Quais outros predecessores de um lendário Robinson, isolados em uma
deserta e abandonada ilha, praticavam verdadeiros milagres de heroísmo no arroteamento das glebas virgens, na construção das
suas desconfortaveis habitações e na formação de pequenos aldeamentos, a que ficaram chamando «fazendas povoadas».
Ao iniciar-se a auspiciosa colonização, foi esta ilha dividida, para o efeito da sua administração pública, em duas zonas distintas,
demarcados os seus limites por uma linha divisória, que se estendia desde a ponta da Oliveira (Caniço) e a ponta do Tristão (Porto
do Moniz) constituindo toda a costa setentrional e ainda uma parte da meridional a capitania de Machico, e o restante a capitania
do Funchal, respectivamente dirigidas por Tristão Vaz e João Gonçalves Zargo, como já ficou referido nos artigos Capitanias e
Donatários.
Entre os companheiros e contemporaneos do último destes capitães-donatários, conhecem-se os nomes de Gonçalo Aires Ferreira,
Francisco Carvalhal, João Lourenço, Rui Pais, João Afonso, Antonio Gago, Lourenço Gomes, Francisco Alcoforado, Vasco Delgado,
Alvaro Afonso, Aires Lordelo, Vasco Esteves, Manuel Afonso de Sanha e João de Prado, conservados em antigas cronicas e diversos
nobiliários. Obtiveram todos terras de sesmaria, que em grande parte foram vinculadas pelos seus herdeiros e sucessores,
tornando-se estes os troncos das mais antigas e nobres familias madeirenses. Vid. Sesmarias e Instituições Vinculares.
Investidos os capitães-donatários nas largas atribuições que as «cartas de doação» lhes conferiam e assumindo a superior direcção
de todos os negócios de administração pública, logo se tornaram os mais qualificados povoadores da incipiente colonização
madeirense, adquirindo o maior prestígio e a mais preponderante influência, que alguns conseguiram traduzir de futuro na
concessão de altas distinções nobiliárquicas e na aquisição de avultados domínios territoriais.
São bem escassas as noticias que nos deixaram as antigas crónicas acerca do primitivo povoamento no que particularmente respeita
ao número, posição social, qualidades pessoais e terras de origem dos primeiros colonizadores.
Vagamente se sabe que entre eles se contavam indivíduos de nobre ascendência, outros das classes populares, mecânicos e
cultivadores das terras, e também alguns criminosos que cumpriam suas penas nas prisões, informando-nos Gaspar Frutuoso que
João Gonçalves Zargo «recusara trazer os culpados por causa da fé, ou traição, ou por ladrão».
Não se sabe o número aproximado desses individuos e também se desconhece a proporção em que as diversas camadas sociais
se encontrariam na formação dessas primeiras levas de povoadores. Com fundamento se conjectura que não seriam poucos,
crescendo breve e rapidamente esse número com a vinda frequente de outros colonos e especialmente com a grande legião de
escravos mouros e negros, tornada logo uma avultada multidão. Assim o exigiam os largos e penosos trabalhos do arroteamento das
glebas virgens estimulados os activos cultivadores pela exuberante fertilidade do solo e pela excelente benignidade do clima.
Foi, porém, no período posterior àquele de que nos estamos ocupando, isto é, na segunda metade do século XV, que o povoamento
tomou um mais largo incremento, tanto de povoadores vindos do continente português e de inúmeros escravos africanos, como
ainda de muitos estrangeiros de vários países europeus, alguns dos quais oriundos de antiga família, que vinham procurar nesta
nova terra da promissão o que a própria pátria não pode dar-lhes.
O povoamento tem seu principio dentro do perímetro em que hoje se levanta a cidade do Funchal e simultaneamente em diversos
pontos considerados mais apropriados para esse fim, como foram Machico, Santa Cruz, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do
Sol, Calheta e ainda em outros lugares situados na costa meridional da ilha.
A maior dificuldade que obstava a um imediato e eficaz povoamento, era o superabundante e gigantesco arvoredo que revestia toda
a superfície das terras consideradas próprias para as primeiras explorações agrícolas. Veio um violento incêndio, talvez
imprudentemente ateado, mas também necessariamente imposto pela força imperiosa das circunstâncias, abrir vastas clareiras
propícias ao arroteamento desses largos tratos de terreno até então improdutivos. Qual fosse a área da acção destruidora desse
incêndio e as suas imediatas consequências, não é hoje fácil dizê-lo, oferecendo particular interesse o que a tal respeito se pode ler
nas «Saudades da Terra» e respectivas anotações e ainda nas páginas do «Elucidário Madeirense». Vid.(Incêndios).
Sem demora se pôde reconhecer a notável fertilidade do solo madeirense, mas também se verificou sem esforço que as mais
remuneradoras culturas agrícolas não poderiam atingir um grau de larga e compensadora prosperidade se não á custa de um difícil
e dispendioso sistema de irrigação. Apareceram então as primeiras «Levadas».
Nenhum madeirense ignora o que sejam esses aquedutos formados por estreitos e extensos canais abertos no solo e geralmente
construídos na sólida alvenaria, que conduzem a preciosa linfa que dá á terra o sangue que a fertiliza e ás plantas a seiva e a vida
que as fazem abundantemente produzir.
No artigo
levadas
(II-235, 269), inserimos um desenvolvido estudo acerca deste importante assunto, que tão de perto interessa á
economia do arquipélago.
Esses aturados trabalhos empregados na exploração agrícola das terras eram regularmente compensados com as concessões feitas
aos cultivadores pelos capitães-donatários, em virtude das instruções recebidas do infante D. Henrique e pela aplicação do sistema
das sesmarias já em uso no continente português. E essas primeiras concessões foram posteriormente modificadas com mais
amplas regalias, estabelecendo-se o direito á propriedade das «bemfeitorias», com a faculdade de aforar e até de vender as terras
mediante a observancia de certas cláusulas, que não eram tidas por muito onerosas nem vexatórias.
Foi relativamente avultado o número dos mais antigos povoadores vindos do Continente, mas insuficiente para uma larga
exploração agrícola, sobretudo pelo acidentado dos terrenos, densidade florestal, trabalho penoso da irrigação e ainda outras
circunstancias de carácter local.
Como acima se diz, foi o solo da Madeira regado pelo suor dos escravos negros, mouros e mulatos, que, cruzando-se com os
sesmeiros continentais, tão profundamente abastardou a genuidade nativa da raça. Nos fins do século XV, havia nesta ilha o
número aproximado de dois mil escravos, que era bastante avultado ao lado da população europeia, que então orçaria por quinze a
dezoito mil habitantes.
O já citado sistema das sesmarias na vantajosa distribuição das terras favoreceu o estabelecimento de muitas «fazendas povoadas»,
em que os primitivos povoadores viviam com as suas famílias e escravos, tornando-se em breve os proprietários das mesmas terras
e deixando o cultivo delas aos colonos e escravos. Veio depois a vinculação dos terrenos e os sesmeiros ricos e os colonos mais
favorecidos da sorte abandonaram a indústria agrícola e procuraram nos centros de mais densa população uma vida despreocupada
das canseiras os antigos povoadores. Nasceu o chamado «contrato de colonia» e três quartes partes dos terrenos aráveis desta ilha
estavam convertidos em vínculos e morgadios.
Para se determinar com verdadeira exactidão o ano em que começou o povoamento desta ilha, necessário seria que se pudesse
precisar a época do seu descobrimento, o que ainda se não conseguiu averiguar com inteira verdade. Na carta de doação do infante
Henrique á Ordem de Cristo, datada de 18 Setembro de 1460 e a que se refere a publicação que tem por titulo Alguns documentos
do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das navegações e conquistas dos portuguezes, lê-se: «comecei de povoar a minha
ilha da Madeira averá ora trinta e cinco anos e mesmo a do Porto Santo...» Destas palavras se conclui que a colonização se iniciou
pelos anos de 1425, isto é, poucos anos depois da descoberta, o que concorda com as indicações de diversos cronistas.
Foram os religiosos franciscanos, vindos na frota que conduzia os mais antigos povoadores, os primeiros sacerdotes que
desempenharam funções eclesiásticas nas diversas capelas que em breve se fundaram e teriam sido as de Santa Catarina, São Paulo
e São Sebastião, e talvez mesmo em rústicas e improvisadas ermidas que temporariamente se houvessem adaptado aquele fim.
Nas chamadas «fazendas povoadas», estabelecidas em vários pontos da ilha, construíram-se muitas capelas, que tiveram seus
capelães privativos, transformando-se na sua maioria em «curatos» e «capelanias» com foros de paróquia e que foram as sedes das
futuras freguesias legalmente constituídas. É por isso que, em virtude dos elementos que nos fornecem as antigas crónicas, não se
torna fácil determinar com inteira precisão a data da criação de algumas paróquias organizadas nos séculos XV e XVI, tomando o
significado desses agrupamentos de habitantes no sentido que modernamente se lhes atribui. «Capelania», «curato», e «freguesia»
são termos empregados, por vezes indistintamente, para designar o que hoje com tôda a propriedade chamamos paróquia. E, assim,
nessas crónicas se afirma, e se repete nas anotações das «Saudades da Terra», que as freguesias de Camara de Lôbos e da Calheta
foram criadas no ano de 1430 e que a de Machico, capital da capitania e lugar sujeito a um intenso povoamento desde o início da
colonização, tivera a sua criação no ano de 1450, sabendo-se que esta localidade chegou a ombrear com o Funchal quanto á sua
expansão e desenvolvimento, embora apenas nos primeiros tempos dessa colonização.
Foi pelo ano de 1430 que no Funchal, e compreendendo uma vasta área, se estabeleceu a primeira freguesia, tendo o seu centro em
uma, das capelas que ficam citadas, militando, porém, algumas razões a favor da pequena ermida de São Sebastião. Em 1438, fixou-
se a sua sede na igreja de Santa Maria ou da «Conceição de Baixo», mandada edificar pelo Infante D. Henrique na margem
esquerda da ribeira de João Gomes e a pequena distancia da praia, tomando o nome de Nossa Senhora do Calhau.
No ano de 1508, passou a ter a sua nova sede na chamada «Igreja Grande», ainda em estado de atrasada construção. Cinquenta
anos depois, isto é, em 1558, foi a cidade do Funchal com os seus arredores dividida em duas freguesias com as respectivas sedes na
Igreja da Sé e na de Santa Maria Maior.
Até os fins do meado do século XV, período a que particularmente nos vimos referindo, havia já neste arquipélago dez freguesias
autónomas, em que funcionavam regularmente todos os serviços religiosos das paroquias independentes, as quais tiveram as suas
sedes nas capelas mais centrais existentes nesses povoados.
Convém recordar que, além de serviço religioso obrigatório, exercido nas sedes paroquiais, mantinha-se em varias capelas, como
acima ficou referido, o desempenho de muitos actos do culto dirigidos por outros sacerdotes e a que prestavam prestimoso auxílio
vários membros da ordem seráfica espalhados nos seus modestos e dispersos cenobios.
Nos fins deste período (1425-1450), tinham já os trabalhos do povoamento atingido um notável desenvolvimento, pois que um ou
dois anos depois, isto é, em 1451 ou 1452, era a povoação do Funchal elevada á categoria de vila com os privilégios e regalias
inerentes aos Municípios, como pela mesma época aconteceu com as sedes das capitanias de Machico e do Porto Santo.
No entretanto, é forçoso confessar que, somente na segunda metade do século XV e na primeira metade do século seguinte, revestiu
o povoamento madeirense o seu maior desenvolvimento com os progressos sempre crescentes da agricultura e das industrias dela
derivadas, como foram o largo fabrico do açúcar e do vinho, a exportação das madeiras, da urzela, do «pastel» e de muitos outros
produtos agrícolas. A este progresso, andava correlativamente ligado uma grande expansão dos povoados e foram-se
sucessivamente criando novas paroquias e em breve foi a vila do Funchal elevada á categoria de cidade e nela se estabeleceu poucos
anos depois a sede de uma diocese, a primeira que se fundou nos nossos domínios ultramarinos.
Embora datem respectivamente dos anos de 1440, 1446 e 1450 as doações oficiais feitas a Tristão Vaz, Bartolomeu Perestrelo e João
Gonçalves Zargo das capitanias de Machico, Porto Santo e Funchal, é certo que esses três primeiros capitães-donatários foram
desde logo investidos na administração directa dos seus cargos e privilégios, ao iniciar-se o povoamento do arquipélago madeirense
pelos anos de 1425.
Afirma-se que, por essa ocasião, o infante D. Henrique, a quem estas ilhas foram doadas pelo monarca e ainda como grão-mestre da
Ordem de Cristo a que elas «pertenciam no espiritual», dera aos donatários as necessárias instruções destinadas a regular os
diversos serviços de administração pública, fixando a esfera das suas atribuições e discriminando, porventura, as faculdades de que
poderiam servir-se no exercício e aplicação da justiça. A haverem existido, como supõe Gaspar Frutuoso e nos inclinamos a
acreditar, não ficaram arquivadas em qualquer documento conhecido ou perdeu-se a noticia delas com a promulgação de outras
disposições relativas a essa mesma matéria.
O que, porém, se sabe é que se tornaram verdadeiramente discricionários os poderes dos donatários em todos os ramos de
administração, não somente porque muitos factos o comprovam, mas ainda porque as próprias cartas de doação o confirmam,
dizendo-se nelas expressamente que ele (o capitão-donatário) tenha em toda esta sobredita terra a jurisdiçam por mim e em meu
nome do civel e do crime resalvando morte ou talhamento de membro. Vê-se que, além da aplicação da «pena ultima» e da do
«talhamento de membro», reservados ao poder real, a acção governativa dos capitões-donatários se estendia a todos os serviços do
Estado e ainda aos que diziam respeito á arrecadação das diversas contribuições e impostos, à distribuição de terras incultas e à
nomeação dos diversos cargos públicos, etc..
Nas localidades mais importantes, tinham os capitães-donatários os seus representantes na direcção dos negócios públicos, que
eram os ouvidores e alcaides, especialmente encarregados dos serviços de carácter administrativo e da arrecadação de diversas
contribuições e impostos. A exemplo dos seus chefes, dos quais recebiam as respectivas nomeações nos princípios do povoamento,
não raro abusavam das faculdades de que se achavam investidos e eram, por vezes, cegos instrumentos das prepotências dos
mesmos capitães-donatários.
É sabido que, somente a partir do ano de 1834, em que se estabeleceu o sistema do governo constitucional, começou a Madeira a ser
inteiramente administrada pelas mesmas leis que estavam em pleno vigor no continente português. Até essa época, eram as ilhas
adjacentes consideradas como províncias ultramarinas, e a sua administração pública fazia-se em geral por leis privativas, que
muitas vezes diferiam essencialmente das que vigoravam na metrópole.
Não é de estranhar que, ao iniciar-se o povoamento, ainda mais se acentuasse essa discrepância, atentas as imprevistas e
extraordinárias circunstancias que então se davam e sem mesmo contar com as arbitrariedades e excessos cometidos pelos
capitães-donatários e seus representantes nas diversas localidades, como já atrás fizemos notar.
Motivos ponderosos persuadem que o infante D. Henrique tivesse dado aos três primeiros donatários as indispensáveis instruções,
ao investi-los na direcção dos trabalhos da primitiva colonização, referindo-se particularmente o historiador das ilhas ao
«Regimento» que regulava a divisão das duas capitanias desta ilha e á concessão das terras aráveis por meio do sistema das
sesmarias. São estas as mais antigas providencias governativas de que há noticia.
Quanto á distribuição das glebas, adoptou-se o já conhecido sistema das sesmarias (Vid. Gama Barros III, pág. 699 e ss.), embora
talvez com as modificações que as circunstancias do meio aconselhavam. O sesmeiro que, dentro de cinco anos, não fizesse um
conveniente aproveitamento dos terrenos, perdia o direito a eles. Estas disposições foram posteriormente modificadas,
concedendo-se mais amplas regalias aos cultivadores das terras, como o direito á propriedade das «bemfeitorias», a faculdade de
poderem aforar e até vender essas mesmas terras, observadas certas clausulas, que não eram então consideradas onerosas ou
vexatórias, como já deixamos dito em artigo precedente.
Não conhecemos a data precisa da redacção concessão do «Regimentos» e instruções a que nos vimos referindo, mas devem ser
anteriores ás cartas régias do rei D. Duarte, de 26 de Setembro de 1433, em que é feita a doação deste arquipélago ao infante D.
Henrique e da jurisdição espiritual á Ordem de Cristo, de que o mesmo infante era grão-mestre. Julgamos que as mencionadas
cartas régias serão a plena confirmação de doações anteriormente feitas, talvez por D. João I, estando o infante na posse do inteiro
senhorio destas ilhas desde o início do povoamento.
Nas cartas de doação das três capitanias aos primeiros donatários, faz o infante menção de um «Foral» que não sabemos se teria
sido um documento distinto das instruções a que nos havemos referido. É no entretanto certo que ele existiu, porque, no «Foral»
concedido no ano de 1515 pelo rei D. Manuel aos Municípios do Funchal, Ponta do Sol e Calheta, se encontra uma expressa
referencia ao foral concedido pelo infante D. Henrique, como pode ver-se a paginas 494 das anotações ás «Saudades da Terra». Em
outro lugar fazemos mais larga referencia aos documentos que ficam citados e á acção do infante na grandiosa empresa da primitiva
colonização deste arquipélago, para onde encaminhamos a atenção do paciente leitor.
Depois do «Regimento» e do «Foral», outorgados pelo infante e cujas datas se ignoram, e dos Alvarás Régios de D. Duarte do ano
de 1433, confirmados por D. Afonso V, são as cartas de doação de D. Henrique aos primeiros donatários, datadas de 1440, 1446 e
1450 os mais antigos documentos de carácter governativo, que se conhecem respeitantes á primitiva administração pública neste
arquipélago e que encerram uma noticia de importantes disposições legais a observar, além de enumerar os altos privilégios de que
podiam usar os mesmos donatários e as diversas contribuições e impostos que tinham direito a cobrar.
No arquivo da Camara do Funchal, acham-se registados vários «capitulos» emanados do infante D. Henrique e do mestrado da
Ordem de Cristo, datados do ano de 1450, e seguintes, já no declinar do período de que temos tratado nestes artigos, acerca da
nomeação de alcaides, arrecadações de impostos e outras medidas de carácter administrativo, que nos levaria longe se deles
quiséssemos fazer pormenorizada menção.
Foi, porém, na segunda metade do século XV e primeira metade do século seguinte que se «promulgaram» muitos alvarás régios
respeitantes a diversos assuntos de carácter governativo, mas de que agora não fazemos menção por se acharem fora do período em
que enquadramos os factos que ficam rapidamente referidos.
Interessando particularmente a este assunto, publicámos em «O Jornal» dos meses de Julho e Agosto de 1943 uma série de artigos
subordinados ao titulo de «Comêço do Povoamento Madeirense – 1425-1450», dos quais ficam acima transcritos apenas alguns
trechos, na impossibilidade de os trasladar integralmente nestas páginas.
Praça do Peixe
Antes da construção da Praça de São Pedro, era o peixe vendido num pequeno mercado mandado construir pela
Câmara em 1817, pela módica quantia de 159:000 réis. Este mercado ficava na parte interior da cortina da cidade e para o norte do
actual, tendo o terreno ocupado por ele pertencido a Diogo Berenguer, que o cedeu á Câmara em troca do solo duma loja que era
propriedade do Município.
As obras da actual Praça do Peixe, ou Praça de São Pedro, foram mandadas pôr em praça a 8 de Fevereiro de 1839, sendo
arrematadas a 22 do mesmo mês e ano. Umas alterações que sofreram as mesmas obras foram arrematadas a 17 de Agosto de 1839,
tendo lugar a abertura solene da praça a 29 de Junho de 1840 (1921).
Para a construção da Praça de São Pedro, demoliu-se, com autorização do comandante da 9.ª Divisão Militar, uma parte da cortina
da cidade. Os talhos municipais e o matadouro do Concelho, anexos á mesma praça, só foram construídos em 1851.
É de supor que o local que antes de 1817 servia para a venda de peixe e que, segundo se lê na acta da sessão de 13 de Março desse
ano, era «muito indecente e imundo», ficasse nas imediações do actual mercado de S. Pedro.
A primeira ponte que houve sobre a ribeira de Santa Luzia, perto da Praça do Peixe, foi mandada construir pela Câmara em 26 de
Agosto de 1836. A ponte que agora existe foi construída em 1890.
Foi Vicente de Paula Teixeira o técnico encarregado pela Câmara de organizar o plano das obras da actual Praça de São Pedro, e
Vitorino Teixeira quem fez o orçamento das mesmas obras (1921).
Esta «Praça», em virtude da construção da «Avenida do Mar», teve de ser demolida e foi edificado um novo mercado, de que já
demos noticia a pág. 361 do vol. II deste Elucidário.
Praça da Rainha
Foi construída em 1839 sobre terreno que servira anteriormente para guardar os barcos e ancoras pertencentes
ao Trem Militar.
Em Maio de 1877, foi a praça concedida ao Dr. João da Câmara Leme Homem de Vasconcelos, médico no Funchal, para viveiro de
amoreiras brancas tendo chegado a haver ali grande copia destas arvores, assim como diversas instalações para a criação e
aproveitamento do bicho da sêda, mas sem que destes ensaios sericícolas se colhessem quaisquer resultados animadores.
Os pavilhões que existem hoje no terreno da antiga Praça da Rainha começaram a ser construídos em 1897, em virtude duma
concessão feita pela Câmara Municipal em 30 de Maio de 1895. Os primitivos concessionários pretendiam estabelecer naquele
recinto um bazar permanente de indústria madeirense e uma exposição de horticultura e floricultura (1921).
Dentro da antiga Praça da Rainha, houve outrora uma lagoa construída para exercícios natatorios, mas que não chegou a ter esta
aplicação, e a oeste da mesma praça existiu uma outra lagoa que se destinava ao mesmo fim, mas que não chegou também a ser
utilizada. Ambas estas lagoas foram aterradas há muitos anos.
Desde Novembro de 1910 que a antiga praça da Rainha se chama praça do Marquês de Pombal.
A construção da «Avenida do Mar» fêz desaparecer a parte mais consideravel do seu recinto.
O nome «Praça da Rainha» foi posto em homenagem á rainha D. Maria II.
Praça de São João
Ficava junto do Campo da Barca, no sitio chamado hoje Larguinho de S. João. Foi demolida antes de 1860, e
era considerada já muito antiga nos princípios do século XIX. Está incorporada na Praça de Tenerife.
Prados
Como é sabido, há prados naturais e prados artificiais, sendo os primeiros constituídos por diferentes espécies de plantas,
as mais das vezes não semeadas pelo homem, e sendo os segundos formados por uma só planta que o homem semeia e cultiva
durante um certo tempo. Os prados da Madeira pertencem á primeira categoria, só existindo alguns pequenos prados artificiais na
quinta do Palheiro e em poucos lugares mais.
Há prados naturais na região inferior da Madeira na região media e na região do interior, sendo os últimos os que ocupam maior
área, se bem que nem sempre sejam os mais importantes no tocante á qualidade e ao numero das espécies.
Na parte sul da Madeira, a espécie dominante em toda a orla marítima é o Lotus glaucus (trevina), planta vivaz da familia das
Leguminosas que vive nos lugares mais secos e é considerada por todos como boa forragem. Entram mais pelo interior das terras e
são frequentes nos terrenos ervosos da região baixa meridional, as especies seguintes
Trifolium angustifolium
,
T. scabrum
,
Scorpiurus sulcata
(cabreira),
Psoralea bituminosa
(fedegoso),
Melilotus parviflora
,
Lotus parviflorus
,
Galactites tomentosa
(cardo),
Plantago lanceolata
e
P. Lagopus
(tanchagem ou orelha-de-cabra),
Andropogon hirtus
(feno),
Avena fatua
(balanco)
Cynosurus echinatus
,
Cynodon Dactylon
(grama),
Bromus madritensis
(panasco);
Hordeum murinum
,
Lolium multiflorum
(azevém), etc..
Todas estas plantas, e ainda muitas outras, prosperam nos lugares secos; nos lugares umidos são freqüentes a primeira das
plantaginaceas mencionadas, o
Trifolium repens
(trevo), o
Paspalum paspalodes
, etc..
O grande aproveitamento dos terrenos para as culturas faz com que os prados da região inferior tenham uma area limitada, mas,
por entre as culturas e na borda dos caminhos, aparecem também muitas plantas forraginosas, entre as quais mencionaremos a
Bidens pilosa
(amor-de-burro), o
Cichorium Endivia
(almeirão), o
Senecio vulgaris
, a
Setaria verticillata
,
Agrostis verticillata
, o
Panicum sanguinale
, etc., etc.. O
Panicum barbinode
(capim) e o P
. maximum
(erva-da-Guiné) são duas gramineas perfeitamente
aclimadas, que os criadores de gado cultivam para sustento dos seus animais.
Nas rochas, desde o Seixal até o Porto do Moniz, cresce o
Sideroxylon Marmulano
(marmulano), arbusto cuja folhagem constitui
um bom alimento para o gado, e entre S. Vicente e Ponta Delgada, vegeta a Genista madeirensis especie proxima da «gacia» e do
«tegasaste» de Canarias, que também é utilizada na alimentação dos animais.
Os prados da região inferior da Madeira estendem-se até á altitude de 200 metros na costa do sul e de 150 na do norte, ficando daí
para cima os prados da região media, os quais ocupam as margens das ravinas que pela sua inclinação não se prestam a amanhos, e
varias colinas, picos e outros terrenos não invadidos ainda pelas culturas. São cortados ou limitados muitas vezes pelas matas de
pinheiros, aparecendo neles com grande freqüencia especies da região interior, mas associadas a outras que só começam a ser
dominantes a partir duma determinada altitude tais como
Ornithopus perpusillus
,
O. compressus
,
Trifolium agrarium
,
Briza
minor
(chocalheirinha),
Holcus lanatus
,
Poa trivialis
, etc.. O
Ulex europaeus
(carqueja) abunda na segunda zona botanica da
Madeira, onde as especies pratenses mais comuns parecem ser a
Vulpia bromoides
e o
Andropogon hirtus
, dominando este nas
colinas sêcas e aquela nos lugares frescos ou umidos, onde forma freqüentemente uma relva densa e fina que o gado come com
avidez.
A partir de 750 ou 800 metros começam os prados e pastagens do interior, os quais abrangem o alto das serras, as ravinas centrais
não arborizadas e ainda uma parte das vertentes meridional e setentrional da ilha. Nos lugares secos das montanhas, são muito
freqüentes o
Leontodon nudicaulis
, a
Aira proecox
, a
Agrostis castellana
, o
Lotushispidus
e a
Plantago lanceolata
, plantas que nos
terrenos menos altos das vertentes aparecem associadas a outras já indicadas nos prados da região media, e nas ravinas do interior
á
Deschampsia argenvea
(barba de bode), á
Festusa Donax
(palha carga), ao
Cynosurus elegans
e a diferentes especies mais,
peculiares ou quasi peculiares destes lugares e que só vivem nos sitios úmidos ou assombreados.
Nas ravinas da Ribeira da Metade e da Boa Ventura, existe uma graminea de folhas suculentas, infelizmente muito rara, que é
considerada como uma das melhores forragens da ilha. Esta gramínea, que é a Festuca albida, já foi cultivada com bom resultado
num terreno dos suburbios do Funchal. Na citada Ribeira da Metade, também se encontra uma leguminosa – a
Anthyllis
Lemanniana
– que temos na conta duma excelente forragem, digna de ser cultivada. A
Dactylis glomerata
e o
Anthoxathum
odoratum
são plantas que, embora pouco freqüentes, aparecem na segunda e na terceira zonas botânicas da Madeira (1921).
As ervas dos prados da região inferior da Madeira, nascem ou revivem com as chuvas de Outubro e desaparecem, requeimadas
pelos ardores do sol, desde Abril até Maio, excepto nos lugares encharcados e naqueles onde chegam com freqüencia as aguas de
irrigação. Na parte media e superior da ilha, e especialmente na zona constantemente visitada pelos nevoeiros as ervas conservam-
se verdes por mais tempo, até meados ou fins de Junho, o que é de vantagem ainda mesmo para os criadores de gado das
vizinhanças do litoral, que lá sobem muitas vezes a colhê-las, percorrendo distancias consideráveis.
Quando as ervas dos prados estão secas, a alimentação dos animais é fornecida geralmente pela rama da batateira, pelas folhas da
vinha, da cana de açúcar e da cana de roca, pelas plantas que nascem junto dos cursos de agua e pelas que aparecem por entre as
culturas nos lugares irrigados a miúdo. O feno da ilha e o importado de Portugal, e os caules das bananeiras reduzidos a pequenos
pedaços e associados ao farelo, são muito empregados na sustentação do gado estabulado do Funchal.
Como os prados da Madeira não estão sujeitos a tratamento algum, abundam em todos eles as espécies nocivas ou inúteis. No alto
das montanhas os animais comem livremente a erva que aí cresce, ao passo que nas regiões inferiores a regra mais geral é as
plantas serem colhidas verdes e á medida que vão sendo necessárias para a alimentação quotidiana do gado.
Dos 30:000 hectares de terrenos incultos que existem na Madeira (1971), pode-se admitir que 10.000 só produzem ervas de boa ou
má qualidade para sustento dos animais. Se esta vasta superfície fosse devidamente aproveitada, isto é, se se procurasse melhorar
as suas produções, muito lucraria com isso a industria pecuaria madeirense, que só carece para desenvolver-se de mais amplos
recursos forraginosos do que os que a ilha agora oferece. Com um pouco de boa vontade, talvez não fosse tarefa extremamente
difícil converter certos pontos das serras, onde só cresce uma relva fraca e raquitica, em pastagens feracissimas capazes de
alimentar convenientemente uma parte da população pecuária da nossa terra.
Praia Formosa
«Dobrando esta ponta (Ponta da Cruz), diz Frutuoso, foram dar em huma fermosa praya, que, pela fermosura e
assento dela, o capitam (Zargo) lhe poz nome Praya fermosa». Acrescenta o comentador das Saudades que conserva este nome e
por ser areenta e estar adjacente ao mimoso panorama da ampla foz e escarpadas margens da Ribeira dos Soccorridos».
O madeirense habituado a contemplar as rochas aprumadas de quase todo o litoral desta ilha, olha com certo desvanecimento e
agrado a relativa extensão desta praia, que oferece um aprazível aspecto, sobretudo ás pessoas que atravessam a estrada que conduz
á freguesia de Câmara de Lobos.
Nesta praia desembarcaram os corsários franceses quando, no ano de 1566, deram um terrivel saque a esta cidade.
V. Saque dos Franceses.
Um distinto médico português, que por vezes e demoradamente visitou o Funchal, ao referir-se a algumas das praias do
continente, diz o seguinte, que merece ser transcrito, acerca, da «Praia Formosa»:
No entanto, a verdade é que todas elas se enchem de gente porque ali se tomam banhos, porque todos praticam o sport-nautico,
porque todos nadam, porque todos querem inundar-se da luz do sol que jorra.
amenamente e as crianças, de outro, brincando na agua, saltam, pulam, respiram a vida.
não aproveita o mar?
Pergunto eu, então a Madeira, uma terra essencialmente marítima com uma população que verga ao peso de taras ancestrais –
«Algumas delas nem chegam a ser praias na significação do vocábulo.
É interessante ver essas longas pranchas repletas de gente tomando banhos de sol! Os adultos de um lado, conversando
Então o Funchal, já uma cidade com características modernas, progressivo e rico, não utiliza o mar como fonte de saúde?
De facto, a actual praia do cais não satisfaz, não pode satisfazer as exigências dos seus habitantes e da sua classe burguesa.
Mas, pergunto ainda, porque se não utiliza a Praia Formosa?
Hoje as carreiras permanentes de camiões, amanhã de auto-omnibus resolviam o problema dos transportes a preços módicos.
– É aquela praia encantadora a todos os títulos: – isolamento, óptima exposição, lugar pitoresco, extensão de mais de um
quilometro distando do centro apenas uns 5 a 10 minutos.
O proprio passeio matinal ou vespertino seria só por si estremamente salutar ao musculo e ao nervo.
Faltam-lhe condições de acesso, bem sei, mas isso é fácil.
Porque razão não há-de pensar a Câmara, pelo seu pelouro da higiene, criar uma via facil e rapida para a beira-mar?
Estou certo que todos os proprietários a isso concorreriam de bom grado.
Resolvida esta dificuldade, ficaria o Funchal com uma praia invejável pela situação e suavidade do mar.
Ali tudo estava resolvido, desde as diversões náuticas aos banhos de sol.
Sim, porque evidentemente hoje os estados locais tem que enfrentar este e outros problemas que visem sobretudo a melhorar as
condições de vida dos seus habitantes, em estabelecer-lhes meios que facilitem o desenvolvimento da gente moça, criando-lhes uma
boa mente num bom fisico».
Praia Levantada
Vid.Porto Santo (Hidrografia do ).
Praias da Madeira
Nos artigosMadeira (Aspectos Hidrográficos ) ePorto Santo (Aspectos Hidrográficos ), encontram-se breves
noticias acerca das praias deste arquipélago.
Prainha
Pequena praia no litoral da freguesia do Caniçal, que se distingue das restantes da Madeira, por ser formada de areia,
enquanto todas as outras são de calhaus rolados. Fica ao fundo duma pitoresca enseada, bastante visitada pelos veraneantes da vila
de Machico.
Prazeres
Antigo sitio da freguesia do Monte, que aproximadamente corresponde ao local em que se encontra o Monte Palace
Hotel e suas imediações e onde existiu uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres que deu o nome a este lugar.
Prazeres (freguesia dos)
Nos tempos antigos da colonização e ainda muito depois, ergueram-se não poucas capelas em vários
sítios desta ilha, dando geralmente os seus nomes a esses sítios, os quais constituíam muitas vezes importantes núcleos de
população e foram a origem de futuras paroquias. Daí vem que todas as freguesias da Madeira que conservam um nome de carácter
religioso, tiram essa denominação de capelas já existentes, que depois se transformaram em igrejas paroquiais. O mesmo acontece
com a freguesia dos Prazeres, cujo nome lhe provém de uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, ali edificada
muito anteriormente á criação da paroquia. É de presumir que a primitiva ermida fosse conhecida pelo nome de capela dos
Prazeres, e, assim, simplificada esta denominação, passasse a ser a da nova freguesia.
Os terrenos que constituem a parte mais considerável da freguesia dos Prazeres pertenceram primitivamente á paroquia do Estreito
da Calheta. Desta se desmembraram para formar, juntamente com alguns casais da Fajã da Ovelha, uma freguesia independente,
criada pelo alvará régio de 28 de Dezembro de 1676. Por 1684 é que se instalou a nova paroquia, que teve como sede a capela de
Nossa Senhora dos Prazeres. Foram parocos dela o padre Manuel Dias Pinheiro (1684-1692), Francisco Correia da Silva (1692-
1693) e José Cordeiro de Andrade (1693-1700). Neste ano de 1700, foi extinta a freguesia dos Prazeres ou ao menos suspenso uma
parte do serviço paroquial que ali se fazia, passando a ser desempenhado na igreja do Estreito da Calheta, a cuja paroquia ficaram
agregados os casais da freguesia dos Prazeres. Não descobrimos os motivos que determinaram esta medida, que nos parece
estranha, mas que na realidade se deu. Teve, porém, um capelão privativo que ali celebrava alguns dos actos do culto.
Trinta e três anos depois, pelo alvará de 12 de Novembro 1733, foi criada o curato de Nossa Senhora dos Prazeres, que ficou então
na dependência da freguesia do Paul do Mar. A única freguesia que sabemos ter sido extinta nesta diocese e a breve trecho
restaurada como paroquia foi a de São Pedro, desta cidade, mas, duma freguesia autónoma que houvesse sido suprimida e passasse
depois á categoria subalterna de curato, só temos conhecimento da dos Prazeres.
Como aconteceu com o Jardim do Mar, Achadas da Cruz, e ainda outros, o curato dos Prazeres foi-se gradualmente libertando da
dependência em que se encontrava da respectiva igreja matriz e passou depois a constituir uma freguesia autónoma, em ano que
não podemos determinar. É ocasião de dizer aqui que as ultimas paroquias que nesta diocese tiveram o nome de curatos, como as
do Curral das Freiras, Achadas da Cruz, Prazeres, etc., eram, nos últimos tempos, verdadeiras freguesias autónomas, sem
dependência das paroquias de que tinham sido desmembradas, embora conservassem a tradicional denominação de curatos.
Pouco antes de 1880, começaram os sacerdotes que exerceram funções paroquiais nos Prazeres a assinar como párocos os
respectivos documentos oficiais, tendo sido o primeiro vigario colado, no ano de 1881, o padre João António Marcial.
A antiga e primitiva capela ficava no sitio da Estacada, à margem da estrada, e dela não restam vestígios, sendo demolida quando se
procedeu á edificação da actual igreja paroquial. Em 1745, foram dadas de arrematação as obras do novo templo por 4.100$000
réis, mas esta construção só começou alguns anos depois, tendo sido lançada e benzida a primeira pedra a 9 de Setembro de 1751 e
dizendo-se no respectivo alvará de licença que a antiga igreja era «pequena e incapaz de servir». No ano de 1922, sofreu uma
profunda modificação com o alargamento do corpo principal do edifício, a construção duma torre e de duas sacristias, dando-se-lhe
deste modo mais amplas proporções. Foi neste templo que no mês de Dezembro de 1827 se deu um sacrílego desacato com o roubo
do vaso sagrado que continha a Sagrada Eucaristia, o que causou uma grande sensação em toda a ilha, tendo-se, por esse motivo,
realizado muitos actos de desagravo em todas as igrejas da diocese.
É a freguesia dos Prazeres uma das menos conhecidas desta ilha, mas é indubitavelmente uma das mais pitorescas. O Padre
Fernando Augusto de Pontes refere-se a esta paroquia nos seguintes termos: «Ao longe a ondulação das montanhas estampa-se no
azul do céo e os carreiros tortuosos dos trilhos e veredas cortam as eminencias em direcções diferentes. Ao perto, a vegetação é
tapete que se desdobra por tôda a parte. As estradas são alinhadas de buxo e louros, e o ar bastante puro. Não é para calar a beleza
arrebatadora que se goza do viso duma montanha á beira do mar – o Assomadouro. Lá em baixo, fica á esquerda uma povoação
cujas habitações se ocultam quasi sob a vegetação que as abafa: é o Jardim do Mar. Á direita há outra freguesia – é o Paul do Mar. E
que belo que é o casario em pinha á beira das aguas, no Paúl.»
Principais sítios: Lombo do Coelho, Lombo da Velha, Estacada, Picos, Lombo da Rocha, Carreira, Referta e Jardim Pelado.
Tem esta freguesia as levadas do Ribeiro de Inês, da Ribeira do Batel e da Ribeira da Lombada, sendo atravessada e irrigada pela
Levada do Rabaçal.
Tem uma escola oficial do sexo masculino.
A sua população é de 1251 indivíduos. (1921)
Preces
Lugar da freguesia de Machico, encravado no sitio povoado do Marco, que tomou o nome da capela de Nossa Senhora das
Preces, fundada pelo cónego Agostinho de Góis e Meneses no ano de 1750 e reedificada por António Tiago da Silva em 1884.
Preces
Sitio povoado da freguesia de Santo António do Funchal, em que se encontra uma capela da invocação de Nossa Senhora
das Preces, construída em 1768 e de que, em 1770, era administrador e talvez fundador o capitão Rodrigo da Costa, tendo sido
reedificada em 1856 pela sua proprietária D. Joana de Albuquerque e França.
Preces
Caminho Grande ou Preces, sitio da freguesia de Câmara de Lobos. Ali se encontra a capela de Nossa Senhora das Preces,
que deu o nome ao lugar, fundada no ano de 1683 pelo padre Francisco da Cunha e Mendonça. Também no mesmo sitio se acha a
capela de Nossa Senhora da Nazaré, construída, no ano de 1757, por D. Maria do Rosário Henriques, viúva de Pedro Bernardes
Cordeiro. No lugar conhecido pelo nome de Fonte da Rocha, existem ainda os escombros duma antiga capela dedicada a São
Cândido e mandada edificar pelo cónego Francisco Cândido Correia Henriques, no ano de 1732. Tem 96 fogos e 516 habitantes.
Preços dos Géneros
, etc.. Indicamos adiante os preços de vários géneros alimentícios e de outras mercadorias agora e antes da
guerra, afim que de futuro se possa conhecer facilmente quanto a vida encareceu no Funchal de 1914 para cá (1921). Cremos que a
ganância e a falta de escrúpulos de muitos negociantes, industriais e agricultores tem influído mais no agravamento do custo da
vida do que a desvalorização da nossa moeda e o aumento das contribuições e dos salários dos trabalhadores, embora sejam estas as
causas apontadas em geral para explicar a multiplicação dos encargos domésticos e o consequente desaparecimento das pequenas
economias, reunidas outrora pelos pouco abastados á custa de muitos sacrifícios.
Preços em 1914. Açúcar, $28 e 29 por quilo, arroz, $08 a $10 por quilo, azeite, $26 por litro bacalhau, $24 por quilo, batatas,
$02(5) por quilo, café, $50 e $60 por quilo, carne de porco, $26 por quilo, carne de vaca, $24 por quilo cebola, $03 por quilo,
cevada, $40 por alqueire chá, 2$00 e 2$60 por quilo, chouriço de Lisboa $80 por quilo, ervilha, $80 por alqueire, fava $50 por
alqueire, feijão, 1$20 por alqueire grão de bico, $16 por quilo, leite, $04 por garrafa, manteiga, $78 por quilo, massas, $13 por
quilo, milho moído, $04 por quilo, pão, $10 por quilo, ovos, $20 por dúzia, petróleo, $10 por litro, queijo, $65 por quilo, sabão, $14
por quilo semilha, $04 e $06 por quilo, trigo, $83 por alqueire, velas, $18 por maço e vinagre, $09 por litro.
Preços em 1923. Açúcar, 4$20 por quilo arroz, 1$70 a 2$40 por quilo, azeite, 6$00 por litro, bacalhau, 5$00 por quilo, batatas, $50
a $70 por quilo, café, 7$00 a 8$00 por quilo carne de porco, 5$00 por quilo, carne de vaca 4$00 por quilo, cebolas, 1$50 por quilo,
cevada, 10$00 por alqueire, chá, 12$00 a 20$00 por quilo, chouriço de Lisboa, 14$00 por quilo, ervilha, 12$00 por alqueire, fava,
11$00 por alqueire, feijão, 20$00 e 21$00 por alqueire, grão de bico, 1$40 a 2$00 por quilo, leite, $50 por garrafa, manteiga, 9$00
a 10$00 por quilo, massas alimenticias, 2$30 a 2$40 por quilo milho, 1$20 por quilo, ovos, 3$60 por dúzia, pão, 1$30 a 1$40 por
quilo, petróleo, 2$00 por litro, queijo, 14$00 a 16$00 por quilo, sabão, 4$40 por quilo, semilha, $50 a 1$20 por quilo, trigo; 12$00
por alqueire, velas, 2$80 e 3$00 por maço e vinagre, $80 por litro.
Não deve causar surpresa que o chá e o petróleo, por exemplo, que são mercadorias estrangeiras, custem hoje (1921) sete e vinte
vezes mais do que em 1914 mas o que não tem explicação possível, não obstante os salários excessivos exigidos pelos trabalhadores
agrícolas, é que se estejam a vender não só as mercadorias nacionais mas ainda as produzidas na Madeira, por preços quinze, vinte
e até cinquenta vezes superiores aos de outrora. Se passarmos dos géneros de mercearia aos tecidos de varias sortes e aos artigos de
vestuário, maiores, são ainda as discrepâncias que se notam, tendo resultado do aumento sempre crescente do custo da vida haver-
se tornado bastante penosa a situação de algumas classes que tinham outrora uma vida desafogada.
V. Salários
.
Pregador da Camara
A Câmara Municipal do Funchal teve outrora um pregador a quem pagava ordenado e que era obrigado a
fazer os sermões nas festividades oficiais. Em 1831 foi nomeado pregador da Câmara o padre fr. José de Jesus, tendo antes dele
desempenhado esse cargo fr. João José da Purificação, nomeado em 1829, com o ordenado de 24$000 réis anuais.
Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei (O)
Foi o segundo jornal que viu a luz publica nesta cidade, tendo-se
publicado o primeiro numero a 17 de Fevereiro de 1823, e o ultimo, que foi o numero 61, a 2 de Julho de 1824. Era semanal e teve
como redactor o Padre João Crisostomo Espinola de Macedo. (Vid.Primeiras Publicações ).
Prego do Mar (Ilhéu do)
É também conhecido pelos nomes de Ilhéu do Furilhão ou melhor Farilhão e de Ilhéu do Navio. Fica
situado ao norte do Ilhéu Chão, nas Desertas. É um rochedo com cerca de 40 metros de altura e 8 de perímetro, semelhando, ao
longe, um navio à vela, e dessa circunstancia o ser chamado Ilhéu do Navio.
Vid. Furilhão.
Preito e Homenagem
Numero único dum jornal que se publicou em Julho de 1908, em homenagem ao falecido padre Ernesto
Schmitz.
Sua Exa. as honras militares que lhe eram devidas.
Presado (João Maria de Santiago)
Por decreto de 17 de Fevereiro de 1912, foi nomeado Governador Civil da Madeira, tomando
posse a 4 de Abril do mesmo ano.
Em Fevereiro de 1920, foi proclamado deputado pela Madeira sem ter havido eleição, por ter sido o único candidato ao lugar que
estava então vago.
Presidente da Republica
O Presidente da Republica dr. António José de Almeida esteve no Funchal no dia 9 de Outubro de
1922, tendo chegado ao nosso porto a bordo do vapor inglês Arlanza, em viagem do Rio de Janeiro para Lisboa, ás 7 horas da
manhã.
As 6 horas, houve uma salva de granadas para anunciar que o vapor estava á vista, ás horas uma girandola de foguetes para indicar
que ele havia chegado e ás 8 horas deu a fortaleza de São Tiago uma salva de 21 tiros, realizando-se o desembarque cerca das 10
horas e meia, no cais da Pontinha, em razão do mar se achar bastante agitado e ser difícil atracar ao cais em frente da avenida de
Gonçalves Zargo. Ao principio desta avenida fora levantado um soberbo arco de triunfo, revestido de buxo, no qual se via a dupla
fotografia do Presidente da Republica e no alto o seguinte dístico: Suprema incarnação da Pátria. Ao lado estavam as quinas
envoltas em verde-rubro.
Ao Presidente da Republica, foram prestadas as competentes honras militares junto do cais da Pontinha, por uma força de marinha
do contra-torpedeiro Guadiana, fazendo Sua Exa. em automóvel o trajecto desde aquele ponto até o palácio de S. Lourenço, seguido
das varias entidades oficiais que tinham ido cumprimentá-lo.
Em toda a estrada da Pontinha e entrada da cidade, via-se uma enorme multidão, sendo queimadas três grandes girândolas de
granadas e de foguetes durante o trajecto, e dando a bataria de artilharia, que se havia postado perto do pilar de Banger, uma salva
de 21 tiros ao chegar o Chefe da Nação ao arco de triunfo levantado no principio da avenida de Gonçalves Zargo. Antes disso, tinha
uma força de infantaria n.° 27, que formara junto da praça do Marquês de Pombal, prestado a Sua Exa. as honras militares que lhe
eram devidas.
Próximo do cais, foi ao encontro do Chefe de Estado, afim de cumprimentá-lo, a Câmara Municipal, fazendo-lhe o Presidente desta
corporação a entrega das chaves da cidade, que não foram aceitas «por se acharem em boa mão». A esta cerimonia, seguiram-se os
cumprimentos do Prelado Diocesano, dos Juízes de Direito, Delegados e outros funcionários judiciais, do Juiz Auditor, etc..
Ao chegar o Chefe do Estado ao palácio de São Lourenço, fez-se ouvir o hino nacional, proferindo aí o Governador Civil um pequeno
discurso, que Sua Exa. agradeceu.
O Governador Civil acompanhou sempre o Chefe do Estado, tendo ido cumprimentá-lo a bordo do Arlanza, mal este fundeou.
Á recepção no Palacio de São Lourenço, seguiu-se a visita aos Paços do Concelho, lendo aí o dr. Teixeira Jardim, Presidente da
Camara, uma bela alocução, a que respondeu o Chefe do Estado. A guarda de honra no edifício foi feita pelos bombeiros
voluntarios.
Partindo depois em combóio oferecido pela Companhia do Caminho de Ferro para o Terreiro da Luta, aí lhe foi oferecida uma taça
de champanhe e outra de vinho Madeira, tendo-se mostrado Sua Exa. verdadeiramente entusiasmado com os soberbos panoramas
que se desfrutam dessa bela estancia, como claramente o significou nalgumas linhas que escreveu numa fôlha de papel que lhe foi
apresentada e se acha devidamente arquivada.
No regresso á cidade, que teve lugar cerca de uma hora da tarde, em carros de verga, visitou o sr. Presidente da Republica o edifício
da Junta Geral; onde lhe foi oferecida uma taça de champanhe. Ás saudações que lhe dirigiu o dr. Tolentino da Costa, ilustre
Presidente daquela corporação, respondeu Sua Exa. com um pequeno discurso em que mais uma vez revelou os seus dotes oratórios
e o prestigio do seu talento.
Cerca das duas horas da tarde, houve um almoço no palácio de S. Lourenço, ao qual assistiram entre outras pessoas, o Prelado
Diocesano, o Governador Civil, os dois Presidentes da Camara Municipal, o Comandante Militar, o Capitão do Porto, o Presidente
da Junta Geral, Antonio Luís Gomes, ex-embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Antonio Correia, ex-ministro dos Estrangeiros
e das Finanças, o general Bernardo Faria, o almirante Neuparth, o dr. João de Barros, o dr. Juvenal de Araújo, o dr. Manuel A.
Martins, o Administrador do Concelho, os consules do Brasil, dos Estados Unidos da America e da Inglaterra, etc., etc.. O
Governador Civil e o Prelado Diocesano ergueram brindes ao Chefe do Estado, os quais Sua Exa. agradeceu.
Ao almoço, seguiu-se um passeio ao sitio da Cancela, em que tomaram parte 21 automóveis, embarcando Sua Exa. pelas 5 horas da
tarde e sendo o escaler que o conduziu a bordo acompanhado de muitas embarcações com muito povo, que o aclamava
entusiasticamente.
O Governador Civil e o Prelado Diocesano acompanharam o Chefe do Estado até bordo do Arlanza, tendo este vapor saído do porto
do Funchal em direcção a Lisboa, cerca das 5 horas e meia da tarde.
Ao voltar do passeio á Cancela, dirigiu-se o Presidente da Republica ao palácio de S. Lourenço onde se achava o Prelado Diocesano,
que foi convidado por Sua Exa. a acompanhá-lo no seu automovel até a Pontinha.
Com o Chefe do Estado, vinham também do Brasil os já citados António Luís Gomes, Francisco António Correia, general Bernardo
de Faria, almirante Neuparth, dr. João de Barros, etc., que tomaram parte em todas as festas que se realizaram no Funchal em
honra de Sua Exa.
Preston (Capitão Amias)
Diz Johnson a pág. 187 do seuHandbook for Madeira , que em 1595 alguns navios ingleses, sob o
comando do capitão Amias Preston, atacaram e incendiaram o Porto Santo, apesar dos habitantes se terem oferecido para pagar
uma importância avultada para a ilha não sofrer dano algum.
Prim Garibaldi e Costa (João)
Nasceu na freguesia do Porto do Moniz a 31 de Agosto de 1867 e é filho de António Tolentino da
Costa e de D. Romana Augusta de Coito e Costa. Foi durante alguns anos administrador do concelho daquele nome e exerce ali
actualmente o cargo de chefe da respectiva estação telegrafo-postal. Colaborou em alguns jornais do Funchal e teve uma especial e
assídua colaboração no
Brado de Oeste
, publicado na vila da Ponta do Sol. Na qualidade de presidente da Associação Recreativa
Porto-Monizense, proferiu ali um discurso que foi publicado em opúsculo, nesta cidade, com o titulo de Conferencia e dedicado ao
conselheiro José Leite Monteiro (1921).
Primavera (A)
Publicaram-se poucos números deste jornal, sendo o primeiro a 1 de Outubro de 1882.
Primeiro de Dezembro
Publicou-se de 1 Dezembro de 1907 a 3 de Maio de 1908, tendo saído vinte números.
Primitivas Habitações
Abundando copiosamente nesta ilha, por ocasião do descobrimento, as especies florestais, foram elas
que forneceram a principal materia-prima para a edificação das primeiras habitações. As primitivas casas de moradia eram tôdas
construídas de madeira extraída desse basto arvoredo, sendo de presumir que em muitas delas se empregasse o cedro indigena e
outras especies que melhor se adaptassem ãquêle fim.
Já em outro lugar dissemos que João Gonçalves Zargo teve a sua primeira morada, no alto da Santa Catarina, construída talvez dos
ricos e odoriferos cedros que em matas cerradas abundavam por tôda a parte. Seria sem duvida uma mais que modesta e
desconfortável habitação, edificada num só pavimento e despida de todo o aparato arquitectónico. De madeira era também a
pequena capela de Santa Catarina, que a mulher do descobridor fêz construir junto da sua habitação.
Somente alguns anos depois é que se construiu a primeira casa de dois andares, encontrando-se a tal respeito num antigo
manuscrito a seguinte interessante informação: «Neste Campo de Duque (V. vol. 1.º, pág. 225) se fez a primeira casa sobradada que
houve nesta villa do Funchal e em toda a ilha, e a mandou fazer João Manuel, de madeira de cedro lavrada. Teve-se esta casa de
sobrado naquelle tempo por cousa tam nova e admiravel, sendo todas as outras casas que havia terreas e de taboado, que deram
capitulos a El-Rei contra o dito João Manuel, acumulando-lhe que fazia torre, onde parecia se queria fazer forte e levantar-se contra
o Funchal e contra a corôa. A dita casa ainda hoje (meados do século XVIII) está em pé e a possue Antonio de Carvalhal, e é a casa
de sobrado mais baixa que ha no Funchal».
Segundo vemos em vários lugares, consta da tradição que a primeira casa de pedra construída nesta ilha foi a que João Gonçalves
Zargo levantou para sua moradia junto da capela São Paulo (V. vol. 2.°, pág. 395). Também se afirma que uma das mais antigas
edificações desta natureza foi a que se destinou a hospital e construída também nas proximidades da mesma capela de São Paulo.
Princesa (Rua da)
Assim se denominava antes da proclamação da Republica, a rua na margem esquerda da Ribeira de Santa
Luzia, conhecida hoje pelo nome de Rua 31 de Janeiro. Parece que foi á princesa Carlota Joaquina esposa do Príncipe D. João, mais
tarde D. João VI, que a Câmara Municipal quis prestar homenagem, quando deu àquela via publica o nome que ela conservou até
1910. O povo costumava dar á rua 31 de Janeiro o nome de rua das Arvores, por causa dos lindos platanos que nela estão plantados.
Princesa D. Maria Amelia (Rua da)
A Câmara deu em 1852 este nome á rua que liga a rua da Imperatriz D. Amélia ás
proximidades da Pontinha, quando a Princesa visitou a Madeira nesse ano.
Princesas Marroquinas
A 19 de Abril de 1793, arribou ao porto do Funchal um bergantim marroquino, trazendo a seu bordo a
esposa, três filhas e dois filhos do principe Muley Abdessalam, bem como nove concubinas deste e algumas outras pessoas de alta
categoria em Marrocos, entre as quais se contava a viúva do antigo imperador Muley Ismael.
A comitiva da família do príncipe era constituída por duas camareiras, um eunuco, um arrais condutor, um secretario, um preto
porteiro, fazendo as vezes de eunuco, dezassete criadas musicas trinta criados, dezassete mulheres dos criados, cento e dezanove
escravos, escravas e filhos, onze passageiros moiros, um judeu e uma judia, amiga do arrais.
Contando com os tripulantes, havia a bordo do bergantim mais de duzentas pessoas, que vinham todas imensamente incomodadas,
tanto pela pequenez do navio como pela falta de agua que havia a bordo.
O bergantim dirigia-se para Salé, onde Muley Abessalam pretendia pôr a sua família ao abrigo dos perigos da guerra civil que
assolava então o império de Marrocos, mas tendo encontrado ventos contrários que o afastaram do porto do seu destino, viu-se o
seu comandante obrigado a conduzi-lo ao porto do Funchal, onde sabia que encontraria recursos para poder continuar a viagem em
melhores condições.
As princesas foram muito bem recebidas no Funchal tanto pelo governador e capitão-general D. Diogo Forjaz Coutinho como pelo
cônsul marroquino Diogo Teles, tendo aquela autoridade mandado aprontar dois bergantins portugueses, pelos quais fêz distribuir
os viajantes, embarcando também em um dêles o referido consul, o qual se propunha acompanhar as princesas até Salé.
A viagem não foi feliz. Afastados os navios da sua derrota depois de deixarem o porto do Funchal, tiveram as princesas de
desembarcar na ilha de S. Miguel, donde passaram a Lisboa, retirando finalmente para o seu país no dia 8 de Agosto, a bordo de
três embarcações que o governo português pusera á sua disposição.
O cônsul Domingos Teles só acompanhou as princesas até a ilha de S. Miguel, abandonando-as aí, sem se dar ao incomodo de
justificar o seu procedimento.
Príncipe (Rua do)
Tinha esta denominação, antes de proclamada a Republica nesta ilha, a rua que margina a Ribeira de Santa
Luzia e se estende desde a calçada do Cidrão ou de João Sabino da Costa até á rua dos Netos. Chama-se hoje rua 5 de Outubro.
Cremos que foi ao principe-regente D. João VI que se pretendeu prestar homenagem com a referida denominação, mas nunca
encontrámos indicação alguma a tal respeito nos livros da Câmara Municipal desta cidade.
Primeiras Publicações
Já consagrámos um artigo á primeira publicação que, por meio da arte tipográfica se realizou na
Madeira –
O Patriota Funchalense
–, jornal bi-semanal, que viu a luz do dia a 2 de Julho de 1821, como ficou dito a páginas 57
deste volume.
Saía ainda com toda a regularidade
O Patriota Funchalense
, quando a 17 de Fevereiro de 1823 apareceu o segundo jornal que
existiu entre nós, tendo o título espaventoso de
O Prégador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei
, que fartamente chegava
para baptizar quatro diferentes publicações periódicas. Foi seu redactor e proprietário o padre dr. João Crisóstomo Espinola de
Macedo, distinto advogado e pároco na vila de Santa Cruz, que, embora possuísse uma viva inteligência e uma cultura não vulgar,
usava nos seus escritos de uma linguagem tão violenta e descomposta, que lhe acarretaram os maiores dissabores e os mais
afrontosos vexames. Era um digno émulo do padre José Agostinho de Macedo, Posto que professasse principios politicos
diametralmente opostos aos do autor dos
Burros
,
da Besta Esfolada
e da
Tripa Virada
.
O Pregador Imparcial. . .
era semanal e
dele saíram 61 numeros, sendo o último a 2 de Julho de 1824.
Ainda no ano de 1823, mais dois jornais saíram a lume:
A Atalaia da Liberdade e o Regedor
, respectivamente o terceiro e o quarto
periódicos publicados no Funchal. Do primeiro, que teve a vida efémera de dois meses, foi redactor o dr. Daniel de Ornelas e
Vasconcelos, advogado e brilhante orador, que posteriormente àquela época representou a Madeira no parlamento e fez parte da
câmara dos pares, distinguindo-se como um notável parlamentar. 0 Regedor, que não teve uma existência muito mais longa do que
a do seu contemporâneo Atalaia da Liberdade, publicou-se nos meses de Abril a Junho de 1823, ignorando-se os nomes dos seus
redactores e proprietários.
De meados do ano de 1824 a 1827 não se publicou nenhum jornal, tendo a 3 de Fevereiro e a 2 de Junho do último daqueles anos
saido
o Funchalense liberal
e
a Flor do Oceano
, que respectivamente foram o quinto e o sexto periódico que viram a luz nesta ilha.
Fora do movimento jornalístico, que deixamos ligeiramente esboçado, não podia ser grande a acção da imprensa num meio social e
mental de tão acanhados limites como era a cidade do Funchal. No entretanto e relativamente a esse meio e a essa época, não deixa
de ser bastante apreciável, em número e em qualidade, as espécies bibliográficas dadas à publicidade nos primeiros anos decorridos
após estabelecimento da primeira oficina de pressão no ano de 1821.
Neste ano, fundou-se entre nós uma agremiação de carácter literário e cientifico denominada
Sociedade Funchalense dos Amigos
das Ciencias e Artes
, que tinha 27 membros efectivos, 45 correspondentes e 24 honorários e de que fizeram parte os mais distintos
madeirenses do tempo, contando-se entre os efectivos os nomes prestigiosos de Pimenta de Aguiar, conego Gonçalves de Andrade,
Nicolau Betencourt Pita, Lourenço José Moniz, dr. Caetano Alberto Soares, dr. João Pedro de Freitas Drumond, José Marciano da
Fonseca, além de outros, aos quais o
Elucidário Madeirense
consagra circunstanciadas noticias. Teve essa sociedade a prioridade
na publicação dum pequeno trabalho pela imprensa, que era a sua lei organica e que se intitulava
Estatutos e Regulamentos da
Sociedade Funchalense dos Amigos das Ciencias e Artes.
É um pequeno opúsculo de vinte e três páginas, impresso no ano de 1822
nas oficinas do
Patriota Funchalense
, hoje raríssimo, e que goza da merecida prerrogativa de haver sido o primeiro trabalho
tipográfico dado á estampa nesta ilha.
Nesse mesmo ano de 1822, publicaram-se mais dois opúsculos, hinos laudatórios á constituição proclamada pela Revolução do
Porto e que teve seu solene reconhecimento na Madeira no mês de Janeiro de 1821. Um deles intitula-se
Parabens poético-politicos
à grandiosa regeneração portuguesa na congratulante aderência da Ilha da Madeira em 1821 no teatro grande do Funchal
,
sendo seu autor o dr. Luis Antonio Jardim, advogado e deputado ás primeiras cortes constituintes, que faleceu no Funchal a 14 de
Fevereiro de 1825.
O outro opúsculo contém o panegírico proferido do alto do púlpito da nossa Sé Catedral pelo padre João Manuel de Freitas Branco
e tem este título:
Oraçâo de Acção de Graças que na solenidade do aniversário do faustissimo dia 28 de Janeiro de 1821 pregou
na Igreja Catedral da Sé do Funchal por convite do Ill.
mo
e Rev.
mo
Cabido o vigário de Sâo Jorge João Manuel de Freitas Branco
em o anno de 1821
. É um folheto de 43 páginas, que constitue hoje uma grande raridade bibliográfica.
No ano seguinte de 1823, outro hino laudatório, não menos hiperbólico e exageradamente encomiástico do que o do ano anterior,
se fêz ouvir no templo principal desta diocese e nesse mesmo ano foi publicado no Funchal com o seguinte titulo:
Oraçâo de graças
prègrada na igreja Cathedral da Sé do Funchal em 6 de Julho de 1823 por ocasiâo da solemne festividade que fêz sua excellencia
reverendissima pela feliz restauração de S. Magestade El-Rei N. S
., por Fr. José Cupertino, religioso franciscano, lente de
theologia e examinador synodal deste bispado do Funchal.
No ano de 1823, publicou-se ainda um pequeno e curioso volume de 60 páginas, assim intitulado: Instrucçoens para a inspecçâo ou
revista de hum batalhão d'infanteria... traduzido do ingles. . ., cujo assunto não pode actualmente despertar o menor interesse,
sendo apenas apreciável como uma invulgar raridade bibliográfica e de algum valor para a historia da imprensa na Madeira.
Não temos conhecimento de que, no período decorrido de 1824 a 1827, se houvesse feito entre nós qualquer publicação pela
imprensa em livros ou opúsculos, sucedendo o mesmo com respeito ás fôlhas periódicas, como já acima deixámos notado.
Atribuímos essa omissão aos acontecimentos politicos que então se deram no nosso país, pouco propícios a manter a liberdade de
que a imprensa necessita para o proveitoso exercício da sua missão.
Nesse ano de 1827, publicaram-se no Funchal três opúsculos, versando um deles assuntos politicos de caracter local e os outros dois
contendo as poesias recitadas no «Theatro Grande» ao festejar-se o aniversário da proclamação da Carta Constitucional outorgada
por D. Pedro IV.
Procissões
Reúne a notícia que a seguir publicamos algumas notas sôbre várias procissões, umas que deixaram de fazer-se,
outras que se realizam ainda, mas com cerimonial diverso do antigo. É curioso notar que, nos tempos do absolutismo, recebiam o
corregedor e o juiz de fora propinas pelas procissões que saíam na cidade, tendo este costume desaparecido, segundo cremos, com a
implantação do governo constitucional nesta ilha.
Procissão do Corpo de Deus
O que Alexandre Herculano escreveu no
Monge de Cister
sôbre a procissão do Corpo de Deus na
idade média, tem em boa parte aplicação á Madeira, onde, segundo se vê de documentos antigos, essa festividade apresentava
também um caracter burlesco, improprio das cerimonias religiosas.
No Arquivo da Camara Municipal do Funchal está registado um «regimento e ordenança» datado de 1483, em que se determina a
ordem em que na referida procissão deviam seguir as varias corporações que nela eram obrigadas a incorporar-se.
Segundo esse documento, na frente do cortejo deviam ir os besteiros com as suas bestas, seguindo após êles os almuinheiros com as
suas almuinhas e depois os pregoeiros, os ganhadinheiros ou albardeiros, os almocreves, os carniceiros com o seu imperador e rei,
os tecelões, os peliteiros com o gato paúl, os oleiros, telheiros e vidreiros, os mercieiros, especieiros e boticarios, os corrieiros, os
sapateiros e alfaiates, os cordieiros, os pescadores. os pedreiros e carpinteiros de terra com os engenhos, os vinhateiros e tanoeiros
com a tôrre, os armeiros e barbeiros com o sagitario, os arrieiros e candieiros, os corretores, os sineiros, os mestres de açucares, os
tabeliães e os mercadores.
Na «Resposta do Duque a alguns apontamentos», registada no referido Arquivo e que é também de 1483, se determinou que os
mercadores seguissem com tochas na procissão do Corpo de Deus «ante a gayolla», e que os mercadores, tabeliães e demais oficiais
acompanhassem com cirios e pendões a mesma procissão, colocando-se também adiante da «gayolla», sob pena dum marco de
prata de multa. Estavam sujeitas á mesma multa «as mulheres dos privilegiados que são regateiras», quando deixassem de
acompanhar as «procissões regias».
Existe uma ordem de 1468 para que «os do lugar de Camara de Lôbos venham com seus ofícios á procissão do Corpo de Deus», e
em 1502 se mandou que nas vilas a referida procissão se fizesse «no domingo depois do próprio dia». Lê-se nas Saudades da Terra
que no templo de Lançarote Teixeira, filho de Tristão Vaz, se reüniam em Machico «sessenta cavaleiros de esporas douradas muito
bem postos» e que «quando vinha hum dia de S. João ou do Corpo de Deus, eram tantos os cavaleiros para jogos de canas e
escaramuças, que mais parecia exercito de terra que folgar de festa.»
Eram tantos os actos ridículos e talvez mesmo indecorosos que se praticavam tanto aqui como em Portugal quando se realizava a
procissão do Corpus Christi, que em 1565 apareceu um alvará régio, que está registado no Arquivo da Câmara Municipal do
Funchal, ordenando que se não consentissem cousas profanas nem mascaras nas igrejas e procissões, sob pena de 1:000 réis de
multa, ou de degredo em caso de reincidência.
«Na procissão do Corpo de Deus que se realizou no Funchal em 1603 houve, diz o sr. Fortunato de Almeida no tomo 3.° da sua
História da Igreja em Portugal, desordens e escandalos, porque o vigario geral saiu do lugar que lhe pertencia para andar na
procissão com seus oficiais a vigiar se nela se faziam cousas indecentes. Levados os factos pelo bispo ao conhecimento de el-rei para
se adoptarem providencias no futuro, o monarca decidiu que nas procissões não podiam os vigarios dos prelados intender mais que
no governo das pessoas eclesiasticas; se entre os leigos se cometesse algum excesso ou cousa de que resultasse irreverencia ao Santo
Sacramento, ou ás reliquias e cousas sagradas que fôssem nas procissões, podiam e deviam os vigarios, como juizes competentes
que eram, conforme o direito, acudir a tais excessos e mandar sôbre êles o que lhes parecesse conveniente; mas fora desta ocasião
não deviam intrometer-se no governo dos leigos, nem sair do lugar em que iam os eclesiasticos, Posto que dissessem que o queriam
fazer para vigiar e prevenir semelhantes casos».
Pantaleão de Sá e Melo, que foi nomeado Governador Geral da Madeira em 1694, prendeu três vereadores por ocasião duma
procissão do Corpo de Deus por «defenderem a jurisdição de Sua Magestade» na mesma procissão, e em 1725 e 1726 foram presos
por igual motivo e a pedido do Bispo, dois vereadores, sendo a prisão efectuada pelo Governador Francisco da Costa Freire.
Chamava a Câmara «defender a Jurisdição de Sua Majestade» opôr-se pelos meios ao seu alcance a que alguém ocupasse na
procissão o lugar de honra que de direito lhe pertencia.
Os atropelos e excessos cometidos pelas autoridades civil e eclesiástica deram motivo a que em 1732 a Câmara requeresse ao
Governo que os seus membros não pudessem ser presos pelas mesmas autoridades, mas ignoramos que despacho teve tal pedido.
Num antigo livro de ofícios e representações, que existe no Arquivo da Câmara Municipal do Funchal, encontra-se a narração dum
outro conflito havido entre o Senado e o Governador, ainda por causa da procissão do Corpo de Deus, narração que vamos procurar
resumir:
«Tendo o Governador e Capitão-General José Correia de Sá feito conhecer o propósito em que estava de seguir atrás do palio,
juntamente com os cavaleiros do habito de Cristo, na procissão do Corpo de Deus que devia ter lugar em 21 de Maio de 1762,
mandou-lhe pedir a Câmara pelo procurador do Concelho «que por serviço de Sua Majestade não utilizasse perturbar a boa
harmonia que devia haver entre o Senado e os Governadores, nem alterar o costume legitimo, sempre praticado, violando ao
mesmo tempo os regimentos da Camara e reais provisões, porquanto nesta ilha nunca foi costume irem á dita procissão os
cavaleiros da Ordem de Cristo, mas quando quizessem ir, fossem no corpo da dita procissão, no lugar que competia á dita ordem,
porém que atraz do palio, nem com as varas dele não podiam ir, tanto porque nunca foi costume, como porque atraz do palio
competia ir o Senado, e que só a este competia eleger quem devia levar as varas do palio, não só porque á Camara é que pertencia a
direcção da procissão, mas tambem porque sempre foi costume inalteravel irem levar as varas do palio por ordem do Senado da
Camara os da governança, da Catedral até o Colegio de S. João Evangelista, os casados, e do dito Colégio até a Sé, os solteiros, e os
que tinham já servido de vereadores, com tochas, e isto tudo por ordem do Senado».
A esta observação respondeu o Governador «que sempre havia de ir com os ditos cavaleiros, como tinha determinado», e de facto
no referido dia 21 de Maio consumou-se a violencia preparada por aquela autoridade, vendo-se a Camara compelida a permitir que
outros viessem ocupar o lugar de honra que de direito lhe pertencia.
Queixou-se a Câmara ao Desembargo do Paço da pouca atenção, com que fora tratada pelo Governador e da violência que este
exercera contra ela, aparecendo em resposta o alvará de 2 de Abril de 1763, determinando que o lugar da Municipalidade era atrás
do pálio, como já havia sido estabelecido pelo regimento de 18 de Agosto de 1508, confirmado por provisão de 28 de Fevereiro de
1755. Foi mais ordenado na mesma ocasião que os capitulares pegassem nas varas do palio até a porta da Sé, cabendo essa honra
dai em diante ás pessoas da governança, eleitas pela Câmara já atrás ficou dito.
Na procissão do Corpo de Deus que se realizou no Funchal em 1801, colocou-se o Governador D. José Manuel da Câmara atrás do
palio e adiante do Senado, o que deu lugar a protestos desta corporação, e no ano imediato mandou o mesmo Governador
comunicar ao Juiz de Fora, presidente da Câmara, que estava resolvido a pegar na primeira vara da direita do palio, junto aos
membros do Senado, logo que os capitulares largassem as mesmas varas, seguindo depois o cortejo atrás do palio. Em resposta a
esta participação, mais uma vez lembrou o Senado ao Governador o disposto no citado alvará de 1763, acrescentando porém que, se
êle quisesse pegar nas varas com o Juiz de Fora, o podia fazer, e igualmente com os capitulares ou com as pessoas da governança,
por serem estas da qualidade dos Vereadores.
Nos últimos tempos constitucionais quem pegava nas varas do palio eram os comendadores e cavaleiros das diferentes ordens,
sendo os convites feitos pela Camara Municipal, a qual costumava ceder ás autoridades o direito que em virtude de antigos
diplomas lhe assistia de seguir atrás do palio. O estandarte municipal, que depois de 1835 passou a ser conduzido pelo vereador
mais novo, era nos tempos do absolutismo empunhado pela procurador do Concelho.
Desconhecemos a época em que a procissão do, Corpus Christi deixou de ser uma cerimonia burlesca, com o seu acompanhamento
de almuinheiros com as suas almuinhas, de carniceiros com o seu imperador e rei, de peliteiros com o seu gato paúl, etc., etc., e
adquiriu o aspecto decente e serio que é próprio das cerimonias religiosas, mas é de supor que isso se desse nos fins do primeiro ou
princípios do segundo quartel do século XVIII, depois do aparecimento da carta regia de 27 de Maio de 1724, em que foi
determinado que da mesma procissão fossem eliminados os jogos, danças e figuras, ainda que representativas de santos,
exceptuados apenas a imagem de S. Jorge e alguns andores que as irmandades voluntariamente quisessem levar. O alvará de 1565
parece que não deu o resultado desejado, pois que, como vimos, ainda em 1603 o vigario geral julgava dever vigiar se na procissão
do Corpus Christi se praticavam «coisas indecentes».
As pessoas da governança eram obrigadas, sob pena de prisão, a acompanhar o cortejo. Ainda em Junho de 1820 foram expedidas a
Aires de Ornelas Cisneiros e Antonio Venancio de Ornelas cartas de aviso para se recolherem á fortaleza do Pico «por não terem
comparecido a pegar nas varas do palio», mandando-se depois passar mandado de prisão contra os mesmos por não terem acatado
o convite camarario.
Acompanhava outrora a procissão do Corpo de Deus uma imagem de S. Jorge, que se acha hoje no edifício do Museu Municipal do
Funchal. A imagem ia a cavalo e tinha um estado maior constituído por pessoas das principais famílias, que se incorporavam no
cortejo montadas e vestidas com ricos fatos de veludo e sêda. Era uso, alguns dias antes da procissão, a Câmara oficiar aos
almotacés para fazerem com que os alquiladores emprestassem seus cavalos, afim de acompanharem o Santo, e em princípios do
século XIX elegiam os oficiais de sangrador um «mordomo para deitar a cavalaria» na mesma procissão.
A imagem de S. Jorge deixou de figurar na procissão do Corpo de Deus pelos anos de 1857, e desde então sempre se tem conservado
num quarto do edifício dos Paços do Concelho, guardada num armario. Diz-se que a imagem quando colocada sôbre o cavalo, não
guardava a posição propria do cavaleiro, pois que ora pendia para a direita, ora para a esquerda, e que foi para evitar comentarios
desagradaveis da parte do público que o bispo proibiu que ela aparecesse no cortejo.
A referida imagem foi feita em Lisboa, e esteve até 1823 confiada á guarda do Grémio dos Oficios que, segundo parece, não tinha
lugar onde acomodá-la. Foi para evitar desacatos ou que a estragassem, que foi permitido à Câmara tomar conta dela, «não como
senhoria, mas para a conservar com asseio e decencia», tendo estado recolhida na capela dos Paços do Concelho, ao tempo em que
estes ficavam no largo da Sé, no edifício da demolida cadeia. O manto com que a imagem figurava na procissão, e que chegámos a
conhecer, tinha-lhe sido oferecido pela Municipalidade em 1823 (1921).
Incorporavam-se na procissão do Corpo de Deus todas as confrarias do Concelho, fechando o cortejo as tropas disponíveis tanto de
primeira como de segunda linha. Em nossos dias, as tropas davam três descargas depois do cortejo recolher á Catedral, havendo
também uma salva de 21 tiros, dada pela fortaleza de Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu, na ocasião em que o Santissimo
Sacramento saía do templo.
Num interessante artigo publicado por um ilustrado sacerdote desta ilha na revista A
Esperança
, de 15 de Março de 1923, se lê que,
em 1578, eram os moradores e os mestres e purgadores de assucar da vila da Ponta do Sol obrigados a acompanhar com tochas suas
e canas-vieiras na mão a procissão do Corpo de Deus que ali se realizava, e que os lavradores também eram obrigados a incorporar-
se no cortejo, com espigas, ramos de vinha, capelas e canas-vieiras. Nas festas do Corpo de Deus que em 1599 tiveram lugar na
mesma vila, compareceram os mordomos com seus folgares, sendo estes folgares, segundo se depreende dum documento de 1610,
«uma dança de espadas com suas tangeres, de sete dançantes.»
«Nunca houve imagem de S. Jorge na vila da Ponta do Sol. O santo belicoso era representado na mesma procissão por um mestre
ferreiro, montado num cavalo, levando ao lado dois escudeiros tambem de carne e osso;»
A respeito de «santos de carne e osso», diremos que há ainda quem se lembre de, em festas de caracter religioso, realizadas nos
campos, ter visto São João Baptista e Santa Maria Madalena serem representados por um rapaz e uma rapariga vestidos com trajes
adequados ao papel que tinham de desempenhar.
Procissão da Cinza
. Assim se denominava a procissão que tinha lugar em quarta-feira de cinzas e que em épocas remotas saía do
convento de São Francisco, acompanhada por frades que durante o trajecto entoavam cânticos religiosos. O cortejo passava sempre
nas igrejas de Santa Clara e das Mercês, onde as monjas cantavam hinos religiosos na ocasião em que entrava no templo o andor em
que se via a imagem de São Francisco abraçando a de Cristo.
Na frente da procissão, ia o pendão da Ordem Terceira de São Francisco, com o seu escudo primorosamente bordado a ouro, e logo
a seguir a chamada arvore da penitencia, em que se viam um crucifixo guarnecido de ramos de espinheiro, um rosario e umas
disciplinas. Atrás, caminhava a irmandade da penitencia, indo junto da cruz quatro irmãos, levando um uma bandeja com dois
ossos trocados e uma caveira, outro uma urna de vidro, com cinzas provenientes de ramos de palmeira e oliveira, benzidos em
domingo de Ramos, outro uma ampulheta com duas azas e o quarto um velador com candeia apagada. Seguiam-se a cruz da Ordem
e o andor do Senhor dos Passos, com a respectiva confraria, e depois os andores de São Francisco com a cruz ás costas, da
Confirmação da Regra, em que se via o mesmo santo, o papa Inocencio III e um cardial, de Santo António de Noto (preto), de São
Lucio e Santa Bona (os dois irmãos), de Santa Rosa de Viterbo, de Santa Margarida de Cortona, de Santa Joana, de Santa Isabel,
filha da rainha da Hungria, de Santa Isabel, rainha da Hungria, de S. Roque, de Santo Elisario e Santa Delfina (os bem-casados), de
Santo Henrique, rei da Dacia, de S. Luís, rei de França, de Santo Ivo, doutor, e de Santa Isabel, rainha de Portugal, indo todas estas
imagens acompanhadas das respectivas confrarias. Fechavam o préstito religioso a mesa da Ordem Terceira, o andor de S.
Francisco abraçado como o Cristo, a corporação dos Capelães, o palio roxo, sob o qual se viam três eclesiasticos com pluviais da
mesma côr, levando o do meio um relicario com o Santo Lenho, e finalmente o Bispo da Diocese, com a capa magna, na qual
pegavam cinco seminaristas.
Depois que desapareceu a igreja de S. Francisco, passaram para a igreja do Colégio as imagens que figuravam na procissão da cinza,
sendo deste templo que em nossos dias saía a mesma procissão, a qual se não realiza há cerca de 25 anos (1921). Eram roxas as opas
que figuravam na procissão, e em tempos antigos vestiam habito os irmãos professos que se incorporavam nela. O lugar das
penitentes que acompanhavam o préstito era perto da chamada arvore da penitencia.
Um autor estrangeiro que escreveu em 1827, dizia o seguinte acerca da procissão da cinza: «As imagens são quási do tamanho do
homem e vestem todas hábitos religiosos, sem exceptuar S. Luis, rei de França, e Santa Isabel, rainha de Portugal. Uma delas, que
representa Nosso Senhor vergando sob o pêso da cruz, é um trabalho bem executado e que, pela expressão de sofrimento que
apresenta, produz impressão naqueles que a contemplam».
A procissão da cinza ainda hoje se realiza na vila de Câmara de Lobos, aonde acodem muitas pessoas do Funchal para a ver.
Procissões de penitencia
Uma obra estrangeira publicada em 1819, descreve estas procissões do modo seguinte:
«Nas procissões de penitência aparecem as imagens do Salvador, da Virgem e de diferentes santos, levadas aos ombros de
penitentes cobertos por hábitos de algodão azul, tendo apenas as aberturas precisas para facilitar a vista e a respiração.
Acompanham as mesmas procissões uma parte da clerezia, ostentando trajos magníficos, e um destacamento militar, com a
respectiva banda de musica. Junto dos penitentes que levam as imagens, vão outros que conduzem pesadas pedras, barras de ferro,
cadeias, etc., ou que batem nas costas com feixes de arame ou ortigas, a ponto de fazer gotejar o sangue».
As procissões de penitencia faziam-se, quer para implorar do céu chuvas ou qualquer outro beneficio, quer para manifestar o
desgosto da população por algum agravo feito á Providencia. Há cinquenta e tantos anos saiu a imagem de Nossa Senhora do Monte
em procissão, seguindo pelo caminho dos Saltos, atravessando a Levada e voltando á sua igreja, pelo caminho do Monte, sendo a
mesma imagem acompanhada em todo este longo trajecto por numerosos penitentes que, ou conduziam pesadas cargas, ou se
flagelavam ou feriam com silvas (1921).
Foi esta, segundo cremos, a ultima procissão de rigorosa penitencia que se realizou no Funchal, e diz-se que tendo sido feita por
causa da estiagem que há muito se fazia sentir, ao recolher á igreja do Monte, chovia já copiosamente.
Nas procissões dos Passos e da Cinza, apareciam outrora homens com flagelos, cadeias ou barras de ferro, mas tal costume há
muito que desapareceu, e modernamente só é uso incorporarem-se algumas penitentes na procissão dos Passos e de Sexta-Feira
Santa, apresentando-se as mais das vezes descalças, o que só representa grande sacrifício para aquelas para quem o uso do calçado
constitui uma necessidade.
Procissão de Santo António
Encontramos referencia a esta procissão, que saía da igreja da Sé, em documentos do começo do
segundo quartel do século XIX. Figuravam nela três andores: um com Santo António, cónego, outro com Santo António, frade, e um
terceiro com Santo António, menino do coro, sendo os mesmos andores conduzidos, respectivamente, por cónegos da Sé, frades de
S. Francisco e meninos do côro da Catedral. Da acta da sessão da Câmara Municipal do Funchal de 13 de Junho de 1815, se vê que a
municipalidade acompanhava a procissão de Santo António.
Procissão de Santa Bárbara. Saía da capela de São Lourenço, na Fortaleza, e dirigia-se á igreja do Colégio, onde se realizava uma
festa em honra da santa. A procissão, segundo reza a tradição, era feita por militares, concorrendo todos, desde o oficial mais
graduado até o simples soldado, com uma certa importância para as despesas da festa.
Em 1826, havia no Funchal uma agremiação de irmãos de Santa Barbara, que tinha por fim distribuir esmolas pelas pessoas
necessitadas.
A imagem de Santa Barbara, que pertenceu á capela de São Lourenço, está hoje na igreja do Colégio.
Procissão de S. Francisco
Nos princípios do século XIX, realizava-se uma procissão em honra de S. Francisco, segundo se vê
duma ordem do Capitão-General mandando «dar na praça de cima de S. Lourenço huma salva á procissão do sr. S. Francisco... e
que disparem somente aquelas peças que se tem ordemnado, que não prejudiquem a casa nem o viveiro».
É de crer que a procissão saísse do convento de S. Francisco, estabelecido no local onde se acha agora o Jardim Municipal.
Procissão dos Passos
As imagens do Senhor dos Passos, da igreja de Santa Clara, e de Nossa Senhora da Soledade, da igreja das
Mercês, eram em tempos já um pouco afastados de nós, conduzidas processionalmente, no sábado à noite, esta para a igreja da Sé,
e aquela para a do Colégio, sendo a imagem do Senhor a primeira a sair, e incorporando-se depois no préstito a imagem da
Senhora. Muitos rapazes, com archotes acesos, precediam a procissão, que depois de passar na igreja do Colégio, se dirigia para a
Catedral.
A Procissão dos Passos saía no domingo de tarde da igreja do Colégio, seguia pelas ruas da Carreira e S. Francisco afim de visitar
um passo que existia no lado norte do antigo Jardim pequeno, dirigindo-se depois para a Catedral, onde se realizava a cerimonia do
encontro, a principio dentro do templo e depois fora dele. Havia nessa ocasião sermão alusivo ao acto, seguindo depois a procissão,
aumentada com a confraria e a imagem da Senhora da Soledade, para a igreja de Santa Maria Maior, fazendo pequenas paragens
em frente dos passos da rua do Aljube, do Pelourinho e da rua de Santa Maria.
Abria o cortejo o guião, seguido dum grande pendão roxo com as letras S. P. Q. R., tendo havido tempo em que era costume fazer
marchar na frente da procissão um individuo tocando uma trombeta, que era conhecido pelo nome de gajeiro.
Na igreja de Santa Maria Maior, desenrolavam-se as cenas do Calvário, em geral um tanto demoradas, só voltando a procissão á
igreja do Colégio depois de noite, vindo as imagens recolhidas então nos respectivos nichos.
Nas janelas dos prédios acendiam-se as velas, sendo o cortejo precedido, como na véspera, de muitos homens e rapazes
empunhando grandes archotes acesos que lhe imprimiam um aspecto fantástico e estranho.
Acompanhavam a procissão muitas penitentes, geralmente descalças, e em tempos remotos figuravam também nela alguns
penitentes conduzindo pesadas barras de ferro ou armados de flagelos com que retalhavam o corpo.
Vem a propósito dizer que a imagem que figura na procissão dos Passos foi mandada vir do Porto por um individuo chamado
Joaquim Roque, que a legou em testamento á igreja de Santa Clara, e que a imagem de Nossa Senhora da Soledade teve a mesma
origem, sendo legada ao convento das Mercês. Quando esta casa desapareceu, passou para a igreja do Colégio.
As duas imagens ao chegarem á Madeira, foram recolhidas, segundo se afirma, numa capela particular á travessa das Capuchinhas,
passando daí para a capela da quinta do Til, onde estiveram até serem transferidas processionalmente para os dois referidos
conventos, após a doação feita pelo seu possuidor.
Antes da aquisição das duas referidas imagens, figuravam na procissão a que nos referimos uma imagem do Senhor dos Passos
pertencente a um morgado Correia e uma imagem da Senhora da Soledade, que está agora na capela do Faial.
Procissão do Triunfo
. Figuravam nesta procissão nove andores, sendo oito com imagens do Senhor (Senhor no Horto, da Paciência,
da Coluna, da Pedra Fria, da Cana Verde, dos Passos, na Cruz e no Esquife) e um com a imagem da Virgem, tendo cada uma destas
imagens a sua irmandade. Na frente do préstito, ia o pendão, seguindo-se a cruz da penitencia e a irmandade do mesmo nome, em
duas alas, tendo ao meio as penitentes, duas a duas. A cruz da Ordem Terceira de N.ª S.ª do Monte do Carmo precedia os andores, e
depois do ultimo andor ia a confraria da mesma ordem, levando o prior os bentinhos que lhe são proprios. O prelado ia no fim do
cortejo, revestido com a capa magna, na qual pegavam cinco seminaristas.
Todos os andores levavam ciprestes, uns seis e outros quatro, e era uso guarnecê-los de ranúnculos, anémonas e outras flores,
levando o do Senhor no Horto também ramos de oliveira.
As opas eram roxas, á excepção das da irmandade de Nossa Senhora, que eram azuis e brancas e das da confraria da Ordem
Terceira, que eram pardas e brancas. Em antigos tempos, os irmãos professos levavam hábito pardo, escapulario e capa branca.
A procissão do Triunfo, chamada também do Carmo, por sair desta igreja, deixou de sair alguns anos antes da proclamação da
Republica.
Procissão votiva de 9 de Outubro. Em 13 de Novembro de 1803, achando-se presentes no coro da Sé Catedral o bispo D. Luís
Rodrigues Vilares, o cabido e mais clerezia, resolveu-se, de unânime acordo, realizar uma procissão no dia 9 do mês de Outubro de
cada ano, em honra do patrocínio da Virgem, afim de se alcançar a protecção da Mãe de Deus e se não repetirem os desastres e
estragos causados pela aluvião de 9 de Outubro do mesmo ano. Igual resolução tomara já a Câmara Municipal no dia 11 de
Novembro, sendo em vista destas deliberações que por largos anos se realizou uma procissão que saía da Sé e se dirigia á igreja de
Santa Maria Maior, acompanhada das autoridades eclesiásticas e civis, da municipalidade e da clerezia. Esta procissão que é
transferida muitas vezes para o domingo mais próximo do dia 9 de Outubro, ainda hoje se faz, mas percorre apenas o adro da Sé,
acompanhada pela confraria da paroquia.
(Vid. Voto à Santíssima Virgem).
Procissão da Bula da Santa Cruzada
Já nos princípios do século XIX se fazia esta procissão no Funchal, e, segundo parece,
com grande luzimento. A Câmara convidava seis pessoas da governança para pegarem nas varas do palio, depois de receber um
oficio do delegado do comissário da bula comunicando-lhe o dia em que a procissão devia ter lugar. Na sessão camararia de 31 de
Janeiro de 1807, se resolveu «que as pessoas que sem causa justificada deixarem de ir á procissão da Bula da Santa Cruzada, serão
castigados na forma recomendada pelas ultimas ordens de Sua Alteza».
Procissão votiva do 1.° de Maio
. No artigo
Peste
, a pág. 77 deste volume, transcrevemos o que diz Frutuoso acerca da origem desta
procissão, que saía da Sé Catedral e se dirigia á igreja de Santa Maria Maior, primitivamente de S . Tiago Menor, acompanhada pela
Câmara Municipal e as principais autoridades do distrito, tendo lugar neste ultimo templo a cerimonia da entrega das varas e um
sermão alusivo ao milagre feito pelo Padroeiro da Cidade em 1538. Depois da proclamação da Republica, só em 1918 a procissão do
1.º de Maio percorreu o antigo itinerário, tendo sido acompanhada por dois membros da Comissão Administrativa da Câmara
Municipal.
Era a Câmara quem dirigia outrora a procissão do 1.° de Maio, fazia o convite ás confrarias e autoridades, e pagava ao pregador,
sendo da praxe ela ser incensada na igreja de S. Tiago por um dos três cónegos que diziam a missa. Como em 1815 esta cerimonia
fosse celebrada, não por um cónego, mas por um capelão, resolveu a Câmara queixar-se ao bispo, por se considerar agravada com a
substituição».
Em 5 de Maio de 1829, determinou-se em Câmara que o juiz almotacé condenasse «na forma das posturas, os oficiais examinados
dos ofícios mecânicos que faltaram á procissão do 1.º de Maio, assim como os pescadores pertencentes á confraria do Corpo Santo e
corporação do mesmo que deixaram de comparecer, impondo também a pena competente aos moradores das ruas por onde passou
a procissão, que não tinham varridas suas testadas e suas janelas ornadas».
Modernamente, muitas vezes vimos a Câmara representada apenas por três ou quatro vereadores na procissão do 1.° de Maio,
devido a ser costume antigo na terra muita gente passar este dia no campo. Conhecemos um presidente que convidava quase toda a
cidade a incorporar-se na procissão votiva, por se tratar, dizia ele, «dum voto de nossos antepassados muito respeitado pela
municipalidade», mas que nunca acompanhava a mesma procissão, nem se dava mesmo ao incomodo de justificar a sua falta
(1921). Nos tempos do governo absoluto, seria tal falta punida provavelmente com uma multa ou alguns dias de prisão, visto que
era considerada como uma prova de pouco respeito pelo Padroeiro da Cidade.
Em antigos tempos a procissão do 1.° de Maio que, como dissemos, saía da Catedral, só regressava a esta igreja oito dias depois,
realizando-se durante o oitavario vários festejos na igreja de São Tiago Menor, que é templo da paroquia desde a aluvião de 1803. A
procissão ainda hoje se realiza, mas só percorre o adro da Sé, e a Câmara nenhuma interferência tem nela (1921).
Como já deixámos dito no artigo Padroeiros e a páginas 37 deste volume, a Câmara Municipal fez reviver no ano de 1942 as antigas
tradições do senado funchalense, tomando parte nas diversas manifestações de culto promovidas em honra do padroeiro São Tiago.
(Vid. Voto a S. Tiago).
Procissão das Candeias, das Ladainhas e da Via Sacra, na Ponta do Sol
Lê-se no artigo a que atrás nos referimos, que se
celebravam outrora estas procissões na Ponta do Sol.
A procissão das Ladainhas realizava-se em Maio, e, segundo um documento de 1600, ia no primeiro dia á igreja de Nossa Senhora
da Piedade, nos Canhas, no segundo, á capela do Espírito Santo, na Lombada, e no terceiro, á capela de S. Sebastião, na vila.
Em 1607, ordenou a Câmara que a mesma procissão se dirigisse no primeiro dia á capela do Espirito Santo, no segundo, á de Nossa
Senhora da Piedade (Jangão?) e no terceiro, á de S. Sebastião, ficando os fregueses de N. S. da Piedade (Canhas) e da Madalena do
Mar dispensados de vir á procissão por esta se realizar nas suas paroquias.
As procissões da Via Sacra fora da igreja acabaram, diz o autor do mencionado artigo, pela época de 1830. No tempo em que elas se
realizavam, saíam do templo paroquial, percorriam as ruas da vila, indo até a capela de Nossa Senhora do Livramento, no Lombo
das Adegas, e até a capela de Santo Amaro, na Lombada. Havia cruzes colocadas nas ruas e caminhos percorridos por estas
procissões e no Caminho da Lombada há uma furna com o nome de furna do Calvario, que era uma estação das mesmas procissões.
Proclamação do Governo Republicano
Vid.Republica (Proclamação da ).
Proclamações do Governo Absoluto
A revolução que rebentou no Porto a 24 de Agosto de 1820 e que teve seu eco em Lisboa
a 15 de Setembro do mesmo ano, arvorou o sistema de governo representativo, que as cortes gerais sancionaram com a
promulgação da Constituição. 0 facto foi solenemente festejado nesta ilha e a proclamação do novo sistema governativo realizou-se
nesta cidade no dia 28 de Janeiro de 1821, como já fica descrito a pág. 301 e seguintes do 1.° vol. desta obra. Não são ainda
decorridos três anos depois da revolução do Porto, e D. João VI, a 3 de Junho de 1823, dirige uma proclamação ao país, em que são
dissolvidas as côrtes, abolida a Constituição e restabelecido o governo absoluto. A 16 do mesmo mês, chegou á Madeira a noticia
daqueles extraordinários acontecimentos políticos e no dia imediato se solenizou publicamente nesta cidade o estabelecimento da
nova ordem de cousas, havendo por essa ocasião varias manifestações de regozijo, com a permissão do então governador, o capitão-
general António Manuel de Noronha.
O novo governador do arquipélago D. Manuel de Portugal e Castro chegou ao Funchal a 26 de Agosto, de 1823 e logo a 1 de
Setembro seguinte mandou destruir e arrasar os alicerces do projectado monumento á Constituição, que 19 meses antes tinham
sido lançados no meio do maior entusiasmo e com um brilhantismo e imponência fora do comum. D. Manuel de Portugal e Castro
imprimiu ao acto grande solenidade e aparato, para bem fazer sentir aos madeirenses que era inútil qualquer tentativa duma
restauração dos princípios proclamados pela revolução do Porto. Comunicou ao governo da metrópole com pormenorizados
detalhes a maneira como procedera ao completo arrasamento e destruição dos alicerces do monumento que se projectava erigir,
sendo a pedra angular, a caixa de prata e esta encerrava com o respectivo auto, a medalha comemorativa e as moedas do tempo ali
lançadas, tudo inteiramente inutilizado e destruído. (V. Constituição de 1821 e Monumentos).
Também ordenou D. Manuel de Portugal e Castro que nas repartições publicas fossem inutilizados todos os vestígios que, nos
respectivos livros e em quaisquer outros documentos, tivessem ficado dos actos da administração publica do período decorrido de
1821 a 1823 (V. Queima de documentos constitucionais).
No artigo
Alçadas
(Vol. I, pág. 31), se dá uma desenvolvida noticia dos primeiros actos de administração praticados por este
governador e especialmente da alçada que o acompanhou a esta ilha.
Ainda não são passados três anos e, tendo morrido D. João VI a 10 de Março de 1826, é D. Pedro reconhecido rei de Portugal, que
logo a 29 de Abril seguinte outorgou a Carta constitucional, restabelecendo-se deste modo o governo representativo (V. Outorga da
Carta).
Dois anos depois, a 25 de Abril de 1828, o príncipe D. Miguel, regente do reino, é proclamado rei absoluto, depois de dissolvidas as
cortes. Na Madeira não se proclamou desde logo o governo absoluto, porque Travassos Valdez, governador constitucional deste
arquipélago, manteve-se fiel aos princípios de que era representante e preparou-se para resistir ás tentativas das tropas miguelistas
que pretendiam apoderar-se desta ilha. No artigo Ocupação da Madeira pelas tropas miguelistas (pág. 6 do vol. III), ficou
sumariamente historiada essa resistência e a sua ineficácia para obstar ao desembarque das forças realistas.
O governador miguelista José Maria Monteiro desembarcou no Funchal no dia 24 de Agosto de 1828 e nesse mesmo dia tomou
posse do seu cargo, que exerceu até Abril de 1830. Este governador, que entre nós ficou conhecido pela alcunha do Baeta, deixou
tradições pouco honrosas da sua administração pelas prepotências que praticou, como deixámos dito no artigo que lhe é
consagrado nesta obra (Vol. II, pág. 390). Tornou mais odiosa e vexatoria a acção da alçada que o governo central enviou a esta ilha
(V. Alçadas, vol. I pág. 31 e ss.) pelo parcial apoio que lhe prestou e pelo incitamento a vários excessos e demasias que o mesmo
tribunal praticou.
Proclamações do Governo Constitucional
A pág. 301 e seguintes do I vol. desta obra demos noticia do modo como neste
arquipélago foi proclamada a primeira Constituição e para lá remetemos o leitor que quiser ter conhecimento do assunto.
Em 1823, foi restabelecido o Governo absoluto, e por morte de D. João VI, em Março de 1826, outorgou D. Pedro a Carta
Constitucional com a implantação do Governo representativo. A solene proclamação da Carta fez-se nesta ilha com grande brilho e
entusiasmo nos dias 6, 7 e 8 de Agosto de 1826, sendo o ultimo destinado ao juramento de fidelidade á mesma carta. No Funchal e
em outras localidades, houve ruidosas manifestações de regozijo pelo advento do Governo constitucional. No mes de Outubro
seguinte, realizaram-se as eleições de deputados, saindo eleitos o dr. Lourenço José Moniz, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar, o
dr. padre Caetano Alberto Soares e Luís Monteiro.
De novo restabelece D. Miguel o Governo absoluto em 1828, tendo-se em 1834, pela convenção de Evora-Monte e terminação da
guerra civil, arvorado novamente o sistema representativo, em harmonia com as disposições da Carta Constitucional de 1826. Foi a
5 de Junho de 1834 que nesta cidade se fez a proclamação solene do novo sistema de governo, cujo aniversário se celebrou durante
muitos anos com o mais fervoroso entusiasmo.
Eram então os alunos do nosso liceu que imprimiam sempre a esses festejos um cunho de característica animação e lhe
emprestavam todo o calor e entusiasmo da sua ardente e irrequieta mocidade. Com que enternecida saudade nos lembramos nós,
os velhos, da alvorada tocada á porta da residência dos professores, do Te-Deum na igreja do Colegio, do préstito de estudantes com
o pendão de sêda azul e branco á frente, da recitação de algumas estancias dos Lusiadas, num coreto do antigo Passeio, pelo
octogenario sargento Ferro, da nossa comoção ao ver o velho par do reino e antigo ministro José Ferreira Pestana içar no mastro da
Fortaleza a bandeira azul e branca, feita já num farrapo, mas que fôra a mesma que ali se desfraldara no dia 5 de Junho de 1834!
Pela tarde de 3 de Junho de 1834, entrava vagarosamente na nossa baía a escuna de guerra Amélia, comandada pelo distinto oficial
de marinha o madeirense António Teixeira Doria, trazendo no topo da vela grande içado o pavilhão azul e branco. Foi indescritível
o entusiasmo que logo se despertou entre os partidarios do constitucionalismo. A escuna trouxera a notícia da convenção de Evora-
Monte, celebrada a 26 de Maio, e da subsequente e imediata terminação da guerra civil, com o absoluto triunfo dos partidários da
causa liberal.
D. Pedro IV comunicou oficialmente ao governador e capitão general da Madeira D. Álvaro da Costa de Macedo a noticia dos
acontecimentos políticos que mudaram o sistema governativo do país, e impunha-lhe a completa submissão do arquipélago ao novo
Governo, sob pena de o considerar rebelde, e tornava-o responsável pelas consequências que pudessem resultar de qualquer
tentativa de resistência que porventura pretendesse fazer.
D. Álvaro de Macedo não só não pensou em oferecer a mais pequena resistência, mas até se preparava para aderir publicamente á
nova ordem de cousas, quando foi procurado por um grupo de cidadãos, representantes de alguns milhares de habitantes desta ilha,
pedindo que imediatamente e da maneira mais publica e solene se procedesse á proclamação do novo soberano e da nova forma de
Governo.
Tendo o governador concordado com o pedido, imediatamente foi arriada no chamado baluarte do castanheiro a bandeira branca
de D. Miguel e arvorada em seu lugar a bandeira bicolor, salvando as fortalezas da cidade ao içarem a mesma bandeira e sendo a
constituïçao aclamada alegremente por toda a parte. No dia 6, teve lugar nos Paços do Concelho a cerimonia do juramento da Carta
e da aclamação da rainha D. Maria II, assistindo à cerimonia, o governador, o bispo, as demais autoridades militares e civis, e
muitos cidadãos, resolvendo-se finalmente enviar felicitações ao regente D. Pedro por se achar implantado o regimen liberal no
país.
Os constitucionais que se dirigiram ao palacio de São Lourenço afim de reclamar a imediata proclamação do novo governo, foram
Antonio Barnabé Soares, Candido de Freitas Abreu, Luís Antonio de Ornelas, Marceliano Ribeiro de Mendonça e Paulo Emilio de
Ornelas, existindo um quadro na loja maçonica Liberdade, em que se acha reproduzido o glorioso papel que estes cinco
madeirenses desempenharam no dia 5 de Junho.
Lá vem Amelia veloz,
Quebrar das ondas não teme,
Dar da liberdade a nova
Ao Funchal que opresso geme.
Ao dirigirem-se da rua de João Tavira para a fortaleza, com bandeiras bicolores nas mãos, a força que guardava a cadeia reuniu, e
conta-se que se preparava para fazer fogo sobre os
cinco constitucionais e o povo que os seguia, quando acudiu o oficial da ronda, que mandou retirar os soldados, evitando que o
atentado se consumasse.
A escuna Amelia veio encontrar perto da Madeira a fragata D. Pedro, comandada pelo capitão de mar e guerra Henrique de Price
Bertrand, que desde 28 de Maio bloqueava a ilha. Tendo este oficial enviado no mesmo dia 28 um parlamentario a D. Alvaro,
recusou-se este a recebê-lo, bem como a correspondencia de que ele era portador.
A quadra seguinte faz parte duma música patriótica que era muito cantada em 1834 no seio das famílias liberais:
D. Álvaro de Macedo depois de prestar e haver feito prestar o juramento de fidelidade á Carta e á Rainha, continuou a governar o
arquipélago até 13 de Julho, embarcando neste dia para Lisboa, a bordo da fragata D. Pedro. Sucedeu-lhe um governo interino
composto do provisor do bispado, visto o bispo se achar ausente, do corregedor da comarca e do capitão de mar e guerra Henrique
de Price Bertrand que, nos termos do alvará de 12 de Dezembro de 1770, administrou a província até o dia 6 de Agosto seguinte, em
que chegou de Lisboa o prefeito Luis da Silva Mousinho de Albuquerque.
Profetas
No ano de 1533, vivia no Porto Santo um tal Fernando ou Fernão Nunes, por alcunha o Bravo, o qual tinha uma sobrinha
chamada Felipa Nunes, de 17 anos, que havia alguns anos estava paralitica. Pretendeu este Fernão Nunes passar por profeta, e em
certa noite desceu dos montes, onde vivia, e veio á Vila «ter com sua sobrinha, com uma campainha tangendo, diz Frutuoso, e
chegando onde ela estava, lhe dice que o Spirito Santo o mandava ter com ella, para que ambos pregassem ao povo daquella ilha e
lhe dicessem seus peccados..... E aquella Philipa Nunes lhe respondeu que o Spirito Santo lhe revelara que vinha elle daquella
maneira».
Tendo-se reunido muita gente para procurar informações sôbre o que se passava, a todos, segundo conta Frutuoso, foi Fernão
Nunes apontando os pecados que haviam cometido, sendo por isso facilmente acreditados não só pelo povo ignorante, mas também
pelos juízes, vereadores e homens principais da ilha. Em Nossa Senhora da Graça, onde por mandado dos profetas Fernando e
Felipa, o povo, com o vigário e clérigos, se dirigiu dias depois em procissão, disse Fernão Nunes coisas tais «que todos andavam
confusos, e espantados, e desconsolados sem comer; as mulheres deitaram ao mar todas as posturas do rosto, sem tractar dos
vestidos preciosos, antes os pobres, que traziam, despiam, e ficavam em fralda de camisa, como fazendo penitencia, sem comer
senão pouco, e em pee.»
Estando um dia pregando o dito Fernão Nunes, «muitos se confessaram publicamente de peccados graves e abomináveis que
tinham feito», e como um tal João Calaça, tabelião, ousasse rezar per um livro na ocasião da pregação, disse o profeta que «aquelle
que rezava tinha o demonio no corpo» e logo saltaram sôbre o Calaça muitos homens e o mataram. Mandou o profeta que levassem
o morto para a ermida de S. Sebastião e lá o deixassem, porque antes de três dias devia ressuscitar.
Andava a população tão cega e assustada com o que dizia o profeta que ninguém cuidava de suas fazendas e negócios e «as
mulheres muito fidalgas e nobres, diz Frutuoso, hiam á egreja, em camisa, perante seus maridos, com cestos grandes de vimes....
cheyos de leite escorrido, queijos, e pão, e outros alimentos, para comerem os que estavam na egreja de noite e de dia a ouvirem a
pregação do propheta».
«Estando uma noite o propheta Fernando em casa da propheta Philippa Nunes, onde estava muita gente, mulheres honradas e
homens todos descalços, postos de joelhos, em que entravam hum Rodrigo Alves, homem mui honrado e rico, e sua mulher, e
Manuel de Crasto, e sua mulher, e outras muitas pessoas e mulheres nobres, elle, perante todos, chegou á mulher de Rodrigo Alves,
e lhe metteu a lingua na boca, dizendo a seu marido: Peza-te Rodrigo? E elle lhe respondeu: Deus o sabe. E então o fez pôr de
joelhos diante de si, e lhe deo duas bofetadas. E dice a Manuel de Crasto que fosse buscar pão e vinho para comerem os que alli
estavam. O qual foi, e trouxe um saco de pão e um barril de vinho, que todos comeram e beberam. Depois de comer mandou a
Manuel de Crasto e sua mulher que se despissem, o que logo fizeram, ficando em camisa, sem ninguem olhar nem attentar para
isso, como se fosse o estado de innocencia; e assi meyos nus, os mandou que fossem a Sancto Spirito, e que dahi hiriam para o
Paraizo. E elles se foram despidos, sendo inverno, em Fevereiro, e assi estiveram na dita ermida do Spirito Sancto até ante manhaa,
em que então se foram para casa e não para a Gloria, como o propheta dicera.»
Num campo de cevada, empregou o Profeta homens e mulheres na operação da debulha, e afirma-se que os eclesiásticos na
confissão, por ocasião da missa, diziam: S. Pedro, S. Paulo e o Beato Profeta Fernando, e assim o nomeavam no intróito e orações.
Conhecidos na Madeira os factos anormais que se estavam dando no Porto Santo, partiu para aquela ilha o corregedor João de
Afonseca, acompanhado de dois escrivães, o qual fêz prender e enviar para a cadeia de Machico os dois profetas. Também foram
presos o vigário e clérigos, por haverem tomado a serio os embustes de Fernão Nunes, e bem assim o pregoeiro e porteiro do
profeta, um tal Francisco Fernandes, castelhano.
A devassa a que procedeu o corregedor durou até 10 de Março de 1533, tendo o povo do Porto Santo estado durante dezoito dias
sujeito á influencia e desatinos do profeta Fernando, o qual era filho dum homem honrado chamado Bartolomeu Nunes, residente
no sitio do Farrobo, da parte norte daquela ilha.
«Tanto que foram trazidos os presos á vila de Machico, conta Frutuoso, Philipa Nunes, que dantes fingia que não comia, logo
comeu depressa, dizendo que não sabia nada do que lhe diziam que fizera. O corregedor os mandou ambos presos a El-Rey, com a
devaça, que o escrivão Henrique Coelho levou, e a deo a Sua Alteza, que lho teve muito em serviço, com que foram sentenciados os
prophetas que ambos estivessem á porta da See de Evora em huma escada, cada um com sua carocha de papel com letras que
diziam: Propheta do Porto Santo, e com um cirio aceso cada hum na mão em quanto se dicesse a missa da terça, ella vestida, e elle
nu da cinta para cima, e fossem soltos, visto ser obra do Demonio: e, quanto á morte de João Calaça, que se não procedesse contra
pessoa alguma por serem tambem obras do Demonio, que os cegou a todos. E condemnou El-Rey, a todos os moradores da Ilha do
Porto Santo, por crerem as ditas abusões dos prophetas falsos, em duzentos cruzados para huma obra da dita ilha, s. c. os Juizes,
Vereadores e pessoas da governança da ilha, cada hum em dez cruzados, e o outro povo segundo tivesse a fazenda; os quaes
duzentos cruzados se pagaram. E estando na dita ilha o escrivão Henrique Coelho, se arrecadaram e se entregaram a Estevão
Calaça, nella morador, para se gastarem em cousas necessárias á terra, como El-Rey mandava. Os clerigos foram condemnados em
penas e castigos por Antonio Machado, que então era em Portugal, Provisor da See do Funchal, por estar vacante...
propheta Fernando dizem alguns que endoudeceu ou se fingiu doudo, para melhor se livrar; outros, que morreu preso no Limoeiro;
outros, que depois de sentenciado e penitenciado, se foi em romaria a terras estranhas, fazendo penitencia; e finalmente nunca
mais foi á ilha, nem apareceo, nem se vio. Mas a propheta casou, e viveo em Portugal, sem tornar mais ao Porto Santo, onde tinha
feito cousas não santas.
Do
«Alguns por este feito, querem alrotar dos moradores da ilha do Porto Santo, os quaes não tem culpa de seus antepassados; mas
ainda que a tiveram, não he oficio de homem christão humano alrotar das culpas alheias, pois pode cahir em outras semelhantes;
que o cordão que está torcido, muitas vezes se destorce; e quem telhado de vidro tem não deve atirar pedras a telhado alheyo».
Do livro «Diocese do Funchal», recentemente publicado, extraímos os seguintes períodos: As «Saudades da Terra» referem-se
longamente ao estranho caso ocorrido no ano de 1533, na vizinha ilha do Porto Santo, em que Fernão Bravo e Filipa Nunes, tio e
sobrinha, individuos da classe popular e destituídos de qualquer cultura, se arvoraram em «profetas», revelando os actos ocultos e
segredos recônditos de muitas pessoas, com tal poder de sugestão, que até o próprio clero da ilha chegou a dar-lhes crédito e a
assistir às «pregações», que esses «videntes» faziam à multidão tomada de medo e da maior admiração. O extraordinário
acontecimento causou uma notável sensação e teve até grande repercussão no continente português. Foi o religioso franciscano e
afamado pregador Fr. Gaspar Gato que, indo àquela ilha e pondo-se em contacto com os «profetas», revelou toda a artificiosa
fraude desses dementados, que vieram presos para a Madeira e foram julgados e condenados. O clero do Porto Santo sofreu as
consequências da sua extrema credulidade, sendo também preso e severamente castigado pela respectiva autoridade eclesiástica,
que era o governador do bispado, achando-se então vaga a diocese pela morte do prelado D. Diogo Pinheiro.
Profundidades
A certos lugares de altura considerável, de relativa extensão e de forma aproximadamente circular, chamou o dr.
Álvaro R. de Azevedo profundidades, por lhes não quadrar a denominação genérica de vales. Faz menção das profundidades do
Curral das Freiras, na freguesia deste nome e de todas a mais notável, a do Fanal, nas serras da freguesia da Ribeira da Janela, a do
Rabaçal, no vale da referida Ribeira, e a do Fõjo, próximo da Praia Formosa, na freguesia de São Martinho.
De todas estas profundidades se ocupa o dr. Azevedo com certa largueza no Diccionario Universal Portuguez Ilustrado.
Progressista (O)
Iniciou a sua publicação a 28 de Agosto de 1851, tendo saído o n.° 142, que foi o ultimo, a 15 de Maio de 1854.
Progresso (O)
Saíram setenta e cinco números deste jornal, sendo o primeiro a 24 e Julho de 1879.
A 31 de Dezembro de 1916, iniciou a sua publicação outro jornal com o mesmo titulo, que conhecemos oitenta e oito números, tendo
aparecido o ultimo em Junho de 1919.
Proletário (O)
Deu o primeiro numero a 8 de Julho de 1922.
Proselitismo Protestante
Como já dissemos em outro lugar desta obra, a colónia inglesa começou a ter importância entre nós
nos fins do século XVI. Dessa época até a implantação do governo representativo não nos consta que os membros dessa colónia ou
de qualquer outra nacionalidade protestante tentassem promover entre nós a propaganda da sua religião, fazendo prosélitos no seio
das populações madeirenses. Tinham igrejas privativas do seu culto, que eram apenas frequentadas pelos seus adeptos, com
absoluta exclusão dos naturais. E em abono da verdade se deve dizer que em geral os súbditos estrangeiros residentes na Madeira
como comerciantes ou doentes, e ainda os visitantes que procuram a benignidade do nosso clima ou as belezas da nossa
privilegiada natureza, não se entregam á propaganda dos seus ideais religiosos nem tentam demover os católicos da pratica da
religião que estes professam. Até vários estrangeiros protestantes têm protegido algumas obras católicas e ainda auxiliado a
construção e a reparação de igrejas e capelas, como fez John Howard March reedificando a igreja paroquial do Santo da Serra.
O que dito fica não exclui o facto incontestável de haverem alguns propagandistas protestantes de nacionalidade inglesa tentado
fazer nesta ilha por varias vezes e com maior ou menor actividade o proselitismo da sua religião, como emissários das chamadas
sociedades bíblicas, tendo em algumas ocasiões levado a perturbação e a desordem a algumas freguesias desta ilha. Foi
principalmente em 1838 que se iniciou essa propaganda. Já antes se tinham feito varias tentativas, que resultaram inteiramente
infrutuosas. Foi o dr. Roberto Kalley quem verdadeiramente conseguiu fazer entre nós uma propaganda eficaz. Para isso
contribuíram poderosamente as qualidades pessoais de que era dotado, a sua arrebatadora eloquência, a sua caridade para com os
pobres e, mais que tudo, a sua abalizada proficiência na arte de curar, pois que era um medico distintíssimo e a todos atendia
gratuitamente. Era principalmente nisso que estava o segredo da eficácia da sua propaganda. Já dela nos ocupámos e das suas
funestas consequências a pág. 207 e seguintes, do II volume.
A saída precipitada do dr. Kalley desta ilha em 1846, onde não mais voltou, não acabou com os adeptos do protestantismo entre os
habitantes dalgumas freguesias da Madeira, sobretudo no Santo da Serra, em Machico, em S. Roque e em Santo António. A
propaganda tinha lançado raízes e o proselitismo nunca mais deixou de exercer-se nesses e outros centros, embora em condições
mais moderadas e sem o entusiástico fervor que lhe imprimira o dr. Kalley. A verdade, porém, é que os resultados dessa
propaganda não são grandes. Há mais de 90 anos que o célebre médico escocês abandonou esta ilha, e o numero de prosélitos,
longe de aumentar, tem consideravelmente diminuído. Apesar dos propagandistas disporem de poderosos meios de atracção, como
sejam a imprensa, com a publicação dum jornal e a difusão de inúmeros folhetos, a sustentação de escolas, a distribuição de
dinheiro e vestuário até, é todavia certo que o numero de adeptos das ideias protestantes não irá além duma centena de indivíduos
no meio duma população de 169000 habitantes (1921). Esse numero seria muito maior, se porventura se desse credito aos
relatórios enviados ás sociedades bíblicas e outras associações estrangeiras que fomentam essa propaganda, mas a verdade é que
tais relatórios são redigidos em conformidade com os interesses e conveniências dos que neste arquipélago mantêm essa mesma
propaganda.
O proselitismo exercido pelo dr. Kalley durou aproximadamente o período de oito anos, que decorre de 1838 a 1846, com excepção
dumas curtas viagens que o celebre propagandista fez a Inglaterra. Com a sua brusca saída da Madeira, a propaganda protestante
quase desapareceu entre nós, não somente por lhe faltar o seu principal esteio, mas ainda pelo fundado receio de que as iras
populares se pudessem novamente manifestar com as lamentáveis violências do dia 9 de Agosto de 1846.
A propaganda tornou-se menos intensa e mais cautelosa, mas não deixou de fazer-se ininterruptamente e de modo especial nas
freguesias de Machico e Santo da Serra, e também nalguns pontos do Funchal. Pouco depois da fuga precipitada do dr. Kalley,
apareceu o ministro protestante Hewitson, que iniciou uma propaganda moderada, ou, antes, veio alimentar e conservar os frutos
do proselitismo do medico escocês. Em 1850, teve o governador civil José Silvestre Ribeiro que intervir nas tentativas que um tal
Wilkinson fazia em Machico para arrebanhar vários indivíduos para a seita calvinista.
O ardor da propaganda esfriou então, tomando um certo desenvolvimento alguns anos depois, quando, por 1860, foi estabelecida
uma igreja calvinista no Funchal. Uma nova e mais activa propaganda se deu por 1875, que atingiu ainda maior incremento depois
do ano de 1894. Os ministros Angus e Buchanan foram os principais agentes dessa propaganda. É certo, porém, como já fizemos
notar, que tem sido sempre de apoucados resultados entre nós o proselitismo calvinista, a não ser a propaganda feita pelo dr.
Roberto Kalley, devido especialmente ás eminentes qualidades que o caracterizavam e á maneira como sabia dirigir-se ao povo
desta ilha.
É um tributo prestado á verdade dizer aqui que a colónia inglesa desta ilha nos últimos anos não tem associado a essa propaganda a
sua acção e a sua influencia, que não são pequenas, e que até por vezes tem ostensivamente reprovado a conduta de certos ministros
calvinistas, pretendendo aliciar os habitantes desta ilha para a pratica dos seus ideais religiosos.
O artigo Kalley (Roberto) inserto a pág. 207 do vol. II oferece a este assunto outras interessantes informações, que importa
consultar.
Prostituição
A prostituição já no século XV existia na Madeira, como claramente se vê de varios diplomas antigos e duma
representação dirigida à Câmara Municipal do Funchal em 8 de Outubro de 1495, em que se pedia que a mancebia «fosse tirada de
junto do mar, porque os de fora saltavam com as mancebas, faziam arruido e se acolhiam aos bateis, e a justiça os não prendia». A
mancebia era o local destinado á residência das prostitutas.
Estabelecia o foral da capitania do Funchal, outorgado pelo rei D. Manuel em 6 de Agosto de 1515, que tôda a pessoa que fôsse
achada «na mancebia com armas, assim de dia como de noite, perdesse as armas e pegasse de pena 500 réis, e que todo o homem
casado que se provasse ter mancebia «theuda e mantheuda» pagasse a quarentena de metade da fazenda que tivesse.
Desconhecemos a época em que a sífilis apareceu na Madeira, mas é licito supor que essa horrível moléstia fosse já conhecida entre
nós nos fins do século XV ou princípios do século XVI. Se os marinheiros dos navios que frequentavam o nosso porto «saltavam
com as mancebas» e se recolhiam aos batéis, sem que a policia os pudesse prender, nada mais natural do que admitir o contagio e a
propagação dum mal que, já naqueles tempos, era conhecido e temido na Europa. O dr. Sloane, que visitou esta ilha em Outubro de
1687, encontrou manifestações sifiliticas nalgumas pessoas que o consultaram.
Nos princípios do segundo quartel do século XIX, segundo se vê dos livros da Câmara Municipal, havia meretrizes domiciliadas nos
sitios mais centrais da cidade, e especialmente na rua do Monteiro, lendo-se num documento da época que provocavam aí
frequentes escândalos, o que levou a Municipalidade, em sessão de 9 de Dezembro de 1835, a recomendar ao Administrador do
Concelho a máxima vigilância sobre essas mulheres, mandando-as retirar dos referidos sítios, quando isso se tornasse necessário.
A inspecção das meretrizes foi estabelecida em Portugal por uma ordem do intendente Pina Manique, datada de 2, de Abril de 1781,
mas na Madeira só desde 1854, cremos nós, é que essas mulheres estão sujeitas à vigilância da ciência, apesar de Mousinho de
Albuquerque, em 1834, e do conselheiro José Silvestre Ribeiro, em 1846, terem lembrado a conveniência de as submeter
regularmente a visitas sanitárias.
Em 5 de Novembro de 1834, recebeu a Câmara um oficio do Prefeito da Província, em que se aludia ao «mal venereo que existe em
grande numero de mulheres publicas», sendo resolvido pagar á Comissão Administrativa do Hospital da Misericórdia «por esta só e
única vez», as despesas feitas por ela com o tratamento dessas mulheres desde 21 de Outubro até 4 de Novembro do mesmo ano.
Em 8 de Março de 1836, mandou o Governo dar 1:000$000 réis á Comissão da Misericórdia do Funchal para auxiliar o curativo
das meretrizes afectadas de moléstias venereas, recomendando á mesma Comissão que empregasse todos os esforços para tratar no
hospital, e com os recursos deste, os pobres que sofressem daquelas moléstias. Na portaria que estabeleceu estas disposições,
lembrava-se que a Comissão recorresse a subscrições para angariar os meios precisos para o tratamento dos referidos pobres.
Foi depois da aluvião de 1856 que as meretrizes principiaram a estabelecer-se nas ruas Ribeirinho de Baixo e dos Medinas; antes só,
eram estas ruas habitadas por pessoas honestas, pertencendo algumas delas às principais famílias da cidade. Num prédio da parte
sul da rua do Ribeirinho de Baixo, existia em 1840 numa escola de rapazes, e em 1819 estava a Escola Lancasteriana acomodada
numa casa na mesma rua, onde todavia só permaneceu durante poucos tempos.
Proteccionismo Sacarino
As leis de 4 de Fevereiro de 1876, 18 de Maio de 1881 e 22 de Março de 1886 isentaram do pagamento
de direitos, as duas primeiras, durante cinco anos e a ultima durante três anos, o açúcar madeirense importado em Portugal e nos
Açores, mas o verdadeiro proteccionismo sacarino só se iniciou com a publicação do decreto de 30 de Dezembro de 1895, que criou
para as fabricas que se matriculassem a obrigação de pagar as canas ao agricultor pelo preço de 400 e 450 réis por 30 quilogramas,
dando ás mesmas fábricas, em compensação deste encargo, o privilegio de pagarem pelo melaço importado para álcool destinado a
vinhos, o direito de 30 réis, em vez do de 60 réis por quilograma. 0 açúcar da Madeira, que, pelos preliminares da pauta de 1892,
pagava a quarta parte da taxa no Continente e nos Açores, ficou livre dessa imposição.
O decreto de 24 de Setembro de 1903 acrescentou 50 réis aos preços mínimos de 30 quilogramas de cana, em troca de novas
concessões feitas ás fábricas, e a lei de 24 de Novembro de 1904 instituiu em verdadeiro monopólio a industria do açúcar e do álcool
na Madeira, subrogando o exercício desta industria nos fabricantes matriculados W. Hinton & Sons e José Júlio de Lemos.
O mencionado decreto de 1903 baixou de 30 a 6 réis por quilo o direito sôbre o melaço estrangeiro devido pelos fabricantes, ao
mesmo tempo que lhes concedia «a faculdade de tirar dessa materia prima, antes da destilação do álcool para vinhos, o pouco
açucar ainda aproveitavel, para se gastar na Madeira. Este, porém, seria descontado no total do que fosse extraído da cana, cuja
parte abatida, se em vez de se vender na ilha, fosse tambem exportada, pagaria os direitos e demais impostos gerais nas alfandegas
destinatarias».
Pelo referido diploma, deixou o açucar madeirense de ter entrada franca nos Açores, para onde fôra exportado algum até 1903.
O monopólio estabelecido pela lei de 24 de Novembro de 1904 e que a lei de 9 de Setembro de 1908 não modificou de modo
notável, devia durar por 15 anos, mas tendo surgido uma reclamação da firma W.
m
Hinton & Sons contra uma disposição do
regulamento de 11 de Março de 1909 que restringia a venda do álcool para o tratamento de vinhos, viu-se o Governo forçado, após
longas e demoradas negociações, a publicar o decreto de 11 de Março de 1911, destinado a regularizar a situação embaraçosa criada
pelas exigências da mesma firma.
A reclamação a que nos referimos não foi a ultima, tendo-se tornado celebre a que resultou da divulgação do disposto na base 23 da
lei de 15 de Agosto de 1914, por causa do ruído que produziu em todo o país.
O decreto de 11 de Março de 1911 estabeleceu quatro zonas baseadas na graduação das garapas da cana sacarina, manteve os preços
de 450 a 500 réis do decreto de 1903, declarou livre de quaisquer direitos o açúcar madeirense destinado ao continente português,
tributou uma vez mais os açucares estrangeiros e permitiu ás fabricas matriculadas importar anualmente das colónias até 550
toneladas de açúcar com o abatimeuto de 50 por cento nos respectivos direitos.
Outras concessões foram feitas ás fábricas matriculadas, ficando estabelecido, porém, pelo mesmo decreto, destinado a vigorar até
31 de Dezembro de 1918, que a quantidade de álcool necessária ao tempero dos vinhos seria de 55 litros por cada pipa de 500 litros.
O regulamento para a execução do decreto com força de lei de 11 de Março de 1911 foi aprovado pelo decreto de 15 de Maio de 1912.
Embora a antiga Companhia Fabril de Açúcar Madeirense estabelecesse em 1872 os preços de 550, 600 e 650 réis por cada 30
quilogramas de cana, é bem sabido que tais preços não se mantiveram, e que, antes de decretado o proteccionismo, raras vezes era
aquele produto vendido a mais de 300 ou 320 réis.
Sob os diplomas proteccionistas que deixamos mencionados, melhorou bastante a situação de muitos proprietários e agricultores,
visto a cultura da cana se haver tornado muito mais rendosa, mas, não tendo os mesmos diplomas fixado também o preço dos
açucares, resultou dai estarem este género de primeira necessidade ir encarecendo constantemente na Madeira, tendo chegado
mesmo a dar-se o caso bastante curioso de por largo tempo as refinarias do Continente haverem comprado o açúcar madeirense por
preços mais baixos do que os consumidores do Funchal.
A industria da fabricação do açucar foi a partir de 1 de Janeiro de 1920 declarada livre pelo decreto n.º 5492 de 2 de Maio de 1919,
mas este decreto, que contém certas disposições de evidente utilidade, apresenta outras que, como já tivemos ocasião de dizer a
pág. 226 do volume 1 desta obra, não agradaram nem á industria nem á agricultura. O decreto n.° 6521, de 9 de Abril de 1920,
modificou ou eliminou algumas dessas disposições, e, finalmente, o decreto n.° 8089, de 3 de Abril de 1922, entregou a execução do
regímen sacarino da Madeira á Estação Agricola da 9.ª Região, exceptuando as açúcar e álcool, privativas do Ministério das
Finanças. A comissão técnica de fiscalização do regimen sacarino da Madeira é, segundo o mesmo decreto, constituída pelo director
da Estação Agrícola da 9.ª Região, pelo engenheiro da Circunscrição Industrial e pelo chefe da Repartição Distrital de Fiscalização.
Pretendeu-se, em Maio de 1922, fazer reviver o regime proteccionista, ou, pelo menos, garantir um preço remunerador para a cana,
em troca da autorização às antigas fábricas matriculadas para venderem o açúcar ao preço de 1$65, mas apesar das coisas
parecerem bem encaminhadas a principio, chegando a ser proibido pelo Governo o despacho de cerca de 600 toneladas de açúcar
vindo do Brasil, finalmente nada chegou a ser decretado no sentido desejado pelos proprietários das mesmas fábricas, para o que
muito concorreu a guerra que a essa pretensão fizeram um importante periódico da capital e também a diferentes classes da
Madeira que, não vivendo da agricultura, só desejam que o açúcar era vendido por preços ao alcance de todas as bolsas.
Vid. Cana Sacarina e Hinton (Questão).
Provedor das Capelas
V.Juiz dos Resíduos e Capelas (II-185).
Provedor do Concelho
Foi F. Januário Cardoso de Melo o primeiro, e cremos que o único individuo, que exerceu este cargo no
Funchal, tendo sido nomeado por decreto de 21 de Junho de 1834 e tomado posse do mesmo cargo, nos Paços da Prefeitura da
Província a 16 de Agosto do mesmo ano. Em 1835, passaram os provedores a ter a denominação de administradores do concelho.
Provedor da Fazenda
Era um dos funcionários mais graduados que existiam no Funchal, sendo subordinado ao Conselho de
Fazenda, tribunal criado por Filipe II de Espanha, em 20 de Novembro de 1591, e confirmado por lei de 22 de Dezembro de l761.
Tinha a seu cargo a contabilidade da receita e despesa dos dinheiros públicos, e dirigiu a Alfandega do Funchal até 1775, como ficou
dito a pág. 34 do vol. I deste Elucidário. A carta régia de 2 de Agosto de 1641 mandou que os juízes e oficiais da Câmara lhe
prestassem auxilio sempre que preciso fosse, e determinou o mandado do Conselho da Fazenda de 11 de Janeiro de 1701 que
pudesse chamar quaisquer oficiais ou soldados da milícia para depoimentos em matéria da fazenda real, independentemente de
autorização do Governador. Podia mandar prender qualquer pessoa, sem licença do corregedor, e mandar vir da cadeia qualquer
preso..., sendo assim preciso para qualquer diligencia da real fazenda, segundo se vê no mandado do Conselho da Fazenda de 10 de
Março de 1735.
A Provedoria da Fazenda foi extinta por carta régia de 6 de Abril de 1775, sendo substituída pela Junta da Real Fazenda, a qual já
nos referimos neste Elucidário.
O funcionário que desempenhava o cargo de provedor na época da extinção deste lugar, ficou sendo juiz da Alfandega, de harmonia
era as determinações da Junta da Real Fazenda de 21 de Agosto de 1775. V. Junta da Real Fazenda.
Provedor da Fazenda dos Defuntos e Ausentes
Houve outrora este cargo no Funchal, tendo sido o corregedor José Caetano
de Paiva Pereira, nomeado em 1804, o último provedor que tem o respectivo diploma registado nos livros da Camara Municipal.
Psilomelano
Hidrato de manganés. Encontra-se na ilha do Porto Santo.
Pterégio
Esta moléstia, a que também chamam unha do olho, foi apontada como frequente na Madeira, ha cerca de 170 anos, pelo
dr. Heberden, médico ingles, tendo-nos declarado o dr. Alfredo Ernesto Rodrigues, distinto especialista em moléstias de olhos, que
ela continua a aparecer em larga escala na ilha, sendo caracterizada por um engrossamento de parte da conjuntiva, que se
manifesta quase sempre no angulo interno do olho (1921).
Quadra (D. Manuel de la)
Nasceu em Espanha no ano de 1835 e morreu no Funchal a 3 de Abril de 1903. De 1897 até a datas do
seu falecimento, serviu como professor contratado na nossa Escola Industrial. Foi um distinto pintor retratista, existindo nesta ilha
vários quadros a óleo devidos ao seu pincel.
Quarenta Mártires
Vid.Azevedo (Beato Inácio de ).
Quebradas
É principalmente devido à acção das chuvas que se dá com frequência nesta ilha o desabamento de terrenos que tem o
nome vulgar de quebradas. Parece-nos que este vocábulo conserva entre nós uma significação especial, que é completamente
desconhecida em outras regiões do nosso país. O notável acidentado do nosso solo em que vales profundos entestam com
montanhas alterosas, favorecido por vários agentes atmosféricos, explica esse desabamento de rochas e terras, que por vezes
abrange uma grande extensão e em algumas circunstâncias causa perda de vida e grandes prejuízos materiais. As estradas abertas
nos flancos dos montes com rochas sobranceiras, são de vez em quando destruídos ou tornadas intransitáveis pelas quebradas que
se despenham do alto. O mesmo acontece com as levadas de irrigação.
As chamadas fajãs (Volume II, pág. 7) quer do interior quer do litoral marítimo, tem como origem a queda de grandes quebradas.
Estas já raramente caiem, mas no inverno são frequentes as pequenas quebradas, que ai ocasionam estragos consideráveis. Muitas
delas datam de época anterior á descoberta, como a do Jardim do Mar, havendo algumas de formação mais recente, como a do
Lugar de Baixo (Volume II, pág. 285) e outras.
Quedas de Água
As mais conhecidas da ilha da Madeira são as seguintes: a do Eiró, perto da Fajã dos Padres; a do Ribeiro da
Lombada do Esmeraldo; a do Ribeiro de S. Tiago, perto da Ponta do Sol; a do Ribeiro do Ledo, perto do Loreto; a do Paul do Mar; a
de um dos afluentes da Ribeira do Tristão;, a da Ribeira de João Delgado, perto do Seixal; as da Ribeira do Inferno; a de Água de
Vento, no Seixal; as do Poço das Cales, Poço da Furna, Poço Pulido e Poço do Passassol, no vale de S. Vicente; a do Risco, no
Rabaçal; as das proximidades do Serrado das Ameixieiras; a da Madre de Água, na Ribeira de Santa Cruz; as do Caldeirão Verde, do
Silveira, do Lombo e outras na Ribeira de S. Jorge ou proximidades dela; as da Ribeira de João Gomes; as da Ribeira de Santa
Luzia, a maior das quais é a do Poço do Cabo da Ribeira; a do Ribeiro do Pisão, no Monte; e a do Ribeiro e da Lage, além do Ribeiro
Frio.
Queima de Documentos Constitucionais
Tendo requerido o juiz do povo á Câmara Municipal do Funchal, em 29 de
Setembro de 1833, que fizesse recolher e queimar publicamente «como actos indignos e vergonhosos dum povo fiel» todos os
documentos e ordens emanados do Governo Constitucional, foi essa petição deferida pela mesma Câmara, realizando-se a
cerimónia da queima no dia 4 de Outubro do dito ano, pelas 4 horas da tarde, no largo da Sé, na presença de muito povo e dos
corpos militares de I.ª e 2.ª linha. Os documentos queimados, segundo diz o Pregador Imparcial, foram «as actas das eleições e
todos os demais autógrafos e procurações dos deputados substitutos», levantando o juiz de fora alguns vivas a D. João VI, rei
absoluto, depois de terminada a cerimónia, os quais foram calorosamente acompanhados pelo povo.
Queimada
É um sítio povoado da freguesia de Água de Pena pertencente ao concelho de Machico. Neste sítio e no ano de 1924,
mandou Francisco de Freitas Correia edificar uma capela dedicada a Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, a primeira desta
invocação que se construiu na Madeira.
Queimada (Ponta da)
Fica esta saliência da costa marítima situada entre as freguesias de Machico e Água de Pena.
Queimada de Cima (Rua da)
) Esta via publica estabelece comunicação entre a rua de João Tavira e a dos Ferreiros, ou do
Comercio. Teve noutro tempo o nome de rua do Oliveira e depois o de rua Afonso Vaz.
Paralela a ela e a pouca distância, ficam, ao norte, a rua Gomes Freire (antiga rua do Bispo) e ao sul, a rua da Queimada de Baixo.
Nestas ruas se encontra a maior parte dos estábulos destinados ao alojamento dos cavalos de aluguer e dos bois e muares
empregados na condução dos carros e corsas. A imprensa local tem-se ocupado largamente e por muitas vezes da remoção destes
estábulos da parte mais central da cidade, mas apesar disso e das diligências empregadas por algumas vereações, ainda não foi
possível afastar dali aqueles verdadeiros focos de infecção, que tanto afeiam o local e muito concorrem para a insalubridade
daquelas ruas (1921).
Queimadas
Sítio pitoresco na serra da freguesia de Santana, onde se encontra uma pequena casa de abrigo para os viandantes e
que é ponto obrigado de passagem para os que pretendem visitar o surpreendente e arrebatador lugar do Caldeirão Verde, situado
na freguesia de São Jorge.
Queimado (Pico)
Lugar e elevação montanhosa sensivelmente eqüidistante do Lombo do Mouro e do Monte Medonho nos limites
da freguesia da Ribeira Brava e de S. Vicente.
Quina Vermelha (Cinchona succirubra, Pav .)
(Cinchona succirubra, Pav
.). Rubiacea dos Andes, do Peru e do Equador, introduzida na Madeira em 1867 pelo
falecido botânico João Maria Moniz. De 20 exemplares que vieram então para a ilha, um só existia em 1909, numa quinta um pouco
acima da igreja de Santa Luzia, onde florescia todos os anos, sem todavia dar sementes férteis. Algumas quinas que foram plantadas
na freguesia do Monte, tiveram aí pouca duração. Segundo o falecido R. T. Lowe, as localidades da Madeira onde a cultura da quina
vermelha se poderia ensaiar talvez com bom resultado, são as Ribeiras da Metade e da Boaventura, a Lombada das Vacas, em S.
Vicente, o Montado dos Pessegueiros, na Ribeira do Inferno, a Ribeira Funda, nas vizinhanças do Seixal, etc., etc.. A
Cinchona
calisaya
, mencionada numa obra sobre o clima da Madeira, como existindo no jardim do hospício da Princesa D. Maria Amélia,
nunca foi cultivada na nossa ilha.
Quincentenário do Descobrimento da Madeira
Como em outro lugar já dissemos (V. a publicação intitulada
V Centenário
do Descobrimento da Madeira
, pág. 2), adoptara-se geralmente a data de 1419 ou 1420 como a mais provável do descobrimento
deste arquipélago, trilhando-se a esteira das antigas crónicas e nomeadamente a época que Gaspar Frutuoso fixara para esse
acontecimento, que também, por sua vez, fora seguida pelo ilustre e erudito-anotador das Saudades da Terra. Em 1920, surgiu a
publicação dum interessante opúsculo intitulado O Reconhecimento da Madeira, cuja autoria pertence ao advogado e jornalista Dr.
Manuel Gregório Pestana Júnior, em que se abre uma nova rota para a fixação da data do descobrimento. Ter-se-ia então dado esse
notável acontecimento no período decorrido de 1441 a 1425. Embora se possa discordar das conclusões a que chegou o Dr. Pestana
Júnior, é no entretanto indiscutível que o seu trabalho representa um aturado e consciencioso estudo, que conduzirá porventura a
novas investigações e talvez a mais seguras e terminantes afirmativas sobre o assunto.
A divergência de autorizadas opiniões acerca da fixação dessa data imemorável e o não ter realizado, por motivos que nos abstemos
de classificar, a comemoração centenária do grande acontecimento no ano que as antigas crónicas lhe assinalaram, deixaram campo
aberto para o adiamento da celebração do quincentenario do descobrimento, vindo finalmente a realizar-se essa comemoração
solene nos fins do ano de 1922.
Foi o major João dos Reis Gomes, um distinto filho da nossa terra e o mais ilustre dos seus escritores e jornalistas, que, no Diário
da Madeira, de que é director (1921), lançou e advogou a ideia da celebração do centenário, que elaborou as bases dessa
comemoração, que iniciou os seus actos preparatórios, que presidiu á direcção de muitos dos números do programa e que sempre
acompanhou e superintendeu, ás vezes nos mais pequenos detalhes, em todos os trabalhos dos diversos festejos que se realizaram
nesta cidade nos fins de Dezembro de 1922 e princípios de Janeiro de 1923. Se é certo que o major Reis Gomes foi a alma dessas
comemorações festivas, é também indubitável que teve valiosos e dedicados auxiliares, por ele mesmo escolhidos, e que,
identificando-se com o seu pensamento e com a sua acção, prestaram a celebração do quinto centenário da descoberta os mais
brilhantes e assinalados serviços. Foram eles os antigos professores da nossa Escola Industrial - Cândido Pereira e Emanuel
Ribeiro, actualmente em serviço nas escolas industriais da capital, que, pondo em relevo as suas eminentes qualidades de artistas,
as suas grandes faculdades de trabalho e a incansável actividade de que são dotados, deram aos festejos um cunho indelével de
magnificência, de brilho e de originalidade, que provocaram a maior admiração e os mais calorosos louvores, não somente dos
madeirenses mas ainda de todos os forasteiros que, por aquela ocasião, visitaram a nossa ilha (1921).
Os festejos revestiram a maior imponência e o mais desusado brilhantismo, apesar da sistemática e obstinada recusa do governo da
Metrópole e dos seus representantes neste distrito em aderirem e se associarem a essas patrióticas manifestações de regozijo. Ao
governo central, corria especialmente a obrigação de decretar a oficialização das festas do centenário e de publicamente se associar
a essas comemorações, pois que elas, mais que tudo, solenizavam o inicio glorioso das nossas descobertas e conquistas marítimas,
único facto que verdadeiramente nos faz ocupar um lugar de destaque na historia da civilização dos povos modernos.
Como dissemos na breve Advertência Preliminar desta obra, entendíamos que esta celebração para ser completa, teria que revestir
uma feição de carácter nacional e não se restringir apenas aos apertados limites duma consagração regionalista, a dentro do
isolamento e da distancia a que ficam estas afastadas ilhas. Perderam-se ou foram de todo esquecidas as palavras com que na
imprensa da capital se fez recordar o dever dessa comemoração, chamando-se especialmente a atenção da Academia das Ciências
de Lisboa, e, de modo muito particular, da Comissão encarregada de promover a celebração dos centenários das nossas conquistas
e descobertas, que existia e funcionava no seio da mesma Academia. Se a conquista de Ceuta, por ser a primeira realizada além das
fronteiras continentais, mereceu uma condigna e solene comemoração, não podia também ser esquecido o descobrimento deste
arquipélago que verdadeiramente assinala o ilícito da nossa brilhante odisseia de navegantes e de futuros dominadores dos mares
em ambos os hemisférios.
As bases do programa das festas centenárias, elaboradas pelo major J. Reis Gomes, foram as seguintes, que, nas suas linhas gerais,
se executaram, a parte as pequenas modificações que as circunstâncias do momento aconselharam:
I.° – Recepção no Palácio do Governo Civil, no da Junta Geral e no da Câmara Municipal do Funchal.
2.° Romagem ao túmulo de Gonçalves Zargo, na igreja de Santa Clara.
3.° Baile da quinta Pavão, exibindo-se danças dos fins do século XV, executadas por pares trajando á moda dessa época.
4.° Serenata em barcos adornados no estilo da mesma época, realizada na enseada da Pontinha, no intervalo das duas partes que
compõem o programa do baile indicado no n.° 3, - havendo fogos aquáticos e presos na fortaleza do ilhéu e iluminações delineando
os contornos da Pontinha e desta ultima fortaleza.
5.° Recita de gala no teatro «Dr. Manuel de Arriaga, representando-se a peça regional Guiomar Teixeira, do major J. dos Reis
Gomes cuja acção se refere aos primeiros tempos do Descobrimento, sendo a sala do espectáculos decorada em estilo medieval.
6.° Te-Deum na Catedral e, após o lançamento da primeira pedra para o monumento de J. Gonçalves Zargo, na Avenida «Dr.
Manuel de Arriaga», cuja maquete, da autoria do escultor madeirense Francisco Franco, foi mandada executar e custeada pela
Junta Geral do Distrito.
7.º Jogos hípicos da época comemorado no Campo do Almirante Reis.
8.° Jogos desportivos no mesmo campo.
9.° No campo do Dr. Miguel Bombarda, exposição retrospectiva dos antigos lagares engenhos e alçapremas madeirenses
empregados na industria do vinho e do açúcar, e feira de produtos agrícolas e industriais da ilha sobretudo vinhos, bordados,
tecidos, obras de vimes e embutidos.
10.º Exposição na Escola Industrial António Augusto de Aguiar, de objectos históricos e artísticos, e de obras de artes aplicadas,
produzidos na mesma escola.
11.º Iluminações e decorações da cidade, subordinadas ao estilo da época que se comemora.
12 .° Grande cortejo com carros alegóricos de carácter histórico: o carro da descoberta (caravela do século XV) e o carro do Infante,
além de outros representando as nossas indústrias principais: açúcar, vinhos, vimes, bordados, etc., etc..
Numa reunião selecta realizada no teatro «Dr. Manuel de Arriaga», foi nomeada a comissão iniciadora dos trabalhos da celebração
do centenário, com os poderes necessários para a organização das diversas subcomissões que deveriam dirigir e fazer executar os
variados números do brilhante programa, que nesta luzida e escolhida assembleia obteve a mais plena aprovação.
Além da Comissão de Honra e da Comissão Executiva, foram nomeadas as seguintes: Comissão Técnica e Directiva, Comissão
Angariadora de Fundos, Comissão de Propaganda e Publicidade, Comissão de Obras, Comissão do Grande Cortejo Histórico,
Comissão de Solenidades Religiosas, Comissão Teatral, Comissão do Baile, Comissão de Ornamentações Publicas Comissão de
Turismo e Recepção a Forasteiros Comissão de concelhos e festas musicais Comissão da Exposição Industrial e Feira, Comissão da
Exposição Bibliográfica e de Produtos da Escola Industrial, Comissão de Festejos Desportivos, Comissão de Festejos Náuticos e
Comissão de Jogos Hípicos e Cavalhadas.
A Comissão de Honra ficou composta dos Srs. Governador Civil, Comandante Militar Coronel João Maria Ferraz, Bispo Diocesano
D. António Manuel Pereira Ribeiro, Senadores César Procopio de Freitas, Vasco Crispiniano da Silva e Vasco Gonçalves Marques,
Deputados Américo Olavo Correia de Azevedo. Carlos Olavo Correia de Azevedo, Juvenal Henriques de Araújo e Pedro Gois Pita,
Presidente da Junta Geral Vasco Gonçalves Marques e Presidente do Senado do Funchal João Joaquim Teixeira Jardim.
Da Comissão Executiva faziam parte os Srs. Adolfo João Sarmento de Figueiredo Alberto Artur Sarmento, Ciriaco de Brito Nobrega,
padre Fernando Augusto da Silva, Fernando Tolentino da Costa, João dos Reis Gomes e Leandro Antonio do Rêgo.
Muitos cavalheiros e individualidades em destaque no nosso meio, em numero superior a cem, constituíram as diversas comissões
dos festejos, tendo alguns dos seus membros desenvolvido uma actividade que não podia ser excedida e um zelo e dedicação dignos
do mais alevantado elogio. Além do major João Reis Gomes, Cândido Pereira e Emanuel Ribeiro, a que já acima nos referimos com
o mais justificado louvor, merece especial menção o comendador Adolfo Sarmento de Figueiredo, que foi um dos mais valiosos e
prestantes auxiliares que teve a celebração das festas centenárias.
Vamos dar uma rápida resenha dos principais números do programa realizados, não podendo descer-se a grandes detalhes e a uma
pormenorizada descrição, porque isso nos levaria muito longe e excederia demasiadamente os limites que nesta obra podemos
consagrar aos diversos assuntos nela tratados.
As comemorações do centenário começaram no dia 29 de Dezembro de 1922 e terminaram no dia 4 de Janeiro de 1923.
Alguns dias antes do inicio dos festejos, apareceu a publicação intitulada V Centenário do Descobrimento da Madeira de que foi
encarregada a Comissão de Propaganda e Publicidade. É um opúsculo in fol., de 60 paginas, que contém colaboração de Jordão
Henriques, padre Fernando A. da Silva, Jaime Câmara, Carlos Azevedo de Meneses, Adolfo César de Noronha, Alberto Artur
Sarmento, Luís de Ornelas Pinto Coelho, Manuel Ribeiro, Manuel Sardinha, padre Eduardo Pereira, Manuel Pestana dos Reis, J.
Reis Gomes, Vitorino José dos Santos e Eduardo Antonino Pestana. Foi publicado sob a direcção dum dos redactores deste
Elucidário, devendo aqui dizer-se que alguns dos artigos contidos no V Quinto Centenário do descobrimento da Madeira foram
extraídos do mesmo Elucidário e devidos á pena dos autores desta obra.
Começaram os festejos por um solene Te Deum na Sé Catedral, que foi imensamente concorrido, subindo ao púlpito o distinto
orador sagrado rev.° padre José Marques Jardim que pronunciou um notável discurso que agradou a todos os assistentes, entre os
quais se viam muitos dos tenerifenhos
(V. este nome)
que na véspera, 28 de Dezembro, tinham chegado ao Funchal, o corpo
consular, a oficialidade do contra-torpedeiro Guadiana, vários oficiais da guarnição da cidade, as corporações administrativas, a
academia funchalense, etc.. Presidiu á cerimónia o Prelado Diocesano D. António Manuel Pereira Ribeiro, acolitado pelos cónegos
Manuel A Miranda e Manuel Mendes Teixeira, tendo a musica do coro sido executada por uma schola numerosa, acompanhada
duma excelente orquestra.
Em seguida ao Te Deum, organizou-se o cortejo que se dirigiu á igreja de Santa Clara onde está o túmulo de João Gonçalves Zargo,
pronunciando aí o Dr. Antonino Pestana um patriótico discurso, em que lembrou á mocidade a conveniência de aproveitar os
ensinamentos que se colhem na leitura da biografia do grande descobridor da Madeira.
Na volta de Santa Clara, ao chegar o cortejo ao local em frente da antiga Entrada da Cidade, onde vai levantar-se a estátua de Zargo,
usou da palavra o Dr. Juvenal de Araújo, que numa curta mas brilhante alocução soube inflamar os corações dos que o ouviram
falando depois o alcaide de Santa Cruz de Tenerife D. Antonio Orosco Baptista, que lembrou a conveniência de cada vez se
estreitaram mais as relações de amizade e comerciais entre portugueses e espanhóis.
Terminado o discurso do ilustre tenerifenho, que é catedrático da faculdade de Direito da Laguna, benzeu o prelado D. António
Manuel Pereira Ribeiro, acolitado pelos dois já referidos cónegos, a pedra que será a primeira dos alicerces do futuro monumento
de Zargo, fazendo-se ouvir por essa ocasião o hino nacional.
Nos dias 29, 30 e 31 de Dezembro, representou-se no teatro «Dr. Manuel de Arriaga», sendo muito aplaudido, o drama Guiomar
Teixeira, do distinto escritor major João dos Reis Gomes, e, no dia 30, teve lugar a inauguração da feira e da exposição agrícola, que
se realizaram, não no local primeiramente escolhido, mas na Praça do Marquês do Pombal, as quais foram muito visitadas por
pessoas de todas as categorias sociais.
A feira pouco interesse ofereceu por causa do limitadíssimo numero de artigos que nela apareceram, mas na exposição figuraram
muitas produções agrícolas madeirenses dignas de atenção, sendo para lamentar que elas não se achassem cientificamente
classificadas para serem facilmente reconhecidas pelos estrangeiros.
Assistiram á inauguração da feira e da exposição agrícola, os ilustres tenerifenhos D. Andrés Orosco Batista e o coronel da
guarnição de Tenerife, D. Galdador Garcia y Rodriguez de Aumente, que usaram da palavra depois do discurso pronunciado pelo
engenheiro-agronomo Aurelio Botelho Moniz.
A exposição bibliográfica e artística inaugurada no dia 30 de Dezembro na Escola Industrial, á rua de João Tavira, foi um dos
números do programa das festas que mais interesse despertou na elite da população funchalense. A curiosa janela, em estilo
manuelino, que pertenceu a casa onde se diz ter habitado Colombo, a rua do Esmeraldo, estava armada no pátio do edifício da
escola, e o celebre montante de Zarco, com cerca de metro e meio de comprido, via-se sobre uma mesa, na primeira sala á esquerda
da escadaria. Numerosas publicações nacionais e estrangeiras, quase todas pertencentes á Biblioteca Municipal, se viam na mesma
sala, encontrando-se nos restantes compartimentos varias cartas da Madeira, Porto Santo e Desertas, muitos quadros reproduzindo
sítios pitorescos da ilha e usos e costumes dos seus habitantes, os retratos de Zargo, do provedor da Misericórdia Forjaz Coutinho,
do fundador do convento da Incarnação, etc., vários quadros a óleo dos pintores madeirenses Mígueis e H. Franco, muitos
trabalhos de embutidos de incontestável merecimento, etc., etc..
O cortejo histórico que se realizou no dia 4 de Janeiro revestiu a maior imponência, e foi imensamente apreciado, não só pela
população funchalense, mas também pelos ilustres tenerifenhos que se demoraram alguns dias entre nós para assistir ás festas do
quinto centenário do descobrimento da ilha.
Esse cortejo, disse o
Diário da Madeira
, «foi sem duvida alguma, a festa que deu a melhor medida da intensa vibração que
percorreu toda a cidade, pejadas as ruas com os seus habitantes e com uma enorme multidão de forasteiros.
«Á passagem dos carros alegóricos, lê-se ainda no mesmo jornal, tanto adejavam os galhardetes e bandeiras, como acenavam os
lenços e chapéus, como palpitavam as mãos pelas alas e janelas, palmejando a obra e os seus delineadores e artistas.
«O Carro das Nações, oferecido pelos cônsules e de que foi a alma-mater o ilustre representante do Brasil, com o concurso mais
próximo do mui digno representante de Espanha, e o decidido apoio do restante corpo consular, era dum efeito soberbissimo, como
decoração e como alegoria.
«Os carros dos vinhos, do açúcar, dos vimes e bordados, vincando, pelo seu pitoresco regional ou pela linha artística, pela mancha
de cor ou pelo conjunto ornamental, a antiguidade, a riqueza, o valor e o progresso das respectivas indústrias, constituíram, uns
pela sua significação, outros pela sua beleza, uma grata valorização das principais fontes da vida económica da Madeira.
«A mancha ideal de cor que ao Carro dos Bordados emprestava os trajos antigos da nossa camponesa, envolvendo formosas
meninas da nossa sociedade que se ofereceram para ocupar o posto deixado vago pelas genuínas bordadeiras, foi uma das mais
radiosas fluorescências do cortejo, e uma das suas notas mais emotivas e simpáticas...
«Figurou também nesse imemorável cortejo o Carro dos Desportos, que, em contraste com a característica antiga, e mais ou menos
austera das nossas indústrias, encerrava em si uma nota original de mocidade e de força assinalando a desenvolvida existência na
Madeira duma nova fonte de vitalidade a do rejuvenescimento físico e moral.
Abriam e fechavam o ambulante certame, respectivamente os dois carros históricos: o Carro da Descoberta e o Carro do Infante: a
caravela San Lourenço, símile da que nos encontrou e nos deu à civilização e ao mundo, e o carro do austero e sábio D. Henrique, o
iniciador e propulsor da Grande Navegação portuguesa.
«Essa pequena nave nos moldes mais exactos encontrados nos documentos do tempo não tem apenas para nós uma significação de
alegoria; na sua elegante arquitectura, nos seus processos e detalhes construtivos, no poder de evocação das suas linhas, no encanto
das suas proporções e no sentimento com que se arqueiam os seus lances e cavernas, representa a indagável tradição do engenho e
competência dos nossos primeiros calafates, dos que, nesta ilha e no local - mais aquém ou mais além – onde o famoso barco foi
erecto, construíram com as madeiras primitivas, os navios de alto bordo que partiram á aventura, deste foco radiante da navegação
descobridora.
«Mestre Luís Basilio teve como ancestral, porventura, um grande mestre carpinteiro de enxó dos que, ao tempo das descobertas,
alinhavam quilhas e arredondavam bojos, ali pelas vizinhanças da antiga rua da Boa Viagem.
«Do arsenal que hoje proficientemente dirige, têm saído os nossos melhores e mais airosos veleiros. A sua caravela, apresentada no
cortejo como um precioso e sugestivo carro histórico, é uma documentação eloquente e viva da perfeição alcançada mesmo fora dos
modernos moldes – pela arquitectura naval madeirense.
«O carro de homenagem ao criador da fecunda Escola de Sagres é, na sua parte escultural e modelação decorativa, obra do distinto
escultor português Sr. José Pereira, que assinou tanto o maravilhoso busto do Infante como as formosíssimas estátuas da
Navegação e da Historia apoiadas ao corpo central do Carro. É obra dum grande artista e dum verdadeiro português.
«Incumbia-lhe, pela sua generosidade, pelo seu alto valor de arte e pela sua representação, encerrar a pomposa e patriótica
procissão. A sua magnificência faz esquecer todos os carros alegóricos até hoje apresentados na nossa capital. A própria Caravela do
Centenário Henriquino, exposta no átrio da Sociedade de Geografia de Lisboa, pelas suas dimensões, modelação e acabamento
pode, á vista da nossa San Lourenço, considerar-se, sem favor, como um mero brinquedo de crianças.
«A passagem do Carro do Infante produziu em todos os pontos do percurso um intenso ressoar de exclamações nascidas da mais
comovida e singela admiração».
Incorporaram-se no cortejo representantes da imprensa, dos vários ramos do comercio e industria, das corporações
administrativas, do cabido da Sé Catedral, da classe medica, da magistratura, do professorado primário e secundário, do exército e
da marinha, etc., bem como a comissão das festas do Quinto Centenário do Descobrimento da Madeira.
Precedia o cortejo uma banda de musica e outra o fechara. A banda de infantaria n.° 27 não figurou nos festejos e os edifícios
pertencentes ao Estado não puseram luminárias, apesar de se tratar de comemorar um facto que representa uma glória nacional. O
navio espanhol Viera y Clavijo embandeirou em arco durante os festejos, mas igual atenção não teve o vaso de guerra português
Guadiana, que na ocasião se achava ancorado no porto do Funchal.
O fogo de artifício que se queimou nas proximidades do Reid's Palace Hotel á entrada do ano de 1923 foi verdadeiramente
deslumbrante, e deslumbrantes foram também as iluminações na cidade desde 29 de Dezembro até 3 de Janeiro, sobressaindo as
das avenidas de Gonçalves Zargo e do Dr. Manuel de Arriaga, dos largos da Sé e do Comercio, das ruas de João Tavira, do capitão-
tenente Carvalho de Araújo e do Comercio, etc., etc.. Ao princípio da avenida de Gonçalves Zargo erguia-se um soberbo arco de
triunfo feito de madeira pintada, em que se viam as armas da cidade, as caravelas em mar proceloso e uns leões em atitude
combativa.
Nas festas do quinto centenário do descobrimento da Madeira foram incontestavelmente as mais importantes e majestosas que se
tem realizado na ilha, podendo afirmar-se que se efectuaram só com os recursos da terra, pois que o Governo, como já se disse,
nada fez para auxiliá-las.
Não quiseram os madeirenses assumir a responsabilidade de deixar passar despercebida uma das datas mais notáveis da nossa
historia, e bom foi que assim acontecesse para mostrarmos a nacionais e estrangeiros que também nos desvanecemos com as
glórias da pátria e que não há dificuldades que não saibamos vencer, em se tratando de rememorar os acontecimentos que mais
concorreram para dar ao nosso país a merecida celebridade de que gozou noutras épocas.
Quinta
Sítio povoado da freguesia da Caniço. Havia ali uma quinta ou casa de campo e ainda existe a capela de Nossa Senhora da
Consolação, pertenças do morgadio ali criado, nos fins do século XV, por Álvaro de Ornelas, que era uma das mais antigas
instituições vinculares da Madeira e que teve como último representante o conselheiro Aires de Ornelas (1866-1930). A capela da
Consolação foi construída por Aires de Ornelas e Vasconcelos pelos anos de 1591 e reedificada por meados do século XVIII
(V.Garajau e Jangão).
Quinta
Sítio do povoado da freguesia da Quinta Grande. Fica neste sítio a Quinta do Pomar e nela uma capela da invocação de
Santo António, fundada pelo padre António Silvino Gonçalves de Andrade no ano de 1883, e ali também se encontra uma escola
oficial de ensino primário. Neste sítio, onde chamam a Ponta da Quinta, existiu uma pequena ermida dedicada à Virgem Nossa
Senhora, de que já nem restam vestígios.
Quinta das Cruzes
Nos artigos
Moradias de Zargo e Padrões Memoráveis
, ficou já esboçada uma ligeira notícia histórica acerca
desta antiga casa solarenga, que proximamente se relaciona com a história do nosso arquipélago.
Aproveitando-se o generoso oferecimento de um conhecido coleccionador de preciosas antiguidades e valiosos objectos de arte,
resolveu a Junta Geral do Distrito criar um Museu de Arte Antiga a instalar nessa quinta de tão nobres tradições, dotando-se assim
a nossa terra com um grande melhoramento na esfera da cultura geral do espírito, na vulgarização de apreciáveis conhecimentos
artísticos e ainda de atractivo para os forasteiros que frequentemente nos visitam.
Quinta das Freiras
Sítio povoado da freguesia de Santo António do Funchal. Encontrava-se neste sítio a capela de Nossa
Senhora das Brotas, fundada em 1678 por Manuel Martins Brandão, de que ainda existe um montão de escombros. Nela se acha o
Cemitério Paróquial, construído em 1839 e muito ampliado no ano de 1903. Tem este cemitério capela privativa edificada no ano de
1844 e consagrada a Nossa Senhora da Luz.
Quinta Grande (Freguesia da)
Nas
Saudades da Terra
se lê: «chegando (João Gonçalves Zargo) a um alto sobre Câmara de
Lobos, traçou ali onde se fizesse uma igreja do Spirito Santo. Passando mais abaixo a humas serras muito altas, ali traçou outra
igreja da Vera-Cruz; e todos estes altos tomou para seus Herdeiros». Estas serras altas e a igreja da Vera-Cruz
(V. este nome)
constituem hoje parte integrante da freguesia da Quinta Grande.
Uma considerável extensão dos terrenos que formam a actual paróquia fazia primitivamente parte da freguesia da Ribeira Brava, e
a restante da freguesia de Câmara de Lobos. Quando por meados do século XVI se criou a paróquia do Campanário, a esta ficou
pertencendo a parte da Quinta Grande que estava então incorporada na jurisdição da freguesia da Ribeira Brava.
Entre as propriedades que os jesuítas possuíam nesta ilha, destacava-se a que ficava situada na freguesia do Campanário e que, pela
sua extensão e importância, era conhecida pelo nome de Quinta Grande. Estes terrenos como já fica dito, pertenceram
primitivamente ao descobridor João Gonçalves Zargo e passaram à posse de alguns dos seus descendentes, ignorando-se quando
foram por estes alienados e quando deles foi feita doação ou venda aos membros da Companhia de Jesus. Os jesuítas foram
desapossados desta propriedade por ocasião do confisco de todos os seus bens, feito no ano de 1759, tendo nos anos seguintes sido
dada de arrematação a renda do mesmo prédio, até que no ano de 1770 foi vendido em hasta pública e arrematado por João
Francisco de Freitas Esmeraldo pela quantia de 140:000 cruzados, ou sejam 56:000$00, o que era uma importância bastante
avultada para a época. Suspeitamos que nesta compra iria incluída a propriedade chamada Fajã dos Padres (Volume II, páginas 6),
mas não podemos afirmar duma maneira indubitável que assim tivesse sido.
Talvez não seja hoje fácil determinar com inteira precisão os limites dos terrenos pertencentes aos jesuítas, que tinham o nome de
Quinta Grande, passando esta a ser a denominação da futura paróquia que, por ocasião da criação do curato, foi mais largamente
ampliada na sua área. Uma pergunta ocorre fazer: quando os jesuítas adquiriram esta propriedade já teria ela o nome de Quinta
Grande, ou ser-lhe-ia dado esse nome ao passar á posse daqueles religiosos, por constituir um dos maiores prédios que tinham
nesta ilha? Tem-se geralmente adoptado a versão de que foram os- jesuítas que deram a esta propriedade o nome de Quinta Grande
e não conhecemos as razões que contrariem esta afirmativa.
Tendo-se formado um núcleo de população de relativa importância entre as paróquias do Campanário e de Câmara de Lobos, e
tornando-se muito difícil acudir com os socorros espirituais àquela povoação, determinou o bispo diocesano D. Fr. Joaquim de
Meneses e Ataíde, por sua provisão de 8 de Fevereiro de 1820, estabelecer um curato com sede na capela de Nossa Senhora dos
Remédios, cuja área abrangeria os 93 casais dos sítios da Vera-Cruz e Fontainhas, pertencentes ao Campanário, e os 41 casais dos
sítios da Cama do Bispo e da Cadeirinha, pertencentes a Câmara de Lobos. No próprio mês da sua criação, foi provido este curato
na pessoa do padre Felisberto de Gouveia, ficando a jurisdição do mesmo curato dependente dos párocos das duas freguesias
vizinhas, que cederam os seus terrenos para formação desta capelania curada. Parece que o pároco do Campanário exerceu sempre
nela uma mais ampla jurisdição, terminando por absorver toda a superintendência nos serviços religiosos do curato.
Isto, porém, só durou até o ano de 1848, em que, por carta régia de 24 de Julho do mesmo ano, foi o curato da Quinta Grande
elevado à categoria de paróquia autonoma, tendo o respectivo cura de então, Manuel Joaquim Serrão, sido nomeado primeiro
pároco encomendado. Exerceram sucessivamente funções paroquiais nesta freguesia os padres António Silvino Gonçalves de
Andrade, António Feliciano de Freitas, José Isidoro Gonçalves, João Fernandes de Freitas, Agostinho Teodoro Pita, António
Rodrigues Denis Henriques, Eugénio Rodrigues Teixeira e Augusto Prazeres dos Santos. O primeiro pároco colado foi Agostinho
Teodoro Pita, no ano de 1862.
Dentre estes párocos, merece uma especial referência o padre António Rodrigues Denis Henriques, que durante 46 anos pastoreou
esta freguesia, dando sempre o exemplo da vida mais austera, do mais acendrado zelo e do maior desinteresse no exercício do seu
ministério. A ele se deve a reconstrução da actual igreja, e prestou outros importantes serviços á paróquia. Nasceu na freguesia de
Câmara de Lobos a 2 de Setembro de 1833 e ali faleceu a 6 de Janeiro de 1922.
Na Quinta Grande existia a capela de Nossa Senhora dos Remédios, que foi a sede do curato estabelecido em 1880 e que serviu
também de sede á freguesia. Teve preferência á da Vera-Cruz, por mais central e talvez ainda por outras circunstancias que
desconhecemos. A sua construção data de 1601, tendo no decorrer dos tempos sofrido algumas alterações, sobretudo no ano de
1901, em que foi notavelmente acrescentada. É o centro duma concorrida romagem em honra de Nossa Senhora dos Remédios, que
é o orago da paróquia, realizando-se a romaria com enorme afluência de pessoas das freguesias circunvizinhas, no segundo
domingo de Setembro de cada ano.
Das capelas desta freguesia, falaremos em outro lugar desta obra.
Os sítios principais são: Igreja, Aviceiro, Cama do Bispo, Ribeira do Escrivão, Quinta, Fontes, Lombo Vera-Cruz e Fontainhas. Este
ultimo sitio é muito pitoresco e digno de ser visitado.
Tem esta freguesia uma escola oficial criada em Abril de 1914.
A sua população é de 996 habitantes (1921).
Quinta Lambert
Vid.Lambert (Quinta ).
Quinta do Leme
Sítio povoado da freguesia de Santo António do Funchal. Existe ali um antigo solar e capela anexa, que foram
sede do morgadio dos Lemes, instituído por Pedro de Leme antes de 1550, tendo sido o último representante directo Francisco
Aurélio da Câmara, que, morrendo sem descendência, passou a administração desta casa vinculada a seu sobrinho João de
Carvalhal Esmeraldo, I.° conde do Carvalhal. A capela dedicada ao mártir São Filipe, foi construída em 1536 por António de Leme e
reedificada em 1654 por Inácio da Câmara Leme, sendo ainda reconstruída, bem como a casa solarenga adjunta, no ano de 1752, em
virtude do estado de grande ruína, em que a deixara o terramoto de 1748. Estando há anos profanada, foi restituída ao exercício do
culto do ano de 1942.
Quinta do Monte
No sítio do Pico, freguesia de Nossa Senhora do Monte, encontra-se a quinta deste nome, também conhecida
por Quinta Cossart, que é uma das mais sumptuosas vivendas da Madeira, da qual já demos breve noticia a paginas 461 do volume
II deste Elucidário.
Tornou-se muito conhecida e é bastante visitada desde o tempo em que ali viveu alguns meses e ali terminou a sua existência, a 1 de
Abril de 1922, 0 imperador Carlos de Áustria. Na casa da respectiva residência, foi construída há poucos anos por Luiz da Rocha
Machado, seu actual proprietário, uma formosa capela da invocação do Sagrado Coração de Jesus consagrada á memória do
malogrado e saudoso imperador. Tinha chegado à Madeira com sua esposa, a imperatriz Zita, a bordo do cruzador inglês Cardiff no
dia 10 de Novembro de 1921, fixando residência na «Vila Vitoria», dependência dos Hotéis Reid. Com a chegada dos príncipes,
filhos dos imperadores, ao Funchal a 2 de Fevereiro de 1922, foi toda a família imperial estabelecer moradia na (quinta do Monte no
dia 18 do mesmo mês e ali sucumbiu o desventurado imperador, como fica dito, a 1 de Abril daquele ano. No dia 5, foi sepultado
numa capela lateral da Igreja Paroquial do Monte, onde ainda se encontram os seus restos mortais, tendo o falecimento e o funeral
do imperador despertado em toda a população do Funchal os mais profundos sentimentos de pesar, que tomaram a feição dum
verdadeiro luto nacional. A imperatriz Zita saiu da Madeira, acompanhada de seus filhos a 19 de Maio de 1922.
Quinta do Palheiro
Vid.Palheiro (Quinta do ).
Quinta da Palmeira
Vid.Palmeira (Quinta da ).
Quinta dos Reis
Sítio povoado da freguesia do Monte. Neste sítio, sobre um pequeno morro, levanta-se, lembrando um antigo
castelo roqueiro, um velho solar com uma capela anexa, dedicada aos Santos Reis Magos e construída em 1554 por Duarte Mendes
de Vasconcelos. Também se encontra neste sítio uma capela da invocação do Menino Jesus.
Quinta do Salvador
Sítio povoado da freguesia de Nossa Senhora do Monte e nele se encontra a excelente vivenda da Quinta da
Paz, que tem anexa uma capela dedicada a Nossa Senhora do Livramento.
Quinta de Santo António
Sítio povoado da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos. Existe ali uma capela dedicada a Santo
António, edificada no ano de 1705 por Inácio Viana do Rego, com casa solarenga adjunta, que pertenceu ao morgadio dos Heredias,
de que foi ultimo representante o visconde da Ribeira Brava.
Quinta Vigia
Vid .Vigia (Quinta da) e Sanatórios.
Quintal
Manuel Tomas aponta este apelido de família no seu poema aInsulana . Em 1662, vivia no Funchal Diogo da Costa
Quintal, que fundou a capela de Nossa Senhora das Angústias.
Quintas
Parece-nos que a palavra quinta tem entre nós uma significação especial, que notavelmente a distingue do sentido em
que em geral é tomada no resto do nosso país. Este termo, na Madeira, costuma designar uma propriedade rústica e urbana, de
maior ou menor extensão, murada em todo o seu perímetro ou ao menos numa parte considerável dele, contendo sempre uma boa
casa de habitação, rodeada de jardins e passeios assombreados com maciços de árvores. Dá-lhe acesso uma porta gradeada de ferro,
de certo aparato arquitectónico, comunicando com um passeio, que directamente conduz á residência. Muitas quintas há que
abrangem terrenos cultivados de vinha e cana-de-açúcar, hortas, pomares e arvoredos. Algumas delas possuem construções
destinadas a diversos serviços agrícolas, estábulos e habitações dos caseiros, tendo as mais antigas, além da casa nobre de moradia,
uma capela adjunta, outrora para uso privativo dos seus proprietários.
A mais importante e sumptuosa quinta desta ilha é a do Palheiro Ferreiro, de que já demos a noticia a páginas 43 deste volume, e a
seguir é a chamada Quinta do Monte, na freguesia deste nome de que também já noutro lugar nos ocupámos (Volume II, página
461).
Depois destas, merecem referência especial a
Quinta Lambert
(Ver este nome) e a da Vigia, a das Cruzes (Ver
Moradias de Zargo
);
a de S. João, na rua das Maravilhas, antigo solar dos morgados de S. João, tendo o seu actual proprietário, dr. Rui Bettencourt da
Câmara, feito ali edificar a capela de Nossa Senhora do Amparo e dos Remédios no ano de 1940, a do Vale, na rua do Vale Formoso,
que possuiu noutras épocas curiosas plantas de que se ocuparam o Dr. Lippold, em 1838, e o Dr. Heer, em 1852, sendo o Dr.
Grabham o seu actual proprietário (1921); a da Levada e a de Santa Luzia, esta pertencente á família Blandy e aquela á família
Cossart; a da Palmeira, pertencente a H. Hinton e de cuja vegetação se ocupou Harcourt (Ver este nome); a da Mãe dos Homens, no
Caminho do Meio que é proprietário o visconde de Cacongo; a quinta Magnolia, á travessa do Dr. Pita; a quinta Olavo, ao caminho
dos Saltos; a quinta Pavão, na rua da Imperatriz; a das Maravilhas, no fim da rua deste nome; a do Til, no caminho deste nome; a
do Deão, também denominada quinta Stoddart por nela ter residido o cônsul inglês deste nome e á qual os inglêses costumam
chamar The Deanery (V. Junta Governativa); a da Achada, no caminho deste nome, pertencente outrora á família inglesa Penfold; a
da Bela Vista, no sitio da Nazaré, em S. Martinho, a quinta Sant'Ana, no caminho do Monte, hoje propriedade do Governo por ter
feito parte dos bens da Companhia dos Sanatórios; as quintas do Prazer e de Belo Monte, em Nossa Senhora do Monte, que foram
ambas propriedade do antigo cônsul inglês Murray e pertencem, hoje a primeira a Alfredo Guilherme Rodrigues, que nela tem
instalado o «Monte Palace Hotel» (1921) a quinta das Laginhas, a da Cova e a do Pico da Pedra, todas três na mesma freguesia; a do
Miradouro, na Choupana; a da Choupana, que se diz ter dado o nome ao local onde está situada, a do Visconde de Cacongo, no
mesmo sitio; a do Pico do Infante; a de Vale Paraíso, pertencente ao visconde deste título e que é das mais belas e vastas da
freguesia da Camacha, havendo sido o seu primeiro proprietario o inglês Randall; a quinta Ornelas, acima da igreja da mesma
freguesia e pertencente ao actual representante dos morgados do Caniço (1921); a dos Tanquinhos, no Caminho do Palheiro, que é
propriedade dos herdeiros do Dr. José Antonio de Almada; a da Alegria, no sítio deste nome, em São Roque, pertencente aos
condes de Torre Bela; a do Barão da Conceição, no Caniço, pertencente ao Dr. Nuno Ferreira Jardim (1921); as quintas do Seixeiro,
Aloisio, Bianchi e Serrado das Ameixeiras, em Santo Antonio da Serra; etc., etc..
Quinto
Contribuição que se pagava outrora na Madeira e de que já falámos a páginas 304 do volume I desta obra no artigo
Contribuições.
Além do quinto, extinto pela lei de II de Setembro de 1861, houve em remotos tempos o chamado quinto dos açucares, a que nos
referimos a páginas 14 e seguintes do mesmo volume, o qual acabou com o alvará de 15 de Outubro de 1688, passando desde então
a cobrar-se o oitavo dos açucares produzidos na terra.
O quinto dos açúcares foi estabelecido pelo foral de 6 de Agosto de 1515, transcrito a páginas 494 das Saudades da Terra, tendo os
mesmos açucares estado sujeitos antes disso ao pagamento do quarto, como se vê do mesmo foral.
Por um contrato celebrado em 1452 e transcrito a páginas 665 da mesma obra, exigia o Infante para si a terça parte de todo o açúcar
fabricado no único engenho que então existia na ilha!
Quintos e Oitavos
Nos artigos respeitantes à Ilha do Porto Santo, demos já breve noticia acerca do celebre decreto de 13 de
Outubro de 1770, conhecido pelo nome de «Quintos e Oitavos», e para ela remetemos o leitor.
Quintos (J.W.J)
E.:Het Eiland Madera Croningen , 1866, folheto.
Quinzena Religiosa
Iniciou a sua publicação a I de Janeiro de 1901 e suspendeu a 15 de Setembro de 1910, dando 230 números.
Reapareceu em Fevereiro de 1911 e suspendeu em Janeiro de 1912, tendo sido publicados 24 números.
Rabaça (Apium Nodiflorum)
Umbelifera com folhas penatissectas e umbelas sésseis ou quasi sésseis, frequente nas águas
correntes e estagnadas. As suas folhas podem ser comidas em salada.
Rabaçal
Acerca deste sítio, serras e levadas do mesmo nome e outras circunstancias apreciáveis, que lhes dizem respeito, veja-se o
desenvolvido artigoLevadas , a páginas 235 e seguintes do volume II desteElucidário .
Rabanete (Raphanus sativus var. radicula)
) Crucifera cultivada nas hortas madeirenses. As suas raízes carnudas e rosadas ou
vermelhas comem-se cruas e têm um sabor picante, bastante agradável.
Racsvitze (Dr.)
(Dr.) Vid.Expedições científicas a paginas 428 do volume I.
Raddi (Giuseppe)
Botânico italiano nascido em Florença a 9 de Julho de 1770 e falecido em Rodes a 6 de Setembro de 1829.
Visitou a Madeira por ocasião da sua viagem ao Brasil, tendo escrito um pequeno trabalhointitulado Brevi Osservazioni sull' Isola
di Madeira (Florença, 1821).
Radical (0)
Publicou-se o primeiro numero a 9 de Março de 1911 e o ultimo a 2 de Junho de 1915, dando 209 números.
Raias
São conhecidos por este nome diversos peixes dos géneros Raja eMyliobatis que vivem nos mares da Madeira, sendo todas
elas de inferior qualidade e algumas totalmente desprezadas pelos pescadores.
Rainha (Praça da)
V.Praça da Rainha .
Raio da Madeira (O)
Saíram 73 números, sendo o primeiro a 9 de Setembro de 1864 e o último a 8 de Fevereiro de 1866.
Raiva
Por meados do ano de 1892, apareceu no Funchal uma doença que vitimou muitos cães e á qual se afirma terem também
sucumbido algumas pessoas residentes nesta ilha. A população ficou em extremo sobressaltada, pois se tratava dum morbo
completamente desconhecido entre nós e que não só atacava os animais como também alguns indivíduos da espécie humana. A
aumentar este natural sobressalto, vinho o estado de indecisão dos médicos madeirenses, que não tinham opiniões conformes sobre
o diagnostico da enfermidade, devido principalmente á falta dos respectivos exames bacteriológicos, que de modo algum se podiam
fazer na Madeira.
A imprensa local prestou nesta conjuntura um importante serviço, não só pedindo enérgicas e imediatas providencias, mas pondo
de sobreaviso os habitantes com respeito aos perigos que podiam resultar da mordedura dos cães, como ainda da necessidade que
havia de sequestrá-los e pô-los em condições de não transmitirem o mal a qualquer pessoa ou outros animais.
Devido ás instâncias do governador civil do distrito, de então, o engenheiro Luís Merens de Távora, enviou o governo da Metrópole
à Madeira o distinto medico veterinário António Roque da Silveira, encarregado de estudar a doença que aqui se manifestara e de
indicar o meio de a debelar. Este veterinário chegou ao Funchal a 8 de Outubro de 1892 e logo iniciou os seus estudos,
aproveitando desde logo e no mesmo dia em que desembarcara alguns trabalhos já anteriormente realizados com a inoculação em
coelhos de uma emulsão do bolbo de cães mortos pela moléstia. As novas inoculações a que procedeu, os exames microscópicos que
fez, o demorado estudo clínico a que se entregou e ainda outros trabalhos a que diligentemente procedeu levaram ao seu animo a
convicção de que a hidrofobia existia na Madeira, apesar de alguns distintos médicos madeirenses serem de opinião que não era de
carácter rábico a epizootia que se manifestara nos caninos desta ilha.
Roque da Silveira diz que a raiva foi importada, e aceita como provável a opinião das pessoas que afirmam que no mês de Maio de
1892 desembarcara no Funchal um estrangeiro acompanhado de dois cães e que ao voltar para bordo, poucas horas depois, era
apenas seguido por um desses animais. É possível que o cão, que aqui se extraviara, trouxesse incubada a raiva e que, na ocasião
dela se manifestar, mordesse outros animais e assim transmitisse a doença.
Apesar de não ser muito avultado o número das vitimas constatou-se no entretanto a morte de sete pessoas, que sucumbiram á
horrível doença da raiva.
Não temos conhecimento de que antes ou depois desta época se haja manifestado entre nós aquela moléstia.
O veterinário António Roque da Silveira dirigiu ao governo central um desenvolvido relatório acerca da raiva aparecida nesta ilha
em 1892, que foi publicado no n.° 2 do V ano do
Boletim da Direcção Geral da Agricultura
, de páginas 29 a 62.
Rajão
Instrumento musico de cinco cordas, muito conhecido do povo madeirense. Os camponios dão-lhe a seguinte afinação: ré,
sol, dó, mi, lá, mas os tocadores do Funchal quando afinam o instrumento, fazem muitas vezes as três primeiras cordas subir uma
oitava.
Entre os bons tocadores de machete-rajão que tem havido no Funchal, cita-se o falecido Diogo Sarsfield, tesoureiro da Direcção das
Obras Públicas do Distrito.
Vid. o apreciado livro «Tocares e Cantares da Ilha», por Carlos Santos.
Rambles in Madeira
Sob o título
Rambles in Madeira and in Portugal in the early part of M.DCCC.XXVI
, apareceu em
Londres, em 1827, uma obra bastante curiosa e atribuída a Mr. Lyall, que fornece muitos esclarecimentos não só sobre varias
localidades da Madeira, dignas de serem visitadas, como também sobre a historia e clima da ilha, e usos e costumes de seus
habitantes. Falando das senhoras funchalenses, diz o autor da obra que elas só costumam sair para ir á missa ou para visitar de
longe em longe alguma amiga, indo neste caso de palanquim e com os seus melhores fatos, e referindo-se a um baile português a
que assistiu, acrescenta que as senhoras eram transportadas em palanquins e recebidas á porta pelo dono da casa e por outros
cavalheiros que as conduziam ao andar superior. Vê-las reunidas numa sala é um espectáculo deslumbrando para o estrangeiro
pouco habituado a defrontar-se com um tão grande numero de olhos grandes e negros.
O autor das
Rambles in Madeira
, refere-se ainda ao habito que tem as damas funchalenses de frequentar as janelas, onde recebem
os cumprimentos dos cavalheiros que passam á catedral, ao teatro mandado demolir pelo governador D. Álvaro, ao entrudo, ás
procissões da Cinza e dos Passos, etc., etc., tendo procurado também fazer uma descrição, tão exacta quanto possível, dos traços
fisionómicos da freira Maria Clementina de Vasconcelos, de quem já tratamos neste Elucidário.
Ramos (António Francisco da Silva)
E.:Breves Considerações sobre a Pneumonia Fibrinosa e duas palavras sobre a etiologia etratamento do carcinoma . (Funchal, 1898). É uma dissertação apresentada á Escola Médico-cirúrgica do Funchal.
António Francisco da Silva Ramos é natural dos Açores e concluiu em 1898 o seu curso medico (1921).
Ramos Coelho (José)
Este conhecido escritor, já falecido, publicou um folheto em 1898, intitulado A ilha da Madeira, que é uma
composição poética enaltecendo as belezas naturais desta ilha e que vem também inserta nas suas
Obras Completas
(Lisboa, 1910).
Ramos Coelho visitou o Funchal nos tempos da sua mocidade, afim de estudar uns velhos documentos da casa do Conde do
Carvalhal.
Ranhosa (Lichia glauca)
) Peixe da família Carangida, frequente nos mares do arquipélago e que se mostra em certas ocasiões perto
da costa. No alto, aparece ás vezes em grandes cardumes e associado á cavala, ao chicharro e á agulha. É conhecido também pelos
nomes de trombeta e de facaio, e a sua carne é pouco saborosa.
Rãs
Conhecem-se duas espécies destes batráquios na Madeira: a
Rana temporaria
e a
Hyla arborea
. A primeira, introduzida pelo
antigo Conde do Carvalhal no primeiro quartel do século XIX, vive hoje em quasi todos os charcos da ilha; a segunda, pequena
espécie de cor verde, vive nas árvores de alguns jardins do Funchal, desconhecendo-se a época em que foi introduzida.
Ratão (Trygon pastinaca)
Peixe da família Trigonida, provido de cauda armada de espinhos e susceptível de segregar um múcus
venenoso. Vive de ordinário entre a costa e a profundidade de 50 braças, e é desprezado por ter mau sabor.
Ratos
Os ratos que se conhecem na Madeira são o
Mus rattus
, o
M. norwegicus
e o
M. musculus
, tendo esta ultima espécie sido já
assinalada a páginas 412 do II volume. O
M. rattus
, ou rato preto, e o
norwegicus
, ou rato pardo, são ambos vulgares na Madeira,
onde causam grandes devastações, tendo as Câmaras Municipais adoptado outrora algumas providencias com o fim de destrui-los.
Tanto o murganho como as duas espécies a que acabamos de referir-nos são animais importados, sendo de crer que viessem para o
arquipélago nos tempos da colonização.
Na Selvagem Grande existe uma espécie de rato, talvez o
Mus bárbaros
, que destrói os ovos do calcamar (Ver este nome) e que não
hesita em atacar esta ave, apesar do bico forte de que ela é provida.
Razão (A)
Deu o primeiro numero a 11 de Setembro de 1867. Publicou-se durante alguns anos.
Read Cabral (Guilherme)
Escritor açoreano já falecido, que desempenhou o cargo de director da alfândega do Funchal de 1892 a
1895. Nesta cidade publicou em 1895 um livro intitulado Ângela Santa Clara, com pretensões a romance histórico, que se lê com
agrado apesar dos anacronismos e ficções de que se acha recheado. Também publicou um folheto com uma poesia dedicada a
Cristóvão Colombo (Funchal, 1892).
Reading Rooms
A livraria conhecida por este nome foi estabelecida em 1830, no Club Inglês, situado á Rua da Alfândega. Tem
cerca de 4.000 volumes, entre os quais se encontram muitas obras raras e valiosas relativas á Madeira.
Real (Praça)
Assim se denominou durante o governo de D. Miguel, a praça da Constituição ou passeio público, que agora faz parte
da Avenida do Dr. Manuel de Arriaga.
Era na praça Real que se reuniam as tropas em parada nos dias festivos e nas solenidades que se realizavam nos tempos da
usurpação.
Realista (Priacanthus fulgens)
Peixe percida, que se pesca ás vezes nas costas da Madeira. Distingue-se facilmente de qualquer
outra espécie pela linda cor vermelha que predomina no seu corpo. É capturado geralmente nas redes costeiras.
Realista (0)
0 Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, numa das suas anotações ás Saudades da Terra, alude ao jornal O Realista, cuja
existência é muito duvidosa e que porventura se teria publicado antes de 1834.
Com o mesmo título se publicou um jornal de que apenas saíram 3 números, de 1 a 16 de de Maio de 1915.
Rebate (O)
Publicaram-se 69 números deste periódico, tendo saído o primeiro a 23 de Abril de 1901 e o ultimo a 24 de Outubro de
1902.
Rebelde (O)
Saíram 2 números a 30 de Março e 15 de Setembro de 1910. Era composto e impresso na cidade do Porto.
Rebelo
Este apelido de família procede de Lopo Rebelo, natural de Guimarães e que casou com Francisca Correia. Viveu no século
XVI e faleceu no Funchal.
Rebouças (André)
Foi um ilustre filho do Brasil e um dos seus mais distintos engenheiros. Estando nesta cidade, hospedado no
Hotel Reid, foi encontrado morto nas imediações do mesmo hotel, no dia 9 de Maio de 1898.
Recebedor do Distrito
Oficio que substituiu o de recebedor geral, desde 14 de Novembro de 1835.
Recebedor Geral
Era encarregado de receber e despender os dinheiros públicos, funções estas que estiveram a cargo da Junta da
Fazenda até 30 de Junho de 1835.
Receitas e Despesas do Distrito
Constam dos mapas seguintes as receitas e despesas do Tesouro e as receitas da Junta Geral
no período que vai de 1895 a 1922, convindo advertir que esta corporação tem direito apenas ás receitas provenientes das
contribuições industrial, predial rústica e urbana, e sumptuária, cobradas no distrito do Funchal:
TESOURO
Anos económicos Receitas
1895 - 1896
1896 - 1897
1897 - 1898
1898 - 1899
1899 - 1900
1900 - 1901
1901 - 1902
1902 - 1903
1903 - 1904
770.607$41
689.634$73
692.499$07
772.395$28
892.275$23
823.829$20
912.336$02
985.849$05
1.005 524$07
Despesas
257.807$30
293.360$96
284.438$53
258.019$06
277.716$56
269.329$83
305.812$28
222.225$28
254.198$11
260.840$87
29o.863$23
310.937$99
252.320$77
239.985$22
901.010$40
824.996$08
853.126$87
849.997$40
781.457$20
1904 - 1905
1905 - 1906
l906 - 1907
1907 - 1908
1908 - 1909
243.697$26
1909 – 1910 901.238$69
332.586$09
1910 - 1911 837.002$37
195.050$26
1911 - 1912 902.984$04
231.531$17
1912 - 1913 1.050.788$51
173.587$80
1913 - 1914 1.125.721$89
175.700$42
1914 - 1915 581.224$47
180.956$16
1915 - 1916 728.453$94
234.202$76
1916 - 1917 676.705$88
536.077$20
1917 - 1918 577.280$06
362.474$75
1918 – 1919 550.290$79
563.962$39
1919 – 1920 1.633.745$23
1920 – 1921 2.408.551$60 1.198.024$89
1921 – 1922 3.080.248$18 1.700.205$40
JUNTA GERAL
Anos económicos Receitas
1902 - 1903 ...............111.265$56
1903 - 1904 ...............129.793$24
1904 - 1905 ...............126.873$41
1905 - 1906 ...............132.229$93
1906 - 1907 ...............135.960$73
1907 - 1908 ...............135.520$46
1908 - 1909 ...............137.577$85
1909 - 1910 ...............144.417$00
1910 - 1911 ...............142.440$04
1911 - 1912 ...............147.558$26
1912 - 1913 ...............159.333$03
1913 - 1914 ...............227.783$61
1914 - 1915 ...............172.327$69
1915 - 1916 ...............220.129$35
1916 - 1917 ...............190.099$94
1917 - 1918 ...............187.367$06
1818 - 1919 ...............188.499$34
1919 - 1920 ...............234.687$92
1920 - 1921 ...............713.182$51
1921 - 1922 ...............969.750$37
V.
Alfandegas.
Receitas e Despesas Municipais
As receitas do Município do Funchal que eram de cerca de 81 contos em 1880 e de perto de
117 contos em 1890, subiram a 130.744$00 em 1900, a 171.156$00 em 1910, a 357.081$00 em 1920 e a 557.471$00 em 1922,
estando incluídos nestas importâncias os saldos dos anos anteriores e bem assim diversos rendimentos não arrecadados. Nas
receitas de 1920 e 1922, estão compreendidas as importâncias de 101.700$00 e 85.945$00 provenientes do deposito das obras do
saneamento da cidade. Nos anos económicos de 1862 a 1863 e 1870 a 1871, as receitas regularam respectivamente por 31.041$00 e
50.743$00, ao passo que em 1837 foi a receita calculada em 35.678$00.
As despesas regularam por 72.500$00 em 1880 e 98.500$00 em 1890, passando a ser de 105.758$00 em 1900, de 152.786$00 em
1910, de 246.471$00 em 1920 e de 462.007$00 em 1922. Nos anos económicos de 1862 a 1863 e de 1870 a 1871, as despesas
subiram respectivamente a 27.325$00 e 30.073$00.
Reclame (O)
Saíram 320 números, publicando-se o primeiro numero a 21 de Novembro de 1889 e o ultimo a 9 de Junho de 1891.
Recolhimento das Órfãs
V.
Órfãs (Recolhimento das).
Recreio (O)
Deu este Jornal 25 números, de 1 de Maio de 1863 a 13 de Julho de 1864, sendo redigido pelos alunos do nosso liceu.
Saíram 43 números dum jornal que, com o mesmo título, se publicou de 19 de Setembro de 1897 a 10 de Julho de 1898.
Redes
Já no artigo Palanquins nos referimos a uma espécie de maca usada na Madeira para o transporte de pessoas, cumprindo-
nos acrescentar agora que ela é conhecida pelo nome de rede e formada dum tecido muito encorpado e forte fabricado na ilha e que
se amarra pelas extremidades a uma vara ou pala, geralmente de folhado. A rede apareceu talvez na ilha depois do palanquim,
continuando a servir, porém, para o transporte de pessoas, embora seja menos usada hoje do que noutras épocas.
A rede de luxo é provida dum toldo e cortinas e no interior dum coxim e cobertor, ao passo que a rede usada nos campos não tem
toldo sendo este substituído muitas vezes por um pedaço de chita lançado sobre a vara e que tem por fim resguardar a pessoa, quer
dos ventos, quer dos raios do sol. Quando conduzidas por homens experientes, a rede é um meio de transporte excelente para os
inválidos.
Toda a rede tem sempre dois condutores, mas se a pessoa a transportar é pesada, podem ser precisos três e mesmo quatro
condutores. O pau da rede descansa sobre um dos ombros dos homens havendo um cajado que é levado na mão, mas que serve
muitas vezes para atravessar sobre o outro ombro, para se obter assim uma melhor distribuição do peso. Há homens que fazem
assentar a vara da rede sobre o ombro nu, servindo-se apenas do cajado uma vez ou outra durante as longas marchas, para evitar os
efeitos do atrito prolongado nessa parte do corpo.
Os estrangeiros que se servem da rede nas suas viagens no interior da ilha, admiram a prodigiosa facilidade com que os respectivos
condutores sobem ou descem as maiores inclinações, mesmo durante as horas mais quentes do dia, na estação calmosa. Em
caminho chão ou nas descidas, é muito difícil acompanha-los tal é a rapidez com que andam e saltam, sem que haja obstáculos que
os façam afrouxar a marcha.
A rede é um meio cómodo de visitar a ilha, mas hoje só podem servir-se dele as pessoas ricas tal é o preso exorbitante que os
condutores pedem pelo seu trabalho. A paga aos condutores, acresce sempre o que se despende com eles em vinho e aguardente,
sendo prodigiosas as quantidades destes líquidos que esses homens bebem durante as marchas, sem que pareçam ressentir-se
notavelmente de tais excessos, que se justificam até certo ponto pela necessidade que eles têm de procurar um estimulo para o
penoso e árduo serviço a que se entregam com frequência.
Redes de Pesca
As redes que na Madeira se usam com mais frequência na indústria da pesca, são as seguintes: a rede circular, a
rede de atravessar e a rede de arrasto.
A primeira, que muitas vezes se vê suspensa no mastro das embarcações de pesca e na boca da qual se amarram umas varas
arqueadas que têm por fim conserva-la aberta quando funciona, é a mais frequentemente utilizada, e serve não só para a pesca do
chicharro mas de outras espécies miúdas. Há umas cordas que ligam a rede a uma vara em que pega o pescador quando se serve do
aparelho, sendo a malha da mesma rede mais ou menos apertada, conforme as espécies que se pretende pescar.
A rede de atravessar, ás vezes muito grande tem num dos lados pedaços de cortiça e no outro pesos de chumbo destinados a fazê-la
aprofundar e tomar uma posição vertical. É utilizada às vezes para fazer cerco ao peixe, e é arrastada por meio de cordas que se
prendem á rede e servem também para levantá-la na ocasião da colheita.
A rede de arrasto tem, como a de atravessar, pedaços de cortiça num dos lados e pesos de chumbo no outro, mas difere dela em ter
um grande saco na parte media, destinado a apanhar o peixe que nela entra. A rede costuma ser puxada de terra por meio de cordas
muito compridas, que passam numa espécie de roldanas.
Além das redes que ficam indicadas, utilizam-se ás vezes na pesca os tresmalhos, as tarrafas, etc., tendo os tresmalhos três panos, o
interior de malha mais apertada que os laterais, e sendo as tarrafas pequenas redes, com pesos de chumbo na borda. O emprego das
tarrafas exige uma certa perícia, visto serem arremessadas a distancia do ponto em que se acha o peixe.
Alguns pescadores chamam redes de arrasto ás redes de atravessar, embora, como se viu, estas difiram daquelas em serem
desprovidas do saco destinado a apanhar o peixe.
Vid. Pesca.
Reflexos
Revista mensal de que saiu apenas um numero de 24 páginas, correspondente a Setembro, Outubro e Novembro de
1878.
Reforma (A)
Deu o primeiro numero a 14 de Outubro de 1858 e o ultimo, o 80.º a 16 de Julho de 1861. Foi seu redactor João
Escorcio Drumond da Câmara.
Regedor (O)
Jornal semanal, de que saiu o primeiro numero a 27 de Abril de 1803 e o ultimo, o nono, a 15 de Junho do mesmo
ano. Em Janeiro de 1828 saíram mais 4 números.
Regedor Filho (O)
(O) Jornal bissemanal, que deu 24 números, sendo o primeiro a 14 de Fevereiro de 1828 e o ultimo a 24 de Maio
do mesmo ano. Foi o continuador do Regedor, que se publicou em 1823.
Regedores de Paróquia
Existem na Madeira desde 1838, tendo a Câmara Municipal em 16 de Novembro deste ano enviado ao
administrador do concelho as propostas dos indivíduos que deviam desempenhar o cargo de regedor nas paróquias do concelho.
Antes dos regedores, houve os comissários de paróquia, nomeados em 1834.
Regeneração (A)
Saiu o primeiro numero deste jornal a 4 de Janeiro e o ultimo a 6 de Abril de 1871, tendo-se publicado 12
números.
Com o mesmo título, começou a publicar-se quinzenalmente um jornal, de que saiu o primeiro número a 4 de Fevereiro de 1914 e o
ultimo a 3 de Novembro de 1915, dando 28 números.
Região Agrícola (Nona)
O decreto de 8 de Maio de 1918 estabeleceu onze regiões agrícolas, constituindo a Madeira a 9.ª região,
com sede no Funchal, e subdividiu as regiões agrícolas em sub-regiões, ficando a do Funchal com o n.° 36.
Criou o mesmo diploma em cada região uma estação agrícola, onde se concentrassem todos os serviços regionais, e dispôs que em
cada sub-região agrícola houvesse um ou mais postos agrários.
O decreto de 2 de Maio de 1919 determinou que o produto do imposto da fabricação da aguardente, o do melado, etc., constituísse
receita da Junta Geral «taxativamente consignada a despesas de instalação e funcionamento da estação agrícola da 9.ª Região»,
mas os fins desta estação e os serviços que lhe estão incumbidos só foram claramente consignados no decreto n.° 8089, de 3 de
Abril de 1922.
A Estação Agrícola da 9.ª Região, segundo este decreto, tem a seu cargo os serviços físico-químicos e tecnológicos do distrito, os
serviços culturais e biologico-agricolas e os serviços do regímen do açúcar, álcool e aguardente, cumprindo-lhe vulgarizar as noções
acerca do melhor aproveitamento das plantas indígenas e do extermínio das plantas daninhas e tóxicas e bem assim sobre a
protecção das espécies animais úteis e da destruição das espécies prejudiciais.
A execução do regímen sacarino da Madeira, à excepção daquelas funções fiscais respeitantes a açúcar e álcool, privativas do
Ministério das Finanças, está a cargo da Estação Agricola da 9.ª Região, havendo uma comissão técnica de fiscalização do mesmo
regímen formada pelo director da mencionada Estação, o engenheiro da Circunscrição Industrial e o chefe da Repartição Distrital
de Fiscalização.
O decreto de 3 de Abril de 1922 passou para a posse da Estação Agrícola da 9.ª Região todos os prédios rústicos e urbanos que
pertenciam á extinta Junta Agrícola, bem como os materiais neles existentes, estabelecendo ainda que as receitas que eram
entregues á Junta Geral para despesas da dita Estação continuassem a ser cobradas na forma costumada, sendo depositadas,
porém, na Delegação da Caixa Geral dos Depósitos, á ordem do Director da Estação, para esta entidade lhes dar a aplicação
indicada na lei.
Na Estação deverá haver um posto meteorológico e fenologico, postos experimentais e de demonstração, um laboratório químico,
uma instalação para observações nosologicas, um mostruário de terras, adubos etc., frigorifico.
Em 7 de Maio de 1921, chegou á Madeira o engenheiro-agronomo Sá Viana, encarregado de organizar a 9.ª Região Agrícola,
estabelecer os respectivos serviços e colocar o pessoal da extinta Junta Agrícola, mas só em 1922 é que a Estação Agrícola da mesma
região se instalou definitivamente, tomando conta de certos serviços que estiveram provisoriamente a cargo da Junta Geral.
O decreto de 24 de Dezembro de 1901 colocou o distrito do Funchal na região agronómica do sul, tendo dividido os serviços
agronómicos em três regiões, e a lei de 9 de Julho de 1913 criou 28 secções agrícolas, ficando a do Funchal com o n.º 25. 0 decreto
de 17 de Agosto de 1912 e o decreto com força de lei de 26 de Maio de 1911 também se ocupam da organização agrícola do país.
Vid. Junta Agrícola.
Regímen Cerealífero
O regímen cerealífero madeirense, contra o qual sempre protestou a população, começou em 1899 e
acabou em Janeiro de 1913. Foi o decreto de 23 de Dezembro de 1899 que aprovou o regulamento para o comércio de trigos e
farinhas na Madeira e que estabeleceu o referido regímen, tendo esse decreto sido precedido da lei de 14 de Julho do mesmo ano. O
decreto de 26 de Julho de 1899 aprovou o regulamento para o comercio dos trigos e dos produtos da sua farinação, e o decreto de
28 de Outubro de 1909 introduziu novas modificações no regímen cerealífero da ilha.
Segundo os diplomas que estabeleceram o monopólio, a importação para consumo do trigo de qualquer procedência só era
permitida aos negociantes e fabricantes de farinhas matriculados e aos lavradores para semente, devendo a comissão directora do
mercado central anunciar até 5 de Agosto de cada ano a chamada para manifesto dos trigos insulares disponíveis para a venda. No
prazo máximo de cinco dias depois de terminada a chamada, devia a delegação publicar a nota do cereal manifestado e do rateio do
mesmo pelos ditos negociantes e fabricantes matriculados.
A lei n.° 960 de 24 de Março de 1920 declarou livre o comercio e transito de trigos nacionais e dos seus produtos de moagem,
obrigou os fabricantes matriculados a adquirir todo o trigo manifestado e estabeleceu que o trigo exótico destinado á Madeira fosse
rateado pelos negociantes e fabricantes matriculados, de acordo com as tabelas em vigor, publicadas pelo Ministério da Agricultura,
devendo a aquisição do mesmo trigo e da farinha exótica ser efectuada pelo Governo, e o preço do pão, fora de Lisboa e Porto, ser
fixado pelas Câmaras Municipais. Depois desse diploma, apareceu ainda o decreto de 30 de Novembro de 1921 que só trouxe
ligeiras modificações ao regímen anterior, estabelecendo, porém, que os preços das farinhas e do pão no Funchal fossem decretados
para cada ano cerealífero pelo governo central, depois de ouvida uma comissão delegada do Comercio Agrícola, que devia funcionar
nesta cidade.
Não obstante o povo ter manifestado por varias vezes a sua antipatia pelo regímen cerealífero, á sombra do qual tantos vexames e
extorsões se cometeram, e de alguns indivíduos categorizados da republica se haverem comprometido a obter a extinção desse
regímen, foi somente a 22 de Dezembro de 1922 que se conseguiu arrancar ao Senado a aprovação da proposta de lei para a livre
importação de farinhas na Madeira, já discutida em Câmaras em Setembro do ano anterior, tendo a data de 13 de Janeiro de 1913 e
o n.º 1392 a lei que pôs termo ao odioso monopólio cerealífero. A lei n.º 1294 de 31 de Julho de 1922 e o regulamento aprovado por
decreto de 1 de Setembro do mesmo ano não haviam libertado a ilha do predomínio dos moageiros.
O regímen sacarino, apesar dos justos protestos a que deu lugar, principalmente por causa do alto preço por que os açucares
passararn a ser vendidos, teve ao menos a vantagem de valorizar muitos terrenos e beneficiar notavelmente um grandíssimo
numero de proprietários e agricultores da ilha, ao passo que o regímen cerealífero só serviu para enriquecer os moageiros, podendo
afirmar-se mesmo que para este fim é que ele foi decretado. É certo que o povo continua a ser explorado e que o pão está sendo
vendido por preços exorbitantes, mas se vigorassem ainda as leis proibitivas da importação, estamos convencidos que mais criticas
seriam as nossas condições, pois nos mostrou a experiência de muitos anos não haver lucros que satisfizessem a avidez dos
moageiros.
Vid. Motins populares.
Regímen Florestal
Tendo próxima afinidade com o nosso assunto, recordaremos de passagem o surpreendente espectáculo que
ofereceria a nossa ilha aos que pela primeira vez vieram em demanda destas desconhecidas e longínquas paragens, especialmente a
vista da luxuriante vegetação que tão estaticamente a todos maravilhara.
Não nos deve, pois, causar estranheza o que em muitos lugares se lê acerca do «verdadeiro espanto», misto da mais assombrosa
surpresa e da mais empolgante admiração, que experimentaram os primeiros e audazes navegantes ao defrontar com o panorama,
para eles nunca visto, de uma maravilhosa floresta, que em massa compacta longamente se estendia desde a orla remansosa do
oceano até os píncaros das mais alterosas montanhas.
Árvores de agigantado porte, da mais exuberante vegetação e sem solução de continuidade, cobriam densamente as vertentes e
encostas, tornando inacessíveis os terrenos, que sem demora deveriam ser sujeitos a uma activa exploração agrícola.
Longe iríamos, se quiséssemos reproduzir aqui os interessantes depoimentos que antigos cronistas nos deixaram acerca dessa rica e
abundantíssima vegetação florestal, limitando-nos a dar uma rápida súmula de alguns desses testemunhos históricos
contemporâneos dos factos referidos.
São muitas as passagens das Saudades da Terra relativas á opulenta vegetação florestal do tempo do primitivo povoamento, em
que, entre outras cousas, se diz que a ilha estava «toda coberta de arvoredo até o mar... e tão igual por cima que parecia feito á mão,
sem haver árvore mais alta do que outra».
O navegador português Diogo Gomes de Sintra, que visitou a Madeira nos princípios do século XV, refere-se igualmente e em
termos não menos expressivos a essas frondosas matas que cobriam toda a superfície da ilha.
O veneziano Luis Cadamosto, que esteve ao serviço da marinha portuguesa por meados do século XV e visitou este arquipélago, diz
que por ocasião do descobrimento «não tinha palmo de terra que não fosse cheio de árvores grandissimas...»
Outro navegador italiano Pompeu Arditti de Pesaro, também ao serviço de Portugal deixou escrita, em 1567, esta interessante
informação: «não é habitada senão á beira-mar, pois que na montanha, por causa da espessura das árvores que ali há em mui
grande abundância e altíssimos, de maneira que, dizem, por causa delas se anda duas ou três léguas sem jamais ver o sol...» E
outros testemunhos se se poderiam facilmente aduzir se o permitisse o espaço de que podemos dispor.
Se a natureza foi de uma notável prodigalidade na abundância desses tão densos e vastos arvoredos, não se tornou avara na
variedade das espécies florestais com que cobriu todo o solo madeirense. Pode com verdade afirmar-se que á riqueza da
«quantidade» se juntava profusamente a riqueza da «qualidade». E, para o comprovar, recordaremos que é um facto averiguado a
existência de bastas e extensas matas de cedros, tis, vinháticos, freixos, urzes, barbusanos e ainda outras apreciáveis espécies
árboreas, de algumas das quais só resta uma. . . saudosa memória.
Em vista do que tantas vezes se tem dito e que de novo deixamos aqui sumariamente repetido, não causará admiração de que á
nossa querida ilha se houvesse dado o nome de Madeira, que os séculos vão perpetuando e que a fama tornou universal. Com o
inaudito vandalismo dos homens, vai-se tornando menos rigoroso e legitimo o uso desse nome, estabelecendo-se um flagrante
contraste entre o seu verdadeiro significado e aquilo que ele deveria na realidade exprimir...
Os primitivos povoadores ao aportarem a estas plagas desconhecidas logo reconheceram a benignidade do clima e a fertilidade do
solo, animando-os corajosamente para as explorações agrícolas que iam iniciar, mas defrontaram com um grande e quase
insuperável obstáculo: o gigantesco arvoredo que em massa cerrada se estendia desde as orlas do oceano até os cumes das
montanhas.
O incendio, talvez imprudentemente ateado mas também necessariamente imposto pela força imperiosa das circunstâncias, veio
abrir clareiras propícias para o arroteamento dos terrenos. Diz Gaspar Frutuoso, embora hiperbolicamente, que «por ser o vale
muito espesso de arvoredo, ateou-se de tal maneira o fogo, que andou sete anos pegado pelas árvores e troncos e raizes, assi no
Funchal como em o mais da ilha...» O erudito comentador das Saudades, sem aceitar inteiramente a afirmativa do historiador das
ilhas, não põe em duvida a intensidade e a extensão do violento incêndio. Qual fosse aproximadamente a área da sua acção
destruidora e as suas imediatas consequências não é hoje possível dizê-lo, mas várias razões persuadem que teria atingido as mais
assustadoras proporções (Vid. II-140).
Após o incêndio e simultaneamente com o incipiente cultivo das glebas, ia-se operando um intenso desbaste na vegetação florestal,
que ao mesmo tempo oferecia a matéria-prima para a construção das primeiras habitações.
Da superabundância das madeiras, da sua apreciada qualidade e da sua procura no Continente e ainda no estrangeiro, surgiu a
ideia de uma larga exportação e do seu respectivo tráfego comercial, criando-se desde logo uma importante fonte de receita, em um
meio tão limitado como então era o da Madeira.
Uma nova indústria, embora de feição elementar, apareceu com a preparação das madeiras para o embarque. Era preciso abater as
árvores, serrá-las e apropriá-las ao fim a que particularmente se destinavam.
Vieram então as chamadas «serras de água», que se multiplicaram por diversos pontos, existindo ainda alguns sítios com esse
nome em várias freguesias. Eram uns «engenheiros» bastante rudimentares montados nas margens de caudalosas correntes,
aproveitando a força motriz que elas lhes forneciam.
É sobremaneira interessante este trecho do doutor Gaspar Frutuoso: «...havia tanta quantidade de madeira, tão formosa e rija, que
levavam para muitas partes cópia de tábuas, traves, mastros, que tudo se serrava com engenhos... e nesse tempo se começara a fazer
com ela navios de gávea e castelo de avante, porque dantes não os havia no reino».
E não é menos interessante o que lemos na História de Portugal de Pinheiro Chagas (II-252) e que vamos textualmente transcrever:
«Azurara, tratando das vantagens que resultaram dos descobrimentos, menciona «as grandes alturas das casas que se vão ao céu e
fazem com a madeira daquelas partes. Ao que o visconde de Santarém acrescenta em nota: esta interessante particularidade indica
que a madeira transportada a Portugal... principalmente da ilha da Madeira fora em tanta quantidade, que a sua abundância fizera
mudar o sistema de construção de prédios urbanos, aumentando os andares...».
Merece especial referência a construção que então se fazia de grande número de embarcações de pequenas lotações, destinadas á
pesca e ao transporte de mercadorias, e que eram exportadas para o Continente, exportação que teve de ser proibida pelo abuso que
se praticava com o emprego da respectiva matéria prima.
Muitos outros factos e circunstancias respeitantes á densidade e extensão dos primitivos arvoredos se poderiam ainda referir, mas
que uma injusta brevidade obriga a omitir.
Apesar da veracidade do primitivo incêndio, a Madeira rapidamente se repovoou de espécies arboreas, e não levou largos anos a
cobrir-se de uma extensa e abundante vegetação florestal. Veio, porém, o corte, o comercio e a exportação das madeiras de que
largamente se usou e abusou, o que provocou enérgicos protestos e determinou a adopção de severas medidas de repressão, como
veremos em um artigo subsequente.
Sendo impotente o vandalismo dos homens para modificar as condições climatéricas e a pujante fertilidade das glebas, não se
cansaram, porém, em destruir sistemática e permanentemente a inexcedível riqueza florestal das montanhas.
Veio logo o primeiro e violento incêndio, de grandes efeitos destruidores, e outros de menor monta mas de sempre nefastas
consequências, se foram dando através do tempo, alguns deles meramente casuais e o maior numero ateados por mãos criminosas,
como adiante teremos ocasião de ver.
Posteriormente surgiram a «serração», o comercio e a exportação das madeiras, mas em tão larga escala e em tão desmedidas
proporções, que se tornou necessária uma enérgica repressão por parte do governo da Metrópole, com a promulgação das cartas
régias dos anos de 1515 e 1562, das quais apenas se conhece integralmente a ultima, que vem transcrita a páginas 463-471 das
anotações das «Saudades da Terra».
No alvará de D. João II, de 7 de Março de 1493 que principalmente trata de várias concessões acerca de fontes e nascentes,
encontram-se estas curiosas palavras, referentes ao nosso assunto, :«... os freixos e cedros, que para nós reservamos, não usarão
nem cortarão... a não ser para alguma igreja ou casa de câmara ou a quem dermos. . . licença por carta nossa». E a propósito
diremos que há meio século ou pouco mais existiam ainda em vários pontos da ilha muitos maciços do nosso cedro indígena, a tão
apreciada e odorífera madeira bastante empregada na marcenaria madeirense. Não sabemos se hoje, ao menos como simples e
saudosa amostra do passado, se encontram ainda alguns exemplares em qualquer recanto das matas do interior.
Apesar de não se conhecerem todas as disposições do regimento de 05 de Janeiro de 1515, a que acima se alude, sabe-se que nele se
ordenava a plantação de pinheiros e castanheiros nas terras mais adequadas a estas espécies arboreas, e se proibia o corte de
arvores sem licença das câmaras, não podendo esse corte ser permitido, em caso algum, nos lugares em que houvesse fontes ou
águas correntes. Outras disposições de carácter proibitivo, acompanhadas das respectivas penalidades impostas aos infractores, se
continham ainda no mesmo regimento, segundo se depreende das referências avulsas que, dispersamente, se encontram em vários
lugares.
A doutrina nele contida foi ampliada e completada com o Regimento de 27 de Agosto de 1562, promulgado pela rainha-regente D.
Catarina, que verdadeiramente se pode chamar o «Código Florestal da Madeira». Referindo-se a ele, dizia em 1873 o erudito
comentador das Saudades da Terra: «É diploma importante para a história agrícola desta ilha e constitui a sua peculiar legislação
florestal, ainda agora em grande parte vigente, e é fonte de posturas municipais em todos os concelhos dela».
Embora com a natural evolução dos conhecimentos humanos e com as actuais circunstâncias de feição estritamente local, não se
possam aceitar em toda a sua plenitude as disposições legais contidas nesse diploma, somos no entretanto forçados a reconhecer a
sua alta importância, o seu incontestável valor jurídico e o mais atinado critério com que foi versada a matéria, que ele se destinava
a regulamentar.
Logo de entrada faz este regimento (1562) referência à necessidade do anterior regimento de 1515, em virtude dos grandes abusos
que já então se praticavam, e salienta a necessidade ainda maior de se adoptarem medidas de mais enérgica repressão, para cobrir
os desmandos que se continuavam a cometer.
Não podemos referir-nos pormenorizadamente ás principais determinações desse diploma, mas não deixaremos de aludir, a um ou
outro ponto, embora em rápida passagem. E assim indicaremos:
a) não se podia fazer corte de madeiras sem licença das câmaras, devendo essas licenças ser referenciadas pelos donatários; b)
quem excedesse os limites das concessões feitas seria açoutado, multado e degredado para Africa sendo também degredados os que
pusessem fogo na serra; c) proibição de cortar ramos de árvores para alimentação dos gados; d) não permitir a construção de navios
e ainda de pequenas embarcações para serem exportadas; e) proibir que os cortes de madeiras se façam a menos de «cento e
cinquenta passos», de distancia das nascentes e ribeiras; f) obrigar os proprietários, em certos sítios, à plantação de certas árvores e
especialmente castanheiros, etc..
Parece que seriam ainda mais draconianos os preceitos legais do regimento de 1515 do que os estabelecidos pelo regimento de
Agosto de 1562, ficando porém, ambos em inteira vigência, pois que o segundo se destinara a ampliar e a completar as doutrinas do
primeiro, como acima se disse.
Os ouvidores, representantes dos donatários nas povoações mais importantes, deveriam exercer uma severa fiscalização na
observância do que se dispunha nos regimentos e promover a aplicação das respectivas penalidades aos infractores, sendo de
presumir que essa fiscalização deixasse bastante a desejar.
Como já em outro lugar deixámos dito, no arquivo da Câmara Municipal do Funchal encontram-se registados muitos diplomas, e
por eles se vê «que nos séculos XVII e XVIII se cuidava com grande interesse pela conservação das matas, sendo em 1799
estabelecido um viveiro na freguesia do Monte, que desde aquele ano até o de 1824 fez distribuir, para replantar, mais de vinte mil
árvores de diferentes espécies.
Interessam sobremaneira ao nosso assunto e encerram providencias que deveriam ter sido plenamente adoptadas, além dos citados
«regimentos», o decreto de 11 de Março de 1796, o alvará de 18 de Outubro de 1811 e a carta régia de 14 de Maio de 1804, que foram
expressamente promulgadas para a Madeira.
No artigo «Arborização» (I-75), fizemos menção de outras medidas destinadas a proteger e a desenvolver o nosso património
florestal e para elas chamamos a atenção dos leitores, evitando uma escusada e fastidiosa repetição.
Os nossos arvoredos tem como inimigos implacáveis: o pastor, o carvoeiro e o negociante de madeiras, sendo este o mais perigoso e
daninho. A criação de gados, o fabrico de carvão e o corte de madeiras deviam ser absolutamente proscritos. E se, por imperiosas
circunstancias e muito excepcionalmente, houvessem de permitir-se, todo o rigor seria pouco na sua mais severa e apertada
fiscalização.
É um erro grave supor-se que a criação do gado bovino, caprino e porcino fomenta uma apreciável indústria de cuja supressão
poderia de qualquer modo ressentir-se a economia do distrito. Bastará dizer-se que a ela se entrega um número limitado de
indivíduos, para os quais não constitui um modo exclusivo de vida, pois que cumulativamente a exercem com a profissão de
agricultores ou de simples trabalhadores rurais. Na generalidade, os gados pastam livremente sete guardas ou pastores e acham-se
expostos a todas as intempéries, não existindo currais ou abrigos adequados que os resguardem das rigorosas invernias, sendo
sempre muito considerável o número de animais que por esse motivo sucumbe todos os anos. Esta ponderosa circunstancia seria
suficiente para justificar-se em qualquer país, uma absoluta proibição da livre pastagem do gado em serras desabrigadas.
É notório que os gados causam uma grande destruição nas plantas ainda novas e em pleno desenvolvimento, mas a pujança
luxuriante da nossa vegetação vence em boa parte o ataque das fortes maxilas desses ruminantes. O que, porém, não pode vencer a
opulência nativa dos nossos arvoredos é a acção daninha e criminosa do pastor.
Os rebanhos não encontram meio favorável para as suas pastagens em terrenos cobertos de densa arborização, tendo necessidade
dum solo em que predominem as forragens e plantas de pequeno porte, indispensáveis à alimentação que lhes é mais apropriada. O
pastor prepara logo esse desejado pascigo numa clareira mais ou menos vasta, que a força destruidora das chamas lhe oferece sem
dificuldade. Os grandes incêndios nas nossas matas têm ordinariamente essa origem. Os zagais não trepidam um momento em
converter uma floresta de belas e corpulentas árvores, que levaram séculos a formar-se, numa superfície deserta e calcinada pelo
fogo devorador, afim de que em breve se transforme num campo de pastagem destinado a fornecer alimento a umas parcas dezenas
de cabras e ovelhas.
São tão manifestos os prejuízos resultantes do fabrico do carvão, não somente pelas inúmeras e belas árvores que se perdem para
obter esse combustível, mas ainda pelo perigo sempre iminente de atear-se um violento incêndio, como tantas vezes tem
acontecido, que desnecessário se torna aduzir um longo cortejo de argumentos para, condenar em absoluto a permissão de
semelhante pratica, sejam quais forem as clausulas de segurança que porventura possam invocar-se para esse fim.
Os decretos de 23 de Julho de 1913 e 22 de Setembro de 1917, que entre nós ficaram conhecidos pelo nome de «Lei das pastagens de
gados nas serras», estabeleceram certas disposições acerca das pastagens em prédios de propriedade particular e nos terrenos do
Estado ou das câmaras, tendo-se em vista acautelar os prejuízos causados pela livre pastoreação dos gados. Não satisfizeram,
porém o fim desejado e nem chegaram a ser observados em toda a sua plenitude, tornando-se inútil ou pouco vantajosa a sua
promulgação. Compartilhamos da opinião dos que admitem a necessidade da abolição ou completa remodelação desses decretos. E
o que aqui deixamos exposto, relativamente às pastagens, diz também respeito ao que aos referidos decretos se estabelece acerca do
fabrico do carvão vegetal.
O machado tem sido na Madeira o grande «arboricida». Instrumento tão útil e prestadio, transforma-se muitas vezes em elemento
de destruição e de ruína. Assim foi em séculos passados e, porventura, continuará a sê-lo em épocas vindouras.
Vimos anteriormente o uso e abuso que se fez da nossa primitiva e opulenta vegetação florestal. Não se contentaram os
imprevidentes habitantes em aproveitar, embora com largueza, os benefícios que essa inapreciável riqueza lhes facultava como
combustível, como matéria-prima nas construções das habitações, do mobiliário e outros objectos de uso doméstico.
Como já dissemos, a exportação de madeiras em larga escala criou a indústria da «serração» e a conveniente adaptação das árvores
para o embarque, ao mesmo tempo que os abusos e desmandos praticados determinaram a promulgação de várias leis, impondo a
aplicação de penas severas que iam até aos açoites e ao degredo para as costas de África.
A conservação das matas deveria encontrar a mais eficaz protecção, como já referimos, no célebre «regimento» de 27 de Agosto de
1562, que, entre outras salutares disposições, contava as das licenças passadas pelas câmaras e referendadas pelos donatários para
o corte de madeiras nas nossas florestas. Esse regime tem-se mantido através dos tempos e conta já a veneranda idade de 380 anos.
Interessante e proveitoso seria conhecer, se para isso houvesse os indispensáveis elementos, a forma como ele tem sido observado,
isto é, fazer-se uma avaliação aproximada dos seus benefícios ou dos seus prejuízos.
Há sido à sombra dessas licenças que o terceiro implacável inimigo dos frondosos arvoredos tem arrancado, vai arrancando e
continuará a arrancar das nossas serras as preciosas e abundantes madeiras, que são a matéria dos seus lucrativos negócios. É
evidente que estas nossas francas e terminantes afirmativas não revestem o carácter de uma inteira generalidade, pois sabemos que
cometeriamos uma flagrante injustiça se porventura o pretendêssemos fazer.
Observadas todas as formalidades burocráticas, que não oferecem dificuldades de maior, é de contar com prestígio social dos
peticionários, com a conhecida brandura dos nossos costumes e com a escassez do pessoal fiscalizador, além das influências que
muitas vezes se movem em favor dos interessados.
Embora não seja talvez recente, tem-se verificado o facto de aplicar-se uma penalidade pelo corte abusivo de uma árvore, e
permitir-se que se abatam centenas e centenas delas à sombra de licença que tal não consentia. O facto parecerá estranho, mas não
deixa de corresponder a uma triste realidade.
No ano de 1928, reconhecendo a Comissão Executiva da Junta Geral a manifesta e imperiosa necessidade de acudir aos estragos já
irreparáveis causados nos arvoredos e julgando ineficazes as providencias que se estavam pondo em pratica para conjurar esse mal,
solicitou do governo central a vinda à Madeira de um funcionário especializado em assuntos florestais, afim de proceder a um largo
estudo e apresentar um desenvolvido relatório com os resultados dos trabalhos a que iria proficientemente dedicar-se.
Dessa melindrosa missão foi encarregado o ilustre engenheiro silvicultor José Augusto Fragoso, que após um demorado estudo,
realizado «in loco», apresentou à Junta Geral, em meados de Junho de 1929, um extenso relatório com o plano de todas as medidas
que deveriam ser adoptadas.
Esse relatório foi desde logo considerado como o produto de um aturado e consciencioso trabalho, em que um distinto profissional
soube aliar ao mais aprofundado conhecimento das matérias versadas o mais apurado escrúpulo na solução de tão melindrosos
problemas.
Logo ali se destaca, como medida primacial, a necessidade da promulgação de um decreto, que estabeleça as bases da forma como
hajam de ser orientados e dirigidos todos os serviços florestais, dando-lhe a mais perfeita uniformidade em todo o arquipélago, pois
é sabido que algumas câmaras municipais se arrogam ainda os privilégios consignados em umas arcaicas e obsoletas posturas talvez
restos do velho e abolido direito consuetudinário.
A criação de uma «circunscrição florestal» chefiada por um engenheiro-silvicultor constitui já hoje uma urgente necessidade
reconhecida por todos, embora tenha de sobrecarregar-se os orçamentos da Junta Geral, mas o futuro se encarregará de
demonstrar os benefícios que resultarão dessa vantajosa medida. Não é, pois, de estranhar que a «Organização dos Serviços
Florestais e Fomento Agrícola da Madeira», redigida pelo engenheiro J. M. Fragoso abra com a indicação dessa clausula e do
pessoal com que deve ser dotada a projectada «Circunscrição Florestal». Não se compreende como certos indivíduos, sem uma
preparação especial de carácter técnico, possam estar na direcção dos serviços desta natureza, que exigem conhecimentos
especializados e que somente podem ser adquiridos em meios apropriadamente destinados a esse fim.
O relatório começa por consagrar um bem elucidativo capítulo á «Necessidade da Rearborização da Madeira» e seguidamente
apresenta as seis «Bases» em que devem ser moldados os respectivos serviços, as quais vêm largamente esplanadas nos sub
capítulos «Organização dos Serviços Florestais», «Regimen Florestal», «Policia Florestal», «Protecção aos Arvoredos», «Fomento
de Arborização» e «Disposições Gerais», e a estes se segue uma desenvolvida justificação das ideias sugeridas e dos diversos alvitres
apresentados em todo esse notável estudo.
Conclui o relatório por indicar os primeiros trabalhos que deveriam sem demora iniciar-se e dos quais damos este abreviado
resumo: 1.° Promover, por meio de um decreto, a inclusão de todos os terrenos baldios no «Regime Florestal», 2.° conseguir a
criação duma «Circunscrição Florestal» dotada com o necessário e competente pessoal, 3.º inscrever no orçamento uma avultada
soma para começo dos trabalhos, 4.° procurar que o governo central tome a seu cargo estes serviços e lhes garanta a sua
continuidade, 5.º mandar construir duas casas nos lugares indicados nas «Bases», 6.º prosseguir a arborização do Montado dos
Barreiros e do Paul da Serra, 7.° criar um viveiro perto do Funchal, e 8.° promover a promulgação de um decreto acerca do regime
pastoril.
Desnecessário será acentuar que estas indicações finais do Relatório se referem particularmente aos primeiros trabalhos a iniciar e
não ao conjunto de todos os serviços a estabelecer que vêm largamente explanados no mesmo Relatório.
Com o que deixamos dito, não pretendemos sustentar o princípio de que esse largo e bem elaborado estudo deva ser aceito em toda
a sua plenitude, sendo até possível e mesmo provável que circunstancias supervenientes obriguem a introduzir na sua redacção
profundas e indispensáveis modificações. O que, porém, parece averiguado, segundo a douta e autorizada opinião de funcionários
versados nestes assuntos, é que, ao menos, nas suas linhas gerais e no seu criterioso conjunto, se adapta às condições do meio para
que foi elaborado e pode servir de excelente auxilio aos trabalhos que venham a realizar-se.
Vai-se tornando uma verdade reconhecida por toda a gente a da criação de uma «Circunscrição Florestal», como fica ligeiramente
esboçado neste despretensioso artigo, em que uma comprovada proficiência, o mais acendrado zelo e a maior independência
superiormente orientem e dirijam todos os serviços dependentes dessa repartição.
A este momentoso assunto, oferece particular interesse as considerações que há pouco deixámos exaradas em um jornal desta
cidade e donde vamos extractar alguns períodos, que ampliam e esclarecem o que acima fica sumariamente exposto.
Vimos com devotado aprazimento que a Junta Geral deste distrito, solicitamente empenhada na conservação e no desenvolvimento
das nossas matas e arvoredos, tomara a importante deliberação de alargar a sua acção de vigilância e de defesa acerca dos restos da
antiga e afamada riqueza florestal, que bastamente revestia a quase inteira superfície das nossas elevações montanhosas.
Informou-nos recentemente (1945) um periódico da imprensa local que, para a realização dessa acertada medida, foi elevado de
catorze para dezanove o numero de «postos florestais», e que, aos trinta e um guardas existentes, se acrescentou também o numero
de onze, constituindo presentemente um corpo de quarenta e dois guardas–campestres ou florestais, o que permite prestar-se um
serviço de vigilância mais largo e mais profícuo do que até agora se desempenhava.
Ignoramos qual seja a superfície ou área em que deve ser exercida essa fiscalização de caracter permanente e ainda a especial área
de acção respeitante a cada posto florestal, mas estamos persuadidos que essa recente remodelação de serviços foi moldada em
bases que satisfaçam inteiramente o fim desejado. Tendo a nossa ilha uma superfície aproximada de setenta e cinco mil hectares,
com terrenos do mais acidentado relevo, não pode ser considerado excessivo o número dos membros que compõem essa policia
florestal.
Não basta, porém, o número, para o cabal desempenho das funções cometidas a esse pessoal, importa também que ele seja o fiel e
diligente executor das ordens e instruções emanadas das repartições que superintendem nesses serviços. Mais importa e mais
necessário se torna ainda que essas estações superiores tenham de ser orientadas, dirigidas e reguladas por preceitos de bem
definida esfera de jurisdição e que não encontrem obstáculos no exercício da sua acção administrativa.
Embora se pretenda afirmar o contrario, a verdade é que não existe um diploma legislativo que abranja totalmente os diversos
serviços respeitantes á conservação e desenvolvimento dos nossos arvoredos, tornando-se absolutamente indispensável adoptar um
novo regime florestal de mais eficaz protecção e de mais segura vigilância do que até ao presente tem vigorado entre nós.
A direcção dos serviços florestais esteve primitivamente a cargo dos capitães-donatários e seus «ouvidores» e depois ao das
Câmaras Municipais, tendo também os governadores do arquipélago e posteriormente os governadores civis do distrito
interferência em alguns desses serviços.
Desde o ano de 1897 que estão a cargo duma repartição dirigida por um regente florestal, a qual se tem limitado até hoje a fazer
algumas plantações de árvores exóticas no Porto Santo e a promover a sementeira do pinheiro marítimo na região montanhosa da
Madeira. Da conservação e propagação das árvores indígenas, não se tem cuidado até o presente, sendo possível que muitas das
mesmas árvores venham a desaparecer dentro em pouco mercê das devastações que nelas fazem constantemente os lenheiros, os
carvoeiros e os gados.
A lei n.° 26, de 9 de Julho de 1913, criou quatro secções florestais, que foram divididas em zonas, ficando a do Funchal com o n.° 25
e compreendida na quarta secção, com sede em Lisboa, e o decreto de 8 de Maio de 1918 estabeleceu oito circunscrições florestais,
ficando o Funchal incluído na sexta circunscrição, com sede em Lisboa, e dezoito regências florestais, ficando a do Funchal com o
n.° 18 (1922).
O decreto de 11 de Março de 1911 e respectivo Regulamento, que criou a Junta Agrícola e regulou o seu funcionamento, estabeleceu
a Estação Agraria e a esta repartição ficou pertencendo a direcção técnica e administrativa dos assuntos florestais desde o ano de
1919, em que foi extinta aquela Junta.
Além do célebre «Regimento das Madeiras» (Vid. Saudades a páginas 463), decretado no ano de 1562 e que para a época constitui
um notável diploma legislativo, pode dizer-se que não se promulgaram outras proveitosas disposições legais acerca desta matéria, a
pesar dos diversos decretos e providencias emanadas do poder central, que vêm citadas no Elucidário Madeirense, mas que não
produziram os salutares resultados que deles havia a esperar.
Através do tempo, todas as Câmaras Municipais, julgando-se com imprescritíveis direitos sobre a vegetação florestal das serras,
organizaram diversas «Posturas» destinadas a regular o seu uso e aproveitamento. Eram disposições de carácter local, de maior ou
menor latitude de administração e que não guardavam entre si uma perfeita harmonia de princípios, havendo uma grande
arbitrariedade na sua execução. Ainda hoje surgem, de longe em longe, certas vereações rurais a invocar e a querer impor a
observância de antigas e obsoletas posturas municipais, o que não é para estranhar, sabendo-se que na própria repartição central
não se observa uma constante uniformidade na adopção das medidas respeitantes às diversas modalidades de tais serviços.
Tem próxima afinidade com o nosso assunto, como veremos, uma ligeira referência neste lugar ao que na Madeira se chamam
Baldios e que são os terrenos não sujeitos á exploração agrícola e que em geral ficam situados a uma altitude superior a oitocentos
ou novecentos metros. Pertencem a particulares, ás Câmaras Municipais e ao Estado, não se achando bem delimitadas as fronteiras
dos diversos proprietários. Os «baldios» eram noutros tempos, e ainda o são em parte, separados dos terrenos cultivados por meio
de sebes ou tapumes, feitos de estacas e ramos de árvores, que têm o nome de baldios, principalmente destinados a impedir que os
gados assaltem as culturas agrícolas.
Não estando demarcados com precisão os limites desses terrenos, fácil é de conjecturar os abusos que se tenham dado, as
audaciosas pretensões que de quando em quando apareçam e as fraudes empregadas para a sua ilícita e definitiva posse, por parte
de indivíduos inteiramente falhos de escrúpulos.
Uma grande parte desses «baldios» eram considerados como «logradouros comuns», em que os cultivadores das terras, mediante
certas condições e sob a fiscalização da «Regência Florestal», procediam á colheita de forragens, de matéria para adubos e para
combustível, constituindo para eles uma apreciável regalia que não podiam dispensar na labuta da sua activa e modesta existência.
Se admitirmos o progressivo cerceamento desses antigos e tradicionais privilégios com a alienação a particulares dos «baldios» que
eram pertença do Estado ou dos municípios, veremos seriamente ameaçada a legitima prosperidade, a apreciada economia
domestica e o relativo bem-estar de milhares de indivíduos de uma simples mediania de haveres, em favor de um número restrito
de pessoas abonadas mas pouco escrupulosas.
Não há muito tempo que numa repartição do Estado de um concelho rural foram vendidos em hasta pública, por uns módicos
centos de escudos, com o fundamento em uns hipotéticos direitos de propriedade, uns terrenos baldios, mas de que o público
usufruía por direito consuetudinário, tendo a Câmara Municipal informado que esses terrenos não eram «logradouros comuns» e
havendo a referida repartição realizado essa venda e arrecadado a respectiva contribuição pertencente à fazenda publica (1944).
Desnecessário se torna encarecer a imperiosa e inabalável necessidade de proceder-se com a mais rigorosa exactidão que possível
for à delimitação desses «baldios», quer sejam do Estado quer das câmaras ou de particulares, conforme o estão exigindo a
conservação dos arvoredos, a rigorosa fiscalização a exercer pelo corpo florestal, a orientação a adoptar pela repartição central e
ainda a manutenção das regalias de que gozam inúmeros cultivadores de terras como acima ficou referido.
Sabemos que em várias freguesias desta ilha tem causado uma grande estranheza a facilidade na concessão de licenças para o corte
de diversas espécies florestais que se vão tornando de uma notável raridade e cujo aproveitamento devia ser absolutamente
proibido, como já o fora em outro tempo, vindo a propósito recordar que em uma antiga postura municipal se encontra esta
acertada disposição: – «É expressamente proibido cortar madeiras, lenha cascas e ramagens das seguintes árvores e arbustos:
louro, til, vinhatico e quaisquer outras essencias florestais, arboreas e arbustivas, indigenas e aclimadas (exceptua-se o pinheiro)
qualquer que seja a situação ou local em que vegetem. Esta prohibição é extensiva aos próprios donos das propriedades em que
vegetem as referidas árvores e arbustos, os quais, se infringirem esta disposição incorrem como qualquer outra pessoa, na pena de
2:000 a 20:000 reis de multa conforme o damno causado».
Aos grupos ou maciços de árvores dessas e de outras raríssimas espécies tem sido dado por alguns o nome de «florestas
espontâneas», que devem ser religiosamente conservadas, como eram em tempos remotos as chamadas Florestas Sagradas, objecto
de fervoroso culto de antigos povos e ás quais tributavam a mais profunda veneração.
Essas preciosas relíquias da nossa velha riqueza florestal constituem para os madeirenses um «verdadeiro título de glória», pois se
acham indissoluvelmente ligados ao nome que foi dado a esta ilha e a este Arquipélago e que o nosso glorioso épico imortalizou ao
traçar a tão conhecida e tão expressiva frase que do muito arvoredo assim se chama...
É fácil de presumir que actos de vandalismo e até de verdadeiro extermínio não se terão praticado por essas serras a dentro, nos
nossos já tão depauperados arvoredos a sombra legal dessa pródiga liberalidade de concessões e licenças sobretudo pelos que se
consideram proprietários de terrenos «baldios», terrenos que deveriam ser um legitimo e inalienável património dos pobres e
menos favorecidos da fortuna.
Até o nosso tempo, eram tidos como implacáveis inimigos das matas e florestas os «pastores», os «carvoeiros», os «lenheiros» e os
«negociantes de madeiras» aos quais vieram recentemente juntar-se esses novos e mais perigosos inimigos, acobertados à sombra
de problemáticos direitos protegidos por certas repartições publicas e baseados em elásticas e mal definidas licenças...
Mas não basta ainda..., como a experiência de séculos o tem exuberantemente demonstrado, a publicação de uns tantos diplomas
legislativos, com o seu aparatoso cortejo de «instruções» e «regulamentos», destinados a promover a inteira e rigorosa execução
dessas mesmas leis.
Torna-se indispensável, absolutamente indispensável, que a superior direcção dos diversos serviços florestais seja confiada a uma
repartição, que, além dos fundamentais requisitos de zelo e de probidade que devem distinguir o exercício das funções públicas,
possua também o conjunto de todos os conhecimentos de carácter teórico e mais ainda de feição essencialmente prática, para o
cabal desempenho desses importantes e especializados serviços. Este fim só pode ser inteiramente atingido com a criação de uma
Circunscrição Florestal, como por vezes o temos repetido nas páginas desta obra.
Regímen Sacarino
V.Cana Sacarina e Proteccionismo sacarino .
Regimento das Madeiras
V.Arborização, Regímen Florestal e Madeiras .
Regniard (J.)
Em 1895, publicou-se nesta cidade um folheto de 47-VII páginas intituladoNo Laboratório. Psychologia ePathologia Cerebral , que produziu entre nós grande sensação, firmado pelo pseudónimo de J. Regniard, sendo ainda desconhecido
para muitos o seu autor.
Rego
Há diversos ramos desta família, segundo diz o distinto genealogista José Bettencourt da Câmara, já falecido: uns vêm de
João Rego, fidalgo algarvio; outros de Gaspar Rego; e outros de Vasco Fernandes Rego. Os dois últimos foram dos primeiros
povoadores do Caniço.
Rego (Dr. António Balbino do)
Era natural do Continente da Republica e nasceu a 23 de Maio de 1874. No ano de 1900, concluiu o
seu curso médico na Escola do Porto e em 1904 foi nomeado director do Laboratório de Bacteriologia e Higiene do Funchal, que há
pouco tinha sido criado pela Junta Geral deste distrito.
Exercia o Dr. Balbino do Rego nesta cidade a clínica particular e desempenhava as suas funções oficiais de director do Laboratório
de Bacteriologia, quando, em fins do ano de 1905, se manifestou entre nós uma doença de carácter suspeito, que obrigou as
autoridades sanitárias a internar no Lazareto de Gonçalo Aires, transformado em hospital de isolamento, os indivíduos atacados
dessa doença, sendo colocado na direcção desse hospital o director do Laboratório de Bacteriologia e Higiene. Os tristes e
lamentaveis acontecimentos que então se seguiram vêm sumariamente narrados nos artigos
Motins Populares
(Volume II, páginas
404),
Peste Bubónica
(Volume III, páginas 77) e
Poesia Popular
(Volume III, páginas 87) e para lá remetemos os leitores, evitando
deste modo escusadas e fastidiosas repetições.
O erro do Dr. Balbino do Rego foi querer manter uma incomunicabilidade e um isolamento absolutos dos doentes, medida esta
necessária e que em tese se justificava plenamente, mas que, dadas as circunstancias ocorrentes e de modo particular a atitude
censurável da imprensa e da política, convinha ter atenuado, sem prejuízo da saúde pública, como já tardiamente chegou a fazer-se.
Não cometeu outra falta nem outro erro, devendo no entretanto dizer-se que o pessoal de enfermagem do hospital de isolamento
deixou muito a desejar e que varios abusos e mesmo excessos se praticaram, mas que não são da responsabilidade do respectivo
director. A historia daqueles acontecimentos ainda não está feita com inteira imparcialidade e por isso nos é grato deixar
consignados nesta obra alguns elementos que possam servir para o estudo consciencioso deste período revolto da historia
madeirense.
O Dr. Balbino do Rego, que após os acontecimentos do Lazareto teve a casa apedrejada pelo povo, não obstante junto dela se achar
postada uma força de marinha, viu-se forçado a refugiar-se na fortaleza de S. Lourenço, donde passou para bordo do D. Carlos,
retirando finalmente para Lisboa no vapor da Companhia Insulana.
Mais tarde, voltou o Dr. Balbino do Rego á Madeira, por ordem do conselheiro João Franco, ministro do reino, afim de tomar
novamente a direcção do Laboratório de Bacteriologia, mas as manifestações populares revestiram uma atitude tão grave, que
violentaram as autoridades locais a impedir o desembarque daquele clínico, que seguiu para a capital no mesmo dia em que chegou
ao nosso porto, passando directamente da embarcação que o trouxera de Lisboa para aquela que ali novamente o conduziu.
O Dr. Antonio Balbino do Rego, foi, por meio de concurso, nomeado médico e cirurgião dos hospitais civis de Lisboa e também
director do Posto Antropometrico da Policia Cívica da mesma cidade (1921).
No ano de 1907, publicou o Dr. Balbino do Rego dois interessantes opúsculos intitulados Um ano Depois Assumptos Madeirenses e
Na Ilha da Madeira Hospital Improvisado, que encerram valiosos elementos para o estudo da epidemia de peste bubonica nesta
ilha.
Rego (Dr. José Joaquim de Abreu)
Nasceu nesta ilha por 1815. Em 1839, formou-se em matemática na Universidade de Coimbra,
depois dum curso em que obteve as mais altas classificações sendo convidado para lente, o que recusou. Formou-se em seguida na
faculdade de medicina da mesma Universidade. Fez concurso para lente da cadeira de mecânica da Escola Politécnica, em que, por
provas públicas, mostrou quanto valiam as altas faculdades do seu espírito e o seu profundo saber, tendo sido o primeiro
classificado nesse concurso. Foi despachado lente, mas não sabemos se chegou a reger a cadeira, porque a sua débil organização,
em extremo depauperada com os trabalhos excessivos do concurso, obrigara-o a abandonar o estudo, morrendo nesta cidade a 22
de Julho de 1847, tendo pouco mais de 30 anos.
Rego (D. Maria Emilia Acciaioly)
Pertencia a uma antiga e distinta família madeirense e faleceu há mais de 70 anos. Segundo as
informações que pudemos colher, publicou um pequeno volume de versos, de que ignoramos o título. NasFlores da Madeira , vem
inserta uma composição sua. Nada mais sabemos a seu respeito.
Reid
Apelido de família que procede do inglês William Reid, que veio para a Madeira em 1844 ou 1845 e aqui estabeleceu um hotel
na antiga rua do Mercado de S. João. Seus filhos William e Alfred Reid, que continuaram com o ramo de negocio de seu pai,
escreveram em 1881 um pequeno trabalho intitulado Madeira, a guide book of useful and varying information, mas o seu principal
serviço á terra consistiu na oferta que fizeram á Biblioteca Municipal do Funchal, de perto de 10.000 volumes provenientes da
livraria do falecido madeirense João Joaquim de Freitas.
Reis (Luís Maria dos)
Este madeirense nasceu a 9 de Dezembro de 1846 e faleceu a 6 de Dezembro de 1920 no posto de general
reformado. Escreveu um opúsculo, publicado no Funchal no ano de 1892, com o título de Organização e Historia do Regimento de
Caçadores n.° 12.
Reis Gomes (João dos)
É major de artilharia de reserva e nasceu na freguesia de São Pedro desta cidade a 5 de Janeiro de 1869,
sendo filho de João Gomes Benta e de D. Maria Gertrudes Castro Gomes. Frequentou o liceu do Funchal e concluiu com altas
distinções os cursos das Escolas Politécnica e do Exercito, tendo sido despachado alferes a 29 de Dezembro de 1892.
Além do serviço militar prestado em diversos pontos do Continente, foi comandante da Bateria n.° 3 de Artilharia de Guarnição
desta cidade, inspector do material de guerra desta ilha, e professor do Liceu de Jaime Moniz e da Escola Industrial do Funchal.
Foi director do antigo
Heraldo da Madeira
e é o actual director do
Diário da Madeira
(1921). Além dos numerosos artigos insertos
nestes jornais, tem colaborado em muitas outras publicações. Os seus escritos publicados em volume são:
O Theatro e o auctor
,
Funchal, 1905, de XIII-214 páginas, (estudo filosófico);
Historias Simples
, Lisboa, 1907, de 214 páginas (contos);
A Filha de Tristão
das Damas
, Funchal, 1909, de 302 páginas (romance);
Guiomar Teixeira
, Funchal, 1912, do IX-90 páginas (drama);
A Musica e o
Teatro
, Lisboa, 1919, de XVIII-334 páginas estudo filosófico);
Acustica Fusiologica
.
A Voz e o ouvido Musical
, Lisboa, 1922, de XI-
133 páginas e
Portugal-Brasil
, Funchal, 1922, de 17 páginas discurso). Do livro
O Theatro e o auctor
se fez segunda edição em
Lisboa em 1916, e também do
drama Guiomar Teixeira
se publicou uma nova edição no Funchal, em 1914.
O major Reis Gomes é membro da Academia das Ciências de Portugal, tem as Palmas Académicas da Academia Francesa e é
comendador da ordem de São Tiago.
É, sem contestação, o mais distinto escritor e jornalista madeirense, sendo também por muitos considerado como o primeiro crítico
de teatro do nosso país. Muito seria para desejar que, de entre as centenares de criticas e apreciações teatrais saídas da sua pena, se
fizesse uma selecção de algumas dezenas delas e se enfeixassem num volume, salvando-se assim dum imerecido esquecimento de
verdadeiras obras primas, que incontestavelmente o são no seu género. Já em outro lugar nos referimos ligeiramente aos trabalhos
do major Reis Gomes acerca da musica e do teatro, devendo aqui acrescentar-se que nos parece não ter chegado ainda a ocasião de
se formar desses estudos o conceito que merecem, pondo-se em relevo o alto valor que eles encerram (1921).
Uma das feições que caracterizavam alguns dos escritos de J. dos Reis Gomes e que mais os tornaram apreciados entre nós, era a
ironia e a sátira, manejadas um pouco à Ramalho e à Fialho, em que o cómico e o grotesco das pessoas e das cousas, surpreendidas
em flagrante, eram apresentadas ao leitor com uma graça original e espontânea e também com rigor e justeza de critica, embora por
vezes o motejo mordaz e irreverente viessem sublinhar as palavras e os conceitos...(1921).
Posteriormente a esta data, publicou o major João dos Reis Gomes mais os seguintes trabalhos:
Forças Psíquicas (Ensaio
Filosófico),
O Belo Natural e Artístico (Memoria apresentada à Academia), Figuras de Teatro, Através da França, Suíça e Itália
(Diário de Viagem), Três capitais de Espanha (Burgos, Toledo e Sevilha), O Anel do Imperador (Memoria apresentada à
Academia), Natais (Contos e Narrativas), O Vinho da Madeira (Monografia), Casas Madeirenses, O Cavaleiro de Santa Catarina
(Memoria apresentada à Academia), De Bom Humor (Narrativas) e Casos de Tecnologia (Divulgação cientifica).
Temo-nos, por sistema, abstido geralmente de quaisquer apreciações acerca dos nossos escritores debaixo do ponto de vista
estritamente literário, mas seja-nos permitido dizer agora que o major Reis Gomes é dos que maior honra e lustre dão ás letras
madeirenses e que o seu nome há-de ficar na historia deste arquipélago como o de um dos seus mais brilhantes e primorosos
escritores e jornalistas.
Reis Magos (Capela dos)
No Lombo dos Reis, na freguesia do Estreito de Calheta, se encontra a antiga capela dos Reis Magos,
instituída por Francisco Homem de Gouveia e sua mulher D. Isabel Afonso pelos anos de 1529, fazendo dela a sede dum morgadio.
Desta capela e instituição vincular anexa, se ocupou largamente um artigo publicado no Brado d'Oeste, de 2 de Setembro de 1916.
Existe também na freguesia da Ponta Delgada uma capela dedicada aos Reis Magos, que pertenceu á casa Carvalhal. É de
construção muito antiga, pois um documento de 1577 diz que já então se achava ela em mau estado de conservação. Foi
reconstruída em 1778 por João de Carvalhal Esmeraldo e Câmara, administrador do vinculo a que ela pertencia. Há poucos anos foi
de novo restaurada, sendo hoje propriedade de João Fidélio de Canha.
Reis Magos (Enseada e Porto dos)
Na costa marítima da freguesia do Caniço, existe uma enseada chamada dos Reis Magos, que
tem uma praia e um pequeno porto do mesmo nome, encontrando-se ali um centro piscatório de certa importância.
Reis Torgal (Luís Maria dos)
Foi representante da Madeira em cortes na sessão parlamentar de 1892 a 1893.
Religião e Progresso
Publicou-se o primeiro numero a 15 de Novembro de 1879 e o ultimo, que foi o 44.°, a 17 de Novembro de
1880.
Relógios
Além do da Sé Catedral do Funchal, existem relógios destinados a indicar ao publico as horas, nas seguintes localidades:
S. Martinho, Monte, Camacha, Santa Cruz, Ponta do Sol, Canhas e Estreito da Calheta (1921), Na torre da igreja paroquial de
Machico houve outrora um relógio que deixou de funcionar em 1824.
O relógio da igreja de S. Martinho foi inaugurado em 1922; o da igreja do Monte foi adquirido pela fabrica da mesma igreja no
tempo do falecido vigário cónego Francisco José Rodrigues de Almada; o da Camacha (V. este nome), que está numa torre ao sítio
da Achada, e o de Santa Cruz, foram oferecidos, este pelo falecido R. Blandy e aquêle pelo Dr. Grabham; o dos Canhas, colocado na
levada do Poiso, é propriedade dos heréus desta levada; e o do Estreito da Calheta, foi oferecido por um grupo de rapazes naturais
dessa freguesia e ausentes na Africa do Sul. Na torre da igreja do Porto Santo desde 1899 que existe um relógio adquirido pela
Câmara Municipal.
O actual relógio da Sé Catedral foi oferecido pelo Dr. M. Grabham á Câmara Municipal em sessão de 3 de Agosto de 1914, mas só
chegou á Madeira a 8 de Novembro de 1921, a bordo do vapor Walmer Castle. Foi benzido pelo Prelado Diocesano a 23 de Fevereiro
de 1922, assistindo á cerimonia o falecido imperador de Austria Carlos de Habsburgo. A 27 de Julho, do mesmo ano, declarou o
vice-presidente da Camara que fôra já entregue á Municipalidade o mesmo relogio, tendo a colocação de dois dos ponteiros, o
ultimo trabalho que nele se realizou, sido ultimada a 30 de Junho.
O antigo relogio da Sé, apeado a 6 de Dezembro de 1921 para a montagem do relogio oferecido pelo dr. Grabham, foi mandado fazer
em 1775, durante o govêrno de João Antonio de Sá Pereira e tem nos seus maquinismos a seguinte inscrição: «Este relogio foi
mandado fazer por administração do Ill.
mo
e Ex.
mo
Gov.
or
João Antonio de Saa Pr.ª Anno 1775 Paulo de França fecit.
Em 6 de Agosto de 1776 nomeou a Câmara o primeiro empregado para cuidar do relógio da Sé, e, desde então, nunca mais deixou o
mesmo relógio de estar a cargo da Municipalidade, que era quem nomeava os relojoeiros. Não ha nos registos da Câmara nota
alguma que explique a maneira como o relógio foi entregue á Municipalidade.
Em 1823, mandou a Câmara fazer um grande conserto no referido relógio, que importou em 85$000 réis e foi executado por José
Pedro Pereira, serralheiro, que nada levou pelo seu trabalho «visto ser obra do publico, a quem desejava ser util .. «0 relógi, diz um
antigo documento, ficou perfeito, tendo estado para ser abandonado, e em Lisboa ninguém o concertava por menos de 400
patacas».
O primitivo sino das horas do relógio da Sé, partiu-se, ignoramos em que circunstancias, tendo sido substituído por um sino do
extinto convento de S. Francisco, requisitado pela Câmara em 1835. Pela mesma época, foi trocado por um sino da igreja do Colégio
de S. João Evangelista, o sino dos quartos do mesmo relógio. O sino partido foi posto em praça pela Câmara e arrematado pela
quantia de 2$400 réis cada arroba.
Os quatro mostradores de pedra do antigo relógio da Sé e que foram aproveitados para o relógio actual, têm 2m,3 de diâmetro, e as
letras 0m,35 de altura; os ponteiros, que não puderam ser utilizados por não marcarem os minutos, mediam 1,m35 de comprido.
Nos tempos em que não havia relógio na torre da Sé Catedral, eram as horas anunciadas ali por um relojoeiro, que foi pago a
principio pela renda da imposição do vinho e depois pelos sobejos dos dízimos da Alfandega. O documento mais antigo que
conhecemos referente a esse funcionário é de 11 de Abril de 1713, mas tudo leva a crer que já no século XVII houvesse um
encarregado de bater as horas ou algumas delas, visto ser isso uma necessidade para estabelecer uma certa regularidade nos
serviços públicos e particulares, sobretudo em épocas em que os relógios de parede e de algibeira eram ainda muito pouco
frequentes no Funchal.
Rendell (J.M.)
(J.M.) E.:Concise Handbook of the Island of Madeira, with a plan of Funchal and map of the Island ; Londres, 1881, I
vol.
Renton (Dr.)
(Dr.)
Medico inglês que residiu na Madeira por largos anos e publicou um trabalho sôbre as vantagens do clima da ilha no
tratamento das molestias pulmonares, no
Edinburgh Medical and Surgical Journal
(1827). Fez diversas observações
meteorologicas no Funchal, de colaboração com o dr. Heineken, de 1826 a 1831.
Representação em Cortes
Nas antigas Cortes Gerais ou Três Estados, tinham representação as terras ou povoações do país que,
pela sua importância ou outras circunstancias especiais ainda não bem conhecidas, enviavam os seus delegados ao seio daquelas
assembleias, os quais ali advogavam os interesses dos povos que representavam. As possessões ultramarinas, a que a Madeira
pertencia, só mais tarde tiveram representantes especiais nas antigas côrtes, e parece haver sido o arquipélago madeirense o
primeiro que gozou dêsse então assinalado privilegio.
Pelo decreto de 6 de Julho de 1645, teve a Madeira assento em cortes no primeiro banco, e afirma-se que D. João IV lhe concedera
esta graça por ter sido esta ilha a primeira possessão onde fora aclamado rei de Portugal. Nada sabemos acerca do modo como entre
nós era feita a escolha dos delegados às cortes, o que aliás se não realizava de uma maneira uniforme em todo o país. Também
ignoramos os nomes de quaisquer indivíduos que depois daquela data tivessem representado este arquipélago em cortes, e apenas
temos conhecimento de que a 14 de Março de 1619 dirigiu Filipe II uma carta a João Fogaça, a qual está registada nos livros da
Câmara Municipal, participando-lhe que, devendo reunir-se os Três Estados na vila de Tomar afim de ser jurado o príncipe D.
Filipe, devia ele achar-se naquela vila a «20 do mês de Maio em que as cortes se ande começar».
Lê-se a páginas 635 das notas às
Saudades da Terra
que parece já em 1479 a Madeira mandava procuradores às cortes, mas se
compulsarmos a lista dos lugares que em 1535 davam esses procuradores, existente no arquivo da Torre do Tombo e publicada no
Censo Eleitoral da Metrópole, do Sr. António de Sousa Júnior, não encontramos a nossa ilha incluída na dita lista.
Derrubado o governo absoluto pela revolução do Porto de 1820, que arvorou o sistema representativo, foram convocadas as
assembleias eleitorais em 1821 para a escolha dos membros da Constituinte, saindo eleitos pela Madeira os deputados Dr. Maurício
José Castelo Branco, Francisco João Moniz e o Dr. António João Rodrigues Garcês, que faleceu antes de tomar assento no
Parlamento e foi substituído pelo Dr. João José de Freitas Aragão. Procedeu-se em 1822 às eleições gerais e ordinárias, tendo sido
eleitos deputados efectivos por este arquipélago o Dr. João Francisco de Oliveira, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar e o padre
João Manuel de Freitas Branco, e substitutos o padre Jerónimo Alvares da Silva Pinheiro, Dr. Luís António Jardim e padre João
Crisóstomo Espinola de Macedo.
Restabelecido o governo absoluto em 1823, foram dissolvidas as cortes, mas por morte de D. João VI em 1826, novamente foi
implantado o sistema representativo com a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV. Procedeu-se logo ás eleições e
convocação das cortes, sendo eleitos pela Madeira o Dr. Lourenço José Moniz, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar, padre Caetano
Alberto Soares e Luis Monteiro.
D. Miguel regente do reino, dissolveu as cortes e proclamou-se rei absoluto em 1828, e somente em 1834 é que definitivamente se
implantou entre nós o sistema de governo representativo. Em Setembro deste ano, realizaram-se as eleições nesta ilha e foram
eleitos quatro deputados.
Damos em seguida a relação completa dos indivíduos que nas diversas legislaturas representaram este arquipélago, quer como
deputados, quer como pares do reino electivos e senadores:
1834-1836
– Terminada a guerra civil, D. Pedro IV, por decreto de 28 de Maio de 1834, convocou as assembleias eleitorais, tendo-se
realizado as eleições na Madeira em Setembro seguinte e saindo eleitos o Dr. Lourenço José Moniz, Antonio Aluísio Jérvis de
Atouguia, João de Oliveira e José Liberato Freire de Carvalho. Em Novembro de 1835, houve eleições neste arquipélago para o
preenchimento da vaga deixada por Jérvis de Atouguia, tendo sido eleito Luís da Silva Mousinho de Albuquerque. O decreto de 4 de
Junho de 1836 dissolveu o parlamento e mandou proceder às eleições, sendo em Agosto do mesmo ano eleito o Dr. Lourenço José
Moniz, Antonio Aluísio Jérvis de Atouguia, João de Oliveira e Dr. José Ferreira Pestana. As cortes não chegaram a reunir-se por se
haver proclamado a 10 de Setembro de 1836 a Constituição de 1822.
1837-1838
- O decreto de 8 de Outubro de 1830 ordenou que se convocassem os colégios eleitorais, outorgando aos deputados
poderes constituintes, tendo sido eleitos em Dezembro do mesmo ano o Dr. Lourenço José Moniz, João de Oliveira, Luís da Silva
Mousinho de Albuquerque e Dr. José Ferreira Pestana como efectivos, e Antonio Aluísio Jervis de Atouguia, deão Januario Vicente
Camacho e cónego Gregorio Nanzianzeno de Medina e Vasconcelos como substitutos.
1838-1840
–Em virtude do disposto nos decretos de 18 e 20 de Junho de 1838, realizaram-se neste distrito, em Agosto seguinte, as
eleições para senadores e deputados, tendo sido eleitos João da Câmara de Carvalhal Esmeraldo e marquês de Saldanha, senadores
efectivos, duque da Terceira, senador substituto, Dr. Lourenço José Moniz, Antonio Aluísio Jérvis de Atouguia, Luís da Silva
Mousinho de Albuquerque e Dr. José Ferreira Pestana, deputados efectivos, e deão Januario Vicente Camacho e Sebastião Xavier
Botelho, deputados substitutos. Para se preencher uma vaga de senador e duas de deputados substitutos, houve eleição em
Setembro de 1838, saindo eleitos o barão de Tojal, senador substituto, e Dr. Domingos Olavo Correia de Azevedo e cónego Gregorio
Nanzianzeno de Medina e Vasconcelos, deputados substitutos. Houve novamente eleição para o preenchimento duma vacatura de
senador, e foram escolhidos o Dr. Daniel de Ornelas e Vasconcelos para senador efectivo e o Dr. Domingos Olavo Correia de
Azevedo para substituto.
1840-1842
– Dissolvidas as cortes a 25 de Fevereiro de 1840, foram mandadas convocar as assembleias eleitorais, por decretos de
27 e 28 do mesmo mês e ano, sendo em Abril seguinte eleitos deputados o Dr. Lourenço José Moniz, Dr. José Ferreira Pestana, Dr.
Luis Vicente de Afonseca e António Aluísio Jérvis de Atouguia, efectivos, e cónego Dr. Gregorio Nanzianzeno de Medina e
Vasconcelos, padre Dr. João Henriques Moniz e Dr. José Maria Lopes Carreira, substitutos. Tendo o senador barão de Tojal sido
nomeado ministro da Fazenda e deixado vago o lugar que tinha na câmara alta, houve eleição em Junho de 1841, sendo eleito o
mesmo barão de Tojal. Em Junho de 1841, foi o Dr. José Ferreira Pestana nomeado ministro da Marinha, vagando o seu lugar de
deputado e procedendo-se em Julho seguinte á respectiva eleição, recaindo a escolha no mesmo Dr. José Ferreira Pestana.
1842-1845
– Foram dissolvidas as cortes e declarada em vigor a Carta Constitucional, por decreto de 10 de Fevereiro de 1842, e,
pelo mesmo decreto e pelo de 5 de Março seguinte, se mandou proceder ás eleições, tendo sido eleitos deputados em Junho deste
ano o Dr. Luís Vicente de Afonseca, João da Câmara Carvalhal Esmeraldo, Francisco Correia Heredia e Dr. Bartolomeu dos
Martires Dias e Sousa.
1846
– Terminada a legislatura, o decreto de 28 de Abril de 1845 ordenou a reunião das assembleias eleitorais sendo, em Agosto
seguinte, eleitos o Dr. Lourenço José Moniz, Dr. Luís Vicente de Afonseca e Dr. Bartolomeu dos Martires Dias e Sousa.
1848-1851
– O decreto de 23 de Maio de 1846 dissolveu o parlamento e o de 27 de Julho do mesmo ano mandou, proceder ás
eleições, que, em virtude das lutas civis de então, só se realizaram em Novembro de 1847, pelo decreto de 12 de Agosto, tendo em
Dezembro seguinte saído eleitos o Dr. Lourenço José Moniz, Dr. Luis Vicente de Afonseca, deão Januario Vicente Camacho e José
Silvestre Ribeiro.
1851-1852
– Tendo sido dissolvido o parlamento em 25 de Maio de 1851, convocaram-se as assembleias para a eleição, que se
realizou em Novembro desse ano, por decreto de 16 Julho, conferindo poderes constituintes aos deputados, recaindo a escolha no
Dr. Lourenço José Moniz, Antonio Aluísio Jérvis de Atouguia, Dr. José Ferreira Pestana e Dr. Antonio da Luz Pita.
1853-1856
– O decreto de 24 de Julho de 1852 dissolveu o parlamento, mandando-se proceder ás eleições pelo decreto de 2 de
Outubro do mesmo ano, sendo em Abril seguintes eleitos o Dr. Lourenço José Moniz, Dr. José Ferreira Pestana, José Silvestre
Ribeiro e Dr. António da Luz Pita.
1857-1858
– Havendo terminado o período legislativo, mandou o decreto de 29 de Setembro de 1856 convocar as assembleias para
as eleições, tendo em Dezembro do mesmo ano sido eleitos José Silvestre Ribeiro, D. Luís da Câmara Leme, Dr. Sebastião Frederico
Rodrigues Leal e Antonio Correia Heredia.
1858-1859
– As cortes foram dissolvidas a 26 de Março de 1858 e reunidos os colégios eleitorais em Maio, por decreto de 6 de Abril
do mesmo ano, tendo saído eleitos Antonio Correia Heredia, Dr. Luis de Freitas Branco, Jacinto Augusto de Sant'Ana e Vasconcelos
e Antonio Rogerio Gromicho Couceiro. Havendo este sido igualmente eleito por Portalegre, teve de optar por este circulo, por ser o
da sua naturalidade, procedendo-se de novo á eleição neste arquipélago em Novembro de 1858, saindo eleito D. Luís da Câmara
Leme.
1860-1861
– O decreto de 23 de Novembro de 1859 dissolveu as cortes e o de 28 do mesmo mês e ano mandou convocar as
assembleias eleitorais, recaindo a eleição no Dr. Luis Vicente de Afonseca (circulo do Funchal), D. Luís da Câmara Leme (Calheta),
Dr. Luis de Freitas Branco (Santa Cruz) e Dr. Antonio Gonçalves de Freitas (Ponta do Sol).
1861-1864
– Sendo dissolvido o parlamento por decreto de 27 de Março de 1861 e por decreto de 30 do mesmo mes e ano mandadas
realizar as eleições, tiveram estas lugar a 15 de Maio seguinte, saindo eleitos o Dr. Luís Vicente de Afonseca (circulo do Funchal), D.
Luís da Câmara Leme (Calheta), Dr. Luis de Freitas Branco (Santa Cruz) e Dr. Antonio Gonçalves de Freitas (Ponta do Sol).
1865
– Tendo acabado a sessão legislativa, mandou o decreto de 4 de Agosto reunir as assembleias para se proceder às eleições
ordinárias, havendo sido eleitos o Dr. Luís de Freitas Branco, Jacinto Augusto de Sant'Ana e Vasconcelos, Dr. Antonio Gonçalves de
Freitas e Dr. Francisco Joaquim de Sá Camelo Lampreia.
1865-1868
– Tendo sido dissolvidas as cortes, foram convocados os colégios eleitorais por decreto de 15 de Maio de 1865,
realizando-se a eleição a 25 de Julho do mesmo ano, a qual recaiu no Dr. Luís de Freitas Branco (circulo de Santa Cruz), António
Correia Heredia (Ponta do Sol) e Jacinto Augusto de Santana e Vasconcelos (Funchal). Antonio Correia Heredia renunciou ao
mandato e foi eleito outro para preencher a vaga.
1868-1869
– O decreto de 14 de Janeiro de 1868 dissolveu o parlamento, tendo o decreto de 17 de Fevereiro do mesmo ano
mandado proceder ao acto eleitoral, que se realizou a 19 de Abril seguinte, saindo eleitos Caetano Velosa Carvalhal Esmeraldo
Castelo Branco (circulo do Funchal), Dr. Agostinho de Ornelas e Vasconcelos (Ponta do Sol) e dr.João Barbosa de Matos e Camara
(Santa Cruz).
1869-1870
– Os decretos de 23 de Janeiro e 18 de Março de 1869, respectivamente, dissolveram as cortes e mandaram reunir as
assembleias eleitorais, tendo a eleição tido lugar a 2 de Maio seguinte e sido proclamados deputados o Dr. Agostinho de Ornelas e
Vasconcelos (circulo da Ponta do Sol) e Dr. Luís Vicente de Afonseca (Funchal).
1870 –
Tendo sido dissolvido o parlamento por decreto de 2 de Janeiro de 1870, mandou o decreto de 3 de Fevereiro seguinte
proceder às eleições que neste arquipélago se realizaram a 1 de maio do mesmo ano, havendo sido eleitos o Dr. Luís Vicente de
Afonseca (Funchal) e o Dr. Agostinho de Ornelas e Vasconcelos (Ponta do Sol).
1870-1871
– As cortes foram dissolvidas por decreto de 1 de Julho de 1870 e, feita a convocação das assembleias eleitorais pelo
decreto de 18 de Setembro do mesmo ano, saíram proclamados deputados o Dr. Luís Vicente de Afonseca (Funchal) e o Dr.
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos (Ponta do Sol).
1871-1874
– O decreto de 3 de Junho de 1871 dissolveu o parlamento e mandou convocar os colégios eleitorais a 9 de Julho
seguinte, mas só se reuniram neste distrito a 20 do mesmo mês, tendo sido eleitos o Dr. Luís Vicente de Afonseca (Funchal) e o Dr.
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos (Ponta do Sol).
1875–1878
- Havendo terminado o período legislativo, foi o acto eleitoral fixado, por decreto de 5 de Junho de 1874, para 18 de
Julho seguinte, realizando-se neste dia a eleição na Madeira, que, daqui em diante, passou a ter lugar no mesmo dia que no
Continente do Reino. Saíram eleitos D. Luis da Câmara Leme e Ricardo Júlio Ferraz.
1879
–Terminada a legislatura, marcou o decreto de 29 de Agosto de 1878 as eleições para o dia 13 de Outubro do mesmo ano,
tendo saído eleitos o engenheiro Ricardo Júlio Ferraz (Funchal),Dr. Manuel José Vieira (Santa Cruz) e cónego Alfredo César de
Oliveira (Ponta do Sol).
1880-1881
– Foi dissolvido o parlamento pelo decreto de 28 de Agosto de 1879 e fixada a eleição para o dia 19 de Outubro seguinte
pelo decreto de 11 de Setembro, havendo saído eleitos o cónego Alfredo César de Oliveira (Ponta do Sol), Dr. Manuel Celestino
Emidio (Santa Cruz) e cónego Feliciano João Teixeira (Ponta do Sol).
1882-1884
– Os decretos de 4 e 30 de Junho de 1881 dissolveram o parlamento e convocaram os colégios eleitorais, realizando-se a
eleição a 21 de Agosto, sendo proclamados deputados o Dr. Luís de Freitas Branco (Funchal), Dr. Manuel José Vieira (Santa Cruz) e
Dr. Luís Antonio Gonçalves de Freitas (Ponta do Sol). Tendo falecido o deputado Dr. Luís de Freitas Branco, mandou-se proceder à
eleição no circulo do Funchal, por decreto de 7 de Setembro de 1882, realizando-se o acto eleitoral a 5 de Novembro do mesmo ano.
Foi mais votado o candidato Anselmo José Braamcamp, mas, não alcançando a maioria absoluta de votos, repetiu-se novamente a
eleição a 26 de Novembro do mesmo ano, tendo saído eleito o Dr. Manuel de Arriaga.
1884-1887
– O decreto de 24 de Maio de 1884 dissolveu o parlamento e fez reunir as assembleias eleitorais a 29 de Junho seguinte,
conferindo poderes especiais aos deputados para a reforma da Carta Constitucional. Foram eleitos o Dr. Manuel José Vieira, Pedro
Maria Gonçalves de Freitas, Dr. João Augusto Teixeira e Henrique de Santana e Vasconcelos. Em virtude das disposições do decreto
de 8 de Outubro de 1885, realizou-se a eleição de pares de reino a 2 de Dezembro do mesmo ano, sendo eleitos por este distrito
Antonio Correia Heredia e o visconde de Vila Mendo.
1887-1889
– Tendo sido dissolvido o parlamento, foram marcadas as eleições de deputados para 6 de Março de 1887 e as de pares
electivos para 27 do mesmo mês, saindo eleitos o Dr. Manuel José Vieira, cónego Alfredo César de Oliveira, cónego Feliciano João
Teixeira e Dr. Fidelio de Freitas Branco, deputados, e Pedro Maria Gonçalves de Freitas e Tomás Nunes de Serra e Moura, pares do
reino. Tendo o cónego Alfredo de Oliveira renunciado o seu mandato, foi chamado a preencher a vaga o candidato mais votado
Henrique de Santana e Vasconcelos.
1890
– Terminando a sessão legislativa, mandou o decreto de 15 de Setembro de 1890 proceder às eleições ordinárias a 20 de
Outubro seguinte, tendo sido eleitos o Dr. Carlos Lobo de Avila, Luis Bandeira Coelho, Henrique de Sant'Ana e Vasconcelos e Dr.
João Catanho de Meneses.
1890- 1892
– O decreto de 20 de Janeiro de 1890 dissolveu a câmara dos deputados e a parte electiva da câmara dos pares, e o
decreto de 20 de Fevereiro do mesmo ano fixou a eleição dos membros da câmara baixa para o dia 30 de Março seguinte e a eleição
dos pares para o dia 14 de Abril. Foram eleitos deputados o Dr. Fidelio de Freitas Branco, Dr. Antonio Jardim de Oliveira, Dr. José
Julio Rodrigues e José Maria Greenfield de Melo, e pares do reino o visconde de Vila Mendo e o Dr. Luís Adriano de Magalhães
Meneses e Lencastre.
1892-1893
– O decreto de 15 de Setembro de 1892 mandou proceder ás eleições a 23 de Outubro do mesmo ano, saindo eleitos o Dr.
Augusto Dias Ferreira, Dr. Luís Maria dos Reis Torgal, Dr. Antonio Baptista de Sousa e o Dr. Manuel de Assunção. Tendo este
falecido, foi chamado a preencher a vaga o Dr. Antonio Vicente Varela, candidato mais votado.
1894- 1895
– O decreto de 7 de Dezembro de 1893 dissolveu o parlamento, tendo o decreto de 19 do mesmo mês e ano marcado as
eleições de deputados para 11 de Fevereiro imediato e as de pares para 25. 0 decreto de 31 de Janeiro de 1894 adiou as eleições, que
foram respectivamente fixadas para os dias 15 e 29 de Abril seguinte, tendo saído eleitos deputados o Dr. Manuel José Vieira, Pedro
Maria Gonçalves de Freitas, Dr. Fidelio de Freitas Branco e D. João de Alarcão Velasques Sarmento Osorio, e pares do reino o Dr.
Antonio Baptista de Sousa e José Bandeira Coelho de Melo.
1895-1897
– As cortes foram dissolvidas por decreto de 28 de Março de 1895, tendo o decreto de 25 de Setembro do mesmo ano
fixado o dia 17 de Novembro seguinte para a eleição. Saíram eleitos o Dr. Fidelio de Freitas Branco, Dr. Romano de Santa Clara
Gomes e Dr. Luciano Afonso da Silva Monteiro.
1897-1899
– Dissolvendo o parlamento por decreto de 8 de Fevereiro de 1897, foi marcado o acto eleitoral para 2 de Maio deste
ano, em virtude do disposto no decreto de 24 de Março anterior, havendo sido eleitos o dr. João Catanho de Meneses (circulo de
Santana), visconde da Ribeira Brava (Ponta do Sol) e Augusto José da Cunha (Funchal).
1900
– O decreto de 17 de Outubro de 1899 mandou realizar o acto eleitoral a 26 de Novembro do mesmo ano, sendo eleitos
deputados o Dr. João Catanho de Meneses (Santa Cruz), Dr. José Antonio de Almada (Funchal) e João Augusto Pereira (Ponta do
Sol).
1901
– Sendo dissolvidas as cortes, por decreto de 25 de Outubro de 1900, mandou-se, por outro decreto da mesma data, proceder
á eleição a 25 de Novembro desse ano e saíram eleitos o Dr. Quirino Avelino de Jesus (Funchal), Alberto Botelho (Santa Cruz) e o
Dr. Alberto Bramão (Ponta do Sol).
1902 -1904
– Foi o parlamento dissolvido por decreto de 4 de Junho de 1901, tendo o decreto de 24 de Agosto seguinte
determinado que as eleições se realizassem a 6 de Outubro imediato, havendo sido eleitos João Augusto Pereira, Alberto Botelho,
Alexandre José Sarsfield e Dr. Frederico dos Santos Martins.
1904
– Dada a dissolução do parlamento por decreto de 29 de Abril de 1904, teve lugar a eleição a 26 de Junho seguinte, em virtude
do disposto no decreto de Maio do mesmo ano. Foram eleitos João Augusto Pereira, Alexandre José Sarsfield, Dr. Frederico dos
Santos Martins e João Frederico Júdice de Vasconcelos.
1905-1906
– Havendo as cortes sido dissolvidas por decreto de 24 de Dezembro de 1904, convocaram-se as assembleias eleitorais
para 12 de Fevereiro de 1905, conforme o determinado no decreto de 3 de Janeiro do mesmo ano, saindo eleitos o Dr. Catanho de
Meneses, João Augusto Pereira, Dr. José Cabral Correia do Amaral e cónego Antonio Homem de Gouveia. O major Alexandre José
Sarsfield, que foi o quinto candidato votado, impugnou a eleição do capitão João Augusto Pereira, com o fundamento de que este
candidato era comandante da secção do material de guerra nesta ilha, declarando o Tribunal de Verificação de Poderes ser
inelegível o dito candidato e mandando proceder a nova eleição, em virtude do acordão de 30 de Março de 1905, para o
preenchimento da vaga dada. O decreto de 4 de Abril do mesmo ano mandou realizar o acto eleitoral a 7 de Maio seguinte, sendo
novamente eleito o capitão João Augusto Pereira.
1906
–O decreto de 9 de Fevereiro de 1906 dissolveu o parlamento e o de 24 de Março seguinte mandou proceder ao acto
eleitoral a 29 de Abril do mesmo ano, havendo sido eleitos deputados o Dr. Frederico dos Santos Martins, Alexandre José Sarsfield
e cónego Antonio Homem de Gouveia.
1906-1907
–Tendo o decreto de 5 de Junho de 1906 dissolvido o parlamento, o decreto de 4 de Julho do mesmo ano fixou as
eleições para 10 de Agosto seguinte. Saíram eleitos deputados João Augusto Pereira, cónego Antonio Homem de Gouveia Dr.
Salvador Brum do Canto e Dr. Francisco Xavier de Oliveira Cabral Moncada.
1908-1910
–As cortes foram dissolvidas pelo decreto de 10 de Maio de 1907, tendo o decreto de 24 de Dezembro do mesmo ano
fixado o acto eleitoral para 5 de Abril de 1908, sendo eleitos João Augusto Pereira, José Ribeiro da Cunha, João Soares Branco e
Ernesto Jardim de Vilhena. Sendo impugnada a validade da eleição do candidato João Augusto Pereira, o Tribunal de Verificação
de Poderes, por seu acordão de 27 de Abril de 1908, julgou inelegivel o dito candidato, mandando-se proceder neste distrito à
eleição dum deputado, que se realizou a 26 de Julho de 1908, tendo sido eleito novamente o capitão João Augusto Pereira.
Foi dissolvido o Parlamento e realizou-se o acto eleitoral a 28 de Agosto de 1910, tendo saído eleitos Alexandre José Sarsfield,
José L. Avila e Lima, Emilio A. Santos Gil e José Correia Cabral do Amaral. As cortes não chegaram a reunir-se por ter sido
proclamada a Republica a 5 de Outubro do mesmo ano.
1911-1915
–O decreto de 28 de Abril de 1911 convocou as assembleias eleitorais para o dia 28 de Maio seguinte, em que se procedeu
á eleição dos deputados às novas Cortes Constituintes, sendo eleitos por este arquipelago o Dr. Manuel de Arriaga, Dr. Carlos Olavo
Correia de Azevedo, Francisco Correia Heredia Ribeira Brava e Dr. Manuel Gregorio Pestana Júnior. Sendo o Dr. Manuel de
Arriaga eleito presidente da República a 24 de Agosto de 1911, deixou vago o lugar de deputado, mas a eleição para o preenchimento
dessa vacatura só se realizou a 16 de Novembro de 1913, sendo eleito o agrónomo João da Câmara Pestana, que pouco depois
renunciou o mandato.
1915-1917
–Realizaram-se as eleições gerais a 13 de Junho de 1915, saindo eleitos deputados por este arquipélago Francisco
Correia Heredia Ribeira Brava, Dr. Carlos Olavo Correia de Azevedo, Dr. Manuel Gregorio Pestana Júnior e Manuel da Costa Dias, e
senadores Daniel Simões Soares, Dr. Vasco Gonçalves Marques e Dr. Remigio Gil Espinola Barreto.
1918
– Dissolvido o parlamento, realizou-se o acto eleitoral a 28 de Abril de 1918, em que foram eleitos deputados Aires de Ornelas
de Vasconcelos, José Vicente de Freitas e Duarte Melo Ponce de Carvalho, e senadores Alberto Correia Pinto de Almeida e Adolfo
Augusto Baptista Ramires.
1919-1921
- O acto eleitoral teve lugar a 11 de Maio de 1919, e saíram deputados o Dr. Carlos Olavo Correia de Azevedo, Dr. Pedro
Góis Pita, Americo Olavo Correia de Azevedo e José Miguel Lamartine Prazeres da Costa, e senadores o Dr. Vasco Gonçalves
Marques, José Mendes dos Reis e Heitor Eugenio Magalhães Passos. Vagando um lugar de deputado por este arquipélago, foi
proclamado João Maria de Santiago Prezado, único candidato apresentado.
1921
– Foi dissolvido o parlamento e realizou-se a eleição a 10 de Julho de 1921, sendo eleitos deputados o Dr. Carlos Olavo Correia
de Azevedo, Dr. Pedro Góis Pita, Americo Olavo Correia de Azevedo e Manuel de Sousa Brasão, e senadores o Dr. Vasco Gonçalves
Marques, Dr. Manuel Augusto Martins e Dr. José Varela.
1922... –
Tendo as cortes sido dissolvidas, procedeu-se ao acto eleitoral a 29 de Janeiro de 1922, saindo eleitos deputados pela
Madeira o Dr. Carlos Olavo Correia de Azevedo, Americo Olavo Correia de Azevedo, Dr. Pedro Góis Pita e Dr. Juvenal Henriques de
Araújo, e senadores Dr. Vasco Gonçalves Marques, Vasco Cipriano Silva e César Procopio de Freitas.
Em 1911, não se fizeram eleições directas para senadores, tendo sido a assembleia eleitoral constituinte quem as fez entre os seus
membros, de harmonia com o artigo 84 e seus parágrafos da Constituição Politica da Republica Portuguesa.
1925-1926
– Dr. Adolfo de Sousa Brasão, Dr. Domingos dos Reis Costa e capitão Manuel da Costa Dias, deputados, e Dr. Vasco
Gonçalves Marques, Dr. José Varela e Dr. João Augusto de Freitas, senadores.
1935-1938
– Dr. Juvenal Henriques de Araújo, Dr. Alvaro Favila Vieira e Dr. Manuel Pestana dos Reis, deputados, e Dr. Fernão
Manuel de Ornelas Gonçalves, Procurador.
1938-1942
– Dr. Juvenal Henriques de Araújo, Dr. Alvaro Henriques Perestrelo Favila Vieira, Dr. Manuel Pestana dos Reis, Gabriel
Mauricio Teixeira e Dr. Gastão Carlos de Deus Figueira, deputados, e Dr. Fernão Manuel de Ornelas Gonçalves, Procurador.
1942-1946
– Dr. Alvaro Henriques Perestrelo de Favila Vieira, Dr. Juvenal Henriques de Araújo e Dr. Luís Lopes Vieira de Castro,
deputados, e Dr. Fernão Manuel de Ornelas Gonçalves, Procurador.
República (Proclamação da)
A noticia da proclamação da Republica na capital foi conhecida na Madeira na tarde do dia 5 de
Outubro de 1910, chegando pouco depois um telegrama anunciando a constituição do governo. No dia 6, o Dr. Manuel Augusto
Martins investido, em virtude de telegrama do novo governo, na autoridade superior do distrito, conferenciou acerca dos
acontecimentos com o conselheiro António Jardim de Oliveira, secretario geral servindo de governador civil, e com o coronel
Valeriano José da Silva, comandante militar, e sendo-lhe declarado por estas autoridades que não tinham recebido comunicação
oficial de se achar implantada a Republica no país, imediatamente ele telegrafou para Lisboa pedindo que essa comunicação fosse
feita, afim de poder tomar posse do lugar para que fora nomeado e ser reconhecido pelos madeirenses o novo governo.
A comunicação ao comandante militar não se fez esperar, declarando então esta autoridade que se não opunha a que fosse hasteada
a bandeira republicana na fortaleza de São Lourenço e a que as forças lhe prestassem as devidas honras, realizando-se estes actos
pouco depois na fortaleza de S. Lourenço e assistindo a eles o Dr., Martins e vários correligionários, que se haviam postado na
varanda do Club Restauração, que deita sobre a avenida de Gonçalves Zargo. A nova bandeira foi saudada militarmente pela
guarda, que tinha formado para esse fim, tocando uma filarmónica nessa ocasião a Portuguesa, que todos ouviram em silêncio e
com o maior acatamento. Usaram da palavra na referida varanda o Dr. Martins, Azevedo Ramos, o Dr. Pestana Júnior e o Dr.
Gonçalves Preto, aconselhando todos ordem ao povo e o respeito individual.
A posse do novo governador civil, conferida pelo oficial Octaviano Soares, visto o secretario geral se não achar presente, teve lugar
antes da cerimónia a que acabamos de nos referir, sendo içada a bandeira revolucionária no mastro do Governo Civil e ouvindo-se
nessa ocasião a Portuguesa. O Dr. Martins levantou vivas à Republica, á Liberdade e á Pátria, que foram calorosamente
correspondidos pelo povo que se achava na rua.
Á noite, numerosos grupos, acompanhados das filarmónicas Artistico-Madeirense e artistas Funchalenses, percorreram as ruas da
cidade, queimando fogos de Bengala e dando vivas à Republica. Ao terminar a manifestação, falou Azevedo Ramos ao povo numa
das janelas do centro do «Dr. Manuel de Arriaga».
No dia 7, pelas 9 horas e meia da manhã, foi hasteada a bandeira republicana na fortaleza de S. Tiago, salvando a bataria, pela 1
hora da tarde, realizou-se cerimónia idêntica na fortaleza de S. Lourenço, com a assistência do regimento de infantaria n.° 27 que,
trazido por alguns sargentos, saíra do seu quartel, armado de espingardas e baionetas, em contravenção da ordem de prevenção que
fora dada pelo comandante a fim de poder acudir a qualquer pedido da autoridade administrativa, no caso de alteração da ordem
publica.
Na Praça da Constituição, compareceram alguns oficiais, entre os quais o capitão Henrique Luís Monteiro, que tentou impor
disciplina ás tropas, não sendo porém atendido, subindo então a um banco da mesma praça o Dr. Pestana Júnior, administrador do
concelho do Funchal, que declarou que nenhum oficial do regimento atentaria contra o novo regímen político, segundo lhe havia
declarado o mesmo capitão sob sua palavra de honra, e que nestas condições as praças deviam obedecer aos seus oficiais e entrar na
ordem. Acrescentou o Dr. Pestana Júnior que, para si, a palavra de honra do capitão Henrique Monteiro era um penhor que muito
respeitava.
Pouco depois chegava ao largo da Restauração o major de artelharia Goulart de Medeiros, conhecido como republicano e que todos
supunham haver concorrido para que as tropas saíssem do seu quartel, o qual, depois de haver conferenciado com o distinto e
brioso oficial o capitão Henrique Monteiro, se dirigiu também ás tropas ali reunidas, exortando-as á obediência, visto a oficialidade
do regimento haver aderido ao novo regimen, sendo alvo duma entusiástica manifestação de simpatia tanto da parte dos sargentos
e soldados como do povo.
No entretanto, era içada na fortaleza de S. Lourenço, por um oficial do regimento, a bandeira republicana, apresentando-lhe armas
as fôrças e erguendo o Dr. Pestana Júnior vários vivas que foram entusiasticamente correspondidos pelo povo.
Tendo comparecido, a pedido das tropas, a banda de musica de infantaria n.° 27, foi, por ordem do comandante militar, arriada a
bandeira e de novo hasteada ao som da portuguesa, com as devidas honras, estando já a esse tempo a força sob o comando de
oficiais, conforme havia pedido no seu discurso o major Medeiros. Ao passarem da praça da Constituição para o largo da
Restauração, onde, como dissemos, o mesmo oficial fez uso da palavra, tinham-se recusado as praças a serem comandadas pela
oficialidade, sendo o sargento-ajudante quem as dirigia.
Em seguida, o regimento acompanhado da respectiva banda de música, que tocava a Portuguesa, e sob o comando do major Luis
Correia Acciaioly, percorreu as ruas de S. Francisco, Carreira, João Tavira, Aljube, Ferreiros, Príncipe, rampa de D. Manuel, largo
do Pelourinho e Campo de D. Carlos, indo saudar a bataria n.° 3 de artilharia de guarnição, que se não associou ás manifestações do
regimento de infantaria e manteve sempre a maior disciplina, sob o comando do capitão João Augusto Pereira.
No quartel de artilharia, onde entraram muitos populares, foram erguidos alguns vivas á Republica, prosseguindo depois as tropas
e o povo pela rua de Santa Maria, largo do Pelourinho, rampa de D. Manuel, ruas do Príncipe e Ferreiros, largo do Colégio e rua do
Castanheiro, e dando finalmente entrada no seu quartel, onde tiveram lugar novas manifestações de regozijo.
A pedido dos sargentos e praças de infantaria, o comandante militar coronel Valeriano José da Silva deu por concluída a prevenção
do regimento e mandou retirar o busto e o retrato de D. Manuel II, que se achavam no seu, gabinete do quartel, determinado
igualmente que cessasse o cumprimento de todas as penas disciplinares.
Chamou-se ao movimento de tropas que teve lugar no dia 7 uma manifestação publica de adesão á Republica, mas aqueles que
analisaram os factos a sangue frio, consideraram esse movimento como uma insubordinação de carácter grave, embora pouco para
estranhar num período revolucionário, em que a disciplina e os regulamentos militares são em geral pouco respeitados.
Vimos nas proximidades da antiga praça da Constituição muitos ingleses que na manhã do dia 7 haviam desembarcado no Funchal
fugirem espavoridos ao avistarem os soldados armados que se dirigiam em desordem para a mesma praça, mas manda a verdade
que se diga que, afora a indisciplina e a recusa dos mesmos soldados em atender as ordens dos seus oficiais, nada mais digno de
censura houve a registar nesse dia, quer da parte da tropa quer da do povo.
A proclamação da Republica fez-se na Madeira sem obstáculos de qualidade alguma, e, apesar de alguns actos insensatos praticados
depois por indivíduos facciosos e pouco respeitadores das opiniões e crenças alheias, foi o novo regímen bem acolhido por quase
toda a gente, pois se supunha então que á sombra dele entraria a moralidade na administração dos rendimentos do Estado e não
mais se cometeriam os erros e desvarios que tanto haviam desacreditado os governos dos últimos tempos da monarquia.
Requeme (Sebastes Kuhlii)
Peixe triglida que é pescado numa profundidade que varia entre 100 e 250 braças. Em Câmara de
Lobos é conhecido pelo nome de chapado e no Porto Santo pelo de vermelho. Não é espécie rara e vive nos sítios rochosos. A sua
carne tem sabor agradável.
Requinta de Braga
Pequeno instrumento de quatro cordas, semelhante ao braguinha, e que se diz ter sido criado pelo falecido
musico madeirense Agostinho Martins. A sua afinação é lá, ré, fá, lá segundo nos informa o Sr. Dr. Manuel dos Passos Freitas.
Resenha Cronológica do Jornalismo Madeirense
É este o título dum trabalho, organizado em 1908 sob a direcção do
falecido João Eleuterio Martins, em que se mencionam todos os jornais madeirenses aparecidos até então, com a designação dos
anos em que se publicaram, sua duração, números que saíram, etc.. Foi baseado esse trabalho nas importantíssimas colecções de
jornais adquiridas pelo mesmo Eleuterio Martins e que são agora propriedade da empresa do
Diário de Noticias
.
Restauração (Largo da)
É o largo onde está a entrada principal da fortaleza de S. Lourenço e que foi aberta por ocasião da
demolição do teatro grande, no tempo do governo de D. Alvaro da Costa Macedo. Antes de desaparecer este teatro, havia duas
estreitas ruas que ladeavam uma parte das muralhas da fortaleza e que conduziam á entrada principal desta. O nome dado ao largo
recorda a restauração da Carta Constitucional, no dia 5 de Junho de 1834.
Restauração de Portugal
Pelos fins de Dezembro de 1640, tocou na Madeira um navio em viagem de Cádis para as Canárias,
trazendo a noticia de que no Continente se tinham dado graves acontecimentos, mas ocultando propositadamente os pormenores
da revolução de 1 de Dezembro e bem assim que o duque de Bragança havia sido proclamação rei de Portugal.
Foi a 8 ou 9 de Janeiro de 1641 que chegou ao nosso porto uma caravela e que pela sua tripulação se teve conhecimento de toda a
verdade. Era o navio portador de cartas dirigidas pelo novo soberano ao governador e capitão-general da Madeira Luis Miranda
Henriques e ao bispo D. Jeronimo Fernando, comunicando-lhes o extraordinário sucesso da libertação de Portugal do jugo
castelhano e ordenando-lhes que sem perda de tempo se procedesse á proclamação da independência da nação e que, por todas as
autoridades e funcionários, e ainda pelos membros do clero e da nobreza e representantes do povo, fossem prestados termos de
vassalagem e de fidelidade ao novo rei e ao governo legalmente constituído.
A noticia espalhou-se rapidamente pela cidade, sendo recebida com imenso júbilo pela população, resolvendo logo o senado, de
acordo com as principais autoridades, convocar toda a nobreza, clero e povo para uma grande reunião na casa da Câmara no dia 11
de Janeiro de 1641, afim de aí ser aclamado e reconhecido o novo monarca.
Nesse dia, achando-se presentes no referido local o governador, o bispo, os juízes ordinários Luís Francisco de Oliveira e Diogo
Pereira da Silva, os vereadores João Baptista Acciaioly e Antonio de Carvalhal Esmeraldo, o procurador do concelho D. Antonio
Dias, os mesteres Pedro Rodrigues, Simão Lopes, Francisco Gomes e Lourenço Gonçalves, o capitão do presídio castelhano, D.
Tomás Velasquez Sarmento, e os representantes do clero, nobreza e povo, declarou o mesmo governador a todas as pessoas
presentes «que tinha carta do muito alto e muito poderoso senhor rei D. João IV, em que lhe fazia saber a geral conformidade com
que estava alevantado por legitimo rei e senhor dos seus reinos de Portugal».
Lida que foi esta carta pelo governador, passou o bispo a apresentar a que havia também recebido do novo rei, depois do que toda a
assembleia aclamou com grande alvoroço e entusiasmo a D. João IV, que logo foi reconhecido por verdadeiro soberano dos
portugueses, lançando-se em seguida nos livros do senado um auto da cerimónia que acabava de realizar-se que é um documento
interessante e que foi pela primeira vez publicado no Heraldo da Madeira, de 1 de Dezembro de 1906.
Comemorou a Igreja com um solene Te Deum, realizado na catedral, a aclamação de D. João IV, e, na noite do dia 11 e nas
imediatas, houve em toda a cidade brilhantíssimas iluminações para festejar um acontecimento que enchia de jubilo os corações
dos verdadeiros portugueses.
O comandante do presídio castelhano D. Tomás Velasquez Sarmiento, apesar de dispor dalgumas forças nada fez para se opor á
vontade dos madeirenses, e entregando as fortalezas e aceitando quartel tanto nestas como nas vilas, aguardou sossegadamente a
chegada de um navio que o transportasse à Espanha.
A cerimónia do juramento de fidelidade ao novo soberano, por parte do clero, nobreza e povo, teve lugar no dia 13 de Janeiro, na
casa da câmara, e no dia 25 foram chamados diversos cidadãos portugueses para ocuparem cargos do senado, que estavam sendo
desempenhados por espanhóis. Pero Catanho foi eleito juiz do povo, Martim Mendes de Vasconcelos, vereador, e Gonçalo de
Freitas da Silva, procurador do concelho; para o lugar de almotacé foi nomeado Pedro Rodrigues Neto.
Reconhecido o novo soberano em toda a ilha, sem a menor resistência, e preenchidos por cidadãos portugueses os diferentes cargos
públicos, restava apresentar a D. João IV as felicitações e homenagens dos madeirenses, e dar-lhe conta do geral aplauso com que
fora recebida a noticia de que estava sentado no trono um monarca genuinamente português.
No dia 26, foi chamado á câmara o mestre Francisco Rodrigues Belo, sendo-lhe aí intimada a ordem de, sob pena de 200 cruzados
de multa e quatro anos de degredo para fora da ilha, aprontar dentro de oito dias uma caravela destinada a levar ao Reino as cartas
que o senado ia escrever a D. João IV, e no dia 16 de Fevereiro foram eleitos o vereador Martins Mendes de Vasconcelos e o mester
Pedro Rodrigues para serem portadores das mesmas cartas e beijarem na corte a mão do monarca em nome dos habitantes da
Madeira.
Declarou o vereador Martim Mendes de Vasconcelos que todas as despesas com a sua ida à capital correriam por sua conta, e não
pela do senado, «pois todos os seus haveres eram poucos para gastar no serviço de Sua Magestade».
A caravela com os dois representantes do senado só veio a sair para Lisboa nos princípios de Março, pois os dois vereadores João
Baptista Acciaioly e Antonio de Carvalhal Esmeraldo que a princípio tanto zelo e interesse haviam revelado pelo serviço do novo
monarca, deixaram a partir de certa data de assistir ás sessões camarárias, dificultando com a sua ausência a expedição das cartas,
que era da praxe serem assinadas por todos os membros do senado.
Foi preciso a nobreza, o povo e a câmara, realizados no dia 26 de Fevereiro, elegerem para vereadores a Antonio de Aragão de Teive
e a Baltasar de Abreu Berenguer, para as cartas dirigidas ao monarca serem finalmente assinadas e poderem seguir para o reino no
navio do mestre Rodrigues Belo.
A 12 de Abril do mesmo ano de 1641, reunidos uma vez mais na casa da câmara a nobreza, os representantes do povo e o senado, foi
resolvido por unanimidade que, a exemplo do que haviam feito as cidades, vilas e lugares do reino, contribuísse o Funchal com um
donativo voluntário para as despesas da guerra que a nação ia sustentar com Castela. Declararam muitas das pessoas presentes que
estavam resolvidas a dar não só os seus bens, mas também as suas vidas, se tanto preciso fosse, para defender a pátria do jugo dos
castelhanos.
«A ilha do Porto Santo, diz Rebelo da Silva, seguiu o exemplo da Madeira, mal teve conhecimento da revolução do 1.° de Dezembro
de 1640. Recebidas as participações do Funchal em 5 de Fevereiro, os moradores, que uma esquadra de doze velas otomanas tinha
quasi bloqueados, saudaram a nova com repetidas salvas de artilharia e mosquetaria. Os turcos espantados do ruído, e ignorantes
da causa dele, julgaram prudente ceder e desapareceram».
A separação do arquipélago da Madeira dos domínios castelhanos não custou uma única gota de sangue e consumou-se com
manifesto assentimento de todas as classes sociais. Os horrores dum cativeiro de 60 anos tinham avivado no coração dos
madeirenses o amor da liberdade, de forma que, mal foi conhecida a noticia da revolução do 1.º de Dezembro, logo todos se uniram
para festeja-la com entusiasmo e sem receio das tropas castelhanas que a esse tempo se achavam na ilha.
Foi a Madeira a primeira possessão portuguesa que proclamou D. João IV, e o alvoroço patriótico com que tal cerimónia se realizou,
mostra-nos que não era menos intenso aqui do que no Reino o ódio ao usurpador e o amor pela independência nacional.
Vid. Domínio Filipino.
Revista de Direito
Desta revista de Jurisprudência se publicaram quinzenalmente treze números, sendo o primeiro a 15 de
Novembro de 1920 e o ultimo a 15 de Maio de 1921. Foram seus redactores e proprietários os Drs. Frederico de Freitas, Juvenal de
Araújo e Pedro Pita.
Revista Judicial
Deu o primeiro numero a 27 de Julho de 1865 e o n.° 283 a 24 de Fevereiro de 1870. Também se publicou de
1874 a 1875.
Revista Jurídica
Saiu de 20 de Outubro de 1870 a 13 de Fevereiro de 1876.
Revista literária
O primeiro numero desta revista publicou-se a 23 de Novembro de 1902 e o decimo, que foi o ultimo, a 15 de
Fevereiro de 1903.
Revista Madeirense
Saiu de 18 de Novembro de 1900 a 29 de Junho de 1902, publicando-se oitenta e três números.
Revista Semanal (A)
Publicou-se de 2 de Junho de 1861 a 10 de Junho de 1862, tendo saído cinquenta e dois números. Foi seu
redactor João de Nobrega Soares.
Revolucionário
Jornal que se publicou de 17 de Agosto a 7 de Outubro de 1907, dando seis números.
Ribeira Brava (Freguesia da)
Acerca da origem do nome desta freguesia, prosápia e serviços dos seus moradores e fertilidade
dos terrenos que a constituem, ouçamos, embora com as suas costumadas hipérboles, o famigerado historiador das ilhas: «...e
pozeram muitos dias no caminho até chegarem dahi a três léguas a uma furiosa ribeira, na praya da qual estava aguardando o
capitam, que em terra desembarcara, e tinha ahi traçado huma povoação, a que deu nome Ribeira Brava, pela que corria neste
logar, que aqui depois se fundou tão fresca e nobre das melhores da ilha, que além de ter muitos fructos e mantimentos em
abundancia, he e foi sempre tão generosa com os seus moradores que nella vivem, que, quando convinha aos capitães do Funchal
que depois foram socorrer os logares de Africa com gente, deste só logar tiravam tão nobres cavalleiros e gente lustrosa que á sua
custa hiam servir a El-Rey, e tinham tanto nome, como ao diante se verá no discurso desta historia; além de outra nobre gente,
criados dos capitães, que sempre daqui os tiveram mui cavalleiros e de nobre geração. Não he este logar villa pelo deixar de ser á
falta de muitos visinhos e bom assento, e ser o somenos da ilha, antes he o mais bem assentado, e magnífico de todos; senão por ser
termo da Cidade do Funchal, e huma fresca quinta, donde os moradores da cidade achão e lhes vai o melhor trigo, fructas, caças,
carnes, e em mais abundância que em toda a ilha; e pode-se com razão chamar celeiro do Funchal, como a Ilha de Cecilia se chama
de Itália».
Em outro lugar, diz ainda o autor das Saudades: – «Ao Occidente huma legoa do Campanário, está a Ribeira Brava, que por
extremo tem este nome: he huma aldeya que terá como trezentos fogos, com huma egreja de S. Bento, e bom porto de calháo
miudo, que pelo chão da ribeira acima tem as casas, e muitas cannas de assucar, e dous engenhos, e pomares muito ricos de muitos
peros e peras, nozes e muita castanha, com que he a mais fresca aldeya que ha na ilha; pelo que, e pelo merecer, por ter bom porto,
e ser muito viçosa, já muitas vezes tentaram os moradores de a fazerem villa: tem também muitas vinhas, ainda que o vinho não he
tão bom como he o do Funchal. A ribeira he tão furiosa quando enche, que algumas vezes leva muitas casas, e faz muito damno, por
vir de grandes montes e altas serras; e por ser desta maneira, lhe vieram a chamar brava».
É uma das freguesias da Madeira de mais remota criação, que o anotador de Frutuoso fixa no ano de 1440. Não seria talvez então
uma paróquia no sentido rigoroso que esta expressão querer designar, mas constituía já um núcleo importante de população com a
sua pequena igreja e capelão privativo, que gozaria, por certo, dalguns dos privilégios e direitos conferidos aos vigários in solidum.
Assim aconteceu com outras freguesias nos tempos primitivos da colonização.
No Índice Geral da antiga Provedoria da Real Fazenda, encontramos citados os seguintes diplomas acerca dos párocos desta
freguesia: alvará régio de 28 de Maio de 1549, acrescentando um moio de trigo ao seu vencimento primitivo de 8000 réis, e um
marco de prata; alvará régio de 28 de Julho de 1556, fixando esse vencimento em 8.000 réis em dinheiro, um marco de prata, dois
moios de trigo e uma pipa de vinho; alvará régio de 13 de Março de 1572, elevando o mesmo ordenado a 34 000 réis; alvará régio de
8 de Maio de 1591 arbitrando-o em 27.000 réis em dinheiro, dois moios de trigo e uma pipa de vinho; e alvará régio de 22 de
Outubro de 1599 acrescentando mais 3.000 réis aquele ordenado, sendo todas estas verbas, anuais.
O curato desta freguesia foi criado pelo alvará régio de 30 de Agosto de 1594, tendo o alvará de 2 de Janeiro de 1606 fixado o seu
ordenado anual em 20.000 réis em dinheiro.
Pela sua importância e aumento da população foi esta freguesia sede duma colegiada (vol. 1, pag. 283), que teve sua criação pelos
anos de 1540, com quatro beneficiados e o ordenado de 8.000 réis anuais a cada um. Os alvarás régios de 16 de Maio de 1549, 18 de
Junho de 1572, 8 de Maio de 159l e 13 de Março de 1745 acrescentaram sucessivamente esse vencimento, que o ultimo destes
diplomas fixou em 6 000 réis em dinheiro, dois moios de trigo e uma pipa de vinho anuais. 0 numero de beneficiados foi reduzido a
três pelo alvará de 5 de Setembro de 1577.
Além destes serventuarios eclesiásticos, tinha a colegiada o cargo de tesoureiro, que percebia pelo alvará régio de 10 de Fevereiro de
1666 o ordenado anual de 10.000 réis em dinheiro, quarenta alqueires de trigo e um quarto de vinho, com obrigação «de dar cera,
vinho e hóstias para a sacristia». Teve mais ainda os cargos de pregador, organista e sacristão.
Ignoramos a data da fundação da antiga capela de São Bento, que foi a sede da paróquia e da colegiada, devendo a sua existência
remontar ao segundo quartel do século XV. Esta capela sofreu varias alterações e reparos até que se construiu a actual igreja
paroquial, que é incontestavelmente um dos mais antigos templos rurais desta diocese. Tem passado por diversos
acrescentamentos e modificações, mas a sua primitiva edificação não deve ser posterior à segunda metade do século XVI.
Nesta freguesia existiu um convento de frades franciscanos, chamado de Nossa Senhora da Porciúncula, segundo uns, ou de S.
Francisco, segundo outros, de que já demos breve noticia (volume I, página 308).
Existiram nesta paróquia as capelas de Nossa Senhora da Apresentação, Nossa Senhora da Boa Morte, Santo António e Almas.
Encontra-se em ruínas a capela de S. José e acham-se ainda destinadas ao culto as de Nossa Senhora da Conceição e de São João.
De todas damos resumida noticia em outro lugar desta obra.
Foram naturais desta freguesia o celebre gramático e humanista padre Manuel Alvares (volume I, página 59), José Anselmo Correia
Henriques (volume I, página 317), José Ferreira Pestana (volume II, página 23), Belchior de Teive e visconde da Ribeira Brava.
Também nasceram na Ribeira Brava, diz Gaspar Frutuoso, «os Coelhos, conigos da See do Funchal, estremados homens de ricas
vozes. Hum delles chamão Gaspar Coelho; foi mestre da capela da See muitos annos; e Francisco Coelho, seu irmão mais moço,
sendo conigo, foi também mestre da capela de El-Rey na Corte».
Viveram nesta freguesia bastantes pessoas nobres, que aqui tiveram muitas terras de sesmaria e instituíram vários morgadios,
destacando-se entre elas a família Teive (V. este nome), Henrique Bettencourt, cuja viúva D. Isabel Fernandes Tavora fundou a casa
vinculada da Apresentação, Lopo Vaz de Sequeira, Antonio Vilela e ainda outros.
Entre os acontecimentos ocorridos nesta freguesia, que merecem especial menção, contam-se os morticínios que ali se deram no
dia 29 de Junho de 1884 e a que já nos referimos a páginas 403 do volume II desta obra.
Muito deve esta localidade ao visconde da Ribeira Brava. Foi ele que conseguiu que ela fosse elevada a sede do concelho e dum
circulo escolar, e quem a dotou com importantes melhoramentos materiais, transformando o sítio do Lugar numa aprazível
povoação que é digna de ser visitada. A abertura e alargamento de ruas e estradas, a construção dum pequeno teatro, a reedificação
do fortim de São Bento e ainda outras obras ali realizadas, constituem os ribeirabravenses no dever de ser gratos á sua memória,
fazendo-a perpetuar por um modo condigno através dos tempos vindouros.
A 10 de Fevereiro de 1902 faleceu nesta freguesia o virtuoso sacerdote Francisco Manuel de Sousa, que como pároco e benemérito
cidadão prestou relevantes serviços a esta localidade.
Tem a freguesia, segundo o censo de 1911, 5339 habitantes, e os seus principais sítios são: Lugar, Achada, Amoreira, Barreiros e
Carreira, Caminho Chão, Cova, Cruz da Caldeira, Cruz e Pico da Banda de Além, Eira do Mourão, Espigão, Fajã dos Bichos, Fajã do
Cerejo, Fajã da Ortiga, Fajã da Ribeira, Fonte Cruzada, Fonte do Pinheiro, Fontes, Lombo Cesteiro, Meia Légua, Moinhos, Pedra
Mole, Pomar da Rocha, Ribeira Funda, S. João, Terça, Til e Vale.
No dia 29 de Junho de cada ano é o lugar da Ribeira Brava visitado por um avultadíssimo numero de indivíduos de todas as partes
da ilha por causa do arraial que aí se realiza. A procissão, com a sua barquinha e a dança das espadas, constituía o principal
atractivo das festas daquela localidade, mas há já algum tempo que se conseguiu expurgar o cortejo religioso daquela dança, que era
muito do agrado dos romeiros. Desconhecemos a época em que a barquinha e a dança das espadas começaram a aparecer na
procissão de S. Pedro, mas é de crer que uma e outra sejam dos tempos primitivos.
A barquinha, guarnecida de flores e tendo dentro alguns petrechos da pesca, símbolo desta indústria, aparece no cortejo, visto S.
Pedro, cuja imagem também aí figura, ter sido pescador, ao passo que a dança das espadas era, ao que parece, o ultimo vestígio das
muitas folias que apareciam outrora em certas procissões, e particularmente na do Corpo de Deus, (V.
Procissões
).
Os sete homens que figuravam na dança vestiam calções brancos e vestias vermelhas, e tinham na cabeça barretes verdes, em forma
de mitra, guarnecidos de plumas e fitas longas, segurando cada um deles com uma das mãos uma espada pelos copos, e com a outra
a ponta da espada empunhada pelo companheiro mais próximo. Ao som dum pandeiro, faziam eles diferentes movimentos
compassados, passando de vez em quando sob as espadas.
Na barquinha, que ainda aparece na frente da procissão, vão umas crianças figurando de pescadores, bem como varias ofertas de
produtos da terra, e a celebre dança das espadas, que algumas vezes tivemos ocasião de ver há mais de vinte anos, também precedia
o cortejo religioso, não cessando os homens que nela tomavam parte de fazer meneios e voltejar enquanto o mesmo cortejo
percorria as ruas do lugar, por entre alas compactas de pessoas vindas de todas as partes da ilha.
Ribeira Brava (Município e Vila da)
Como já fizemos notar atrás acerca do Porto do Moniz e Câmara de Lobos, não teve nunca a
Ribeira Brava a categoria de vila, embora frequentemente, e ainda mesmo antes da criação do conselho, se lhe desse tal designação.
Já a páginas 213 do volume I desta obra dissemos que havia sete lugares na Madeira e entre eles o da Ribeira Brava, sendo ainda
hoje conhecido pelo nome de Lugar o sítio mais importante desta localidade e que serve de sede da paróquia e do concelho (1921).
O concelho da Ribeira Brava é o de criação mais recente. Tem apenas nove anos de existência (1921), pois foi criado no ano de 1914.
A sua instalação solene realizou-se no dia 2 de Agosto daquele ano. É composto das freguesias da Ribeira Brava, Serra de Água e
Tabua, desmembradas do concelho da Ponta do Sol, e da freguesia do Campanário, separada do concelho de Câmara de Lobos. A
sua população é de 12:800 habitantes. Tem por armas o fortim de São Bento, que se encontra a entrada da povoação, na rua que
conduz ao cais.
Na sede deste concelho foi, por decreto de 31 de Agosto de 1915, criado um circulo escolar, que hoje tem a sua sede na cidade do
Funchal (1921).
O concelho da Ribeira Brava foi criado pelo decreto de 6 de Maio de 1914 e a sua sede elevada à categoria de vila pelo decreto de 26
de Maio de 1928.
O sítio conhecido pelo nome de Lugar, sendo o mais populoso e movimentado da freguesia, entestando com o porto e achando-se
em fácil e frequente comunicação com as outras localidades, não podia deixar de ser escolhido para sede do novo concelho e da
nova vila. Abrange esta o referido sítio do Lugar e mais os do Calvário, Bagaceira e Moinhos. Dentro da sua área ficam os Paços do
Município e as outras repartições concelhias, a Igreja Paroquial, duas escolas oficiais de ensino primário, uma para cada sexo, a
Estação Telegrafo-Postal e a Cabine Telefónica. o Posto do Registo Civil, o Posto Fiscal, a sede dum Partido Médico, o Cemitério
Paroquial, o cais de desembarque, o pequeno forte de São Bento, as ruínas da igreja do antigo convento de religiosos franciscanos,
etc.. Haverá quarenta anos que a extinta Junta Agrícola criou nesta localidade um campo experimental de agricultura, sendo talvez
o único, dos que então foram estabelecidos na Madeira, que tem sido de alguma utilidade prática. Quando este distrito foi dividido
em dois círculos escolares de instrução primária, ocidental e oriental, teve um deles a sua sede na Ribeira Brava, que pouco depois
foi transferida para a cidade do Funchal, sendo suprimido esse circulo no ano de 1923.
Ribeira Brava (Visconde da)
Francisco Correia Heredia, que, depois da abolição dos títulos nobiliarquicos, passou a chamar-se
Francisco Correia Heredia Ribeira Brava, nasceu na freguesia de que tomou o título a 2 de Abril de 1852, sendo filho do conselheiro
Antonio Correia Heredia (V. este nome) e de D. Ana de Bettencourt Heredia, e descendia das mais antigas e nobres famílias
madeirenses (V.
Heredia
). Foi agraciado com o título de visconde por decreto de 4 de Maio de 1871.
Cursou o liceu desta cidade e frequentou o antigo Curso Superior de Letras.
Militou activamente na política, sendo uma figura em destaque no antigo partido progressista. Foi eleito algumas vezes deputado e
representou a Madeira na sessão legislativa de 1897-1899, tendo também sido governador civil nos distritos de Bragança, Beja e
Lisboa. Teve um papel preponderante na dissidência progressista chefiada pelo conselheiro Alpoim, tomando parte em diversos
movimentos revolucionários que apressaram a queda da monarquia.
Implantada a republica, seguiu a facção partidária do Dr. Afonso Costa, de quem foi grande admirador e amigo, e passou a exercer
na Madeira um lugar proeminente na política local, tendo representado este arquipélago em cortes nas legislaturas de 1911-1915 e
1915-1917.
Foi durante alguns anos o presidente da Junta Agrícola da Madeira, tendo iniciado alguns empreendimentos dignos de nota, mas
de resultados práticos pouco apreciáveis. Esta corporação administrativa, como já em outro lugar fizemos sentir (volume II, página
197), não correspondeu ao muito que havia a esperar da sua acção, como um poderoso factor, que deveria ter sido, das
prosperidades deste arquipélago.
Fez parte também da junta Geral do Distrito, da Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal e da Comissão Administrativa da
Santa Casa da Misericórdia. Por 1893, estava na Republica Argentina, administrando as propriedades da Casa Armstrong, tendo
tido muitas vezes ocasião de coadjuvar o visconde de Faria na recepção das pessoas categorizadas que visitaram aquele país, e viveu
alguns anos em Paris, onde conviveu com muitos homens de letras e frequentou a melhor sociedade daquela capital, tendo por isso
um perfeito conhecimento da língua francesa.
O visconde da Ribeira Brava foi morto em Lisboa, a 16 de Outubro de 1918, na ocasião em que era conduzido, com outros
prisioneiros políticos, do Governo Civil para uma fortaleza, onde devia ficar detido. Diz-se que os presos políticos atacaram a força
que os escoltava, e que esta respondeu com uma descarga a queima-roupa, matando sete dos mesmos presos.
V. Ribeira Brava (Freguesia da).
Ribeira Brava (Porto e Cais da)
O porto desta localidade é servido por uma praia de grossos seixos, em que é não muito fácil o
embarque e desembarque, especialmente quando se agita o movimento das vagas, impondo-se por isso a construção dum cais, que
se realizou no período decorrido de 1904 a 1908. Fica situada a leste da vila, á qual se acha ligado por um túnel e uma pequena
estrada, prestando bons serviços a esta freguesia, ás povoações circunvizinhas e ainda a algumas localidades do norte da ilha.
Tocam neste porto os vapores do serviço de cabotagem.
Ribeira da Janela (Freguesia da)
O mais abundante e mais extenso curso de água que, formando-se no interior da ilha e no
meio de alterosas montanhas, se vai lançar no oceano, é a chamada Ribeira da Janela. Nas proximidades da sua foz se levanta um
pequeno ilhéu, de 40 metros de altura, tendo, quase no cimo, um orifício natural, que, a certa distancia, lembra sem esforço uma
janela aberta na penedia. Daqui vem o nome que a esta corrente deram os primitivos colonizadores. A povoação ou núcleo de
habitantes que se foi constituindo nas suas margens tomou naturalmente o nome que ela tinha. Eis a origem da denominação da
freguesia da Ribeira da Janela.
Os terrenos que hoje formam esta paróquia pertenceram na sua quase totalidade à freguesia do Porto do Moniz, tendo uma parte
menos considerável deles pertencido à freguesia do Seixal. Por meados do século XVI, havia já habitantes de moradia fixa nas
vertentes da ribeira, existindo alguns casais na margem direita no ultimo quartel do mesmo século, que pertenciam á paróquia do
Porto Moniz.
Dá-se a capela de Nossa Senhora da Incarnação como fundada em 1630 por António Fernandes e Manuel Rodrigues, que eram ali
moradores, dizendo-se que alguns anos depois foi destruída por uma grande aluvião. É certo, porém, á vista de documentos que
examinámos, que a capela foi edificada pelo povo em 1699, sendo de 7 de Setembro deste ano a data da respectiva dotação. Será
uma reedificação ou a construção primitiva? Não sabemos, mas inclinamo-nos a crer que o ano de 1699 é o da primeira edificação.
Em 1754, foi a ermida acrescentada, sendo concedida licença para a sua bênção a 28 de Abril do dito ano. No ano de 1852, foram
dadas de arrematação as obras da edificação duma nova igreja, pela importância de 6.100$000 réis, mas não chegaram a ser
iniciados os trabalhos de construção. No ultimo quartel do século passado é que o pequeno templo passou por uma grande
transformação. Foi convertido em capela-mor, acrescentando-se-lhe o corpo da igreja, tendo-se dado por terminados os respectivos
trabalhos no ano de 1874. Sobre o pórtico, lê-se a seguinte inscrição: Feita pelo povo e dirigida pelo Pe. Pombo em 1879. Para esta
importante obra muito concorreram o pároco de então padre Manuel da Silva Pombo, o Dr. João Barbosa de Matos e Câmara e José
Teixeira Rebêlo, proprietário nesta freguesia e representante duma nobre e antiga família, que aqui possuiu terras vinculadas. No
ano de 1922, procedeu-se nesta igreja a novas e importantes reparações, devidas ás diligências do actual pároco, o padre Manuel
Vasconcelos da Incarnação (1921).
Foi servida esta capela por um capelão privativo até que o prelado diocesano D. Fr. Manuel Coutinho; por provisão de 25 de
Setembro de 1726, estabeleceu nela um curato provisório, que teve sua criação efectiva por alvará régio de 4 de Fevereiro de 1733,
dizendo-se nesse diploma que fora criado a requerimento do vigário do Porto Moniz, Paulo Vieira Jardim, e arbitrando-se ao cura o
vencimento anual duma pipa e meia de vinho e um moio e meio de trigo. Era um curato dependente da vigairaria do Porto do
Moniz, mas que, como outros curatos desta diocese se foi gradualmente libertando da igreja matriz e passou a constituir uma
paróquia autónoma. 0 primeiro sacerdote que aqui exerceu funções paroquiais foi o padre Inacio de Aguiar Sequeira.
São entre nós celebradas as serras desta freguesia pelas incomparáveis belezas que nelas se encontram, sobressaindo o conhecido
sítio do Fanal, que, pela sua maravilhosa lagoa, denso e agigantado arvoredo, pitoresco do lugar, surpreendentes paisagens e
cristalinas águas, constitui uma estancia cheia dos maiores atractivos e dos mais fascinantes encantos. Quem suficientemente
conhecer as belezas naturais desta ilha e não tiver atravessado as serras da Ribeira da Janela, desconhece um aspecto novo e dos
mais maravilhosos dessas mesmas belezas.
Os terrenos desta paróquia são de uma notável fertilidade, produzindo abundantemente todos os géneros agrícolas que na Madeira
se costumam cultivar. A irrigação faz-se por meio das levadas dos Cedros e do Lombo Gordo. Projecta-se para breve (1921) a
tiragem duma nova levada, cujos trabalhos de construção já foram iniciados há muitos anos, como se disse noutro lugar desta obra.
Os principais sítios desta freguesia são: Casais de Baixo, Penedo, Casais da Igreja, Casais de Além e Eira da Achada.
Tem 748 habitantes (1921).
A título de mera curiosidade, diremos que alguém nos informou que os habitantes da Ribeira da Janela são muito laboriosos, de
arreigada crença religiosa, inteligentes e... vingativos.
Ribeira da Janela (Ilhéus da)
Não muito distanciados da costa marítima da freguesia da Ribeira da Janela se encontram os
ilhéus da Ruama, Comprido e Ilhéuzinho, comummente chamados Ilhéus da Ribeira da Janela. Um destes ilhéus deu o nome á
ribeira e á freguesia, como fica dito no artigo anterior.
Ribeira de Santa Luzia
É uma das três ribeiras que atravessam a cidade e tem este nome porque, numa eminência da sua
margem esquerda, estava situada a capela desta invocação. Os seus terrenos marginais foram dos primeiros sujeitos a diversas
explorações agrícolas nos tempos primitivos da colonização. Nas suas margens, havia nos fins do século XVII, quatro engenhos de
açúcar. Na bacia hidrografica desta ribeira, nascem importantes levadas, sendo a principal a chamada levada de Santa Luzia (Vid.
II-255).
Ribeira dos Socorridos
É um dos mais importantes cursos de água desta ilha. Serve de linha divisória às freguesias de São
Martinho e Santo Antonio, que ficam na margem esquerda, e às de Câmara de Lobos e Estreito de Câmara de Lobos, situadas na
margem direita. São Martinho e Câmara de Lobos limitam a foz da ribeira. Nasce no interior da ilha, no sítio das Torrinhas, e
atravessa a freguesia do Curral das Freiras.
Na primeira exploração que João Gonçalves Zargo fez ao longo da costa, tendo alguns dos seus companheiros desembarcado na foz
desta ribeira, iam sendo arrastados pela violência da corrente. O capitão prontamente lhes acudiu e «foram socorridos e livres do
perigo... e daqui ficou o nome... de Ribeira dos Socorridos, diz o autor das Saudades.
Ribeiras
Estes aquedutos naturais que correm geralmente nos leitos de profundos e apertados vales, são bastante numerosos
nesta ilha e de caudais muito abundantes na quadra invernosa. Nascem nas faldas da cordilheira central e vão lançar-se no oceano,
tendo algumas delas correntes subsidiárias, que lhes aumentam o volume e a rapidez do seu curso. «Todas, no inverno, diz o ilustre
anotador das Saudades, trazem água abundante, frequentemente torrencial: enchem então, e, por vezes, transbordam, arrastando
das montanhas milhares de toneladas de penedos mais ou menos grossos, muitos tamanhos que depois, só em pedaços podem ser
removidos, e todos, rolando na torrente uns de encontro aos outros, produzem no choque sinistro ruído, até que, obstruindo os
leitos das mesmas ribeiras, os tornam sobranceiros aos terrenos marginais, e estes, quando obstruidos não ficam, são arrastados
pelas águas transviadas a muita distancia, mar dentro, desfeitos em lodo; no verão porém, os veios de água tornam-se-lhes
escassos, e chegam em algumas ribeiras a secar, em consequência dos desvios, já para regas marginais, já para as levadas, que,
tomando ai as águas correntes, as transportam a fertilizar remotas culturas em toda a superfície do litoral da ilha». Estas ribeiras
transformam-se de quando em quando em caudalosas correntes, que, saindo dos seus leitos e invadindo as margens que as ladeiam,
arrastam violentamente grandes extensões de terrenos cultivados, currais e até casas de habitação, causando, por vezes,
consideráveis prejuízos pessoais e materiais aos moradores das suas vizinhanças.
As principais ribeiras que existem na Madeira são as seguintes:
Ribeira de Machico
. Tem origem nos Lamaceiros e Portela do Porto da Cruz, e os seus principais afluentes são a ribeira Seca e os
ribeiros do Alcanforado, da Ermida, Escuro, das Cales e da Cova.
Ribeira de Santa Cruz
. Nasce em Santo António da Serra e o seu principal afluente é a ribeira da Serra de Água.
Ribeira da Boaventura
. Nasce a oeste do pico das Abóboras e recebe as águas dos ribeiros de João Ferino e do Eixo. Fica no
concelho de Santa Cruz e é conhecida também pelo nome de ribeira de São Pedro.
Ribeira do Porto Novo
. Nasce na serra do Poiso e pico da Silva, e tem por afluentes a ribeira dos Boieiros e os ribeiros de Pedro
Lourenço e Hortas.
Ribeira da Caniço.
Nasce na Camacha e tem por afluente o ribeiro de Vale Paraíso.
Ribeira de Gonçalo Aires.
Nasce no pico do Infante. É muito pouco abundante em águas.
Ribeira de João Gomes
. Tem origem na serra do Poiso e nela desemboca a ribeira das Cales. Era conhecida também outrora pelo
nome de ribeira de Nossa Senhora do Calhau.
Ribeira de Santa Luzia
. Tem origem nos picos do Areeiro e Escalvado, e tem por afluentes os ribeiros do Cidral, dos Frades, do
Pisão e do Til. Também lhe chamam ribeira da Praça.
Ribeira de S. João
. Nasce nos picos Escalvado e de Santo Antonio, e recebe as águas dos ribeiros de Água de Mel e Santana. Teve
outrora as denominações de ribeira de Santa Catarina, de S. Pedro, Grande e de S. Francisco, e é conhecida ainda pelos nomes de
ribeira de S. Lazaro e de ribeira de Santo Antonio.
Ribeira dos Socorridos
. Tem sua origem nas Torrinhas e os seus principais afluentes são a ribeira de Vasco Gil e os ribeiros do
Cidrão, do Gato e da Lapa.
Ribeira do Vigario
. Nasce na Achada do Poiso e picos próximos, e nela desembocam os ribeiros do Jardim do Cabral e dos Frades.
Também lhe chamam ribeira de Câmara de Lôbos.
Ribeira do Campanário
. Tem origem no pico dos Ferreiros e é pouco caudalosa. Também lhe chamam ribeira da Lapa.
Ribeira Brava
. Nasce na Cumiada de S. Vicente e tem por afluentes os ribeiros do Poço, do Pico, de Vicente Vaz e da Eira da Moura.
Ribeira da Tabua.
Nasce no pico das Pedras e recebe as águas do ribeiro do Barqueiro.
Ribeira da Ponta do Sol
. Tem origem no pico da Fonte do Norte.
Ribeira da Madalena
. Nasce perto do pico da Urze do Paul e recebe as águas dos ribeiros do Pinheiro e das Amoreiras.
Ribeira da Serra de Água da Calheta
. Tem a mesma origem da precedente e recebe as águas dos ribeiros da Aza, Fragueiro e das
Meninas.
Ribeira da Calheta
. Nasce no Cabeço da Levadinha ou do Lombo do Salão, e tem por afluentes os ribeiros do Cutileiro e do
Convento.
Ribeira de S. Bartolomeu
. Tem origem nos picos Gordo e da Silva, e o seu principal afluente é o ribeiro do Farrobo.
Ribeira Funda
. Nasce nos picos da Silva e da Relva, e tem por afluente o ribeiro do Mendes. É pouco caudalosa.
Ribeira Seca
. Nasce no alto da Fajã da Ovelha e recebe as águas dos ribeiros dos Cedros e da Meloeira.
Ribeira dos Marinheiros
. Nasce no pico da Fonte do Bispo e é pouco caudalosa.
Ribeira dos Moinhos
. Nasce no pico da Fonte do Barro e, como as quatro precedentes, é pouco caudalosa.
Ribeira da Cruz
. Nasce no Pico da Pedreira e é pouco caudalosa.
Ribeira do Tristão
. Tem a mesma origem da precedente, e tem por afluentes o ribeiro do Calvário e os côrregos dos Agriões e das
Lages.
Ribeira da Janela.
Tem origem no Paul da Serra,, Fontes do Rabaçal e Assobiadouro, e é uma das mais extensas e caudalosas da
ilha.
Ribeira do Seixal
. Nasce no pico do Assobiadouro e recebe as águas dos ribeiros das Voltas e das Quebradas.
Ribeira de S. Vicente
. Nasce nos picos dos Ferreiros e da Cumeada e recebe as águas da ribeira Grande, ribeiro do Atalho, etc..
Ribeira dos Moinhos
. Nasce na Serra da Boaventura e é menos extensa que a do Porco.
Ribeira da Boaventura
. Nasce na Boca das Torrinhas e é uma das mais caudalosas da ilha. É conhecida junto da povoação pelo
nome de ribeira do Porco.
Ribeira de S. Jorge
. Nasce no pico do Canário e recebe as águas dos ribeiros do Canário, Grande e do Tombo da Furna.
Ribeira do Faial
. Nasce no pico Ruivo e é também conhecida pelo nome de Ribeira Seca. Recebe as águas da ribeira da Metade e do
Ribeiro Frio.
Ribeira do Porto da Cruz.
Nasce no pico da Suna e também lhe chamam ribeira da Igreja. É melhor considerar a ribeira do Tem-te-
não-caias como continuação da ribeira do Porto da Cruz do que como afluente dela.
No Porto Santo, são dignos de menção a ribeira da Vila, os ribeiros Salgado e do Cochino, e as ribeiras da Serra de Dentro e da Serra
de Fora.
Ribeirinho (Beco do)
Comunica a travessa do Rêgo com a da Conveniência, junto da Avenida de João de Deus. Foi mais extenso
outrora do que hoje é, tendo-se permitido em sessão camarária de 12 de Junho de 1902 que o proprietário da quinta das Rosas o
vedasse junto da travessa da Conveniência, com a condição, porém, de dar ao levadeiro da levada das Hortas, para o serviço da
levada, uma chave da porta que veda a entrada do beco, do lado da referida avenida.
Ribeirinho (Rua do )
(Rua do
). Estendia-se desde a parte leste da avenida Elias Garcia até a rua do Carmo, ou do Dr. Costa Ferreira.
Chama-se hoje rua do Alferes Veiga Pestana, e antes de ter esta denominação teve a de rua das Hortas (V. este nome).
O pequeno ribeiro que lhe deu o nome, é o ribeiro do Vale, que vem da Pena e passa na avenida de João de Deus e rua do Carmo.
Nesta ultima rua houve junto a travessa do Rego uma ponte que formava uma grande saliência no terreno e foi rebaixada em 1906.
Ribeiro
Os indivíduos deste apelido, diz o Dr. Alvaro de Azevedo, vêm de Manuel Afonso Sanha e de sua mulher Leonor Ribeiro, a
qual faleceu em 1536. Houve também um Pedro Ribeiro, que casou com Mecia Carvalhal, tendo ambos vivido por 1500 e os seus
descendentes se ficaram apelidando Carvalhais.
Ribeiro (Emanuel Vitorino)
É natural do Porto e filho do conhecido pintor Joaquim Vitorino. Residiu alguns anos entre nós,
como professor da Escola Industrial «Antonio Augusto de Aguiar», e actualmente é professor e director duma escola industrial do
Porto (1921). Esteve na Madeira por ocasião das festas do quinto centenário da descoberta, prestando os mais relevantes serviços,
como já fizemos notar no artigo Quincentenario do Descobrimento.
De colaboração com Feliciano Soares, publicou no ano de 1915, um opúsculo intitulado Terra! Terra!, alusivo á descoberta da
Madeira, escrito em prosa (F. Soares) e verso (E. Ribeiro). Teve Emanuel Ribeiro uma larga colaboração em alguns jornais desta
cidade e preparava uma monografia histórica e artística sobre a nossa Sé Catedral, que não chegou a publicar.
Ribeiro (Conselheiro José Silvestre)
Em um longo período do tempo superior a um século, foi o conselheiro José Silvestre Ribeiro
o mais ilustre governador civil deste distrito e aquele a quem esta terra deve uma soma de mais assinalados serviços e de actos da
mais alta e mais acendrada benemerencia. É uma verdade quase axiomática, que dispensa demonstrações.
Nasceu em Idanha-a-Nova a 31 de Dezembro de 1807. Concluída a sua formatura em direito alistou-se no exército libertador, e,
acabada a guerra, foi sucessivamente secretario geral, governador civil, deputado, par do reino, ministro e conselheiro de estado,
tendo desempenhado muitas e importantes comissões de serviço publico. Foi homem de rara cultura intelectual e um dos mais
fecundos e eruditos escritores do seu tempo, deixando uma vasta bagagem literária.
Antonio José de Avila, depois duque de Avila e Bolama, chegou á Madeira a 12 de Setembro de 1846 na qualidade de comissário
régio, acompanhado de José Silvestre Ribeiro, a fim de sindicar dos acontecimentos que tinham ocorrido nesta ilha por causa do
proselitismo calvinista do Dr. Roberto Kalley. Silvestre Ribeiro vinha nomeado governador civil para o distrito, mas só se teve
conhecimento dessa nomeação depois de Antonio José de Avila ter demitido o governador, o administrador do concelho do Funchal
e tomado outras medidas de administração que foram julgadas indispensáveis.
Nem resumidamente podemos enumerar os serviços com que José Silvestre Ribeiro deixou assinalada a sua passagem entre nós,
mas impossível é deixar de referir-nos, embora fugitivamente, à fundação do Asilo, às medidas mais prontas e salutares para
debelar a terrível crise da fome em 1847, a criação da Sociedade Agrícola, a construção da Ponte Monumental, ao estabelecimento
da iluminação publica, à exposição das indústrias madeirenses, á organização dum museu de historia natural, á criação de muitas
escolas de instrução primaria, ás importantíssimas providencias relativas á repovoação e conservação dos arvoredos, ás grandes
reparações nas estradas e em quasi todos os edifícios do Estado, compreendendo a maioria dos templos, as profícuas e severas
medidas que adoptou acerca da gerência dos estabelecimentos pios, contribuições municipais, cemitérios, expostos, rendas
camarárias, etc., á maneira como no parlamento defendeu os interesses da Madeira, ao grande desenvolvimento das obras publicas,
ao notável impulso dado á tiragem das levadas, especialmente á do Rabaçal, á construção de casas de abrigo nas serras e
encumeadas, não havendo necessidade publica que não procurasse atender nem ponto algum de administração a que não chegasse
a sua eficaz iniciativa e a sua incansável actividade. Longe, muito longe iríamos se quiséssemos descer a detalhes e pormenores, que
não cabem nos apertados limites deste artigo, que não pode ser longo.
Silvestre Ribeiro representou a Madeira no parlamento nas sessões legislativas de 1848 a 1851, 1853 a 1856 e de 1857 a 1858.
Os madeirenses reconhecidos pelos relevantissimos e nunca assaz encarecidos serviços que José Silvestre Ribeiro prestou a este
arquipélago, resolveram oferecer-lhe um objecto, que lhe não fizesse esquecer inteiramente a gratidão dos seus habitantes e ao
mesmo tempo lhe recordasse a sua permanência entre nós. Esse objecto, adquirido por subscrição publica, foi um rico colar de
ouro, formado principalmente por dezassete escudetes, cada um dos quais representava um dos mais assinalados actos da sua
administração, tendo pendente uma medalha, que, além da dedicatória, continha a legenda latina extraída dos versos de Virgilio:
Semper honos, nomenque tuum, laudesque manebunt. Os desenhos e moldes deste primoroso trabalho foram do distinto artista
madeirense Vicente Gomes da Silva, há poucos anos falecido (1921). Por ocasião da entrega, feita solenemente, desta significativa
lembrança, o corpo comercial da colónia britanica ofereceu a Silvestre Ribeiro uma salva de prata, expressamente trabalhada em
Londres, tendo nela esculpida uma dedicatória na língua inglesa.
Como se sabe, foi José Silvestre Ribeiro governador civil do distrito de Angra do Heroísmo, e durante a sua administração um
violento terramoto reduziu a vila da Praia da Vitoria a um montão de escombros. 0 que então fez Silvestre Ribeiro, levantando em
pouco tempo das ruínas uma nova povoação, atesta-o eloquentemente o monumento que hoje se ergue no centro da vila, que é um
padrão imorredoiro da sua glória.
A câmara municipal de Angra ofereceu a Silvestre Ribeiro um rico espadim com copos de ouro, que é uma verdadeira preciosidade
artística. 0 benemérito governador legou este espadim á câmara municipal do Funchal, onde se encontra, e o colar, oferta dos
madeirenses, á câmara municipal de Angra do Heroísmo, onde também se encontra cuidadosamente guardado.
A 31 de Dezembro de 1907, a ilha Terceira comemorou o centenário do nascimento de Silvestre Ribeiro com solenes e significativas
demonstrações de apreço e reconhecimento à sua saudosa ilustre memória, entre as quais se destacaram algumas publicações
literárias. Quem estas linhas escreve, em artigos no antigo Heraldo da Madeira, lançou a ideia de associar a Madeira àquelas
comemorações, mas ninguém, a começar pelo governador civil e a acabar na mais sertaneja câmara municipal, acudiu ao
chamamento...
O nome de José Silvestre Ribeiro é ainda bastante lembrado entre nós e considerado, sem possível contestação, o do mais ilustre e
benemérito governador que tem tido o arquipélago da Madeira. A abençoada memória de José Silvestre Ribeiro apenas se
perpetuou no Funchal dando-se o seu nome a uma artéria da cidade, mais conhecida pela simplificação de Rua do Conselheiro e
que até o grande publico desconhece que represente uma homenagem prestada ao mesmo governador. Uma cousa se podia fazer
ainda e que já foi lembrada pela imprensa – dar ao Asilo da Mendicidade o nome do seu fundador.
Quem quiser ter conhecimento mais completo da sua administração neste distrito, leia Uma Época Administrativa na Madeira e
Porto Santo, 3 grossos volumes, Colecção de Documentos relativos à crise da fome por que passaram as ilhas da Madeira e Porto
Santo no ano de 1847, Colecção de Documentos relativos ao Asilo da Mendicidade do Funchal, Colecção de Documentos relativos á
construção da Ponte do Ribeiro Seco e Brevíssima resenha de alguns serviços que no distrito do Funchal tem prestado o conselheiro
José Silvestre Ribeiro.
Um pormenor dolorosíssimo, mas digno de registo: – José Silvestre Ribeiro passou nesta terra por um dos mais angustiosos transes
da sua vida, perdendo o filho único, que encontrou morte desastrosa no tanque do jardim do Palácio de S. Lourenço.
Silvestre Ribeiro saiu da Madeira a 27 de Novembro de 1852 e morreu em Lisboa a 9 de Março de 1891.
Ribeiro (Manuel)
Nasceu em Lisboa a 31 de Agosto de 1861, mas reside desde criança no Funchal. Tem colaborado em diferentes
jornais e é poeta de merecimento, sendo autor dos seguintes opúsculos:
Flores Agrestes
, Funchal, 1903, de 67 páginas;
Pyrilampos
,
Funchal, 1905, de 56 páginas;
Outomnaes
, Funchal, 1910, de 55 páginas; e
Poentes
, Funchal, 1913, de 96 páginas.
O verdadeiro nome deste poeta é Mardónio da Câmara; Manuel Ribeiro é apenas um pseudónimo, mas que ele adoptou para todas
as suas produções literárias.
Ribeiro Frio
Sítio no interior da ilha e a 15 quilómetros do Funchal, muito visitado por nacionais e estrangeiros por causa das
encantadoras païsagens que dele se desfrutam. Foi outrora muito mais arborizado do que hoje, mas os terrenos que lhe ficam
próximos possuem ainda algumas matas constituídas especialmente por loureiros e urzes. O Ranúnculus grandifolius, o Geranium
anemonefolium, o Carex peregrina, o Carex elata e a Orchis foliosa encontram-se no Ribeiro Frio, podendo extrair-se o salepo dos
tubérculos desta ultima planta.
Seguindo a Levada do Juncal, chega-se em pouco tempo a um mirante donde se desfrutam vistas surpreendentes sobre a Ribeira da
Metade, e mais além há uns túneis, sendo dificil porém chegar até lá, em razão do mainel da levada ser estreito e por vezes pouco
firme. As rarissimas Goodyera mscrophylla e Musschia Wollastoni encontram-se perto do túnel que se segue à Quebrada da Azeda.
Para leste do Ribeiro Frio, admiram-se também formosas paisagens, e, se seguirmos essa direcção, caminhando sempre ao longo da
levada, alcançaremos os Lamaceiros, de onde se torna fácil passar a Santo Antonio da Serra.
O sítio do Ribeiro Frio é atravessado pela Levada da Serra e na margem da vereda que a ladeia, onde chamam o Balcão ou Balcões,
goza-se dum surpreendente panorama sobre a ribeira da Metade e outros pontos do interior, avistando-se a distancia a coluna
basaltica do Homem-Em-Pé (Vid. este nome). Existe ali uma casa de abrigo para os viandantes, também aplicada ao serviço dos
empregados da levada. Desde Abril de 1932 que se encontra neste sítio um pequeno estabelecimento com um bom serviço de chá,
comidas e bebidas, com o nome de Casa de Chá. O sítio do Ribeiro Frio fica a cerca de 4 quilómetros da Casa do Poiso e a 15 da
cidade do Funchal. O ribeiro que atravessa este sítio e que dele tomou o nome fornece o manancial que alimenta a levada do
Furado.
Ribeiro de Mendonça (Marceliano)
Marceliano Ribeiro de Mendonça, sem possuir cursos superiores ou universitários e sem
ter saído do meio restrito em que sempre viveu, conseguiu pelas fulgurações do seu brilhante talento, pela sua vasta ilustração e
pelo mais acendrado amor ao estudo, exercer entre nós uma verdadeira supremacia intelectual, que jamais alguém pensou em
contestar-lhe.
Nasceu nesta cidade a 18 de Abril de 1805, e era filho de Jerónimo Ribeiro dos Santos e de D. Juliana Rita de Mendonça.
Tinha concluído o curso secundário ou as aulas do Pátio, como então se dizia, quando D. Miguel se proclamou rei absoluto e enviou
à Madeira a celebre e ominosa devassa, que nas suas malhas envolveu tantos madeirenses, obrigando muitos deles à expatriação ou
ao homizio. Marceliano Ribeiro procurou asilo seguro em casa dum súbdito britanico e ali se conservou homiziado seis longos anos,
até que em Junho de 1834 se implantou o governo constitucional neste arquipélago.
Nesse triste e forçado retiro, que o nosso biografado tão bem soube aproveitar, adquiriu ele o habito perseverante do estudo, que
conservou até a morte, e foi sobretudo ali que enriqueceu a sua brilhante inteligência com a notável ilustração que chegou a possuir.
As suas predilecções literárias e cientificas levaram-no para o estudo das línguas portuguesa e latina, em que foi mestre consumado,
e para os estudos filosóficos, em que se revelou um espírito superior. São disso prova sobeja os elementos de gramática latina que
publicou em 1835 e os elementos de filosofia que escreveu para uso dos seus alunos.
Marceliano Ribeiro notabilizou-se principalmente como professor, tendo como tal adquirido uma grande reputação em todo o país.
Além das suas maneiras cativantes e trato extremamente afável, que logo ganhavam a simpatia do aluno, possuía o raro condão de
saber ensinar, tendo uma exposição fácil e clara, a que dava um grande brilho e relevo o tom de convicção com que falava e o
entusiasmo que comunicava ás suas palavras. Sendo um discursador inominável e conhecendo profundamente as matérias que
preleccionava, os seus discípulos não se cansavam nunca de ouvi-lo, extasiados a vista da beleza da forma e da alteza dos conceitos.
Foi professor das aulas do antigo Pátio, e, quando em 1836 se criou o Liceu do Funchal, fez parte do corpo docente do novo
estabelecimento de instrução, ensinando as línguas portuguesa e latina, e regendo depois a cadeira de filosofia.
Nomeado reitor do Liceu e comissário dos estudos, evidenciou-se notavelmente no desempenho destes cargos, sobretudo pelo
impulso dado ao derramamento da instrução primaria, pelos novos métodos de ensino que introduziu e ainda pelo escrupuloso
cuidado com que procedia a selecção dos professores. Os seus relatórios nesta especialidade são verdadeiramente modelares, tendo
alguns sido publicados na revista cientifica O Instituto. Para estimular os professores primários no exercício do seu ministério,
criou uma «Associação de Conferencias», em que se versavam os assuntos que mais de perto interessavam à instrução popular. Pelo
muito zelo e dedicação que desenvolveu no alargamento do ensino primário, pode sem duvida afirmar-se que foi ele o primeiro que
neste arquipélago verdadeiramente se interessou pela instrução popular, bastando este facto para tornar abençoada entre nós a sua
memória.
Marceliano Ribeiro era orador eloquente e de aprimorada linguagem, destacando-se entre os seus discursos as orações de sapiência
proferidas na abertura solene do Liceu e as conferencias publicas que fêz sobre o «belo».
Exerceu entre nós os cargos de presidente da Câmara do Funchal, secretario geral do Governo Civil, reitor e professor do Liceu,
comissário dos estudos, vogal do conselho de distrito, além doutras comissões de serviço publico.
Teve uma larga e valiosa colaboração em muitos periódicos madeirenses e deixou algumas obras manuscritas, publicando os
Princípios de gramática geral aplicados á língua latina, a Filosofia em Coimbra e no Funchal, o Método paralelo de leitura e escrita e
o romance histórico Gaspar Borges, além dos seus importantes relatórios.
Faleceu no Funchal, a 5 de Agosto de 1866, tendo 61 anos de idade.
Ribeiro Neto (Manuel)
No
Dicionário Popular
, dirigido por Pinheiro Chagas, encontramos o seguinte, acerca deste indivíduo:
«Jurisconsulto português natural do Funchal, veio a Portugal formar-se na Universidade de Coimbra, e voltando á Madeira, foi
promovido num canonicato na Catedral de Angra. Escreveu e imprimiu um volume latino de
Commentarios de Direito Civil e
varias alegações de direito canónico
. Morreu em 1681, tendo nascido nos princípios do século XVII ou fins do século XVI».
Barbosa Machado dá, porém, Ribeiro Neto como nascido em Angra, o que temos por mais provável, embora o não possamos
afirmar duma maneira indubitável. Entre os trabalhos de direito canónico que publicou, encontram-se os seguintes, citados na
Biblioteca Lusitana: Alegações de direito sobre as meias conezias do Funchal, Officios que tachou o cabido e Explicaçam do
privilegio de hum altar no Funchal, que todos saíram, num volume no ano de 1660.
Ribeiro Real (Conde do)
João Bettencourt Araújo Carvalhal Esmeraldo, 1.° visconde e 1.º conde do Ribeiro Real, nasceu no
Funchal a 21 de Dezembro de 1841 e era filho dos morgados Francisco Antonio de Bettencourt Araújo de Carvalhal Esmeraldo e D.
Julia Henriqueta de Freitas Esmeraldo. Exerceu varias comissões de serviço publico e entre elas as de presidente da Câmara
Municipal desta cidade e a de Governador Civil em 1879, tendo tomado posse deste cargo a 15 de Março do mesmo ano. Foi
agraciado com o título de visconde por decreto de 23 de Março de 1882.
Como presidente da Câmara Municipal, deve-se-lhe a demolição das antigas vielas entre a rua dos Aranhas e o antigo cemitério
britanico, e a construção da rua «5 de Junho».
Faleceu a 22 de Março de 1902.
Ribeiro Seco (Ponte do)
O ilustre Mouzinho de Albuquerque, quando prefeito da Madeira, concebeu o projecto de lançar uma
ponte pênsil sobre o Ribeiro Seco, tendo para esse fim começado a fazer construir dois gigantescos pilares, afora dois fortíssimos
encontros em cada uma das margens do ribeiro. «Entrava no piano da obra, diz Sérvulo de Meneses na Colecção de documentos
relativos á construção da ponte do Ribeiro Seco, a ideia de levantar um monumento á memória do imortal Duque de Bragança,
magnânimo libertador dos portugueses, e nesta conformidade devia a obra ser magnífica e grandiosa».
Com a saída de Mouzinho para Lisboa, pararam os trabalhos da ponte, tendo procurado mais tarde o barão de Lordelo continua-
los, mas sem resultado, depois de haver assentado que a mesma ponte seria de pedra, e não pênsil. Foi em tempo deste governador
que se principiou a estrada que comunica o Funchal com Câmara de Lobos.
Em fins de 1846, tendo vindo governar a Madeira o conselheiro José Silvestre Ribeiro, resolveu ele chamar a atenção dos
engenheiros sobre o modo de levar a efeito a obra projectada por Mousinho de Albuquerque, mas só em 1848 se pôde dar começo
aos trabalhos, depois do mesmo governador ter obtido a promessa de donativos que chegavam para satisfazer a quarta parte das
despesas em que haviam sido orçados os mesmos trabalhos.
A arrematação das obras da ponte teve lugar no dia 27 de Fevereiro de 1848, e, no dia 6 de Março seguinte, começaram os
trabalhos, tendo pouco antes o Governador aberto uma subscrição para os gastos da ponte. As obras foram arrematadas pela
quantia de 5.799$000 réis, sendo arrematantes o mestre de obras José Pereira e seus sócios Antonio Joaquim Marques Basto, João
António Bianchi e Francisco Luis Pereira.
Por meio de donativos, conseguiu o Governador obter inteiramente o preço da arrematação, mas as obras importaram em 8
227$302 réis, tendo tido, por conseguinte, os arrematadores um prejuízo de 2.428$302 réis, o qual não existiria, segundo
declaração destes, se não houvesse todo o empenho «em apresentar obra bem acabada e duradoura, satisfazendo com mão larga a
todas as indicações do engenheiro director».
Os trabalhos da ponte foram executados sob a direcção do capitão de engenharia Tiberio Augusto Blanc e ficaram acabados em
Fevereiro de 1849, tendo este oficial comunicado ao Governador Civil, em seu oficio de 5 de Dezembro do mesmo ano, estar
concluida a grandiosa obra com toda a solidez e perfeição, havendo a sociedade arrematadora excedido em muitos pontos às
obrigações a que se tinha comprometido, levada unicamente pelo desejo de que a mesma obra satisfizesse plenamente à espectaçâo
pública e não desmentisse o credito dos sócios, sendo esta a principal causa do grande prejuizo que sofreram.
Entre as pessoas que concorreram com dádivas para a construção da ponte do Ribeiro Seco, figura a rainha Adelaide, de Inglaterra,
que deu 480$000 réis, tendo o Governador Civil agradecido, por meio da imprensa, a todos os subscritores, o generoso auxilio que
lhe prestaram para poder levar a efeito a grandiosa obra que empreendera.
Muitos são os indivíduos que se têm suicidado no Ribeiro Seco, aproveitando a grande altura em que está a parte média da ponte,
mas de todas as mortes aí ocorridas, a que maior sensação produziu talvez no Funchal, foi a de um indivíduo de boas famílias que
pelos anos de 1860 se atirou ao fundo do ribeiro, por ver repelidos os protestos de amor que ousara dirigir à esposa dum
governador civil. Uma carta que ficou sem resposta e á qual se seguiu a proibição de voltar ao palácio de S. Lourenço, onde antes
era sempre bem recebido, levaram o desditoso amante a pôr termo à existência pela forma que fica apontada, seguindo-se a este
acontecimento trágico o acto burlesco do filho do suicida propor ou querer propor um duelo ao governador por considera-lo
responsável pela morte do pai.
Vid. Estrada e Ponte Monumental.
Ribeiro Seco (Praça do)
Fica junto da ponte Monumental e na margem esquerda do ribeiro Seco, tendo sido construída pouco
depois de 1850. Tem hoje o nome de Largo de António Nobre.
Vid. Nobre (António).
Richter (Johannes)
(Johannes) Doutor em filosofia pela Universidade de Leipzig. E.:Die Klimatishen Grundlagen der landwirtschaftlichen
Bodenkultur auf Madeira ; Leipzig, 1909.
Risco
É um dos pontos do Rabaçal mais dignos de serem visitados por causa dos majestosos panoramas que deles se desfrutam.
Deriva o seu nome do risco que correram os trabalhadores para executarem os trabalhos da construção do ducto na rocha elevada e
cortada a prumo onde caem as águas. O poço do Risco, situado ao fundo da ravina e a cerca de 80 metros abaixo da levada, merece
também ser visitado, mas não se pode lá chegar sem algum trabalho.
As águas do Risco vêm duma lagoa ou escavação situada na orla do Paul da Serra.
Vid. Levadas, Paul da Serra e Rabaçal.
Risota (A)
Saíram 12 números, de 6 de Agosto de 1906 a 21 de Outubro do mesmo ano.
Robaldo (Pomatomus telescopium)
Peixe percida que vive nos fundos rochosos entre 300 e 400 braças. A sua carne é de boa
qualidade.
Roberto Ivens (Rua de)
Fica ao norte do Jardim Municipal e comunica a rua do Conselheiro com a de S. Francisco. Foi-lhe dado
o nome porque é conhecida em sessão camarária de 17 de Setembro de 1885.
V. Capelo e Ivens.
Roberts (Lieutenant-colonel)
Publicou em 1802 oPlan of the Island of Porto Santo .
Roberts (Lord)
Este distinto general inglês, que acabou por assegurar o domínio da Inglaterra no Transval, ao regressar à sua
pátria, vindo da África do Sul, teve uma brilhante recepção na sua passagem por esta ilha, no dia 26 de Dezembro de 1900.
Robins
Botânico inglês que arborizou na Madeira no ano de 1774.
Roca de Vénus (Hedychium Gardnerianum)
Zingiberacea cultivada nos Jardins da Madeira. É originaria da Índia e tem flores
amarelas, grandes, dispostas em tirso muito elegante.
Rocaz (Sebastes madeirensis)
Peixe da família Triglida, que vive nas águas baixas da costa madeirense. É de pequenas dimensões
e tem a cabeça guarnecida de espinhos, cuja picada pode produzir inflamações. Pode ser encontrado junto à costa, mas não é
aproveitado, apesar da sua carne ter sabor agradável.
Rocha
Este apelido de família, diz o erudito anotador dasSaudades da Terra , começa em João Enes Rocha, escudeiro fidalgo e
almoxarife no Funchal em 1568.
Rocha (Joaquim Leonardo da)
Já nos ocupámos deste pintor no artigo consagrado à Escola Industrial António Augusto de Aguiar
(volume I, página 398), devendo aqui acrescentar-se que nasceu em Portugal em 1756 e morreu no Funchal depois do ano de 1821,
sendo filho do distinto pintor Manuel Joaquim da Rocha. Era especialmente um retratista e deixou várias telas nesta ilha.
Rocha Furada
É uma larga abertura nas rochas da Ponta do Furado, na Ponta de S. Lourenço. Vista a distancia, assemelha-se a
uma grande porta rasgada no terreno do litoral.
Rocha de Gouveia (Gabriel)
Nasceu no Arco da Calheta a 30 de Setembro de 1887, sendo filho de Manuel Rocha de Gouveia e de
D. Maria Augusta Soares Rocha de Gouveia. Frequentava em Lisboa o curso de agronomia, quando foi chamado a alistar-se no
exército, após a declaração de guerra da Alemanha a Portugal. Tendo sido despachado alferes, partiu para França, onde encontrou a
morte no dia 13 de Outubro de 1917, achando-se de serviço nas trincheiras. Diz-se que conversava descuidadamente com outros
oficiais, quando foi atingido por vários estilhaços de granada, que o mataram instantaneamente.
Rocha da Meia Légua
A pouca distancia do Lazareto de Gonçalo Aires, para os lados de leste, existe uma rocha sobranceira ao
mar, que tem o nome de Rocha de Meia Légua.
Rocha do Navio (Ilhéu da)
Próximo do sítio da Rocha do Navio, na costa marítima da freguesia de Santana, encontra-se o ilhéu
daquele nome, onde naufragou, no ano de 1860, um navio de nacionalidade holandesa.
Roda dos Expostos
A 14 de Janeiro de 1820, resolveu a Câmara Municipal do Funchal mandar fazer uma roda de expostos na
casa da ama geral, visto não haver nenhuma nesta cidade, e três anos depois mandou fazer outra em Câmara de Lobos, numa casa
contígua à capela do Espírito Santo.
Era tão avultado o numero de expostos a cargo da Câmara nos princípios do século XIX, que, em 20 de Maio de 1812, resolveu ela
que o juiz-vereador tivesse «um sumario de policia» para apontar todas as mulheres publicas que estivessem grávidas, afim de
darem conta dos seus filhos e os criarem.
Rodas de Caminho
Tendo a Junta da Real Fazenda pedido à Câmara Municipal do Funchal «que indicasse o meio mais suave de
exigir aos moradores desta ilha uma contribuição para reparo das ruínas ocasionadas pela aluvião de 9 de Outubro de 1803»,
resolveu a mesma Câmara, em sessão de 21 de Agosto de 1804 e depois de ter ouvido as pessoas da nobreza e povo, este
representado pela Casa dos Vinte e Quatro, «que o meio mais igual, menos pesado e mais conforme com o fim proposto de
concorrerem os habitantes da ilha para reparo das ribeiras, era ficarem obrigados todos os habitantes varões da idade de 16 anos
até a de 60, sem excepção de pessoa alguma eclesiástica ou secular, nacional ou estrangeira, fidalgo, nobre ou plebeu, a irem por
escala trabalhar no desentulhb e reparo das ribeiras, não excedendo a cinco vezes em cada ano, gratuitamente cada um naquelas do
distrito da cidade ou vila donde for morador e aonde for preciso esse trabalho».
Assim teve origem a contribuição das rodas de caminho, que caiu em desuso no Funchal pelos anos de 1880, e que era permitido
remir a dinheiro conforme «o preço que vencer diariamente cada Jornaleiro», como ficou estabelecido na referida sessão camarária
de 21 de Agosto de 1804 (1921).
Rodrigues
Os indivíduos com este apelido de família procedem: uns de Mem Rodrigues de Vasconcelos, casado com uma filha de
Bartolomeu Perestrelo; outros, de Garcia Rodrigues da Câmara, pai de Aldonça Delgado, a mulher do 3.° donatário do Porto Santo,
que foi por este assassinada; outros, de João Rodrigues, que viveu no século XVI e teve uma fazenda povoada perto da Calheta; e
outros, finalmente, de João Rodrigues Neto, falecido em 1531, que teve sesmaria em S. Martinho e morreu na rua chamada dos
Netos, na freguesia de S. Pedro.
Rodrigues (Adolfo de Sousa)
Este distinto pintor, que uma morte prematura e a pertinaz doença dos últimos tempos da sua
existência não permitiram que manifestasse toda a pujança do seu talento, nasceu no Funchal a 13 de Janeiro de 1867 e morreu na
cidade de Lisboa, a 9 de Março de 1908.
Tinha o curso da Academia das Belas Artes, onde sempre obteve classificações elevadas, notabilizando-se no estudo da pintura
histórica, em que ganhou o primeiro prémio com o quadro Hero e Leandro. Estudou esta especialidade com José Ferreira Chaves,
indo depois a Paris aperfeiçoar-se com Paul Laurens e Benjamin Constant. No 2.° ano do curso da Academia, tinha também
alcançado o prémio «Anunciação». Na exposição do Grémio Artístico, em Lisboa, ganhou em 1895 a terceira medalha. Tomou parte
em varias exposições, tendo figurado nelas, entre outros, os seus quadros Tentação de Cristo e Bom Samaritano.
Fez o retrato do rei D. Carlos, que esteve na sala das sessões da Câmara Municipal do Funchal, o do nosso ilustre patrício Agostinho
de Ornelas e Vasconcelos, etc . etc., e tinha as palmas académicas da Academia de França e a comenda de Isabel a Católica, de
Espanha.
Rodrigues (Dr. António Feliciano)
Os seus companheiros do liceu chamavam-no Castilho, talvez pela analogia do nome com o do
grande Castilho e ainda por fazer versos, nome que tem perdurado e que o próprio Dr. Feliciano Rodrigues por vezes adopta, como
pseudónimo, nos seus escritos. Nasceu nesta cidade a 9 de Junho de 1870. Concluída a sua formatura na Universidade de Coimbra,
em 1897, abriu banca de advogado no Funchal, e nesta comarca tem exercido também o cargo de delegado interino», do procurador
da republica. É secretario do liceu e oficial da secretaria da Junta Geral do distrito (1921).
Além de colaboração em diversos jornais, tanto em prosa como em verso, tem publicado os poemetos:
A Escola
, Coimbra, 1893;
A
Consciência
, Funchal 1897;
Versos da Mocidade
, Funchal, 1903, de 127 páginas;
Versos para meus filhos
, Funchal, 1910, de 118
páginas; C
ollar de Vidrilhos,
Funchal, 1911, de 54 páginas;
Canção das lágrimas; e Sonetos
, Lisboa, 1916. Em prosa,
publicou O
Cirurgião de Marinha e Martim de Freitas
, romances, tendo aparecido este ultimo no
Heraldo da Madeira
. Tem outros trabalhos
prontos a dar á estampa(1921).
Faleceu no Funchal a 5 de Fevereiro de 1925.
Rodrigues (Dr. José Agostinho)
Nasceu no Funchal a 1 de Outubro de 1864, é médico-cirúrgico pela Escola Médico-cirúrgica de
Lisboa e foi despachado tenente-medico do exército a 15 de Novembro de 1894. Serviu por largos anos no regimento de infantaria
n.° 27, e tem actualmente o posto de coronel, desempenhando o lugar de sub-director na Direcção Geral dos Serviços Médicos do
Ministério da Guerra. Esteve em França com o C. E. P. e tem colaboração em vários jornais madeirenses. Publicou em 1890 a tese
que defendeu quando concluiu o seu curso medico, e que se intitula
A opportunidade da laparotomia nas perfurações traumáticas
gastro-intestinais
(1921).
Rodrigues (Dr. José Julio)
Embora alguns biógrafos o dêem como natural de Goa, é, porém, certo que nasceu no Funchal, a 8 de
Maio de 1843, sendo filho do Dr. José Julio Rodrigues, então delegado do procurador régio nesta comarca, natural de Goa, e de D.
Teresa Cristina de Sá Bettencourt, natural da freguesia de São Pedro desta cidade do Funchal.
«Homem de estudo, diz a
Encyclopedia Portugueza
, volume IX, e uma das ilustrações cientificas do seu tempo, notabilizou-se por
trabalhos valiosíssimos que lhe deram um justo renome e o colocaram na primeira fila dos sábios da sua geração. Tendo cursado a
Universidade de Coimbra, onde se formou em matemática, foi pouco depois nomeado professor de introdução no liceu de Lisboa.
Foi também lente de química na Escola Politécnica e no Instituto Industrial de Lisboa, e presidente do mercado central de produtos
agrícolas, comissão de que se exonerou quando se retirou para o Brasil (1892).
Foi um dos signatários e promotores em Paris, do acordo de 1875 sobre permutações internacionais, e realizou pela primeira vez em
Portugal a fotografia cientifica de cavidades subterrâneas (túneis de lava da ilha Terceira), com luz de magnésio, tirando também
numa excursão cientifica aos Açores, perto de 500 instantâneos que formam a colecção mais completa, sob o ponto de vista técnico
fotográfico, que existe das ilhas de S. Miguel e Terceira. Inventou e aperfeiçoou alguns instrumentos de estudo e de trabalho técnico
e cientifico, criando alguns processos novos de que tirou privilegio em Portugal e no estrangeiro.
«Foi encarregado de organizar o serviço quimico-legal judiciário português, o que não levou a efeito por motivos políticos
subsequentes. Deputado às cortes, primeiro pela Índia e depois pelo Funchal, na legislatura de 1890 a 1892, tratou com notável
proficiência do ensino técnico e do ensino pratico e geral, das indústrias, do fomento publico, das pautas aduaneiras, das classes
trabalhadoras etc.. Entre os trabalhos que organizou, citaremos: ensino experimental de ciências físicas e naturais no liceu de
Lisboa; secção fotográfica da direcção geral dos trabalhos geodesicos, considerada um modelo de perfeição; instalação da secção
portuguesa na exposição de Paris de 1875 (ciências geográficas); cadeira de tecnologia química no Instituto Industrial e Comercial
de Lisboa; ensino pratico de química mineral na Escola Politécnica de Lisboa; laboratório de quimica-mineral na Escola politécnica
de Lisboa, considerado um dos melhores do seu género; laboratório do mercado central de produtos agrícolas, etc..»
0 Dr. José Julio Rodrigues procurou estabelecer ou animar varias industrias em Portugal, tendo chegado a organizar uma
companhia, com o capital de 2.500 contos, para tentar o fabrico do açúcar de beterraba no país, e a instalar um deposito de
produtos químicos e uma fabrica de tintas para imprimir. Também lhe mereceram as maiores atenções a indústria do quinino e
seus derivados, tendo por esse motivo realizado uma viagem a S. Tomé, em 1885, e a do aproveitamento da batata doce, sob o ponto
de vista do fabrico do álcool e da extracção da fécula.
O Dr. José Júlio Rodrigues esteve na Madeira um pouco antes de 1890, tendo realizado uma brilhante conferencia no teatro «D.
Maria Pia», a que assistiu a elite da sociedade funchalense.
Era membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Sociedade de Geografia da mesma cidade, do Instituto de Coimbra, da
Sociedade Francesa de Fotografia, da Sociedade dos Homens de Letras de França, da Sociedade Hispano-Francesa do mesmo país,
etc., e tinha a comenda de S. Tiago e a cruz da Legião de Honra.
Faleceu em Lisboa a 29 de Abril de 1893.
Entre outras publicações de José Júlio Rodrigues, citaremos as seguintes: Estudos sobre as bases fundamentais dos novos pesos
atómicos e suas relações physicas mais notáveis; Curso elementar de sciencias physicas e naturais (com António Augusto de
Aguiar); Breve noticia sobre a composiçâo chimica das águas mineraes de Pedras Salgadas; Breve noticia acerca d'uma nascente
mineral em Traz-os-Montes; Coisas Portuguesas (conferencias); e O assucar portuguez de beterraba.
Rodrigues (Manuel)
Teve este nosso patrício uma vida bastante movimentada, segundo vemos em algumas obras que dele se
ocupam. Nasceu no Funchal a 25 de Novembro de 1697 e morreu em Lisboa na segunda metade do século XVIII, em ano que não
podemos precisar, sendo filho de Francisco Maria dos Ramos e de D. Josefa Maria Pereira. Tende 15 anos de idade, embarcou para
o Rio de Janeiro para a companhia de seu tio o capitão Manuel Neto Barreto. Matriculou-se no seminário da Cachoeira, revelando-
se um estudante muito talentoso. Em 1715, alistou-se no regimento do mestre de campo Manuel de Almeida Castelo, e seguiu para a
colónia do Sacramento. Pouco depois, abandonou o exército e entrou na ordem de S. Francisco, e nela professou em 1719, tendo
estudado filosofia e teologia no convento de Córdova, no interior da Argentina. Acompanhou Fr. José de Cardena numa viagem á
província de Santa Fé e percorreu outros países. Tendo conhecimento da morte de seu pai e do desamparo em que haviam ficado
suas três irmãs, partiu sem demora para Lisboa, afim de servir-lhes de arrimo. Como diz o autor do artigo do Missionário Popular,
devia ter tido Manuel Rodrigues uma vida «aventurosa e provavelmente tempestuosa, porque não foi de certo um simples acaso
que o fez sucessivamente seminarista no Rio de Janeiro, cabo de esquadra na colónia de Sacramento; franciscano em Buenos Aires,
aluno de filosofia em Córdova e pregador em Lisboa!
Na capital, dedicou-se ao ministério da prédica e granjeou a fama dum dos mais laureados oradores do seu tempo. Barbosa
Machado e Inocêncio trazem a enumeração dos muitos sermões e discursos que publicou, no período decorrido de 1732 a 1757,
contando-se entre estes a oração fúnebre que proferiu por ocasião da morte de D. João V.
Rodrigues (Rodrigo)
Este distinto açoriano, um dos promotores da publicação dos livros III e IV das Saudades da Terra e o autor
da excelente biografia de Gaspar Frutuoso que acompanha o primeiro dos mesmos livros, desempenhou o lugar de inspector de
finanças no distrito do Funchal, demorando-se porém muito pouco tempo nesta ilha.
É de Outubro de 1921 a primeira folha de vencimentos em que aparece o seu nome, não tendo chegado a lavrar-se termo na
repartição de Finanças, conferindo-lhe a posse daquele lugar.
Rodrigues Ciebra (António)
Deste madeirense apenas sabemos que foi cirurgião do hospital de Santa Isabel desta cidade e que
escreveu e publicou um opúsculo com o seguinte título:Narração cirúrgica de hum carbunculo maligno que com facilidade se
curou na cara..., Lisboa. 1760, de 31 páginas.
Rodrigues dos Santos (Dr. António da Cruz)
Nasceu nesta cidade a 14 de Setembro de 1877. Terminou o curso da Escola
Medica de Lisboa no ano de 1902 e é tenente-coronel médico do quadro de médicos do Ultramar. Foi Governador Civil deste
distrito, tomando posse do lugar a 14 de Outubro de 1920 e exercendo-o até 30 de Maio do ano imediato. Foi novamente nomeado
para o mesmo cargo a 22 de Novembro de 1921, mas não o aceitou. Desempenha actualmente o cargo de presidente da Câmara
Municipal do Funchal (1921).
Rodrigues dos Santos (José Jorge)
Nasceu no Funchal a 23 de Abril de 1879 e é irmão do precedente. Tem o curso superior de
letras e seguiu a carreira diplomática, havendo servido nas legações de Portugal na Suécia, Dinamarca, etc.. E.:
Caravella
(poesias),
e
Mar de Lagrimas
,
Festa de Actriz
e
Rosa enamorada
(peças dramáticas) (1921).
Rodrigues de Vilares (D. Luis)
Se este prelado Funchalense não nasceu no Brasil, ao menos passou ali uma parte da sua
mocidade e ali recebeu também a sua educação literária.
Foi confirmado bispo da Madeira pelo papa Pio VI a 29 de Julho de 1797 e tomou posse da sua diocese no princípio do ano de 1798.
Mostrou-se sempre zeloso no exercício das suas funções episcopais e na observância da disciplina eclesiástica.
Teve graves lutas com o governador e capitão-general D. José Manuel da Câmara, que duraram longo tempo e que chegaram a
romper em conflito violento, tendo o governo central que intervir na lamentável contenda suscitada entre as duas autoridades
superiores do arquipélago.
De longe vinham essas desinteligências. O prelado opôs-se ao aquartelamento das tropas inglesas no Colégio dos Jesuítas,
concedido por D. Maria I para servir de seminário diocesano, mas teve que ceder perante a força. Retirando as tropas para
Inglaterra, instou D. Luís Vilares pela entrega do edifício, ao que não acedeu o governador, com o fundamento de que ele era
indispensável para o aquartelamento das forças da guarnição. Outros motivos surgiram ainda que agravaram essa desinteligência, e
alegando D. José Manuel da Câmara uma suposta desconsideração que recebera do prelado na Sé Catedral, intimou-lhe a imediata
saída para fora da cidade, o que se realizou no dia 18 de Junho de 1803, indo D. Luis Vilares para uma propriedade que a mitra
possuía na freguesia do Santo da Serra e ali permaneceu aproximadamente quatro meses.
O facto causou grande escândalo, não só na Madeira mas também em Portugal, mandando o governo central a esta ilha o
desembargador Dr. Joaquim António de Araújo, encarregado de sindicar os acontecimentos e vindo acompanhado do novo
governador Ascenso de Sequeira Freire, os quais chegaram ao Funchal na fragata Carlota, no dia 5 de Dezembro de 1803.
Nos dias 10 e 11 do mesmo mes, cada um em seu navio de guerra, seguiram respectivamente para a capital D. Luis Rodrigues de
Vilares e D. José Manuel da Câmara, ás ordens do governo da metrópole, enquanto no Funchal prosseguia activamente a
sindicância. Dela resultou para o governador e capitão-general a sua imediata demissão, sendo também censurado pelas
arbitrariedades que cometera, e para o prelado a sua continuação no lugar que ocupava nesta diocese e a restituição do Colégio dos
Jesuítas, não podendo no entretanto subtrair-se a uma censura que lhe dirigira o governo pela pouca cordura e ponderação que em
muitos actos revelara.
D. Luis de Vilares, durante a sua estada no Santo da Serra, promoveu a plantação do arvoredo do passal e fez continuar um
fontanário que ainda ali existe e que é conhecido pelo nome da Fonte do Bispo.
Morreu nesta cidade a 1 de Outubro de 1810 e jaz sepultado na capela-mor da Sé Catedral.
Rola (Turtur turtur)
Ave de passagem que aparece em diferentes épocas do ano nas ilhas do arquipélago, mas que é pouco
frequente. Pertence á família Columbida.
Rolinha da Praia (Charadrius alexandrinus)
Pequena ave da família Charadriida, que nidifica na ilha do Porto Santo. A sua
postura consta de três ovos amarelados ou cor de azeitona, com manchas ou traços de outra cor.
Romanceiro do Archipelago da Madeira
Num volume de XXIV-514 páginas, publicado nesta cidade em 1880, coligiu o Dr.
Álvaro Rodrigues de Azevedo um numero muito avultado de composições poéticas, de que fez uma sistemática classificação,
subordinando-as aos géneros Historias,
Contos e Jogos
, compreendendo no primeiro as espécies
Romances ao divino
(29
composições),
Romances profanos
(22 composições,
Xacaras
(19 composições) e
Casos
(25 composições); no segundo, as espécies
Contos de fadas
(3 composições),
Contos alegoricos
(7 composições),
Contos de meninos
(3 composições),
Lengas-lengas
(5
composições) e
Perlengas infantis
(9 composições); e no terceiro as espécies
Jogos pueris
(6 composições) e
Jogos de adultos
(4
composições).
Para as pessoas menos versadas nestes assuntos, não será talvez inútil dizer-se que, embora essas composições fossem colhidas na
tradição local e entre as classes populares das diversas freguesias desta ilha, não são elas, na sua grande maioria, originarias desta
região, mas trazidas pelos primitivos colonizadores e pelos que sucessivamente vieram aqui entregar-se ao trafico comercial e às
explorações agrícolas.
Não o afirma terminantemente o ilustre coleccionador dessas composições poéticas, nem tão pouco se refere pormenorizadamente
às influencias que nelas exerceriam as condições mesologicas de então, mas é impossível admitir que as origens dessa poesia
popular se pudessem encontrar no nosso meio, sendo certo que causas diversas teriam sem duvida modificado as produções
primitivas e também criado outras novas de feição acentuadamente local e com características próprias, o que será hoje impossível
determinar, ainda com aproximada exactidão.
Acerca das causas que concorreram para a conservação dessas composições na tradição local, vamos transcrever alguns períodos do
interessante e valioso prefácio do livro, que importa ficarem arquivados neste lugar.
«As condições históricas e geographicas deste archipelago da Madeira explicam o como a poesia narrativa medieval a ele passou e
nele até agora tem subsistido.
«Ao feudalismo succedeu o monarchismo; ao viver aventuroso dos reis e dos nobres senhores na guerra, a residência folgada de uns
e outros na corte e paços reaes; aos costumes rudes e brutal sensualidade medievaes, os affectados requebros da urbana
libertinagem cortezã; e analogamente, na sphera da litteratura, à poesia narrativa dos romances daquelles ferreos tempos succedeu
a poesia discursiva das canções provençalescas, arguta, erotica ou critica, de cultismo palaciano: aquella, supplantada por esta, e
modificada na linguagem pelos progressos dos idiomas modernos, refugiou-se, das eminencias castellãs, nas camadas da população
inferior; e ahi até agora, mais ou menos innovada, mais ou menos viciada, tem estanciado, como poesia tradicional.
«Ora, decorria esta quadra, quando foram descobertas as ilhas do Porto Santo e da Madeira, no primeiro quartel do século XV:
desde então até mais de meiado do século XVI, aqui affluiram muitos povoadores, nobres, mercadores e plebeus, nacionais em
maior numero, mas não poucos estrangeiros também, hespanhoes, italianos, flamengos, inglezes, francezes e allemães, que, com as
ideias e costumes, ainda medievaes, de cada paiz, para estas ilhas transportaram a sua antiga poesia; muitos mouros, captivados na
fronteira costa marroquina e para aqui trazidos, aqui diffundiram seus contos e lengas-lengas; e, por ultimo, o dominio philippino,
alem do presidio de uns quatrocentos soldados castelhanos que neste Archipelago poz, deu azo a que novos incolas peninsulares
para cá emigrassem, e, de força, uns e outros comsigo importaram daquelles velhos romances, que tanto abundam na sua pátria.–
Este período foi o do progresso e prosperidade madeirenses: então, a ilha da Madeira, pela indústria saccharina e suas madeiras de
construcção, tornou-se riquissima: estes dois ramos de commercio e a situação geographica elevaram-na a empório de navegação
nacional e estrangeira; e, porque era a primeira e principal das colónias portuguezas, constituída foi em metrópole diocesana de
todo o nosso recem-descoberto ultramar, desde o Brazil até a Asia, o que tudo poderosamente concorreu a attrahir para esta ilha
novos povoadores, e, com elles, novos exemplares da poesia narrativa da idade-média.–De todos estes elementos, núcleo da
população madeirense, se deduz a proveniência, variedade e riqueza da poesia narrativa tradicional neste archipelago.
«Assim adquirida, profundamente radicou essa poesia nestas ilhas, porque como em outro escrito (
Notas às Saudades da Terra
)
mostrámos, o viver e costumes medievaes aqui implantaram, e já quando no continente decahiam, cá vigoravam e com tal efficacia
acclimaram, que, ainda agora, a despeito de tantas innovações, em muito perduram, especialmente na agricultura. – Nestas ilhas
persistem, de nome e de facto, o senhorio, dono da terra, e o villão, que de colonato a meias, a explora pelo pessoal trabalho seu e de
sua família, como caseiro ou como meeiro, isto é, com ou sem residência, ao modo do colono medieval, adscripticio ou livre, no
terreno senhorial que cultiva. – E, em tal ambiente, a poesia narrativa da idade-média, enjeitada do cultismo palaciano europeu,
neste Archipelago aposentou, vigente e dominadora, como o poderio quasi suzerano dos seus capitães-donatarios e os direitos
senhoriaes da fidalguia local, que assegurados pelo intersticio do mar e delongas da navegação zombavam do poder real e dos foros
municipaes.
«Deste modo radicada a poesia narrativa medieval, causas não menos especiaes a mantiveram até agora na tradição oral destas
ilhas.– A ilha do Porto Santo ficou, desde descoberta e povoada, quasi esquecida na sua pequenez e inferiores condições
productivas: e a sua tradição poética, escassa mas genuina lá jaz, de ha quasi quatro séculos, como a sua menospresada população,
geographica e socialmente insulada na vastidão do Atlântico.–A ilha da Madeira, supplantada nas indústrias saccharina e florestal
pela América e Africa, decahiu repentinamente desde o fim do século XVI, em consequência do que, bem como de outras causas,
perdeu a preeminência do empório náutico e o báculo metropolitano, ficando, por quasi dois séculos, como abandonada á
desventura na solidão das águas, até que os seus preciosos vinhos a restituíram á riqueza e convívio europeu; cada qual dos seus
maiores ou menores centros da população, separados uns dos outros pelos profundos cortes basalticos do território, convergiu para
o grémio parochial, ao alcance do raio visual de cada campanário; ahi mesmo, cada família de colonos ou lavradores, adstricta á
necessidade do trabalho quotidiano no terreno senhorial por elle fecundado, labuta e vegeta em volta do lar, que lhe é asylo e
ergastulo; e a população, assim duplamente insulada do contacto exterior pelo mar e pela adversidade, concentrada interiormente
de mais em mais por effeito da accidentação do paiz e da condição servil do agricultor, tem, por isso mesmo, conservado a poesia
narrativa medieval confiada à sua tradição:–a prosperidade lh'a trouxe, a decadência lh'a manteve; nisto se cifra a historia da
tradição poética madeirense, até meado do século XVIII.
«E tempo era de colligir e perpetuar no livro essa tradição; porque as instituições e reformas modernas, as novas escholas e
melhores meios de comunicação internos e externos hão de produzir os naturais effeitos; e, decorrido meio século mais, a vida nova
a que a civilização chama estes povos, terá diluído, senão extinto de todo, na memória delles, a antiga poesia tradicional».
Numa carta dirigida pelo Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo ao ilustre escritor Teofilo Braga, em Março de 1880 (
Quarenta anos
de vida literária
, páginas 118), diz o erudito anotador das Saudades: «Alem do Romanceiro, tenho coligido o Cancioneiro Popular
deste archipelago em dois tomos, ainda em borrão. Considero este como de não menor valia que aquelle. E, na impossibilidade de
satisfazer ao pedido do meu amigo com qualquer exemplar do género Romance, que não tenho, porque todos inclui no Romanceiro,
ofereço-lhe o Cancioneiro todo, para o que tratarei de o ir pondo em ordem e a tempo». Em nota a esta carta, informa o Dr. Teofilo
Braga, que, infelizmente, aquela promessa não chegou a efectuar-se.
É para lamentar em extremo que o cancioneiro coligido pelo Dr. Alvaro de Azevedo se tivesse extraviado, se porventura chegou
a ser enviado ao Dr. Teofilo Braga. Ou estará ainda em poder de seus herdeiros? No caso afirmativo, conviria que se obtivesse uma
copia fiel dele e se encarregasse pessoa competente de dirigir a sua publicação.
Ignoramos de que géneros de composições poeticas será formado o Cancioneiro a que acima nos referimos.
A pesar da reconhecida autoridade do dr. Alvaro de Azevedo revelada nos seus livros de crítica literária, queremos chamar a
atenção das pessoas, as quais isso possa interessar, para um interessante artigo, que acerca do Romanceiro da Madeira escreveu o
mestre consumado nestes assuntos que foi o notável filólogo Dr. Leite de Vasconcelos, publicado a paginas 184-192 do volume
XXXIII da
Revista Lusitana
, que merece ser lido e ponderado. Discorda de algumas das afirmações do Dr. Azevedo, opondo os
argumentos que julgou mais valiosos para o provar, mas prestando ao ilustre comentador das Saudades o tributo do seu mais alto
apreço. A extensão desse artigo não nos permite transcrevê-lo nestas páginas.
Romarias
O povo dos campos da Madeira, geralmente de carácter alegre e expansivo, tem nas romarias uma das suas principais
distracções. Entregue quase todo o ano a trabalhos que exigem um grande dispêndio de forças e de energia, ele procura nesses
divertimentos o esquecimento das agruras da vida e algumas horas de deleite para o seu espírito inculto, mas generoso e bom.
Por ocasião dos grandes arraiais, numerosos ranchos de homens e mulheres deixam os seus lares em direcção ás localidades onde
eles se realizam, percorrendo ás vezes grandes distancias cantando e dançando ao som dos machetes e violas, sem que revelem
fadiga por esse exercício um tanto violento. E não são somente os rapazes e raparigas que se entregam tais diversões; também os
velhos se associam ás vezes a elas, arruinados aos seus cajados e improvisando trovas com que enganam as fadigas do caminho e
comunicam alegria aos companheiros da romaria.
Diz-se na Madeira «que as vésperas são melhores que as festas., e, na verdade, é no dia que precede o de qualquer festividade
religiosa, que reina maior alegria e entusiasmo no local onde ela se realiza. É sobretudo à noite, quando tanto o adro como o
frontispício da igreja se apresentam iluminados a copos de cores e balões venezianos, que homens e mulheres se entregam a
maiores folguedos e que melhor se pode apreciar o carácter dos divertimentos populares na Madeira.
Embora se não realizem hoje arraiais sem a presença de uma ou mais filarmónicas, não são as peças musicais tocadas por elas que
mais prendem a atenção da grande maioria dos nossos campónios. As cantigas ao ar livre, muitas vezes ao desafio, despertam na
gente dos campos muito maior interesse, sendo por isso que são sempre mais densos e numerosos os ajuntamentos nos pontos
onde há rapazes dispostos a divertir-se e a divertir os outros, fazendo ouvir as suas trovas de intenso sabor local.
Entre as danças do nosso povo e as dos negros de África há muitas semelhanças, como também as há, e bem notáveis, entre certas
cantigas particulares aos nossos campos e os cantos árabes (V.
Musica
). Os saltos e as voltas, que caracterizam as danças da ilha, e
que muitas vezes são acompanhados de guinchos, recordam os batuques africanos, talvez a principal distracção dos negros nos dias
festivos, quando aqui existia a escravidão, e as velhas cantigas madeirenses reflectem a monotonia dos cantos árabes tantas vezes
ouvidos com agrado pelo povo nos tempos da colonização.
O fogo de artificio é um reclamo para a grande maioria das festas madeirenses, consumindo-se por vezes em granadas e foguetes
somas avultadíssimas, que bem poderiam ser destinadas a socorrer os pobres ou a obras úteis na freguesia. Os madeirenses das
classes mais baixas da sociedade entusiasmam-se geralmente com o ruído ensurdecedor produzido pela explosão de certas
granadas, sendo por isso que há sempre grande abundância destas peças de fogo em todos os arraiais e se cometem os maiores
desatinos quando se trata de usar delas. E não é só nos campos que há liberdade para incomodar aqueles que não apreciam o
estalar das bombas; também dentro do Funchal se cometem os maiores abusos no lançamento de foguetes e granadas, sem que a
autoridade procure fazer entrar na ordem as pessoas que os praticam.
O local dos arraiais, depois das onze horas ou meia noite, quando os músicos se acham descansando e as luzes em grande parte se
apagaram por falta de combustível oferece um espectáculo a um tempo curioso e burlesco. Por toda a parte se vêem deitados,
proficuamente, homens e mulheres, vencidos pelo cansaço ou pelas bebidas, e aqueles que se conservam ainda de pé é para
sustentar prolongadas e enfadonhas discussões com os seus companheiros ou para entoar com voz rouca mais uma cantiga para
fazer jus à ingestão de mais um grogue ou um copo de vinho na venda ou na barraca mais próxima.
As cenas de facadas e as grandes desordens, tão frequentes nos arraiais do Continente, raras vezes se dão na Madeira, e apenas uma
ou outra vez se registam alguns convictos em que as armas dos contentores são as hastes de urze ou de folhado, conflitos originados
quase sempre pelas copiosas libações a que se entregam os romeiros.
Nenhuma família visita um arraial sem levar a cesta abundantemente provida de alimentos para a viagem, e no local da festa há
sempre carne em abundância para as chamadas espetadas que o nosso camponio tanto aprecia. O espeto em que se enfia a carne
destinada à espetada, deve, segundo os entendidos, ser de loureiro, convindo também alimentar o fogo com ramos desta árvore
para que a carne fique mais saborosa.
A borracha com vinho ou aguardente, é companheira inseparável do vilão nas romarias bebendo por ela toda a família e ainda as
pessoas que ele quere obsequiar. Tem-se tornado rara uma pequena cabaça que, depois de seca e despojada das sementes, servia
muito outrora para as mulheres e crianças conduzirem as bebidas indispensáveis á viagem.
Entre os indivíduos que vão de romaria às localidades em que existem imagens a que o povo consagra particular devoção,
destacam-se sempre alguns que se não associam aos risos e folguedos gentilicos dos seus companheiros e em que se notam um
sentimento religioso e um recolhimento dignos de admiração. São esses indivíduos os romeiros que se destinam a pagar as
promessas feitas em momentos de angústia e que, fieis aos seus votos, vão levar junto do altar as suas preces e as ofertas devidas à
imagem da sua predilecção.
O livre pensamento, sempre ridículo e perigoso em indivíduos letrados, não chegou felizmente ainda aos campos da Madeira, e,
oxalá que nunca aí chegue, para que o povo não seja privado das consolações que dá a religião nos acontecimentos tristes da vida.
Nalgumas usanças religiosas do nosso povo, talvez haja um pouco de superstição, mas antes isso do que a ausência de crenças, que
é a causa principal da anarquia e da falta de moralidade que se registam em muitos pontos do país.
É no Monte, Ponta Delgada, Machico e Loreto que mais aparecem os romeiros no desempenho das suas promessas. Na primeira
destas freguesias, diz um autor que escrevia em 1880, «algumas vezes se veem homens carregando pesadas cadeias ou barras de
ferro, enquanto as mulheres com os joelhos nús se arrastam subindo por sobre as agudas pedras da calçada que antecede os
degraus da escada que vai ter ao adro da igreja».
Distingue-se cada uma das romarias que se realizam na Madeira, diz o rev.° padre Eduardo C. Nunes Pereira, «por um cunho
especial de atracção para os romeiros, tirado do seu motivo religioso geral, condições topográficas ou carácter profano particular.
Em Ponta Delgada, Monte e Arco da Calheta são as promessas, em Machico e Santa Cruz as procissões na véspera, de velas a arder,
no Caniço, rosários de pêras passadas, na Ribeira Brava, o império das oferendas e a barquinha do pescador, no Caniçal, a procissão
dos barcos, na Camacha, S. Vicente, Porto do Moniz e Curral, a liberdade do campo e a rusticidade do lugar».
Todas as freguesias têm as suas festividades religiosas, revestindo particular brilhantismo as do orago e as do Santíssimo
Sacramento, mas destas festividades as que dão motivo a concorridas romarias são as seguintes: a de Nossa Senhora do Monte, a 15
de Agosto, a do Senhor Jesus da Ponta Delgada, no primeiro domingo de Setembro, a da Senhora do Loreto, a 8 de Setembro, a do
Senhor dos Milagres, em Machico, a 8 e 9 de Outubro, a da Piedade, no Caniçal, no terceiro domingo de Setembro, a de Nossa
Senhora do Faial, a 8 de Setembro, a de Nossa Senhora do Livramento, no Caniço, no segundo domingo de Setembro, a de Nossa
Senhora do Livramento, no Curral, no ultimo domingo de Agosto, a de Nossa Senhora dos Remédios, na Quinta Grande, no
segundo domingo de Setembro, a da Camacha, na primeira oitava do Espírito Santo, a de Santa Maria Madalena, no Porto Moniz, a
22 de Julho, a de S. Pedro, na Ribeira Brava, a 29 de Junho, a de S. João, no Funchal, a 24 de Junho, a de Santo Amaro, em Santa
Cruz, a 15 de Janeiro, e a de Santo Antonio da Serra, a 13 de Junho.
Há 40 para 50 anos, realizava-se no primeiro domingo de Outubro uma romagem á freguesia de Santo António da Serra afim de
celebrar a conclusão das colheitas, mas esta festa, que revestia um desusado cunho de selvajaria, há muito que deixou de fazer-se.
Os romeiros enquanto se demoravam naquela localidade praticavam os maiores desatinos, e, no regresso, percorriam as ruas da
cidade, levando ramos de árvores e bandeiras, sendo precedidos de alguns homens batendo em tambores e tocando instrumentos
de corda (1921).
Seria curioso conhecer-se a origem de certas festas populares madeirenses e a época em que começaram a ter lugar, mas não é isso
coisa fácil devido á falta de elementos para qualquer estudo que se pretenda fazer a tal respeito. A tradição pouco ou nada
conservou, e o historiador das ilhas apenas se refere á romaria de Nossa Senhora do Faial na parte norte da Madeira, dizendo que
«pelo seu dia, que vem a 8 de Setembro, se ajuntam de romagem de toda a ilha passante de outo mil almas onde se vê uma rica feira
de mantimentos de muita carne de porco, vaca e chibarro, a qual he uma estremada carne de gostosa naquella ilha, ainda que em
muitas terras e ilhas seja a peior de todas».
Segundo o mesmo historiador, muitas vezes os romeiros «se deixam estar dois, três e mais dias em Nossa Senhora, descansando do
trabalho do caminho, porque vem de dez e doze léguas por terra mui fragosa e juntos fazem muitas festas de comedias, danças e
musicas de muitos instrumentos de violas, guitarras, flautas, rabis e gaitas de fole, e pelas faldas das ribeiras, que tem grandes
campos, no dia de Nossa Senhora e em seu outavario, se alojam os romeiros em diversos magotes, fazendo grandes fogueiras entre
aquellas serranias».
V. Nossa Senhora do Monte, Ribeira Brava e Romeiros (Casas de).
Romeira (Punica Granatum)
Pequena árvore ou arbusto da família das Punicacias, cultivada em S. Martinho, Santo Antonio e
outros pontos da Madeira. A infusão das flores não abertas ou da casca dos frutos desta espécie usa-se em gargarejos contra as
esquinencias. A casca da raiz da romeira é um dos vermífugos mais eficazes contra a solitária; a casca do tronco e dos ramos
também tem propriedades tenifugas, menos enérgicas, porém, que as da raiz.
Romeiro (Naucrates ductor)
Peixe escombrida que aparece ás vezes nos mares próximos do arquipelago da Madeira. Acompanha
os navios, as vigas flutuantes e até os tubarões, que, apesar da sua voracidade, poupam os seus companheiros de viagem. A sua
carne é pouca apreciada.
Romeiros (Casas de)
Para abrigo dos romeiros, sabemos terem sido construídas casas nas seguintes localidades: Monte, Santo
Antonio da Serra e Piedade (Ponta de S. Lourenço).
A casa dos Romeiros, no Monte, já existia entre 1780 e 1790, tendo sido declarado em sessão camarária de 31 de Maio de 1822
pertencer ela aos bens do concelho. Não obstante isto, resolveu a Câmara, em sessão de 18 de Novembro de 1846 mandar levantar
um prédio junto da igreja do Monte, «para asilo dos viandantes e para recolher as bestas», prédio que não sabemos se chegou a ser
construído.
A casa dos romeiros de Santo António da Serra foi construída em 1808, a expensas de vários súbditos ingleses, achando-se agora
em ruínas. Foi administrada até 1832 por comissões inglesas, em que aparecem os nomes de Penfold, Selby, Leacock, Taylor e
Gordon.
Da casa destinada a recolher os devotos que iam em romarias á capela de Nossa Senhora da Piedade, na freguesia do Caniçal, não
existem hoje vestígios.
Roncador (Pristipoma Bennettii)
Peixe pristipomatida que se encontra em fundos pedregosos, principalmente até a distancia de
30 braças. É pescado com aparelho de anzol ou por meio de peneiro ou da rede.
O seu nome deriva dos ruídos que produz ao ser capturado.
Roque de Castro (Oceanodroma Castro)
Pequena ave da família Procelarida, que passa uma parte da vida no alto mar,
afastando-se por vezes bastante da costa. Nas noites escuras, voa sobre as rochas do litoral, soltando um grito que se assemelha um
tanto ao nome porque é conhecida. A sua postura consta dum só ovo, que depõe numa fenda das rochas, o qual é branco, excepto
numa das extremidades, onde apresenta pontos avermelhados. Alimenta-se de animais marinos, que reparte com o filho, e este,
quando atacado no ninho, vomita um óleo duma linda cor avinhada e de cheiro característico.
Rosa (José de Sousa)
Era comandante militar da Madeira quando, por decreto de 3 de Agosto de 1917, foi nomeado Governador
Civil do distrito, tomando posse a 7 do mês e ano referidos. Serviu até 28 de Setembro do dito ano. Em fins de Junho de 1918,
deixou de ser comandante militar do arquipélago.
Róscio (Francisco João)
Temos conhecimento deste madeirense pelo que dele largamente nos diz Sousa Viterbo, a páginas 477 e
seguintes do
Diccionario Historico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portugueses
.
Nasceu Francisco Róscio nesta ilha por 1740, sendo filho de Manuel Gonçalves Róscio, natural de Tenerife, e de Maria da Graça
Rodrigues Jardim, natural da freguesia do Arco da Calheta. Cursou em Lisboa a Academia Militar, e em 1762 foi despachado
ajudante de infantaria. Seguidamente prestou serviço como engenheiro militar nas praças de Alméida e Elvas; revelando uma
notável competência, pelo que foi elogiado pelo abalizado engenheiro Jacques Funk, que do estrangeiro viera expressamente dirigir
as obras das nossas fortificações. Fez Róscio depois parte duma comissão de engenheiros mandada ao Brasil e ali também deu
provas da sua actividade e do seu saber. Depois de 12 anos de ausência, regressou a Portugal, voltando novamente ao Brasil para
desempenhar a importante missão de comissário das demarcações do sul do Brasil, que desempenhou com o maior zelo e
competência, apesar das enormes dificuldades que então surgiram.
A sua energia e a sua rara habilidade manifestaram-se brilhantemente em São Pedro do Sul, como governador deste estado, perante
as ameaças do governador espanhol marquês de Sobremontes, impedindo a marcha invasora das suas tropas e conseguindo depois
estabelecer a paz, conquistando para Portugal cerca de duzentas léguas quadradas de terreno.
Morreu no Brasil a 10 de Outubro de 1805, depois duma existência muito agitada e cheia de trabalhos, prestando ao seu país os
mais assinalados serviços.
Deixou duas obras manuscritas que se ocupam especialmente dos seus trabalhos científicos e comissões gue desempenhou, de que
Sousa Viterbo traz minuciosas noticias.
Roseira
A única que é espontânea na Madeira é a Rosa canina, mas nos jardins existem outras espécies de roseiras, algumas delas
verdadeiramente notáveis pelo tamanho e colorido das suas flores. A Rosa gallica, a Rosa indica e a Rosa damascena são as espécies
mais cultivadas no Funchal, mas afora estas encontram-se muitas outras nos jardins, tais como a Rosa moschata, a Rosa Banksiae,
a Rosa centifolia, a Rosa alba, etc., etc..
Nos bardos em S. Martinho e Santo Antonio é frequente a Rosa multiflora, espécie aparentemente naturalizada e que não requere
cuidados alguns da parte do homem. O óleo essencial de rosas é extraído das pétalas da Rosa centifolia, e as pétalas da Rosa gallica
constituem a base da conserva de rosas, medicamento que se administra com vantagem na diarreia e na tuberculose. As roseiras
remontantes, ou de floração continua, são frequentes na Madeira.
Rosmaninho
Os madeirenses dão este nome á Santolina Chamaecyparissus, planta da família das Compostas cultivada nalguns
jardins do Funchal, Camacha e Monte, e à Lavandula pedunculata, L. viridis e L. dentata, plantas da família das Labiadas, as duas
primeiras espontâneas e a ultima cultivada e subespontanea na ilha. Todas estas espécies são aromáticas e podem usar-se em
banhos e fricções; os capítulos da santolina podem ser empregados como tónico.
Ross (Dr. Archibald Colquhoun)
Medico inglês que residiu no Funchal durante cerca de 20 anos. Estava, em Inglaterra desde
Junho de 1856, quando soube que grassava nesta ilha a epidemia da colera-morbus; regressou imediatamente ao Funchal afim de
prestar aos doentes os seus serviços clínicos, e foi atacado daquela moléstia no dia 5 de Setembro de 1856, vindo a falecer no dia
imediato. A sua morte foi muito sentida por toda a população funchalense a quem não passara despercebido o acto de abnegação e
coragem praticado pelo Dr. Ross.
Ross (Sir James Clark)
Era o comandante da expedição que explorou os mares antárcticos, nos navios Erebus e Terror, em 1840 e
1841. Esteve na Madeira em Outubro de 1839, onde procedeu com outros oficiais à medição do Pico Ruivo.
Rothschild (Barão Charles)
Rico banqueiro e distinto entomologista inglês, residente em Londres. Pretende estudar alguns
insectos do nosso arquipélago e determinou já uma espécie de pulga encontrada sobre a cagarra pela expedição científica
madeirense que em 1922 visitou as selvagens, tendo-lhe dado o nome de
Xenopsylla gratiosa
.
Ruivinha (Rubia peregrina var. angustifolia)
Planta vivaz da família das Rubiaceas, com as folhas linear-lanceoladas ou
sublineares ásperas, e pequenas flores dispostas em cimeiras axilares. As suas raízes são muito usadas na tinturaria, costumando os
madeirenses, quando delas se querem servir, lava-las primeiro e depois pisa-las com amoras-de-silva antes de maduras. Pondo a
mistura a ferver com o tecido que se quere tingir, fica este duma linda cor vermelha, convindo fervê-lo de novo com cinza para que
essa cor se não desvaneça.
As raizes da ruivinha são aconselhadas no raquitismo e têm a propriedade de tingir de vermelho os ossos das pessoas que delas
fazem uso internamente.
Ruivo (Pico)
É muito conhecido este pico e vem citado em inúmeras obras nacionais e estrangeiras, por ser o de maior elevação na
Madeira e descortinar-se dali o mais vasto panorama de toda a ilha. O seu cume ou ponto mais alto fica no extremo-sul da freguesia
de Santana, abrangendo algumas das suas ramificações tractos de terreno dentro dos limites das freguesias do Faial e de São Jorge.
Para atingir-se esta eminência, é preciso tomar as estradas que, das freguesias de Santana ou do Curral das Freiras, conduzem
àquele lugar, sendo preferível o caminho da última destas duas freguesias. Pela primeira, alcança-se o cume do pico, tomando a
Cumeada Alta, oferecendo todo o percurso os mais belos pontos de vista e passa-se próximo da curiosa coluna de lava conhecida
pelo nome de Homem em Pé (Vid. este nome). Pela segunda, sobe-se a estrada do Lombo Grande, encontrando-se a certa altura
uma vereda, que conduz ao cimo do elevado monte. Também ali se chega, partindo do Curral das Freiras e galgando o atalho
chamado Lombo do Furão, mas, além de tornar-se uma ascensão extremamente penosa, é também cheia de perigos pelos barrancos
e precipícios que ladeiam o mesmo atalho.
Do alto desta eminência, pode-se apreciar com relativa precisão o sistema ortográfico da Madeira, distinguindo-se nitidamente uma
parte considerável dos montes mais elevados e os grandes desfiladeiros que os cercam, quase sempre ladeados por escarpadas
ravinas e pelas mais altas e abruptas vertentes. Daquela altura se destaca a cordilheira de intermináveis montes, que corta
longitudinalmente a Madeira do extremo oeste ao extremo leste, formando as duas bem definidas vertentes, que constituem a
costa-norte e a costa-sul da ilha.
Apesar da dificuldade da ascensão, muitas personagens ilustres têm visitado esta encantadora estancia, levadas umas pelo
deslumbramento dos inenarraveis horizontes que dela se descobrem e atraídas outras pelo particular interesse que oferece aos
cultores das ciências fisico-naturais.
Na seguinte relação vão indicados os resultados obtidos pelos diferentes observadores que têm procurado medir a altura do Pico
Ruivo.
Metros
1811. Gourlay................................... 2 515
Smith, Irish Trans, 8.°............... 1 573
1821. Clavering e Sabine, Journ. of
Science, n.° 29 ........................... 1 657
1823. Bowdich (barometro) ........... 1 855
« » (trigonometria)............... .. 1 921
« Amigos de Bowdich.................. 1 864
1826. Dr. Heineken, Phil. Mag.,
1837............................................ 1 850
1838. Oficiais da Expedição
Exploradora Americana, dirigida pelo
capitão Wilkes ........................... 1.901
1839. Oficiais dos navios britani-
cos Erebus e Terror......................... 1 858
« « ...................................... 1 860
1844. Capitão Vidal............................... 1 845
» Engenheiro Antonio P. de Azevedo 1 843
1859. Dr. Hochtetter.............................. 1 876
1861. J. Gray Smith................................ 1 849
1903. Coronel Eduardo Agostinho Pereira..... 1 950
1914. Comissão Geodesica presidida pelo
coronel Alfredo Durão...................... 1 861
Os oficiais dos Navios Erebus e Terror serviram-se das formulas de Gay Lussac e de Rudberg para a medição do pico, tendo obtido
pelo primeiro processo a altura de 1858 metros, e pelo segundo a de 1.860 metros. Um dos cálculos de Bowdich baseia-se numa
operação trigonométrica; quanto aos demais resultados, foram obtidos todos por meio do barómetro, tendo-se servido o falecido
coronel Eduardo Agostinho Pereira de um barometro-altimetro para a medição que fez do pico.
´
É considerado como um dos mais exactos o cálculo do coronel Alfredo Durão, por se haver realizado em condições especiais de
alcançar-se um resultado satisfatório, o qual atribui a essa elevação montanhosa a altitude de 1861 metros. Verificou-se este cálculo
no ano de 1914.
São grandiosos os panoramas que se desfrutam do alto do pico, qualquer que seja o lado para que dirijamos a vista.
O pico do Areeiro com as suas escarpas avermelhadas, o largo pico das Torres, rodeado de vários cumes secundários, o mais alto
dos quais é o pico do Gato e os picos do Canário, do Cidrão, Grande e de Santo Antonio, erguem-se a curta distancia, mas separados
de nós por barrancos mais ou menos profundos, enquanto mais ao longe se descortinam para o lado de oeste o planalto do Paul da
Serra, inteiramente despido de vegetação, e para o de leste a longa e sinuosa ponta de S. Lourenço. A freguesia de Santana, as
verdejantes serras de S. Jorge e da Boaventura, uma parte do caminho do Poiso, o Porto Santo e as três Desertas, avistam-se do alto
do pico, sendo também visível daí o mar em torno da ilha, excepto na direcção do pico das Torres, que pouco menos elevado é que o
Ruivo.
O espectáculo que ao nascer do sol se contempla do alto do pico é digno de ser admirado pelo que apresenta de fantástico e
imensamente formoso. Olhado desse cume, o astro do dia ao assomar no horizonte parece sofrer uma trepidação no seu disco
engrandecido e de uma linda cor de oiro, mas este espectáculo embora curioso e digno de atenção, é imensamente excedido em
beleza pelos magníficos efeitos de luz que o mesmo astro vai produzindo sobre as brumas matutinas e os cumes escalvados das
montanhas, á medida que se eleva.
No alto do pico têm sido achadas sete espécies vegetais, figurando entre elas uma pequena urze de flores rosadas ou violaceas
(
Erica cinerea
). A urze molar vai quase até o cume do pico, ao passo que a urze durasia não passa além de meia encosta.
Encontram-se restos de uma coluna de lava revestidos de muitos cristais de olivina na parte superior do pico, e os terrenos
adjacentes são constituídos por escórias vermelhas, lápili e bombas vulcanicas.
Segundo lemos numa correspondência publicada no n.° 355 do
Correio de Madeira
, de 21 de Junho de 1923, quando se procedeu á
divisão dos montados, ficou uma parte do pico Ruivo, a do oriente, pertencente ao Faial, a parte do norte a Santana e a parte de
oeste a S. Jorge. O ponto mais alto do monte, lê-se na mesma correspondência, pertence a Santana.
Numa das vertentes do Pico Ruivo e não muito distanciado do seu cume, encontra-se uma furna ou lapa conhecida pelo nome de
Lapa da Cadela, que serve de abrigo aos visitantes, que ascendem a essa eminência quando o mau tempo os surpreende naquelas,
por vezes inóspitas, paragens.
Impunha-se a necessidade da construção de uma pequena casa de abrigo nessas imediações, o que somente veio a realizar-se no
ano de 1939, com o maior aprazimento dos que visitam essa pitoresca estancia e com o merecido louvor para os que empreenderam
esse apreciável melhoramento.
São inúmeras as composições em prosa e verso, que enaltecem as maravilhosas belezas daquelas eminentes paragens e inúmeras
também as narrativas, em vernáculo e em línguas estrangeiras, de varias excursões que ali se têm realizado, merecendo muitas
delas ser lidas e devidamente apreciadas. Entre estas, podemos mencionar a do ilustre naturalista e viajante inglês T. E. Bowdich,
no seu interessante livro
Excursions in Madeira and Porto Santo
, de que há uma tradução francesa, e a que foi publicada nos
números do antigo
Heraldo da Madeira
de 2, 6 e 7 de Fevereiro de 1912.
Sá
Este apelido procede, segundo diz o Dr. Azevedo, de D. Guiomar de Sá, filha de Henrique de Sá, do Porto, ou conforme alguns,
de João Rodrigues de Sá, a qual casou com Gaspar Bettencourt.
Pedro Gliz da Câmara, antigo dono da Lombada, (do Arco) foi casado com D. Joana de Sá, camareira-mor da rainha, sendo possível
que alguns dos seus filhos, se os teve, tomasse o apelido da família da mãe.
Sá (José Correia de)
A sua nomeação para Governador e Capitão-General da Madeira é datada de 17 de Maio de 1758, tendo
tomado posse a 27 de Maio de 1759. Foi este governador que mandou proceder nesta ilha á prisão e embarque dos Jesuítas, e ao
sequestro e arrendamento dos seus bens, segundo as ordens emanadas do marquês de Pombal. Serviu até Outubro de 1767.
Sá Cardoso (Alfredo Ernesto de)
Foi Governador Civil da Madeira, sendo nomeado por decreto de 20 de Março de 1913 e tendo
tomado posse a 27 do mês e ano referidos.
Em Junho de 1919, foi presidente do ministério.
Sá Pereira (João António de)
Foi nomeado Capitão-General da Madeira em 1766, mas só tomou posse do lugar a 9 de Dezembro
do ano imediato, tendo feito uma boa administração.
Como já vimos a página 101 deste volume, procurou pôr termo a muitos abusos que se praticavam na Madeira, festejando, por tal
motivo, os seus inimigos com iluminações e fogos de artifício a sua saída desta ilha, a qual teve lugar a 10 de Junho de 1777, após a
queda do marquês de Pombal, de quem era parente. Tendo os seus serviços sido reconhecidos pelo novo governo, foi agraciado com
o título de barão de Alverca.
Sabão (Rua do)
), É uma das mais antigas ruas do Funchal e comunica a rua do Comercio ou dos Ferreiros com a rua da Alfândega.
Em sessão da Câmara Municipal de 6 de Julho de 1922, foi-lhe dada a denominação um tanto vaga de «rua 17 de Junho de 1922»,
por ser esta data que os arrojados aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral concluíram a sua viagem aérea entre Lisboa e o Rio
de Janeiro.
Saboarias
Diz Frutuoso nas
Saudades da Terra
que D. Afonso V confirmou no ano de 1469 a doação que o infante D. Fernando
fizera a Rui Gonçalves da Câmara das saboarias pretas de toda a ilha da Madeira, e consta do foral da cidade do Funchal e das vilas
da Ponta do Sol e Calheta, que tem a data de 1515, que o sabão preto devia ser vendido a 10 reis o arrátel e o branco a 12 réis.
Na Madeira, como em Portugal, houve o contracto do sabão, mas, tendo o ultimo que se celebrou deixado de vigorar em 1 de Julho
de 1858, ficou livre a todos desde então o fabrico e comércio desse produto. Foi a lei de 25 de Abril de 1857 que extinguiu o
monopólio do sabão, que tantos vexames trouxe aos povos desta ilha.
Sabugueiro (Sambucus maderensis)
) Arbusto ou pequena árvore de folhas glabras, com 5-7 segmentos oblongo-lanceolados ou
lanceolados e flores amareladas ou esbranquiçadas, dispostas em cimeiras. Encontra-se no Ribeiro Frio, em Boaventura, Santana,
etc., e é cultivado na Camacha e noutros pontos da Madeira. As flores do sabugueiro em infusão, usam-se em gargarejos nas
inflamações da garganta, etc..
Sagrado Coração de Jesus (Capela do)
No sítio dos Cardais, da freguesia de Água de Pena, fez o cónego Henrique Modesto de
Bettencourt construir no ano de 1907, em terras que ali possuía, uma capela consagrada ao sagrado Coração de Jesus.
Foi também há poucos anos fundada na freguesia do Monte, pelo padre Jorge de Faria e Castro uma capela desta invocação.
Saião
Nome do
Sempervivum glutinosum
, Crassulacea subarbustiva viscosa, muito comum na Madeira. O suco desta planta é
usado interna e externamente no tratamento das lesões ou feridas produzidas por quedas, etc.. Também serve para tornar mais
rijas e duráveis as linhas de que se servem os pescadores na pesca. Há um outro saião o S.
arboreum,
que é cultivado nos jardins. O
suco das folhas desta espécie é aconselhado contra os calos.
V. Farrobo.
Sal
Pelas cartas de doação do infante D. Henrique, só os donatários podiam vender sal nesta ilha e no Porto Santo. Este privilegio
não desapareceu com a transformação das donatárias da Madeira em alcaidarias-mores, mas parece que era pouco respeitado nos
últimos tempos, pois que, em 6 de Fevereiro de 1769, foi expedido um aviso para que o procurador do marquês de Castello Melhor
não fosse obrigado a fornecer de sal a população e qualquer pessoa pudesse descarregar e vender esse género, como se praticava
anteriormente.
Salão
Solo de cor avermelhada, formado pela decomposição de matérias vulcânicas. Não é adequado á cultura da vinha, mas as
batatas as semilhas, etc., vegetam nele muito bem.
As matérias vegetais faltam ou entram em muito pequena escala na composição do salão.
O salão do Porto Santo é uma terra em que predominam os silicatos de alumínio e que por causa das suas propriedades plásticas
costuma ser utilizada na cobertura de pequenas casas e palheiros.
Salários
Tendo-se agravado dum modo extraordinário nos últimos tempos o custo da vida, viram-se forçados todos os indivíduos
pertencentes às classes trabalhadoras a exigir uma melhor remuneração pelos seus serviços, visto não terem outra forma de manter
a dignidade profissional e de satisfazer ás suas mais urgentes necessidades e de suas famílias. Há operários que auferem agora
(1921) salários 20, 25 e 30 vezes maiores do que antes da guerra mas se considerarmos que o preço de todos os géneros de primeira
necessidade subiu dum modo extraordinário, como se viu já a páginas 141 deste volume, que os prédios que se arrendavam outrora
por 6 e 8 escudos mensais só se obtêm hoje por 300 e 400 escudos, que um fato ou um par de botas custam hoje 18 e 20 vezes mais
do que outrora, etc., etc., deixam de causar surpresa as exigências das classes trabalhadoras, pois que temos de reconhecer o direito
que lhes assiste de melhorar as suas circunstancias pecuniárias, para assim fazer face à crise terrível que o país atravessa, mercê dos
erros e da incompetência dos nossos governantes (1921). Damos em seguida uma nota tão exacta quanto possível do que recebiam
antes da guerra e recebem hoje varias classes trabalhadoras, convindo acrescentar que apesar das diferenças consideráveis que
entre os antigos e os modernos salários existem, nunca aos indivíduos das mesmas classes falta trabalho nas condições por eles
exigidas, qualquer que seja a natureza das suas ocupações o que é devido a circunstancias varias e muito principalmente a ter-se
modificado bastante nos últimos tempos a situação económica duma baluarte da população madeirense.
SALÁRIOS
Em 1914
$50 10$00
19$00
18$00
15$00
15$00
15$00 a 16$00
$70
$70 a 80
Em 1924
18$00 a 25$00
$70 18$00 a 20$00
Profissões
Carpinteiros $80 a 1$00
Pedreiros
Ajudante
de Pedreiro
Pintores $80
Marceneiros $70
Serralheiros $80
Caiadores
Funileiros
Caldeireiros $80 18$00
$80 a 1$00 25$00 a 30$00
Alfaiates
$80 25$00
Sapateiros
16$00
Polidores
$70
Bordadeiras $18 a $24
5$00 a 8$00
Ditas de consertos
A classe tipográfica recebe de ordinário os seus vencimentos mensalmente, tendo os compositores 400 a 500 escudos e os
aprendizes 150 a 200 escudos. Antes da guerra, recebiam estes 4$50 a 7$00 e aqueles 18$00 a 20$00 mensalmente. Os
proprietários das barbearias de 1ª. classe levam 2$00 pelo corte do cabelo e 1$00 pelo da barba, ao passo que os das de 2ª. classe
levam 1$50 pelo cabelo e $75 pela barba. Antes da guerra, pagava-se o mesmo trabalho por $10 e $05 nas barbearias de 1ª. classe e
por $05 e $03 nas de 2ª. Um padeiro recebe 70$00 por semana, quando antes da guerra tinha o vencimento de cerca de 30$00
mensais e um cozinheiro e uma criada exigem vencimentos que orçam respectivamente por 100$000 e 60$00 mensais, quando
antes da guerra não recebiam mais de 10$00 a 12$00 e de 3$00 a 5$00, também mensalmente.
$20 4$00 a 5$00
5$00 a 7$00
Engomadeiras de bordados $25 a $30
$45 a $50
Trabalhadores agrícolas
10$00 a 12$00
$50 12$00 a 15$00
Esfregadores de casas
O que fica transcrito neste artigo refere-se inteiramente à situação que precedeu o ano de 1921.
Saldanha (Fernão)
Este Governador Geral da Madeira foi nomeado a 10 de Janeiro de 1625, tomando posse do seu cargo a II de
Abril do mesmo ano. Morreu nesta ilha, quando aqui exercia o lugar de Governador a 10 de Agosto de 1626. Por sua morte, ficou
exercendo as funções de Governador o Bispo D. Jerónimo Fernando.
Saldanha (Marquês de)
0 marquês, depois duque de Saldanha, foi eleito senador pela Madeira para a sessão legislativa de 1838 a
1840.
Saldanha da Gama (João)
Foi nomeado Governador e Capitão-General deste arquipélago a 4 de Maio de 1715 e tomou posse a
27 de Junho seguinte. Nasceu em 1674 e morreu em 1754. Pouco sabemos da sua administração na Madeira, mas distinguiu-se
como militar em varias campanhas e fez, como vice-rei da Índia, um governo modelar, prestando ali os mais assinalados serviços ao
seu país.
Saldanha da Gama (D. Manuel)
D. Manuel Saldanha da Gama Melo e Torres foi por decreto de 12 de Junho de 1890 nomeado
Governador Civil da Madeira, havendo tomado posse deste cargo a 25 do mês e ano referidos.
Por decreto de 6 de Abril de 1893, foi segunda vez nomeado Governador Civil deste distrito, havendo tomado posse do lugar a 23 do
mês e ano referidos.
Salema (Box salpa)
Peixe da família Esparida que aparece com frequência nas águas da Madeira. Faz criação nas poças do litoral
e vive em grandes cardumes, viajando continuamente perto da costa.
Salema Vaz
Entre os deportados políticos que vieram para esta ilha em 1919 e que foram internados nas casas do Lazareto de
Gonçalo Aires, conta-se o poeta Salema Vaz, que no ano de 1921 publicou em Lisboa, numa primorosa edição, um volume de versos
intitulado
Pâo do Exílio, Escrito que foi durante o desterro e seu caminho da Ilha da Madeira, cidade do Funchal, no ano
MCMXIX
, Lisboa, 1921, de 134 páginas. As composições poéticas insertas neste volume foram escritas desde a viagem e saída de
Lisboa para a Madeira e durante o exílio do autor nesta ilha, contendo muitas referências a diversas pessoas e cousas madeirenses
(1922).
Salinas
Por diferentes vezes se tem pretendido estabelecer no arquipélago a indústria da extracção do sal das águas do mar, quase
sempre, porém, com resultados pouco animadores. A mais antiga tentativa para o exercício dessa indústria data de 1792, tendo o
alvará de 20 de Novembro deste ano permitido o Tomás Watts, Francisco Martins da Luz e João José de Basto «o estabelecimento
de fabricas de pescarias e salinas em todo o estado da Madeira e praia chamada formosa», seguindo-se a essa tentativa uma outra
de Francisco Vicente Espinosa da Camara que, em 1823, requereu o exclusivo, durante 30 anos, do fabrico do sal na Madeira,
apontando alguns meios de se obter este produto em condições vantajosas.
Na Praia Formosa, encontram-se vestígios de antigas instalações para a cristalização do sal, construídas provavelmente pelos
primeiros indivíduos que ensaiaram a salinação entre nós, e muito perto deste sítio, na Ponta da Cruz, houve há cerca de 15 anos
uns ensaios para o fabrico do mesmo produto, os quais não deram resultado algum por se tornar necessário elevar a água do mar a
grande altura para a fazer entrar nos reservatórios. Foi José da Corte quem procurou estabelecer marinhas na Ponta da Cruz, mas
com a montagem da fabrica de conservas de atum, cessaram por completo as tentativas para a extracção do sal naquele sítio.
Por 1865 fez construir António de Sousa umas salinas no Paul do Mar, nos sítios das Lagoas e Serra da Cruz as quais passaram,
cremos que por 1878, para a posse de Filipe António Gonçalves, e há 15 para 20 anos outras salinas foram estabelecidas perto das
antigas, tendo sido seus donos José Mauricio Gomes, João Martins da Silva, José da Corte e Alexandre da Silva (1921). Tanto nestas
como nas antigas salinas se fabricou muito sal, nem sempre de má qualidade, o que não obstou a que umas e outras tivessem de ser
abandonadas por darem pouco lucro, ou talvez prejuízos aos seus proprietários. Para o revestimento do fundo e paredes dos
reservatórios destas ultimas salinas, chegou a importar-se barro de Portugal.
Temos ainda conhecimento de duas outras tentativas para a extracção do sal, realizadas na Madeira, uma no sítio da Fajã da Areia,
em S. Vicente, e a outra na freguesia do Caniçal, das quais também se não colheram resultados animadores. Foram José Maurício
Gomes e J. Pontes Leça os instaladores e dirigentes das salinas do Caniçal.
No Porto Santo, algumas tentativas houve também para o estabelecimento da indústria da extracção do sal das águas do mar, sendo
a mais antiga a de Isidoro da Silva, que consumiu capitais avultados na construção dumas salinas no sítio da Fontinha. Em 1890 e
nos anos imediatos, conseguiu Augusto de Nóbrega Noronha extrair muito sal dumas marinhas mandadas construir por ele na
Serra de Fora, na parte norte da ilha, e, por 1903, outras marinhas foram estabelecidas no mesmo sítio, sendo seu proprietário o Dr.
António Luís Pimenta, não tendo estas dado, porém, resultados satisfatórios, devido, segundo se disse, a defeitos na construção dos
reservatórios destinados a receber as águas.
Para o funcionamento das marinhas do arquipélago, torna-se preciso elevar as águas por meio de maquinismos de qualquer
natureza, visto os reservatórios, pela conformação da costa, não poderem ficar em nível inferior ao do mar. Esta circunstancia por
um lado, e por outro uma certa lentidão na evaporação das águas devido ao céu muitas vezes se apresentar toldado durante o estio,
e haver de ordinário na atmosfera uma dose avultada de vapor de água, tornam a salinação mais dispendiosa e difícil aqui do que no
Continente, o que não querer dizer que ela não possa realizar-se, e em condições talvez vantajosas, se se respeitarem certos
preceitos a que nem sempre até hoje se tem ligado a devida consideração.
As salinas do Paul do Mar não deram resultados animadores por terem sido construídas em local pouco varrido pelos ventos e se
tornar preciso o emprego de motores a vapor para se conseguir a elevação das águas; no Caniçal, porém, há razões para crer que
ainda possa vir a dar lucros a indústria da extracção do sal, uma vez que haja a cautela de cimentar os reservatórios para o produto
obtido se não apresentar, como já sucedeu, carregado de impurezas. Aí como no Porto Santo, podem ser usados os aeromotores na
elevação das águas, o que representa para esta operação uma grande economia, sendo com o auxilio duma destas maquinas e com
reservatórios nas condições acima indicadas, que o falecido Augusto de Nóbrega Noronha conseguiu obter naquela ilha sal tão
perfeito como o que vem de Portugal.
Merece especial estudo a exploração das «salinas» neste arquipélago, atenuando as desfavoráveis impressões que entre nós se têm
mantido acerca dos vários insucessos ocorridos em volta dessa apreciada indústria. Para isso, vamos transcrever alguns trechos de
um belo artigo do ilustre oficial da armada e académico almirante Hugo de Lacerda, que encerra valiosas informações acerca deste
importante assunto.
«Uma simples comparação dos factores de ordem técnica que podem ser considerados basilares na questão de que se trata, entre os
daqui e os do Continente português, julgo que pode já trazer alguma elucidação. Como se sabe, é Portugal continental um dos
principais produtores de sal: salinas vastas, ou marinhas, na Ria de Aveiro, no estuário do Mondego, no Tejo até Vila Franca e na
margem ribatejana, no Rio Sado até Alcácer do Sal, e ainda no Algarve em Faro, Tavira e Portimão.
Vejamos:
– Quanto aos graus de salinidade da água e da sua pureza, só poderão ser vistas vantagens neste Arquipélago. O inconveniente que
ouvi citar de a salinidade aqui ser maior do que no Continente, só pode colher em inverso sentido; de resto, não será por as
marinhas do Continente serem situadas (com excepção das de Faro) em regiões fluviais que receberão águas menos densas, porque
elas funcionam nas épocas das estiagens.
– Relativamente à maior facilidade de enchimento dos reservatórios não pode haver dúvidas que acentuadas vantagens existem no
Continente, bastando ali só o fluxo das marés mais altas para dar franca entrada às águas: e as facilidades são tanto melhores
quanto se trata do maior remanso de zonas fluviais. A quantidade de água a ser tratada é considerável porque cada litro só pode
fornecer cerca de duas dezenas de gramas de cloreto de sódio; contudo, podendo-se contar com o vento, o moinho pode resolver
mais economicamente a dificuldade; tanto mais que em outros misteres pode também ele ser aplicado. É para notar que na Itália,
país também grande produtor de sal, as marés mediterrâneas atingem, sobre o nível médio, quando muito 0,m3, não sendo pois
natural que não haja ali a recorrer a processos artificiais mais ou menos dispendiosos.
- Sobre o que respeita à impermeabilização dos fundos e paredes dos reservatórios, o que parece ter sido causa principal dos
insucessos mencionados, não há também duvida sobre as vantagens no Continente. Mas se o revestimento, como foi feito em Porto
Santo, abriu fendas, são estas menos de esperar com os modernos processos do cimento armado, que para o caso nem precisa
contar com sensíveis cargas, bastando talvez a simples rede metálica para armadura; de resto, há também já processos de boa
impermeabilização, as próprias fendas podem ter remédios e deve-se contar com a cobertura liquida pelo menos na época de
maiores temperaturas ao sol. Em Mossamedes, consta-me que o sal para a salga do pescado, tão abundante ali, é fabricado em
reservatórios revestidos a betão, naturalmente armado. A Enciclopédia Britanica a reservatórios desta ordem se refere.
– É condição o não haver chuvas durante o período do fabrico, e esta é idêntica e praticamente realizada em ambas as regiões.
– O calor figura como importante factor, sendo para julgar sobretudo o da directa radiação solar; quanto ao calor à sombra, deve
haver alguma vantagem aqui, mas relativamente ao directo do sol descoberto é que já pode haver duvidas, ainda nos lugares litorais
que interessam para a questão, mais assoalhados, ou sejam os de Porto Santo; contudo, já uma das experiências demonstrou que
podia ser obtido abundante sal.
– Ao vento não poderá deixar de ser atribuída importância capital. Em grande parte do sul da Madeira com relativamente pequena
acção desta ordem poderá ser contada; mas já no lado norte e no lado sul, de Machico para Este, e principalmente em Porto Santo,
a julgar pelos ventos que sopram na Ponta de S. Lourenço, as diferenças não deverão ser tão acentuadas em relação às fortes
nortadas do litoral continental nos meses de verão. A este respeito também aquela experiência que produziu abundante sal (embora
de má qualidade) é também para ter em consideração.
Por ultimo, o que se refere á humidade relativa da atmosfera que, sendo considerável, deve contrariar as acções do sol e do vento,
diminuindo a evaporação. Esta condição tem perfeita identidade, nas duas regiões consideradas no verão, porque no inverno (bom
é sempre repetir) são aqui bastante superiores as vantagens.
Eu resumo:
Quanto à técnica, respeitada que ela seja, e escolhidos os locais, parece não haver razão para se pensar que se não possa obter aqui
bom e abundante sal; e assim a questão reveste-se principalmente do aspecto financeiro, de razoáveis lucros: a um lado a maior
despesa com os revestimentos dos reservatórios e a elevação das águas, do outro o custo de transporte do sal do Continente para
aqui e ainda o maior preço da mão d'obra, tanto na instalação inicial como do próprio fabrico.
Mas isto não quer dizer que não haja a recorrer ao bom perito, para uma e outra cousa, auxiliado por pessoal adestrado no mister. E
querendo-se, porventura, volver a nova tentativa, bem orientada, não será possível encontrar bom guia, impresso, tanto da parte
técnica como da ordem financeira? O Dicionário Português Ilustrado refere-se a artigo de engenheiro português sobre o assunto.
A considerar é ainda que a Madeira pode de um momento para o outro ficar isolada, ou quasi assim, e o sal é das primeiras
necessidades, tanto que em alguns pontos é objecto de principal permuta».
Salmonete (Mullus surmuletus)
Peixe da família Mulida que não é raro nos mares madeirenses e é também conhecido pelo nome
de salmonete de rolo. É pescado em covos desde a costa até 60 braças de profundidade, sendo considerado como um dos peixes
mais finos da Madeira.
Salmonete do Alto (Polymixia nobilis)
Peixe escombrida que vive a uma profundidade relativamente grande e é colhido
geralmente com a gorazeira ou a briqueira. É, pelo seu excelente sabor, uma das espécies mais valiosas dos mares da Madeira.
Salsa (Petroselinum hortense)
), Umbelifera muito cultivada nas hortas da Madeira por causa do emprego que tem na arte culinaria.
As folhas pisadas desta planta têm emprego como resolvente nas picadas produzidas pelas vespas, abelhas e outros insectos.
Salva (Salvia officinalis)
Labiada de folhas esbranquiçadas, crenadas e rugosas, cultivada em muitas partes da Madeira. É tónica e
estomaquica, e os madeirenses também lhe atribuem propriedades emenagogas.
Salviati
Este apelido de família, diz o anotador das
Saudades da Terra
, «procede de João Salviati, natural de Florença, o qual, por
implicado em conspiração contra os Medicis, se homiziou na ilha da Madeira por 1478; aqui tomou por mulher Isabel Alvares de
Abreu, e teve terras de sesmaria em Câmara de Lobos sôbre a ribeira dos Socorridos, junto ao mar. Os seus descendentes ficaram-se
apelidando Florenças».
Sanatórios da Madeira
Tendo o príncipe Frederico Carlos de Hohenlohe pedido autorização ao Governo Português para
estabelecer na Madeira sanatórios marítimos e de altitude destinados ao tratamento de tuberculosos, para o que deveria organizar
uma companhia ao abrigo das leis portuguesas, ficando o nosso governo com o direito de dispor dum determinado numero de
alojamentos para o tratamento de doentes pobres, foi essa autorização concedida por despacho ministerial de 9 de Junho de 1903,
depois de obtido o parecer favorável da Assistência Nacional aos Tuberculosos. Para escolher os locais para a instalação dos
sanatórios, esteve na Madeira uma comissão de técnicos alemães, tendo o nosso governo nomeado o medico D. Antonio de
Lencastre para acompanhar a esta ilha a mesma comissão.
Ouvidos os pareceres daquele medico, do Conselho Superior de Higiene Publica e da Procuradoria Geral da Coroa, foi
definitivamente feita ao príncipe de Hohenlohe a concessão por ele requerida, mediante uma avultada caução para garantia do
cumprimento das cláusulas do contrato, entre as quais figurava a de poder o concessionário fazer expropriações por utilidade
publica e importar, sem o pagamento de direitos aduaneiros, os materiais precisos para a construção dos sanatórios.
A companhia ou empresa dos Sanatórios que tinha como seu agente nesta ilha o falecido comendador Manuel Gonçalves, homem
inteligente e empreendedor, fez logo após a sua organização, a aquisição das quintas Santana, Vigia e Bianchi, e em Agosto de 1904
recebia do estrangeiro os primeiros materiais para as instalações a que ia proceder na freguesia do Monte, onde dentro em pouco
dava ocupação a cerca de 300 trabalhadores, não contando com o pessoal técnico vindo da Alemanha.
Correram regularmente durante alguns anos os negócios da Companhia dos Sanatórios nesta ilha, apesar da guerra que a ela
moviam alguns inglêses residentes na terra, com receio de que a concessão Hohenlohe lhes podesse trazer prejuízos, mas tendo a
mesma Companhia, ao abrigo dos privilégios de que gozava, pretendido expropriar a quinta Pavão, pertencente a um súbdito inglês
que a comprara pouco antes a um austríaco, logo surgiram complicações graves que forçaram o nosso governo a entabular
negociações, não só com a Companhia concessionária, mas também com os gabinetes de Londres e de Berlim, interessados
igualmente na questão.
Tendo-se tornado impossível chegar a um acordo com a Companhia concessionária, propôs-lhe o nosso governo a arbitragem do
tribunal da Haia, a escolha de outros terrenos para a construção dos Sanatórios ou a rescisão do contrato, sendo esta ultima
proposta a preferida pela mesma Companhia como a mais viável e talvez a que mais lucros e vantagens trazia aos interessados no
negocio de que se tratava.
Pela lei de 3 de Novembro de 1909, foi o Governo autorizado a rescindir a concessão outorgada ao príncipe de Hohenlohe pelos
despachos ministeriais de 9 de Junho de 1903 e 4 de Janeiro de 1904, e a proceder ao resgate dos prédios, instalações e todos os
direitos pertencentes ao concessionário, mediante o pagamento de 4.425.000 marcos e os respectivos juros a 5 por cento, a partir
de 20 de Agosto de 1908, data da conclusão das negociações.. Para avaliar as propriedades da Companhia dos Sanatórios, viera à
Madeira, comissionado pelo Governo, o general Parreira.
A portaria de 18 de Novembro de 1909 conferiu plenos poderes ao visconde de Geral de Lima, delegado do tesouro, para aceitar o
resgate da concessão, passando pouco depois para a posse do Estado os bens mobiliários e imobiliários da Companhia, os quais têm
estado entregues desde então ao chefe da repartição de fazenda distrital, a quem cumpre promover tudo quanto preciso seja para a
conservação e boa administração deles (1921).
A Companhia dos Sanatórios teve na antiga rainha D. Amélia um dos seus mais desvelados protectores, e o falecido rei D. Carlos ao
receber o professor Pannwitz, um dos membros da Comissão que viera à Madeira em 1904 afim de escolher os locais para a
construção das edificações destinadas aos tuberculosos, teve para a iniciativa do príncipe de Hohenlohe palavras de admiração e de
incitamento.
As propriedades que, pela rescisão do contrato, passaram para a posse do Governo foram a quinta Santana, onde está um dos
prédios que eram destinados a receber os doentes, a quinta Vigia, a quinta Bianchi, a quinta Amelia, a quinta dos Reis e Palmeira, e
o terreno dos Marmeleiros, onde está o chamado sanatório dos pobres (1921). 0 Estado também recebeu uma porção de águas do
Arrebentão que haviam sido adquiridas para abastecimento dos edifícios da Companhia, bem como toda a mobília que existia nos
mesmos edifícios, pagando por todos estes bens a soma de marcos 4.753:354, sendo 328.541 marcos provenientes dos juros
devidos.
Reduzidas estas importâncias a moeda portuguesa, vê-se que a Companhia recebeu do Estado a quantia de 1.159:864$025 réis,
sendo 1.079:700$000 réis do valor das propriedades e 80.164$025 réis de juros. No acto da rescisão, foi autorizado o
concessionário a receber a caução que prestara para garantia do cumprimento das clausulas do contrato, a qual era constituída por
725 obrigações da divida externa portuguesa, do valor de 20 libras cada uma (1921).
Transcrevemos seguidamente dois importantes documentos, que oferecem valiosos esclarecimentos ao assunto deste artigo:
Do «Diário do Governo» de 29 de Outubro de 1903: Direcçâo Geral de Saude e Beneficencia Publica–2.ª Repartição. Instruído por
estes conhecimentos e depois de concedida pelo Governo de Sua Majestade a autorização para alli construir sanatórios, o Príncipe
de Hohenlohe organizou uma missão, sendo a parte medica representada pelo professor Frankel da Faculdade de Berlim, onde é
respeitada a sua auctoridade scientifica com o mais glorioso renome, e pelo Dr. Pannwitz, secretario geral do Bureau Internacional
da Tuberculose, e que tanto tem salientado a sua personalidade na direcção de varias obras de luta contra a tuberculose e na
organização de inúmeros sanatórios, missão com o objectivo de escolher locaes na ilha, apropriados para a construcção de
sanatórios, uns para predispostos, outros para infectados de tuberculose.
Desejando o Príncipe que um medico português acompanhasse a missão, quis a benevolência generosa de V. Exª. que a escolha
recaísse sobre mim, e do honroso encargo que aceitei venho gostosamente, com os protestos
da minha gratidão, dar conta do modesto desempenho.
Partindo a 2 de Setembro, e, de regresso a esta capital a 7 de Outubro, permanecemos naquela ilha durante dez curtíssimos dias, e
dos deliciosos passeios naquela encantadora região, nos povoados, nas montanhas e nas altitudes, colhemos gratíssimas
impressões, sem deixarmos de ter o claro escuro, que é a lei fatal das antinomias humanas.
Do gozo daquelle clima sem igual, e da impressão pessoal a que Jaccoud–o grande mestre de climotherapia, tanta importância
dava, sem tocarmos ao de leve nas bellezas a que seduzidos os artistas se rendem, compreendemos, sentimos, devo dizer, a sua
incomparável physiologia.
Sentimos os phenomenos de ordem sedativa, traduzidos pela calma da circulação geral, pelo repouso do systema nervoso central,
pelo menor esforço inspiratorio, que aos doentes dá a cessação de toda a excitação, a volta do somno, a diminuição de tosse e uma
satisfação mais completa da necessidade de respirar, e a acção de ordem tónica pelo exagero das combustões intra-organicas, pela
acceleraçao das funcções digestivas, que teem como natural compensação a melhor nutrição e o augmento de peso.
A nota triste, dissonante n'aquelle concerto glorioso da natureza, é o deplorável estado da Madeira, em relação mesmo á doença que
ali se procura curar.
E para um ponto chamo desde já a attenção intelligente de V. Exa. A tuberculose, como a esplêndida flora que ali se indigenou,
invadiu as classes pobres da ilha, tornando-se ali, como no continente, uma doença popular–a promiscuidade nos hotéis, de
doentes e sãos, a succesividade d'estes, nos quartos d'aquelles, sem a mínima cautela ou a mais rudimentar desinfecção; a projecção
a distancia d'estes centros de contagio, levada na roupa suja, que em toda a parte se lava, sem previa beneficiação, são causas graves
da propagação da tuberculose, que encontra como factores adjuvantes a surmenage dos que trabalham e o alcoollismo de tantos
que se illudem n'uma momentânea excitação, esperando vãmente reconstituir forças que cada vez mais se deprimem.
É este mal que urge remediar. É certo, a empreza do Príncipe Hoenlohe satisfaz a uma das mais capitaes indicações.
A construcção immediata de sanatórios para ricos e pobres, segundo o regimen de estabelecimentos fechados, onde são garantidos
os mais meticulosos cuidados de desinfecção, transforma de um modo seguro o resultado que até aqui lhe tem trazido a immigração
de tuberculosos. Desapparece por completo o inconveniente gravissimo da passagem do tísico pela ilha, para lhe ser só
prosperidade o beneficio que o doente procura e ahi consegue. Quer dizer, a construcção de sanatórios previne futuras invasões de
bacillos de Koch. Mas o mal actual? Uma parte é remediável pela creação de estabelecimentos para pobres, a outra será satisfeita
pelo cumprimento do decreto de 30 de agosto de 1902, que V. Exa. com o seu altíssimo critério saberá por em pratica, dotando a
Madeira com o material e pessoal indispensável para a sua defesa. A lei é certamente óptima, mas inefficaz, inapplicavel sem postos
de desinfecção, etc., etc..
A obra que o Príncipe Hoenlohe pretende realizar é vasta e complexa. Deseja aproveitar todos os recursos que aquella região
offerece.
Assim, no litoral montará Cure Hotéis para tratamento de predispostos, anémicos, chloroticos, lymphaticos, escrofutosos,
esgotados e neurasthenicos; para isso serão providos de todo o instrumental moderno que utiliza os agentes physicos, o calor, a luz,
a electricidade, a kinesotherapia, a massagem. Construirá praias artificiaes para complemento da thalassotherapia, etc..
Na montanha, abaixo da zona dos nevoeiros, serão collocados os sanatórios geraes para tratamento da tuberculose; aproveitar-se-
hão sítios convenientemente arborizados, onde se traçarão largos parques fechados para gozo dos doentes e a cura de ar, que será
favorecida pela proximidade de soberbos pinhaes.
Para indicações mais especiaes serão destinadas as altitudes, sem duvida já para tratamento de verão de algumas formas de
tuberculose.
Por conselho da missão medica, logo que a empresa inicie os seus trabalhos, serão organizados dois postos metereologicos, um no
Arieiro a 1:700 metros, outro no Paul da Serra a 1:500 metros, para ajuizar de um modo certo sobre as condições meteorologicas de
inverno, pois os dados existentes, sobretudo os apresentados pelo Sr. João Tierno sobre o Paul, e a pequena applicação a alguns
doentes no Arieiro, apesar de admiráveis, não bastam para determinar uma opinião scientifica.
Para aproveitamento do clima atlântico, ficou indicada pela missão medica uma faixa do litoral da bahia do Funchal, e na freguesia
do Monte escolhidos vários locaes, tanto para os sanatórios dos ricos como para os dos pobres, satisfazendo ás condições de abrigo
e outras apontadas que aquelles estabelecimentos exigem.
O primeiro para pobres, que será immediatamente construído, terá quarenta camas em dois pavilhões, um destinado a homens, o
outro a mulheres.
Terminando, devo referir a V. Exa. que o delegado do Governo tem tantos deveres de gratidão á forma distincta como foi recebido
pelo Príncipe de Hohenlohe e por toda a missão, como todos que visitámos agora a Ilha da Madeira á gentileza tradicional com que
as auctoridades portuguezas nos obsequiaram.
Deus guarde a V. Exa. Ill.
mo
e Ex.
mo
Sr. Ministro do Reino e Presidente do Conselho de Ministros.–Lisboa, 30 de outubro de 1903.–
D. Antonio Maria de Lencastre.
Do «Diário do Governo» de 25 de Janeiro de 1914: «Até o dia 27 de Fevereiro próximo, ás 12 horas, serão recebidas na Direcção
Geral da Fazenda Publica, no Ministério das Finanças, propostas em carta fechada para o arrendamento, n'um só lote, dos bens
nacionaes adiante especificados:
1.º - Quinta Bianchi, constando de uma casa nobre de habitação, casa de guarda, cavalariça, mirante, jardim, vinha, canavial,
servida por águas do Arrebentão e da Levada dos Piornaes e confronta de norte com a rua da Imperatriz D. Amelia, onde tem a
entrada principal, sul com a rocha, leste com a Quinta Pavão, e oeste com Carlos Bianchi e Luiz Figueira da Silva, tendo para este
lado uma porta de servidão.
2.° – Quinta Vigia, constando de uma casa de habitação, cavalariça, diversas casas pequenas, mirantes, jardins, pomares, servida
por águas do Arrebentão e Levada dos Piornaes, confrontando do norte com a rua da Imperatriz D. Amelia, onde tem a sua entrada
principal, prédios de diversas pessoas, e ainda com o Becco das Angústias, para onde tem uma porta, e com a Quinta de Nossa
Senhora das Angústias e oeste com a Quinta Pavão.
3.° – Quinta dos Reis e Palmeira, com casa de habitação, pomar, cannavial, servida por águas da Levada das Calles e nascentes
próprias, confrontando do norte com Carlos Augusto da Silva Carvalho, do sul com o Passeio da Quinta dos Reis e terra de Diogo
Antonio Ferreira, e do leste com o Ribeiro da Quinta dos Reis e Baltasar Gonçalves, do oeste com o caminho do Monte, para onde
tem algumas portas. Há casas de habitação e outras bemfeitorias pertencentes aos colonos.
4.° – Quinta Sant'Anna com casa de habitação, instalação de maquinas para iluminação, lavandaria, fabricação de gelo, etc., casas
de arrecadação, pinhal, terras de cultura, vinha, canavial, servida por águas do Arrebentão e Levada das Calles, confrontando do
norte com os herdeiros de Vicente Cândido Machado, sul com terrenos de Emilia Augusta Figueira e Joaquim Ovidio de Jesus e a
levada dos Flamengos, leste com o caminho do Monte, para onde tem a entrada principal e a oeste com a estrada do Caminho de
Ferro do Monte, e o caminho da Torrinha, José Ferreira e a dita Emilia Augusta Figueira.
5.° – Prédio rústico no sítio de Sant'Anna, com árvores de fructo e uma casa telhada, confrontando do norte com a Quinta
Sant'Anna, sul com Joaquim Ovidio de Jesus e a Asinhaga dos Ausentos, Leste com o referido Ovidio e oeste com João Agostinho
de Oliveira (hoje considerado anexo da Quinta Sant'Anna).
6.° – Prédio rústico no sítio da Torrinha, constando de terras de cultivo, árvores de fructo, palheiro, confrontando do norte com a
levada do Flamengo, sul e leste com os terrenos do Estado e oeste com o Caminho de Ferro do Monte (hoje considerado anexo da
quinta Sant'Anna).
7.° – Prédio rústico no sítio do Livramento, terra com um poço, confrontando do norte, sul e sueste com terrenos do Estado e oeste
com o Caminho de Ferro do Monte (hoje considerado anexo da Quinta Sant'Anna).
8.º - Prédio rústico, no sítio do Livramento, com casa telhada, pinheiros, palheiro, confronta do norte com Francisco Ferreira, e a
Quinta Sant'Anna, sul com João Agostinho d'Oliveira, leste com a referida Quinta e o Corrego e oeste com a estrada do Caminho de
Ferro do Monte (hoje considerado anexo da Quinta Sant'Ana).
9.° – Prédio rústico no sítio do Livramento, com árvores de fructo e vinha, confronta do norte com herdeiros de Manuel de Freitas,
sul com terreno da Companhia do Caminho de Ferro do Monte, leste com o Côrrego e oeste com a estrada do Caminho de Ferro do
Monte (hoje considerado anexo da Quinta Sant'Ana).
10.° – Instalação denominada das Águas do Arrebentão, com a sua origem no prédio abaixo descrito e o seu «terminus» no caes da
Pontinha, de servidão de todos os prédios anteriores e, ainda para abastecimento da navegação pela boca de descarga que tem no
referido caes. Esta instalação tem apenas encargo de fornecer à Junta Geral do Districto quatro penas d'agua para abastecimento
dos seus marcos fontenarios situados no Caminho do Monte.
11.° – Prédio rústico no sítio do Arrebentão, com pinhal, tem excelente água nativa captada para abastecimento da instalação supra.
As propostas devem ser acompanhadas de documento comprovativo de se ter realizado na Caixa Geral dos Depósitos o deposito
provisório de 10.000$, em dinheiro ou em títulos da divida publica que, no caso de adjudicação definitiva, será elevado à
importância correspondente à renda de dois anos, e, além do reconhecimento da assinatura do proponente, devem conter a
indicação da sua profissão e residência e bem assim a do fiador ou fiadores oferecidos, que devem ser cidadãos portugueses, com
bens ou valores em Portugal.
Os prédios mencionados vão à praça sem mobiliário e regressarão à posse da Fazenda Nacional findo que seja o contrato, com todas
as bemfeitorias n'eles realisadas, sem quaisquer direitos de retenção ou indemnização para o arrendatário, ficando este obrigado a
segura-lo em favor da Fazenda Nacional, contra o risco de incêndio, e a indemnizar esta de quaisquer estragos que não sejam
devidos ao uso normal dos mesmos prédios.
O contracto não transmite isenções de qualquer natureza, nem dispensa de cumprimento das leis do país, incluindo as tributarias e
penais.
Os materiais de construção que o Estado ali possui não fazem parte de este contracto, ficando por isso o concessionário obrigado à
sua guarda dentro dos prédios até que o governo os aliene directamente ou em hasta publica.
No referido dia 27, ás doze horas, no Ministério das Finanças e gabinete do director geral da Fazenda Publica, com este se reunirão
o Procurador Geral da Republica e o director geral das Alfândegas que, examinando as propostas apresentadas, organizarão uma
proposta graduada acerca delas conforme a renda e as demais vantagens oferecidas e apreciadas no seu conjunto, devendo o
governo adjudicar a concessão à mais vantajosa, ficando-lhe também o direito de não aceitar nenhuma se lhe não convierem. Se
para a definitiva adjudicação for mister a sanção parlamentar, o governo apresentará a conveniente proposta no prazo de 10 dias.
3.ª – Repartição da Direcção Geral da Fazenda Publica, em 24 de Janeiro de 1914.
O chefe da Repartição, Augusto Correia da Silva Melo.
Depois do fracasso da empresa organizada pelo príncipe de Hohenlohe, ficou entregue á «Assistência Nacional aos Tuberculosos» a
construção de um sanatório na Madeira, que não seria ainda uma feliz e eloquente realidade, se não tivesse surgido a benemérita
acção do Dr. João Francisco de Almeida, a quem principalmente se deve tão notável empreendimento e ainda outros indispensáveis
melhoramentos que a essa obra se acham ligados na mais estreita correlação. Quem quiser conhecimento pormenorizado do
assunto que aqui não podemos expor detalhadamente, leia o interessante opúsculo «A Obra da A. N. T. na Madeira» da autoria do
ilustre escritor Feliciano Soares e o livro «Dr. João Francisco de Almada» da superior direcção do mesmo escritor, cuja publicação
se deve à iniciativa de quem traça estas linhas e é co-autor do Elucidário Madeirense.
O sanatório foi construído na antiga quinta Santana e realizou-se a sua inauguração solene no ano de 1941, havendo-se sido dado o
nome de «Sanatório Doutor João Francisco de Almada» como tributo da mais merecida homenagem ao ilustre medico, que havia
falecido nesta cidade a 14 de Junho de 1842.
Sanches (Afonso)
Tem próxima afinidade com os artigos Colombo e Esmeraldo deste Elucidário estas palavras transcritas do
dicionário Lello Universal acerca do marinheiro português Afonso Sanches: «... piloto portuguez nascido em Cascais. Partindo em
uma caravela para as Índias Orientaes em 1486, dizem uns que impellido por uma tempestade foi ter á América. Há porém quem
affirme que propositadamente tentou atingir a Índia atravessando o Atlântico e assim chegou a Sueste da Florida, ás ilhas Lucayas,
localizou a ilha de S. Salvador no diário náutico e de volta a Lisboa arribou á ilha da Madeira. Sanches morreu em casa do seu amigo
e collega Christovam Colombo que ali se tinha estabelecido e casado.
O diário náutico de Sanches ficou em poder de Colombo.
Essa afirmativa tem sido feita por vários escritores, embora não possa ser aduzida como uma verdade incontroversa.
Oferece bastante interesse a este assunto, a nota que o ilustre escritor e académico major J. Reis Gomes deixou no seu livro
A Filha
de Tristão das Damas
, que vamos deixar aqui arquivado:
«Á estada de Colombo na Madeira e ao seu plano de navegação para o occidente, liga-se a tradição de que elle houve das mãos d'um
piloto moribundo o mappa onde este marcara o que seus olhos viram n'um trágico lance de navegação forçada para o poente,
arrastado por ventos e mares procellosos.
E' este, resumidamente, o caso, discutido, é certo, mas a que muitos auctores se referem, como Fructuoso no livro I das «Saudades
da Terra»» e P. Simão de Vasconcellos na sua descripção do «Descobrimento d'America», além do testemunho de Fr. Antonio de S.
Romão, Garcilazo de la Vega, Pizarro e Araújo, P. Manoel Fialho, Fr. Apollonio da Conceição, Mariz e outros:
Affonso Sanches, piloto d'uma caravela de Cascaes que fazia o comércio d'assucar entre Lisboa e a Madeira, foi acossado por um
violento temporal que o fez correr, desarvorado, na direcção do Ocidente, durante muitos dias, (alguns precisam em 22 dias o
tempo da forçada travessia, descobrindo uma nova terra (provavelmente lá para o Golfo do México) que annotou na sua carta com
outros detalhes da viagem, terra que, pelo estado d'inanição em que se achava com os seus companheiros, não poude explorar.
Cuidando da vida, pensando na falta de mantimentos, aproveitou o favor do tempo para demandar a ilha da Madeira onde se
abrigou em casa de Colombo, como elle, piloto, e das suas relações. Mas tão consumido vinha de fomes e trabalhos que breve sentiu
chegarem seus últimos momentos. Vendo que morria e que lhe era, portanto, impossível tentar nova viagem em condições de voltar
com riqueza e glória, confiou, detalhadamente, o seu segredo a Colombo em paga da hospitalidade recebida. Deixou-lhe a sua carta
annotada, a qual foi para o genovez a prova irrefragável da exacção dos seus projectos e o guia seguro da sua viagem para a
descoberta, não da Índia occidental, como elle próprio suppoz, mas sim do Novo Mundo.
Luciano Cordeiro relata também esta tradição na sua memória «L'Amerique et les Portugais» que faz parte do «Compte rendu du
Congrés Internacional des Americanistes – 1875».
A Hespanha tem como nós, também, o seu Affonso Sanchez. Para esta nação o homem que fez a Colombo o precioso legado do seu
mappa, era andaluz.
Alguns investigadores, entre os quaes o americano Henry Harrisse, affirmam que todo este caso não passa d'uma lenda. Seja. . .
Quererá a lenda concretisar num só homem todo este anseio que dominava a mor parte dos mareantes madeirenses d'este tempo,
que se não cansavam de volver para o occidente os seus olhos d'esperança, crentes mesmo, embora receiosos?
Nenhum d'elles teria ido, nas azas da tormenta, até avistar as «Índias»; mas estas ou melhor a América, é que decerto modo teria
vindo até elles, através das correntes oceânicas, a pôr-lhe antes os olhos espantados, árvores exóticas, paus de lavor bárbaro e
desconhecido e até cadaveres de rostos verdadeiramente estranhos. A tradição, considerada assim, inda que fabulosa, veio dar ao
facto, no entanto, melhor explicação e maior caracter pittoresco.
Que importa que o vidente se chamasse Affonso Sanches, Antonio do Leme, Pedro Correia, Vicente Dias ou André Valente?
Sanches de Castro (Dr. José Pereira)
Foi juiz de direito na Madeira. Em 1855, sendo juiz da comarca ocidental condenou á pena
ultima Manuel Joaquim Fernandes por ter assassinado Gerardo Pedro, da freguesia do Porto do Moniz. Cremos que este Fernandes
foi o último madeirense condenado á morte pelos tribunais, mas ignoramos se chegou a ser executado.
O Dr. Sanches de Castro publicou um pequeno trabalho intitulado observações sobre o contrato de colónia na Madeira (Funchal,
1857). V. Colónia.
Sancho (D.)
Bispo castelhano que esteve na Madeira em 1548, vindo de Canárias. Consagrou a igreja do mosteiro de S. Francisco
e crismou e deu ordens na ilha. Pretendeu ser bispo da Madeira, para o que «foi ter a Lisboa. diz Frutuoso, com o preposito de pedir
a El-Rey aquelle bispado, allegando para isso o que nelle tinha feito; mas Sua Alteza mandou-lhe satisfazer mui bem seu trabalho, e
houve escusada sua petição, visto como não era natural, e no Reyno haver muitos que o mereciam».
Sândalos
Nome vulgar da
Mentha aquática
e de um híbrido proveniente do cruzamento desta espécie pela
M. viridis
. A M
.
aquática
é frequente no leito de muitas ribeiras, e tanto ela como o referido híbrido (a antiga M. citrata) são Labiadas aromáticas,
usadas, ainda que poucas vezes, na medicina dos campos. A M
. aquatica
é conhecida também pelo nome de mentastro.
Saneamento
O saneamento da cidade do Funchal, no que particularmente respeita ao abastecimento de águas potáveis e á
canalização de esgotos, somente a partir do último quartel do século passado é que verdadeiramente mereceu por parte das
respectivas vereações municipais o interesse que o assunto imperiosamente exigia. Uma portaria de 22 de Março de 1897
encarregou a Direcção das Obras Públicas Distritais de proceder aos estudos necessários para o abastecimento de águas potáveis e
canalização de esgotos, e a lei de 16 de Setembro do ano referido autorizou o governo a auxiliar as respectivas construções. Esses
dois estudos foram realizados pelos distintos engenheiros Adriano Trigo e Animal Trigo, merecendo os elogios e a plena aprovação
das estações superiores. O estudo que de modo especial se ocupa dos esgotos foi considerado como um valioso trabalho e tem
servido de grande auxilio e de proveitosa lição para as obras que vieram a fazer-se posteriormente. Está publicado em um opúsculo
de 95 páginas. Tem prosseguido a realização desses importantes melhoramentos, que constituem a principal base da higiene
pública, conforme o exigem os créditos de que goza a nossa terra, como privilegiada estação de saúde. As ultimas vereações
municipais tem dedicado a esse importante e momentoso assunto as mais desveladas atenções com o geral aplauso de todos os
munícipes.
Os artigos
Abastecimento de Águas
e
Levadas
oferecem a este assunto alguns indispensáveis esclarecimentos.
Sanguinho (Rhamnus glandulosa)
Árvore da família das Ramnaceas com folhas ovadas ou ovado-oblongas, serradas providas
ordinariamente de 2 a 4 pequenas glândulas ou saliências na parte inferior da página superior. Tem flores pequenas, dum amarelo
esverdinhado, dispostas em cachos curtos axilares, e encontra-se na serra do Seixal e entre os Lamaceiros e o Ribeiro Frio. Produz
madeira clara e homogénea, empregada outrora em embutidos, mas hoje desconhecida da grande maioria dos marceneiros, por ser
muito rara.
Sanha
Este apelido de família, hoje extinto na Madeira, começou em Manuel Afonso de Sanha, que fundou a capela do Bom Jesus,
da Ponta Delgada e aí instituiu morgado nas terras do Ribeiro do Peso e da Ribeira do Inferno.
Santana
O mais antigo indivíduo conhecido que usou este apelido chamava-se Manuel de Santana e Vasconcelos e viveu na
segunda metade do século XVIII. Segundo o Attestado Genealogico da família Sant'Anna, os indivíduos que usam este apelido
descendem dos Moniz de Bettencourt.
Santana (Capelas de)
A capela de Santana da freguesia de São Roque, foi construída por Francisco Dias, em 1607. Ainda nela se
celebram os ofícios do culto.
No sítio do Ribeiro Seco, da freguesia de S. Martinho, onde hoje chamam Santana, edificou Agostinho Pedro de Vasconcelos
Teixeira uma capela desta invocação, no ano de 1780, na quinta que ali possuía, sendo a respectiva escritura de dotação de 22 de
Abril do mesmo ano. Ainda existe, bem como a casa que lhe ficava anexa.
Foi edificada uma capela da mesma invocação no sítio da Cruz do Carvalho, na freguesia de São Pedro, no ano de 1790, pelo Dr.
Antonio Dionisio da Silva Conde, Juiz dos órfãos no Funchal.
Em ruínas se encontra uma capela de Santana, no sítio da Ribeira da Fernanda, na freguesia do Estreito de Câmara de Lobos.
Pertenceu ao morgado Cardoso.
Na freguesia de Machico, na quinta Santana, encontra-se em bom estado de conservação uma capela que tem este orago.
Desconhecemos o nome do fundador e ano da sua construção.
Da mesma invocação, houve uma capela no sítio da Fajã do Penedo da freguesia da Boaventura, fundada em 1768 pelo morgado
Antonio Francisco de Caires, e sua mulher Teresa Maria de Barros, sendo de 20 de Abril deste ano a respectiva escritura de dotação.
Foi demolida, segundo nos informaram, pouco depois de 1840.
Santana (Freguesia de)
É esta paróquia, sem possível contestação, uma das mais belas da Madeira e a mais pitoresca e
encantadora de todo o norte da ilha. Não vamos descreve-la debaixo do ponto de vista da paisagem e das suas belezas naturais. A
pena, em contacto intimo e prolongado com nomes, datas e factos, esterilizou-se, e já não se amolda ao género literário em que as
galas pomposas da poesia se adaptam facilmente á justeza e ao rigor do descritivo. E de mais que esta freguesia tem sido cantada
em prosa e verso por tão brilhantes e autorizadas penas!
É a freguesia da Madeira que tem grandes traços de semelhança com a nossa pitoresca província do Minho, o chamado Jardim de
Portugal. Um detalhe, digno do maior apreço, convém acentuar aqui: os caminhos mais centrais da freguesia de Santana
transformam-se nas quadras primaveril e estival nos passeios duma vasta e encantadora quinta. Ladeiam-nos sebes de buxos,
hortensias, fetos e mimos (fúcsias) que, á mistura com uma grande exuberância de flores, dão a essas estradas um encanto e um
atractivo que em nenhuma outra parte se podem encontrar. É um pormenor que merece especial registo, por ser único na Madeira
e não se encontrar por certo, com muita frequência, por esse mundo além...
Não sabemos quando começaria o arroteamento das terras desta paróquia e, portanto o inicio da sua colonização e povoamento.
Lopo Fernandes Pinto, que morreu em 1500, «teve de sesmaria, diz o Dr. Rodrigues de Azevedo, boa parte da freguesia de Santana,
e as terras chamadas da ilha, donde se formaram dois morgados...» Entre os antigos povoadores conhecem-se Jeronimo Cordeiro,
Guterres Teixeira, Cristovão Gomes, Manuel Gil, João Dias, Simão Alvares, que deu nome a um sítio, etc.. Gaspar Frutuoso
referindo-se em 1590 a esta freguesia, diz: «são terras de lavrança, de muito pão e criações; tem muita castanha e noz, e muitas
águas e fructos de toda a sorte».
Não deixam de ser muito interessantes, apesar de um tanto hiperbólicas, as palavras que o padre Fernando Vaz consagra a esta
freguesia, quando pretende justificar o orago que lhe foi dado, de Santana. Ei-las: «Quadrou admiravelmente como padroeira
Sant'Ana, de quem na epistola da sua festa se canta Non timebit domui suae a frigoribus nivis, pois no inverno, não o podemos
negar,é uma das mais frias da ilha, por ser muito alta. Da mesma epistola parece que os santanenses tiram o programa da sua vida.
São trabalhadores denodados, e por isso pode dizer-se daquela gente: Panem otiosa non comedit. É ali que se tecem os melhores e
mais afamados panos de linho chamado de favo e de moio: Sindonem fecit et vendidit. 0 fuso e a roca que, outrora, foram
manuseados pelas próprias rainhas, ainda ali não foram relegados, donde se ajustam aquelas palavras: Digiti ejus apprehenderunt
fusum. Quando a manhã nem pensa em raiar, já a candeia no interior das palhotas alumia os primeiros labores, para que mais uma
vez seja verdadeiro o Non extinguetur in nocte lucerna ejus. Sempre que se oferece ocasião, compra o lavrador a leira que seus pais
amanharam e onde, de pequenos, foram criados, ao que convém aquilo:–Consideravit agrum et emit eum. A mulher santanense
não é a mulher frívola, petulante, luxuosa, vestida á ultima e pior moda, pelo que lhe cabe com justiça, tu supergressa es universas.
Finalmente, diante de tanta beleza e virtude, não podem deixar de exultar aqueles gue ali nasceram, dando-se por felizes por terem
tão honrado berço: surrexerunt filii ejus et beatissimam praedicaverunt».
No mesmo artigo donde foram transcritos estes trechos, lê-se: «que o povo desta freguesia, embora laborioso e honesto, não deixa
de ser desconfiado e... malicioso. No que diz respeito a tributos, impostos e cousas semelhantes, parece açoreano. Que falem os
acontecimentos por causa das juntas de Paróquia (volume II, pagina 205), há uns 36 anos e das matrizes, e outras que tantos sustos
causaram aos empregados públicos e deram azo a revindictas políticas e a lamentaveis excessos».
Os terrenos que constituem esta paróquia pertenceram primitivamente á freguesia de S. Jorge, donde se desmembraram por
meados do século XVI. Uma pequena capela da invocação de Santana deu o nome ao sítio, ás terras circunvizinhas e depois a toda a
freguesia. Assim sucedeu com todas as paróquias que nesta ilha tem um nome de carácter não profano, como já noutros lugares
fizemos notar.
O anotador das Saudades dá esta freguesia como criada pelo alvará régio de 4 de Junho de 1552. A primeira criação feita por este
diploma é de uma capelania-curada, que não correspondia a uma paróquia autónoma. O primeiro capelão exerceu
cumulativamente este lugar com o de pároco de São Jorge. Pelo citado alvará, fôra arbitrado ao referido cura ou capelão 8.000 réis
anuais pela paroquialidade de São Jorge e um moio de trigo e uma pipa de vinho pelo serviço em Santana os alvarás régios de 16 de
Fevereiro de 1565; 1 de Março de 1577 e 9 de Junho de 1581, que encontramos citados no Índice Geral da Provedoria da Fazenda,
referem-se sempre ao capelão-curado e fixam-lhe os vencimentos, respectivamente, em 12.000 réis em dinheiro e um moio de trigo,
em 20.000 réis e em 25.000 réis. No alvará de 1 de Dezembro de 1588, já se chama vigario-curado ao sacerdote que exercia ali as
funções paroquiais, estabelecendo-lhe a côngrua anual de trinta alqueires de trigo e um quarto de vinho. Será talvez a partir da data
deste diploma, ou pouco tempo antes, que Santana começou a constituir uma freguesia verdadeiramente independente e autónoma.
O primeiro capelão-curado exerceu o cargo, como já se disse, juntamente com o de pároco de São Jorge no período de 13 anos. Por
1565 que teve capelão privativo, o padre Sebastião de Moraes, que ali paroquiou por trinta anos sucedendo-lhe Cristovão Pires, que
foi pároco até 1632. Podemos dar nota dos seguintes eclesiásticos que nesta freguesia desempenharam funções paroquiais: Manuel
Teixeira (1635-1671), Cosme Pais da Cunha (1672-1681), Antonio Luís da Silva (1681-1690), Gabriel Pontes de Miranda (1694-1707),
Antonio Telo de Meneses (1707-1730), Inacio de Freitas Leal (1730-1743), Antonio Teixeira (1744-1769), Antonio Francisco da Cruz
Pestana (1770-1777), Miguel Caetano Moniz (1777-1789), José Gomes de Andrade (1789-1799) João de Freitas Pestana (1799-1809),
Jeronimo Alvares da Silva Pinheiro (1815-1829) Marcelino João da Silva (1835-1864), Hipolito Cassiano de Freitas, João Mauricio
Henriques, João Gomes, Alfredo de Paula Sardinha, João Quirino Gonçalves e Joaquim Fernandes, que é o pároco actual (1921) e
desde o ano de 1905.
Ignora-se o ano da edificação da primitiva capela de Santana, que foi a sede da capelania-curada e depois da paróquia, tendo
passado por varias transformações até que se demoliu ao ser construída a igreja actual nos fins do século XVII. Acerca deste templo,
encontramos num artigo do padre Fernando de Menezes Vaz, publicado no Correio da Madeira, de 10 de Abril de 1923, as seguintes
informações: «Foi construído em 1698, dispendendo o governo a quantia de 1.193$000 réis, sendo 36 anos depois concertado. A
sacristia edificada no lado norte, foi feita depois, em 1745, no lado sul, por ser o local; mais seco e conservarem-se nela melhor as
alfaias e paramentos. Por essa ocasião foi também levantada a sineira. No primeiro quartel do século XIX encontrava-se o soalho do
templo muito danificado, ou por outra, estava a igreja sem pavimento, tendo o povo de acarretar molhos de murta, que espalhava
pelo chão para poder ajoelhar. Organizou-se então uma comissão composta do padre Marcelino João da Silva, Carlos Frederico
Accioli e o tenente Francisco Antonio Jardim para angariar donativos, afim de a assoalharem de novo, como foi levado a efeito. De
ha poucos anos a esta parte, tem sido forrada de novo, pintada, assoalhada, embelezado o seu adro e arredores, o que se deve á
actividade e iniciativa do seu actual e zeloso pároco Joaquim Fernandes».
Existem nesta freguesia a capela de Santo Antonio, no sítio do mesmo nome, de que noutro lugar nos ocuparemos, e um hotel
muito frequentado durante a estação calmosa.
Sítios principais: Igreja, Parlatorio, Barreiro, Serra de Água, Faias, Caminho Chão, Pico do Tanoeiro, Achada do Gramacho, Achada
da Cruz, Fonte Grande, Pinheiro, Pico Silveira, Curral Velho, Fonte da Pedra, Serrado, Achada do Pampilar, Queimadas e Fontes,
Pico de Antonio Fernandes, Achada de Simão Alves, Lombo do Curral, Feiteira de Nuno, Feiteira de Cima, Lamaceiros, Ponte,
Achada de Santo Antonio, Vinhátego e Covas. Foi no ilhéu que fica nas proximidades do sitio que tomou o nome de Rocha do Navio,
que no dia 24 de Dezembro de 1860, devido a um violento temporal, naufragou a galeota holandesa Alfa, que se dirigia de
Inglaterra para a ilha de Haiti, tendo-se salvo a tripulação, composta de sete indivíduos.
Entre os muitos sítios pitorescos desta freguesia, merecem especial menção e são dignos duma visita o Pico do Cortado, Achada de
Santo Antonio, Achada do Gramacho, Miradouro, Rocha do Navio, Cortado, Cumiada Altas Queimadas, Caldeirão Verde, Homem
em Pé, Cova da Roda, etc..
Tem esta freguesia duas escolas oficiais e é a sede dum partido medico, que abrange todas as freguesias do concelho. A sua
população é de 3107 habitantes (1921).
Santana (Ilhéu de)
É também conhecido pelo nome de Rocha do Navio e fica situado na costa marítima da freguesia de Santana,
tendo ali naufragado um navio de nacionalidade holandesa no ano de 1860.
Santana (Município de)
O concelho ou município de Santana tem a sua sede na freguesia do mesmo nome e foi instalado no ano
de 1835. Os concelhos de Câmara de Lobos, Santa Cruz, Porto do Moniz e Santana, foram extintos pelo decreto de 10 de Dezembro
de 1867, mas este diploma não chegou a ter inteira execução, porque aqueles concelhos se restauraram pouco depois. O concelho de
Santana era composto, desde a sua criação, das freguesias do Arco de São Jorge, São Jorge, Santana, Faial, São Roque e Porto da
Cruz, tendo sido, porém, dele desanexada a freguesia do Porto da Cruz por decreto de 19 de Outubro da 1852, passando então esta
paróquia a fazer parte do concelho de Machico.
Santana e Vasconcelos (Henrique de)
Nasceu nesta ilha e era funcionário superior das Alfândegas.
Foi representante na Madeira em cortes na sessão legislativa de 1884 a 1887. Tendo o cónego Alfredo César de Oliveira desistido do
seu lugar de deputado por este arquipélago para a legislatura de 1887 a 1889, foi Henrique de Santana chamado a preencher a
vacatura, por ser o candidato mais votado.
Santana e Vasconcelos (Jacinto de)
V.Nogueiras (Visconde das ).
Santana e Vasconcelos (João de)
Nasceu no Funchal em 1825 e começou a sua vida publica como professor primário no Porto
Santo. Em 1856, foi nomeado escrivão interino da Câmara Municipal do Funchal, sendo provido definitivamente neste cargo por
carta regia de 3 de Janeiro de 1859. Colaborou nos jornais madeirenses A Discussão, A Madeira, O Semanário Official, etc., tendo
publicado neste ultimo uns interessantes artigos sôbre colónia. Era cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, por serviços prestados
no Funchal durante a epidemia colérica de 1856, e foi por largos anos chefe do extinto partido regenerador na Madeira. Faleceu no
Funchal a 27 de Dezembro de 1892.
Santana e Vasconcelos (Manuel de)
Nasceu no Funchal em 1798 e faleceu nesta cidade a 23 de Fevereiro de 1851.
Desempenhou o cargo de administrador do concelho e escreveu:
Clamor aos madeirenses
(Lisboa, 1835) e
Revista histórica do
proselitismo anti-catholico na ilha Madeira pelo dr. Roberto Reid Kalley, medico escocez, desde 1838 até hoje
(Funchal, 1845).
Santana e Vasconcelos (D. Maria do Monte)
V.Bettencourt (D. Maria do Monte de Santana e Vasconcelos Moniz de ).
Santana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt (João de)
Nasceu no Funchal em 1806. Em 9 de Agosto de 1834, foi nomeado
provedor do Porto Santo, passando depois a administrador do concelho da mesma ilha, cargo este que desempenhou por largos
anos. Foi também Governador Civil interino do distrito do Funchal desde 8 a 18 de Janeiro de 1862. Escreveu os Anais do
Município do Porto Santo, cujo original se encontra no arquivo do mesmo município, e foi um dos homens que maiores serviços
prestaram àquela ilha. Faleceu no Funchal a 22 de Junho de 1874.
Santa Apolónia
Nas proximidades do extinto convento de São Francisco da freguesia da Calheta, e como pertença dele havia
uma pequena capela dedicada a Santa Apolonia, que está hoje em completa ruína. É propriedade de Pedro César de Brito (1921).
Santa Brigida (Capela de)
Existiu na freguesia de São Pedro uma capela dedicada a Santa Brígida, fundada em 1668 por Antonio
Maciel de Afonseca Cerveira. Ignora-se o sítio em que ficava situada. Nela se celebraram actos do culto no ano de 1754.
Santa Catarina (Capela de)
No seu antiquado e pitoresco dizer, informa-nos o padre Gaspar Frutuoso «que o capitam João
Gonçalves... abrigando os navios aos ilhéus determinou de fazer em terra sua moradia de madeira, a qual logo fez pegada com o mar
em hum alto, onde a capitoa Constança Rodrigues fundou huma igreja de Santa Catarina».
Naquele humilde e ignorado recanto, que depois se chamou de Santa Catarina, estava lançada a primeira pedra do auspicioso
povoamento deste arquipélago e portanto da nunca assás encarecida colonização portuguesa. Do alto e solitário arrife, dirigia o
primeiro donatário os trabalhos incipientes dessa titânica tarefa, que o basto revestimento florestal, o inverosímil acidentado dos
terrenos e a grande escassez de braços tornavam extremamente penosa e entrecortada de dificuldades insuperáveis.
João Gonçalves Zarco, o primeiro e principal iniciador da colonização madeirense, fez erguer ali a sua modesta e mais antiga
moradia, que dominava todo o vasto anfiteatro do Funchal, tendo D. Constança de Almeida, a heróica e piedosa companheira,
mandado construir nas próximas imediações uma pequena e devota capela dedicada a Santa Catarina, a sabia e gloriosa mártir da
cidade de Alexandria.
A pesar do historiador das ilhas conferir-lhe enfaticamente o nome de «igreja», teria sido apenas uma pobre e modesta ermida de
acanhadas dimensões e construída de madeira, como o eram as primeiras habitações dessa época, sendo talvez escolhida a matéria
prima entre os odoríferos cedros (juniperus ou oxycerbus), que abundavam em toda a ilha, pois se sabe que outras capelas foram
construídas com a preciosa madeira dessas árvores.
Ignora-se a época precisa em que se procedeu à sua reedificação, desaparecendo então todo o madeiramento da construção
primitiva, mas conjectura-se que o houvesse sido no terceiro ou ultimo quartel do século XV. A capela existente, foi uma nova
reconstrução, que segundo lemos algures, se realizou pelos fins do século XVII, tendo através do tempo recebido várias reparações.
No limiar superior do pórtico, conserva-se a data de 1425, que atesta a sua antiguidade, ignorando-se, porém, se essa pedra assim
epigrafada teria pertencido à primeira ou a segunda reconstrução.
Essa antiga capela representa para os madeirenses um verdadeiro monumento histórico, constituindo objecto da mais alta e da
mais respeitosa veneração. Na sua humildade, na sua pequenez e até na sua pobreza é um padrão imemorável a recordar
eloquentemente o descobrimento do nosso arquipélago e o inicio da obra admirável da sua colonização. E como tal deve ser
patriótica e religiosamente conservada, por parte de governantes e governados, mostrando-se aos contemporâneos e às gerações
vindouras o devotado apreço com que sabemos conservar as gloriosas tradições do passado.
Ainda outro e ponderoso motivo o aconselha e persuade: a sua veneranda antiguidade. Ao contrário do que afirmou o autor das
Saudades da Terra e o seu erudito comentador, dando a igreja de Nossa Senhora do Calhau e a ermida de São Sebastião do Largo do
Chafariz, como as primeiras capelas erguidas na Madeira, sabe-se hoje, sem receio de séria contradita, que foi a pequena edícula de
Santa Catarina o primeiro templo levantado nesta ilha, como há mais de vinte anos o deixámos já dito nas páginas do Elucidário
Madeirense. Esta reconhecida prioridade deve ser considerada como mais um irrefragável direito á nossa rendida veneração e
acendrada simpatia pela conservação e possível aformoseamento daquele tão vetusto e significativo monumento. Entendemos que
em uma das paredes interiores do pequenino templo se deveria colocar uma inscrição lapidar, onde se lessem estas ou semelhantes
palavras: Esta capela, fundada pela mulher de João Gonçalves Zargo, foi a primeira edificada na Madeira e recorda o
descobrimento desta ilha e o começo do seu povoamento.
Tendo a mais próxima afinidade com o que acima fica exposto, não podemos subtrair-nos ao desejo de transcrever aqui as palavras
que já deixámos escritas em outro lugar e que, porventura, oferecerão algum interesse aos leitores deste Elucidário:
«Por 1425, fundou Constança Rodrigues de Almeida, mulher de João Gonçalves Zarco, a capela de Santa Catarina e «a par dela, diz
Frutuoso, fez muitas casas para gasalhado de mulheres de boa vida, pobres mercieiras a quem deixou esmolas para sempre terem
cuidado de alimparem e servirem aquela casa (a capela) como ainda agora se costuma». Estas palavras são comentadas pelo Dr.
Rodrigues de Azevedo da maneira seguinte: «A Mercearia de Santa Catharina... era como que um hospício, onde, por esmola,
viviam mulheres pobres e de bons costumes, que tinham a seu cargo o aceio da capela da sancta. Uma e outra teem sido
conservadas até ao presente. São propriedade do sr. conde de Castello-Melhor».
Nada podemos acrescentar ao que fica transcrito e ignoramos também se realmente até o ano de 1873 se manteve a fundação de
Constança de Almeida, embora, sem duvida, com feição diferente da instituição primitiva. O que podemos agora asseverar é que
essa instituição há muito que desapareceu e que as casas e a capela passaram a outros proprietários. Foi esta certamente a primeira
instituição de beneficência que houve na Madeira, tendo tido uma existencia de cerca de quatro séculos e meio.
Na vila do Porto Santo e no lugar ainda hoje conhecido pelo nome de Santa Catarina, se levantava a capela desta invocação.
Ignoramos quando foi edificada e quando se procedeu á sua demolição, mas sabemos que dentro do recinto do cemitério que fica
no sítio onde existia a antiga ermida, se erigiu uma pequena capela dedicada á mesma santa e que se destina ao uso privativo do
serviço religioso no referido cemitério. A imagem de Santa Catarina era de grande veneração entre os habitantes do Porto Santo,
constando da tradição local que, tendo os piratas mouros roubado a mesma imagem, foi ela resgatada por uma avultada quantia e
restituida ao culto na sua capela daquela ilha.
O sítio de Santa Catarina, na vila de Santa Cruz, tem este nome porque ali mandou Gonçalo de Freitas construir uma capela daquela
invocação no século XV.
Rodrigo Enes fundou no ano de 1505 a capela de Santa Catarina na freguesia da Calheta, no sítio que ainda conserva esse nome.
Houve também uma ermida da mesma invocação na freguesia da Ribeira Brava.
Santa Catarina Braga
Vid.António Alfredo (I-72).
Santa Clara (Igreja de)
«Determinou o capitam, diz Frutuoso, fazer sua morada (como fez) em hum alto que está sobre o
Funchal, e logo defronte de suas pousadas fundou huma igreja de Nossa Senhora da Concepção para seu jazigo (olhando, como
prudentissimo, para o fim logo no começo), a que vulgarmente chamão Nossa Senhora de cima, por estar fundada em cima da villa
em hum tezo ao pee dum pico...»
Como é sabido e se vê pelo trecho transcrito, foi o descobridor da Madeira que fundou a capela de Nossa Senhora, chamada da
Conceição de Cima, para a distinguir da Conceição de Baixo (volume II, página 451), e a destinou para sua sepultura e de seus
descendentes. Com a fundação do convento de Santa Clara (volume I, página 309), adjunto á capela da Conceição, foi caindo em
desuso o nome da igreja e perdurou o do convento, que, passados anos, se estendeu ás duas construções, ficando ambas com uma
só denominação convento e igreja de Santa Clara.
Da construção de Zargo nada resta actualmente. A capela sofreu varias modificações, e na segunda metade do século XVII foi
demolida, ao edificar-se a actual igreja.
Para os madeirenses, tem este templo um alto valor histórico e a todos deve merecer a mais acendrada veneração. Dentro do seu
recinto se guardam as cinzas do descobridor da Madeira.
João Gonçalves Zargo, como padroeiro desta igreja, teria sem duvida sido sepultado na capela-mor, junto dos degraus do altar
principal da antiga capela. Lemos em um antigo manuscrito «que a obra se ordenou de sorte que a sepultura de Zarco ficou no meio
da capella-mór, com um túmulo de pedra em cima tão alto que singularmente a faz venerável e respeitosa.. Afirma-se que, muitos
anos depois, as freiras conseguiram a remoção do aparatoso mausoléu, por lhes interceptar a vista do altar, sobretudo por ocasião
da celebração dos ofícios divinos.
Os donatarios do Funchal (Vid.
Donatários
) deixaram de residir definitivamente nesta ilha depois do domínio filipino, devendo
supor-se que a remoção do mausoléu do descobridor ou duma parte considerável dele foi feita posteriormente ao ano de 1580, pois
não podemos admitir que os capitães-donatarios permitissem aquela profanação no sarcófago do seu antecessor e fundador da casa
de que eram os representantes.
É tradição constante que os despojos do ilustre descobridor da Madeira estão encerrados no túmulo que se encontra no fundo da
igreja, junto do coro de baixo. Acha-se profusamente reproduzido pela gravura em muitas obras nacionais e estrangeiras. Tem uma
inscrição em letra gótica, hoje ilegível, mas no pavimento adjacente lêem-se as seguintes palavras:
Sª DO Capitão GASPAR MENDES DE VASCONCELLOS Q ~ MANDOU FAZER P.ª SI E SEUS ERDEIROS POR SE TIRAR A
PRIMEIRA CAMPA Q~ AQUI SE POS COMO DECENDENTE DO PRIMEIRO MARTIM MENDES DE VASCONCELLOS QVE
AQUI JAZ E PASSOU A ESTA ILHA A CASAR COM ELENA GLIZ. DA CAMARA FILHA DE JOÃO GONSALVES ZARCO SEU
DESCOBRIDOR DESTA. FOI FEITA NA ERA DE 1710.
A inscrição gótica dirá respeito a Martim Mendes de Vasconcelos, genro do Zargo, ou ao próprio descobridor, como já alguém
pretendeu? É opinião nossa que a epigrafia se refere ao marido de Helena Gonçalves da Câmara.
E quando se realizou a trasladação? Por ocasião de ser removido o aparatoso mausoléu? Por ocasião da reconstrução na igreja na
segunda metade do século XVII? Por ocasião de ser dado á sepultura o cadáver de Gaspar Mendes de Vasconcelos? Ou ainda em
outra ocasião? Nada se sabe ao certo a tal respeito, não faltando quem tivesse afirmado que essa transladação se não realizou,
continuando as cinzas do descobridor junto do altar-mor, no primitivo lugar em que foram depositadas. No entretanto não é fácil,
com uma simples negativa, invalidar a ininterrupta tradição que dá o descobridor da Madeira como sepultado no túmulo do seu
genro Martim Mendes de Vasconcelos
(Vid. Lápides).
No mês de Março de 1919, procedendo-se ao assoalhamento da capela-mor desta igreja, descobriram-se as pedras tumulares que
cobrem as ossadas do 2.°, 3.° e 5.° donatarios do Funchal. No centro e junto dos degraus do altar-mor, encontra-se uma lage
sepulcral, de cor escura, onde se lê este epitáfio: Sepultura de Joâo Consalves da Camara, segundo capitão desta ilha. Na mesma
capela-mor e no lado da epístola, descobre-se outra pedra da mesma cor, que tem a seguinte inscrição: Sepultura de Simão
Gonsalves da Câmara....3.° capitão destas ilha. Aqui jaz Simâo Gonsalves da Câmara, conde da Calheta e quinto capitão desta ilha.
Devemos notar que na pedra destes ultimos epitáfios se encontram aspadas duas linhas, de cuja circunstancia não podemos dar
uma explicação plausível. No lado do evangelho não foi encontrada nenhuma pedra sepulcral.
Nestes túmulos não se encontram qualquer referência á sepultura do descobridor, o que seria para estranhar, se ali porventura
tivessem permanecido seus despojos mortais. O terceiro donatário Simão Gonçalves da Câmara morreu em Matosinhos, mas os
seus restos mortais foram transportados para o Funchal e sepultados em Santa Clara, como se vê no epitáfio acima transcrito. João
Gonçalves da Câmara, 4.° capitão-donatário, faleceu no Funchal e foi sepultado em Santa Clara, não se encontrando ali qualquer
referência à sua sepultura.
O bibliotecário da Câmara do Funchal, Adolfo César de Noronha, tentou fundar nas dependências desta igreja um museu de arte,
aproveitando vários quadros e outros objectos artísticos pertencentes a alguns conventos e que se achavam dispersos. Apesar dos
louváveis e diligentes esforços que empregou, não foi coroada do menor êxito a sua iniciativa.
Santa Cruz (Enseada, Porto, Cais e Ribeira de)
0 porto de Santa Cruz é formado por uma enseada de relativa extensão, que
Frutuoso chamou uma «formosa angra», sendo em parte ladeada por uma praia pedregosa, onde se torna fácil, com tempo
bonançoso, o acesso de barcos de pequena lotação. No ponto da baía em que, junto à costa, se encontra uma restinga, foi esta
aproveitada para a construção dum pequeno desembarcadouro, que se fez no ano de 1845, tendo sido melhorado em 1870. 0 cais
actual, de mais amplas proporções e em melhores condições de servir o movimento do porto, foi mandado construir pela Junta
Geral do Distrito no ano de 1908-1909, tendo sido aproveitados os trabalhos que já anteriormente tinham sido realizados.
A vila de Santa Cruz é atravessada pela ribeira do mesmo nome, que tem sua origem na freguesia do Santo da Serra e desemboca no
oceano.
Santa Cruz (Freguesia de)
Lê-se na Insulana:
«Fazia todo junto, um bosque umbrozo
Onde de um tronqo antigo derribado
Foy hum sancto Patibulo preciozo
Por mandado do Zargo fabricado;
E no meyo do vale, entam fermozo
Pellos seus portuguezes arvorado;
Porque se Pouo ally se edificasse
Da Sancta Cruz o nome lhe fiquasse».
Lá diz também o historiador das ilhas: passando huma volta que faz a terra, entraram em huma fermosa angra na praya, na qual
viram hum fermoso e deleitoso valle coberto de arvoredo por sua ordem composto, onde acharam em terra huns cepos velhos
derribados do tempo, dos quaes mandou o capitam fazer huma cruz, que logo fez alvorar em hum alto de huma árvore, dando nome
ao logar Sancta Cruz, onde ao depois se fundou huma nobre villa...»
Para comemorar o facto da erecção da cruz por ocasião do descobrimento, fez se levantar no próprio local, segundo se diz a
tradição, um cruzeiro de mármore, que um tufão derribou no ano de 1889, sendo reconstruído no seguinte. A antiga cruz de
mármore tinha as armas dos Monizes, sendo provavelmente um membro desta família que a mandou construir. Fica assim
cabalmente explicada a origem do nome desta freguesia, que é das mais antigas e um dos lugares em que mais remotamente se
iniciou a colonização da Madeira.
Cresceu logo em importância a freguesia e se desenvolveu com notável rapidez, ombreando sem demora com a vizinha e rival
povoação de Machico, que em breve chegou a suplantar, segundo se lê em alguns documentos antigos, excepção feita à situação de
que aquela gozava como sede da capitania e residência dos donatários.
Das freguesias mais antigas desta ilha, como Machico, Santa Cruz, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, etc , não se sabe com inteira
precisão o ano em que foram criadas, constituindo elas primitivamente centros de população ou fazendas povoadas, com suas
capelas e capelães privativos, como fizemos já notar acerca da ultima daquelas paróquias. Santa Cruz, como freguesia autónoma,
teria sido criada no segundo quartel do século XV. Diz o erudito anotador das Saudades que «Santa Cruz foi creada pouco depois de
constituída a de Machico, tendo esta a precedência unicamente por ser cabeça da capitania». Tem aqui aplicação o que em outro
lugar dissemos acerca da criação da freguesia de Machico (volume II, pagina 294), não sendo muito provável que esta paróquia e a
de Santa Cruz fossem criadas posteriormente ás freguesias de Câmara de Lobos, Caniço e Ribeira Brava, como pretende o Dr.
Alvaro de Azevedo.
O diploma mais antigo respeitante a esta paróquia, que vem citado no Indice Geral do Registo da Provedoria, é o alvará régio de 5
de Dezembro de 1580, arbitrando ao vigário o vencimento anual de 24$756 réis, que foi elevado a 15$000 réis em dinheiro, 4 moios
de trigo e 2 pipas de vinho, pelo alvará de 9 de Julho de 1590. Foram-lhe ainda acrescentados 3.9000 anuais no ano de 1600. 0
pároco mais antigo de que há conhecimento pelo arquivo paroquial é Fr. Hercules da Cunha, natural da Calheta, que já ali
desempenhava aquelas funções em 1538. Sucederam-lhe João Drumond, por 1597 o licenciado Belchior Rebelo (1604), Francisco
Duarte Morais (1622), Antonio da Rocha (1637), Henrique Madureira de Figueiredo (1650), Tristão de Mendonça Vasconcelos
(1674), Manuel Ferreira Teixeira (1687) o licenciado Antonio Ferreira de Andrade, (1693) e Estevão Lomelino de Vasconcelos
(1709).
Por alvará régio de 27 de Agosto de 1589, foi criado um curato nesta freguesia, com a côngrua de 20$00 réis anuais, a que o alvará
de 23 de Maio de 1747 acrescentou 40$000 réis também anuais.
Afirmámos (volume II, página 294) que a colegiada de Machico fora estabelecida pelo alvará régio de 18 de Junho de 1572, quando
é certo que nessa época já estava criada, bem como a de Santa Cruz, dizendo aquele diploma respeito ao aumento feito ao
vencimento dos seis beneficiados das duas colegiadas, que de 10$00 réis anuais passaram a ter 12$000 réis. Os alvarás régios de 9
de Julho de 1590 e 2 de Janeiro de 1610, elevaram, respectivamente aqueles ordenados a 21$000 réis anuais, e 61$000 réis em
dinheiro, 2 moios de trigo e 1 pipa de vinho, também anuais.
O alvará régio de 17 de Novembro de 1557 criou o lugar de pregador, sendo depois este cargo cometido ao guardião do convento da
mesma freguesia, que por si ou pelos seus religiosos o desempenhava em virtude do alvará de 15 de Outubro de 1644, tendo o
ordenado de 30$000 réis anuais.
Teve também esta colegiada o lugar de organista, criado anteriormente a 6 de Fevereiro de 1592, pois que um diploma desta data
lhe eleva o vencimento a 6$000 réis anuais.
A freguesia teve sua sede numa pequena capela que ali se levantou logo nos primeiros tempos da colonização e cuja invocação seria
provavelmente São Salvador, que é o actual orago da igreja paroquial. Um antigo nobiliario dá-nos a informação de que este templo
foi edificado no ano de 1533, sob a direcção de João de Freitas (volume II, página 54), fidalgo da Casa Real, a quem o monarca, por
provisão de 29 de Setembro daquele ano, fez mercê da capela-mor para seu jazigo e de sua família, em atenção ás despesas e
trabalhos que teve nessa construção.
Tem passado o templo por diferentes reparações e consertos havendo já quem aventasse a ideia de que as naves laterais não são da
primitiva edificação, o que nos parece pouco admissível. É a mais vasta igreja fora do Funchal, de três naves, embora algures se leia
que não são três naves bem definidas. Encontra-se em regular estado de conservação e há dentro dela, diz o anotador das Saudades,
«além dos altares mais três capelas, que são: a capela-mor, a qual o rei concedeu a João de Freitas, por seus serviços, e
especialmente por ter dado o terreno para o templo, e curado da edificação delle; a capela de São Thiago, hoje do Santíssimo
Sacramento, fundada por João de Morais; e a das Almas, pertencente aos Pereiras, oriundos do Porto Santo».
Existem nesta freguesia as capelas de São Pedro, Santo Amaro, Nossa Senhora dos Remédios, Nossa Senhora da Piedade, Nossa
Senhora da Conceição e Santa Isabel. Outras capelas houve que a acção do tempo e a incúria dos homens fizeram desaparecer, e que
eram as de Santa Catarina, São Lazaro, Nossa Senhora da Graça, São Gil, São Francisco Xavier, Nossa Senhora da Penha de França,
Jesus Cristo, Nossa Senhora do Rosário, São José, São Fernando e São Sebastião. Em outro lugar desta obra se dará sucinta noticia
destas capelas.
Um numero avultado de nobres e cavaleiros fizeram assentamento nesta freguesia nos tempos da colonização, alguns dos quais
instituíram casas vinculadas e foram tronco de distintas famílias. Entre esses, mencionaremos Antão Alvares de Carvalho, João
Escorcio Drumond, João de Freitas (Volume II, pagina 54), Urbano e João Baptista Lomelino (Volume II, página 281), Pedro
Alvares de Almadas Nuno da Costa, João Afonso Escudeiro (Volume I, página 136), Pedro Lopes de Figueiredo, Rui Gramacho,
Lopo Lordelo, Antão Alvares de Sousa. etc..
Alguns membros da família de João de Freitas se distinguiram heroicamente nas nossas campanhas da Africa e da Asia, e ao
assunto deste artigo interessam os seguintes períodos, que encontramos num antigo documento: «Jordão de Freitas, de cujas
acções nos informam largamente os historiadores da Asia, nasceu na villa de Santa Cruz e foi capitão de Moluco, senhor das ilhas de
Amboino e Siam, por doação de D. Manuel, rei de Ternate, no ano de 1537, confirmada por el-rei D. João 3.° no ano de 1543.
Gonçalo de Freitas da Silva, seu filho e natural da mesma villa, serviu valorosamente na Índia, onde teve o mesmo senhorio,
confirmado por el-rei D. Sebastião no ano de 1574. Jordão de Freitas da Silva, filho deste, foi embaixador a França sobre a cobrança
da artilharia e mais fazenda da armada, que lá se perdeu no ano de 1626, falleceu nesta pretensão, por cujo serviço teve seu filho
Gonçalo de Freitas a comenda de Santa Maria de Lisboa, na ordem de Christo».
Já nos ocupámos nesta obra dos ilustres santacruzenses Fr. Remigio da Assunção (volume I, página 101) e cónego Alfredo Cesar de
Oliveira (volume III, página 9).
Os principais sítios desta freguesia são: Vila, Serrado da Vila, Morena, Estreito, Espigão, São Fernando, Palmeira, Rego,
Regadinhas, Lombo da Calçada, Fonte dos Almocreves, Eiras Velhas, Bom Jesus, Fazenda, Lombada, Dona Mecia, Fajocos, Ribeira
de Santa Cruz, Águas Belas, Moinho da Serra, Levadas, Roma, Moreno, Eiras, Janeiro, Terça, Santa Catarina, Cano, São Sebastião,
Calçada de São Gil, São Gil e Relação.
Tem esta freguesia 7.054 habitantes (1921).
Santa Cruz (Vila e Município de)
O ilustre anotador das Saudades da Terra é de opinião que Machico foi elevado á categoria de
vila pela mesma época que o Funchal, isto é, pelo ano de 1452, embora nos arquivos das respectivas capitanias não se encontrem os
diplomas régios que concederam tais privilégios e regalias àquelas povoações. Santa Cruz, encravada na capitania de Machico foi,
logo após a descoberta da Madeira, crescendo em importância, e o incremento da sua população, de par com o seu desenvolvimento
comercial e agrícola, fizeram-na ombrear com a sua vizinha e rival a ponto de que os seus moradores pediram para ela o privilegio
de ser contemplada com os foros de vila, o que D. Manuel lhes concedeu por carta regia de 20 de Junho de 1515.
Esta carta, que vem integralmente transcrita nas Saudades, a páginas 505 e seguintes, foi, para efeito da sua imediata execução,
apresentada na sede da capitania de Machico a 17 de Julho de 1515, tendo alguns vereadores levantado embargos a criação da nova
vila, embargos que foram inuteis, por falta de fundamento legal e de apoio do capitão donatario Tristão Vaz Teixeira. Parece que
datam desta época as rivalidades entre as duas vilas, que se tem mantido através de séculos e que até no presente se não acham de
todo dissipadas.
Tendo sido em Agosto de 1515 dado um novo foral á cidade do Funchal, logo as vilas de Machico e Santa Cruz, esquecendo por
momentos as antigas rivalidades, também pediram conjuntamente um foral, que lhes foi concedido com diversos privilégios e
isenções por carta regia de 15 de Dezembro de 1515.
A vila de Santa Cruz não se libertou, porém, inteiramente, da tutela da capitania de Machico, pois os respectivos donatários
continuaram a ter interferência em muitos assuntos de jurisdição militar e criminal, só vindo a terminar de todo a mesma tutela,
com a morte do ultimo donatario de Machico. A própria carta regia da criação da vila diz . . . . e ho capitam da dita billa de
Machiquo teraa na dita billa de Santa Cruz e seu termo asy ha cadeia e todallas outras liberdades que ateeaqui teue...»
Especialmente debaixo do ponto de vista comercial e industrial excedeu em importâncias a vila de Machico, o que desde logo
determinou a criação duma alfândega de que já nos ocupámos com alguma largueza a página 43 do Iº volume desta obra. Pelas
muitas referências que temos encontrado a esta casa fiscal, pelo numero e qualidade dos seus empregados e ainda pelos registos de
vários diplomas exarados nos livros da antiga Provedoria do Funchal vemos que a alfândega da vila de Santa Cruz era de mais
importância e de maior movimento do que a de Machico, apesar desta ficar na sede da capitania.
Teve esta vila uma instituição de beneficência de relativa importância, que foi a sua misericórdia, da qual se deu já noticia no artigo
Misericórdias
(volume II, página 376).
O concelho de Santa Cruz compõe-se actualmente das freguesias de Santa Cruz, Água de Pena (parte), Santo da Serra (parte),
Gaula, Camacha e Caniço. O decreto de 19 de Outubro de 1852, que desanexou a freguesia do Porto da Cruz do concelho de Santana,
incorporando-a no de Machico, desligou também alguns sítios deste concelho para os unir ao concelho de Santa Cruz, o que
provocou enérgicos protestos da parte da Câmara Municipal de Machico e de varias entidades oficiais e particulares do mesmo
concelho. Depois de vários incidentes, que pareciam intermináveis, fez o secretario geral do distrito, Antonio Lopes Barbosa de
Albuquerque, servindo de governador civil, reunir na Casa dos Romeiros da freguesia do Santo da Serra, no dia 11 de Setembro de
1862, representantes das Câmaras Municipais de Machico e Santa Cruz, administradores dos concelhos, diversos funcionários
públicos e outras pessoas de representação, e ali se assentou definitivamente numa nova divisão concelhia e paroquial, que é a
actual, tendo deste modo terminado as reclamações e protestos que duma e doutra parte se haviam levantado.
Por mais duma vez tem os habitantes das freguesias do Caniço e Camacha representado ao governo central pedindo a anexação
destas freguesias ao concelho do Funchal, mas esse pedido nunca alcançou deferimento.
No mês de Março de 1928, incendiou-se a casa em que funcionavam os tribunais judiciais e outras repartições públicas concelhias.
Procedeu-se depois à construção dum grande edifício, destinado aos novos Paços do Concelho e também à instalação das
repartições que estavam acomodadas na casa incendiada, fazendo-se a inauguração do mesmo edifício no princípio do ano de 1933.
Santa Isabel (Capelas de)
É uma bonita e ampla capela desta invocação a que se encontra no edifício da Misericórdia desta
cidade e que tem acesso pelo vestíbulo do mesmo edifício. A sua construção deve datar dos princípios do século XVIII. 0 altar-mor,
de talha dourada em madeira, é de uma grande beleza embora talvez com uma excessiva aglomeração de ornatos. (1921)
Adjunto ao hospital da vila de Santa Cruz, levanta-se também uma capela da invocação de Santa Isabel.
Santa Luzia (Freguesia de)
É uma das quatro freguesias urbanas do Funchal e constitui uma parte da zona alta da cidade. Das
paróquias deste concelho, é a de mais recente criação e foi formada por terrenos pertencentes às freguesias da Sé Catedral e de
Nossa Senhora do Monte.
Reconhecida a necessidade de descongestionar a freguesia da Sé duma parte considerável dos seus fogos para uma melhor
regularização dos serviços paroquiais foi a capela de Santa Luzia, situada numa eminência da margem esquerda da ribeira do
mesmo nome, escolhida para servir de sede á nova paróquia que tinha sido criada pelo alvará régio de 28 de Dezembro de 1676. No
Índice Geral do Registo da Provedoria, lê-se: «Alvará do Senhor Rey D. Pedro 2.°, de 28 de Dezembro de 1676, facultando ao bispo
D. Fr. Antonio da Silva Teles o poder criar freguesia na Ermida de Santa Luzia, assinando ao vigário côngrua e território
competente com parte das freguesias da Sé dos muros para fora e parte da de Nossa Senhora do Monte, visto que os curas da Sé
tinham dentro da cidade perto de 6000 almas a que acudir». 0 primeiro vigário foi o padre Amaro de Atouguia, a quem o alvará
régio de 24 de Julho de 1681 fixou o vencimento anual de 21$000 réis em dinheiro, 1 pipa de vinho e 1 moio e meio de trigo.
No mesmo índice vem citado o alvará régio de 13 de Agosto de 1745, criando um curato nesta freguesia com o ordenado anual de 1
pipa e meia de vinho e 1 moio e meio de trigo.
A capela de Santa Luzia era uma construção dos fins do século XV. Pelo seu adiantado estado de ruína, se abateu no primeiro
quartel do século XVIII, sendo a sede da freguesia provisoriamente instalada na capela de Nossa Senhora da Incarnação, no
convento do mesmo nome.
O alvará régio de 9 de Setembro de 1719 mandou proceder á edificação duma nova igreja, mas parece que a construção não se
realizou imediatamente, por isso que os mandados do Conselho da Fazenda de 14 de Janeiro 13 de Fevereiro e 3 de Dezembro de
1740 autorizaram diversos pagamentos para se ultimarem as obras do novo templo, devendo supor-se que os respectivos trabalhos
somente teriam sido dados por inteiramente concluídos no ano de 1741. É esta a igreja actual, que foi construída em local um pouco
afastado da antiga ermida, que então era conhecida pelo nome de Santa Luzia Velha.
Nesta freguesia ficavam as capelas de S. Francisco Xavier, Nossa Senhora da Boa Viagem, Nossa Senhora da Esperança Nossa
Senhora da Pena, Nossa Senhora do Vale Nossa Senhora dos Prazeres, Nossa Senhora da Consolação e Nossa Senhora do Descanso,
das quais só existem as duas ultimas. De todas damos noticia em outro lugar.
Na área desta paróquia se encontrava o convento de Nossa Senhora da Incarnação, do qual já nos ocupámos, e na cerca dele se
levantou um grande edifício destinado a Seminário Diocesano e que é hoje o Palácio da Junta Geral do distrito (V. Seminário).
Também nesta freguesia se acha o Asilo dos Velhinhos, mantido pela Junta Geral (V. Asilos e Irmâsinhas dos Pobres) (1921).
A estação central do Caminho de Ferro do Monte e as suas principais instalações ficam nesta freguesia (volume I, página 221), e
bem assim o importante estabelecimento industrial conhecido pelo nome de Fabrica do Torreão, a que já nos referimos a página
394 do volume I desta obra:
Do abundante e rico manancial que se chama a levada de Santa Luzia e cujo importante aqueduto atravessa uma parte considerável
desta freguesia, já nos ocupámos no artigo Levadas, a página 235 do volume II. Ladeando a mesma levada, há uma excelente
estrada, que se estende desde as proximidades da ribeira de Santa Luzia até o extremo norte da avenida de Pedro José d'Ornelas, e
dela se desfrutam surpreendentes panoramas sobre a baía, e a cidade e os seus arredores. É um dos trechos que hão-de constituir a
projectada estrada de cintura do Funchal.
A 3 de Marco de 1898, concedeu a Câmara Municipal licença para a ampliação do antigo adro de Santa Luzia, tendo as obras
começado pouco depois.
Segundo o Mappa alphabetico das ruas da Cidade, aprovado pelo Governador Civil em 5 de Outubro de 1863, ficaram os limites da
freguesia de Santa Luzia sendo constituídos pela parte norte: da rua do Carmo, compreendida entre a ponte e o ribeirinho do Vale,
pela parte oriental da rua das Hortas (Alferes Veiga Pestana), até a rua do Bom Jesus, por esta ultima rua, dum lado e outro mas
somente até a rua da Conceição (Correia Heredia) pela levadinha das Hortas pela parte da rua da Princesa (31 de Janeiro) que se
acha acima da Ponte Nova e confina com esta e pelo princípio da calçada da Incarnação.–Os predios da parte norte da rua do
Carmo, mas a oeste do ribeirinho do Vale, a rua da Fabrica, a rua da Conceição, a rua da Ponte Nova e a rua da Princesa, abaixo da
mesma ponte, ficaram pertencendo, pelo mesmo mapa, á freguesia da Sé, assim como a parte da rua do Bom Jesus a oeste da dita
rua da Conceição).
Os párocos da Sé e de Santa Luzia incluem nesta ultima freguesia as partes oriental e ocidental da rua das Hortas, abaixo da rua do
Bom Jesus, e as partes norte e sul desta ultima rua, limitadas pelas ruas das Hortas e da Conceição, ao passo que nalgumas
repartições publicas se considera a parte sul da mesma rua do Bom Jesus como fazendo parte da freguesia da Sé. Querem também
alguns que a parte norte da rua do Carmo, compreendida entre a rua das Hortas e o ribeirinho do Vale, pertença á freguesia de
Santa Luzia e não á da Sé.
Pelo lado oriental, estende-se a freguesia de Santa Luzia até á Ribeira de João Gomes, e pelo lado norte vai até acima da Levada de
Santa Luzia, sem atingir, porém, no caminho do Monte, a quinta da Paz.
Santa Maria (D. Fr. José de)
Este piedoso bispo do Funchal era filho de Luís de Saldanha, viador da casa da rainha D. Luísa de
Gusmão, e de D. Violante de Mendonça. Abraçando a vida monástica, entrou na ordem dos Capuchos e ali foi lente de artes e
teologia, e exerceu ainda outros cargos importantes.
D. Pedro 2.° nomeou-o bispo desta diocese em 1689, sendo confirmado pelo papa Alexandre VIII a 6 de Março de 1690. A 25 de
Novembro deste ano, recebeu a sagração episcopal das mãos do cardial de Lencastre.
Em Março de 1691 deu entrada na sua diocese, dedicando-se inteiramente á pastoreação do seu rebanho. Visitou varias vezes as
paróquias do seu bispado, apesar da aspereza dos caminhos e da dificuldade de transportes e acomodações nos lugares que
percorria. Foi muito zeloso na observância do ensino da doutrina cristã mandando imprimir uma pastoral, em que esta matéria era
regulada e imposta com todo o rigor. Fez reunir um concilio na diocese, em que se tomaram sérias providencias acerca de muitos
pontos da disciplina eclesiástica que há muito tinham caído em desuso.
D. Fr. José de Santa Maria era de índole resignada e bondosa e sofreu com verdadeira humildade cristã as prepotências e vexames
do capitão-general D. Rodrigo da Costa, que além do seu génio atrabiliario e despótico contava com a manifesta protecção dos seus
parentes, que pertenciam à primeira nobreza e ocupavam os mais elevados cargos da nação.
Depois dum curto episcopado de cinco anos, solicitou e obteve a sua transferência, sendo colocado numa das principais sés do
Reino, em atenção aos seus grandes méritos e virtudes. Transferido para o bispado do Porto, ali morreu, com opinião de santo, a 26
de Outubro de 1708, segundo afirma D. Antonio Caetano de Sousa.
Saiu da Madeira a 15 de Setembro de 1696, dia em que deixou a administração episcopal desta diocese.
Santa Maria Madalena (Capelas de)
Quem sair do Funchal e seguir o caminho de Santo António, depara á beira da estrada, a
uns dois quilómetros do centro da cidade, com as ruínas duma velha e desmantelada capela. Desse montão de escombros, ergue-se
ainda altaneiro, como a desafiar a fúria dos séculos, o arruinado frontispício, com o seu pórtico em ogiva, denunciando a sua
antiguidade e a característica das construções duma época de glórias. É um dos raros vestígios do estilo manuelino que ainda
restam nesta ilha.
Esta é a capela de Santa Maria Madalena, que deu o nome ao sítio, mais comummente conhecido pela simplificação popular de
Madalena. Depois de Santo Amaro, é a capela mais antiga da freguesia de Santo Antonio, escasseando-nos, porém, os precisos
elementos para determinar-lhe a época da sua fundação, que não nos parece ser posterior ao primeiro quartel do século XVI. No
entretanto, a referência mais remota que a ela encontramos é de 1593, ano em que lhe foi feita a doação dum foro. Era também,
depois da referida capela de Santo Amaro, a mais importante daquela freguesia pela sua antiguidade, pelas suas dimensões e estilo
arquitectónico, e ainda pela devoção que os fiéis manifestavam pela sua padroeira, chegando a possuir bens próprios, de relativa
importância, para a manutenção do seu culto, o que não nos consta que outra capela desta freguesia tivesse.
José Machado de Miranda, por escritura publica de 11 de Março de 1684, tomou o encargo de padroeiro desta capela, mandando-a
reconstruir e dotando-a com um foro de quatro mil réis anuais, imposto na quinta das Maravilhas. Nos anos de 1732, 1766 e 1773 se
fizeram nela importantes repairos, mas em 1820 era já adiantado o seu estado de ruína.
No sítio das Florenças da freguesia do Arco da Calheta, havia uma capela da mesma invocação, fundada por João Portes Homem de
El-Rei e sua mulher D. Maria de Sousa, no ano de 1684.
A capela de Santa Maria Madalena da freguezia do Porto Moniz é uma das mais antigas do norte da Madeira. Tem sofrido através
dos tempos vários reparos e acrescentamentos, e é hoje uma capela de não acanhadas dimensões. Foi ampliada no ano de 1789 e
ainda há poucos anos teve novo acrescentamento. Nela se encontrava um belo quadro a óleo, representando a padroeira, que não
foi conservado convenientemente e que de todo se perdeu. Pode dizer-se que é ali a sede do curato da freguesia, tendo junto da
capela casa de residência, destinada ao respectivo coadjutor. Há um cemitério nas suas imediações.
É o centro duma antiga e concorrida romagem, que se realiza no mês de Julho de cada ano, e outrora fazia-se ali uma feira em que
aparecia muito gado.
Santa Maria Maior (Freguesia de)
No lado oriental da cidade do Funchal e constituindo uma das suas quatro freguesias, fica
situada a freguesia de Santa Maria Maior.
Provém-lhe esta denominação da circunstância de ter a sua primitiva igreja paroquial mais amplas proporções do que a capela
edificada por João Gonçalves Zarco no local onde hoje se levanta a igreja de Santa Clara, sendo ambas consagradas a Nossa
Senhora da Conceição. Também foi em outros tempos conhecida pelo nome de Conceição de Baixo e a outra por Conceição de
Cima, tendo-se-lhe igualmente chamado Nossa Senhora do Calhau, por estar construída não muito longe da praia, sendo este nome
que mais perdurou entre o povo e que ainda hoje conserva. Tornou-se esta paróquia muito conhecida, e ainda presentemente o é,
pelo nome de freguesia do Socorro, sendo esta denominação aplicada de modo especial á parte dela compreendida entre a igreja
paroquial e a margem esquerda da ribeira de João Gomes. Teve este nome origem na imagem de Nossa Senhora do Socorro, que se
venerava na igreja paroquial e que em outros tempos era objecto de fervoroso culto por parte dos habitantes do Funchal.
Da igreja de Nossa Senhora do Calhau, já demos noticia em outro lugar (volume II, página 451), e da igreja de S. Tiago, para onde
foi transferida a sede da freguesia no ano de 1803, nos ocuparemos na altura competente desta obra.
Acerca da criação desta paróquia, dissemos o suficiente no artigo Freguesias (volume II, página 52) e para lá remetemos o leitor,
podendo afirmar-se que foi esta a primeira e é ao presente a mais antiga freguesia deste arquipélago.
Com a construção do magnífico templo da Sé Catedral, foi a sede da paróquia de Santa Maria Maior transferida para a nova e ampla
igreja, pelos anos de 1508. Aproximadamente cinquenta anos depois, com o aumento sempre crescente da população foi a
freguesia, pelo alvará régio de 18 de Novembro de 1557, dividida em duas paróquias autónomas, sendo as suas respectivas sedes na
Sé Catedral e na igreja de Nossa Senhora do Calhau.
Depois dos religiosos franciscanos, parece que foi Nuno Cão (V. este nome) um dos primeiros sacerdotes que exerceram funções
paroquiais nesta freguesia, passando em 1508 para a Sé Catedral e sendo em 1514 elevado a deão da mesma Sé. Dividida a paróquia
em 1537, foi primeiro vigário de Santa Maria Maior o licenciado Antonio Mourão, ao qual se estabeleceu, pelo alvará de 23 de
Fevereiro de 1558 a congrua anual de 20:000 réis, uma pipa de vinho e dois moios de trigo.
O curato, desta freguesia foi criado por alvará régio de 27 de Agosto de 1589, com o vencimento anual de 20.000 réis.
Teve esta igreja uma colegiada, criada pelo alvará de 18 de Novembro de 1557, composta, além do vigário e cura, de mais três
beneficiados, que depois foram elevados ao numero de seis, e de um tesoureiro, pregador e organista.
Esta paróquia tem as capelas do Corpo Santo, Nossa Senhora do Bom Sucesso, Nossa Senhora do Faial, Nossa Senhora Mãe dos
Homens e outras que já desapareceram, de todas as quais daremos sucinta noticia.
Na área desta freguesia, ficam o antigo campo de D. Carlos, hoje do Almirante Reis, a fortaleza de São Tiago, o Campo da Barca ou
de Miguel Bombarda, o Posto de Desinfecção Terrestre, a fabrica da luz eléctrica e outros estabelecimentos industriais.
Tem a freguesia de Santa Maria Maior a população de 7823 habitantes (1921) e principia na Ribeira de João Gomes, sendo uso dar-
lhe como limites, da parte do nascente, a metade ocidental ou esquerda dos caminhos do Palheiro e do Terça, pertencendo a metade
oriental ou direita, á freguesia de S. Gonçalo. Convém advertir, porém, que tais limites não concordam com os que se acham
assinalados no Mappa Alphabetico das ruas da cidade, aprovado pelo Governador Civil em 15 de Dezembro de 1863, no qual
claramente se declara que toda a rua do Palheiro, desde a Quinta do Acciaioly ou do Faial até a rua Bela de S. Tiago, pertence à
freguesia de Santa Maria Maior, e que esta paróquia se estende até o sítio dos Louros, ficando todavia a travessa da Olaria, hoje do
Lazareto, na freguesia de S. Gonçalo. Segundo o mesmo Mappa, o espaço compreendido entre a Rua Bela de S. Tiago e o prédio de
Tomás Teodoro, na Calçada do Socorro, pertence do lado norte a Santa Maria Maior e do lado sul a São Gonçalo, devendo
considerar-se, portanto, como fazendo parte desta ultima freguesia a parte sul do largo da Forca e do caminho do Lazareto até ao
ponto em que começa o sítio dos Louros
Vid. Limites da cidade, Freguesias, Nossa Senhora do Calhau, Academica (Praça), Cão (Nuno), Ordem de
Cristo, Carlos (Campo de D.) e Posto de Desinfeccão.
Santa Quitéria (Capelas de)
Falando da capela desta invocação, diz o Dr. Álvaro de Azevedo que foi fundada por Simão de
Nobrega, no Curral das Freiras, no que há visível engano. Esta capela ficava na freguesia de Santo António e foi construída pelo
alferes Simão de Nobrega e Sousa e sua mulher Maria Tavares de Sousa, na quinta que possuiam no sítio do Pico do Cardo, daquela
freguesia. No Curral das Freiras apenas existiu a ermida de Santo Antonio, mandada edificar pelas religiosas do convento de Santa
Clara. A capela de Santa Quiteria foi edificada no ano de 1727, sendo de 3 de Julho deste ano a respectiva escritura de dotação. Em
1814, encontrava-se profanada e já havia muitos anos que nela se não celebravam os actos do culto. Deu o nome ao sítio em que foi
construída.
Houve outra capela da mesma invocação no sítio do Lombo da Estrela, na freguesia da Calheta, fundada em 1724 por João Homem
de Abreu e sua mulher D. Ana Quiteria ou Luzia. A escritura de dotação é de 30 de Maio daquele ano.
Fundada pelo padre João da Silva Alves, existiu uma capela de Santa Quiteria na freguesia da Madalena do Mar.
Santa Teresa (Fr. Francisco de)
Frade carmelita natural do Funchal e falecido em 1698. E.: Alphabetum Theologicum .
Santo Amaro (Capelas de)
É das mais antigas da diocese a capela de Santo Amaro, que se ergue no sítio do mesmo nome, da
freguesia de Santo Antonio. É das poucas edificações do século XV que tem perdurado entre nós, embora talvez nada reste da
construção primitiva pelas profundas modificações que ali se têm introduzido no decorrer de quatro séculos e meio.
O Dr. Álvaro R. de Azevedo, por evidente lapso faz esta capela situada na freguesia de São Martinho, quando é certo que sempre
pertenceu á paróquia de Santo Antonio. É possível que o engano provenha do facto do seu fundador possuir vastos terrenos em
ambas estas freguesias e porventura contiguos dando-se talvez em época não recente, a capela como indiferentemente situada
numa ou noutra freguesia. A circunstancia de ter sido construída num sítio que é limite das duas paróquias e, mais ainda, dar a
entrada principal da quinta que circundava a capela, acesso para a estrada que separa as mesmas freguesias, facilmente induziria
em erro e o levaria a supor que a pequena igreja de Santo Amaro não ficaria dentro da área da paróquia de Santo Antonio.
Os medianamente lidos nas crónicas madeirenses sabem que do Continente do Reino vieram quatro fidalgos para esta ilha com o
determinado fim de contrair casamento com as filhas do descobridor da Madeira e primeiro capitão-donatario do Funchal. A
terceira delas, por nome D. Catarina da Camara, casou com Garcia Homem de Sousa, que foi o fundador desta capela. Diz
textualmente o anotador das
Saudades da Terra
: «...Santo Amaro, que foi fundada por Garcia Homem de Souza, genro de Zargo
em 1460 na grande fazenda povoada onde tinha aposento acastellado». Do mesmo Garcia de Souza dizem também as Saudades
noutro lugar: «...fez elle a capella ou casa forte ou acastellada para se defender de seus cunhados; era orgulhoso e violento»; e
acrescentam finalmente que «por ter diferenças com seus cunhados... fez uma torre que está junto da Madre de Deus».
Que era a Madre de Deus? Nome primitivo da capela ou sítio de Santo Amaro? Não sabemos dizê-lo, mas, segundo consta da
tradição e afirma o douto anotador das Saudades da Terra, foi em Santo Amaro onde Garcia Homem de Sousa levantara a casa
acastelada de que falam as antigas crónicas deste arquipélago para defender-se de seus cunhados nas lutas sangrentas que com eles
tivera. Com efeito, ainda ali se encontram umas casas em ruínas, de construção bastante antiga, que provavelmente constituem
restos da morada solarenga com aspecto de fortaleza que o orgulhoso e turbulento Garcia de Sousa construíra para pôr-se ao abrigo
das investidas dos seus inimigos. Uma porta de cantaria, em ogiva, que ali se vê ainda e que parece ter o cunho das construções da
época manuelina deveria ser cuidadosamente conservada. Também restam vestígios duma antiga cisterna e não há muitos anos
ainda que ali se viam igualmente as paredes duma velha torre, parecendo ser tudo de construção bastante remota (1921).
Havia ali uma quinta, dentro de cuja área ficavam a capela e a provável construção de Garcia de Sousa, restando apenas hoje uma
portada de certo aparato arquitectónico e que noutro tempo serviu também de entrada para a referida capela.
Santo Amaro é uma das mais importantes capelas deste bispado, pela sua antiguidade e tradições históricas, pelo seu tamanho e
ainda pela concorrência de fieis na sua festa patronal. Parece-nos que pouco lhe resta da sua primitiva construção, que, com o andar
dos tempos, foi passando por sucessivas transformações. Com o fim manifesto de isola-la da propriedade rústica e urbana, em cujo
recinto ficava, levantaram-lhe um alto muro em frente do frontispício, e a três ou quatro metros de distancia deste, que fizeram
ligar ao pequeno templo por meio dum alpendre o que tudo notavelmente desfeou a frontaria do edifício e ainda prejudicou
bastante a beleza do conjunto. Foi provavelmente a partir desta época, que não podemos determinar com precisão que o serviço da
capela começou a fazer-se exclusivamente pela entrada actual vedando-se a comunicaçao que dava para o caminho do Tangue e
Alecrins. Presumimos que os administradores da capela se tivessem desligado dos seus deveres de padroeiros e a abandonassem ao
cuidado e direcção da fabrica paroquial, a cujo cargo se encontra há largos anos, e deste modo a isolassem do resto da quinta ou
propriedade em que se achava edificada.
Esteve sempre esta capela na posse dos sucessores de Garcia Homem de Sousa, e sabemos que em 1700 era o capitão-mor de
Câmara de Lobos. Filipe de Carvalhal Esmeraldo, o administrador da propriedade vinculada de Santo Amaro, sendo imediato
sucessor seu filho, José Joaquim de Carvalhal Esmeraldo, que a transmitiu a seu filho também de nome José Joaquim de Carvalhal
Esmeraldo deu-lhe nesta administração vincular seu irmão Francisco Antonio de Bettencourt Carvalhal Esmeraldo, herdando o
prédio e capela sua filha D. Isabel Esmeraldo Barbosa de Matos e Camara, que o legou a sua irmã D. Julia Esmeraldos falecida a 14
de Setembro de 1915.
A capela, como actualmente se encontra, é uma reconstrução que data do segundo ou terceiro quartel do século XVII. A pequena
igreja tem três altares e não é de acanhadas dimensões, mas nada se encontra nela que desperte a atenção do observador, pois
parece que nem vestígios se descobrem ali da antiga e primitiva construção. Foi noutros tempos o centro duma concorrida
romagem.
Ainda há poucos anos se encontravam á margem da estrada que conduz á Lombada dos Esmeraldos na freguesia da Ponta do Sol,
os escombros duma capela dedicada a Santo Amaro, que se afirma ter sido edificada por João Esmeraldo nos fins do século XV ( V.
Lombada dos Esmeraldos
).
Dentro dos limites da vila de Santa Cruz se encontra uma capela com a invocação de Santo Amaro, que foi edificada pelo povo, mas
cujo ano de construção se desconhece. A festa patronal atrai todos os anos a esta capela uma extraordinária afluência de pessoas
das freguesias circunvizinhas. Foi reedificada no ano de 1922.
Santo André Avelino (Capela de)
No sítio do Carvalhal da freguesia dos Canhas, existe a capela de Santo André Avelino,
fundada em 1776 pelo capitão Carlos Nunes de Freitas da Silva e sua mulher D. Ana Guiomar de Moura Acciaioly Lomelino.
Pertencia à casa do morgado Nuno de Freitas Lomelino. Numa das paredes se lê esta inscrição, ali posta há poucos anos: Oferecida
por Jacintho Fernandes e concluida por José dos Reis e Povo».
Na cantaria da porta tem a data de 1774.
Santo António (Capelas de)
A capela de Santo António, da freguesia de Santana, data do segundo quartel do século XVI, e não
foi construída em 1730 como diz o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, mas sim reedificada por essa época. Em 1729, o povo pediu
licença à autoridade eclesiástica para a reconstruir, alegando que ela tinha sido edificada pelos paroquianos havia
aproximadamente dois séculos. Ficou concluída a sua construção a 13 de Abril de 1730, dia em que foi vistoriada para poder ser
benzida e em seguida aberta ao exercício do culto.
Numa propriedade que o morgado João José de Bettencourt possuía no sítio das Adegas, freguesia da Ponta do Sol, tinha a
respectiva casa de residência uma pequena capela ou oratório interior, cuja invocação desconhecemos. António Gonçalves de
Almeida comprou essa propriedade e fez a adaptação do oratório para uma capela com porta exterior, a que pôs a invocação de
Santo António. A capela foi benzida a 13 de Junho de 1853.
Na freguesia de Santa Maria Maior existiu uma capela dedicada a Santo António, fundada por 1682 no morgadio instituído pelo
capitão António Teles de Meneses. Julgamos ser a capela de que ainda há poucos anos existiam as ruínas na rua que hoje conserva
o nome de Santo António ou do Hospital Velho.
Existe na freguesia da Calheta uma capela dedicada a Santo António dos Milagres, que fica situada no Lombo do Salão e onde se
praticam ainda os actos do culto. É propriedade de Juvenal R. de Vasconcelos (1921).
Pelo nome de Santo António da Malvasia, era conhecida uma capela que existia na freguesia da Ribeira Brava, fundada por
Henrique Brandão Henriques, em 1696. A respectiva escritura de dotação é de 13 de Agosto do mesmo ano.
Mais uma capela dedicada a Santo António se encontrava na freguesia da Ponta do Sol. Levantava-se no sítio do lugar de Baixo (V.
este nome) e era pertença da casa Carvalhal. Quando esta propriedade foi vendida há cerca de trinta anos, os novos proprietários
dela demoliram a casa de residência que ali existia e a referida capela de Santo António que lhe ficava anexa. No mesmo local
edificaram uma bela casa de campo e junto dela fizeram reconstruir a antiga capela de Santo António. Foi benzida pelo prelado
diocesano D. Manuel Agostinho Barreto a 25 de Fevereiro de 1906.
Dentro do pátio da Alfândega (V. este nome) se encontra ainda uma pequena capela com a invocação de Santo António, construída
em 1714 pelo provedor João de Aguiar. Tem sobre o pórtico gravada a inscrição Ad salem sol.
Na freguesia do Monte, a pequena distancia da estrada que margina a Levada de Santa Luzia se encontra uma capela dedicada a
Santo Antonio, que Manuel Ferreira Frasão fez erigir no ano de 1718.
Por Santo António da Mouraria, era conhecida uma capela que Tristão de França Bettencourt fez erigir na freguesia de Santa Luzia
no ano de 1727.
A freguesia do Curral das Freiras pertencia ao convento de Santa Clara e nela construíram as religiosas uma capela de Santo
Antonio, que teve capelão privativo antes da criação da paróquia. Era de antiga construção, que remonta talvez aos fins do século
XVI. Quando em 1790 se criou a freguesia do Curral das Freiras, instalou-se a sua sede na capela de Santo Antonio, e ali esteve
alguns anos até a construção da nova igreja paroquial.
Na quinta de Santo António da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos encontra-se uma capela desta invocação, que foi
construída em 1705 por Inacio Viana do Rego. Pertenceu ao conselheiro Antonio Correia Heredia. Foi comprada há anos por
Francisco Pinto Correia e é hoje propriedade dos seus herdeiros (1921).
O capitão Antonio Espranger da Câmara erigiu uma capela a Santo Antonio na freguesia do Arco da Calheta, em 1724, sendo de 4 de
Junho deste ano a escritura de dotação.
Existiu na freguesia de Machico uma capela dedicada a Santo Antonio, cujo fundador e ano da construção desconhecemos.
No sítio do Pico, da freguesia da Ponta Delgada, houve uma capela com a mesma invocação, de que ainda restam algumas ruínas.
Também existiu uma capela deste orago no sítio da Terra Baptista, da freguesia do Porto da Cruz, pertencente a uma família de
apelido Nunes Caldeira.
Na quinta do Pomar, na paróquia da Quinta Grande, junto da bela casa de campo que ali existe, mandou o antigo vigário de Câmara
de Lobos, Antonio Silvino Gonçalves de Andrade construir no ano de 1883 uma capela da invocação de Santo Antonio. Este
sacerdote, que no seu tempo gozou da fama de grande pregador, era irmão dos Drs. Francisco Justino Gonçalves de Andrade e João
Jacinto Gonçalves de Andrade, dos quais nos ocupámos neste Elucidário (volume I, página 69 e 66). Esta capela de Santo Antonio é
hoje propriedade do Dr. João Francisco de Almada (1921).
Na antiga rua da Laranjeira (V. este nome), na cidade do Funchal, existiu uma capela de Santo António, que a câmara mandou
demolir a 5 de Fevereiro de 1836.
Existe uma capela dedicada a Santo António na vila da Ponta do Sol.
Santo António (Freguesia de)
É uma das cinco freguesias suburbanas do Funchal, e tem por limites as paróquias de São Roque,
São Pedro, São Martinho, Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos e Curral das Freiras.
Os terrenos que na actualidade constituem esta paróquia pertenceram primitivamente à freguesia da Sé, que então alargava a sua
vastíssima área até as faldas dos montes que circuitam o Curral das Freiras, que só em 1790 se desmembrou de Santo António.
Quanto à sua criação, diz-nos o Dr. Álvaro de Azevedo numa das suas notas á obra de Gaspar Frutuoso, o seguinte: «A freguesia de
Santo António, suburbana do Funchal, foi criada, provavelmente, pelo mesmo tempo que a de S. Pedro, em 1566, tendo ambas sido
separadas da Sé: indubitavelmente existiu desde antes de 1574, porque, como se vê do alvará de 16 de Setembro desse ano, foi
aumentada a anterior côngrua do seu vigário». Noutro lugar e noutra obra, fixa o Dr. Azevedo a data de 1568 como a do ano da sua
criação.
Escasseiam-nos os indispensáveis elementos para determinar com absoluta precisão o ano em que se estabeleceu esta paroquial
mas parece-nos dever remontar a sua criação a época anterior àquela, ao menos como curato autónomo, á semelhança de outros
que houve nesta diocese e que constituíam freguesias quasi inteiramente independentes e com vida civil e religiosa próprias. Os
assentos mais antigos que encontramos no respectivo arquivo paroquial são de 1557, e a partir desta época é regular a escrituração
dos termos de baptismo e casamentos, o que nos leva a supor que data precisamente deste ano a criação dum curato autónomo, que
seria elevado definitivamente a paróquia mais tarde e em ano que hoje não se pode fixar. Neste bispado existiam curatos
independentes e até capelas com pé de altar in solidum e «capelães curados», que depois se transformaram em outras tantas
freguesias ou antes foram a verdadeira origem delas. Grandes probabilidades, pois, para não dizer inteira certeza, militam a favor
da nossa afirmativa, determinando o ano de 1557 como o da criação dum curato, elevado definitivamente a paróquia pelos anos de
1566.
Pelos respectivos livros do registo se sabe que foi o padre Gonçalo Jorge Rodrigues o primeiro sacerdote que, no período decorrido
de 1557 a 1559, desempenhou aqui as funções paroquiais, não fazendo nunca indicação da categoria do cargo que exercia. O seu
sucessor, Francisco Afonso, de 1559 a 1569, intitulou-se sempre cura, bem como outros que se lhe seguiram. Torna-se muito
estranhavel que, ainda depois da criação da paróquia, que é sem sombra de duvida anterior a 1574, como se vê num documento
deste ano citado em vários lugares, continuam alguns sacerdotes que exerciam aqui o múnus pastoral a intitular-se curas, e outros,
ora curas ora vigários, como sucede com Afonso Lopes, de 1585 a 1586.
Os mais antigos párocos desta freguesia foram Gonçalo Jorge Rodrigues, Francisco Afonso, Miguel Rodrigues, Manuel Lopes,
Vicente Afonso, Afonso de Leme, Antonio Lopes, Domingos Fernandes, Fernão Gomes, todos no século XVI.
Somente a partir de 1574 é que podemos fixar o quantum das respectivas côngruas, em vista dos diplomas que encontramos citados
no índice Geral da Antiga Provedoria da Fasenda Real neste arquipélago a que por diferentes vezes nos temos referido.
O mais antigo desses diplomas é o alvará régio de D. Sebastião, de 16 de Setembro de 1574, passado a favor do pároco Antonio de
Lima e seus sucessores, elevando a côngrua anual, que era então de 13$300 réis, a 25$000 réis, também anuais, visto já ter a
paróquia atingido o numero de 120 fogos. Esta côngrua foi sucessivamente aumentando e decerto em conformidade com o
movimento sempre crescente da população, como se vê dos seguintes diplomas: alvará de 17 de Julho de 1588, acrescentando 30
alqueires de trigo á côngrua anterior de 25$000 réis; alvará de 14 de Dezembro do mesmo ano, aumentando a importância de
4$000 réis anuais pelas missas dos sábados pelas almas dos infantes; alvará de 26 de Agosto de 1645, alterando a forma do
pagamento da côngrua, que passou a ser de 10$000 réis em dinheiro e duas e meia pipas de vinho; e finalmente o alvará de 1 de
Outubro de 1775, acrescentando dois moios de trigo á côngrua fixada no diploma anterior. Outras modificações sofreria o
quantitativo das côngruas dos párocos desta freguesia, mas delas não temos conhecimento. A carta de lei de 26 de Março de 1845
alterou, profunda, mas não equitativamente, a distribuição das côngruas nesta diocese, não tendo porém a tabela anexa arbitrado o
vencimento do pároco de Santo Antonio, devido certamente a lapso ou inadvertida omissão. A côngrua, suprimida pelo decreto de
20 de Abril de 1911, era de duzentos mil réis anuais.
O desenvolvimento da população com o seu correlativo serviço paroquial levou o bispo diocesano D. Luís Figueiredo de Lemos, a
impetrar o estabelecimento dum curato nesta freguesia, cujo deferimento se deu pelo alvará de Filipe 2.°, de 29 de Outubro de
1602, que autorizou a criação deste lugar, sendo nele provido o padre Domingos Brás. O seu vencimento foi primitivamente de
20$000 réis anuais em dinheiro e de uma pipa de vinho. Esta côngrua foi acrescentada com um moio de trigo pelo alvará de 14 de
Agosto de 1609. A já citada carta de lei de 26 de Março de 1845 fixou ao curato desta freguesia a côngrua de 20$000 réis em
dinheiro e 1 pipa e 15 almudes de vinho, e 1 moio e 30 alqueires de trigo. O decreto de 20 de Abril de 1911 suprimiu a ultima
côngrua, que era de 130$620 réis anuais.
Temos razões para acreditar que os curas foram em determinada época de apresentação regia, pois vemos que o cura Fernão Gomes
se assinava «cura proprietário por el-rei», e também «cura confirmado», e encontramos citado o alvará régio de D. João IV, de 18
de Dezembro de 1648, em que é apresentado cura desta freguesia o padre Francisco de Gouveia.
Foi numa capela da invocação de Santo António, que decerto fazia primitivamente parte duma fazenda povoada, que, por meados
do século XVI, se estabeleceu a sede desta paróquia ou ao menos dum curato autónomo, como já acima fica dito. É possível que
anteriormente á criação da freguesia tivesse essa ermida seu capelão privativo, como geralmente acontecia em circunstancias
semelhantes. Essa capela deu nome ao sítio e depois á paróquia, ignorando-se o ano da sua construção.
Sofreu ela com o decorrer dos anos algumas modificações e mesmo acrescentamentos, mas sendo já pequena para a população, que
ia crescendo notavelmente, tornou-se necessário a construção de um templo de mais amplas proporções. O lugar escolhido foi o
terreno que fica entre a actual casa paroquial e a estrada publica, e que fazia parte do passal, cedido para esse fim pelo pároco de
então, o padre António Afonso de Faria, datando a sua construção do primeiro quartel do século XVII. No período decorrido de
1665 a 1682, se acrescentou a capela-mor e se construíram as capelas do Santissimo Sacramento e das Almas, realizando-se ainda
outros melhoramentos importantes. Não era um templo de acanhadas dimensões, pois tinha 6 altares, sendo interiormente bem
ornado em obra de talha dourada. Num provimento de 1756, se lhe chama «igreja rica», debaixo do ponto de vista da sua
decoração, mas já nesta época estavam os seis altares velhos e improporcionados», segundo o dizer do mesmo provimento.
Supomos que no fim do século XVII ou princípio do seguinte se fizeram na antiga igreja importantes obras de reedificação ou
acrescentamento, pois que no Indice Geral do registo da antiga Provedoria da Real Fazenda, nesta ilha, encontramos referência ao
alvará régio de 9 de Setembro de 1711, que manda continuar as obras da igreja de Santo Antonio, orçadas em 2.233$920 réis. Não
temos dados para afirmar que as obras se tivessem concluído em conformidade com aquele orçamento, mas é certo que em diversas
épocas se procederam a grandes reparos na antiga igreja paroquial desta freguesia. Com a construção do templo actual se começou
a desmanchar a velha igreja em 1785, ficando de pé a capela do Santíssimo Sacramento, que serviu de sede paroquial até l789.
Junto á residência do pároco existe ainda um pedaço de muro que a tradição afirma pertencer à antiga igreja.
O aumento sempre crescente da população e o estado de ruína, em que o terramoto de l748 deixou a igreja, aconselharam desde
logo a construção dum novo e mais vasto templo. Diz uma relação coeva do terramoto: «A igreja de Santo Antonio no frontispício
tem varias aberturas: a cantaria da porta principal está desconjuntada e as paredes do corpo da igreja partidas em diversos logares,
como também o estão os das officinas, e o que se sente mais é o tecto que está em grave dano».
Apesar da igreja ficar de tal maneira danificada e dos diligentes esforços empregados pelo respectivo pároco de então, o Dr. António
Pereira Borges, a construção do novo templo só começou em 1783, isto é 35 anos depois daquele grande abalo de terra. 0 local
escolhido foi uma courela quasi contígua à antiga igreja, constando da tradição que, não se encontrando terreno suficientemente
seguro nas escavações para aí se formar o alicerce das paredes, se lançaram nos fundamentos grandes troncos de castanheiros e
sobre eles os primeiros blocos de pedra que serviram de base aos muros do novo templo. Pode isto constituir novidade para a
Madeira, onde, a pequena profundidade do solo, se descobre sempre terra firme e segura, mas não em outros lugares em que a
natureza dos terrenos obriga a lançar mão daqueles e outros processos semelhantes.
Levou seis anos esta construção, que foi dada por concluída em 1789, embora por alguns anos continuassem os trabalhos da
ornamentação interior da igreja e em especial dos altares. Foi fiador e inspector das respectivas obras o alferes António Francisco
da Cruz Camacho, que faleceu no sítio da Ladeira desta freguesia a 21 de Agosto de 1815. Teve sepultura debaixo do arco da capela-
mor, em cuja pedra tumular se lê este epitáfio: sepultura do alferes António Francisco da Cruz Camacho e de sua mulher e filhos e
herdeiros, o que foi o fiador e inspector desta igreja, que teve seu principio no anno de 1783 e se concluiu em 1789. Mostrou sempre
a maior dedicação e desinteresse pelo adiantamento das obras, que por vezes prosseguiram com grande lentidão, embora por
motivos estranhos á sua vontade, devendo-se grande reconhecimento á sua memória pelo inexcedível zelo que desenvolveu em
favor do completo acabamento da nova igreja.
No frontispício e sôbre a porta principal está uma lápide onde se encontra a seguinte inscrição:
Antonio Lusitanorum Protectori
Templum Dedicat Aug. Reg. Maria Prima Illius Liberalitatem Efundentibus Suis In Hac Insula Ab Aerario Ad Ministris. Anno
MDCCLXXXIII
.
Apesar do serviço religioso se começar a realizar no novo templo em 1789, o seu definitivo acabamento interior levou ainda largos
anos. Os trabalhos da capela de Nossa Senhora de Guadalupe só foram dados por terminados em 1798; a capela-mor ainda em 1801
não estava de todo concluída e o acabamento da capela do Santíssimo Sacramento só se deu no princípio do século XIX.
Em 1880, sendo governador civil deste distrito o conselheiro José Silvestre Ribeiro e por seu mandado, realizaram-se importantes
obras nesta igreja, que consistiram principalmente no soalhamento da capela-mor, repairos nas paredes e torres, retelhamento de
todo o templo e outros pequenos consertos. Também em 1852 se fizeram alguns repairos de relativa importância na casa do
lavatório e noutras dependências da igreja.
Nunca tinham sido concluídos os campanários, e foi em 1880 que o cónego Feliciano Teixeira, deputado pela Madeira, conseguiu
do governo central a verba necessária para o acrescentamento das torres e seu definitivo acabamento. As respectivas obras só se
realizaram e concluíram em 1883. Os coruchéus das torres não foram construídos com a indispensável solidez, pois que um golpe
mais rijo de vento derrubou o do lado sul a 8 de Março de 1899, havendo necessidade de apear o do lado norte, por não oferecer
garantias de resistência.
Nesta igreja paroquial há uma capela consagrada a Nossa Senhora de Guadalupe, sendo muito antigo o culto que nesta freguesia se
presta à Virgem Santíssima debaixo daquela invocação. A construção desta capela deve-se principalmente ao cura Manuel J. Pereira
de Sousa, que não somente a ornou com belas decorações, mas ainda obteve um breve pontificio datado de 14 de Julho de 1805,
concedendo indulgência plenaria aos que visitarem este templo por ocasião da celebração da festividade de Nossa Senhora de
Guadalupe.
Tem esta paróquia as capelas de Santo Amaro, de Nossa Senhora das Preces, de Nossa Senhora do Populo, de São João e Santana,
de Nossa Senhora do Amparo e do cemitério, nas quais se celebra ainda o sacrifício da Missa. Existe profanada a de São Filipe e
encontra-se em ruínas a de Santa Maria Madalena. Já não restam vestigios da capela de Nossa Senhora da Quietação, de Santa
Quiteria e de Nossa Senhora das Brotas. De cada uma destas capelas nos ocupámos em outros lugares desta obra. Da capela de
Nossa Senhora do Populo, no sítio do Pico do Cardo, que foi pertença dos jesuítas, e da estada do beato Inacio de Azevedo nesta
freguesia, já nos ocupámos no volume I do Elucidário, a páginas 110, e no volume II, a página 187.
A capela de São João e Santana fica na quinta do Trapiche, que tem anexa uma excelente casa de campo e era propriedade de D.
Maria Paula Rego, herdeira do antigo morgadio Gouveia Rego, a que esta quinta pertencia. Serviu de residência de verão aos
últimos prelados desta diocese e há poucos anos esteve nela provisoriamente instalado o seminário diocesano. Trata-se de adaptar
esta propriedade rústica e urbana ao estabelecimento dum manicomio, tendo já alguns enfermeiros de São João de Deus dado
começo aos respectivos trabalhos (1921).
Os principais sítios desta freguesia são: Casas Próximas, Romeiras, Courelas, Quinta das Freiras, Terra Chã, Jamboto, Fontes,
Ladeira, Chamorra, Encruzilhadas, Vasco Gil, Casas, Casa Branca, Boliqueme, Barreira, Trapiche, Curral Velho, Laranjal, Lombo
dos Aguiares, Pomar do Miradouro, Ribeira Grande, Lugar do Meio, Salão, Álamos, Penteada, Quinta do Leme, Madalena, Levada
do Cavalo, Pilar, Pico dos Barcelos, Santo Amaro, Tanque, Alecrins, Preces, Pinheiro das Voltas, Santa Quiteria, Pico do Cardo, Três
Paus, Viana, Ribeiro dos Socorridos e Fajã. De muitos destes sítios se descortinam vastos e surpreendentes horizontes, merecendo
uma menção especial o Pico dos Barcelos, que ainda há poucos anos era quási inteiramente desconhecido para a grande maioria
É Santo Antonio a freguesia mais populosa desta ilha; o ultimo censo publicado dá-lhe o total de 8839 habitantes (1921).
dos funchalenses, mas que hoje, graças a uma estrada recentemente construída (1921), que dá fácil acesso á cumeada daquele pico,
se tornou ponto obrigado de todas as excursões que se realizam dentro do concelho do Funchal. Raramente passará um dia sem que
um numero considerável de automóveis, especialmente na ocasião da visita de turistas, suba àquela eminência, donde se desfruta
um dos mais maravilhosos trechos da incomparável paisagem madeirense.
Além dalgumas escolas moveis, tem esta paróquia nove escolas oficiais de ensino primário, que funcionam nos sítios da Madalena,
Casas Próximas, Salão, Terra Chã, Lombos dos Aguiares, Trapiche, Encruzilhadas, Chamorra e Romeiras.
Um grande melhoramento realizado nesta freguesia, nos últimos anos, foi o alargamento da estrada que do largo das Maravilhas
conduz á igreja paroquial. Os respectivos trabalhos começaram no fim do mês de Novembro de 1914 e ainda não estão
definitivamente concluídos (1921).
Com o titulo de Parochia de Santo Antonio do Funchal, começou a publicar-se em Março de 1914 uma pequena revista quinzenal de
que saíram 46 numeros, contendo uma noticia historica desta freguesia.
Não queremos deixar de referir-nos aos importantes melhoramentos realizados na igreja paroquial desta freguesia no periodo
decorrido de 1922 a 1928, em que se despenderam mais de trezentos contos de réis, recolhidos por subscrição pública entre os
respectivos paroquianos. A êsses melhoramentos, veio juntar-se o da colocação dum magnifico relogio em uma das tôrres do
campanario, dadivosa oferta do benemérito industrial Henrique Hinton, a qual presta um excelente serviço a esta populosa
freguesia.
Desses apreciáveis melhoramentos se faz uma mais larga referencia no livro Paroquia de Santo Antonio da Ilha da Madeira, que é
um volume de 230 páginas, contendo uma desenvolvida monografia historica da mesma freguesia, devida à pena de um dos co-
autores deste Elucidário.
Na imprensa local e na esfera da governação superior do distrito, surgiu, por mais duma vez, a ideia de dividir-se a freguesia de
Santo António em duas paroquias autonomas, em vista do seu continuo e progressivo desenvolvimento populacional e do
alargamento da sua área territorial, que amplamente se vai estendendo pelas elevações montanhosas que circundam a mesma
freguesia. Ficariam tendo as acertadas denominações de Santo Antonio de Cima, com sede no sitio do «Boliqueme» ou das
«Encruzilhadas», e Santo Antonio de Baixo com sede no sitio das «Casas Proximas». A primeira teria uma populacão aproximada
de 9.000 habitantes e a segunda contaria cêrca de 6.000. A maior dificuldade na execução dessa projectada ideia, que traria
incontestaveis vantagens aos respectivos moradores, seria a da construção de uma nova igreja paroquial e de um presbiterio ou
residencia destinada ao pessoal eclesiastico.
Santo Antonio (Picos de)
Na Freguesia de Santo António e com igual nome, existe um pico que tem a altitude de 400 metros e
que fica situado a pequena distância da igreja paroquial.
Sobranceira à freguesia do Curral das Freiras, encontra-se uma elevação montanhosa que atinge a altitude de 1740 metros e de
cujas eminências se descortinam vastos panoramas.
Santo António da Serra (Freguesia de)
A freguesia de Santo António da Serra ou do Santo da Serra, como é mais geralmente
conhecida, fica em boa parte situada em um planalto sobranceiro às freguesias de Santa Cruz e Machico, numa altitude media de
700 metros acima do nivel do mar. É considerada como uma das mais belas e encantadoras estancias desta ilha. Se tem uma quadra
invernosa sujeita a chuvas e ventos freqüentes e com notaveis baixas de temperatura, é, no entretanto, muito procurada na estação
calmosa pela frescura e amenidade do seu clima, de par com as surpreendentes belezas da sua admiravel paisagem. Encontram-se
ali algumas excelentes casas de campo, onde varias familias, especialmente de Santa Cruz e Machico, costumam passar os meses
mais quentes do ano. Foi noutros tempos bastante visitada por inglêses, que nesta localidade construiram algumas quintas que
ainda existem.
Como todos os pontos do interior da Madeira, e particularmente pelas suas condições climatericas e maciço cerrado dos seus
arvoredos, não foi o Santo da Serra sujeito a qualquer exploração agricola ou tentativa de colonização nos primitivos tempos do
povoamento da nossa ilha. Conjectura-se que, sòmente no primeiro quartel do século XVI, se daria começo ao arroteamento de
algumas terras no planalto onde actualmente se encontra a igreja paroquial ou nas suas mais proximas imediações, supondo-se
também que por aquela época ainda ali não existiriam habitantes de moradia fixa.
«Duas ermidas, diz o padre Fernando Augusto de Pontes, ergueu primitivamente ali Gil de Carvalho. A primeira não a chegou a
ultimar, ao Alcoforado, sitio da sua residencia, que ainda guarda o nome de Ermida. A segunda ocupa a séde paroquial deste lugar».
Afirma o mesmo sacerdote, no seu livro Excursões, que Gil de Carvalho faleceu em Santa Cruz em 1541, o que faria remontar a
construção das capelas a uma época mais remota, pois somos de opinião que essa edificação não seria anterior ao ultimo quartel do
século XVI. A que foi transformada em igreja paroquial já existia em 1612, visto que um alvará régio de 3 de Setembro deste ano
mandava aplicar a importância de 70:000 réis para a compra dum retábulo destinado a mesma capela. É de supor que por esta
época já por ali se encontrasse um núcleo de população de relativa importância. Teve esta ermida capelão privativo e em 1790 foi-
lhe permitido acudir com os ultimos sacramentos em casos repentinos.
Diz o ilustre anotador das Saudades. «A freguezia do Santo da Serra era uma antiga ermida subordinada ao vigário de Machico.
Como este e os de Santa Cruz e Água de Pena disputassem, renhidos, a posse desta ermida, o bispo D. Fr. Lourenço de Tavora, em
1612, a tomou sob sua protecção, e provavelmente a constituiu em curato.. Com o decorrer dos tempos, prosseguiram estas
contendas de jurisdição, e mais tarde se repetiram essas lutas com a delimitação dos concelhos de Santa Cruz e de Machico. Foi
certamente a partir daquela época, isto é, no primeiro quartel do século XVII, que a capela de Santo Antonio da Serra passou a uma
directa jurisdição episcopal e que aquele prelado tomou de aforamento os terrenos circunvizinhos da ermida, que sempre foram
considerados como pertença da mitra do Funchal. Esses terrenos, por especial concessão dos bispos diocesanos, foram mais tarde
facultados aos parocos como fazendo parte do respectivo passal. O curato, porém, só foi criado no ano de 1813, ficando constituído
com os sítios das Preces, Ermida, Margaça e Madeira da Igreja, pertencentes à freguesia de Machico, com os sítios de Mouro,
Ameixieiras, João Ferino, Curral Velho, Ribeiro de João Gonçalves e Madre de Água, da freguesia de Santa Cruz, e com o sítio da
Achada do Barro, da freguesia de Água de Pena.
Encontrando-se no Santo da Serra o vigário capitular e governador do bispado António Alfredo de Santa Catarina Braga, expediu
dali uma provisão, datada de 13 de Junho de 1836, extinguindo a freguesia de Água de Pena e criando a do Santo, ou melhor,
anexando aquela ao curato do Santo da Serra e fazendo neste a sede da nova paróquia, com o nome de freguesia do Santo da Serra e
Água de Pena. Não teve longa duração a nova paróquia, porque a carta regia de 24 de Julho de 1848 restaurou a antiga freguesia de
Agua de Pena, perdendo então o sítio da Achada do Barro, que foi incorporado no Santo da Serra. Esta localidade, que era um
curato filial de Machico, ficou constituindo paróquia autónoma desde o ano de 1848.
Varias desinteligências se levantaram entre as câmaras de Santa Cruz e de Machico, e que duraram longos anos, àcêrca da
delimitação da área dos respectivos concelhos, pretendendo cada qual incorporar na sua jurisdição uma parte considerável do
Santo da Serra, tendo essas lutas terminado no ano de 1862, como já fica referido a páginas 299 do II volume, para onde remetemos
o leitor afim de evitarmos escusadas repetições.
A primitiva capela onde se instalou a sede do curato e da paróquia, deve ter sido construída pelos fins do século XVI ou princípios
do século XVII. Em 1612, como já vimos, foi-lhe concedida a quantia de 70:000 réis destinada á factura do respectivo retábulo.
Sofreria, por certo, vários repairos e teria sido mesmo acrescentada, até que por meados de século passado foi totalmente
reedificada com as proporções que actualmente conserva. O governo fez reconstruir em 1851 a capela-mor, e parte da casa
paroquial, despendendo-se cerca de quatro contos de réis. O cônsul americano João Howard March (volume II páginas 339)
edificou á sua custa o corpo da igreja e os muros gue circundam o vasto adro, tendo sido louvado, por portaria de 3 de Julho de
1855, pelos relevantes serviços prestados a esta freguesia e especialmente pela construção da igreja.
A bênção solene do novo templo realizou-se no dia 23 de Agosto de 1857 com a assistência do prelado diocesano D. Manuel Martins
Manso, tendo por essa ocasião proferido um notável discurso o distinto orador sagrado cónego Francisco João de Freitas Ferraz.
Em frente da residência paroquial, fizeram alguns súbditos ingleses construir uma casa destinada a abrigar os indivíduos que, de
freguesias distantes, iam ali em romagem ao pequeno santuário dedicado a Santo António, que era então uma capela de acanhadas
dimensões. A casa, que foi edificada por 1808, não era pequena e tinha um certo aparato arquitectónico. Esteve alguns anos sob a
administração de uns comerciantes ingleses, que velavam pela sua conservação e asseio, mas foi depois deixada ao abandono,
ficando reduzida, dentro de poucos anos, a um informe montão de ruínas. A direcção das obras publicas deste distrito, que teve a
superintendência do edifício, e também a algumas pessoas desta freguesia, se deve o abandono a que foi votada a casa e o seu
rápido desmoronamento.
No artigo consagrado ao bispo desta diocese D. Luís Rodrigues de Vilares, já referimos que este prelado residiu alguns meses nesta
freguesia, cumprindo uma pena de deportação que lhe foi imposta pelo governador e capitão-general D. José Manuel da Câmara,
(Ver volume III, página 216).
Foi esta uma das freguesias em que o proselitismo protestante, iniciado e exercido pelo Dr. Roberto Kalley (volume II, página 208),
lançou mais fundas raízes e maiores perturbações levou ao seio das pacificas populações da Madeira. Deram-se alterações da ordem
publica nesta localidade em 1844, efectuaram-se muitas prisões, houve investigações e devassas nas sedes dos concelhos de Santa
Cruz e Machico, e vários processos se instauraram contra os amotinadores e alguns apóstolos das novas doutrinas. Os
propagandistas não tem esquecido a primitiva evangelização calvinista e mantiveram sempre até o presente o seu proselitismo,
embora sem resultados apreciáveis. Foi o próprio Dr. Kalley que, nesta freguesia. na quinta do Serrado das Ameixieiras, com a sua
rara e avassaladora eloquência, levou um avultado numero de indivíduos a seguirem as ideas calvinistas.
Já acima nos referimos á surpreendente paisagem desta freguesia e aos arrebatadores panoramas que nela se desfrutam, sobretudo
nos sítios dos Lamaceiros, Portela e Macelas. Diz o já citado padre Fernando de Pontes: «Na Portela, fica a freguesia do Porto da
Cruz aos pés do espectador. Nos Lamaceiros não ha sómente a vista do Porto da Cruz e Penha de Águia, senão também parte do
Faial e Santa Anna, envolta nas louçanias de uma vegetação opulenta. Nas Macelas, ha os visos dos montes cobertos de verde ao
norte, immenso estendal de verdura e um sem numero de casaes debaixo dos olhos; no centro uma ribeira a collear e a fugir como
listas de prata; lá em baixo o alvejar de muitas casas junto a um templo; mais lá, a onda que se debate na rocha; além, a majestade
sombria das rochas de São Lourenço a mirar-se nas águas adormecidas, e a vastidão do oceano ao cabo...».
Não pode ficar sem referencia especial que nos dizem os Annais do Porto Santo com respeito ao estabelecimento duma povoação na
freguesia do Santo da Serra, constituída por habitantes daquela ilha. O interessante facto vem narrado no antigo Heraldo da
Madeira, nos seguintes termos: «D. Maria I, compadecendo-se das successivas crises porque passava o Porto Santo, onde a fome
batia ás portas dos menos abastados não obstante as medidas que tomara o marquez de Pombal, houve a resolução de fazer
transportar para Santo Antonio da Serra, alguns desses indigentes a quem proveu de todo o necessário, gastando muito da sua
generosidade e aos cofres públicos 50 mil cruzados na construção de alguns casaes que foram gratuitamente distribuídos.
Santo António da Serra passou a chamar-se a Aldeia da Rainha, por alvará de 18 de Dezembro de 1768, perdendo Machico os
terrenos da ermida para o norte que foram anexados á nova povoação.
Os elementos, porem, com que foi constituída, não eram de molde a cimentar-se em tão auspiciosos alicerces. Sem aptidões para a
agricultura e com negação ao trabalho, os emigrados do Porto Santo, acossados pelo frio do inverno e profunda nostalgia, foram
revertendo ao antigo lar, até que de todo abandonaram a Aldeia no ano de 1783.
A má administração e a falta de zelo pelos bens do Estado foram sempre uma das causas que tem contribuído para o nosso
desnivelamento. Disputas e contendas a propósito de tudo, em que se gastam rios de dinheiro.
Os municípios de Machico e Santa Cruz queriam ambos a interferencia na aldeia, litigaram muito e venceu o primeiro quando esta
já quasi não existia.»
Principais sítios desta freguesia: Ermida, Margaça, Madeira da Igreja, Fajã dos Rolos, Ribeira de Machico, Lombo das Faias, Fajã
das Vacas, Lombo das Raizes, Casais Proximos, Achada do Barro, Poiso, Madre de Água, Serrado das Ameixieiras, Ribeira de João
Gonçalves, Terra de Braga, João Ferino e Curral Velho.
Tem 2.130 habitantes (1921).
Ver Crateras e Geologia.
Santo Espírito (Capela do)
Esta capela situada na Lombada dos Esmeraldos (V. este nome), da freguesia da Ponta do Sol, foi
sede dum dos dois morgadios ali instituídos pelo flamengo João Esmeraldo (V. este nome), sendo o outro conhecido pelo nome de
morgadio do Vale da Bica. A capela do Santo Espírito, a que hoje chamam de Nossa Senhora da Conceição, foi construída no
princípio do século XVI pelo referido João Esmeraldo, tendo sido benzida, ou melhor, sagrada em 1508 pelo bispo D. João Lobo,
que antes da criação da diocese viera a esta ilha exercer as funções episcopais, por mandado do grão-mestre da Ordem de Cristo, a
que o arquipélago pertencia no espiritual. Ainda hoje se lê numa das paredes internas do templo a seguinte inscrição: Esta igreja foi
consagrada por D. João Lobo, Bispo de Taiere aos 27 de Agosto de 1508. Não resta duvida de que a igreja actual não é a da
construção primitiva. Foi reedificada por meados do século XVII e em proporções mais amplas do que o primeiro traçado. Sofreu
há poucos anos novas reparações e foi benzida em 1904, como consta dos seguintes dizeres que ali se encontram: «Esta capela,
tendo sido reparada, foi benzida novamente em 10 de Junho de 1904, com as solenidades do estilo, pelo prelado diocesano S. Exa.
Rev.ma D. Manuel Agostinho Barreto»,. É a mais vasta, mais elegante e mais rica capela de toda a diocese. São dignos de admiração
os azulejos que cobrem o rodapé das paredes do corpo e capela-mor da igreja, representando em figuras simbólicas os dons e frutos
do Espírito Santo. Nesta capela, que tem cinco altares, encontram-se algumas imagens artística e magistralmente esculturadas, que
logo prendem a atenção dos visitantes. Nas proximidades desta igreja se levanta ainda, embora muito danificada, a vasta e
aparatosa casa dos administradores deste morgadio, de que o 2 ° conde de Carvalhal foi o ultimo possuidor.
Na revista madeirense A Esperança, de 1 e 15 de Outubro de 1920, se encontra uma interessante descrição desta capela, considerada
debaixo do ponto de vista artístico, que merece ser lida, apesar do que porventura possa haver de hiperbólico nessa mesma
descrição.
Vid. o opúsculo A Lombada dos Esmeraldos
pelo padre Fernando A. Silva.
Santo Servo de Deus
V.Guarda (Fr. Pedro da ).
Santos (Duarte Joaquim dos)
Este distinto musico e compositor nasceu em Elvas, mas residiu alguns anos no Funchal e aqui
faleceu, com 54 anos, a 24 de Maio de 1855. (V. o Heraldo da Madeira, de 14 de Julho de 1910).
Santos (Joaquim José de Faria)
Nasceu no Funchal a 21 de Janeiro de 1822 e desempenhou o cargo de escriturário da secretaria
da Câmara. Colaborou no Archivista, Ordem, Baratissimo, Madeira e Verdade, e faleceu nesta cidade a 12 de Abril de 1886.
Santos (Jorge)
Vid.Rodrigues dos Santos (José Jorge ).
Santos (D. Fr. Miguel dos)
Segundo nos informa Henrique Henriques de Noronha nas suas acreditadas «Memórias Seculares e
Eclesiásticas. (Vid. 1-389) foi bispo de S. Tomé de Meliapor o religioso Fr. Miguel dos Santos, natural desta ilha e filho de Diogo
Colaço de Abreu e de D. Maria Chamorra, não indicando outras circunstancias que permitam uma mais completa identificação
deste prelado.
Santos (0ctavio)
Nasceu no Funchal a 17 de Janeiro de 1900, usando nos seus escritos o pseudónimo de Octavio Marialva. Além
da sua colaboração em vários jornais e revistas, tem publicado muitos opúsculos em prosa e verso, dos quais podemos mencionar
«Século 100», «0 Reino dos Génios», «Sinfonia do Eu», «Autoverdade», «A Cortesã do Palácio Pitti», «Policia Mental», «O
Verdadeiro Colombo», «0 Segredo dos Fakires», «O Testamento de um Doido», «Auto-Expressão», «Divino Paraíso», «Victoria de
Samotracia», «Iokannan», «Cavalgada Heróica», etc..
Santos (Vitorino José dos)
Nasceu no Funchal a 29 de Dezembro de 1863, sendo filho de Augusto César dos Santos e de D. Isabel
de Ornelas Santos, e é engenheiro civil, tendo feito os respectivos estudos nas antigas escolas Politécnica e do Exército, em Lisboa.
Foi director das obras publicas, municipais de Luanda e engenheiro-chefe de secção das obras publicas da província de Angola, e
depois de regressar ao Funchal foi aqui administrador do concelho e comissário de policia. É director e professor da Escola
Industrial Antonio Augusto de Aguiar e chefe da 6ª. Circunscrição dos Serviços Técnicos da Indústria, no Funchal, tendo escrito no
exercício deste ultimo cargo vários relatórios que foram publicados no
Boletim de Trabalho Industrial
, alguns dos quais, como os
que dizem respeito a instituições de beneficência e associações de classe, bordados, artefactos, obras de verga e embutidos, são
trabalhos completos e bastante valiosos. Publicou também um livro de versos, intitulado
Lágrimas
, de que se fizeram duas edições,
a primeira no Funchal, em 1916, a segunda em Coimbra, em 1918 (1921).
Faleceu a 1 de Outubro de 1928.
Santos Cosme e Damião (Capela dos)
) Com esta invocação existiu, mas há muito que desapareceu, uma capela no sítio do Salão,
da freguesia da Calheta, que foi fundada em 1681 pelo cirurgião Antonio de França Gomes.
Santos Reis (Capela dos)
) Ficava nas proximidades do antigo hospital da Misericórdia, quando este se achava instalado num
prédio da rua conhecida pelo nome de Hospital Velho e mais tarde de Santo Antonio. Foi doada em 1514 pelo rei D. Manuel ao
hospital desta cidade.
Com a mesma denominação existe na Quinta dos Reis, da freguesia do Monte, uma capela mandada construir por Duarte Mendes
de Vasconcelos, no ano de 1554.
Vid. Reis Magos (Capelas dos).
São Bartolomeu (Igreja de )
(Igreja de
). A antiga igreja de S. Bartolomeu foi construída na rua Direita da antiga povoação do Funchal, rua
que então se estendia pela margem esquerda da ribeira de Santa Luzia até as proximidades da actual ponte do Torreão. Teve por
fundador a Gonçalo Eanes de Velosa e existia anexa a ela um hospital ou albergaria destinado a recolher clérigos pobres e inválidos.
Nela instituiu um vinculo com obrigação de ali se celebrar uma missa em todas as sextas-feiras do ano, por alma do infante D.
Fernando. Foi sepultado na referida igreja, tendo na lápide da sua sepultura gravado o seguinte epitáfio, segundo lemos num antigo
nobiliario: Aqui jaz Gonçalo Annes de Veloza, escudeiro do infante D. Fernando que Deus tem, natural de Celorico, edificador desta
igreja de São Bartholomeu e hospital, o qual se finou na era de 1497, em 1 de agosto. 0 anotador da Historia Insulana diz que esta
albergaria nunca foi habitada por clérigos pobres, segundo as disposições de seu instituidor, e que muitas vezes serviu de
alojamento aos missionários que, de passagem para a Índia, se demoravam no Funchal.
Foi neste hospício que em 1566 se instalaram os jesuítas, e ali permaneceram até a construção da igreja e colégio de São João
Evangelista.
A igreja de São Bartolomeu, há muito profanada, foi demolida no segundo quartel do século passado.
São Bartolomeu (Ribeira e Porto de)
A ribeira que tem este nome nasce no planalto do Paul da Serra e serve de linha divisória
das freguesias da Calheta e Estreito da Calheta indo lançar-se no Oceano. Na sua foz, há um insignificante porto, conhecido pelo
nome de Porto da Ribeira, pouco distanciado da Ponta da Galé.
São Bernardino (Capela de)
) V.Convento de São Bernardino
São Caetano (Capela de)
António de Carvalhal Esmeraldo Alencastre, fidalgo da Casa Real, e sua mulher D. Josefa Jacinta
Betencourt Correia Henriques, mandaram construir em 1780, no sítio das Terças da freguesia da Ponta do Sol, uma capela
consagrada a São Caetano, na quinta que ali possuíam e que tinha o mesmo nome da capela.
São Cândido (Capela de)
No sítio que chamavam Fonte da Rocha da freguesia de Câmara de Lobos, construiu o cónego Francisco
Cândido Correia Henriques, no ano de 1732, uma capela consagrada ao mártir São Cândido, a que fez a conveniente dotação a 16 de
Maio do sobredito ano. Encontra-se em ruínas (1921).
São Cristóvão (Capelas)
A capela, que fica na freguesia de Machico, no sítio que dela tomou o nome, foi edificada em virtude de
disposição testamentaria de Cristóvão Moniz de Meneses, feita em 1690, determinando a sua construção. No pórtico tem gravada a
data de 1692.
Na freguesia da Ponta Delgada, em terreno que hoje pertence á paróquia da Boaventura, se levantava a capela de São Cristóvão, de
construção antiga, pois consta do arquivo paroquial da primeira daquelas freguesias que já em 1578 se encontrava em mau estado
de conservação, sendo então D. Maria de Leme administradora dela. Sofreu varias reparações e foi demolida no ano de 1748. Deu o
nome ao sítio em que fora edificada.
São Fernando (Capela de)
No sítio que ainda hoje conserva este nome, na freguesia de Santa Cruz, existiu a capela de S.
Fernando, cujo instituído e ano da edificação desconhecemos.
São Filipe (Capela de)
O flamengo António de Leme teve terras de sesmaria na freguesia de Santo António, no sítio ainda hoje
conhecido pelo nome de Quinta do Leme, e ali edificou uma casa e capela, a que o anotador das Saudades fixa o ano de 1536. Por
documentos que tivemos ocasião de examinar, vemos que esta capela de São Filipe foi reconstruída em 1654 por Inacio da Câmara
Leme, sucessor do fundador na administração deste vinculo. O terramoto de 1748 deixou-a em grande ruína tendo sido novamente
reconstruída pelo seu administrador Francisco Aurelio da Câmara Leme no ano de 1752.
No sítio que ainda hoje conserva o nome de São Filipe, na freguesia de Santa Maria Maior, encontra-se, profanada e em adiantado
estado de ruína, uma capela desta invocação, edificada no ano de 1562 por Filipe Gentil de Limoges, e que era a cabeça do morgadio
por ele instituído naquele ano.
Já em outro lugar dissemos que, nesta capela, ainda não ha muito se lia numa lage tumular a inscrição: = Sepultura dos inocentes
que tiranamente mataram na Achada desta cidade. = 1621. Ignoramos os nomes dos indivíduos a que se refere esta inscrição e os
motivos que determinaram aquelas mortes, mas é de supor que se trate de pessoas da família Limoges, a que a referida capela
pertencia (1921).
Elementos colhidos posteriormente a esta data, permitem informar com segurança que a data inscrita na referida sepultura é de
1666 e que o epitáfio diz respeito ao enterramento que ali se fez das ossadas de muitas crianças mortas pela «ama dos expostos»
dessa época, a qual recebendo os «enjeitados»» os matava e enterrava proximo da sua morada no conhecido sítio da Achada da
freguesia de São Roque. Esta capela, que se encontrava em adiantado estado de ruína, foi restaurada pela sua proprietária, a
condessa de Torre Bela, e benzida pelo prelado diocesano a 13 de Abril de 1925.
São Filipe (Forte de)
Este forte, construído, segundo parece, durante o domínio filipino, tinha entrada pelo largo do Pelourinho e
ficava entre as ribeiras de Santa Luzia e de João Gomes. Foi cedido à Câmara em virtude duma representação que esta dirigiu ao
Governo em 27 de Fevereiro de 1896, mas que só foi atendida muitos tempos depois. O grande edifício onde está a fábrica de
espremer cana doce do Largo do Pelourinho, assenta em parte sobre terreno do antigo forte de São Filipe (1921).
São Francisco (Capelas de)
Arruinada e desde há muito separada do serviço do culto, existe ainda na freguesia da Calheta a
capela de S. Francisco, que era a pequena igreja do convento de religiosos franciscanos, que ali houve. Pertence a Pedro César de
Brito (1921).
Na freguesia de S. Pedro e caminho de Santo António, existiu a capela de S. Francisco, mais conhecida pelo nome de S. Francisco
das Furnas. Foi fundada pelo cónego Pedro Correia Barbosa no ano de 1697. Pertenceu ao morgado Jérvis de Atouguia. Na casa que
lhe ficava anexa, nasceu o visconde de Atouguia (V. este nome) a 7 de Julho de 1797. 0 conego Pedro Correia Barbosa é o mesmo a
que nos referimos a página 126 do volume I deste Elucidário.
Ambrosio Vieira de Andrade erigiu na freguesia de Santa Luzia uma capela dedicada a S. Francisco, no ano de 1675.
São Francisco (Rua de)
Estende-se desde a rua da Carreira, ou do Dr. Vieira, até a avenida do Dr. Manuel de Arriaga, e recebeu,
em sessão da Câmara Municipal do Funchal de 6 de Julho de 1922, a denominação um tanto vaga de «rua 22 de Março de 1921»,
por ser nesta data que os arrojados aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram a sua viagem aérea entre
Lisboa e Madeira.
Bom seria que se restabelecesse o antigo nome da rua, visto o público não estar resolvido a reconhecer outro, e a Câmara ter
prestado já homenagem aos dois referidos aviadores dando os seus nomes gloriosos a duas ruas desta cidade (1921).
Sao Francisco de Borja (Capela de)
Era de S. Francisco de Borja e não de S. Francisco Xavier, como se lê nas Saudades, a capela
que no sítio da Cruz da Guarda, da freguesia do Porto da Cruz, fez erigir D. Francisco de Vasconcelos no ano de 1760, junto das
casas que ali possuía. A respectiva escritura é de 2 de Maio daquele ano.
São Francisco Xavier (Capelas de)
No sítio do Salão da freguesia da Calheta, onde chamam o Cadeado, encontra-se uma
pequena capela com esta denominação, que está ainda consagrada ao serviço do culto. Foi fundada por Manuel da Silva Pinheiro
em 1693, sendo a respectiva escritura de dotação de 7 de Agosto do mesmo ano. Pertence aos herdeiros de D. Vicencia Julia de
França Doria (1921).
Tendo o mesmo orago, erigiu João Vieira de Afonseca uma capela na freguesia de Santa Cruz, no ano de 1684.
Da mesma invocação, houve uma ermida na freguesia do Porto da Cruz, no sítio da Cruz da Guarda, cujo instituidor se ignora,
tendo sido dos seus últimos possuidores João Francisco Moniz de Meneses Cabral e sua mulher D. Maria Isidora Alvares de
Carvalho, que a legaram a seu sobrinho o padre Francisco Xavier de Sousa e Castro.
São Gil (Capela de)
Antão Alvares de Carvalho fundou em terras vinculadas que possuía na freguesia de Santa Cruz, uma capela
consagrada a São Gil, no sítio que tem este nome.
São Gonçalo (Freguesia de)
No extremo oriental do Funchal, fica situada a freguesia de São Gonçalo, que é uma das cinco
freguesias suburbanas deste concelho. Confina a oeste com a freguesia de Santa Maria Maior e a leste com a do Caniço. Apertada
entre estas duas paróquias, estende-se desde a orla do oceano até aos cumes dos montes que limitam uma parte do Funchal.
Os terrenos que constituem esta freguesia pertenceram primitivamente á paróquia de Santa Maria Maior, e quando esta passou a
ter a sua sede na igreja que depois serviu de Catedral, nela ficaram também incorporados os mesmos terrenos, voltando novamente
a fazerem parte da freguesia de Santa Maria Maior ao ser o Funchal dividido em duas paróquias, pelos anos de 1558.
Da capela de Nossa Senhora das Neves, onde foi instalada a sede da paróquia, já demos breve noticia a página 462 do volume II.
Teve ela seu capelão privativo, que desempenhava algumas funções paroquiais, sendo depois elevada à categoria de curato por
alvará régio de 7 de Março de 1566, tendo o cura o vencimento anual de 12:000 réis em dinheiro e um moio de trigo. O Índice Geral
do Registo da antiga Provedoria, que tantas vezes temos citado, faz menção dos seguintes diplomas: carta regia de 16 de Setembro
de 1574, arbitrando ao cura 20:000 réis anuais, por ter o curato mais de 100 fogos; alvará régio de 9 de Junho de 1581, fixando em
25:000 réis esse ordenado; alvará de 3 de Fevereiro de 1589, acrescentando ao mesmo vencimento trinta alqueires de trigo e um
quarto de vinho; e alvará de 14 de Dezembro de 1592, fixando a respectiva côngrua em 16:000 réis em dinheiro, um moio de trigo e
uma pipa de vinho. Em nenhum destes diplomas se fala de paróquia ou vigairaria, mas sim de beneficiado curado, embora com
atribuições de pároco. Dizem as Saudades da Terra que a paróquia foi criada pelo alvará régio de 12 de Março de 1574, sendo certo
que o alvará acima citado, de 16 de Setembro de 1574, que é posterior aquele, ainda expressamente se refere a um beneficiado
curado. Pelo exame e confronto que temos feito de muitos diplomas respeitantes à criação de diversos cargos eclesiásticos, podemos
afirmar que os alvarás citados no Indice Geral da Provedoria oferecem maior segurança nas suas datas que os citados pelo ilustre
anotador de Gaspar Frutuoso. O que nos parece mais provável é que o beneficiado curado criado pelo alvará de 7 de Março de 1566
corresponda à criação da paróquia e que naquela época se confundissem as atribuições inerentes a certos cargos.
A capela de Nossa Senhora das Neves, primitiva sede da paróquia, data do século XVI, como já referimos, e é das mais antigas desta
diocese. Sofreu varias modificações no decorrer dos tempos, mas já nos princípios do século XVII era de acanhadas dimensões para
a população da freguesia. Apesar de varias diligências empregadas, foi somente nos fins do século XVII que um mandado do
Conselho da Fazenda, de 15 de Outubro de 1697, ordenou que se edificasse um novo templo, tendo-se começado a sua construção
nos princípios do século XVIII.
Havia nesta paróquia as capelas de Nossa Senhora da Incarnação e de Nossa Senhora da Piedade, e ainda existem as de Nossa
Senhora das Neves e de Nossa Senhora da Boa Nova. Delas tratamos em outro lugar.
O primitivo povoamento desta paróquia e as primeiras explorações agrícolas feitas na sua área devem ser contemporâneas, bem
como as das outras freguesias deste concelho, da colonização e do arroteamento dos terrenos que João Gonçalves Zargo logo iniciou
no Funchal após a descoberta e o incêndio que lavrou nos densos arvoredos que cobriam certamente toda a extensão do vale. Dum
primitivo povoador, que foi o mais distinto companheiro de Zargo na faina do descobrimento, sabemos que possuiu extensos
terrenos de sesmaria nesta freguesia, que se estendiam desde a margem direita da ribeira a que deu o nome até entestarem com a
ribeira de João Gomes, tendo ao norte como limites as cumeadas da serra. É Gonçalo Aires, de que já nos ocupámos com algum
desenvolvimento a página 21 do II volume desta obra.
Dentro dos limites desta freguesia ficam a magnífica quinta do Palheiro (volume III. página 43) e o lazareto de Gonçalo Aires, na foz
da ribeira do mesmo nome (volume II, página 223 e s.).
Os principais sítios são: Forca, Louros, Murteiras, São João de Latrão, Salões, Fonte, Boa Nova, Lombo da Quinta, Ribeira da
Quinta, Palheiro do Ferreiro, Algarvio, Bica de Pau, Igreja, Ribeiro Seco, Neves e Cancela.
Conta 2987 moradores (1921).
São João Baptista (Capelas de)
Mais vulgarmente conhecida pelo nome de São João da Ribeira é a capela que fica situada na
margem direita da ribeira mais ocidental do Funchal, que no decorrer dos tempos tem sido chamada ribeira de Santa Catarina, de
São Paulo, de São Lazaro, de Santo António e de São João, sendo esta ultima a denominação que actualmente conserva. Alguns
atribuem a fundação desta capela a João Gonçalves Zarco, sendo sem duvida das mais antigas da diocese e uma das poucas do
século XV que ainda existem, embora nada se conserve ali da construção primitiva. Os religiosos franciscanos, que acompanharam
o descobridor a esta ilha, construíram junto à capela um pequeno cenobio e ali se conservaram até a construção do convento de São
Francisco, levantado na então vila do Funchal. Diz Frutuoso que sendo «o logar ermo e nelle um frade... se enforcou, estes
religiosos ordenaram uma casa em baixo...».
Desta noticia difere o que diz o anotador da Historia Insulana, afirmando que os franciscanos «viviam como ermitas... e onze anos
depois da descoberta, augmentando-se o numero delles... reuniram-se em congregação no hospício e ermida de S. João, que
começaram a edificar em 1432 com algumas esmolas e trabalhos das suas mãos, sem que o Zargo fundasse a ermida...; em 1459
deixaram os religiosos o hospício de São João e seguiram viagem para Portugal...; passados quinze anos chegou à ilha Fr. Rodrigo
da Arruda..., o qual instaurou a comunidade no mesmo hospício de São João... Por 1476 instalaram-se os frades em S. Francisco».
Estas informações do deão Gonçalves de Andrade, que nos parecem as mais exactas, foram colhidas nas crónicas franciscanas e são
por ele dadas como refutação das afirmações do padre Antonio Cordeiro.
Uma impetuosa enchente da ribeira destruiu a capela e parte do hospício adjunto no princípio do século XVIII, tendo a fazenda
nacional procedido á sua reconstrução no ano de 1720. A aluvião de 1803 também lhes causou estragos consideráveis.
Em 1762, fundou nesta capela o bispo diocesano D. Gaspar Afonso da Costa Brandão uma confraria de São João Baptista, destinada
a manter ali as funções religiosas, mas que julgamos não ter tido uma larga duração. Por meados do século passado, Antonio
Ferreira Nogueira e Manuel Fernandes Jardim realizaram ali, á sua custa, importantes obras de reparação, restituindo a capela ao
exercício do culto. Noutros tempos era ela o centro duma concorrida romagem, acudindo ali romeiros de toda a ilha. Na
actualidade, fazem-se as novenas e festividade do orago com notável brilho e grande afluência de pessoas da cidade e seus
arredores. Descrevendo o lugar, a capela, o arraial e as festas do Espírito Santo que noutro tempo ali se realizam, publicaram os
Serões um interessante e desenvolvido artigo da autoria do escritor madeirense João dos Reis Gomes.
No sítio do Lombo de São João da freguesia da Ponta do Sol, existe uma capela da mesma invocação, cuja data de construção
ignoramos. Pertenceu ao visconde de São João.
No ano de 1700, no sítio do Serrado da Adega da freguesia de Câmara de Lobos, fundaram António Correia Henriques e sua mulher
D. Maria da Câmara a capela de São João Baptista, a que deram a respectiva dotação por escritura pública de 17 de Junho daquele
ano.
Na ribeira da Calheta, existe em ruínas a capela de São João Baptista, edificada na quinta de São João, sede do vínculo instituído
pelo capitão Manuel de Figueiroa, que foi o fundador desta capela no ano de 1651. Encontrando-se muito arruinada, procedeu à sua
reconstrução em 1770, D. Guiomar Quiteria Betencourt de Atouguia, viúva de João Albuquerque e Freitas, sendo concedida licença
para a sua bênção a 19 de Agosto do mesmo ano.
Existiu na freguesia do Campanário uma capela dedicada a São João Baptista, instituída em 1728 pelo padre João Betencourt da
Câmara. Em 1813, era administrada pelo morgado Luís Sauvayre.
Com a mesma invocação, houve uma capela na freguesia de Santana, que foi erigida em 1660 pelo cónego Domingos Gonçalves de
Alvarenga.
Parece que havia outra capela de São João na freguesia da Calheta, situada no Lombo do Atouguia, que ainda existe, mas que é hoje
conhecida pelo nome de S. Pedro de Alcantara. É possível que primitivamente tivesse duas invocações, o que não seria caso único
nesta ilha.
Vid. Lombo do Atouguia.
São João de Deus (Capela de)
No artigo «Manicómios» dá-se noticia desta capela pertencente á Casa de Saúde do Trapiche, em
Santo Antonio.
São João Evangelista (Colégio e Igreja de)
No artigo Jesuitas, demos já sucinta noticia do estabelecimento da Companhia de
Jesus e da sua permanência nesta ilha, até que dela foi expulsa por mandado do marquês de Pombal, isto é, desde 1570 a 1760, o
que corresponde a um período de 190 anos (volume II, página 186)
Estiveram os jesuítas algum tempo numas casas contíguas á capela de São Sebastião, na rua que tinha este nome e que hoje é
chamada Praça do Comércio (volume II, página 359), e ali exerciam as funções do culto e regiam as suas cadeiras de humanidades e
teologia, passando depois para a igreja e albergaria de São Bartolomeu volume I, página 70), que ficavam situadas na rua Direita,
que então se prolongava pela margem esquerda da ribeira de Santa Luzia até as alturas da actual ponte do Torreão.
Adquiriram estes religiosos o terreiro onde hoje (1921) se encontram a igreja do Colégio e o quartel de infantaria n.º 27, e ali se
instalaram em modestos alojamentos tendo adjunto um templo de acanhadas dimensões. Conjecturamos que esta instalação se
tivesse dado nos últimos anos do século XVI. A construção do grande colégio e do magnífico templo se deve ter começado por fins
do primeiro quartel do século XVII, segundo parece deduzir-se dum manuscrito de meados do século XVIII, o que aliás se
harmoniza com as seguintes palavras do erudito anotador do Dr. Gaspar Frutuoso: «Debalde temos buscado no edificio e igreja do
colégio dos Jesuítas do Funchal inscripção commemorativa de quando construidos: tão somente achámos sobre a porta exterior do
pateo das aulas, pertença do mesmo collegio... a era de 1619... A abobada da capella-mor tem visos de risco architectonico ainda
manuelino. O cruzeiro, corpo do templo e a obra da entalhadura das capellas são no gosto bastardo da renascença. A edificação fez-
se ao que parece, morosamente e só haveria sido dada por terminada pelos meados do século XVII á parte quaisquer detalhes de
ornamentação, que ainda mais tarde se teriam definitamente concluído, como sejam a colocação das catatuas na frontaria da igreja,
a decoração de algumas capelas, etc..
Os Jesuítas estiveram de posse desta igreja e colégio até o dia 16 de Julho de 1760, em que, sob prisão, saíram da Madeira, ás
ordens do marquês de Pombal.
Por alguns anos permaneceram fechadas todas as dependências do colégio e do templo, até que, por carta regia de 10 de Agosto de
1787, fez D. Maria I cedência desses edifícios ao bispo D. José da Costa Tôrres, para ali ser instalado o Seminário Diocesano,
realizando-se a abertura solene deste estabelecimento de instrução no dia 31 de Março de 1788.
Não permaneceu ali largo tempo o Seminário porque a ocupação da Madeira por tropas inglesas no ano de 1801, obrigou a
transferência daquela casa de educação para o antigo edifício da rua do Mosteiro Novo, sendo o Colégio dos Jesuítas transformado
em quartel e ocupado por uma parte da guarnição militar inglesa. Com a saída das tropas britanicas, foi evacuado o Colégio, que em
1803, por ocasião da terrível aluvião, serviu de alojamento a inúmeras pessoas que tinham ficado sem abrigo.
O Colégio tinha também sido ocupado por algumas forças militares nacionais, havendo-se o governador e capitão-general D. José
Manuel da Câmara recusado a fazer retirar essas forças, como o exigia o bispo D. Luís Rodrigues de Vilares, afim de ser ali
reinstalado o Seminário Diocesano. Esta recusa e ainda outras circunstancias que se deram, abriram um grave conflito no ano de
1803, entre o governador e o prelado, como já fica sumariamente referido a página 216 deste volume. Embora o bispo diocesano
saísse triunfante desse conflito e lhe fosse reconhecido o direito á posse do Colégio e suas dependências, é, porém, certo que o
Seminário não voltou a funcionar ali, continuando o mesmo Colégio a servir ao aquartelamento de tropas e á instalação de varias
repartições publicas.
De 1808 a 1814, por ocasião da segunda ocupação desta ilha por tropas inglesas, voltou o Colégio a servir de alojamento ás mesmas
tropas, e durante algum tempo teve ali o major-general Beresford a sede do seu governo nesta ilha. Desde essa época até ao
presente, tem o antigo Colégio dos Jesuítas servido sempre de aquartelamento de tropas da guarnição desta cidade.
A igreja de São João Evangelista, depois dos religiosos da Companhia de Jesus terem saído desta ilha no ano de 1760, foi vedada ao
serviço do público e durante muitos anos, não se celebraram nela os ofícios do culto. É possível que durante a permanência do
Seminário no edifício contíguo ao templo, tivesse este sido restituído às funções religiosas. Vimos referido algures que as tropas
britânicas assistiram ali a actos do culto protestante, ficando por este facto interdita a igreja. Não o podemos afirmar com inteira
certeza.
Quando em 1847 o conselheiro José Silvestre Ribeiro assumiu o governo deste distrito, encontrava-se a igreja do Colégio em
adiantado estado de ruína e há muito que ali se não desempenhavam as funções do culto católico.
Foi exclusivamente devido aos seus aturados esforços que este templo passou por importantes reparações e se restituiu ao serviço
religioso, o qual sempre se tem mantido até o presente.
Num manuscrito existente na Biblioteca Publica do Porto, que vem citado na Historia da Egreja em Portugal, por Fortunato de
Almeida, encontram-se algumas interessantes noticias acerca da fundação de diversos colégios e igrejas estabelecidos pelos
Jesuítas, tendo-se encarregado um nosso ilustre amigo, residente na cidade do Porto, de fazer alguns extractos desse manuscrito,
referentes ao colégio de S. João Evangelista do Funchal, que a seguir reproduzimos:
«A sua Igreja he rica e magestoza, ornada e provida de preciozos ornamentos em todas suas Capellas e Altares com m.
tas
pessas de
finissima prata. Tem de comprimento 95 palmos, e 54 de largo, o carpo consta de quatro Capellas grandes, que de fundo tem 18
palmos, e de largo 21: duas destas, que ficão debaixo do Coro, tem o mesmo fundo; só differem na largura, que tem unicamente 15
palmos. Tem seo Cruzeyro, o qual consta de comprimento 80 palmos, e de largura 38: as duas Capellas, ou nichos situados ao lado
do altar mayor tem de fundo 10 palmos, e o mesmo de largura; e a Capella mór tem de fundo 32, e de largo 23.
~
«Tem todas estas Capellas seus Instituidores, ou Confrarias na forma seguinte: 0 nicho do lado do Evangelho junto à Capella mor
he consagrado à Virgem Nossa Senhora com a invocação de N. Sra. da Luz; por esta cauza se entregou seo festejo, e ornato à
Confraria dos nossos Estudantes, que ou frequentão, ou frequentarão alguns annos aquellas aulas; porque a todos os que nellas
estudavão, comprehende esta nobre, e devota Irmandade; e de toda aquella Cidade he Venerada, e Vizitada esta Santissima Senhora
em Sua imagem, por ser de m.
to
especial devoção.
«0 nicho que a este corresponde da parte da Epistola he também dedicado á mesma Senhora com o título do Soccorro. Forão os
seus Instituidores o conego João de Saldanha, e seo Irmão o Beneficiado Joseph de Saldanha devotisimos ambos da nossa
Companhia, e insignes bemfeytores daquelle Real Collegio. Nos dois lados do Cruzeyro ha também duas Capellas, que
correspondem huma a outra: a do lado do Evangelho he consagrada a JESUS Crucificado, e tem della cuidado a nobre Irmandade
dos Passos do mesmo Senhor, que ha naquella Cidade, a que do lado da Epistola lhe corresponde, he de N. Senhora com a
invocação, que na Cidade e Ilha chamão da Segunda Condição.
«No Corpo da Igreja a primeyra Capella da parte do Evangelho he dedicada ás S.
tas
Onze mil Virgens: foy seo Instituidor Simão
Nunes Machado. A segunda consagrada ao Arcanjo S. Miguel instituio o R.
do
Pe Miguel Pereyra grandissimo Bemfeytor daquelle
Collegio. Da parte da Epistola he a primeyra do Apostolo do Oriente S. Francisco Xavier, que instituio, e dotou o Licenciado Bento
de Mattos, a segunda he Santo Antonio de Padua, e forão seus Instituidores o Doutor Antonio Spinola medico famozo naquella
Cidade, e sua mulher D. Francisca de São Payo, que tambem numera este Collegio entre seos insignes Bemfeytores. As duas Capelas
que ficão debayxo do coro, diz o padre Antonio Franco, que ao tempo, que escrevia, não tinhão ainda Instituidores; sendo que
estavam ornadas com despezas do collegio; porem inquirindo eu de alguns Religiozos que habitarão naquelle Colégio, e celebravão
missa na sua Igreja, que aquella Capella sita da parte da Epistola era dedicada a Nossa Senhora da Conceição; e seo Instituidor fora
hum Antonio de Oliveyra natural deste Reyno, e da Villa de Pombal; que naquella Ilha cazara com Maria da Rocha, os quais por não
terem filhos, instituirão, e doarão todos seos bens á tal Capella: e em huma das clauzulas de seo commum testamento, e doação
declarava o ditto Antonio de Oliveyra, que falecendo primeyro que sua mulher, seria esta obrigada a ir no dia seguinte á sua morte
ouvir missa por sua alma na sobreditta sua Capella de N.ª Senhora da Conceyção; e que a fazer o mesmo se obrigava elle, se sua
mulher primeyro falecesse: o q. fez, e declarou, para assim tirar o costume, e abuzo, que havia erradamente naquella Cidade, de não
sahirem de caza, os que estavão de Lucto, por espaço de hum anno, nem ainda a ouvir missa nos dias festivos, e dias Santos de
guarda. A outra Capella debayxo do Coro, que a esta corresponde, dizem-me sim q. está muy bem ornada; porque a Igreja tem
rendas mui sumptuozas, mas não achey, quando isto escrevia, quem me dissesse, e declarasse se tinha algum Instituidor, ou
Confraria.
«Escrevi as noticias desta Capella conforme as informações, que me deram jesuítas, que no tal Collegio assistirão; mas depois me
chegou a carta do Padre Joze Lopes já referida, em que me diz o seguinte: «Numa Capella de N. Senhora da Conceição, a qual posto
que ornada por Antonio de Oliveyra Baptista, não tem fundador, nem está ainda comprada, nem dotada, posto que o sobreditto, e
sua mulher Maria da Rocha lhe deyxarão as suas terças, que ainda se não sabe, no que montavão, por se não ter dado inventario.»
Depois disto escritto, me declarou o Padre Lopes em carta de 10 de Março de 1751, que a tal Capella he consagrada a Sª. Quiteria, e
tem sua Confraria da mesma Santa Virgem e Mártir.
«O Frontispício, e fachada principal desta Igreja, que he magnífica, e a melhor de toda esta Ilha, se ornou com quatro estátuas de
mármore, da grandeza ordinária de hum homem, e reprezentão a Santo Ignacio nosso fundador, e Patriarca, S. Francisco Xavier, S.
Francisco de Borja, e Santo Estanislau, as quais mandou fabricar a hum perito estatuario em a Corte de Lisboa o Reverendo Padre
Manoel Lobo; mas chegarão á Ilha, e se collocarão, quando já tinha principiado o seo Reytorado ao Rev.° P.° Joze Lopes.
«Todo o edifício do Collegio consta de cinco corredores, e toda a obra está disposta em huma magnífica quadra, na qual entra
também a Igreja. O corredor da Portaria tem de comprimento noventa, e quatro palmos; o que no Collegio chamão Grande
trezentos, e sincoenta; o da Livraria, e Capella interior do Collegio duzentos, e vinte, e oito; o Corredor, que se intitula o Eyrado,
Cento, e sessenta, e dois; o do Lavatorio, duzentos e quarenta, e seis: em todos elles he a largura igual de desaseis palmos, e meyo e
altura de vinte e meyo. Tem m.
ta
gente desta Ilha em diversos tempos feito mercez, e doações grandes a este nosso Colégio, por isso
he grande o numero de seos insignes Bemfeytores. Dona Helena de Vasconcellos deo dois contos para se fazer a Capella mayor, gue
escolheo para seo jazigo, e sepultura, e de suas duas Primas, e Cunhadas D. Brittes da Sylva, e D. Izabel da Sylva, as quais derão ao
Collegio mais de quatro contos com obrigação de alguns Legados pios: derão mais para a Sanchristia da Igreja varias pessas de ouro
e prata ficando com isto a Igreja, e com as doações dos mais bemfeytores de suas Capellas a mais bem dotada, das que vemos nesta
Província; por isso se vê ornada com grande riqueza, e aceyo. O dote deste Collegio consignou seo augustissimo Fundador nos
rendimentos de Sua Real Alfândega; porem correndo os annos se mudou pelos Dizimos de três freguesias junto á Ribeira Brava,
que são a porção mais principal para seo dote e subsistência».
Completando estas informações, acerca do Colégio da Companhia de Jesus, no Funchal, transcrevemos as seguintes notas,
publicadas no antigo Jornal A Justiça:
«Da capella-mor foi fundadora D. Helena de Bettencourt e Vasconcellos, casada com Antonio de Andrade e Silva, e deixaram-lhe
boas rendas, tanto ella como suas cunhadas D. Brittes e D. Isabel da Silva, filhas de Martim Gonsalves de Andrade e de D. Maria de
Brito. Todas três foram sepultadas naquela capella, e no campo em que descansam ainda hoje se lê: Sepultura de D. Helena de
Bettencourt, fundadora desta capella e de suas primas e cunhadas D. Brittes da Silva e D. Izabel da Silva, insignes benfeitoras desta
Egreja e Colégio. Á capella das Onze Mil Virgens fizeram doação de bens em 1654 Simão Nunes Machado e sua mulher D. Joanna
Tello. Á de São Miguel também doou bens, em 1682, o padre Miguel Pereira, que nella jaz, como se pode ver da inscripção da sua
campa. Doaram bens á de Santo Antonio o doutor Antonio Spinola Teixeira e sua mulher D. Francisca, natural de Coimbra. Antonio
de Oliveira, natural de Condeixa, e sua mulher Maria Rocha também doaram bens á de Nossa Senhora da Conceição».
Tendo os Jesuítas tomado posse da capela de São Sebastião e casas anexas, onde primitivamente se instalaram, a 6 do mês de Maio,
dia em que a igreja celebra o martírio infligido a São João Evangelista, de que saiu miraculosamente indemne, deram os religiosos
ao colégio e igreja o nome do desterrado de Palmos, como memória daquele facto.
O arquitecto e pintor do edifício foi um italiano vindo de Toscana, cujo nome ignoramos, e o principal escultor chamava-se Brás
Fernandes.
V. Município (Praça do).
São João de Latrão (Capela de)
Esta capela, que foi completamente demolida há cerca de vinte anos (1921) e que já muito antes
estava de todo em ruínas, ficava no sítio a que ela mesma deu o nome. Foi mandada construir por Nuno Fernandes Cardoso e sua
mulher Leonor Dias, que, por testamento feito em 1511, instituíram o morgadio de São João de Latrão, que tomou o nome da capela
que lhe serviu de sede. Referindo-se a esse testamento, diz o anotador das
Saudades
: «Este testamento, do qual temos copia, é
modelo do género, pela probidade sã, ingenuidade de crença, e virtuosa altivez que o dictou. A razão de ser, moral e histórica, dos
morgados tem naquelle venerando diploma honrosissimo padrão abonatório. O puro typo das instituições vinculares está alli. O
nosso tempo não pode acceital-as, é evidente. Mas o historiador justo e esclarecido ajuíza por outra bitola mais subtil e elevada do
que a mera confrontação do pretérito com o presente».
O último representante desta casa vinculada foi Nuno Fernandes Cardoso e Vasconcelos, avô de Luis Cardoso de Castro e Abreu,
actual professor da freguesia de Gaula (1921).
São João Nepomuceno (Capela de)
João Nepomuceno de Freitas Leal, junto da casa de sua moradia no sítio do Folhadal, da
freguesia do Porto da Cruz, fez construir esta capela no ano de 1776. É de 3 de Novembro deste ano a escritura da dotação da capela,
imposta numa fazenda « onde chamam a porta do frade defronte do poiso, também defronte donde mora o dito frade Manuel de
Gouveia, que houve de seu pai Pantaleão de Freitas Leal», segundo na mesma escritura se lê. Foi passada licença para ser benzida, a
3 de Março de 1786. Por breve pontificio datado do mesmo ano, foi concedida a esta capela a faculdade de altar privilegiado.
Quando em 1800 foi criado o curato do Porto da Cruz, impôs-se ao cura a obrigação de residir nas imediações daquela capela e de
nela celebrar os ofícios divinos. Esteve interdita desde 1812 a 1822, por o respectivo administrador a pretender subtrair á jurisdição
paroquial.
Esteve sempre na posse e administração da família Freitas Leal, tendo D. Luzia Leal, sobrinha do instituidor, legado o pequeno
templo a D. Augusta Lomelino de Freitas Leal, esposa do conselheiro dr. João Baptista de Freitas Leal, sendo os sobrinhos destes,
Antonio Lomelino Bianchi e irmãos, os seus actuais possuidores (1921).
Esta capela acha-se bem conservada e nela se celebram os actos do culto.
São João (Ribeira de )
(Ribeira de
). Nasce nas serras da freguesia de Santo António e desemboca no Oceano, no sítio de São Lazaro, da
freguesia de São Pedro, sendo uma das três caudalosas ribeiras que atravessam a cidade do Funchal. A parte dela que corta a
freguesia de Santo António tem o nome de Ribeira Grande ou de Santo António. Noutros tempos foi também chamada de São
Francisco, São Paulo, Santa Catarina e São Lazaro. Em documentos antigos, encontram-se todos estes nomes.
São João e Santana (Capela de)
Esta capela, que fica no sítio do Trapiche da freguesia de Santo António, é apenas conhecida
pelo nome do lugar em que foi construída. O sargento-mor João António de Gouveia Rego, dono da quinta do Trapiche, fez ali
edificar em 1814 uma capela dedicada a São João e Santana, sendo benzida e celebrada a primeira missa a 14 de Agosto do mesmo
ano. Tem anexa uma excelente casa de campo, que já durante algum tempo serviu de seminário, depois que este estabelecimento de
ensino deixou de funcionar no edifício da Incarnação (1921).
Esta casa, capela e seus arredores passaram por largas modificações como poderá ver no artigo
Manicómios
.
São Jorge (Freguesia de)
Esta paróquia foi primitivamente formada pelos terrenos que actualmente a constituem e ainda pelos
que ao presente fazem parte das freguesias de Santana e do Arco de São Jorge. A de Santana logo se desmembrou, estando poucos
anos na dependência da freguesia-mãe, e a do Arco de São Jorge passou a ser paróquia autónoma no ano de 1676.
Não é hoje possível determinar com inteira precisão quando começaria a colonização e povoamento desta freguesia. Um dos seus
mais antigos sesmeiros foi Lopo Fernandes Pinto, «o qual, diz o Dr. Alvaro de Azevedo, veiu habitar nesta ilha por meado do século
XV, e falleceu no ano de 1500: teve de sesmaria boa parte da freguesia de Sant'Anna, e as terras chamadas da Ilha, donde se
formaram dois morgados, o instituído por seu filho Jorge Pinto e o morgado de Carvalhal». Estas terras da Ilha ficam situadas no
interior desta paróquia. O ultimo administrador do vinculo instituído por Jorge Pinto foi o morgado Falcão, açoreano, que há anos
vendeu aquelas terras aos colonos que as cultivavam.
Outro antigo sesmeiro, que teve terras nesta freguesia, foi Pedro Gomes Galdo, que encontramos citado em vários nobiliários e que
conjecturamos ter vindo para esta ilha nos fins do século XV. Doutros povoadores que tivessem feito assentamento nesta paróquia
nos fins do século XV ou na primeira metade do século XVI, não temos conhecimento.
Parece-nos inexacta a data que o anotador das Saudades fixa para a criação desta paróquia. O ano de 1517, que como tal é indicado,
somente pode referir-se à nomeação dum capelão privativo, a que fosse dada a jurisdição de desempenhar algumas funções
paroquiais. A criação de São Jorge, como freguesia autónoma, deve ser coeva da do Faial, e talvez até um pouco posterior a ela,
sendo certo que esta ultima paróquia foi criada em 1550, tendo um capelão próprio desde o ano de 1519. 0 diploma mais antigo que
encontramos citado acerca da freguesia de São Jorge é o de 4 de Junho de 1552, acrescentando a côngrua paroquial e fixando-a em
um moio de trigo, uma pipa de vinho e 8$000 réis em dinheiro, acumulando então o pároco o serviço da mesma freguesia com a
capelania-curada de Santana. Temos motivos para acreditar que a data da criação da freguesia de São Jorge é pouca anterior á
daquele diploma. O alvará régio de 27 de Novembro de 1572 arbitrou ao pároco o vencimento anual de 25.000 réis, tendo então a
freguesia 106 fogos, e o de 20 de Abril de 1589 acrescentou a esse ordenado mais trinta alqueires de trigo e um quarto de vinho.
Uma capela consagrada a São Jorge, que depois se converteu em igreja paroquial, deu o nome á nova freguesia. A construção desta
capela parece datar do último quartel do século XV ou princípios do século XVI. No sítio do Calhau, numa das margens da ribeira,
se edificou a igreja paroquial, que não podemos neste momento afirmar se teria sido erguida no mesmo local em que se encontrava
a antiga ermida. Pelos anos de 1660, foi a igreja quasi inteiramente destruída por uma aluvião, sendo então resolvido que o novo
templo a construir se levantasse em sítio mais seguro e abrigado e que ao mesmo tempo oferecesse maior comodidade aos povos,
visto que os casais se iam alargando pelo interior da margem esquerda da ribeira.
A igreja que perto dum século depois se edificou, é o templo que actualmente serve de igreja paroquial. A sua construção deve ter
começado nos fins do segundo quartel do século XVIII, sendo as obras dadas por terminadas por meados do terceiro quartel do
mesmo século. Alguns mandados do Conselho da Fazenda de 1747, 1751 e 1754 autorizaram o pagamento de certas importâncias
destinadas ás respectivas obras. Muito concorreu para a conclusão dos trabalhos de construção e aformoseamento do templo o
vigário Marques de Mendonça, não só com o seu zelo e dedicação, mas ainda com os haveres da sua fortuna particular.
Fere logo a atenção do visitante o trabalho de talha dourada do altar-mor e o móvel da sacristia destinado á guarda dos paramentos
e alfaias. Em varias obras estrangeiras, especialmente num escrito do marquês Degli Albizzi, encontramos algumas referências a
esses trabalhos artísticos. Convém transcrever aqui as palavras do Dr. Alfredo Leal, há pouco (1921) insertas numa revista desta
cidade: –«É com certeza um dos mais belos templos da Madeira, sobretudo na riqueza da obra de talha dourada do altar-mór, que é
ao mesmo tempo capella do Santissimo. Foi na sacristia, porém, que encontrei interessante pasto para os meus olhos. O mesão e os
armários em til ou vinhatico, com columnas torneadas no estylo a que os francezes chamam rocócó portugais e que se encontra em
todas as obras de talha dos séculos XVII e XVIII em Portugal, são muito artisticamente executadas, sem os dourados de que tanto
se abusou e abusa nas igrejas portuguezas, e é para pasmar como naquella e em algumas outras sacristias da Madeira, essas lindas
obras de talha tem escapado ao bárbaro pincel dos fazedores de mármore fingido que mais imita o sabão em massa do que o
mármore, como succede, tão desgraçadamente, ás esbeltas columnas da Sé do Funchal. Ao meio dos armários que encimam o
mesão da sacristia, olhando para o logar onde o padre se aparamenta para os sagrados mysterios do altar, está um Crucifixo em que
o corpo de Cristo tem talvez um metro de altura. É uma das mais belas esculturas em madeira que eu tenho visto. É uma maravilha
onde a anatomia e a expressão da phisiomia e dos gestos se unem, produzindo um sentimento enternecedoramente grandioso».
Outro primor artístico se encontra nesta igreja: uma pequena imagem do mártir São Sebastião; medindo quatro a cinco decímetros
de altura, que é uma verdadeira maravilha de escultura. Pertenceu a uma capela que existia nesta freguesia e da qual não restam
hoje vestígios.
O aumento da população deu um cura a esta freguesia, que foi criado pelo alvará régio de 11 de Fevereiro de 1746.
Além da capela citada, houve a de Nossa Senhora do Rosário, no sítio da Ilha, e existe ainda a de São Pedro, das quais daremos
breve noticia em outro lugar deste volume. Esta freguesia, comparada com outras da Madeira, não tem grandes acidentações de
terreno e é em extremo pitoresca, oferecendo ao visitante belos e surpreendentes panoramas e tendo, como Santana, grandes traços
de semelhança com as encantadoras paisagens do Minho.
Principais sítios: São Pedro, Achada Grande, Tanque, Farrobo, Ribeira Funda, Pico, Pé do Pico, Poço e Vale, Lombo do Cunha,
Açougue Velho, Covas, Furna de Pedro Jorge, Lombo do Pico, Jogo da Bola, Pomar, Achada do Pico, Lanço, Fajã Alta, São
Sebastião, Calhau, Pedra Mole, Loural, Tranquada, Banda do Sol e Ilha. No sítio do ribeiro do Meio se encontra o conhecido
deposito de lignite, de que já nos ocupámos (volume II, pagina 271).
Com respeito á quinta de São Jorge, propriedade do Prelado Diocesano, fica já dito o suficiente a página 13 deste volume.
Tem esta freguesia 2142 habitantes (1921).
São Jorge (Ilhéu, Ponta, Porto e Ribeira de)
O pequeno ilhéu de S. Jorge fica próximo da costa marítima da freguesia do mesmo
nome e quási em frente do respectivo porto.
A saliência que na costa setentrional da Madeira mais avança pelo mar, tem o nome de Ponta de São Jorge e fica no litoral da
freguesia do mesmo nome. No extremo desta ponta, onde chamam a Vigia, descobrem-se todas as sinuosidades da costa marítima
desde a freguesia do Porto da Cruz até a do Porto do Moniz, merecendo ser visitado este lugar.
Onde chamam a Ponta Gorda, construiu-se um cais de 1904 a 1910, que por meio duma vereda ficou ligado á estrada central que
estabelece comunicação entre as freguesias de Santana e São Jorge.
A ribeira nasce nas imediações do Pico Ruivo e atravessa a freguesia de São Jorge, desaguando no porto do mesmo nome. Tem
como afluentes os ribeiros do Canário, Grande e Lombo da Furna.
São José (Capelas de)
Na freguesia da Ribeira Brava e a pequena distancia da igreja paroquial, erguia-se uma capela dedicada a S.
José, que o anotador das Saudades da Terra diz ter sido fundada por Luís Gonçalves da Silva no ano de 1710. Por 1905, estava ainda
de pé, embora em adiantado estado de ruína e tinha sobre o pórtico a data de 1709. A 15 de Abril de 1750, foi concedida licença para
ser benzida e era então seu administrador o alferes Tomé João Pimentel. Somente foi benzida em 1750 ou tratar-se-á duma
reconstrução? Não sabemos. No entretanto é certo que foi dada licença para a bênção em 15 de Abril de 1750, como tivemos ocasião
de verificar á vista dum documento autêntico.
Existia na freguesia da Calheta uma capela dedicada a São José, cujo fundador e ano não podemos determinar. Sabemos, porém,
que o terramoto de 1748 a deixou muito arruinada e que Francisco Agostinho de Figueiroa e Vasconcelos, seu administrador e do
vinculo a ela anexo, a mandou reedificar em 1776 mudando-a para sítio mais seguro, mas nas proximidades da construção
primitiva. Para nela se poderem celebrar os actos do culto, foi vistoriada pela autoridade eclesiástica a 3 de Junho de 1776.
Na mesma freguesia e com igual denominação existe hoje uma elegante capela mandada edificar em 1915, no sítio do Vale da Bica,
pelo Dr. Manuel dos Passos Freitas, junto da casa de residência que ali possui (1921).
Com a invocação de São José, houve uma capela na ilha do Porto Santo, fundada em 1681 por Estevão Bettencourt Perestrelo
governador da mesma ilha. A escritura da dotação desta capela é de 7 de Julho de 1681.
O padre António Gonçalves Franco fundou em 1730, na freguesia de Machico, uma capela dedicada a São José, que hoje está em
ruínas.
Na freguesia de Santa Cruz existiu uma capela consagrada a São José, cujo instituidor e ano de construção nos são inteiramente
desconhecidos.
Nos princípios do segundo quartel deste século, construiu-se uma capela da mesma invocação no pitoresco sítio da Achada da
freguesia da Camacha.
São José (Forte de)
O forte de São José na ilha do Porto Santo, foi mandado fazer pelo Marquês de Pombal, e em comemoração
do nome do rei, ficou tendo como padroeiro aquele santo. Pertence hoje à sociedade das Águas do Porto Santo, tendo sido
arrematado por 52:250$00, em 18 de Maio de 1923 (1921).
São Lázaro (Capela de)
Havia uma capela desta invocação na freguesia de Santa Cruz, que foi instituída por João Afonso
Escudeiro no princípio do século XVI (V. Bemposta).
Tem a mesma invocação a capela do antigo, hospital de São Lazaro, hoje cadeia civil (1921).
V. Hospital de São Lázaro.
São Lourenço (Capelas de)
Na fortaleza de São Lourenço havia uma capela dedicada ao mártir São Lourenço. É bastante antiga e
já existia em 1566 ano em que os corsários franceses saquearam a cidade. Tinha capelão privativo, sendo de 15 de Novembro de
1641 o alvará mais antigo que encontramos da nomeação do mesmo capelão. Vimos algures que o conselheiro José Silvestre Ribeiro
mandou a 3 de Outubro de 1846 proceder ao inventário dos objectos de prata pertencentes a esta capela que pesaram 36 libras,
mandando-os depositar no Cofre Central. A 3 de Dezembro de 1856 procedeu-se a novo inventario, juntando-se-lhe novas peças, o
que tudo pesou 65 libras de prata. Os paramentos da capela foram em 1856 oferecidos a igreja das Achadas da Cruz (V. Palácio de S.
Lourenço).
A capela de São Lourenço que fica no sítio do mesmo nome na Freguesia da Fajã da Ovelha é bastante antiga, pois que já nos
primeiros anos do século XVI era sede duma capelania, que depois se transformou em paróquia. Serviu de igreja paroquial até
meados do século XVIII, em que se construiu o novo templo. Consta de antiga tradição que esta capela pertencia aos Afonsos
Jardins, que foram ali dos mais antigos colonizadores e proprietários da lombada em que a mesma capela se encontra.
Na freguesia da Camacha havia uma capela dedicada a São Lourenço, que se afirma ter sido construída por Francisco Gonçalves
Salgado. Era de construção bastante antiga e nela se estabeleceu a sede da nova freguesia em 1676, transformando-se em igreja
paroquial, sendo ainda o seu orago o da primitiva capela.
São Lourenço (Fortaleza de)
Foi primitivamente um simples baluarte, tendo-se iniciado, ao que parece, a sua construção nos
tempos do quarto donatario João Gonçalves da Câmara e prosseguido as obras por ordem do rei, durante o governo de Simão
Gonçalves da Câmara, quinto donatario, como se vê do alvará de II de Setembro de 1542. Quando se deu a invasão dos corsários
franceses, em 1566, somente existia o baluarte, mas no reinado de D. Sebastião, estava já construída a fortaleza, se bem que tivesse
ainda um aspecto em diverso do que apresenta actualmente.
A fortaleza de S. Lourenço ostenta no torreão de leste, as armas de Portugal e a esfera emblemática de D. Manuel, e, ao tempo em
que o Dr. Azevedo escreveu as notas às Saudades da Terra, ainda se via sobre a porta da destruída capela do santo que deu o nome á
fortificação a que nos referimos, a seguinte inscrição:
D. V. N. D.
16 3 S
Esta inscrição, segundo o Dr. Azevedo, parece significar: DEO VOTA NOSTRO DOMINO, 1635, isto é, VOTADA A DEUS NOSSO
SENHOR, NO ANO DE 1635.
As armas de Portugal e a esfera de D. Manuel foram retiradas da fortaleza, depois da implantação da Republica, mas há cerca de
quatro anos que voltaram ao seu lugar, por se haver reconhecido, embora tardiamente, não haver razão alguma para oculta-las aos
olhos do público. O que não pôde ser restituído á mesma fortaleza foi uma imagem de São Lourenço que existia num nicho; por
cima da porta principal, no largo da Restauração, por haver sido arrancada dali e partida por alguns marinheiros da marinha de
guerra, que estiveram no Funchal em 1911 (1921).
Perto do local onde se ergue o posto meteorológico, existiu por largos anos um castanheiro que florescia e frutificava todos os anos,
e que deu o nome a um dos baluartes da fortaleza.
V. fortificações e Palácio de S. Lourenço.
São Lourenço (Ponta de)
V.Ponta de S. Lourenço .
São Luís (Capelas de)
Com esta invocação, existiu uma capela no sítio da Diferença, da freguesia do Faial, que tinha sido fundada
por Manuel de Carvalho Valdavesso, Juiz dos orfãos no Funchal, e sua mulher D. Luisa Maria de Vasconcelos França e Noronha,
filha de Valentim de Ornelas e Vasconcelos, 7.° morgado da Penha de Águia. A escritura da dotação imposta numa propriedade da
freguesia de São Martinho, é de 1 de Outubro de 1725, e, portanto a sua construção é aproximadamente desta época.
Junto do antigo Paço Episcopal, construiu o bispo D. Luis Figueiredo de Lemos (volume II, pagina 30) a capela de São Luís e ali foi
sepultado em 1608. Afirma-se que a sua sepultura foi violada. Quando por 1882 a capela se adaptou á instalação de uma escola,
foram as cinzas deste prelado depositadas na capela interior do Paço e anos depois trasladadas para a Sé Catedral, sendo sôbre elas
colocada a lápide que se encontrava no centro da capela onde primitivamente se haviam sepultado os restos mortais do mesmo
prelado. A capela, que tem um belo pórtico artisticamente lavrado em cantaria rija, está há muitos anos profanada.
São Martinho (Freguesia de)
Nos tempos primitivos da colonização e antes da criação desta freguesia, pertenciam os terrenos
que actualmente a constituem á paróquia da Sé, passando depois a fazerem parte da de São Pedro, donde se desmembraram no ano
de 1579.
Como já temos feito notar, as terras circunvizinhas do primeiro núcleo de população que se formou no Funchal foram sujeitas a
uma imediata exploração agrícola, tendo-se organizado diversas fazendas povoadas com suas capelas privativas, que deram
princípio e origem às novas e futuras paróquias.
Assim sucedeu em São Martinho. Havia ali uma fazenda e capela deste nome, pertencentes a Afonso Anes, o Hortelão, segundo
afirma o anotador das Saudades, e foi nela que se estabeleceu a sede da paróquia, criada pelo alvará régio de 3 de Março de 1579.
Ao respectivo pároco foi, pelo mesmo diploma, arbitrada a côngrua anual de 11.000 réis em dinheiro, meio moio de trigo e um
quarto de vinho, que o alvará de 16 de Julho de 1581 elevou a 16.000 réis em dinheiro, um moio de trigo e meia pipa de vinho,
sendo alguns anos depois, pelo alvará de 30 de Janeiro de 1589, acrescentado a esse vencimento mais meio moio de trigo e um
quarto de vinho.
Apesar do aumento da população não foi criado um curato nesta paróquia. Há anos nomeou o prelado D. Manuel Agostinho
Barreto um cura para esta freguesia, com caracter provisório, repartindo a côngrua dum dos dois párocos da Sé pelos coadjutores
de São Gonçalo, Sé Catedral, e São Martinho, lugares criados interinamente, mas que, para esta freguesia, têm tomado uma feição
definitiva, em atenção á sua população e movimento (1921).
Nada se sabe acerca do ano da construção da capela de São Martinho nem do local em que fora edificada, conjecturando-se que
ficaria situada nas proximidades da antiga igreja paroquial. Sendo de acanhadas dimensões, procedeu-se à construção duma igreja
paroquial, no primeiro ou segundo quartel do século XVII, mas por 1735 se fez uma quase reedificação do mesmo templo, que é o
mais antigo das duas actuais igrejas paroquiais.
O aumento sempre crescente da população tornou a igreja de exíguas proporções para o serviço e movimento da paróquia,
tentando-se a construção dum novo templo que satisfizesse inteiramente ás necessidades dos fieis. O governo central concedeu uma
verba de relativa importância para a nova edificação e os paroquianos contribuíram também com valiosos donativos, devido
principalmente ás diligências e esforços do pároco de então, o padre Manuel Pinto Correia. O lançamento e benção da primeira
pedra realizaram-se com toda a solenidade no dia 8 de Julho de 1883, prosseguindo os trabalhos lentamente, até que, por falta de
recursos, se tiveram de interromper dentro de pouco tempo.
Passados aproximadamente trinta anos, recomeçaram os trabalhos de construção. A 2 de Agosto de 1907, morreu nesta freguesia o
benemérito paroquiano José de Abreu, que legara a quase totalidade da sua fortuna, que para a época era avultada, à continuação
das obras da mesma igreja. Essa importância não podia acudir a todas as grandes despesas que era preciso realizar, mas o pároco
Teodoro João Henriques tomou ousadamente a iniciativa do prosseguimento dessas obras, contando que a generosidade dos
paroquianos não deixaria por concluir os trabalhos daquela construção. E, felizmente, não se enganou. Por 1909 ou 1910
recomeçaram activamente as obras interrompidas há mais de vinte anos, e a 24 de Junho de 1918 se procedeu com todo o
brilhantismo á sagração da nova igreja, que logo foi aberta ao serviço do culto, prosseguindo ainda a ornamentação dos altares e
capelas e a conclusão definitiva de outros trabalhos.
Existem nesta freguesia as capelas de Nossa Senhora da Vitoria, Nossa Senhora da Ajuda, Nossa Senhora do Amparo, Nossa
Senhora do Pilar, Nossa Senhora da Nazaré, Nossa Senhora das Virtudes e Santana, e houve as de Nossa Senhora da Fé e de Nossa
Senhora de Jesus, que se demoliram. Dumas e doutras damos noticia em outro lugar desta obra. No artigo consagrado á capela de
Santo Amaro, fizemos notar o erro do anotador das Saudades, fazendo colocar nesta paróquia a capela de Santo Amaro e o solar
acastelado de Garcia Homem de Sousa, que ficam na freguesia de Santo Antonio.
São sítios principais desta freguesia: Pilar, Pico do Funcho, Lombada, Vitoria, Quebradas, Areeiro, Ajuda, Piornais, Ribeiro Seco,
Casa Branca, Nazaré, Amparo, Várzea da Igreja, Caminho Novo, Praia, Poço Borral, Pico de São Martinho e Virtudes.
Esta freguesia é em parte limitada ao sul pela chamada Praia Formosa (volume III, paginas 138) e a oeste pela ribeira dos
Socorridos, que a separa da paróquia de Câmara de Lôbos. Perto da Praia Formosa se encontra o Fojo, a que já nos referimos a
paginas 230 do I volume desta obra.
Nesta paróquia se encontram a Carreira de Tiro, de que já demos noticia (volume I, pagina 251), o «Reid's, Palace Hotel» e anexos,
e a importante fabrica de conserva de peixe de Júdice Fialho, de que também nos ocupámos (volume II, página 161).
Da chamada Estrada Monumental, que atravessa esta freguesia numa grande extensão, e da Ponte do Ribeiro Seco, que é o começo
da mesma estrada, já dissemos o indispensável no volume I desta obra, a página 416. Sôbre o assunto poderá consultar-se o
opúsculo Collecção de documentos relativos á construção da Ponte do Ribeiro Secco, publicado em 1848.
Os terrenos desta paróquia são beneficiados por varias levadas, entre as quais avulta a dos Piornais, que é uma das mais
importantes levadas particulares desta ilha e a que já nos referimos a página 256 do volume II.
Nasceu em São Martinho o bispo de Ceuta e Tanger D. Martinho de Aguiar (volume I, página 28).
Tem esta freguesia 6556 habitantes (1921).
São Paulo (Capelas de)
A capela desta invocação que existe no largo de São Paulo, é das mais antigas desta ilha e cremos que a
primeira edificada depois da de Santa Catarina (V. este nome). Teve primitivamente o nome de São Pedro e São Paulo mas, apesar
de nela se ter estabelecido a sede da freguesia de São Pedro, foi a segunda denominação a que perdurou através dos tempos e que
actualmente se conserva. Sôbre o pórtico se vêem ainda as tradicionais chaves ou armas pontificias a atestarem o orago ou a
invocação antiga da capela.
Foi seu fundador João Gonçalves Zarco, que junto dela levantou a sua segunda moradia, que se afirma haver sido a primeira casa de
pedra construída no Funchal, transferindo-se então de Santa Catarina para ali. Vid.
Moradias de Zargo
.
A data de 1426 que se lê sobre a porta exterior, que dá acesso ao pequeno adro, refere-se evidentemente á primeira construção.
No decorrer dos séculos, tem o pequeno e modesto templo sofrido varias reparações, não restando certamente cousa alguma da
edificação primitiva. Em 1871, se procedeu ali a uma quase completa reconstrução.
O serviço do culto era exercido na capela de São Paulo pelos religiosos franciscanos até o ano de 1566, em que foi criada a freguesia
de São Pedro, cuja sede se instalou na mesma capela. Esta paróquia foi extinta no ano de 1579 e novamente restaurada em 1586,
não se sabendo se a segunda instalação da freguesia se fêz nesta ou em outra qualquer capela. Em 1879, organizou ali uma confraria
com a denominação do orago, que teve seus estatutos aprovados pela autoridade superior do distrito, por alvará de 13 de Março
daquele ano.
Foi junto desta capela que se levantou o edifício destinado ao primeiro hospital, e que para este fim havia sido doado pelo
descobridor João Gonçalves Zargo, como já fica referido a página 366 do volume II.
Existiu uma capela da invocação de São Paulo na freguesia do Porto do Moniz, de que ainda restam algumas ruínas. Foi fundada
pelo padre Paulo Vieira Jardim, pároco da mesma freguesia, que ali faleceu a 15 de Fevereiro de 1776, sendo sepultado na capela de
que foi o instituidor. Também se chamava de S. Paulo e Almas.
São Paulo (Rua de)
Ficava entre o portão da Carreira e a ribeira de São João, estando compreendida hoje na rua do Dr. Vieira,
outrora da Carreira.
Tem hoje o nome de largo de S. Paulo o largo em frente da capela deste nome, e o de travessa de S. Paulo, a via publica que faz
comunicar o mesmo largo com a rua da Ribeira. Em outro tempo, o chamado «sítio de São Paulo», compreendendo os arredores da
capela, estendia-se até a margem da Ribeira de São João.
São Pedro (Barão de)
Ao que dissemos acerca deste nosso conterrâneo a página 261 do volume I desta obra, deve-se acrescentar
que escreveu um opúsculo intitulado Do álcool e dos compostos alcoólicos em cirurgia, e que era genro do 1.° barão de São Pedro
(volume III, página 27) e pai de D. Josefina de Castelo Branco Ribeiro da Cunha, que, nesta cidade, como esposa do Governador
Civil José Ribeiro da Cunha, prestou relevantes serviços ás classes desvalidas, conservando-se o seu retrato na sala das sessões da
comissão administrativa da Misericórdia do Funchal (1921).
São Pedro (Capela de)
No extremo ocidental da costa sul da ilha do Porto Santo se encontra uma pequena capela dedicada a São
Pedro, que tinha adjunta uma pequena casa de romeiros. Celebra-se ali a festa anual do orago com grande concorrência dos
habitantes daquela ilha.
Na freguesia de Santa Cruz, a oeste da Vila e á beira da estrada, se levanta a capela de São Pedro, instituída por João Escorcio
Drumond. Arrasada pela aluvião de 1803, foi alguns anos depois reconstruída pelo povo.
Nas proximidades da igreja paroquial da freguesia de São Jorge encontra-se uma capela dedicada a São Pedro. Estando em ruínas,
foi restaurada pelo prelado D. Manuel Agostinho Barreto, em 1901, sendo por ele próprio benzida e restituída ao culto a 7 de Agosto
do mesmo ano.
Na freguesia do Porto Moniz, no lugar onde chamam Terra de São Pedro, houve uma pequena ermida com a invocação de São
Pedro, de que nem restam vestígios.
No sítio dos Lamaceiros da mesma paróquia, encontra-se uma capela consagrada a São Pedro, para a qual foi transportada a
imagem do Santo existente na outra capela da mesma invocação. Não é de construção recente, pois já em 1726 se encontrava em
estado adiantado de ruína. Foi convenientemente consertada, alguns anos depois, por diligências de Manuel Rodrigues Amarelo. 0
terramoto de 1748 causou-lhe varias danificações, sendo logo reparada. Há ainda poucos anos que nela se realizaram obras
importantes. Existe nesta capela uma imagem de Nossa Senhora do Monte, que é muito venerada.
Nesta capela se conserva sempre o Santíssimo Sacramento, estando quotidianamente e durante todo o dia abertas as portas do
pequeno templo para as pessoas que o quiserem visitar (1921).
São Pedro (Forte de)
Ficava na extremidade leste da antiga Praça Académica e começou a ser demolido a 20 de Setembro de
1897, em virtude de autorização do Ministério da Guerra. A sua construção ficou concluída em 1707, segundo dizia uma inscrição
que estava no portão do forte e que foi transcrita a página 629 das notas ás Saudades da Terra.
O forte de S. Pedro era conhecido também pela denominação de Forte Novo.
São Pedro (Freguesia de)
É a mais populosa e a mais importante das quatro freguesias urbanas do Funchal. Foi dentro da sua
área que começou a primitiva colonização e povoamento, porque o próprio descobridor Gonçalves Zargo fez ali o seu primeiro
assentamento, no alto que depois se chamou de Santa Catarina. No dia em que as caravelas demandaram pela vez primeira a baia
que teria o nome do Funchal, foram elas procurar abrigo nos ilhéus que ficavam a oeste da mesma baía, por ser hora já adiantada
do dia, havendo resolvido o capitão que ali passassem os descobridores aquela noite. Quando, pela segunda vez, voltaram do Reino
a esta ilha, para se iniciar definitivamente o trabalho da colonização, foi ainda ao abrigo dos mesmos ilhéus que fundearam as
embarcações e a elas se recolheram por alguns dias os primeiros povoadores, quando o incêndio que lavrava intensamente nos
arvoredos os obrigava a deixar a terra calcinada pelo fogo. Esses ilhéus tiveram mais tarde o nome de ilhéus da Pontinha e ficam
dentro da área da freguesia de São Pedro.
«A freguesia de São Pedro, da cidade do Funchal, diz o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, teve sua origem na capela de São Paulo (V.
este nome), fundada por João Gonçalves Zargo, a qual era servida por frades franciscanos, e, depois, pelos curas da Sé, até que
desta foi separada e constituída freguesia sobre si, pelo alvará de D. Sebastião, de 20 de Junho de 1566, tendo por limites, a leste, a
ribeira de Santa Luzia, e a oeste, a dos Socorridos. Foi extinta pelo alvará de 3 de Março de 1579, do cardeal-rei D. Henrique,
ficando a parte urbana novamente encorporada na da Sé, e da parte suburbana foram creadas, por este mesmo alvará, as freguesias
de S. Roque e de S. Martinho; mas, poucos anos depois, por alvará de D. Filippe I, de 14 de Agosto de 1587, foi reinstaurada com os
limites que ainda agora tem.»
O tantas vezes citado Índice do Registo da antiga Provedoria dá a criação desta paróquia como feita pelo alvará régio de 20 de Julho
e não de 20 de Junho de 1566, como diz o anotador das Saudades. 0 seu primeiro pároco foi Gaspar Teixeira, a quem o referido
alvará de 20 de Julho de 1566 fixa a côngrua anual de 15.000 réis em dinheiro, um moio de trigo e meia pipa de vinho, que pelo
alvará régio de 20 de Agosto de 1572 foi elevada a 25.000 réis, um moio de trigo e uma pipa de vinho. Os alvarás régios de 8 de
Maio de 1591, 17 de Maio de 1600, 19 de Agosto de 1609 e 10 de Junho de 1749 elevaram respectivamente os vencimentos anuais a
26.700 réis, dois moios de trigo e uma pipa de vinho, 29.700 réis, dois moios de trigo e uma pipa de vinho, 30.000 réis, dois moios
de trigo e duas pipas de vinho, e 60.000 réis, dois moios de trigo e duas pipas de vinho.
O curato desta freguesia foi criado pelo alvará régio de 27 de Agosto de 1589, que arbitrou ao cura a côngrua anual de 20.000 réis, a
que foi acrescentada uma pipa de vinho pelo alvará de 19 de Agosto de 1609.
Teve esta paróquia uma colegiada, que foi criada pelo alvará de 26 de Maio de 1589, com dois beneficiados, além do vigário e do
cura. O alvará de 23 de Março de 1590 deu mais um beneficiado a esta colegiada, e o de 24 de Julho do mesmo ano criou ainda um
quarto beneficiado, tendo cada um de ordenado anual, pelo ultimo diploma, a quantia de 6.000 réis em dinheiro e um moio de
trigo. Também teve esta colegiada um tesoureiro, um pregador e um organista.
A sede desta paróquia foi estabelecida na capela de São Paulo, da qual já demos noticia, e sem dúvida que, por ocasião de ser
restaurada a freguesia em 1587, seria a mesma capela que serviria de igreja paroquial, apesar das suas acanhadas dimensões.
Desconhecemos o ano em que se faria a mudança da sede da freguesia da capela de São Paulo para a actual igreja paroquial.
Também ignoramos a época da construção do novo templo, dando a esse respeito o anotador das Saudades as seguintes
informações, que são as mesmas fornecidas pelo Índice da Provedoria: «A fabrica da igreja tinha, pelo alvará de 15 de Junho de
1598, 4.000 reis, e, por diversos mandados do Conselho da Fazenda, foram nella dispendidas as seguintes verbas: em 1688, com
obras do templo, 900$000 reis; desde 1737 até 1739, com a obra da nova igreja, feita por arrematação, 6:742$000 reis; em 1742,
para a fundição dos sinos, 217$000 reis; e em 1757, para repairos das ruínas causadas pelo terremoto de 1 de Abril de 1748,
3:029$730 reis. Também no ano de 1742 foram pelo mesmo Conselho mandados fazer o adro ou lageado em frente do templo, e o
retábulo do altar-mór, mas não consta o quanto dispendido nisto.»
O actual chefe do Estado (1921) Sr. M. Teixeira Gomes, quando há anos esteve na Madeira, descobriu com a sua grande cultura e
refinado gosto artístico, revelando-os depois ao grande publico, no seu livro Cartas sem moral nenhuma, os maravilhosos quadros
existentes na sacristia da igreja de S. Pedro e que até então haviam passado despercebidos para todos.
Nesta freguesia, encontram-se a igreja de Santa Clara, onde se acha o túmulo de João Gonçalves Zargo, e as capelas de São João da
Ribeira, São Paulo, Santa Catarina, Nossa Senhora da Penha de França, Nossa Senhora das Angustias (V. Lambert (Quinta)), S.
Lazaro, Nossa Senhora da Piedade, (V. Moradias de Zargo), Nossa Senhora da Piedade (V. Cemitério das Angústias), Nossa Senhora
das Dores (V. Hospício da Princesa D. Maria Amelia); Nossa Senhora da Conceição e Almas (Vid. estes nomes). Já não existem as
capelas de Nossa Senhora das Maravilhas, Nossa Senhora da Piedade (Igrejinha), São Francisco das Furnas, Nossa Senhora da
Salvação, Santa Brígida, Nossa Senhora da Vida, Nossa Senhora da Boa Hora e Nossa Senhora da Conceição. As capelas de Nossa
Senhora da Saúde e a de São João, na fortaleza do Pico, estão há muito profanadas. Em outro lugar nos referimos mais de espaço a
todas estas capelas.
Na área desta freguesia, ficam o Hospício da Princesa D. Maria Amelia, o Asilo da Mendicidade e Orfãos, o cemitério das Angústias,
o Paço Episcopal com a Câmara Eclesiástica, o Lactário, o Auxilio Maternal, o Teatro, o Jardim Municipal, o Palácio de São Pedro, a
Fortaleza do Pico, o cemitério britanico, a igreja anglicana, a Estação Telegráfica Inglesa, o Orfanato D. Maria Amelia, o molhe e
estrada da Pontinha, as quintas Vigia, Lambert, Bianchi, Cruzes, Favila, São João, etc., etc..
A freguesia de São Pedro estende-se, pelo lado ocidental, até o Ribeiro Seco, e, pelo lado norte, até a azinhaga dos Ausentes, no
caminho de Santo Antonio, e a travessa da Figueira Canhota, no caminho da Achada. São ainda limites da freguesia de São Pedro
uma parte da margem direita da ribeira de Santa Luzia situada acima do largo do Torreão, a metade ocidental da rua dos Ferreiros
ou do Comercio, compreendida entre o mesmo largo e a rua dos Netos, a parte norte desta ultima rua limitada pela dos Ferreiros e a
das Mercês, a rua de São Pedro, a rua das Pretas ou de Câmara Pestana, mas somente dos prédios com os n.° 70 e 47 em diante
(1921), a metade ocidental da rua de São Francisco e a calçada de São Lourenço. É o ponto onde desemboca a rua de São Francisco
que estabelece na rua da Carreira ou do Dr. Vieira a separação da freguesia de S. Pedro da da Sé.
A população da freguesia de S. Pedro é de 7061 habitantes (1921).
São Pedro (Lombada, Ribeira e Capela de)
Na freguesia de Santa Cruz, e não muito distanciada da respectiva vila, fica situada a
Lombada de São Pedro ou de Santa Cruz, que é atravessada pela ribeira também chamada de São Pedro, mais vulgarmente
conhecida pelo nome de Ribeira da Boaventura.
Nos princípios do século XVI, João Escorcio Drumond fez ali construir uma capela dedicada ao apóstolo S. Pedro, que a grande
aluvião de 9 de Outubro de 1803 arrasou inteiramente, sendo pouco depois reedificada em lugar menos exposto á violência da
corrente.
São Pedro de Alcântara (Capela de)
No sítio do Lombo do Atouguia da freguesia da Calheta, fica situada esta capela, que foi
fundada no ano de 1783, por João Baptista Teixeira. A escritura de dotação é de 9 de Fevereiro de 1783 e a licença para ser benzida
foi concedida a 13 de Outubro do mesmo ano.
V. São João Baptista (Capelas de).
São Pedro Gonçalves Telmo (Capela de)
Na vila da Calheta e nas proximidades da praia, existiu uma capela com esta
denominação.
Vid.Corpo Santo (I-316).
São Roque (Águas de)
No artigo
Machico
(Estação Sanitária de), fizemos já referência ás águas das fontes de São Roque da vila
de Machico, que tem notáveis virtudes terapêuticas, como é geralmente sabido e como é afirmado por muitos e distintos médicos.
Sendo hoje difícil encontrar-se o resultado da analise dessas águas, a que procedeu o ilustre químico e analista Charles Lapierre,
julgamos de algum interesse reproduzi-lo neste lugar.
«Tendo sido encarregado pela ex.
ma
Câmara Municipal de Machico de examinar sob o ponto de vista químico e bacteriologico a
água fria da fonte de «S. Roque» muito afamada e usada como agente terapêutico, apresentarei o resultado das minhas experiências
que constam do seguinte relatório que se acha dividido em três partes:
1.º Analise química, 2.º analise bacteriologica, 3.° conclusões gerais.
1.ª ANALISE QUIMICA – Os processos que segui são os mais usados neste género de trabalhos nos Laboratórios oficiais
portugueses e estrangeiros.–A Ensaios qualitativos–
Demonstraram estes ensaios que a água continha:
Muitos cloretos, bastantes sulfatos, bastantes carbonatos, bastante cal e magnesia, muito sódio B.–Ensaios quantitativos (por litro).
1.º - Resultados directos da analise, Resíduo a 180º 0.5.324 gramas, Oxigénio dissolvido 6,3 c. c, Acido Carbónico combinado (dos
carbonatos) 0,0320 gr., Sílica Óxido de ferro, alumina 0,0220, Cal (bao) 0,0288 gr., Magnesia (Mg.) 0,0397, Sódio 0,1.460, Acido
sulfurico (503) 0,0222, Chloro total 0,2.485. Nitrato de potassio 0,0030 ou azote nitrico 0,42 mig.
Matérias orgânicas solução acida e alcalina –nulas; Amoníaco nulo, Nitritos nulos.
2.° - Agrupamento dos elementos (por litro) Sílica, Óxido de ferro, Alumina 0,0025, Nitrato de potássio 0,0030, Sulfato de
magnésio 0.0423, Carbonato de cálcio 0,0407, Carbonato de magnésio 0,0269, Cloreto de magnésio 0,0305 Cloreto de sódio,
0,3717, soma dos elementos 0,5377. Resíduo, 0,5324.
A comparação entre a soma dos elementos determinados e o resíduo obtido directamente pela evaporação verifica a exactidão da
analise.
II ANALISE BACTERIOLOGICA – No próprio dia da chegada das águas em Coimbra, tratei de fazer as sementeiras precisas nos
diversos meios nutritivos para procurar:
1.º A quantidade de bactérias existindo num centímetro cúbico de água.
2.º A existencia de bactérias do grupo do Coli-bacilo a que se está ligando hoje grande importância.
1ª QUANTIDADE DE GERMENS – Não descrevi os processos seguidos por já o ter feito no relatório sobre as águas do Funchal que
dirigi á Ex.
ma
Câmara Municipal dessa cidade, e que foi impresso na Coimbra Medica e em jornais madeirenses.
Contudo, repito, que não se deve ligar grande importância ao valor absoluto dos algarismos achados, visto o numero de germens,
aumentar muito desde que a água esteja submetida a diferenças no meio, na temperatura, etc..
Pelo processo das placas de gelatina examinadas 8 e 13 depois da sementeira, achei:
Por centímetro cúbico em 8 dias 2 700 bactérias, em 13 dias 3.060.
Fungos em 8 dias 150 em 13 dias 160.
Entra, segundo as classificações de Miguel, no Grupo da «Água Sofrível».
As espécies desenvolvidas eram todas Saprofitas vulgares não aparecendo nenhuma considerada hoje como sendo patogenica.
2.° PESQUIZAS DE ESPECIES COLIFORMES – A água submetida simultaneamente ao processo de Elsner e de Péré (vid. Relatório
do Funchal) não apresentou nenhuma espécie coliforme nas numerosas placas semeadas.
Deve-se ligar maior importância a este resultado do que ao precedente baseado no numero de germens.
Nos primeiros dias apareceram duas colónias suspeitas pela sua aparência microscópica; faziam fermentar os assucares, mas não
produziam indol. Passados seis dias liquefaziam a gelatina; por conseguinte não se tratava de bactérias do grupo do bacilo coli.
O facto de não aparecer em estas espécies está de harmonia com a analise química e demonstra as boas condições de captação e
canalização da água da fonte de «São Roque», não existindo entre esta e os terrenos próximos comunicação que pudesse dar lugar a
inquinações que alterariam a pureza de água da fonte.
III CONCLUSÃO – A água minero-medicinal da fonte de «São Roque» pertence á classe das águas hypothermais Hyposalinas,
Chloretadas-Sodicas.
Pela sua composição química assemelha-se no continente com as águas de Amieira, analisadas pelo Sr. Santos e Silva, e com as
águas do Bicanho, e das «Geiras» (perto de «Amieira») de Fonte Nova (perto de Torres Vedras) também minero-medicinais e que
analisei.
Tanto as minhas analises como as de «Amieira» foram publicadas na «Coimbra Medica».
Por analogia com estas águas cujos efeitos terapêuticos já são conhecidos, é natural que seja a água da fonte de «São Roque»
própria para os casos patológicos em que as primeiras dão resultado positivo, por exemplo no escrofulismo, afecções cutâneas,
perturbações gástricas, etc..
Porém não me compete entrar em desenvolvimento a este respeito, não sendo este o papel do químico, mas sim do clínico que á
vista da composição da água e dos resultados colhidos pudera formular parecer scientificamente baseado.
Posso acrescentar que a analise bacteriologica indica que, a água parece apresentar-se em boas condições de captação.
Coimbra, 4 de Julho de 1896.
Charles Lepierre
Professor de química na Escola Industrial de Coimbra e preparador no Gabinete de Microbiologia da Universidade, sócio
correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Oficial da Ordem de São Tiago etc..»
São Roque (Capela de)
Ao entrar na pequena, mas formosa baia de Machico, depara-se à esquerda debruçada sobre o oceano,
com uma capela dedicada a São Roque, no sopé da qual fica a conhecida fonte do mesmo nome. A capela existente não é a
primitiva, que ficava a pequena distancia da actual, aproximadamente no largo que ali há, sobranceiro ao mar. Era de construção
antiga, mas ignoramos o ano da sua fundação. Achando-se em adiantado estado de ruína, foi mandada reconstruir pela respectiva
confraria em 1739, sendo então erigida no local onde actualmente se encontra. A licença concedida para a sua benção é de 6 de
Junho daquele ano, mas no altar-mor lê-se a data de 1751, que talvez diga respeito á colocação do mesmo altar em substituição
doutro que ali existisse. A capela é interiormente ornada com primorosos azulejos, representando os principais episódios da vida do
santo, que tem sido objecto de admiração de nacionais e estrangeiros, e que na verdade merecer ser visitados. Do centro da vila ao
adro da capela, conduz uma bela estrada, que na quadra estival é muito frequentada pelos veraneantes que passam em Machico a
estação calmosa.
Vid.
São Roque (Águas de
).
São Roque (Freguesia de)
Os terrenos que ao presente formam esta freguesia suburbana do Funchal, faziam primitivamente
parte da paróquia da Sé e pertenceram depois á freguesia de São Pedro, o que igualmente aconteceu com a freguesia de São
Martinho, como já ficou dito noutro lugar deste volume. As duas paróquias desmembraram-se da de São Pedro no mesmo ano e
tem a mesma data o diploma que as criou.
O alvará régio do cardeal D. Henrique, de 3 de Março de 1579, cometeu ao prelado diocesano D. Jerónimo Barreto a faculdade de
criar a freguesia de São Roque, arbitrando ao respectivo pároco a côngrua anual de 14:000 réis em dinheiro, meio moio de trigo e
um quarto de vinho. O alvará régio de 16 de Janeiro de 1589 elevou esse vencimento a 19:000 réis em dinheiro, meio moio de trigo
e um quarto de vinho, a que o alvará de 30 do mesmo mês e ano acrescentou mais 3:000 réis em dinheiro e meio moio de trigo.
Tirou esta freguesia o seu nome da pequena capela de São Roque que ali existia e onde se estabeleceu a sede da nova paróquia. A
ermida foi construída pelos moradores do sítio, em ano anterior á criação da paróquia. O Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, fundado
no mandado do Conselho da Fazenda, de 19 de Maio de 1704, que determina seja dada de arrematação a construção da nova igreja e
da sacristia pela importância de 795$000 réis, parece concluir que a igreja actual foi edificada naquele ano. Esta construção ou
antes acrescentamento deu-se na capela que existia no sítio ainda hoje conhecido pelo nome de Igreja Paroquial, que julgamos ser o
local da primitiva capela de São Roque. Parece que foi pouco solida essa construção, por isso que por 1790 abateu a igreja, ficando
incapaz de ser aplicada ao serviço do culto. As funções religiosas passaram a ser exercidas numa pequena capela, cuja invocação
ignoramos.
A igreja actual começou a ser edificada no princípio do século XIX, mas foi morosa a sua construção, tendo sido dadas por
concluídas as respectivas obras por meados do mesmo século. No entretanto, foi servindo de igreja paroquial desde os anos de
1820.
Existem nesta freguesia as capelas de Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Alegria, Nossa Senhora do Rosário e Santana,
e há muito que desapareceu Nossa Senhora da Esperança, das quais damos sucinta noticia noutro lugar.
Os principais sítios desta paróquia são: Achada, Muro da Coelha, Conceição, Fundoa, Igreja Velha, Calhau, Igreja Nova, Alegria,
Bugiaria, Lombo Segundo, Lombo de João Boieiro e Santana.
O numero dos seus habitantes é de 3289 (1921).
São Roque do Faial (Freguesia de)
Fazia parte integrante da paróquia do Faial, até que dela foi desmembrada e ficou
constituindo freguesia autónoma desde o ano de 1848. Entre os seus mais antigos povoadores conhecidos, contam-se Brás Pereira
da Silva, que foi o tronco dos Pereira da Silva, do Faial, Jácome Nunes e alguns indivíduos de apelido Pires.
Provém-lhe o nome da capela dedicada a São Roque, que ali existe desde os meados do século XVI.
A fundação da primitiva ermida deve-se a Cristóvão Pires que a fez construir pelos anos de 1551. Residia ele na freguesia do Faial, e
a 6 de Agosto daquele ano fez, perante o cabido da Sé do Funchal, na ausência do respectivo prelado, a declaração de que edificara á
sua custa aquela capela e a dotara convenientemente, pedindo licença para nela se poderem celebrar os ofícios do culto. Tem
sofrido varias reparações, e no ano de 1889 foi notavelmente ampliada, sendo então vice-vigario o padre Casimiro Augusto de
Freitas e Abreu.
Esta capela, além das suas acanhadas dimensões, desproporção das suas partes, dando ao conjunto um aspecto muito desagradável,
e perigosa situação topográfica, encontrava-se num adiantado estado de ruína, impondo-se absolutamente a construção dum novo
templo. Arrojou-se a essa arriscada empresa, numa freguesia de população limitada e de escassos recursos, o pároco Daniel Nicolau
de Sousa, que, a custa de aturados e diligentes esforços, conseguiu edificar uma nova igreja, de mais amplas proporções, e em sítio
mais seguro e acessível, dotando assim a sua freguesia com um tão notável e apreciado melhoramento. O lugar escolhido fica no
sítio do Chão do Cedro Gordo, e o novo templo foi benzido solenemente pelo Prelado Diocesano no mes de Dezembro de 1927.
Por carta regia de 11 de Fevereiro de 1746, foi criado um curato na freguesia do Faial, com a obrigação do respectivo cura prestar
alguns serviços religiosos na capela de São Roque. Vimos algures que esse curato fora criado com a sua sede na referida ermida, o
que nos parece não ter fundamento sério, apesar de partilhar desta opinião o anotador das Saudades da Terra.
A carta de lei de 24 de Julho de 1848 é que verdadeiramente estabeleceu a freguesia autónoma, sendo-lhe dado então pároco, o que
sempre se tem mantido até o presente. Foram seus primeiros párocos Francisco José Nunes (1848-1865), que ali faleceu, Estevão
Correia Bizarro (1865-1869), Caetano Velosa Castelo Branco (1869- 1870), Antonio Pereira (1870-1880), etc..
Sítios principais: Terreiros, Cancela, Lombo dos Palheiros, Serradinho, Chão do Cedro Gordo, Pico do Cedro Gordo, Achada do
Folhadal, Lombo Grande, Achada do Pau Bastião, Fajã do Cedro Gordo e Ribeiro Frio. 0 ultimo destes sítios é digno de ser visitado
pela amenidade e pitoresco do lugar e pelos surpreendentes panoramas que dali se descortinam.
Tem esta freguesia uma escola oficial criada em 1903 e que presentemente funciona no sítio do Chão do Cedro Gordo (1921).
A sua população é de 956 habitantes (1921).
São Sebastião (Capelas de)
A capela de São Sebastião da vila da Ponta do Sol, que é de antiga construção, era propriedade da
respectiva câmara municipal. Em 1734, encontrava-se profanada e em adiantado estado de ruína, sendo inteiramente reconstruída
a expensas da mesma câmara. Foi vistoriada, para o efeito da celebração dos oficios divinos, a 20 de Novembro de 1734.
Na ilha do Porto Santo existiu uma capela dedicada ao mártir São Sebastião, que era muito antiga.
Houve uma capela com a mesma invocação na freguesia de Santa Cruz, ignorando-se o ano da sua construção e o nome do seu
fundador.
Existiu uma capela de São Sebastião na freguesia de São Jorge, cujo ano de construção ignoramos. No entretanto sabemos que foi
reedificada pelo pároco Francisco Marques de Mendonça no ano de 1765, sendo benzida a 11 de Setembro do mesmo ano. Encontra-
se na igreja paroquial a pequena imagem do santo, que é um notável primor de escultura.
V. Mercado e capela de São Sebastião
a páginas 359 do volume II.
São Tiago (Capela de)
A capela de São Tiago da freguesia dos Canhas é das mais antigas da diocese, e, segundo refere Gaspar
Frutuoso, foi o próprio João Gonçalves Zargo que projectou e indicou o lugar da sua construção. Foi nela que se instalou a paróquia,
quando criada pelos anos de 1577. Quanto a outras circunstâncias que digam respeito a esta capela, remetemos o leitor para o artigo
que se ocupa da freguesia dos Canhas.
São Tiago (Fortaleza de)
«Esta fortaleza, diz o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo nas notas ás Saudades da Terra, assenta sobre
uma ponta de rocha firme, mais entrada nas águas do porto que as praias adjacentes; pelo que as vigia e protege para um e outro
lado; é, além disso, o fecho da cortina de muralha que até ela se prolonga pelo Cabo do Calhau. A originária construção não tinha a
primeira bataria que lá existe: o pórtico primitivo está a dentro desta, e tem no alto, em letra do tempo, a era de 1614, a testificar o
quando da obra».
A fortaleza de São Tiago foi reedificada em 1767, segundo se vê duma inscrição que está sobre a porta principal, no ângulo leste-sul
do largo da entrada, tendo o governador e capitão-general José Correia de Sá mandado vir de Londres 50 peças de artilharia com
todos os seus pertences, para defesa dela.
A bataria n.° 3 de Artilharia de Montanha está aquartelada na fortaleza de São Tiago. V. Fortificações.
São Tiago (Igreja de)
A construção da igreja de São Tiago foi determinada pelo voto solene (V. Voto a São Tiago que as
autoridades, clero e povo do Funchal fizeram no ano de 1523, por ocasião de encontrar-se esta ilha «posta em muyta tempestade &
tribulaçom de peste & fome & outros muytos trabalhos...». No dia 21 de Julho do ano referido, se lançou a primeira pedra do
edifício, dizendo um documento coevo do sucesso que aos «bymte & hun dias de julho lhe começarom a sua casa himdo a çidade e o
cabido em proçisom solene descalçados & o Mestre schola Gonçalo Martim com o retábulo da imagem do bem auemturado
apóstolo & deo a primeira enchadada no cunhall da capella da bamda do abamgelho, a qual casa se edificou em hua terra que
Antonio Spindola deo para a dita casa...».
Acerca deste Antonio Espinola, diz a Historia Insulana que era natural de Génova e descendia das mais antigas familias desta
cidade, e que contava no numero dos seus maiores alguns Doges daquela republica. Deu-lhe «El-rei D. Manuel brasão de armas e
foro de fidalgo da sua casa. Teve terras dadas de sesmaria em Santiago e outros logares; e doou por escriptura de 30 d'Abril de 1524
um pequeno terreno na extremidade da cidade, no qual se construiu a capella de Santiago, Padroeiro de toda a ilha, a sachristia e
adro, com condição de que na mesma se desse sepultura ás pessoas de sua família, e o capellão pedisse um Padre Nosso, e Ave-
Maria por sua alma. A escriptura foi feita em pergaminho e existe no archivo do Cabido do Funchal».
A igreja de São Tiago, chamada hoje do Socorro, onde em 1803 se instalou a sede da freguesia de Santa Maria Maior, não é a
primitiva construção, da qual nada resta presentemente e que era de dimensões muito mais acanhadas do que a actual. Sofreu anos
depois importantes reparações e foi benzida pelo bispo diocesano D. Jeronimo Fernando a 25 de Julho de 1632. Um século mais
tarde, estando a capela bastante arruinada, resolveu a Câmara do Funchal construir um templo de maiores proporções, tendo sido a
velha ermida demolida em 1752 e dadas por concluídas as obras no ano de 1768.
Quando a grande aluvião de 1803 arrastou para o mar a igreja de Nossa Senhora do Calhau (V. este nome), foi a igreja de São Tiago
cedida pela câmara para servir de sede da paróquia, com a condição de ali ser sempre conservada a imagem do orago e padroeiro da
cidade. No frontispício da igreja foi então colocada uma lápide, que ainda ali se conserva, e que, contém a seguinte inscrição: Hic
lapis indicat liberalitatem senatus et populi hance cclesiam Fidelissimo Principi Regenti offerentium in locum parochiae per
inundationem aquarum destructae Anno Domini MDCCCIII.
Vid. Padroeiros.
São Vicente (Capela de)
Num solitário bloco de basalto, que se encontra na foz da ribeira que atravessa a vila de São Vicente,
construiu o povo no ano de 1692, segundo afirma o Dr. Alvaro de Azevedo, uma capela dedicada ao mártir São Vicente, que é
também o orago da igreja paroquial, que lhe fica a pequena distancia. Esta original capelinha é muito conhecida pela reprodução
que dela se tem feito pela gravura em varias obras nacionais e estrangeiras, e também por meio de bilhetes postais.
São Vicente (Freguesia de)
É incontestavelmente a mais importante, a mais populosa e a mais vasta de todas as freguesias do
norte da Madeira. A única vila estabelecida na costa setentrional desta ilha, foi a que ali se criou por meados do século XVIII, sendo
também sede dum concelho desde 1835, e duma comarca desde o ano de 1875 (1921).
É hoje impossível determinar com aproximada exactidão, como acontece para a grande maioria das freguesias deste arquipélago, o
ano em que principiou o povoamento e colonização dos terrenos que actualmente constituem esta paróquia. Como facilmente se
acredita, as explorações agrícolas e o correlativo desbravamento das florestas não começou na costa-norte nos anos mais próximos
do descobrimento. Tinham de sobra, os primitivos povoadores, no sul da ilha, terras mais ferteis e climas mais temperados em que
exercitar a sua actividade e dar largas ao seu génio empreendedor. Quando foram crescendo em numero os colonos, com a fama da
notável feracidade do solo e da exuberância das produções culturais, quando os sesmeiros encontraram no escravo africano o
principal auxiliar no amanho das glebas, e quando o fabrico do açúcar se tornou um poderoso elemento de riqueza, é então que a
colonização se foi estendendo e alargando pelos vales distantes, pelas lombas e vertentes das montanhas do interior e até por vezes
procurando lugares ínvios e quase inacessíveis.
Afirma-se que as primeiras terras cultivadas no norte da ilha foram as do Faial e Porto da Cruz, mas é de supor que,
contemporaneamente àquelas, se tivessem realizado outras explorações em vários pontos da parte setentrional, sobretudo na Ponta
Delgada, São Visente, Seixal e Porto Moniz.
«A freguesia de São Vicente, diz o anotador das Saudades, é, nos manuscriptos que consultamos, havida por fundada em 1440, o
que apenas admissível será quanto á edificação da primitiva igreja e instituição da capellania; pois que a parochia de Machico,
principal da capitania, só no ano de 1450 veio a ser constituída: estamos, portanto, em que a freguesia de São Vicente datará de
alguns anos posteriores a esta». Não pode a tal respeito haver a menor duvida, se atentamente examinarmos as datas das criações
das mais importantes freguesias do sul desta ilha. Somos de opinião que esta paróquia sòmente foi criada no ultimo quartel do
século XV.
Em 1590, dizia Frutuoso, referindo-se a esta paróquia: «Huma legoa além da Ponta Delgada está a freguesia de S. Vicente, de
duzentos e cincoenta fogos, com grandes terras de lauranças de pão, e criações; muitas frutas de castanha, noz, e de outra sorte;
muitas vinhas, e muitas águas, e duas serras de água».
O alvará régio de 18 de Setembro de 1575 arbitrou ao pároco o vencimento anual de réis 25$000, que foi elevado a 25$000 réis,
meio moio de trigo e um quarto de vinho pelo alvará régio de 20 de Abril de 1589, sendo ainda acrescentado por um alvará do
mesmo mês e ano com meio moio de trigo e uma pipa de vinho.
Engana-se o Dr. Rodrigues de Azevedo quando afirma que esta freguesia teve somente vigário, quando é certo que as próprias
Memórias do Estado Eclesiástico citadas por ele, e que fomos agora consultar, fazem menção do alvará régio de 2 de Janeiro de
1606 que estabelece a criação do curato, diploma que também se encontra citado no Índice Geral da Provedoria... a que tantas vezes
temos recorrido. 0 referido alvará fixa ao cura a côngrua anual de 20$000 réis.
Para comodidade dos povos da ilha, foi a paróquia de São Vicente sede duma vigairaria da vara, ou seja um arciprestado, criado em
2 de Setembro de 1812 pelo prelado diocesano D. Fr. Joaquim de Meneses e Ataide, sendo primeiro vigário da vara ou arcipreste o
padre Francisco Borges de Sousa e Melo, que ao tempo era pároco da freguesia, com jurisdição «sobre todos os párocos, clero e
mais pessoas da mesma Vila e seu districto». Esta jurisdição, por provisão do vigario-geral de 14 de Janeiro de 1814, tornou-se
extensiva ás freguesias do Porto Moniz, Ribeira da Janela e Seixal, por constar-lhe «que muitas vezes antes é melhor irem á dita
Vila do que a da Calheta». Ignoramos quais eram as atribuições deste vigário da vara e quando deixaram de ser exercidas as funções
desse cargo, sendo certo que há algumas dezenas de anos que tal autoridade eclesiástica não existe. Muito recentemente, é que o
actual prelado diocesano, dentro das faculdades que lhe confere o Código Canónico vigente, criou os arciprestados do Funchal,
Calheta e São Jorge (1921).
Uma pequena ermida, consagrada a São Vicente, deu o nome ao local onde fora erguida, e depois á nova paróquia. Desconhecemos
o nome do seu instituidor e o ano da sua construção, mas deve ser coeva das primeiras explorações agrícolas que ali se fizeram. Nela
se estabeleceu a sede da freguesia, quando esta foi criada no ultimo quartel do século XV. No decorrer dos tempos, deveria ter
sofrido varias reparações e acrescentamentos, como aconteceu com todas as capelas que depois se transformaram em igrejas
paroquiais. Um mandado do Conselho da Fazenda, de 12 de Janeiro de 1664, ordena que se entregue ao pároco a importância de
560$000 réis para o acrescentamento da igreja, dizendo esse documento que o povo deveria acudir com o que lhe fosse possível,
para o mesmo fim. Parece daqui deduzir-se que a actual igreja foi acrescentada ou passou por notáveis reparações no terceiro
quartel do século XVII.
Tem esta freguesia as capelas de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Livramento e São Vicente, e já não existe a de Nossa
Senhora da Piedade, das quais já demos breve noticia.
Principais sítios desta freguesia: Fajã da Areia, Vila, Terra-Chã, Fontinha, Poiso, Pé do Passo, Passo, Ribeira do Passo, Lanço,
Feiteiras, Ginjas, Saramago, Loural, Vargem, Estreito da Vargem, Ribeira Grande, Achada do Til, Achada dos Judeus, Fajã dos
Vinhaticos, Aviceiro, Ribeira do Rato, Lameiros, Cascalho, Limoeiro, Laranjal, Pé da Corrida e Cardais.
«A freguesia de São Vicente, diz-nos uma pessoa ilustrada que ali reside ha anos, encravada no sopé de montanhas altissimas,
talhadas quasi verticalmente, que a circundam em dezenas de quilómetros, como gigantescas muralhas, só aberta pelas bandas do
mar, é uma das mais formosas terras da Madeira, pelo aspecto rude de beleza grandiosamente agreste. Confina a leste com a Ponta
Delgada; a oeste vão os seus limites até a Ribeira do Inferno, separada assim pela natureza do Seixal; ao norte tem o mar; ao sul,
estende-se o planalto do Paul da Serra e a divide da Serra Alva, e baixando o alto dorso das montanhas, a garganta da Encumeada.
Bastas e densas as suas terras, nelas abundam matas opulentissimas de frondosos loureiros, tis, vinhaticos e urzes, que
presentemente passam, sem contestação, por ser as melhores da Madeira».
Teve entre nós muita voga e ainda é conhecido e citado uma espécie de aforismo – de São Vicente nem burro, nem vinho, nem
gente –que não só representa uma referência desprimorosa para aquela freguesia, como também é uma flagrante e grande injustiça
ás qualidades de carácter, á morigeração dos costumes e franca hospitalidade dos seus habitantes, o que muito nos apraz pôr aqui
em saliente relevo, como uma merecida homenagem prestada á verdade. E a propósito diremos que o nosso grande poeta satírico
Monteiro Teixeira (volume II. página 390) passou quinze dias em São Vicente, no ano de 1826, e dali escreveu uma carta em verso,
que vem publicada no tomo 2.° das suas Obras Poéticas, e em que, dando largas à sua imaginação poética e á sua pronunciada
tendência para a sátira e para o epigrama, se refere a esta freguesia em termos que não são muito para louvar, mas em que
claramente se vê, antes o prurido de ter graça do que o desejo de deprimir ou de vexar.
Tem esta paróquia 5462 moradores (1921).
A 6 de Março de 1929 foi esta paróquia teatro duma grande tragédia, que causou a maior consternação em toda a ilha, tendo-se
dado, com as abundantes chuvas que anteriormente cairam, um extenso desagregamento de terrenos, arrastando na sua queda
muitas casas de habitação, em que trinta e duas pessoas encontraram morte desastrosa. Sucedeu esta grande catástrofe em sítios
não muito afastados da capela do Rosário, sede do curato da freguesia.
São Vicente (Julgado Municipal de)
O julgado Municipal de São Vicente, com sede na freguesia e vila do mesmo nome, foi criado
por decreto de 24 de Outubro de 1931 e compreende as freguesias de São Vicente, Ponta Delgada e Boaventura, que constituem o
respectivo concelho. No ano de 1926 fôra extinta a comarca de São Vicente, que tinha sido estabelecida por decreto de 12 de
Novembro de 1875 e cuja instalação se fizera no dia 16 de Novembro de 1876.
São Vicente (Vila e Município de)
Sabe-se que as vilas do Funchal, Machico e Porto Santo foram criadas por meados do século
XV e as de Santa Cruz, Ponta do Sol e Calheta em princípios do século XVI. Durante o século XVII não se estabeleceu vila alguma na
Madeira, sendo a de São Vicente criada no segundo quartel do século XVIII.
O lugar de São Vicente, constituído em paróquia por fins do século XV, foi das freguesias, do norte da Madeira que desde os tempos
primitivos da colonização adquiriu maior importância e onde a população se tornou mais densa, sendo ainda hoje a mais populosa
de todas. Pertencia á capitania de Machico e a vila deste nome era a sede de toda a administração pública, vendo-se os povos do
norte da ilha forçados a longas e perigosas caminhadas para chegarem á capital da sua capitania, quando imperiosas circunstancias
a isso os obrigassem.
Como eram mais fáceis e frequentes as comunicações de muitas freguesias da costa-norte com o Funchal, pretenderam varias vezes
os povos daquelas paróquias subtrair-se à jurisdição da capitania de Machico e serem incorporados na do Funchal, ou então obter a
criação dum município com sede em São Vicente e que abrangesse esta e outras freguesias circunvizinhas.
Aquele legitimo desejo dos povos do norte só foi alcançado em 1744 com a criação da vila de São Vicente. 0 Dr. Alvaro Rodrigues de
Azevedo não faz a menor referência aquele facto e por certo desconhecia o diploma que elevou a freguesia de São Vicente á
categoria de vila. 0 respectivo alvará régio, que é documento extenso e sobremaneira interessante, tem a data de 25 de Agosto de
1744 e foi pela primeira vez publicado no numero 14 e seguintes do jornal A Revista Madeirense, do ano de 1902.
Com a implantação do governo constitucional, procedeu-se á divisão deste arquipélago por concelhos, tendo sido profundamente
alterada a divisão então existente por vilas ou municípios. 0 conselho de São Vicente instalou-se em 1835 e era composto, como
ainda o é ao presente, pelas freguesias de Boaventura, Ponta Delgada e São Vicente. 0 decreto de 10 de Dezembro de 1867 suprimiu
o concelho do Porto Moniz, e incorporou no de São Vicente as freguesias do Seixal, Ribeira da Janela e Porto Moniz, sendo pouco
depois restaurado o extinto concelho do Porto Moniz. Este conselho foi novamente suprimido pelo decreto de 18 de Novembro de
1895 e também de novo restaurado pelo decreto de 13 de Janeiro de 1898, tendo, neste curto período de tempo, as freguesias do
Seixal, Ribeira da Janela e Porto Moniz feito mais uma vez parte do concelho de São Vicente.
Ficando a vila de São Vicente situada em um apertado recinto e estando constituída por um limitado numero de moradores, não
tem tido a expansão e o desenvolvimento compatíveis com as circunstancias de haver sido a sede de uma comarca, de gozar as
honrarias de Vila, capital de um concelho e centro de um Julgado Municipal, impondo-se a conveniência da sua instalação em local
de mais vasta área, que permita formação de um importante núcleo populacional em volta das repartições municipais e concelhias
como geralmente acontece em outras localidades. Não é recente a ideia da transferência da sede do concelho para sítio mais
acomodado a esse fim, e ainda no ano de 1929 a Comissão Administrativa do Município se ocupou desse assunto com devotado
interesse, chegando a fazer-se a escolha desse local e a ser esboçado o plano da futura vila. É de presumir que venha a restaurar-se a
antiga comarca, dando valiosa importância à povoação que porventura haja de criar-se.
São Vicente (Porto e Ribeira de)
No litoral da vila dêste nome se encontra um pequeno porto de difícil desembarque. É preferível
o porto da Fajã da Areia (V. este nome), a cerca de dois quilómetros de distância do porto de São Vicente.
Nas serras da Encumeada de São Vicente tem origem o caudal desta ribeira, que, atravessando a freguesia na sua maior extensão,
vai lançar-se no Oceano. Na sua foz e no meio do leito desta ribeira, ergue-se um solitário bloco de basalto, onde se encontra uma
pequena capela dedicada ao martir São Vicente e construída pelo povo no ano de 1692. Próximo da foz desta ribeira, encontra-se
uma caverna ou algar de relativa extensão, formada por um extinto canal de lava.
Sapata (Centrophorus calceus)
Peixe espinacida, frequente entre 350 e 700 braças de profundidade. A sua carne se bem que não
seja muito saborosa, pode ser comida, sobretudo depois de salgada e seca ao sol. Dos fígados extrai-se um óleo, que é considerado
de boa qualidade.
Sapo (Tetrodon marmoratus)
Peixe da família Ginodonta, que vive perto do litoral da Madeira e se nutre de pequenos crustáceos,
que esmaga com as suas potentes maxilas. Nos fundos lamacentos é pescado em quantidades avultadas com as redes de arrasto. É
dotado dum grande saco abdominal que ás vezes se dilata em demasia, obrigando-o a vir á superfície, onde morre ou é colhido pelas
aves marinhas.
Saque (Vergílio)
Foi nomeado governador civil do distrito do Funchal em fins de Outubro de 1921, mas não chegou a tomar posse
do lugar.
Saque dos Franceses
Uma das maiores calamidades que têm assolado este arquipélago foi o saque dos huguenotes franceses. A
memória do acontecimento não se conserva já na tradição local, como a das inundações de 1803 e da colera-morbus em 1856, por
ter ocorrido numa época muito afastada de nós, mas as crónicas madeirenses e muitos dos historiadores do nosso país se referem
ao mesmo acontecimento com verdadeiro horror e o descrevem com as cores negras das grandes tragédias e das mais tremendas
catástrofes.
Era em 1566. 0 quinto capitão-donatario do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, estava ausente em Lisboa e governava a
capitania seu tio Francisco Gonçalves da Câmara. O português Gaspar Caldeira era um dos muitos traficantes que na costa da Mina
se entregavam ao comercio do ouro e de outros produtos, que os naturais negociavam no litoral africano. Abusando das
prerrogativas que o regimento real lhe concedia, teve Caldeira que refugiar-se em França, sendo-lhe então confiscado todos os seus
bens. Privado dessas isenções e regalias é forçado a viver fora da sua pátria, não reconheceu o seu erro nem procurou justificar-se,
mas jurou exercer contra os seus compatriotas a mais terrível vingança e a mais vil das desforras. Conhecedor das prosperidades da
Madeira e da importância do seu grande comercio, e não ignorando também quão fracos eram os elementos de defesa que aqui se
poderiam opor a um ataque de navios armados, concebeu então o projecto de assaltar esta ilha, realizando deste modo a sua negra
vingança e desforrando-se da perda dos bens que o confisco lhe havia tirado.
Encontrou em Bertrand de Montluc um excelente executor dos seus projectos. Era este gentil-homem da casa do rei Carlos IX e
filho do marechal de Montluc, que deixou nome na historia pelos actos de heroísmo que praticou nos campos de batalha e ainda por
umas Memórias da sua vida que escreveu e de que se fizeram varias edições. É impossível hoje saber-se se Bertrand de Montluc se
preparava para correr os mares em arriscadas aventuras de corso e pirataria, quando se encontrou com Gaspar Caldeira, ou se foi
este que, conhecendo o espírito audaz e aventureiro do fidalgo francês, o levou a tomar iniciativa daquele perigoso
empreendimento.
Montluc obtivera de Carlos IX aprovação para a empresa a que se arriscara, mas ocultou ao monarca os seus secretos desígnios e as
escuras negociações que entabolara com Gaspar Caldeira. Associou aos seus projectos um numero considerável de fidalgos,
principalmente da antiga província de Guyenne. O visconde de Jas era o vice-almirante desta esquadrilha de piratas e nela
embarcaram também Fabião de Montluc, um filho do visconde de Pompadour, o barão de Guitimeres, filho do visconde do mesmo
título e muitos outros membros de familias nobres de França. É possível que desconhecessem os fins reservados de Montluc, mas é
bem certo que naquelas épocas os roubos, as depredações e a pilhagem tinham em alguns países da Europa plena justificação,
quando eram coroados por actos de rara valentia ou por golpes decisivos de audácia.
Em três navios de alto bordo e em oito embarcações de menor lotação, embarcou Montluc cerca de mil e duzentos homens, entre os
quais Gaspar Caldeira, Belchior Contreiras, Antonio Luís e parece que ainda mais outros degenerados portugueses. Saíram de
Bordéus em princípios de Setembro de 1566. Acossados por uma violenta tempestade, arribaram á Madeira, segundo afirma
Edmond Falgairolle, mas não resta duvida de que o seu destino era aportarem a esta ilha e o seu único intuito roubá-la e saqueá-la,
como na verdade o fizeram.
Diz o autor citado que Bertrand de Montluc, apreciando pouco o repouso que gozava em França e enjoado das intrigas da côrte,
resolvera expor a sua vida nas paragens africanas, tentando a fundação duma fortaleza na Africa Oriental, destinada a proteger o
comercio dos franceses com aquelas regiões e ainda com os países do Oriente. Diz mais que, ao chegarem ao Funchal e
desembarcando alguns homens para fazerem aguada, foram recebidos pelos portugueses a tiro de canhão e que então «Montluc
levado pelo seu fervente entusiasmo e grande desejo de dar que falar de si, aproveitou a ocasião para dar um verdadeiro golpe de
mão e atacar assim os brios de Espanha e Portugal, tidos, ao tempo, como os verdadeiros senhores dos mares».
As crónicas madeirenses e os historiadores portugueses não fazem a menor referência á atitude hostil com que foram recebidos os
súbditos de Carlos IX. Eram então bastante amistosas as relações entre a França e o nosso país e dificilmente se acreditará que tal
tivesse sido o procedimento dos madeirenses, a não ser que a esquadra de Montluc aparecesse no Funchal em som de guerra e com
todas as aparências de verdadeiros corsários, como na realidade o eram: Para conhecer-se das intenções do pirata Montluc, bastará
recordar que, na véspera do dia em que assaltou a Madeira, fez um desembarque no Porto Santo, levando toda a sua fúria nos
indefesos habitantes daquela ilha. De mais, a sanha feroz com que atacou a cidade, as inauditas crueldades que praticou e de modo
particular o terrível saque a que sujeitou o Funchal, despejando-o das suas riquezas e carregando com elas onze embarcações, são a
prova eloquente e incontestada de que se tratava dum acto de simples e pura pirataria e nunca de uma represália em desafronta de
um agravo recebido.
Gaspar Frutuoso consagra cerca de quarenta páginas à narrativa pormenorizada de muitas violências e crueldades praticadas pelos
franceses durante os dezasseis dias que permaneceram no Funchal, na sua faina terrível de destruição e de chacina, mas não nos dá
uma ideia geral e completa do que foi esse horrível assalto em que feras humanas deram largo pasto aos seus instintos de canibais,
transformando uma cidade rica e no auge da prosperidade num campo em que se tivesse ferido uma sangrenta batalha e onde
apenas restassem os despojos inuteis da pilhagem duma soldadesca desenfreada.
É-nos impossível, sem nos alongarmos demasiadamente, fazermos a descrição desses dantescos horrores, que, como dizem as
Saudades da Terra, causaram «mais males por obras do que se podem por homens imaginar, nem por palavras contar, nem por
cristãos crer».
Os piratas desembarcaram no dia 3 de Outubro, pelas nove horas da manhã, na Praia Formosa, e logo marcharam sobre a cidade,
entrando nela por dois pontos diversos. No portão de S. Paulo, foi-lhes oferecida tenaz resistência e aí caíram mortos, de ambas as
partes, algumas dezenas de homens. Forçada esta entrada dirigiram-se á fortaleza de S. Lourenço, onde o governador com os
elementos de que dispunha lhes resistiu valentemente, tendo que ceder á força aguerrida e numérica dos assaltantes. Ainda em
outros pontos da cidade se formaram alguns núcleos de resistência, que de todo se tornaram inúteis á vista da fúria e numero dos
piratas. Organizaram-se forças em vários pontos da ilha prontas a marchar sôbre a cidade, mas, persuadidas por informações
enviadas do Funchal, de que a sua presença mais excitaria a sanha dos corsários, resolveram retroceder, ficando aqueles
completamente senhores da situação.
No assalto da fortaleza de S. Lourenço, foi ferido mortalmente Bertrand de Montluc, que foi sepultado no próprio local do combate,
sucedendo-lhe no comando o visconde de Jas.
Seguiu-se o saque e durante dezasseis dias abarrotaram-se os onze navios com os mais ricos e variados despojos. O que não
puderam conduzir para bordo das embarcações, foi inutilizado ou destruído. Assim despejaram milhares de pipas de vinho e
inutilizaram milhares de arrobas de açúcar. Os recheios das casas ricas, as pratas das igrejas e conventos e os depósitos dos grandes
armazéns encheram alguns navios. Calculam-se em alguns milhões de cruzados os prejuízos que entre nós causaram aqueles
bárbaros.
As vítimas das fúrias dos assaltantes computam-se em trezentas, algumas mortas na defesa da cidade, mas a maioria delas
chacinadas barbaramente pela soldadesca de Montluc.
Diz Frutuoso, e passa por facto averiguado, que uma parte considerável dos invasores eram huguenotes e tem assim fácil explicação
os ultrajes e sacrilégios que praticaram nos templos, não só saqueando-os e espoliando-os de todas as suas riquezas, mas ainda
profanando-os, especialmente nas imagens e objectos destinados ao culto.
Pelos sustos e sobressaltos causados com a vinda do submarino em Dezembro de 1916, justamente se calculará o pânico e o terror
que se espalharam nas populações com o saque dos franceses.
Quando chegaram socorros de Lisboa, já os navios corsários tinham levantado ancora, dirigindo-se às Canárias, onde venderam
uma parte considerável da sua abundante presa.
A 22 de Outubro de 1566, o nosso embaixador em França apresentou a Carlos IX uma enérgica reclamação, exigindo o exemplar
castigo dos culpados. Forquevaux, representante da França em Lisboa, apressou-se a manifestar o seu grande pesar ao nosso
governo, prometendo uma severa punição dos criminosos. Carlos IX e a rainha mãe mostraram-se extremamente pesarosos pelas
tristíssimas ocorrências, mas, apesar dos esforços do nosso embaixador, aqueles horrendos crimes ficaram impunes, e só o
português Gaspar Caldeira foi justiçado em Lisboa por ter o mesmo embaixador conseguido fazê-lo prender numa fortaleza da
Biscaia, onde fora levado enganado. Alguns dos companheiros de Montluc eram homens poderosos e influentes no seu país e
muitas dezenas dos assaltantes pertenciam ás mais distintas familias francesas, o que dá suficiente explicação á impunidade.
O terrível saque de que foi vitima a população do Funchal no ano de 1566, e de que acima se faz rápida menção, aproveitando-se a
narrativa de Gaspar Frutuoso, constitui talvez a maior calamidade que tem assolado a nossa cidade e alguns dos seus arredores,
sendo para sentir que ainda não se houvesse procedido a um rigoroso e desenvolvido estudo acerca desse tão triste e lamentável
acontecimento, como já deixámos referido em outro lugar desta obra. Como mero subsidio, vamos transcrever um interessante
artigo de Stephens Gaselee, antigo director dos arquivos do «Foreign Ofice», de Londres, publicado no Diário da Madeira, de 9 de
Fevereiro de 1937, que oferece algum interesse a este assunto:
«Eu tive recentemente a boa sorte de adquirir um documento diplomático que se relaciona com este incidente e julgo que a sua
narração e transcrição poderá interessar aos leitores do Diário da Madeira. Esse documento, que está escrito numa folha dupla de
papel da medida de um quarto é dirigido no verso «Ao muito honrrado embax(ad)or Do cristianissimo snnor «Rey de França em
cortte de Castela».
Esta mensagem, acerca da qual eu tenho alguma coisa mais para dizer, foi endossada presumivelmente pelo destinatário e a data
que nela figura não está inteiramente clara– «XVI J I an 1567». Apresenta ainda impresso o selo do Cardeal Regente do Reino, mais
tarde o Cardeal-Rei Henrique de Portugal. O texto é como segue:
Muito honrrado embax(ad)or
Por o Thisoureiro Le Fevre Receby a vossa cartta de XXVI J do passado E por ela entendi como tanto que soubereis os insultos que
o capitão Montluc E os da sua companhia fizeram na Ilha da Madeira, avisareis disso por correo expresso o cristianissimo snnor
Rey de frança o sentimento que ele desta nova recebeo E o que por Razam dela proveo, que tudo vy, pelas copias das carttas e
papeis que me enviastes, E agradeçovos muito a afeiçam E amor que mostraes a minhas coussas E a deligência que posestes em
avisardes o cristianissimo snnor Rey de frança do acontecido na dita Ilha. Porque comfio e tenho por certto que Asy Como ele antes
de ther entendido particularme(n)te os grandes y muitos insultos e excessos que o dicto Montluc e seus vasalos cometeram na dicta
Ilha da Made(ira), em grande deser(vi)ço de nosso snnor E do que convinha a huma tam antigua paz e amistade como a que El Rey
meu snnor e os Reis seus antecessores, sempre tiveram com os Reis de França, quis dar a entender quanto lhe desaprouve de ele
nam observar o que lhe tinha Prohibido e deffeso E o julgou por Rebelde E ynobediente. Asy mesmo depois do ouvir Joam Pereira
dantes embax(ad)or del Rey meu snnor, fara neste casso tal demonstraçam que com Razam se deva El Rey meu snnor satisfazer
dela E o mundo conhecer o ânimo e tençam do dito snno; Rey ser o que dele se deve esperar.
Scripta e(m) Lix(bo)a A XVI de Dezembro de 1566.
O card(eal) I(nfante) H(enricu)s.
O texto da mensagem é escrito numa boa letra de chancelaria à moda da época e a assinatura do documento é do próprio punho do
Cardeal Regente. Isto, como é aparente do texto, não era verdadeiramente o princípio da correspondência diplomática. O Padre
Fernando da Silva diz: «A 22 de Outubro de 1566, o nosso embaixador em França apresentou a Carlos IX uma enérgica reclamação,
exigindo o exemplar castigo dos culpados. Forquevaux, representante da França em Lisboa, apressou-se a manifestar o seu grande
pesar ao nosso governo prometendo uma severa punição dos criminosos» e a carta transcrita acima é presumivelmente o
reconhecimento oficial da nota de Forquevaux exprimindo gratidão e manifestando a esperança de um futuro castigo dos malvados
(o que de facto nunca sucedeu, pois que com excepção de Caldeira, os outros corsários nunca foram punidos).
Mas foi Forquevaux embaixador de França em Lisboa? Eu duvido que o tivesse sido, pois que esta carta foi lhe enviada «em corte
de Castela». Da leitura dos livros de referência à minha disposição eu não pude ficar habilitado a esclarecer esta dúvida e por isso
consultei o meu amigo o Conde de Tovar, do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, que é bem conhecido como um
estudioso da história diplomática portuguesa e tem publicado vários livros sôbre o assunto.
Julgo que posso aventurar-me a citar aqui dois ou três parágrafos da sua pronta e amável resposta:
Em Abril de 1561 chegou a Lisboa, como embaixador de França, um gentil-homem da corte de Carlos IX chamado Saint-Sulpice.
Não sei quanto tempo se demorou em Portugal mas na lista dos Embaixadores de França elaborada por Caix de Saint-Amour
(Recueil des Instructions, Portugal pg. LIII) ha uma entrada que diz:
1566 N., ambassadeur, envoyé par Charles IX. «0 A. não cita a fonte, mas vê-se que encontrou algures a informação de que nesse
ano de 1566 foi mandado a Lisboa um embaixador francês. Não será porventura esse embaixador o Forquevaux que se encontrava
em Madrid como embaixador ordinário, e que teria sido mandado a Lisboa nalguma missão extraordinária? Se assim foi, a missão
não pode ter durado muito, porque ha carta dele para o seu governo datada de Madrid em 19 de Dezembro de 1566.
«Não me parece aceitável a hipótese dele se achar acreditado também e simultaneamente em Lisboa como embaixador ordinário,
porque não conheço exemplo algum desse tempo que autorisa tal hipótese. Se é a ele que se refere a notícia de Caix de Saint-Amour,
é de crer que veio como embaixador extraordinário em missão especial.
E assim penso que se deve deixar o problema, a não ser que algum perito sôbre história diplomática possa dar novos
esclarecimentos acerca da actividade diplomática de Forquevaux na última parte do ano de 1566.
Proponho-me oferecer o documento original que me proporcionou o assunto para este artigo, ao Museu Regional no Palácio de S.
Pedro».
Saramago
O saramago da Madeira é o Raphanus Raphanistrum, com siliculas articuladas e flores brancas ou amarelas; o do
Porto Santo é a Brassica Sinapistrum, planta que é conhecida na Madeira pelo nome de mostarda. Estas duas plantas pertencem á
família das Crucíferas e são comuns nas duas ilhas.
Sardinha
Procede este apelido de família de Tomé Sardinha, que residiu numa sumptuosa casa á rua da Carreira e foi casado com
uma filha bastarda de João Gonçalves da Câmara.
Sardinha (Clupea plichardus)
Peixe da família Clupeida, que aparece principalmente durante o inverno, de mistura com a cavala,
o chicharro e outras espécies. Pescam-no em grandes quantidades em frente das ribeiras, depois das enxurradas. A sua criação tem
sido observada nas poças do litoral.
Sardinha (Padre Alfredo de Paula)
Nasceu no Funchal a 2 de Abril de 1861 e faleceu na freguesia do Arco da Calheta a 23 de Maio
de 1897. Cursou o Liceu e o Seminário desta cidade, e ordenou-se de presbítero no ano de 1885. Exerceu funções paroquiais nas
freguesias de Santana, Faial, Fajã da Ovelha e Arco da Calheta.
Revelara uma decidida vocação para as letras, tanto na prosa como no verso, mas o infortúnio e as doenças não o deixaram
infelizmente dedicar-se a aturados labores literários, havendo muito a esperar do seu incontestável talento e da cultura do seu
espírito. Pelos jornais, deixou dispersos vários escritos, especialmente na Verdade, de que foi redactor. Escreveu muitas poesias,
algumas das quais tiveram grande voga e ainda hoje são recitadas e cantadas por alguns dos seus contemporâneos.
Tinha notáveis qualidades de orador e publicou em 1894 o folheto Discurso recitado na sala da Associação Católica do Funchal....
Sardinha (Dr. Manuel)
Nasceu no Funchal a 20 de Setembro de 1865 e é medico-cirurgião pela extinta Escola Medico-Cirurgica
desta cidade, tendo desempenhado os cargos de facultativo municipal na Fajã da Ovelha e Ribeira Brava. Foi nomeado depois
administrador do Posto de Desinfecção Terrestre, a cargo da Junta Geral, achando-se ao presente aposentado. Tem colaboração
varia em diferentes jornais, foi redactor do Diário de Noticias e é o actual director do Correio da Madeira. (1921), A sua colaboração
durante alguns anos no Almanach Bertrand, como solucionador de problemas matemáticos, é valiosissima e tem ai sido posta em
relevo duma maneira muito honrosa e excepcionalmente distinta para o Dr. Manuel Sardinha.
Sargo (Sargus Rondeletii)
Peixe da família Esparida comum nos mares do arquipelago e que é pescado á rede, á linha e á cana.
Como come com avidez as matérias fecais que encontra, recomenda-se pouco como espécie alimentar. Tem sabor amariscado.
Sargo Veado (Sargus cervinus)
Peixe da família Esparida que é colhido com a rede, o peneiro, a linha ou a cana. Tem sabor a
marisco, devido a alimentar-se de moluscos, que tritura com a forte dentadura de que é provido. Os pescadores de Câmara de Lobos
costumam dar-lhe o nome de sargo breado.
Sarmento (Alberto Artur)
É filho de Artur Adolfo Sarmento e de D. Margarida Henriques Sarmento, e nasceu no Funchal a 7 de
Julho de 1878. Frequentou as antigas Escolas Politécnica e do Exercito, e foi despachado alferes de infantaria a 25 de Outubro de
1900, sendo presentemente tenente-coronel e fazendo parte do regimento de infantaria n.° 27, onde sempre tem servido desde que
veio para a Madeira. Além de escritor elegante e imaginoso, como o mostram os muitos artigos literários que tem publicado nos
jornais funchalenses, e nomeadamente no Heraldo da Madeira, de que foi um dos redactores, é também um dos madeirenses que
melhor conhecem a historia, a geologia e a mineralogia do arquipélago, tendo publicado sobre a primeira destas especialidades
vários escritos de valor.
Por ocasião duma visita que fez à Deserta Grande, fez aí algumas colheitas botânicas, e as suas colecções petrologicas do
arquipelago são das mais completas que se conhecem. Foi-lhe dedicado o Scirpus pungens, variedade Sarmento, ciperacea
espontânea que vive nas proximidades da capela de São João e é uma das plantas mais raras da Madeira.
O tenente-coronel Sarmento é professor provisório do liceu do Funchal (1921), cavaleiro da Ordem de São Tiago, membro auxiliar
da antiga Sociedade de Geografia do Mans (França), sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa e de outras
sociedades cientificas e literárias nacionais e estrangeiras (1921).
Segundo se lê em um dos seus ultimos trabalhos publicados, tem dado a luz os seguintes escritos: As Desertas; As Selvagens; O
Funchal; Os alicerces para a história militar da Madeira; Ascendência, naturalidade e Mudança de nome de João Fernandes Vieira;
As migalhas; Um ponto de História Pátria; História Militar da Madeira; Corografia elementar do arquipélago da Madeira–Noções
mínimas; Homenagem a João Fernandes Vieira; Madeira–1802-02: 1807-1814; Um auto na Achada; Santo António de Lisboa
bosquejado na Madeira; A Madeira e as Praças de Africa; As Freguesias da Madeira; Noticia histórico-militar sôbre a Ilha do Porto
Santo; Ecos da «Maria da Fonte» na Madeira; Moedas, sêlos, Papel Selado e Medalhas na Madeira; Fasquias da Madeira; Os peixes
dos mares da Madeira, (em colaboração com Adolfo de Noronha); As aves do arquipelago da Madeira; Mamíferos do arquipelago da
Madeira; Subsidio para o estudo das Formigas da Madeira; Os escravos na Madeira; Lenda de pedra; Ensaios históricos da minha
Terra; Ripas da Madeira; Répteis e Batráquios; Notas dos documentos sobre a epoca de D. João IV na Madeira; As pequenas
indústrias da Madeira; Nossa Senhora da Esperança; Ensaios Históricos = Ilha da Madeira, Redemoinho de fôlhas; Santo António
Pregador–Santo António Militar; A Princesa do Reino-Unido Portugal Brasil na Ilha da Madeira; Quadros sem aro; Vila e Freguesia
de S. Vicente; A propósito do grande Brotero; Brotero dá parecer sôbre a estufa de Banger na ilha da Madeira, Sobremesa (A),–Três
frutos exóticos.
Convidado a colaborar no Elucidário Madeirense, enviou-nos somente os artigos Doação da Ilha da Madeira, Donativo, ex-libris,
Ferro, Fortificações, fotografia Geologia e João Fernandes Vieira que ocupam uma dúzia de páginas desta obra, sendo bastante para
lamentar que não fosse mais larga a sua colaboração, em vista dos profundos conhecimentos que possui, acerca de todos os
assuntos que interessam à vida do nosso arquipélago, e dos seus tão apreciados méritos de notável escritor.
Sarmento (José)
Era filho de José Sarmento e de D. Maria de Oliveira Sarmento, e faleceu no Funchal, donde era natural, a 13 de
Fevereiro de 1905, contando 63 anos de idade. Foi pianista afamado e organista na Sé Catedral tendo desempenhado também o
lugar de professor de musica no Seminário Episcopal. Teve íntimas relações com Platão de Vackcel, também musico muito distinto,
e colaborou em diferentes jornais do Funchal, dando testemunho os seus artigos das grandes aptidões literárias que possuía.
Sarmiento (D. Tomás Velazques)
Era o comandante do presídio castelhano na Madeira, composto de quatro companhias de
tropas assalariadas, ao dar-se a revolução de 1 de Dezembro de 1640, que deu o trono de Portugal ao duque de Bragança. Apesar de
poder opor-se ao reconhecimento de D. João IV nesta ilha, nada fez para contrariar a vontade dos madeirenses, e até assistiu á
reunião em que teve lugar a aclamação do novo monarca, partindo para o seu país logo que para isso teve ocasião, acompanhado
das tropas do seu comando.
Sarraut (Alberto)
Ministro das Colónias da Republica Francesa. Chegou à Madeira, a bordo do cruzador Gueydon, a 17 de
Outubro de 1921, e desembarcou pelas 2 horas da tarde, tendo sido cumprimentado a bordo pelo Governador Civil, Capitão do
Porto e Comandante Militar. Foram-lhe prestadas junto do cais as devidas honras militares, seguindo depois para o Palácio de São
Lourenço, onde foi recebido pelo Governador Civil e Secretário Geral. Visitou, acompanhado das autoridades civil e militar, o
cemitério das Angústias, depositando no tumulo-monumento dos marinheiros da Surprise, mortos por ocasião do torpedeamento
deste navio dentro da baía do Funchal, uma coroa com uma dedicatória. O Governador também depôs uma coroa no mesmo
monumento, tendo falado no cemitério M. Sarraut, o Governador Civil e o vice-presidente da Comissão Executiva da Câmara
Municipal. Uma força de infantaria e outra da guarda republicana prestaram a M. Sarraut honras militares junto do cemitério. O
Gueydon deixou o porto do Funchal, com destino a Brest, no dia 18.
Sarsfield
Este apelido de família é de origem irlandesa e parece que foi introduzido na Madeira no século XVIII. No primeiro
quartel do século XIX, vivia no Funchal Alexandre José Sarsfield, que exerceu o cargo de tesoureiro do finto mais duma vez.
Sarsfield (Alexandre José)
Nasceu na freguesia de São Pedro desta cidade a 17 de Setembro de 1856, sendo filho de Guilherme
Henrique Sarsfield e de D. Cândida de Ornelas Sarsfield. Cursou o liceu do Funchal e a Escola do Exército, tendo seguido a carreira
militar, e há anos que se encontra na situação de coronel de reserva (1921).
Sendo capitão, tomou parte na expedição que em 1894 foi á nossa Africa oriental, achando-se no combate de Coolela e na tomada
de Manjacaze. Foi chefe do gabinete do ministério da guerra e adido militar á legação portuguesa em Paris. Além de varias
comissões de serviço publico, tanto de caracter civil como militar, desempenhou também as funções de governador civil da Guarda
e de deputado pela Madeira nas legislaturas de 1902-1904, 1904 e 1906.
Tem tido uma vasta colaboração em vários jornais e revistas, e nomeadamente na Revista de Educação e Ensino, Revista de
Infantaria, Revista Militar, revolução de Setembro, Primeiro de Janeiro e Diário de Noticias, de Lisboa. Nos últimos anos tem
largamente colaborado no Diario da Madeira. Publicou vários opúsculos sôbre assuntos coloniais e militares, e os livros Leitura
para meus filhos e Educação. Tem dois volumes prontos para dar á estampa (1921).
Foi promotor no primeiro conselho de guerra da 1.ª Divisão Militar, é oficial das ordens da Torre e Espada, de São Tiago, de São
Bento de Avis e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, e tem, além doutras, a medalha de prata de serviços no ultramar e a
medalha de prata para comemorar a expedição a Moçambique em 1894 e 1895. Tem também a cruz de 2.ª classe do Mérito Militar,
de Espanha, e é grã-cruz da ordem de Isabel a Católica, do mesmo país, e oficial da Legião de Honra, de França (1921). Faleceu em
Dezembro de 1926.
Sarsfield (Eduardo da Rocha)
(Eduardo da Rocha) É natural do Porto e filho do madeirense coronel Alexandre José Sarsfield. Foi nomeado
Governador Civil do distrito do Funchal por decreto de 18 de Maio de 1922, tomando posse do lugar no dia 28 do mesmo mês e ano.
Saudade (Scabiosa maritima)
Planta da família das Dipsaceas, cultivada e naturalizada na Madeira. As suas flores são odoríferas e
variam bastante de cor.
Saudades de Inverno (Chrysanthemum indicum)
Composta muito cultivada nos Jardins da Madeira. Produz capítulos
numerosos e grandes, bastante variáveis tanto no volume como na cor das flores. Também chamam a esta planta despedidas de
verão.
Saudades da Terra
A afamada obra do Dr. Gaspar Frutuoso constitui o mais rico e copioso repositório de notícias e informações
que possuímos acerca do nosso arquipélago. Se ela não fora, a historia da Madeira nos séculos XV e XVI ficaria reduzida ás poucas
paginas que nos deixaram alguns antigos cronistas e aos documentos registados no arquivo municipal desta cidade. A esse
abundante caudal têm que recorrer todos os que mourejam nesta faina inglória de carrear alguns materiais para a história da nossa
terra. Tem defeitos e lacunas, de todo desculpáveis nas circunstancias em que a obra foi elaborada, mas é incontestavelmente um
trabalho da mais alta valia, tanto com respeito ás copiosas e interessantes noticias que nos fornece, como ainda relativamente as
notáveis qualidades de historiador, de literato e de erudito que nele revela o seu autor.
Foi no seu remansoso retiro do presbitério da freguesia da Ribeira Grande na ilha de São Miguel, onde era pároco, que o Dr. Gaspar
Frutuoso (volume II. página 57) escreveu as Saudades da Terra, obra muito vasta e dividida em seis livros, que compreendem a
historia dos arquipélagos das Canárias, Cabo Verde, Madeira e Açores. No livro segundo, que se ocupa do nosso arquipélago, em
mais dum lugar se refere o Dr. Frutuoso ao cónego da Sé do Funchal Jeronimo Dias Leite (volume I, página 361), que lhe forneceu
muitos elementos para a elaboração do mesmo livro. Diz ele textualmente: «E de Gonçalo Ayres Ferreira, tronco destes, todos eles
dizem que fez o Descobrimento da Ilha da Madeira, na verdade escrito, como dice, em três folhas de papel: e o reverendo Conigo,
não menos docto que curioso, Hyeronimo Dias Leite, Capelão de Sua Majestade, depois o recopilou, e acrescentou, e lustrou com
seu grave e polido estylo, escripto em onze folhas de papel, e mo enviou sendo-lhe pedido por minha parte, por intercessão do
nobre Belchior Fernandes de Crasto, morador na Cidade de Ponta Delgada, desta ilha em que estamos, e por lho mandar pedir, a
meu rogo, o mui magnífico, Marcos Lopes, mercador de grosso e honroso tracto que foi nesta ilha de São Miguel, mui estimado e
amado nella por suas boas partes e magnífica condição, e agora residente em Lisboa com grande casa, e mayor nome: de cuja
escriptura, e de muitas outras informações, que procurei haver de diversas pessoas da ilha da Madeira e de outras partes, todas
dignas de fee, e de outras cousas que vi e li, collegi eu e compuz todo este processo do descobrimento da dita Ilha, ordenando,
arrumando, diminuindo, acrescentando, e pondo tudo em capítulos, da maneira que estou contando».
Este segundo livro foi publicado no ano de 1873, tendo no frontispício os seguintes dizeres: As Saudades da Terra pelo Doutor
Gaspar Fructuoso. História das ilhas do Porto Sancto, Madeira, Desertas e Selvagens. Manuscripto do seculo XVI annotado por
Alvaro Rodrigues de Azevedo, bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra, professor de oratória, poetica e litteraria
no lyceu nacional do Funchal, e advogado na Ilha da Madeira Funchal. Typ. Funchalense. 1873. Tem XI-920 páginas, contendo as
primeiras 310 o texto do Dr. Gaspar Frutuoso e as restantes as valiosas anotações do Dr. Alvaro de Azevedo. Principiou a sua
impressão por meados de 1870 e terminou no dia 16 de Abril de 1873. Não se diz no frontispício deste volume, mas esta publicação
compreende apenas o segundo livro do vasto trabalho de Frutuoso.
Conta o ilustre anotador das Saudades, nos seguintes termos, a maneira como adquiriu o manuscrito que serviu para a impressão:
«A copia que possuímos das Saudades da Terra houvemo-la do Sr. João Diogo Pereira de Agrella da Câmara, da vila de Santa Cruz,
desta ilha da Madeira. Foi, no primeiro quartel deste século, pelo Sr. morgado João Agostinho Pereira de Agrela da Câmara,
mandada tirar do authographo que, para esse fim e por especialissimo obsequio, o Sr. André de Ponte do Quental, da ilha de S.
Miguel, trouxera a esta da Madeira, por ocasião de aqui vir casar com a Sr.ª D. Carlota de Bettencourt e Freitas.– Isto nos foi
asseverado pelo Sr. Pedro Agostinho Pereira de Agrela da Câmara, e por aquelle Sr. João Diogo, filhos do referido Sr. morgado João
Agostinho, o qual não chegámos a conhecer, mas sabemos que era um dos mais eruditos madeirenses do seu tempo, e amador de
bons livros, de cuja bibliotheca alguns adquirimos».
Na ultima página do livro, anuncia o Dr. Azevedo a venda do manuscrito em dois tomos de fólio e quase duas mil paginas cada
um». A 23 de Janeiro de 1876, em carta para os Açores, dirigida ao Dr. Ernesto do Canto, comunicava o Dr. Alvaro Rodrigues de
Azevedo que vendera a um lord o referido manuscrito, destinado á Biblioteca Real de Edimburgo, onde presentemente se deve
encontrar.
Na sua Bibliotheca Açoreana, diz o ilustre micaelense Dr. Ernesto do Canto que a copia de que se serviu o Dr. Alvaro de Azevedo
«não tinha a exactidão necessária», o que é bastante para lamentar. 0 Dr. Canto fez um demorado e consciencioso confronto entre
um exemplar impresso da obra publicada pelo Dr. Azevedo e o próprio autografo do Dr. Gaspar Frutuoso, lançando nesse exemplar
impresso, que hoje se encontra na biblioteca publica de Ponta Delgada, «muitas e importantes emendas e acrescentamentos...
resultantes da conferencia», segundo se lê na introdução do livro 3.° das Saudades da Terra, publicado no ano de 1922. Na
publicação do Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, o texto do Dr. Frutuoso ocupa 310 paginas, mas a conferencia feita pelo Dr.
Ernesto do Canto só abrange as primeiras 239 páginas.
Se a obra do Dr. Gaspar Frutuoso é um trabalho em extremo valioso e merece a nossa maior admiração e reconhecimento, pode
afirmar-se que não tem para os madeirenses menos importância, e não gozam entre nós de menos crédito, as eruditas e preciosas
anotações com que o Dr. Álvaro de Azevedo opulentamente enriqueceu o texto do ilustre historiador das ilhas. Tantas vezes nos
havemos referido, no decurso deste nosso trabalho, e com tamanha frequência temos recorrido a essas valiosíssimas notas, que
desnecessário e supérfluo se torna nos ocuparmos delas com mais largueza deste lugar.
Os micaelenses quiseram prestar uma condigna homenagem ao seu mais ilustre conterrâneo, aproveitando o quarto centenário do
seu nascimento, que passou o ano próximo passado de 1922, com a publicação da sua afamada obra Saudades da Terra, de que já
foi dado á estampa o primeiro volume, que contém a historia da ilha de Santa Maria, seguindo-se mais três volumes respeitantes á
ilha de São Miguel. Este primeiro volume é precedido de vários capítulos, que se estendem por duzentas longas páginas, referentes
ao Dr. Gaspar Frutuoso e á sua vasta e valiosa obra. São estudos profundos e completos, em que a figura do historiador das ilhas é
posta em brilhante relevo, assinalando-se-lhe o verdadeiro lugar que deve ocupar na historia da literatura portuguesa. São
trabalhos notáveis de investigação e de critica, que sobremaneira honram e distinguem os seus autores e ao mesmo tempo dão
justificada fama e merecido renome ás ilhas açoreanas. Há na introdução desta obra varias referências á Madeira e ao livro 2.° das
Saudades, que se ocupa deste arquipélago, devendo todo o madeirense medianamente ilustrado possuir um exemplar deste
livro(1921).
É indispensável fazer-se uma especial referência á nova edição do Livro II das Saudades da Terra, feita em 1925, e à primeira
publicação dos Livros I, III e IV, que estavam ainda inéditos, realizada posteriormente na cidade de Ponta Delgada. Para isso
aproveitaremos alguns trechos de dois artigos que acerca do assunto publicámos no antigo Diário da Madeira.
Como se sabe, o comentador das Saudades não se limitou a escrever umas ligeiras notas elucidativas do texto, ampliando-o ou
completando-o, mas traçou magistralmente várias dissertações e estudos históricos, que hão-de perdurar como um trabalho
superior de critica, e que ao mesmo tempo são reveladores duma larga e sólida erudição. Para citar apenas gigantes e de
incontestável autoridade no assunto, lembraremos que Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas e Teófilo Braga se referiram a esses
trabalhos com o mais fervoroso louvor, sabendo-se que o primeiro e o ultimo não costumavam malbaratar as suas apreciações
literárias em fáceis e banais elogios...
Os madeirenses medianamente cultos, e de modo especial os que se interessam pelas coisas históricas deste arquipélago, somente
podem admitir a coexistência das obras de Frutuoso e Azevedo, considerando-as como indissoluvelmente unidas e, permita-se o
dizê-lo, como duas partes do mesmo todo.
Acaba de fazer-se no Porto (1925) uma luxuosa edição do 2.° livro das Saudades da Terra, que compreende apenas o texto de
Gaspar Frutuoso, sendo nela omitida o largo e erudito comentário do Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo. Foi essa edição
proficientemente dirigida pelo Sr Dr. Damião Peres, antigo reitor do nosso liceu e hoje distinto lente na universidade do Porto, que
lhe acrescentou algumas valiosas embora pouco numerosas anotações. Representa ela sem duvida um bom serviço prestado às
letras, mas sobretudo aproveitará aos eruditos e aos que particularmente se aplicam ao estudo da nossa literatura e respectiva
historia, no período a que pertence aquela obra.
Não oferece a recente edição das Saudades uma capital importância para os madeirenses, por lhe faltar aquilo que entre nós é
julgado como fundamental e do maior interesse para todos: – as Notas do Doutor Azevedo, Há muita gente que tem consultado e
conhece esses comentários e são poucas as pessoas que se deram ao trabalho de manusear o texto arcaico, embora valioso, do
historiador das ilhas. Daqui o lamentar-se sinceramente, como em geral se lamenta, que se não fizesse agora a reprodução integral
do trabalho do Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, isto é, a publicação da obra de Frutuoso com as anotações que a acompanharam
na edição de 1873. Deste modo seria então relevantíssimo o serviço prestado á nossa terra (1921).
Há já bastantes anos que o ilustre açoreano Dr. Ernesto do Canto fizera notar que o manuscrito de que se servira o Dr. Rodrigues de
Azevedo para a publicação das Saudades continha lamentavelmente muitos erros e lacunas, de que nenhuma culpabilidade cabe ao
distinto comentador de Gaspar Frutuoso. O Dr. Ernesto do Canto, como atrás ficou dito, deu-se ao paciente e consciencioso
trabalho de cotejar a edição de 1873 com o texto original e autentico, e de anotar, num exemplar que existe na Biblioteca Publica de
Ponta Delgada, as faltas e deficiências que encontrou, dando-nos deste modo a versão da verdadeira narrativa histórica, como ela
saiu da pena do ilustre cronista açoreano. A parte impressa ocupa 310 paginas, tendo o Dr. Canto feito o cotejo com o autografo até
a pagina 239, faltando apenas 71 páginas para completar o confronto dos dois textos.
É evidente que, apesar da falta indicada, o texto preferido para a presente edição (de 1925) das saudades deveria ter sido o que
existe na biblioteca de Ponta Delgada, com as correcções que nele deixou exaradas o Dr. Ernesto do Canto.
Aproveitou-se o códice existente na Biblioteca da Ajuda, que há já anos tivemos ocasião de compulsar. Recomenda-o a sua
antiguidade, mas, não sendo cortejado com o respectivo autógrafo, deixa no nosso espírito a duvida de que possa estar gafado dos
erros de que enfermam tantos outros apógrafos da vasta obra do padre Gaspar Frutuoso.
As observações que aqui rapidamente fazemos, sem o menor intuito de qualquer mal interpretado desprimor, não pretendem
apoucar o valor da recente edição das Saudades, que reconhecemos ser grande, aproveitando o ensejo para prestar ao seu ilustre
prefaciador e anotador o sincero tributo da nossa sentida admiração (1925).
Passando no ano de 1922 o quinto centenário do nascimento do doutor Gaspar Frutuoso, constituiu-se na cidade de Ponta Delgada
uma comissão encarregada de comemorar condignamente essa data, aproveitando-se a oportunidade de pôr em justo relevo as
eminentes qualidades de prosador, historiador e humanista, que notabilizaram aquele ilustre micaelense. Com o mais vivo aplauso
de todos, entendeu a comissão promotora do centenário, que a maior homenagem a prestar ao autor das Saudades da Terra seria a
publicação integral da sua vasta obra, fazendo assim avigorar e perdurar a sua memória através das idades, ao mesmo tempo que
proporcionava aos contemporâneos e vindouros o conhecimento da história do grupo oriental das ilhas açoreanas nos séculos XV e
XVI. Por motivos ponderosos, não realizou aquela comissão o seu pensamento inicial, mas conseguiu dar á publicidade os livros
terceiro e quarto das Saudades, compreendendo a história das ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, que formam o distrito
administrativo de Ponta Delgada.
Constituem quatro grandes volumes, que tem a opulentar-lhes o valor e o interesse um desenvolvido estudo acerca do historiador
das ilhas, em que o assunto ficou inteiramente esgotado, quaisquer que sejam os múltiplos aspectos em que porventura possamos
julga-lo e aprecia-lo. A erudita «Noticia Bibliográfica das Saudades da Terra», do Sr. João Simas, e muito especialmente a biografia
e apreciação de Gaspar Frutuoso e da sua obra, da autoria do Sr. Rodrigo Rodrigues, são estudos que revelam, não somente um
paciente e consciencioso trabalho de investigação histórica a par do mais apurado e severo espírito crítico, mas ainda um
aprofundado conhecimento dos dotes e predicados que devem caracterizar a obra do escritor, do erudito e do historiador, entrando
em conta com as condições do tempo, do meio e de outras circunstancias especiais em que a obra foi elaborada. Do magistral
estudo do Sr. R. Rodrigues, cumpre destacar o capítulo III, intitulado «O Humanista, o Historiador, e o Valor da sua Obra» (página
XXXIX-LV), que, sem sombra de hipérbole, se pode colocar na mesma plana dos trabalhos congéneres de D. Carolina Michaelis,
Teofilo Braga, Mendes dos Remédios e Fidelino de Figueiredo, os mais autorizados mestres da historiografia literária do nosso país
(1932).
No mês de Março de 1937, fez o Dr. João Franco Machado uma comunicação, em sessão do Instituto Português de arqueologia,
Historia e Etnografia, acerca das Saudades da Terra, que, apesar de a não aceitarmos em toda a sua plenitude, vamos dar dela uma
breve noticia, extraída de um jornal de Lisboa, como mera informação para alguns estudiosos, aos quais ela possa, porventura,
oferecer qualquer interesse.
«...o Dr. João Franco Machado falou sobre Gaspar Frutuoso e Jeronimo Dias Leite» assunto do maior interesse para a história da
ilha da Madeira. Afirmou que Gaspar Frutuoso, no livro 2.° das «Saudades da Terra», incorreu em muitos erros e deficiências, e deu
noticias de copias quasi todas imperfeitas, do manuscrito que o próprio Frutuoso diz ter coligido de Jeronimo Dias Leite. Uma,
contudo, muito cuidada, faz-nos ver que os capítulos das «Saudades» estritamente históricos são uma copia literal (hoje dir-se-ia
plagio) do que Dias Leite (conego da Sé do Funchal) com tanta exactidão escrevera sobre a relação chamada de Alcoforado e muitos
documentos dos cartórios do Funchal.
Frutuoso prestou serviço copiando-o, mas no oficio de copista cometeu muitos lapsos estropiou nomes e datas e alterou a lógica
enunciação de factos estabelecida por Dias Leite. Em prejuízo da verdade, transpôs para o ano em que escrevia (1590) afirmações
que só eram exactas para 1579, data da elaboração do manuscrito de Dias Leite.
O Instituto resolveu publicar no volume II da revista «Ethnos» todo o manuscrito de Jeronimo Dias Leite, acompanhado do estudo
do Sr. Dr. Franco Machado».
Em 1939 fez a publicação do «Livro I» das Saudades, que se ocupa do arquipélago das Canárias e de Cabo Verde, precedido dum
largo e proficiente estudo sôbre a personalidade do Doutor Gaspar Frutuoso, elaborado pelo distinto escritor micaelense Dr.
Manuel Monteiro Velho Arruda.
Acerca de todas estas edições, que compreendem sete volumes, publicámos uma série de artigos em «O Jornal» dos meses de
Outubro e Novembro de 1943.
Não será uma inútil redundância, para alguns dos leitores deste Elucidário, deixar aqui consignado que a obra de Gaspar Frutuoso,
intitulada Saudades da Terra se compõe dos seguintes volumes: – Livro I que particularmente se ocupa dos arquipélagos das
Canárias e de Cabo Verde, publicado num volume em o ano de 1939 na cidade de Ponta Delgada; Livro II, que é o conhecido
trabalho largamente comentado pelo Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo respeitante á Madeira e publicado no Funchal, em um
volume de VIII-917 páginas, no ano de 1873, havendo-se feito uma segunda edição em 1925, anotada pelo Dr. Damião Peres; Livro
III, que trata da Ilha de Santa Maria, impresso em um volume na cidade de Ponta Delgada no ano de 1922; Livro IV, que se ocupa
da Ilha de São Miguel, em três volumes e que nos anos de 1924, 1926 e 1931 se publicou também em Ponta Delgada; e ficaram
inéditos o Livro V e o pouco que deixou escrito do livro VI, das quais não existem copias integrais.
Apreciando o valor da vasta obra de Gaspar Frutuoso, dedicou o Dr. João Cabral do Nascimento alguns capítulos no seu
interessante livro «Apontamentos de Historia Insular» que devem ser lidos e apreciados, embora se possa discordar de certas
afirmativas do autor.
Saúde (Rua da)
Assim se denominava antes de 1838 a antiga Entrada da Cidade. É de 12 de Janeiro de 1838 a portaria do
Ministério da Fazenda autorizando a Câmara a fazer obras no portão e rua da Saúde, servindo-se duma parte do terreno
pertencente ao Palácio de São Lourenço e demolindo o muro que fechava o mesmo terreno pelo lado leste, assim como o dito
portão.
Só em 8 de Fevereiro de 1839 mandou a câmara abrir praça para a construção da Entrada da Cidade, sendo as obras arrematadas
no dia 22 do mesmo mês e ano e tendo começado pouco tempo depois.
São conhecidas hoje pelos nomes de rua da Saúde e calçada da Saúde as vias publicas compreendidas entre a rua dos Álamos e a
antiga rua do Príncipe, em virtude de existir aí uma capela dedicada a Nossa Senhora da Saúde.
Sauvaire
«Este apelido de família, diz o anotador das Saudades, proveio de Honorato Sauvaire, natural de Marselha, e que veio
para esta ilha da Madeira, como cônsul da França, por 1660».
Diz a Biblioteca Açoreana que, na obra Description Nautique des Açores, por Charles Philipe de Kerhallet e publicada em Paris em
1865, vem citada a «Carta de 2 de Abril de 1721 sôbre a ilha vulcanica que então apareceu junto a S. Miguel, reconhecida pelo
comandante da corveta inglesa Richard e Izabel, por Sauvaire, cônsul geral francês na Madeira.
Sauvaire da Câmara
Vid. Câmara (D. Maria Celina). Ver volume I, página 200.
Schacht (Dr. Hermann)
(Dr. Hermann) E.: Mardeira und Teneriffe, Berlin, 1859, I volume, e Zur Kentniss der Visnea Mocanera, Berlin, 1859, I
folheto.
Schiffner (V.)
(V.) E.: Ein Beitrag zur Flora von Madeira, Teneriffe und Gran Canaria (Oesterr. bot. Zeitschr., 1901).
Schmeller (Dr.)
E.: Ueber Valentim Fernandes Alemão und seine Sammlung von Nachrichten ueber die Entdeckungen und
Bezitzungen der Portuguiesen in Africa und Asien bis zum Jahre 1508, etc.; Munich, 1845.
Schmidt (Dr. Johannes)
V. Expedições cientificas volume I, página 428 e ss.
Schmitz (Padre Ernesto João)
Este distinto sacerdote alemão nasceu em Rheydt a 18 de Maio de 1845, sendo filho de Frederico
Schmitz e de Elizabeth Schmitz, e entrou na Congregação da Missão de São Vicente de Paulo a 25 de Setembro de 1864. Em 1874,
foi por algum tempo capelão do Hospício da Princesa D. Maria Amelia, mas somente em 1878 é que estabeleceu residência na
Madeira, tendo a princípio desempenhado novamente aquele lugar, e depois, desde 27 de Setembro de 1881, o de vice-reitor do
Seminário do Funchal. No desempenho deste ultimo cargo prestou relevantíssimos serviços á ciência e á instrução, tendo fundado
em 1882 um museu de história natural, que ainda hoje existe (V. Museu do Seminário), onde conseguiu reunir os mais variados
exemplares da fauna madeirense. Em 1898, retirou para Theux, na Bélgica, mas em fins de 1902 voltou novamente a exercer o
cargo que deixara no Seminário do Funchal, o qual só abandonou em 7 de Julho de 1908, quando a pedido do Governo Imperial
Alemão, foi tomar a direcção do Hospício de São Paulo, em Jerusalém. Em 1914, passou para o Hospício Alemão de Tabgha, nas
margens do lago de Tiberíades, e no verão de 1920 assumiu a direcção do Hospício de São Carlos em Haifa, sendo aí que faleceu a 3
de Dezembro de 1922.
O padre Ernesto Schmitz era principalmente ornitologo, mas os seus estudos e observações estenderam-se a vários outros ramos de
zoologia, alguns dos quais desconhecidos entre nós. O trabalho do Dr. Forel sôbre as formigas e o de Kulczynski sôbre os aracnídeos
do arquipélago, são baseados em materiais colhidos pelo rev.° Schmitz, tendo-lhe merecido também grandes atenções o estudo dos
moluscos tanto marinos como terrestres, o dos peixes, o dalguns grupos de insectos, o dos coraliarios, etc., etc.. Embora não fosse
um cultor da botânica, deve-se-lhe no entretanto uma bela colecção de algas marinas, que foi estudada pelo professor Schmitz,
algologo alemão. Entre as espécies e variedades que relembram o nome do antigo professor e vice-reitor do Seminário do Funchal,
citaremos a Motacilla boarula Schmitzii e a Strix flammea Schmitzii (aves), o Scopulus Schmitzii (peixe), a Plagiolepsis pigmaea
Schmitzii (formiga), o Dienches Schmitzii (hemiptero), a Trochosa, a Prosthesima a Lephthyphantes e a Entelecara Schmitzii
(aracnideos), a Pseudochelidura Schmitzii (forficula), o Sympherobius Schmitzii (nevroptero), a Cabralia Schmitzii (molusco), e o
Bystropogon madeirensis Schmitzii (planta da familia das Labiadas).
O padre Ernesto Schmitz era, em Portugal, socio da Academia das Ciencias de Lisboa e da Sociedade Portuguesa das Ciencias
Naturais, e colaborou nos Annais de Sciencias Naturais, do Porto, no Ornithological Jahrbuch, de Hallein (Austria), no Ornithol.
Monatsberichte, de Berlim, no Cosmos, de Paris, etc.. O mais valioso dos seus trabalhos é incontestavelmente o que tem por titulo
Die Vogel Madeira's, pois reune tudo quanto se conhecia em 1899 sôbre a ornitologia do arquipélago da Madeira.
O padre Schmitz, que se naturalizou cidadão português durante a sua residencia entre nós, não raras vezes dizia aos seus amigos
que, no mundo, o que preferia era a Madeira, na Madeira o Funchal, e no Funchal o Seminario, tendo sido com efeito um grande
amigo da nossa terra, como muitas vezes o provou. A 13 de Novembro de 1922, já a dois passos da sepultura, ainda escrevia ao
director da Esperança uma carta, que foi publicada nesse jornal, em que declarava que nunca o abandonara o amor á Madeira, e
que, desde 1908, época da sua partida para a Palestina, jamais deixara de passar um só dia sem dirigir uma prece ao Altissimo pelos
seus muito amigos e conhecidos desta ilha.
Com o titulo de Preito e Homenagem, fizeram os alunos do Seminario Diocesano publicar um opúsculo, no ano de 1908, em que são
postos em saliente e merecido relêvo os altos meritos e virtudes dêste ilustre sacerdote, havendo colaborado nessa publicação as
pessoas mais cultas e de maior cotação social de todo o arquipélago.
Schultze (Dr. Rudolf)
E.: Die Insel Madeira; Stuttgart, 1864, I volume.
Scott (Roberto)
V. Expedições cientificas, volume I, página 428 e ss..
Sé (Freguesia da)
(Freguesia da) Como já em outro lugar dissemos, a primeira paróquia criada no Funchal foi a de Santa Maria Maior, embora
logo nos primeiros tempos da colonização se exercessem funções paroquiais simultaneamente em diversas capelas e ermidas
(volume II, página 52). Esta freguesia, criada por 1438 e estabelecida na igreja de Nossa Senhora do Calhau, transferiu a sua sede
para o novo templo, que depois foi Sé Catedral, alguns anos antes da instituição da Diocese. 0 alvará régio de 18 de Novembro de
1557 dividiu-a em duas paróquias distintas, com as suas sedes na Sé Catedral e na igreja de Nossa Senhora do Calhau. Foi da
freguesia da Sé que se desmembraram as paróquias de São Pedro, Santo Antonio, São Martinho, São Roque, Monte e mais tarde
Santa Luzia.
Até 1562, era o serviço paroquial desempenhado pelo deão da Sé, tendo o alvará régio de 20 de Julho daquele ano criado dois
curatos, e exonerando o membro mais graduado do cabido do exercício daquelas funções. Foi de 8.400 réis anuais a primitiva
côngrua de cada cura, que o alvará de 30 de Novembro de 1563 elevou a 17.450 réis e o de 21 de Fevereiro de 1600 a 20.000 réis,
também anuais. Os primeiros curas, como no mencionado alvará de criação se declara, eram amovíveis, passando mais tarde a
constituir um benefício colado como os outros congéneres desta diocese. Haverá aproximadamente cinquenta anos que o prelado
D. Manuel Agostinho Barreto suprimiu provisoriamente um destes curatos, criando então um coadjutor na Sé e outro em cada uma
das freguesias de São Gonçalo e São Martinho.
Não nos referiremos aqui ao templo em que foi e se acha instalada a sede desta freguesia, porque noutro lugar nos ocupamos dele
com alguma largueza (V. Sé Catedral).
Na área desta paróquia ficam as igrejas do Colégio, Carmo, Bom Jesus e Misericórdia. Já não existem as capelas de São Sebastião,
São Bartolomeu, São Lourenço, Nossa Senhora da Piedade, Jesus Maria José, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora do
Livramento e Nossa Senhora dos Varadouros, às quais tôdas já nos referimos em outros lugares desta obra. Dentro do pátio da
Alfândega existe ainda, mas já profanada, uma capela que tinha a invocação de Santo Antonio.
Foi também dentro da área desta paróquia que, durante alguns séculos, existiu a casa de João Esmeraldo, em que se afirma ter
residido Cristovão Colombo e que ficava na rua que tem hoje o nome do grande navegador, como mais largamente se pode ver no
artigo que a ele consagramos a páginas 286 do volume I deste Elucidário. Entre as ruas da Alfandega e dos Murças, no
prolongamento do largo da Sé, se levantava um antigo edifício, que durante muitos anos serviu de cadeia e também de paços do
concelho, e do qual já demos noticia em outro lugar (volume I, página 183). Ao portão dos Varadouros, que era a antiga entrada da
cidade, fizemos a indispensável referência no artigo Nossa Senhora dos Varadouros, a página 467 do volume II.
O principal edifício que se encontra nesta paróquia é a Sé Catedral, que está classificada como monumento nacional e que na
verdade é um magnífico templo, digno do maior apreço pelo seu belo aspecto e majestade.
A freguesia da Sé ocupa a parte mais central da cidade e nela se desenvolve a sua maior actividade comercial, burocrática e oficial.
Ali se encontram os mais importantes estabelecimentos comerciais, incluindo todas as casas bancárias, e a maior parte das
repartições públicas, e ali se exerce o tráfego comercial do porto e da alfândega da cidade. O número dos seus moradores vai
diminuindo consideravelmente, porque o movimento comercial tende sempre a desenvolver-se e as casas de habitação vão-se
transformando em estabelecimentos de comercio.
Segundo o Mappa Alphabetico das ruas da cidade, aprovado pelo Governador Civil em 15 de Dezembro de 1863, fazem parte da
freguesia, sendo quasi sempre limites dela, a parte sul da rua do Carmo (Costa Ferreira), desde a ponte até o ribeirinho do Vale, a
parte norte da mesma rua, compreendida entre o dito ribeirinho e a rua das Hortas (Alferes Veiga Pestana), a parte ocidental desta
rua, situada abaixo da rua do Bom Jesus, a rua da Conceição (Correia Heredia), a rua da Ponte Nova, a parte da rua do Bom Jesus
entre a rua da Conceição e a da Princesa (31 de Janeiro), a parte oriental da rua dos Ferreiros, situada acima da rua dos Netos, a
parte sul desta ultima rua, até a rua do Castanheiro, e a parte norte desde a ponte até a rua dos Ferreiros, a rua das Pretas (Câmara
Pestana nos pontos em que estão as casas com os n.
os
64 e 43, pertencentes respectivamente a D. Maria Camacho Teixeira de Sousa
e José Teedoro Clerouin (1921), a parte da rua da Carreira (Dr. Vieira) limitada a oeste pela rua de São Francisco, a parte oriental
desta rua, a fortaleza de São Lourenço, e finalmente a rua do Anadia, desde o Pelourinho até a ponte em frente da rua do Carmo.
Alguns consideram toda a rua das Hortas como pertencente a Santa Luzia, e o lado sul da rua do Bom Jesus, para oeste da mesma
rua das Hortas, como pertencente á freguesia da Sé.
A freguesia da Sé tem 4083 habitantes (1921).
Sé Catedral
Para a época e lugar em que foi construída, a nossa Sé Catedral é indubitavelmente um magnífico e grandioso
templo, não só debaixo do ponto de vista do seu estilo arquitectónico, mas ainda por algumas obras de arte que ali se encontram e
que têm despertado a atenção de muitos ilustres visitantes. Por tal motivo, está incluída no número dos nossos monumentos
nacionais.
Ao traçar-se o plano da sua construção, contava-se para breve com a criação da diocese, como na verdade veio a acontecer, e
portanto com a elevação deste templo à categoria de Sé Catedral. Têm assim fácil explicação as proporções que lhe deram e o
aspecto de grandeza que se nota em todo o edifício. Para uma simples igreja paroquial e naquela época, era uma construção
demasiadamente grandiosa, que as circunstancias ocorrentes de modo algum permitiam ou aconselhavam.
Ficaram para nós ignorados os nomes do arquitecto que traçou o plano desta obra e de qualquer outro artista que ali tivesse posto
em relevo as manifestações do seu talento. Em todo o edificio não se encontra um nome, uma data, uma inicial, que nos dêem uma
indicação proveitosa para qualquer pesquisa que se pretenda fazer acerca dos obreiros que ergueram aquele majestoso templo.
Apenas se descobrem pequenas siglas nas pedras lavradas, que talvez serviram para indicar detalhes convencionais de construção,
como era frequente em outros tempos os edifícios que levavam longos anos a construir.
No manuscrito Noticia das cousas da Ilha da Madeira desde o seu segundo descobrimento pelo Zargo se diz que a nossa Sé se fez
pelas medidas da igreja do Carmo em Lisboa, que, como se sabe, foi mandada levantar por Nuno Alvares Pereira. Este magnífico
templo, que era um dos mais belos exemplares da arquitectura gótica em Portugal, foi destruído pelo terramoto de 1755, mas, por
uma gravura antiga, que Oliveira Martins reproduziu na sua obra sobre Nuno Alvares, se vê que a frontaria do edifício era muito
diferente do frontispício da Sé do Funchal, a não ser o pórtico em ogiva com as suas arquivoltas e também a rosácea com os seus
ornatos bordados em pedra. Quanto ao interior, nada podemos dizer acêrca da semelhança que porventura pudesse existir entre os
dois templos, por não conhecermos nenhuma das crónicas antigas que se ocupam de Nuno Alvares e do convento do Carmo, onde
certamente se encontrará a descrição da sua igreja.
A data mais antiga de que temos conhecimento relativa à construção da nossa Sé Catedral é a de 5 de Junho de 1485, em que o
infante D. Manuel, duque de Viseu, e grão-mestre da ordem de Cristo, por carta assinada em São Tiago de Cacém, faz doação dos
terrenos situados no Campo do Duque (volume I, página 225), para neles ser erigida «huma igreja e praça e adro e casas para o
concelho». Uma carta do mesmo duque, de 22 de Outubro de 1488, concede metade das penalidades que na «ylha forem postas»
para «ho facimento da ygreja que no dito Funchal, prazendo a Deus espero mandar fazer».
Não são inteiramente concordes as noticias àcêrca do ano em que se iniciaram as respectivas obras, devendo no entretanto adoptar-
se como mais provável a opinião do Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, quando afirma que a «edificação do templo começou pouco
depois de 1493, pois que neste ano o duque de Vizeu, depois rei D. Manoel, mandou, por carta que está registada a fs. 174 do tomo I
do Archivo da Câmara Municipal do Funchal, applicar a renda da imposição do vinho a essa obra.» Acrescenta ainda o anotador das
Saudades:«...e já em 1502 ella estava em andamento, sendo-lhe então destinado o produto dessa imposição não só no município do
Funchal, mas também nos da Ponta do Sol e Calheta, como se vê da carta regia do mesmo D. Manoel desse ano de 1502». Esta carta
vem transcrita a paginas 488 e não 503, como na nota XX se diz, interessando ao assunto deste artigo os seguintes trechos:
«Primeyramente nos pedis que ha ymposiçom das billas da pomta do soll & calleta fosse sempre para as obras da ygreja dessa billa
& do conçelho. A esto respondemos & nos praz que emquanto durarem has obras da dita ygreja se arecade a ymposiçom dos
sobreditos lugares para ellas somente & mais nom. It. que os moradores da pomta do soll & da calleta paguem pera ygreja dessa
billa o que lhe for taxado atee ser acabada. A esto respondemos & nos praz que paguem o que a cada hum for taxado segundo a sua
faculdade».
Pela carta citada, se vê claramente que as obras iam em andamento no ano de 1502, o que de todo invalida a noticia, que em muitos
lugares se encontra, de que as obras da construção da Sé Catedral principiaram no ano de 1508. Afirmando-se geralmente que essa
construção foi muito demorada, como quasi sempre acontecia com as edificações daquela época, acrescendo ainda a grande falta de
recursos de toda a ordem que haveria no nosso meio de então, poderá facilmente ajuizar-se da impossibilidade de se acabarem as
obras de edificação no tempo decorrido de 1508 a 1516, ou talvez ainda anteriormente a este ultimo ano. 0 que parece indubitável, a
vista do que fica exposto, é que as obras da construção se iniciaram na ultima década do século XV, isto é, pouco depois de 1493,
como afirma o Dr. Rodrigues de Azevedo.
As obras principais da construção da Sé deviam estar terminadas por 1516, ano em que se realizou a sagração, tendo os trabalhos
das decorações interiores e de certas dependências do templo prosseguido lentamente depois dessa época. 0 ilustre anotador das
Saudades da Terra dá a igreja por concluída em 1508 e diz que foi neste ano sagrada pelo bispo D. João Lobo, enquanto que Gaspar
Frutuoso assinala o dia 16 de Outubro de 1516 como o da sagração e afirma que foi sagrante o bispo D. Duarte. Neste ponto estamos
com o autor e não com o anotador das Saudades. Em vários manuscritos antigos temos encontrado a noticia de que a nossa Sé foi
sagrada no ano de 1516, sendo talvez o Dr. Rodrigues de Azevedo o único que assevera que o foi no ano de 1508. Além disso, em
todas as antigas crónicas eclesiásticas que pudemos consultar, se afirma que a sagração foi feita pelo bispo D. Duarte, e não resta a
menor duvida que este prelado veio a esta ilha por mandado do primeiro bispo D. Diogo Pinheiro, nomeado em 1514, por ocasião da
criação do bispado.
Depois da sagração, prosseguiram, como já dissemos, os trabalhos de decoração interior, que ainda não estavam terminados, e
ainda no decorrer dos tempos se realizaram ali obras muito importantes destinadas á completa e definitiva conclusão de todo o
edifício. O mandado do Conselho da Fazenda de 30 de Março de 1560 mandou «fazer a cerca de trás da capella do Santissimo
Sacramento» e o de 28 de Fevereiro de 1635 ordenou a conclusão das obras da capela-mor, cujas telas só ali foram colocadas no
segundo quartel do século XVIII. Data também do segundo quartel deste século a construção da sacristia grande e da casa do
cabido, que foram dadas de arrematação por 3.050.000 réis no ano de 1733. A actual capela do Santissimo Sacramento, que
substituiu a antiga, começou a construir-se por meados do século XVIII. Os altares que ficam nas naves laterais foram construidos
nos princípios do século passado.
É em extremo pitoresca a descrição que Gaspar Frutuoso fez da Catedral, em 1590, e que a seguir transcrevemos: «... he uma igreja
mui populosa, bem assombrada e fresca, e tem uma fermosa torre muito alta de cantaria, com hum fermoso corocheu de azulejos,
que quando lhes dá o rayo do Sol parecem prata e ouro, em cima da qual está um sino de relógio tão grande, que levará em sua
concavidade trinta alqueires de trigo, e de tão soberbo e grande som, que se ouve de duas legoas, onde acode a gente a qualquer
rebate de guerra, quando elle se tange. E mais abaixo na torre ha três janellas, onde estão quinze sinos. O corpo da igreja, que está
sujeito á torre, he grande, com seu adro também espaçoso, e cercado em partes de muro, e com dez degraus por onde sobem a elle;
fora do qual tem hum campo tão grande, que correm nelle touros e cavallos, jogam ás canas, e fazem outras festas. Está esta igreja
(que é da invocação de Nossa Senhora da Estrella) arrumada de Leste a Oeste, com a porta principal para o Ponente e as duas
portas travessas de Norte a Sul. Estão guarnecidos os altares (que são nove) de ouro e azul, com três ricas capellas, onde tem o coro
do arco para dentro, com seus assentos custosos e bem lavrados de rica marcenaria; e no cruzeiro se diz a Epistola e o Evangelho».
O adro da Sé Catedral, mais amplo outrora que hoje, foi demolido em parte no ano de 1836, tendo a licença para as obras sido
concedida pelo Governador Civil em 29 de Dezembro de 1835.
A nossa Sé Catedral é uma igreja gótica de três naves, de uma rara e notável elegância, divididas por altas e delgadas colunas, que
lhe tiram o aspecto pesado e sombrio que tem muitos edifícios similares. Sôbre as naves assenta o famoso tecto fabricado em
madeira de cedro indígena, em estilo árabe, com incrustações de marfim, que é tido pelos entendidos como obra de raro valor e que
é sempre objecto da maior admiração por parte dos visitantes. Diz Emanuel Ribeiro que «nele se admira a musica complicada dos
entrelaçamentos árabes, em que o geometra soube descobrir uma filosofia da forma, onde residem sensações estranhas, ora de
sentimentos calmos, serenos e majestosos, ora impregnados duma vaga melancolia de mistério.
«Cobre a abside uma abobada pintada de fortes nervuras, rematadas por esculpidos fechos. A cercar as do eixo longitudinal, que
representam o escudo das quinas, a Cruz dos Cavaleiros da Ordem de Cristo e a esfera armilar, ha outras interpretações da flora
indígena. Os primeiros são três belos símbolos da nossa Historia ida. Num palpita o coração e alma dum povo livre; noutro uma fé
generosa e forte de esperança: em outros então reverbera o loiro da glória sobre a aza tremula e curva duma vela, por entre vagas
revoltas e espumantes.
«Na Sé do Funchal ha mais de cinquenta panos e taboas onde o pincel do artista fez, e em alguns deles belamente, vibrar as gamas
iridescentes das cores. Dos fundos escurecidos aparece-nos, por vezes, o recorte puro de figuras tocadas dum tal sentimento e vida,
animadas duma tal pureza e ternura, que apenas parecem quedar-se numa extáctica e mística contemplação, envoltas em
aurifrigiados mantos que em longas pregas clássicas, caem sobre os corpos emagrecidos das longas e constantes inéditas de
sacrifício.
«Algumas taboas, das treze que ornam o retábulo do altar da capéla-mór, merecem atentos minutos de estudo».
A capela-mor, que o Dr. Alvaro de Azevedo diz ter o cunho decadente e mestiço do século XVII, destoa inteiramente do estilo
dominante de todo o templo, bem como a sacristia e capela do Santissimo Sacramento. Para mais ainda quebrar a harmonia do
estilo primitivo, vieram as grandes reparações feitas após o terramoto de 1748, que ali produziu consideráveis estragos, como já os
franceses em 1566 tinham também causado danos irreparaveis. Nos fins do século XVIII, o cónego João Paulo fez reconstruir à sua
custa alguns altares que estavam em adiantada ruína e mandou também abrir as actuais janelas da fachada principal, que
notavelmente contrastara com a porta ogival e com a rosácea do alto, tirando aquele frontispício as puras linhas do estilo
manuelino que lhe eram peculiares.
Vieram depois as marmorizações nas esbeltas colunas, as camadas de cal na bela e característica frontaria, e ainda outras heresias
artísticas que por ali impunemente se perpetraram...
Merece uma referência especial a capela do Santissimo Sacramento, que é, no seu conjunto, duma notável beleza, com os seus
finissimos mármores e preciosa entalhadura em madeira dourada. Apesar de pequena, tem tal aspecto de grandeza e majestade que
impressiona profundamente o visitante.
Nesta igreja se encontra uma das grandes maravilhas da ourivesaria portuguesa do século XVI, que é uma cruz processional
oferecida por el-rei D. Manuel à primeira Sé episcopal que se fundou nos nossos domínios ultramarinos. Apesar de um pouco
extensa, não podemos deixar de transcrever neste lugar a descrição que dela faz Pinheiro Chagas na sua Historia de Portugal: «Foi
esta uma das maravilhas da Exposição de Arte Ornamental em Lisboa em 1882. É de prata dourada, cercada toda de um
filigramado ou rendilhado, do mais elegante trabalho. Os braços da cruz, terminados cada um por um retábulo fechado por três
semicírculos no superior e por quatro nos outros três, apresentam em relevo Jesus-Christo no horto, o beijo de Judas, a flagelação e
o Ecce-Homo. No alto, fechando inferiormente o retábulo superior, está a fita da inscripção. A figura de Christo, em alto-relevo,
está encostada a um ornato elegante de folhas de carvalho, que termina lateral e inferiormente junto ás mãos e aos pés, e
superiormente vai até a inscripção, formando ahi como que dois voluteados. – Na face posterior, que não se vê na gravura, está a
imagem de Christo em pé, sustentando na mão um globo sobrepujado pela cruz. Quatro retábulos, no extremo da cruz, em
correspondência aos da face anterior, existem na posterior, representando os quatro evangelistas. No remate inferior, antes do nó,
acham-se as armas reaes de Portugal, lavradas e sustentadas por dois anjos. Todo o moldurado da haste é orlado interiormente por
um cordão, que também cerca superior e inferiormente as armas, e ella assenta sobre uma base hexagonal, também ornada na
aresta exterior de um cordão. – Inferior a tudo ha o pé da cruz que serve para encaixar em haste de madeira. Entre este e a base
ergue-se o belissimo nó. Do pé surgem umas ramadas de carvalho, que parecem sustentar o nó. Este levanta-se em forma de templo
gótico, em três andares, profusamente ornamentado, cercado de coruchéus, arco botantes ou botaréus, todos armados de estatuetas
cobertas por baldaquinos do mais esquisito e gracioso lavor. – Ao centro de cada face e de cada andar do nó ha uma espécie de
porta ou janella, toda floreada, e cada um diminuindo de altura, da inferior para a superior. Todo este corpo ou nó é rematado
superiormente, de ambas as faces, posterior e anterior, pelas armas reaes de Portugal, sustentadas por dois anjos, como as outras
de que já falamos; nas duas faces que ladeiam as armas, ressaltam em alto relevo, as espheras armillares, conhecendo-se que faltam
as da face posterior.
«Este portentoso artefacto acha-se um tanto damnificado, por mutilações provenientes do tempo. – A cruz é evidentemente do
princípio do século XVI e deve ter sido dada por D. Manuel, como bem demonstram as armas e espheras, quando em 1514, fez crear
o bispado do Funchal–O esculpturado das figuras e uma certa suavidade nas formas da cruz, fazem-nos crer que se o artefacto não
veiu de fora e foi lavrado no paiz, devem ter trabalhado nelle artistas estrangeiros da vasta pleiade dos que se achavam
estabelecidos aqui, attrahidos das suas riquezas, e que até tinham muitas questões com os nacionaes».
O órgão grande da nossa Sé, que se encontra no coro principal, foi mandado construir pelo bispo diocesano D. Jeronimo Fernando,
que esteve à frente desta diocese no período decorrido de 1624 a 1641. Para a época, era considerado como uma peça de muito
valor, tendo sido delineado e traçado o seu desenho pelo padre Antonio Gonçalves e fabricado por um artífice, natural de Cordova,
chamado João Manuel. O orgão mais pequeno, que se acha no coro junto da capela-mor, foi adquirido no ano de 1736, tendo sido
de 1.100$000 réis o custo da sua compra, transporte e colocação no lugar onde se encontra (1921).
Por ocasião das cerimónias da Semana Santa, levanta-se na capela do Senhor Jesus o chamado camarim ou trono, que, no seu
conjunto, é duma rara beleza e elegância. Tem uma grande altura e ocupa todo o espaço da capela, que é bastante vasta, sendo
composto por centenas de peças, muitas das quais em bela talha dourada. É do primeiro quartel do século passado.
Com respeito ao pessoal eclesiástico da Sé Catedral, já dissemos o suficiente no artigo Cabido (volume I, página 179), para onde
remetemos o leitor. V. Neale.
A este artigo, transcrito integralmente da primeira edição do Elucidário, conviria acrescentar novos elementos acerca da história,
arquitectura, obras de arte e preciosos objectos do culto da nossa Sé Catedral e bem assim corrigir algumas deficiências de
informação que no mesmo artigo se notam, mas não o permitiu fazê-lo o limitado espaço de que podemos dispor nestas páginas.
Tomamos a liberdade de remeter o leitor para o opúsculo da nossa autoria, intitulada A Sé Catedral do Funchal e publicado no ano
de 1936, em que tratámos o assunto com maior desenvolvimento, depois de havermos colhido outras notas nas diversas obras, que
conseguimos consultar, em um rápido estudo a que procedemos.
1485 – Por Carta de 5 de Junho deste ano, fez o duque de Beja D. Manuel, como grão-mestre da Ordem de Cristo, cedência do
terreno necessário, no Campo do Duque, para a edificação da «Igreja Grande».
1488 - O alvará-régio de 21 de Outubro autorizou a arrecadação de um imposto, sob o nome de «penas», destinado á nova
construção.
1493 – Data conjectural do início das respectivas obras, que tiveram uma larga duração.
1493–1521 – Dentro deste período de tempo, expediu D. Manuel, como grão-mestre da Ordem de Cristo e depois como monarca,
vários diplomas, criando receitas e concedendo diversas «isenções» a favor da futura Catedral, sendo a ele que principalmente se
deve a sua construção.
1508 – O bispo titular D. João Lobo procedeu à benção do novo templo, ainda em atrazada construção, e para ele se fez a
transferência da sede da paróquia, que então era na igreja de Nossa Senhora do Calhau.
1516 – No ano de 1514, com a criação da diocese, foi a «igreja Grande» transformada em Sé Episcopal, sendo benzida pelo bispo
titular de Dume, D. Duarte, a 18 de Outubro de 1516.
1518–1521 – A oferta da conhecida e preciosa cruz, feita pelo rei D. Manuel, e que é uma maravilha da ourivesaria portuguesa do
século XVI, deve fixar-se aproximadamente por esta época.
1533 – É criado o arcebispado do Funchal, com quatro bispados sufragâneos, sendo a nossa Catedral elevada à categoria de Sé
Arquiepiscopal, havendo o arcebispado sido extinto no ano de 1551.
1566 – Com o terrível saque dos huguenotes franceses, sofreu a Sé Catedral muitos ultrajes e profanações e foi também objecto de
sérias danificações em diversas obras de arte.
1578– Realizou-se neste templo com notável brilho o primeiro sínodo diocesano, em que foram promulgadas umas «Constituições
Diocesanas» publicadas no ano de 1585 em um volume de XVI- 188 páginas e que hoje constituem uma grande raridade
bibliográfica.
1608- Morre o prelado D. Luís Figueiredo de Lemos e foi sepultado na Sé Catedral, tendo também ali a sua última jazida os bispos
D. Gabriel de Almeida, falecido no ano de 1674, D. Fr. António Teles da Silva (1682), D.Fr.João do Nascimento (1753), D. Gaspar
Afonso da Costa Brandão (1784), D. Luís Rodrigues de Vilares (1810) e D. Aires de Ornelas de Vasconcelos (1880).
1630– Aproximadamente por esta época começaram as obras da conclusão da capela-mor com o seu belo apainelamento e
interessante cadeirado.
1730–1740 – Neste decénio se procedeu à construção da sacristia-mor e da casa capitular e suas dependências.
1748 – O terramoto ocorrido neste ano causou bastantes estragos no edifício da Sé, especialmente na sua torre e frontaria.
1755-– Em torno desta época se procedeu à inteira reedificação da capela do Santíssimo Sacramento, tendo a antiga sido demolida.
1775– É colocado um relógio na torre da Sé Catedral, o qual em 1922 foi substituído por outro, oferecido por um súbdito
estrangeiro, tendo a colecção de sinos ali existente sido adquirida no ano de 1812.
1805– É sepultado nesta igreja, em lugar que se ignora, o ilustre pintor português Francisco Vieira, conhecido por «Vieira
Portuense».
1940– É inaugurado o «Museu Diocesano de Arte Sacra», que ficou instalado nas salas da Casa Capitular.
Sedição de 1668
V. Motins populares (volume II, página 400).
Segurelha (Thymus vulgaris)
Pequena Labiada lenhosa, muito cultivada nas hortas madeirenses. Os seus ramos, providos de
pequenas folhas aromáticas, são muito usados como tempêro nas cozinhas. Também lhe chamam cheiros.
Seixal (Freguesia do)
Lutamos com uma grande escassez de notícias acerca desta paróquia, a começar pela ignorância relativa á
mais segura grafia com que deve ser fixado o seu nome. Resolve-se parcialmente a dificuldade, procurando descobrir-se com
exactidão a origem desta palavra aplicada aquela freguesia. Provém o nome de seixo, significando pedra, calhau, ou tirou sua
origem de seixo, que designa uma espécie vegetal? Adopta-se geralmente a ultima acepção do termo, com o fundamento de que a
primeira é muito pouco conhecida entre nós, especialmente nas classes menos cultas. Mas sê-lo-ia nos primitivos tempos da
colonização? Virá a proposta recordar que, no dia imediato ao do primeiro desembarque realizado em Machico, puseram os
descobridores o nome de porto do Seixo a uma pequena praia, que hoje pertence à freguesia de Água de Pena, «por causa do que
nelle se achou», diz o historiador das ilhas. Os modernos dicionaristas escrevem seixo em ambas as acepções já indicadas, mas, em
vocabulários mais antigos, encontra-se seixo para designar calhau, e seiço com a significação de árvore ou planta. A palavra, para
indicar a paróquia de que nos vimos ocupando, encontra-se escrita com ortografia diversa e até extravagante: Seisal, - Seiçal,
Seissal, Ceisal, Ceixal e Seixal. Algumas destas grafias são manifestamente incorrectas, mas é uma forma correcta, embora
antiquada, a de Seiçal, que é também a mais comum nos documentos antigos. Ser-nos-ia interessante e valioso conhecer a
transformação que, nos registos do respectivo arquivo paroquial, sofreu este vocábulo num longo período de tempo superior a três
séculos, o que não pudemos infelizmente verificar. Somos de opinião que o nome desta freguesia foi tomado de Seixo ou Seiço,
pequena árvore ou arbusto do género Salix e da família das Salicaceas que, dizem as publicações botânicas, «se encontra nos leitos
das ribeiras e em muitas rochas húmidas da Madeira», sendo provável que em maior abundância estivesse espalhado nesta ilha na
época da descoberta e dos primeiros povoamentos. Entendemos que a verdadeira ortografia a adoptar seria a de Seiçal, mas tendo-
se introduzido e generalizado a de Seixal, será talvez hoje inútil lutar contra o uso comummente estabelecido, que para muitos
poderia parecer uma inovação pretensiosa e ridícula.
Os terrenos que constituem hoje a freguesia do Seixal pertenceram primitivamente à freguesia do Porto Moniz, quando esta era
talvez apenas a sede duma simples capelania com o exercício de funções paroquiais. Dizia Gaspar Frutuoso em 1590: «De São
Vicente a três legoas está o Seixal que he freguesia de até vinte fogos, com huma igreja da invocação de São Braz. Tem muitas terras
de grandes criações, e lavrança de pão e vinho, e fruta de toda a sorte». O actual orago da respectiva igreja é Santo Antão, e
julgamos que sempre o foi, e não São Brás, como se lê em Frutuoso.
Tanto o anotador das Saudades que seguiu as indicações das Memórias... do Estudo Eclesiastico, como o Índice Geral da
Provedoria..., que tantas vezes temos citado, dão o Seixal como erigido em paróquia pelo alvará régio de 20 de Junho de 1553 sendo
portanto esta a data da sua criação. Foi primeiro pároco o padre Francisco da Arca, que teve, como côngrua anual, 7400 réis em
dinheiro e uma pipa de vinho arbitrada pelo referido diploma de criação. 0 alvará regio de 10 de Fevereiro de 1502 acrescentou lhe
um moio de trigo, e os alvarás de 22 de Novembro de 1575 e 9 de Junho de 1581 elevaram-na respectivamente a 20$000 e 25$000
réis anuais, aumentada com meio moio de trigo e um quarto de vinho pelo alvará régio de 10 Setembro de 1589 tendo o alvará de 15
de Dezembro de 1678 reduzido esse vencimento a 19$000 réis e um moio e meio de trigo e uma pipa de vinho.
Sítios principais: Serra de Água, Portada, Penedo, Lombinho, Cova, Feiteiras, Farrobo, Ribeira da Lage, Fajã da Parreira e Ribeira
Funda.
Tem 1203 habitantes (1921).
Seixas
O primeiro deste apelido de que há notícia, foi José de Seixas, que casou com D. Luísa de Mendonça que, tendo-lhe
sobrevivido, fundou a capela de Nossa Senhora do Amparo. Este José de Seixas era cônsul espanhol em 1686.
Seixo (Salix canariensis)
Arbusto ou pequena árvore de folhas lanceoladas, acinzentadas, glaucas na página inferior; flores dióicas,
dispostas em amentilhos. É frequente no leito das ribeiras e em muitas rochas húmidas da Madeira. A madeira desta Salicacea é
leve e de cor baça ou avermelhada; usam-na para embutidos.
Selagineláceas
Estas Criptogamicas Vasculares estão representadas na Madeira pelas espécies seguintes: Selaginela Kraussiana e
S. denticulata. A primeira é planta naturalizada; a segunda é planta indígena e muito comum quasi por toda a parte.
Selvageira (Sideritis Massoniana)
Labiada subarbustiva, esbranquiçado-tomentosa; flores dispostas em racimos quasi sempre
paniculados; cálices lanuginosos; corolas muito pequenas, amarelas. Encontra-se nas ravinas do interior da Madeira, na Ponta de S.
Lourenço, no Porto Santo e nas Desertas. As plantas madeirenses têm as folhas maiores e a inflorescencia mais ramificada do que
as plantas das outras ilhas. A selvageira, conhecida na Madeira pelo nome de herva branca, é planta util no tratamento das tosses.
etc.
Selvagens
O pequeno grupo das Selvagens, que politicamente faz parte do arquipélago da Madeira, está entre 30º e 30º 10' de
latitude norte e 16°7, e 16°20' de longitude oeste do meridiano de Greenwich, e é formado pelas ilhotas seguintes: Selvagem Grande,
Selvagem Pequena e ilhéu de Fora. A segunda destas ilhotas é conhecida também pelas denominações de ilhéu Grande e Pitão
Grande, e a ultima pelas de ilhéu Pequeno e Pitão Pequeno.
O Sr. Alberto Artur Sarmento no seu opúsculo As Selvagens, dá á Selvagem Grande 2,5 quilómetros de comprimento e 2,2
quilómetros de largura, e a superfície de uns 5 quilómetros quadrados, acrescentando que as suas costas são escarpadas e de difícil
abordagem pelo grande numero de rochas que a rodeiam. Segundo o Sr. Adolfo de Noronha, as escarpas maritimas da ilha podem
atingir 100 metros de alto, sendo porém os terrenos interiores mais ou menos planos, excepto a leste, onde se ergue o pico dos
Tornozelos, e a oeste, onde está o pico da Atalaia, este sôbre o mar, sendo a sua altitude avaliada em cerca de 150 metros. Ao sul, há
ainda um pequeno cabeço, o do Inferno, a cerca de 115 metros acima do nível do mar.
A Selvagem Grande dista da Ponta da Agulha, no Bugio, uma das três Desertas, 250 quilómetros, do porto do Funchal, 280, e da
ponta do Hidalgo, em Tenerife, 165 quilómetros, ficando portanto mais próxima do arquipélago das Canárias do que do da Madeira.
É despovoada, como as duas outras ilhotas do grupo, e os seus melhores ancoradouros são a enseada das Pardelas, a leste, e uma
outra ao sul, protegida pelo cabeço do Inferno. No sítio a qne chamam a Estancia, a sudoeste, está o melhor local para o
desembarque, sendo por isso que para ali se dirigem os barcos quando tem gente a lançar em terra. Há naquele sítio um telheiro e
uma furna com parede e porta, onde os visitantes se podem abrigar, e para o interior existe uma casinhola coberta de folhas de
zinco, que também pode servir de abrigo aos que pretendam pernoitar na parte central da ilha.
Construíram-se na Selvagem Grande duas cisternas onde se encontra água durante todo o ano, e há também ali três pequenas
fontes – a das Ovelhas, sob o pico da Atalaia, a Salgada e a das Galinhas–que só fornecem alguma água durante uma parte do ano.
Há vestígios de se terem feito algumas obras na fonte das Galinhas, no alto da ilha.
As Selvagens são de origem vulcanica, e na Selvagem Grande, diz o Sr. Alberto Sarmento, as escórias porosas e denegridas que a
formam, influenciadas pela acção subaerea, foram-se separando, de sorte que tornam o terreno quebradiço, num piso de lápilis de
massa vitrificada e estrutura microlitica.
O Dr. Gagel, que estudou umas colecções organizadas pelo Sr. Adolfo de Noronha, supõe que as Selvagens deviam ser
essencialmente formadas de fonolite, com uma camada de lavas basalticas mais recentes e com escórias e pequenos jazigos de
fósseis.
Uma extensa galeria subterrânea, do comprimento de 150 metros, diz ainda o Sr. Sarmento, é bastante curiosa, por ser talvez
formada por um canal ou respiradouro vulcanico, onde mais tarde prolongadas infiltrações vieram depositar um jazigo de sulfato
de cal de cristalização sacaróide, interessante ainda pelos revestimentos que opera sôbre as rochas, numa crusta facilmente
desagregavel, cuja face inferior aparece recamada de brilhantissimas palhetas brancas.
Por cima das Pardelas, em lugar alto, há um jazigo conquilifero miocenico, e no sítio do Risco, na altura de 90 a 100 metros, há um
outro jazigo terciario. Perto do mar e nas proximidades do Cabeço do Inferno, há vestígios de conchas marinas modernas
subfossilizadas.
O alto do pico de Tenerife avista-se em certas ocasiões da Selvagem Grande, e lê-se algures que em nenhum outro ponto do globo se
descortina terra a tão grande distância.
A Selvagem Pequena é baixa, plana e coberta de areias calcareas, as quais, diz o Sr. Adolfo de Noronha, vão entestar com areias
marinas, depostas ao fundo de baías formadas por platós de erosão, encaixilhados entre pontas que avançam para o mar. Segundo o
Sr. Sarmento, esta ilhota mede 2 quilómetros de comprido e 1 de largo, mas diz-nos o Sr. Noronha que a forma da mesma ilhota se
acha muito mal representada nas cartas antigas, tanto francesas como inglesas, sendo de crer portanto que essas medidas se
afastam bastante da verdade.
Não existem na Selvagem Pequena nem fontes nem cisternas de forma que o visitante tem de trazer água da Selvagem Grande, que
está a distância de 15 quilómetros. Encontram-se na ilha umas paredes, construidas talvez em antigos tempos, com as quais se pode
formar um abrigo, lançando sôbre elas uma vela de navio ou qualquer outra cobertura. A unica eminência que existe na Selvagem
Pequena é o pico do Veado, cabeço rochoso com 140 metros de alto.
Separado da Selvagem Pequena por um braço de mar com cerca duma milha de extensão, está o ilhéu de Fora, também baixo e
coberto de areias, cujo comprimento regula por 1200 metros, sendo a sua maior largura de 400 metros. É desprovido de águas e
não tem eminência alguma, abundando nele os calcamares, ave marinha a que já nos referimos nesta obra e que faz criação em
escavações ou galerias subterrâneas. Idênticas escavações se encontram na Selvagem Grande, onde a mesma ave é também muito
comum.
As cagarras são a principal riqueza das Selvagens, e apesar de serem caçadas anualmente umas 20 a 22 mil, segundo dizia em 1901
o falecido padre Ernesto Schmitz num artigo publicado no Cosmos, a sua população não diminui, o que prova a sua grande
densidade. Devem portanto exceder o total de 60:000, porque cada cagarra põe apenas um ovo, e é necessario haver pelo menos
40:000 para uma reprodução anual de 20 mil. As Selvagens, ou melhor a Selvagem Grande, são visitadas todos os anos, geralmente
em Setembro, por troços de caçadores que dali trazem muitos coelhos, cagarras e peixe salgado, que encontram sempre
compradores no Funchal. A cagarra vive nas três ilhas do grupo, mas o coelho, que é de raça pequena, como o do Porto Santo, só se
encontra na Selvagem Grande, onde tem destruído muitas espécies vegetais que ali existiam outrora. Da Selvagem Grande vêm
também grandes quantidades de lapas salgadas ou em vinagre (1921).
As cabras existiram outrora na Selvagem Grande, e encontram-se ali agora, além dos animais já mencionados, duas espécies de
ratos (V. este nome), a lagartixa, a osga e diferentes aves, entre as quais o garajau, o francelho, o corre-caminho, o anjinho, a
gaivota e o pintainho. Vive nas três ilhotas uma leguminosa (Lotus Paivae) que lhes é peculiar, e no ilhéu de Fora é abundante uma
variedade da Euphorbia obtusifolia.
O grupo das Selvagens é rodeado por uma extensa barreira de recifes que dificulta o acesso das suas costas, sendo o desembarque
na Selvagem Pequena, e principalmente no Ilhéu de Fora, muito mais difícil que na Selvagem Grande. Na Selvagem Pequena há
praias de calhaus rolados, como na Madeira, e platos de erosão marinha, e entre ela e o ilhéu de Fora há uns rochedos á flor de água
e outros debaixo do mar. Os Palheiros são dois rochedos perto da Selvagem Grande, e para o norte do Ilhéu de Fora há alguns
recifes, dois dos quais são conhecidos pelas denominações de baixa do Sarmento e baixa do Noronha.
É crença que nas Selvagens foi escondido pela tripulação dum navio espanhol um rico tesouro proveniente do saque de três navios
mexicanos, e mais duma vez fizeram os antigos morgados daquelas ilhas pesquisas para encontra-lo. Em 1851, estiveram na
Selvagem Pequena e no Ilhéu de Fora uns inglêses em procura do mesmo tesouro, tendo outras buscas sido feitas pelos mesmos em
1848, 1849
1850.
As Selvagens foram descobertas pelos navegadores do infante D. Henrique, tendo Diogo Gomes deixado uma noticia manuscrita
acerca da ilha principal do grupo. No século XVI, diz o Sr. Alberto Sarmento, pertenciam a uma família madeirense do título de
Caiados, e, por 1560, foram doadas pelo cónego Manuel Ferreira Teixeira, descendente dos mesmos Caiados, a sua sobrinha D.
Filipa Cabral de Vasconcelos, casada com José Ferreira de Noronha Franco, de quem procedia João T. Cabral de Noronha, o ultimo
morgado das Selvagens.
Em 1904 foram estas ilhas vendidas pelos descendentes do mesmo morgado ao banqueiro Luis da Rocha Machado, passando por
morte deste para a posse do seu filho, que é o seu actual proprietário (1921).
Interessa particularmente a este assunto, um artigo publicado no «Século», de Lisboa, de que vamos fazer alguns extractos.
«Ao longo da costa portuguesa saem do mar cachopos celebrados por tragédias; nas nossas linhas de navegação irrompem
fortalezas de rochas. No caminho de três continentes, entre a Europa, a Africa e a América, mas temos a barra de escolhos das
Desertas e das Selvagens.
0 «Carvalho Araujo», em missão de estudo, partiu há pouco para esse grupo de rochas perdidas na eterna solidão do Atlântico.
Entre Porto Santo, a Madeira e as dezasseis ilhas do arquipélago das Canárias, ficam situadas as Desertas e as Selvagens. Aquelas
aproximam-se da Madeira.
A maior atinge catorze quilómetros de comprimento e dois de largura com um cerro de 480 metros. É a única onde se encontra
água, embora salôbra. Nunca foi povoada. Existiu ali uma pequena ermida, no tempo do Infante, para socorro dos homens que por
lá andavam na sáfara da caça e da pesca. Chamam-se Deserta Grande, Ilhéu Chão, Bugio.
Mais ao Sul, separada das Desertas por abismo oceânico de 4.512 metros de fundo, ergue-se o ilhéu Selvagem. Dista do último
daqueles, 250 kms., do Funchal, 280, da mais vizinha ilha das Canárias, Tenerife, 165 kms..
O conjunto das Selvagens ocupa umas oito milhas. Compõe-se da Selvagem Grande, o Pitão Grande, o Ilhéu Pequeno, e mais uma
dezena de escolhos.
Selvagens, o ilhéu principal, mede uns 7 quilómetros e meio de comprimento, por 2 de largura. A sua altura maior é de 150 metros.
0 Pitão Grande, mede uns dois quilómetros de comprimento por 1 de largura; com um maciço central de rochas, erguidas a 140
metros. O Ilhéu Pequeno mede 1.200 metros de comprido, por 400 de largo, é quasi raso, e mais formado de areal que de rochas.
Descobertas no tempo do Infante, e verificada a sua esterilidade, tomaram posse delas, donatarios que as exploravam para caça,
pesca e apanha da urzela, erva tintureira de muito apreço em Inglaterra e na Flandres. Povoadas de cabras e coelhos, por ordem do
Infante, em breve renderam bom proveito; pois os animais reproduziam-se bem.
No século XVII, os ilhéus pertenciam aos morgados madeirenses Teixeiras Caiados, e, daí, por vendas, passaram à família Rocha
Machado, também madeirense, a quem pertencem, agora, os baluartes de rochas chamados Selvagens erguidos na linha de
navegação de três continentes...
Desde que o Infante mandou lançar cabras e coelhos nas Desertas e nas Selvagens abunda ali a carne, apesar da falta de água. Os
animais dessedentam-se com a mastigação duma planta aborígene largamente ensopada de seiva, e que é um verdadeiro deposito
de liquido potável.
Nestas rochas hispidas, cheias de côncavos sombrios, habitam milhares de aves marinhas. Se dermos crédito a um escritor do
século XVIII, não se podia, então, andar nas Selvagens sem patinhar os ninhos. Ainda hoje, nos socalcos da rocha, entre os caules
das pequeninas plantas rasteiras, abundam os ninhos da passarada. A caça a uma das espécies, a cagarra ocasiona todos os anos um
desbaste duns 20.000 animais, e calcula-se que existem nos ilhéus para cima de 60.000.
As Selvagens tem a sua lenda. Através da bruma dos tempos avolumou-se a crença dum tesouro escondido na ilha Maior. Os
morgados das Selvagens procuraram afincadamente, durante anos, a fortuna dos piratas oculta na ilhota. A terra foi toda revolvida,
a ponto de tentarem depois, cultiva-la, para de todo se não perder o trabalho feito. Mas desanimaram com a falta de água e a
ausência das chuvas.
De 1847 a 1851, segundo consta de documentos, sete ingleses andaram nas Selvagens à procura do tesouro. Fizeram pesquisas em
quatro anos sucessivos, gastando 2.500 libras. As ilhas foram inteiramente revolvidas. A crença desse punhado de aventureiros
baseava-se na confissão dum agonizante, que contara ter feito parte do navio pirata que saqueara três embarcações mexicanas na
guerra dos Estados Unidos as quais iam carregadas de ouro, vindo, depois enterrar o tesouro numa ilha deserta, perto de Tenerife.
Nunca apareceu o tesouro das Selvagens. Nunca saiu ouro ou pão das suas entranhas. Nem alvores nem culturas, nem vidas
humanas procuram as cristas das suas rochas, ou a terra arenosa das suas chãs. Apenas as cabras erguem as cabeças satânicas no
recorte dos seus píncaros, as aves voltejam aos milheiros, junto aos ninhos ocultos nas suas cavidades. E, uma vez por ano, é a
caçada, a chacina, às aves, ás cabras, aos coelhos, aos peixes.
Acerca da lendária notícia da existencia de um «tesouro» enterrado nestas ilhas, a que acima se faz referência e de que vários
escritores se têm ocupado, oferece um certo interesse os seguintes pormenores, que encontramos em um jornal da capital.
«Ficam em pleno Atlântico, afastadas da linha de navegação para a América do Sul, entre as Canárias, e a Madeira, e pertencem a
um dos membros da família Vieira de Castro.
Ninguém lá habita. Água não há. São uns tristes rochedos, escalvados, de natureza vulcanica, profundamente ravinados pelas
ondas. Em épocas de emigração das aves, pousam lá as «cagarras», que ali descansam alguns dias do seu voo Atlântico,
demandando depois paragens mais risonhas.
Só os espanhois, das Canárias, conhecem as Selvagens, fazendo ali frequentes excursões com o maior desprezo pela nossa real
soberania, que não tem quem a represente.
As Selvagens, porém, já despertaram a cobiça dum inglês celebre, o explorador Shackleton, que ha anos morreu no Polo Sul.
É uma história curiosa e misteriosa que valia bem a pena desvendar, tornando imensamente rico qualquer de nós.
Mas é melhor contá-la, saboreá-la.
Um dia o proprietário das Selvagens, almoçava, apressado, com um jornal inglês na frente, quando uma noticia lhe despertou a
atenção. Nela dizia-se que Shackleton tencionava explorar aqueles ilhéus, no regresso da sua viagem ao Polo Sul. Mera curiosidade
scientifica - Base para hidro-aviões de longo curso? Sentinelas geográficas para Inglaterra, dominadora dos mares?
Nada disso! Ou por outra, muito mais e melhor. Shackleton ia às Selvagens descobrir um fabuloso tesouro, que um corsário francês
ali naufragado no século XVIII escondera em ignorado local. O proprietário das Selvagens, imediatamente telegrafou para Londres
ao explorador, proíbindo-o de fazer quaisquer pesquizas nos ilhéus.
E nunca mais pensou no caso. Decorreram meses. O telegrama não teve resposta. Tratava-se, naturalmente, pensou o dono das
Selvagens, duma fantasia jornalística, sem consequência de maior.
Mas enganou-se. Um dia chegou ao Funchal, no seu barco armado e equipado para a expedição que ia fazer ao Polo Sul, o famoso
Shackleton.
O proprietário das Selvagens caíu das nuvens quando o explorador, com aquela linguagem seca e linear, que caracterisa os ingleses,
lhe pediu autorização para procurar nos ilhéus o tal tesouro, que seria dividido entre os dois. Aceitou. A volta do Polo Sul, disse-lhe
Shackleton, iria a Inglaterra buscar maquinas perfuradoras, pois julgava que o tesouro estivesse enterrado sob algum rochedo, visto
que ali são frequentes os desabamentos. Como o nosso compatriota estranhasse bastante a existencia do tesouro, tanto mais que
nunca tinha ouvido falar nele, Shackleton informou-o de que havia nos arquivos do almirantado inglês, um documento que o
comprovava: a narração dum marinheiro sobrevivente do naufrágio do corsário francês.
Vinte e quatro horas depois, Schackleton partia para o Polo Sul, onde morreu. E com ele a ideia de descobrir o tesouro das
Selvagens, que lá continua, oculto, misterioso e fabuloso, guardado pelos rochedos indecifraveis.»
Sementeira (Celtis australis)
Árvore da família das Urticaceas, cultivada nalgumas quintas, praças e jardins do Funchal. É
originária da Europa, e tem folhas ovado-lanceoladas, ásperas, serradas, e pequenas drupas que, na época da maturação, isto é, em
Setembro, são comidas pelos rapazes.
Semilha
Este nome, dado na Madeira ao Solanum tuberosum, planta da família das Solanaceas, deriva da palavra espanhola
semilla, que parece ter sido escrita numa etiqueta que acompanhou os primeiros tubérculos que vieram para esta ilha, importados
de Canárias, e que foi tomada aqui com o nome da planta. A semilha começou a ser cultivada na Madeira em 1760, e multiplica-se
por meio dos seus tubérculos fraccionados, devendo cada fragmento conter alguns olhos. Três ou quatro meses depois de terem
sido plantados os tubérculos, procede-se á colheita da produção.
A Madeira produz anualmente cerca de 25 milhões de quilogramas de semilhas, podendo calcular-se em 10:000 quilogramas o
rendimento médio por hectare (1921).
A semilha é cultivada também no Porto Santo, onde só foi introduzida um pouco depois de 1820.
Esta planta é oriunda dos Andes, na América Meridional, e foi trazida á Europa pelos espanhóis, logo depois da conquista do Peru.
Associada a qualquer outra substancia mais rica do que ela em princípios azotados, constitui um alimento excelente para o homem,
e pode também ser utilizada tanto crua como cozida no sustento dos animais.
Seminário
O concílio de Trento, que se realizou na cidade de que tomou o nome determinou a criação, em todas as dioceses de
um estabelecimento de instrução e educação religiosas, destinado à preparação eclesiástica dos indivíduos que pretendessem ser
sacerdotes e em especial dos que se consagrassem á vida paroquial. D. Sebastião, em cumprimento daquela determinação, criou o
Seminário do Funchal, por carta régia de 20 de Setembro de 1566, criação que só mais tarde se tornou efectiva, em ano que não
podemos precisar, mas que foi no período decorrido de 1573 a 1586. Deve-se aos esforços do bispo D. Jeronimo Barreto o
estabelecimento daquela casa de educação e é ele verdadeiramente considerado como o fundador do Seminário do Funchal.
A sua instalação fez-se primitivamente numa casa á rua Direita, junto da habitação do prelado, que então tinha ali a sua residência.
Nos fins do século XVI, o bispo D. Luís Figueiredo de Lemos construiu o antigo paço episcopal, de que ainda resta um parte
considerável, com a capela que lhe fica anexa, hoje profanada; e para um prédio contíguo ao mesmo paço e para as dependências
deste, se transferiu o Seminário nos fins daquele século ou nos princípios do seguinte.
A construção da nova residencia dos prelados, que é a que ainda hoje se vê na antiga rua do Bispo, determinou a mudança do
Seminário para a casa da rua do Mosteiro Novo, que havia sido destinada para um convento de religiosas (volume III página 398),
mas que não chegou a ter a aplicação para que fora construída. O terramoto de 1748 deixou este edifício de tal modo danificado, que
teve de ser abandonado, e aquele estabelecimento de instrução instalou-se em outra ou outras casas, que não sabemos onde
ficavam, e por ali permaneceu até o ano de 1788.
Foi o bispo D. José da Costa Torres que obteve do governo da metrópole a cedência do antigo Colégio dos Jesuítas para Seminario,
o que se deu por carta regia de D. Maria I, de 10 de Agosto de 1787 realizando-se a abertura solene, no novo edifício, a 31 de Março
de 1788. Não permaneceu ali por longo tempo, porque a ocupação da Madeira pelas tropas inglesas em 1801, obrigou o Seminário a
nova mudança para a antiga casa da rua do Mosteiro Novo depois de convenientemente reparada.
Não tendo o governador e capitão-general D. José Manuel da Câmara feito evacuar o edifício do Colégio, levantou-se um grave
conflito entre ele e o bispo diocesano, como já ficou dito a página 216 e 266 deste volume.
Já no artigo dedicado ao saudoso e ilustre bispo D. Manuel Agostinho Barreto (volume I, página 130), nos referimos á construção
levantada na cerca do extinto convento da Incarnação e destinada ao Seminário Diocesano, em que o grande prelado, dispendendo
ali toda a sua fortuna herdada e adquirida, dotou a diocese com um amplo e esplendido edifício, que é um dos mais belos títulos de
glória da sua administração episcopal. Passou o Seminário a funcionar no seu novo edifício em Outubro de 1909, mas a lei de 20 de
Abril de 1911 extinguiu o Seminário desta diocese, passando o grande edifício á posse imediato do Estado.
O estabelecimento de instrução e educação eclesiástica voltou á antiga casa da rua do Mosteiro Novo onde funciona presentemente,
tendo estado primeiro algum tempo numa dependência do nosso Paço Episcopal, á rua da Carreira, e numa quinta ao sítio do
Trapiche, da freguesia de Santo Antonio (1921).
A carta régia de D. Sebastião, de 20 de Setembro de 1566, já citada, estabeleceu o Seminário com doze colegiais e um reitor, dando-
lhe a dotação de 300$000 réis para a sua sustentação e mais 45$000 réis para o ordenado do mestre de gramatica e de canto.
Presume-se que os estudantes frequentariam as aulas de humanidades que os jesuítas mantiveram nesta cidade até 1759. Desde
este ano até que o liceu desta cidade começou a funcionar em 1837 e onde os seminaristas começaram a cursar as respectivas aulas,
não sabemos se os alunos do Seminário teriam cursos privativos dentro do edifício do mesmo Seminário.
Com a vinda para este bispado do eminente prelado D. Manuel Agostinho Barreto, passou o Seminário por uma profunda e radical
transformação (volume I, página 130), criando-se ali em 1877 um curso completo de preparatórios, admitindo-se maior numero de
alunos e reformando-se inteiramente a disciplina interna, colocando-se deste modo a par dos mais bem organizados
estabelecimentos do seu género.
Debaixo de todos os pontos de vista, é o falecido D. Manuel Agostinho Barreto o verdadeiro reformador e restaurador do Seminário
do Funchal, e a este estabelecimento deveria ser dado o nome do ilustre e benemérito prelado.
Seria flagrante injustiça não dizer que, para os bons créditos de que moral, religiosa e cientificamente gozava o Seminário nos
últimos anos da sua existencia, mais do que ninguém contribuiu o padre Ernesto Schmitz, que dele foi professor e director durante
trinta anos, devendo-se-lhe, entre outros melhoramentos importantes, a criação dum museu de historia natural de caracter regional
(volume II, página 414), que só por si basta para, entre nós, tornar imorredouro o seu nome prestigioso, como já acentuámos no
citado artigo dedicado ao bispo D. Manuel Agostinho Barreto.
O decreto de 25 de Abril de 1927 considerou ilegal a cessão feita à Junta Geral do edifício da Incarnação, mas somente passados seis
anos e após uma porfiosa luta é que o Seminário Diocesano voltou a ser ali instalado, começando o seu funcionamento no mês de
Outubro de 1933.
Sempre-Noiva (Polygonum aviculare)
Poligonacea com as folhas geralmente lanceoladas, às vezes ondulado-crespas, e as flores
pequenas, rosadas, ou brancas, dispostas em fascículos. É frequente nos caminhos e terrenos incultos. A infusão desta planta é
diüretica e empregada no tratamento do reumatismo.
Sena Freitas (Cónego José Joaquim)
Este conhecido escritor e orador nasceu na ilha de São Miguel no ano de 1840, e morreu na
cidade do Rio de Janeiro, a 22 de Dezembro de 1913. Esteve muitas vezes no Funchal e aqui proferiu vários discursos, alguns dos
quais vêm insertos na sua obra Palavra do Semeador. No opúsculo «As Novidades» no pelourinho, ocupa-se de varias cousas
respeitantes à Madeira. O cónego Sena Freitas escreveu alguns belos artigos descritivos do Funchal.
Os seus restos mortais, vindos do Brasil, estiveram durante alguns dias depositados na antiga capela de Santa Isabel do Hospital da
Misericórdia do Funchal e ali se celebraram exéquias solenes, sendo a 2 de Março de 1925 transportadas para a ilha de São Miguel,
onde foram dados á sepultura.
Senhor dos Milagres
V. Cristo (Capela) (volume I, página 332).
Sequeira
Este apelido de família procede de Lopo Vaz de Sequeira, que teve terras de sesmaria na Lomçado da Ribeira Brava e foi
casado com Leonor Gonçalves do Pó.
Sequeira (Dr. Mauricio Augusto de)
Nasceu no Funchal a 17 de Julho de 1845 e nesta cidade faleceu a 31 de Outubro de 1911. Era
bacharel formado em filosofia e medicina pela Universidade de Coimbra e exerceu a profissão medica no Funchal, tendo também
sido aqui professor da extinta Escola Medico-Cirurgica e da cadeira de física, química e historia natural no nosso liceu. Escreveu um
compêndio de física para uso dos institutos secundários, que não chegou a dar á estampa, cremos que por haver perdido a vista
alguns anos antes do seu falecimento e ter abandonado a partir de então os estudos científicos a que se dedicava. V. Mouraria.
Sericicultura
Houve em antigos tempos algumas tentativas para a criação do bicho de seda na Madeira, tendo o Dr. Gaspar de
Teive chegado a fazer em 1571 um contrato com um fabricante de seda para a produção deste artigo na ilha. Os jesuítas deram um
certo impulso á sericicultura, mas ignoramos se se chegou a fabricar qualquer tecido de seda na Madeira.
Em 1877, montou o falecido conde do Canavial várias instalações na Praça da Rainha, destinadas à criação do sirgo, e fez aí grandes
plantações de amoreiras brancas, não chegando porém a tirar resultados alguns destes trabalhos. As plantações de amoreiras foram
quási todas destruídas pelos grandes vendavais do princípio do ano de 1881.
A este assunto, oferece particular interesse e pode prestar algum apreciável serviço, o excelente artigo publicado no «Diário da
Madeira» de 13 de Outubro de 1921, que queremos deixar arquivado nas colunas deste Elucidário.
Entre essas iniciativas, brotadas da sua alma e gizadas pela sua inteligência (Conde do Canavial), figura a adaptação à Madeira da
sericultura ou, talvez com mais rigor, sericicultura, que é a reunião das operações e processos relativos á produção da seda,
envolvendo consequentemente tanto a criação dos insectos produtores como a arte do fabrico da seda.
Em prospectos de edição popular, espalhados por toda a ilha, instruiu-se então o povo madeirense sôbre a forma do fabrico da seda,
instruções feitas com toda a clareza e detalhe que iam desde o modo da criação do sirgo até á descrição pormenorizada de todas as
suas metamorfoses e forma de tratamento nas diferentes idades atravessadas. Pediu-se o auxilio das autoridades civis e
eclesiásticas requereu-se o concurso das câmaras municipais no sentido de proceder-se a uma grande plantação de árvores de que
se alimenta o insecto produtor, chegou-se mesmo a fazer alguns ensaios, mas o certo é que tal iniciativa, ou fosse por falta de
recursos ou fosse por falta de perseverança, não chegou a converter-se em obra.
E, entretanto, estamos ainda convencidos de que a ideia de desenvolver a indústria da seda na Madeira não é uma infantilidade,
nem uma ideia audaciosa, nem muito menos um sonho incapaz de desdobrar-se num facto no domínio das realidades praticas.
Com efeito, a indústria da seda desenvolve-se hoje em muitos países que estão longe de possuir as condições naturais que
distinguem a Madeira e que por esse motivo fazem suprir a falta de tais condições com o emprego de processos que tornam a
produção da seda dispendiosa e menor do que aquela que poderíamos obter nesta ilha.
Nesses países onde mais floresce a indústria da seda, faz-se em geral somente uma colheita anual, em virtude do fraco
desenvolvimento que aí teem as árvores de que os insectos se nutrem, e, além disso, estes teem de ser creados ao calor de estufas e
fogões, para assim resistirem ás consequências quasi sempre funestas das grandes variações atmosféricas.
Ora, a Madeira, em vista da benignidade excepcional do seu clima, acha-se em circunstancias bem mais favoráveis para a indústria
do que esses países, pois tomando aqui as amoreiras mais rápido desenvolvimento, poderiam facilmente fazer-se duas colheitas
anuais e, com referência aos insectos, estes poderiam ser creados naturalmente, sem o emprego de meios estranhos e sempre
dispendiosos que amparassem as suas condições de vida.
Além disso, a cultura das árvores especiais que se careceria de fomentar não roubaria o lugar ás outras culturas de que também
necessitamos para nosso alimento e riqueza da nossa balança económica, pois para isso se aproveitariam com inteligência e cautela
os pontos onde outra cultura não fosse possível ou não oferecesse mais vantagem.
Por estes motivos, julgamos, ainda neste momento, bem merecedora de analise de estudo e ponderação a ideia que aqui deixamos
esboçada, evocando a personalidade do Conde de Canavial e recordando alguns dos frutos do seu cérebro de investigador e da sua
alma de patriota.
E, como sobre este assunto nos achamos hoje na mesma situação em que nos encontrávamos ha quasi 50 anos, quando a ideia foi
agitada nesta ilha, digamos como o Conde de Canavial em 1874: – « Que ha, pois, a fazer. – Provocar fortemente a atenção dos que
estão em circunstancias de explorar este novo ramo de indústria; doutrina-los nos meios práticos de o conseguir, apontando-lhes
além disso, como estimulo, exemplos de outros países, onde com menos vantagens naturais se teem colhido desta mesma indústria
os mais profícuos resultados».
Seringa (O)
O primeiro número deste jornal saiu a 3 de Junho de 1918 e o duodécimo, que julgamos ser o ultimo, a 21 de Agosto
do mesmo ano.
Serpa Pinto (Alexandre Alberto da Rocha)
Este conhecido explorador do Continente Negro esteve no Funchal pelos anos de 1875,
tendo feito parte, como capitão, do extinto batalhão de caçadores n.° 12. Era amigo íntimo do falecido major Daniel Simões Soares,
também oficial do mesmo regimento, com quem chegou a combinar uma viagem de exploração a Africa Austral, que nunca chegou
a realizar-se.
Serpa Pinto nasceu a 20 de Abril de 1846 e faleceu a 28 de Dezembro de 1900. A narração da sua aventurosa viagem no continente
africano consta do livro que escreveu, intitulado A Carabina d'el-rei.
Serpente (Muraena anatina)
Peixe murenida, conhecido também pela denominação de moreia serpente, e que é raro nas costas
do arquipélago. A sua dentada é mais perigosa que a das outras espécies de moreia que vivem nas nossas aguas, podendo dar lugar
a acidentes graves. É apreciado por causa do seu fino sabor.
Serra de Água (Freguesia da)
No artigo Madeiras (volume II, página 323), dissemos que, depois do grande incêndio ateado pelos
primitivos colonizadores, repovoou-se rapidamente esta ilha de espécies arboreas, e se ela perdeu, com aquele fogo, a primeira e
nativa opulência do seu arvoredo, não pode duvidar-se que a breve trecho se cobriu duma extensa e abundante vegetação florestal.
O comércio e a exportação de madeiras foram uma consequência lógica da abundância dessa luxuriante vegetação. Vários engenhos
e maquinas, construído especialmente nas margens das correntes mais caudalosas, para o aproveitamento da sua fôrça motriz, se
levantaram em muitos pontos da ilha, dando-se a esses aparelhos mecânicos, certamente de construção bem rudimentar, o nome de
serras de agua. Há muitos lugares da Madeira que ainda hoje conservam êsse nome, e nas freguesias da Boaventura, Faial, Machico,
Santana e Seixal existem sítios povoados e de relativa importância que têm igual nome.
A freguesia da Serra de Água que fica no interior da ilha, deveria ter sido, como ainda hoje se pode verificar, um centro de vastos e
opulentos arvoredos. Sendo atravessada por uma caudalosa ribeira, relativamente fácil se tornaria ali a montagem duma serra de
água, que a proximidade do porto da Ribeira Brava convidava para o embarque das madeiras. Houve um sítio com aquele nome,
estendendo-se este às circunvizinhanças e mais tarde á freguesia. Quando esta foi criada, já aquele lugar era conhecido pelo nome
de Serra de Água.
Esta freguesia acha-se situada em grande parte num extenso, fundo e apertado vale, circundado por alterosas e abruptas
montanhas. Rodeam-na o pico da Cruz, o pico do Cedro, o pico Grande e outros, todos de agigantada estatura e de uma agreste e
imponente magnificência.
A paróquia da Serra de Água foi criada pelo alvará régio de 28 de Dezembro de 1676, tendo o prelado diocesano D. Fr. Antonio da
Silva Teles realizado a erecção dela por provisão episcopal de 2 de Fevereiro de 1678.
A sede da nova freguesia instalou-se na pequena capela de Nossa Senhora da Ajuda, que ali já existia e cujo ano de construção e
instituidor ignoramos. Foi notavelmente ampliada pelos anos de 1699, tendo o mandado do Conselho da Fazenda de 2 de Maio de
1698 ordenado que se ultimassem as obras começadas.
O alvará régio de 5 de Março de 1680 fixou ao pároco de então, que era o padre Manuel da Silva, o vencimento anual de 12.000 réis,
uma pipa de vinho e um moio de trigo, tendo esta côngrua sido ratificada e sem aumento algum, pelo alvará de 5 de Outubro de
1749.
A Serra de Água pertenceu ao concelho da Ponta do Sol desde a criação deste em 1835, fazendo actualmente parte do concelho da
Ribeira Brava, que foi criado no ano de 1914 e instalado a 2 de Agosto do mesmo ano.
Os principais sítios são: Achada dos Aparicios, Boqueirão, Caminho do Matias, Eira da Moura, Fajã Redonda, Fajã dos Vinhaticos,
Lage, Passal, Pedra, Penedo, Pereira, Pinheiro, Poiso, Rocha Alta, Terra Grande e Travessa.
A sua população é de 1580 habitantes (1921).
Serra e Moura (Tomás Nunes de)
Foi nomeado governador civil da Madeira por decreto de 29 de Dezembro de 1883 e tomou
posse deste cargo a 9 de Janeiro de 1884.
Como par do reino efectivo, representou este arquipélago no parlamento, na sessão legislativa de 1887 a 1889.
Morreu em Lisboa a 26 de Março de 1917, sendo juiz aposentado do Supremo Tribunal da Justiça.
Serras de Água
No artigo respeitante à freguesia da Serra de Água e no artigo Madeiras (II-373), já nos ocupámos das
«máquinas» ou «engenhos», que se construíram nas margens das mais caudalosas correntes, empregadas na serração das
madeiras, especialmente as que se destinavam á exportação para o continente português e ainda para o estrangeiro. Fornece a este
assunto, no que particularmente diz respeito á legislação que o regulava, interessantes informações um opúsculo Serras de Agua da
autoria do distinto madeirense Dr. Jordão Apolinario de Freitas.
Serviços Agrícolas
Os serviços agrícolas madeirenses foram reorganizados pelo decreto n.° 8089, de 30 de Abril de 1922, que os
dividiu, na estação agrícola da 9.ª Região, em três grupos, a saber: grupo de serviços físico-químico e tecnológicos, grupo de
serviços culturais e biologico-agricolas, e grupo de serviços do regímen de açúcar, álcool e aguardente. O chefe da estação agrícola,
que dirige igualmente um dos grupos de serviços, é engenheiro-agronomo, sendo também engenheiros-agronomos os directores
dos outros dois grupos de serviços.
Além dos três engenheiros agronomos, deverá a estação ter dois regentes agrícolas, um analista e um preparador, não sendo,
portanto, por falta de pessoal técnico que a agricultura madeirense deixará de prosperar. A estação agrícola tem administração
autónoma nos termos dos decretos com força de lei de 16 de Maio de 1911 e 14 de Dezembro de 1912.
O decreto de 3 de Abril de 1922 manteve e colocou sob a dependencia da estação agrícola da 9.ª Região, os quatro seguintes postos
experimentais, criados pela extinta Junta Agrícola: postos de Louros e Ribeira Brava, na zona baixa da ilha; posto do Santo da
Serra, na zona media; é posto do Paul da Serra, na zona alta.
A estação agrícola da 9.ª Região é subordinada à Direcção Geral dos Serviços Agrícolas.
V. Região Agricola e Sindicato Agricola da Madeira
.
Serviços Florestais
Desde 1897 que estão a cargo duma repartição dirigida por um regente florestal, a qual se tem limitado até
hoje a fazer algumas plantações de árvores exóticas no Porto Santo e a promover a sementeira do pinheiro marítimo na região
montanhosa da Madeira. Da conservação e propagação das árvores indígenas não se tem cuidado até o presente, sendo possível que
muitas das mesmas árvores venham a desaparecer dentro em pouco, mercê das devastações que nelas fazem constantemente os
lenheiros, os carvoeiros e os gados (1921).
Pelo decreto de 3 de Abril de 1922, ficaram provisoriamente a cargo da estação agrícola da 9.ª Região os serviços da policia florestal
que pertenciam á extinta Junta Agrícola.
A lei n.° 26, de 9 de Julho de 1913, criou quatro secções florestais, que foram divididas em zonas, ficando a do Funchal com o n.° 25
e compreendida na quarta secção, com sede em Lisboa, e o decreto de 8 de Maio de 1918 estabeleceu oito circunscrições florestais,
ficando o Funchal incluído na sexta circunscrição, com sede em Lisboa, e dezoito regências florestais, ficando a do Funchal com o
n.º 18.
V. Arborização, Gados, Madeiras e Policia Florestal.
Sesmarias
As leis das sesmarias precederam neste arquipélago o contrato de colónia (volume I, página 290), 0u talvez com mais
propriedade e acerto se possa dizer que a sesmaria evolucionando e adaptando-se ás condições do meio, se transformou no contrato
de colonia. Pela exposição que faz Gama Barros na sua monumental Historia da Administraçâo Publica em Portugal acerca das leis
de sesmaria criadas no reinado de D. Fernando, vê-se que essas leis tinham principalmente em vista tornar produtivas as terras que
os seus proprietários conservavam abandonadas, não perdendo eles, no entretanto, o direito de propriedade. Na Madeira, sabe-se
que os donatarios, conforme lhes fôra permitido pelas cartas de doação do infante D. Henrique, concediam os terrenos em
sesmaria, o que se praticou em grande escala em toda a ilha, além das doações que foram feitas directamente pelos monarcas, mas
ignora-se se as terras eram concedidas sem a tributação de alguma renda, pensão ou foro, e portanto com o domínio absoluto do
sesmeiro sôbre a terra, ou se esta ficaria sujeita ao pagamento de quaisquer contribuições que revertessem a favor da coroa, dos
donatarios ou da ordem de Cristo. Se essa tributação porventura existiu, não temos hoje conhecimento dela, e somente se teria
dado nos tempos primitivos da colonização, porque a partir das primeiras instituições vinculares, que datam dos fins do século XV,
o sesmeiro era considerado uma senhor absoluto dos seus dominios territoriais, dispondo deles livremente na criação de inúmeros
morgadios e na alienação e aforamento das terras.
Diz Gaspar Frutuoso «que chegado João Gonçalves ao Funchal, começou a traçar a villa, e dar as terras de sesmaria, como tinha por
regimento do Infante D. Henrique. . ., e, conforme o dito regimento, deo por cinco anos as terras que não eram lavradas, dentro dos
quaes se obrigavam a aproveitalas e lavralas, sob pena de, não cumprindo neste termo lhas tirar e dalas a quem as aproveitasse».
Não se alude aqui a qualquer ónus que pesasse sôbre as terras concedidas em sesmaria, e apenas se sabe, além do que fica dito, que,
se as terras depois de terem sido aproveitadas fossem abandonadas pelos seus cultivadores, poderiam passar á posse de terceiros,
quando esse abandono se desse por espaço superior a cinco anos.
Como já ficou dito noutro lugar, foi aos nobres nacionais e estrangeiros, e a alguns notáveis mercadores estrangeiros, que os
donatarios concederam as terras, tendo eles encontrado no escravo africano o seu principal auxiliar no arroteamento dos terrenos.
Muitos desses sesmeiros, tornando-se ricos, transformaram as suas terras em morgadios, e, contratando a cultura das mesmas
terras com colonos livres, mediante a dimídia, foram deixando a estes o amanho e cultura das propriedades, indo desfrutar na
cidade ou na corte o rendimento dos seus campos e herdades. Os colonos libertando-se a pouco e pouco da tutela dos proprietários,
cultivando por conta própria as terras de sesmaria, sobrecarregando-as com casas, paredes e outras benfeitorias, a que depois se
juntou a posse das próprias árvores e plantas, criaram uma situação especial, dando-lhes quasi foros de co-proprietário dos
terrenos que amanhavam, ficando em boa parte na dependência deles os antigos sesmeiros, verdadeiros donos das terras. Nisto
está a verdadeira origem do contrato de colonia, que, como atrás dissemos, é uma simples transformação das antigas sesmarias. V.
Colonia, Costumes antigos e Instituições vinculares.
Sfenzel (Johs.)
E. Kreuz und Quer auf Madeira und den Canarischen Inseln; Berlin, 1906.
Shackleton (Ernest)
Este conhecido explorador inglês esteve na Madeira de 16 a 19 de Outubro de 1921, quando se dirigia a bordo
do Quest, ás regiões antárcticas. Faleceu com 47 anos de idade, a 5 de Janeiro de 1922, estando o seu navio nas alturas da Ilha de
South Georgia.
Silva
É nobre apelido de família. Gonçalo Denis da Silva fundou a ermida das Almas Pobres, em Santa Maria Maior, pouco depois
da fundação da capela de S. Paulo, e Jordão de Freitas da Silva, que vivia em Santa Cruz no ano de 1618, era neto de Jordão de
Freitas, da casa do infante D. Diogo, duque de Viseu.
Silva (Dr. Americo Ciriaco Correia da)
Foi nomeado Governador Civil do Distrito por decreto de 25 de Maio de 1918, tomando
posse do lugar a 7 de Junho. É bacharel em direito pela Universidade de Coimbra e nasceu no Funchal a 16 de Março de 1893.
Silva (Dr. Cândido Joaquim da)
Nasceu no Funchal em 1806 e tomou o grau de doutor em medicina na faculdade de Montpellier
em 1830. E: Considérations générales sur la syphilis (thèse). Faleceu de apoplexia cerebral a 8 de Fevereiro de 1879. Era entre nós
conhecido pelo nome de Dr. Silvado.
Silva (Clemente de Freitas da)
Nasceu na freguesia de Santa Cruz a 25 de Novembro de 1859 e faleceu na vila da Ponta do Sol a 16
de Março de 1917. Foi secretario das câmaras municipais de São Vicente e Porto Moniz e secretario da administração do concelho
da Ponta do Sol. Distinguiu-se notavelmente como solicitador e advogado provisionista, tendo valiosos trabalhos jurídicos, que
muitos distintos jurisconsultos não se designariam assinar. Teve uma importante colaboração em muitos jornais e foi o fundador e
o redactor do Brado d'Oeste, que durante muitos anos se publicou na vila da Ponta do Sol.
Silva (João Moniz da)
Por morte do prelado desta diocese D. Estevão Brioso de Figueiredo, foi em 1689 apresentado bispo do
Funchal o clérigo João Moniz da Silva, que não aceitou a mitra e nem chegou a ser confirmado, não estando portanto incluído o seu
nome no catalogo dos prelados funchalenses. Foi em seu lugar nomeado bispo, Frei José de Santa Maria.
Silva (Padre Júlio César Pereira da)
Nasceu nesta ilha no ano de 1845 e faleceu em Lisboa a 19 de Abril de 1912. Era capelão do
exército e cónego honorário da Sé de Viseu, tendo sido professor do seminário e do liceu de Beja. Colaborou em vários jornais e
publicou alguns dos seus discursos em diversos opúsculos.
Silva (Manuel Lobo da)
Foi nomeado capitão-general da Madeira a 21 de Outubro de 1647 e tomou posse do lugar em Maio do ano
seguinte.
Silva (D. Mariana Xavier da)
Esta senhora, natural do continente português, viveu muitos anos nesta ilha. No ano de 1884,
publicou em Lisboa um livro com composições em prosa e verso, intitulado Na Madeira–Offerendas, que contém diversos contos e
narrativas, alguns deles referentes a esta ilha, que se lêm com muito interesse e agrado. D. Mariana Xavier da Silva, segundo se vê
pelas datas dalguns dos artigos e composições poéticas contidos neste volume, residiu nesta ilha nos anos decorridos de 1872 a
1881.
Silva (Matias Figueira da)
Nasceu no Funchal em 1843, sendo filho de José Figueira da Silva, e frequentou o liceu desta cidade,
seguindo depois para Coimbra, onde se matriculou nas faculdades de matemática e filosofia da Universidade. Tendo adoecido
passados meses, regressou ao Funchal, só voltando a Coimbra no ano imediato, não para prosseguir nos estudos iniciados, mas
para se matricular na Faculdade de Direito, cujo curso também não concluiu, por se lhe terem agravado naquela cidade os seus
padecimentos pulmonares. Como os ares pátrios não lhe não restituíssem a saúde, fêz uma viagem aos Estados Unidos, onde
possuía um tio com alguns meios de fortuna, e tão bem se deu naquele país, que por lá resolveu ficar, matriculando-se passados
tempos numa escola de medicina, cujo curso concluiu com a maior distinção. Exerceu por muitos anos a sua profissão na cidade de
Brooklyn, onde era muito considerado pelo seu saber e tacto, medico, e ainda aí reside, tendo, porém, abandonado a clinica há já
alguns anos. Publicou diversos artigos nas revistas de medicina americanas, especialmente de Nova York, e, enquanto residiu na
Madeira, colaborou nalguns jornais da terra, sendo também um dos autores da Guyaneida (V. este nome), poema herói-cómico que
nunca chegou a ser impresso, mas de que existem copias em poder de várias pessoas do Funchal.
Silva (Nicolau Francisco Xavier da)
Nasceu na freguesia de Santa Maria Maior desta cidade nos últimos anos do século XVII,
sendo filho de José da Silva Pimenta e de Josefa Maria Teixeira, e morreu em Lisboa a 17 de Agosto de 1754. Doutorou-se na
faculdade de cânones da Universidade de Coimbra no ano de 1725 e ali exerceu interinamente o magistério universitário durante
alguns anos. Fixou residência em Lisboa, dedicando-se com brilho ao exercício do foro e ao cultivo das letras, deixando várias obras
inéditas e tendo publicado o Puro e affectuoso sacrificio (Lisboa, 1724) e a Oração de agradecimento à Academia Real, publicada na
Colecção da mesma Academia. Foi sócio efectivo da Academia Real de Historia e por ela encarregado de escrever a história das
inquirições, que não chegou a completar e que ficou inédita. Era considerado como um dos homens mais eruditos do seu tempo.
Conseguiu reünir uma selecta biblioteca, que foi comprada pelo monarca e que constituiu o núcleo da biblioteca da Ajuda.
Silva (Pedro da)
Este governador-geral da Madeira era conhecido pela alcunha de Mole. A sua nomeação é de 30 de Maio de 1618
e a posse de 6 de Julho do mesmo ano. Foi depois governador da Índia e ali morreu a 24 de Junho de 1639.
Silva (Silvano Sátiro de)
Nasceu no Funchal a 12 de Janeiro dc 1808 e frequentou o liceu do Funchal, matriculando-se depois na
faculdade de direito na Universidade de Coimbra. Tem colaborado em diversos jornais e escreveu um opúsculo intitulado Rosario
de Lágrimas (1918).
Silva (Vasco Crispiniano da)
É major de infantaria e nasceu no Funchal a 3 de Maio de 1880. Foi nomeado governador civil deste
distrito por decreto de 29 de Abril de 1920 e exonerado a seu pedido, por decreto de 1 de Outubro do mesmo ano. Representou este
arquipélago no parlamento, como senador, sendo eleito a 29 de Janeiro de 1922. Tem numerosas condecorações nacionais e
estrangeiras.
Silva (Vicente Gomes da)
Nasceu no Funchal a 12 de Março de 1827 e foi um dos maiores artistas que a Madeira tem produzido.
Guiado apenas pelo seu talento e por alguns estudos feitos particularmente, conseguiu tornar-se um fotógrafo distintissimo e um
desenhador, um escultor, um gravador e um fundidor digno do maior apreço. Foi ele o introdutor da fotografia e da esteriotipia na
Madeira, e quem primeiro fabricou os carimbos de borracha e fundiu o ferro nesta ilha, conseguindo produzir verdadeiras
maravilhas em todas estas especialidades. Trabalhou no daguerreotipo e no colodio húmido, deixando produções mais perfeitas do
que as de igual tempo feitas na capital. A fabrica de fundição que estabeleceu junto da sua casa na antiga rua dos Pintos, constituiu
um verdadeiro sucesso para a Madeira, e as obras que de lá saíam satisfaziam os mais exigentes pela forma artística por que eram
executadas.
Vicente Gomes da Silva faleceu no Funchal a 14 de Dezembro de 1906.
O extinto Diário da Madeira, de 13 de Dezembro de 1931, publicou um excelente artigo, encerrando alguns traços biográficos deste
distinto artista, que merecem ser lidos e devem ser aqui arquivados. Vamos transcrevê-lo parcialmente nas nossas colunas:
«Vicente Gomes da Silva foi uma figura marcante e de alto relevo no nosso acanhado meio artístico.
Desde novo manifestou entusiasmo pelos estudos; e, ainda escolar, pela sua esmerada caligrafia foi escolhido por Luís Correia
Aciaioli para ajudante do seu acreditado colégio ao Socorro, onde a camada liberal madeirense se formou, dando vultos nos
diferentes ramos do saber humano.
Aprendeu as línguas francesa e inglesa que maneava com elegância e correcção, indo beber nos livros, meramente estrangeiros, o
manancial de conhecimentos que tanto o ilustraram.
Com uma habilidade instintiva, fixou na tela óleos admiráveis das figuras mais em evidencia do nosso meio, e aguarelava, em
flagrante luz, as paisagens da nossa terra, pintando em miniatura, sôbre placas de marfim, maravilhosos retratos. Dentro em pouco,
eram os estrangeiros que lhe arrebatavam as suas produções a que ligava pouco apreço, pois como a maior parte dos verdadeiros
artistas, não dava exacto valor ao seu esmerado trabalho.
Passou a modelar com um singelo buril, cortando com precisão na madeira, os tipos característicos da época, figuras regionais, com
uma realidade e justeza que causavam assombro.
Quando em França a empresa de Niepce e Daguerre apresentou os seus surpreendentes trabalhos, pediu logo Vicente Gomes da
Silva, para Paris, livros sobre a nova ciência, e com grande tenacidade e estudo conseguiu fotografar em placas de cobre prateado–
daguerreótipos –, passando depois à factura dos positivos sobre o vidro. Ainda antes de se fazer fotografias em Portugal o público
da Madeira as possuíu com alguns anos de precedência.
A par e passo, com os progressos da arte, os retratos na Madeira breve apareceram em papel albuminado e montados em cartão.
Vicente Gomes da Silva conhecia toda a complicada química fotográfica, preparando directamente o colódio, o nitrato de prata e os
diversos reagentes do quarto-escuro, sem recorrer à importação destes produtos.
O sábio amador fotográfico, Conde de Torre Bela, contrariado com as exigências de tempo e paciência determinadas pelo «colódio
húmido, liga-se ao seu amigo Vicente Gomes da Silva e, após largas vigílias, alcançam um processo mais prático, – o «colódio seco»
– que depois se generalizou e tantos progressos trouxe á fotografia.
Ao mesmo tempo que trabalha na fotografia, grava em chapa de cobre, além doutros emblemas, brasões de armas para
participações de casamento, cartões de visita, etc., com rara perfeição.
Muitos anos depois, o príncipe Nicolau de Oldemburgo surpreendido pelo esmero das gravuras deste artista, mandou vir da Rússia,
muitas pratas com o fim de, por ele, serem aqui trabalhadas.
Convidado pela Câmara Municipal do Funchal para ir ao estrangeiro aperfeiçoar-se, não quis aceitar o honroso convite, preferindo
dever tudo a si próprio.
Em 1863, saiu para a França e Inglaterra tomando conhecimento de todas as inovações dessa época; e, de regresso, estabeleceu um
elegante e luxuoso Bazar no Largo da Sé, onde, com as mais recentes novidades, eram expostos os seus mais cuidados trabalho de
fotografia e gravura.
Teve grande e justificada fama o seu ateliér fotográfico à Rua dos Pintos – depois encorporada na Rua da Carreira–encimado com
as armas imperiais da Áustria e sob a égide da Imperatriz - viúva, do Brasil, D. Amélia, que o fez gravador da sua casa.
Aqui fabricou o distinto artista, pela primeira vez em Portugal, os carimbos de borracha, introduzindo na arte tipográfica
madeirense a estereotipia, nunca tendo sido iniciado por mestres nestes dois novos processos gráficos, e apenas colhendo dos livros
e revistas estrangeiras as indicações que, depois, ensaiava e corrigia».
Silva Pinheiro (Cónego Jerónimo Álvares da)
Nasceu na freguesia da Calheta no ano de 1770 e faleceu nesta cidade a 4 de Julho
de 1861. Ordenou-se de presbítero em 1795 e foi cónego da nossa Sé Catedral, tendo exercido elevados cargos eclesiásticos, como os
de vigário capitular e governador deste bispado. Foi um distinto e vigoroso jornalista e com o pseudónimo Estrela do Norte
escreveu muitos artigos no Patriota Funchalense, o primeiro jornal que se publicou entre nós. Foi preso, por ser partidário das
ideias liberais, mas conseguiu fugir da prisão e ausentar-se para o Brasil, onde permaneceu até o ano de 1834. Gozou sempre nesta
ilha de muito prestigio e influencia.
Silvados
Espécies do género Rubus, a mais frequente das quais é o R. Ulmifolius, Schott. Os frutos deste Rubus, conhecidos pelo
nome de amoras de silva, são comestíveis e tem um sabor agradável, mas em grande quantidade podem ocasionar cólicas. O
cozimento dos ramos tenros do silvado e das respectivas folhas, é empregado em gargarejos nas molestas da garganta.
Silveira (António da)
Foi capitão de Diu e 5.° donatario da capitania de Machico, tendo sucedido a Diogo Teixeira, que morreu
sem descendência. Em 1549, vendeu a capitania a D. Afonso de Portugal, Conde de Vimioso.
Silveira (Antonio Roque da)
V. Raiva (volume III, página 173).
Silveira (José Marciano da)
Nasceu na freguesia da Camacha em 1826, tendo morrido no Funchal no dia 8 de Julho de 1887.
Exerceu o professorado primário em Machico e á sua morte era amanuense da administração do concelho do Funchal. Redigiu
durante muitos anos a Voz do Povo, em que a verrina e a diatribe eram por vezes os principais argumentos das suas polémicas e
campanhas jornalísticas. Manejava com extrema facilidade o verso chocarreiro da gazetilha, ferindo e achincalhando por este meio
os seus adversários e antagonistas. Nem poupou o próprio genro, o jornalista João Augusto de Ornelas, que Silveira quis ferir e
vexar no Filho do Ferreiro, opúsculo de que se tem feito algumas edições, especialmente destinadas ás colónias madeirenses em
Demerara, Trindade, etc.. É vasta a sua obra jornalística, mas os seus escritos são geralmente moldados na Tripa Virada e na Besta
Esfolada, de José Agostinho de Macedo. Há composições poéticas suas nas Flores da Madeira.
Simões Soares (Daniel Telo)
É filho do falecido professor do liceu Daniel Simões Soares e nasceu na ilha do Porto Santo a 23 de
Maio de 1864. Matriculou-se em 1875 no Colégio Militar, transitando daí para o liceu do Funchal, onde concluiu os preparatórios
para a Escola do Exército. Despachado alferes para o Ultramar em 1885, serviu na província de Cabo Verde, onde entre outras
comissões de serviço teve o comando militar na ilha de Santo Antão. Esteve na Guiné em 1891, onde tomou parte nas operações
militares contra os papéis, e, depois de se haver reformado no posto de general, foi presidente da Câmara Municipal do concelho de
Santa Catarina, na ilha de S: Tiago, administrador do concelho, etc.. Reside há anos no Funchal, onde desempenhou por três vezes
o lugar de governador civil, tomando posse do lugar a 28 de Setembro de 1917, 21 de Junho de 1919 e 17 de Novembro de 1923. Foi
também administrador do concelho do Funchal, comissário de policia, membro da extinta junta Agricola e senador pela Madeira,
tendo sido eleito a 13 de Junho de 1915. É membro da actual Junta Geral do Distrito do Funchal e foi já presidente desta corporação
administrativa (1921).
Simon (E.)
E.: Arachnides recueillis à l'ile Madère por M. A. Fauvel en 1896 (Bullet. Soc. Entomol. France, 1897).
Simon (Eug)
E.: Une asphodèle nouvelle: Asphodelus madeirensis, Simon (Bull. Soc. Bot. des Deux-Sèvres, 1908-1909).
Sindicato Agrícola Estreitense
Foi estabelecido em 1918 no Estreito de Câmara de Lobos, tendo os seus estatutos sido
publicados no Diário do Governo de 20 de Dezembro do mesmo ano. Em 2 de Marco de 1919, elegeu os seus corpos gerentes.
Destina-se a tratar dos interêsses agrícolas dos seus associados e da aquisição de adubos, sementes, maquinas, insecticidas, etc.
(1921).
Sindicato Agrícola da Madeira
Dizia um jornal desta cidade do dia 7 de Maio de 1922, ter acabado de instalar-se, depois de
devidamente aprovado, o Sindicato Agrícola da Madeira, apresentando a relação dos cidadãos eleitos para a assembleia geral,
direcção e conselho fiscal do mesmo sindicato. Acrescentava o referido jornal que havia no Sindicato sócios beneméritos,
fundadores, efectivos e subscritores, pertencendo à primeira classe os indivíduos que dessem quantia superior a 100$00 ou
praticassem actos de reconhecido valor e utilidade, ao segundo, os que pagassem a jóia de 10$00 e a cota mensal de $50, á terceira,
os que, pagando a jóia de 5$00, respondessem também pela cota de $50, e á ultima, os que pagassem em prestações mensais a cota
anual de 2$40.
Depois da noticia a que nos referimos, não tornou o Sindicato Agrícola da Madeira a dar sinais alguns de vida, o que não obsta a
que tenha tido representação no conselho administrativo da estação da 9.ª Região Agrícola, de harmonia com o disposto no artigo
31 do decreto de 3 de Abril de 1922 (1922).
Síndico do Senado
Devia ser formado em direito e tinha a seu cargo defender nos tribunais os interesses da Câmara. Nos fins do
século XVIII e princípios do século XIX, substituía muitas vezes o escrivão da Câmara nos seus impedimentos, lavrando e
subscrevendo as actas das vereações.
Sistema de Pesos e Medidas
O sistema de pesos e medidas usado neste arquipélago foi indubitavelmente o mesmo que o do
Continente do Reino até o ano em que entre nós se começou a adoptar o sistema métrico decimal. O almude, a canada, o galão, o
alqueire, o arrátel, o côvado, a vara, a braça, o pé e o palmo, com seus múltiplos e submúltiplos, eram os tipos dos pesos e medidas
usados entre nós, que sofriam algumas variantes de freguesia para freguesia, o que de certo também aconteceria no Continente,
donde foram trazidos para esta ilha. Tanto para os pesos como para as medidas, havia nas sedes dos municípios padrões que
determinadamente fixavam o uso daqueles tipos, desconhecendo-se se existiria uma perfeita uniformidade entre os padrões dos
diversos municípios. A relação de todos estes padrões foi organizada em 1849 por uma comissão composta pelos Drs. Manuel
Joaquim Moniz, Luís da Costa Pereira e João Perestrelo de Vasconcelos, e publicada no n.° 195 do Semanario Official, mas não
apresenta as diferenças existentes entre os diversos padrões, como seria para desejar. Por essa relação se vê que eram muito
numerosos esses padrões, oferecendo alguns deles verdadeiro interesse pelo seu esmerado fabrico e como documentos para um
estudo arqueológico sôbre este assunto.
O governo central enviou á Madeira em 1859 o oficial de artilharia Francisco de Paula Campos e Oliveira, tendo como ajudante o
oficial de cavalaria Fernando Seixas de Brito Bettencourt, encarregado de introduzir neste arquipélago o novo sistema legal de
pesos e medidas. Campos e Oliveira percorreu todos os concelhos e fez um estudo detalhado do assunto, remetendo, com a data de
28 de Agosto de 1859, um interessante extenso relatório á Direcção Geral do Comercio e Indústria, que foi publicado nos n.
os
60 e
61 do Jornal funchalense a Reforma e de que vamos fazer alguns extractos.
«Os pesos, diz o referido oficial, uns são de ferro, outros de bronze; uns teem a figura de uma esphera introduzida em arcos
circulares também de ferro, que se cruzam perpendicularmente, tendo no cruzamento uma argola do mesmo metal; outros teem a
figura de pyramides cónicas truncadas ou de pyramides quadrangulares; e outros finalmente são cylindricos, tendo ou não tendo
argola.
Entre os pesos de bronze tornam-se notáveis os marcos do Funchal, de Machico, da Ponta do Sol e da Calheta, mas principalmente
o do Funchal. Este marco tem quatro arrobas, é da figura de uma pyramide cónica truncada, está primorosamente trabalhado e
ornado com magníficos relevos e arrendados, a tampa é ornada com três dragões ou animais fabulosos, feitos em alto relevo e ao
lado destes ha dois bustos representando cavalleiros com armaduras antigas, sendo estes os supportes de uma aza que pelas
extremidades atravessa as costas dos mesmos bustos, girando em torno d'ellas. A aza representa dois homens, voltados com as
costas um para o outro, tendo as mãos levantadas acima da cabeça, e sustendo ambas uma pequena esphera em que remata a aza.
Na tampa lê-se a seguinte inscripção: Conrad Mos Eych Master 1580.
O marco de Machico tem na superfície externa esta inscripção:
O MVITO. ALTO. E. EXCELENTISIMO. REI. DOM. EMANVEL. O. PRIMEIRO. DE. PORTVGAL. ME. MANDOV. FAZER. ANO.
DO. NCMTO. DE. NOSO. SNOR. JHV. XPO. D. 1499.
«Os marcos da Ponta do Sol e Calheta teem ambos inscripções semelhantes ao de Machico. Os da Calheta e Ponta do Sol por
estarem mais bem conservados, por se poderem completar facilmente e pela maneira porque estão construidos merecem ser
guardados como monumentos dos nossos padrÕes de medidas de pesos antigos, porém muito mais merece considerações
archeologicas o de quatro arrobas, do Funchal; porque além de estar completo, eu o considero um objecto primoroso de arte neste
genero.
«Encontrei na câmara municipal do Funchal uma caixa cúbica com padrões de medidas lineares, de capacidade e de peso, tudo de
latão, que correspondem ás nove medidas decimaes, mas com diferente momenclatura. Estes padrões teem todos a inscripção:
Arsenal do Exército, 1819., e no metro, no kilogramma e no litro, a que chamaram vara, libra e canada, respectivamente, ha outra
inscripção que diz: El-Rei D. João VI estabeleceu a uniformidade dos pesos e medidas em todo o Reino unido pelo systema decimal,
1818: Arsenal do Exército 1819»
«Em virtude de antigos e generalizados costumes, sofreu por toda a parte uma tenaz resistência a adopção do novo sistema legal de
pesos e medidas dando-se também neste arquipélago vários tumultos como oposição violenta a esse sistema, que vinha alterar
profundamente o que há séculos se praticava nas diversas transacções comerciais. No concelho de São Vicente, os amotinadores
coagiram as autoridades e pessoas mais qualificadas a lançar ao mar os pesos e medidas adoptados pelo novo sistema, o mesmo
acontecendo na freguesia da Ribeira Brava, e na Ponta do Sol o povo lançou fogo aos Paços do Concelho. Em Santana o povo
praticou vários distúrbios e na vila de São Vicente foram destruídos muitos documentos da Administração do Concelho.
O novo sistema foi-se a pouco e pouco introduzindo e generalizando entre nós, não oferecendo hoje a sua adopção a mais pequena
dificuldade. No entretanto, é ainda hoje frequente falar-se de almudes, galões, canadas e quartilhos na medição de líquidos; de
varas e cavados, na medição de tecidos; de braças na medição de pedra; de moios e alqueires na medição de cereais; e de pés na
medição de madeiras.
O sistema métrico decimal decretado em Portugal em 13 de Dezembro de 1852, foi, pelo decreto de 20 de Junho de 1859, mandado
por em execução, em Lisboa desde o 1.° de Janeiro de 1860, e nas outras povoações e ilhas desde o 1.° de Março, mas somente no
que respeita ao metro, ou medida linear, devendo no tocante a outras medidas estar em vigor em todo o país no ano de 1862.
Siver (Segor van)
E.: Ueber Madeira una die Antillen nach Mittel America Reisedenkwurdigkeiten und Forschungen; Leipzig,
1861.
Skinner (Capitão)
V. Plantas da Cidade.
Sloane (Dr. Hans)
Medico e naturalista inglês nascido na Irlanda, em 1560, e falecido em Chelsea, em 1753. Esteve na Madeira
desde 21 a 23 de Outubro de 1687, tendo deixado consignadas na sua obra intitulada A Voyage to the Islands Madera Barbados,
Jamaica, etc.. (Londres 1707-1725), as suas impressões sobre a nossa ilha.
Smith (Chetien)
Botânico norueguês nascido em Outubro de 1785 e falecido no Congo, a 21 de Setembro de 1816. V. Buch.
Smith (James)
Geólogo inglês que visitou a Madeira por 1840. E.: 0n the geology of the island of Madeira (Proceedings of the
Geol. Soc., volume III, página 351, 1840-41).
Smith (Ricardo Carlos)
Horticultor inglês que fundou no Funchal, em 1757, um jardim de aclimação, onde havia uma casa com
salas de leitura com jornais portugueses e inglêses, e alguns franceses, assim como livros de lavoura, química, botânica e
agricultura. Segundo se lê nos jornais da época, encontravam-se no jardim o algodão da Índia e da Nova Orleans, o amendoim, a
mandioca, colecções de ananazes, de laranjeiras, de mangueiras e de outras espécies frutíferas, o coqueiro, a palmeira do azeite e do
sagu, pinheiros de várias espécies, etc.. Vegetavam também ali a Musa textilis, a amoreira têxtil (Broussonetia?) e o sorgo, tendo
acerca desta ultima planta publicado Ricardo Smith um trabalho com o seguinte título: Instrucções theoricas e praticas sobre a
cultura do Holcus saccharatus... (Funchal, 1858, de 62 páginas).
Smuts (General Jan Christaan)
Este antigo general bur chegou à Madeira, no vapor inglês Arundel Castle, a 7 de Junho de 1921,
tendo sido cumprimentado a bordo pelo Governador Civil e Comandante Militar, e sendo-lhe prestadas honras militares por uma
força de infantaria postada na Avenida Gonçalves Zarco.
O general Smuts que esteve em vários pontos da cidade e arredores, entre os quais o Monte e o Terreiro da Luta, saiu no mesmo dia
para Inglaterra.
Smyth (C. Piazzi)
V. Piazzi Smyth.
Soares
Este apelido de familia procede de Diogo Soares, que foi donatario do Porto Santo, e de Manuel Soares que fundou na
igreja de S. Pedro, em 1596, a capela da Senhora da Boa Morte.
Soares (Padre Caetano Alberto)
Era filho de Antonio Soares Felgueiras e de D. Ana de Oliveira, e nasceu na freguesia do Porto da
Cruz a 23 de Maio de 1790. Vindo para o Funchal em tenra idade, para casa de seu padrinho o cónego Caetano Alberto de Araujo,
fez nesta cidade os estudos preparatórios de humanidades e o curso de teologia no Seminário Diocesano. Ordenou-se de presbítero
e seguiu imediatamente para Coimbra, onde se matriculou na faculdade de leis, concluindo a sua formatura no ano de 1820 ou
pouco depois. Exercia no Funchal a advocacia e regia a cadeira de latinidade, quando em 1826 foi eleito deputado pela Madeira,
tendo tomado assento em cortes e residido em Lisboa, até o ano de 1828, em que se ausentou para o Rio de Janeiro, receando ser
vitima das perseguições que o governo absoluto começava então a fazer contra os adeptos das ideias liberais.
Fixando residência na capital do Brasil, naturalizou-se cidadão brasileiro e logo se dedicou à carreira do foro, tendo ali alcançado
nomeada como um distinto advogado. Exerceu várias comissões de serviço público e entre elas as de juiz dos orfãos, advogado da
Casa Imperial, presidente do Instituto dos Advogados, etc.. Tendo o governo brasileiro oferecido o prémio de um conto de réis ao
autor do melhor projecto de um código civil, foi o Dr. Caetano Alberto Soares nomeado membro da comissão encarregada de emitir
parecer acerca do projecto apresentado.
O Dr. Soares teve o infortúnio de ser assaltado pela cegueira, continuando, apesar disso, no exercício da advocacia, em que
notavelmente se distinguiu. Devido a essa circunstância, não deixou trabalhos impressos, além duma memória lida no Instituto dos
Advogados e publicada no ano de 1848.
Faleceu no Rio de Janeiro a 28 de Fevereiro de 1867.
Soares (Feliciano)
Nasceu em Aveiro a 14 de Outubro de 1886 e é aspirante da alfândega do Funchal. Criou nesta cidade o
Instituto de Ensino Secundario e Comercial e a Bolsa de Estudos Antonia Georgina, sendo destinada esta ultima instituição a
subsidiar estudantes pobres que frequentem as escolas oficiais do país. E.: Crucificadas, Funchal, 1915, de 350 páginas e O que eu vi
e pensei, Funchal, 1923, de 267 páginas. Publicou, de colaboração com Emanuel Vitorino Ribeiro, um opúsculo intitulado Terra!
Terra!, alusivo á descoberta da Madeira (1921).
Soares (João de Nóbrega)
Nasceu nesta cidade a 11 de Junho de 1831. Depois de ter cursado alguns anos o liceu do Funchal,
viajou pela Africa Portuguesa e pela América do Norte, regressando á pátria, onde fixou residência, no ano de 1855. Foi professor de
instrução primária, escrivão da Santa Casa da Misericórdia e por fim empregado da fiscalização dos tabacos.
Dedicou-se activamente ao cultivo das letras, tendo uma larguissima colaboração em muitos periódicos, especialmente em assuntos
de caracter essencialmente literário. Na poesia, no drama, nos contos, nas narrativas de viagem etc., deu sobejas provas da sua
aptidão para estes géneros de literatura. Foi director e redactor da Revista Semanal, Semanario 0fficial e Flor do Oceano, e
colaborou em muitos jornais, como A Pátria, A Imprensa, e o Funchalense. Quando em 1876 o cónego Alfredo César de Oliveira
fundou nesta cidade O Diário de Noticias, foi Nobrega Soares convidado para redactor deste jornal e nele colaborou activamente
durante alguns anos.
Em volumes avulsos, publicou Introducção à Geographia, 1859; Primeiras Noções de Moral, 1861 e outra edição em 1862; Contos e
Viagens" 1867; Scenas e Comedias, 1865; Scenas e Phantasias, 1868; Qual dos dois?; 1862; - Um quarto com duas camas, 1862;
Chorographia da Madeira, 1862, de que se fizeram mais duas edições; e Grammatica da Lingua Portugueza, 1884. Preparava para a
impressão outros trabalhos literários que não chegaram a ser publicados, dalguns dos quais faz menção o Diccionario
Bibliographico de Inocencio F. da Silva.
Faleceu no Funchal a 22 de Setembro de 1890.
Soares (D. Laura Veridiana de Castro e Almeida)
É casada com Feliciano Soares, conhecido literato natural de Portugal, e nasceu
no Funchal a 7 de Novembro de 1870, sendo filha de D. Francisco de Castro e Almeida Pimentel de Sequeira e Abreu e de D. Maria
Antonia de Bettencourt Pestana de Castro.
Publicou, com o pseudónimo de D. Maria Francisca Teresa, um livro intitulado Em casa da avó – Na Ilha da Madeira (Lisboa,
1923), e traduziu do inglês A Cidade Eterna e O Apóstolo, de Hall Caine.
Revelou desde a mais tenra idade uma decidida vocação para o estudo, sendo uma das senhoras madeirenses que mais se tem
distinguido na cultura das letras.
Soares (Urbano Canuto)
Nasceu no Funchal a 19 de Janeiro de 1894 e é bacharel em letras pela Universidade de Lisboa,
desempenhando presentemente o cargo de professor ordinário do primeiro grupo da Faculdade de Letras na Universidade do
Porto. E.: O Calão escolar da Casa Pia, em colaboração com o Dr. Aurelio da Costa Ferreira (Aguia, 1914, e Anais da Casa Pia, 1915);
Linguagem e tradições populares do arquipélago da Madeira (Revista Lusitana, 1915): Epifanio Dias, (discurso proferido à beira da
sepultura deste professor Revista Lusitana, 1917); e Ensaios Filologicos, um manuscrito português do século XVI e o problema
guanche Revista da Faculdade de Letras do Porto, 1920). Tem em preparação vários outros trabalhos, entre os quais uma tradução
das Nuvens de Aristófanes, precedida de um estudo sobre Sócrates.
Em 19 de Abril de 1921, ao ser conferido o grau de doutor na Faculdade de Ciências do Porto ao marechal José Joffre, ao
generalissimo Armando Dias e ao general Horácio Smith Durrien, o dr. Urbano Soares fez uma oração em latim que foi muito
apreciada pelos conhecedores dessa língua, e redigiu as cartas doutorais daqueles militares (1921).
Sociedade Agrícola Madeirense
A tentativa da fundação duma associação destinada a proteger e a desenvolver a agricultura
madeirense só logrou ser uma realidade durante a administração do conselheiro José Silvestre Ribeiro como governador civil deste
distrito. As diligências anteriormente feitas resultaram sempre infrutíferas, e depois da saída da Madeira daquele benemérito
governador, a associação passou a ter uma vida muito precaria, deixando mesmo de cumprir as obrigações que lhe eram impostas.
Já em 1790 se tinha feito entre nós a tentativa do estabelecimento duma associação desta natureza, que teve então por principal
promotor o Dr. João Pedro de Freitas Drumond.
A inauguração solene da Sociedade Agrícola Madeirense realizou-se no dia 21 de Novembro de 1849, com a assistência do príncipe
Maximiliano, duque de Leuchtenberg e de todas as autoridades e individualidades em maior destaque no nosso meio. Como se pode
ver na Epocha Administrativa, a autoridade superior do distrito prestou a nova agremiação o mais valioso apoio, recomendando-a
com o maior empenho a todas as autoridades, às corporações administrativas e ao governo da metrópole.
A mesa eleita naquela assembleia redigiu os estatutos, que foram aprovados por alvará régio de 30 de Agosto de 1850, pôs-se em
comunicação com outras associações similares para melhor se orientar na direcção dos seus trabalhos, iniciou a publicação dum
jornal intitulado O Agricultor Madeirense, que era um guia seguro para os lavradores e que calorosamente defendia os seus
interesses, fez a aquisição de sementes, tentou o estudo e ensaio de novas culturas, tratou da criação dos gados, pastos artificiais,
aperfeiçoamento das raças, etc., e ocupou-se de muitos assuntos que mais de perto interessavam á agricultura deste distrito.
Os relatórios da direcção desta sociedade e das suas sub-comissões, encarregadas do estudo das diversas questões que mais de
perto se relacionavam com a agricultura, revelam o seu zelo e interesse pelas cousas desta ilha e dão-nos um testemunho eloquente
do que entre nós podia fazer uma associação animada de iguais intentos e de iguais desejos.
A Sociedade Agrícola funcionou regularmente até 1858, tendo sido reinstaurada sob outras bases em 1855. Interrompeu as suas
sessões em 1860, funcionando depois até 1864. Teve uma sessão em 1867, afim de consultar o governo sôbre a introdução do vinho
de Portugal na Madeira, e organizou-se em 29 de Novembro de 1876, sendo nulos, porém, os seus trabalhos desde então até 1880,
em que se extinguiu definitivamente.
Sociedade Auxiliadora da Instrução Primaria
No dia 19 de Outubro de 1858, reuniu-se no Palácio de São Lourenço uma
selecta assembleia com o fim de se lançar as bases duma agremiação que tinha por fim especial fomentar e auxiliar o ensino da
instrução primaria neste distrito, havendo por essa ocasião usado da palavra vários oradores. Assistiu a esta reunião o infante D.
Luis, depois rei de Portugal, que ali se declarou protector da nova associação.
Sociedade Cooperativa "Construção Predial do Funchal
". Constituiu-se por escritura de 12 de Dezembro de 1901, tendo os
seus estatutos sido aprovados em sessão da assembleia geral de 23 de Setembro de 1900.
Foi esta sociedade que fez construir os prédios situados entre a rua do Favila e o passeio e ponte do Ribeiro Seco, tendo o plano e
planta das primeiras casas ali edificadas sido aprovado pela Camara Municipal do Funchal em sessão de 10 de Outubro de 1903.
Sociedade Cooperativa de Consumo e Credito do Funchal
V. Cooperativas.
Sociedade Esperança
Tinha por fim o estabelecimento dum teatro no Funchal para divertimento particular das familias dos
sócios e das pessoas das suas relações. Os seus membros, segundo os estatutos, eram em numero de 40, podendo ter também sócios
de mérito até o numero de 5. Os sócios ordinários pagavam a jóia de 10$000 réis e a mensalidade de 200 réis; os de mérito
pagavam a mesma mensalidade, mas eram dispensados no pagamento da jóia.
A Sociedade Esperança que se constituiu em 1858, tendo a princípio somente 18 membros, aprovou os seus estatutos a 15 de
Fevereiro de 1860, estando os mesmos assinados pelos directores interinos Francisco Leandro Severim, João Maria da Silva
Carvalho, Luís Alvares da Silva, Pedro Augusto da Silva Carvalho e João Alexandre de Carvalho. O decreto que aprovou os mesmos
estatutos é de 10 de Maio do mesmo ano.
Segundo se lê no Direito, de 4 de Dezembro de 1858, os referidos estatutos foram redigidos pelo sócio Nuno Dias de Vasconcelos e
entre os membros fundadores da sociedade contavam-se também Julio Galhardo de Freitas, que tinha representado já no teatro
Concórdia, e Pedro de Alcantara Góis, que havia feito a sua estreia numa récita levada a efeito na Escola Lancasteriana. V. Teatros.
Sociedade Filantrópica Académica de Coimbra
A iniciativa da fundação desta benemérita sociedade, que tantos serviços
tem prestado aos estudantes pobres, deve-se ao estudante da faculdade de direito Feliciano Augusto de Brito Correia, natural da
Madeira. A reunião académica em que primeiro se tratou da organização da sociedade teve lugar a 23 de Dezembro de 1849, sendo
o mesmo estudante eleito membro da comissão encarregada de apresentar as bases dos estatutos pelos quais deveria reger-se a
nova agremiação. A Sociedade Filantrópica Académica só teve os seus estatutos aprovados pelo governo em 26 de Maio de 1852.
O Dr. Feliciano Augusto de Brito Correia foi delegado do procurador régio no Funchal, tendo falecido a 9 de Janeiro de 1871, com
54 anos incompletos, pois que nascera a 29 de Outubro de 1817.
Sociedade Funchalense dos Amigos das Ciências e Artes
Foi fundada no Palácio do Governo e teve por primeiro
presidente o Dr. João Pedro de Freitas Pereira Drumond e por primeiro secretario Francisco Ferreira de Abreu. Tinha 28 sócios
efectivos e 24 honorários, números estes que simbolizavam o dia 24 de Agosto do 1820, em que a revolução rebentara no Porto, e o
dia 28 de Janeiro de 1821, em que ela foi secundada na Madeira. Havia também sócios correspondentes, em número de 45. A
primeira sessão pública da sociedade teve lugar em 23 de Agosto de 1822.
A Sociedade Funchalense dos Amigos das Ciências e Artes, modelada pela Academia Real das Ciências de Lisboa, durou pouco
tempo, tendo desaparecido em 1823, com a restauração do governo absoluto na ilha. Os seus estatutos e regulamentos foram
impressos em 1822, na imprensa do Patriota.
Sociedade Harmonia
Em 1838, existia no Funchal uma sociedade com esta denominação, cujo fim principal era promover
reuniões para a audição de bons trechos de música.
Sociedade Humanitária do Distrito do Funchal
Com este nome, fundou-se em 5 de Junho de 1858 nesta cidade uma
sociedade que tinha por fim, segundo vem indicado no artigo primeiro dos seus estatutos, «a salvação de pessoas em naufrágios nas
praias do Funchal e suas imediações, e a salvação de pessoas em epidemias, incêndios e outras semelhantes calamidades, na cidade
do Funchal e seus arredores».
Esta sociedade que teve seus estatutos aprovados por decreto de 13 de Janeiro de 1862, foi fundada por um grupo dos mais
categorizados indivíduos do Funchal. Julgamos que teve efémera duração.
Sociedade Patriótica
Houve no Funchal em 1821 uma sociedade com esta designação, de que foi vice-presidente o brigadeiro
Jorge Frederico Lecor.
Sociedade Patriótica, Económica, de Comércio, Agricultura, Ciências e Artes
Foi criada no Funchal em 1790, mas
ignoramos que tempo durou. João José d'Orquigny (V. este nome) pronunciou um discurso em assembleia geral da Sociedade
Patriótica, ao despedir-se dela no dia 1 de Julho de 1790.
Sociedade Patriótica Madeirense
Em 1834, havia uma agremiação com este nome na cidade do Funchal, segundo se vê dum
folheto publicado nesse ano e que contém uma moção apresentada na mesma agremiação, por um dos seus membros.
Sociedade Protectora dos Animais Domésticos
Foi instituída em 6 de Janeiro de 1897 e legalizada por alvará de 6 de Maio
do mesmo ano, tendo sido considerada de utilidade pública por decreto de 16 de Março de 1914. Tem sócios beneméritos e
subscritores, tendo as cotas que primitivamente eram de 10 centavos, sido elevadas a 50 centavos (1921).
Houve uma outra sociedade com a mesma denominação, que ficou instalada no Hotel Miles, á rua do Carmo, em 1 de Março de
1880.
Sociedade Tália
Tinha por fim promover representações teatrais, e instalou-se em 1858 num prédio ao largo do Pelourinho. Os
sargentos de infantaria 16 deram uma récita num pequeno teatro pertencente á sociedade, no dia 23 de Dezembro de 1858.
A sociedade Tália parece que durou poucos anos.
Solander (Dr. Daniel Carlos)
Distinto naturalista sueco, discípulo de Lineu, nascido em Nordland a 28 de Fevereiro de 1736 e
falecido em Londres, a 16 de Maio de 1782. V. Banks.
Soldado Desconhecido
A exemplo do que se praticara noutros países, Portugal também quis glorificar os Soldados
Desconhecidos que haviam dado a vida pela pátria, na luta contra os alemães. Para isso, organizou-se um programa das
homenagens a prestar a esses heróis, que foi publicado no Diário do Governo, 2.ª série, de 26 de Março de 1921, tendo esse
programa sido executado com o maior brilho e imponência em todos os grandes centros do país, como era de esperar do bem
provado patriotismo do povo português. Foi de harmonia com as indicações do mesmo programa, tornadas publicas no Funchal por
edital do Governador Civil, que em 7 de Abril de 1921, dia escolhido para a exposição no Palácio da Soberania Nacional dos féretros
dos Soldados Desconhecidos da França e da Africa, as autoridades competentes fizeram hastear ao meio dia as bandeiras nacionais
nas fortalezas, quartéis e edifícios públicos, conservando-se assim até o pôr do sol do dia 10, e que á mesma hora a banda de
infantaria executou o hino nacional e a marcha de continência, e os sinos das igrejas tocaram durante 15 minutos.
O Funchal prestou homenagem aos seus imortais heróis nos dias 7 a 10 de Abril, fixados pelo Governo, mas as cerimónias que então
se realizaram não revestiram nem o brilho nem a imponência das de 1 a 3 do mesmo mês, por ocasião do desembarque e embarque
da urna com os despojos mortais do Soldado Desconhecido, caído nas longínquas plagas africanas, na luta que ai sustentamos com
os alemães.
Como já dissemos a páginas 110 do volume II desta obra, essa urna, trazida pelo vapor Briton, da Union Castle Mail, passou a noite
de 31 de Março para 1 de Abril no Posto de Desinfecção Marítima, armado em câmara ardente, tendo vindo para terra no pequeno
vapor Milano, onde haviam tomado lugar as autoridades e outras entidades oficiais. Ao desembarcar a urna no cais da Pontinha,
cerca das 9 horas da noite, foram-lhe prestadas as devidas honras por uma força de infantaria, comandada por um capitão, tendo o
féretro sido velado durante a noite por oficiais da guarnição.
O cortejo que no dia 1 de Abril acompanhou a urna até os Paços do Concelho, revestiu uma particular imponencia, tendo-se
incorporado nele os alunos e professores das escolas primarias, especiais e secundarias do Funchal, os bombeiros, com a banda dos
«Artistas Funchalenses», duas patrulhas de escuteiros, o pessoal do tráfego da Alfandega e Cabrestante, várias associações, os
empregados da fábrica de W.
m
Hinton & Filhos, a companhia n.° 1 da Guarda Fiscal, forças de marinha e da policia civil, a colónia
siria, o director e pessoal da «Western Telegraph Company», representante das lojas maçónicas a Associação Comercial,
representantes das casas bancárias, a imprensa, os sargentos combatentes de Africa e França, a policia de emigração, os
empregados das Obras Públicas do Estado, os directores e empregados da Alfândega e Correio, o clero protestante, o director e
pessoal de Finanças, os médicos, magistrados e advogados, a Delegação de Saúde, as Câmaras Municipais do distrito, a Junta Geral,
os oficias estrangeiros residentes no Funchal, os oficiais portugueses, as familias dos militares portugueses mortos na Grande
Guerra, as autoridades civis e militares, os representantes da Nação, o ajudante de ordens do Ministro da Marinha, o corpo
consular, os oficiais generais, uma força de marinha de bordo do cruzador Republica, o regimento de infantaria n.° 27, a bataria n.°
3 de artilharia de guarnição, a guarda republicana e as filarmónicas da Ribeira Brava e Artistico-Madeirense. A urna com os restos
mortais do Soldado Desconhecido seguia após os oficiais portugueses que se haviam incorporado no cortejo.
Desde a Pontinha até a avenida do Dr. Manuel de Arriaga, onde fora levantado um elegante cadafalso, caminhou sempre o cortejo
entre duas alas compactas de povo, indo na frente do armão em que era levada a urna funeraria, envolta na bandeira nacional e
ladeada por oito oficiais, alguns deles combatentes da Grande Guerra, três outros armões conduzindo as muitas coroas que haviam
figurado na câmara ardente preparada na véspera no Posto de Desinfecção da Pontinha.
Em frente do catafalco, as entidades civis e militares mais graduadas e os oficiais estrangeiros, formaram em semi-circulo, sendo a
urna tirada do armão e colocada sôbre a tarimba, onde ficou guardada pelos oficiais que a tinham acompanhado até ali, colocando-
se quatro de cada lado. Após alguns minutos de silêncio, tomou a palavra o capitão Americo Olavo de Azevedo, combatente da
Grande Guerra, que, apesar de visivelmente indisposto, produziu um belo e patriótico discurso, que agradou a todos os assistentes.
Em seguida, pôs-se o cortejo em marcha para os Paços do Concelho, tomando pela rua de João Tavira e largo do Município, sendo o
ataúde levado por oficiais estrangeiros até a porta do edifício, e daí até a câmara ardente, por bombeiros voluntários, cuja banda de
musica tocou a Portuguesa, á chegada da urna funeraria. No salão nobre dos Paços do Concelho, que se achava majestosamente
ornamentado, discursaram o presidente da Câmara Dr. Teixeira Jardim, o governador civil Rodrigues dos Santos, o cônsul
britanico Mr. Staniford, o cônsul americano Mr. Jenkins, o capitão do porto Vital Gomes, o comandante militar coronel João M.
Ferraz e o senador Dr. Manuel Augusto Martins, tendo o mesmo salão, depois da retirada das autoridades que se haviam
incorporado no cortejo, sido visitado por muitos milhares de pessoas que desfilaram respeitosamente ante a urna, que havia sido
colocada sôbre um largo estrado de cinco degraus atapetados, tendo de cada lado seis grandes tocheiras douradas que terminavam
em hastes de ferro, em cada uma das quais se viam cinco lâmpadas eléctricas de forte puder iluminante.
Antes do cortejo deixar a Pontinha, proferiu uma brilhante alocução o oficial de infantaria Armando Pinto Correia, combatente da
Grande Guerra, seguindo-se o minuto de silêncio que devia ser guardado pelos assistentes e consagrado a todos aqueles que haviam
perdido a vida nos campos de batalha, em defesa da Pátria, da Liberdade, do Direito e da Justiça.
Ao aparecer no horizonte O Vapor Briton, que, como dissemos, conduziu os restos mortais do Soldado Desconhecido, foi ao seu
encontro o hidro-avião «F. 3», de que falámos no artigo Navegação Aérea, tendo executado um voo em torno do mesmo vapor.
No dia 3 de Abril, pelo meio dia, formou-se um novo cortejo, desta vez para acompanhar até o cais os restos do Soldado
Desconhecido, que deviam embarcar no cruzador Republica, encarregado de transporta-los a Lisboa. A urna foi conduzida por
vereadores desde a câmara ardente até a porta dos Paços do Concelho, sendo entregue aí à fôrça militar e colocada sôbre um armão,
pegando ás borlas os mesmos vereadores. No novo cortejo incorporaram-se, além dos oficiais da guarnição do Funchal, os oficiais
estrangeiros que haviam tomado parte no cortejo do dia 1.
Pelas ruas por onde passou o cortejo, viam-se, como no dia 1, massas compactas de povo, e no cais e imediações estacionava muita
gente para assistir á cerimónia do embarque.
A urna foi conduzida pelo Governador Civil, Presidente da Câmara, general Norton de Matos e Comandante Militar desde o começo
ao extremo do cais, onde foi entregue a uma força de marinheiros do cruzador Republica, discursando por essa ocasião o Presidente
da Câmara e o cônsul de França, no Funchal.
Seguidamente, foi a urna transportada para uma lancha do cruzador, a meio da qual se via um troféu formado pelas bandeiras das
nações aliadas, tendo tomado lugar na mesma lancha as entidades que haviam conduzido os restos mortais do Soldado
Desconhecido até a extremidade do cais.
Á chegada a bordo da república, foi a urna colocada num estrado à ré, em torno do qual ficaram as coroas, usando da palavra por
essa ocasião o general Norton de Matos e o comandante do cruzador.
Momentos depois, deixava o cruzador o porto do Funchal em direcção a Lisboa, levando a seu bordo os despojos do Soldado
Desconhecido de Africa que, passados poucos dias, haviam de ir repousar no majestoso mosteiro da Batalha, erigido por um rei
valente e patriota para comemorar um dos mais gloriosos factos da nossa historia.
Solha (Rhombus madeirensis)
Peixe da família Pleuronectida, que habita os fundos lamacentos ou arenosos junto á costa e é
pescado aí com as redes de arrasto, ás vezes em grande quantidade. Tem sabor agradável, mas pela sua pequenez é espécie de pouco
valor comercial.
Somerville (Capitão B. T.)
Os oficiais do navio inglês Argonauta levantaram, sob a direcção do capitão Somerville, uma carta das
ilhas Selvagens, que tem o seguinte título: North Atlantic Salvage Islands. . . 1915.
Junto desta carta, há duas outras levantadas também pelos mesmos oficiais, com os títulos seguintes: Piton Islands. . . 1915, e Great
Salvage Island, 1915.
Sondagens
A Madeira está rodeada de um mar bastante profundo, tendo a sonda descido a 4205 metros, a 120 milhas da costa do
norte da ilha, e a 3019 metros, a 50 milhas da mesma costa, na direcção dos Açores. Entre a Madeira e Canárias, a sonda desceu até
4392 metros, e entre a Madeira e a costa d'Africa, a curta distância da ilha, a 4071 metros. Entre a Madeira e Porto Santo, têm sido
notadas nalguns pontos profundidades superiores a 2000 metros, ao passo que, entre a Madeira e os Açores, viu-se a sonda descer
já a 4895 metros.
Os resultados das numerosas sondagens realizadas nos mares que banham a Madeira, Porto Santo e Desertas, constam das cartas
geo-hidrograficas publicadas pelo engenheiro Antonio Pedro de Azevedo em 1877, 1879 e 1886.
Nos mares da Ponta do Pargo, há um baixio com cerca de milha e meia de extensão, do qual os barcos costeiros são obrigados a
afastar-se, quando os ventos sopram do lado de oeste, e entre a ponta de S. Lourenço e as Desertas há um banco submarino que na
sua parte media está na profundidade de 30 a 130 metros.
Sopa Económica
V. Associação Protectora dos Pobres. (I- 99).
Sorgo (Andropogon Sorghum)
Graminea introduzida na Madeira em 1856. É originaria da Asia Tropical e talvez da Africa, e foi
outrora bastante cultivada nalgumas freguesias do norte da ilha e na Ribeira Brava, onde o suco extraído dos seus colmos servia
para o fabrico da aguardente. O sorgo, conhecido também pelo nome de cana milho e de canica, é uma boa forragem e o seu grão
fornece uma farinha que nalguns países é utilizada na alimentação do homem.
Sousa
Há, segundo parece, dois ramos deste apelido: um procede de Rui de Sousa, fidalgo da casa de D. João II, que casou nesta
ilha com Constança Cabral, filha de Diogo Cabral e de Brites Gonçalves da Câmara, filha de Zargo; o outro deriva de Antão Alvares
de Sousa, cavaleiro nobre, que fez assento em Santa Cruz, pelos anos de 1480.
Garcia Homem de Sousa, genro de Zargo, teve uma filha que se chamou Leonor Homem e casou com Duarte Pestana.
Sousa (Afonso Caminha de Vasconcelos)
Foi conde da Calheta e II.° Donatario do Funchal, tendo recebido a capitania em 1726.
Sousa (Ernesto Venceslau de)
Nasceu no Funchal a 28 de Setembro de 1879. Escreveu o Poema antipuniceo (Funchal, 1904) e
exerceu o oficio de tipógrafo, ao mesmo tempo que colaborava na Cruz, na Esperança, na Voz do Operario e no Direito. Costumava
firmar os seus trabalhos com o pseudónimo de E. Tarolo. Faleceu no Hospício da Princesa D. Maria Amelia a 25 de Dezembro de
1913.
Sousa (Francisco de)
No ano de 1877, publicou-se na cidade de Ponta Delgada um opúsculo com o seguinte título: Tratado das
Ilhas Novas e do descobrimento d'ellas e outras cousas feito por Francisco de Sousa, feitor d'el-rei Nosso Senhor na Capitania da
cidade do Funchal na ilha da Madeira. . . e dos portugueses que forâo de Vianna e das ilhas dos Açores a povoar a terra nova do
bacalhau. .. Anno do Senhor 1570. Deste folheto se fez segunda edição em Ponta Delgada no ano de 1884.
O autor deste opúsculo era natural desta ilha.
Sousa (D. Francisco)
Data a sua nomeação de governador geral da Madeira de 18 de Janeiro de 1627, tendo tomado posse a 1 de
Maio de 1628. Depois da sua ausência, assumiu as funções de governador geral o bispo diocesano D. Jeronimo Fernando.
Sousa (Francisco Clementino de)
Nasceu nesta cidade a 26 de Fevereiro de 1846 e era filho do farmacêutico Francisco Xavier de
Sousa e de D. Virginia Medina de Sousa. Concluiu o curso da Escola Medico-Cirurgica do Funchal no ano de 1868 e por duas vezes
regeu interinamente uma cadeira neste estabelecimento de instrução. Exerceu durante muitos anos o lugar de fiscal sanitário do
matadouro deste concelho e foi tesoureiro do antigo Banco Comercial da Madeira.
Teve uma larga e distinta colaboração, em prosa em verso, no antigo jornal O Direito, no Diário de Noticias e ainda em outros
periódicos. Em defesa de seu pai e em discussão com o conde de Canavial, publicou um folheto em 1868, que saiu anónimo, com o
título de a questão entre o Dr. João da Câmara Leme. . . e o pharmaceutico Francisco Xavier de Sousa, e em 1874, publicou outro
opúsculo intitulado Resposta ao Sr. Acurcio Garcia Ramos.
A feição característica dos escritos de Francisco Clementino de Sousa, especialmente as suas composições poéticas, era a sátira e a
ironia, manejadas com rara habilidade, com excepcional talento e com uma graça inimitavel. As suas produções eram lidas com a
maior avidez e causavam sempre extraordinária sensação no nosso meio literário. Não há exagero em afirmar-se que muitas das
suas composições rivalizavam com as de Tolentino e com as de outros poetas que, no género satírico, deixaram nome aureolado na
nossa literatura. Se tivesse vivido noutro meio, teria facilmente alcançado uma grande celebridade. Apesar duma parte considerável
dos seus escritos ter perdido a actualidade, por se referir a pessoas e a acontecimentos desconhecidos da presente geração, é ainda
com grande aprazimento do nosso espírito que podem ser lidos e apreciados esses escritos, pela espontaneidade, beleza de forma e
graça inexcedível que neles notavelmente se revelam. Seria um apreciável serviço prestado ás letras, a publicação em volume
dalgumas dessas produções, salvando-se dum injusto e imerecido esquecimento tantas composições, que são verdadeiras obras
primas no seu género. Francisco Clementino de Sousa adoptou em muitos dos seus escritos o pseudónimo de Faustino Brasão.
Morreu nesta cidade a 24 de Julho de 1896.
Sousa (Garcia Homem de)
Foi um dos fidalgos mandados pelo rei a esta ilha para casar com as filhas de João Gonçalves Zargo,
tendo-se unido à terceira filha deste, que se chamava Catarina Gonçalves da Câmara. Teve terras de sesmaria em São Martinho e
Santo Antonio, e fez o solar acastelado de Santo Amaro para se defender de seus cunhados, com quem teve pendências por motivos
que não são hoje bem conhecidos. Era, diz o Dr. Azevedo, homem orgulhoso e violento (Vid. Santo Amaro (capelas de)).
Diz Henrique Henriques de Noronha que Garcia Homem de Sousa descendia de Pedro Homem, um dos doze cavaleiros que foram a
Inglaterra.
Sousa (Dr. Jacinto António de)
Este distinto lente da Universidade de Coimbra nasceu nesta ilha a 3 de Janeiro de 1818, sendo
filho de Eugenio Antonio de Sousa. Era bacharel formado em direito e matemática, e doutorou-se na Faculdade de Filosofia a 6 de
Julho de 1858.
Foi lente da cadeira de física na Universidade e um dos mais abalizados professores do seu tempo. Como director do gabinete de
física e do observatório meteorológico, prestou a estes estabelecimentos científicos os mais assinalados serviços, dando uma nova
orientação aos trabalhos neles realizados, depois duma viagem que fez a diversos países da Europa.
Comissionado pelo governo português, visitou várias universidades e observatórios estrangeiros, tendo publicado notáveis
relatórios acerca das observações e estudos que realizou nas suas missões científicas. Foi escolhido como um dos representantes de
Portugal, para observar o eclipse solar em Espanha no ano de 1860, dizendo o Dr. Simões de Carvalho «que desempenhou essa
missão com muita honra para o seu nome, para a universidade e para o país».
Além de outros trabalhos, escreveu: relatório de uma visita aos estabelecimentos scientificos de Madrid, Paris, Bruxellas, Londres,
Greenwich e Kew, 1862; Observações meteorológicas feitas no observatório meteorologico e magnético da Universidade de
Coimbra, 1872; Observações Meteorologicas..., 1873, e Additamento á Memoria Histórica da faculdade de philosophia...1873. Foi
director e redactor da revista cientifica e literária 0 Instituto, e sócio de muitas agremiações cientificas nacionais e estrangeiras.
Morreu a 15 de Agosto de 1880.
Sousa (João Francisco de)
Este madeirense nasceu a 19 de Agosto de 1868 e alistou-se no exército a 22 de Janeiro de 1884, sendo
despachado alferes de infantaria a 15 de Março de 1900. Era oficial pratico, mas bacharel em direito pela Universidade de Coimbra,
tendo cursado no liceu do Funchal os estudos secundários. Foi senador pelo circulo de Ponta Delgada (Açores), tendo feito parte da
coluna que em 1915 partiu para o sul de Angola, e morreu, sendo capitão de infantaria 17, no combate das cacimbas de Mangua
(Cuanhama) a 19 de Agosto de 1915, na ocasião em que percorria a linha de fogo, animando os soldados.
Acerca da acção heróica exercida pelo capitão Sousa na referida campanha de Cuanhama, deve ler-se o notável artigo do tenente-
coronel José de Oliveira Duarte publicado no «Diario de Noticias» do Funchal de 19 de Agosto de 1945, ao passar o trigésimo
aniversario da morte desse distinto madeirense.
Sousa (Dr. José de Barros e)
Nasceu na freguesia de Câmara de Lobos a 1 de Março de 1859. Foi delegado do procurador régio na
comarca da Ponta do Sol, juiz na comarca de Santa Cruz e é hoje juiz da Relação do Porto. Publicou um opúsculo, de que já se
fizeram três edições, intitulado Preceitos de Moral da Infância (1921).
Morreu na cidade do Porto em Dezembro de 1930.
Sousa (José Caminha de Vasconcelos e)
Foi conde e marquês de Castelo Melhor, e o ultimo donatario da capitania do Funchal,
tendo cedido á coroa, por escritura de 9 de Setembro de 1766, a maior parte dos seus direitos e prerrogativas.
Sousa (Bispo D. José Xavier Cerveira e)
Vid. Cerveira e Sousa. I-267.
Sousa (Luis de Vasconcelos Câmara e)
V. Câmara (Luis de Vasconcelos e).
Sousa (Manuel Alexandre de)
Este oficial de infantaria nasceu no Funchal a 2 de Fevereiro de 1856 e faleceu em Lisboa a 17 de
Novembro de 1903, tendo então o posto de major. Foi fiscal técnico da Companhia do Caminho de Ferro do Monte e, apesar de se
lhe atribuirem alguns erros na construção da estrada entre o Pombal e o Atalhinho, o que é facto é que concorreu bastante pela sua
actividade e reconhecido zelo, para dar impulso ás mesmas obras. Foi também o concessionário dos trabalhos da construção e
exploração das levadas madeirenses, como se viu a páginas 248 deste volume e mais tarde director da cadeia do Limoeiro.
Sustentou uma larga polémica pela imprensa com o engenheiro Adriano Augusto Trigo e pretendeu estabelecer um elevador entre o
largo de S. Pedro e o caminho da Achada. (Vid. II-248).
Sousa Brasão (Manuel de)
Nasceu na freguesia de S. Vicente a 21 de Abril de 1884 e faleceu na sua residência, na fortaleza de S.
Lourenço, a 21 de Dezembro de 1923. Era capitão da Administração Militar e serviu no sul de Angola de 1914 a 1915, e em
Moçambique de 1916 a 1917. Foi eleito deputado pela Madeira em 10 de Julho de 1921 e colaborou em vários jornais de facção
partidária.
Sousa e Silva (Antonio Augusto de)
Foi nomeado governador civil deste distrito por decreto de 26 de Abril de 1894 e tomou posse
do lugar a 17 de Maio do mesmo ano.
Como inspector de obras, publicou o Relatório da inspecção às obras públicas do distrito do Funchal no anno de 1891... Lisboa
1893, de 41 páginas. Publicou sôbre o mesmo assunto outro desenvolvido relatório referente ao ano de 1892.
Sousa Vaz (Dr. F. de Assis)
E.: De l'influence salutaire du climat de Madere dans le traitement de la phthisie pulmonaire, et de la
superiorite de cette influence sur celle des climats du sud de la France et de l'Italie, Paris, 1832. É um trabalho pouco extenso, mas
em que o seu autor, apesar de não ter conhecimento próprio da Madeira, estabelece as vantagens do clima desta ilha no tratamento
das moléstias pulmonares.
Spencer Wells (Dr.)
Este distinto medico inglês visitou a Madeira, tendo publicado no British Medical Journal do mês de Maio
de 1880, um artigo acerca desta ilha, subordinado ao título Notes of an easter holiday trip to Madeira.
Spice (R. P.)
(R. P.) E.: The Wanderings of the Hermit of Westminster on the Island of Madeira in 1883 (s. l. n. d.).
Spilsbury (F. B.)
Era cirurgião da Favorita, navio da marinha de guerra britanica, e, na relação que publicou da sua viagem á
costa ocidental de Africa, refere-se á sua estada na Madeira, onde se demorou desde 12 a 19 de Outubro de 1805. Fala da
hospitalidade dos habitantes da ilha, da lepra, que diz ser frequente, das carapuças de forma cónica, das flores e frutos fabricados
pelas freiras e dos roubos praticados pelos soldados.
Sport
No artigo que a seguir publicamos, encontrarão os leitores alguns subsídios para a historia do desporto na Madeira, tendo o
mesmo artigo sido escrito por um conhecido jornalista, que é redactor desportivo do Diário da Madeira, a pedido de um dos autores
deste Elucidário:
«Pode classificar-se de notável, diz o referido jornalista, o movimento desportivo na Madeira. Entre os diversos sports praticados
no nosso meio, contam-se os seguintes: foot-ball, lawn-tennis, bilhar, table-tennis, natação e provas correlativas, como water-polo,
corridas de fundo ou resistência e de velocidade, mergulhos, remo, yachting (vela), crocket (em campos particulares, especialmente
nas quintas dos arredores da cidade), etc..
O desporto mais desenvolvido e estimado na Madeira é, sem duvida, o foot-ball, que, nesta ilha como em toda a parte, atravessou
uma fase inicial, preliminar, em que era jogado fora de qualquer acção coordenadora e educativa, combinando os clubes
particularmente entre si os desafios a realizar. Nessa primitiva fase do foot-ball no Funchal, muitos clubes se fundaram, tendo
alguns deles desaparecido já, enquanto outros existem ainda. No numero dos desaparecidos, lembramo-nos ainda do Grupo
Sportivo do Ateneu Comercial, do Grémio dos Empregados do Comercio, do Operário Funchalense, do Sporting Grupo do Funchal,
do Continental Madeirense, do Académico, do Grupo Desportivo Insulano, etc..
No número dos que, fundados nessa altura, vivem actualmente, encontram-se por ordem decrescente de antiguidades, os seguintes:
Grupo Sportivo Internacional, Club Sports da Madeira, Club Sport Marítimo, União Foot-ball Club (ex-União-Maritimo) e Clube
Desportivo Nacional (ex-Nacional Sport Grupo).
Em 1916, e por iniciativa dos clubes União e Insulano, fundou-se a Associação de Foot-ball do Funchal, ficando daí em diante
organizada devidamente a pratica daquele desporto.
Começou, então, a segunda fase do foot-ball na Madeira, com provas regularmente disputadas.
Neste segundo período fundaram-se: o Império Foot-ball Clube, o Portugal F. C., o Funchal F. C. e o Ufania F. C., os últimos três de
efémera duração e desaparecidos já.
Organizada a A. F. F., esta promove, na época de 1916-17, o primeiro Campeonato da Madeira, dividido em duas categorias. Saiem
vencedores, em 1.ª categoria o C. S. Marítimo, e em 2.ª o G. S. Internacional.
Na época seguinte (1917-18), volta a disputar-se o Campeonato da Madeira, ampliado com a prova das 3.as categorias. Triunfam
então: em 1.ª categoria o C. S. Marítimo, em 2.ª o União F. C., e em 3.ª o C. S. Marítimo.
Esteve suspensa a vida da Associação de Foot-ball e, consequentemente, o Campeonato, durante as épocas de 1918-19 e 1919-20.
Na época de 1920-21, disputou-se novamente o Campeonato da Madeira, graças á acção esforçada de Alvaro Reis Gomes que
conseguiu, após uma campanha na imprensa, fazer ressurgir a A. F. F., em cuja reorganização dedicadamente trabalhou, auxiliado
por Gonçalo de Ornelas, Luís da Costa e Anastacio do Nascimento. Nessa época (1920-21), saíram vencedores: em 1.ª categoria o
União F. C., não obstante o C. S. Maritimo ter ganho todos os desafios, por este ter sido desclassificado em virtude de apresentar a
jogar um jogador não inscrito devidamente na A. F. F., em 2.ª, categoria o União F. C. e em 3.ª o C. S. Marítimo.
Na época de 1921-22, ganharam o Campeonato, em 1.ª categoria o C. S. Maritimo, em 2.ª o C. S. Marítimo, em 3.ª o C. S. Maritimo,
o mesmo club em todas as provas.
Em 1922-23,constata-se o mesmo resultado:
C. S. Marítimo, campeão nas 3 categorias.
Além do seu campeão de foot-ball, orgulha-se a Madeira doutros valores em diversos ramos de sport, como no lawn-tennis, em
saltos no mar, water-polo, bilhar, etc.. Por exemplo:
Lawn-tennis: – Antonio Vieira de Castro e Rui de Bianchi, este recentemente falecido na Suiça. O sobrevivente dessa parelha
magnífica afirmou-se já no Continente, competindo com nomes consagrados e ganhando um torneio há poucos anos realizado nas
Caldas da Rainha. Antonio Vieira de Castro é campeão de tennis na Madeira, estando na posse do competente prémio: a Taça
«Strangers Club». (1921)
Saltos no mar (Mergulhos em altura: – João de Sousa, Antonio de Castro e outros. Batem o record português; dão 25 metros. Há
quem pretenda erradamente considerar estes homens profissionais em saltos, em virtude de exercerem a bordo dos paquetes o seu
mister, negociando em artefactos madeirenses. Mas, se qualificação destes levanta duvidas, temos então um rapaz puramente
amador (empregado no comercio em terra, como, aliás, os outros o são no mar), que salta 18 metros; record da Liga M. D. Náuticos.
Chama-se Ulrique Alves.
Water-polo: - Ganhou o 1.° campeonato deste desporto náutico, realizado na Madeira (1922) pela L. M. D. N.–O Império Foot-ball
Clube, em 1.
as
categorias. Em segundas, saiu vencedor o Clube Sport Marítimo.
Foi umn distinto jogador de water-polo e seu introdutor no nosso meio, o falecido Antonio Costa.
Bilhar: – São madeirenses Alfredo Ferraz e Mario de Freitas, vencedores (1.º e 2.° prémios respectivamente) do Campeonato de
Portugal de Bilhar, disputado em 1922, em Lisboa, no Grémio Lisbonense, ao Arco do Bandeira. Outros bilharistas distintos:
Antonio Costa (falecido em 1921) e José da Silva Coelho.
Table-tennis: – Os madeirenses Alvaro de Meneses Alves Reis Gomes e Manuel Pedro Nolasco de Pontes Leça ganharam o
Campeonato Académico realizado em Coimbra no Centro Académico de Democracia Cristã, em Maio de 1921, alcançando
respectivamente o 1.° 2.° prémios. Foi um exímio cultor do table-tennis, campeão do Clube Sports da Madeira, o falecido
madeirense Arnaldo de Azevedo Ramos. É campeão do Club Desportivo Nacional o madeirense João Crisóstomo Luís.
Vela: – Afonso Coelho, Manuel Perestrelo e Humberto dos Passos Freitas.
Damos a seguir diversas informações sôbre algumas das agremiações desportivas existentes no Funchal, tendo duas delas sido já
assinaladas a páginas 280 do volume I do Elucidário, no artigo Clubes:
Club Sport Marítimo – Fundado em Setembro de 1910, adoptou as cores verde e vermelha para o seu estandarte e equipamentos,
dedicando-se os seus associados à pratica dos exercícios desportivos em geral, e nomeadamente football e os desportos náuticos.
Tem gravado um nome glorioso na historia do football da Madeira, sendo campeão regional daquele popular desporto desde a sua
introdução no nosso meio até os nossos dias.
Conta nos seus anais um sem numero de vitorias sôbre todos os restantes grupos madeirenses, nunca tendo sido derrotado na
Madeira, à excepção duma única vez, pelo União Football Clube, em 1919, quando as suas linhas se encontravam sensivelmente
enfraquecidas pela saída para aquele e outros clubes dalguns dos seus melhores elementos. Além disso, conta também resultados
honrosissimos (vitorias e empates) contra valorosos grupos estrangeiros que têm demandado o nosso pôrto a bordo de vasos de
guerra, navios-escolas, transportes, etc.. Empatou, por exemplo, com a formidável equipe alemã do cruzador Pandora, em 1912.
Tendo trazido ao Funchal o importante I.º onze do Sport Lisboa e Bemfica, por muitos e consecutivos anos campeão da capital,
inflingiu-lhe, a 9 e 13 de Abril de 1922, duas derrotas que ficaram memoraveis, respectivamente, por 3-2 e 6-3.
O C. S. Marítimo tem feito varias excursões ao continente e estrangeiro (ilhas Canárias). Em 14 de Outubro de 1922 bateu no Porto
o Football Club do Porto, campeão de Portugal, por 3-1, o que lhe granjeou uma entusiástica recepção no seu regresso à Madeira.
Está de posse dos seguintes troféus: Taça do Campeonato da Madeira de 1.
as
categorias; idem, idem, idem, de 2.
as
; idem, idem,
idem, de 3.
as
; Taça «João Pimenta»; Taça «Campeão 1910-1917»; Taça Suíça «Oscar Elsener»; Taça Portugal; Taça Hinton; 2.ª Taça
Suíça; e Bronze Associação em football. Taça de 2.
as
categorias do Campeonato da Liga Madeirense de Desportos Náuticos em
water-polo.
Deve concorrer ao Campeonato de Portugal de Football, e em seguida visitar os Estados Unidos da América, para o que recebeu
convite.
Tem a sua sede, actualmente, na rua de Santa Maria, 126, com janelas para o Campo do Almirante Reis, onde se realizam os jogos
de football.
Grupo Sportivo Internacional. – É a agremiação desportiva mais antiga da Madeira; fundada em 1909. Adoptou as cores verde e
preta. Foi vencedor do campeonato de 2.
as
categorias no primeiro ano da sua disputa.
Tem a sua sede na Rampa de Miguel Bombarda, n.° 3.
Club Sports da Madeira. – Fundado em Março de 1910, adoptou as cores azul e branca e foi durante os primeiros anos de vida da
Associação de Football do Funchal o principal competidor do Club Sport Marítimo no Campeonato da Madeira, a que emprestou
bastante brilho e animação. Foi nessa época (1916-1918) seu constante objectivo derrotar o C. S. Marítimo e arrancar-lhe o título de
campeão regional. Nunca, porém, o conseguiu, mas por algumas vezes empatou com ele em lutas renhidissimas, que se tornaram
saudosas para os desportistas madeirenses.
No 1.º ano de disputa da Taça Suíça (1918) ganhou o 2.° prémio–diploma. Possui além disso várias taças, alcançadas em desportos
atléticos, desportos náuticos e football. Dentre elas, sobressai a monumental «Taça América», ganha numa regata de vela por
Afonso Coelho para este Club.
Já deslocou o seu grupo de football ás ilhas Canárias, onde empatou com o melhor grupo dali, trazendo para a Madeira um troféu
comemorativo.
Tem a sua sede na rua de Hermenegildo Capelo, n.° 11 frente ao Jardim Municipal.
Liga madeirense de Sports Náuticos. – Fundada em 1922, nesse mesmo ano levou a efeito o Campeonato de water-polo da Madeira,
em duas categorias, e promoveu outras provas náuticas, como corridas, mergulhos, etc..
Deve a Madeira a organização desta liga à iniciativa de Alvaro Reis Gomes, redactor-desportivo do Diário da Madeira.
Estão filiados nesta federação todos os clubes desportivos do Funchal (1921).
A convite do Club Sport Marítimo, visitou, em 1924, o Funchal, o 1.° grupo do Sporting Club de Portugal, tendo-se realizado quatro
desafios, nos dias 15, 18, 22 e 29 de Maio. O Sporting Club ficou vencedor em todos os desafios, tendo tido como adversários o Club
Sport Maritimo no primeiro, o União Foot-Ball Club no segundo, um team composto de jogadores do Império, Madeira, União e
Santa Clara no terceiro, e novamente o Club Sport Maritimo no quarto. Ao retirarem para Lisboa, foram os jogadores do Sporting
Club de Portugal acompanhados do 1.° team do Club Sport Maritimo, que procurou disputar ali para a sua agremiação, mas sem
resultado, o título de campeão nacional» (1924).
Em aditamento ao artigo inserto na primeira edição, e que acima fica integralmente transcrito, forneceram-nos os Srs. Dr. Alvaro
de Meneses Alves Reis Gomes e Noé Pestana largas e interessantes informações, que encerram valiosos elementos para a historia
do Desporto Madeirense, e que nos cumpre agradecer com penhorante reconhecimento.
«O relato das actividades desportivas madeirenses, desde a altura em que foi escrito o artigo precedente, daria assunto, não para
um resumido artigo – dentro da índole desta publicação – mas para um livro de muitas páginas.
Temos, portanto, que procurar sintetizar a enumeração de factos que vamos fazer, assinalando apenas os acontecimentos mais
importantes. É possível, porém, que esta sucinta descriminação saia com algumas omissões, já pela pressa com que estamos a
coligir estas notas, já pela necessidade de reduzir o espaço, para não nos tornarmos fastidiosos.
Com o fim de tornar de mais fácil compulsão o nosso despretensioso trabalho, vamos dividi-lo por secções e especialidades.
Cricket: – É esta, rigorosamente e de verdade, a mais antiga modalidade desportiva praticada na Madeira, de que há conhecimento.
Sendo este o jogo nacional dos inglêses, a introdução do cricket nesta ilha deveu-se aos súbditos britânicos nela residentes,
especialmente os filhos dos comerciantes de vinhos, ou doutros ramos de comércio e indústria, aqui estabelecidos, quando
regressavam dos seus estudos nos colégios de Inglaterra, e ainda aos empregados do «Brasilian Submarine Telegraph Co.», que
mais tarde deu lugar à «The Madeira Western Telegraph C.°».
A sua prática organizada parece remontar ao ano de 1888, data em que, pela primeira vez foi levada a efeito por equipes com
caracter de competição. Data desse ano, a fundação da primeira organização da especialidade, que se intitulou «The Madeira
Cricket Club», e de que foram principais propulsores: João Correia, F. C. Cornell, e Mr. H. P. Miles. 0 jogo inaugural desta
colectividade, que arrendou os terrenos do campo da Achada, na freguesia da Camacha, aos seus proprietários foi realizado neste
recinto no dia 20 de Março do mesmo ano, entre dois partidos de solteiros e casados. Antes disso, porém, já aquele campo, que até
essa data era uma espécie de baldio para pastagens, tinha sido muitas vezes utilizado para a prática de esta e outras modalidades
desportivas.
Em 1 de Janeiro de 1893, foi fundado o «Excelsior Madeira Cricket Club», organização a que mais tarde se fundiu a primitiva
colectividade.
Este novo organismo desportivo, afim de tornar de mais fácil acesso aos seus consórcios a prática da principal modalidade a que se
dedicou–pois que também promoveu o desenvolvimento do futebol, atletismo, etc.,– adquiriu um terreno em S. Martinho, ao sítio
do Engenho Velho, que adaptou a recinto desportivo, o qual foi inaugurado em 19 de Abril de 1894, sendo depois conhecido pela
designação de Campo do Brás, nome de um dos seus antigos proprietários.
Este grupo de que faziam parte alguns madeirenses, efectuou vários e renhidos encontros de cricket, bem como de outros
desportos, com equipes de bordo de esquadras que então aportavam ao Funchal, assim como com grupos de empregados da
Companhia do Cabo Submarino.
Foi o «Excelsior» a primeira agremiação desportiva madeirense que levou ao estrangeiro o nome da Pérola do Oceano, visto que,
em 10 de Maio de 1901, a equipe de cricket deste clube partia a bordo do S.S. «Niger», com destino a Las Palmas, onde efectuou três
partidas deste desporto, resultando duas vitórias para a vizinha ilha espanhola e uma para a Madeira.
Vários jogos desta modalidade foram sendo realizados sucessivamente por aquela e outras equipes, até que o interesse pelo cricket
foi diminuindo gradualmente, desaparecendo por completo a nossa actividade, naquela modalidade, aí por volta de 1926.
Futebol: – A modalidade desportiva que mais simpatizantes e adeptos conquistou no Funchal foi o futebol, conseguindo o nosso
meio, nos tempos áureos da prática desta modalidade, classificar-se a par dos melhores do Continente.
Segundo o jornalista Mota de Vasconcelos, no seu «Almanaque do Desportista Madeirense», publicado em 1945, foi Mr. Harry
Hinton quem, na idade de 18 anos, e em 1865, trouxe para a Madeira a primeira bola de futebol, sendo esta também a primeira
introduzida em Portugal, visto que, somente em 1888 - 13 anos depois da Madeira – é que se verificou idêntico facto, que envolve os
três irmãos Eduardo, Frederico e Guilherme Pinto Basto, conhecidos banqueiros, dados, nas mesmas circunstancias de H. Hinton,
como introdutores do futebol no Continente português.
Este industrial madeirense, e antigo desportista, utilizou aquela bola no campo da Achada da Camacha, em jogos com outros
rapazes da sua idade, aproveitando os fins de semana, que passava naquela localidade, na Quinta da Achadinha, propriedade de seu
pai.
Todavia essa primitiva bola estragou-se no pontapear desordenado do grupo de moços das relações do seu proprietário, e somente
alguns anos mais tarde é que se realizou a primeira partida de foot-ball association, nesta Ilha, entre dois grupos regularmente
organizados, no antigo campo D. Carlos, hoje Almirante Reis.
Essa primeira partida deve ter-se efectuado, em 1894, ou em 1895, conforme as duas versões de que temos conhecimento sôbre a
introdução do popular desporto inglês na Madeira.
Na primeira dessas versões, e segundo o testemunho de Mr. H. A. Miles, súbdito britanico residente na Madeira há mais de 50
anos, a quando da coordenação do «Album das Bodas de Prata da A. F. F.», o primeiro encontro de «foot-ball» na Ilha, devia ter-se
efectuado em 1894, entre um «team» de inglêses residentes na nossa terra, contra outro de tripulantes de bordo dum barco de
nacionalidade inglesa, que esteve ancorado no nosso porto durante três semanas, para sofrer reparações.
Na segunda versão, colhida nos depoimentos de alguns velhos elementos da classe marítima dos bomboteiros – classe muito ligada
à introdução do futebol na Madeira –residentes nas proximidades do antigo e já referido campo D. Carlos, o primeiro encontro foi
disputado entre dois grupos de tripulantes do iate inglês de recreio (a que eles chamam «Lord»), denominado «Rhouma», a quando
da sua primeira viagem a Madeira, o que está averiguado ter-se dado em 1895.
E, quanto à introdução do popular jogo inglês, esses velhos marítimos contam que, na segunda viagem do citado barco, que durante
muitos anos visitou consecutivamente a Madeira, um moço marítimo, de nome João Viveiros, por alcunha «O Chicago», conseguiu
que os tripulantes do «Rhouma», lhe oferecessem, a quando da sua partida, a bola que empregavam nos seus divertimentos, o qual
a usou com outros companheiros, em brincadeiras desordenadas de pontapés para a frente, com correrias à mistura.
Como nota curiosa, frisamos que, quando o cautchou da referida bola se estragou, João Viveiros recheou-a com uma bexiga de
animal, passando depois a aluga-la a dez réis à hora.
O gosto por este jogo desenvolveu-se, e, de tentativa em tentativa, ganhou, por 1908 a 1910, grande incremento, com o regresso à
Madeira do saudoso desportista Humberto dos Passos Freitas, de volta dos seus estudos, o qual foi um dedicado propagandista
deste desporto, e talvez o seu maior propulsor.
O futebol madeirense passou então a ter vida própria, entrando na fase já descrita no artigo anterior, e passando a atingir, de 1922
para cá, a maior celebridade, até que, em 1926, alcançou o apogeu máximo com o famoso título de Campeão de Portugal, ganho
pelo Clube Sport Marítimo.
Mercê dos porfiados esforços dos vários dirigentes de então, e, nomeadamente, do Sr. Dr. Alvaro dos Reis Gomes, antigo Secretario
da Federação Portuguesa de Futebol, e Delegado da A. F. F. no mesmo organismo, a Madeira principiou a comparticipar, desde
1922-23, na disputa máxima do futebol, então denominada Campeonato de Portugal, deslocando anualmente ao Continente um seu
representante.
Nessa prova, que, desde 1938-39, passou a chamar-se «Taça de Portugal», a Madeira fez representar 19 vezes, assim distribuídas:
Clube Sport Marítimo, 14 vezes; Clube Desportivo Nacional, 3 vezes: Clube de Futebol União, 2 vezes. Finalmente, na época de
1941-42, em que ficou apurado, como nosso representante, o C. D. Nacional, a Madeira foi eliminada da prova, devido a
dificuldades criadas pela última conflagração mundial.
Nos diversos campeonatos da Madeira, organizados desde a fundação da A. F. F., em primeiras categorias de Honra, classificaram-
se: o Club Sport Marítimo, 17 vezes; o C. D. Nacional, 6 vezes; o C. F. União, 5 vezes.
Diversos clubes de nomeada, tanto nacionais como estrangeiros, estiveram na Madeira, tendo os nossos agrupamentos alcançado
os mais lisonjeiros resultados, que contribuíram para que o futebol madeirense tivesse grande nomeada lá fora, e fizeram com que
muitos dos nossos melhores jogadores saíssem da nossa Ilha em demanda de outras paragens, seduzidos por tentadoras promessas.
Muitos dos principais clubes do Continente tem incluído nos seus activos vários jogadores madeirenses, e a Selecção Nacional já
utilizou os serviços dos seguintes conterrâneos: José dos Ramos, Artur de Sousa (Pinga), Carlos Pereira e António Teixeira
(Camarão). Também foram convocados como suplentes: José Rodrigues (Jusa), Jesuíno Gavião, Pedro de Sousa, Vasco Nunes e
Rogério de Sousa. De todos esses, Artur de Sousa, que foi seleccionado 21 vezes para jogos internacionais, alcançou grande fama,
tanto em Portugal, como no estrangeiro, sendo o mais destacado jogador português dos últimos tempos, motivo porque, num artigo
publicado no periódico lisboeta «A Bola», o conhecido jornalista desportivo Cândido de Oliveira, antigo seleccionador nacional
punha aquele «ás» madeirense a par de outro continental, de outros tempos, Artur José Pereira, para um confronto sobre o melhor
jogador português. A este artigo, o jornalista madeirense Noé Pestana, respondeu no mesmo jornal, com um outro, em que, apoiado
em muitas opiniões autorizadas, punha em dúvida que fosse Pinga o melhor jogador madeirense, e evocava, para confronto, os
seguintes jogadores do passado Moisés de Sousa, José Rodrigues (Jusa), António Alves, Manuel Ramos (Janota), José dos Ramos
(José Pequeno) e Pedro de Sousa, concluindo por este último.
E, não só os melhores clubes continentais utilizaram o concurso de jogadores madeirenses, como alguns dos Açores e de Africa
nomeadamente Lourenço Marques, onde chegou a estar, numa época, quase que a selecção madeirense completa.
A Madeira realizou os seguintes jogos inter-cidades: I Funchal-Porto, em 22 6 1930, no Porto, perdendo por 1-3; I Funchal-Setubal,
em 29 6 1930, em Setúbal, perdendo por 2-3, 11 Funchal-Pôrto, em 13 7/1930, no Funchal, ganhando por 5-1; I Funchal-Las
Palmas, em 14/4/1935, no Funchal, empatando a 1-1; I Funchal.Lisboa, em 25 7 1937, no Funchal, empatando a 3-3. A seguir deste
ultimo encontro, realizou-se em 1 de Agosto deste último ano, um outro jogo de caracter extra-oficial, ganhando a Madeira por 1-0.
Vários clubes madeirenses se têm deslocado às Canárias e aos Açores, como o Club Sport Marítimo, o C. D. Nacional, o C. S.
Madeira, o Império F. Clube, o União F. Club, o G. S. Automobilista e o Sporting Club da Madeira.
Presentemente, estão filiados na Associação de Futebol do Funchal os seguintes clubes Divisão de Honra: Clube Sport Marítimo,
Clube Desportivo Nacional, Clube de Futebol União e Sporting Club da Madeira; Divisão de Promoção: Club Desportivo
Barreirense, Clube de Futebol Andorinha, Club de Futebol Carvalheira, Clube de Futebol São João, Clube de Futebol Palmeira,
Clube de Futebol Pátria e Grupo Desportivo da Segurança.
Devido à constante saída de jogadores da Madeira, e ainda á falta de campos desportivos, o futebol madeirense tem entrado nos
últimos anos num período de decadência, atravessando actualmente uma crise de jogadores de classe.
Contudo, devido á proibição das transferências de jogadores, estabelecida pelo decreto-lei n.° 32 946, e ás escolas de jogadores
infantis, criadas pelo Clube Sport Marítimo, é de crer que, num futuro próximo, o nosso mais predilecto desporto retome o lugar de
primeira plana, a que tem jus, pelas suas brilhantes tradições, no futebol nacional.
Desportos náuticos: – É difícil precisar no momento, dada a insuficiência de elementos de que dispomos, uma data, ou um ponto de
partida exactos, para uma evocação histórica das actividades desportivas madeirenses nos domínios do elemento liquido.
A Madeira–Ilha com um litoral aberto em todos os sentidos, a um mar, dum modo geral bonançoso – é um ponto ideal para a
prática de todos os desportos aquáticos, e, somente a inércia ou indolência dos seus habitantes, talvez defeito do clima, explica a
pouca prática de desportos na baía, como a vela e o remo, ou ainda a natação e o water-polo.
É muito de supor que antes de 1910 – além de competições de remo entre equipes de tripulantes de barcos aportados na nossa baía
– se tivessem realizado quaisquer provas náuticas, pois, como é de calcular, sempre se nadou, pelo menos, nas praias do litoral da
Ilha, principalmente nas épocas de estio, mas o primeiro ano de que temos conhecimento que se tivesse organizado provas com o
caracter de competição é o acima indicado.
Para simplificar, vamos passar a resumir os factos principais.
Em 4 e 12 de Outubro de 1913, para comemorar o 3.° aniversário da implantação da Republica Portuguesa, realizaram-se vários
festivais náuticos, promovidos pelo jornal «Athenista», em que se distinguiu João Tiago de Castro, ao tempo nadador de recursos.
Em 1917, fundou-se o «Club Naval Madeirense», iniciativa do falecido Visconde da Ribeira Brava, que foi um desportista entusiasta,
iniciando-se uma fase de grande actividade: regatas, com magníficas guigas, provas de vela em airosas «monotypes», e grandiosos
festivais náuticos, em que se destacaram muitos desportistas madeirenses, como Travassos Lopes, Humberto dos Passos Freitas,
José Florencio de Abreu, Afonso Coelho, Américo Patrício, Manuel Perestrelo, Dr. João Migue Rodrigues e outros.
De aí para cá, realizaram-se anualmente alguns festivais náuticos no Molhe da Pontinha, quase sempre com fins de beneficência,
introduzindo-se nos vários números desportivos, como corridas de natação, pau ensebado, apanha do pato, mergulhos de altura
(dos mastros dos navios ancorados, ou do ilhéu), etc., Jogos de water-polo, que tiveram em António Costa e Vasco Figueira dois
grandes animadores.
Em 1922, fundou-se a Liga Madeirense de Desportos Náuticos, que durante alguns tempo organizou provas anuais de natação e o
Campeonato da Madeira de Water-polo, tendo sido o primeiro campeão desta modalidade, o extinto «Império Futebol Club».
Por iniciativa desta Liga, veio à Madeira, em Setembro de 1924, uma equipa composta com os melhores nadadores continentais.
A actividade da Liga Madeirense de Desportos Náuticos cessou em 1930, tendo daí por diante cessado a disputa oficial de provas de
natação e water-polo, limitando-se a sua prática apenas, a um ou outro festival de carácter particular, organizado na piscina «Lido»,
ou nas explorações balneares da praia do Campo Almirante Reis.
Em 1940, fundou-se a Associação de Natação do Funchal, realizando-se anualmente os Campeonatos Distritais de natação, os quais
têm despertado pouco interesse nos últimos anos, dada a falta do principal requisito para a prática deste desporto, nos moldes
usados pelos grandes centros: uma piscina ou estádio náutico.
Atletismo: – Apesar de, já em 1899, se ter praticado atletismo na Madeira, num festival de iniciativa do «Excelsior Madeira Cricket
Club», esta modalidade quási não passou da disputa de provas de caracter particular, da iniciativa de jornais ou clubes; ou ainda
das provas habituais nas cerimónias do juramento de Bandeira, nas nossas unidades militares.
Dessas organizações particulares, em que os clubes tomaram parte, as mais importantes foram as provas de maratona Funchal-
Camara de Lôbos-Funchal, em 1911 e 1927, ganhas respectivamente por Manuel Perestrelo e Alberto Malho.
Em 1927, fundou-se a Liga Madeirense de Sports Atléticos, cuja existencia não durou mais de dois ou três anos.
Ténis: – O ténis é a modalidade da predilecção dos desportistas da elite madeirense– como, de resto, também o é em quase toda a
parte–e a sua prática está tão enraizada, que são inúmeras as quintas de familias abastadas, estrangeiras ou madeirenses, que tem
rectângulos apropriados para a sua disputa.
Não é fácil, de momento, precisar desde quando este magnífico desporto é cultivado entre nós, pois a sua prática vem de há longos
anos.
Rezam as crónicas que, a quando das visitas de Suas Majestades, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia, á Madeira em 1901,
disputaram-se na Quinta do Palheiro várias partidas desta modalidade, em que tomou parte o Rei, que era um grande desportista.
Muitos torneios desta modalidade se têm organizado no nosso meio, desde os tempos mais distantes até os nossos dias, tendo-se
disputado os mais valiosos e ricos troféus.
Pela Madeira têm passado as melhores raquetes do mundo, especialmente em viagens turísticas, mantendo-se os respectivos
possuidores aqui muitos dias, hospedados nos nossos melhores hotéis, quási sempre na estação de inverno, tomando parte, com os
nossos melhores tenistas, em vários torneios e campeonatos internacionais.
E, porque são tantos e tantos os valores que se têm afirmado entre nós, neste belo desporto, abstemo-nos de qualquer referência
pessoal desta resumida resenha.
Diversos: – Além dos desportos acima citados, muitos outros se têm praticado na Madeira, em maior ou menor escala. Entre esses
citaremos:
Esgrima e Tiro: – Se não foram introduzidos na Madeira pelo falecido Visconde da Ribeira Brava – que cultivava o desporto todas
as armas com gosto, dedicação e reconhecida destreza –, este saudoso animador dos vários desportos foi um dos seus mais
entusiastas propulsores, encontrando no continental Carlos Nellis um precioso colaborador.
Este último desportista dirigiu várias classes de armas, realizando-se então vários torneios, disputados com invulgar interesse.
Entre os seus discípulos, destacaram-se Jorge Gordon, Sotto Mayor, Humberto dos Passos Freitas, João de Oliveira Faria, Antonio
Vieira de Castro e Fernando Figueiredo. Carlos Nellis fez disputar, entre os alunos, as taças «Sebastião de Herédia» (1920)–ganha
em dois anos seguidos pelo capitão Raul Cohen –«Conde de Boussies», (1920 a 1906)– ganha no primeiro ano pelo Raul Cohen,
ficando em segundos lugares (com troféus), Antonio Vieira de Castro e Sr. Hermos. Também atingiu a categoria de um belo
esgrimista, Fernando de Figueiredo, que ficou de posse da Taça «Herédia» por a ter ganho 3 anos seguidos. É possuidor da taça que
tem o seu nome.
Outro esgrimista madeirense de valor foi Alberto Jardim detentor da Taça «Conde de Bousies», ganha após renhida disputa com
Fernando de Figueiredo.
Outros madeirenses que também se interessaram por este desporto foram: Rui de Faria, Eduardo de Ascensão Velosa, José Ferreira
Duarte Soares, Manuel Bianchi e Jorge Caldeira.
Na vila da Ribeira Brava, em vida do titular daquele nome, realizaram-se alguns festivais, em que tomou parte a fina flor da
sociedade do tempo, nos quais estes desportos entraram em larga escala.
Ténis de Mesa: – Esta modalidade, muito conhecida com o nome de ping-pong, foi primeiramente cultivada na Madeira do que em
Lisboa.
Este interessante desporto foi aqui introduzido em 1917, por Arnaldo Azevedo Ramos, já falecido, sendo seus companheiros
entusiastas na primeira fase deste jogo, Antonio Coutinho, António Mendes e João Crisóstomo Luis.
A modalidade desenvolveu-se, os adeptos e praticantes aumentaram, e, de 1920 a 1925, todas as colectividades desportivas da nossa
terra tinham instalações adequadas á sua práticas, realizando-se por essa altura vários torneios inter-clubes.
Em 1936, fundou-se a Associação de Ping-Pong da Madeira, verificando-se nessa época o maior incremento desta especialidade.
Este organismo, porém, teve pouca duração, desaparecendo a breve trecho, estando hoje o respectivo desporto completamente
desamparado de protecção oficial.
Automobilismo: – Foi em 30 de Dezembro de 1903 que entrou na Madeira o primeiro automóvel destinado a Mr. Harvey Foster,
tendo-o o seu proprietário levado consigo no seu regresso a Inglaterra no ano seguinte.
Em 1907, entrou na Madeira mais um automóvel, este destinado á «Empresa Madeirense de Automóveis», então constituída, tendo
vindo com ele um condutor do Continente, de nome Francisco Franco, que se demorou na nossa Ilha algum tempo. Esse carro, nove
dias depois da sua chegada, sofreu um desastre, no Caminho do Acioli, saindo feridos todos os seus passageiros.
O primeiro madeirense que guiou viaturas automóveis foi João Rodrigues (Morgado), que foi submetido a exame de «chauffeur»,
em 11 de Fevereiro de 1908.
Com o desenvolvimento do automobilismo na nossa ilha, surgiram magníficos volantes, tendo-se por várias vezes organizado
ginkanas e outras provas nomeadamente a I Rampa dos Barreiros, em 1935, organização do Automóvel Club de Portugal, em que
tomaram parte alguns dos melhores amadores continentais.
Ciclismo: – Conquanto o uso de bicicletas na Madeira, nos últimos dez a quinze anos, estivesse totalmente extinto, este desporto
teve imensos cultores no nosso meio, em fins de 1800 e alvores de 1900.
Data de 1899, a primeira prova ciclista na Madeira, num festival desportivo levado a efeito pelo já citado «The Madeira Cricket
Club», com um número de carácter cómico (100 m. negativos), classificando-se em 1º lugar R. Figueira e em 2.° lugar C. Gomes.
Em 1908 e 1911, realizaram-se várias jornadas ciclistas Funchal-Camara de Lobos, alguns percursores citadinos (circuitos
fechados), além de cortejos anuais, nas diversões carnavalescas, e de vários festivais no Campo Almirante Reis.
Mas, depois dum completo desaparecimento, em que não se via, durante anos, uma só bicicleta de passeio nas ruas da cidade, o
ciclismo foi a pouco e pouco reaparecendo, até que, em 1938, por iniciativa do semanário «Comércio do Funchal», então da
direcção de Luís Quental, realizou-se o I Circuito da Cidade, que despertou enorme entusiasmo, e foi ganho por Júlio Virissimo.
De aí para cá, várias outras provas se tem realizado com maior ou menor entusiasmo, tendo sido a mais importante a corrida
Funchal-Camara de Lobos-Funchal.
Basket-Ball e Volley-Ball:–Estas duas modalidade também têm os seus simpatizantes entre nós, tendo sido fundada a Associação de
Basket-Ball do Funchal, em 1935, e a Associação de Volley-Ball, em 1945.
A primeira esteve em actividade cerca de quatro anos, encontrando-se a respectiva modalidade actualmente desamparada de
qualquer organização oficial nos últimos anos.
Sport do Funchal
Este semanário deu o seu primeiro numero a 14 de Dezembro de 1923.
Stanford (Charles Thomas)
Este ilustre súbdito de nacionalidade britanica, que viveu na Madeira durante alguns anos e tinha
pela nossa terra a mais acendrada predilecção, como largamente o comprovou nos seus primorosos livros, nasceu no ano de 1858 e
faleceu na Inglaterra a 7 de Março de 1932. Entre os seus trabalhos literários, destacam-se o Leaves from a Madeira Garden e a
interessante novela Ace of Hearts, cujo entrecho se desenrola nesta ilha. Era um distinto escritor e possuía uma rara cultura
intelectual. Tinha sido agraciado com o título de «Baronet of the United Kingdom».
Stein (B)
E;: Lichenes Maderenses et Mindanoenses (Verhandl. der Schlesischen Gesellsch. fur Vaterlandskultur, 1882).
Steiner (Dr. J.)
(Dr. J.) E.: Flechten auf Madeira und den Kanaren gesammelt von P. Bornmuller in den Jahren 1900 und 1901.
(Osterreich. botan. Zeitschrift, 1904).
Stizenberger (E.)
(E.) E.: Lichenes insulae Maderae (Bol. Soc. Broteriana de Coimbra, volume V, 1887, página 123 a 132).
Storch (Ludwig)
E.: Madeira, Leipzig, 1862, I volume.
Stranger (The)
Jornal redigido na língua inglesa, de que saiu apenas um numero, em Janeiro de 1840. V. Macaulay.
Stuebel (Dr. Alphons)
Por mero lapso, não se fez referência ao artigo escrito pelo padre Ernesto Schmitz acerca do Dr. Alphons
Stuebel, quando nos ocupámos da geologia da Madeira, devendo acrescentar-se, ao que ali ficou dito, a autorizada opinião daquele
ilustre naturalista alemão e as não menos acertadas considerações do antigo professor de ciências naturais do nosso Seminário
Diocesano, que acompanham o referido artigo.
É grande a divergência de opiniões, ao menos em questões secundarias, que se observa entre os geólogos, que no decorrer deste
século mais detidamente se occuparam com o estudo da formação da ilha da Madeira. Mas como do choque dos corpos e da sua
mútua fricção muitas vezes resulta a faísca e a luz, assim é de esperar que se fará também mais luz nesta questão, á medida que
homens competentes emittirem a sua opinião depois de estudos conscienciosos, ainda que a princípio cheguem a resultados
divergentes.
São bastante conhecidas em Portugal as opiniões emittidas por Luiz da S. Mousinho Albuquerque pelo Dr. J. Macaulay, sir Charles
Lyell, Dr. Oswald Heer de Zurich, e sobretudo pelo Dr. G. Hartung, que de todos mais desenvolvidamente tratou o assumpto no seu
livro: «Madeira & Porto Santo., etc , Leipzig, Engelmann, 1864. Mas bem poucos dos que se interessam pela geologia das terras
portuguezas terão conhecimento dos estudos aturados e conscienciosos que fez sobre a Madeira o Dr. Alphons Stuebel, de Dresde.
Foi nos annos de 1862 e 1863 que esteve na Madeira, e depois de minuciosas e prolongadas observações e explorações do terreno
construiu, não num plano de papel, mas em relevo com massa, o mappa geológico da Madeira, no qual estão representadas com a
maior nitidez todas as elevações e depressões, crateras extinctas, ribeiras, levadas, povoações, etc., tudo na escala de 1 para 55:000,
tendo por tanto mais de um metro de comprimento com a largura correspondente.
Este mappa único da Madeira acha-se no Museu do Seminário do Funchal, e une admiravelmente em si os dotes da sciencia e da
arte; todas teem por fim facilitar e auxiliar o estudo da geologia e em especial da vulcanologia.
De certo não pouco pezo deve ter a opinião de um homem cuja vida toda foi consagrada a vulcanologia, e a quem largos meios de
fortuna permitiam ir estudar «de visu» as regiões vulcanicas mais interessantes do nosso globo. Por isso julgamos prestar um
serviço em tornar mais conhecida esta opinião do Dr. Stuebel, que se acha desenvolvida a traços largos na sua obra monumental
«Die Vulkanberge von Ecuador» e na parte d'ella «Ueber des Wesen des Vulkanismus», publicada à parte em Berlim, A. Asher &
Co., 1897.
Um exemplo de união íntima entre duas elevações vulcanicas monogeneas (isto é, devidas a uma única causa vulcanica ainda que
esta se manifeste com grandes invervallos de tempo) fornece em escala muito maior que o Pichincha no Equador a ilha da Madeira;
toda a massa das suas montanhas, que numa extensão de perto de 60 quilómetros e numa largura de 15 a 20 se eleva até uma
altitude de 1:800 metros, foi simplesmente o producto de dois centros eruptivos. E ambos elles como se pode concluir com grande
certeza pelo modo de sua ligação, estiveram em actividade ao mesmo tempo.
«A mais vasta e mais alta d'estas duas construcções monogeneas, é uma elevação em forma de caldeira, que occupa mais de duas
terças partes da ilha. A caldeira propriamente dita, que se acha quasi no centro da massa total, tem perto de 4 1/2 kilometros de
diametro e uma profundidade de 1.200 metros. Um extenso valle (a antiga cratera) que na sua parte mais baixa se torna muito
estreito e se transforma em barranco, e que n'uma extensão de 11 kilometros tem um declive de 600 metros, despeja as águas d'esta
caldeira, chamada Curral das Freiras. Entre os muitos picos que cercam a caldeira é o mais alto e em geral o ponto mais elevado da
ilha o Pico Ruivo (1850) metros. Desde a circunferência da caldeira se estendem lombos immensos em todas as direcções, e ainda
que estes sejam muito differentes, já na extensão, já na constituição e configuração, no observador fica a impressão, que n'esta parte
principal da ilha se acha a grandes traços uma construcção symetrica, producto das forças vulcanicas.
«Mui diversa se apresenta a segunda massa da ilha, em extensão muito mais pequena, porém apenas 300 metros mais abaixo do
que a primeira. É uma elevação em forma de cúpula, achatada na parte mais alta, aonde se devia esperar uma cratera; forma um
planalto de mais de 3 quilómetros de diâmetro, chamado Paul da Serra.
Os dois centros eruptivos com as suas massas amontoadas ficam tão perto um do outro que as suas rochas não só se tocam, mas
também, até certo ponto, se entrelaçam. 0 limite das duas massas é ainda muito visível, caracterizado por dois valles muito
profundos que correm em direcção opposta, um para o Norte, o de S. Vicente, e outro para o Sul, o da Ribeira Brava. As regiões das
nascentes destes valles, que pela erosão se alargaram e transformaram em caldeiras com várias ramificações, são apenas separadas
por uma parede relativamente mnuito delgada, mas alta, espécie de crista, abundante em picos, que faz communicar o planalto do
Paul da Serra, com a parede occidental da caldeira do Curral das Freiras.
«Apesar de toda a semelhança que apresentam os valles de S. Vicente e da Ribeira Brava pelas suas dilatações em forma de
caldeiras com a grande caldeira do Curral das Freiras, a sua significação com respeito á construcção geológica da ilha é
essencialmente differente; são apenas espaços intercollinares, dilatados pela erosão, enquanto que o valle do Curral das Freiras
constitue uma verdadeira cratera, e a ribeira do Curral ou dos Soccorridos abre o caminho até este verdadeiro centro eruptivo.
«Insistimos na distinção necessária a respeito da formação destes valles, justamente porque sir Charles Lyell na sua descripção da
ilha da Madeira («Elements of Geology») deixou de fazel-a.
«Ao mesmno tempo que estes dois centros de erupção amontoaram quasi a massa total da ilha na sua elevação acima do nível do
mar, parece também que alguns centros secundários, dos quaes restam signaes visíveis, tiveram a sua actividade. É principalmente
nas costas altas e escarpadas do norte aonde isto se torna evidente. Em particular consideramos a Penha d'Aguia como resto
importante duma antiga cratera destruída.
«Além d'isso possue a ilha, cuja actividade vulcanica ha muito se extinguiu, algumas formações de cratera bem conservadas, ainda
que de pequenas dimensões. A posição e ligação d'ellas com a massa principal da ilha tornam mais que provável que o foco do seu
material eruptivo, pouco abundante, deve ser collocado na própria massa da ilha e não nas profundezas immensas por baixo d'ella e
de onde ela mesma tirou a sua origem. Lembramos por exemplo a cratera pouco profunda da lagoa da Serra de Santo Antonio no
extremo oriente da ilha, assim como os pequenos cones eruptivos e correntes de lava, que formam a base do planalto acima do
Porto Moniz no extremo noroeste da ilha.
«Não queremos aqui entrar em pormenores a respeito da construcção tectonica das serras vulcanicas e das suas ramificações,
porém desejamos notar que os declives das encostas das serras e dos lombos apresentam ângulos de inclinação quasi idênticos aos
das serras vulcanicas do Equador, e que como alli, os contrafortes, que da massa central como raios divergem em todas as
direcções, na parte superior conservam bastante a horizontalidade, mas descem em declives muito pronunciados, aproximando-se
das suas bases.
«Esta descripção topographico-genetica da Madeira, aqui apenas esboçada, acha-se muito bem representada no mappa que J. M.
Ziegler desenhou, tomando por base estudos e desenhos pessoaes e alheios, assim como num mappa em relevo depositado no
Instituto Geológico na Universidade de Berlim.
«Todas as nossas theorias sobre a natureza do vulcanismo nos foram primeiramente suggeridas pelo exame geológico da ilha da
Madeira e logo depois confirmadas pelo das ilhas de Cabo Verde. Mas não quizemos publical-as enquanto não as achássemos
também confirmadas pelo exame de outras regiões vulcanicas. Achámos esta confirmação sobretudo na América do Sul.
Circunstâncias exteriores impediram durante muito tempo a publicação do resultado dos nossos estudos. Hoje depois de mais de
20 annos resolvemo-nos a publica-lo ao menos em parte.
Uma certa semelhança com a Madeira tem na sua configuração a ilha de Tenerife, que mede contudo mais do dobro em superfície.
Essa semelhança provém principalmente da circunstância de ser também a ilha de Tenerife constituída por duas partes, que
geneticamente devem ser separadas, ainda que tectonicamente se achem unidas e entrelaçadas.
Também na ilha de Tenerife vemos a sua elevação em forma de caldeira, unida com uma elevação extensa, achatada e sem cratera.
Porém estas duas partes não estão entre si nas mesmas relações, como na Madeira a caldeira do Curral com a cúpula do Paul da
Serra. Em Tenerife a parte que apresenta uma caldeira é tão extensa e tão elevada, que o resto se apresenta apenas como um
appendice lateral, um membro secundário, o que não se dá na Madeira».
Sumagre (Rhus Coriaria)
Arbusto da família das Anacardiaceas, perfeitamente naturalizado na Madeira. Tem folhas com 4 a 7
pares de foliolos ovado-lanceolados, às vezes avermelhados. As folhas e os ramos novos deste arbusto empregam-se no cortume dos
couros. Exportava-se outrora uma certa quantidade de sumagre, mas hoje está inteiramente paralizado este comercio.
Acerca do mesmo arbusto, diz Gaspar Frutuoso o seguinte: «Ha nesta ilha da Madeira muito sumagre, que serve para curtir couro,
principalmente o cordovão, porque o faz muito brando e alvo. E este sumagre se planta em covas pequenas, como quem planta
rosas e vinhas; tem a aste como feito, e a rama semelhante ao mesmo feito; dá-se em terras altas e frescas; colhe-se cada anno
cortando-se rente com a terra, para não secar a soca delle, e poder tornar a arrebentar, por ser planta que dura muitos annos na
terra: he novidade de muito proveito, porque multiplica tanto que se enchem dele os campos, como roseiras, e lavra a raiz por baixo
0 arquipélago da Madeira, afora as cidades de Lisboa e Porto, é a região do nosso país em que é maior a densidade da
da terra, e o que se dá na ilha é muito fino: e apanhada a rama, que he o dito sumagre, se deita ao Sol, e seca se moe em engenho de
água, assi como se moe o pastel nesta ilha, e se faz em poo, e moido o carregão para diversas partes em sacas e pipas».
Superfície
São bastante divergentes os cálculos feitos acerca da superfície de todo o arquipélago e em especial de cada uma das
ilhas que o compõem. 0 Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo que versou este assunto com alguma largueza no notável artigo do
Dicionario Universal Portuguez Ilustrado, diz que alguns autores computam em mais de mil quilómetros quadrados a área global
do arquipelago, tendo-se posteriormente admitido que essa superfície se calculava em tôrno de 800 quilómetros, e termina por
afirmar que os cálculos mais recentes e que julga mais aproximados da verdade dão a todo o arquipélago uma superfície de 560
quilómetros quadrados, tendo 500 quilómetros a ilha da Madeira, 50 a do Porto Santo e 10 o pequeno grupo das Desertas.
Em vários documentos de caracter oficial e ainda recentemente no «Censo da População», publicado no ano corrente de 1934, se
diz que a superfície da ilha da Madeira é de 740,62 quilómetros quadrados e a do Porto Santo de 42,
k2
17.
população, dando o «Censo já citado o número de 270 habitantes por cada quilómetro quadrado para a época actual.
Ano
1864........................ 135,9
1878........................ 160,2
1890........................ 164,5
1900........................ 184,8
1911........................ 208,8
1920........................ 219,6
1930........................ 270,3
Vide «Anais do Club Militar Naval», do mês de Fevereiro de 1940 e o artigo Geodesia deste Elucidário (II-83 e
ss.).
Habitantes por quilómetro quadrado
Surdo (Travessa do)
Comunica a rua do Dr. Vieira, ou da Carreira, com o largo de S. Pedro, tendo recebido a 24 de Abril de 1919, a
pedido da Associação do Registo Civil, o nome do madeirense Augusto José Vieira.
Augusto José Vieira, irmão do conselheiro Manuel José Vieira, nasceu no Funchal a 2 de Outubro de 1861 e faleceu em 1 Lisboa a 27
de Dezembro de 1918.
Surprise
Canhoneira francesa que foi torpedeada por um submarino alemão, no porto do Funchal, a 3 de Dezembro de 1915,
tendo morrido 33 dos seus tripulantes e 7 portugueses, como foi narrado a pagina 159 do volume I desta obra. Quando nos
referimos ao general Mangin, tivemos ocasião de dizer que os despojos mortais dos marinheiros franceses que se achavam no
cemitério das Angústias, haviam sido trasladados para bordo do cauzador Jules Michelet, no dia 28 de Novembro de 1921,
cumprindo-nos acrescentar agora que se formou por essa ocasião um importante cortejo que acompanhou os mesmos despojos até
a Pontinha.
O cortejo que tinha a extensão de cerca de um quilómetro, abria com uma força da Guarda Republicana, a cavalo, seguindo-se as
crianças das escolas e colégios, com as respectivas professoras, o professorado primário, a academia funchalense, com o respectivo
pendão, a Banda Republicana Artístico Madeirense, os professores do liceu, os escuteiros, chauffeurs, associações desportivas, a
Banda dos Artistas Funchalenses, os bombeiros, várias associações, a Cruz Vermelha, o pessoal do salva-vidas do Funchal a policia
cívica e guarda fiscal, o pessoal da Capitania do Porto, o pessoal menor da Alfândega, os sargentos do exército, o «Grémio 5 de
Outubro», os empregados inglêses do telégrafo, a Associação Comercial, a Imprensa, os empregados da Alfândega, a Junta Geral, o
Clero, as Irmãs de Caridade, os Medicos, a Magistratura, a Câmara Municipal, um contingente de marinha de bordo do cruzador
francês Cassiopée, vários oficiais inglêses que combateram na Grande Guerra, a oficialidade da guarnição, três armões com coroas,
ladeados por marinheiros franceses, dois armões com as urnas, ladeados por oficiais inferiores franceses, a oficialidade francesa dos
navios surtos no porto, o general Mangin, o governador civil, secretario geral e governador militar, o prelado diocesano, o almirante
Pugliesi-Conti, o corpo consular, a charanga de, cruzador Jules Michelet, uma força de marinha do mesmo navio, uma fôrça de
infantaria 27, com a respectiva banda de musica, e um pelotão de infantaria da Guarda Republicana.
Antes do cortejo se pôr em marcha, falaram o Dr. José Joaquim Teixeira Jardim, presidente da Câmara, o cônsul da França, o
comandante militar João Maria Ferraz, o major Artur Sarmento, o estudante José Duarte Soares, o almirante Conti e o capitão do
porto Romano Vital Gomes. Ao finalizarem os discursos, tocou a charanga do Jules Michelet, primeiro a Portuguesa e depois a
Marselhesa.
A capela do cemitério das Angústias, onde se achavam as dez urnas de castanho, contendo os restos mortais dos marinheiros da
Surprise, achava-se envolta em crepes e brilhantemente ornamentada com fetos e outras plantas vendo-se no alto do frontispício o
pavilhão francês e abaixo deste as letras R. F. entrelaçadas a vermelho. Nas paredes, viam-se suspensas duas bóias com a seguinte
inscrição:
Surprise–3–12–916.
Na mesma capela, celebrou o prelado diocesano, D. Antonio Manuel Pereira Ribeiro, uma missa a que assistiram as autoridades
superiores do distrito, o general Mangin, o almirante Conti, os oficiais da guarnição militar da Madeira e os oficiais e marinheiros
dos cruzadores Jules Michelet e Cassiopée. Durante a cerimónia, executou a charanga do primeiro destes navios a marcha fúnebre
de Chopin, tendo a guarda de honra á porta da capela sido feita por uma força de marinheiros franceses. A guarda de honra á porta
do cemitério foi feita por uma força de infantaria, com a respectiva banda de música, e por outra da Guarda Republicana.
As 10 urnas com os despojos mortais dos marinheiros franceses foram transportadas para um escaler do Jules Michelet,
executando por essa ocasião a Marselhesa, tanto a charanga de bordo como a banda de infantaria n.° 27. No mesmo escaler,
embarcaram o general Mangin, o almirante Conti e outros oficiais da marinha francesa, salvando por essa ocasião a fortaleza de S.
Tiago.
No momento da despedida, manifestaram mais uma vez, o general Mangin e o almirante Conti, a sua gratidão às autoridades civis,
eclesiásticas e militares, pela parte que haviam tomado nas homenagens prestadas aos marinheiros da Surprise.
O Jules Michelet, que conduziu as urnas com os restos mortais dos marinheiros franceses, deixou o porto do Funchal com destino a
Brest, ás 7 horas e meia da noite do referido dia 28 de Novembro.
A 3 de Dezembro de 1921, isto é cinco dias depois das homenagens prestadas aos marinheiros franceses, teve lugar no cemitério das
Angústias a cerimónia da condução para o tumulo-monumento, mandado ali construir pelo opulento banqueiro Henrique Vieira de
Castro, dos restos mortais dos madeirenses vitimas do torpedeamento da canhoneira Surprise. Esses restos, guardados em três
urnas, achavam-se na capela do cemitério, onde as 9 horas e meia da manhã o prelado diocesano celebrou uma missa, realizando-se
em seguida a absolvição do ritual e a bênção da sepultura. Na capela e na avenida do cemiterio, viam-se ainda as ornamentações
que haviam servido nas homenagens aos marinheiros franceses.
O cortejo organizou-se pelas 3 horas da tarde, na ordem seguinte: crianças do Colégio Alexandre Herculano, com a respectiva
directora; internadas no orfanato do Hospício; uma força da Guarda Republicana; os sargentos da guarnição militar do Funchal;
representantes do pessoal maritimo da casa Blandy; a academia funchalense; irmãs de S. Vicente de Paulo; colónia francesa;
representantes do clero; representantes das casas de bordados; grémio dos empregados do comercio; médicos e advogados;
funcionários públicos; damas da Cruz Vermelha; Câmara municipal; as urnas conduzidas por bombeiros voluntarios e ladeadas por
vereadores; algumas mulheres, parentas das vitimas; o corpo consular; as autoridades civis e militares, e o prelado diocesano;
oficiais da guarnição; e banda dos Artistas Funchalenses.
Falaram o presidente da Câmara Dr. Teixeira Jardim, o major Alberto Artur Sarmento e o capitão de fragata Vital Gomes, sendo as
urnas conduzidas em seguida para o monumento, onde ficaram depositadas. A banda dos Artistas executou a portuguesa, após cada
um dos discursos pronunciados no cemiterio, ouvindo-se novamente o hino nacional tocado pela mesma banda e pela do regimento
de infantaria 27, ao baixarem as urnas ao túmulo. Neste momento solene, uma Fôrca de infantaria e outra da Guarda republicana
fizeram a continência militar.
Os edificios públicos e os consulados conservaram durante o dia as respectivas bandeiras a meia haste, e muitos estabelecimentos
fecharam meias portas, encerrando-as mesmo por completo enquanto duraram as cerimónias. De igual modo se procedeu por
ocasião das cerimónias do dia 28 de Novembro, podendo afirmar-se, sem receio de desmentido, que a Madeira soube prestar uma
homenagem condigna tanto aos franceses como aos portugueses que foram traiçoeiramente mortos no porto do Funchal na manhã
do dia 3 de Dezembro de 1916.
V. Bombardeamento do Funchal, Angustias (Cemitério das) e Mangin (General).
Tabaco
Solanacea originária da América, cujas folhas exalam no estado fresco um cheiro forte e viroso Para aproveitar estas
folhas é preciso fazê-las secar e fermentar convenientemente.
A cultura do tabaco é livre nas ilhas adjacentes desde a publicação da lei de 13 de Maio de 1864, cujas disposições foram mantidas
ou ampliadas pela lei de 15 de Junho de 1882 e decreto de 8 de Outubro de 1885.
Durante a vigência do monopólio, havia na Madeira um administrador do contrato do tabaco e guardas da fiscalização do mesmo
contrato, os quais levavam muita vez ao extremo o rigor com que exerciam as suas funções fiscais.
Entre 1877 e 1882, fizeram-se algumas plantações de tabaco na Madeira, principalmente em S. Gonçalo e Santo António, e em 1907
voltou esta planta a ser cultivada de novo na ilha, mas sem se generalizar, não obstante ela produzir bem nos nossos terrenos,
quando convenientemente adubados. A Nicotina Tabacum era a espécie dominante nas plantações que se realizaram em 1907 e nos
anos subsequentes, mas nalgumas localidades via-se também a Nicotma rústica. A primeira destas espécies vive naturalizada na
Madeira e Porto Santo, estando a sua cultura abandonada ou quase abandonada presentemente no arquipélago.
Em Outubro de 1877, fundou o falecido visconde de Monte Belo uma fábrica para a manipulação de tabacos na Madeira, e, em 18 de
Julho de 188^ foi instalada uma outra fábrica destinada ao mesmo fim, a qual durou muito pouco tempo, tendo sido seu
proprietário o falecido João de Sales Caldeira. A primeira destas fábricas, depois de haver laborado durante alguns anos por conta
do seu proprietário foi arrendada a Francisco Gonçalves nos princípios de século XIX, o qual continuou com a indústria da
manipulação dos tabacos nesta ilha, a principio só, e depois associado a Nicásio de Azevedo Ramos e Abraão Adida.
Em 1908, estabeleceu-se no Funchal a «Companhia de Tabacos da Madeira» que liquidou em 1912, sucedendo-lhe a «Empresa
Madeirense de Tabacos, Lda», fundada em 1 de Outubro de 1918 e de que faziam parte Leacock & C.% William Hinton & Filhos
Reid, Castro & C." e Rocha Machado & C* Tendo as firmas Reid, Castro & C.\ Rocha Machado & C* e Hinton & Filhos desistido dos
seus direitos a primeira a 27 de Abril de 1914, a segundo a 26 de Janeiro de 1916 e a última a 28 de Abril de 1920, ficou o negócio
dos tabacos a cargo da firma Leacock & C.», a qual, em 27 de Setembro de 1920, admitiu como seu sócio Diogo Martinho de Freitas,
o qual é hoje o gerente da «Empresa Madeirense de Tabacos, Lda.». (1921).
Esta empresa importou dos Açores, em 1922, 49.920 quilogramas de tabaco em folha, e no mesmo período vieram dos Açores e do
estrangeiro, para diversos comerciantes do Funchal, 218.052 quilogramas de tabaco manipulado. Lemos algures que, em 1914,
manipulou a mesma empresa 40.918 quilogramas de tabaco, sendo 467 de proveniência madeirense.
A extinta «Companhia de Tabacos da Madeira» aproveitou os maquinismos da antiga fábrica do visconde de Monte Belo, mas a
«Empresa Madeirense de Tabacos, Lda.» tem adquirido diversas máquinas aperfeiçoadas para o exercício da sua indústria,
rivalizando os seus produtos com os que vem dos Açores (1921).
A folhas 232 do livro VII do «Arquivo da Câmara Municipal do Funchal» está registada uma provisão do ano de 1698, em que se diz
que no ano seguinte de 1699 deveria começar nova administração do tabaco na Madeira e cm 1686 havia um juiz conservador do
estanco nesta ilha, cargo que ainda existia em 1745, sendo desempenhado então pelo provedor da fazenda
Pelas leis de 10 de Julho de 1919 e 22 de Janeiro de 1920, foi criado o imposto municipal de $50 por cada quilograma de tabaco
despachado na Alfândega. Este imposto rendeu para a Câmara do Funchal, em 1922, a importância de 21.837$21.
Tabaibeira (Opuntia Turvei)
Cactácea originária da América tropical, naturalizada e cultivada na região inferior da Madeira.
Os frutos baciformes da tabaibeira são doces e frescos, e os ramos (vulgarmente folhas) carnudo-suiculentos e comprimido-
articulados da planta, constituem um bom alimento para o gado, depois de limpos dos respectivos espinhos.
As cascas de tabaibos aproveitam-se na alimentação dos porcos. No Campo de Baixo e na Serra de Dentro na ilha do Porto Santo,
aparecem algumas tabaibeiras.
Tabela das Marés
vid. Marés (H-324) e Porto do Funchal (III-102).
Tábua (Freguesia da)
Parece que a origem do nome desta paróquia, se deve filiar na existência dum vegetal que se chama tábua.
Os nomes de Tabua e Tabuaço foram dados a lugares onde abundava aquela planta, e talvez pelo mesmo motivo a palavra Tábua
figura várias vezes na corografia brasileira. Em botânica existem a Typha angustifolia e a Typha latifolia, e embora estas plantas não
se encontrem presentemente nesta ilha, como a flora madeirense sofreu modificações sensíveis, em parte provocadas pelo homem é
lícito supor que em antigos tempos tais plantas ou alguma delas existisse dentro da área desta freguesia. Nas Canárias encontra-se
uma espécie de Typha, não sendo portanto para estranhar que este género tivesse representante na Madeira. No sítio de Lugar de
Baixo e na Tábua, existe uma planta — o Cyperus laewhgatus — que não se encontra no resto da Madeira. Confundiriam os
primeiros povoadores tal planta com a tábua, apesar de se tratar de espécies de famílias diferentes? E também possível, pois que é
lícito admitir que Zargo e seus companheiros se não recomendassem pela sua erudição em assuntos botânicos.
Em época mais afastada a grafia desta palavra era Atabua, como se vê em muitos documentos antigos e no respectivo arquivo
paroquial. Foi a partir de 1838 que o padre António Francisco Drumond e Vasconcelos alterou a forma primitiva do vocábulo,
começando a escrever Tábua e tendo os seus sucessores até o presente adoptado a nova ortografia, que é hoje geralmente seguida
por todos.
O anotador das Saudades dá o ano de 1586 como o da criação desta freguesia. O diploma mais antigo citado no índice Geral da
Provedoria... e nas Memorias do Estado Eclesiástico... é o do. 1 de Março de 1577, que, à primitiva côngrua paroquial de 11$300 réis
anuais acrescentou 8$700 réis. Faz-se aí menção dos alvarás régios de 15 de Dezembro de 1588, 15 de Novembro de 1591 e 18 de
Janeiro de 1654, que elevaram respectivamente o vencimento anual do pároco a 20$000 réis, meio moio de trigo e um quarto de
vinho, 16$000 réis, um moio de trigo e uma pipa de vinho e 19$000 réis, meio moio de trigo e um quarto de vinho.
João Medeiros de Miranda, Manuel de Espínola, António Velho de Amil Luciano Espínola e Rui Gomes foram os primeiros
sa¬cerdotes que exerceram funções paroquiais nesta freguesia.
O alvará régio de 2 de Julho de 1743 estabeleceu um curato nesta paróquia, dizendo-se no respectivo diploma que «fora criado a
rogo do vigário António Miguel de Faria, por se achar a dita freguesia entre duas caudalosas ribeiras e ter mais de mil fregueses».
Ao cura, pelo mesmo alvará, foi fixada a côngrua anual de um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho.
Não sabemos onde foi estabelecida a sede da paróquia por ocasião da sua criação. Conjecturamos que já ali existisse uma capela da
Santíssima Trindade e que nela se instalasse a sede de nova freguesia, como geralmente sucedeu em toda a diocese nos tempos
primitivos da colonização. Seria, por certo, uma capela de acanhadas proporções que deveria ter sofrido vários repairos e talvez
acrescentamentos até se edificar um templo de mais amplas dimensões. O templo que servia de igreja paroquial anteriormente ao
actual, foi destruído por uma aluvião e ficava em frente da capela da Conceição encontrando-se ainda no local vestígios da
construção primitiva. O mandado do Conselho da Fazenda, de 22 de Outubro de 1675, determinou que se procedesse à edificação
dum novo templo, mas parece que as respectivas obras não começaram desde logo ou foram executadas com grande morosidade,
pois que na frontaria da igreja se lê a inscrição — Rei Dom Pedro — 1696 — que é certamente a data da conclusão do edifício.
Num antigo documento, lemos que em 1747 foi pedido para haver sacrário com o Santíssimo Sacramento na igreja da paróquia da
Tábua, o que antes não havia morrendo alguns fiéis sem terem recebido o Sagrado Viático.
Tem esta freguesia as capelas da Madre de Deus e de Nossa Senhora da Conceição, das quais já demos rápida notícia a páginas 312
e 432 do II volume, e a de Nossa Senhora da Candelária, de que ignoramos quaisquer particularidades que lhe digam respeito.
Desta freguesia, disse em 1590 o dr. Gaspar Frutuoso: «Da Ribeira Brava meya legoa, está a Ribeira da Tábua com huma freguesia
de quasi trinta fogos. Teve já dous engenhos e tem muitas vinhas, cannas e fructas, mas o vinho he semelhante ao da Ribeira Bravax
sua visinha. Desta Ribeira da Tábua são os Medeiros, gente nobre e honrada». Observa com razão o anotador das Saudades que
naquela época tinha esta paróquia mais de 100 fogos e não apenas 30, como claramente se deduz dos alvarás régios respeitantes às
côngruas paroquiais, que vêm ali citados.
Com respeito à família Medeiros, diz o dr. Rodrigues de Azevedo que «Ruy Vaz de Medeiros foi um dos primeiros povoadores que
vieram para a Madeira: teve de sesmaria muitas terras na Atabua, da ribeira para o sitio do Zimbreiro» Outro antigo povoador da
Tábua, diz ainda o dr. Azevedo, foi o francês Ruy Vaz Urzel, que veio para esta ilha por 1480. Foram também ali antigos
colonizadores e povoadores Álvaro Martins, Jorge Lourenço, António Rodrigues, Manuel Rodrigues, António Luís, Diogo
Fernandes, etc.
Nos motins populares ocorridos na freguesia da Ribeira Brava e nos processos judiciais que se lhes seguiram acharam-se envolvidas
várias pessoas da freguesia da Tábua (V. página 385 do volume II).
Os principais sítios são: Praia, Lugares, Terça, Fajã, Ribeira, Boqueirão Pico do Ferreiro Bica de Pau, Corujeira, Zimbreiro,
Massapés, Candelária, Ribeira da Caixa, Lugar da Serra e Barbuzano.
Quando em 1914 se criou o concelho da Ribeira Brava ficou a freguesia da Tábua fazendo parte dele, tendo então sido desmembrada
do concelho da Ponta do Sol.
Tem esta freguesia 2235 habitantes (1921).
Tabua (Ribeira da)
Atravessa a freguesia da Tábua na direcção norte-sul e desemboca na sua costa marítima. Tem sua origem
nas vertentes do Pico das Pedras, na beira do Paul da Serra, desaguando nela o afluente ribeiro do Barqueiro.
Tainha (Mugil corrugatus)
Peixe da família Mugilida, hoje raro nos mares perto da costa da Madeira, em virtude do emprego
que se faz das bombas explosivas a fim de apanhá-lo. «A pesca racional da tainha, diz o sr. A. C de Noronha faz-se por meio da rede
de arrasto ou de atravessar, especialmente no verão, quando ela vem ás aguas baixas do litoral. Não é pescada ao anzol, e só por
acidente pode vir à cana, contanto que o anzol emprezado seja de diminutas dimensões».
A tainha é peixe muito saboroso, sendo por isso vendida por alto preço no mercado. Além da espécie a que acabamos de referir-nos,
existem também na Madeira ò Mugil oephahus e o M. auratus, sendo este último conhecido pela denominação de tainha da moda.
Os pescadores dão muitas vezes às tainhas o nome de mujas (corruptela de mugens) e também o de galinhas do mar, sendo devido
este último à circunstância de «apresentarem um verdadeiro papo que lembra o da galinha e é constituído pelo estômago cecal
forrado internamente por um epitélio excessivamente espesso».
Tamargueira (Tamarix gallica)
Arvore ou arbusto na família das Tamaricaceas, muito cultivado no Porto Santo, onde foi
introduzido por João António Pedroso, em 1834. Nas quintas e jardins da Madeira encontram-se também algumas tamargueiras.
Tams (Dr. George)
Médico duma expedição comercial à costa ocidental de Africa, promovida por Ribeiro dos Santos, cônsul
português em Altona. Os navios da expedição tocaram na ilha do Porto Santo em Julho de 1841. O dr. Tams escreveu acerca da
expedição de que fez parte, uma obra com o seguinte título: Portugiesische Besitzungem in Sud West Afrika Mit einem Vorworte
von Prof. Carl. Ritter; Hamburgo, 1845. Esta obra acha-se traduzida em português e em inglês.
Tanchagem
Duas espécies são conhecidas por este nome na Madeira: Plantago lanceolada e P. major. A primeira espécie tem as
folhas largamente ovadas, 5-7 nérveas. O cozimento das folhas destas duas Plantaginaceas, ambas muito frequentes na Madeira, é
muito empregado nas moléstias dos olhos.
Tangerineira, v. Laranjeira.
Tarolo (E.).
V. Sousa (Ernesto Venceslau de).
Tartaruga (Caouana Oaretta)
Réptil anfíbio da subclasse dos quelonios, que aparece nos mares perto da Madeira e cuja carne
é apreciada pelos madeirenses, se bem que seja menos saborosa que a da tartaruga dos trópicos. Os seus ovos nunca foram achados
na Madeira ou Porto Santo4 supondo-se por isso que o animal os deposite nas areias dalgumas ilhas de Cabo Verde.
Os pescadores capturam a tartaruga quando a encontram a dormir à superfície do Oceano.
Tavares
Por meados do século XV, vivia na Madeira Joana Tavares, que foi casada com Vasco Esteves, por alcunha o dos bons
vinhos, e depois de 1580 estabeleceu-se nesta ilha Bernardo Tavares de Sousa, de origem fidalga, sendo de crer que destes dois
troncos procedam os indivíduos com o apelido Tavares que aqui têm existido.
Tavares (Joaquim da Silva)
Distinto cecidologista português que muito tem concorrido para tornar conhecidas as zoocecídias
de Portugal, Madeira e outros países. É membro da Companhia de Jesus sócio da Academia das Ciências de Lisboa e tem exercido o
professorado em Portugal, Brasil e Espanha. Escreveu três contribuições para o estudo das zoocecídias da Madeira, todas
publicadas na Broteria, a primeira em 1903, a segunda em 1905 e a última em 1914 (1921).
Segundo o sr. Padre Tavares, de cerca de 80 zoocecidias conhecidas na Madeira, a maior parte são obra de afideos ou
eriofideos.
Távora (D. Álvaro José Xavier Botelho de)
D. Álvaro Botelho de Távora era conde de S. Miguel e foi nomeado governador e
capitão general da Madeira, a 21 de Julho de 1751, tendo tomado posse a 27 de Agosto do mesmo ano. Encontrou muitos abusos em
todos os ramos da administração pública, que procurou corrigir e reformar. Deixou o governo a 6 de Maio de 1754, indo ocupar o
lugar de governador da província de Goyás, no Brasil.
Morreu a 24 de Abril de 1789, tendo governado a Madeira menos de três anos.
Távora (D. Fernando de)
Foi o 5.° bispo desta diocese tendo sido confirmado pelo papa Pio V no consistório de 14 de
Novembro de 1570.
Era natural de Santarém e filho de Fernão Cardoso e de D. Filipa de Brito, que pertenciam às mais nobres e distintas famílias
daquela vila.
Depois de se ter doutorado em teologia na Universidade de Coimbra, entrou na ordem de S. Domingos e nela exerceu cargos
importantes. Foi afamado orador na sua época e gozou dos créditos de homem de raro talento e de vasta erudição. Escreveu um
livro de comentários ao evangelho de S. João e outras obras, que ficaram Inéditas.
Teve a particular estima do rei D. Sebastião, que em 1569 o nomeou prelado desta diocese1 lugar que exerceu por meio dos seus
vigários gerais, não vindo à Madeira gelo medo que lhe inspirava a travessia do oceano. Não temos conhecimento de qualquer facto
digno de menção que houvesse assinalado a sua administração episcopal entre nós.
Reconhecendo a impossibilidade de assumir pessoalmente a direcção do seu bispado, renunciou à mitra em 1573, sendo então
nomeado esmoler do rei D. Sebastião.
Morreu em 1577 e foi sepultado no convento de S. Domingos em Lisboa.
(D. Lourenço de).
Este prelado funchalense deixou nas crónicas eclesiásticas deste bispado memória honrada da
Távora
sua administração episcopal, vinculando a mia embora curta passagem nesta diocese a alguns actos que a justiça manda fazer deles
menção especial neste lugar.
Pertencia às mais distintas famílias do Reino, sendo filho de Álvaro de Sousa e de D. Francisca de Távora. Era sobrinho do
tristemente célebre D. Cristóvão de Moura, marquês de Castelo Rodrigo, um dos portugueses que mais contribuíram para que
Portugal caísse sob o domínio castelhano.
D. Filipe II foi arrancar Frei Lourenço de Távora ao remanso do convento a que voluntariamente se recolhera e onde contara passar
a vida inteira. Foi nomeado prelado da Madeira em Outubro de 1609 e recebeu a sagração episcopal a 6 de Julho de 1610, tendo no
ano seguinte assumido a direcção do seu bispado.
Reuniu um conselho diocesano e nele promulgou várias constituições tendentes a corrigir muitos abusos que se tinham introduzido
na disciplina eclesiástica. Obrigou os administradores das capelas, sob penas severas, a cumprirem encargos pios a que estavam
obrigados e que em boa parte tinham já caído em desuso. Na ordenação dos presbíteros, foi em extremo escrupuloso e só conferia
ordens sacras aos que julgava verdadeiramente dignos de exercerem o ministério sacerdotal com a irrepreensível conduta própria
daquele estado.
Durante alguns meses, exerceu interinamente o lugar de governador e capitão-general deste arquipélago para que tinha sido
nomeado por alvará régio de 8 de Abril de 1614.
Depois de administrar seis anos a diocese funchalense, foi transferido para o bispado de Elvas1 tendo saído da Madeira a 7 de
Outubro de 1617.
Em 1625, renunciou à Sé episcopal de Elvas e recolheu-se ao retiro do seu primeiro convento de S. António dos Capuchos em
Llsboa1 e ali morreu com fama de santo, segundo afirma Jorge Cardoso, a 11 de Maio de 1629.
Antes de renunciar à mitra e de internar--se no seu mosteiro, doou à fábrica da Sé do Funchal umas casas de moradia, que possuía
nessa cidade, com os encargos da celebração de algumas missas anuais em sufrágio da sua alma.
Foi o oitavo prelado desta diocese, tendo sucedido a D. Luís Figueiredo de Lemos
Taylor (Helena MJ)
Inglesa que residiu por largos anos na Madeira e faleceu em Inglaterra, no mês de Outubro de 1907, com
cerca de 65 anos de idade. E. :Madeira-: its scenery, and how to see it (Londres, 1882). Encontram-se nesta obra uma lista de fetos e
outra das algas marinas madeirenses.
Teatro
O culto pelas representações teatrais entre nós devia ter seguido as fases do Continente do Reino. Nas igrejas e locutórios
dos conventos, representavam-se autos e poemas de carácter religioso, em que nem sempre a santidade do lugar era devidamente
respeitada. Nas Constituições deste bispado, promulgadas e aprovadas no ano de 1578, se determina «que se não façam nas igrejas
ou ermidas representações... de dia nem de noite, sem especial licença do prelado, pelos muitos inconvenientes e escândalos que
disso se seguem».
Temos encontrado vagas referências a es¬sas representações nas igrejas e conventos desta diocese mas não podemos determinar
com precisão a natureza desses espectáculos e a maneira como eles se realizavam.
Sabemos que, no ano de 1622, se representou um auto religioso na igreja de São João Evangelista, quando ali se celebraram solenes
festejos por ocasião da canonização de S. Francisco Xavier. Na igreja ou convento de Santa Clara_ diz-nos o anotador das Saudades
da Terra, houve uma representação dramática no ano de 1718, quando saiu da Madeira o governador e capitão-general João de
Saldanha da Gama, escrita par Francisco de Vasconcelos Coutinho (volume I, página 315) e intitulada Residência do Governador e
Capitão General... representada petas freiras de Santa Clara na sua despedida, em que eram personagens a Ilha a Corte, a Saudade,
a Religião e a Fama.
Anteriormente a 1780, havia já no Funchal uma modesta casa de espectáculos, situada à rua das Fontes. Esta casa, a que nos
princípios do século XIX chamavam da Comedia Velha» abateu a 19 de Março de 1829, ficando todavia de pé a frontaria Naquele
ano de 1780, concluiu-se, segundo parece, a construção do Teatro Grande, ao qual consagramos um artigo especial.
Por 1820, ou pouco antes, e portanto existindo ainda aquele teatro, que foi demolido em 1833, se construiu o teatro do Bom Gosto,
do qual também nos ocupamos noutro artigo.
Deixando este teatro de funcionar por 1838, tratou-se de adaptar o refeitório e outras dependências do extinto convento de São
Francisco a um teatro, a que deram o nome singular de Prazer Regenerado e cuja existência não teve larga duração. A sua
inauguração realizou-se no dia 20 de Dezembro de 1840.
Por esta época ou pouco depois, organizou--ee a sociedade dramática Concórdia, que, com o mesmo nome fez construir um
pequeno teatro na rua do Monteiro pelos anos de 1842, onde se apresentou ao público o distinto artista Robio e onde foi
representado em 1844 o drama Amor e Pátria, de Sérvulo de Medina e Vasconcelos (volume II, página 336). Ainda ali se deram
algumas récitas no ano de 1851. A abertura da rua entre a ponte do Bettencourt e a igreja do Carmo em 1856, levou a Câmara
Municipal a demolir o prédio em que aquele pequeno teatro se achava instalado.
José Silvestre Ribeiro, o mais ilustre e benemérito governador da Madeira, que a todos os serviços de administração pública e a
todos os melhoramentos locais procurou acudir e remediar, não podia certamente descurar o do estabelecimento dum teatro nesta
cidade, e, se os seus diligentes esforços e a sua perseverante iniciativa não foram coroados de êxito feliz, deve-se isso unicamente as
insuperáveis dificuldades que surgiram e ao pouco zelo e dedicação que várias entidades particulares as corporações
administrativas, os deputados e o governo central mostraram na realização desse empreendimento, como pode ver-se no volume
3.° da Epocha Administrativa. Isto deu-se nos anos de 1851 e 1852.
Por 1858t fundou-se no Funchal uma sociedade dramática conhecida pelo nome de Talia, que deu algumas representações em
diversos locais e que depois arrendou uma casa no largo do Pelourinho. Não sabemos quando deixou de existir nem quem eram os
seus sócios e dirigentes, mas ainda se apresentou em público com as suas récitas no ano de 1859, já depois do teatro Esperança ter
sido inaugurado.
Deste último daremos resumida notícia, em artigo especial.
Durante a existência do teatro Esperança, e ainda anteriormente a ele, organizaram-se várias sociedades dramáticas nesta cidade,
que em diversos lugares levaram à cena muitos dramas e comédias, tendo sido a Escola Lancasteriana um local que, por vezes, foi
aproveitado para a execução de concertos musicais e representação de peças de teatro.
De 1850 a 1880^ várias tentativas se fizeram de carácter particular e oficial para ser dotada esta cidade com um teatro, que, sem ser
uma grandiosa casa de espectáculos, pudesse no entretanto satisfazer aos desejos da população e se harmonizasse com as condições
e circunstâncias do nosso meio. Resultaram, porém, infrutíferas todas as diligências empregadas até que uma vereação mais audaz
e de espírito empreendedor resolveu a construção dum teatro, contraindo para esse fim um empréstimo e dotando enfim o Funchal
com uma excelente casa de espectáculos, como é o actual teatro Manuel de Arriaga, de que nos ocuparemos em outro artigo desta
obra.
Além do teatro Manuel de Arriaga, existem hoje no Funchal o Teatro Circo e o Pavilhão Paris, este inaugurado a 23 de Outubro de
1909 e aquele a 3 de Setembro de 1911 (1921).
Têm vários madeirenses cultivado a literatura dramática, escrevendo para o teatro peças de diversos géneros, entre os quais
citaremos Baltazar Dias, Francisco de Vasconcelos Coutinho, José Anselmo Correia Henriques, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar,
Sérvulo de Medina e Vasconcelos João de Nóbrega Soares, Maximiliano de Azevedo, João de Freitas Branco, Luís António
Gonçalves de Freitas, D. Olímpia Fernandes, João dos Reis Gomes José Jorge Rodrigues dos Santos, Jaime Câmara, Elmano Vieira,
Alberto Figueira Jardim, etc, de cujos escritos fazemos menção nos artigos que nesta obra são consagrados a esses autores.
Com muita proficiênica se ocuparam de assuntos teatrais, Luís da Costa Pereira, na obra Rudimentos da Arte Dramática, e J. dos
Reis Gomes nos livros O Teatro e o Actor, de que se fizeram duas edições, e A Música e o Teatro.
Teatro de Bom Gosto
Parece que a existência no Funchal da importante e aparatosa casa de espectáculos que era o Teatro
Grande (V. este nome), não justificava a construção dum novo teatro, a que se deu o nome de Teatro de Bom Gosto, e que se
levantou a poucos metros de distância daquele. Ignoramos a época precisa em que foi construído, mas conjecturamos que teria sido
entre os anos de 1818 e 1820, sendo certo que já existia em 1821. Ficava situado entre a rua de São Francisco e o edifício da
Misericórdia (1921), tendo serventia para aquela rua e para o lado do antigo Passeio Público. Não sabemos que motivos
determinaram a edificação deste novo teatro, ouvindo nós, há anos, afirmar que ela fora principalmente devida a um capricho do
primeiro conde de Carvalhal.
Desconhecemos se foi aquele titular que o mandou construi mas sabemos que lhe pertenceu e que, ao regressar do seu exílio em
fins de 1834t mandou ali proceder a grande repairos, tendo sido então transformado numa regular casa de espectáculos com 18
camarotes de primeira ordem e 6 de segunda, 230 lugares na plateia e duas varandas, uma para homens e outra para mulheres.
Informaram-nos que era de maior capacidade que o antigo Teatro Esperança e que tinha internamente um aspecto agradável e
atraente.
Não sabemos quando foi encerrado deixando de ter ali lugar qualquer representação teatral. Apenas temos notícia de que, em 1838,
ainda nele se realizou um espectáculo, dizendo-se algures que já nessa época se encontrava em estado adiantado de ruína, o que
dificilmente se pode conciliar com os reparos que ali se fizeram por mandado do conde de Carvalhal, como atrás ficou referido.
Teatro Esperança
Por fins do ano de 1858, constituiu-se nesta cidade uma sociedade composta de dezoito mancebos, que se
propunha dar algumas representações teatrais e proceder à construção duma pequena casa de espectáculos. Desta sociedade que
tinha o nome de Esperança, faziam parte entre outros, Júlio Galhardo de Freitas e Pedro de Alcântara Góis, que já em vários
espectáculos tinham dado provas das suas notáveis aptidões para o teatro. Ao encontro dos esforços desta prestante sociedade, foi o
negociante João de Freitas Martins que pôs à disposição dela um excelente armazém que possuía à rua dos Aranhas. Começaram
imediatamente os trabalhos de adaptação, tendo a Câmara do Funchal contribuído com 200Ç000 réis e o conde de Carvalhal com
quantia aproximada e a oferta do cenário sendo este titular o mais desvelado protector da Saciedade Esperança.
A inauguração solene realizou-se no dia 10 de Março de 1859, com a representação das peças o Judeu e o Conde de Paragará.
Encontrando-se no Funchal António José de Sousa Almada (volume I, página 45), que era compositor dramático e redactor duma
revista teatral, prestou à Sociedade Esperança assinalados serviços na escolha, ensaio e representação das peças.
Quando se abriu a rua 5 de Julho, ficou o teatro Esperança reduzido a proporções mais acanhadas, obrigando a abertura dessa rua a
demolir algumas das dependências do mesmo teatro.
Em 1887, foi adquirido pelo conde de Canavial e passou a ter o nome daquele titular. Em 28 de Agosto de 1915, foi vendido ao
empreiteiro João Pinto Correia, que pouco depois procedeu à sua demolição.
Até o ano de 1888, em que se inaugurou o teatro D. Maria Pia, foi o pequeno teatro Esperança a única casa de espectáculos que
existiu entre nós, tendo ali funcionado várias companhias de opereta e dramáticas.
Teatro Grande
Ficou conhecido entre nós pelo nome de Teatro Grande a casa de espectáculos que se levantava em frente do
palácio de São Lourenço e que ocupava uma grande parte do Largo chamado da Restauração. Foi construído por 1780 e mandado
demolir no ano de 1833.
Tendo Miguel dos Santos Coimbra e José Rodrigues Pereira pedido o aforamento dum terreno junto da fortaleza de São Lourenço,
que tivesse 170 palmos de comprimento e 60 de largura, destinado à construção da Casa da Opera, e havendo precedido a
informação do «capitão-mestre» de que não existia inconveniente algum no deferimento dessa concessão, realizou-se no dia 10 de
Abril de 1776 na secretaria do governo, um contrato de arrendamento nas condições pedidas, obrigando-se os concessionários ao
pagamento do foro anual de 5$000 réis.
A construção deste teatro foi demorada, por causa das grandes despesas que acarretou, devido principalmente as amplas
proporções que lhe deram, não se tornando necessário uma tão vasta casa de espectáculos numa localidade pequena como o
Funchal. Era o maior teatro de Portugal, depois de São Carlos e a sua edificação custou cerca de oitenta contos, o que há 150 anos
era uma importância avultadíssima.
Desconhecemos o ano preciso "em que foram dadas por concluídas as obras de construção do teatro e quando ali se realizou o
primeiro espectáculo. Sabemos, porém, que, poucos anos depois de concluído e de nele se terem dado bastantes récitas, esteve
fechado «muitos tempos pela discórdia entre empresários e autores», diz o poeta Francisco Manuel de Oliveira, numa nota do seu
livro de versos Colecção Poética. Depois de sofrer alguns reparos, diz-nos ainda Oliveira que a sua reabertura se realizou no dia 29
de Janeiro de 1786, tendo-se representado entre outras composições, um Prologo em verso em que eram interlocutores a
Discórdia, 0 Funchal, o Bom Gosto e a Decência, devido à pena do mesmo citado poeta
Por portaria do governador e capitão-general, D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho, de 1 de Julho de 1790, foi José Nicolau Teixeira de
Vasconcelos e Câmara nomeado ministro
a «Casa do Theatro» quando ali funcionava uma «Companhia Cómica», sob a direcção do actor Pedro Baquino, tendo o referido
ministro uma superintendência e fiscalização muito minuciosa sobre todos os serviços da Companhia. Funcionou o teatro ainda
alguns anos, tendo sido pasto dum incêndio, que em parte o destruiu, na quinta-feira santa dum dos últimos anos do século XVIII.
Quando esta ilha foi pela primeira vez ocupada por tropas inglesas de Julho de 1801 a Janeiro de 1802, serviu o Teatro Grande para
arrecadação de víveres e apetrechos dessas tropas, sendo já então adiantado o seu estado de ruína.
«Foi depois reedificado diz o dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, a expensas dos proprietários e negociantes coadjuvando-os o
governo somente com a concessão de uma loteria anual, cujo premio grande era de três contos de reis; e tendo a família real e a
corte fugido para o Brazil em 1807, grande parte da companhia de canto e baile, que trabalhava no teatro de São Carlos, de Lisboa,
veio para esta ilha da Madeira escriturada por três anos, sendo empreza dos abastados proprietários Henrique Correia de Vilhena e
Nuno de Freitas da Silva, que tiveram prejuízos de mais de oitenta contos de reis, fallindo por isso o primeiro, e soffrendo
demandas e execuções o segundo. Tinha este teatro depois de reedificado, noventa camarotes, formando quatro ordens trezentos
assentos, de plateia e cem de varanda».
Ali representaram durante muitos anos várias companhias nacionais e estrangeiras. Em 1821, diz-nos o Patriota Funchalense,
funcionou neste teatro a «Companhia Grotesca», do italiano Fabri, composta de três homens e mulheres, que cantavam operetas e
executavam diversos bailados. No ano seguinte, houve no mesmo teatro um espectáculo solene, em que se fez ouvir uma sinfonia
composta pelo padre António Francisco Drumond e representou-se um drama intitulado A Festa do Olimpo, em três actos, do
distinto madeirense Manuel Caetano Pimenta de Aguiar.
Vieram depois os tempos revoltosos das nossas lutas civis, e o teatro esteve encerrado por longos períodos, e, quando
temporariamente se abria ao público logo se davam manifestações de carácter político, chegando por vezes a haver alterações da
ordem, em que tinha de intervir a força armada. E foram, por fim, essas demonstrações do facciosismo partidário que lavraram a
sentença de morte deste teatro.
O Teatro Grande foi demolido no ano de 1833 e não no de 1832 como diz o dr. Álvaro de Azevedo, sendo muito para lastimar que
deste modo se tivesse privado o Funchal duma casa de espectáculos tão vasta e tão bem ornada como esta era, o que somente
se pode admitir e explicar com o despotismo que então exercia o governo absoluto e durante o período da cruenta guerra civil que
nesse tempo assolava o país. Os motivos alegados para essa demolição foram achar-se o teatro contíguo a uma fortaleza, causando
embaraços à defesa da cidade, a necessidade que havia de alargar a rua que defrontava com o palácio dos governadores, o
embelezamento da entrada do mesmo palácio, etc, o que tudo constitui uma série de argumentos fúteis e de nenhum valor para
justificar a medida violenta e arbitrária de destruir um edifício da importância e do tamanho daquela magnífica casa de
espectáculos. O verdadeiro motivo dessa demolição já o dissemos em outro lugar Em algumas noites de espectáculo, os partidários
das ideias constitucionais aproveitavam a reunião do grande número de espectadores, para expandirem os seus sentimentos
liberais e fazerem propaganda dos princípios que professavam, estendendo-se essa propaganda do palco à plateia, apesar disso
constituir um desacato às instituições vigentes.
Apesar do espírito de rectidão e de justiça que animava o governador e capitão-general de então. D. Álvaro da Costa de Sousa
Macedo e das tendências conciliadoras que se notavam nos actos da sua administração, houve um momento em que se deixou
arrastar pelas despóticas imposições da política partidária e, cedendo ás instâncias dos seus correligionários e maus conselheiros,
mandou demolir até os fundamentos o Teatro Grande, que era a segunda casa de espectáculos do país e que tinha sido construída
há mais de cinquenta anos. Um simples encerramento do teatro, tinha-o inteiramente salvo da sua completa destruição.
Teatro Manuel de Arriaga
Foi a Câmara Municipal presidida por João Sauvaire da Câmara que iniciou os trabalhos de
construção do nosso teatro, sendo lançada a primeira pedra a 24 de Outubro de 1884. Os projectos, planos e orçamentos foram
elaborados pelo engenheiro portuense F. Soler e todos os trabalhos de construção se fizeram sob a direcção do mestre de obras
Manuel Pereira natural da cidade do Porto. Os trabalhos de pintura, decoração e duma parte considerável do centário são do artista
português Eugénio Cotrim (1849-1937) e do ita¬liano Luigi Manini, nascido e falecido em Lisboa. Todas as obras foram dadas por
concluídas em Julho de 1887 e a 27 deste mês os referidos artistas, numa bela festa, que se realizou no novo teatro, fizeram a
entrega solene à Câmara desta casa de espectáculos. A sua inauguração solene realizou-se no dia 11 de Março de 1888.
Apesar dos defeitos de construção que nele se notam e de outras deficiências, que fácil teria sido corrigir, é sem dúvida uma
excelente casa de espectáculos, que entra no número das melhores que possui o nosso país.
Na inauguração solene, subiu à cena a zarzuela Las Dos Princesas, pela companhia espanhola de José Zamorano. E desde esta data
têm ali funcionado diversas companhias nacionais e estrangeiras, sendo as principais: as de zarzuela de José Zamorano, Ramon
Novarro Frederico Reparaz, Pablo Lopez e Ramon Santiago; a lírica itailana do maestro Patri; de opereta de Sousa Bastos, Stichini,
Santos Júnior e Paquita Calvo — Fróis; dramáticas de Vitaliani Duse, Augusto Rosa, Joaquim de Almeida, Lucinda Simões, Taveira,
Carlos de Oliveira, Ruas_ Ginásio e Ernesto do Vale; concertdstas Gabriela Reus-ser, quarteto Pignateli, quinteto Júdice Costa,
Viana da Mota e Moreira de Sá Brindis de Salas e quarteto Bensaúde; prestidigitadores e variedades de J. C. Oliveira, Companhia
Russa, Francisco Franco, etc.
O Teatro Manuel de Arriaga tem 18 frisas, 20 camarotes de primeira ordem, 21 de segunda 100 fauteuils, 160 cadeiras e 200 lugares
de geral. O átrio mede 34 metros de comprimento e 6 e meio de largura, com 11 portas na frente e 2 de cada lado. No andar
superior, tem um belo salão com iguais dimensões e 15 janelas. Possui uma excelente sala de pintura com uma galeria em volta e
donde se desfruta um vasto panorama.
O seu primeiro nome foi Teatro D. Maria Pia, que a Câmara Municipal mudou em Novembro de 1910 para Teatro Dr. Manuel de
Arriaga. Tendo este antigo deputado pela Madeira, em "ofício de 31 de Dezembro, recusado terminantemente que fosse dado o seu
nome àquela casa de espectáculos resolveu a Câmara Municipal, em sessão de 12 de Janeiro de 1912, a dar-lhe o nome de Teatro
Funchalense. Com a morte, porém, do dr. Manuel de Arriaga, que tem o seu nome ligado à história da Madeira, pela forma como
advogou os interesses deste arquipélago no parlamento, tomou a Câmara a deliberação de perpetuar entre nós o seu nome,
denominando Teatro Dr. Manuel de Arriaga a nossa primeira casa de espectáculos (1921).
Teck (Príncipes de)
O príncipe Alexandre de Teck e sua esposa, a princesa Alice, estiveram de passagem no Funchal no dia 8 de
Janeiro de 1924, a bordo do vapor inglês Wimdsor Castle, com destino ao Cabo da Boa Esperança. Foram-lhes prestadas honras
militares. Estiveram no Terreiro da Luta, onde lancharam descendo ao Funchal em carros de verga e embarcando um pouco depois
do meio dia.
Teijeira (Arctiumminus)
Composta-tu-buliflora podendo atingir mais de 1 metro de alto, com as folhas rugosas, as inferiores às
vezes muito grandes, capítulos com invólucro de bráctea terminadas em pontas gancheadas, não espinhosas, e flores purpúreas.
Encontra-se no Monte, no Ribeiro Frio, etc A infusão das folhas desta planta é muito usada no tratamento das moléstias de pele. V.
Dedaleira.
Teive
Dizem o anotador das Saudades e vários nobiliários que este apelido de família «provem de Diogo de Teive, que no ano de
1452 fez um contrato com o infante D. Henrique, onde se diz escudeiro do mesmo infante, no qual se obrigou a levantar na ilha da
Madeira um engenho de açúcar, o primeiro que aqui houve. Teve na Ribeira Brava e à parte do norte, muita terra de sesmaria e ahi
fez morgadio».
A família Teive se foi ilustre pela linhagem e prosápia dos seus avoengos, não o foi menos, e com sobrada razão, por contar entre os
seus membros alguns homens que notavelmente se distinguiram nas armas e nas letras, deixando nome aureolado na história deste
arquipélago. Dalguns deles faremos rápida menção.
Diogo de Teive, que foi instituidor do morgadio, teve vários filhos, sucedendo-lhe na administração da casa vinculada Gaspar de
Teive, que exerceu importantes cargos palatinos, sendo contador da rainha D. Catarina e estribeiro-mor da princesa D. Maria,
mulher de Filipe 2.°, e de D. Joana, mãe de D. Sebastião que acompanhou para Espanha, tendo ali falecido.
Gaspar de Teive deixou larga descendência e acerca dos seus quatro filhos Diogo, Pan-taleão, Aleixo e Gaspar, transcrevemos
tex¬tualmente, deixando-lhe todo o sabor antigo, o que encontrámos num escrito publicado há cerca de setenta anos e que nos
parece ser do século XVIII:
«D. Diogo de Teive que foi baptisado na mesma parochia de S. Bento da freguesia da Ribeira Brava, em Março de 1540, foi pago. e
depois gentil nome d'el-rei D. Filipe com o qual se achou na jornada de Inglaterra em o anno de 1544; e em Flandres lhe levou a
celada no assalto Guintem. Passou ao Peru, d'onde voltou, servindo ao mesmo rei com aquela celebre pérola que se guarda no
Te¬souro Real, chamada Orpha, por se lhe não descobrir igual de 89 quilates. Por este ser¬viço lhe fez el-rei mercê da vara de
Alguazil maior de Penama com quatro mil pesos de renda em sua vida e na de seu filho nove mil cruzados de ajuda de custo para a
segun¬da jornada, e o corrigimento de Ariquipa, com dois collegas no Peru, onde falleceu, deixando em Hespanha luzida
descendência.
«D. Pantaleão seu irmão foi também gen-til-homem do mesmo reino, e o maiir sujeito de Hespanha em seus tempos, faleceu em
Ma¬drid, solteiro, por uma queixa de amores em 1569.
«D. Aleixo de Teive, irmão dos sobreditos, foi page do príncipe D. Carlos a quem as¬sistiu até o anno de 1668 em que sucedeu a
morte d'aquele desgraçado principe; foi muito valoroso e por ordem do mesmo R. se diz foi achado morto debaixo do Baliam das
Damas com 24 feridas, na manhã de 28 de Novembro de 1573.
«D. Gaspar de Teive, outro irmão seu creou-se no Paço onde foi ninho do principe e depois page da rainha D. Izabel, passou a
Allemanha no anno de 1571 com os principes Arnesto e Ridolfo, d'este foi genti-homem sendo imperador e por seu mandado veio a
Portugal cumprimentar a el-rei D. Sebastião a quem acompanhou na batalha de Alcácer e ali foi morto no dia 4 de Agosto de 1578.
«António de Teive seu tio que nasceu no logar da Ribeira Brava em o anno de 1516 serviu no Paço a el-rei D. João 3.° e depois
passou à índia onde ocupou vários postos até ser vedor da fazenda isento do vice-rei. Achou-se no cerco de Chaul e Goa,
ultimamente voltando daquele estado desapare¬ceu a nau em que vinha, deixando em Portugal descendentes de que procedem os
se¬nhores de Bayan.
«Fr. António de Teive, diz Henriques de Noronha no seu Nobiliário, foi frade de S. Agostinho, grande theologo e pregador, prior de
Oastello Branco e Villa Viçosa e foi D. Geral da sua província e visitador geral na índia onde morreu.
«Baltazar de Teive, diz ainda o já citado Henriques de Noronha, era filho de Diogo de Teive e nasceu no anno de 1508 nesta ilha;
estudou em Paris e foi doutor em direito e de grandes speranças, que todas cortou, casando-se por amores com uma parenta sua em
Braga contra vontade de seus pães e viveu pobre».
Diogo Barbosa Machado, na Bibliotheca Lwzitana, dá este Baltazar de Teive como natural de Braga o genealogista Henriques de
Noronha fá-lo nascido nesta ilha, sem indicação de lugar, e o distinto madeirense Agostinho de Orneias e Vasconcelos, que
investigou cuidadosamente as origens e a descendência da família Teive afirma que ele nasceu na freguesia da Ribeira Brava,
opinião que podemos aceitar sem temeridade. O mesmo Barbosa Machado diz que fora ele um distinto poeta latino, deixando
algumas obras inéditas.
Não podemos afirmar, mas temos algumas razões para acreditá-lo, que o conhecido escritor latino e jurisconsulto, Diogo de Teive,
pertencia também a esta família ilustre. Os medianamente versados na história literária do nosso país sabem que este Diogo de
Teive, foi, entre nós, um dos mais afamados escritores da língua latina do século XVI e um distinto lente na Faculdade de Bordéus e
na nossa Universidade de Coimbra, para onde expressamente o chamou D. João 3.°, sendo ali um dos mais brilhantes ornamentos
deste estabelecimento de instrução.
Do madeirense Belchior de Teive distinto membro desta família, nos ocuparemos em artigo especial.
Teive (Belchior de)
Como já referimos, pertencia Belchior de Teive a uma distinta e nobre família da freguesia da Ribeira Brava,
que entre os seus membros contava alguns homens que verdadeiramente se notabilizaram em diversos ramos da actividade
humana.
Conjecturamos que houvesse nascido nos primeiros anos do terceiro quartel do século XVI, sendo filho de Gaspar de Teive e de D.
Ana de Brito irmão de Diogo, de Pantaleão, Aleixo e Gaspar de Teive, de quem nos ocupámos noutro artigo deste Elucidário, e neto
de Diogo de Teive, o instituidor do morgadio dos Teives, que ficou vinculado nesta família. Tiveram seus pais 25 filhos, segundo
afirma um conhecido linhagista, sendo o nosso biografado o último varão dessa distinta e numerosa descendência.
Desconhecemos quaisquer circunstâncias particulares da sua vida até o ano de 1581, em que já o encontramos lente da célebre
universidade de Salamanca, regendo ali uma das cadeiras da faculdade de direito. No seu curso universitário deu certamente provas
incontestáveis de raro talento e de extraordinário saber, para que aos 26 anos de idade tivesse sido chamado a fazer parte do corpo
docente daquele famoso estabelecimento de instrução, o que constituía um facto bastante anormal naquela época Foi um dos mais
ilustres professores no período áureo daquela universidade, então uma das mais notáveis e mais frequentada de toda a Europa.
Também exerceu o magistério na Universidade de Coimbra.
Os seus reconhecidos méritos e aptidões tinham-no naturalmente indicado para o desempenho de outros importantes e elevados
cargos. E assim vemos que, em 1607, abandonou o magistério universitário, em obediência ao convite de Filipe 2.° junto de quem
exerceu lugares de grande responsabilidade e da maior confiança, chegando a ser um dos quatro ouvidores da Câmara daquele
soberano e também um dos seus conselheiros privados.
Sabemos que Belchior de Teive fez uma brilhante carreira nos cargos e missões difíceis de que foi encarregado, mas escasseiam--
nos os indispensáveis elementos para dar um nota detalhada de todos os lugares que desempenhou e da maneira como neles se
houve, pormenorizando quaisquer factos ou circunstâncias que ponham em relevo as faculdades do seu espírito privilegiado.
Atendo-nos aos nossos escassos apontamentos, colhidos dispersamente nas várias obras impressas e manuscritas que pudemos
compulsar, diremos que Belchior de Teive, apesar de dedicar-se às letras e professar o magistério numa universidade, também
seguiu a carreira das armas, que naqueles tempos, se considerava quase obrigatória e sempre extremamente honrosa para todos os
que não se consagrassem ao serviço da Igreja. Foi como militar que D. Filipe o nomeou general e adiantado de Castela, que
correspondia a governador daquela província e antigo reino, cargo que tinha então as mais latas atribuições. Foi também general da
armada e superintendente dos oficiais dela.
Belchior de Teive exerceu importantes cargos na magistratura, sendo alcaide do crime da chancelaria de Valhadolid e depois
presidente da Casa dos Alcaides.
Em 1607, foi pelo governo da Espanha enviado a Portugal como superintendente geral da fazenda pública, que nos parece ser um
dos lugares mais graduados e de mais alta responsabilidade da época.
Como já deixámos apontado, gozou Belchior de Teive da privança de Filipe 2.°, sendo um dos quatros ouvidores da sua câmara e
um dos seus conselheiros particulares.
Foi uma figura prestigiosa e de destaque no seu tempo, pelo seu extraordinário talento, importantes cargos que desempenhou e
influência de que gozou entre os seus concidadãos.
Barbosa Machado, na sua Bibliotheca Lusitana, diz que foi um distinto genealogista e que deixou algumas obras inéditas.
Ignoramos o ano da sua morte mas em 1621 ainda era conselheiro privado de Felipe 2o.
Foi sem dúvida um homem de alta envergadura, mas de qualidades de carácter que muito deixam a desejar, pois se bandeou com os
inimigos da sua pátria, pondo-se inteiramente ao serviço do rei de Espanha.
Teixeira
Tristão Vaz, primeiro capitão--donatário de Machico e companheiro de Zargo na colonização deste arquipélago, foi
casado com Branca Teixeira, fidalga que procedia da casa de Vila Real, no dizer de Frutuoso. Os seus descendentes adoptaram o
apelido materno, que passou a ser o desta família. Tiveram quatro filhos e oito filhas: Tristão Teixeira que herdou a capitania,
Henrique Teixeira, João Teixeira, Lançarote Teixeira, Tristoa Teixeira, Isabel Teixeira, Branca Teixeira, Catarina Teixeira, Guiomar
Teixeira Solanda Teixeira, Ana Teixeira e Catarina Teixeira.
De João Teixeira, terceiro filho de Tristão Vaz, diz o anotador das Saudades que «foi grande caçador e inclinado a montear, e por
essa causa havia na vila de Machico huma coutada sua no Caniçal, de tanta caça de coelhos, perdizes, pavões e muitos porcos
javaliz, que se afirma que era a melhor coutada de Portugal: o que dá a entender huma carta que hoje em dia está na Camará de
Machico, escripta por El-Rey D. Manuel aos oficiaes delia, em que lhes encommenda muito que tenham estreita conta com a
coutada dos filhos do primeiro capitam, e que ninguém entre nella, porque lhe enculcavam e affirmavam que, se elle acertasse vir à
ilha, em nenhumas outras terras podia montear e caçar senão nesta do Caniçal, e campos de Santa Catharina».
Lançarote Teixeira, no dizer do mesmo cro¬nista; «foi hum dos melhores ginetarios da ilha; porque alem de por sua inclinação ser
mui bom cavalleiro, tinha mui grande mão para domar cavallos, e era dado muito a iso, em tanto que em seu tempo se ajuntavam
na vila de Machico sessenta cavaleiros de esporas douradas muito bem postos, e encavalgados por industria deste Lançarote
Teixeira que, quando vinha hum dia de S. João ou do Corpo de Deus,, eram tantos os cavalleiros para jogos de cannas e
escaramuças, que mais parecia exercito de guerra, que folgar de festa: e além de todos serem mui destros nesta arte, elle todavia
tanto se divisava entre eles, que se pode com razão dizer que foi luz ornamento de Machico. Foi casado este Lançarote Teixeira com
Beatriz de Góes».
Teixeira (António)
Era filho de Lançarote Teixeira e de Beatriz de Góis e neto de Tristão Vaz, primeiro donatário de Machico.
Deixou nome nos antigos nobiliários madeirenses, sendo conhecido pelo nome de Rei Pequeno. São interessantes os seguintes
período, extraídos dum escrito do ilustrado genealogista, padre Fernando de Meneses Vaz:
«Dizem as crónicas que o apelido lhe viera da magnanimidade da sua pessoa, da generosidade com que repartia seus réditos, e
liberdade em distribuí-los, já entre os da sua privança, já pelos indigentes e necessitados do logar.
«No entanto, como não ha formosa sem senão, ufano de sua fidalguia saboreando o bem que prodigalizava, deixava-se toldar um
pouco pela vaidade e orgulho humanos.
«Tido por grande pelos homens julgava-se também grande deante de Deus.
«Não lhe mingava a crença, é certo. Ele mesmo levantara a capela da Senhora da Piedade, no Porto da Cruz, como cabeça do
morgado instituído por Lançarote Teixeira, seu pai; mas, cheio de si, ouvia missa, segundo a tradição, a cavalo, junto da porta
principal da igreja do Faial fazendo ajoelhar a cavalgadura ao toque de levantar a Deus, para não ombrear com seus escravos e
domésticos Era-lhe» senhor.
«Mas quantas vezes o pobre escravo desejaria desmontá-lo e dizer-lhe ao ouvido: diante de Deus, todos somos iguais; Deus não
olha a cores, só nos distingue a virtude?!...
«Mortal, como todo os homens, embora rico e grande, com avultado numero de annos, foi-se um dia da vida presente António
Tei¬xeira e sepultaram-no, sem o cavalo, está claro, no seu jazigo da capela-mór da velha igreja do Faial, onde ficou dormindo o
sono derradeiro.
«As ribeiras, porém, não quiseram que ele ouvisse ali as tubas do venite ad judicium. Congregaram-se aí, por 1699, entraram dentro
do templo e, sem outro desrespeito pelo santuário, abriram o jazigo do Rei Pequeno, levando-lhe o corpo como castigo da sua
petulância de ouvir missa montado, e assim, lá foi o morgado ribeira abaixo, a pé, tantos anos depois de morto, ele que em sua vida
sempre andara a cavalo...
«E o vínculo de João Teixeira de Vasconcelos? — perguntará o leitor.
Esse foi correndo nos seus descendentes até Álvaro Teixeira de Orneias Saavedra, ultimo varão daquela dinastia de reis pequenos,
que, não tendo sucessor, passou a sua irmã D. Maria Teodolinda.
«O solar daqueles fidalgos era na Banda dos Moinhos, do Faial e foi para o mar na aluvião de 1803. Nessa ocasião tinha saído de
caso o velho morgadot cego como o velho Eneas, ás castas de um criado, a caminho da Cruz, onde fixou residência, a qual existe
ainda, sem morgados já, sem a sombra dos velhos carvalheiros, a esboroar-se e a cair
também...»
Teixeira (Diogo)
Era filho de Tristão Teixeira e foi o 4.° capitão donatário de Machico. Por ser homem mentecapto, tirou--lhe D.
João III a capitania em 1538, e como por sua morte, em 1540, não lhe ficasse filho varão ou outro qualquer herdeiro legítimo que
lhe sucedesse na mesma capitania, foi esta doada em 1541 a António da Silveira, antigo capitão de Diu.
Teixeira (Cónego Feliciano João). Nasceu na freguesia da Ponta do Sol, a 2 de Janeiro
de 1843, e era irmão dos drs. João Augusto Teixeira e Nuno Silvestre Teixeira, de quem
nos ocupámos neste Elucidaria. Foi cónego da Sé do Funchal e professor do Seminário,
e nesta cidade exerceu várias comissões de serviço público. Representou a Madeira no
Parlamento, nas sessões legislativas de 1880 a 1881 e de 1887 a 1889. Transferido para a Sé arquiepiscopal de Évora, faleceu
naquela cidade no dia 2 de Maio de 1896 Os seus
despojos mortais jazem no cemitério da freguesia da Ponta do Sol.
Teixeira (Dr. João Augusto)
Nasceu na vila da Ponta do Sol a 25 de Julho de 1845 e faleceu no Funchal a 21 de Março de 1907.
As palavras, que a seguir transcrevemos, são do antigo jornal Heraldo da Madeira e de vidas à pena dum dos redactores desta obra:
«O dr. João Teixeira notabilizou-se principalmente como médico e lente da nossa escola médico-cirúrgica, tendo também
evidenciado em outros ramos da actividade humana as notáveis aptidões do seu luminoso espírito.
«Era um médico abalizado e profundamente sabedor parecendo que para ele não tinha segredos a vasta e complexa ciência médica.
Entre os seus colegas era considerado um verdadeiro mestre, sendo o seu conselho sempre ouvido e escutado com o respeito devido
aos grandes oráculos da ciência.
«Nos últimos anos quase abandonara a clinica, que noutro tempo lhe absorveu por completo toda a sua grande actividade,
dedicando-se quase exclusivamente à regência da sua cadeira á clinica hospitalar e ao estudo, que não deixara nunca.
«Como lente foi dos mais distintos, reunindo ao vasto saber e á clareza da exposição uma forma brilhante e atraente, dando assim
ás suas lições um relevo e um encanto particulares, que eram a admiração dos que o escutavam. Algumas vezes aconteceu ser a
Escola visitada por médicos distintos na ocasião em que o dr. João Teixeira na cathedra de professor fazia a prelecção aos seus
alunos, ficando os visitantes verdadeiramente surpreendidos com a largueza doe seus conhecimentos e com a maneira proficiente e
disstinctissima como ele sabia reger a sua cadeira, tendo alguém afirmado, ao ouvil-o, que na nossa universidade se não
preleccionava melhor nem com mais profundo conhecimento do assumpto.
«O dr. João Augusto Teixeira, que reunia a um formosíssimo talento uma memoria as-sombrosa4 possuia uma vastíssima erudição,
colhida nas suas nunca interrompidas leituras e nos seus constantes e aturados estudos. Não se abordava assumpto, embora
escabroso e difícil, sobre que ele não podesse discorrer e discretear com maior ou menor profi¬ciência.
«Tinha uma especial predilecção pela lin-gua latina, que sempre cultivou com especial esmero, chegando a conhecel-a
profundamente e sendo nella um verdadeiro mestre Não ha ainda muito que lhe ouvíramos particulares referencias á tradução dos
Luziadas, feita para o latim pelo padre Francisco de Santo Agostinho de Macedo obra notável que elle de novo acabara de ler,
comentando-a com o seu fino espirito e particular conhecimento do assunto.
«O ilustre extincto foi sempre um estudante distinctissimo e laureado desde a escola primária até aos bancos da universidade. Em
Coimbra revelou-se uma inteligência superior, obtendo os primeiros prémios e deixando ali belas tradições da sua aplicação ao
estudo e do seu real e incontestável talento. Ainda hoje os seus contemporâneos da universidade dão disso testemunho, quando
tenha de fa-lar-se do dr. João Teixeira, devendo contar-se entre eles o dr. Bernardino MachadOj seu particular amigo e admirador.
(1921).
«O dr. João Augusto Teixeira militou sempre no partido regenerado tendo-se em 1901 afastado da política, por ocasião dos
acontecimentos que então se deram no seio daquelle partido.
«Em 1885 foi eleito deputado por esta ilha, defendendo com acrizolado zelo os interesses madeirenses, devendo especialisar-se um
notável discurso que proferiu nas camarás a favor da desgraçada situação em que então se achava a visinha ilha do Porto Santo.
Encontrou no parlamento muitos dos seus antigos condiscípulos e contemporâneos na universidade, que rejubilaram por tomar
assento em cortes um homem cujo valor e merecimentos elles de sobra conheciam. Foi então que recebeu de Fontes Pereira de
Melo, o glorioso chefe do partido regenerador, provas de grande apreço e consideração.
«O dr. Teixeira apesar das reiteradas instancias dos seus amigos políticos não quis voltar ao parlamento. Distraí-lo do remanso do
seu gabinete e das doçuras do seu lar, que ele presava acima de tudo, era violenta-lo a um sacrifício a que ele não podia ser superior.
«O finado exerceu entre outras comissões de serviço público, as de procurador à antiga Junta Geral do distrito e membro da
delegação do mercado central.
«Foi por duas vezes professor do nosso liceu, lugar que sempre desempenhou com a competência que todos lhe reconheciam.
«Como professor da nossa Escola Medica exerceu durante muitos anos o cargo de director das enfermarias de medicina do hospital
de Santa Isabel com grande zelo e notável proficiência, que eram apanágio da austeridade do seu carácter e da vastidão dos seus
conhecimentos médicos.
«O ilustre extincto pertencia a uma familia que teve no seu seio uma plêiade de formosos talentos, merecendo especial menção o
falecido cónego Feliciano João Teixeira, dr. Manuel Joaquim Teixeira, professor do liceu de Coimbra dr. Nuno Silvestre Teixeira,
todos irmãos do homem a quem consagramos esta linhas, o dr. João R. Passos, súbdito norte-americano. Policarpo Passos Sousa,
distinto poeta, dr. Francisco dos Passos Sousa, padre João dos Passos Sousa, etc.»
Teixeira (João Maneio)
Nasceu nesta ilha a 25 de Maio de 1839. Concluiu em 1866 o curso de médico-cirurgião na Escola
Médica do Porto, e ali defendeu no mesmo ano a tese Das pseudarthroses resultantes de fracturas não consolidadas, e do seu
tratamento, que foi publicada em opúsculo.
Teixeira (Dr. Nuno Silvestre)
Nasceu na vila do Ponta do Sol a 31 de Dezembro de 1847, e é filho de Feliciano João Teixeira e
de D. Joaquina Júlia dos Passos.
Num escrito, que temos presente, diz um dos eeu contemporâneos em Coimbra, referindo-se ao ano de 1877, em que o dr. Nuno
Teixeira era quintanista de medicina: «Passava então por um dos estudantes mais talentosos daquele geração académica: era o
primeiro estudante da faculdade de medicina Todos conjecturavam que ele, após o partido que lhe deram no 5.° ano, como em
anteriores, defenderia theses e entraria para a universidade».
Não aconteceu assim. O dr. Nuno Teixeira pensou efectivamente em seguir a carreira universitária e parece que até alguns
trabalhos científicos preparou nesse sentido, mas motivos que desconhecemos demoveram-no desse primeiro intento,
abandonando um lugar que seria muito honroso para si e de bastante proveito para a Universidade.
O dr. Nuno Teixeira tem entre nós desempenhado os lugares de professor e reitor do Liceu, lente da extinta Escola Médica,
delegado de saúde do distrito, médico do partido da Câmara Municipal deste concelho, director clínico das enfermarias de medicina
da Misericórdia do Funchal administrador do concelho, etc.
É vasta e valiosíssima a sua colaboração em vários jornais desta cidade e nomeadamente no Diário de Notícias, onde há dezenas de
anos publica aos domingos artigos de vulgarização científica, em que são versados muitos pontos de medicina e higiene, ao alcance
do grande público. Esses artigos primam por uma notável correcção da forma e por uma extraordinária clareza, que os tornam
leitura obrigada para uma grande parte dos assinantes daquele jornal (1921).
O dr. Nuno Teixeira deu à luz em 1899 um volume de 240 páginas intitulado O Alcoolismo, e publicou também vários opúsculos,
contendo alguns dos seus relatórios como reitor do liceu e delegado de saúde (1921).
Faleceu no Funchal a 28 de Fevereiro de 1928.
Teixeira (Tristão)
Tristão Teixeira ou Tristão Teixeira das Damas, como vem mencionado as crónicas, foi o filho primogénito de
Tristão Vaz e o segundo capitão-donatário de Machico. Deve ter nascido no Continente do Reinot pois diz Frutuoso que o
descobridor Tristão Vaz veio para esta illha com sua mulher e filhos logo no princípio da colonização. Chamou-se-lhe Tristão das
Damas, diz o historiador das ilhas, «porque foi muito cortezão grande dizedor e fazia muitos motes ás damas, e era muito eloquente
no falar»
O mesmo cronista diz que a Tristão Teixeira fizeram uma gravíssima acusação, que obrigou o monarca a chamá-lo à corte, mas que
ele «tendo muito trabalho, gastando muito do seu, todavia se livrou muito bem e com muita honra suax tirando sua fama a limpo».
Morreu em Machico e ali jaz na capela de São João da respectiva igreja paroquial (volume II página 284).
Tristão Teixeira é uma das principais personagens que figuram na novela A Filha de Tristão das Damas, do escritor madeirense J.
Reis Gomes.
Teixeira (Tristão)
Foi o 3.° capitão-donatário de Machico, tendo herdado a capitania de seu pai Tristão Teixeira das Damas.
Teixeira Jardim (Dr. Arsénio)
Nasceu no Funchal a 3 de Agosto de 1887 e é médico-cirurgião pela Escola Médica de Lisboa,
exercendo clínica em Monforte, no Alentejo. É muito conhecido tanto em Portugal como na Madeira como especialista nas
moléstias da garganta e dos ouvidos. E.: Breve noticia sobre dois casos de tétano chronico, um generalisado e outro localizado, tese,
Lisboa, 1916, de 42 páginas.
Teixeira Júnior (José)
Nasceu no Funchal a 17 de Março de 1889 e é farmacêutico do hospital «Estefânia», em Lisboa. Em
1889, publicou um opúsculo de 65 páginas intitulado Em Lisboa.
Teixo (Taxus bacoata)
Árvore ou arbusto da família das Taxáceas, quase extinta nas serras da Madeira. Tem folhas lineares,
flores dióicas e sementes com arilo carnudo e escarlete. Produz madeira avermelhada, de boa qualidade, mas hoje quase
desconhecida dos marceneiros da ilha. As folhas do teixo são venenosas. V. Cadamosto.
Telefones
A rede telefónica do Funchal foi inaugurada no dia 5 de Outubro de 1911, tendo a Câmara Municipal estabelecido, em
1908, as condições em que permitia a adaptação de parte da torre dos Paços do Concelho a estação central dos telefones. Os
trabalhos da mesma adaptação só se iniciaram no ano imediato. Para a montagem dos serviços telefónicos do Funchal, muito
concorreu o falecido João Augusto Pereira, antigo deputado pela Madeira.
Em 6 de Agosto de 1915, resolveu a Câmara Municipal representar ao governo pedindo que a rede telefónica se estendesse a toda a
ilha, mas este melhoramento não foi ainda concedido à Madeira. (1921)
Telegrafia sem fios
No edifício da estação telegráfica do Funchal, existe um posto de telegrafia sem fios_ inaugurado no dia 2 de
Junho de 1922, tendo os trabalhos de montagem dos aparelhos levado uns 15 dias. A primeira experiência fez-se no dia 1 de Junho,
estabelecendo-se a comunicação com um vapor inglês à distância de 150 milhas, e com um vapor português à distância de 400
milhas. Também se comunicou com a estação de Las Palmas, nas ilhas Canárias.
Durante o período da guerra europeia, funcionou por conta do governo inglês um posto de telegrafia sem fios na quinta Santana,
sendo as notícias que ele recebia do exterior transmitidas diariamente, por intermédio dos jornais, ao público funchalense. O posto
da quinta Santana deixou de funcionar a 2 de Abril de 1919.
Por despacho do Ministério das Finanças, foi, em 12 de Dezembro de 1921, autorizada a instalação dum posto rádio-telegráfico na
quinta Santana, mas tal instalação nunca chegou a realizar-se.
Em 1912, contratou-se com a Companhia Marconi o estabelecimento de vários postos de telegrafia sem fios no país, um dos quais
na Madeira, nada se tendo feito, porém, pelo motivo do nosso governo haver faltado às obrigações que contraíra, e em 1922 foi o
mesmo governo autorizado pelo Congresso da República a contratar com a dita Companhia o estabelecimento duma rede rádio-
telegráfica, devendo ela começar por instalar e explorar por sua conta, sem qualquer encargo para o Estado, postos de telegrafia
sem fios em Lisboa, Açores Madeira, Cabo Verde, Angola e Moçambique. (1921)
Telégrafo Submarino
A Madeira está ligada a Portugal (Carcavelos) por dois cabos da «Western Telegraph Company» e a S.
Vicente de Cabo Verde por dois cabos desta mesma companhia e um da «Eastern Telegraph Company», vindo este último cabo
directamente da Grã Bretanha e prolongando-se até a Africa do Sul, tocando em S. Vicente de Cabo Verde, Ascensão e Santa
Helena.
A «Western Telegraps Company» veio substituir a «Brazilian Telegraph Company», que estabeleceu em 1874 o serviço telegráfico
entre a Madeira e o Continente, como ficou dito a página 172 do volume I deste Elucidário, e que em 1883 ou 1884 fez lançar um
segundo cabo, seguindo a mesma direcção do primeiro. Quanto ao cabo submarino da «Eastern Telegrph Company», foi
estabelecido em virtude dum contrato assinado em 21 de Setembro de 190. (1921)
Vid. Cabo Submarino.
Telégrafos
Por ocasião de ser estabelecido o cabo eléctrico na Madeira, havia aqui os telégrafos seguintes, que comunicavam
entre si por meio de sinais: o do Pico do Facho, em Machico, o do Pico de Agua, no Caniço, e o Pico da Cruz, em S. Martinho.
Em tempos mais antigos, sabemos terem existido telégrafos em Câmara de Lobos, na Ponta do Pargo e no Garajau, tendo durado
este último desde 1839 a 1847.
Teles
É apelido de boas famílias, mas ignora-se quem o trouxe a esta ilha. Em 1682, vivia na Madeira António Teles ou António
Telo de Meneses fundador da capela de Santo António, em Santa Maria Maior.
Os Teles de Meneses vêm de Vasco Moniz de Meneses e também, por bastardia, dos condes de Vila Pouca.
Teles de Meneses (Guilherme)
Nasceu na Madeira pelos anos de 1855, mas reside há muito em Portugal, sendo
presentemente contador aposentado do antigo Tribunal de Contas, hoje Conselho Superior da Administração Financeira do Estado.
Tendo vindo a esta ilha em 1894, residiu por alguns tempos na casa do Poiso e depois na do Areeiro, fazendo em ambas elas
algumas observações meteorológicas, cujos resultados publicou mais tarde. Foi também administrador do concelho do Funchal,
mas pouco tempo se demorou neste lugar por causa dum conflito que teve com o governador, por haver proibido em 7 de Março de
1896 que o povo se abastecesse das fontes de João Denis (1921).
Publicou na 15ª série, n.° 6 (1896) do Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, uma memória intitulada A Madeira e o dr.
Douglas, que é uma resposta ao que este médico escreveu num folheto acerca das vantagens de Las Palmas sobre a Madeira, como
estação de saúde para tuberculosos.
O posto meteorológico do Areeiro, que nunca chegou a funcionar e a casa anexa, foram construídos sob a direcção de Guilherme
Teles de Meneses. (1921)
Teles da Silva (D. Fr. António)
Ao prelado D. Gabriel de Almeida, falecido nesta cidade em Julho de 1674, sucedeu nesta
diocese D. Fr. António Teles da Silva, que foi o undécimo bispo do Funchal Esteve pouco tempo vaga a Sé, o que nem sempre
acontecia nos bispados ultramarinos, tendo D. António Teles da Silva sido nomeado, confirmado e sagrado logo após a morte do
seu antecessor.
A sua confirmação por Clemente X, é de 16 de Dezembro de 1674, recebendo a sagração episcopal no mês de Janeiro seguinte, e
assumiu a direcção da sua diocese a 25 de Abril de 1675.
Era filho de João Gomes da Silva, comendador e alcalde-mor de Seiaz e regedor das Justiças. Tinha professado na ordem de São
Bento e era deputado do tribunal da Junta da Cruzada, quando o príncipe regente, depois rei D. Pedro 2.°, o apresentou bispo desta
diocese.
Durante o seu episcopado, criaram-se as paróquias da Camacha Serra de Agua, Prazeres e Arco de S. Jorge. Obteve também a
criação de alguns curatos, em virtude da resolução do príncipe regente de 20 de Outubro de 1676.
Ampliou o antigo Paço Episcopal e celebrou sínodo diocesano a 6 de Junho de 1680.
Faleceu nesta cidade a 14 de Fevereiro de 1682 e jaz sepultado na capela-mor da Sé Catedral, tendo estado sete anos à frente dos
destinos desta diocese.
Nada mais sabemos da sua administração episcopal, dizendo dele D. António Caetano de Sousa que «deixou do seu nome honrada
memoria».
Telo de Meneses (Luís)
Nasceu na Madeira, sendo filho de Gaspar Lopes Cortez, e, tendo seguido a carreira das armas, veio a
morrer na batalha de Montijo a 26 de Maio de 1644. Era então capitão de infantaria.
Tem-te-em-pé (Capros aper)
Peixe da família Carangida, pouco vulgar nos mares do arquipélago. Pescam-no em águas não
muito profundas, com aparelho de anzol, e parece ter sido comum noutras épocas.
Tenerifenhos
Em Maio de 1922, estiveram em Santa Cruz de Tenerife muitos madeirenses, que foram aí carinhosa e
brilhantemente recebidos tanto pelas autoridades como pelo povo da terra. Tendo ficado resolvido que os tenerifenhos fariam uma
excursão à Madeira a fim de pagar a visita dos madeirenses, veio essa excursão a realizar-se nos fins de Dezembro do mesmo ano,
por ocasião das festas do quinto centenário do descobrimento da nossa ilha.
Os tenerifenhos chegaram ao porto do Funchal no dia 28 de Dezembro cerca da 1 hora da tarde, no vapor Viera y Clavijo, dirigindo
se logo para bordo várias entidades oficiais e particulares a fim de cumprimentar os excursionistas, entre os quais se achava o
alcaide D. Andrés Orosco.
O desembarque realizou-se no cais da Pontinha, cerca das 4 e meia da tarde, tendo vindo na primeira lancha o alcaide, que era
acompanhado pelo cônsul espanhol © o banqueiro Henrique V. de Castro e nos demais barcos, os restantes excursionistas, em
número de 76, entre os quais várias senhoras e meninas.
Um pouco depois das 5 horas, pôs-se o cortejo em marcha, indo à frente a Academia com o respectivo pendão, a seguir os
excursionistas e as pessoas que o tinham ido receber, entre os quais o presidente e vereadores da Câmara Municipal, e por fim, uma
extensa fila de automóveis conduzindo muitas outras pessoas.
Ao chegarem à avenida de João Gonçalves Zargo, foram os excursionistas saudados com o hino espanhol, como já o haviam sido na
ocasião de desembarca e ao darem entrada nos Paços do Concelho, de novo se fez ouvir o mesmo hino, tendo o dr. Teixeira Jardim,
ilustre presidente da Câmara, proferido uma bela alocução, à qual respondeu o distinto tenerifenho D. Andrés Orosco.
Foi também brilhante a recepção que os tenerifenhos tiveram no palácio da Junta Geral, tendo discursado o dr. Vasco Marques, D.
Andrés Orosco e o dr Fernando Tolentino da Costa, este último ao ser oferecido aos nossos ilustres hóspedes uma taça de
champanhe, numa das salas do mesmo palácio.
Nem todos os excursionistas vieram no vapor Viera y Clavijo; alguns deles haviam chegado no dia 26, no vapor Andormha, em
viagem para Inglaterra.
Os tenerifenhos foram por toda a parte muito bem recebidos, tendo-lhes sido oferecido no dia 3 de Janeiro, um lanche no Terreiro
da Luta, e um chá no Monte. Visitaram muitos pontos no Funchal e arredores, e alguns deles revelaram oe seus conhecimentos
musicais no teatro do Dr. Manuel de Arriaga, sendo muito apreciados e aplaudidos.
Regressaram a Tenerife no vapor Viera y Cldoijo, no dia 4 de Janeiro de 1923, e, a 4 de Fevereiro do mesmo ano, aprovou o
ayuntamiento de Santa Cruz uma proposta do alcaide D. Andrés Orosco no sentido de se dar à praça do Teatro, naquela cidade, o
nome da ilha da Madeira, como prova de agradecimento aos madeirenses pela maneira como os excursionistas haviam sido aqui
tratados.
A lápide com o referido nome foi inaugurada a 4 de Maio, assistindo à cerimónia as autoridades civis e militares, e bem assim o
cônsul de Portugal em Tenerife, que representava a Municipalidade do Funchal. Ao ser corrida a cortina que cobria a mesma lápide,
a banda municipal executou os hinos espanhol e português, discursando depois o referido cônsul e o alcaide D. Andrés Orosco.
A Câmara Municipal do Funchal correspondeu à homenagem prestada aos madeirenses na cidade de Santa Cruz de Tenerife, dando
o nome de Praça de Tenerife a uma parte considerável do antigo Campo da Barca, depois de proceder à conveniente adaptação
desse local para o fim que fica indicado.
Tentilhão (Fringilla tintillon)
Ave da família Fringilida, comum nas zonas arborizadas da região média da Madeira, onde só
acidentalmente aparece.
Tem bonita plumagem e canto agradável. Confecciona o seu ninho com raízes e colmos de gramíneas ou líquenes, sendo o interior
forrado de lã, cabelo ou penas. Faz uma postura de 4 ovos, que podem variar desde o verde ou azul claro até o avermelhado,
passando pelo azul carregado.
Terceira Lombada (Pico da)
Elevação montanhosa na freguesia da Ponta Delgada, donde se disfrutam belos horizontes.
Terços. Sítio povoado da freguesia da Ponta Delgada. Neste sítk^ encontra-se a Quinta da Palmeira, que é hoje residência episcopal,
sendo nela construída recentemente uma capela cuja invocação ignoramos.
Teresa (Maria Francisca).
V. Soares (D. Laura de Castro e Almeida)
Termo. Era nos tempos do governo absoluto, uma subdivisão da comarca e estava sob a jurisdição dum juiz, que era ao mesmo
tempo presidente da Câmara Municipal. O termo do Funchal, à frente do qual estava um juiz de fora de nomeação régia, estendia-se
desde o Caniço até a ribeira da Ponta do Sol, abrangendo 17 freguesias.
Terra (A.)
O primeiro número deste jornal bissemanal saiu a 8 de Maio de 1922. Deu 16 números e está suspenso por falta de
pessoal tipográfico.
Terra (Ventura)
Arquitecto português que organizou o plano de melhoramentos de que carece a cidade do Funchal, de harmonia
com as deliberações camarárias de 21 de Novembro de 1912 e 3 de Fevereiro de 1913. A Câmara Municipal e a Junta Agrícola
custearam as despesas desse trabalho, o qual foi recebido pela primeira destas corporações em 19 de Novembro de 1915,
acompanhado de duas cópias, uma das quais foi enviada à mesma Junta Agrícola.
Foi o arquitecto Ventura Terra, há pouco falecido, quem levantou a planta da antiga avenida Oeste, hoje do Dr Manuel de Arriaga,
ef entre os melhoramentos indicados por ele para embelezamento da cidade, conta-se a construção duma avenida sobre a ribeira de
Santa Luzia. (1921)
Terra do Baptista
Sítio povoado da freguesia do Porto da Cruz, 105 foros e 651 habitantes. Ali existiu uma capela da invocação
de Nossa Senhora da Fé, fundada pelo morgado Diogo Dias de Orneias e Vasconcelos, no ano de 1826. Também ali existiu uma
capela dedicada a Santo António, pertencente à família Nunes Caldeira, e fundada por 1760. Este sítio pertenceu ao morgadio
instituído pelo genovês João Baptista da família italiana Usodimare, que casou com um filho do primeiro donatário de Machico,
Tristão Vaz e de que foi último representante João Bettencourt Baptista.
Terreiro da Luta
Na freguesia do Monte e a 850 metros acima do nível do mar, fica o sítio do Terreiro da Luta. Foi por ali que
uma piedosa lenda fixou a aparição da Santíssima Virgem a uma pobre e inocente pastorinha, como fica sumariamente referido a
páginas 438 do 2.° volume.
Deste lugar se descortinam vastos horizontes de uma inexcedível e incomparável beleza.
Esses surpreendentes panoramas de tal modo fascinaram o distinto madeirense comendador Manuel Gonçalves, director da
Companhia do Caminho de Ferro do Monte, que ele concebeu a ideia do prolongamento da linha férrea até aquela pitoresca
estância e da construção dum grande restaurante lá no alto da escarpada montanha que fosse um ponto obrigado de atracção para
nacionais e estrangeiros. A empresa era difícil e arriscada, mas a tenacidade, o talento e o espírito empreendedor do comendador
Gonçalves souberam subjugar todos os contratempos que se levantaram. Em curto espaço de tempo se construíram cerca de 1.400
metros de linha em terreno acidentadíssimo e se levantou o belo e grandioso edifício, que é hoje conhecido pelo nome de
Restaurate-Esplanada do Terreiro da Luta, tendo-se a inauguração solene deste troço da linha férrea e do restaurante, realizado nó
dia 24 de Junho de 1912. (1921).
Num pequeno folheto ilustrado, de propaganda, lê-se uma bela descrição do sítio, devida à pena dum ilustre escritor madeirense, e
que deve ficar arquivada nestas páginas:
«São famosas, diz o referido escritor, as paisagens da Suiasa pelas suas altitudes e caprichosa orographia pelas suas geleiras e
formosíssimos lagos, mas falta aos quadros naturaes da accidentada Heive tia esse fundo magestoso e cheio de grandeza que nos
leva ã concepção da imensidade, origem primordial da vida, e aonde a vida em seu seio constantemente se multiplica e perpetua: —
o misterioso oceano.
«Em volta do «Terreiro da Luta», erguem--se ao Norter Leste e Oeste, elevadíssimas serras, constituindo elle próprio um planalto
de montanha coberto de densos e embalsamados pinheirais; do lado sult porém, abre-se vasta e ridente, a bahia do Funchal,
alargando-se numa curva suavíssima desde a projecção do Balançai ao nascente, até o corte abrupto do mais alto promontório do
mundo: o famoso Cabo Girão.
«A vista, pouco a pouco, afastando-se dos aspectos mais agrestes desta natureza singular, abysmos inesperados e profundos,
elevações surprehendemtes de declive e altitude tudo coberto de vegetação que se entrelaça, vai, por uma gradação insensível,
descendo pelo valle que se nos abre aos pés, o Curral Velho, correndo sobre os altos campanários do branco templo, ligar-nos á
civilização: passa sobre a arrumada casaria da cidade, estende-se sobre o porto onde os vasos de guerra e os alterosos
transatlânticos perdem a sua grandeza perturbante, e alonga-se, para além, até a vastidão do horizonte, a fundir na retina
deslumbrada o anilado das aguas com o luminoso azul do firmamento.
«D'este planalto avista-se a levante, o Pico do Infante, o Balancalt a Choupana e S Gonçalo; ao Sult o Funchal e o largo porto
puntilhado de negro pelas embarcações de todo o lote, e, caminhando para o poente, as freguesias de S. Martinhot S. Roque, Santo
António, Câmara de Lobos, Estreito e Serras da Quinta Grande, cujo fim de crista, ao Sul, é o Cabo Girão, e ao Norte, as Fontainhas
na partilha de Câmara de Lobos.
«Da freguesia do Estreito, vê-se, parcialmente, o famoso «Jardim da Serra» e o sítio conhecido pela «Boca dos Namorados».
«O planalto cava para o Norte um valle fundo, o Curral do Leme, a que outros e outros valles se succedemj elevando-se o terreno
pouco a pouco em dobras cobertas de densos pinheiraes. D'este lado cercam o «Terreiro da Luta», nas maiores alturas, as Serras do
Monte, entre as quaes, o Rebentão, na altitude de 1.200 metros.
«O pôr do sol observado d'este ponto incomparável, é d'efeitos verdadeiramente indescriptiveis. A obliquidade dos raios luminosos
accusa o caprichoso accidentado das forma, duplicando-as com as suas sombras alongadas, define os múltiplos valles, de tão
variados verdes, que se estendem para Camará de Lobos, imprime relevo aos picos e mamelões que para esse lado se alevantam, e
deixam em recorte negro, sob um céu de fogo, o gigantesco Girão, tudo polvilhando d'um tom purpureado que dá á paisagem um
aspecto phantastico, eminentemente theatral...
«Foi nesta encantadora estancia, donde tan¬tas e tão incomparáveis maravilhas se desfrutam, que foi construído o Restaurante-
Esplanada, elegantissimo edifício no tipo dos chalés suissos, todo em cimento armado, sys-tema Hennebique, e occupando uma
extensão de 37 metros por 16 de profundidade. Ao Sul, na frente da edificação, estende-se um terraço coberto com 46 metros de
comprimento por 8 metros de largo, onde as visitantes podem, gosando um panorama sem rival, servir-se nas pequenas mezas que
ali se acham espalhadas. Ao terraço segue-se o jardim, amplo e cultivado por todos os specimans da exhuberante e variada flora
ornamental que vegeta nesta ilha.
«O vasto Salão Restaurante fica no primeiro pavimento, onde existe também o salão para jantares particulares ou festas intimas.
N'este mesmo andar se acha instalado o Jardim d'lnvemo, delicioso como conforto, encantador pela disposição das plantas que o
compõem e pelo fino gosto de todos os acessórios decorativos, expressamente adquiridos no estrangeiro, entre o que de mais
moderno existia nesta especialidade.
«O Buffete e o American Bar occupam ambos duas espaçosas salas do primeiro andar.
«É ainda no corredor deste mesmo pavimento que se encontram instaladas os «Lavabos e quartos de toilette», satisfazendo as
requintadas e modernas exigências do conforto e da hygiene.
«Nas caves estão os depósitos de bebidas, frigorifico, armazene de provisões, etc, e a cosinha, com fogo central, fogão especial para
serviço de grill-room, fogão para aquecimento de louça, e uma bateria opulenta toda de cobre e nickel.
«Do torreão lateral, com a altura de 10 metros, acentua-se a inegualavel vista à vol d’ oiseau que se desfruta do terraço ou de
qualquer outro ponto do «Terreiro da Lucta».
«O edificio possue aquecimento a vapor para os dias frios e numerosas ventoinhas para os dias de calor, sendo todo iluminado a luz
eléctrica.
«A instalação do Restaurante-Esplanada do Terreiro da Luta, guardadas as devidas pro¬porções, obedeceu á ideia de, em caso
algum, ficar elle inferior aos melhores e mais mo¬dernos estabelecimentos da Europa, no seu género, attendendo-se sobretudo ao
mais escrupuloso aceio e ao máximo bem estar do visitante».
A extinta Junta Agrícola começou a abrir um estrada destinada a ligar o Terreiro da Luta a Santo António da Serra, estrada que se
um dia se concluir, permitirá a nacionais e estrangeiros transportar-se rapidamente a uma das mais belas estâncias que possui a
ilha. Se aquela corporação em vez de adquirir montados e de fazer outras despesas a bem dizer inúteis, tivesse aplicado uma parte
dos seus avultados rendimentos à conclusão da referida estrada, poderíamos transportar-nos hoje em cerca de três horas a uma
localidade que, pelas suas formosas paisagens e frescura e verdura dos seus campos, bem digna é da nossa admiração. (1921)
Num país como a Madeira, onde por toda a parte a natureza nos aparece em todo o seu esplendor, oferecendo aos olhos do visitante
panoramas cuja descrição, como disse um escritor, «é superior á energia da palavra e ao vigor do pincel mais hábil», é bastante
para lamentar que a viação se ache ainda atrasadíssima e que não possamos senão à custa de perigos e grandes sacrifícios, ver e
admirar muitas das principais belezas naturais da nossa terra.
Ao comendador Manuel Gonçalves se deve a inauguração da primeira estátua que entre nós se erigiu. Ao subir-se a pequena escada
que dá acesso ao jardim do Restaurante, depara-se com uma bela estátua em bronze, de João Gonçalves Zarco, representando o
descobridor no momento em que, na caravela do seu comando, se aproximava desta então ignorada ilha. Este primoroso trabalho é
devido ao cinzel do laureado artista Francisco Franco de Sousa. (1921)
Houve a feliz ideia de levantar-se neste paradisíaco local um grandioso monumento, em honra de Nossa Senhora da Paz, que consta
de uma primorosa imagem em mármore, assentada em um plinto ladeado por artísticos baixos-relevos fundidos em bronze e
alusivos à tradicional crença do aparecimento da Virgem Santíssima naquele mesmo local. Anexo ao monumento, ergue-se uma
pequena e elegante ermida, em que frequentemente se celebra o santo sacrifício da missa e outros actos do culto. A erecção deste
monumento deve-se ao acendrado zelo e aturados esforços do padre José Marques Jardim, que não se poupou aos maiores
sacrifícios para que ele revestisse a imponência e o aspecto de grandeza que o caracterizam, indo até o estrangeiro angariar
donativos para conseguir a realização desta obra. A inauguração solene que revestiu o maior aparato e a que acorreram milhares de
pessoas vindas de todos os pontos da ilha, realizou-se sob a presidência do prelado diocesano a 14 de Agosto do ano de 1927.
Pelo interesse que oferece à notícia inserta neste artigo, vamos transcrever a acta do lançamento da primera pedra e que ficou
arquivada na pedra angular do monumento.
«Ao primeiro dia do mês de novembro do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e vinte e três, no pontificado de Sua
Santidade Pio XI e episcopado de Sua Excelência Reverendíssima Dom António Manuel Pereira Ribeiro, sendo Presidente da Nação
Portuguesa S. Ex.a o sr. Manuel Teixeira Gomes, e Governador deste Distrito do Funchal o sr. Eduardo da Rocha Sarsfield, no sítio
da Fonte da Telha, junto ao Terreiro da Luta, se procedeu à Fundação e Lançamento da primeira pedra para o Monumento a Nossa
Se¬nhora do Monte, Padroeira Maior da cidade do Funchal e Menor de toda a Diocese pela forma que segue;
Depois de celebrada missa pelas nove horas da manhã, na Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Montet no adro da mesma igreja se
organizou um grandioso cortejo, constituido pela multidão dos fieis que, desejosos de glorificar a sua celeste Bemfeitora tinham
acorrido de toda a Ilha que logo se alvoroça quando se trata de proclamar o valimento da Senhora do Monte.
Postos em marcha, em ordem, distribuídos pelas diferentes associações, civis e religiosas, grupos de crianças das escolas e
catequeses, sustentando insígnias, pendões e estandartes, era maravilhoso vê-los, encosta acima entoando hinos e preces
agradecidas pelos inumeráveis favores que, em tempos calamitosos, por intermédio da mesma Senhora, prontamente têem sido
obtidos.
A Imagem milagrosa, levada no seu andor no meio de toda aquela multidão, fazia assim a sua ascensão triunfal ao lugar onde
outrora regalara com doces e mimos celestes a pequenina Eva, irmãsinha mais velha destas que hoje vêem recordar, neste mesmo
sitio, scenas aqui passadas e, quem sabe, por elas, na sua inocência melhor compreendidas.
Os que contemplaram a chegada do Cortejo ao logar destinado para o monumento e assistiram á missa campal sempre
acompanhada dos sons graves da musica, misturados com os cânticos de milhares de lábios, julga-ram-se fora da terra e naquelas
alturas mais próximas do céu!
Não era nada! Era a gratidão repreza ha mais de três séculos no coração estuante do Povo Madeirense e ainda mal sarado de males
e horrores continuos, irromenpendo célere do imo da alma.
A ultima guerra deixára-o exausto de lágrimas, fomes e sobressaltos cruéis. Tinha sido moido debaixo da mó sinistra do
bombardeamento. Os seus filhos, na pessoa de bons sacerdotes, briosos oficiais e prestantes soldados, partiram para a guerra. A aza
negra da morte roçava-o de perto — Os seus olhos em esgare piedoso de suplica dirigiram-se para o alto e a Virgem do Monte
acolheu a sua prece.
Com a paz foram também glorificadas as armas portuguesas.
Quem poderá opor uma barreira a esta vontade livre do povo por glorificar os seus heróis e deixar um padrão de vitalidade da sua
raça que, se por vezes foi de medos, nunca foi de covardias! Nossa Senhora do Monte é a sua Padroeira. A alma do nosso povo é
feita dum torrão da Pátria e dum sopro de Pé. Destruir esta é diluir Aquela. Por isso as festas da Religião, entre nós, são a
apoteose da nossa Pátria e a glória dos nossos guerreiros.
O Monumento a Nossa Senhora do Monte, ao alto desta montanha será a consagração da sua fé religiosa, pela afirmação sincera do
amor da sua Pátria.
O Monumento a Nossa Senhora do Monte, como ser um voto para a Paz do Mundo, é acção de graças por todos os benefícios
passados. Não está ainda traçado na pedra, nem se ergue ainda com toda a sua majestade comovente aos olhares dos que forem
passando, mas existe vivo, cheio de esplendor na alma de todos os madeirenses que o concebem e para ele vão emprestar o esforço
da sua vontade e a oferta da sua generosidade nunca excedida.
E assim na presença de Sua Excelência Reverendisima, o Senhor Bispo do Funchal, Corporações Civis, Associações Católicas,
Academia, Imprensa, Classes, Escolas e grande concurso de Povo sendo quatro horas da tarde se fez o lançamento da pedra
fundamental, com a Bênção do Pontifical Romano, guardadas as cerimónias próprias como é de estilo nestes actos. Deu com o
martelo as pancadas do rito, Sua Excelência Reverendíssima o sr. Bispo, ministrando a colher o exm.° sr. dr. Manuel Pestana Reis, a
convite do pároco, representando a cidade, e servindo a trolho o exm.° sr. dr. Romano de Santa Clara Gomes, representando o
Povo Madeirense.
E para constar, se passou em duplicado esta acta que, depois de assinada pelos presentes, foi guardada no original, em cofre de
ferro, juntamente com jornais do dia e moedas da época debaixo da pedra fundamental e a copia entregue a Sua Excelência
Reverendíssima o Sr. Bispo, para ser conservada no arquivo da Câmara Eclesiástica.
Fonte da Telha, na freguesia de Nossa Se¬nhora do Monte, 1 de Novembro do âno de 1923».
Tesoura (Forficula auricularia)
Insecto ortóptero que vive nos jardins, especialmente nos lugares húmidos. O nome por que é
co¬nhecido provém de dois pequenos apêndices semelhantes a uma pinça ou tesoura, que tem na parte inferior do corpo.
Tesouros.
Thompson (I. C).
V. Selvagens.
Visitou a Madeira na primavera de 1887. E.: Capepada of Madeira and the Canury IsJainds (Lwm. Joum. —
Zoo-loffy, vol. XX).
Thomson (W.)
V. Expedições Científicas, a página 410 do 1.° volume.
Thomson (Sir William)
Este distinto homem de ciência inglês, a quem foi dado em 1892 o título de Lord Kelvin, esteve na
Madeira em 1874, por ocasião desta ilha ser ligada ao Brasil e a Portugal por meio do telégrafo submarino, tendo casado aqui com
Miss Francis Ana Blandy, filha do comerciante inglês Carlos Blandy. O casamento realizou-se no consulado britânico, no Funchal, a
24 de Junho de 1874, tendo W. Thomson nessa época 49 anos, e sendo já viúvo, e a esposa 36.
Tiarks (Dr.)
Veio à Madeira em 1822, por ordem do governo inglês, a fim de verificar a diferença de longitude entre Greenwich e
o Funchal. Trouxe na sua bagagem 14 cronómetros.
Tierno (João)
Foi intendente de pecuária no Funchal e publicou em 1897, no Boletim da Direcção Geral de Agricultura, 6.° ano,
n.° 11, um trabalho intitulado Relatório do Veterinário do Funchal, em que apresenta alguns dados meteorológicos, geológicos e
botânicos, extraídos em grande parte das obras nacionais e estrangeiras que se ocupam da Madeira. Na distribuição das plantas por
zonas, há nessa obra lapsos difíceis de explicar, chegando-se a apontar o folhadeiro como espécie característica dos altos cumes
madeirenses, quando é certo que tal espécie não vai além dos vales do interior, sendo muito frequente na freguesia da Camacha. As
observações meteorológicas que o sr. Tierno dá como realizadas nas casas de abrigo da Ser do Faial, Vale da Lapa e Paul da Serra,
desde 1888 até 1890t não constam de registo algum, havendo-nos declarado os encarregados das mesmas casas não terem tido
conhecimento delas, o que achamos extraordinário. (1921)
Tigarro
No Porto Santo dão este nome ao Scotymus maculatm, composta espinhosa que também vegeta na Madeira, nas
proximidades do litoral.
Til (Ocotea foetens)
Laurácea de 15-30 metros, com as folhas coriáceas, ovadas, lanceoladas ou oblongas, peludas nas axilas das
nervuras da página inferior; flores pequenas, de ordinário hermafroditas, reunidas em partículas; baga cingida parcialmente por
uma cúpula formada pela base acrescente do perianto. Encontra-se nas florestas do interior e do norte da Madeira, e produz
madeira com cerne e borne bem delimitados, este branco, aquele negro. Recentemente cortada, esta madeira tem um cheiro forte e
bastante desagradável, que só desaparece completamente passados anos. A madeira do til é de excelente qualidade e muito usada
para móveis e diferentes outras obras. O «til branco» dos marceneiros, provém das árvores novas ou do alburno das árvores
antigas.
Tintureira (Carcharias glaucus)
Peixe da família Carcharuda que aparece nos nossos mares, onde é o genuíno representante
dos tubarões. Tem o dorso azulado, sendo por este motivo conhecido nalguns países pelo nome de tubarão azul.
Os pescadores procuram sempre matá-lo logo que o avistam, pois é um dos mais temíveis animais dos nossos mares.
A sua carne, de inferior qualidade, raras vezes é aproveitada.
Tintureira (Rhamrms latifoUa)
Arvore indígena da família das Ramnáceas, perfeitamente extinta nas serras da Madeira.
Encontra-se nalgumas quintas do Monte, e reconhece-se pelas suas folhas elípticas, acuminadas, subglabras, com as nervuras
laterais paralelas e equidistantes, e pelas suas flores pequenas, amareladas, pedunculadas, axilares, Ê conhecida também pelo nome
de ginjeira brava e produz madeira acastanhada ou avermelhada, dura e homogénea.
Títulos Nobiliárquicos
O título nobiliárquico mais antigo de que temos conhecimento, referente a pessoas deste arquipélago, é
o que foi concedido a Simão Gonçalves da Câmara, 5.° capitão-donatário do Funchal, por alvará régio de 20 de Agosto de 1576
(volume I, página 180 e 198).
Não temos conhecimento da concessão de outro título nos séculos XVI, XVII e XVin, havendo em 1812, por decreto de 17 de
Dezembro, sido conferida a mercê de visconde de Torre Bela ao morgado Fernando José Correia Brandão Bettencourt de Noronha
Henriques, que foi representante de Portugal em Hamburgo, Estocolmo, Berlim, Viena e Nápoles (V. Torre Bela).
O estadista e diplomata António Saldanha da Gama, que casou com D. Antónia Basília Herédia de Bettencourt, representante e
herdeiro da casa vinculada dos Herédias desta ilha, foi agraciado com o título de conde do Porto Santo, por decreto de 26 de
Outubro de 1823.
Carlos Stuart, súbdito britânico, que representou o seu país na corte de Lisboa, teve o título de conde de Machico, concedido por
decreto de 22 de Novembro de 1826. (V. volume II, página 280).
O título de conde de Carvalhal foi concedido, por decreto de 13 de Setembro de 1835, a João Xavier de Carvalhal Esmeraldo
Vasconcelos de Atouguia Bettencourt de Sá Machado, o mais opulento proprietário desta ilha e um dos mais abastados de todo o
país (volume I, página 243 e seguintes).
O ilustre madeirense João Gualberto de Oliveira, estadista e parlamentar foi agraciado com a mercê de barão de Tojal, por decreto
de 4 de Abril de 1838, e de conde do mesmo título, por decreto de 17 de Setembro de 1844. (V. Tojal).
O dr. Daniel de Orneias e Vasconcelos, par do reino, recebeu a graça de barão de S. Pedro, por decreto de 12 de Agosto de 1845
(volume III, página 23).
Com o título de visconde de Santa Cruz, vila desta ilha, foi a 15 de Outubro de 1851 agraciado António Manuel de Noronha, antigo
governador e capitão-general deste arquipélago (volume II, página 427).
Ao distinto madeirense António Aluísio Jervis de Atouguia (volume I, página 99) foi conferido o título de visconde de Atouguia, por
decreto de 15 de Março de 1853.
Fortunado Joaquim Figueira foi agraciado com o título de barão da Conceição, por decreto de 11 de Setembro de 1855. Era sogro do
visconde de Andaluz e do advogado dr. Nuno Ferreira Jardim, e avô do dr. Alberto Figueira Jarim.
Teve o título de visconde das Nogueiras, concedido por decreto de 16 de Janeiro de 1867, o madeirense Jacinto de Santana e
Vasconcelos Moniz de Bettencourt, marido da viscondessa das Nogueiras (volume II, página 423) e pai do 2.° visconde das
Nogueiras (volume II, página 420).
Por decreto de 25 de Fevereiro de 1871 foi contemplado com a mercê de visconde da Calçada o morgado e grande proprietário,
Diogo de Orneias de França Carvalhal Frasão Figueiroa (volume I, página 179), que depois teve a graça de conde do mesmo título.
O morgado e proprietário, Diogo Berenguer de França, teve o título de visconde de São João, por decreto de 3 de Março de 1871.
A Francisco Correia Herédia, pelo decreto de 4 de Maio de 1871, foi conferido o título de visconde da Ribeira Brava (V. este nome).
Foi concedido ao dr. João de Freitas da Silva o título de visconde de Monte Belo, por decreto de 2 4de Março de 1880 (volume II,
página 53).
João Bettencourt de Araújo Carvalhal Esmeraldo (volume III, página 199) foi agraciado com o título de visconde do Ribeiro Real,
por decreto de 23 de Março de 1882, sendo depois elevado a conde do mesmo título.
O dr. António Evaristo de Orneias foi agraciado com a mercê de barão de Orneias, por decreto de 14 de Outubro de 1886 (volume
III, página 20).
Dos titulares de cujas datas dos respectivos decretos que os agraciaram não temos conhecimento, faremos menção do conde de
Canavial (volume I, página 221), visconde de Gonçalves de Freitas (volume II, página 92), visconde da Casa Branca (general
Alexadre César Mimoso)! Visconde de Bianchi (Augusto César de Bianchi), visconde de Vale Paraíso (João António Bianchi), barão
do Jardim do Mar (Tristão Vaz Teixeira de Bettencourt e Câmara), barão de Uzel (Luís Augusto Ribeiro de Mendonça) e barão da
Nora (Frederico Teles de Meneses).
D. Álvaro da Costa de Sousa Macedo, governador e capitão-general deste arquipélago (volume II, página 276) teve o título de conde
da Madeira, e Domingos António de Sousa Coutinho o de conde e marquês do Funchal (volume II, páginas 56). A mesma família
pertence Agostinho de Sousa Coutinho, que teve também o título de marquês do Funchal e que por duas vezes exerceu o cargo de
governador civil deste distrito (volume II, página 56).
Tojal (Conde de)
João Gualberto de Oliveira, 1.° barão e 1.° conde de Tojal, nasceu nesta cidade a 12 de Julho de 1788 e era filho
do distinto madeirense João Francisco de Oliveira (volume III, página 11) e de D. Maria Joaquina Farto de Oliveira.
Pertencente a uma antiga família de comerciantes, era ele próprio um importante negociante de vinhos no Funchal, quando foi
eleito deputado pela Madeira para a sessão legislativa que funcionou de 1834 a 1836. Foi também senador eleito por este
arquipélago nas legislaturas de 1838 a 1840 e de 1840 a 1842, e em 1843 tomou assento na câmara alta como par do reino efectivo.
Sobraçou a pasta da fazenda em 1837 a 1838, em 1841, de 1842 a 1846 e em 1847, e foi ministro dos negócios estrangeiros de 1849 a
1851. Também geriu interinamente as pastas da marinha, do reino e da justiça cumulativamente com a da fazenda.
João de Oliveira distingue-se notavelmente como parlamentar e estadista. Os discursos que proferiu no parlamento alcançaram-lhe
os foros dum distinto orador político, revelando não só uma notável correcção de forma, mas sobretudo um aprofundado
conhecimento dos assuntos que versava.
Foi como estadista e dirigindo os negócios da fazenda que mais se notabilizou, deixando o seu nome vinculado a importantes
reformas, e ocupa por isso um lugar de destaque na história das finanças do nosso país. A remodelação que fez de muitos serviços
fazendários relativos à arrecadação e distribuição dos impostos, à organização dos orçamentos, aos contratos com os credores
externos, etc, revelam as suas eminentes qualidades de financeiro e de homem de estado. Apesar disso, como acontece a todos os
que militam na política partidária, foi atacada a sua administração financeira, principalmente pelo deputado conde de Podentes,
que no parlamento e em dois opúsculos criticou abertamente todos os actos de João de Oliveira como ministro da fazenda. Também
nos dois volumes da obra intitulada Hont&m, Hoje, e Amanhã, se consagram algumas páginas à sua acção como titular da pasta das
finanças. O conde de Tojal publicou um folheto rebatendo as acusações que lhe foram feitas e também pu¬blicou num opúsculo
alguns dos seus discursos proferidos no parlamento.
A 4 de Abril de 1838, foi agraciado com a mercê de barão de Tojal e a 17 de Setembro de 1844 com a de conde do mesmo título.
Tinha muitas condecorações nacionais e estrangeiras, e exerceu o cargo de inspector geral dos correios e postas do reino.
Morreu em Lisboa, onde há muitos anos se tinha estabelecido como negociante! a 9 de Fevereiro de 1852.
A 27 de Março de 1884, foi concedido o título de visconde de Tojal a João Vicente de Oliveira, dizendo-se no respectivo decreto que
esta graça era para «perpetuar na sua pessoa a memoria dos bons serviços prestados ao país por seu falecido primo o conde de
Tojal, do qual é o único varão representado».
Tolentino da Costa (Dr. Fernando)
Nasceu no Porto do Moniz a 10 de Fevereiro de 1873 e cursou o liceu e a Escola Médico-
Cirúrgica do Funchal, tendo concluído o curso médico em 1897. Foi facultativo em S. Tomé e na Trafariat e médico dos vapores
portugueses de J. M. Andressen, do Porto. Fez parte da comissão administrativa da Câmara Municipal do Funchal durante o
governo do conselheiro João Franco e foi mais tarde, depois da República, presidente da mesma Câmara, sendo por iniciativa sua
que se fez a demolição do edifício da cadeia do largo da Sé, reclamada durante mais de meio século pela imprensa e pelo público
funchalense. Tem sido presidente da comissão executiva da Junta Geral do Distrito e fez parte da antiga Junta Agrícola, sendo
devido a uma proposta sua que esta última corporação fez publicar a Flora do Archipelago da Madeira, em 1914 (1921).
Tomás (Manuel)
Segundo se vê na Nobiliarchia Portuguesa, volume 2.°, página 212 nasceu Manuel Tomás em Guimarães no
ano de 1585, sendo filho do médico Luís Gomes de Medeiros e de D. Gracia Vaz Barbosa.
São-nos inteiramente desconhecidas as circunstâncias particulares da sua vida até que se estabeleceu na Madeira e os motivos que
o levaram a deixar o Continente do Reino para fixar residência definitiva nesta cidade, onde permaneceu até à morte.
O ilustre anotador das Saudades da Terra inclina-se a supor com bons fundamentos que Manuel Tomás fosse capitular ou mesmo
dignatário da Sé do Funchal, pela referência que o licenciado Bartolomeu do Vale Cabreira lhe fez na censura do poema A Insulana,
dizendo que «pelo decurso de muitos annos acquiriu o beneesse de que tambem cotado estaa».
Também temos razões para acreditar na opinião do dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, julgando que o autor da Insulana e do Phenix
da Lusitânia era cónego da catedral do Funchal.
Pouco sabemos da vida deste apreciado poeta e considerado escritor, dizendo Inocêncio Francisco da Silva, seguindo a Bibliotheca
Lusitana, «que morreu assasinado por um filho dum ferrador aos 10 de Abril de 1665, quando contava 80 annos de edade, sem que
todavia se nos patenteie o motivo que houve da parte do assassino para praticar tal atrocidade».
Diz o dr. Azevedo que Manuel Tomás «tendo-se envolvido nas dissenções de que ao diante proveiu a sedição ecclesiastica de 18 de
setembro de 1668, foi por isso assassinado em 10 de Abril de 1665 por um filho d'um ferrador».
Não sabemos em que razões se fundou o ilustre professor para fazer tal afirmativa, nem como se matou um homem, e de mais
octogenário, por causa de acontecimentos que se deram três anos e meio depois do seu assassinato, pois Manuel Tomás sucumbiu a
10 de Abril de 1665 e a sedição rebentou a 18 de Setembro de 1668, segundo afirma o mesmo dr. Álvaro de Azevedo, e como pode
também ver-se no artigo «A deposição d'um governador», publicado há anos no Diário do Commercio.
Bom é notar, o que para o caso presente tem a maior importância, que a sedição foi movida contra o governador D. Francisco de
Mascarenhas, por supostos ou verdadeiros agravos dele recebidos, e que este governador e capitão-general da Madeira tomou posse
do seu governo em 28 de Novembro de 1665, isto é, sete meses depois do assassinato de Manuel Tomás.
Parece-nos, pois, muito difícil filiar na sedição de 1668 a morte do ilustre poeta, a não ser que subsídios históricos ainda não
conhecidos venham modificar esta nossa opinião.
E bem conhecido, ao menos de nome, o poema épico que ligou Manuel Tomás à história madeirense e o tornou extremamente
simpático aos filhos deste arquipélago, narrando, embora com as ficções e hipérboles da poesia e ainda mais da poesia do tempo, o
descobrimento da Madeira, que atribui primitivamente a Machim, o seu progressivo desenvolvimento, as diversas fases da sua
história e muito particularmente os feitos e acções que ilustraram muitos madeirenses. Sendo um poema, em que o autor deu largas
à fantasia, não deixa ainda assim de encerrar algumas indicações apreciáveis e não despiciendas para a história da Madeira.
A obra, que foi publicada em Flandres em 1635, teve grande voga e durante um longo período de tempo constituiu leitura predilecta
de todos os madeirenses ilustrados, sendo muito frequentes as citações e referências que a ela se fazem em diversos manuscritos,
memórias, nobiliários e vários outros escritos que tratam de coisas madeirenses.
Quanto aos méritos literários de Manuel Tomás e ao valor do seu poema Insulana, ouçamos a opinião autorizada de Inocêncio
Francisco da Silva, que não costuma ser pródigo em elogios:
«Foi Manuel Thomaz um poeta da escola gongorista, de cujos preceitos se mostrou sempre afervorado discípulo. Posto que o seu
estylo seja, como convinha a essa escola, túrgido e emphatico, e que abunde em ideias hyperbolicas, em ampliações e conceitos, etc,
nem por isso deixa elle de posuir seu mérito real, como homem dotado de engenho fecundo e de viva imaginação. A maior parte dos
defeitos que se lhe notam, não são seus, mas do século em que viveu, e das ruins doutrinas em que foi educado. O erudito Francisco
José Freire na sua Arte Poética, cita com louvor e por mais de uma vez, a Insulana como uma das nossas epopeias mais notáveis; e,
em verdade, parece ser esta a mais valiosa composição de Manuel Thomaz; o seu maior peccado é talvez a sua nimia extensão,
porque bem poderia reduzir-se a cinco ou seis cantos, com o que ficaria de certo mais regular».
Manuel Tomás também escreveu o poema o Phenix da Lusitânia, que trata da libertação de Portugal do jugo castelhano, além
doutros escritos que vêm enumerados no Diocionario Bibliographioo Portugwez.
De assunto semelhante à Insulana, é o poema Zargueida, publicado em 1806 e escrito pelo poeta madeirense Francisco de Paula
Medina, de quem já nos ocupámos.
Tomateiro (Solanum Lycop&rsicum)
Solanácea muito cultivada na Madeira e Porto Santo por causa dos seus frutos duma
acidez agradável, muito empregado nas cozi¬nhas. O tomateiro é originário da América e produz bagas deprimidas e sulcadas,
giobo-sas ou obovadas.
Tomateiro Arbóreo (Solanum insigne)
Pequena árvore ou arbusto com folhas oblongo-ovadas ou ovadas, cordiformes na
base, flores avermelho-esbranquiçadas, e bagas grandes, ovoideas ou elípticas alaranjadas. Estas bagas são comestíveis e podem
substituir os tomates em certos usos culinários.
Tomateiro do Diabo (Solanum sodomcáBum)
Solanacea arbustiva espinhosa, naturalizada no Caniço e nalguns pontos do
Funchal, Tem flores violáceas e bagas globosas, amarelas.
Tomateiro Inglês (Phyaalis peruviana)
Solanacea com folhas cordiformes e bagas globosas, inclusas nos cálices,
perfeitamente naturalizada na Madeira. Estas bagas são comestíveis, e prepara-se com elas um doce muito saboroso.
Toninha. Nome dado na Madeira aos indivíduos novos de duas espécies de cetáceos: Phooaena communis e Delphinus delphis.
Tormentina (Torpedo hebetans)
Peixe da família Torpedinida que aparece algumas vezes nos mares da Madeira.
Tornado (Vapor)
Foi aprisionado nas águas madeirenses, pela fragata espanhola Gerona, a 22 de Agosto de 1866, sendo
conduzido em seguida para Cádis.
Tôrre
Sítio da freguesia de Câmara de Lobos. Encontra-se ali a capela de Nossa Senhora da Boa Hora, fundada pelo morgado
António Correia Bettencourt Berenguer, que era pertença da casa dos condes de Torre Bela, que deste sítio tomaram o título do seu
condado. João Afonso Correia, um dos companheiros de Zargo, teve muitas terras de sesmaria em Câmara de Lobos,
compreendendo o sítio da Torre e outros, sendo considerado o tronco daquela distinta e antiga família maderiense.
Tôrre Bela (Visconde de)
Foi Fernando José Correia Brandão Bettencourt de Noronha Henriques, o 1.° visconde de Torre Bela,
que era filho do morgado António João Correia Brandão Bettencourt Noronha Henriques e de D. Ana Rosa de Vilhena. Nasceu
nesta ilha a 21 de Fevereiro de 1768 e faleceu na cidade de Nápoles a 31 de Outubro de 1821. Seguiu a carreira diplomática e foi
enviado extraordinário e ministro plenipotenciário do nosso país em Hamburgo, Estocolmo, Berlim, Viena e Nápoles. Era coronel
do regimento da Calheta, conselheiro de D. João VI e comendador da Torre e Espada. Procedia de nobre ascendência e
representava a antiga casa fundada por João Afonso, companheiro de Zargo que nesta ilha teve muitas terras de sesmaria e aqui
exerceu o cargo de almoxarife do infante D. Henrique. Diz Sanches de Baena que o visconde de Torre Bela era 5.° neto de António
Correia Bettencourt e de sua mulher D. Joana Henriques, que foram senhores das Alcáçovas e procediam de el-rei D. Henrique 2."
de Castela.
Do 1.° visconde de Torre Bela e de sua mulher D. Emília Henriqueta Pinto de Sousa, filha dos viscondes de Balsemão, nasceu em
1794 João Correia Brandão de Bettencourt Henriques de Noronha, que foi o segundo visconde de Torre Bela, ajudante de campo de
D. Miguel e que morreu no ano de 1875.
Casou este com D. Isabel Joaquina Correia de Atouguia e Vasconcelos, de cujo consórcio nasceu em Berlim, no ano de 1839, D.
Filomena Gabriela Correia Brandão Henriques de Noronha, que se consorciou com Ruasel Meneres Gordon, sendo estes os
terceiros viscondes e primeiros condes de Torre Bela. É! a condessa de Torre Bela a actual representante desta família. (1921)
Destes terceiros viscondes de Torre Bela, foi filho Diogo Murray Kenmure Correia, que serviu como adido na legação portuguesa em
Berlim e que teve o título de 4.° visconde e de 2.° conde de Torre Bela. Morreu há poucos anos na Alemanha. (1921)
O título de primeiro visconde de Torre Bela foi concedido por decreto de 17 de Dezembro de 1812.
Torre do Tombo
Vid. Madeira na Torre do Tombo (A) (11-307).
Torreão
Ê assim chamado o pequeno largo e a ponte que com ele comunica, não sendo um nome conhecido na toponímica
madeirense.
No local em que agora se encontra a Ponte do Torreão, ou, porventura, na sua mais próxima vizinhança, existia uma ponte de
madeira a entestar com o Caminho da Torrinha e por ela transitavam os numerosos romeiros que se dirigiam à capela, e desde
1565, igreja paroquial de Nossa Senhora do Monte.
O actual Caminho do Monte somente foi aberto ao público, com o trajecto que agora conserva, nos princípios do século XDC.
Diogo Forjaz Coutinho, que foi um dos mais ilustres governadores da Madeira, mandou ali construir uma nova e sólida ponte de
alvenaria em arco, havendo-se colocado em um dos resguardos do respectivo tabuleiro uma curiosa e pitoresca inscrição lapidar,
que se conserva no átrio do Museu Municipal e que vamos textualmente transcrever:
Pára, passageiro, pára.
Quando vás subir ao Monte
E admira de caminho
O bem feito desta ponte
Pello grande Forjas Coutinho
Em o anno de 1787.
Foi posteriormente alargado, como o estava exigindo o actual movimento de transeuntes e transporte de carga nesse local.
Nas suas imediações, fica a conhecida Fábrica do Torreão, o mais importante estabelecimento fabril existente entre nós e que tem
sido sempre um grande elemento de prosperidade para a nossa indústria agrícola, a reflectir-se notavelmente em todos os aspectos
da vida madeirense.
Vid.
os artigos Açúcar, Álcool, Aguardente, Cana Sacarina, Hinton e Indústria Sacarina.
Torrend (Padre Camilo)
Distinto micólogo francês, muito conhecido pelos seus estudos sobre os fungos de Portugal e da
Madeira. Ê membro da Companhia de Jesus e tem exercido o professorado em Lisboa, na Bélgica e no Brasil. Escreveu três
contribui¬ções para o estudo dos cogumelos madeirenses, publicadas nos volumes VIII, X e XI da Broteria (1909-1913).
Torres
Este apelido de família procede de António de Sousa Torres que em 1682 de¬sempenhava no Funchal o cargo de cônsul
espanhol.
Torres (Pico das)
O pico das Torres, constituído por diferentes montes rochosos e aprumados, o mais alto dos quais é o pico do
Gato, fica a curta distância do Pico Ruivo embora separado dele por uma profunda ravina. Para lá chegar, toma-se o lombo do
Furão e a ribeira do Gato, sendo, porém, a vereda péssima e passando às vezes na beira de medonhos precipícios.
O pico do Gato, o mais elevado da Madeira depois do Pico Ruivo, e que se diz ter cerca de 1.830 metros de alto, pode-se dizer que só
é conhecido dos pastores, pois que é muito difícil de trepar por causa das suas vertentes aprumadas, onde não há sombras de
veredas. Ouvimos a alguns homens do Curral que nos acompanharam até o pico Ruivo e ao sopé do pico das Torres, que, no alto do
pico do Gato, esteve uma senhora inglesa, que, para lá chegar, teve de ser amarrada, sendo puxada por meio de cordas nos lugares
mais escarpados, pelos guias madeirenses que levava em sua companhia. Lê-se num guia da Madeira, escrito em alemão, que, em
1905, foi o pico do Gato visitado por dois indivíduos de origem russa, parentes do autor do mesmo guia, mas não temos
conhecimento de nenhuma exploração feita naquele ponto elevado da ilha, por homens de ciência nacionais ou estrangeiros.
Torrinhas (Boca das)
Estabelece a passagem entre a serra da Boa Ventura e o alto do Lombo Grande no Curral das Freiras. Os
montes vizinhos acham-se cobertos ainda
de uma pujante vegetação, vendo-se também do lado da Boa Ventura belas matas de loureiros, assim como numerosos exemplares
do Isoplexis sceptrum, um dos mais lindos arbustos da Madeira. (1921)
Nas rochas que ladeiam a Boca das Torrinhas cresce em abundância o Sedum farinosum, pequena crassulacea indígena que se não
encontra na região baixa da ilha.
As Torrinhas estão a 1.454 metros acima do nível do mar, e a 5 horas de viagem da Boa Ventura e 3 do Curral das Freiras.
Toutinegra (Sylvia atricapilla)
Ave da família turdida, vulgar na Madeira e que, por causa da beleza do seu canto, é muitas
vezes criada em gaiolas.
A cor preta que normalmente cobre a cabeça do macho desce por vezes abaixo da nuca, recebendo a denominação de toutinegras de
capelo os indivíduos que apresentam este carácter, considerado pelos modernos ornitólogos como um caso de melanismo.
Outrora considerava-se a toutinegra de capelo como uma espécie distinta (Carruca Heinekeni).
A toutinegra constrói sobre as árvores um ninho de raízes entrelaçadas, no qual depõe até cinco ovos, cuja cor é variável tanto no
fundo como na ornamentação.
Toutinegra do Deserto (Sylvia deserti)
Pequena ave de passagem no arquipélago da Madeira e que habita nos oásis do
Sahará. Pertence, como a toutinegra indígena, à família Turdida.
Trabalho Português
Em algumas dezenas de artigos dispersos nesta obra e em especial os que se encontram a página 139 e 303
e seguintes do volume II e ali mencionados, ocupamo-nos com certa largueza das indústrias deste arquipélago, aos quais conviria
dar uma mais próxima e lógica coordenação mas que imperiosas circunstâncias não permitiram fazê-lo como seria para desejar.
Podendo prestar qualquer esclarecimento a esses assuntos, não queremos deixar de mencionar o opúsculo do escritor e economista
Peres Trancoso O Trabalho Português, I, Madeira, publicado em 1929 acerca das fontes da riqueza económica e do desenvolvimento
industrial e comercial deste arquipélago, embora possamos discordar de várias afirmações expostas no citado trabalho.
Desejamos particularmente referir-nos a algumas das conclusões apresentadas pelo autor, ignorando-se os dados estatísticos que
forneceram esses elementos de informação e que deveriam ficar ali arquivados ou ao menos citar-se a sua autorizada e segura
procedência.
São curiosas as notas subordinadas ao título Riqueza, que vamos textualmente transcrever:
VALOR DA PRODUÇÃO GERAL
Cana
10.000 contos
Vinhos (mosto) .... 17.000 >
Manteiga
18.000 »
Produtos agrícolas (le¬
gumes, cereais) . . . 10.000 »
1.000 »
Vagem
Vimes
1.800 »
Bananas
3.500 »
Diversas (fruta, queijo,
madeira, etc.) ....
2.000 >
63.300 >
ou 630.300 £ ou aproximadamente 3 £ por habitante.
RIQUEZA INDUSTRIAL
Estabelecimentos industriais
1.010
7.978
24.000 contos
Operários incluindo marítimos
Salário total deste operariado
Valor aproximado da indústria (edifícios, maquinaria, terrenos, ferramentas) 288.000
»
RIQUEZA URBANA
Valor de edifícios de moradia, comércio, etc, em toda a ilha .... 500.000 contos
(aproximado)
RIQUEZA DA TERRA
(Propriedade Rústica)
Propriedade rústica
(quintas, hortas, ter¬
ras de semeadura, po¬
mares, etc. (Valor ab¬
soluto)
Matas (10.000 hectares)
valor médio
461.600
RESUMO DO VALOR DA RIQUEZA
288.000 contos 461.600 » 500.000 >
Indústria fabril . .
Propriedade rústica
» urbana
Gados
70.000
411.600 contos
50.000 >
Várias (estradas, pon¬
tes, levadas, obras do
porto, etc.)
25.000
1.344.600
Tendo a Madeira proximamente 200.000 habitantes, a riqueza individual é de 6.670 escudos, ou 67 libras em números redondos,
que sendo um valor baixo relativamente à riqueza produtiva da ilha e suas possibilidades, só vem demonstrar que as leis restritivas
do rendimento e os excessivos impostos, assim como as leis que taxam os produtos de exportação, etc, empobrecem o meio, e
desequilibram a economia natural. No entretanto, não é de desanimar a conclusão numérica, pois que o futuro se antolha risonho à
formosa ilha da Madeira, até que um dia ocupe aquele lugar que lhe pertence na economia geral da Nação.
Trabalho e União
Publicava-se semanalmente e intitulava-se órgão da união dos Sindicatos do Funchal e dos trabalhadores em
geral. Deu o primeiro número a 31 de Agosto de 1906.
Trabalhos Forçados
A pena de trabalhos forçados nas obras do Estado era aplicada em certos casos aos criminosos que
compareciam perante os tribunais do Funchal. Os forçados tinham correntes de ferro presas às pernas por uma argola, sendo as
mesmas corrente mandadas fazer pela Câmara Municipal, segundo se depreende duma deliberação tomada em sessão de 9 de
Novembro de 1824.
Traças
Algumas espécies do género Tinnea (Lepidóptero) e o Demvetes vulpinus (Co-leóptero) atacam os estofos e os tecidos de
lã, ao passo que nos livros é a larva branca de um Anobium (Coleóptero) que causa grandes devastações. Um lepisma (Ortóptero),
de corpo alongado e cor prateada, causa também prejuizos nos livros e nos papéis.
Para afugentar as traças dos móveis em que se guardam roupas, empregam os madeirenses as pimentas, os cálices e opérculos do
eucalipto, a cânfora e a naftalina.
Tracoma
Assim se denominam umas gra¬nulações esbranquiçadas que aparecem às vezes na conjuntiva. Estas granulações, diz-
nos o dr. Alfredo Ernesto Rodrigues especialista em moléstias de olhos, aparecem com mui¬ta frequência em indivíduos do Paul
do Mar. O conceituado clínico funchalense, o dr. Fortunato Pita, escreveu na Medicina contemporânea (Ano XLI, n.° de 21 de
Janeiro de 1923) um interessante artigo intitulado O Tratamento da conjuntivite trachomatosa pela heliotherapia, em que se lê o
seguinte: «O sol aplica-se de manhan, podendo ser todos os dias ou não, conforme as circunstâncias, sendo o tempo da exposição
de 1 a 2 minutos, pouco mais ou menos (1921).
Tragédia na Madeira (Uma)
por Albino de Meneses, Baptista Santos, Abel Rocha de Gouveia e Domingos dos Reis Costa, 1910,
189 páginas.
Traje Regional. Para maior esclarecimento do assunto versado no artigo Indumentária (II-136)l transcrevemos do Diário da
Madeira (Março de 1938) os seguintes interessantes trechos:
«Dos estudos folclóricos feitos sôbre a indumentária privativa de diferentes regiões, unificou-se, dum modo decisivo, que as vestes,
pelo seu cortet disposição e colorido, corres¬pondem sempre ao modo de vida dos habi¬tantes e, sobretudo, à natureza do
ambiente que o cerca, pelo seu clima, orografia e tona¬lidades da paisagem. Onde esta é ricamente florida, manchada de cores
várias e intensas, o traje — especialmente o das mulheres — é por igual colorido, harmonizando-se e inte-grando-se a figura no
quadro em que vive e em que trabalha.
O madeirense que visita o Minho acha-lhe logo uma paisagem que lembra logo a da Ma¬deira. E no vestuário da minhota,
reconhecerá no listado vivo e polícromo da saia uma grande analogia com o traje das nossas próprias camponesas. O Porto Santo,
luminoso embora, mas sem côr, não deu ao traje da mulher — nem por imitação — a vivacidade e os tons que fizeram aos olhos de
nacionais e forasteiros, o encanto das vestes campesinas desta «Flor do Atlântico».
Na terra dos Perestrêlos, a indumentária é neutra como o tom dos seus campos e montanhas.
De facto, tudo se resume numa fórmula de harmonia imposta não por uma regra de arte, mas apenas, — um pouco, como no
mimetismo — por condições instintivas de todo o ponto inconscientes.
Dentro da policromia das vestes da camponia madeirense há modificações de local para local ou, pelo menos, de concelho para
concelho.
Aqui, as saias listadas e, noutro ponto, as saias todas vermelhas; as mesmas capas e corpetes, sofrem variações de côr; e, até, as
primeiras diferem de tom nos debruns dos bicos, junto à gola, e no modo de as lançar ou de as compor sobre os ombros.
Conviria estudar-se tudo nas próprias localidades, com o informe das pessoas mais antigas, as melhores detentoras da usança
tradicional.
Nas freguesias ou nas sedes dos concelhos, conforme fosse entendido, a Delegação de Turismo promoveria a confecção de bonecos
vestidos pelas «alfaiatas» locais, segundo o modelo assente, com fiscalização confiada a uma comissão de competentes em que o
senso regionalista se ligasse a este género folclórico. Formá-la-iam madeirenses com amor pelo assunto e de reconhecido bom
gosto.
Essas pequenas figuras, classificadas por locais, concelhos ou freguesia, — representando, é claro, camponeses dos dois sexos —
constituiriam, em lugar adequado, exposição permanente, por certo, muito interessante para nacionais e estrangeiros. Interessante
no pitoresco, pelo valor folclórico e pela fixação dos trajes das várias localidades, o que ainda está por fazer dum modo definitivo.
Inclinamo-nos a crer que o estudo dos nossos trajes e a sua fixação em modelos — digamos — oficialmente expostos, só trariam
vantagens para todos que se interessam pelo folclore da Madeira no que toca a vestuário. Se juntássemos às figuras rigorosamente
vestidas, objectos de uso doméstico, alfaias agrícolas ou outras, ligadas às regiões a que as vestes se referem ainda a exposição
ficaria mais completa e, por isso, de maior utilidade.
Há aqui amadores de reconhecido talento, com provas na modelação do barro, que, encarregados da factura dos rostos dos
camponios e campónias, lhes dariam tom local e toda a força expressiva particular à nossa gente.
Modeladas as cabeças e dadas as proporções do corpo sobre um esqueleto de madeira, esquematicamente feito, o resto era com a
«alfaiata», repetimos, depois de bem estudada a composição da figura.
Insistimos em que esta seja vestida, não na cidade que tudo estraga com as suas fantasias e estilizações impróprias, mas nos campos
onde se conhecem tecidos, maneira de os cortar e adornar e, até mesmo os modos de os costurar com rigor.
A par, deveria cuidar-se, com carinhoso empenho, da tecelagem doméstica, não deixando perder-se as receitas regionais da nossa
tinturaria especialmente as das lãs, receitas que se baseiam em colorações vegetais.
Nas Festas do Fim do Ano, esses pequenos manequins viriam dar o modelo aos grupos de cada terra que acudissem ao Funchal
para figurar em cortejos ou noutros números de programa, promovendo-se, entre eles, concursos só destinados a estimular-lhes o
amor por seus trajes e costumes, premiando-se-lhes a galhardia, o ritmado das danças, e, muito principalmente o rigor do
vestuário, tudo orientado sempre por espírito tradicional».
Trapiche
Sítio da freguesia de Santo António do Funchal. Nele ficava a quinta do mesmo nome do sítio com uma excelente casa
de campo e capela anexa, dedicada a Santana e São João e edificada no ano de 1814, sendo essa residência de construção mais
antiga. Foi nesta quinta que, no ano de 1923, os beneméritos Irmãos de São João de Deus estabeleceram um hospital de alienados,
com o nome de Casa de Saúde do Trapiche, de que já demos notícia em outro lugar desta obra.
Vid. Manicómios.
Transporte. (Meios de)
Nos artigos Carros do Monte, Corsa, Palanquim e Rede, dei¬xámos algumas infomações acerca dos
meios de condução e de transporte usados nesta ilha, a que queremos acrescentar mais alguns elementos, extraídos do opúsculo
Duas Palavras sobre a viação na Ilha da Madeira, da autoria de Joaquim Maria Fragoso, antigo director das Obras Públicas da Junta
Geral, que, embora referidos ao ano de 1905, oferecem ainda particular interesse ao nosso assunto:
«Nas ruas da cidade do Funchal, e nos caminhos que, como estas, são calcetados, o modo de condução mais usual é o carro puchado
a bois. Estes carros compõem-se de uma caixa de vimes ou madeira, com uma armação de ferro que sustenta um toldo ou tecto
d'onde pendem cortinas, e é assente em mollas fixas numa espécie de trenó de madeira. Não tem rodas, nem jogo deanteiro, « é
puchado por bóia, que ali são de qualidade pequenos, mas de uma velocidade notável.
Adeante d'estes bois vae um rapaz, a que chamam candeeiro, pegando no sogo; e ao lado do carro um homem que pica os bois, e
guia o carro, lançando-lhe a mão, e puchando-o para um ou outro lado. Para o transporte de cargas usam as corsas ou cor soes
(corsas grandes), que se compõem de dois madeiros parallelos e unidos entre si, com o comprimento de 1,6 m. a 3,0 m., e largura de
0,50 m..
Para facilitar o attrito e escorregamento dos carros e corsas um pano cheio de sebo, que lançam no chão, adeante do carro, e sobre o
qual este passa, deixando ensebada a superfície de arrasto do trenó e as calçadas das ruas, apezar de uma postura municipal
prohibir o uso do sebo. Assim, quando uma chuva miúda humedece as calçadas, é dificílimo o caminhar por ellas sem escorregar*
Talvez por este ensebamento das calçadas, e pela natureza da pedra, e declive das ruas, na cidade do Funchal não ha poeira, o que é
mais uma condição hygienica a juntar a tan-" tas que aquelle ameníssimo clima offerece aos "doentes" que ali vã restabelecer a
saúde.
No resto da Ilha, usa-se geralmente ã rede, suspensa de uma vara, que assenta nos hombros de dois homens. Esta maneira de viajar
é muito despendiosa, já pelo jornal dos homens (três ou quatro que se revezam para transportar uma pessoa), já porque é
necessário dar-lhe frequentemente de beber. Não se passam 3 kilometros que elles não parem nas tabernas, sempre em abundância
por toda a Ilha, para beberem a poncha (mistura de aguardente, agua, assucar e casca de limão); e não se pode regatear gorgetas a
quem dispõe da nossa vida. Se um dia viajardes em rede na Ilha da Madeira, recommendo-vos o maior cuidado na escolha d'estes
homens, que muitas vezes têem ò vicio da embriaguez, e que são, por isso, um verdadeiro perigo a acerescentar a tantos outros, que
offerecem estas estradas reaes.
-Também se viaja a cavallo, em garranos ou ponneys acostumados a estes caminhos; e até, no Funchal, ha cavallos magnificos para
alugar, o que admira, pois que, em geral cá pelo continente os cavallos de aluguer são as alimárias mais ronceiras.
No Funchal ha já alguns carros de rodas (char-à-banes) mas poucas são as ruas por onde estes vehiculos podem transitar; e apenas
fazer carreiras para Câmara de Lobos, pela estrada monumental em que já vos fallei.
Superior á cidade do Funchal, e a uma altitude de 595 metros, está situada a Egreja de Nossa Senhora do Monte. Ha em volta d'ella
parques formosíssimos, já pela sua vegetação, abundância de aguas e amena temperatura no verão, já pelo lindíssimo panorama
que dalli se desfrueta. fi! a Cintra da
Madeira, com lindos chalets e magníficos ho¬téis, que oferecem aos visitantes todas as com-modidades do luxo moderno. Ir à
Madeira, e não ir ao Monte, é, como diz o adagio, ir a Roma e não ver o Papa.
Entre o Funchal e o Monte ha um caminho de ferro, por onde uma locomotiva a vapor (com cremalheira) faz aquella ascensão em
dez minutos, n'uma rampa que chega a 25 por cento de inclinação. E já que vos eetou fallando nos modos de condução da Madeira,
não deixarei de mencionar os chamados — corroa do Monte ou cestos — que a maior parte dos visitantes aproveitam na descida.
Consistem estes n'um taboleiro de vimes, assentes em dois paus ou réguas, untadas com sebo, tendo um assento ou canapé com
costas, também de vimes, onde cabem duas ou três pessoas. Na frente e de cada lado, estão presas duas cordast em que pegam dois
homens, que caminham atraz, e aos lados do carro e com estas cordas o sustêem e guiam. Estes carros são impellidos pela ladeira
abaixo por estes dois homens, que, para isso, põem um dos pé» sobre o carro, fazendo com o outro pressão na calçada do caminho.
Estão tão práticos neste serviço, em que a gravidade é aproveitada como força motora, que guiam o carro com perícia, e o param
todas as vezes que é necessário. E assim descemos do Monte péla estrada real n.° 24, em cinco minutos, n'um percurso de 4
kilometros, realizando uma velocidade de 48 kilometros por hora!
Como vedes, alguns d'estes meios de conducção são tão originaes, que constituem um verdadeiro attractivo, que, conjunctamente
com o clima admirável d'esta ilha, esplendidos panoramas que ella possue, e curiosidades que interessam às sciencias naturaes,
muito e muito concorrem para chamar ali a frequência de estrangeiros de importância social e de fortuna. Façam-lhe, se possível,
uma viação completa, e nas condições normaes, atravessem-na com caminhos de ferro, passejem-na em coupés e victorias, e
desapparecendo de todo os originaes, meios de conducção que ella hoje possue, a Ilha da Madera perderá muito da sua
originalidade». (1921).
Relaciona-se estreitamente com o objecto deste artigo o que deixamos dito a páginas 417 do volume I, sob o título de Estradas.
Traquites
V. Dendrites (volume 1-335) e Geologia (volume 11-82).
Traste
É o muro de terra ou de pedra e cal que ladeia as levadas e que também é conhecido hoje na Madeira pela designação de
mainel. Na carta do rei D. João, de 8 de Maio de 1493, alude-se a «terradas & trastes das levadas», por onde se vê que o termo
traste, com a significação de mamei, era usado outrora em Portugal, onde parece estar actualmente esquecido.
Tratamento de distinção
Tendo-se generalizado extraordinariamente certos tratamentos de distinção usados na sociedade, mal
se pode formar uma ideia de quanto se escrupulizava, em antigos tempos, o emprego dos mesmos tratamentos. Era quase uma
ciência conhecer a maneira como nos devíamos dirigir às pessoas, tendo o emprego dos tratamentos variado bastante com o
decorrer dos tempos, em virtude de circunstâncias que impossível se torna determinar.
A Madeira seguiu os exemplos da metrópole no emprego das distinções concedidas às pessoas, e, por isso, desde os fins do século
XVI até o princípios do século XVIII se dava o tratamento de senhoria ao governador e capitão-general, e ao bispo da diocese,
tendo todos os demais cidadãos o tratamento de mercê, com o qual provavelmente se davam por muito honrados.
Os bispos tiveram por muito tempo o tratamento de mercê, que nos primeiros séculos da monarquia só era concedido aos reis, mas
durante o domínio castelhano já se lhes dava na Madeira o tratamento de senhoria ilustríssima, como se vê de diplomas registados
em livros dessa época.
Foi a lei de 31 de Janeiro de 1739, registada a folhas 50 do Livro 9.° do Arquivo da Câmara Municipal do Funchal, que determinou
que os grandes eclesiásticos tivessem o tratamento de excelência, o qual deveria ser concedido também aos governadores com a
patente de capitães-generais, mas somente enquanto se achassem nos distritos dos seus governos, não tendo nenhuma outra
autoridade local sido contemplada no mesmo diploma com altos tratamentos de distinção, o que equivale a dizer que o corregedor,
o juiz de fora, o juiz da alfândega e outros funcionários superiores da Madeira continuaram, como até ali, a receber apenas o
tratamento de mercê.
Ao Conde de Castelo-Melhor e Marquês de Valença, este alcaide-mor de Machico e aquele do Funchal, dava-se nos fins do século
XVIII o tratamento de excelência, por serem ambos grandes, do reino, ao passo que aos viscondes, barões e moços fidalgos só
pertencia o tratamento de senhoria. Posteriormente, dava-se ainda este último tratamento aos cónegos da Sé do Funchal, em
virtude do alvará-régio de 15 de Novembro de 1817, e aos coronéis comandantes de tropas, tendo o tratamento de mercê todos os
demais oficiais à excepção de marechais, tenente-generais e equiparados, a quem competia o tratamento de excelência.
Os governadores e capitães-generais D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho e D. José Manuel da Câmara costumavam dar à Câmara
Municipal do Funchal o tratamento de senhoria, o que era contra a lei e praxes estabelecidas, tendo esta última autoridade sido
repreendida por tal motivo pelo governo da metrópole, observando-se-lhe que àquela corporação só competia o tratamento de
mercê. Só de 1834 em diante é que se estabeleceu o uso, ainda assim não autorizado por lei, do chefe do distrito dar ás Câmara
Municipais e a todas as autoridades e directores de repartição o tratamento de senhoria.
Segundo a legislação que vigorou até a implantação da República, era aos governadores e capitães-generais e não aos governadores-
-civis, que pertencia o tratamento de excelência; no entanto todos consideravam um dever dar esse tratamento ao representante do
poder central neste distrito, e só o governo lho negava algumas vezes nos primeiros tempos constitucionais. Um juiz do Tribunal
Administrativo deu em certa ocasião ao governador... civil do Funchal o tratamento de senhoria assim ler sido tratada por esta
autoridade, mas o governo, consultado sobre o assunto, não aprovou o procedimento daquele magistrado, embora reconhecesse
que, segundo a lei, não tinha o governador civil o tratamento de excelência.
Era uso dar ao antigo comandante da 9.ª divisão militar, com sede no Funchal, o tratamento de excelência, ás vezes porém
ilegalmente, visto esse cargo nem sempre ter sido desempenhado por oficiais-generais. Do comandante da Divisão, passou aquele
tratamento às autoridades superiores militares que depois houve na ilha.
A Câmara Municipal do Funchal só principiou a receber do governador civil o tratamento de excelência depois que teve por
presidente o Conde de Carvalhal, grande do reino, ao passo que os Administradores do Concelho foram sempre tratados por
senhoria, pelo chefe superior do distrito, enquanto existiu no país o governo monárquico. Foi por 1872 que a Câmara Municipal do
Funchal passou a dar definitivamente aos Juízes de Direito o tratamento de excelência, o qual estendeu depois ao Administrador do
Concelho, e mais tarde a quase toda a gente.
Para se ajuizar da importância que no século XVIII e ainda no princípio do século XIX tinham no país certos tratamentos de
distinção, bastará dizer-se que os duques de Aveiro tiveram de empregar as maiores diligências i para obter o tratamento de
excelência, e que só no ano de 1811 é que aos vice-reitores da Universidade de Coimbra foi concedido o tratamento de senhoria, isto
em recompensa de serviços prestados pela mesma Universidade j em defesa da pátria, durante as invasões francesas!
Nos princípios do segundo quartel do século XIV, quando à grande maioria dos homens se dava somente o tratamento de mercê,
ou, quando muito, o de senhoria, já as senhoras, a exemplo do que se praticava em Portugal, recebiam quase sempre na Madeira o
tratamento de excelência. Não eram, porém, todas as damas, como hoje acontece, que tinham direito a essa deferência da parte dos
homens, mas somente aquelas que pelo seu nascimento ou pela posição social de seus maridos constituíam uma classe digna duma
particular consideração. As damas a quem ninguém ousava negar outrora o título de dona, eram aquelas a quem se dava o
tratamento de excelência, o qual todavia só pertencia de direito à esposa do capitão-general e a poucas senhoras mais.
O tratamento de senhoria só é usado hoje na Madeira pela classe comercial e o de mercê pela gente dos campos. Vossemecê e
amecê, abreviaturas de vossa mercê, são modos de tratamento muito usado nas classes baixas da sociedade e bem assim entre
superiores e inferiores iletrados, ao passo que o de você só está em uso entre indivíduos que têm relação de amizade, sendo fora
disso considerado tratamento ofensivo.
Travassos Valdez (Francisco)
Era filho do conde de Bonfim, que foi governador e capitão-general da Madeira de 1827 a 1828.
Escreveu: Six years of a traveller’s life in Western Africa (Londres 1861) e Africa Occidental (Lisboa 1864). Há nestas duas obras
várias referências á Madeira, onde o autor residiu, sendo ainda criança, e onde voltou por ocasião da sua visita á África Ocidental.
Travassos Valdez (José Lúcio)
Este governador e capitão-general da Madeira foi nomeado em Março de 1827 e chegou ao
Funchal a 27 de Abril seguinte, tendo tomado posse do seu cargo a 29 do mesmo mês.
Apesar da sua curta administração, procurou Travassos Valdez ser útil a este arquipélago, informando o governo central acerca das
mais urgentes necessidades públicas a que convinha acudir sem demora. Mereceram-lhe especial atenção os trabalhas de
construção dum cais e os repairos nas fortalezas e quarteis2 que há muito se faziam sentir.
Durante o seu governo, proclamou-se D. Miguel rei absoluto, em Maio de 1828, mas não acompanhou Valdez o movimento que no
país se operava a favor do absolutismo e preparou-se para defender a Madeira de qualquer tentativa de ataque por parte das tropas
miguelistas. Tendo, no dia 25 de Junho de 1828, aparecido em frente do nosso porto a fragata realista Príncipe Real conduzindo o
novo governador José Maria Monteiro, obstou Valdez ao seu desembarque, tendo a fragata deixado as nossas águas.
Como se sabe, no dia 22 de Agosto de 1828, foi a vila de Machico bombardeada pela esquadra miguelista e, em seguida, ocupada
esta ilha pelas forças invasoras, havendo no dia 24 de Agosto sido proclamado D. Miguel e tomado posse o novo governador e
capitão-general José Miaria Monteiro. Quanto à acção de Valdez nesta ocasião, que foi muito importante, veja-se, para evitar
escusadas repetições, o artigo Ocupação da Madeira pélas tropas miguelistas.
Travassos Valdez, que no dia 23 de Agosto de 1828 se refugiara com sua esposa e seis filhos a bordo da corveta inglesa Alligator,
saiu para Inglaterra no mesmo navio, com outros emigrados políticos, no dia 6 de Setembro daquele ano.
José Lúcio Travassos Valdez tinha-se notavelmente distinguido nas guerras peninsulares sob as ordens do general Beresford e
depois nas campanhas da liberdade, tendo em breve ascendido aos mais elevados postos. Foi mais tarde agraciado com o título de
conde de Bonfim e exerceu os altos cargos de deputado, par do reino e ministro de estado, havendo ainda desempenhado outras
importantes comissões de serviço público.
Nasceu a 23 de Fevereiro de 1787 e morreu a 10 de Julho de 1862.
V. O conde de Bonfim, notícia dos seus principais feitos, por G. N., 1860. Este opúsculo ocupa-se largamente do governo de
Travassos Valdez na Madeira.
Travessa do Porto Santo
Ao canal ou extensão de mar compreendido entre as ilhas da Madeira (Ilhéu de Fora, na Ponta de São
Lourenço) e do Porto Santo (Ilhéu de Baixo ou da Cal) dá-se vulgarmente o nome de Travessa. Tem cerca de 27 milhas de
comprimento. Não raro se desencadeiam ali grandes tempestades, sendo geralmente revolto o estado do mar nestas paragens.
Tremoceiro (Lupinus albus)
Leguminosa-Papilionada muito cultivada na Madeira. Para fazer perder às sementes do
tremoceiro o seu amargor, torna-se preciso cozê-las em água contendo alguma cinza e carvões, e depois fazê-las macerar em água
durante uns oito dias, devendo esta ser renovada duas vezes no dia. Também usam colocar os tremoços em sacos nas águas
correntes das ribeiras, o que abrevia bastante o trabalho da preparação dessas sementes. O tremoceiro é muito empregado para a
fertilização das terras, sendo frequentes vezes cultivado exclusivamente para tal fim.
Tremores de Terra
Na relação que adiante publicamos, vão indicados os abalos de terra que tem havido na Madeira e de que
conseguimos obter notícia. Dentre eles, um só causou estragos duma certa importância, não se conservando, porém, na tradição
local, memória do acontecimento:
1748. Em 31 de Março deste ano, da uma para as duas horas da manhã, sentiu-se na Madeira um forte abalo de terra, que foi
seguido de outros dois lendo-se, numa notícia escrita por essa época acerca do acontecimento e que foi reproduzida a página 697
das Saudades da Terra, que afirmaram algumas pessoas dignas de crédito terem visto «para a parte de leste da mesma ilha sair para
o ar uma grande facha de fogo, e que pouco depois observarão, que se conservou por espaço de hum quarto de hora, hum grande
clarão da cor do mesmo fogo e se sentiu que o ar estava com quentura desusada».
No dia 1 de Abril, houve, por ordem do Prelado, preces solenes na Sé Catedral, às quais assistiram o cabido, o senado, os ministros,
a nobreza e o povo, sendo depois trasladada processionalmente para o altar do Santíssimo Sacramento da mesma Sé, a imagem de
S. Tiago, padroeiro da cidade. As preces continuaram, com o Senhor exposto, até 9 de Abril, «e estas rogativas, diz a mesma notícia,
também fizeram todas as mais Comunidades Religiosas, e todas as Collegiadas da Cidade; mas os moradores das villas, lugares e
campos usaram, alem destes, outros exercícios, tão catholicos, como espirituais.»
Realizaram-se no Funchal procissões de penitência, nas noites de 2, 5 e 6 de Abril, tendo-se incorporado na primeira, em que quase
todos iam descalços, o prelado, o cabido, o senado, os religiosos do convento de S. Francisco, donde saiu o préstito ,e muito povo,
indo «todos em seus logares, e com tão louvável devoção, que enterneciam as creaturas mais impenitentes».
No dia 9 de Abril, realizaram-se as últimas preces na Sé Catedral, pregando a instâncias do prelado, o padre José de Figueiredo, da
Companhia de Jesus, e «tal eficácia fez o seu sermão em todo o auditório, que muitos, que havia annos se não aproveitavão do
Sacramento da Eucharistia, depostas as culpas, confessados os erros, principiaram a fazer nova vida.»
De 1 de Abril até 26 de Maio, sentiram-se na Madeira, em diversos dias, novos tremores de terra, mas sem nenhum deles atingir a
violência do de 31 de Março, que causou bastantes estragos em muitos pontos da ilha. A Sé Catedral ficou com várias fendas e com o
frontespício inclinado para fora, sofrendo também bastante a torre da igreja, e nos templos de Santa Maria Maior do Calhau, Santo
António, S. Gonçalo, Camacha, Machico, Caniçal, Porto do Moniz Prazeres Paul, Arco da Calheta, Canhas, Serra de Agua, Câmara
de Lobos e Estreito de Nossa Senhora da Graça houve também bastantes prejuizos, causados pelo mesmo abalo de terra. A casa em
que residia o bispo ficou em estado de não poder ser habitada e as casas da Alfândega e Contos, apesar das suas paredes fortíssimas,
ficaram com trinta e duas fendas, além doutros estragos mais ou menos notáveis.
Apesar da violência dos abalos de terra de 31 de Março de 1748, houve apenas quatro vítimas: um homem velho, pai do vigário de
Santo António, uma criança e duas mulheres. Os prejuizos materiais foram, porém, consideráveis, não havendo edifício, diz a
notícia a que atrás nos referimos, que não ficasse ofendido, por mais fortes que fossem as suas paredes.
1755. No dia 1 de Novembro deste ano, houve um abalo de terra na Madeira, tendo o mar subido no Funchal, 5 metros acima da
maré cheia, e no norte da ilha, recuado cerca de 100 metros, deixando em seco grande quantidade de peixe. No Porto Santo, entrou
o mar pelo leito da ribeira da vila, cerca de um quarto de milha, e no escoamento da água ficou quase em seco o boqueirão do Ilhéu
de Cima (V. a este respeito O Megasismo do I.° de Novembro de 1155, por Francisco Luís Pereira de Sousa, volume I, página 108).
1762. A 26 de Junho, houve um abalo de terra no Funchal, que não produziu estragos.
1768. Neste ano, a 5 de Novembro, experimentou a ilha da Madeira um violento terramoto, mas não dizem os documentos da época
se produziu estragos.
180lf. Neste ano, a 24 de Abril, houve três abalos, à noite, com intervalos de 8 a 10 minutos, todos eles violentos.
1813 e 1814. Bowdich alude a abalos de terra que se sentiram na Madeira em 1813 e 1814, mas sem indicar os dias em que eles se
deram.
1816. Bowdich refere-se a um tremor de terra que se fez sentir a 11 de Janeiro deste ano e que abriu fendas nalgumas habitações do
Funchal. Muitas pessoas que se achavam nas ruas foram de encontro às paredes ao dar-se o abalo.
Dizem os Anais de Machico que na madrugada de 2 de Fevereiro do mesmo ano, estando o povo ouvindo missa na igreja matriz,
sentiu-se um extraordinário abalo de terra, que durou por algum tempo. O povo saiu atropeladamente da igreja, mas não perigou
pessoa alguma nem houve estragos importantes.
Este abalo também se fez sentir noutras partes da ilha, sendo tão grande o susto, que em várias igrejas se fizeram preces e
procissões públicas. Lemos algures que a procissão do Senhor dos Passos no Estreito de Câmara de Lobos, foi instituída por ocasião
do tremor de terra de 2 de Fevereiro de 1816.
1842. Os Anais do Porto Santo referem-se a um ligeiro abalo de terra que se sentiu naquela ilha, no dia 24 de Outubro, mas não
encontramos notícia de que esse abalo fosse notado também na Madeira.
1850. O dr. Barrai, na Noticia sobre o clima do Funchal, menciona um tremor de terra na direcção LW, que se fez sentir às 9 horas e
meia da noite de 10 de Outubro, mas que não produziu estragos alguns.
1883. Neste ano, a 23 de Julho, sentiu-se no Funchal um forte abalo de terra, cerca das duas horas da manhã.
1884. A 13 de Fevereiro deste ano, das 2 para as 3 horas da manhã, sentiu-se no Funchal um abalo de terra, acompanhado de ruído
subterrâneo, e a 17 de Maio, cerca das 3 horas da manhã, houve um novo abalo, pouco violento.
A 22 de Dezembro do mesmo ano, pelas 3 horas da manhã, sentiram os habitantes do Funchal, dois tremores de terra, tendo o
primeiro, o mais violento, durado cerca de 20 segundos e o imediato, cerca de 7 segundos. Estes abalos também se fizeram sentir
em Lisboa, pelas 3 horas e 29 minutos da manhã.
1886. A 21 de Janeiro, às 8 horas da manhã, sentiu-se um ligeiro tremor de terra no Funchal, que durou cerca de 3 segundos. Uma
mulher de Agua de Pena, que apanhava lapas no sítio da Queimada! caiu ao mar no momento da oscilação, morrendo
imediatamente.
1887. Neste ano, houve três abalos de terra no Funchal: um a 7 de Janeiro, pelas 10 horas e meia da noite, acompanhado de ruído
subterrâneo, outro a 27 de Janeiro, a uma hora e meia da manhã, e o terceiro a 6 de Agosto, à uma hora e vinte minutos da manhã.
1889. A 14 de Janeiro deste ano, pelas 5 horas e meia da manha, sentiu-se no Funchal um ligeiro abalo de terra.
1910. A 24 de Novembro deste ano, pelas 9 horas e 20 minutos da noite, sentiu-se um abalo de terra no Funchal, acompanhado de
ruído subterrâneo que parecia partir do lado de nordeste. No mesmo dia, sentiram-se dois abalos no Curral das Freiras.
A 26 do mesmo mês, houve outro abalo no Funchal, às 12 horas e 25 minutos do dia. Durou cerca de 4 segundos e a oscilação
pareceu horizontal.
1914. Às 4 horas e 45 minutos da manhã de 27 de Dezembro, sentiu-se um ligeiro abalo de terra no Funchal.
1918. O abalo de terra que teve lugar neste ano, às 4 horas e 23 minutos da manhã do dia 25 de Julho, foi o mais violento que temos
sentido nesta ilha. Sentiu-se não só no Funchal, mas também no Monte, no Jardim da Serra e no norte da ilha, tendo causado
prejuízos no estuque dalgumas casas da freguesia da Ponta Delgada. Houve dois abalos quase seguidos, cada um dos quais durou
dois segundos, ouvindo-se por essa ocasião um forte ruído subterrâneo.
1920. A 8 de Dezembro deste ano, sentiu-se no Funchal, pelas 5 horas e três quartos da manhã, um ligeiro abalo de terra que a
muita gente passou despercebido.
1923. As 5 horas e 6 minutos da tarde do dia 1 de Outubro, sentiu-se um ligeiro abalo de terra no Funchal, que durou apenas 2
segundos. Este abalo também se fez sentir na freguesia de S. Vicente et provavelmente, noutros pontos da ilha.
Trevina (Lotus glaucus)
Leguminosa-Papilionada vivaz, com folhas 3-foliadas, glaucas, estipulas foliáceas e flores amarelas ou
amarelo-avermelhadas. Vive nos terrenos do litoral, e é boa planta forraginosa. Encontra--se também no Porto Santo e Desertas.
Trevo
Este nome serve para designar um grande número de Leguminosas com folhas 3-foliadas, pertencentes não só ao
género Trifolium, mas também aos géneros Ononis, Medicago e Melilotus. O Trifoluwm repens, T. maritimum, o T. pratense, o T.
incarnatum, o T. agrarium, a Medicago LupuMna, a Melir lotus indica, etc, etc, são plantas muito adequadas à alimentação dos
gados.
Tribuna (A)
Periódico funchalense de que apareceram doze números, o primeiro a 24 de Setembro de 1864 e o décimo segundo a
21 de Dezembro do mesmo ano.
Tribuna Académica
Deu 44 números, o primeiro a 4 de Fevereiro e o último a 16 de Dezembro de 1897.
Tribuna do Povo
O primeiro número deste periódico semanal apareceu a 7 de Outubro de 1922.
Tribunal Administrativo
Os Tribunais Administrativos foram criados pelo código de 1886 e extintos pelo decreto de 21 de Abril
de 1892. Vieram substituir os Conselhos de Distrito, sendo cada um dos mesmos tribunais composto de três magistrados nomeados
por decreto do Governo.
Tribunal Secreto. Assim se denominava um periódico funchalense que se publicou clandestinamente e não tinha dia certo de
distribuição. Conhecem-se doze números, todos do ano de 1844, mas parece que apareceu em 1841.
Trigo (Adriano Augusto)
Nasceu em Moncorvo a 13 de Novembro de 1862, e é coronel de infantaria e engenheiro civil, tendo
desempenhado os cargos de chefe de secção e director das Obras Públicas do Distrito do Funchal. Colaborou em vários jornais desta
cidade, revelando-se escritor e polemista de valor. Entre os trabalhos que tem publicado, mencionaremos os seguintes: A
Iluminação da cidade do Funchal e o Diário de Noticias, Funchal, 1895; Levadas da Modera. Relatório justificativo da proposta,
Lisboa, 1896; Breves considerações sobre os melhoramentos de que carece o porto do Funchal, Funchal, 1912; Saneamento da
cidade do Funchal... (Rev. O. Publicas e Minas, XXX, 1899, n.° 355 e 356); Saneamento da cidade do Funchal, projecto de esgotos...,
Funchal, 1900; Plano geral da distribuição e arrendamento das águas da levada da serra do Fadai, Lisboa, 1911; Roteiro e guia do
Funchal, Funchal, 1910; e Guide and plane of Funchal, Funchal, 1910. Nestes últimos cinco trabalhos colaborou seu irmão, o
engenheiro civil Aníbal Augusto Trigo (1921).
Trigo (Aníbal Augusto)
E irmão do precedente, nasceu em Moncorvo a 29 de Outubro de 1865 e é também engenheiro civil,
tendo servido na Direcção das Obras Públicas do Distrito do Funchal, da qual é agora director, e na repartição técnica da Câmara
Municipal desta cidade. Colaborou nalguns dos trabalhos que deixámos mencionados no artigo anterior, e, como engenheiro
municipal, deu sempre as mais eloquentes provas de competência e duma grande austeridade de carácter (1921).
Faleceu a 13 de Fevereiro de 1944.
Trigo
O trigo existe em todas as freguesias do arquipélago, mas onde a sua cultura parece ter mais importância é nas freguesias de
Santa Cruz, Calheta, Arco da Calheta, Ponta do Pargo, S. Vicente, Porto do Moniz e Porto da Cruz. É quase sempre semeado à mão,
e a colheita faz-se arrancando-o ou cortando-o à foice, sendo este processo mais usado do que aquele. A debulha executa-se, quer
nas eiras, onde as espigas são calcadas por bois atrelados a uma prancha, na parte inferior da qual se colocam pedras e pedaços de
ferro, quer por meio de máquinas movidas a braços, quer finalmente por meio de malhos, sendo este último processo adoptado
somente quando são pequenas as porções de trigo colhidas em qualquer terra.
A superfície ocupada pela cultura do trigo em todo o arquipélago é de cerca de 2.000 hectares, e a produção eleva-se a uns 25.000
hectolitros anualmente. O rendimento por hectare é bastante variável, havendo terrenos «m que pode atingir 30 hectolitros e
outros em que não passa além de 4, nos anos pouco chuvosos. O rendimento médio na ilha da Madeira deve ser de 8 hectolitros por
hectare, e, no concelho do Funchal, de uns 12 hectolitros.
A Madeira importava anualmente antes da guerra cerca de 7 milhões de quilogramas de trigo e em 1919 importou 4.511 toneladas
desse cereal e 690 toneladas de farinha (1921).
A riqueza das terras em ácido fosfórico e a conformação do solo da ilha, que dá lugar a que as chuvas transportem todos os anos dos
pontos elevados para os que lhes estão inferiores um certo número de elementos necessários à nutrição das plantas, devem ser a
causa da permanente produtibilidade dos terrenos destinados pelo agricultor rotineiro e ignorante à cultura ininterrompida do
trigo e outros cereais. A fertilização das terras é assunto que preocupa muito pouco a grande maioria dos cultivadores de cereais da
Madeira, se bem que alguns haja que adubem com estrumes de curral os terrenos destinados às sementeiras, conseguindo obter
assim melhores colheitas do que os que não praticam a adubação.
A palha de trigo é utilizada na cobertura de cabanas, na alimentação do gado e também às vezes em camas de animais estabulados.
terceiro pela cariopse dura, com quebradura rija
No trigo
(Triticum aestivum),
distinguem-se três tipos ou sub-espécies: o trigo molar, o túrgido e o rijo, sendo o primeiro
caracterizado pela cariopse mediana, com quebradura farinosa, e o colmo completamente ôco, o segundo, pela cariopse grande e
grossa semi-tenra, e o colmo só parcialmente ôco, e 0
e o colmo
completamente meduloso.
Na relação seguinte, mencionamos algumas das variedades ou sub-raças cultivadas no arquipélago, as quais costumam ser
semeadas desde Dezembro até Março, fazendo-se a colheita nos meses de Junho e Julho:
TRIGOS MOLARES
Trigo barbela.
Espiga estreita, de 6-12 cent., praganosa, branca ou acastanhada tetragonal ou um pouco comprimida na face.
Também lhe chamam trigo do mato e trigo da serra.
Trigo de Rieti.
Semelhante ao precedente, do qual se distingue pelas espigas mais achatadas, quase sempre brancas e pelas
praganas mais divergentes.
Trigo canoco burbudo. Espigas praganosas, esbranquiçadas de 4-6 cent. de comprido por 1 e meio a 2 de largo, geralmente um
tanto comprimidas.
Trigo anafil
.
Apenas se distingue do trigo barbela em ter as espigas às vezes mais es¬curos ou um pouco violáceas. B também
chamado trigo português.
Trigo de palha roxa.
Espigas de 9-10 cent. de comprido por 8-15 mil. de largo um pouco violáceas ou avermelhadas, desprovidas de
praganas ou com as glumelas superiores providas de praganas curtas. Também lhe chamam trigo mouro.
Trigo mangalhão.
Semelhante ao precedente, mas com as espigas mais longas (12--15 centímetros).
Trigo mocho.
Espiga curta e larga, um tanto comprimida, de 4 e meio a 5 cent. de comprido por 15-20 mil. de largo, desprovida de
praganas. íi conhecido também pelos nomes de trigo rapadmho, pelado, rapado e sem vergonha.
Trigo canoco.
Muito semelhante ao precedente, mas com as espigas mais longas (5-6 e meio centímetro). Recebe também a
denominação de trigo pelado, rapado, anafil e canoquinho.
Trigo canhoto
. Semelhante ao trigo barbela e ao trigo de palha roxa, diferindo deste na cor amarelada, e daquele em ser desprovido
de praganas, excepto às vezes no alto. Cha-mam-lhe também trigo canoco pelado.
Trigo americano.
Espiga longa, branca, de 10-15 cent. de comprido por 12-15 mil. de largo; glumelas providas às vezes de pragana
curta, as do alto longamente praganosas nalguns casos. Semelhante ao precedente e talvez um simples forma dele.
TRIGOS TÚRGIDOS
Trigo Alexandre.
Espiga tetragonal ou quase, branca, compacta, com aristas longas, mais ou menos escuras na parte média inferior.
Trigo branco n.° 1.
Espiga branca ou com manchas negras quase tetragonal ou um pouco achatada no perfil, com o eixo
quebradiço; praganas brancas ou negras raras vezes nulas. Também lhe chamam trigo ganil.
Trigo branco n.° 2.
Difere do precedente em ter as espigas mais largas e mais comprimidas.
TRIGOS RIJOS
Trigo vermelho.
Espiga de 4 e meio a 7 cent. de comprido ele meio a 2 cent. de largo, densa, de ordinário um tanto achatada no
perfil; glumas pubescentes; praganas mais escuras na base. Chamam-lhe também trigo russo.
Trigo amarelo.
Como o precedente, mas com glumas amareladas e glabras. E conhecido também pelas denominações de trigo
russo, do Campanário, anafil e tangarola.
Trigo de cabeça preta
. Espigas de 6 e meio cent. de comprido por 2 de largo quase desprovido de praganas e com manchas escuras.
Trigo branco.
Espiga densa, branca, glabra, semelhante à do trigo vermelho; praganas negras na base, divergentes.
Os trigos rijos degeneram na Madeira, tomando facilmente, quando não haja a cautela de renovar as suas sementes, os caracteres
dos trigos túrgidos. Temos visto exemplares de trigo vermelho e amarelo com as praganas um tanto divergentes, as cariopses mais
ou menos farinhosas e a palha ôca, excepto no alto, ao passo que nenhum dos trigos túrgidos e molares que existem na ilha perdem
as características das sub-espécies ou tipos culturais a que pertencem. (1921).
Além do
Triticum aestwum
, existe ainda na Madeira o
T. polonicum,
caracterizado pelas cariopses muito compridas e estreitas,
com quebradura rija, e pelas glumas alongadas, mas esta espécie é, por enquanto, pouco cultivada, só existindo na freguesia do
Caniço.
Além do que fica textualmente transcrito da primeira edição, publicou ainda o co-autor desta obra, Carlos Azevedo de Menezes, as
seguintes interessantes informações, que convém deixar aqui arquivadas.
«N'um valioso estudo sobre as variedades portuguezas publicado ha 40 annos pelos fallecidos professores Ferreira Lapa e Andrade
Corvo no tomo IIIt parte II, das Memorias da Academia Real das Sciencies de Lisboa, encontramos indicados e descriptos 29 typos
differentes d'esse cerealt sendo 26 provenientes do continente do reino e Açores, e 3 do archipelago da Madeira. Os typos
madeirenses são os que ainda hoje são conhecidos no archipelago pelas designações de trigo mocho, trigo português e trigo
Alexandre com que foram indicados no referido estudo, fazendo parte o primeiro e o segundo do Triticum vulgare e o ultimo
Triticum turgidum, duas raças consideradas oufrora como espécies distinctas, mas que muitos botânicos incluem agora na
subespecie tenax do Triticum satwum, Lam..
Tendo-se-nos oferecido ensejo de examinar várias amostras de trigo colhidas em diferentes pontos da Madeira em 1904 e 1905, não
nos foi difícil reconhecer que o numero das variedades existentes nesta ilha é superior ao das que foram estudadas pelos referidos
professores verificando mais que alguns dos antigos tipos, embora semelhantes a certos tipos portugueses, dos quais talvez,
provenham, se afastam deles, todavia, por caracteres dignos de nota.
As variedades madeirenses que tivemos ocasião de estudar, pertencem todas às raças T. vulgare e T. twgidum, conhecidas no
comercio pelo nome de trigos molares. O T. durum outra raça do T. sativum, nunca foi achado por nós na Madeira ou no Porto
Santo, sendo possível que não existam nestas ilhas. Os trigos a que na Madeira chamam rijos, são, no nosso entender, simples sub
raças do T. turgidum, como facilmente se reconhece pela forma das suas espigas e glumas e pela consistência e forma arqueada dos
seus grãos. Nos seus trigos rijos ou durasios, os grãos são alongados, aguçados e quasi sempre vitreos, caracteres estes que não
observamos em nenhuma das variedades madeirenses.
A superfície ocupada pela cultura do trigo em todo o arquipélago, como acima se diz, é de cerca de 2.000 hectares e a produção
eleva-se a uns 25.000 hectolitros anualmente. O rendimento por hectare é bastante variável, havendo terrenos em que ele pode
atingir 30 hectolitros, e outros que não passa alem de 4 nos anos pouco chuvosos. O rendimento médio na ilha da Madeira deve ser
de 8 hectolitros por hectare, e no concelho do Funchal de 12 hectolitros.
A utilidade dos afolhamentos é quase desconhecida dos povos da Madeira, havendo terrenos em que o trigo costuma ser cultivado
durante 15 e 20 anos suoessivos. Estes terrenos nem adubados são muitas vezes, e no entanto produzem todos oe anos um
rendimento que o cultivador ignorante e talvez pouco ambicioso, considera suficientemente remunerador do seu trabalho! Sendo
tão fértil o solo da ilha, não seria para admirar que a sua produção triplicasse ou quadruplicasse em pouco tempo, quando
submetido a processos mais racionais da cultura.
Todas as variedades de trigos existentes na Madeira, costumam ser semeadas desde Dezembro até Março, efectuando-se a colheita
nos meses de Junho e Julho. O T. turgidum, é mais cultivado na zona baixa da ilha do que nos pontos elevados, ao contrario do que
sccede com o T. vulgare. Este, que parece ser o mais antigo da terra encontra-se até uma altitude de 700 metros (1900).
A Madeira importa annualmente cerca de 7 milhões de kilogramm&s de trigo exótico, visto o de produção local mal chegar para
satisfazer ás exigências do consumo durante 3 mezes.
Os trigos madeirenses são quasi sempre semeados á mão e a colheita faz-se arrancando-os ou cortando-os & foice. Este ultimo
processo é muito menos usado do que o primeiro. A debulha executa-se quer nas eiras, onde as espigas são calcadas por bois
atrelados a uma prancha, na parte inferior da qual se collocam pedras e pedaços de ferro, quer por meio de machinas movidas a
braço. Como as debulhadoras são agora frequentes em quasi toda a ilha; vae o primitivo processo de bater as espigas por animaes
cahindo a pouco e pouco em desuso. Os indivíduos que só possuem pequenas porções de trigo, costumam servir-se do malho para o
debulhar.
A palha de trigo é utilizada na cobertura de cabanas na alimentação do gado e também ás vezes em camas de animaes entabulados.
A fertilização das terras é assumpto que preocupa muito pouco a grande maioria dos cultivadores madeirenses; no entanto, alguns
ha que adubam com estrumes de curral os terrenos destinados ás sementeiras, obtendo assim melhores colheitas do que os que não
praticam a adubação. A riqueza das terras em acido phosphorico e a conformação do solo da ilha, que dá logar a que as chuvas
transportem todos os annos, dos pontos elevados para os que estão inferioresi um certo número de elementos necessários á
nutricção das plantas devem ser os motivos da permanente productibilidade dos terrenos destinados pelo agricultor ignorante e
rotineiro à cultura ininterrompida do trigo e outros cereaes. Para obstar a que as variedades cultivadas degenerem, costumam os
agricultores dos differentes pontos da ilha trocar periodicamente entre si os trigos destinados ás sementeiras.
Os madeirenses atribuem aos trigos da ter¬ra um valor nutritivo superior ao dos trigos importados. As analyses a que procedeu o
fallecido professor Ferreira Lapa nos três ty-pos a que atraz nos referimos, confirmam até certo ponto esta opinião, visto ellas terem
accusado, para os mesmos typos, uma dose de materiais proteicas egual ou mesmo superior à encontrada nas melhores variedades
portuguezas de trigos mollares. O pão fabricado com farinhas da Madeira, é geralmente fofo, atrigueirado, leve e saboroso.»
Trindade e Vasconcelos (Joaquim da)
Nasceu na vila de Machico em 1825 e faleceu no Funchal a 14 de Abril de 1906. Era
bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra e foi por largos anos advogado na comarca do Funchal. Foi também
presidente da Câmara Municipal. Publicou em 1867 um folheto de 40 páginas intitulado Projecto de lei regulamenta* do contrato
de colónia ou parceria agrícola na Uha da Madeira, no qual colaborou o falecido dr. José António de Almada.
Trip-Trap
Periódico funchalense ilustrado de que apareceram sete números, o primeiro a 9 de Janeiro e o último a 22 de
Fevereiro de 1898.
Trombeteira (Datura suaveolens)
Solanácea arborescente cultivada e naturalizada na Madeira. "È originária do Peru e está
revestida quase todo o ano de flores grandes, afuniladas, brancas, muito odoríferas.
Trombeteiro (Centriscus scolopax)
Pequeno peixe da família Centriscida, sem valor algum comercial. Quando sopra o vento
rijo do largo, aparece em grande quantidade sobre a praia da ilha do Porto Santo.
Trovisco
Dá-se este nome na Madeira a várias espécies do género Euphorbia, a mais comum das quais é a E. Peplus. O suco
leitoso desta planta é empregado no tratamento das moléstias de pele.
Truta. (Ctenolabrus truta)
Peixe lábrida, raro nas águas da Madeira, mas que aparece com uma certa frequência nas do Porto
Santo. A sua carne é saborosa, embora um tanto mole.
Tmxillo (D. Sancho)
V. Sancho (D.) a páginas 222 deste volume.
Tubarão (Carcharias microps)
Peixe da família Carcarida, assinalado nos mares da Madeira. Segundo Lowe, é notável pela
pequenez dos olhos e tem os dentes fracos em relação ao tamanho estando dispostos em duas séries, semelhantes nos dois queixos.
Os indivíduos examinados por aquele naturalista mediam 8 pés e 5 ou polegadas de comprimento.
Segundo nos informa o sr. Adolfo de Noronha, a denominação de tubarão dada à espécie a que nos referimos só é conhecida hoje
dos pescadores do Caniçal (1921).
Tuckey (T. KJ. V. Expedições científicas, a página 410 do volume I deste Elucidário.
Tudesco (Adenocarpus complicatus)
Leguminosa arbustiva, de ramos esbranquiçados, folhas fasciculadas e 3-foliadas e
flores amarelas, que se encontra no Caminho do Meio e no sítio do Pasto perto da Choupana.
Tudesco é corruptela de codesso.
Túmulo-Monumento
Assim se denomina o monumento que se levantou no recinto de cemitério das Angústias, à memória dos
que barbaramente foram mortos pelas granadas dum submarino alemão, no dia 3 de Dezembro de 1916. Já dele demos sucinta
notícia a página 68 do I volume desta obra, para onde remetemos o leitor. A sua entrega à Câmara Municipal deste concelho fez-se
no dia 15 de Dezembro de 1917. Vid. Monumentos.
Túmulos
Nas igrejas desta diocese não se encontram túmulos que, pela sua aparatosa arquitectura, riqueza dos seus mármores
ou primores de ornamentação, despertem as atenções dos visitantes. Apenas nas paredes laterais da capela-mor da igreja do Carmo
se encontram dois mausoléus, que, sem serem grandiosos e de notável primor artístico, são, no entretanto, considerados como uma
obra de valor: que merece ser visitada e apreciada devidamente. Estes túmulos pertencem à família do fundador da igreja, e em
duas placas de mármore preto se lêem os seguintes epitáfios S. de Pedro Gliz Brandão, e seu irmão Manuel Miz Brandão e seus
herdeiros e S. de António de Carvalhal Esmeraldo, fidalgo da casa de S. M. de. e sua mulher D. Maria Brandão.
Na igreja de Santa Clara, encontra-se o túmulo de Gaspar Mendes de Vasconcelos no qual se afirma estar sepultado o descobridor
Gonçalves Zargo (volume II, página 31).
Tuna da Universidade de Coimbra
Esta tuna presidida pelo então quintanista de direito António Correia Caldeira Coelho,
chegou ao Funchal a 22 de Março de 1913 e saiu para Lisboa a 3 de Abril do mesmo ano. Era constituída por 45 estudantes, os quais
durante o tempo da sua residência no Funchal, estiveram acomodados no edifício do extinto seminário no princípio do caminho do
Monte. A tuna foi muito obsequiada nesta cidade, tendo-lhe sido oferecido no dia do desembarque e após uma curta visita aos
Paços do Concelho, um copo d'agua, na residência dos viscondes de Geraz de Lima. Em honra da tuna houve também um baile no
palácio de S. Lourenço, um outro no «Grémio dos Empregados do Comércio», uma festa na quinta da Choupana, lunchs no Casino
Pavão, Terreiro da Luta e Monte Palace Hotel etc. Os estudantes deram duas récitas no teatro, e visitaram a Portela, Santa Cruz e
Machico.
Turnbull
Este viajante inglês, na sua viagem à roda do mundo, visitou a Madeira, em Julho de 1800. Achou aqui laranjas, melões,
cana-de-açúcar e bananas, assim como vários arbustos tropicais.
Tybumia (Barca)
Navio inglês que entrou no porto do Funchal a 24 de Novembro de 1884, com o fim, segundo declarou o
comandante, de tomar refrescos e proporcionar aos passageiros o conhecimento da nossa terra. Tendo sabido a alfândega, passados
dias, que a bordo da Tybumia se achava muita carga que se pretendia fazer desembarcar sem o pagamento de direitos, foi o
comandante convidado a apresentar o respectivo manifesto e o navio guardado de perto com todo o rigor fiscal. Estas medidas só
evitaram, porém, que as mercadorias desembarcassem, pois que a Tybumia suspendendo ferro na noite de 2 de Dezembro do
referido ano, fugiu inopinadamente do nosso porto, onde se demorara alguns dias, à espera do ensejo para realizar o contrabando.
A fortaleza do Ilhéu fez alguns tiros de peça sobre o navio contrabandista para forçá-lo a voltar ao ancoradouro, mas sem que as
balas atingissem o alvo. A bordo da Tybumia viajavam, entre outros passageiros, duas mulheres que, pelos seus trajes e maneiras
distintas, foram tomadas a princípio pelos habitantes do Funchal, por damas da mais alta aristocracia inglesa!
União (A)
Este jornal, da vila da Ponta do Sol, deu o primeiro número a 31 de Janeiro de 1918.
União dos Viticultores da Madeira
Com este nome, fundou-se, em princípios de 1910, uma sociedade, com o capital de 100
contos de réis, dividido em acções de 20 mil réis, pagas em prestações de 10 por cento no prazo de 10 anos, e cujo fim era a compra
aos seus associados de vinhos em mosto da região da Madeira para os conservar em depósito e beneficiar, exportando-os depois
como produto genuíno isento das falsificações que tanto têm contribuído para o seu descrédito.
Apesar dos fundadores da União os Viticultores terem tomado 25 acções cada um, no valor de 5 contos de réis, o seu exemplo não
foi seguido por outros interessados na valorização aos nossos vinhos, de forma que a sociedade se extinguiu antes de haver prestado
quaisquer serviços à nossa ilha.
Unificação da Moeda. Apesar da Madeira ser terra portuguesa, era estrangeira a moeda de ouro e prata que aqui tinha curso
outrora. A moeda portuguesa era desconhecida da grande maioria dos indivíduos, recusando-se o baixo comércio muitas Vezes a
recebê-la, quando algum continental pretendia servir-se dela para realizar qualquer pagamento.
Para pôr termo a um estado de coisas que, além de deprimente para o país, trazia prejuízos à população, propôs em câmaras o
conselheiro Serpa Pimentel, ministro da Fazenda, a unificação do sistema monetário da Madeira com o de Portugal, tendo esta
proposta, apresentada em 1875, sido convertida em lei em 2 de Maio de 1879, depois duma representação dirigida ao Governo pela
Associação Comercial do Funchal e de haverem falado sobre o assunto, diligenciando conseguir a mesma unificação o dr. Agostinho
de Orneias e Vasconcelos, na Câmara dos Pares, e o dr. Manuel José Vieira, na dos Deputados.
O discurso proferido por este último na sessão da Câmara dos Deputados, de 7 de Abril de 1879, ficou célebre, tendo provocado da
parte do referido ministro da Fazenda as palavras seguintes: «Dou os parabéns ás Camarás pelo discurso que acaba de ouvir, e á
Madeira pela maneira por que os seus interesses são defendidos nesta casa».
Houve quem pusesse em dúvida as vantagens da unificação do sistema monetário da Madeira com o de Portugal, mas o que é facto
é que essa unificação pôs termo a muitos abusos, ao mesmo tempo que conjurava a crise cambial, cujas consequências ameaçavam
ser cada vez mais temerosas para o consumo do distrito.
Muitos especuladores fizeram fortuna adquirindo nos mercados ingleses por um preço muito baixo, a moeda estrangeira que
circulava na ilha, tendo resultado deste negócio, realizado por vezes em larga escala não poder o comércio ultimamente obter
saques a menos de 42%, quando em circunstâncias normais eles se obtinham entre 33 e 34%.
Pela lei de 2 de Maio de 1879, ficou, como se disse, a moeda legal no distrito do Funchal sendo a mesma do Continente, devendo
todos os pagamentos feitos em virtude de contratos ou ajustes anteriores à execução da mesma lei, ser feitos em moeda forte com o
abatimento de 1/16.
O prazo para a troca da moeda foi de dois meses, tendo sido o governo autorizado a mandar cunhar moedas de prata de 500 200,
100 e 50 réis, até a importância de 500.000$000 réis para as necessidades do distrito do Funchal.
A moeda de cobre, de Portugal, já circulava na Madeira ao tempo da lei da unificação da moeda, ao mesmo tempo que a chamada
pecunia madeirensis representada por moedas de 20, 10 e 5 réis vendo-se estes valores, nas emissões de 1842, 1850 e 1852, entre
dois ramos de videira, e não entre uma cana e um ramo de videira, como, por um lapso difícil de explicar, se disse a página 360 do
volume II. V. Moeda.
Urgebão
Duas plantas da família das Verbenáceas são conhecidas por este nome: a Verbena bonarbensis e a V. officinalis. A
primeira, que é originária da América do Sul, tem folhas muito ásperas, inciso-serradas, e flores lilacíneas, dispostas em espigas a
princípio curtas e depois alongadas; a segunda, que é indígena tem folhas inciso-serradas ou penatifendidas às vezes glabrescentes
na página superior, e flores azuis, muito pequenas, dispostas, em espigas estreitas e que se tornam filiformes na frutificação. A
infusão das folhas destas plantas usa-se nas moléstias do fígado e dos rins. Jarvão é corruptela de urgebão.
Urjamanta (Dicerobatis giornae)
Peixe da família Miliobatida que aparece às vezes nas proximidades do litoral da Madeira. Ê
a maior das raias, pode medir nalguns casos cerca de 2 metros e os pescadores arpoam-no sempre que podem, por ser considerado
animal nocivo ao homem embora careçam de confirmação os delitos de que o acusam. fil corrente entre os pescadores que, quando
uma urjamanta consegue apanhar um homem, o prende sob o seu corpo só o deixando depois de morto.
Urtiga (Urtica membranacea)
Planta da família das Urticaceas, muito comum na Madeira. Os seus caules e folhas são
revestidos de pêlos que segregam um líquido cáustico. A infusão de urtigas é aconselhada nas moléstias de pele.
Urtiga Morta (Mercnriali annua)
Euforbiacea anual, comum na Madeira e Porto Santo. 15 planta purgativa.
Urze
Das três Erlcaceas que, na Madeira, são conhecidas por este nome, duas somente têm importância pelos seus produtos: a
Eriça Scoparva, a que chamam urze durasia ou das vassouras, e a E. arbórea, conhecida pelo nome de urze molar ou betouro. Esta
tem as folhas e os ramos vilosos, aquela tem-nos glabros. Os troncos, as touçast e as raízes destas duas espécies fornecem o melhor
carvão da ilha, e os seus ramos e ramusculos recebem depois de secos o nome de «queima», sendo muito usados como combustível.
A urze molar, embora quase sempre arbustiva, pode atingir 8 a 10 metros de alto, e conhecemos outrora alguns indivíduos cujos
troncos mediam 1 a 2 metros de circunferência. A madeira desta espécie é rija, compacta e dum castanho escuro, mas fende com
facilidade, sendo por isso pouco usada na marcenaria. Nos campos, empregam-na às vezes para gamelasi colheresz etc. Os caules
não muito grossos, dão excelentes bordões e paus de rede. A urze durasia é quase sempre arbustiva, e só nalguns casos chega a
atingir 4 e 5 metros de alto, apresentando então um pequeno tronco com 20 a 30 centímetros de diâmetro. Os seus ramos, além dos
usos indicados, servem para o preparo de vassouras.
Urze de Cheiro. (Diosma ericoides)
Arbusto da família das Rutaceas, cultivado nos jardins do Funchal. E originário do Cabo
da Boa Esperança e tem folhas semelhantes às das urzes, mas muito aromáticas.
Urzela
Existem no arquipélago da Madeira três líquenes conhecidas pela denominação de urzela: Nemaria fuciformis, N. rooella e
N. fucoides. Estas espécies, que contém um princípio corante vermelho, eram exportadas outrora em grande quantidade, mas com
os processos industriais da extracção das anilinas é nulo hoje o seu emprego na tinturaria. A Nemaria rocella e a N. fuciformis eram
colhidas principalmente nas Desertas, mas tanto uma como outra abundam nas rochas do norte e do sul da Madeira.
Já no tempo em que Frutuoso escreveu as Saudades da Terra se colhia a urzela na Madeira, tendo o comércio e a exportação deste
líquene durado até meado do século XIX.
Uveira (Vaccinium maderense)
Arbusto ou pequena árvore frequente nas montanhas da Madeira, onde forma maciços, às
vezes bastante extensos. Tem folhas lanceoladas, muitas vezes avermelhadas, e corolas globo-campanuladas, maculadas de
vermelho. A madeira que é bastante rija, é utilizada como combustível e para o fabrico do carvão, e dos faz-se uma conserva que é
útil no tratamento tosses e constipações.
Úzel
Este apelido de família procede de Rui Vaz Uzel que veio para a Madeira em 1480 e fez casa na Tábua.
Úzel (Barão de)
Luís Alexandre Ribeiro Mendonça barão de Úzel, nasceu nesta cidade no ano de 1839 e faleceu a 2 de Junho de
1903. Era filho de Marcelino Ribeiro de Mendonça, de quem neste volume nos ocupámos a páginas 197, e desempenhou os cargos
de oficial chefe de repartição do Governo Civil e de professor do nosso Liceu. Conhecia profundamente as línguas francesas e
inglesa, tendo na primeira deixado inéditas algumas composições em prosa e verso. Cultivou distintamente as letras, achando-se
dispersos pelos jornais muitos dos seus escritos. Nas Flores da Madeira, encontram-se algumas composições suas.
Vacina
Parece que foi o medico da corte, o Dr. Domaire, quem primeiro fez na Madeira experiências de vacinação contra as
bexigas, tendo-se-lhe seguido o Dr. Adams, ao qual já nos referimos a páginas 16 do volume I deste Elucidário. Num requerimento
despachado favoravelmente pelo Governador e apresentado á Câmara Municipal em sessão de 27 de Outubro de 1802, pedia o Dr.
Adams que «de oito em oito dias lhe mandassem quatro expostos, para neles ensaiar a vacina contra as bexigas», tendo o mesmo
médico num relatório escrito em inglês, mas que foi traduzido pelo major intérprete Francisco Manuel Patrone, apresentado o
resultado das experiências a que procedera.
Depois do Dr. Adams, procedeu a vacinações o medico madeirense Dr. António Caetano de Freitas, o qual em dois relatórios, um
escrito em 1804 e o outro em 1807, deu também conta do que havia observado.
Em 1815, estabeleceu a Câmara, em virtude de portaria do governador, que todos os meses houvesse vacina para os expostos,
aplicada pelo físico-mor, e em sessão de 7 de Junho de 1823, resolveu a mesma corporação que se convidassem por meio de editais
os pais de família a mandar seus filhos a vacinar ao hospital, onde havia «um estabelecimento gratuito para esse fim, criado no ano
passado pelos cuidados da Câmara, de acordo com os guardas-móres de saúde e o provedor do mesmo hospital.»
Parece, pois, que só de 1822 ou de 1823 em diante é que o emprego da vacina começou a generalizar-se na Madeira, embora se saiba
que antes disso eram os expostos vacinados, e que em 1804, quando muita gente punha ainda em duvida a utilidade das
inoculações, já o governador Sequeira Freire as aconselhava a toda a gente, como o único meio eficaz de evitar o contagio e a
propagação da varíola.
Vahl (Dr. Martin)
Botânico dinamarquês que esteve na Madeira de 1901 a 1902 e de 1920 a 1921. Na segunda visita que fez a esta
ilha, esteve também no Porto Santo. E.:Madeiras Vegetation , Copenhague, 1904 eUeber die Vegetation Madeiras (Engler's
BotanischeJahrbuchn , 1905).
Vaksel (Platão de)
Nasceu nos arredores de Petrogrado a 14 de Agosto de 1844, sendo filho de pais nobres, e formou-se em
filosofia na Universidade de Leipzig, recebendo o diploma de doutor em 1874. Tendo vindo á Madeira em Novembro de 1861 para
acompanhar uma sua irmã que estava sofrendo de tuberculose pulmonar e que aqui faleceu passados meses, demorou-se nesta ilha
por algum tempo, havendo feito estudos especiais sobre a musica madeirense, acerca do qual publicou na
Gazeta da Madeira
do
ano de 1869 um interessante artigo intitulado Alguns dados da historia da Musica na Madeira, o qual foi reproduzido no
Jornal do
Comercio
.
Platão de Vaksel esteve também em Lisboa, afim de proceder a investigações históricas e bibliografias nas principais bibliotecas,
regressando depois á Madeira, onde contava numerosos amigos. Em Junho de 1870, voltou para a Rússia, onde desempenhou o
elevado cargo de director da chancelaria no Ministério dos Negócios Estrangeiros daquele império.
Era membro do Instituto de Coimbra e da Sociedade de Geografia de Lisboa, e além do trabalho a que já nos referimos, publicou
muitos outros cujos títulos vêm assinalados no volume XVIII, página 295 do
Diccionario Bibliographico Portuguez,
tendo dois
deles, referentes á musica em Portugal, aparecido na Gazeta da Madeira dos anos de 1866 e 1868.
Platão de Vaksel era vivo ao tempo em que principiou a guerra da Alemanha com a Russia, em que este último país combateu por
alguns tempos ao lado da França e da Inglaterra, mas depois disso não mais se receberam noticias suas nesta ilha.
V. Faria e Castro (José Carlos de).
Valadas (Coronel Manuel Raimundo de)
V.Juntas de Paróquia.
Valença (Marqueses de)
V. Vimioso (Condes de).
Valente (Vapor)
A primeira embarcação a vapor empregada no serviço costeiro desta ilha foi o chamado Vapor Valente, que
chegou ao Funchal, vindo de Inglaterra, no dia 1 de Setembro de 1872 e que deu á costa a 11 de Novembro de 1876. Houve a
imprevidência de o deixar ancorado á terra do Ilhéu quando começava a soprar uma violenta tempestade do quadrante sul, indo de
encontro á costa, por debaixo da quinta Lambert, onde foi inteiramente destruído.
Vales
Nesta ilha, diz-se no
Diccionario Universal Ilustrado Portuguez
, «ha vales de paisagem indescritível em todas as variantes
do belo rústico: tudo que ali é arte, cultura, trabalho do homem, fica acessório, mesquinho, nulo quase á contemplação, e só a
natureza se ostenta grandiosa na profusão daquelas suas espontâneas magnificências; ali, o pincel cairá da mão, a corda da lira
estalará tremula, e a pena do prosador que tentar descrever estenuará em grandiloquas vulgaridades, porque só poderia dar os
traços e a matiz desses paineis o poder que, com o seu fiat criador, os produziu, tomando por instrumentos os vulcões e o mar.
Destes vales mencionaremos cinco: a leste o de Machico, a sul o do Funchal, e, incluindo neste, o Vale Formoso, cujo todo forma um
vasto panorama em anfiteatro, enlevo de quantos viajantes entram a baia e porto amplissimo que lhe ornam as praias; a doze e
meio quilómetros daqui, nos elevados confins da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, o vale do Jardim da Serra, opulento de
variada vegetação indígena, no acidentado recesso das montanhas sertanejas, verde-negras de inculto arvoredo nativo, que em
quase completo circulo o abrigam, deixando-lhe só aberto o do sul, em cuja direcção, serpeado por dois ribeiros, alfim unidos em
vistosa cachoeira, com eles se prolonga para o mar; a norte o vale de São Vicente, onde é a vilasinha, cabeça do concelho e comarca
deste nome, vale amplo, amenissimo em si, e surpreendente pelo contraste das inacessíveis e incultas montanhas que, topetando
com as nuvens, o cercam excepto por norte, á beira-mar; e finalmente, para leste o vale em circuito da Penha de Aguia, gentil nome,
que, na sua sublime concisão, está dizendo ser aí um promontório altíssimo, verde-negro, sobranceiro ao território adjacente,
majestoso, condigno trono da rainha dos ares, vale este formado pela freguesia do Faial e pela do Porto da Cruz, e cujo sítio,
conjunto com essa penha que lhe deu o nome é tão espantosamente belo, que não tem rival que o humilde nos edens da Europa, do
mundo talvez....»
Valhadolid (Padre Francisco)
Apesar de qualquer afirmação em contrário, a verdade é que a Madeira não tem servido de berço a
indivíduos que deixassem no nosso país nome aureolado nos anais da arte musical. Apenas o padre Francisco Valhadolid gozou de
grande nomeada no seu tempo e dele fazem menção muito honrosa Barbosa Machado na
Bibliotheca Lusitana
, Joaquim de
Vasconcelos na sua obra Os Músicos Portugueses, e provavelmente se ocupará dele Ernesto Vieira no Dicionário dos Músicos
Portugueses, o que neste momento não podemos verificar.
Vimos já pôr em duvida que fosse natural desta ilha, devido talvez ao estranho apelido de que usava, mas tendo vivido durante
largos anos em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho e ali falecido, e dizendo o respectivo assento de óbito que era natural da
Madeira, é para acreditar que o sacerdote que lavrou esse termo tivesse conhecimento da naturalidade dum seu colega, que por
muitos anos residiu nos limites da sua paróquia.
Dão Valhadolid por nascido em 1640, tendo falecido na freguesia de Santos a 17 Julho de 1700 e jaz sepultado na respectiva igreja
paroquial. Diz Joaquim de Vasconcelos que no Funchal foi discípulo do cónego Manuel Fernandes na composição, e em Lisboa do
distinto musico João Alves Frovo no contraponto. Dedicou-se á música sacra e deixou muitas composições, que Vasconcelos
enumera e que foram consideradas no seu tempo como produções de grande valor artístico. Trabalhava numa obra intitulada
Mistérios da música, assim pratica como especulativa, quando a morte o surpreendeu. Possuía uma rica biblioteca musical, que
parece ter-se perdido completamente.
Era presbítero secular e durante muitos anos exerceu o cargo de professor de música do seminário arqui-episcopal de Lisboa.
Vapor
O primeiro navio movido a vapor que visitou o porto do Funchal foi o Duke of York, da marinha mercante inglesa. Chegou
aqui na primeira quinzena do mês de Maio de 1828, com grande número de passageiros que visitaram vários pontos da ilha.
O Duke of York esteve também no Porto Santo, onde chegou a 15 de Maio, com 400 e tantos passageiros, alguns deles pessoas do
Funchal. Estes passageiros desembarcaram naquela ilha pelas 11 horas do dia, e depois de verem os principais lugares embarcaram
pelas 3 horas da tarde com destino á Madeira.
Vapor
Quase em frente da antiga rua das Dificuldades, existiu outrora uma edificação de madeira muito curiosa, conhecida pelo
nome de Vapor, cujas extremidades assentavam sobre as duas margens da ribeira de Santa Luzia. Tinha um só pavimento, era
pintada de vermelho e destinou-se primitivamente a um botequim e casa de banhos, servindo nos últimos anos de moradia a
algumas famílias pobres. Foi construída em 1837 e demolida, segundo cremos, em 1898, por se achar muito arruinada. Era
frequente ver muitos dos estrangeiros que entre nós passavam o inverno, reproduzirem pelo desenho ou pela pintura a
extravagante construção que existia sobre a ribeira de Santa Luzia.
Vara de Salto
Aparelho de pesca que consiste numa vara de vinhatico ou folhado, tendo na ponta uma linha, na extremidade da
qual está um arame de cerca de meio metro de comprido, provido dum anzol. Serve na pesca do gaiado e atum, sendo o anzol liso
quando destinado a apanhar o primeiro destes peixes, e provido de barbas quando destinado á pesca do atum.
O gaiado quando prende o anzol dá um salto e vem bater ordinariamente no peito do pescador, que com os dentes arranca o mesmo
anzol do peixe.
Varadouros (Capela e portão dos)
V. Nossa Senhora dos Varadouros e Portas da cidade .
Varela
Este apelido de família procede de Lopo Dias de Lira Varela, filho de Afonso de Aragão, cavaleiro napolitano. Este Lopo
Dias serviu em África, foi moço fidalgo da casa real em 1515, e cavaleiro professo da Ordem de Cristo.
Varela (Cónego Dr. Antonio Vicente)
Nasceu na freguesia da Ponta do Sol a 10 de Novembro de 1854 e faleceu nesta cidade a 12
de Dezembro de 1903. Cursou o liceu e seminário do Funchal e ordenou-se de presbítero no ano de 1881. Em 1886, concluiu a sua
formatura em teologia na Universidade de Coimbra e por carta régia de 29 de Março de 1900 foi apresentado cónego na nossa Sé
Catedral. Foi professor do Seminário do Funchal, deputado por este arquipélago na sessão legislativa de 1892 a 1893 e presidente
da Comissão Administrativa da Misericórdia do Funchal, tendo desempenhado outras comissões de serviço público.
Era o Dr. Varela uma inteligência muito culta, um trabalhador incansável e um ardente lutador, mas um espírito irrequieto e em
extremo impressionável, por vezes violento e atrabiliário, sobretudo como jornalista, o que lhe acarretou a malquerença de muitos,
tendo por isso que sustentar rudes campanhas e até sofrer penalidades impostas pelos seus superiores hierárquicos.
Fundou vários jornais, tendo quase todos uma vida efémera. Entre eles, destaca-se O Latego, pela violência da linguagem e pelos
ataques dirigidos à autoridade eclesiástica, de que mais tarde o Dr. Varela sinceramente se arrependeu.
Sem ser um notável jornalista, possuía uma tão grande facilidade de redacção que causava assombro. Publicou em volume:
A
suspensão do professor da Escola Municipal da Ponta do Sol
, Manuel José Varela, 1888, de 52 páginas,
Ultimas observações dum
sentenciado. Resposta á critica do reverendo padre Pacheco...
, 1889, de 127 paginas;
A guerra do Sr. D. Manuel Agostinho
Barreto à confraria de Nª S.ª do Monte do Carmo
, 1891, de 137 páginas, que saiu anónima; e a
Victima da Rolha. A Decapitação
do «Latego»....,
1891, de 282 páginas, que também saiu como publicação anónima.
Varela (Dr. Jose)
Nasceu na Ponta do Sol a 19 de Março de 1874 e é medico-cirurgião pela Escola Médico-cirúrgica de Lisboa e
capitão-medico do exército, tendo-se alistado no posto de alferes a 21 de Outubro de 1903. É vogal da Junta Geral do Distrito e em
1921 foi eleito senador pela Madeira (1922).
Varoes Ilustres
Subordinada a este título, vamos apresentar uma resenha de vários indivíduos desta ilha, que notavelmente se
distinguiram fora do seu torrão natal e de modo particular nas nossas campanhas de além-mar. Muitos deles mereciam mais larga
referência em artigos especiais e até alguns uma desenvolvida biografia, mas, para uns, escasseiam-nos os elementos
indispensáveis, e para outros deu-se a involuntária omissão de os não colocar nos lugares que nesta obra deveriam ocupar.
António Gonçalves da Câmara era bisneto do descobridor João Gonçalves Zarco e filho de Dona Ana de Eça, camareira-mor da
rainha D. Catarina. Foi caçador-mor do rei D. João 3.° e exerceu cargos importantes na corte, depois de ter militado com estremado
valor em terras do Oriente. Raptou violentamente D. Isabel de Abreu, como fica referido com largueza a página 6 do volume I desta
obra.
João Rodrigues de Noronha, filho do 3.° capitão-donatario do Funchal, diz um cronista que foi soldado de grande fama na Índia e
teve o cargo de capitão do mar na costa de Diu e depois o de capitão-mor de Ormuz.
Manuel de Noronha, irmão do antecedente, que muito se distinguiu nas campanhas de Marrocos, sendo fronteiro em Safim.
Rui Gonçalves da Câmara, capitão-mor do mar da Índia e capitão de Barcelor e de Ormuz, que deixou nome aureolado em várias
façanhas que praticou.
Luís Gonçalves de Ataíde, senhor das ilhas Desertas, militou em África, sendo capitão da praça de Ceuta. Foi pai do conde de
Atouguia e progenitor dos senhores deste título.
Jordão de Freitas, a quem mui elogiosamente se referem os cronistas da Índia, nasceu na vila de Santa Cruz e foi capitão de Maluco
e senhor das ilhas de Amboíno e Siam, por doação feita pelo rei de Ternate e depois confirmada por D. João 3.° no ano de 1543.
Gonçalo de Freitas da Silva, filho do anterior e também natural de Santa Cruz, serviu valorosamente na Asia, onde teve os mesmos
senhorios de seu pai, que foram, confirmados por D. Sebastião em 1574.
Jordão de Freitas da Silva, filho do anterior, que, diz um genealogista, «foi embaixador á França na cobrança da artilharia e mais
fazenda que lá se perdeu no ano de 1626», tendo falecido no desempenho desta missão, sendo, como recompensa desse serviço,
dada a seu filho Gonçalo de Freitas, a comenda de Santa Maria de Lisboa, na Ordem de Cristo.
João de Freitas da Silva, membro da mesma família, organizou nesta ilha, em 1631, uma companhia de 100 homens, pagos á sua
custa, e com ela foi combater em Pernambuco, sendo aí morto pelos holandeses.
Diogo Cabral, que serviu distintamente no oriente, tendo sido nomeado pelo monarca capitão da frota destinada ao descobrimento
da ilha do Ouro, empreendimento que se não realizou, pelas dificuldades que lhe levantou o governador da Índia, Martim Afonso de
Sousa.
Lopo Mendes de Vasconcelos, militou valorosamente na Índia, tendo ido aquele estado como capitão duma nau da frota que
comandava Vasco da Gama, do qual era cunhado. Voltou novamente este madeirense á Asia como capitão duma nau.
Manuel de Vasconcelos, filho do anterior, era chamado o da Índia, pelo muito que ali serviu, e foi capitão de Maluco e de Cananor.
Era marido da celebre heroína Isabel da Veiga, que tanto se notabilizou no cerco de Diu e da qual fazem o mais alto panegirico
todos os cronistas das nossas campanhas na Asia. Por ser casada com um madeirense, alguns a tomaram como natural desta ilha,
mas nasceu no Continente do Reino, de família ilustre.
Manuel de Vasconcelos da mesma família, passou á Índia em 1613, por capitão duma nau, em companhia de seis filhos, que todos
deram provas de grande valor, pelo que o primeiro, António Mendes de Vasconcelos, teve uma comenda da Ordem de Cristo, que
passou, por sua morte, a seu irmão Luís Mendes de Vasconcelos, que foi comandante da fortaleza de Baçaim. Outro filho de Manuel
de Vasconcelos, por nome André de Vasconcelos, morreu heroicamente na batalha naval do mar de Ormuz.
Antonio Mialheiro ou Malheiro, esteve na tomada de Azamor, como capitão-mor de quatro caravelas e ali prestou serviços
relevantes, sendo depois governador do castelo de São Jorge da Mina.
Rui Dias de Aguiar, o Velho, morreu na fortaleza do cabo de Gué, em Africa, depois de a ter valorosamente defendido, como capitão
dela, distinguindo-se também ali um seu filho do mesmo nome.
Pedro Afonso de Aguiar, irmão do anterior, foi armador-mor do Reino, provedor dos armazéns e comendador da Ordem de Cristo.
Passou á Índia, como capitão duma nau, na armada de Lopo Soares, e com este se achou na destruição de Cranganor, tendo sido
capitão-mor do Mar do Sul, no oriente. Mais tarde, esteve com D. Jaime, duque de Bragança, na conquista de Azamor, em Africa,
sendo encarregado da direcção dos serviços do mar, em que era muito perito.
Luís de Noronha e João Fogaça de Eça, filhos de Pedro Gonçalves da Câmara e de D. Joana de Eça, camareira-mor da rainha D.
Catarina, foram os dois capitães da armada que, por ordem do capitão-donatario do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, saiu
desta ilha em socorro da fortaleza de Santa Cruz no cabo de Gué, em Africa, tendo-se ali distinguido pelo seu valor e coragem.
João Fernandes de Andrade, a quem já noutro lugar nos referimos (volume I, pagina 66), bem como seus filhos, nascidos nesta ilha,
serviram valorosamente em África, pelo que lhes concedeu D. João o brasão de armas próprio com o apelido de Arco. Eram
descendentes dos Andrades de Galiza, condes de Vilhalva. Filho de João Fernandes de Andrade era Francisco de Andrade que
combateu heroicamente em Marrocos e que, tendo ali morto uma onça, ofereceu a pele dela a D. Manuel, que muito a apreciou.
António Correia, a quem os seus contemporâneos chamaram o Grande, que muitas vezes se distinguiu notavelmente na África e na
Ásia, praticando actos do mais estremado valor, com o maior desinteresse e abnegação, não só com avultado dispêndio dos seus
haveres mas ainda recusando quaisquer recompensas pelos serviços prestados. Durante muitos anos se conservaram em poder de
seus descendentes várias cartas que alguns monarcas lhe dirigiram, enaltecendo-lhe os feitos valorosos e agradecendo-lhe os
serviços que desinteressadamente prestara ao seu rei e á sua pátria. Muitos anos depois da sua morte, foi restituído ao seu bisneto
António Correia Henriques a carta de nobreza e o foro de fidalgo, que António Correia já possuirá em atenção aos grandes serviços
por ele prestados. Os seus descendentes Jorge Correia Betencourt, João Correia Betencourt e especialmente Gaspar Correia
Betencourt, também batalharam valorosamente em África, tendo o ultimo sido morto no Funchal, em 1566, por ocasião do saque
dos corsários franceses, na defesa da cidade.
Manuel de Freitas Drumond foi grande soldado na Índia, no dizer dum cronista, havendo sido armado cavaleiro em Mombaça, por
ocasião do cerco posto a esta cidade.
Lopo de Arouguia, que prestou grandes serviços na Índia, sendo despachado governador da fortaleza de Damão.
Simão de Atouguia distinguiu-se notavelmente em Tanger, pelo que lhe foi concedida a comenda de São Pedro do Sul na Ordem de
Cristo.
João de Betencourt de Vasconcelos passou à Índia como capitão duma nau e ali deu provas de grande valor, tendo desempenhado
vários cargos.
Matias de Andrade e seu irmão Manuel de Andrade Correia tornaram-se conhecidos no oriente português pelos postos que tiveram
e pelos actos de bravura que ali praticaram.
Henrique Moniz de Meneses foi agraciado com a Comenda de São Cosme, na Ordem de Cristo, em atenção aos relevantes serviços
que prestou em África. Seus filhos Vasco e Pedro Moniz também se distinguiram em varias campanhas, tendo morrido afogados na
viagem que fizeram para o Maranhão, na armada de D. Luís de Melo, no terceiro quartel do século XVI.
Tristão Teixeira, neto do primeiro donatário de Machico, distinguiu-se tão notavelmente na Índia como guerreiro, que era
conhecido pelo nome de Temerário.
Rafael Catanho, de quem vários cronistas se ocupam, teve fama de grande soldado nas terras do oriente e foi á Índia como capitão
duma nau.
António de Andrade Couto, foi, diz um antigo escrito, um capitão famoso em combates contra os persas, distinguindo-se pelo
denodo e sangue frio com que se batia.
Belchior Berenguer foi um valente e destemido soldado, que, entre outros feitos, conta o de ter vencido em desafio «um soberbo
mouro de grandes forças».
Fernão Lopes de Freitas, dos Freitas da Madalena, depois de ter servido com distinção na Índia, foi alcaide-mor de Tanger, cujo
cargo se perpetuou nos seus descendentes.
Gaspar Vilela, diz um antigo manuscrito, nasceu na Ribeira Brava e foi valoroso cavaleiro na fortaleza do cabo de Gué. No ataque a
Safim, em que os mouros mataram o capitão e o adaíl desta praça, fez Gaspar Vilela parte da expedição que foi em socorro dela,
sustentando um certo numero de homens á sua custa e ali permaneceu alguns meses, praticando actos de valor. Também
acompanhou o infante D. Luís na jornada de Túnis.
António Espinola batalhou voluntariamente na Índia e era capitão duma nau na tomada de Mangalore, em que se portou como um
herói.
Mem de Ornelas e Vasconcelos morreu em Chaul, onde se distinguiu como capitão duma hoste, tendo servido na Índia durante
muitos anos, sempre à sua custa e com grande desinteresse.
João de Ornelas de Vasconcelos, próximo parente do anterior, militou durante muito tempo em Marrocos e tornou-se conhecido
pelos seus actos de bravura nas tomadas de Safim e Azamor.
Francisco Figueiroa levantou nesta ilha um terço, de que foi mestre de campo, indo com ele combater nas guerras contra os
holandeses no Brasil e havendo sido um dos restauradores de Pernambuco. Foi depois governador-geral do arquipélago de Cabo
Verde.
Manuel Dias de Andrade encontrou-se na restauração da Baía como capitão duma nau, pelejando muitas vezes e com grande
heroísmo em várias armadas contra os turcos e holandeses. Faleceu em Cabo Verde, quando se dirigia na armada de Francisco de
Melo a incorporar-se nas forças que iam tentar a restauração de Pernambuco.
António de Freitas da Silva fez parte do exército que restaurou a Baia, foi destemido capitão nas guerras de Pernambuco e
distinguiu-se depois nas campanhas da restauração contra a Espanha, tendo sido governador das armas de Trás-os-Montes e
capitão-mor duma armada.
João de Freitas da Silva, parente do anterior, levantou á sua custa nesta ilha uma companhia de cem homens, indo pelejar nas
guerras de Pernambuco, onde se distinguiu, e ali morreu ás mãos dos holandeses.
Francisco de Betencourt e Sá por meados do século XVII, depois de combater heroicamente no Brasil, organizou na Madeira um
terço, indo servir nas guerras de Flandres.
Diogo Vaz da Veiga, irmão de Tristão Vaz da Veiga, esteve dois anos em Arzila, diz Gaspar Frutuoso, e depois serviu em várias
armadas, sendo algumas vezes capitão duma galé «acontecendo-lhe boas aventuras». Morreu estando eleito capitão de Tanger.
Tristão de França, que foi cavaleiro de Cristo e fidalgo da Casa Real, distinguiu-se valorosamente nas guerras do Brasil, tendo sido
capitão de mar e guerra na armada em que António Teles de Meneses serviu de general.
Francisco de França Barbosa, irmão do anterior, teve o posto de capitão de mar e guerra e depois o de mestre de campo entre Douro
e Minho, cuja província governou nas guerras da restauração, em que notavelmente se distinguiu, referindo-se a ele o conde da
Ericeira, no Portugal Restaurado, nos mais elogiosos termos.
Luís Telo de Meneses, que era capitão de infantaria, morreu heroicamente na batalha de Montijo, um dos combates em que as
tropas portuguesas deram provas de mais valor nas guerras da restauração.
Lúcio Betencourt de Vasconcelos foi um dos valentes soldados das guerras da restauração, em que ocupou o posto de capitão de
infantaria.
Cristovão de Ornelas de Abreu também militou nas campanhas da restauração, em que se distinguiu, sendo depois governador da
nova colónia de Buenos Aires.
Zenobio Acciaioli batalhou valentemente nas guerras de Pernambuco e ali foi mestre de campo, ganhando fama de esforçado
cavaleiro. João Baptista Acciaioli, irmão do antecedente, igualmente se distinguiu nas campanhas de Pernambuco, após a
restauração de Portugal.
Francisco de Berenguer de Andrade, sogro do ilustre João Fernandes Vieira, um dos primeiros que tomaram parte nos combates
que precederam a restauração de Pernambuco, dando mostras de notável intrepidez. Antonio de Andrade Berenguer, Francisco
Berenguer, Manuel Dias de Andrade e Agostinho César Berenguer, cunhados de Fernandes Vieira, muito se distinguiram nas
guerras do Brasil e nas da restauração, mas nasceram todos na Baía.
Félix Ferreira serviu com denodado valor em vários combates e afirma-se que foi principalmente devido á sua coragem que se
salvou a maior parte dos portugueses na armada qne se perdeu nas costas da França, no ano de 1626.
Lourenço da Veiga, irmão de Tristão Vaz da Veiga, de quem dizem as Saudades: Sendo mancebo, serviu algum tempo em Arzila e
em Tanger; onde foi ferido. Andou em algumas armadas como soldado, e foi capitão-mor de uma frota que deu caça a um corsário e
de outros que foram á Mina e aos Açores.
Dos madeirenses João Fernandes Vieira e Antonio de Abreu, ocupámo-nos noutro lugar desta obra, e do 2.°, 3.°, 4.°, 5.° e 6.°
donatários do Funchal, deixámos também esboçados uns ligeiros esforços biográficos donde constam os mais importantes serviços
prestados por eles ao país.
Varona (Fr. Inácio José)
Pertencia á ordem dos Carmelitas e pregou na igreja do Colégio por ocasião das festas pomposas que ali
se realizaram em acção de graças por ter o Marquês de Pombal escapado ao crime planeado pelo genovês João Batista Pelle, que foi
justiçado no dia 11 de Outubro de 1775. 0 discurso de fr. Inacio foi publicado e tem o seguinte título:
Oração na acção de graças
que a Real Junta da Fazenda da ilha da Madeira fez celebrar pela prodigiosa conservação da muito necessária vida do
Illustrissimo e Excelentissimo Senhor Marquez de Pombal Sebastiâo José de Carvalho e Mello na egreja de São João Evangelista
da cidade do Funchal em 20 de Janeiro dirigida pelo seu presidente o Illustrissimo e Excellentissimo Senhor João Antonio de Sá
Pereira, do concelho de S. M. Fidelissima, Senhor d'Alverca, Alcaide Mor de Monte Mor o Velho, Comendador da Ordem de
Christo, Governador e Capitão General desta Ilha da Madeira,
Lisboa, 1776, 23 páginas.
Vasconcelos
Há, segundo parece, quatro ramos deste apelido, procedendo um de Martim Mendes de Vasconcelos, outro de Mem
Rodrigues de Vasconcelos, que foi casado com D. Catarina Furtado de Mendonça, filha mais velha de Bartolomeu Perestrelo,
primeiro donatário do Porto Santo, outro de Gaspar Mendes de Vasconcelos, que casou com uma filha de Tristão Vaz, e o quarto de
Fernão Tavares de Vasconcelos, natural de Freixo de Numão, que assentou residência em Santa Cruz, pelos anos de 1540.
V. Ornelas.
Vasconcelos e Sá (João Augusto de)
Nasceu nesta cidade a 9 de Julho de 1880, ao tempo em que seu pai comandava a bataria de
artilharia aquartelada em São Tiago, sendo filho do então capitão Luis Augusto de Vasconcelos e Sá e de D. Maria Algeraz de
Vasconcelos e Sá. É um dos mais apreciados poetas contemporâneos e autor dos livros de versos Um livro, e Rimas pobres.
Escreveu a célebre canção Margarida vai á fonte, que obteve um extraordinário sucesso.
João Augusto de Vasconcelos e Sá, ex-oficial de cavalaria, foi um dos 289 deportados politicos que, depois da Jornada de Monsanto,
estiveram presos no Lazareto de Gonçalo Aires, do Funchal (volume I, página 350).
Vasconcelos e Sousa (Afonso e José de)
V. Sousa (Afonso e José Caminha de Vasconcelos e).
Vaz
Além dos descendentes de Tristão Vaz, houve desde a primitiva, diz o Dr. Azevedo, pessoas mecânicas com este apelido: em
1471, era ourives no Funchal um Lopo Vaz.
Vaz (Padre Fernando Carlos de Meneses )
(
Padre Fernando Carlos de Meneses
). Nasceu na freguesia de Santana a 1 de Fevereiro de 1884. Cursou o Seminário desta
diocese e ordenou-se de presbítero no ano de 1909. É actualmente pároco da freguesia do Porto da Cruz. No
Correio da Madeira
,
publicou uns bem elaborados artigos, contendo notícias históricas acerca de algumas freguesias do norte desta ilha. No arquivo
paroquial do Faial, descobriu há pouco o assento de nascimento do ilustre madeirense João Fernandes Vieira, sendo antes disso
desconhecida a freguesia da sua naturalidade, apesar das aturadas investigações que nesse sentido tinham sido feitas (1921).
O Padre Fernando Vaz, que consagra os seus ócios a diversos estudos genealógicos destinados a ser publicados, é neto do distinto
linhagista madeirense João Agostinho Pereira de Agrela (volume I, página 20 e volume II, página 435).
Vaz (Tristão)
É Tristão Vaz o conhecido e intrépido companheiro de João Gonçalves Zargo no descobrimento deste arquipélago.
Compartilhamos da opinião do ilustre anotador das Saudades quando afirma que o apelido de Teixeira aposto ao nome de Tristão
Vaz foi um acrescentamento feito pelos cronistas, devido certamente á circunstancia da descendência do navegador ter usado
aquele apelido, que provém de Branca Teixeira, mulher de Tristão Vaz. A carta de doação da capitania de Machico, datada de 1440,
diz apenas Tristão, e assim também o chama Gomes Eanes de Azurara, o mais antigo cronista que se ocupou do nosso arquipélago e
que escreveu a sua crónica por 1453. João de Barros, por meados do século XVI, e Damião de Góis, aproximadamente pela mesma
época, isto é um século depois da morte do ilustre descobridor, dão-lhe o nome, o primeiro de Tristão Vaz e o segundo de Tristão
Vaz Teixeira, sendo esta a primeira ocasião em que aparece o apelido Teixeira.
É interessante transcrever sobre o assunto, uma das notas á obra de Frutuoso:
«Além de Antonio Cordeiro e de José Soares da Silva, também Damião de Gois e Antonio Galvão deram ao primeiro capitão
donatario de Machico o nome de Tristão Vaz Teixeira.–Temos isto por manifesto equivoco, derivado das mesmas causas apontadas
em referência áquelles dois primeiros escriptores. Todos quatro foram posteriores á adopção do appellido materno Teixeira pelos
descendentes de Tristão Vaz de que se fala nas Saudades e confundiram este com esses descendentes. Porque, que Tristão Vaz não
tomou o appellido de Teixeira, nem por elle era designado, provam-no: 1.° a carta de doação da capitania de Machico, que lhe não
menciona esse appellido; 2.° a Chronica de Guiné, por Gomes Eannes de Azurara, único escriptor contemporâneo de Tristão Vaz, e
que ahi só Tristão, e Tristão da Ilha lhe chama; 3.° o testamento deste, citado por Frutuoso, onde também não apparece o appellido
Teixeira; e 4.° finalmente, as praxes da avoenga, contra as quaes seria o facto do marido adoptar o appellido da família da mulher.
«Mas, fossem todas estas razões inefficazes; prevalecesse o dito de Goes, Galvão, Cordeiro e Soares da Silva ao de Fructuoso, ao
testemunho de Azurara, á authentica prova resultante da carta de doação, e ás ideias e costumes da epocha; chamasse se Tristão
Vaz Teixeira o primeiro donatario de Machico; por isso mesmo, a rubrica do Cancioneiro de Resende «Tristâo Teixeira, capitão de
Machico» não alludiria áquelle. Falta-lhe o Vaz, appellido que todas as autoridades, favoráveis ao de Teixeira, antepõem a este.
Nenhuma dellas tracta por Tristão Teixeira o primeiro donatario de Machico. Esta, não apposição, mas substituição de appellido só
apparece nos descendentes de Tristão Vaz, como se vê nas Saudades da Terra, na Historia Insulana, e nos Nobiliarios madeirenses.
«Portanto, e pelo mais que dito fica nos lugares a que damos este additamento, estamos convencidos de que Tristâo Vaz, primeiro
donatario de Machico, não tomou o appellido Teixeira, e de que o poeta a que se refere a rubrica do Cancioneiro de Resende fora
Tristão Teixeira, das Damas, segundo donatario».
Na carta em que o infante D. Henrique faz doação duma parte considerável da Madeira a Tristão Vaz, chama a este navegador
cavaleiro de minha casa, e Azurara, na Chronica da Guiné, diz que os dois descobridores deste arquipelago eram «escudeiros nobres
de criaçam daquelle senhor, os quaes requererom que os avyasse como podessem fazem de suas honras». Destas palavras se
conclui, diz o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo «que Tristão não era pessoa de baixa condição, mas escudeiro nobre e honrados.»
Outra presunção da nobreza de Tristão Vaz é o ter casado com Branca Teixeira, senhora de uma das primeiras famílias do reino, e
de já com ela casado e com filhos vir para a ilha da Madeira, antes de lhe ser dada a capitania de Machico, o que mostra que o
casamento não foi alcançado por causa desta mercê.
«Este capitão de Machico, Tristam, diz Frutuoso, foi tão estremado por seu esforço naquelle tempo em que servia ao Infante D.
Henrique, que comummente lhe chamavam Tristam, sem mais sobrenome, por honra de sua cavallaria; porque El-Rey, por elle ser
tal, lhe deo na cavallaria por armas em campo azul uma ave Phenix; e assi como esta ave he uma só no mundo, assi elle era hum só
cavalleiro de seu nome Tristam. Isto davam a demonstrar muitas provisões e cartas que El-Rey lhe escrevia e os Infantes, e sempre
o nomeavam por Tristam da Ilha, Cavalleiro de sua Casa; e elle em seu testamento assi se nomeia, sem mais ornato de cognome;
porque desta maneira se divisava em suas armas, que eram (como tenho dito) uma ave Phenix a qual seus descendentes sempre
trouxeram em suas armas, quarteadas com outras, que ajuntaram da parte feminina dos Teixeiras, que são huma cruz aberta e
huma flor de liz, que hoje estão esculpidas no arco da sua capella, S. João Baptista, que está na igreja mor de Machico.»
Devemos no entretanto lembrar aqui, como já em outro lugar notámos, que o nome de João Gonçalves Zargo vem sempre, nas
antigas crónicas e nos velhos nobiliários madeirenses, rodeado duma auréola de mais prestigio e de mais elevada consideração do
que o de Tristão Vaz, fazendo-nos acreditar que o primeiro descobridor, pelas suas qualidades pessoais, pela sua posição social ou
ainda por assinalados serviços anteriormente prestados teria conquistado os direitos de primazia e de superioridade que o
antepunham ao seu companheiro de descobrimento. Escreve o Dr. Gaspar Frutuoso: «A escriptura que tem os herdeiros de João
Gonçalves diz que elle foi o principal neste feito (a descoberta), e, nomeando Tristão Vaz por Tristão da Ilha, como El-Rey e o
Infante em suas provisões e doações o nomearam, como pessoa menos principal, e nam de tanta edade, nem calidade como João
Gonçalves». E em outro lugar diz ainda o historiador das Ilhas, referindo-se á primeira colonização: «mandou dous capitães com
João Gonçalves, que eram Bartholomeu Perestrello, que havia de ficar no Porto Santo, e Tristam, cavalleiro da casa do Infante, que
ambos vinham debaixo da bandeira do dito João Gonçalves Zargo ( ainda que não faltão muitos que outra cousa digão)...»
Conjectura-se que Tristão Vaz tivesse nascido nos últimos anos do século XIV. Militou em África e ali foi armado cavaleiro pelo
Infante D. Henrique, a cuja casa pertencia, sendo um dos seus escudeiros fidalgos, como já fica referido.
Feito o descobrimento da ilha da Madeira, cuja narrativa sumaria se encontra em outro lugar, diz o autor das Saudades que Tristão
Vaz, acompanhado de sua mulher e filhos, se estabeleceu nesta ilha no mês de Maio de 1425. Procedeu-se em seguida, entre ele e
Gonçalves Zargo, á divisão da Madeira em duas capitanias, delimitando-se a esfera de jurisdição dos dois capitães-donatarios, como
já fica referido nos artigos Donatários, Capitanias, Capitania de Machico e Ponta da Oliveira, para onde remetemos o leitor, afim de
evitar desnecessárias repetições. Também nesses artigos nos referimos sumariamente á administração de Tristão Vaz como capitão-
donatario, a qual parece ter deixado bastante a desejar.
Pelo castigo que infligiu a Diogo Barradas, (volume I, pagina 128), foi chamado á corte pelo monarca e entregue á acção da justiça,
sendo condenado a degredo para a ilha de São Tomé, onde permaneceu algum tempo. A sua posição social, os serviços prestados e
as influências que se moveram em seu favor, restituíram-no á posse da capitania de Machico.
«Por certos negócios que tinha no Algarve, diz Frutuoso, se foi este Tristam, primeiro capitão, a Silves, onde falleceu da vida
presente, deixando povoada a sua jurisdição com filhos e filhas, e tão nobre geração, como ficou delle, tendo de sua idade mais de
oitenta annos dos quais governaria cincoenta, pouco mais ou menos».
Vaz da Veiga (Tristão)
Ainda em vida do capitão-donatario de Machico D. Francisco de Portugal, conde de Vimioso, contemplou
D. Filipe II com aquela capitania a Tristão Vaz da Veiga a 25 de Fevereiro de 1582 e, a 19 de Outubro de 1585, nomeava-o
governador geral deste arquipélago, tendo tomado posse deste cargo a 22 de Novembro do mesmo ano. Era a paga da traição que
Tristão Vaz da Veiga fizera à sua pátria.
Diz Gaspar Frutuoso que de seus «heróicos feitos e gloriosas vitorias está cheio o céu e a terra, desde o Japão até á China, de Malaca
até ao Ganges, do Ganges até ao Tejo e do Tejo até os limites do mar e da terra». Muitos autores se ocupam de Tristão da Veiga e
são todos unânimes em enaltecer-lhe o valor guerreiro e as acções heróicas que praticou, consagrando-lhe o autor das Saudades da
Terra cinquenta longas paginas com o mais caloroso e alevantado panegirico. Mas depois de tantas façanhas gloriosas, que
sobremaneira contribuíram para levantar o prestigio do nome português no Oriente, Tristão Vaz denegriu a memória dos seus
feitos, bandeando-se com os inimigos da sua pátria e entregando vil e traiçoeiramente a fortaleza de S. Julião da Barra, que
guardava a entrada da barra de Lisboa, apressando assim a queda de Portugal sob o jugo castelhano.
Diz Pinheiro Chagas que o «novel governador, que já anteriormente vendera a D. António Prior do Crato os seus serviços, não
hesitou em entregar ao general espanhol as chaves marítimas de Lisboa pela módica recompensa duma renda anual de três mil
cruzados e a vila de Machico na Ilha da Madeira».
Esta recompensa foi acrescentada, como já fica dito, com o importante cargo de governador-geral do arquipélago da Madeira e não
sabemos se outras pagas teria recebido pela sua vilíssima traição.
Foi o terceiro governador-geral deste arquipélago durante a dominação espanhola, e força é confessar que no desempenho deste
lugar prestou excelentes serviços, sobretudo em afastar com prontos e enérgicos socorros as tentativas de vários navios corsários,
que por vezes pretenderam assaltar esta ilha.
Tristão Vaz da Veiga era bisneto de João Gonçalves Zargo e neto de D. Beatriz Gonçalves da Câmara, filha do descobridor, que
casou com Diogo Cabral. Morreu em 1604 ou pouco antes, com cerca de 67 anos de idade.
Veiga (Dr. José Manuel da)
O Dr. José Manuel da Veiga nasceu no Funchal a 18 de Outubro de 1794 e era filho de João Paulo da
Veiga e de D. Jacinta Rosa Leça da Veiga.
Em 1816, matriculou-se na faculdade de cânones da Universidade de Coimbra e depois de um curso brilhantíssimo, em que
alcançou o primeiro prémio em todos os anos, recebeu o capelo em 1822 e em seguida foi admitido no corpo docente daquele
estabelecimento de instrução superior. Durante os seus estudos académicos, revelou-se um estudante de tão extraordinário talento,
que os condiscípulos o chamavam para seu leccionista e explicador e os lentes o admitiam na sua intimidade, o que era para
admirar numa época em que a rigidez da disciplina universitária não permitia aquelas aproximações entre professores e alunos.
Parece que, sendo ainda aluno da Universidade, recebeu ordens sacras e até chegara a celebrar missa, mas abandonou depois a
carreira eclesiástica com grande escândalo dos seus contemporâneos. Ao doutorar-se, defendeu uma tese em que atacou um
preceito muito importante da disciplina da igreja e que publicou com o título Memória sobre o celibato eclesiastico... O volume foi
apreendido e mandado inutilizar, tendo circulado poucos exemplares. Em 1866, já depois da sua morte, fez segunda edição desta
obra num volume de duzentas e tantas páginas.
Depois de alguns anos de magistério, abandonou a sua cadeira de professor e estabeleceu banca de advogado em Lisboa, e ali teve
larga clientela e gozou da fama de um distinto causídico.
Entre os trabalhos jurídicos que lhe granjearam os foros de um notável jurisconsulto, destaca-se o seu Código Penal da Nação
Portuguesa, publicado em 1837. 0 Diccionario Bibliographico de Inocencio faz menção de outros trabalhos jurídicos de José Manuel
da Veiga, que por brevidade omitimos.
Também cultivou as musas e publicou uma tragédia com o título de Medea e uma colecção de várias poesias.
Morreu em Lisboa a 26 de Setembro de 1859.
Veiga Pestana (Alferes João Paulo da)
Era filho de João Pestana Santos e de D. Carlota Amalia Drumond da Veiga Pestana, e
nasceu no Funchal a 25 de Dezembro de 1895. Tendo concluído em 1913 os estudos preparatórios no liceu desta cidade, matriculou-
se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra afim de seguir o curso de engenharia civil, mas chamado a alistar-se no
exército em 1916, após a entrada de Portugal na Grande Guerra, foi logo convocado para a escola de oficiais milicianos, em virtude
das suas habitações cientificas, sendo colocado como aspirante a oficial em infantaria 30, a 1 de Maio de 1917, e despachado alferes
a 5 de Setembro do mesmo ano. Mobilizado para fazer parte do C. E. P. em França, partiu para aquele país a 11 de Setembro do
mesmo ano, encontrando ali morte gloriosa na batalha do Lys, em 9 de Abril de 1918, depois de haver passado sete meses nas
trincheiras e de haver dado aí inúmeras provas do seu brio e valor militares. A imprensa de Portugal referiu-se largamente ao
malogrado oficial João Paulo da Veiga Pestana e a Ilustração Portuguesa publicou-lhe o retrato, fazendo-o acompanhar de alguns
dados biográficos.
A Câmara Municipal do Funchal, em sessão de 10 de Abril de 1919, deu o nome do alferes Veiga Pestana á antiga rua das Hortas,
tendo representado «isto uma singela mas merecida consagração ao jovem oficial que, convidado a fugir quando o perigo mais se
aproximava, respondeu, olhos fitos na Pátria: Fuja quem quizer; eu fico no cumprimento do dever».
Veitch (Henrique)
A 7 de Agosto de 1857, faleceu nesta ilha o súbdito britânico Henrique Veitch, que durante largos anos exerceu
as funções de cônsul de Inglaterra entre nós. Deixou o seu nome vinculado á história deste arquipélago, principalmente pela valiosa
protecção que dispensou a muitos madeirenses por ocasião da tomada da Madeira pelas tropas miguelistas e ainda durante o
período revolto das nossas lutas civis.
Henrique Veitch recebeu a nomeação de representante do seu país na Madeira, durante a segunda ocupação desta ilha por tropas
inglesas e em ano que não podemos precisar agora, mas que foi no período decorrido de 1807 a 1814. Apesar do cargo que
desempenhava numa tão melindrosa situação, soube conduzir-se de modo a não levantar conflitos com as autoridades locais nem a
concitar contra si a má vontade dos habitantes desta ilha.
Henrique Veitch ligou o seu nome á passagem de Napoleão pela Madeira a 23 de Agosto de 1815, pois, como é sabido foi a única
pessoa que esteve a bordo da nau Northumberland e falou ao imperador, afirmando-se que este o atendera e escutara pelo facto de
Veitch lhe ter dado o tratamento de majestade, quando a bordo só era permitido trata-lo pelo simples nome de general Bonaparte.
Ao oferecer o cônsul inglês os seus préstimos a Napoleão, respondeu este que lhe seria muito agradável receber alguns livros e
frutas, ao que muito gentilmente acedeu Veitch, enviando-lhe uma magnífica oferta de frutas, doces e vinhos velhos. Tendo
Napoleão mandado a Veitch alguns luízes em ouro, destinados ao pagamento do bote que conduzira os refrescos a bordo, diz a
tradição que o cônsul os lançara na pedra angular da igreja anglicana da rua da Bela Vista, ao abrir-se o alicerce para a construção
daquele templo (Vid. II-422).
Henrique Veitch tinha tamanha predilecção pela Madeira, que aqui despendeu uma parte considerável da sua fortuna na aquisição
de muitos prédios e na construção de vários edifícios, entre os quais se destaca a casa da Rua 5 de Outubro, entre as pontes do Bom
Jesus e Nova, de uma arquitectura muito original entre nós e que logo desperta a atenção do observador curioso que ali passe.
Também são edificações características as casas da rua das Queimadas de Baixo, do sítio da Calassa e da vila de Câmara de Lobos,
merecendo menção especial a linda habitação do Jardim da Serra, pela originalidade da construção, pela amenidade do sítio e ainda
pelo estranho mausoléu que ali se encontra a pequena distancia da casa e em plena serrania, e onde repousam os despojos mortais
do cônsul inglês Henrique Veitch.
Como já referimos, foi valiosa a protecção dispensada por Veitch a muitos madeirenses na época agitada das nossas lutas civis. As
suas casas serviram de seguro e hospitaleiro asilo a muitos perseguidos políticos e em, 1828, quando as tropas absolutistas
ocuparam a Madeira, promoveu a fuga de muitos habitantes desta ilha para bordo da fragata de guerra Alligator, entre os quais se
contava o governador Travassos Valdez, o conde de Carvalhal e dois sobrinhos, o deão Januario Camacho, o coronel Albuquerque, o
Juiz de fora, o corregedor e muitos outros.
Velosa
O apelido Velosa (Olim Avelosa) procede de Gonçalo Anes de Velosa e de um seu irmão, naturais de Celorico, os quais
foram dos primeiros povoadores desta ilha, tendo feito aquele a igreja de S. Bartolomeu, no Funchal.
Velosa Castelo-Branco
O morgado Caetano Velosa Carvalhal Esmeraldo Castelo-Branco representou a Madeira no parlamento
na legislatura de 1868 a 1869.
Morreu a 12 de Junho de 1874.
Veloso (Dr. Afonso de Melo Pinto)
Este magistrado foi nomeado governador civil deste distrito por decreto de 27 de Janeiro de
1910 e tomou posse do seu cargo a 24 de Fevereiro do mesmo ano. Serviu poucos meses.
Veloso de Oliveira (Dr. António Rodrigues).
V. Oliveira (Dr. António Rodrigues)
Ventos
Intensidade e Percentagem da frequência dos ventos na Ponta de São Lourenço.
De um estudo do distinto oficial da armada C. Pinto Basto Carreiro, extraímos os seguintes interessantes dados:
PERCENTAGEM DA INTENSIDADE DOS VENTOS OBSERVADOS EM S.LOURENÇO DURANTE OS ANOS DE 1930, 1931, 1932
Aragens Moderados Fortes Tempestuosos
N 1% 85% 12% 2%
NNE - 70% 30% -
NE 0,8% 84% 15% 0,2%
ENE - 75% 25% -
E - 89% 11% -
ESE - 83% 17% -
SE - 86% 13.6% -
SSE - 54.5% 45.5% -
S - 74% 23% 3%
SSW - 30% 66% 4%
SW - 46% 50% 46%
WSW -
W - 76% 23% 1%
WNW -
78% 22% -
NW - 85% 14% 1%
NNW - 76% 22% 2%
Dá-se o nome de Alizados aos ventos regulares que sopram todo o ano com regularidade de um e outro lado do Equador com a
direcção N E - S W no hemisfério norte e S E no hemisfério sul.
Os ventos alizados no Atlântico norte começam a fazer-se sentir nitidamente na Ilha da Madeira, algumas vezes mesmo ao sul do
39% 53% 80%
Continente Português. Eles sopram com regularidade até perto do Equador.
Entre os alizados do hemisfério do norte e os do hemisfério sul existe a zona das calmarias equatoriaes. Os ventos contra-alizados
ou alisados superiores sopram nas altas regiões da atmosfera em sentido inverso dos precedentes.
PERCENTAGEM DOS VENTOS OBSERVADOS EM S. LOURENÇO DURANTE
OS ANOS DE 1930, 1931, 1932
Pela observação do gráfico das percentagens dos ventos observados em São Lourenço, vê-se que os ventos predominantes são os do
Norte, Nordeste e Noroeste.
Os ventos menos frequentes são os ESE, SSE, WSW e WNW.
Os ventos são observados em São Lourenço e não no Funchal visto os ventos que afectam a baia não são gerais salvo o caso em que
pertençam aos quadrantes do sul.
Dos quadrantes do sul os ventos mais frequentes são os do SW e SE.
INTENSIDADE
Os ventos tempestuosos são os do quadrante sul, em especial os S. SSW, e SW e WSW. A maior percentagem destes ventos são
fortes.
Os ventos dos outros quadrantes são moderados na sua maior percentagem.
Fácil é verificar observando a escala anexa».
Vera Cruz (Capela da)
«João Gonsalves Zargo, diz Frutuoso,... passando mais abaixo a humas serras muito altas, ali traçou outra
igreja da Vera-Cruz...». Pertence ao descobridor a ideia da fundação desta capela, embora somente mais tarde fosse construída, em
ano que se ignora. É todavia uma das mais antigas capelas da diocese, tendo, através dos tempos, passado por diversas
transformações, não se encontrando ali presentemente, por certo, cousa alguma da primeira edificação. Fez primitivamente parte
da paróquia de Câmara de Lobos ou da Ribeira Brava, começando a pertencer á freguesia do Campanário quando esta foi criada por
meados do século XVI. E desde o ano de 1848, em que a Quinta Grande ficou constituindo uma paróquia autónoma, pertence a esta
freguesia a antiga capela da Vera-Cruz.
Fica no sítio a que ela mesma deu o nome, gozando-se dali um belo e vasto panorama. Tem algumas vezes servido de igreja
paroquial e é em torno dela que se encontra o cemitério da freguesia. A festa do respectivo orago atrai ali uma considerável
afluência de pessoas, especialmente das paróquias circunvizinhas.
(Vid. Quinta Grande).
Verbasco
As plantas que na Madeira são conhecidas por este nome, pertencem ás espécies seguintes:
Verbascum thapsus
, V.
floccosum
e V.
sinuatum
. Todas estas espécies são esbranquiçado-tomentosas e tem folhas grandes, recortadas no V.
sinuatum
,
inteiras ou apenas dentadas nos V.
thapsus
e V.
floccosum
, distinguindo-se esta ultima espécie facilmente das restantes pelo seu
tormento muito caduco. As flores amarelas e as folhas dos verbascos são emolientes.
Verdade (A)
O primeiro numero deste jornal católico, que durou alguns anos, apareceu a 23 de Janeiro de 1875.
Em 1915, apareceu outro periódico com mesmo nome, que deu o primeiro numero a 1 de Maio, terminando com o n.° 216, a 3 de
Novembro de 1919.
Vergasta (A)
Este jornal deu o primeiro numero a 15 de Outubro de 1873, e acabou no n.º 60, a 6 de Dezembro de 1876.
Vermes
Quatro vermes terrestres, diz Johnson, têm sido assinalados na Madeira, entre as quais a minhoca. Quanto aos vermes
marinos, conhecem-se mais de 240 espécies, colhidas pelo professor P. Langerhans. As espécies novas foram bem figuradas por
este naturalista no
Zeitschrift für wissenchaftliche Zoologie
(1879-1884).
O maior e o mais belo dos vermes marinos madeirenses é o
Amphinone carunculata
, espécie provida de cerdas picantes.
Viação Eléctrica
Em fins de 1910, tentou a Câmara Municipal do Funchal estabelecer a viação electrica na cidade, tendo chegado
a fazer a adjudicação dos respectivos trabalhos á extinta Empresa Madeirense de Automóveis. Como esta adjudicação não fosse
aprovada superiormente, estabeleceu a Câmara novas bases para a exploração, e em 24 de Agosto de 1911 resolveu pedir à Junta
Geral a cedência permanente e gratuita das estradas nacionais onde tivesse de ser instalada a viação eléctrica. Esta cedência foi-lhe
delegada pela Junta Geral com o fundamento de que pretendia pôr a concurso os trabalhos para o estabelecimento daquele sistema
de viação nos caminhos a seu cargo, resolvendo então a Câmara desistir do propósito em que se achava de dotar a cidade com o
melhoramento a que nos referimos e pôr a disposição da Junta as estradas municipais para ela o levar a efeito nas condições que
entendesse.
A Junta Geral, como é sabido, nada fez, e só em 1923 voltou a interessar-se pelo estabelecimento da viação eléctrica na ilha,
existindo uma companhia inglesa que parece estar disposta a encarregar-se da execução desse melhoramento, se as condições que
aquela corporação estabelecer no concurso que deverá ser aberto, lhe convierem (1921).
Em Junho de 1917, apareceu nos jornais do Funchal um anúncio convidando todos aqueles que se interessassem pelo
estabelecimento da viação eléctrica, a indicar nos escritórios de A. Georgi & C.ª ou Reid Castro & C.ª as importâncias com que
pretendiam subscrever para a realização desse melhoramento, mas ninguém acudiu a tal chamamento pelo motivo do iniciador da
empresa, apesar de homem honesto, não dar garantias de estabelecer uma boa direcção para os trabalhos que pretendia levar a
efeito (1921).
Segundo o artigo 6.° das bases para a adjudicação do estabelecimento e exploração dos caminhos de ferro americanos no Funchal,
que acompanharam o decreto de 2 de Agosto de 1902, era permitido ao adjudicatário o emprego da locomoção eléctrica nas linhas
que viesse a construir.
Viana
Este apelido de família começa em Afonso de Viana, que por 1500 se estabeleceu no Caniço.
Viana (Francisco Eduardo Alves)
É bem conhecida a notabilíssima obra de cultura criada na cidade do Rio de Janeiro pela
colónia portuguesa no ano de 1837 com o nome de gabinete Português de Leitura, que teve como um dos seus fundadores o
madeirense Francisco Eduardo Alves Viana que com a maior dedicação serviu de secretario da comissão organizadora daquele
grande empreendimento. Pelo respectivo catalogo, publicado no ano de 1906 em dois volumes de 1400 páginas, avalia-se o mérito
dessa fundação e serviços que tem prestado.
Viana de Freitas (Manuel Luís)
Nasceu no Funchal a 28 de Maio de 1820 e aqui faleceu a 29 de Maio de 1861. Foi porteiro do
Governo Civil e sócio correspondente do Instituto Dramático de Coimbra. Colaborou nalguns jornais funchalenses e escreveu um
drama intitulado D. Luiz d'Athayde.
Vida (A)
Publicou-se a 5 de Outubro de 1912, dando um único numero.
Vida Académica (A)
Este jornal deu apenas dois números que se publicaram a 6 de Janeiro e a I de Fevereiro de 1914.
Vida Diocesana
O primeiro número deste jornal apareceu a 3 de Julho de 1921.
Vidal (Capitão A. T. E.)
Visitou no vapor Styx, do qual era comandante, o arquipélago da Madeira em 1842 e 1843. Deve-se-lhe o
levantamento duma carta das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas, publicada em 1843. 0 capitão Vidal, da marinha de guerra
britânica, foi muito coadjuvado nos trabalhos a que teve de proceder, pelo capitão de engenheiros Antonio Pedro de Azevedo. V.
Cartas Geográficas.
Vidoeiro
Como ampliação ao que fica exposto em vários lugares desta obra acerca do revestimento florestal da Madeira e em
especial da arborização da vizinha ilha do Porto Santo (III-120), transcrevemos alguns trechos dum artigo do ilustre botânico
Carlos de Meneses publicado no antigo «Diário do Comercio», que oferece particular interesse a esse tão debatido e sempre
momentoso assunto.
«Em 1910, foram remetidos para o Porto Santo, afim de serem ali plantados, diversos exemplares de vidoeiros offerecidos por um
estrangeiro que toma bastante interesse pela rearborisação d'aquella ilha.
O Porto Santo, no entender dos técnicos, deve ser arborizado com essências madeirenses ou da região mediterrânea, e nunca com
espécies da Europa média ou boreal, as quais têm exigências climatéricas a que o país não pode satisfazer, já pela sua posição
geográfica, já pela pequena altitude dos seus montes.
Mesmo no tocante ás essências madeirenses, parece-nos que há selecções a fazer, pois não é crível que se adaptem aos terrenos
extremamente secos e pouco elevados do Porto Santo certas espécies que só prosperam entre nós nos vales e ravinas do interior, ou
então nos pontos elevados e húmidos das encostas meridional e setentrional da nossa ilha.
O vinhatico, por exemplo, é uma espécie imprópria para o revestimento florestal do Porto Santo, e, se por enquanto, apresentam
bom aspecto os exemplares que ali foram introduzidos, mercê das irrigações a que teem estado sujeitos, tempo virá em que hão de
definhar, e morrer finalmente, por não encontrarem nos terrenos e na atmosfera as condições necessárias à sua existência.
A falta de chuvas e o calor intenso com médias hibernais pouco baixas, dão o cunho climatérico da vizinha ilha, em cujos montes só
podem cultivar-se com vantagem certas essências que se encontram na zona inferior da Madeira, como o loureiro, o til e o
barbusano, e não o vinhatico, que só começa a aparecer com uma certa frequência acima de 400 ou 500 metros, e que carece de
humidade para desenvolver-se.
Ora, se o vinhatico, espécie madeirense, é impróprio para a arborização do Porto Santo, ainda o é mais o vidoeiro, árvore que, como
é sabido, tem o seu limite meridional no Alto Minho, no Gerez, no Marão e na Serra da Estrella, e que só constitue massiços
importantes nas regiões septentrionaes e na Europa média, onde os frios são intensissimos durante o inverno, e a estação quente
dura pouco tempo.
Quando o vidoeiro fosse espécie mediterrânea adequada a ser cultivada no Porto Santo, ainda assim excluil-a-hiamos do
revestimento florestal da ilha, por isso que as árvores de folhagem caduca não são muito próprias para a arborização dos países de
climas quentes.
Do que se carece na vizinha ilha é de árvores sempre verdes, como são em regra as da Madeira, afim de proteger tanto quanto
possível o solo contra a evaporação, e favorecer assim o apparecimento das fontes. Com um revestimento constituído por essências
de folhagem caduca, pouco melhoraria a situação das terras, visto não poder deixar de ser muito restricta a influencia desse
revestimento num paiz de médias hibernaes pouco baixas, como é aquelle de que estamos fallando.»
Vieira
É apelido de gente fidalga e nobre, segundo diz Frutuoso. Em 1566, viviam no Funchal Manuel Vieira, síndico das freiras de
Santa Clara, e um tal Favila Vieira, que Frutuoso apresenta como homem fidalgo, tendo pela mesma época exercido o cargo de
meirinho da jurisdição de Machico um fidalgo chamado António Vieira, que casou com uma filha do donatário Diogo Teixeira. Há
outros ramos da família Vieira, dois dos quais procedentes dos Açores, tendo um deles aparecido na Madeira no segundo quartel do
século XIX, e começando o outro em Manuel Vieira de Afonseca, natural da ilha Terceira, que foi escrivão da Câmara do Funchal.
Vieira (Augusto Elmano)
Nasceu no Funchal a 2 de Outubro de 1892, e é bacharel formado em Direito pela Universidade de
Lisboa, tendo concluído o respectivo curso em 1920. Colaborou no
Primeiro de Dezembro
e no
Academico
, quando estudante do
nosso liceu, e mais tarde no Século, Diário Nacional, Tempo, Diário da Tarde, etc., de Lisboa, e no Diário de Noticias e Diário da
Madeira, do Funchal. Foi um dos dirigentes da greve académica de 1919.
Colaborou na revista de costumes madeirenses intitulada
A Madeira por dentro
, que foi representada no teatro Dr. Manuel de
Arriaga, e na opereta regional A Menina dos Bordados, que foi levada á cena no pavilhão Paris. Em 1915, ao iniciar os seus estudos
de direito na Universidade de Lisboa, escreveu o episódio dramático
A Ultima Bênção
, que foi publicado no Funchal em 1917.
Elmano Vieira exerce a advocacia no Funchal e é membro da Câmara Municipal do Funchal (1921).
Vieira (Augusto José)
Nasceu no Funchal a 2 de Outubro de 1861 e morreu em Lisboa, onde residia há mais de 40 anos, a 27 de
Dezembro de 1918, sendo irmão do conselheiro Manuel José Vieira e de João José Vieira, de quem adiante nos ocuparemos.
Frequentou o liceu do Funchal e matriculou-se na Escola do Exército, cujo curso não chegou a concluir. Nesta cidade foi redactor do
jornal
A Republica
e em Lisboa colaborou em vários jornais, advogando sempre as ideias mais avançadas. Foi presidente da
Associação do Registo Civil e secretario da Federação do Livre Pensamento. Publicou em 1909 a Historia do Partido Republicano,
que ficou incompleta e de que saíram a lume três tomos.
Vieira (Francisco)
Poeta madeirense falecido no Funchal, com cerca de 40 anos de idade, a 13 de Novembro de 1889. Colaborou
nalguns jornais madeirenses e especialmente no periódico
A Verdade
, e publicou o
Album Madeirense
, poesia de diferentes autores
(Funchal, 1884),
Prelúdios poéticos e Petalas
(Funchal, 1887).
Vieira (João Fernandes)
Ao artigo inserto a páginas 18 do volume II acerca deste ilustre madeirense, queremos acrescentar mais
alguns dados de informação que melhor identifiquem a sua personalidade, chamando especialmente a atenção dos leitores para a
valiosa e exaustiva memória histórica do académico Rodrigo de Lima Felner Nome verdadeiro do portuguez João Fernandes Vieira,
publicada em 1873 e o belo estudo do tenente-coronel Alberto Artur Sarmento intitulado Ascendência, naturalidade e mudança de
nome de João Fernandes Vieira dado à estampa no ano de 1911. Com esses elementos e outros trabalhos de investigação, publicou o
escritor brasileiro Dr. Mario de Melo um excelente artigo, transcrito na imprensa do Funchal, do qual vamos extrair alguns
períodos, que muito de perto interessam ao nosso assunto:
«O português João Fernandes Vieira vindo muito jovem para o Brasil foi o elemento de mais preponderância na restauração de
Pernambuco. Teve panegiristas cegos e tem demolidores. Estes não se limitaram a apontar os seus erros, alguns fartamente
documentados, ou a sua ambição, que seria demasiada, bastando notar-se que, excepto os cientistas trazidos por Mauricio de
Nassau e poucos outros, todo o europeu que vinha ao Brasil alimentava, como programma, acumular riqueza.
Pereira da Costa e Alberto Lamego fartaram-se de acumular documentos contra o madeirense. E para apoucar-lhe a figura
começaram por duvidar de sua ascendência legitima. Deram-no ora como filho bastardo dum homem de prol da Madeira com uma
hetaíra, ora filho dum malfeitor com uma mulata. Viriato Corrêa e Paulo Setúbal incumbiram-se de propagar a injuria em livros de
divulgação.
Quando aquele e este, em anos diferentes, espalharam a divulgação, protestei, fundado no que escrevera Adelino de Luna Freire.
Mas o meu protesto não podia ter vehemencia ante a precariedade da documentação, pois só recentemente foi encontrada a
certidão de batismo daquele a quem os pernambucanos tudo devem.
Sabia que João Fernandes Vieira era filho de Francisco Dornelas e mudara de nome ao vir para o Brasil, mas, pelas minhas notas, a
mulher de Francisco Dornelas era Teresa Mafra. Assim, pesava sobre a memória do libertador a pecha de filho bastardo e bem
poderia ser Antonia Mendes a hetaíra de que tratam os injuriadores da sua memória ou o verdadeiro nome da «Benfeitinha».
E escrevi sem perda de tempo ao Sr. Alberto Sarmento para que me informasse o nome da verdadeira mulher de Francisco
Dornelas.
Em resposta, mandou-me interessante monografia intitulada «Ascendencia, naturalidade & mudança de nome de João Fernandes
Vieira, publicada em 1911, anterior, portanto, ao aparecimento da certidão de batismo (encontrada na freguesia de N.ª S.ª do Faial,
da ilha da Madeira).
Por esse precioso trabalho de pesquisa histórica, que confirma as pesquisas de Adelino de Luna Freire, vejo que o autor, guiado por
uma nota escrita á margem do «Castrioto Lusitano», encontrou no Nobiliário de Caetano Velosa de Castelobranco, num manuscrito
bastante estragado..o seguinte:
«§ 18 – Mendo d'Ornelas e Vasconcelos, f.° de Francisco Goes § 17 a fs. 40 c. 1.ª vez em 24 de 7bro de 1559 em Maxico c. Helena
Gomes fa. de Pedro Antonio, Médico no Fayal e teve:
I – Francisco d'Ornelas n. 1. 2 – Ayres d'Ornelas que morreu na Índia, 3 – Antonio d'Ornelas que tão bem morreu na Índia. 4 –
Antonia d'Ornelas mer. de Simão de Vasconcelos fo. s. g.
Caz. 2.ª vez c. .... de Castro.
5 – Simão Ferzs. § 21.
Francisco d'Ornelas n.° I c. c. Ant.ª Mendes da Lombada de Santa Cruz, fa. de Jerónimo Mendes e de Barbara Christovão natural do
Fayal e teve: 1 – Manuel de Ornelas s. g. 2– Francisco d'Ornelas que ao depois mudando o nome se chamou João Fernandes Vieira
e segue. 3 – Antonia d'Ornelas c. c. Antonio Pires da Fra. do Fayal c. g. 4 – Helena d'Ornelas mer. de Pedro de Freitas Peixoto do
Fayal fo. de c.....c. g. 5 – Maria d'Ornelas mer. de José Dias de Santana c. g.
Francisco d'Ornelas sendo rapaz fugiu para o Brazil e ali tomou o nome de João Fernandes Vieira, foi muito rico e com sua riqueza e
valor libertou para a coroa de Portugal do poder dos holandezes, Pernambuco: e por estes e outros muitos serviços foi – Fidalgo da
Casa Real e do seu conselho de Guerra. Alcayde Mayor da Villa de Pinhal, comendador das comendas da Ordem de Christo. S.
Pedro de Torradas e de Santa Eugenia d'Aula, superintendente das fortificações de Pernambuco, e de todas as mais do Estado do
Brasil para o norte e pro. Aclamador da Liberdade e restauração de Pernambuco.
Está, portanto, confirmada a identificação de João Fernandes Vieira. Não podia envergonhar-se de sua ascendência. Era fidalgo
pelo sangue do pai e pelo sangue da mãe. Esboroa-se a lenda da sua infame bastardia e de sua mestiçagem. Filho legitimo, branco
limpo e puro.
Si assim o era por que emigrou e mudou de nome?
Emigrou devido ao seu temperamento aventureiro e devido á miséria que com a peste, devastava a ilha da Madeira. O regimen de
Direito de então era o do morgadio. Só os primogénitos tinham direito á herança e ás rendas e o dever de, com o nome da família,
conservar o vinculo. «Os irmãos, á fome, indignados com a fortuna, mas cegos ainda pela vaidade do nome, só se submetiam ao
trabalho em terra extranha.»
Francisco d'Ornelas, irmão segundo de Manuel d'Ornelas, compreendeu cedo que toda a fortuna paterna seria deste. Ouvia as
narrativas fantásticas das riquezas do Brasil, para onde vinham colonos em todos os navios. Muito jovem, fugiu da casa paterna,
meteu-se numa leva de emigrantes e com ele se embarcou para tentar a sorte com o trabalho. O primeiro emprego que obteve em
Pernambuco foi o de criado. Era humilhante demais para a prosápia dos Dornelas. Mudou de nome. Ainda assim, tomou o apelido
Fernandes, do seu bisavô António Fernandes, das Covas, do Faial, e o apelido Vieira, do seu terceiro avô paterno Pedro Vieira,
grande morgado da Ribeira de Machico, na ilha da Madeira, e juntou-os ao prenome João, também do seu segundo avô materno
João Mendes. E creou o nome completo de João Fernandes Vieira com que se fez no Brasil e que passou á Historia, mais
dignificado pelos seus feitos do que aquele que lhe deram os pais na pia batismal».
O que fica transcrito é plenamente confirmado pelo extracto da certidão de baptismo descoberta pelo distinto genealogista cónego
Fernando de Meneses Vaz e que ficou arquivada a página 19 do volume II desta obra.
Vieira (João José)
Nasceu no Funchal a 10 de Outubro de 1844, sendo filho de Manuel José Vieira e de D. Josefa Carolina do
Nascimento Vieira, e cursou o liceu do Funchal e a Escola Médico-cirúrgica, não chegando porém a concluir os estudos do 1.° ano
deste ultimo estabelecimento de instrução. Foi amanuense e depois secretario da Administração do Concelho do Funchal, e desde
muito novo que se dedica ao jornalismo, tendo colaborado, quando ainda estudante, no
Recreio
e no
Crepusculo
, e depois na
Fusão
,
Imprensa Livre
,
Povo
,
Diário Popular
, etc.. É bom poeta, mas as suas poesias ou se acham dispersas pelos antigos
periódicos do Funchal, ou nunca foram dadas á estampa, sendo conhecidas apenas de alguns amigos. Foi um dos autores da
Guyaneida
, poema herói-cómico a que nos referimos a página 670 do 1.° volume deste Elucidário.
João José Vieira foi tesoureiro e mais tarde presidente da Junta Geral do Distrito, e militou nos tempos da monarquia no partido
progressista, de que foi chefe local seu irmão o conselheiro Manuel José Vieira. Faleceu em 1928.
Vieira (Conselheiro Manuel José)
Foi um dos homens que mais assinalados serviços prestou á Madeira, quer como parlamentar,
quer como membro de várias corporações de que fez parte. Ninguém melhor do que ele soube compreender os deveres impostos ao
cidadão, tendo chegado muitas vezes a sacrificar não só a sua tranquilidade e bem-estar, mas até a própria saúde, para bem servir
cargos gratuitos em que a política ou os seus amigos o investiam, com aplauso de todos os funchalenses. A sua inteligência clara e
espírito organizador pô-los ele sempre ao serviço do seu país, havendo trabalhado com a mais decidida boa vontade até o fim da
vida, animado apenas do desejo de ser útil á sua terra e aos seus concidadãos.
Manuel José Vieira, filho de Manuel José Vieira e de D. Luisa Correia Vieira, ambos oriundos dos Açores, nasceu no Funchal a 7 de
Agosto de 1836, e nesta cidade frequentou os estudos secundários, partindo em 1855 para Coimbra, onde, depois de feito o
chamado exame de madureza, se matriculou na Universidade, concluindo a formatura em direito em 1860. Tendo ido neste mesmo
ano ao concurso para professor de geografia e historia do liceu do Funchal, conseguiu depois de brilhantes provas ser despachado
para esse lugar, exercendo-o durante cerca de 40 anos com a maior competência e com um zelo que poderá ser igualado mas não
excedido. De 1864 a 1868, foi presidente da Câmara Municipal do Funchal, cargo este que novamente desempenhou de 1899 a
1908, tendo na direcção dos negócios do Município dado sobejas provas do seu interesse pelo melhoramento da cidade e das
condições dos indivíduos que nela residem. Se não tivesse deixado a presidência da Municipalidade em 1908, talvez que a cidade
possuísse hoje uma rede de canalização de esgotos e um bom serviço de abastecimento de águas potáveis, melhoramentos estes
pelos quais bastante se interessou, como é bem sabido.
O Dr. Manuel José Vieira foi deputado pela Madeira nas legislaturas de 1879,1882 a 1884, 1884 a 1887,1887 a 1889 e 1894 a 1895, e
em 1889 foi eleito par do reino pelo distrito de Vila Real, não chegando porém a tomar assento na respectiva câmara. Entre os
benefícios que, como deputado, conseguiu para a Madeira, contam-se a unificação da moeda, os estudos da estrada em volta da ilha
pelo engenheiro Tellier, para os quais conseguiu um credito de 30 contos, a legislação especial que concedeu às levadas da Madeira
a autoridade jurídica para a garantia dos seus direitos, a colecção dos terrenos onde foram edificados o teatro e o jardim municipal,
a isenção dos direitos de tonelagem aos vapores que demandam o porto do Funchal, a isenção dos direitos sobre a importação do
milho de 1882 a 1886, a construção do porto artificial do sítio da Pontinha, etc., etc..
Além de deputado e presidente da Municipalidade, desempenhou o Dr. Manuel José Vieira muitos outros cargos, tendo sido
conselheiro do distrito, presidente da antiga Junta Geral, presidente da comissão administrativa da Santa Casa da Misericórdia,
membro da comissão do Asilo, vogal da Comissão Antifiloxerica, secretario e presidente da Associação Comercial, presidente da
assembleia geral e director da Companhia do Caminho de Ferro do Monte, presidente da assembleia geral da companhia de seguros
Aliança Madeirense, etc., etc.. A antiga Associação de Beneficência do Funchal ficou-lhe devendo os mais assinalados serviços tendo
sido também um advogado muito distinto e um desvelado protector da agricultura madeirense.
O Dr. Manuel José Vieira tinha a carta de conselho, sendo agraciado mais tarde com a grã-cruz da ordem de Nossa Senhora da
Conceição de Vila Viçosa pela maneira verdadeiramente notável como representou a cidade por ocasião da visita que os antigos reis
D. Carlos e D. Amélia fizeram a esta ilha em 1901. Era membro do Instituto de Coimbra, da Associação dos Escritores e Jornalistas
e da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Foi um dos redactores da
Revista Juridica
, publicação semanal que apareceu nesta cidade em 19 de Outubro de 1870, e colaborou
em vários jornais funchalenses, entre os quais O Direito e o Diário Popular. Dos seus discursos, foram reproduzidos em folhetos os
que proferiu na Câmara dos Deputados nas sessões de 7 de Maio de 1883, 13 de Fevereiro de 1884 e 7 de Julho de 1888 (
Questão da
propriedade na Madeira
).
Faleceu no Funchal a 12 de Junho de 1912.
V. Unificação da moeda e Carreira (Rua da).
Vieira (Dr. Pedro Júlio)
Era natural desta cidade e doutor em medicina pela escola de Montpellier, tendo concluído o respectivo
curso em 1852. Foi presidente da Câmara Municipal do Funchal, medico interino do partido da mesma Câmara e médico do
Hospício da Princeza D. Maria Amelia. E.:
Etudes Médicales sur le Climat de Madère; thèse présentée et publiquement soutenue à
la faculté de Médicine de Montpellier
; Montpellier, 1852, de 91 paginas.
Faleceu no Funchal, com 70 anos de idade, a 28 de Outubro de 1897.
Vieira Caetano (Padre João)
Nasceu na vila de Santa Cruz a 11 de Dezembro de 1884 e ordenou-se de presbítero no mês de
Junho de 1906, exercendo presentemente funções paroquiais na freguesia da Ponta do Sol. Tem uma larga e valiosa colaboração em
diversos jornais. Foi redactor principal do
Brado de Oeste
e nele publicou o romance
histórico Da Choça ao Solar
, cujo entrecho se
desenrola nesta ilha (1921).
Vieira de Castro (Henrique Augusto)
É filho de Luis Lopes Vieira de Castro, e D. Carolina Cândida Vieira de Castro, tendo
nascido, na cidade do Porto a 24 de Junho de 1869.
Por fins do ano de 1893, fixou residência no Funchal, como director da Agência do Banco de Portugal nesta ilha, sendo actualmente
sócio gerente do importante estabelecimento bancário Reid, Castro & C.ª. É um comerciante e industrial inteligente, activo e
empreendedor, devendo-se-lhe o incremento que têm tomado algumas indústrias madeirenses e também o notável
desenvolvimento dado a vários ramos de comercio local (1921).
Henrique Vieira de Castro, pelos seus actos de benemerência, tem prestado assinalados serviços a várias instituições de caridade e
ás classes pobres da nossa terra, devendo-se-lhe em boa parte a fundação da Escola de Artes e Ofícios, destinada a amparar a
infância desvalida.
Já nos artigos
Cemitério das Angústias
(volume I, página 70
), Escola Elementar do Comércio
(volume I, página 398),
Jardim
Municipal
(volume II, página 182) e
Misericórdias
(volume II, página 372) nos referimos especialmente a alguns dos importantes
serviços que Henrique Vieira de Castro tem prestado á Madeira, que ele considera como a sua verdadeira pátria adoptiva (1921).
Vieira de Castro (Dr. José Cardoso)
Ao traçar um ligeiro esforço biográfico do nosso ilustre patrício Jaime Constantino de
Freitas Moniz, referimo-nos ao eloquentíssimo discurso que ele proferiu no julgamento do Dr. José Cardoso Vieira de Castro
(volume II, página 382), após a lamentável tragédia que privou o país dos serviços deste assombroso talento e insigne parlamentar.
O Dr. Vieira de Castro passou no nosso porto, a bordo do vapor D. Antónia, nos primeiros dias do mês de Setembro do ano de 1871,
com destino a Luanda, a cumprir a sentença proferida pelo tribunal que o condenara. Várias pessoas desta cidade o foram
cumprimentar a bordo. O jornalista madeirense João Augusto de Ornelas (volume III, página 21) publicou um opúsculo intitulado
A Coroa de Ouro, o que foi e o que é José Cardoso Vieira de Castro, que nunca lográmos ver.
O Dr. José Cardoso Vieira de Castro era tio de Henrique Vieira de Castro, de quem nos ocupamos neste Elucidário.
Vieira de Castro (Dr. Luís)
Nasceu nesta cidade a 10 de Maio de 1898 e é filho de Henrique Augusto Vieira de Castro e de D.
Alegria Adida Vieira de Castro. Cursou o liceu do Funchal e é bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra.
Cedo iniciou a sua carreira nas letras, colaborando em vários jornais e publicando em volume, quando ainda frequentava o nosso
liceu, alguns dos seus escritos dispersos pela imprensa periódica desta cidade. Tem já uma larga colaboração em muitos jornais e
revistas, havendo sido em Coimbra redactor e assíduo colaborador de algumas publicações periódicas. Em fins do ano de 1923,
encetou nesta cidade a publicação dum jornal diário intitulado Jornal da Madeira, de que é director. Publicou os seguintes volumes:
Nebuloses
, Funchal, 1916,
Livro Extranho
, Porto, 1916,
Civilisados
, Coimbra, 1918
, A Hora Internacional e a Nacionalidade
Portugueza
, Coimbra,
1919 e a Europa e a Republica Portuguesa
, Coimbra, 1922 (1921).
Posteriormente a esta data, publicou
O Mundo que finda e o mundo que começa
, 1936,
D.
Carlos I
, 1936,
Limbo
, 1936,
Em Pé de
Guerra
, 1937,
A Formação de Portugal
, 1938
, Pedra sobre Pedra
, 1942, e
Rumo à Vitoria
, 1943.
Vieira Portuense
O distinto pintor Francisco Vieira, mais conhecido por Vieira Portuense, veio a esta ilha procurar alívios aos
seus padecimentos e faleceu no Funchal a 2 de Maio de 1805, dizendo o respectivo assento de óbito que morreu repentinamente na
casa de pasto de Maria Watror e que foi sepultado na Sé Catedral.
Vigário (Ribeira do)
Linha de água, que se lança no Oceano, a oeste da chamada vila de Câmara de Lobos. Próximo da sua foz,
deu-se um grande desmoronamento de terras no dia 4 de Março de 1930, que, impelindo com violência as águas do mar pela
entrada da ribeira, arrastaram no refluxo cerca de vinte pessoas, que ali encontraram morte desastrosa. Uma parte considerável
desta ribeira é também conhecida pelo nome de ribeira da Caixa.
Vigário Geral
Apesar da criação da diocese do Funchal datar de 1514, o lugar de vigário geral do bispado somente foi criado em
1570, sendo o alvará régio de D. Sebastião, de 30 de Agosto daquele ano, que autorizou o bispo D. Jorge de Lemos a estabelecer
aquele cargo eclesiástico, a que o mesmo diploma fixa o vencimento anual de cinquenta mil reis.
Vigia (Quinta)
) É considerada uma das mais belas quintas da Madeira, não tanto pela sumptuosidade da casa de residência e
jardins que a rodeiam, como pela sua invejável situação sobranceira ao mar, fazendo recordar muitas das ricas e esplêndidas
vivendas da celebre Côte d'Azur. Pertence hoje ao Estado e fazia parte das propriedades que nesta ilha possuía a antiga Empresa
dos Sanatórios de que foi concessionário o príncipe Frederico de Hohenlohe (V. Sanatórios). Nesta quinta residiram a rainha
Adelaide, de Inglaterra, a imperatriz Isabel, da Áustria, o infeliz arquiduque Maximiliano, mais tarde imperador do México, o
príncipe de Oldenburgo, etc..
A quinta Vigia serviu de acomodação às forças da Guarda Republicana que estiveram na Madeira até Maio de 1922, e em Agosto de
1971 foi apresentado no parlamento um projecto de lei para a cedência da mesma quinta para casa de jornalistas.
O nome da quinta procede provavelmente de ter existido ali alguma vigia, isto é alguma estação destinada a dar alarme de corsários
ou de quaisquer outros navios inimigos, e evitar contrabandos».
A quinta Vigia pertenceu primitivamente ao rico inglês Ricardo Davies, que veio para a Madeira nos fins do segundo quartel do
século XIX.
Vigias
Eram, diz o Dr. Azevedo, «estações militares e simultaneamente fiscais, que vigiavam o mar, as costas e praias, afim de
darem alarme de corsários ou de quaisquer outros navios inimigos, e evitar contrabandos. As vigias eram feitas pelos povos, em
pequenas casas fortes, de propósito construídas para resistir ao mar, e evitar surpresas. D. Sebastião deu-lhes regimento em 1567,
que está registado no tomo V, fls. 105, do Archivo da Câmara do Funchal, e, por alvará de 1569, determinou que ninguém fosse
isento deste serviço».
Vigilante (O )
Este periódico funchalense deu o primeiro numero a 8 de Dezembro de 1918, e o ultimo, o numero 61, a 1 de
Fevereiro de 1920.
Vila
Sítio povoado da freguesia da Calheta, que compreende a Vila do mesmo nome e os seus mais próximos arredores.
Encontram-se ali o edifício da Câmara Municipal, várias repartições concelhias a Igreja Paroquial e a antiga Casa da Misericórdia
com a sua capela anexa (V. os artigos subordinados ao título
Calheta
).
Vila
Sítio povoado da freguesia de Câmara de Lobos, abrangendo uma parte do agrupamento de casas que fica em torno da
pequena enseada. É a sede do concelho e nela se acham os Paços do Município, diversas repartições públicas, a estação telégrafo-
postal, a Igreja Paroquial, a capela de Nossa Senhora da Conceição. Nunca esta localidade foi elevada à categoria de vila, apesar de
ser assim chamada comummente, até em documentos oficiais (V. os artigos com o título de Câmara de Lobos).
Vila
Sítio povoado da freguesia de Machico, que estende a sua área além da vila desse nome (V.Machico , e os outros artigos
subordinados a este título).
Vila
Sítio povoado da freguesia da Ponta do Sol, que compreende a Vila propriamente dita e algumas das suas imediações. Nela
ficam o tribunal judicial e as repartições comarcas e concelhias, igreja paroquial e as capelas de São Sebastião, pertença da Câmara
Municipal, e a de Santo António (V. os artigos que tem o título de Ponta do Sol).
Vila
Sítio povoado da freguesia do Porto do Moniz, que impropriamente se chama Vila, mas que é a sede do concelho desse nome e
onde se encontram os Paços do Município e outras repartições concelhias, a Igreja Paroquial, etc.. Nunca foi elevada á categoria de
Vila. (V. Porto do Moniz).
Vila
Sítio povoado da Ilha do Porto Santo, que abrange a vila do mesmo nome e ainda os seus arredores. (V. os artigos referentes
aoPorto Santo e Baleira ).
Vila
Sítio povoado da freguesia da Ribeira Brava, que era conhecido e ainda o é pelo nome de Lugar. Com a criação do concelho
em 1914 e da vila no ano de 1928, passou então a chamar-se Vila, sendo nela instalada a sede do respectivo município (V. Ribeira
Brava e mais artigos deste título).
Vila
Sítio povoado da freguesia de Santa Cruz. Compreende a vila deste nome e suas mais próximas imediações (V. Santa Cruz e os
outros artigos subordinados a este título).
Vila
Sítio povoado da freguesia de São Vicente, que abrange a pequena vila do mesmo nome e seus arredores (V. os artigos com o
título de São Vicente).
Vila Mendo (Visconde de)
Por decreto de 12 de Abril de 1881, foi o Visconde de Vila Mendo nomeado governador civil do
Funchal, tendo tomado posse do lugar a 23 de Maio do mesmo ano. Serviu poucos meses.
Foi segunda vez governador civil deste distrito, sendo nomeado por decreto de 10 de Novembro de 1882 e tomando posse do
governo a 16 do mês e ano referidos.
Como par electivo, representou a Madeira em cortes nas sessões legislativas de 1884 a 1887 e de 1890 a 1892.
António de Gouveia Osório foi agraciado com o título de visconde de Vila Mendo, freguesia do distrito de Viseu onde tinha solar e
morgadio herdados de seus maiores, tendo ali nascido no ano de 1826. Era bacharel em direito e vogal do Tribunal de Contas.
Vilão
É o termo geralmente adoptado entre nós para designar os habitantes dos campos desta ilha. Quase sempre se liga a este
vocábulo um sentido pejorativo, porque o funchalense considera o camponês numa situação social e mental muito inferior à sua,
embora na maioria dos casos pratique uma flagrante injustiça. O habitante dos nossos campos é ignorante, rude e supersticioso,
como igualmente o é o das províncias do Continente e das ilhas açoreanas. E comparado com os camponeses das freguesias
suburbanas e com um número considerável dos próprios moradores da cidade, não lhes fica num plano de inferioridade e nem tem
que invejar-lhes o seu grau de civilização, a não ser na sua indumentária.
Os habitantes rurais da Madeira, na sua quase totalidade analfabetos, vivem num grande isolamento em casais muito dispersos
pelas vertentes das montanhas, desconhecendo-se entre nós os aldeamentos, com excepção de pequenas e pouco populosas vilas,
estando deste modo completamente segregados de todo o convívio social e ao abrigo das influencias civilizadoras dos grandes
centros de população. A sua ignorância e o quase absoluto isolamento em que vivem, tornam-nos retraídos e desconfiados nas suas
relações com os senhores e habitantes da cidade, a que deve acrescentar-se uma natural timidez nascida em boa parte da absoluta e
por vezes despótica dependência em que durante séculos estiveram dos morgados e senhorios, que chegaram a ser proprietários de
dois terços dos terrenos aráveis da Madeira. É por isso que chamam manhosos aos nossos campónios.
Como já em outro lugar dissemos, reconhece-se em geral que os habitantes dos campos são de uma índole pacífica e ordeira.
Entregues na sua grande maioria aos trabalhos agrícolas, que nesta região são muito árduos e penosos pelas especiais condições dos
terrenos, mourejam desde o romper da manhã até caírem as sombras da noite, geralmente despreocupados e alheios a tudo o que
não seja a labuta continua da sua laboriosa existência. Quer se encontrem numa apertada mediocridade ou numa regular
suficiência de haveres, decorre-lhes a vida serena e remansosa, conformando-se inteiramente com a sua situação.
Vilas
As primeiras localidades deste arquipélago que, pelo seu desenvolvimento e por servirem de sede às três capitanias, foram
elevadas á categoria de vilas tenham os nomes de
Funchal
, (II-59),
Machico
, (II-298) e
Baleira
(I -117). Apesar do seu trabalho de
investigação, não conseguiu o erudito comentador das Saudades da Terra descobrir os diplomas dessa criação e nem ainda as datas
precisas em que ela se deu, mas conjectura com as mais seguras probabilidades que tivesse sido pelo ano de 1451, como já ficou
referido nos artigos referentes a essas vilas. A do Funchal, que pela sua situação, clima, feracidade do solo, amplidão do porto e
ainda outras apreciáveis circunstancias, atingiu em breve um desusado desenvolvimento populacional, foi elevada á categoria de
cidade pelo alvará régio de 21 de Agosto de 1508, que ficou trasladado a páginas 61 do volume II desta obra.
O alvará de 2 de Dezembro de 1501 criou a vila e município da Ponta do Sol, que estendia a sua área desde a freguesia da Tabua á
das Achadas da Cruz (Vid. III-99), ficando em breve reduzida a bem limitadas proporções com a elevação da freguesia da Calheta a
A freguesia de Santa Cruz, que logo rivalizou com a de Machico, passou a constituir um município com foros de vila pelo alvará
altura de vila e de município pelo alvará régio de 1 de Julho de 1502 (Vid. I-191).
régio de 26 de Junho de 1515, apesar da oposição levantada pela comarca de Machico e pelo chefe desta capitania (Vid. III-246).
As constantes reclamações de várias freguesias da costa setentrional da Madeira determinaram a criação da Vila de São Vicente,
com sede na freguesia deste nome, em virtude da carta regia de 25 de Agosto de 1744, embora o município de Machico, tivesse
oferecido sérias dificuldades a essa criação (Vid III-282).
O concelho da Ribeira Brava, com sede nesta paróquia, foi criado pelo decreto de 6 de Maio de 1914 e a respectiva vila pelo decreto
de 26 de Março de 1929, sendo esta a oitava e ultima vila estabelecida neste arquipélago.
Vilhena (Ernesto Jardim de)
Foi deputado pela Madeira na sessão parlamentar de 1908 a 1910.
Vilhena (D. Tomás de Almeida Manuel de )
Por decreto de 6 de Julho de 1900, foi nomeado governador civil da Madeira, havendo
tomado posse do lugar a 23 do mesmo mês e ano.
Vimeiro
O vimeiro da Madeira parece ser o produto do cruzamento da salix alba com a S. fragilis. É um arbusto ou pequena
árvore com os ramos compridos e flexíveis, e as folhas lanceoladas, as adultas, glabras, as novas, um tanto assetinadas. Só existem
na Madeira indivíduos femininos, mas estes são extremamente abundantes e multiplicam-se de estaca com uma facilidade extrema.
Os ramos mais longos do vimeiro utilizam-se para o fabrico de grande numero de moveis e utensílios, tais como canapés, cadeiras,
mesas, carros, cestos, etc., os mais curtos para ligamentos e vencelhos, assim como para algumas obras miúdas que se fabricam na
ilha.
Em 1912, foram exportados para o estrangeiro e Lisboa 265:919 quilogramas de vimes em obra, e só para o estrangeiro, 255:390
quilogramas de vimes em bruto, tendo sido a Inglaterra, as Canárias e o Cabo da Boa Esperança os principais países importadores
dos vimes não manufacturados.
A indústria dos artefactos de verga, que parece ter começado na freguesia da Camacha por 1850, está hoje decadente na Madeira,
segundo nos informa o inteligente industrial o Sr. José Maria Teixeira, ao passo que se desenvolve noutros países, e principalmente
na África do Sul, para onde a ilha exporta os seus vimes. O encarecimento da matéria prima, que obsta a que alguns industriais que
lutam com falta de capitais a adquiram na época própria, a saída para o estrangeiro de muitos operários que se empregavam na
referida indústria, enquanto outros se dedicam na ilha a outros serviços mais lucrativos, os fretes mais pesados que oneram os
vimes em obra, em razão destes ocuparem maior espaço nos porões dos navios, e os direitos e impostos locais que oneram mais os
artefactos de verga do que a matéria prima, são, no entender daquele esclarecido industrial, as principais causas da referida
industria ter perdido uma grande parte da sua antiga importância.
A Madeira produz 700 a 800 toneladas de vimes anualmente, saindo talvez metade desta produção para fora da ilha. No Cabo da
Boa Esperança, outrora importante mercado consumidor dos artefactos de verga da Madeira, fabricam-se hoje muitos dos mesmos
artefactos com vimes importados da nossa ilha, o mesmo acontecendo no Brasil. A Inglaterra é o país que importa actualmente
grandes quantidades da obra de verga fabricada na Madeira, recebendo também, segundo nos informam, grandes porções de vimes
em bruto (1921).
A poda do vimeiro executa-se desde Janeiro até Março, e os vimes destinados a obras são reunidos em feixes em seguida á colheita,
depois do que é uso deixar permanecer a parte inferior dos mesmos feixes mergulhada em água, até que comece a rebentação.
Iniciada esta, são os vimes descascados, devendo haver o cuidado de cortar a parte que esteve mergulhada na água.
Uma boa parte da obra de verga produzida na ilha recomenda-se pelo engenho, desvelo e solidez da sua execução, qualidades estas
que a tornam bastante apreciada tanto de nacionais como de estrangeiros, denotando ao mesmo tempo muita habilidade e gosto da
parte dos artistas madeirenses. A Boaventura e a Camacha são as principais localidades da produção do vime, sendo desta última
localidade que sai a maior parte da obra de verga que é exportada ou vendida no Funchal.
Vimioso (Condes de)
Pertenceu-lhes a capitania de Machico, que foi comprada por D. Afonso de Portugal, 2.° conde, a António da
Silveira, com licença de D. João III, por 35.000 cruzados. Tendo este D. Afonso de Portugal sido dado por morto na batalha de
Alcácer-Quibir, tomou conta da capitania seu filho D. Francisco de Portugal, que é considerado geralmente como 3.° conde de
Vimioso, mas que faleceu antes de seu pai, na batalha naval de Vila Franca de Campo, não tendo chegado portanto
verdadeiramente a herdar a referida capitania.
Em 1582, foi a capitania de Machico dada por Filipe II a Tristão Vaz da Veiga, mas em 1604, sendo este já falecido, passou ela para
a posse de D. Luís de Portugal, que alguns consideram como terceiro e outros como quarto conde de Vimioso, o qual professou mais
tarde, assim como sua esposa, que era filha do conde de Basto, por motivos que não são bem conhecidos.
Depois deste D. Luís de Portugal, foram donatários de Machico: D. Afonso de Portugal, 5.° conde; D. Luís de Portugal, 6.º conde,
falecido desastradamente numa pendência em 1656; D. Miguel de Portugal, 7.° conde, falecido em 1687; D. Francisco de Portugal e
Castro, 8.º conde e 2.° marquês de Valença, falecido em 1749; e D. José Miguel de Portugal e Castro, 9 ° conde e 3.º marquês de
Valença, falecido em 1775.
Consta dum antigo manuscrito que em 20 de Outubro de 1767 ordenou o Conselho de Fazenda ao Provedor que se apossasse da
donatária de Machico, em nome do Monarca, «visto ela achar-se vaga por óbito do 5.° conde de Vimioso, D. Martinho de Portugal,
sem sucessor», mas tal ordem a haver sido dada, não teve execução, segundo parece, pois existem documentos posteriores que se
referem à alcaidaria-mor de Machico e aos seus proprietários os marqueses de Valença e condes de Vimioso. Deve-se advertir ainda
que o 5.° conde, D. Afonso e não D. Martinho, faleceu no século XVII, e que era D. José Miguel de Portugal e Castro, 9.° conde,
nascido em 1706 e falecido em 1775, o proprietário da donatária de Machico na época a que se refere o mencionado manuscrito.
Os donatários de Machico foram também marqueses de Valença a partir de 10 de Março de 1716, em que o rei D. João V renovou
este título, dando-o a D. Francisco de Portugal, 8.º conde de Vimioso, 6.° neto do Valença falecido em 1460.
Vinhas
A cultura da vinha já em 1445 existia na Madeira, pois que Cadamosto que visitou esta ilha nesse ano, se refere a «vinhas
plantadas de fresco, entre as quais a malvasia, mandada vir de Candia». Foi o infante D. Henrique, segundo conta Frutuoso, quem
introduziu aquela casta na ilha, não havendo razões para duvidar desta informação, se bem que Azurara, citado pelo Dr. Azevedo,
nada diga a tal respeito. A viagem do navegador italiano deu-se antes da composição da Chronica da conquista e descobrimento da
Guiné, devendo atribuir-se portanto o desconhecimento de certas cousas da ilha, ou a não ter ainda grande importância a cultura da
videira, ou a não haver Azurara aludido aos vinhos no seu trabalho, como aludiu ao «pam, e açuquer, e mel, e cera, e madeira» da
florescente colónia portuguesa.
Diz o Dr. Azevedo que é não só possível, mas natural, que a família Acciaioly, de origem florentina, ao estabelecer-se na Madeira,
para cá trouxesse a vinha malvasia, que vegeta nos subúrbios da cidade de Napoli-di-Malvasia, na ilha de Minoa, mas a ser certo
que foi Simão Acciaioly, que para aqui veio em 1515, o tronco dessa família entre nós, é evidente que não poderia ser ele o
introdutor da referida vinha na nossa terra, visto Cadamosto a ter já encontrado aqui setenta anos antes. 0 mais provável é que os
primitivos colonizadores, por indicação do infante D. Henrique, trouxessem de Portugal algumas castas de videiras ali cultivadas,
preferindo, claro está, as mais afamadas, e que entre estas viesse a malvasia candida, oriunda de Candia e de Minoa, a qual bem
poderia a esse tempo ser cultivada na metrópole, onde parece que não existe presentemente, a não ser como mera curiosidade.
Sabendo-se que a cultura da vinha na Madeira é tão antiga ou quase tão antiga como a da cana, e que já no tempo de Cadamosto os
vinhos da ilha eram assai buonissimi, é para estranhar, diz o Dr. Azevedo, que no século XV todo o peso dos direitos e exigências
senhoriais recaísse sobre os açucares, e que os vinhos estivessem isentos de quaisquer tributos pesados, e sujeitos apenas ao
pagamento do dizimo e duma imposição estabelecida em 1485 «para as despezas do comçelho da ylha».
Pensa o Dr. Azevedo que o desigual tratamento que nos tempos primitivos tiveram os vinhos e os açucares foi uma consequência do
pouco valor e da baixa qualidade daqueles, mas tal explicação, como se vê do que ficou exposto, não pode ser aceita, sendo mais
provável que a falta de mercados estrangeiros e a pouca procura que em Portugal, país também vinhateiro, tinham os nossos
vinhos, fossem a verdadeira causa destes terem escapado aos pesados impostos que oneraram o açúcar nos primeiros tempos da
colonização. Sujeitar os vinhos madeirenses aos mesmos encargos dos açucares, teria sido arruinar a viticultura numa época em
que ela não prometia ainda vir a ser uma das maiores riquezas da ilha.
A cultura da vinha recebeu um certo impulso no século XVI, quando a indústria do açúcar começou a decair na Madeira (V.
Vinhos), mas é depois de 1640 que a vemos tomar um maior incremento, quando os ingleses, estabelecendo-se aqui em maior
numero do que dantes para se entregarem ao comercio dos vinhos, se tornaram os principais fomentadores da mesma cultura.
Frutuoso refere-se em várias partes das Saudades da Terra á cultura da vinha na Madeira, mas no tocante a castas, só menciona a
malvasia, que parece ser a que no século XVI produzia os mais preciosos e afamados vinhos da ilha.
Nos fins do século XVIII plantaram-se muitas videiras na Madeira, e tempos antes havia a cultura da vinha sido introduzida nos
terrenos das Areias e noutros da beira mar, no Porto Santo, tendo ido ali homens sustentados pelo Estado realizar as plantações,
que se fizeram com bacelos fornecidos pelo governo.
Até 1851, manteve-se a cultura da vinha florescente na Madeira, mas nesse ano ou no imediato apareceu na ilha o Oidium Tuckery,
que destruiu a mesma cultura quase inteiramente (V. Mangra). Debelada a moléstia pelo emprego do enxofre, de novo a cultura da
vinha prosperou entre nós, até que em 1871 ou 1872, um novo flagelo, a filoxera (V. este nome), mais difícil de combater do que a
mangra, veio devastar as plantações madeirenses.
Pela introdução de videiras exóticas para serem enxertadas com as antigas castas da Vitis vinifera, tornou-se possível a
reconstituïçao das plantações da ilha, achando-se ao presente a nossa viticultura em estado prospero, depois de haver atravessado
algumas crises que lhe retardaram os progressos ou a puseram mesmo a dois passos do seu aniquilamento.
A cultura da vinha ocupa no arquipélago a área de 1700 a 2000 hectares, sendo a produção media por hectare de 6 a 7 pipas de
vinho. Não se encontram hoje, como antes do aparecimento da filoxera, cepas madeirenses enraizadas, mas por quase toda a parte
se tem conseguido vulgarizar muitas dessas cepas, enxertando-as em videiras americanas ou em híbridas provenientes do
cruzamento das mesmas videiras com a Vitis vinifera. Ha também alguns híbridos produtores directos, tais como o Jacquez, o
Herbemont e a Cunningham, sendo o primeiro muito frequente na Madeira.
Antes do aparecimento da mangra (V. este nome), era uso, principalmente no norte da ilha, empregar como tutores da vinha certas
árvores, especialmente os castanheiros (V. Balseiras), mas tal processo de cultura está abandonado e hoje as parreiras apoiam-se e
alargam-se sobre corredores ou latadas feitos de varas ou de verga, quando não vivem mais ou menos prostradas na terra (vinhas
de pé) ou sustentadas por pequenas estacas. A altura das latadas varia entre 1m,20 e 3 metros.
A poda das castas europeias executa-se geralmente deixando em cada braço da cepa uma vara terminal com sete, oito e ás vezes
mais olhos, e um ou mais sarmentos laterais com dois ou três olhos. Se a cepa ou algum braço dela for pouco vigoroso, pode
reduzir-se o número de olhos da vara terminal.
As principais castas cultivadas na Madeira por causa dos excelentes vinhos que produzem, são: a malvasia candida, o sercial, o
verdelho, o boal e a tinta.
A primeira destas castas, que se reconhece pelas suas folhas glabras nas duas paginas, com 5 lóbulos muito profundos, de ordinário
ponteagudos, e pelos seus cachos grandes, com bagos elípticos ou eliptico-globosos, pouco rijos, verdoengo-amarelados, por fim
dourados, encontra-se nalguns quintais do Funchal, na Fajã dos Padres, em Câmara de Lobos, no Jardim do Mar, no Paul do Mar,
etc.. É ela que produz o precioso vinho malvasia, conhecido pela sua doçura e perfume, dando também boas uvas de mesa, se bem
que inferiores ás outras castas existentes na ilha.
A segunda casta, a que em Portugal dão os nomes de sercial, esgana, esgana-cão, esganinho e esganoso, tem as fôlhas medianas,
cotanilhosas na página inferior, subglabras ou pubescentes na superior, com os três lóbulos do alto bem aparentes e os inferiores
muitas vezes apenas esboçados. Os seus cachos são de ordinário pequenos ou medianos, com bagos elípticos, esverdinhado-
amarelados, acerbos e de maturação seródia, e o seu vinho quando amadurecido (antes dos 8 a 10 anos é áspero e cru) é muito seco
e de excelente qualidade. 0 sercial é cultivado principalmente na Fajã dos Padres, Ponta do Pargo e Estreito de Câmara de Lobos.
O verdelho, conhecido nalgumas partes de Portugal pelo nome de gouveio, tem folhas medianas, arredondadas, ondeadas, glabras
ou quase glabras na pagina superior, mais ou menos cotanilhosas na pagina inferior, com lóbulos pouco profundos ou apenas
esboçados, sendo os seus cachos pequenos ou medianos, com bagos muito doces, rígidos ou sub-rígidos, elípticos ou oblongos,
verdoengo-amarelados, geralmente dourados na maduração. As suas uvas, um tanto fortes, são muito boas para comer, e produzem
um vinho seco e de sabor agradável, que é tido como um dos mais finos da Madeira. 0 verdelho é cultivado no Funchal, Câmara de
Lobos, Estreito de Câmara de Lobos, Porto Santo, etc..
O boal tem folhas medianas, cotanilhosas na pagina inferior, subglabras ou pubescentes na superior, com os lóbulos do alto bem
aparentes, ás vezes acuminados, os inferiores de ordinário mal esboçados, e os seus cachos são grandes, densos, muito alados, com
bagos quase sempre elípticos, rijos, verdoengo-amarelados, dourados depois de maduros, muito doces. É cultivado principalmente
nos concelhos do Funchal e Câmara de Lobos, e produz boas uvas de mesa e um vinho muito estimado.
A tinta reconhece-se pelas suas folhas glabras ou quase glabras na pagina superior, cotanilhosas ou araneosas na pagina inferior,
muitas vezes avermelhadas depois de adultas, com os lóbulos superiores profundos, e pelos cachos pequenos ou medianos, com os
bagos tintos, pouco rijos, muito doces, com a polpa clara ou levemente colorida. É cultivada principalmente em Câmara de Lobos,
Estreito, S. Martinho e Santo Antonio, e dá excelente vinho e boas uvas de mesa.
Além das cinco castas que ficam sucintamente descritas, muitas outras são dignas de apreço, quer pelo emprego que têm no fabrico
dos vinhos, quer pelas boas uvas de mesa que produzem, parecendo-nos dignas de menção, entre as castas tintas – o listrão tinto,
do Pôrto Santo, de bagos globosos e rijos; a negra mole (tinto molar no Porto Santo), de bagos globosos ou eliptico-globosos, muitas
vezes desiguais; a tinta do Porto Santo, semelhante á negra mole; o negro ou maroto, de bagos globosos e rijos, só cultivado agora
no Porto Santo; o castelão, de bagos um pouco mais consistentes que os da negra mole só cultivado agora na mesma ilha; o
terrantês tinto, de bagos grandes, ovais ou subglobosos, rijos; o ferral, de bagos grandes, elípticos ou oblongos, rijos e de polpa um
tanto esverdinhada; e o barrete de padre, de bagos grandes e listados, rijos. Das castas brancas ou violaceas, merecem ser
assinaladas–a malvasia roxa, que apenas se distingue da malvasia candida em ter os bagos violaceos ou rosados; o malvasião ou
malvasia babosa, de bagos moles e por vezes pouco doces, verdes ou dourados na maturação; o boal do Porto Santo, de bagos
moles, ovados ou subglobosos, da cor dos do boal da Madeira; o carâo de moça, de bagos globosos ou eliptico-globosos, grandes e
rijos, dourados ou esverdinhados; o cachudo, muito semelhante ao boal; o terrantês branco, de bagos globosos, dourados, muito
doces, quase extinto na Madeira, mas cultivado no Porto Santo; o muscatel e o moscatel do Porto Santo, diferentes um do outro,
mas produzindo ambos uvas perfumadas e de sabor especial; a málaga ou alicante branco, de bagos globosos, rijos, doces e
dourados na maturação; e o listrão da Madeira e o do Porto Santo, ambos de bagos globosos e rijos, muito saborosos.
A Isabella ou vinha americana, variedade da Vitis labrusca, é muito cultivada na Madeira, onde foi introduzida pouco depois de
1840, e a V. riparia, conhecida pela denominação de vinha de silvado, é também comum sendo, porém, utilizada somente como
cavalo de enxertia. Além do Jacquez, do Herbemont e da Cunningham (canica dos madeirenses), que todos parecem derivar do
cruzamento da Vitis aestivalis pela M. vinifera, outros híbridos foram introduzidos na Madeira após a invasão filoxerica, a maior
parte dos quais se acham hoje extintos. 0 Jacquez, cultivado como produtor directo, é também a videira preferida geralmente para
ser enxertada com as antigas castas da V. vinifera, por causa da sua adaptação aos terrenos e do seu vigor e resistência à filoxera.
Os solos mais adequados á cultura da vinha são a pedra mole e o cascalho, este constituído por partículas basalticas e aquele por
tufos vermelhos ou amarelados. 0 solo duro e argiloso a que chamam massapez, é o que menos se presta á cultura vitícola.
As vinhas estendem-se desde as terras vizinhas do litoral até 400 ou 500 metros, podendo atingir mesmo 600 e 700 metros, nos
lugares menos visitados pelos nevoeiros. Nas proximidades do Jardim da Serra, existe a cultura da vinha, mas a maturação da uva
tem lugar aí muito mais tarde que no Funchal.
Sobre as videiras madeirenses, foram publicados dois artigos no extinto Portugal Agrícola, um deles escrito pelo agrónomo Sr.
Meneses Pimentel e o outro pelo autor destas linhas. Nos Estudos Ampelograficos do falecido João Marques Loureiro (Lisboa
1912), também são indicadas e desenvolvidamente descritas algumas das mais valiosas castas de vinha da nossa terra, podendo
todos estes trabalhos ser consultados com vantagem por aqueles que desejarem possuir um mais amplo conhecimento da
especialidade.
Ampliamos as informações deste artigo com os valiosos elementos que o seu autor (o distinto botânico Carlos Azevedo de Meneses)
deixou consignados na revista Portugal agrícola do mês de Abril de 1902, a que acima se faz referência, e da qual importa
transcrever alguns períodos:
«Não sendo de maior interesse as descripções dos hybridos e vinhas americanas, visto estas cepas serem bem conhecidas em
Portugal, limitamo-nos a tratar no presente artigo das differentes formas da Vitis vinifera existentes no archipelago, distribuindo-as
para este fim em dois grandes grupos: castas tintas e castas brancas ou violaceas.
CASTAS TINTAS
Listrão.
– Folhas grandes ou medianas, subglabras em ambas as faces ou irregularmente cotanilhosas ao inferior; lóbulos 5,
menos vezes 3, quase sempre acumiados, às vezes fendidos, todos, ou os superiores pelo menos, bem apparentes ou profundos;
dentes triangular-lanceolados agudos, ás vezes muito grandes; seio peciolar quase sempre muito aberto, seios lateraes pouco
abertos ou fechados; cachos de 18-30 centímetros, cylindricos ou cónicos, alados, muito densos ou um pouco frouxos; bagos de 16-
20 milímetros, globosos rijos, a princípio dum violaceo claro, por fim quase negros; polpa clara; pedicellos avermelhados no alto.
Cultivado no Porto Santo; produz uvas de meza muito apreciadas.
Tinta da Madeira
. – Folhas medianas, com as nervuras e os peciolos muitas vezes avermelhados, glabras na pagina superior ou
guarnecidas de alguns pellos um pouco densos junto das nervuras e do peciolo, cotanilhosas ou araneosas na inferior, com o
tormento ás vezes muito ralo e parecendo neste caso um pouco luzidias; lóbulos superiores profundos ou bem apparentes os
inferiores quase sempre mal esboçados; dentes ovados ou ovado-triangulares, obtusos, raras vezes sub-agudos; seios lateraes e seio
peciolar a maior parte das vezes fechados em virtude da sobreposição dos lobulos; cachos alados ou não, pequenos ou medianos
(15-25 centímetros), quase sempre densos; bagos elliptico-globolosos ou oblongos, de 15-23 milímetros, tintos, pouco rijos, muito
doces, com a polpa clara ou levemente colorida. Cepa alta e vigorosa, de grossura mediana; sarmentos pardentos ou pardento-
avermelhados, de entrenós curtos ou medianos. Distingue-se da negra molle, com a qual anda geralmente confundida, em ter as
folhas maiores e com os seios quase sempre mais fechados, e os bagos mais alongados e de maiores dimensões.–É cultivada em
Câmara de Lobos, no Estreito e em vários pontos de S. Martinho e de Santo Antonio. Não apparece em Porto Santo. Dá vinho
excellente e boas uvas de mesa.
Negra molle.
– Folhas ás vezes um pouco concavas, geralmente medianas, mais ou menos cotanilhosas ou araneosas na pagina
inferior, subglabras ou ligeiramente cotanilhosas na superior, umas vezes com todos os lóbulos bem apparentes e os superiores
profundos e agudos ou obtusos, outras com todos os lóbulos apenas esboçados; dentes ovados ou triangulares, agudos ou obtusos;
seios lateraes e o peciolar abertos ou fechados; cachos pequenos ou medianos (15-20 centímetros), quase sempre muito densos,
alados ou não; bagos globosos ou elliptico-globosos, eguaes ou deseguaes, de 12-18 milímetros, molles ou pouco rijos, tintos muito
doces, com a polpa clara. Cepa como na casta precedente; sarmentos castanho-claros ou castanho-avermelhados, de entrenós
curtos. Folhas adultas geralmente avermelhadas. Distingue-se do bastardo em ter os bagos ás vezes ellipticos e com a polpa sempre
clara, e os pedicellos mais compridos.–Encontra-se nos mesmos sítios da casta precedente, mas é mais abundante do que ella;
também é cultivada no Porto Santo, onde a conhecem pelo nome de tinta mollar. Dá excellente vinho e boas uvas de mesa.
Tinta de Lisboa.
– Distingue-se da tinta madeirense em ter as folhas quase sempre mais esbranquiçadas na página inferior, e os
cachos de ordinário mais pequenos - e com os bagos globosos; e da negra molle, pelas folhas geralmente maiores e com menos
tendência para tornar-se avermelhadas, e pelos seios quase sempre mais fechados.–Encontra-se nalguns pontos dos arredores do
Funchal; pouco frequente. É pouco apreciada para vinho; dá boas uvas de mesa.
Bastardo tinto.
– Folhas medianas, cotanilhosas na face inferior, com os pellos ás vezes floccosos e dispostos muito
irregularmente, glabras ou ligeiramente pilosas na superior; lóbulos pouco profundos ou apenas esboçados; dentes deseguaes,
triangulares ou ovado-triangulares, agudos ou sub-agudos; seio peciolar mais ou menos aberto; cachos não excedendo em geral 15
cent., cylindricos, cylindrico-conicos ou muito curtos e largos, densos, ás vezes alados; bagos globosos, muito doces, sub-eguaes ou
muito deseguaes, de 12-18 milim., a princípio um pouco rijos, por fim molles, tintos, com a polpa clara ou levemente violacea;
pedicellos muito curtos.–Frequente no Porto Santo; na Madeira só é cultivado no Estreito e Jardim da Serra. Produz bom vinho e
boas uvas de mesa.
Tinta do Porto Santo
. – Folhas grandes ou medianas, quando adultas muitas vezes avermelhadas; glabras ou subglabras na
pagina superior, um tanto cotanilhosas ou araneosas na inferior, com 5 lóbulos bem apparentes, acumiados, dentados ou inciso-
dentados, os superiores bastante profundos: dentes muito deseguaes, triangulares ou triangular-lanceolados; seio peciolor aberto;
seios lateraes abertos ou fechados: cachos não excedendo em geral 18 centímetros, cylindricos ou cylindrico-conicos, ás vezes
alados; bagos globosos ou ellipticos-globosos, doces, do mesmo tamanho dos da negra mole, mas mais rijos e com a polpa
constantemente violacea.–É casta muito productiva e que só apparece agora no Porto Santo.
Negro.–Folhas
grandes ou medianas, às vezes avermelhadas, araneosas na pagina inferior ou revestidas aqui e alli de pellos
floccosos, menos tormentosas ou glabras na pagina superior; todos os lóbulos, ou os superiores apenas, bem apparentes e
ponteagudos; lóbulo médio maior quase sempre que os lateraes; dentes deseguaess triangulares ou triangular-lanceolados, agudos;
seio peciolar mais ou menos aberto; seios lateraes superiores abertos ou fechados; cachos não excedendo em geral 20 centímetros,
cylindricos ou cylindrico-conicos mais ou menos densos, alados ou não; bagos pouco deseguaes, de 12-18 milímetros, rijos, doces
depois de maduros, globosos, com a polpa clara ou violacea e a pellicula bastante consistente; pedicellos regulares. Cepa vigorosa,
com os sarmentos castanho-claros, ás vezes listados; merithallos alongados. É synonymo de marôto e é cultivado no Porto Santo;
parece estar extincto na Madeira, onde foi outrora abundante. Dá muito vinho, mas pouco estimado.
Castellão–Folhas
medianas ou pequenas, muito semelhantes ás da negra mole, mas com os lóbulos quase sempre bem
apparentes; cachos cylindricos ou cylindrico-conicos, de ordinário alados, densos ou sub-densos; bagos globosos, em regra muito
deseguaes, um pouco mais rijos que na negra molle, umas vezes muito pequenos (8 millimetros), outras medianos (15-18
millimetros), tintos, com a polpa clara, muito doces, pedicellos regulares. – É synonimo de tinta castellõa, e provavelmente também
de negrinho. É cultivado no Porto Santo e era frequente outrora na Madeira, onde parece estar extinto ou quase extinto.
Terrantez tinto
. – Folhas cotanilhosas na pagina inferior, raras vezes perfeitamente glabras na superior, com os 3 lóbulos do alto
apparentes ou mal esboçados-; dentes muito deseguaes e quase sempre arredondados; seio peciolar fechado ou pouco aberto; cacho
geralmente alado, de bagos tintos, grandes, ovaes ou sub-globosos, rijos; pedicellos violaceos no alto. Folhas adultas muitas vezes
avermelhadas.–Cultiva-se n'alguns pontos dos arredores do Funchal, e no Porto Santo. Produz uvas de mesa muito apreciadas.
Ferral.
– Folhas glabras nas duas faces com 5 glóbulos profundos, dentados ou inciso-dentados; dentes muito deseguaes,
triangulares, agudos ou acuminados; seios lateraes fechados ou pouco abertos, o peciolar mais ou menos aberto; cachos geralmente
grandes e cónicos, densos ou frouxos, alados; bagos tintos, grandes, elípticos ou oblongos, rijos, com a película assaz consistente e a
polpa um tanto esverdinhada. Sarmentos acastanhados. Comprimento médio dos bagos: 35 millimetros. – Cultiva-se no Funchal,
no Seixal e em Ponta Delgada. Produz uvas de mesa muito grandes e formosas, mas de sabor pouco delicado. Era também
conhecido outrora pelos nomes de Alicante e de Moscatel tinto.
Barrete de padre
. – Folhas medianas, glabras nas duas faces, com 3-5 lóbulos, umas vezes mal esboçados, outras vezes um pouco
profundos; lóbulo terminal dividido ás vezes em 3 lóbulos secundários; dentes geralmente curtos e largos, agudos ou obtuosos; seio
peciolar pouco aberto ou fechado; cachos alados, de ordinário grandes e pouco densos; bagos grandes ou medianos, ellipsoideos ou
ovado-subglobosos, tintos listados, muito rijos. - Cultiva-se nos arredores do Funchal e também no Porto Santo, onde é conhecido
pelo nome de barrete de frade. Dá boas uvas de meza.
Verdelho tinto
. – Folhas pequenas ou medianas, muitas vezes com manchas violaceas, cotanilhosas na fase inferior, sub-glabras
ou revestidas d'alguns pellos na superior; lóbulos superiores geralmente apparentes e agudos, os inferiores apenas esboçados;
dentes deseguaes, geralmente agudos; seio peciolar quase sempre aberto; seios lateraes (quando existem) pouco abertos ou
fechados. «Bagos tintos, idênticos na forma aos do verdelho branco».
Chasellas
. – Folhas grandes, largas, glabras, excepto nas nervuras da pagina interior, onde são um pouco pubescentes; lóbulos
poucos profundos, ordinariamente ponteagudos; dentes muito irregulares, profundos, ordinariamente agudos, seio peciolar mais
ou menos aberto; cacho apertado, de bagos muito grandes, rijos, elliptico-globosos, quase tintos, esverdinhados na base.–Produz
uvas de mesa que se recommendam mais pelo seu tamanho do que pelo seu sabor, que é um tanto desenxabido. É casta de
introducção recente cultivada apenas nos arredores do Funchal. É synonymo de uva franceza.
CASTAS BRANCAS OU VIOLACEAS
Sercial.
– Folhas medianas, cotanilhosas na pagina inferior, sub-glabras ou pubescentes na superior, com os 3 lóbulos do alto bem
apparentes e os inferiores apenas esboçados; lóbulo superior quase sempre maior e mais agudo ou acuminado que os lateraes;
dentes pouco profundos, deseguaes; seios lateraes superiores e o peciolar quase sempre abertos; cachos pequenos ou medianos, não
excedendo em geral 20 centímetros, densos, quase sempre alados; bagos elípticos, de 15-20 milímetros, esverdinhado-amarellados,
um pouco acerbos, sub-rigidos. Cepa vigorosa; sarmentos pardento-claros, de entrenós curtos.–Esta casta que é agora bastante rara
na Madeira, encontra-se na Fajã dos Padres, na Ponta do Pargo e no Estreito de Câmara de Lobos. 0 seu vinho quando
amadurecido (antes dos 10 anos é áspero e cru), é muito seco e de excellente qualidade. Diz-se que o Sercial da Madeira é idêntico
ao Esgana cão de Portugal.
Verdelho
. – Folhas medianas, arredondadas, ondeadas, glabas ou providas d'alguns pellos na pagina superior, cotanilhosas na
inferior, mas com o indumento pouco denso e irregularmente distribuído, sendo ás vezes quase nullo em todo o limbo ou em parte
d'elle; lóbulos muito pouco profundos ou apenas esboçados, com dentes obtusos ou agudos; seio peciolar de ordinário muito
fechado; cachos pequenos ou medianos (15-22 cent.), geralmente alados e densos, cylindricos ou cylindrico-conicos; bagos de 15-20
milímetros, muito doces, rígidos ou sub-rigidgs, ellipticos ou oblongos, verdoengos-amarellados, geralmente dourados na
maturação. Cepa alta e muito vigorosa; sarmentos pardentos ou pardento-avermelhados, de entrenós curtos.–Apparece no
Funchal, em Câmara de Lobos e no Estreito de Nossa Senhora da Graça; era outrora muito frequente tanto no norte como no sul da
Madeira. Também é cultivado no Porto Santo. As uvas um tanto fortes são muito boas para comer e produzem um vinho secco e de
sabor agradável que é tido como um dos mais finos da Madeira. 0 vermelho madeirense parece ser idêntico nos caracteres
botânicos ao gouveio do Alto Douro.
Boal da Madeira
. – Folhas medianas, cotanilhosas na pagina inferior, sub-glabras ou pubescentes na superior, com os 3 lóbulos
do alto bem apparentes, ás vezes acuminados, os inferiores de ordinário mal esboçados; dentes deseguaes, em geral sub-obtusos,
menos vezes agudos; seio peciolar fechado ou pouco aberto; seios lateraes superiores muitas vezes pouco apparentes em virtude da
sobreposição dos lóbulos; cachos grandes, muito alados, densos; bagos quase sempre ellipticos, de 15-22 miltimetros, rijos,
verdoengo-amarellados, dourados depois de maduros, muito doces. Cepa mediana; sarmentos d'um pardo claro, com entrenós
curtos.–É cultivado principalmente nos concelhos do Funchal e de Câmara de Lobos. Produz boas uvas de mesa e um vinho secco
muito estimado.
Boal de cheiro
. – Distingue-se do boal da terra em ter as folhas ás vezes menos cotanilhosas, os seios peciolares geralmente mais
abertos, os dentes quase sempre mais profundos e mais agudos, os cachos menos densos e os bagos menos rijos (ás vezes molles),
elliptico - globosos ou ovados. – Cultivado em S. Gonçalo (Funchal). Talvez seja esta casta que foi indicada no artigo do Sr.
Pimentel, sob o nome de marôto.
Boal do Porto Santo
. – Distingue-se do precedente em ter as folhas mais cotanilhosas, os lóbulos quase sempre acuminados e os
seios peciolares mais fechados; e do boal da Madeira, em ter os bagos molles ou um pouco rijos, ovados ou sub-globosos. Talvez que
as differenças entre o boal madeirense e o do Porto Santo sejam devidas a simples influencias do clima ou do terreno, e que as duas
castas devam ser identificadas.
Cachudo
. – Muito semelhante ao boal da Madeira na forma das folhas e em outros caracteres; apenas se distingue d'elle em ter os
cachos em geral mais longos e estreitos, e os bagos menos rijos e menos saborosos. – É synonymo de babosa. Produz muito vinho,
mas de qualidade inferior.–Cultivado em S. Martinho e Santo Antonio.
Terrantez branco
. – Folhas medianas, tormentosas na pagina inferior, mas com o tormento pouco denso, sub-glabras,
pubescentes ou guarnecidas aqui e alli de alguns pellos um pouco longos na superior; lóbulos superiores de ordinário bem
apparentes e muitas vezes ponteagudos, os inferiores mal esboçados ou nullos; dentes deseguaes, em geral pouco profundos,
triangulares, agudos ou sub-agudos; seio peciolar mais ou menos aberto; seios lateraes geralmente fechados, cachos curtos, de 10-
15 centímetros, densos, cylindricos, sub globosos ou cylindrico-conicos, ás vezes alados; bagos globosos, de 12-20 millimetros, sub-
rigidos, dourados na maturação, muito doces. Sarmentos pardos ou pardento acastanhados, de entrenós curtos.–Cultivado no
Porto Santo, parece estar extincto ou quase extinto na Madeira. Produz bom vinho e uvas de mesa muito saborosas».
Malvasia
. – De casta branca que parece ter sido importada da ilha de Creta pelos anos de 1445, segundo se afirma. Os jesuítas
cultivaram-na cuidadosamente na chamada Fajã dos Padres e começou a criar grande crédito nos fins do século XVI. É de «cepa»
grossa e de sarmentos erectos com folhas quase iguais quinquelobadas e de cachos grandes oblongos.
Diz o distinto escritor e abalizado agrónomo Andrade Corvo, na sua Memória sobre a «mangra» na Madeira, que há quatro
qualidades de Malvasia–a candia ou candel, a malvasia roxa, a babosa e a malvasia propriamente dita, sendo destas variedades a
candia a principal e afirmando se que foi esta a primeira casta de vinha introduzida na Madeira.
Diz-nos o Dr. Gaspar Frutuoso que, no ano de 1590, «o vinho malvasia é o melhor que se acha no mundo e se leva para a Índia e
para muitas partes do mundo. E por estes frutos é a ilha mui celebre por toda a parte».
Uma informação de carácter oficial respeitante ao ano de 1944 refere que a «malvasia Candia» desapareceu quase por completo,
guardando apenas alguns pés um ou outro lavrador como relíquia de uma era passada.
Vid. Filoxera, Mangra, Mildio e Vinhos
Vinhas e Uvas do Porto Santo
– Merecem especial consideração as interessantes informações fornecidas pelo distinto regente
agrícola José Cruz Tavares acerca do cultivo da vinha e da produção das uvas na vizinha ilha do Porto Santo, embora se possa,
porventura, discordar de algumas das afirmativas contidas nos artigos referentes a esse importante assunto. Vamos deles
transcrever diversos trechos, que mais particularmente se relacionam com o plano que aqui temos adoptado.
«Ha muito tempo já que eu penso que os lavradores da Ilha do Porto Santo deveriam procurar alargar a área da cultura da vinha,
visto tal me parecer vantajoso pelos motivos que vou expor.
No solo pobre e mal amanhado da Ilha, está absolutamente provado que a vinha vegeta melhor do que qualquer outra cultura, e
tanto assim que nela, apesar do seu pequeno âmbito, repousa principalmente a economia dos 2.500 habitantes que a povoam, todos
ou quase todos agricultores. Quando a vinha não produz há miséria negra nos casais já de si pouco ambiciosos.
O alargamento da cultura da vinha seria, a meu ver, a forma mais prática, viável e rendosa de promover em parte a arborização do
Porto Santo, ilha que é hoje praticamente nua, e cujo revestimento não será fácil sem grandes despezas por conta do Estado e sem a
colaboração e boa vontade de toda a população. Sem árvores a Ilha é seca, o regímen pluvial completamente desordenado. Se os
invernos são poucos chuvosos até falta a água para beber, no verão. Outras vezes, são as chuvas torrenciais que arrastam para o mar
o solo arável das colinas, deixando em seu logar gaivas e barrancos medonhos que prejudicam todo e qualquer trabalho oratório
que se pretenda».
Vejamos em primeiro lugar qual o destino que até aqui têm levado os 250.000 quilos de uvas – cálculo aproximado – que a ilha do
Porto Santo produz em média actualmente: o Funchal, em fruto. O resto é transformado em mosto cujo volume anda á volta de 250
pipas. Parte deste mosto compram-no os exportadores de vinhos da Madeira para abafar, antes do início da fermentação, e levam-
no para os seus armazéns do Funchal para composição e adoçamento dos vinhos generosos. A outra parte, cerca de umas 200
pipas, fermenta completamente e escôa-se como vinho de pasto, na Madeira principalmente. Apesar disso, não se produz
presentemente em todo o Arquipélago uma única marca de vinho de pasto capaz de se impor pelas suas qualidades ou
características.
A Madeira dá os afamados vinhos generosos bem conhecidos no mundo inteiro, mas é insusceptível de produzir bons vinhos de
pasto, dadas as suas especialíssimas circunstancias ágro-climáticas. No Porto Santo muda o caso de figura. Esta Ilha, situada
apenas a 40 milhas a nordeste da outra tem condições de terreno e de clima inteiramente diferentes mais próximas das do
Continente, sem contudo perderem a característica muito «sui generis». A variante principal dos mostos produzidos no Porto Santo
em comparação com os da Madeira está no teor do açúcar–acidez total.
A Delegação da Junta Nacional do Vinho na Região Vinícola da Madeira, depois das experiências eno-técnicas a que procedeu,
chegou já a conclusões definitivas acerca da natureza e óptima qualidade dos vinhos de pasto feitos a partir dos mostos do Porto
Santo. A sua aceitação pelo mercado madeirense parece não oferecer dúvidas também, quer pelo seu preço quer por dar satisfação
aos paladares mais exigentes. Na Madeira importam-se anualmente perto de 200 pipas de vinhos continentais brancos e tintos,
caros, nem sempre bons, e muitos de qualidade bastante inferior ao do Porto Santo. Estes podem substituir os outros se não no
todo pelo menos em boa parte. Por outro lado, poderia aumentar-se muito, além do que já é, o consumo do vinho do Porto Santo no
mercado madeirense por meio duma propaganda acertada que nem seria muito dispendiosa. A questão está apenas, e
principalmente, em apresenta-lo bem feito ao consumidor, em fazer-lhe destacar, por meio da boa técnica enológica, as qualidades
excepcionais que sem dúvida o categorizam.
O consumo de uvas frescas poderia alargar-se também muitíssimo, desde que o seu comercio fosse convenientemente
regulamentado de forma a acabar com certo número de abusos e cerca de 100 toneladas consome-as com a desorientação que hoje
existe, ás quais a autoridade administrativa do Porto Santo não tem conseguido por cobro apesar da sua muito boa vontade. Tal
regulamentação não é presentemente nenhum bicho de sete cabeças, graças aos Organismos Corporativos e de Coordenação
Económica estabelecidos no Arquipélago.
As uvas produzidas nesta Ilha, listrão branco e moscatel em primeiro lugar, doces, perfumadíssimas, de óptimas qualidades de
conservação, são com certeza as primeiras que amadurecem em todo o território metropolitano, talvez com diferença próxima de
um mês sobre as seguintes. Creio que ainda não houve nenhuma tentativa séria de colocar uvas do Porto Santo nos principais
mercados do continente português – não falando já nos mercados estrangeiros. Se são as primeiras que aparecem, julgo que uma
experiência neste sentido daria resultados positivos.
Também ninguém se lembrou, que eu saiba, de montar na Madeira uma pequena indústria de passas de uva, tão procuradas hoje e
vendidas a preços remuneradores. E as uvas do Porto Santo, pelo seu tamanho, perfume e riqueza de açúcar, estariam naturalmente
mais indicadas. Nada lhes falta para rivalizarem com os melhores.
A técnica de adoçamentos dos vinhos generosos da Madeira com jeropigas e abafados no Porto Santo (vinhos surdos) usada em
muito pequena escala pelos exportadores – se bem que imperfeita é contudo de aconselhar, na falta ou na impossibilidade de
melhor. É de crer que, continuando a adoptar-se a política da qualidade na produção e comércio dos vinhos portugueses, os
exportadores de vinhos da Madeira recorram cada vez mais ás reservas de açúcar que os mostos do Porto Santo lhes podem
fornecer. Tudo indica que assim acontecerá, gradualmente, em futuro mais ou menos próximo. E se assim for, nada me impede de
pensar que por esta via, tenha escoamento assegurado mais do décuplo da produção actual.
Eis pois as razões, aliás não isentas de certas condições que me levam a prever, para época relativamente próxima, a valorização da
terra do Porto Santo por meio da plantação de vinhas, e a augurar bom êxito aos agricultores e proprietários que se forem
encaminhado neste sentido».
Vinhático (Persea indica)
Árvore da família das Lauraceas, com 10 a 25 metros d'alto, folhas oblongas ou oblongo-lanceoladas,
dum verde claro ou avermelhadas e flores pequenas, reunidas em paniculas axilares. Encontra-se nas florestas e margens das
ribeiras, mas na costa do sul não vegeta bem abaixo de 150 metros. Produz madeira duma linda cor avermelhada e oferecendo
notáveis semelhanças com a do mogno (
Swietenia
), muito usada para moveis e diferentes outras obras. A casca do vinhatico é
usada para cortumes.
Vinho
de Canteiro
. Assim chamam na Madeira ao vinho que não vai á estufa, e sofre na adega o seu envelhecimento natural. Foi
a este vinho, melhorado pela acção do tempo, que a ilha deveu a sua reputação como país vinícola. O vinho de canteiro é utilizado ás
vezes na confecção de outros tipos de vinho.
Vinho de Roda
. Os antigos negociantes da Madeira enviavam ás vezes o seu vinho em viagem para passar o Equador, recebendo-
o na volta beneficiado pela acção das altas temperaturas que sofria no porão dos navios. Os vinhos que iam às regiões quentes e
voltavam á Madeira, eram denominados vinhos de roda. As estufas foram criadas para fornecer ao vinho um calor prolongado,
capaz de produzir efeitos análogos aos que produzia o calor do porão das embarcações.
V. Estufas.
Vinhos
Já dedicámos algumas páginas a este assunto no artigo
Indústria Vinícola
(II-1545) a que agora adicionaremos outras
indispensáveis informações.
Muitas providencias têm sido adoptadas e impostas por meio de medidas legislativas, afim de garantir-se a genuidade dos vinhos
generosos da Madeira, encontrando-se acerca delas uma desenvolvida noticia na apreciada obra
Archivo da Marinha e Ultramar
,
de que se encontra um resumido extracto no opúsculo
Vinhos da Madeira
da autoria de Nuno Simões, do qual transcrevemos os
seguintes e elucidativos períodos:
«Em 23 de Dezembro de 1724 os homens de negocio do Funchal dirigiam ao Senado uma representação com 38 assinaturas acerca
do comercio de vinhos e da proibição da entrada dos do norte da ilha. Essa proibição estabeleceu-a o Senado por uma Postura de 9
de Janeiro de 1737. Sobre os prejuízos e vantagens desta requereu o negociante Francisco Teodoro.
Para evitar as falsificações foram criados em 1768 os lugares de Juiz de Fora e Presidente dos Resíduos. Nesse ano o Governador Sá
Pereira publicava em bando uma Ordem contendo, em 13 artigos, providências várias para evitar a mistura dos vinhos do Sul e do
Norte por ser este de inferior qualidade.
Em oficio de 30 de Agosto a Francisco Xavier de Mendonça Furtado proibia o mesmo Governador expressamente a lotação dos dois
vinhos, como já em 14 de Março o ordenara a todas as freguesias e portos.
Todas essas providências não surtiram efeito integral pois em 16 de Agosto de 1786 o Governador tinha de mandar publicar novo
bando com sanções severas contra os transgressores. A fraude começava a revestir novos aspectos.
Em princípios de 1788 representavam ao Governo 19 negociantes de vinho da Madeira, na sua maioria ingleses, contra a fraude
cometida por alguns comerciantes do norte da ilha que deitavam no vinho suco de cerejas pretas para lhe dar mais cor e o tornar
mais semelhante ao do sul.
Em 27 de Fevereiro desse ano publicava o Governador da Ilha um edital «para extinguir as cerejeiras pretas desta ilha mandando
cortar para serem enxertadas em vermelhas todas as que presentemente existem e arrancar pelas raizes todas as que os donos não
quizerem arrancar».
Proibia também «com pena de 6.000 réis pagos da cadeia» que se tornasse a plantar cerejeira preta para evitar a falsificação «como
tem pretendido a ambição de alguns traficantes com grave descredito da reputação dos nossos vinhos e ruína do seu comercio».
Esse Edital não foi bem recebido pelos que ele ameaçava e abrangia. Houve requerimentos pedindo a sua suspensão. Foram todos
indeferidos, chegando um dos signatários deles, o cónego Pedro Nicolau Acciaiuoli, a ser preso, incidente de que o Governador D.
Diogo Forjaz deu conta ao ministro Martinho de Melo ao informa-lo das providencias relativas ao extermínio das cerejeiras pretas.
Uma outra forma de fraude foi denunciada em 1791 na representação do cônsul inglês na Madeira a Luiz Pinto de Sousa Coutinho,
secretário dos Estrangeiros.
Alguns comerciantes faziam exportar para Tenerife vinho da Madeira e lotavam-no, lá, com vinho da terra, muito barato, para
depois o venderem todo como da Madeira. Existe no Arquivo a lista dos navios que de 1784 a 1787 levaram vinhos da Madeira para
Tenerife onde eram lotados para serem depois exportados para a Ásia.
A essas e outras fraudes contra as quais nos inícios do século XIX houve que tomar providências, se atribuiu em grande parte o
enfraquecimento da exportação dos vinhos da Madeira. Não há dúvida de que para ele contribuíram muito.
Outros e maiores males haviam no século XIX de arruinar a principal produção da Madeira e que fora a sua maior riqueza, desde
que o açúcar perdera, pela concorrência de outros países o primeiro logar na economia da Ilha».
Em 1914, os químicos alemães A. Kickton e R. Murdfield procederam a um largo e importante trabalho de análise de vinhos
generosos da Madeira, nos laboratórios do Instituto Higienico da cidade de Hamburgo, que a «Revista de Chimica Pura e
Applicada», fez publicar nos números de Janeiro a Abril do ano de 1916 sob o título de Preparation, Compositton et Apréciation du
vin de Madere et de ses substituts e que é a tradução do original na língua alemã feito por M. Eug. Ackermann. Dela se imprimiu
uma «separata», em um opúsculo de 57 páginas, que o Dr. Nuno Silvestre Teixeira trasladou para a nossa língua em uma excelente
versão literal e publicou no «Diário de Notícias» do Funchal no mês de Novembro de 1916. É do último desses artigos que
extraímos os seguintes períodos, em, virtude do particular interesse que presta ao nosso assunto.
«I PREPARAÇÃO
O vinho da Madeira é um vinho de dessert de caracter particular e exclusivamente preparado na ilha portuguesa da Madeira, por
um método transmitido desde longa data.
O modo especial de sua fabricação consiste em submeter o mosto de uvas frescas (com os cachos inteiros) a uma fermentação
alcoólica bem prolongada. Os vinhos de base decantados ou trasfegados, geralmente mui fermentados, mas ás vezes também vinhos
de base ainda com açúcar, são depois adicionados de álcool (de vinho ou de cana de açúcar).
O adoçamento efectua-se, em geral, com uma adição de mosto alcoolizado de uvas frescas («geropigas»), e frequentemente também
com mosto cozido (caramelizado), ou ainda com um tratamento simultâneo de estes dois meios de adoçamento, o segundo servindo
muitas vezes principalmente para a colorização.
Nos produtos examinados por nós, que puderam ser preparados antes de entrar em vigor a proibição portuguesa de adoçamento de
1908, empregou-se ainda mui frequentemente o açúcar de cana no adoçamento; este açúcar tinha sido ajuntado, em parte, sob a
forma de açúcar seco, e, em parte, sob a de xarope e frequentemente também sob a forma de solução aquosa muito diluída. Com o
adoçamento pelo açúcar de cana, houve também, geralmente, uma adição de mosto caramelizado. Não é senão mais raramente que
parece ter-se empregado com este fim o corante de açúcar.
Afim de activar seu grau de maturação, e provavelmente também para lhes dar suas qualidades especiais, os vinhos da Madeira
generosos são, em geral, submetidos a um tratamento pelo calor que dura meses.
Este efectua-se, quase sempre, em compartimentos aquecidos («estufas») especialmente instalados e levados a uma temperatura de
50° C. pouco mais ou menos; por vezes expondo aos raios do sol o vinho, que se acha em pipas ou garrafas de vidro. Com o mesmo
fim, faz-se ás vezes fazer ao vinho uma viagem aos trópicos.
Muitas vezes o vinho da Madeira é ainda alcoolizado antes da exportação.
A composição dos vinhos da Madeira é pouco uniforme nos diversos resultados analíticos, o que é devido em parte a uma
quantidade de açúcar que é variável para os diversos vinhos de base, e sobretudo á diferença dos meios de adoçamento empregados.
Em geral, o conteúdo em álcool dos vinhos da Madeira importados na Alemanha varia entre 13,5 e 16,0 gr. por 100 cm.3, o que
corresponde, pouco mais ou menos, a uma quantidade de 17 a 20% em volume. A proporção de extracto (compreendendo açúcar)
varia entre 5,0 e 8,0 gr; a de acidez entre 0,5 e 0,7 gr; e a de extracto sem açúcar entre 2,0 e 2,8 gr. por 100 cm.3. Para os dois
últimos componentes, os valores-limites inferiores tem antes sido tomados muito baixos que muito altos, porquanto para as
amostras que eram absolutamente ao abrigo de qualquer desconfiança de lotação por adição de água, há valores mais elevados, isto
é, para a acidez proximamente 0,58 gr. e para o extracto seco sem açúcar a partir de 2,3 gr. e além, por 100 cm.3.
O que até certo ponto é característico do vinho da Madeira, é a relação entre as espécies de açúcar, pois que geralmente a
quantidade de frutose é sensivelmente menor que a de glucose ou lhe é, quando muito, igual; normalmente, a frutose varia entre 44
e 50% do açúcar total (como açúcar intervertido). Excepcionalmente há também no vinho da Madeira um predomínio de frutose,
mas ainda neste caso não é as mais das vezes bem sensível (até pouco mais ou menos 52%).
Quanto se pode concluir das análises que nos foram, comunicadas, o conteúdo dos vinhos da Madeira em cinzas é pouco mais ou
menos 0,2 a 0,4 gr. em ácido fosfórico 0,25 a 0,005 gr. e em glicerina, 0,5 a 0,9 gr. em 100 cm.3.
III - APRECIAÇÃO
As decisões da lei vinícola alemã de 7 de abril de 1909 nada tem que objectar ao modo de preparação do vinho da Madeira, qual se
pratica no país de origem, enquanto, pelo menos, o açúcar de cana não foi empregado como meio de adoçamento.
Segundo a lei vinícola alemã, vinhos da Madeira em que se pode demonstrar a presença de açúcar de cana não podem ser
importados, e não podem tão pouco circular no império a não ser que se prove (como temos explicado mais acima, esta prova
parece hoje muito duvidosa ou difícil) que os produtos receberam sua adição de açúcar antes da publicação da lei vitícola alemã e de
entrar em vigor a proibição portuguesa do adoçamento de 1908. Em todo o caso, é mister condenar os vinhos da Madeira em que se
pode reconhecer uma lotação, como sucede ainda mui frequentemente.
Segundo as decisões do tratado comercial e marítimo entre a Alemanha e Portugal, assim como pelas prescrições da lei vinícola
alemã, as designações Madeira, Vinho da Madeira e outras composições de palavras semelhantes são, para a circulação no interior
do império alemão, reservadas aos vinhos verdadeiros e generosos da região do Funchal, que não foram lotados com outros vinhos.
Vinhos de dessert vindos da Madeira, com uma quantidade de álcool inferior a 17% em volume (ou inferior a, pouco mais ou menos
13,5 gr. por 100 cm.3, não podem ser considerados como vinhos da Madeira correspondentes ás prescrições legaes portuguesas e
que possam ser exportados para a Alemanha, não devendo por consequência ser admitindo á circulação no interior com a
designação de «Vinho da Madeira»)
IMITAÇÕES DOS VINHOS DA MADEIRA
São os vinhos de dessert espanhoes e muitas vezes também os gregos que entram especialmente no comercio como imitações dos
vinhos da Madeira.
As imitações espanholas e gregas do vinho Madeira diferem muitas vezes e de tal modo, por sua composição, da composição
química dos verdadeiros vinhos da Madeira, que é sempre possível reconhecer pela analise química a substituição destes produtos
aos vinhos verdadeiros».
Como se sabe, é a Junta Nacional do Vinho um importante organismo nacional destinado a orientar e a proteger a viticultura e a
vinicultura nas diversas regiões do país, sendo já muito assinalados os serviços que tem prestado e há-de continuar a prestar á
cultura da vinha e ao comércio dos seus ricos produtos. Foi pelo decreto de 18 de Junho de 1940 que estendeu a sua acção ao
arquipélago madeirense, a qual se tem tornado geralmente benéfica e de apreciáveis resultados, apesar das dificuldades que sempre
surgem ao iniciar-se um novo meio de protecção á agricultura. Os relatórios da Junta Nacional do Vinho respeitantes aos anos de
1940 e 1941 contêm muitos dados e informações que particularmente interessam á Madeira, não permitindo a sua relativa extensão
que os possamos transcrever neste lugar.
Está ainda infelizmente por elaborar uma completa monografia sobre os Vinhos da Madeira, em que se faça a sua historia, desde os
meados do século XV até a época que vai decorrendo, nos variados e interessantes aspectos que ela nos oferece.
Deveria para isso proceder-se a um largo trabalho descritivo e de pormenorizada coordenação, que além de abranger as diversas
fases da indústria e dos processos de vinificação, fornecesse também informações seguras acerca da escolha apropriada do solo e do
plantio dos bacelos, tratamento eficaz das videiras, fabrico e conservação dos mostos, preparação dos produtos destinados ao
embarque, o seu comércio interno e no estrangeiro, a análise rigorosa dos chamados vinhos generosos e a cuidadosa conservação da
celebrada fama de que universalmente gozam, constituindo outros tantos objectos de investigação e de estudo, para o que seria
indispensável aproveitarem-se os valiosos elementos que se encontram dispersos em diversas publicações.
De algumas delas daremos rápida noticia:
Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto Santo
, por João Andrade Corvo, de que apenas foi publicada a Memória I, em 1855,
com o subtítulo «A Mangra ou Doenças das Vinhas nas Ilhas da Madeira e Porto Santo», e que é considerado um trabalho muito
importante, contendo as mais interessantes e proveitosas informações; Saudades da Terra, edição de 1873, no texto e nas eruditas
notas;
Os Vinhos da Madeira e o seu descrédito pelas estufas
, pelo conde de Canavial, 1889;
Os Três Sistemas de Tratamento dos Vinhos da Madeira
, pelo mesmo, 1900;
Noticia sobre o Vinho Canavial
, pelo mesmo, 1882;
Acção Bactericida do Vinho Madeira
pelo Dr. Vicente Henriques de Gouveia, 1930;
Sur les vins de Madère
pelo Dr. Ferreira da Silva, 1896;
La vinification des vins de Madere et leur composition
, 1911, pelo mesmo, estudos publicados nos «Annales de falsifications» de
páginas 4 a 59;
Préparation, composition et appréciation du vin de Madère et de ses substituts
, por A. Kickton e R. Murdfield, 1914, de 57 páginas,
que é o notável estudo traduzido pelo Dr. Nuno S. Teixeira e publicado no «Diário de Noticias» e ao qual acima se faz referência;
Vinhos da Madeira, por Nuno Simões, 1935, separata do «Arquivo Financeiro e Segurador»;
O Vinho da Madeira – Como se prepara um nectar
, por J. Reis Gomes, 1937;
Informação Vinícola,
que contém valiosos artigos do regente agrícola José Torres Tavares; extenso Relatório do inspector dos
serviços anti-filoxéricos Almeida e Brito, referente ao ano de 1883;
Relatorios
da «Junta Nacional do Vinho» referente aos anos de 1940 e 1941;
O Arquipélago da Madeira na Legislação Portuguesa
, 1941, pelo Padre Fernando Augusto da Silva, em que se encontram
mencionados vários decretos respeitantes ao fabrico e comercio dos vinhos deste arquipélago;
Elucidário Madeirense
, em vários
lugares e em especial os mencionados nos artigos «Vinhas» e «Vinhos» e A Imprensa, As Colectividades do Distrito e o Projecção
da Regulamentação da Produção, Fiscalização e Comercio dos Vinhos da Madeira, 1916.
Não deixa de ter originalidade e de oferecer interesse ao estudo do «Folclore» madeirense o artigo publicado no jornal a
Informação Vinicola
, de 20 de Setembro de 1943, devido á pena do distinto regente agrícola José da Cruz Tavares e intitulado
Folclore do Vinho e da Vinha na Ilha da Madeira,
que vamos deixar arquivado nestas páginas, e que certamente despertará
curiosidade e interesse a alguns dos leitores desta obra.
«A Madeira é região rica de folclore da vinha e do vinho, mais talvez do que qualquer outra de Portugal continental.
O povo canta a uva e o vinho provenientes das várias castas que se cultivam, mas distingue as que lhe dão o vinho de pasto de que
mais gosta. A este chamam «vinho seco» por não levar qualquer tratamento, e para o diferençarem do «vinho tratado» ou «vinho
doce» – o generoso.
O madeirense das classes inferiores bebe-lhe bem, ás vezes em demasia, com prejuízo da própria saúde e da economia caseira. Nas
festas e nas romarias de que a região é fértil, acompanhando de rajões, machetes e braguinhass vai cantando. Mas para isso faz-se
valer desta maneira, sobretudo quando tem boa voz:
Quem me quiser ver cantar
Dê-me vinho ou dinheiro;
Que esta minha gargantinha
Não é fole de ferreiro.
Venha vinho, venha vinho!
Venha mais meio galão!
Quem quiser beber mais vinho
Ponha a boca ao garrafão.
Mas a pouco e pouco vai-se tornando exigente:
Venha vinho, venha vinho!
Venha taubém bacalhau!
Venha pão com peixe espada
– Tudo junto não é mau.
E a coisa vai aquecendo, com «charambas» e «bailinhos», entre ditos e olhares significativos ás raparigas. Os copos viram-se uns
atrás dos outros, até que pode chegar ao paroxismo raivoso deste que cantou:
Rapazes: quando eu morrer
Enterrai-me ao pé do vinho!
A pipa p'ra cabeceira
A torneira no focinho.
A contrastar com a materialidade bárbara desta quadra admire-se o lirismo desta outra, em que o poeta, perdido de amores, dá á
sua amada ainda o nome de dois vidonhos vulgarmente cultivados, entre outras coisas bonitas que lhe diz:
Ó menina dos meus olhos
Minha «tinta» meu «listrão»,
Cadeado do meu peito,
Chave do meu coração.
Aprecia-se muito na Madeira o vinho dos produtores directos Jacquez, Isabela ou americano, Herbemont e Cunnningham. Mas o
americano ou «vinho de cheiro» é sempre o preferido:
O vinho americano
Sempre foi mais afamado;
Por ser a uva mais grada
Deita as outras para o lado
Chega mnesmo ao exagero de lhe atribuir certos predicados medicinais:
Se quereis ou não quereis
Dai-me agora o desengano.
Podeis beber á vontade
Que este é vinho americano.
O vinho americano
É um vinho afamado.
Quem não bebe deste vinho
Anda sempre adoentado.
Esta boa desculpa e razão para beber um pouco, podia muito bem ter sido dada à sua bela por aquele que se veio carpir ou troçar
deste feitio:
Meu amor não quer que eu beba
Nem vinho nem aguardente;
Que eu sou criança nova
Posso morrer de repente.
Claro está que o povo não pode nem sabe pronunciar os nomes arrevesados das outras castas de produção directa, e então traduziu-
os o melhor que soube para as suas cantigas:
Eu gosto duma pitada
Porque me cheira a rapé
Vamos tomar êste copo
Da parreira de «jaqué».
Vê-se bem de que era o tal copo de «jaqué» com que o poeta se regalou, comparando-o ás delícias duma pitada. Mais dificilmente se
descortinará, porém, de que seria feita a preciosidade que outro troveiro cantou, privando-se da retribuição centuplicada que Deus
lhe mandaria:
A quem tem bom coração
Deus dá cem a quem dá um.
Deste não dou a ninguém
Que é do meu vinho de «armum».
Pois «armum» ou «armon» e «armurio» no Porto Santo, é nem mais nem menos que o Herbemont.
Todavia, nem todos se contentam com zurrapas mal preparadas e de má raça. Ainda há quem tenha bom gosto e saiba apreciar o
que há-de ser sempre bom em todos os tempos:
Eu gosto muito de vinho.
Mas que seja vinho velho.
Eu vou dizer aos senhores
Que isto é vinho de «verdelho».
E tinha razão o cantor! Porque o verdelho dá um dos melhores e mais perfumados vinhos generosos, quando bem tratado e
encanecido pelos anos.
Se há muito quem goste de vinho outros lhe preferem as uvas, embora nem todos estejam habilitados a compreender logo as
saudades desta poetisa:
Eu vou ficando já velha
Já estou muito acabadinha.
Já não me lembro do gosto
Que tem a uva «caninha».
Esta «caninha», bem como o seu sinónimo «canim», é a tradução para vernáculo do produtor directo Cunningham, muito embora
ninguém o diga.
Usa-se muito na Madeira fazer água-pé dos bagaços, a qual consomem ou deixam transformar em vinagre. Á falta de melhor, o
«vilão», o camponês, vai-se contentando com ela:
Ó parreira dá-me um cacho
Ó cacho dá-me um Baguinho!
Quero fazer água-pé
Já que meu pai não tem vinho.
Contenta-se é como quem diz... Porque há espertalhões que tem sempre o recurso fácil e o expediente á mão, como aquele que uma
voz soltou esta:
Este ano não tenho vinho,
Só vou fazer água-pe.
Mas eu digo aos senhores
Que o meu sogro tem jaqué.
Pior mal vai aos que não tem nada mas que a alguma coisa estavam habituados. Veja-se a singeleza tétrica com que se curtem
saudades da boa planta produtora do liquido precioso que traz a gente alegre e dá também a rica sombra em frente das portas:
Tenho em casa um barril
Sem vinho nem água-pé;
Porque secou a parreira
Que eu tinha de jaqué.
A vindima ou «apanha» principia em Agosto nos sítios mais abrigados e bem expostos:
Dos meses que o ano tem
Eu gosto muito de Agosto,
Quando se apanham as uvas
E depois se faz o mosto.
Fazem-na os homens, as mulheres, as crianças, os da casa, os vizinhos, os amigos e os convidados, e enquanto dura há um pouco de
festa, de alegria, com Cupido á solta:
O mundo ralha de tudo
Tenha ou não tenha razão.
Pois no dia da vindima
Também quero o meu quinhão.
Adeus figos, adeus uvas,
Adeus frutinha do verão;
Adeus meu amor adeus.
Até outra ocasião.
As vindimas do Porto Santo parece atraírem também muito os madeirenses pelas belíssimas uvas que lá se produzem e pelo
ambiente pacífico e salubre que se respira:
Vou ficando muito velha,
Sempre sentada a um canto.
Mas 'inda gostava d'ir
Á vindima ao Porto Santo.
O Porto Santo tem festas rijas e um afamado vinho branco de pasto quase exclusivamente de Listrão, o qual entusiasmou certo
cantador amante de folias e romarias:
Este ano vou ao Monte
Para o ano ao Porto Santo,
Se gosto de vinho tinto
Gosto mais de vinho branco.
As uvas, depois de vindimadas, vão em cestos para os lagares onde as espera o tormento da pisa e da «repisa». A pisa é o simples
esmagamento a pés; mas a repisa é operação violentíssima a que submetem os bagaços depois de prensados, a fim de lhe tirarem
mais algum mosto quando não querem fazer água-pé. Enquanto dura cantam uma cantiga própria e típica, a «canção da repisa»,
ritmada com o movimento de saltar a pés juntos, com força e gana, sobre os bagaços estendidos. É operação demorada que é
preciso ser bem executada para ser económica:
Já que estamos na repisa
Vamos fazê-la bem feita;
A contento do patrão
E a patroa satisfeita.
Ainda não acabam aqui as quadras populares dedicadas na Madeira á vinha, á uva e ao vinho».
Vinte e Cinco Fontes
É um aprazível lugar, visitado por todos os que se encontram na encantadora estância do Rabaçal (V. este
nome) e em que da rocha viva e aprumada brotam inúmeras nascentes, que se despenham duma considerável altura. Fica a cerca de
3 quilómetros de distância das casas do Rabaçal.
Viola de Arame
Instrumento músico com cordas de arame, que só é tocado pelos camponeses. A sua afinação, segundo nos
informa o Sr. capitão Eduardo A. dos Santos Pereira, um distinto músico amador, é a seguinte: mi (bordão), lá, ré, sol, si, mi
(prima).
A viola de arame é instrumento apreciado pelos camponeses e companheiro destes nas suas jornadas, mas os sons que ele produz
são pouco agradáveis ao ouvido do homem educado.
Violeta (Viola adorata var. maderensis)
) Planta vivaz da família das Violaceas, comum nas ravinas do interior da Madeira. As suas
flores, de cheiro suave, são emolientes e diaforeticas. Existe na ilha uma violeta de flores inodoras, cujo nome botânico éViola
silvaticavar. Riviniana .
Vira-Pedras
Recebe esta denominação aStrepsiles interpres , ave de arribação regular, mas que costuma demorar-se poucos dias
no arquipélago.
Virtudes
Sítio povoado da freguesia de São Martinho, que tomou o nome da capela de Nossa Senhora das Virtudes ali existente,
mandada edificar em 1661 por Francisco de Vasconcelos Bettencourt, tendo sido reconstruída por meados do século XIX. No
mesmo sítio se encontra a capela de Santana, cujo fundador e ano de construção ignoramos.
Visco (Tolpis succulenta)
Subarbusto de 2 a 8 decímetros. com folhas muito poliformas (dentadas, mais ou menos recortadas ou
lineares e inteiras) e capítulos medíocres, com as flores amarelas. Pertence á família das Compostas, sub-familia das Ligulifloras. O
suco leitoso que sai das raízes do visco, tem no estado sólido a elasticidade e a aparência da borracha, e pode substituir esta
substancia para apagar no papel os caracteres escritos a lápis. É esta a única aplicação do visco madeirense, nem outra se lhe pode
dar, visto ser bastante diminuta a quantidade de suco produzida por cada planta. O visco é espécie muito frequente na Madeira, e
também foi achada no Pico de Ana Ferreira, no Porto Santo.
Visconde do Ribeiro Rea
l (Largo do ). Fica junto da rua da Carreira ou do Dr. Vieira, no ponto onde desemboca a rua Pimenta
de Aguiar. O paço episcopal tem a sua entrada principal neste largo, ocupando este o espaço onde existiu o antigo cemitério
britanico, demolido em 1888.
V. Ribeiro Real (Conde do).
Visita dos Reis de Portugal
A 22 de Junho de 1901, os cruzadores D. Carlos e S. Gabriel e o iate real D. Amélia, ancoraram no
porto do Funchal, conduzindo o primeiro a seu bordo o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia. Acompanhavam os monarcas o ministro
do reino e presidente do conselho Hintze Ribeiro, o ministro da marinha Teixeira de Sousa, os condes de Arnoso, Tarouca e Ribeira
Grande, o marquês do Faial, o vice-almirante Brito Capelo, o Dr. Oliveira Feijão e a dama da rainha D. Maria Francisca de Meneses.
Efectuado o desembarque dos soberanos portugueses no cais da entrada da cidade, pelas duas horas da tarde, logo se organizou um
imponente cortejo que se dirigiu á Sé Catedral, onde foi celebrado um solene Te-Deum, tomando seguidamente o mesmo cortejo a
direcção do palácio de S. Lourenço, transformado em paço real, onde se realizou a recepção de gala que os monarcas deram ao
corpo consular, autoridades, titulares e várias entidades oficiais.
Durante a estada dos reis de Portugal nesta ilha, houve uma série ininterrupta de festas e entusiásticas manifestações em honra dos
monarcas, de que só poderemos fazer rápida menção. Merecem referência especial a récita de gala no Teatro, tão brilhantemente
descrita pelo conde de Arnoso, a sessão solene nos Paços do Concelho, as brilhantes festas oferecidas por Luís da Rocha Machado,
visconde de Cacongo e João Blandy, nas suas quintas do Monte, Choupana e Palheiro do Ferreiro, o jantar de gala em S. Lourenço,
a missa campal na praça Académica, o baile na quinta Vigia, a exposição industrial e agrícola, etc..
Os monarcas visitaram os quartéis, vários estabelecimentos de caridade e alguns edifícios públicos.
As ornamentações do cais, entrada da cidade, praça da Constituição e de várias ruas e edifícios revestiram um brilho desusado, e as
iluminações foram profusas e obedeceram ao mais fino gosto, sendo um dos números do programa dos festejos que mais interesse e
admiração despertaram entre os nossos visitantes.
A imponência da recepção aos monarcas portugueses, a que entusiasticamente se associaram todas as classes sociais, deve-se
especialmente ao governador civil José Ribeiro da Cunha e ao presidente da Câmara Municipal o Dr. Manuel José Vieira.
0 cruzador D. Carlos parou na baía do Porto Santo, antes de chegar á Madeira, afim de receber a seu bordo a câmara municipal e
autoridades daquela ilha, que foram apresentar os seus cumprimentos aos monarcas.
Os reis de Portugal embarcaram no dia 25 de Junho, pelas 6 horas da tarde, e seguiram para as ilhas dos Açores, onde chegaram na
manhã do dia 28.
Quem quiser ter uma noticia mais circunstanciada de todos os festejos, dos discursos proferidos e de vários documentos oficiais
respeitantes á visita régia, leia o interessante livro de Ciriaco de Brito Nobrega, intitulado a visita de suas majestades os reis de
Portugal ao arquipélago madeirense, onde se faz a descrição completa de tudo quanto na Madeira se realizou para festejar e
solenizar a estada dos monarcas portugueses neste arquipélago.
Visitação (Fr. António da)
Nasceu na Madeira no ano de 1546 e faleceu a 13 de Outubro de 1606. Tomou em 1568 o habito dos
carmelitas e exerceu cargos muito importantes na sua ordem. Conhecia profundamente a língua latina e foi pregador afamado no
seu tempo. Diz Barbosa Machado que deixou vários Poemas e Orações, que ficaram inéditos.
Vitória
Sítio povoado da freguesia de São Martinho, em que se encontra uma capela da invocação de Nossa Senhora da Vitoria,
construída em 1594 por Francisco de Betencourt nas terras do morgadio que ali tinha instituído. Fica na margem esquerda dos
Socorridos.
Vitória (Fr. João Pinto da)
Nasceu nesta ilha no terceiro quartel do século XVI e faleceu em Valência, cidade de Espanha, no ano
de 1631. Entrou na ordem dos carmelitas e passou á Espanha a completar os seus estudos, permanecendo ali até a morte. Exerceu
os mais elevados cargos na sua ordem, como os «de provincial de Aragão e visitador da província de Andaluzia». Foi escritor
apreciado no seu tempo, fazendo Barbosa Machado menção das obras
Vida del Fr. Juan Sanz,
Valência, 1612, e
Gerarchia
Carmelitana
, Valência, 1616, ambas escritas em língua espanhola.
Viveiros e Jardins de Aclimação
Tendo o governador e capitão-general da Madeira, D. Diogo Forjaz Coutinho, proposto ao
botânico Vandelli a criação de grandes viveiros de plantas na ilha, destinados ao abastecimento não só do horto botânico da Ajuda,
mas também, se preciso fosse, dos jardins e estufas de toda a Europa, não tardou em baixar das estações centrais ao Governo Civil
do Funchal a necessária autorização para tal projecto ser levado á pratica. A 6 de Maio de 1799, sendo já falecido o referido
governador, ordenou o governo provisório que o bacharel José Maria de Afonseca escolhesse local adequado a servir de viveiro de
plantas, e em 9 d'Agosto seguinte dizia o mesmo governo num documento oficial, que os terrenos destinados á produção das
especies setentrionais estavam situados na Lombada, na freguesia do Monte, e que as especies meridionais seriam cultivadas nos
sítios que parecessem mais adequados, enquanto se lhes não destinasse terreno próprio. Da direcção do viveiro das espécies
setentrionais foi encarregado o mesmo Afonseca, podendo em caso de impedimento ser substituído por José Joaquim de
Vasconcelos a cargo de quem ficaria a direcção do viveiro de essências meridionais, quando este viesse a ser estabelecido.
Até 10 de Agosto de 1823, distribuiu o viveiro do Monte para cima de 20:000 árvores por diversos pontos da Madeira e do Porto
Santo, segundo se lê num relatório acerca dos trabalhos realizados em beneficio da economia rural do arquipélago, apresentado ás
estações competentes por José Maria de Afonseca.
O viveiro do Monte foi extinto em 1828 pelo governo de D. Miguel, sem que ninguém depois disso pensasse em restabelecê-lo. 0
decreto de 4 de Janeiro de 1837 mandou aplicar a cerca do extinto convento de S. Francisco a viveiro de plantas, mas, segundo
parece, nada de útil se fêz aí no sentido de renovar um empreendimento que tão bons resultados dera já entre nós.
O terreno onde estava o viveiro do Monte é conhecido ainda hoje pela denominação de «Quinta do Jardim Botânico». Quanto ao
viveiro de essências meridionais, não nos consta que chegasse a ser criado.
0 que vai ler-se, escrito há alguns anos por uns dos co-autores deste Elucidário, fornece novas informações ao artigo «Jardim de
Aclimação» inserto a páginas 178 do volume II.
«No sítio da Lombada da freguesia do Monte, existe uma quinta a que chamam do Jardim Botânico, mas se entrarmos nessa quinta
e analisarmos atentamente as espécies que a revestem, nada encontramos que possa de qualquer modo justificar a designação
porque ela é conhecida. Não há ali nem uma vegetação variada, nem espécies raras podendo dizer-se mesmo que a quinta do
Jardim Botânico, apesar do seu nome, é uma das propriedades da referida freguesia que menos interesse oferecem aos amadores de
estudos floristicos.
No entretanto tal nome não é inteiramente impróprio, e se compulsarmos antigos documentos agora desconhecidos da grande
maioria dos funchalenses, fácil é reconhecer que no sítio onde só vegetam agora espécies vulgares, esteve estabelecido outrora um
excelente viveiro, que chegou a fornecer grande numero de árvores para diversos pontos da ilha.
A história do viveiro ou Jardim Botânico do Monte, conta-se em poucas palavras.
Tendo chegado ao conhecimento do governo português que das explorações botânicas de Banks e Solander em 1768 e das de
Francisco Masson em 1776 e 1777, havia resultado descobrirem-se na Madeira muitas espécies valiosas, provocou este facto um
aviso do mesmo governo ao governador e capitão-general D. Diogo Forjaz Coutinho, para este fazer colher e enviar ao jardim
botânico da Ajuda, então a cargo de Domingos Vandelli, não só todas as plantas recentemente descobertas, mas ainda todas aquelas
a que se atribuísse algum valor económico ou therapeutico.
0 pedido foi satisfeito por intermédio dos inspectores gerais da agricultura, e tendo o governador por essa ocasião proposto a
Vandelli a criação de grandes viveiros na ilha, destinados ao abastecimento não só do horto botânico da Ajuda, mas também, se
preciso fosse, dos jardins e estufas de toda a Europa, não tardou em baixar das estações centrais ao governo civil do Funchal a
autorização precisa para tal ideia pode ser convertida em facto.
Em 6 de Maio de 1799, sendo já falecido D. Diogo Forjaz Coutinho, ordenou o governo provisório que succedera a este governador,
que o bacharel José Maria d'Affonseca escolhesse local adequado a servir de viveiro de plantas, e em 9 d'agosto seguinte dizia o
mesmo governo em outro documento, que os terrenos destinados á producção das espécies septentrionaes estavam situados na
Terra da Lombada, na freguezia do Monte, e que as espécies meridionaes seriam cultivadas nos sítios que parecessem mais
adequados, enquanto se lhes não destinasse terreno próprio. Da direcção do viveiro das espécies setentrionais foi encarregado o
mesmo José Maria d'Affonseca, podendo, em caso do impedimento, ser substituído por José Joaquim de Vasconcellos, a cargo de
quem ficaria a direcção do viveiro de essencias meridionaes, o qual, segundo cremos, nunca chegou a ser estabelecido.
Como se vê, já em Agosto de 1799 estava criado o viveiro do Monte, estabelecimento de uma utilidade incontestável e que preparava
a ilha para receber as riquezas vegetais de diversas partes do mundo. Até 10 d'agosto de 1823 distribuiu aquele viveiro para cima de
20.000 árvores por diversos pontos da Madeira e do Porto Santo, segundo se lê num relatório acerca dos trabalhos realizados em
beneficio da economia rural do arquipélago, apresentado ás estações competentes pelo referido José Maria d'Affonseca.
0 viveiro do Monte foi extinto pelo governo de D. Miguel em 1828, sem que ninguém depois disso procurasse restabelece-lo. 0
decreto de 4 de Janeiro de 1837 mandou aplicar a cerca do extinto convento de S. Francisco a viveiro de plantas, mas, segundo
parece, nada também se fez ahi no sentido de renovar um empreendimento que tão bons resultados dera já entre nós.
Sobre jardins d'aclimação ha apenas a assinalar a proposta que em 23 d'agosto de 1852 fez o Dr. Frederico Welwitsch, sábio
botânico austríaco, ao governo portuguez, para a creação de dois desses estabelecimentos, um em S. Paulo de Loanda e o outro no
Funchal. 0 jardim que houvesse de ser criado no Funchal formaria, segundo o referido botânico, um jardim subtropical, e receberia
tanto os vegetais tropicais como os dos países frios, aclimando-os e naturalizando-os se possível fosse, para depois serem
transportados sem prejuízo para outros climas.
A ideia do Dr. Welwitsch, apesar de ter merecido a aprovação do Conselho Ultramarino, não chegou a ser levada à prática, como é
bem sabido; restam-nos, porém, dezenas de ofícios registados nos livros de diversas repartições públicas, por onde se vê, que já no
meado do século XIX as nossas entidades oficiais não faziam economia de papel nem de tinta, quando eram chamadas a emitir
parecer sobre assuntos de que não percebiam coisa alguma.
Se nos fins do século XVIII as coisas levassem o mesmo caminho, não teria sido estabelecido o viveiro ou jardim botânico do
Monte, do qual saíram milhares de plantas que foram repovoar variadíssimos pontos da ilha, (1921).
Vid. Junta Agrícola, Passada da Novilha, Smith e Weltwisch
Vizetelly (Henry)
E:Facts about Porto and Madeira ...:London, 1880, I vol.
Voador (Exocoetus exiliens)
Peixe teleosteo da família Escombresocida. O nome de avoador, ou melhor de voador, por que é
conhecido, vem dos voos que dá, servindo-se das barbatanas peitorais, para escapar aos seus inimigos aquáticos
V.atum.
Voluntários Reais de D. Pedro
Houve no Funchal um batalhão assim denominado, nos tempos do governador José Lúcio
Travassos Valdez, mais tarde conde de Bonfim, o qual se compunha de 400 praças de infantaria, cujo alistamento principiou no dia
26 de Junho de 1828. Anexo ao batalhão, existiu uma companhia de cavalaria, que devia possuir 64 praças, mas que só chegou a ter
metade desta força sofrivelmente montada.
Os voluntários reais de D. Pedro dispersaram com o desembarque das tropas miguelistas na Madeira.
Voluntários Realistas
O corpo de Voluntários Realistas Urbanos da Madeira foi instituído em 1828 pelo capitão-general José
Maria Monteiro, mas segundo se vê dum ofício dirigido por D. Álvaro da Costa de Macedo ao conde de Basto em 9 de Setembro de
1831, esse corpo, que devia ter 4 companhias, só chegou a ter uma, para a qual o mesmo D. Álvaro reclamou os privilégios e regalias
concedidos aos Voluntários do Reino pelo decreto de 26 de Setembro de 1828.
Segundo o plano do capitão-general Monteiro, o corpo devia ter um major-comandante, havendo em cada companhia 1 tenente, 1
alferes, 10 sargentos, 1 furriel, 2 cabos, 2 anspeçadas e 52 soldados.
Voto a S. Tiago
– No artigo
Padroeiros
(III-36), já nos ocupámos com alguma largueza do apóstolo S. Tiago escolhido para
Padroeiro da Diocese do Funchal no primeiro quartel do século XVI e dos «votos» que solenemente lhe foram feitos nessa ocasião,
destacando-se a construção duma igreja dedicada ao seu culto e á celebração dos diversos actos religiosos.
Os trechos dos Autos, que nesse artigo ficaram transcritos, foram extraídos das «Notas» das Saudades da Terra, informando-nos o
seu ilustre comentador que os trasladara de uma antiga e desconhecida «Miscelanea» A Câmara Municipal do Funchal prestou um
apreciável serviço fazendo publicar em opúsculo a copia integral e fac-similada desses importantes documentos, conforme os
originais que se acham exarados em um dos livros pertencentes ao antigo arquivo da mesma Câmara. Tem o folheto o título de
«Auto do Milagre do bem-aventurado Apostolo São Tiago Auto do Voto feito pela mesma Cidade do Funchal, ao mesmo Apostolo–
1521-1538, extracto do Tomo I.° do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal, depositado no Arquivo Distrital do Funchal. É
precedido de uma interessante «Introdução» e está encerrado com estas palavras: «Artigo de introdução, leitura e conversão para
moderna linguagem pelo conservador, servindo de Director do Arquivo Distrital, Alvaro Rogério Manso de Sousa».
Em virtude da verdadeira autenticidade que oferece essa publicação e das divergências que se encontram entre ela e a transcrição
feita nas Saudades da Terra, resolvemos reproduzir integralmente o texto desses documentos, que têm a mais íntima relação com o
assunto deste artigo.
«Auto do Milagre- Em o ano do nascimento de Nosso Salvador Jesus Cristo de mil e quinhentos e vinte e um anos, aos dezassete
dias do mes de Março, Domingo de Lázaro, nesta cidade do Funchal, estando nela o Doutor Pero Vaz por Corregedor por El-Rei
Nosso Senhor nesta jurisdição do Funchal se acharam muitos doentes de peste e havia já dias que morriam da dita enfermidade,
sem ser descoberta, e apartaram por guardas e regimento da terra todos os impedidos, e os tiraram da cidade, e sem embargo do
dito apartamento a enfermidade foi em crescimento em tanta maneira que se saíram dela o Capitão e Corregedor e oficiais e o mais
do povo dela, e no mês de Janeiro do ano de mil quinhentos e vinte e três, crescendo muito o mal, vieram se ajuntar em câmara o
Capitão Simão Gonçalves e os Juízes e Vereadores e o povo que na cidade havia, e se foram ao coro da Sé da dita cidade, onde foram
juntos com o Deão e Cabido da dita Sé, e todos em louvor de Deus, lançaram sortes sobre os doze apóstolos para que deles algum
saísse por padroeiro e advogado desta cidade, e logo, no dito coro, estando todos juntos saiu por sortes o Bem-aventurado São
Tiago, o qual aceitaram por seu defensor e advogado, e todos juraram e prometeram que, por seu dia, lhe fariam uma procissão
solene, e lhe festejariam, e que dois vereadores seriam sempre mordomos da Igreja do dito apóstolo, que lhe logo foi edificada
novamente, e o procurador da cidade seria escrivão, e por esta ordenança ficassem para sempre. E do dito ano de vinte e um até
Janeiro de trinta e oito sempre houve Guardas-Mores, que tinham carrego dos impedimentos que na cidade havia e de os pôr em
degredo, e, neste meio tempo, havia andadores pela cidade, que cada dia corriam as ruas e sabiam dos doentes que na cidade havia
e o faziam saber aos Guarda-Mores. E nenhum mestre nem sangrador sangrava sem licença dos ditos guardas, e, sempre, neste
meio tempo, todos os anos, houve impedimentos na dita cidade, e sempre se usou de apartar os impedidos e de lhes dar degredo
fora da cidade, e, para isso, se fizeram umas casas aos ilhéus, onde se lavavam os doentes. E, com todas estas diligências nunca
cessou a peste, e no ano de quinhentos e trinta e oito, no segundo dia de Janeiro, tremeu a terra mui grandemente e de ali até o mês
de Maio adoeceram e morreram muitos do dito mal e foi o rebate tão grande que nenhum ano foi maior. E sempre neste tempo
houve os ditos Guarda-mores e homens apartados para enterrar os mortos que do dito mal morriam, os quais enterravam, de noite,
pelos adros, parecendo aos que governavam a terra que pelo mal ser contagioso acertavam em apartarem os doentes dos sãos. E,
com todos os apartamentos, o mal foi sempre em crescimento, o qual visto pelos vereadores do dito ano de quinhentos trinta e oito
determinaram que, de aí avante, os que adoecessem se curassem em suas casas, fossem enterrados de dia, dentro das Igrejas, com
aquela pompa que se requeria. E, assim, como se começou de alargar isto, começou o mal a deminuir, e em o dia do Bem-
aventurado Apóstolo, querendo-se mover a procissão, supitamente foram tocados, não sem permissão divina, os corações dos que
tinham carrego da guarda da cidade, que eram o Licenciado Gaspar da Nóbrega, que servia de loco-tenente do Capitão, e os Juízes
João Lourenço Leitão e Diogo Paes, e Vereadores Manuel Afonso Ferreira Dromondo e Simão Darja e Heitor Homem de Sousa, e
procurador do Concelho Manuel Carvalho, e todos a uma voz acordaram que daquele dia em diante, na cidade não houvesse mais
guardas e que os que adoecessem desse mal fossem curados como são os das outras enfermidades, e que fossem visitados de quem
quisessem pois em tanto tempo tão pouco tinham aproveitado tantas diligências, e às vezes mui rigorosas, que bem puderam ter
remediado, se o remédio houvera de ser humano. Mas como seja verdade aquele dito do Bem-aventurado São Tiago, que toda a boa
dádiva e dom perfeito sempre vem do Céu do Padre das Claridades, – neste, outrossim, nos vem de lá, porque todos os sobreditos
juntamente conheceram e confessaram a verdade, que sua guarda e rigor não consentia a saúde da cidade, mas nas mãos do Senhor
Deus a quem se encomendavam e dele esperavam a saúde da cidade. E que daquele dia em diante entregavam a guarda ao Bem-
aventurado Apóstolo São Tiago, Padroeiro e Advogado da dita cidade, para ele ser guarda dela e alcançar do Nosso Senhor a saúde
para ela e para o seu povo.
E logo moveram com a dita procissão para a Igreja do Bem-aventurado Apóstolo, com toda a solenidade, onde, tanto que chegaram,
logo pelos Vereadores foram entregues e postas sobre o altar as varas dos Guardas-Mores, e aí ficaram e estão em memória. E o
Padre Licenciado Frei Vicente, pregador da cidade, logo na pregação denunciou publicamente a todo o povo a determinação dos
regedores,louvando-a muito e a confiança que puseram em as mãos do Senhor Deus, o que muito contentou a todo o povo, e deram
muitos louvores ao Senhor Deus pela tal determinação, a qual não era em sua permissão, e todos de uma vontade e coração tiveram
logo o mal ser miraculosamente alevantado pelo Senhor Deus, e a saúde da terra nos ser enviada. E logo pelos ditos regedores foi
mandado que todos os que estavam pelos degredos que pudessem entrar na cidade e em suas casas, e nelas estar e andar por onde
quisessem, ao qual foi logo satisfeito no dia dia. E todos os que estavam pelos degredos, muitos com as chagas abertas e outros com
os inchaços por abrir, se meteram na cidade e se misturaram com todos, e daquele dia em diante foi miraculosamente alevantado o
mal, e foi a cidade sã, e nunca mais houve impedimento algum.
E não tão somente alevantou o Senhor Deus o mal da terra mas, também, o alevantou do coração e boca dos homens, pelo qual lhe
damos muitas graças e louvores.
E por que tão grande milagre e mercê do Senhor Deus recebida não ficasse esquecida, por sermos livres de uma praga não menor
que a do Faraó, os Vereadores do dito ano o fizeram escrever em este livro do Tombo, para ficar em memória para sempre e grande
encargo que somos a nosso Padroeiro e Advogado, por cuja intercessão alcançámos tão alto benefício e mercê do Senhor Deus, – os
quais assinaram aqui, com os juízes e procurador. E eu, Simão Lopes, Escrivão da Câmara, que o escrevi.
«Auto do Voto – Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e quinhentos e vinte / e três anos em Sábado vinte e
quatro dias do mês de Janeiro em a ilha da / Madeira em a Sé da cidade do Funchal em o coro da dita / Sé pareceram aí o Sr.
Capitão Simão Gonçalves da Câmara / e vereadores e oficiais da Câmara ci / dadãos e mesteres e outro muito povo e assim o Snr.
deão e cabido com toda a outra clerezia e logo / entre eles foi apresentado que aos onze dias do mês de Junho / do ano de
quinhentos e vinte e um sendo a dita cidade posta / em muita tempestade e tribulação de peste e fomes e outros / muitos trabalhos
se acordou em câmara pelos oficiais/ que então eram, scilicet: João Correia, vereador, Vicente Gonçalves e Pero da Luz / juízes, e o
bacharel João de Évora, procurador e mesteres de tomarem / um rol de santos, scilicet: o nome de Jesus Nosso Senhor, e a Virgem
/ Maria, Nossa Senhora, e São João Baptista e os doze apóstolos, cada / um por seu nome, de que fizeram quinze escritos em cada
um seu nome, e os lançaram em um barrete e por um / menino por nome João de idade de sete anos. pondo-se / todos
primeiramente em joelhos em oração prometendo de fazer uma / casa à honra daquele santo que por sorte saísse / e quis o Senhor
Deus que por sorte saiu o bem-aventurado / apóstolo São Tiago o Menor, à honra do qual, logo no dito dia se festejou pela cidade, e
aos vinte e um de Julho lhe começaram sua casa, indo a cidade e o dito cabido com procissão solene,/ descalços, e o mestre escola
Gonçalo Martins com o retábulo / da imagem do bem-aventurado apóstolo, e deu a / primeira enxadada no cunhal da capela, da
banda do Evangelho, a qual casa se edificou em uma terra que Antonio de Spinola deu para a dita casa. E por que à dita cidade
tornou algum tanto a picar da dita peste, acordando-se eles do sobredito, scilicet: ele Snr. Capitão e oficiais da Câmara e mesteres e
cidadãos e povo e deão e cabido / determinaram de logo fazerem acabar a dita casa / e de hoje por diante o tomaram por seu
protector / e defensor ante Nosso Senhor Jesus Cristo, para que / ele fosse intercessor ao eterno Deus pelos trabalhos deste povo
que a ele se encomendava, e o / votaram assim ele Snr. Capitão como os oficiais da Câmara e mesteres e ele Snr. deão e cabido,
scilicet: o dito Snr. Capitão em seu, nome e dos que dele descenderem, e os oficiais da Câmara em nome da dita Cidade, e o dito Snr.
deão e cabido em nome de toda a clerezia da dita Sé e cidade, de, para sempre, em cada um ano dos do mundo, eles louvarem e
festejarem a festa do dito glorioso Santo, que é / o primeiro de Maio, ao qual farão procissão solene, a qual sairá da Sé da dita
Cidade, solenemente, e irão a dita casa do dito bem-aventurado / santo, onde lhe farão vésperas solenes, e assim outro, tanto se fará
ao próprio dia, com missa solene e procissão, as quais procissões se farão como o próprio dia do Corpus Cristi. E os ditos Cidadãos
lhes / aprouve de mandarem pintar o dito santo / na Câmara e na bandeira e Selo da Cidade assim como se / traz São Vicente na
bandeira da Cidade de Lisboa, e os sobre / ditos votaram isto em as mãos do dito deão para / tudo cumprirem, por si e por seus
sucessores, e em testemunho / e fé de verdade dele o assinaram aqui. E eu / António de Almada, notário público, escrivão que ora /
sou da Câmara, em ausência de Afonso Anes, o escrevi / e assim lhes aprouve de tomarem por seus protectores os bem-aventurados
São Sebastião e São Roque, e lhe / fazerem a dita solenidade».
A página 280 deste volume do Elucidário lê-se uma breve notícia da igreja de S. Tiago, hoje paroquial de Santa Maria Maior, a que
queremos adicionar mais algumas informações.
Ia dar-se cumprimento à promessa feita e proceder-se à construção da capela dedicada ao Santo Padroeiro, mas devido talvez à
falta de recursos ou por ter arrefecido o primeiro entusiasmo manifestado por ocasião do «voto» solene, a verdade é que o novo
templo do Padroeiro foi concebido na mais modesta traça e edificado em bem acanhadas proporções, não passando duma pobre e
sertaneja ermida como outras que se encontravam espalhadas em diversos pontos desta ilha.
Essa lamentável falta ou errada compreensão das obrigações contraídas em 1521 e 1538 foram parcialmente reparadas no segundo
quartel do século XVII com a construção duma nova capela, e mais tarde satisfeitas inteiramente ao ser levantado o templo actual,
na segunda metade do século XVIII, como abaixo veremos.
Nos primeiros anos do segundo quartel do século XVII, resolveu o senado funchalense proceder à edificação duma nova capela, em
atenção à pequenez da antiga ermida e ao estado de já adiantada ruína em que ela se encontrava. Concluída a construção, fez a
câmara a 22 de Junho de 1632 a renovação dos antigos compromissos tomados pelas vereações transactas, e no dia 25 do mês de
Julho do mesmo ano o bispo diocesano D. Jerónimo Fernando lançou, com a maior solenidade, à nova capela, a bênção do ritual.
Despertaram-se o antigo fervor e a antiga veneração pelo Santo Padroeiro, revestindo grande imponência e desusado brilhantismo
as festividades então realizadas em sua honra, o que perdurou por largos anos.
Na vereação de 30 de Janeiro de 1754, toma o senado funchalense uma importante resolução, que hoje nos parece um pouco
estranha, por ignorarmos os motivos que a determinaram: a demolição da capela de São Tiago e a erecção duma igreja de mais
amplas proporções e mais condigna ao fim a que se destinava.
Recolhida à Sé Catedral a imagem do Santo Padroeiro e sendo demolida a velha capela, iniciou-se a construção do novo templo no
referido ano de 1754. Foram demorados os trabalhos da sua edificação, porque, embora se afirme algures que eles foram dados por
concluídos no ano de 1768, a verdade é que a trasladação da veneranda imagem da Sé Catedral para a nova igreja somente se
realizou em 1789, revestindo esse acto uma desusada solenidade e um brilhantismo fora do comum, devendo conjecturar-se que foi
aproximadamente por esse tempo que terminou aquela demorada construção.
Segundo se vê no «Arquivo Histórico da Madeira» (1-4 e ss.), encontram-se no arquivo da Câmara Municipal os livros
«Reedificação da Igreja de São Tiago» e «Inventários e Rendas da Igreja de São Tiago», que não tivemos ensejo de consultar,
devendo neles encontrar-se alguns elementos apreciáveis acerca da construção do novo templo e das ponderosas razões que
levariam o senado a tomar essa deliberação. É de presumir que se procedesse sem grande demora ao lançamento da respectiva
bênção canónica e fosse logo entregue ao serviço do culto.
Voto à Santíssima Virgem
A grande aluvião de 9 de Outubro de 1803, considerada a maior calamidade que tem assolado a
Madeira e da qual já demos uma noticia sumaria (I-54 e ss.), determinou o «voto», solene de colocar-se esta ilha e a cidade do
Funchal sob a especial protecção da Santíssima Virgem, como ficou referido no artigo
Padroeiros
(III- 36 e ss.). Cumpre
acrescentar que esse «voto» compreendia particularmente a cláusula de escolher a Nossa Senhora do Monte como especial
protectora da cidade do Funchal, o que foi confirmado por Rescrito Apostólico de Pio VII, de 21 de Julho de 1804, sendo então
instituída a festa do Patrocínio de Nossa Senhora do Monte, celebrada a 9 de Outubro de cada ano, com procissão solene que da
Catedral se dirigia á igreja paroquial de Santa Maria Maior. O nove de Outubro foi em outro tempo dia santo de preceito, precedido
de vigília própria com jejum.
Voyages
to the Madeira and Leward Caribbean Isles , by Maria R... (Riddell); Edinburgh, 1792, I volume.
Voz da Madeira (A)
Este jornal deu o primeiro numero em Julho de 1908.
Voz do Operário (A)
O primeiro numero deste jornal apareceu a 2 de Abril de 1899, e o ultimo numero, o n.º 88, a 8 de
Dezembro de 1900.
Voz do Povo (A)
Este semanário, de que foi redactor José Marciano da Silveira, deu o primeiro numero a 17 de Maio de 1860 e
acabou com o numero de 1344, a 15 de Outubro de 1877.
Em 1911, apareceu um outro jornal com o mesmo nome, que deu 59 números, o primeiro a 1 de Outubro e o ultimo a 10 de
Dezembro.
Voz Publica (A )
Este jornal publicou-se desde 20 de Janeiro a 6 de Setembro de 1896, tendo dado trinta e seis números.
Vues (Quelques)
(Quelques) des Vendanges de 1891 à Madere , offertes par Blandy Frères & Cie.É um folheto com 8 estampas e uma curta
noticia sobre a ilha da Madeira e os seus vinhos.
Vulcanismo
Vid .Stuebel (III-335 e ss.).
Wallis (Samuel)
), V.Expedições cientificas (volume I, página 428).
Walsingham (Lord)
E.:Catalogue of the Pterophoridae, Tortricidae and Tinidae of the Madeira Islands, with notes and
descriptions of new species (Trans. Ent. Soc. Lond, IV, 1894).
Waters (A. W.)
Menciona oito espécies de membraniporideos madeirenses no seu artigo intituladoObservations on the
Membraniporidae (Linn. Societ Journ , XXVI, 1898). Escreveu também um artigo intituladoBryzoa of Madeira , noJornal da Real
Soc. de Microscopia (1899).
Watson (Roberto Boog)
Doutor em leis e conquiliologista inglês que entre os anos de 1864 e 1874 estudou as conchas marinas da
Madeira, ao mesmo tempo que exercia as funções de capelão duma das igrejas protestantes do Funchal. É já falecido (1921).
Escreveu um trabalho intitulado
On the Marine Molusca of Madeira
(
Journ. Linn. Soc
, XXVI, 1897), tendo-se ocupado do mesmo
assunto, em 1873, nas
Memorias da Sociedade Zoologica de Londres.
Watson, no seu trabalho publicado em 1897, menciona 382
espécies de moluscos marinhos, descrevendo 35 por ele reputadas novas.
Como o seu compatriota Wollaston, Watson procurou por vezes amesquinhar nos seus trabalhos outros naturalistas, o que não é
próprio dum homem de ciência e muito menos dum padre, embora protestante.
As conchas de Watson pertencem hoje ao malacólogo inglês Tomlin, segundo se lê numa carta enviada para esta cidade (1921).
Webb (Felipe Baker)
Distinto botânico inglês muito conhecido pelos seus estudos sôbre a flora das Canárias. Nasceu em Milford
em 1793 e morreu em 1853, tendo estado na Madeira, em 1828, onde se demorou alguns meses, com o fim de estudar a flora desta
ilha. Visitou também o Porto Santo.
Wuellerstorf-Urbair (Comodoro)
Era o comandante da fragata austríaca Novara, que fez uma viagem á roda do mundo em
1857, 1858 e 1859. Na obra que tem por título
Reise der Oesterreichischen Fregatte Novara um die Erde
(Viena, 1861), há um
capítulo em que o Comodoro Wuellerstorf-Urbair paga o justissimo tributo da sua admiração á ilha da Madeira, onde se demorou
desde 8 a 17 de Junho de 1857. Este capítulo, na parte em que se refere à nossa ilha, foi traduzido por João Felix Pereira e publicado
na
Lampada
(n.
os
25 a 37, de 31 de Maio a 10 de Setembro de 1873), havendo também uma tradução feita pelo ilustre escritor José
Maria Latino Coelho, que apareceu na
Revista Contemporânea
e foi reproduzida nos n.
os
2279 e seguintes do extinto
Diário do
Comércio
, do Funchal.
Welwitsch (Dr. Frederico)
Botânico austríaco muito conhecido pelos seus estudos sobre a flora de Portugal e de Angola. Esteve
na Madeira em 1853, onde se demorou muito pouco tempo, tendo no ano anterior proposto ao governo a criação de dois jardins de
aclimação, um em S. Paulo de Luanda e a outro no Funchal, de modo que este ultimo recebesse as plantas tropicais destinadas a ser
transportadas para climas mais frios, e as plantas destes climas que houvesse vantagem em cultivar nas regiões quentes.
Conseguida a adaptação de tais plantas ao nosso clima, seria depois fácil fazê-las vegetar em países mais frios ou mais quentes que o
nosso. As poucas plantas colhidas por Welwitsch na Madeira em 1853, estão no herbário da faculdade de ciências da Universidade
de Lisboa. E.:
Aforismos acerca da fundaçâo dos jardins de aclimação na Ilha da Madeira e em Angola, na Africa
Ocidental
(1921).
White (Roberto)
Súbdito inglês que residiu alguns anos na Madeira e que escreveu em 1851 um interessante e valioso trabalho
intitulado
Madeira, its climate and scenery
. Em 1850 e 1851, fez observações meteorológicas no Funchal e em Machico.
Em 1857, ainda em vida de White, apareceu uma segunda edição da sua obra, editada e acrescentada por James Yate Johnson (V.
este nome).
Wilkes (Tenente Carlos )
V.Expedições cientificas (volume I, página 428).
Wilson (Miss Mary Jane)
Nasceu esta distinta senhora em Madrasta, na Índia Inglesa a 3 de Outubro do ano de 1840. Fixou
residência na Madeira em 1880 e dois anos depois estabeleceu um colégio no palácio de São Pedro, a que pôs o nome de St. Georges
High School e que foi muito frequentado pelas raparigas da melhor sociedade funchalense. Tendo, por 1892, encerrado o colégio,
reedificou, a custa de esmolas, o antigo hospital da vila de Santa Cruz e ali recebeu alguns doentes e instalou uma farmácia,
prestando assinalados serviços aos doentes e pobres daquele concelho. Foi a fundadora duma comunidade religiosa diocesana, que,
em serviços hospitalares e ministrando a instrução em muitas escolas dispersas por várias freguesias, se tornou credora dos
maiores elogios e da gratidão dos povos desta ilha.
Em 1907, por ocasião duma epidemia de varíola, tomou Miss Wilson a direcção do hospital de isolamento estabelecido no Lazareto
de Gonçalo Aires, em circunstancias muito graves e em que se receavam as consequências mais lamentaveis, mas tão assinalados
foram os serviços então prestados por aquela ilustre senhora, que logo se dissiparam os infundados receios que tinham nascido no
espírito de muitos, ainda sob a impressão das desgraçadas ocorrências que se deram em Janeiro de 1905.
A este respeito, disse no antigo
Heraldo da Madeira
, um dos autores desta obra:
«Miss Wilson, pondo a sua abnegação sem limites e a sua grande e nunca desmentida caridade em favor dos infelizes variolosos,
sem mira no mais pequeno interesse ou no mais insignificante galardão, colocou-se na mesma plana dos grandes bemfeitores da
humanidade que, fazendo o bem só pelo bem, aspiram apenas ao aplauso da própria consciência e às recompensas na vida de além
do túmulo.
«A par dessa caridade incomparável ha no seu coração bondosissimo tantos tesouros de ternura, de carinho e de meiguice, que é ela
no lazareto a verdadeira providencia dos enfermos, sempre com o riso da esperança e da consolação a iluminar-lhe a fronte.
«O povo na sua ignorância, na sua demasiada credulidade, habilmente exploradas pelos que só deviam ser seus verdadeiros
mentores e guias, transformou o lazareto numa prisão de Ugolino ou numa caverna de Caco, onde os doentes sofriam as maiores
sevícias, que iam dos ultrajes ao pudor até aos mais nefandos assassinatos. Tudo isso que não passou duma lenda, que foi apenas o
objecto duma negregada especulação, converteu-se para o grande publico numa crença inabalável, numa verdade axiomática, que
impossível seria desfazer ou destruir.
Miss Wilson teve que lutar tenazmente com esses arreigados preconceitos, superstições e terrores. Não foi sem grandes receios que
os primeiros variolosos deram entrada no hospital de isolamento. A breve trecho, porém, se quebrou por completo o encantamento.
Aqueles fantásticos horrores vão-se pouco a pouco diluindo, e no lazareto só foram encontrar a flama ardente da caridade a fulgurar
intensamente num coração de mulher.
«Hoje é ali o génio do bem a espargir benefícios a flux, um foco de brilhante luz a alumiar tantas inteligências, um iris de paz e de
esperança a acalentar corações atribulados».
Miss Wilson, com a implantação do novo regímen político, teve que abandonar a Madeira, mas regressou ao Funchal, vindo a
falecer na casa do antigo convento de São Bernardino, em Câmara de Lobos a 18 de Outubro de 1916. A 15 de Abril de 1939,
realizou-se a trasladação dos seus restos mortais para a capela do edifício, à rua do Carmo, em que se encontra a sede da
congregação religiosa de que fora a fundadora.
Mary Jane Wilson, como acima se diz, fundou no ano de 1884 uma congregação religiosa diocesana, a que deu o nome de Irmãs
Franciscanas de Nossa Senhora das Vitorias, tendo recebido a inteira aprovação das autoridades eclesiásticas. Esta Congregação,
que particularmente se destina aos trabalhos hospitalares e ao ensino elementar das crianças pobres, tem prestado entre nós os
mais relevantes serviços, que todos sem excepção reconhecem, e sempre com o maior zelo e com a maior dedicação, não sendo hoje
possível dispensar-se a sua benéfica acção na direcção dos estabelecimentos de assistência que lhe estão confiados. É já
considerável o número dos seus membros que abnegadamente trabalham nas missões evangélicas da África Portuguesa.
Winter (Dr. Hermann)
Briologista alemão que herborizou na Madeira nos principios do ano de 1912. E..Beitrage sur Kenntnis
der Laubmoosflora von Madeira und Teneriffa (Hedwigia, LV, 1914).
Wollaston (T. Vernon)
Naturalista inglês que esteve no nosso arquipélago por quatro vezes, sendo a primeira em Outubro de
1847 e a ultima no verão de 1855. Coligiu importantes materiais zoológicos nas diferentes ilhas do arquipélago, especialmente nos
ramos da entomologia e da malacologia, e tentou visitar as Selvagens, a bordo dum iate de recreio, não conseguindo porém
desembarcar naquelas ilhas. E.:
Insecta Maderensia
, Londres, 1854;
Catalogue of the Coleopterous Insects of Madeira
, Londres,
1857;
Testacea Atlantica
, Londres, 1878; etc.. Esta ultima obra compreende a fauna malacologica dos Açores, Madeira, Selvagens,
Canárias, Cabo Verde e Santa Helena.
Wollaston, como malacologo, está muito longe de poder ombrear com o barão de Castelo de Paiva, Albers e outros, e, como
entomologista, é acusado de haver criado, sem necessidade, muitas espécies novas.
Os exemplares zoológicos que pertenceram a T. Vernon Wollaston, estão quasi todos depositados no Museu Britânico, havendo
porém uma colecção de conchas na posse dum tal Preston, comerciante de objectos de história natural (1921).
Xara
Os madeirenses dão o nome de xara branca ao
Centrophorus squamosus
e o de xara preta ao
Centroscymnus coelolepis
,
peixes estes pertencentes à família Espinacida e que podem atingir o comprimento de 1 metro ou um pouco mais. A xara branca é
ordinariamente mais pequena que a xara preta, segundo dizem os pescadores que tem pescado estas espécies.
As xaras são utilizadas na alimentação e tem um sabor semelhante ao do bacalhau. Os pescadores vendem ás vezes como xara, a
carne da tintureira (
Charcharias glaucus
).
Zargo (João Gonçalves)
Foi João Gonçalves Zargo figura homérica no início dos nossos empreendimentos e derrotas marítimas,
tendo capitaneado o mais importante descobrimento que os marinheiros portugueses realizaram no primeiro quartel do século de
quatrocentos, sob a fecunda e gloriosa acção do Grande Infante. O descobrimento da Madeira é o grande padrão imorredouro, que
verdadeiramente marca o começo auspicioso da nossa odisseia de navegantes. Ele não representa somente uma notável expansão
territorial dos nossos domínios como nação, mas sobretudo assinala a nossa primeira grande conquista como navegadores e futuros
dominadores dos mares.
A este facto grandioso da nossa história anda indissoluvelmente ligado o nome do ilustre navegador. Não tem sido posta em
saliente relevo a influencia que esta grande descoberta exerceu no prosseguimento dos nossos empreendimentos marítimos, mas
não pode duvidar-se que ela foi sobremaneira notável, devendo o descobridor e primeiro colonizador da Madeira ocupar um lugar
de destaque nas mais brilhantes páginas das nossas crónicas marítimas.
Gonçalo Velho Cabral, que descobriu as ilhas de São Miguel e Santa Maria, alcançou um nome mais aureolado na historia, porque
um distinto biografo lhe traçou desenvolvidamente o perfil como navegador, empregando um largo trabalho de investigação
histórica com aquele esmerado cuidado com que um descendente vaidoso das suas prosápias avoengas exalta as façanhas dos seus
antepassados. João Gonçalves Zargo não teve um descendente que lhe escrevesse a biografia nem a seu respeito se fizeram
pesquisas nos arquivos públicos, além do pouco que o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo encontrou nos documentos guardados no
cartório municipal desta cidade. Daqui resulta uma notável escassez de notícias e informações acerca do grande navegador, sendo
extremamente difícil fazer um ligeiro esforço biográfico em que os traços mais característicos da sua figura como guerreiro,
navegador e colonizador fiquem ao menos esboçados nas suas linhas gerais (1921).
Zarco ou Zargo? A esta pergunta responde o erudito comentador de Frutuoso, que era também um distinto filólogo, dizendo que a
primeira forma é a mais genuina de escrever este apelido e que tem por si os autores de melhor nota, mas que se tornou antiquada e
o uso adoptou a segunda. Tendo nós consultado os mais antigos cronistas e escritores que se ocuparam, embora sumariamente, do
descobridor do nosso arquipélogo, como sejam Gomes Eanes de Azurara, João de Barros e Damião de Góis, verificámos que todos
escreveram Zarco, e que nas relações das viagens realizadas por Diogo Gomes de Sintra, contemporâneo do infante D. Henrique, e
de Luis Cadamosto (1450), se adopta uma grafia idêntica. Numa carta régia de D. Afonso V, do ano de 1449, se lê a forma muito
antiquada de Zarquo, que corresponde á de Zarco, adoptada pelos nossos antigos cronistas. O famigerado historiador das ilhas, que
elaborou a sua obra no ultimo quartel do século XVI, usa a forma já modernizada de Zargo, devendo considerar-se como lapso do
copista ou êrro de impressão a ortografia de Zarco, que se descobre em dois ou três lugares das Saudades, quando é certo que
muitas dezenas e talvez centenas de vezes Gaspar Frutuoso escreve Zargo. Foi também esta a grafia sempre adoptada pelo anotador
daquela obra. Todas as razões aconselham que a forma ortográfica a seguir actualmente deva ser a que usou o ilustre autor das
Saudades da Terra e o seu erudito comentador.
Qual a origem do apelido Zarco ou Zargo, usado pelo ilustre descobridor da Madeira? João de Barros e depois Damião de Góis, em
cuja esteira seguiu o cronista das ilhas Gaspar Frutuoso, disseram que Zarco ou Zargo era alcunha originada num facto heróico
praticado pelo navegador e não apelido tomado na sua nobre ascendência. O sábio anotador das Saudades não compartilha da
opinião daqueles cronistas, dizendo que as versões dadas por Frutuoso não podem ser tidas por verdadeiras e que elas são apenas
um exemplo mais do sistema geral seguido na invenção das lendas: personalizar e decompor em uma fabula, mais ou menos
verosímil, o nome próprio cuja origem seja desconhecida. E, em prova da sua asserção, cita alguns antigos nobiliários em que a
ascendência do descobridor vem assinalada com o apelido de Zarco ou Zargo.
Não será inteiramente descabido referir neste lugar, embora duma maneira muito sumaria, as versões apresentadas por Gaspar
Frutuoso e que acima deixámos apontadas. Num dos nossos recontros em Marrocos, sucedeu que um mouro, ousado e dextro
cavaleiro, desafiou um dos guerreiros portugueses para um encarniçado combate, tendo este ficado vencido na luta, embora
pagando heroicamente com a vida o seu extremado valor. Outro cavaleiro português e parece que mais alguns se seguiram no
porfioso combate, tendo todos igual e desgraçada sorte, não consentindo o capitão da nossa praça que outras vidas se imolassem á
sanha feroz do endiabrado mouro. Aparece então um cavaleiro que ainda se não notabilizara pelo seu valor, empregando os maiores
rogos e instancias para que lhe fosse permitido arremeter o mouro vencedor. Ouçamos agora o autor das Saudades, no seu ingénuo
e pitoresco dizer: «E logo o Soldado pedio o cavallo de hum cavalleiro que para o effeito escolheo; e, cavalgando nelle com adarga
embraçada, e na outra mão um pedaço de páo, caminhou para o Mouro, que, em o vendo escaramuçando, se veyo mui soberbo a
elle. E todas as vezes que queria ferir o christão, este não fazia mais do que desviar de si a lança do Mouro, o que fez até que, tanto
que vio tempo e conjunção, remetendo depressa com o cavallo ao Mouro, lhe deo em descoberto tão grande pancada, que,
atordoado o tomou pelos cabellos, e prezo o entregou ao Capitam; pelo qual feito foi dali em diante conhecido do Rey. Deste
valeroso Soldado dizem que precedeo João Gonçalves o Zargo, seu filho, ou neto; e outros dizem que este feito em armas fez o
mesmo João Gonçalves; e por o Mouro que elle, ou seu pay, ou avô matou se chamar Zargo, lhes ficou a elles, ou a elle o mesmo
apelido e nome.»
Tendo-se realizado a nossa primeira conquista africana em 1415 e sendo a Madeira descoberta quatro ou cinco anos depois, não é
fácil acreditar que o avó do descobridor, certamente já bastante entrado em anos aquele tempo, pudesse ser o herói daquela
façanha. Mais crível seria atribui-la ao pai, e, muito mais ainda, ao próprio navegador, mas parece que nem o cronista lhe ligou
grandes foros de veracidade, porque, à narrativa do caso, acrescenta estas palavras: «a informação que tenho da ilha da Madeira
conta este princípio de outra maneira:...». E logo a seguir nos diz que no cerco de Tanger «se mostrou tão cavalleiro o Zargo, que
deo mostras de seu grande esforço, pelejando valerosamente diante dos Infantes, que por esta causa o estimavam muito. E neste
logar e combate recebeo huma ferida em hum dos olhos de hum virotão que dos inimigos lhe tiraram, com que lhe quebraram hum
olho. E como naquelle tempo chamavam zargo a quem não tinha mais que hum olho, ficou-lhe o nome por insígnia e honra de sua
cavallaria; porque nella deo taes mostras e se assinalou por tão cavalleiro, que não foi pouca a ajuda de seu esforço e indústria na
guerra, para o Infante D. Henrique se salvar e recolher ao mar, a tempo que já o Infante D. Fernando ficava captivo por traição e
manha, como na Chronica d'El-Rey D. Duarte copiosamente se relata».
Diz Fr. Francisco Brandão, na
Monarchia Lusitana
: «Não ha que aceitar a explicação que o doutor Gaspar Fructuoso dá na historia
das Ilhas, dizendo chamar-se.... Zarco de alcunha por ser torto de um olho ou por aver morto em Africa hum Mouro que se chamava
Zarco....».
E ainda relativamente á origem do apelido do descobridor, vem transcrito numa das notas ás Saudades, o seguinte trecho dum
trabalho genealogico de José Freire Monterroio Mascarenhas: «A Familia Zarco he quasi tão antiga como o reino, porque desde o
duodécimo século se achão memórias della nos seus archivos. Ainda que sabemos que ha hum logar na provincia do Alemtejo,
juncto á vila de Viana, com o nome de Zarco, sempre nos pareceu que não tomou delle o seu appellido, e que este procederia não de
solar, mas de alcunha; porque esta palavra Zarco, assim na língua castelhana, como na portuguesa, significa o homem que tem os
olhos esverdeados; o que Antonio de Nebrixa, no Diccionário, explica na língua latina com o vocábulo glaucus, e o mesmo diz
Jeronymo Cardoso, no seu Vocabulário, e Ambrosio Calepino, no seu Diccionario; e assim foi dado por alcunha a huma pessoa, da
qual passou por cognome aos seus descendentes».
Ficou para nós ignorado o nome da terra da naturalidade de João Gonçalves Zargo. Diz o Dr. Alvaro de Azevedo «que os autores
duvidam da terra do seu nascimento: uns querem que fosse natural de Thomar por a família dos Zarcos ter ali fazenda, como diz o
chronista Brandão; outros que de Lisboa; e alguns que de Matosinhos ou do Porto: onde Lousada diz que os Zarcos tinham uma
capella..
Alguns dos antigos nobiliários madeirenses dão Zargo como nascido em Matozinhos, e o escritor D. Francisco Manuel de Melo,
descendente do descobridor, também afirma que é ele natural daquela localidade. O terceiro capitão-donatario do Funchal, Simão
Gonçalves da Câmara, neto do descobridor, deixou a sua capitania e estabeleceu residência em Matozinhos, onde faleceu em 1530
(volume I, página 207), conjecturando-se que o ser porventura dali oriundo, tradições de família ou bens que esta possuísse naquele
lugar, determinassem a sua retirada para esse ponto do Continente. Todos esses motivos não constituem provas concludentes a
favor da afirmativa do nascimento do grande navegador em Matozinhos, mas são certamente presunções dignas de toda a
ponderação, devendo acrescentar-se que ainda há pouco nos foi asseverado que naquela localidade existe a tradição de que ali
nasceu o descobridor deste arquipélago.
Qual a data precisa do seu nascimento? Lê-se numa das anotações á obra de Frutuoso: –não se sabe ao certo em que annos viveu
João Gonsalves Zarco. De ser mancebo em 1419 e de haver o seu primogenito, João Gonsalves da Câmara, fallecido com oitenta e
septe annos em. . . Março de 1501, e portanto nascido em 1414, inferimos que Zargo nasceu por 1395». Parece-nos que pouco além
de 1390 se deve assinalar a época do nascimento de Zargo, para supor que ele teria entre 25 e 30 anos por ocasião do
descobrimento, visto que alguns cronistas o consideram ao tempo, como mancebo e ainda pouco entrado em anos, não esquecendo
que já se havia distinguido como navegador e se tinha conduzido heroicamente no segundo cerco de Ceuta.
A dar-se credito ao já citado linhagista Freire Mascarenhas, é João Gonçalves Zarco filho de Gonçalo Esteves Zarco e de D. Brites,
que era filha de João Afonso, de Santarém, vedor da casa do rei D. João I. Gonçalo Esteves, que viveu nos reinados de Afonso IV, D.
Pedro I e D. Fernando, era filho de Estevão Pires Zarco, que se dizia Vogado na casa d'Elrei e que exerceu cargos importantes na
magistratura.
Embora o nome do navegador Gonçalves Zargo não fique mais aureolado de glória com a circunstancia de ter ilustres avoengos e
pertencer a uma família de tradições fidalgas, o que aliás para o tempo era de uma capital importância, manda a verdade dizer que
o descobridor do arquipélago provinha de nobre estirpe e nessa qualidade frequentava como familiar a casa do infante D. Henrique.
Dizem-no os velhos cronistas Eanes de Azurara e João de Barros, afirma-o o historiador das ilhas, e o mesmo se lê nas mais antigas
e acreditadas genealogias madeirenses. Num nobiliario de José Freire Monterroio de Mascarenhas, cujo manuscrito se encontra na
Biblioteca Publica de Lisboa e que já acima fica citado, encontra-se uma genealogia de Zargo, remontando ao século XII os
ascendentes conhecidos do ilustre navegador. Em nosso entender, uma das provas mais cabais da sua origem fidalga é a do seu
casamento com D. Constança Rodrigues de Sá, filha de Rodrigo Aires de Sá, que foi representante de Portugal em Roma e ali casou
com D. Cecilia Colona, filha do marquês e príncipe de Colona, que era das mais antigas, nobres e consideradas famílias do
patriciado romano. Ainda agora nos foi isto confirmado por um ilustre investigador do Continente, depois de várias pesquisas
realizadas em velhos e autorizados documentos (1921). É de notar que um casamento contraído naquela época em tais condições,
quando Zargo não alcançara ainda o renome de afamado descobridor e nem era o opulento capitão donatario do Funchal, só
poderia dar-se se o cônjuge fosse pessoa qualificada e de provada ascendência fidalga. Aires de Sá, que não perde ocasião de exalçar
hiperbolicamente os méritos do descobridor dos Açores e que com manifesta injustiça se refere por vezes ao descobridor da
Madeira, diz que João Gonçalves Zargo «era um homem de modesta origem. . . que conseguiu subir na Casa do Infante D. Henrique
e que evoluciona para povoador», mas a verdade é que não aduz qualquer prova em favor da sua afirmativa, que aliás se acha em
formal contradição com o que dizem os cronistas, os nobiliários e os costumes da época.
Diz o citado genealogista Freire Monterroio que Gonçalves Zargo começou «de muito rapaz a servir o infante D. Henrique», tendo
pois um largo aprendizado na escola daquele ilustre e benemérito príncipe. Zargo distinguiu-se como navegador, havendo realizado
várias viagens ao longo da costa africana, que era então o provado tirocínio, o árduo e experimentado curso dos nossos ousados
mareantes. Afirmam alguns escritores, e entre eles Francisco Manuel de Melo, que o ilustre navegador fora o primeiro que
introduzira nas suas embarcações o uso das peças de fogo, devendo-se, pois ao seu génio inventivo e ardor bélico este
aperfeiçoamento na arte da guerra travada sôbre o oceano. Desempenhou o cargo de capitão das costas marítimas do Algarve e teve
vários recontros no mar com mouros e castelhanos, dando sempre provas de estremado valor.
O descobridor da Madeira também se distinguiu como valente e arrojado soldado, deixando-nos as crónicas referências muito
elogiosas da sua heróica conduta em Ceuta e em Tanger. Na primeira destas praças foi armado cavaleiro, e, na acção desastrosa de
Tanger, muito contribuiu para que o embarque do infante D. Henrique se fizesse ao abrigo das investidas dos mouros. Diz a tal
respeito Frutuoso: «com a indústria e esforço deste cavalleiro João Gonçalves o Zargo se recolheo e embarcou o infante D.
Henrique nos navios que no mar estavam para esse effeito, ficando sempre o Zarco em terra recolhendo a gente que pôde e
sustentando esforçadamente o ímpeto e peso dos mouros, que sobre elle vinham por entrar o Infante. E, depois de recolhidos com
perda de muitos Portuguezes, João Gonçalves se recolheo bem ferido, com trabalho e perigo, sendo os Mouros infenitos. Por este
grande serviço que este magnânimo João Gonçalves o Zargo fez ao Infante, e por outros que tinha feito a El-Rey, o estimavam
muito, e lhe dava El-Rey cargos de substancia, em que sempre se mostrava mui cavalleiro». Os seus descendentes continuaram as
gloriosas tradições paternas, pois muitos deles, e especialmente os seus sucessores na capitania, distinguiram-se valorosamente nas
praças de Africa, como já referimos nos artigos que a eles consagrámos no primeiro volume desta obra (1921).
Pouco depois do descobrimento deste arquipelago e de realizada a partilha das capitanias, fez Gonçalves Zargo com sua mulher e
filhos assentamento no Funchal e iniciou os trabalhos do povoamento e colonização da sua donataria.
«O capitão João Gonçalves Zargo, dizem as Saudades. .. ., abrigando os navios aos ilheos que no cabo deste logar estão, por haver
ali uma fermosa enseada, determinou de fazer em terra sua morada de madeira, a qual logo fez pegada com o mar em hum logar
alto, onde depois a capitoa Constança Rodrigues fundou huma igreja de Santa Catharina.» Foi junto deste pequeno templo que teve
Zargo a sua primeira moradia, que seria sem duvida uma mais que modesta e desconfortável habitação construída de madeira, dum
só pavimento e despida de todo o aparato arquitectónico, como foram todas as primitivas casas que entre nós se construíram.
Já em outro lugar dissemos que foi no solitário retiro de Santa Catarina que Zargo dirigiu os trabalhos iniciais da colonização e
lançou os fundamentos da futura vila, que rapidamente progrediu e ainda em sua vida atingiu um notável desenvolvimento.
Sonharia ali com o progresso da capitania, de que era donatário, e com o engrandecimento da casa que fundara, entrevendo num
futuro próximo as honras e os privilégios de que seriam cumulados os seus descendentes e sucessores. Teria talvez adivinhado que
o monarca o galardoaria com os timbres da nobreza e com o uso dum brasão de armas, vendo já os pergaminhos dos seus netos
esmaltados com a coroa de conde e de grandes do reino, como homenagem tributada aos serviços prestados pelo avô...
Alguns anos depois, transferiu o descobridor a sua residência para a margem esquerda da ribeira, no sopé do morro que teve mais
tarde o nome de Pico dos Frias e próximo da capela que ali edificara com a invocação de São Paulo, afirmando-se que foi esta a
primeira casa de moradia construída de pedra, que se levantou no Funchal.
O seu definitivo assentamento, onde passou a maior parte da sua existência, foi nas próximas imediações do local em que fez erigir
a igreja da Conceição de Cima. Diz um antigo manuscrito: «determinou também fazer uma morada para si como fez em um alto que
está sobre o vale do Funchal, logo defronte uma igreja de N. S. da Conceição para seu jazigo e dos seus». É a actual igreja de Santa
Clara e a sua residência a antiga casa solarenga dos morgados Lomelinos, conhecida hoje pelo nome de Quinta das Cruzes, como
mais largamente se pode ver no artigo Moradias de Zargo, a página 395 do II volume desta obra, para onde remetemos o leitor.
Sabe-se que João Gonçalves Zargo se dedicou afanosamente à colonização da sua capitania, cuja sede cresceu rapidamente em
importância, sendo um quarto de século depois do inicio do seu povoamento elevada á categoria de vila, ainda em vida do
descobridor, e aproximadamente cinquenta anos mais tarde foram-lhe concedidos os foros de cidade, por alvará régio de 21 de
Agosto de 1508. Pouco se conhece, em detalhados pormenores, do governo do primeiro donatario, mas também cousa alguma se
sabe em desabono da administração publica da sua capitania. Uma acusação lhe tem sido feita: o atear o voraz incêndio que
destruiu uma parte considerável do primitivo e pujante arvoredo que cobria esta ilha desde a orla do oceano até as cumiadas das
montanhas. Este facto, que fica narrado com algum desenvolvimento a página 140 do 2.° volume do Elucidário, constituiu
certamente uma arriscada temeridade, cujas funestas consequências os primeiros povoadores não souberam talvez avaliar, mas
também é certo que uma rápida e larga colonização impunha a imperiosa necessidade de destruir parcialmente esses bastos e
impenetráveis matagais, que somente um incêndio poderia reduzir ás indispensáveis proporções e permitir uma imediata
exploração agrícola. Segundo João de Barros, parece que esse incêndio, pela extensa área em que se alastrou, causou sérios
prejuízos e embaraços á primitiva colonização, sendo também indubitável que a Madeira se repovoou rapidamente de espécies
florestais e que a breve trecho se cobriu duma vasta e opulenta vegetação.
E de 1 de Novembro de 1450, a carta de doação, feita a João Gonçalves Zargo pelo infante D. Henrique, da capitania do Funchal,
que pela mesma carta se transmitiria aos seus directos sucessores. Esta carta do infante foi confirmada pelas cartas régias de 25 de
Novembro de 1451 e 16 de Agosto de 1461. Os privilegios e regalias concedidos por estes diplomas eram essencialmente os mesmos
consignados nas cartas de doação, que tinham sido feitas aos donatarios Tristão Vaz e Bartolomeu Perestrelo. Eram
demasiadamente latitudinarias e até em extremo discricionárias as atribuições dos donatarios, pois neles residia toda a jurisdição
cível e criminal, com excepção da aplicação da pena de morte ou talhamento de membro. Eram senhores de agua e vento, isto é,
somente eles podiam ter moinhos, ou azenhas, sendo-lhes também reservados os direitos de fabrico de pão e da venda do sal.
Tinham além disso a decima parte dos rendimentos destinados ao infante e a importante prerrogativa da distribuição dos terrenos
incultos. Tudo isso constituía para os capitães-donatarios do Funchal uma avultadissima renda anual, tornando-se a casa dos
donatarios desta capitania, uma das mais opulentas do país. 0 4.° neto de Zargo e 5.° donatario foi feito conde da Calheta e grande
do reino. Os donatarios do Funchal construíram um palácio para sua residência em Lisboa e viviam com grande fausto na capital.
Não temos conhecimento de que Gonçalves Zargo tivesse reservado nesta ilha, para si ou para os seus sucessores na donataria,
quaisquer terrenos ou bens de raiz, mas sabe-se que aos restantes filhos e genros fez doação de vastos territórios, como sejam o da
Lombada, na Ponta do Sol (volume II, página 277), e ainda outros.
Entre os primeiros donatarios da Madeira foi Zargo o que gozou de maior prestigio e influencia, devido certamente ás qualidades
pessoais que nele concorriam e não apenas á circunstancia de ser pessoa de maior qualidade do que Tristão Vaz, como diz Barros na
sua primeira Decada. A escolha da capitania parece já indicar a superioridade do donatario do Funchal. As condições especiais da
sede da donataria no que diz respeito à sua admirável situação, largueza do sítio para o desenvolvimento duma populosa povoação,
amplidão do porto, feracidade do solo, pitoresco do logar e amenidade do clima, comparadas com as condições de flagrante
inferioridade da outra capitania da Madeira quanto à natureza dos terrenos, clima, falta de praias e desembarcadouros, dificuldade
de comunicações, etc., não deixam duvidas acerca das preferências concedidas a Gonçalves Zargo na partilha da terra encontrada
pelos dois navegadores. Posteriormente, com o rápido e notável desenvolvimento do Funchal, foi sempre crescendo a influencia dos
donatarios desta capitania, que por vezes abusavam dessa influencia, estendendo a sua jurisdição ás outras donatarias, com
manifesta invasão das atribuições alheias, para o que em boa parte concorria a desastrosa administração dos capitães-donatarios de
Machico e Porto Santo. Isto era até certo ponto sancionado pelos governos da metrópole, que não reprimiam os abusos e em
documentos oficiais chamavam ao donatario do Funchal o capitão da ilha, como se não existisse a capitania de Machico.
Como atrás fica referido, casou João Gonçalves Zargo com Constança Rodrigues de Sá ou de Almeida, que, segundo os mais
autorizados linhagistas, era filha de Rodrigo Aires de Sá, que foi embaixador de Portugal em Roma, e de Cecília Colona, da
nobilissima família romana dos marqueses de Colona. A seu respeito lê num artigo nobiliario: –«Família patrícia romana, cuja
origem remonta a Pietro de Colona, senhor dum castello perto de Roma, que viveu pelos anos de 1100. O seu 3.º neto Seiarra de
Colona foi elevado a marquez em 1289, sendo mais tarde seus descendentes feitos príncipes de Colona e de Palestrina, e grandes de
Hespanha, sendo das familias italianas uma das de maior prosapia....» Segundo as melhores probabilidades e conforme as
genealogias que pudemos consultar, o descobridor do nosso arquipelago, quando veio dar começo aos trabalhos da colonização,
trouxe em sua companhia sua mulher Constança Rodrigues de Sá, o filho primogénito João Gonçalves da Câmara e a filha Helena
Gonçalves da Câmara, tendo já muito provavelmente nascido na Madeira o terceiro filho Rui Gonçalves da Camara, 3.º capitão-
donatario da ilha de São Miguel. No artigo Filhos e Genros de Zargo (volume II, página 31) já nos ocupámos, embora rapidamente,
dos primeiros descendentes do descobridor e para lá enviamos os nossos leitores, devendo apenas rectificar aqui a informação
relativa a Garcia Gonçalves da Câmara, que é filho legitimo de João Gonçalves Zargo e de Constança Rodrigues, e não filho natural
do ilustre navegador, como ali se lê, informação colhida em fonte menos autorizada e que ao tempo tínhamos por fidedigna.
No artigo Donatários, demos noticia da sucessão imediata dos capitães-donatarios do Funchal, descendentes em linha recta do
descobridor até a dominação filipina, e a cada um deles consagrámos com algum desenvolvimento um artigo especial a paginas 201
e seguintes do 1.° volume desta obra.
Procedeu de Zargo uma larga e brilhante descendência, que se espalhou pela Madeira, Açores, Brasil e continente português, sendo
alguns dos seus membros os troncos de ilustres casas titulares. Diz um seu descendente, o grande escritor D. Francisco Manuel de
Melo:
«.... João Gonsalves Zarco, um varão famoso entre os nossos, porque não contando as casas mais antigas, de que por incertas não
fazem memória, poucos homens havemos tido em Portugal de tão opulentas descendências, a quem devem sua varonia três condes
deste apelido, Calheta, Vila Franca e Atouguia..... E por casamentos procedem de João Gonsalves 21 títulos deste reino». D. Afonso
5.º, por diploma de 4 de Julho de 1460, concedeu ao ilustre descobridor o uso de brasão de armas, que no mesmo diploma vem
assim descrito: «huu escudo preto & ao pee huua momtanha berde sobre a quall estaa firmada & situada huua torre de prata amtre
dous lobos d'ouro...». Nesta carta régia é o nome do descobridor designado por João Gonçalves de Câmara de Lobos e assim
deveriam usá-lo os seus sucessores, o que na verdade parece não ter acontecido, nem ainda com o próprio Zargo. Do seu brasão de
armas, do erro histórico que nele se nota, do apelido Câmara usado pelos seus descendentes, etc., já dissemos o suficiente no artigo
Câmara, a página 198 do volume I deste Elucidario.
Morreu Gonçalves Zargo em idade muito avançada. É pitoresco o dizer dum antigo manuscrito: «Chegou a tanta velhice que em
colos de homens se fazia levar ao pôr ao sol com que muito se corroborava. De ali dispunha as cousas da sua jurisdição, governando
e administrando justiça com o seu entendimento inteiro, em que não experimentou nunca a imbecilidade de homem decrépito».
Alguns antigos nobiliarios dão o navegador como falecido em 1451, outros em 1461 e ainda outro em 1471. Nada se sabe de positivo
a tal respeito. O ano de 1451 não pode admitir-se, porque, pela carta régia de 4 de Julho de 1460, se vê que Zargo ainda vivia neste
ano. A data de 1461, tida como mais provável, é a que melhor se harmoniza com os 40 anos de administração da capitania que lhe
fixou o historiador das ilhas. Por outro lado, se admitirmos que ele nasceu entre os anos de 1390 e 1395, como acima dizemos,
teremos que supor que contaria de 66 a 71 anos de idade, por ocasião da sua morte, o que certamente não corresponde á idade
provecta de que falam os cronistas sobretudo naquela época. Aceitando o ano de 1471 como o do seu falecimento e ainda o de 1390
como o do seu nascimento, teria atingido 81 anos de idade, e deste modo a afirmativa unânime dos cronistas, quanto à sua
decrepitude, ficava inteiramente justificada. Pode também afirmar-se que haveria porventura nascido anteriormente ao ano de
1390 e neste caso as datas de 1451 e de 1461 teriam também a sua possível justificação. São meras conjecturas, não existindo, por
agora, elementos que nos habilitem a fixar com precisão o ano da morte do grande descobridor.
Foi Deus servido de o levar, diz o citado manuscrito, havendo governado a ilha.... não como senhor della, mas como pae e
companheiro de todos os seus moradores». Os despojos mortais do descobridor foram sepultados na Igreja da Conceição de Cima,
hoje de Santa Clara, que ele fizera erigir para seu jazigo e de seus descendentes. O túmulo de Zargo ficava na capela-mor, como aliás
era praxe geralmente seguida àcêrca dos fundadores e padroeiros das igrejas. Algures se lê «que a obra se ordenou de sorte que a
sepultura.... ficou no meio da capella-mór, com um túmulo de pedra em cima tão alto, que singularmente a faz venerável e
respeitosa». Diz-se que, muitos anos depois, conseguiram as freiras a remoção do aparatoso mausoléu, que lhes interceptava a vista
do altar, sendo talvez por essa ocasião que se tivesse procedido á trasladação das cinzas do descobridor da Madeira para o jazigo de
seu genro Martins Mendes de Vasconcelos.
Inclinamo-nos a crer que esse atentado cometido com a remoção do mausoléu e a trasladação dos restos mortais do descobridor, se
ele na verdade se deu, deveria ter-se realizado na dominação filipina, quando os donatários do Funchal deixaram de residir nesta
ilha e passaram a ter uma acção governativa meramente honorífica, pois difícil é acreditar que eles permitissem aquela profanação
da sepultura do seu ilustre ascendente e fundador da opulenta casa que usufruíam. Diz o comentador de Frutuoso que o sarcófago
de Martim Mendes de Vasconcelos tem uma inscrição de letra gótica maiúscula, ilegível por gasta, e que no pavimento adjacente se
vê uma grande lápide de mármore e nela o seguinte epitáfio:
S.ª DO CAPITÃO GASPAR MENDES DE UASCONSELLOS QUE MANDOU FAZER PARA SI E SEUS ERDEIROS POR SE TIRAR A
PRIMEIRA CAMPA QUE AQUI SE POS COMO DECENDENTE DO PRIMEIRO MARTIM MENDES DE VASCONSELLOS QUE
AQUI JAZ E PASSOU A ESTA ILHA A CASAR COM ELENA GLIZ DA CAMARA FILHA DE JOÃO GONSALVES ZARCO SEU
DESCOBRIDOR DESTA. FOI FEITA NA ERA DE 1710
Neste epitáfio não há referência ás cinzas do descobridor e parece que também lhe não diz respeito a inscrição em letra gótica,
segundo ouvimos a pessoa que tentou decifrá-la. Refere-se a Martim Mendes de Vasconcelos? Não faltou quem já supusesse que a
lápide veio de Portugal e que lá cobria a sepultura dum ascendente do genro de Zargo. Quando em Março de 1919 se levantou o
sobrado do pavimento da capela-mor da igreja de Santa Clara, descobriram-se ali duas lápides tumulares com epitáfios referentes
ao 2.°, 3.° e 5.° capitães-donatarios do Funchal, como já fica narrado a página 217 e seguintes do II volume desta obra. Nada se
encontrou ali respeitante ao descobridor.
A capela de Santa Catarina, a capela de São Paulo, a quinta das Cruzes e particularmente a igreja de Santa Clara são modestos mas
memoráveis monumentos a recordar eloquentemente o descobridor e a descoberta da Madeira. Esses edifícios devem merecer aos
poderes públicos, e especialmente ás corporações administrativas que têm a sua sede no Funchal, o respeito e a veneração que por
toda a parte se costuma sempre tributar aos objectos e ás coisas que se acham intimamente ligados á vida dos homens ilustres.
Corre-lhes a gravíssima obrigação de conservarem esses edifícios e de os preservarem, quanto possível, das injúrias do tempo. E,
como noutras paginas deste livro já dissemos, é ocasião bem asada de fazermos uma especial referência ao montante de João
Gonçalves Zargo, que sempre se conservou na casa das Cruzes e que uma tradição constante transmitida de geração em geração no
seio da família que o possuía, faz indubitavelmente pertencer ao ilustre descobridor. Como tal foi sempre considerado, e a profunda
veneração que ali se tributou em todo o tempo àquela relíquia, mais confirma ainda a verdade da sua origem. É uma arma antiga
destinada a ser brandida com ambas as mãos e que não prima pelo esmerado do fabrico. Não tem por certo valor intrínseco ou
artístico, mas vale muito pelos seus quinhentos e tantos anos de existência e mais que tudo por ter pertencido ao grande navegador
que descobriu este arquipélago. É talvez a espada que Gonçalves Zargo empunhou em Marrocos, nas suas arremetidas contra os
mouros, conquistando a fama de valente e arrojado cavaleiro. Essa relíquia veneranda encontra-se nesta cidade nas mãos de um
estrangeiro, que a conserva com o apreço que ela verdadeiramente merece. Deveria no entanto estar na posse da Câmara Municipal
desta cidade. A esta corporação administrativa cumpre promover a sua aquisição e guarda-la religiosamente nos seus arquivos, até
que possa condignamente figurar no museu de arte e antiguidades que um dia se há-de forçosamente fundar nesta cidade (1921).
É antiga a ideia de erigir-se nesta cidade um monumento ao ilustre descobridor da Madeira, mas nunca chegou sequer a esboçar-se
uma tentativa séria para que essa ideia se traduzisse numa realidade e deste modo se solvesse a divida em aberto para com a sua
gloriosa memória. Foi em 1918 que a Junta Geral mandou construir a maquete da estátua de Zargo, que deve levantar-se na
Avenida do Dr. Manuel de Arriaga, no prolongamento da Entrada da Cidade. A maquete, que é da autoria do distinto escultor
madeirense Francisco Franco, foi exposta no teatro municipal a 2 de Março de 1919, e por ocasião das festas do Quinto Centenário
da Madeira se lançou na dita avenida a primeira pedra do monumento, tendo este acto revestido uma excepcional imponência,
como já fica descrito a página 163 deste volume (1921).
Fora da cidade e lá no alto da serrania, a dominar todo o Funchal, ergue-se no Terreiro da Luta uma estátua em bronze a João
Gonçalves Zargo, que representa o ilustre descobridor no momento em que a caravela do seu comando se aproximava desta então
ignorada ilha. Este monumento, que é produção do cinzel do escultor Francisco Franco, deve-se exclusivamente á iniciativa do
antigo comerciante e distinto madeirense o comendador Manuel Gonçalves.
O poeta madeirense Francisco de Paula Medina e Vasconcelos publicou em Lisboa no ano de 1806 um poema a que deu o nome de
Zargueida do qual e da Georgeida diz Inocencio: «Pretendeu embocar a tuba épica, mas vê que esta empresa era muito superior ao
seu talento, e por isso nos dois ensaios que naquele género compôs, não conseguiu elevar-se jamais além da mediocridade. Ha
contudo, em um e outro, episódios que não deslustram a sua musa e que se podem ler com gosto». Das composições de Medina e
Vasconcelos, foi a Zargueida a que lhe deu maior renome e ainda hoje é de todas a mais conhecida. É um poema épico em oitava
rima, moldado nas formas clássicas da antiga epopeia. Divide-se em dez cantos e contém mais de cinco mil versos. Trata do
descobrimento da Madeira por João Gonçalves Zargo, aproveitando o apelido do descobridor para título do poema. Encerra uma
série de interessantes episódios com algumas felizes divagações poéticas, entre as quais avulta a lenda de Machim. É somente no
canto X que se faz a descrição do descobrimento desta ilha. Precede o poema um soneto dedicado a Bocage, a que este insigne poeta
responde com outro soneto, que é sem divida a mais bela composição que neste volume se encontra (1921).
Os períodos precedentes acerca de Gonçalves Zargo, que ficam textualmente transcritos da primeira edição desta obra, devem ser
cotejados com o que se acha exposto a paginas 354 e ss. do vol. I da I.a edição, como um mais amplo esclarecimento do assunto e
ainda, como rectificação a algumas afirmações que então foram feitas, especialmente as notas referentes á época precisa do
descobrimento e aos nomes dos que realizaram esse ocasional ou intencional empreendimento, (Vid. I-355). Outras novas
informações, que em seguida apresentamos, oferecem também particular interesse a esta matéria.
No artigo «Alguns Documentos do Mosteiro de Santa Clara do Funchal», publicado a páginas 171 e ss. do volume IV do Arquivo
Histórico da Madeira, pretende fixar-se a verdadeira «grafia» do apelido do capitão-donatario do Funchal, afirmando-se que deve
escrever-se Zargo e não Zarco, como em muitos lugares se acha ortografado. Insere um documento referente ao ano de 1447, em
que vem reproduzido e «fac-similado» aquele apelido com a forma ortográfica de Zargo. Uma pergunta ocorre naturalmente fazer:
–Nos vinte e dois anos que decorreram do começo do povoamento até o ano de 1447 teria João Gonçalves usado sempre o seu
apelido escrito com g e nunca com um c? Estas alterações em nomes, sobrenomes, apelidos e alcunhas não são actualmente raras e
mais frequentes eram ainda em épocas passadas. O documento citado indica uma presunção que não deve ser inteiramente
rejeitada, mas não estabelece uma afirmação incontestável de que não seja licito duvidar-se.
Convém observar que Gaspar Frutuoso, autor das Saudades da Terra, o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, seu ilustre comentador, e
a quase totalidade dos escritores que dela se tem ocupado empregaram a forma ortográfica de Zarco e não Zargo.
As conjecturas formuladas acerca do ano provável da morte de João Gonçalves Zargo ficaram inteiramente esclarecidas com os
elementos fornecidos pelo valioso escrito inserto no «Diario de Noticias» do Funchal, de 23 de Abril de 1927, da autoria do distinto
escritor João Cabral do Nascimento, em que indubitavelmente se prova que morreu no ano de 1467, o que constitui uma apreciável
informação para a historia madeirense.
No citado «Arquivo Histórico», referente ao ano de 1939, foi publicado um desenvolvido artigo acerca do «montante» de João
Gonçalves Zargo, de que acima se trata, procurando desfazer a opinião corrente dele haver pertencido a quem desde séculos se
atribui, o que não ficou provado de uma maneira incontestável. Como é sabido, esse «montante» foi adquirido pelo benemérito
industrial Henrique Hinton que o ofereceu ao museu Municipal do Funchal, onde se encontra depositado. A este assunto é de
particular interesse o artigo publicado no «Diário da Madeira», de 16 de Novembro de 1939, que deve ser consultado pelos leitores
que desejarem conhecer mais amplamente esta matéria.
A condigna homenagem a prestar à memória de João Gonçalves Zargo a que atrás se faz referência, teve a sua plena realização a 28
de Maio de 1934 com a solene inauguração da estátua erecta na Avenida Arriaga, como já ficou descrito a página 394 do volume II
deste Elucidário.
Zeólito
O zeólito sodico ou mesótipo tem sido achado no leito da Ribeira dos Socorridos e apresenta-se em cristais aciculares. É
um silicato hidratado.
Ziegler (J. M.)
Publicou oPhysical Map of the Island of Madeira (1856) que é considerado como uma das melhores cartas da
nossa ilha que têm aparecido até o presente.
Zimbreiro (Juniperus phoenicea)
Arbusto, raras vezes pequena árvore, de 1 a 5 metros, de tronco ordinariamente tortuoso;
folhas escamiformes, embricadas, quasi sempre aplicadas; galbulas subglobosas, fuscas depois de maduras. Esta Pinacea tem sido
achada na Rocha do Navio, em Santana, no Caminho de Larano (Porto da Cruz), etc.. No Porto Santo, onde foi outrora muito
comum, só existia em 1903 um único indivíduo nas vertentes do Pico Branco. Produz madeira branca ou dum branco amarelado,
muito menos aromática que a do cedro.
Os sítios dos Zimbreiros no Paul do Mar e no Caniço, e do Zimbral de Areia e Zimbralinha no Porto Santo, derivam provavelmente
os seus nomes de aí terem existido zimbreiros noutras épocas.
Zimmermann (Carlos)
Distinto naturalista suíço que se ocupou das diatomáceas madeirenses nos volumes VIII e IX daBroteria .
É membro da Companhia de Jesus e foi professor no extinto colégio de S. Fiel.
Zita (Ex-Imperatriz)
Chegou à Madeira, acompanhada do ex-imperador de Austria Carlos de Habsburgo, a 19 de Novembro de
1921, cerca das 10 horas e meia da manhã, no cruzador inglês Cardiff, tendo os dois esposos desembarcado na Pontinha e seguido
daí para a «Vila Vitoria», onde fixaram residência. Em Janeiro de 1922 saíu a ex-imperatriz da ilha para ir buscar seus filhos que se
achavam a educar na Suiça, regressando no dia 2 de Fevereiro, em companhia dos príncipes Francisco Oto, Adelaide Maria,
Roberto Carlos e Carlos Luís, e passando toda a família a residir na freguesia do Monte, na quinta do banqueiro Luís da Rocha
Machado, a partir do dia 18 do mesmo mês.
O ex-imperador Carlos faleceu na freguesia do Monte, a 1 de Abril de 1922, sendo o seu corpo depositado na igreja paroquial a 5 do
mesmo mês, tendo a ex-imperatriz por tal motivo resolvido deixar a ilha, donde efectivamente saiu a 19 de Maio do referido ano, no
transatlântico Infanta Isabel de Bourbon, que se dirigia para Cádis. Antes de deixar o Monte, orou a ex-imperatriz por largo tempo
junto do túmulo do seu esposo, havendo assistido também ás exéquias solenes, sufragando a alma do ex-imperador, que se
realizaram na Sé Catedral no dia 27 de Abril.
Zonas de Vegetação
No artigo Flora (II-34), deu-se uma breve notícia acerca das zonas ou regiões vegetais que se observam na
Madeira, como se verifica em todos os países montanhosos conforme as variadas condições do clima: Queremos chamar a atenção
de algum interessado leitor para as páginas da
Flora do Arquipélago da Madeira
(216-222) do distinto botânico Carlos de Azevedo
de Meneses, em que o assunto é tratado com mais largo desenvolvimento.